Mostrando postagens com marcador KIRSTEN DUNST. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador KIRSTEN DUNST. Mostrar todas as postagens

sexta-feira

ATAQUE DOS CÃES


ATAQUE DOS CÃES (The power of the dog, 2021, Netflix/BBC Films, 126min) Direção: Jane Campion. Roteiro: Jane Campion, romance de Thomas Savage. Fotografia: Ari Wegner. Montagem: Peter Sciberras. Música: Jonny Greenwood. Figurino: Kirsty Cameron. Direção de arte/cenários: Grant Major/Amber Richards. Produção executiva: Rose Garnett, Simon Gillis, John Woodward. Produção: Jane Campion, Iain Canning, Roger Frappier, Tanya Seghatchian, Emile Sherman. Elenco: Benedict Cumberbatch, Kirsten Dunst, Jesse Plemmons, Kodi Smith-McPhee. Estreia: 02/9/2021 (Festival de Veneza)

12 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Direção (Jane Campion), Ator (Benedict Cumberbatch), Ator Coadjuvante (Jesse Plemons/Kodi Smith-McPhee), Atriz Coadjuvante (Kirsten Dunst), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Direção de Arte/Cenários, Som

Vencedor do Oscar de Direção (Jane Campion)

Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Direção (Jane Campion), Ator Coadjuvante (Kodi Smith-McPhee)

Quem conhece o cinema da neozelandesa Jane Campion sabe que o que lhe interessa é o turbilhão interno de seus personagens. Mesmo quando o sexo está ameaçando romper o verniz de civilidade que revestem seus protagonistas é o que se passa além de seus desejos carnais que chama a sua atenção. Foi assim, por exemplo, com a pianista muda que redescobre o prazer e o amor no mais inesperado momento, no premiado "O piano" (1993) e com a dama da sociedade que se vê alvo de uma armadilha engendrada por seu marido e sua melhor amiga, em "Retrato de uma mulher" (1996). E é assim também em "Ataque dos cães", que estreou no Festival de Veneza de 2021 e imediatamente despertou comentários entusiasmados que o levaram a merecidas doze indicações ao Oscar: a despeito de parecer, a princípio, apenas uma desconstrução dos cânones do western, a história da relação doentia/intrigante/imprevisível entre dois irmãos e a mulher que surge entre eles é um estudo sombrio sobre ciúme, vingança e intolerância, contado com o estilo quase contemplativo de Campion - desta vez centrando sua trama em um protagonista masculino.

Afastada do cinema desde "O brilho de uma paixão" (2009) - como diretora esteve envolvida apenas com a minissérie "Top of the lake", entre 2013 e 2017 -, Jane Campion voltou à cena no auge de sua força narrativa. Explorando o romance de Thomas Savage como ponto de partida, a cineasta/roteirista nada contra a corrente do cinema de fácil digestão ao criar uma teia de sentimentos escondidos, sensações recalcadas e meias-verdades que vão se avolumando até o final - um clímax poderoso, mas de uma sutileza tal que deixa no espectador a dúvida sobre seus reais desdobramentos. O roteiro de Campion é repleto de silêncios avassaladores, sublinhados pela bela trilha sonora de Jonny Greenwood e, enfeitado pelas deslumbrantes paisagens da Nova Zelândia (fazendo as vezes do estado de Montana, cenário da trama), conduz o público a um labirinto de intenções escusas e atrações dúbias: seus personagens não são unidimensionais, seus desejos quase nunca se revelam facilmente e muitas das aparências enganam - essa é "a força do Cão" do título original, a capacidade que o demônio tem de disfarçar sua real face até que seja tarde demais. O teor fatalista do enredo - que pode até soar como uma tragédia grega - encontra na direção suave de Campion (premiada com uma estatueta da Academia) a tradução ideal: mesmo que imprima um ritmo bem mais lento do que a média do cinema contemporâneo, a realizadora acerta em cheio em não apressar o desenvolvimento de seus personagens e de suas ações, oferecendo a eles (e a seus intérpretes fabulosos) espaço suficiente para que jamais pareçam gratuitos ou incoerentes.

 

O personagem principal do filme é Phil Burbank (Benedict Cumberbatch em mais um desempenho memorável): fazendeiro bruto, quase irascível e pouco dado a sutilezas, ele desperta a antipatia imediata da independente Rose (Kirsten Dunst), proprietária de um restaurante de beira de estrada, ao implicar com os modos delicados e sensíveis de seu filho único, Peter (o ótimo Kodi Smith-McPhee). A relação pouco amistosa entre eles não impede, porém, que Rose aceite o pedido de casamento de George (Jesse Plemons), irmão de Phil, e se mude com ele para a fazenda que ambos dividem. A aparente falta de educação de Phil contrasta radicalmente com a delicadeza de Rose e Peter - e logo um clima de constante tensão se instala na propriedade. A dinâmica entre o quarteto só começa a mudar quando Phil inicia uma aproximação com Peter - um caminho sem volta que leva a uma tragédia inesperada, com raízes ocultas em um passado infeliz e (mal) enterrado.

O elenco escolhido por Campion é abismal - não por acaso seus quatro atores centrais chegaram a indicações da Academia. Mesmo sem precisar de longos diálogos, todos eles são capazes de expressar uma vasta gama de emoções - seus olhos, seus gestos e seus silêncios transmitem toda a angústia que circunda a existência de seus personagens. Kirsten Dunst surge como a peça inicialmente frágil em uma disputa de poder e testosterona que só pode acabar mal, mas são Benedict Cumberbatch e Kodi Smith-McPhee que roubam a cena. Seus embates são fascinantes e carregados de uma tensão cujo tamanho vai crescendo até o ponto de explodir - uma explosão que, inteligente e sutil, Campion impede que contradiga o tom delicado do filme até então. Pode até decepcionar a quem espera algo mais radical, mas não trai a essência tanto da produção em si quanto da filmografia de sua criadora. "Ataque dos cães" é um filme para poucos - como o são todos os filmes anteriores de Jane Campion - que recebeu um merecido Oscar por seu meticuloso trabalho. Mas é, também, uma pérola, que se sobressai diante da mesmice de boa parte do cinema contemporâneo hollywoodiano - e uma senhora bola dentro da Netflix, cada vez mais se firmando como espaço para grandes diretores (como Martin Scorsese, Alfonso Cuarón e David Fincher) que buscam liberdade artística.

quinta-feira

A FOGUEIRA DAS VAIDADES

 


A FOGUEIRA DAS VAIDADES (The bonfire of the vanities, 1990, Warner Bros, 125min) Direção: Brian DePalma. Roteiro: Michael Cristofer, romance de Tom Wolfe. Fotografia: Vilmos Zsigmond. Montagem: Bill Pankow, David Ray. Música: Dave Grusin. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Richard Sylbert/Joe Mitchell, Justin Scoppa. Produção executiva: Peter Guber, Christine Peters, Jon Peters. Produção: Brian DePalma. Elenco: Tom Hanks, Bruce Willis, Melanie Griffith, Morgan Freeman, Kim Catrall, Saul Rubinek, John Hancock, Rita Wilson, Kirsten Dunst. Estreia: 21/12/90

Sherman McCoy é um bem-sucedido magnata de Wall Street, bem casado e em franca ascensão profissional e financeira. Peter Fallow é um jornalista quase decadente, quase alcóolatra e quase em vias de abandonar a carreira. Uma noite, depois de um encontro, McCoy vê a amante atropelar um jovem negro em um bairro barra-pesada de Nova York e a incentiva a fugir do local, certo de que jamais serão descobertos. Por acaso, Fallow descobre a identidade do dono do veículo e, com a atenção da imprensa, não hesita em divulgá-lo e contar sua história. Exposto na mídia, McCoy se vê perdendo a a família, o respeito, a posição social e até mesmo a liberdade: bode expiatório de uma série de interesses políticos e advogados corruptos, ele se vê diante da ambição de gente como o demagogo reverendo de uma comunidade negra e um promotor público com ambições pouco louváveis. Enquanto sua descida é cada vez mais veloz, o caminho de Fallow rumo ao topo parece inevitável - e ele parece bastante disposto a pagar o preço do sucesso.

As expectativas a respeito da adaptação cinematográficas do best-seller "A fogueira das vaidades" - primeiro livro de ficção de Tom Wolfe - eram altas. Aplaudido pela imprensa e presença constante nas listas dos mais vendidos por meses, o romance de Wolfe - uma obra repleta de ironia e sarcasmo, sem herois e recheado de personagens dúbios e pouco agradáveis - soava como um desafio a quem quer que assumisse a responsabilidade de levá-lo às telas sem perder sua essência amoral. No entanto, desde sua gênese tudo apontava para um potencial desastre, justamente por seu tom pouco disposto a corroborar  a ideia do american way of life. Entre seguir a trama à risca - apostando na capacidade das plateias de abraçar ousadias temáticas e narrativas - e desfigurar a obra original como forma de alcançar uma bilheteria expressiva, a Warner Bros acabou por decidir-se pela segunda opção - o que resultou em críticas violentas e uma resposta ensurdecedora por parte do público: com pouco mais de 15 milhões de dólares de arrecadação mundial (contra um orçamento estimado em 47 milhões), a obra dirigida por Brian De Palma entrou para a história como um dos maiores fracassos de Hollywood, além de ser considerado um dos piores filmes das carreiras de todos os envolvidos - um grupo que conta com nomes poderosos da indústria, como Tom Hanks e Bruce Willis.

 


Antes de iniciar o processo de tornar-se um dos intérpretes mais respeitados de sua geração - com dois Oscar consecutivos de melhor ator -, Tom Hanks foi uma escolha inusitada e corajosa para viver o protagonista, Sherman McCoy, um bem-sucedido magnata de Wall Street, e só entrou em cena depois que Mike Nichols abandonou o barco e, com ele, levou Steve Martin, cujo perfil combinava bem mais com o personagem - antes ainda de Hanks outros nomes importantes chegaram a ser cotados, como Jon Voigt, Kevin Costner, Christopher Reeve e até John Lithgow (o preferido do diretor Brian De Palma) e Chevy Chase (que teria sido a escolha do próprio Tom Wolfe). A entrada de Hanks - assim como a de outros nomes chave do projeto, cortesia do então produtor Peter Guber  - acabou sendo um fator decisivo para o rumo da produção em direção a uma atmosfera bastante distinta do livro original, enfatizada pelo roteiro de Michael Cristofer (outro contratado por Guber): com sua aura de bom moço, Hanks suavizava a personalidade arrogante e amoral de McCoy e de certo modo equilibrava o cinismo do jornalista Peter Fallow, o segundo personagem central da trama - inglês no romance (assim como John  Cleese, que recusou o papel) e americano no cinema (o que não foi o suficiente para convencer Jack Nicholson a entrar no jogo). Em mais uma cartada para chamar a atenção do público, o estúdio ousou novamente e chamou Bruce Willis (em alta pelo sucesso de "Duro de matar", de 1988, mas sem maiores êxitos fora do cinema de ação). A surpreendente dupla formada por Hanks e Willis (mais o tititi em torno do livro de Wolfe) já seria o bastante para garantir notas de jornais, mas as esperadas filas nos cinemas ficaram apenas na vontade: o fiasco de bilheteria e as críticas impiedosas (cinco indicações ao Framboesa de Ouro, incluindo pior filme, atriz, roteiro e diretor) mostraram que nem grandes cineastas e atores de prestígio são imunes a erros gigantescos. Mas afinal de contas, passadas décadas de sua estreia, fica a pergunta crucial: "A fogueira das vaidades" é assim tão ruim?

Apesar de algumas ideias visuais interessantes - o plano-sequência de abertura, a fotografia pouco convencional - e do esforço de Brian De Palma em traduzir o tom artificial do romance através de atuações não naturalistas do elenco (que beira a histeria), o resultado final é decididamente frustrante. O roteiro de Michael Cristofer jamais consegue seduzir o público - talvez pela falta de um personagem com quem haja qualquer identificação, talvez por sua indecisão entre o drama e a comédia - e a escalação do elenco é flagrante ao menos exigente espectador. Tom Hanks é um ator excelente (como seria provado poucos anos depois), mas não acerta o tom de seu Sherman McCoy - não à toa o próprio ator o considera seu pior filme. Bruce Willis tem pouco a fazer com seu Peter Fallow - e quando o faz parece repetir os mesmos trejeitos de um de seus mais famosos personagens até então, na série de TV "A gata e o rato". E Melanie Griffith - escolha de De Palma, com quem havia trabalhado em "Dublê de corpo" (1984) - até tenta ser mais do que apenas uma mulher sensual, mas não alcança todas as nuances que lhe são exigidas - qualquer uma atriz considerada para o papel (Uma Thurman, Robin Wright, Kyra Sedwick) provavelmente teria se saído melhor. Juntos (ao lado de Morgan Freeman e F. Murray Abraham, também subaproveitados), eles parecem perdidos em cena, soterrados pelos artifícios técnicos do diretor e por suas tentativas infrutíferas de imprimir o tom de farsa da trama de Wolfe - deliciosa no papel, bastante problemática na tela.

Uma comédia farsesca que não atinge nem perto de seu potencial crítico, "A fogueira das vaidades" sofreu também com o erro primário de não ser direcionado para uma plateia mais sofisticada - os leitores da obra original - e tentar atingir um público médio que, via de regra, rejeita produções com conceitos menos maniqueístas. Ao deformar o romance de Wolfe para que coubesse em suas ambições comerciais, a Warner acabou com o que de havia de melhor no livro (a perspicaz leitura das ironias da sociedade) e o transformou em um produto mais "palatável" (leia-se superficial e sem nenhuma personalidade). O pífio resultado financeiro e o massacre da crítica apenas refletiram a profusão de equívocos acumulados desde sua concepção. Uma pena!

terça-feira

ESTRELAS ALÉM DO TEMPO

ESTRELAS ALÉM DO TEMPO (Hidden figures, 2016, Fox 2000 Pictures, 127min) Direção: Theodore Melfi. Roteiro: Allison Schroeder, Theodore Melfi, livro de Margot Lee Shetterly. Fotografia: Mandy Walker. Montagem: Peter Teschner. Música: Benjamin Wallfisch, Pharrell Williams, Hans Zimmer. Figurino: Renee Ehrlich Kalfus. Direção de arte/cenários: Wynn Thomas/Missy Parker. Produção executiva: Jamal Daniel, Kevin Halloran, Ivana Lombardi, Margot Lee Shetterley, Mimi Valdes, Renee Witt. Produção: Peter Chernin, Donna Gigliotti, Theodore Melfi, Jeno Topping, Pharrell Williams. Elenco: Taraji P. Henson, Octavia Spencer, Janelle Monáe, Kevin Costner, Kirsten Dunst, Mahershala Ali, Jim Parsons. Estreia: 25/12/16

3 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz Coadjuvante (Octavia Spencer), Roteiro Adaptado

Depois de uma polêmica bastante justa em relação à ausência de artistas negros entre os indicados ao Oscar 2016, parece que a Academia de Hollywood finalmente abriu os olhos em relação à diversidade de sua indústria: em 2017, escolheu três filmes com temática racial para fazer parte de sua seleta lista de indicados ao prêmio principal. Um deles, "Moonlight: sob a luz do luar", merece todos os elogios e a estatueta que acabou com os planos de "La La Land: cantando estações". Outro, "Um limite entre nós", dirigido e estrelado por Denzel Washington - talvez o maior ator negro em atividade - é uma adaptação fiel, e portanto um bocado limitada, de uma peça teatral, mas tem ele e Viola Davis no elenco, o que sempre vale o espetáculo. No entanto, é difícil achar que "Estrelas além do tempo" não foi selecionado apenas por seu tema. Repleto de clichês, dirigido sem inspiração e com sérios problemas de foco, o filme de Theodore Melfi chegou a ganhar o prêmio máximo do Sindicato de Atores (melhor elenco), mas se ressente justamente de não dar a esse mesmo elenco um material menos previsível e piegas.

Assim como aconteceu com "Histórias cruzadas" (2011), de Tate Taylor, "Estrelas além do tempo" fez enorme sucesso de bilheteria, chegou a finalista do Oscar e tem Octavia Spencer entre seus ótimos atores (ela ganhou a estatueta de coadjuvante pelo filme de Taylor e repetiu a indicação aqui). Mas, também como "Histórias cruzadas" apela para um popularismo que, se agrada em cheio ao público médio, o distancia de ser um grande filme. Com uma história fascinante em mãos, e personagens ricas para explorar, o roteiro prefere optar pelo caminho mais fácil, minando ao máximo todas as poderosas nuances que sua história de superação e força poderia ter. No final das contas, entrega um filme correto, sem arestas e de óbvia relevância política e social, mas perde a chance de ser inesquecível como cinema. Com uma narrativa clássica - quase preguiçosa - Melfi parece não acreditar na potência da imagem, reiterando constantemente o que é dito e repetido, como a insistência em mostrar as placas de "COLORED" (negros) toda vez que precisa sublinhar ainda mais os fatos de racismo que ocorrem na trama. Essa aparente falta de confiança na inteligência do público, porém, é o que menos incomoda: o pior é a nítida sensação de que o roteiro não sabe exatamente qual a história que pretende contar.


Se não, vejamos: a trama se passa em 1961, quando os EUA e a União Soviética disputavam a primazia na corrida espacial. Suas protagonistas são três amigas, negras, que, apesar da brilhante inteligência, são consideradas peças menos importantes do jogo. Todas trabalham na NASA, mas são separadas de todos os colegas brancos e seu local de trabalho é uma sala especial - assim como o banheiro que são autorizadas a usar e o café que podem tomar. Quando uma delas, Katherine Goble (Taraji P. Henson, a melhor em cena) é chamada para trabalhar na equipe liderada por Al Harrison (Kevin Costner), ela acredita que seu talento para geometria analítica finalmente será reconhecido por seus semelhantes, mas, apesar da atenção de Harrison, percebe que continua sendo tratada como alguém inferior somente por sua raça. Enquanto isso, Dorothy Vaughan (Octavia Spencer) luta para convencer sua chefe, Vivian Mitchell (Kirsten Dunst), a lhe promover a supervisora das demais computadoras, já que falta-lhe apenas o status e o salário para tal, uma vez que faz todo o trabalho referente ao cargo - obviamente, suas ambições são tratadas com quase desprezo. E por fim, Mary Jackson (a cantora Janelle Monáe, começando bem a carreira), encorajada por sua inteligência e por sua coragem, resolve tornar-se a primeira negra a cursar a Faculdade de Engenharia, entrando na Justiça para garantir seus direitos.

É uma história encorajadora, inspiradora e emocionante, especialmente quando contextualizada - tanto no início dos anos 60, quando a tensão racial era ainda mais explícita na sociedade americana, quanto nos dias de hoje, com a onda de conservadorismo e fascismo ameaçando cada vez mais. Porém, "Estrelas além do tempo" perde o foco diversas vezes em sua narrativa, desviando a atenção de suas protagonistas para sequências desnecessariamente longas sobre problemas da NASA - que combinam com filmes como "Apollo 13" (95), mas que soam completamente deslocadas aqui - ou questões domésticas que diluem a força da mensagem. Dando a impressão de não confiar totalmente na empatia inerente de suas protagonistas, o roteiro faz questão de sublinhar cada momento de maior tensão racial que surge na trama, mas jamais se aprofunda na discussão, mantendo-se sempre na superficialidade que mais apetece à plateia média. Mais uma vez se assemelha com "Histórias cruzadas", um filme sobre negros feito para agradar ao público branco. "Estrelas além do tempo" se ressente de uma contundência maior, de um engajamento maior e menos óbvio. É um passatempo digno graças a seu excelente elenco e a suas protagonistas brilhantes, mas está longe de ser tão bom quanto muitos fizeram acreditar.

segunda-feira

AS DUAS FACES DE JANEIRO

AS DUAS FACES DE JANEIRO (The two faces of January, 2014, Working Title Films, 96min) Direção: Hossein Amini. Roteiro: Hossein Amini, romance de Patricia Highsmith. Fotografia: Marcel Zyskind. Montagem: Nicolas Chardeuge, Jon Harris. Música: Alberto Iglesias. Figurino: Steven Noble. Direção de arte/cenários: Michael Carlin/Dominic Capon. Produção executiva: Tim Bricknell, Ron Halpern, Max Minghella. Produção: Tim Bevan, Eric Fellner, Robyn Slovo, Tom Sternberg. Elenco: Viggo Mortensen, Kirsten Dunst, Oscar Isaac, Daisy Bevan. Estreia: 11/02/14 (Festival de Berlim)

Quem conhece a obra de Patricia Highsmith sabe que uma de suas maiores características é a elegância com que ela reveste até mesmo os atos mais cruéis cometidos por seus personagens - vias de regra dotados de um carisma que quase obriga o leitor a compactuar com tais atitudes. Foi assim que aconteceu com Tom Ripley (interpretado no cinema por Matt Damon, Alain Delon e John Malkovich) e com Bruno Anthony (a quem Robert Walker deu vida no clássico hitchcockiano "Pacto sinistro"). E é quase isso que acontece também com Chester MacFarland, o protagonista do envolvente "As duas faces de janeiro", estreia na direção do iraniano Hossein Amini - também roteirista do impactante "Drive", estrelado por Ryan Gosling. Vivido por um Viggo Mortensen esbanjando charme e equilibrando-o com um muito apropriado tom ameaçador, MacFarland une-se à galeria de tipos ambíguos criados por Highsmisth em um filme que, a despeito de sua passagem quase ignorada pelas telas de cinema, merece uma segunda chance de ser descoberto.

Sem apelar para a violência desnecessária e dotando sua narrativa com um compasso suave que combina com o calor do sol que banha as belas paisagens gregas que lhe servem de cenário - fotografadas com inspiração por Nicolas Chardeuge - Amini mistura em seu filme a tensão característica dos livros da escritora texana, uma sensualidade reprimida e um senso de imprevisibilidade que conduz o espectador por um labirinto de reviravoltas capaz de seduzir qualquer um até o minuto final. Revelando somente aos poucos as reais intenções e personalidades de seus protagonistas e proporcionando ao público a chance de acompanhar uma história inteligente e calcada na sutileza ao invés de bombardeá-lo com sangue e efeitos visuais, "As duas faces de janeiro" pode não arrebatar completamente - há uma certa quebra de ritmo em sua metade - mas é muito melhor do que a maioria dos filmes policiais incensados pela crítica.


A trama começa em Atenas, em 1962, quando o casal de americanos Chester (Viggo Mortensen) e Colette (Kirsten Dunst em mais uma memorável atuação) chama a atenção do guia turístico Rydal (Oscar Isaac, sem dúvida um dos atores mais competentes surgidos em Hollywood na segunda década dos anos 2000), que complementa sua renda enganando jovens turistas desavisadas, que se deixam seduzir por seu charme e inteligência. Impressionado com a sofisticação do casal - e principalmente pela beleza de Colette - Rydal acaba por servir de acompanhante aos dois durante sua estada na cidade. Por um acaso do destino, porém, ele acaba sendo testemunha de um crime cometido por Chester - na verdade um golpista que está no país fugindo de uma série de credores. Se oferecendo para ajudar o novo amigo a escapar incólume da região, o rapaz se aproveita para ficar ainda mais próximo de Colette, também atraída por sua juventude e vitalidade. Triângulo amoroso formado, resta aos três desvencilhar-se das investigações policiais e lidar com novos segredos que podem vir à tona.

Produzido com extremo requinte - a reconstituição de época é primorosa e a trilha sonora de Alberto Iglesias pontua com precisão o desenvolvimento da história - "As duas faces de janeiro" é um filme que merece encontrar seu público também porque é uma alternativa consistente a obras que tentam cativar a audiência com explosões sem sentido e violência gratuita. Nadando contra a corrente e privilegiando a história e os personagens mais do que tais artifícios, Hosseim Amini acabou por realizar uma estreia alvissareira, que denota um cineasta inteligente e sensível que tem tudo para tornar-se um nome bastante reconhecido nos próximos anos. Que venha um novo trabalho!

terça-feira

MELANCOLIA

MELANCOLIA (Melancholia, 2011, Zentropa Entertainments/Memfis Films, 130min) Direção e roteiro: Lars Von Trier. Fotografia: Manuel Alberto Claro. Montagem: Molly M. Stensgaard. Figurino: Manon Rasmussen. Direção de arte/cenários: Jette Lehman/Simone Grau Roney. Produção executiva: Peter Garde, Peter Albaek Jensen. Produção: Meta Louise Foldager, Louise Vesth. Elenco: Kirsten Dunst, Charlotte Gainsbourg, Kiefer Sutherland, Alexander Skarsgard, Stellan Skarsgard, Brady Corbet, John Hurt, Charlotte Rampling, Udo Kier. Estreia: 18/5/11 (Festival de Cannes)

Vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes: Melhor Atriz (Kirsten Dunst)

Foi durante a entrevista coletiva de lançamento de "Melancolia", em maio de 2011, que o cineasta Lars Von Trier deu a infame declaração em que afirmava compreender Adolf Hitler. A controvérsia acabou fazendo com que o normalmente polêmico diretor fosse banido do festival, mas não impediu que seu belo filme saísse premiado com a Palma de Ouro de Melhor Atriz para Kirsten Dunst. Substituindo a primeira opção para o papel - Penélope Cruz, que pulou fora para navegar com Johnny Depp no tenebroso terceiro capítulo da cinessérie "Piratas do Caribe"- Dunst mereceu a premiação: basta poucos minutos em cena para que seu desempenho, intenso e febril, apague da mente do espectador que ele está diante da faceira Mary Jane da trilogia do Homem-aranha dirigida por Sam Raimi. Tornando-se a terceira atriz dirigida por Von Trier a sair laureada do festival francês - antes dela foram laureadas a cantora Bjork, por "Dançando no escuro", em 2000, e Charlotte Gainsbourg, por "Anticristo", de 2009 - Dunst mostrou que os elogios que recebeu ao interpretar a pequena morta-viva Claudia de "Entrevista com o vampiro" não foram levianos e que, adulta, ela é uma atriz repleta de nuances e recursos.

Segunda parte da entitulada "Trilogia da Depressão", de Von Trier - que começou com "Anticristo" e terminou com os dois volumes de "Ninfomaníaca", todos com Charlotte Gainsbourg no elenco - "Melancolia" é, sem dúvida, a obra que tem o visual mais deslumbrante dos três - cortesia da fotografia de Manuel Alberto Claro - e a trama menos polêmica e mais acessível, apesar do tema difícil. Dividido em dois capítulos com os nomes das protagonistas (depois de um belíssimo prólogo, como já passou a ser uma marca registrada do diretor), o filme conta, a grosso modo, a história de duas irmãs (e sua família) que aguardam a colisão de um planeta chamado Melancolia com a Terra, fato que, logicamente, significaria o fim do mundo. No entanto, nas mãos do cineasta, o que poderia ser mais um longa de ficção científica corriqueiro e recheado de clichês, se transforma em um estudo poderoso e angustiante sobre amor, família e depressão - esta última retratada de forma exemplar através de Justine, a personagem de Dunst.


Justine - que dá nome ao primeiro capítulo - tem tudo para ser uma mulher feliz e realizada. Bonita, inteligente e rica, ela trabalha em uma agência de publicidade, é reconhecida profissionalmente e está se casando com o homem que aparentemente ama, o carinhoso Michael (Alexander Skarsgard, da série "True blood"). Acontece que as coisas não são tão simples assim para ela: sofrendo de uma severa depressão, ela atravessa a sofisticada e caríssima festa de casamento organizada pela irmã, Claire (Charlotte Gainsbourg) e pelo cunhado John (Kiefer Sutherland) - um cientista que não acredita na colisão iminente entre os dois planetas - como quem atravessa um calvário. Nada lhe excita, nada lhe impressiona, nada lhe deixa alegre e tal situação acaba ficando óbvia até para o pouco atento noivo - o que acarreta em um final pouco feliz para a cerimônia. O segundo capítulo - batizado com o nome de Claire - se passa nos dias seguintes à festa, quando Justine, ao lado da irmã, do cunhado e do sobrinho, tenta superar o agravamento de sua crise depressiva enquanto aguarda o momento em que a natureza irá decidir o destino da Terra e de seus habitantes. Dessa vez, porém, é Claire quem não tem certeza se conseguirá suportar tanta tensão e angústia.

Para que "Melancolia" seja melhor compreendido pelo seu público, é essencial que se saiba o que esperar da proposta de Lars Von Trier - que confessou ter escrito o roteiro sob forte influência de drogas e álcool, o que já dá pistas a respeito do tom pouco festivo da trama. Pouco afeito a conceitos como otimismo e felicidade, o cineasta faz desfilar pela tela personagens que não retratam exatamente as melhores qualidades do ser humano - até mesmo a mãe interpretada por Charlotte Rampling parece desprovida de qualquer traço de simpatia ou solidariedade - e não poupa o espectador de mergulhar sem reservas na doença de Justine, filmada sem filtros de glamour ou romantismo. Menos simbólico do que "Anticristo" mas ainda assim um prato cheio para quem busca no cinema uma forma de analisar o mundo contemporâneo - física ou psicologicamente - o filme de Von Trier faz uso de metáforas visuais e temáticas para atingir seus objetivos artísticos e os faz com maestria. Não é, mais uma vez em sua carreira, um filme para todos os tipos de público. Mas é um belo espetáculo narrativo e um ponto alto de sua filmografia.

ENTRE SEGREDOS E MENTIRAS

ENTRE SEGREDOS E MENTIRAS (All good things, 2010, Groundswell Productions/Hit the Ground Running Films, 101min) Direção: Andrew Jarecki. Roteiro: Marcus Hinchey, Marc Smerling. Fotografia: Michael Seresin. Montagem: David Rosenbloom, Shelby Siegel. Música: Rob Simonsen. Figurino: Michael Clancy. Direção de arte/cenários: Wynn Thomas/Richard Devine. Produção executiva: Barbara A. Hall, Michelle Krumm, Bob Weinstein, Harvey Weinstein, Janice Williams. Produção: Andrew Jarecki, Michael London, Bruna Papandrea, Marc Smerling. Elenco: Ryan Gosling, Kirsten Dunst, Frank Langella, Lily Rabe, Kristen Wiig, Diane Venora, Philip Baker Hall, Michael Esper, Trini Alvarado. Estreia: 03/12/10

O cineasta Andrew Jarecki tornou-se conhecido no meio cinematográfico graças ao excelente "Na captura dos Friedmans", de 2003, que concorreu ao Oscar de melhor documentário ao retratar o pesadelo de uma família acusada injustamente de abuso sexual infantil. Sua forma direta e seca de narrativa, um dos maiores méritos do filme, é perceptível também em seu primeiro (e até agora único) longa-metragem de ficção: mesmo inspirado em um crime real ocorrido na Nova York de 1982 e que permanece sem solução ainda hoje, "Entre segredos e mentiras" encontra força mesmo é em sua narrativa bem construída, que alterna elementos de suspense clássico com drama familiar. Enfatizando ora um gênero, ora outro, o roteiro consegue até mesmo driblar as armadilhas que uma narração em off apresenta a seus realizadores, utilizando-a como um trunfo a mais em um filme que se escora basicamente em outros dois enormes: os protagonistas Ryan Gosling e Kirsten Dunst.

Dunst, que estava saindo de uma séria crise de depressão quando leu o roteiro, aceitou participar do filme, apesar do tom baixo-astral que domina boa parte da trama: ela interpreta a bela e jovem Katie, que teve o azar de se apaixonar perdidamente por David Marks (Gosling), filho caçula de um bem-sucedido empresário do ramo imobiliário de Nova York (Frank Langella, à vontade no papel de vilão). Tímido, reservado e com sérios problemas psicológicos - enfatizados pelo trágico suicídio da mãe quando ele ainda era uma criança - David tenta desesperadamente fugir dos domínios familiares, e seu casamento com Katie - de família modesta e com ambições de tornar-se médica - o incentiva a seguir o próprio rumo. Conforme o tempo passa, porém, a relação entre os dois vai ficando mais e mais tensa, com a instabilidade do rapaz tornando o cotidiano dos dois cada vez mais perigoso e imprevisível. Quando Katie desaparece misteriosamente depois de uma briga, então, todas as suspeitas recaem sobre seu marido, que resolve mudar de identidade e esconder-se da polícia e evitar publicidade.

Explorando com sutileza o desequilíbrio de David, a direção de Jarecki possibilita à Ryan Gosling uma interpretação repleta de nuances, mostrando mais uma vez o grande talento do ator canadense, capaz de falar com um simples olhar mais do que muitos contemporâneos com páginas e páginas de diálogos. Suas cenas com Kirsten Dunst - em uma atuação contida, recheada de silêncios raivosos e desesperados - são cercadas de uma atmosfera rarefeita, em que a paixão e a felicidade são aos poucos substituídas pela tensão e violência. Mesmo quando o filme muda de rumo - com David assumindo uma nova identidade - e passa a seguir uma direção um tanto bizarra (e quase inverossímil), o minucioso trabalho de Gosling impede que o público deixe de acreditar na história, mantendo a atenção em uma história inacreditável e dotada de uma melancolia quase palpável, valorizada pela fotografia do veterano Michael Seresin e pela trilha sonora que destaca os momentos de maior tensão - como a sensacional sequência em que David invade uma festa familiar para arrancar do lugar (pelos cabelos!!) a esposa já desiludida com o casamento.

Sem medo de eleger como protagonista um homem psicologicamente afetado, instável e com tendências claras à violência - e de contar a história com um viés imparcial e desprovido de julgamentos morais - o filme de Andrew Jarecki conquista a plateia pela coragem em transformar uma história de amor em um drama de terror doméstico sem apelar para sustos desnecessários ou clichês do gênero. "Entre segredos e mentiras" é um filme muito acima da média, que explora a contento tanto sua trama - forte e densa - quanto seus atores - intensos e exímios intérpretes da alma humana.

quinta-feira

O SORRISO DE MONA LISA

O SORRISO DE MONA LISA (Mona Lisa smile, 2003, Columbia Pictures, 117min) Direção: Mike Newell. Roteiro: Lawrence Konner, Mark Rosenthal. Fotografia: Anastas Michos. Montagem: Mick Audsley. Música: Rachel Portman. Figurino: Michael Dennison. Direção de arte/cenários: Jane Musky/Susan Tyson, Chris Nickerson. Produção executiva: Joe Roth. Produção: Elaine Goldsmith-Thomas, Paul Schiff, Deborah Schindler. Elenco: Julia Roberts, Kirsten Dunst, Maggie Gyllenhaal, Julia Stiles, Ginnifer Goodwin, Juliet Stevenson, Marcia Gay Harden, Marian Seldes, John Slattery, Dominic West, Topher Grace. Estreia: 19/12/03

Em 1989 o australiano Peter Weir emocionou o mundo todo ao contar a história de um professor de Inglês que, desafiando a orotodoxia de uma escola para rapazes no final da década de 50, os inspirava a romper com o conformismo e buscar a felicidade através da realização de suas paixões. O filme era "Sociedade dos poetas mortos", que ganhou o Oscar de roteiro original e deu a Robin Williams um dos papéis mais populares de sua carreira e estabeleceu um padrão altíssimo a todas as produções subsequentes que retratavam a relação mestre/alunos. Quem chegou bem perto foi "Mr. Holland, adorável professor" (95), onde Richard Dreyfuss deu vida a um aspirante a compositor que acaba dedicando a vida toda a lecionar em uma escola pública, onde conquista alunos e colegas com sua paixão pela música. Quem tentou e acabou ficando no meio do caminho das boas intenções e objetivos comerciais foi Julia Roberts. A maior estrela de Hollywood juntou-se ao diretor Mike Newell, de "Quatro casamentos e um funeral" em "O sorriso de Mona Lisa", uma versão feminina de "Sociedade", agradável e fotogênica, mas com bem menos profundidade ou emoção.

A trama começa no início do ano letivo de 1953, quando a independente e carismática Katherine Wilson (Roberts, exercitando sem medo seu belo sorriso e os trejeitos que fizeram dela uma das maiores estrelas do cinema americano) chega à tradicional Wellesley, uma escola preparatória feminina das mais respeitadas da Nova Inglaterra para ensinar História da Arte. Tão logo as aulas tem início, porém, ela descobre que seus métodos de ensino - pouco ortodoxos em relação à rigidez dos programas da escola - fogem ao esperado pela direção e até mesmo pelas alunas, que frequentam as aulas apenas como uma espécie de temporada de espera antes de começarem suas vidas domésticas, como mulheres casadas e donas-de-casa dedicadas. De certa forma chocada com a visão de mundo tão estreita das jovens, ela começa uma espécie de queda de braço com a editora do jornal estudantil, Betty Warren (Kirsten Dunst), que está às vésperas do casamento e sente-se particularmente ofendida com as ideias progressistas de Katherine. Apoiada por outro professor, Bill Dunbar (Dominic West) - que se apaixona por ela - a mestra resolve dedicar seus esforços em convencer a ambiciosa porém conformista Joan Brandwyn (Julia Stiles) a não abdicar de seus sonhos de cursar Direito mesmo depois de casada.


Para que se goste de "O sorriso de Mona Lisa" é essencial que se deixe seduzir pelos talentos de Julia Roberts e não se tente comparar com o incomparável "Sociedade dos poetas mortos". O filme de Mike Newell, apesar das semelhanças em número suficiente para forçar paralelos com a obra de Weir, não parece buscar a densidade emocional deste, e baseia-se firmemente no carisma de Julia para cativar a audiência. Isso não implica, no entanto, que o roteiro, de fortes cores feministas, não dê espaço para que seus personagens coadjuvantes brilhem: enquanto narra as batalhas de sua protagonista para encontrar espaço em um mundo cercado de regras e mandamentos arcaicos, a trama também acompanha os dramas de algumas das alunas de Katherine, cada uma buscando a felicidade a seu modo. É assim que, além da reprimida e cruel Betty Warren, surgem em cena a liberal Giselle Levy (Maggie Gyllenhaal) - que tem um romance com o professor que depois se envolve com Katherine -, a sonhadora Joan e a romântica Connie Baker (Ginnifer Goodwin), que, desprovida dos encantos físicos das colegas, procura viver uma grande história de amor. Além disso, o filme também dá conta de apresentar ao público ao menos duas outras professoras com histórias dignas de nota: a solteirona Nancy Abbey (Marcia Gay Harden), que não supera a perda do noivo na II Guerra, e Amanda Armstrong (Juliet Stevenson), que vive das lembranças de seu relacionamento com outra professora, já falecida.

Ao espalhar seu foco entre tantas personagens, o roteiro de "O sorriso de Mona Lisa" acaba por não aprofundar-se em nenhuma das tramas que estabelece, apesar de dar à Katherine a primazia das atenções. Sua paixão pelo magistério, pela arte e pela possibilidade de mudar a vida de suas alunas empresta ao filme de Newell - cuja direção sem personalidade depõe mais contra a produção do que sua tentativa em abraçar várias histórias - algumas cenas bastante interessantes, que discute os critérios de julgamento de obras artísticas, os movimentos modernistas do feminismo e até as responsabilidades da educação formal em relação à comunidade. São temas intrigantes, abordados com leveza e simpatia, de acordo com as pretensões do filme. Não é uma obra-prima nem tampouco é uma produção inesquecível. Mas é uma boa sessão da tarde descompromissada.

ADORÁVEIS MULHERES

ADORÁVEIS MULHERES (Little women, 1994, Columbia Pictures Corporation, 115min) Direção: Gillian Armstrong. Roteiro: Robin Swicord, romance de Louisa May Alcott. Fotografia: Geoffrey Simpson. Montagem: Nicholas Beauman. Música: Thomas Newman. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: Jan Roelfs/Jim Erickson. Produção: Denise Di Novi. Elenco: Winona Ryder, Susan Sarandon, Gabriel Byrne, Trini Alvarado, Kirsten Dunst, Claire Danes, Samantha Mathis, Christian Bale, Eric Stoltz, John Neville, Donal Logue. Estreia: 21/12/94

3 indicações ao Oscar: Atriz (Winona Ryder), Trilha Sonora Original, Figurino

Só mesmo a safra fraquíssima de 1994 e a vontade sempre premente de Hollywood em fabricar novas estrelas justificam a indicação de Winona Ryder ao Oscar de melhor atriz por "Adoráveis mulheres", nova versão do clássico da literatura norte-americana, dessa vez sob o comando da australiana Gillian Armstrong: seu desempenho como Josephine, uma jovem pré-feminista que desafia as convenções de sua sociedade com o objetivo de vencer como escritora em um país saindo da Guerra de Secessão nunca ultrapassa o convencional e é frequentemente eclipsada por atuações bastante superiores do elenco coadjuvante - que inclui as novatas Claire Danes e Kirsten Dunst. Sem jamais imprimir a força necessária ao papel - que foi de Katharine Hepburn em uma versão realizada em 1933 por George Cukor - Ryder é, perigosamente, o elo mais fraco da produção, que também conquistou indicações ao Oscar pela bela trilha sonora de Thomas Newman e pelo caprichado figurino de Colleen Atwood.

Publicado pela primeira vez em 1868, o romance "Mulherzinhas", de Louisa May Alcott é um dos livros mais populares da literatura norte-americana, tendo recebido diversas adaptações para a tv e o cinema desde 1917, quando uma primeira versão chegou às telas, ainda na fase do cinema mudo. De sua publicação até o lançamento do filme de Armstrong se passou mais de um século, e era esperado que a cineasta australiana tirasse proveito dessa distância temporal - presumivelmente um benefício para análises mais isentas do papel da mulher na sociedade ianque - para realizar uma obra que destacasse a forte personalidade de sua protagonista em meio a um mundo dominado por homens. Não foi o que aconteceu. O roteiro de Robin Swicord, apesar do ritmo agradável, detém-se basicamente no melodrama familiar e romântico do livro, negando à personagem principal a potência que tem no romance. Somada à atuação mecânica de Ryder - fã confessa do livro - essa opção enfraquece o resultado final, deixando "Adoráveis mulheres" muito aquém de suas possibilidades.


As adoráveis mulheres do título são as integrantes femininas da família March, que, durante a Guerra de Secessão, fazem o possível para manter-se unidas e saudáveis, mesmo desfalcadas da presença paterna - que está no front - e das posses que tinham antes do início do conflito: a matriarca, (Susan Sarandon, pouco aproveitada e que foi rival de Winona na disputa pelo Oscar, por seu trabalho em "O cliente", de Joel Schumacher), e as quatro filhas, que além de tudo, tem também que adequar-se às regras sociais da época como forma de arrumar um bom casamento. A mais velha, Meg (Trini Alvarado) se interessa por John Brooke (Eric Stoltz), preceptor de seu vizinho, um homem bom mas não necessariamente rico. A segunda, Jo (Ryder), sonha em tornar-se escritora, tem ideais feministas - antes do advento do feminismo - e vive uma relação dúbia com o jovem Laurie (Christian Bale), que vive na casa ao lado, com o avô (John Neville). A terceira, Beth (Claire Danes) tem preocupações sociais e se dedica a cuidar daqueles que tem menos do que elas, até contrair escarlatina e ver sua saúde ficar seriamente ameaçada. E a caçula, Amy (Kirsten Dunst e Samantha Mathis em dois períodos distintos da trama), vive de sonhar acordada, esperando um bom marido para sair da pobreza.

Quando a segunda fase da história começa, Jo muda-se para a Inglaterra, onde pretende dar vazão a suas ideias modernas e sua veia de escritora. Justamente a partir daí, quando ela assume o posto de protagonista absoluta da trama é que o filme fica menos interessante. A luta de Jo pelos direitos femininos só é mostrada em uma única e rápida cena, onde ela mal consegue expor seu raciocínio: o roteiro opta por focar em sua relação com o professor alemão Friedrich Bhaer (Gabriel Byrne), uma história de amor prejudicada fatalmente pela falta de química entre os dois atores. A essa altura, o público já percebeu que o que interessa à Armstrong não é mostrar o crescimento pessoal de Jo, e sim os dramas de suas irmãs - e, justiça seja feita, nesse ponto ela não brinca em serviço. Com sutileza e cuidado, a cineasta até consegue emocionar a plateia, mas oferece a ela apenas um novelão romântico que nada acrescenta às versões anteriores do livro nas telas. Uma pena.

terça-feira

HOMEM-ARANHA 2


HOMEM-ARANHA 2 (Spider Man 2, 2004, Columbia Pictures/Marvel Entertainment, 127min) Direção: Sam Raimi. Roteiro: Alvin Sargent, história de Alfred Gough, Miles Millar, Michael Chabon, personagens criados por Stan Lee, Steve Ditko. Fotografia: Bill Pope. Montagem: Bob Murawski. Música: Danny Elfman. Figurino: James Acheson, Gary Jones. Direção de arte/cenários: Neil Spisak/Jay Hart. Produção executiva: Joseph M. Caracciolo, Kevin Feige, Stan Lee. Produção: Avi Arad, Laura Ziskin. Elenco: Tobey Maguire, Kirsten Dunst, James Franco, Alfred Molina, Rosemary Harris, J. K. Simmons, Dylan Baker. Estreia: 30/6/04

3 indicações ao Oscar: Edição de Som, Mixagem de Som, Efeitos Visuais
Vencedor do Oscar de Efeitos Visuais

Uma das maiores dúvidas quanto a “Homem-aranha 2” era se a sequência do mais bem-sucedido filme baseado em personagens de quadrinhos daria continuidade ao sucesso do primeiro capítulo. Depois da estreia, no entanto, essa dúvida não mais existia. A segunda parte das aventuras do jovem Peter Parker (mais uma vez vivido por Tobey Maguire, no papel de sua carreira) não só rendeu mais dinheiro como ainda por cima empolgou muito mais a crítica e os fãs. Não é pra menos: se no filme de 2002 o diretor Sam Raimi não errou a mão em apresentar suas personagens dessa vez ele caprichou mais em tudo. Das cenas de ação – com efeitos especiais mais bem elaborados – aos diálogos, mais engraçados e verdadeiros, tudo funciona ainda melhor em “Homem-aranha 2”.
    
Quando o segundo filme começa já faz algum tempo que Peter Parker abdicou do amor de sua vida, a bela Mary Jane (Kirsten Dunst), que está dando os primeiros passos em uma vitoriosa carreira de atriz da Broadway. Ainda escondendo de todos que é o Homem-aranha, ele tem que lidar com seus problemas mundanos – aluguel atrasado, sub-emprego, a falta de Mary Jane, a obsessão de seu melhor amigo Harry (James Franco) em descobrir quem matou seu pai – enquanto tenta manter a cidade longe da criminalidade. As coisas se complicam quando um talentoso cientista (Alfred Molina) mais uma vez erra em seus cálculos e transforma-se no temível Dr. Octopus, ameaçando Nova York com uma nova onda de crimes. Cansado e estressado, Parker desiste de seu alter-ego, com a intenção de viver uma vida normal e reconquistar a amada. Mas como ele bem sabe, grandes poderes trazem grandes responsabilidades e ele se vê obrigado a voltar a seu lado heróico.

        

Uma perfeita tradução de quadrinhos para as telas de cinema, “Homem-aranha 2” não decepciona em nenhum quesito, dando espaço exato para as piadas – que funcionam à perfeição, desde as mais simples até as feitas sob encomenda para os aficionados – para as cenas dramáticas e principalmente para as cenas de ação. Nada nesse segundo filme é dispensável, empurrando a história para um terceiro capítulo e amadurecendo suas personagens, obrigadas que são a lidar com suas dúvidas e certezas. Muito mais do que se pode esperar de um programa sem maiores objetivos que não divertir sua plateia, que agradeceu lotando as salas de cinema por semanas a fio - para alívio dos produtores, ansiosos em recuperar os exagerados 200 milhões de dólares gastos.

Empatando com "Titanic" como o mais caro filme feito até então - "King Kong", de Peter Jackson, lhes tirou essa duvidosa honra - "Homem-aranha 2" gastou cerca de 54 milhões de dólares somente em efeitos visuais, mas a despesa valeu a pena, não apenas pelo Oscar da categoria: no primeiro filme os efeitos ainda deixavam a desejar, enquanto aqui tudo parece (e é!) muito mais cuidado e mais caro. Felizmente Sam Raimi não deixou que o visual relegasse a trama a um segundo plano e os dilemas pessoais das personagens são explorados a contento, fazendo desse segundo capítulo das aventuras do aracnídeo uma empolgante aventura para ver e rever.

sexta-feira

BRILHO ETERNO DE UMA MENTE SEM LEMBRANÇAS


BRILHO ETERNO DE UMA MENTE SEM LEMBRANÇAS (Eternal sunshine of the spotless mind, 2004, Focus Features, 108min) Direção: Michel Gondry. Roteiro: Charlie Kaufman, estória de Charlie Kaufman, Michel Gondry, Pierre Bismuth. Fotografia: Jeanne McCarthy. Montagem: Valdís Oskarsdottir. Música: Jon Brion. Figurino: Melissa Toth. Direção de arte/cenários: Dan Leigh/Ron Von Blomberg. Produção executiva: Georges Bermann, David Bushell, Charlie Kaufman, Glenn Williamson. Produção: Anthony Bregman, Steve Golin. Elenco: Jim Carrey, Kate Winslet, Tom Wilkinson, Kirsten Dunst, Mark Ruffalo, Elijah Wood, Jane Adams. Estreia: 19/3/04

2 indicações ao Oscar: Atriz (Kate Winslet), Roteiro Original
Vencedor do Oscar de Roteiro Original

Em um mundo ideal, os românticos sofredores poderiam ter o direito de apagar totalmente da memória as recordações de seus relacionamentos falidos e dolorosos. No mundo criado pelo roteirista Charlie Kaufman essa possibilidade existe quem a proporciona é uma empresa apropriadamente chamada Lacuna Inc. Criada pelo doutor Howard Mierzwiack (Tom Wilkinson), a Lacuna se encarrega de entrar no cérebro dos contratantes e arrancar de lá todos os momentos solicitados. E é justamente isso que o desesperado Joel Parrish (Jim Carrey) deseja com todas as suas forças: apagar qualquer lembrança de seu romance com a bela Clementine Cruczynski (Kate Winslet), que já providenciou o procedimento em sua própria vida. Acontece que Joel ainda ama Clementine, e descobre isso no meio do processo. O que fazer, então? Só lhe resta fugir com seus momentos de amor para lugares de sua mente onde jamais serão encontrados.

Parece estranho que o filme mais romântico e desbragamente apaixonado do início do século tenha uma cara de ficção científica, mas antes de qualquer coisa é preciso entender que o autor de "Brilho eterno de uma mente sem lembranças" é o mesmo dono da mente doentia que criou "Quero ser John Malkovich" e "Adaptação", dois dos mais criativos filmes de sua época.  Contando com a inspiradíssima direção de Michel Gondry - vindo do mundo do videoclipe como o genial David Fincher - a história de amor complicada e realista de Joel e Clementine foge do banal, do clichê e de qualquer definição para se tornar uma das mais marcantes que o cinema moderno pode oferecer. Nada de lágrimas fáceis, nada de lances melodramáticos. Por trás do complexo roteiro e da brilhante direção há aquilo que mais falta nos pré-fabricados romances hollywoodianos: alma.



Apostando na inteligência da plateia, "Brilho eterno de uma mente sem lembranças" é um quebra-cabeças delirante, onde nenhuma cena é desnecessária, nenhum momento é desperdiçado. A edição intrincada dá pistas o tempo inteiro de como seguir a história (seja na cor dos cabelos de Clementine ou em detalhes que só farão sentido em uma terceira ou quarta sessão), mas nunca a entrega de mão-beijada, preferindo sempre o caminho menos comum para atingir seus objetivos. A trama, constituída de três tempos (o real, as lembranças e a visão de Joel e Clementine sobre os fatos que estão ocorrendo), é ágil na medida certa, mas absolutamente contemplativa e de partir o coração quando necessita. O extraodrinário do roteiro de Kaufman - merecidamente premiado com o Oscar - é justamente sobrepor essas três linhas de tempo sem ser didático ou aborrecido. É confuso? Não, é fascinante. Ao explorar os mecanismos que levam um amor aparentemente imorredouro a um patético final (apenas para depois voltar a seu glorioso início) a estreia de Gondry no cinema não poderia ser mais auspiciosa, principalmente por tirar de seus atores - centrais e coadjuvantes - atuações das mais apaixonadas.

Deixando de lado mais uma vez seu histrionismo exagerado - como fez anteriormente nos elogiados "O show de Truman" e "O mundo de Andy" - Jim Carrey convence totalmente como um homem frágil, sensível e passional, dando mais uma prova de seu talento quando bem dirigido (e ficando com o papel antes oferecido a Nicolas Cage, Deus nos proteja!). A seu lado, Kate Winslet brilha em um de seus melhores trabalhos, que lhe deu a quarta indicação ao Oscar. Longe dos trajes de época que marcaram seus filmes anteriores, a bela inglesa aparece em cena com o cabelo pintado de várias cores e transmite uma alegria de viver e uma ânsia de ser amada ausente em seus projetos anteriores - e sua química com Carrey é invejável, especialmente se for levado em conta que improvisaram boa parte de seus diálogos, incentivados pelo diretor. E o elenco coadjuvante não atrapalha nem um pouco, sendo, pelo contrário, um suporte valioso ao casal central. O veterano Tom Wilkinson, os jovens Kirsten Dunst e Elijah Wood e o cada vez melhor Mark Ruffalo não deixam a peteca cair quando suas personagens saltam ao primeiro plano da narrativa, arrematando com cuidado e sensibilidade a arte de Gondry e Kaufman.

Não fazendo concessões ao trivial, "Brilho eterno de uma mente sem lembranças" pode assustar ao público acostumado com historinhas de amor banais e derivativas. Mas o romance entre suas personagens é verdadeiro, honesto, belo e triste. Belo e triste como um amor de verdade. Uma obra-prima irretocável!

terça-feira

HOMEM-ARANHA

HOMEM-ARANHA (Spiderman, 2002, Columbia Pictures/Marvel Enterprises, 121min) Direção: Sam Raimi. Roteiro: David Koepp, HQ de Stan Lee, Steve Ditko. Fotografia: Don Burgess. Montagem: Arthur Coburn, Bob Murawski. Música: Danny Elfman. Figurino: James Acheson. Direção de arte/cenários: Neil Spisak/Karen O'Hara. Produção executiva: Avi Arad, Stan Lee. Produção: Ian Bryce, Laura Ziskin. Elenco: Tobey Maguire, Kirsten Dunst, Willem Dafoe, James Franco, Rosemary Harris, Dylan Baker, J.K. Simmons, Cliff Robertson. Estreia: 03/5/02

2 indicações ao Oscar: Efeitos Visuais, Som

Tudo começou com "X-Men". O enorme sucesso de bilheteria do filme que contava as aventuras dos mutantes criados por Stan Lee deu coragem à Columbia Pictures para tocar adiante um projeto ainda mais ambicioso: levar às telas uma adaptação de uma das mais queridas e famosas personagens do universo Marvel, o Homem-aranha. Depois de anos no limbo - durante o qual foram considerados para a direção nomes díspares como James Cameron, Ang Lee, David Fincher e Tony Scott - a história do adolescente nerd que se torna super-herói chegou aos cinemas americanos cercada de grandes expectativas e não decepcionou nem ao mais ambicioso produtor: ao redor do mundo, mais de 800 milhões de dólares foram arrecadados, dando início a uma espécie de fenômeno pop. A partir daí, histórias em quadrinhos e cinema se tornaram definitivamente parceiros muito rentáveis.

O maior sucesso de bilheteria de 2002 mereceu o barulho que fez. Deliciosamente pop, agradável, engraçado e leve, é um filme que consegue agradar espectadores de todas as idades, em especial àqueles que se permitem embarcar sem medo no mais puro entretenimento hollywoodiano. Ao assumir as rédeas do filme, o diretor Sam Raimi (responsável pela bizarra e popular série "Evil Dead", que mudou a forma de fazer cinema de terror) imprimiu à história de Peter Parker um senso de diversão descompromissada e quase auto-paródica que faz dele um programa imperdível (e que ficaria ainda melhor no segundo episódio, mais caro e que fez ainda mais sucesso). E é necessário que se elogie a escalação certeira de Tobey Maguire para o papel central.

Mais conhecido por seus trabalhos sérios em filmes oscarizados como "Regras da vida" e "Garotos incríveis", Maguire ficou com um dos papéis jovens mais cobiçados da época (que quase ficou nas mãos de Leonardo DiCaprio) e não fez feio. Com seu jeito aparvalhado, ele criou um Peter Parker bastante próximo do público adolescente que lotou as salas de exibição (apesar de já estar com 25 anos durante a produção). Seu Peter Parker frágil, tímido e apaixonado caiu como uma luva em seu tipo físico franzino e seu alter-ego heroico é convincente a ponto de a audiência comprar o conceito do filme sem pestanejar. Com um roteiro dinâmico e esperto, "Homem-Aranha" é uma aventura perfeita.


Pra quem não sabe - se é que existe alguém que não saiba - o protagonista é Peter Parker, um estudante órfão que mora com os tios idosos (Cliff Robertson e Rosemary Harris) e é apaixonado pela vizinha, a bela Mary Jane Watson (Kirsten Dunst), cujo histórico de problemas domésticos não a impede de sonhar em tornar-se atriz. Durante uma excursão da escola, Parker - que é hostilizado pelos colegas e tem apenas um grande amigo Harry Osborn (James Franco) - é mordido por uma aranha geneticamente modificada e, a partir daí, passa a desenvolver poderes tais como escalar paredes e soltar teias de aranha, além de aumentar sua velocidade e força. Após praticamente testemunhar o assassinato do tio, ele decide dedicar-se à luta contra a violência, tornando-se herói da noite para o dia. Enquanto tenta esconder sua dupla personalidade da garota que ama - que começa a namorar Harry - Parker também precisa combater o cruel Duende Verde, a personalidade psicótica adquirida pelo milionário Norman Osborn (Willem Dafoe) após um acidente com suas experiências científicas.

A trama de "Homem-Aranha" é a desculpa ideal para Sam Raimi exercitar sua veia de fã de quadrinhos. Sua direção é respeitosa mas nunca quadrada, dando espaço para improvisos e mudanças que não ofendem os mais xiitas leitores do gênero (ainda que sempre haja algum espírito de porco disposto a discordar de algum detalhe). As cenas de ação, mesmo que não sejam impactantes ou inovadoras, são adequadas ao ritmo da trama e não chamam mais a atenção do que a trama que fala de responsabilidades e de renúncia. Esse subtexto - que também era o melhor que havia em "X-Men" - é o que faz com que "Homem-Aranha" escape lindamente da vala onde se encontram produções ambiciosas e sem fundamentos.

O sucesso de "Homem-Aranha" foi merecido. É um entretenimento inteligente e divertido, capaz de alegrar sessões da tarde por anos a fio. É a prova inconteste de que a soma de um bom diretor, um elenco adequado e um roteiro bem escrito podem efetuar milagres até mesmo com a pressão dos grandes estúdios.

quinta-feira

AS VIRGENS SUICIDAS

AS VIRGENS SUICIDAS (The virgin suicides, 2000, American Zoetrope, 97min) Direção: Sofia Coppola. Roteiro: Sofia Coppola, romance de Jeffrey Eugenides. Fotografia: Edward Lachman. Montagem: Melissa Kent, James Lyons. Música: Air. Figurino: Nancy Steiner. Direção de arte/cenários: Jasna Stefanovic/Megan Less. Produção executiva: Willi Baer, Fred Fuchs. Produção: Francis Ford Coppola, Julie Constanzo, Dan Halsted, Chris Hanley. Elenco: Kirsten Dunst, Kathleen Turner, James Woods, Josh Hartnett, Michael Paré, Scott Glenn, Danny DeVito, A. J. Cook, Jonathan Tucker, Hayden Christensen, Hannah Hall, Leslie Hayman, Chelse Swain. Estreia: 12/5/00

Quando o psiquiatra chamado para atender a jovem Cecilia Lisbon - que tentou o suicídio cortando os pulsos aos 13 anos de idade - lhe diz "O que você está fazendo aqui, querida? Você nem é velha o bastante para saber o quão dura é a vida.", nenhuma resposta poderia ser mais certeira e verdadeira do que a disparada pela melancólica paciente: "Obviamente, doutor, você nunca foi uma menina de 13 anos." O diálogo, curto mas direto, talvez seja o norte e uma espécie de bússola para melhor se entender o desenrolar de "As virgens suicidas", estreia de Sofia Coppola como cineasta depois de uma vexaminosa tentativa de ser atriz em "O poderoso chefão parte III", dirigido por seu papai Francis. Adaptado do primeiro romance do americano Jeffrey Eugenides (publicado em 1993), seu filme é um retrato delicado e sensível sobre um período da vida, que, ao contrário do que se costuma dizer por aí, pode ser tenebrosamente traumático, em especial para as garotas.

Tanto o livro de Eugenides quanto o roteiro de Sofia, bastante fiel à sua origem, não são explícitos em culpar a sociedade ou a família ou o capitalismo ou qualquer outro vilão que psicólogos e pretensos entendidos em adolescência tentam criar. Ao invés disso, tudo é visto de forma imparcial, quase documental. É sintomático que a trama seja narrada por gente de fora, como Tim Weiner (Jonathan Tucker) e Trip Fontaine (Josh Hartnett na juventude e Michael Paré na maturidade), que contam ao público a sua percepção (e a de seus amigos) da tragédia que envolveu as cinco meninas Lisbon em uma pequena cidade do Michigan no ano de 1974. Assim como Fontaine, a audiência não sai da sessão com certezas definitivas e sim com a sensação de pesar e tristeza, para a qual contribui a bela trilha sonora do Air. Talvez por também ser mulher - e logicamente ter passado pela adolescência - Sofia Coppola não aponta dedos para suas jovens protagonistas, mesmo que em muitos momentos elas não sejam exatamente exemplares (em especial Lux, vivida por Kirsten Dunst, de certa forma a personagem central da história e catalisadora dos surpreendentes eventos do roteiro).


As meninas Lisbon são filhas de um casal superprotetor, autoritário e religioso: a dona-de-casa Sara (Kathleen Turner deixando de lado sua persona sexy) e o professor Ronald (James Woods à vontade em um papel longe dos marginais com os quais acostumou seu público). Criadas quase isoladas das pessoas de sua idade - o que aumenta o clima de mistério a seu respeito entre os meninos da vizinhança - elas sofrem um baque quando a caçula, Cecilia (Hanna R. Hall), atenta contra a própria vida. O fato faz com que o casal repense a rigidez de suas normas, mas uma tragédia inesperada novamente afasta a família do convívio social, ao qual só retornarão alguns meses depois, quando Lux é convidada pelo bonitão Trip Fontaine a acompanhá-lo ao baile de formatura. Um impulso de Lux acaba deixando seus pais ainda mais tensos e, retiradas da escola e trancadas em casa, elas passam a comunicar-se com os vizinhos através de música. O mais importante desses amigos é Tim Weiner (Jonathan Tucker) - que narra a história através de suas lembranças afetivas em relação a ela.

"As virgens suicidas" é singelo, é quase etéreo. Sofia Coppola acompanha com carinho e delicadeza a trajetória de Lux e suas irmãs sem apressar o ritmo, sem apelar para o grotesco, sem explorar a sensualidade reprimida e pulsante de sua protagonista (que se transforma de menina de família em ninfa vingativa em um trabalho excelente de Kirsten Dunst). Sofia também surpreende ao explorar em Kathleen Turner e James Woods traços de suas personalidades pouco vistas nas telas (e é fascinante perceber como não é preciso muito destaque para que tanto Turner quanto Woods brilhem em seus papéis de pais impotentes diante da desgraça de seu núcleo familiar). E é comovente a forma com que a cineasta - então estreante - consegue dizer tanto em tão poucas (e belamente fotografadas) imagens. Não é preciso que os corpos das virgens suicidas sejam mostrados para que o público se sinta tocado e emocionado. De uma certa forma suas almas já haviam sido desnudadas pouco antes - e isso é bem mais chocante e arrasador.

"As virgens suicidas" é o primeiro e paradoxalmente o mais maduro trabalho de Sofia Coppola como cineasta. Depois dele ela assinaria o bem-sucedido "Encontros e desencontros" (que lhe deu o Oscar de roteiro original) e os polêmicos "Maria Antonieta" e "Em qualquer lugar". Nenhum deles atingiu a medida certa entre melancolia e nostalgia de sua estreia.

domingo

MERA COINCIDÊNCIA

MERA COINCIDÊNCIA (Wag the dog, 1997, New Line Cinema, 97min) Direção: Barry Levinson. Roteiro: Hilary Henkin, David Mamet, livro "American hero", de Larry Beinhart. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Stu Linder. Música: Mark Knopfler. Figurino: Rita Ryack. Direção de arte/cenários: Wynn Thomas/Robert Greenfield. Produção executiva: Michael De Luca, Claire Rudnick Polstein, Ezra Swerdlow. Produção: Robert De Niro, Barry Levinson, Jane Rosenthal. Elenco: Dustin Hoffman, Robert De Niro, Anne Heche, Denis Leary, Willie Nelson, Kirsten Dunst, Woody Harrelson, William H. Macy, James Belushi. Estreia: 25/12/97

2 indicações ao Oscar: Ator (Dustin Hoffman), Roteiro Adaptado
Prêmio Especial do Júri no Festival de Berlim

A vida imita a arte, a arte imita a vida ou o mundo da política é tão previsível que nada mais surpreende o eleitor? Essa é a dúvida que fica no ar após uma sessão de "Mera coincidência", lançado pelo premiado Barry Levinson em dezembro de 1997, no auge do escândalo envolvendo o presidente Bill Clinton e a estagiária da Casa Branca Monica Lewinsky. Porém, apesar do timing perfeito - que beneficiou o filme, m termos de badalação midiática - e da extrema semelhança entre ficção e acontecimentos reais, tudo não passou exatamente de, com o perdão do trocadilho, mera coincidência. Quando Clinton chegou às manchetes, acusado de manter um caso extra-conjugal com Lewinsky, o trabalho de Levinson já estava em fase de pós-produção. Quer se acredite ou não, "Mera coincidência" (título mais apropriado à ironia da questão em si do que ao filme propriamente dito) não é inspirado no governo do marido de Hilary. E isso faz dele ainda mais desconcertante.

Quando o filme começa, o presidente dos EUA está em uma acirrada campanha pela reeleição. Esta campanha - amparada na velha frase Pra que trocar de cavalos no meio da corrida?, oriunda de um discurso de Abraham Lincoln - sofre um abalo considerável quando uma estudante acusa o chefe máximo da nação de tê-la assediado sexualmente. Desesperados para diminuir o estrago, os assessores de marketing da Casa Branca apelam para Conrad (Robert De Niro), especializado em resolver problemas. Conrad, raposa velha dos meios políticos sabe que somente uma coisa rivaliza em interesse com escândalos sexuais uma guerra. Porém, como o país está passando por um período de paz, essa guerra terá que ser criada. Para isso, é chamado Stanley Motss (Dustin Hoffman), um produtor hollywoodiano. Talentoso e criativo, Motss praticamente inventa uma guerra - com direito a imagens falsas, heróis viris, vítimas inocentes e até mesmo uma cançã-tema. Em poucos dias, toda a atenção dos eleitores está nas notícias sobre o conflito entre EUA e Albânia (que não tem a menor ideia do que está acontecendo).



"Mera coincidência" é uma comédia de ironias. Desperta sorrisos, nunca gargalhadas. O cérebro ri mais do que a boca, uma vez que as piadas não são sideradas ou explícitas. Tudo é muito sutil no roteiro inteligente a cargo do dramaturgo David Mamet e de Hilary Henkin - adaptando um romance de Larry Beinhart. As situações criadas por Beinhart são muito mais engraçadas do que as (poucas) piadas, que fazem todo o sentido do mundo para uma audiência acostumada ao mais ridículos absurdos providos pela televisão. A trama, repleta de reviravoltas e surpresas inacredítáveis (mas muito verossímeis) leva as personagens - e o espectador - a situações engraçadíssimas (o herói de guerra escolhido, por exemplo, é um condenado por estuprar uma freira). Até mesmo a canção criada para "embalar" a guerra não deixa de ser hilária, por lembrar nitidamente eventos como os "We are the world" da vida.

Filmado durante um intervalo nas filmagens de "Esfera" - também dirigido por Levinson e estrelado por Hoffman - "Mera coincidência" tem um resultado bastante superior à chata ficção científica do cineasta. É um humor inteligente, adulto e politicamente incorreto. Um filme para ser descoberto.

terça-feira

ENTREVISTA COM O VAMPIRO

ENTREVISTA COM O VAMPIRO (Interview with the vampire: The vampire chronicles, 1994, Geffen Pictures, 123min) Direção: Neil Jordan. Roteiro: Anne Rice, romance de sua autoria. Fotografia: Phillippe Rousselot. Montagem: Mick Audsley, Joke Van Wijk. Música: Elliot Goldenthal. Figurino: Sandy Powell. Direção de arte/cenários: Dante Ferretti/Francesa Lo Schiavo. Produção: David Geffen, Stephen Woolley. Elenco: Tom Cruise, Brad Pitt, Kirsten Dunst, Christian Slater, Antonio Banderas, Stephen Rea, Thandie Newton. Estreia: 11/11/94

2 indicações ao Oscar: Trilha Sonora Original, Direção de arte/cenários

Desde que a escritora americana Anne Rice publicou o livro "Entrevista com o vampiro", em 1976, muitas tentativas de adaptá-lo para o cinema foram frustradas, pelos mais variados motivos. No final dos anos 70, por exemplo, o projeto foi engavetado devido ao fracasso de três filmes sobre vampirismo - "Drácula", com Frank Langella, "Nosferatu", com Klaus Kinski e "Amor à primeira mordida", com George Hamilton. Na época, o nome mais cotado para protagonizar o filme era o ator - então em alta - John Travolta, ainda que a própria escritora tivesse o holandês Rutger Hauer em mente quando criou a personagem central do livro. Mais de uma década se passou até que finalmente a história das aventuras dos vampiros Lestat, Louis e Claudia chegasse às telas. Dirigido pelo irlandês Neil Jordan - cineasta inteligente e de extremo bom-gosto - o filme estreou cercado de expectativas e polêmicas, mas surpreeendentemente agradou à maioria da crítica e o que é mais importante, dos fãs da obra literária.

Escrito por Anne Rice como forma de terapia depois da morte da filha pequena, vítima de leucemia - e homenageada no livro na pele da vampira-mirim Claudia - "Entrevista com o vampiro" arrebatou milhares de fãs mundo afora, que espernearam violentamente quando foi anunciado o nome do ator que viveria o sedutor protagonista, Lestat de Lioncourt. Acostumado a viver galãs heróicos - e levar multidões aos cinemas - Tom Cruise era o último nome que os leitores desejavam ver na pele do malévolo vampiro-mor criado por Rice e a própria escritora manifestou-se ferozmente contra a escolha dos produtores. A morte de River Phoenix - que viveria o jovem repórter que faz a entrevista do título - não colaborou para animar os ânimos e tudo parecia apontar para um fiasco de grandes proporções. Felizmente a história do cinema é repleta de surpresas, e "Entrevista com o vampiro" é uma delas. Mesmo que ignore algumas importantes nuances do livro, a adaptação para as telas - feita por Anne Rice em pessoa - não faz feio em comparação com sua origem. E, por incrível que pareça, Tom Cruise é um de seus maiores destaques.



Tentando fugir da imagem de bom moço, Cruise entrega em "Entrevista com o vampiro" uma de suas atuações menos previsíveis, ainda que às vezes escorregue descaradamente para o overacting - levando-se em consideração, porém, que Lestat é uma personagem teatral e propensa a exageros, dá pra deixar de lado as críticas mau-humoradas e divertir-se com sua interpretação. Debochado, cruel e politicamente incorreto, Lestat é o contraponto perfeito ao melancólico Louis, vivido por um Brad Pitt em vias de transformar-se em sensação absoluta junto ao imaginário feminino.

Tudo começa em São Francisco, quando um jovem jornalista (papel que Christian Slater herdou de River Phoenix) é procurado por um rapaz de aparência sinistra. Apresentando-se como Louis de Pointe du Lac, ele revela ao repórter que é um vampiro e, depois de convencê-lo disso, conta a ele sua inacreditável história, que tem início em Nova Orleans no ano de 1791. Devastado pela morte da esposa e do filho recém-nascido, Louis é um jovem fazendeiro que desafia a morte diariamente. Um dia ela aparece à sua frente na figura do misterioso Lestat (Tom Cruise), um vampiro que o leva para o mundo das trevas. Incapaz de matar seres humanos e alimentando-se do sangue de pequenos animais, Louis incomoda Lestat a ponto de ambos resolverem sair pelo mundo em busca de outros iguais a eles. Logo junta-se a eles a menina Claudia (Kirsten Dunst), que, órfã, é mordida por Lestat para acompanhá-los. As inúmeras viagens dos três são marcadas por eventos trágicos, principalmente quando Louis e Claudia se voltam contra a insensibilidade de Lestat.

Dirigindo com elegância mas sem maiores lances de criatividade, Neil Jordan teve sorte de cercar-se de gente extremamente talentosa. A fotografia sombria de Philippe Rousselot dá o tom exato ao clima de melancolia e tragédia que perpassa toda a história - vale lembrar que, no livro, Louis não perde a mulher e o filho e sim o melhor amigo, o que dá à trama um tom homoerótico absolutamente limado da versão cinematográfica. A trilha sonora de Elliot Goldenthal (indicada ao Oscar) mistura o gótico com o moderno, ainda que não fuja do óbvio ao eleger Rolling Stones para os créditos finais. E, se Brad Pitt não consegue se desvencilhar do básico em seu trabalho como Louis (transformado no roteiro em um chato sem pró-atividade), é Kirsten Dunst que brilha, na mais sensacional revelação do filme. Garfando um papel para o qual foram testadas Christina Ricci, Julia Stiles e Evan Rachel Wood, a futura namorada do Homem-aranha já demonstra, em seu primeiro papel de verdade, um talento que se comprovaria em filmes como "As virgens suicidas" e "Maria Antonieta".

Para quem não leu o livro, "Entrevista com o vampiro" é um excelente filme do gênero, com personagens bem construídos e interpretados por atores de verdade - ao contrário de coisas como a saga "Crepúsculo", que enterrou a mitologia vampiresca de forma aparentemente indelével. Para os leitores - que não se conformaram com a simplificação de temas como a depressão, a morte e até mesmo a bissexualidade dos protagonistas - não chega a ser a decepção anunciada. E para o público em geral, que gosta de um bom filme, é um programa de qualidade, dirigido por um cineasta incapaz de assinar qualquer trabalho.

O PREÇO DA TRAIÇÃO

  O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...