O AGENTE DA U.N.C.L.E. (The man from U.N.C.L.E., 2015, Warner Bros, 116min) Direção: Guy Ritchie. Roteiro: Guy Ritchie, Lionel Wigram, estória de Jeff Kleeman, David Campbell Scott, Guy Ritchie, Lionel Wigram, série de televisão de Sam Rolfe. Fotografia: John Mathieson. Montagem: James Herbert. Música: Daniel Pemberton. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Oliver Scholl/Eli Griff. Produção executiva: David Dobkin, Steven Mnuchin. Produção: Steve Clark-Hall, John Davis, Guy Ritchie, Lionel Wigram. Elenco: Armie Hammer, Henry Cavill, Alicia Vikander, Hugh Grant, Elizabeth Debicki, Sylvester Groth, Jared Harris. Estreia: 02/8/15 (Barcelona)
Quando finalmente a versão para o cinema da série televisiva "O agente da U.N.C.L.E." estreou nos EUA, no verão de 2015, já fazia mais de uma década que seu estúdio, a Warner, vinha tentando aprovar o projeto. Mesmo quando um nome quente como o de Steven Soderbergh esteve vinculado à produção, parecia que tudo colaborava para que o filme não saísse. A desistência de George Clooney, por exemplo (e sua quase substituição pelo bem mais jovem Channing Tatum), foi um dos fatores que afastaram o oscarizado diretor de assinar o contrato - assim como problemas relacionados ao orçamento (de cerca de 75 milhões de dólares) e à escalação de um elenco que funcionasse tanto comercial quanto artisticamente. A entrada de Guy Ritchie no time - um cineasta de personalidade, mas com facilidade em adaptar-se às circunstâncias exigidas pelo mercado - finalmente fez com que as coisas saíssem do lugar. Com o filme pronto (e com a assinatura visual de Ritchie em cada sequência), fica difícil imaginar como seria a visão de Soderbergh da trama - certamente mais cerebral e mais perto de "Onze homens e um segredo" -, mas é fato que, como ficou, "O agente da U.N.C.L.E." é uma divertidíssima e elegante comédia de ação, infelizmente não tão bem-sucedida quanto deveria.
Longe de ter sido um fiasco nas bilheterias, "O agente da U.N.C.L.E." tampouco chegou a ser o estouro que a Warner esperava - rendeu pouco mais de 100 milhões de dólares pelo mundo, decepcionando os executivos que sonhavam com uma nova franquia milionária. O erro, no entanto, está menos no filme - um perfeito exercício de entretenimento descompromissado - do que no fato de que a série, lançada em 1964, é bem menos popular, por exemplo, do que "Missão: impossível" (cujo "Nação secreta" também estreou em 2015, com mais sucesso), e no erro de cálculo de colocar o filme nos cinemas justamente em uma temporada recheada de outras produções que lidavam com espionagem e temas afins. Entre personagens já comprovadamente aceitos pelas plateias - "007 contra Spectre" - e filmes com ambições mais sérias - "O jogo da imitação" e "Sicário" -, o trabalho de Ritchie acabou comprimido entre tantas opções consideradas mais relevantes. Azar de quem perdeu: esteticamente caprichado (da fotografia de John Mathieson até a reconstituição de época criativa e não necessariamente realista), dotado de um ritmo e um senso de humor inteligente e com um elenco perfeitamente escalado, "O agente da U.N.C.L.E." é um produto que consegue aliar a personalidade marcante de seu diretor com as regras estabelecidas pelo cinemão comercial hollywoodiano. Casando com perfeição suas tendências iconoclastas com os clichês dos filmes de ação, Guy Ritchie consegue ser mais bem-sucedido até mesmo do que em seus maiores êxitos financeiros até então - os dois filmes "Sherlock Holmes", estrelados por Robert Downey Jr. e Jude Law.
A ideia de Ritchie de contar a história do começo da U.N.C.L.E. (United Network Command for Law and Enforcement), nunca retratada na série de televisão, é o primeiro acerto do roteiro. No programa da década de 60, agentes da CIA e da KGB já uniam esforços mesmo em plena Guerra Fria, mas nunca foi explicado como essa aliança tão inusitada se formou. A partir daí, Ritchie juntou-se ao coprodutor Lionel Wigram e, assumindo a responsabilidade de dar vida a uma trama que mesclasse a mitologia da série (afinal os fãs seriam parte do público-alvo) e momentos de ação e comédia, explorando o estilo do cineasta e a receita de boa parte dos filmes com ambição ao sucesso. Surgia, então, um intrincado enredo que colocava no mesmo balaio um agente norte-americano, um espião soviético, um cientista capaz de criar uma bomba atômica e sua bela e voluntariosa filha mecânica - claro que uma pitada de romance não poderia faltar, especialmente quando se tenta também atingir um público feminino que há muito não aceita mais ser representado na tela por donzelas desprotegidas. O agente americano, Napoleon Solo (Henry Cavill, o Superman de Zack Snyder em pessoa) é um ex-criminoso cooptado pela CIA para usar seus talentos para o bem da sociedade: ele é enviado à Alemanha Ocidental para encontrar Gaby Teller (Alicia Vikander, antes do Oscar por "A garota dinamarquesa" e em papel oferecido à Emily Blunt), a filha de um cientista com conhecimento suficiente para dar início à confecção de uma bomba nuclear. Segundo a agência, somente Gaby pode levá-los até seu pai, desaparecido mas provavelmente em contato com seu irmão, que vive na Itália. Para colaborar na operação, a KGB oferece os serviços de Illya Kuryakin (Armie Hammer), cuja personalidade volátil e imprevisível contrasta com os modos suaves de Solo. Juntos, os três irão deixar de lado suas diferenças e tentar impedir que o pior aconteça - e empresários ambiciosos consigam financiar uma guerra nuclear.
Com cenas de ação milimetricamente calculadas, piadas engraçadíssimas a respeito das diferenças culturais entre americanos e russos e um visual arrebatador, "O agente da U.N.C.L.E." é uma diversão das mais admiráveis. Mesmo que a trama por vezes escorregue em uma complexidade desnecessária (o que, aliás, deve ser proposital, como forma de homenagear os filmes de James Bond), é impossível desgostar do resultado final. A química entre Cavill e Hammer é irretocável, e Alicia Vikander oferece o charme e a sutileza que o filme precisa. Por ironia, Cavill fez teste para viver Kuryakin, mas dificilmente outro ator estaria mais à vontade como Napoleon Solo do que ele - e olha que muita gente foi considerada para o papel, desde Joseph Gordon-Levitt, Ryan Gosling e Chris Pine até os mais experientes Matt Damon, Michael Fassbender e Ewan McGregor. Já Armie Hammer, aplaudido pela crítica graças a trabalhos mais sérios, como "A rede social" (2010) e "J. Edgar" (2012), demonstra um precioso timing cômico, que abre ainda mais possibilidades em sua carreira abalada pelo tenebroso "O Cavaleiro Solitário" (2013). Juntos, os dois atores formam um par carismático e sedutor, algo como Butch Cassidy e Sundance Kid da Guerra Fria. Quanto à direção de Guy Ritchie, nada a reclamar. Tudo que ele tem de melhor está em cena - o humor, a edição ágil, o ritmo, o talento para direção de atores - e revestido com uma sofisticação nunca vista até então. Uma pena que nem todo mundo valorizou o produto final, que ainda há de ser descoberto como uma pequena pérola de sua época.
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quarta-feira
sábado
ROCK'N'ROLLA: A GRANDE ROUBADA
ROCK'N'ROLLA: A GRANDE ROUBADA (RocknRolla, 2008, Warner Bros/Dark Castle Entertainment, 114min) Direção e roteiro: Guy Ritchie. Fotografia: David Higgs. Montagem: James Herbert. Música: Steve Isles. Figurino: Suzie Harman. Direção de arte/cenários: Richard Bridgland/Debbie Moles. Produção executiva: Navid McIlhargey, Steve Richards. Produção: Steve Clark-Hall, Susan Downey, Guy Ritchie, Joel Silver. Elenco: Gerard Butler, Tom Wilkinson, Thandie Newton, Idris Elba, Tom Hardy, Mark Strong, Karel Roden, Tobby Kebbell, Ludacris, Jimi Mistry. Estreia: 04/9/98 (Festival de Toronto)
Um grupo de marginais pés-de-chinelo. Um mafioso que manda e desmanda no mercado imobiliário de Londres. Um roqueiro viciado em drogas que odeia o padrasto. Uma contadora sexy disposta a qualquer coisa para subir na vida. Um empresário russo com planos de construir um estádio na capital inglesa. Um capanga leal e dedicado. E uma dupla de empresários musicais tentando evitar o fechamento de suas casas noturnas. Com esses personagens falastrões, excêntricos e propensos a equilibrar o cérebro e as armas, o cineasta Guy Ritchie voltou às graças da crítica, depois do fracasso sucessivo de "Destino insólito", de 2002 (estrelado pela então esposa Madonna) e "Revólver", de 2005, que tentou arrancar uma atuação decente de Jason Statham. "Rock'n'Rolla: A grande roubada" não apenas lhe devolveu o prestígio perdido como lhe deu cacife suficiente para comandar uma nova versão de "Sherlock Holmes" (2009), com um orçamento milionário e grandes astros - Robert Downey Jr. e Jude Law - no elenco. Voltando a explorar o submundo criminoso londrino que lhe deu fama em seu filme de estreia, "Jogos, trapaças e dois canos fumegantes" (99), Ritchie atinge um equilíbrio admirável entre diversos gêneros (ação, policial, comédia) e confirma um estilo marcante de fazer cinema, influenciado pelo tom quase histérico de Quentin Tarantino mas dono de identidade própria.
Como é normal em sua filmografia, a trama de "Rock'n'Rolla" é complexa e com uma profusão de personagens que exige da plateia atenção absoluta: o centro do enredo é Lenny Cole (Tom Wilkinson), que fez fortuna intermediando negociações, muitas vezes de forma ilegal. Protetor de um grupo de bandidos intitulado Quadrilha Selvagem - liderada pelo carismático One Two (Gérard Butler) - e padrasto do roqueiro Johnny Quid (Toby Kebbell), Cole resolve ajudar o russo Uri Omovich (Karel Roden) a construir um estádio de futebol, utilizando, para isso, a influência de um vereador (Jimi Mistry) também chegado a uma propina. A partir daí, dois fatos independentes acabam por unir todos os personagens: o desaparecimento de um valioso quadro - emprestado por Uri à Cole e furtado por seu enteado - e o roubo dos sete milhões de euros destinados ao pagamento da construção do estádio. O roubo do dinheiro é responsabilidade de One Two e seus dois colegas mais fiéis - Mumbles (Idris Elba) e Bob (Tom Hardy) - e tem a cumplicidade da ambiciosa Stella (Thandie Newton), contadora e amante de Uri que acaba se deixando seduzir por One Two. Em volta de todas essas questões, existe também a dúvida dos integrantes da Quadrilha Selvagem a respeito de um informante que vem jogando seus integrantes na cadeia.
Recheando seu roteiro com diálogos espirituosos e situações surreais, Guy Ritchie oferece a seu público um desfile de sequências primorosas, editadas com inteligência e dotadas de um senso de humor admirável. A química entre Gérard Butler e Thandie Newton é explosiva, e a cena em que eles combinam seu segundo golpe em Uri é uma pérola de criatividade e tensão sexual. Tom Wilkinson mais uma vez demonstra porque é escolha certeira quando se trata de interpretar personagens arrogantes, e Tom Hardy rouba a cena na pele de um gângster homossexual apaixonado pelo melhor amigo e disposto a seduzir um advogado para descobrir quem lhe mandou para a cadeia - seu desempenho é tão incrível que foi a partir dele que Hardy cavou seu caminho em direção à glória do cinemão, sendo dirigido por Christopher Nolan em "A origem" (2010) e "Batman: O Cavaleiro das Trevas ressurge" (12). Dono de um humor singular, Ritchie não hesita em colocar na boca de seus personagens falas quase constrangedoras, mas que soam verossímeis e imprescindíveis ao desenvolvimento da complexa trama, que corre diante dos olhos do espectador com um ritmo alucinante e com um visual caprichado, que mostra sua evolução como cineasta. Brincando com os clichês do gênero ao mesmo tempo em que os reverencia, ele consegue resultado superior a outro de seus bem-sucedidos produtos, "Snatch: porcos e diamantes" (2001), estrelado por Brad Pitt e Benicio Del Toro.
"Rock'n'Rolla" é entretenimento de primeira, mas é bom que se avise que talvez sua trama exale testosterona demais para que seja apreciado pelo público feminino com o mesmo ardor do masculino. As piadas a um passo do preconceito, a grosseria incurável dos personagens e o excesso de palavrões podem afastar aos mais sensíveis, mas no fundo o filme de Guy Ritchie é uma grande brincadeira com os elementos do cinema policial - em especial dos anos 70. Extremamente à vontade como galã bagaceiro, Gérard Butler está em um de seus melhores desempenhos e sublinha com ironia e deboche todas as nuances da trama - que apesar da promessa da última cena, ainda não rendeu uma continuação. Infelizmente.
Um grupo de marginais pés-de-chinelo. Um mafioso que manda e desmanda no mercado imobiliário de Londres. Um roqueiro viciado em drogas que odeia o padrasto. Uma contadora sexy disposta a qualquer coisa para subir na vida. Um empresário russo com planos de construir um estádio na capital inglesa. Um capanga leal e dedicado. E uma dupla de empresários musicais tentando evitar o fechamento de suas casas noturnas. Com esses personagens falastrões, excêntricos e propensos a equilibrar o cérebro e as armas, o cineasta Guy Ritchie voltou às graças da crítica, depois do fracasso sucessivo de "Destino insólito", de 2002 (estrelado pela então esposa Madonna) e "Revólver", de 2005, que tentou arrancar uma atuação decente de Jason Statham. "Rock'n'Rolla: A grande roubada" não apenas lhe devolveu o prestígio perdido como lhe deu cacife suficiente para comandar uma nova versão de "Sherlock Holmes" (2009), com um orçamento milionário e grandes astros - Robert Downey Jr. e Jude Law - no elenco. Voltando a explorar o submundo criminoso londrino que lhe deu fama em seu filme de estreia, "Jogos, trapaças e dois canos fumegantes" (99), Ritchie atinge um equilíbrio admirável entre diversos gêneros (ação, policial, comédia) e confirma um estilo marcante de fazer cinema, influenciado pelo tom quase histérico de Quentin Tarantino mas dono de identidade própria.
Como é normal em sua filmografia, a trama de "Rock'n'Rolla" é complexa e com uma profusão de personagens que exige da plateia atenção absoluta: o centro do enredo é Lenny Cole (Tom Wilkinson), que fez fortuna intermediando negociações, muitas vezes de forma ilegal. Protetor de um grupo de bandidos intitulado Quadrilha Selvagem - liderada pelo carismático One Two (Gérard Butler) - e padrasto do roqueiro Johnny Quid (Toby Kebbell), Cole resolve ajudar o russo Uri Omovich (Karel Roden) a construir um estádio de futebol, utilizando, para isso, a influência de um vereador (Jimi Mistry) também chegado a uma propina. A partir daí, dois fatos independentes acabam por unir todos os personagens: o desaparecimento de um valioso quadro - emprestado por Uri à Cole e furtado por seu enteado - e o roubo dos sete milhões de euros destinados ao pagamento da construção do estádio. O roubo do dinheiro é responsabilidade de One Two e seus dois colegas mais fiéis - Mumbles (Idris Elba) e Bob (Tom Hardy) - e tem a cumplicidade da ambiciosa Stella (Thandie Newton), contadora e amante de Uri que acaba se deixando seduzir por One Two. Em volta de todas essas questões, existe também a dúvida dos integrantes da Quadrilha Selvagem a respeito de um informante que vem jogando seus integrantes na cadeia.
Recheando seu roteiro com diálogos espirituosos e situações surreais, Guy Ritchie oferece a seu público um desfile de sequências primorosas, editadas com inteligência e dotadas de um senso de humor admirável. A química entre Gérard Butler e Thandie Newton é explosiva, e a cena em que eles combinam seu segundo golpe em Uri é uma pérola de criatividade e tensão sexual. Tom Wilkinson mais uma vez demonstra porque é escolha certeira quando se trata de interpretar personagens arrogantes, e Tom Hardy rouba a cena na pele de um gângster homossexual apaixonado pelo melhor amigo e disposto a seduzir um advogado para descobrir quem lhe mandou para a cadeia - seu desempenho é tão incrível que foi a partir dele que Hardy cavou seu caminho em direção à glória do cinemão, sendo dirigido por Christopher Nolan em "A origem" (2010) e "Batman: O Cavaleiro das Trevas ressurge" (12). Dono de um humor singular, Ritchie não hesita em colocar na boca de seus personagens falas quase constrangedoras, mas que soam verossímeis e imprescindíveis ao desenvolvimento da complexa trama, que corre diante dos olhos do espectador com um ritmo alucinante e com um visual caprichado, que mostra sua evolução como cineasta. Brincando com os clichês do gênero ao mesmo tempo em que os reverencia, ele consegue resultado superior a outro de seus bem-sucedidos produtos, "Snatch: porcos e diamantes" (2001), estrelado por Brad Pitt e Benicio Del Toro.
"Rock'n'Rolla" é entretenimento de primeira, mas é bom que se avise que talvez sua trama exale testosterona demais para que seja apreciado pelo público feminino com o mesmo ardor do masculino. As piadas a um passo do preconceito, a grosseria incurável dos personagens e o excesso de palavrões podem afastar aos mais sensíveis, mas no fundo o filme de Guy Ritchie é uma grande brincadeira com os elementos do cinema policial - em especial dos anos 70. Extremamente à vontade como galã bagaceiro, Gérard Butler está em um de seus melhores desempenhos e sublinha com ironia e deboche todas as nuances da trama - que apesar da promessa da última cena, ainda não rendeu uma continuação. Infelizmente.
sexta-feira
SNATCH - PORCOS E DIAMANTES
SNATCH
- PORCOS E DIAMANTES (Snatch., 2000, Columbia Pictures Corporation,
104min) Direção e roteiro: Guy Ritchie. Fotografia: Tim Maurice-Jones.
Montagem: Jon Harris. Música: John Murphy. Figurino: Verity Hawkes.
Direção de arte/cenários: Hugo Luczyc-Whyhowski. Produção executiva:
Stephen Marks, Peter Morton, Angad Paul, Trudie Styler, Steve Tisch.
Produção: Matthew Vaughn. Elenco: Benicio Del Toro, Brad Pitt, Dennis
Farina, Jason Statham, Vinnie Jones, Rade Serbedzija, Alan Ford, Jason
Flemyng, Ewen Bremner, Stephen Graham. Estreia: 23/8/00
À primeira vista, "Snatch - porcos e diamantes", segundo filme do cineasta inglês Guy Ritchie, parece uma espécie de continuação de seu primeiro trabalho, o incensado "Jogos, trapaças e dois canos fumegantes": gângsteres trapalhões, edição acelerada, um roteiro recheado de diálogos sarcásticos e politicamente incorretos e uma variedade insana de subtramas que se atropelam quase ao ponto da incompreensibilidade. Mas não é apenas a inclusão de nomes consagrados internacionalmente como Brad Pitt e Benicio Del Toro no elenco - ao lado dos colaboradores habituais do diretor - que faz dele mais do que isso. Mais experiente e confiante do que em sua estreia, Ritchie manteve todas as qualidades que fizeram dele um dos cineastas mais festejados de sua época e expandiu-as em uma comédia policial quase histérica que mistura humor e violência na medida exata.
Difícil de resumir - assim como acontecia com "Jogos, trapaças" - a trama de "Snatch" é uma miscelânea de histórias paralelas que convergem para um único (a absurdamente climático) desfecho. Jason Statham - um dos atores preferidos de Ritchie, antes de tornar-se astro do cinema de ação - interpreta Turkish, um gângster barato que, ao lado do eterno comparsa Tommy, se envolve no mundo das lutas de boxe comandadas pelo perigoso Brick Top (Alan Ford), que não hesita em comprar resultados para enriquecer ilicitamente. Tentando convencer o cigano Mickey O'Neill (Brad Pitt) a juntar-se a eles em seus esquemas fraudulentos, Turkish acaba no caminho de um grupo de ladrões de diamantes, comandado pelo misterioso Franky "Quatro dedos" (Benicio Del Toro), que, de posse de uma pedra gigantesca de 84 quilates, tenta vendê-la ao ambicioso Primo Avi (Dennis Farina) - até que ela é roubada por um bando de larápios pés-de-chinelo a mando do mafioso russo Boris "The Blade" (Rade Serbedzija). Aos poucos, todos cruzarão uns com os outros, com consequências inesperadas e surreais.
Guy Ritchie - dono de um senso de humor particular e por vezes nos limites do bom-gosto - usa e abusa de recursos estilísticos para sublinhar o tom quase de história em quadrinhos de seu filme, o que ajuda a amenizar a crueldade de algumas sequências (ainda que todas as mortes da trama aconteçam fora de cena). Editado com uma velocidade que deixa o espectador tonto de tanta informação, "Snatch" faz rir graças principalmente ao excesso de acontecimentos bizarros que toma conta da narrativa desde suas primeiras cenas - com direito a um assalto durante uma explicação sobre a tradução da Bíblia, bem ao estilo Quentin Tarantino - e às referências de cultura contemporânea - até mesmo a então esposa do diretor, Madonna, é citada indiretamente, com uma canção tocando no rádio de um carro - mas é inegável que boa parte da graça do filme reside na escalação certeira de Brad Pitt como o cigano boxeador de dicção ininteligível Mickey One Punch.
Dotado de um timing cômico impecável, Pitt - que telefonou para Ritchie se oferecendo para trabalhar com ele depois de uma sessão de "Jogos, trapaças" - rouba cada cena em que aparece como o truculento e esperto lutador que se vinga da morte da mãe passando a perna nos "empresários" do mundo do boxe: deixando de lado qualquer traço de vaidade (apesar do corpo sarado), ele mostra mais uma vez que, por debaixo do galã cobiçado existe um ator disposto a arriscar-se por um bom papel. Suas cenas são, invariavelmente, as mais divertidas do filme, diluindo as cores um tanto quanto machistas e misóginas do roteiro (as mulheres, quando aparecem, não são exatamente em papéis de respeito, servindo apenas como apoio quase figurativo). Esperto e engraçado, "Snatch" é um belo segundo filme, mas que acabou esgotando o estilo de Ritchie, que nunca mais acertou - exceto em projetos de encomenda, como a versão de "Sherlock Holmes" estrelada por Robert Downey Jr. em 2009 e sua continuação. Mesmo assim, fica claro em seus dois primeiros trabalhos, sua energia, criatividade e segurança em contar uma história, por mais complexa que ela seja.
À primeira vista, "Snatch - porcos e diamantes", segundo filme do cineasta inglês Guy Ritchie, parece uma espécie de continuação de seu primeiro trabalho, o incensado "Jogos, trapaças e dois canos fumegantes": gângsteres trapalhões, edição acelerada, um roteiro recheado de diálogos sarcásticos e politicamente incorretos e uma variedade insana de subtramas que se atropelam quase ao ponto da incompreensibilidade. Mas não é apenas a inclusão de nomes consagrados internacionalmente como Brad Pitt e Benicio Del Toro no elenco - ao lado dos colaboradores habituais do diretor - que faz dele mais do que isso. Mais experiente e confiante do que em sua estreia, Ritchie manteve todas as qualidades que fizeram dele um dos cineastas mais festejados de sua época e expandiu-as em uma comédia policial quase histérica que mistura humor e violência na medida exata.
Difícil de resumir - assim como acontecia com "Jogos, trapaças" - a trama de "Snatch" é uma miscelânea de histórias paralelas que convergem para um único (a absurdamente climático) desfecho. Jason Statham - um dos atores preferidos de Ritchie, antes de tornar-se astro do cinema de ação - interpreta Turkish, um gângster barato que, ao lado do eterno comparsa Tommy, se envolve no mundo das lutas de boxe comandadas pelo perigoso Brick Top (Alan Ford), que não hesita em comprar resultados para enriquecer ilicitamente. Tentando convencer o cigano Mickey O'Neill (Brad Pitt) a juntar-se a eles em seus esquemas fraudulentos, Turkish acaba no caminho de um grupo de ladrões de diamantes, comandado pelo misterioso Franky "Quatro dedos" (Benicio Del Toro), que, de posse de uma pedra gigantesca de 84 quilates, tenta vendê-la ao ambicioso Primo Avi (Dennis Farina) - até que ela é roubada por um bando de larápios pés-de-chinelo a mando do mafioso russo Boris "The Blade" (Rade Serbedzija). Aos poucos, todos cruzarão uns com os outros, com consequências inesperadas e surreais.
Guy Ritchie - dono de um senso de humor particular e por vezes nos limites do bom-gosto - usa e abusa de recursos estilísticos para sublinhar o tom quase de história em quadrinhos de seu filme, o que ajuda a amenizar a crueldade de algumas sequências (ainda que todas as mortes da trama aconteçam fora de cena). Editado com uma velocidade que deixa o espectador tonto de tanta informação, "Snatch" faz rir graças principalmente ao excesso de acontecimentos bizarros que toma conta da narrativa desde suas primeiras cenas - com direito a um assalto durante uma explicação sobre a tradução da Bíblia, bem ao estilo Quentin Tarantino - e às referências de cultura contemporânea - até mesmo a então esposa do diretor, Madonna, é citada indiretamente, com uma canção tocando no rádio de um carro - mas é inegável que boa parte da graça do filme reside na escalação certeira de Brad Pitt como o cigano boxeador de dicção ininteligível Mickey One Punch.
Dotado de um timing cômico impecável, Pitt - que telefonou para Ritchie se oferecendo para trabalhar com ele depois de uma sessão de "Jogos, trapaças" - rouba cada cena em que aparece como o truculento e esperto lutador que se vinga da morte da mãe passando a perna nos "empresários" do mundo do boxe: deixando de lado qualquer traço de vaidade (apesar do corpo sarado), ele mostra mais uma vez que, por debaixo do galã cobiçado existe um ator disposto a arriscar-se por um bom papel. Suas cenas são, invariavelmente, as mais divertidas do filme, diluindo as cores um tanto quanto machistas e misóginas do roteiro (as mulheres, quando aparecem, não são exatamente em papéis de respeito, servindo apenas como apoio quase figurativo). Esperto e engraçado, "Snatch" é um belo segundo filme, mas que acabou esgotando o estilo de Ritchie, que nunca mais acertou - exceto em projetos de encomenda, como a versão de "Sherlock Holmes" estrelada por Robert Downey Jr. em 2009 e sua continuação. Mesmo assim, fica claro em seus dois primeiros trabalhos, sua energia, criatividade e segurança em contar uma história, por mais complexa que ela seja.
terça-feira
JOGOS, TRAPAÇAS E DOIS CANOS FUMEGANTES
JOGOS,
TRAPAÇAS E DOIS CANOS FUMEGANTES (Lock, stock and two smoking barrels,
1998, Summit Entertainment, 107min) Direção e roteiro: Guy Ritchie.
Fotografia: Tom Maurice-Jones. Montagem: Niven Howie. Música: David A.
Hughes, John Murphy. Figurino: Stephanie Collie. Direção de
arte/cenários: Iain Andrews, Eve Mavrakis/Jacalyn Haiman. Produção
executiva: Stephen Marks, Peter Morton, Angad Paul, Trudie Styler,
Steven Tisch. Produção: Matthew Vaughn. Elenco: Jason Flemyng, Dexter
Fletcher, Nick Moran, Jason Statham, Steven Mackintosh, Nicholas Rowe,
Vinnie Jones, Sting. Estreia: 28/8/98
Se em 1993 Hollywood viu nascer um novo estilo de fazer cinema nas mãos de Quentin Tarantino, a Inglaterra também não ficou atrás no final da década, quando o jovem Guy Ritchie (então com meros 30 anos) lançou seu "Jogos, trapaças e dois canos fumegantes", um policial estiloso, bem-humorado e repleto de sacadas visuais que sacudiu o tradicional cinema britânico com um sopro de modernidade e sarcasmo. Visualmente excitante, com um roteiro vibrante e ágil e um elenco de atores desconhecidos que se tornariam famosos no decorrer dos anos, como Jason Statham e Jason Flemyng, o filme de Ritchie acabou se tornando um enorme sucesso mundial justamente por quebrar regras narrativas e introduzir em um gênero historicamente sério uma injeção de sarcasmo e ironia que o revigorou aos olhos de uma plateia sedenta por novidades.
Dotado de uma complexa estrutura de personagens e situações aparentemente independentes, "Jogos, trapaças e dois canos fumegantes" exige do espectador uma atenção redobrada, sob pena de perder as várias nuances e detalhes que desfilam pela tela na bela fotografia amarelada de Tom Maurice-Jones. Tudo começa quando o jovem Eddy (Nick Moran) resolve apostar 25 mil libras em um jogo ilegal contra um dos mais perigosos bandidos do submundo londrino, o famoso Hatchet Harry. Depois de arrecadar o dinheiro junto com seus amigos - Soap (Dexter Fletcher), Tom (Jason Flemyng) e Bacon (Jason Statham), todos pobres e dependentes de uma vitória no jogo - ele acaba caindo em uma armadilha do criminoso e sai da mesa de jogos devendo o dobro da aposta, dando como garantia do pagamento (em cinco dias) o bar de seu pai, JD (o cantor Sting, marido da produtora Trudie Styler) e a possibilidade de perder os dedos das mãos. Pensando em como obter dinheiro em tão pouco tempo, Eddy e seus companheiros de dívida tem a ideia pouco brilhante de envolver-se em um esquema de roubar a maconha que seus vizinhos de porta pretendem subtrair de um grupo de jovens que cultivam a droga ilicitamente. Logicamente as coisas não acontecem conforme o esperado, e eles são obrigados a lidar com uma sucessão de incidentes violentos e bizarros que incluem, entre outras coisas, duas pistolas antigas que valem milhões, e Big Chris (Vinnie Jones), um capanga que tem o costume de levar o filho pequeno a tiracolo para todas as suas missões.
Realizado em um tom quase histérico que mal dá tempo ao espectador para respirar, "Jogos, trapaças e dois canos fumegantes" banha de sarcasmo uma trama que, sem o molho do humor, cairia inevitavelmente na violência pura e simples do gênero. Dominando por completo a história que tem em mãos, Guy Ritchie - que depois chegaria a Hollywood, se casaria com Madonna e sofreria alguns reveses na carreira até voltar a acertar com a franquia "Sherlock Holmes", estrelada por Robert Downey Jr. e Jude Law - deita e rola na direção do filme, o dotando de um ritmo acertadamente veloz que disfarça o fato de o roteiro muitas vezes ser mais confuso do que deveria ser. Em diversas ocasiões, o espectador perde tempo demais tentando entender as relações entre os personagens, em vez de acompanhar a história, o que, de certa forma, trai a preferência do cineasta pelo visual em detrimento do conteúdo. Esse pecadilho ele corrigiria em seu trabalho seguinte, "Snatch, porcos e diamantes", feito com dinheiro e astros de Hollywood (Brad Pitt, Benicio Del Toro) e que conseguiu equilibrar com mais sucesso os ingredientes apimentados que descobriu em seu primeiro filme. Mesmo dando um nó na cabeça do espectador, "Jogos, trapaças e dois canos fumegantes" ainda é um extraordinário filme de estreia.
Se em 1993 Hollywood viu nascer um novo estilo de fazer cinema nas mãos de Quentin Tarantino, a Inglaterra também não ficou atrás no final da década, quando o jovem Guy Ritchie (então com meros 30 anos) lançou seu "Jogos, trapaças e dois canos fumegantes", um policial estiloso, bem-humorado e repleto de sacadas visuais que sacudiu o tradicional cinema britânico com um sopro de modernidade e sarcasmo. Visualmente excitante, com um roteiro vibrante e ágil e um elenco de atores desconhecidos que se tornariam famosos no decorrer dos anos, como Jason Statham e Jason Flemyng, o filme de Ritchie acabou se tornando um enorme sucesso mundial justamente por quebrar regras narrativas e introduzir em um gênero historicamente sério uma injeção de sarcasmo e ironia que o revigorou aos olhos de uma plateia sedenta por novidades.
Dotado de uma complexa estrutura de personagens e situações aparentemente independentes, "Jogos, trapaças e dois canos fumegantes" exige do espectador uma atenção redobrada, sob pena de perder as várias nuances e detalhes que desfilam pela tela na bela fotografia amarelada de Tom Maurice-Jones. Tudo começa quando o jovem Eddy (Nick Moran) resolve apostar 25 mil libras em um jogo ilegal contra um dos mais perigosos bandidos do submundo londrino, o famoso Hatchet Harry. Depois de arrecadar o dinheiro junto com seus amigos - Soap (Dexter Fletcher), Tom (Jason Flemyng) e Bacon (Jason Statham), todos pobres e dependentes de uma vitória no jogo - ele acaba caindo em uma armadilha do criminoso e sai da mesa de jogos devendo o dobro da aposta, dando como garantia do pagamento (em cinco dias) o bar de seu pai, JD (o cantor Sting, marido da produtora Trudie Styler) e a possibilidade de perder os dedos das mãos. Pensando em como obter dinheiro em tão pouco tempo, Eddy e seus companheiros de dívida tem a ideia pouco brilhante de envolver-se em um esquema de roubar a maconha que seus vizinhos de porta pretendem subtrair de um grupo de jovens que cultivam a droga ilicitamente. Logicamente as coisas não acontecem conforme o esperado, e eles são obrigados a lidar com uma sucessão de incidentes violentos e bizarros que incluem, entre outras coisas, duas pistolas antigas que valem milhões, e Big Chris (Vinnie Jones), um capanga que tem o costume de levar o filho pequeno a tiracolo para todas as suas missões.
Realizado em um tom quase histérico que mal dá tempo ao espectador para respirar, "Jogos, trapaças e dois canos fumegantes" banha de sarcasmo uma trama que, sem o molho do humor, cairia inevitavelmente na violência pura e simples do gênero. Dominando por completo a história que tem em mãos, Guy Ritchie - que depois chegaria a Hollywood, se casaria com Madonna e sofreria alguns reveses na carreira até voltar a acertar com a franquia "Sherlock Holmes", estrelada por Robert Downey Jr. e Jude Law - deita e rola na direção do filme, o dotando de um ritmo acertadamente veloz que disfarça o fato de o roteiro muitas vezes ser mais confuso do que deveria ser. Em diversas ocasiões, o espectador perde tempo demais tentando entender as relações entre os personagens, em vez de acompanhar a história, o que, de certa forma, trai a preferência do cineasta pelo visual em detrimento do conteúdo. Esse pecadilho ele corrigiria em seu trabalho seguinte, "Snatch, porcos e diamantes", feito com dinheiro e astros de Hollywood (Brad Pitt, Benicio Del Toro) e que conseguiu equilibrar com mais sucesso os ingredientes apimentados que descobriu em seu primeiro filme. Mesmo dando um nó na cabeça do espectador, "Jogos, trapaças e dois canos fumegantes" ainda é um extraordinário filme de estreia.
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