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quinta-feira

ETERNAMENTE JOVEM

 


ETERNAMENTE JOVEM (Forever young, 1992, Warner Bros/Icon Productions, 102min) Direção: Steve Miner. Roteiro: J. J. Abrams. Fotografia: Russell Boyd. Montagem: Jon Poll. Música: Jerry Goldsmith. Figurino: Aggue Guerard Rodgers. Direção de arte/cenários: Gregg Fonseca/Jay Hart, Jan Pascale. Produção executiva: J. J. Abrams, Edward S. Feldman. Produção: Bruce Davey. Elenco: Mel Gibson, Jamie Lee Curtis, Elijah Wood, Isabel Glasser, George Wendt, Robert Hy Gorman, Nicolas Surovy. Estreia: 11/12/92

Conhecido por filmes que exploravam sua testosterona mais do que seus méritos dramáticos - como as séries "Máquina mortífera" e "Mad Max" -, o australiano Mel Gibson entrou na década de 1990 disposto a mudar a imagem que tinha diante do público e da crítica (algo que nem "Hamlet", dirigido por Franco Zefirelli em 1990 havia conseguido). E o primeiro passo nessa direção foi "Eternamente jovem", uma história de amor à moda antiga, despretensiosa e dirigida de modo clássico que, apostando basicamente na presença do ator, fez uma bela carreira nas bilheterias e pavimentou um novo caminho para sua carreira - que culminaria em um Oscar de melhor direção por "Coração valente" (1995). Um romance com leves toques de ficção científica e humor, o filme de Steve Miner (mais conhecido por  filmes de terror e episódios de séries de tv) se beneficia, também, do carisma do pequeno Elijah Wood - que quase rouba a cena mesmo ao lado de veteranos como Gibson e Jamie Lee Curtis.

Escrito por J. J. Abrams - que anos depois se consagraria como criador do seriado "Lost" -, o roteiro de "Eternamente jovem" começa em 1939, antes da II Guerra Mundial. O piloto de testes da Força Aérea americana, Daniel McCormick (Mel Gibson), é apaixonado por sua namorada, Helen (Isabel Glasser), e depois de um longo relacionamento resolve finalmente pedi-la em casamento. Uma tragédia, no entanto, surge em seu caminho quando ela é atropelada e entra em coma. Desesperado quando os médicos afirmam não ver possibilidade de uma melhora para ela, o jovem se oferece para servir de cobaia para uma experiência criogênica do amigo cientista, Harry Finley (George Wendt), e ficar congelado por um ano - tempo suficiente para não ser obrigado a testemunhar a morte da mulher que ama. As coisas não sabem como o esperado, no entanto, e Daniel só acorda novamente depois de cinquenta anos: em uma brincadeira em um depósito abandonado do exército, Nat Cooper (Elijah Wood) e seu melhor amigo, Felix (Robert Hy Gorman), acabam sem querer reativando a câmera criada por Finley e trazendo o antigo piloto de volta à vida. Tentando adaptar-se à nova realidade e encontrar seu amigo - único que pode lhe ajudar a entender tudo que aconteceu desde que iniciou seu sono - ele conta com a ajuda da mãe de Nat, a enfermeira Claire (Jamie Lee Curtis), uma mulher com histórico de relacionamentos complicados que se sente atraída pelo misterioso visitante.

 

A maior surpresa de "Eternamente jovem" é sua ousadia em não se sustentar em uma previsível história de amor entre Daniel e Claire - o que poderia ser o esperado. Apesar da boa química entre Mel Gibson e Jamie Lee Curtis, o roteiro prefere se dedicar à busca do protagonista por uma resposta a respeito de sua condição de exilado temporal. Mesmo que não explore todas as possibilidades de seu choque diante de um novo e mais moderno mundo - o que poderia gerar boas piadas e situações dramaticamente interessantes -, o roteiro de Abrams se beneficia de um ritmo que disfarça suas improbabilidades científicas ao envolver o espectador em uma trama leve e por vezes bem-humorada: todas as interações entre Gibson e Elijah Wood são repletas de uma sintonia rara, que evita que a trama caia no excesso de lágrimas. Ao ensinar o pequeno Nat a conquistar a colega por quem é apaixonado, Daniel recupera um romantismo clássico que remete aos melhores momentos clássicos do cinemão hollywoodiano - e contar com Billie Holiday na trilha sonora enfatiza essa direção ao coração do público. Se não bastasse isso, uma reviravolta no ato final deixa tudo ainda mais emocionante. A boa notícia é que Gibson sustenta bem sua persona sensível - que seria acentuada em seu primeiro filme como diretor, "O homem sem face" (1993).

E quem também surpreende em um novo caminho na carreira é o cineasta Steve Miner. Contratado depois que Sydney Pollack e John McTiernan surgirem como possíveis diretores, o homem por trás de "Sexta-feira 13 II" (1981) e "Sexta-feira 13 III" (1983) - filmes nada sutis e pouco afeitos a delicadezas - conduz "Eternamente jovem" com um tom ameno, caloroso e dotado de uma energia que remete a produções dos anos dourados de Hollywood (um tom que a trilha sonora de Jerry Goldsmith e a fotografia de Russell Boyd sublinham com extrema eficácia). Sem apelar para exageros melodramáticos mesmo que a história em si às vezes implore por isso, Miner não chega a imprimir personalidade ao resultado final, mas só o fato de não atrapalhar a história com pirotecnias desnecessárias já é mais do que admirável. Afinal de contas, o espectador que escolher assistir a seu primeiro filme romântico quer apenas isso: uma boa história, contada com respeito a seu público e uma boa dose de suspensão de realidade.

terça-feira

IMPRÓPRIO PARA MENORES


IMPRÓPRIO PARA MENORES (Noises off, 1992, Touchstone Pictures, 101min) Direção: Peter Bogdanovich. Roteiro: Marty Kaplan, peça teatral de Michael Frayn. Fotografia: Tim Suhrstetd. Montagem: Lisa Day. Figurino: Betsy Cox. Direção de arte/cenários: Norman Newberry/Jim Duffy. Produção executiva: Peter Bogdanovich, Kathleen Kennedy. Produção: Frank Marshall. Elenco: Michael Caine, Christopher Reeve, Denholm Elliot, Carol Burnett, John Ritter, Julie Hagerty, Marilu Henner, Nicolette Sheridan, Mark Linn-Baker. Estreia: 20/3/92

Crítico, historiador de cinema e diretor de alguns filmes indispensáveis do começo dos anos 1970, como "A última sessão de cinema" (1971) - que lhe rendeu duas indicações ao Oscar -, "Essa pequena é uma parada" (1972) e "Lua de papel" (1973), Peter Bogdanovich nunca recuperou, nas décadas seguintes, o mesmo prestígio e o mesmo sucesso de bilheteria. Com exceção de "Marcas do destino" (1985) - que deu a Cher o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes -, seus trabalhos pareciam ter perdido a conexão com as plateias, e nem mesmo "Texasville" (1990), que revisitava os aclamados personagens de "A última sessão", conseguiu reverter esse quadro. Foi nesse período de declínio profissional que ele tentou voltar às comédias, com a adaptação da peça teatral "Noises off", indicada ao Tony de melhor espetáculo de 1984. Não reencontrou seu público, mas demonstrou que sua segurança em lidar com os mecanismos do humor anárquico/caótico ainda se mantinha intocável. Contado com um elenco heterogêneo e um texto preciso e inteligente que homenageia o teatro (e por consequência tudo que o cerca), "Impróprio para menores" é um filme que lembra o melhor de Woody Allen - que evocaria o mesmo universo em seu "Tiros na Broadway" dois anos depois.

"Impróprio para menores" é contado, como uma peça de teatro, em três atos bem definidos, unidos por uma narração em off do diretor Lloyd Fellowes (Michael Caine), que sofre com a possibilidade de sua montagem da comédia "Nothing on" ser um fracasso monumental. A trama da peça - um vaudeville ligeiro e popular - gira em torno de um chalé no campo visitado por dois casais que não deveriam estar lá, uma empregada pouco confiável, um ladrão de residências e um sheik árabe interessado na compra do imóvel. Mas se no palco a confusão é generalizada, nos bastidores as coisas são ainda mais complicadas: o ator Gary Lejeune (John Ritter) tem um caso com a colega Dotty Ottley (Carol Burnett), significantemente mais velha; o galã Frederick Dallas (Christopher Reeve) é abandonado pela esposa poucas horas antes da estreia; o veterano Selsdon Mowbray (Denholm Elliott) está entregue ao vício da bebida e está a cada dia mais surdo; e o próprio diretor está envolvido em um triângulo amoroso com a bela Brooke Ashton (Nicolette Sheridan) e a assistente de palco Poppy Taylor (Julie Hagerty). No período que antecede a estreia do espetáculo na Broadway - quando o grupo viaja por várias cidades do interior como forma de fortalecer sua união e a qualidade das apresentações -, as situações vão ficando mais e mais absurdas, o que ameaça a continuidade da temporada.

 

Contado como uma peça de teatro em três atos - o primeiro antes da estreia em um teatro de Iowa, o segundo em uma caótica apresentação em Miami, e o terceiro na Broadway em si -, "Impróprio para menores" explora os mais variados tipos de humor. Da comédia de erros de seu primeiro capítulo ele se transforma em um espetáculo de quase cinema mudo (com uma precisão de movimentos que ecoa a própria peça que se desenrola como pano de fundo), e Bogdanovich mostra que ainda domina o tempo cômico que apresentou em "Essa pequena é uma parada". Para isso, ele tem a sorte de contar com atores que entendem totalmente o espírito do projeto e alguns (como Christopher Reeve) surpreendem com um inesperado talento para a comédia. Carol Burnett - especialista no gênero - nem precisa se esforçar muito para imprimir sua marca, e Michael Caine de certa forma surge como o mais equilibrado da trupe, oferecendo a seu Lloyd Fellowes um misto de tranquilidade externa e turbilhão interior a que apenas a plateia tem acesso. E Caine, com sua generosidade, foi o responsável por um dos grandes acertos do filme: a escalação do ator Denholm Elliott.

Amigo de Michael Caine desde que contracenaram em "Como conquistar as mulheres" (1966), o britânico Elliott havia descoberto pouco tempo antes que era portador do vírus da AIDS - uma doença ainda cercada de extremo preconceito no começo dos anos 1990. Sabendo da situação do amigo, e de sua potencial dificuldade em encontrar trabalho a partir dali, Caine - que já o havia derrotado na disputa pelo Oscar de coadjuvante de 1986 - condicionou sua participação em "Impróprio para menores" à contratação do colega para o papel que John Gielgud havia recusado. Condição aceita, Elliott entregou uma performance inspirada que seria a sua última: ele morreu meses depois da estreia do filme e Caine, por sua vez, entraria em um período prolífico da carreira a partir de seu segundo prêmio da Academia, por "Regras da vida" (1999). Peter Bogdanovich, por sua vez, jamais recuperaria seu status de grande diretor, acumulando uma sucessão de fracassos até sua morte, em janeiro de 2022.

PARENTE É SERPENTE


PARENTE É SERPENTE (Parenti serpenti, 1992, Clemi Cinematografica, 105min) Direção: Mario Monicelli. Roteiro: Carmine Amoroso, Suso Cecchi D'Amico, Piero De Bernardi, Mario Monicelli, estória de Carmine Amoroso. Fotografia: Franco Di Giacomo. Montagem: Ruggero Mastroianni. Música: Rudy De Cesaris. Figurino: Lina Nerli Taviani. Direção de arte/cenários: Franco Velchi/Livia Del Priore. Produção Giovanni Di Clemente. Elenco: Tommaso Bianco, Renato Cecchetto, Marina Confalone, Alessandro Haber, Cinzia Leone, Eugenio Masciari, Paolo Panelli, Monica Scattini, Pia Velsi. Estreia: 26/3/92

Um dos mais celebrados cineastas italianos do pós-guerra, Mario Monicelli forjou seu nome na história graças a filmes que entraram para o inconsciente coletivo das plateias, como "O incrível exército Brancaleone" (1966) e "Quinteto irreverente" (1982), que explicitam seu estilo direto e sardônico ao retratar personagens banais e frequentemente falíveis. Com três produções indicadas ao Oscar de melhor filme estrangeiro - "Big deal on Madonna Street" (1958), "A grande guerra" (1959) e "The girl with a pistol" (1968) - e outras duas indicações à estatueta de roteiro original, Monicelli construiu, em mais de seis décadas, uma filmografia dedicada a prescutar a alma humana, sempre de forma bem-humorada mas paradoxalmente carinhosa. Sem pensar em aposentadoria mesmo na idade em que muitos já estavam descansado e contando o vil metal, ele surpreendeu a todos quando, em 1992, aos 77 anos, lançou mais um de seus petardos. Irônico e quase amargo, "Parente é serpente" tornou-se mais um de seus sucessos, dessa vez mirando sua atenção a um símbolo da estabilidade da sociedade: a família.

Subvertendo o otimismo e a delicadeza de filmes de Natal - aqueles com finais felizes e recheados de boas intenções -, "Parente é serpente" é narrado pelo pequeno Mauro (Riccardo Scontrini) , que com seu ponto de vista ingênuo não percebe o quão frágil é a aparente normalidade de sua vasta família - idiossincrática, um tanto hipócrita e repleta de pequenos atos de mesquinhez, disfarçados por uma religiosidade tradicionalista e uma série de rituais anuais. É no Natal que acontece um dos raros encontros de todas as ramificações do clã dos Colapietro - pais idosos, quatro filhos de meia-idade e dois netos em fase de transição (de graus variados) para a adolescência. Saverio (Paolo Panelli) e Trieste (Pia Velsi) vivem sozinhos na casa onde criaram os filhos e que não pode ser exatamente descrita como confortável - o aquecimento é falho, as acomodações nem sempre são ideais e sua distância das casas dos rebentos é um incômodo pouco mencionado. Para comemorarem a data festiva, todos se reúnem. A filha mais velha, Lina (Marina Confalone), mãe de Mauro, é hipocondríaca e mal consegue esconder uma certa inveja da cunhada, Gina (Cinzia Leone), uma mulher sofisticada que não se conforma com a falta de vaidade da única filha, Monica (Eleonora Alberti) - que sonha ser bailarina mas não abre mão dos prazeres da gula. A irmã de Lina é Milena (Monica Scattini), que sofre com a incapacidade de engravidar e com a possibilidade de tal problema afetar seu casamento com o suave Filippo (Renato Cecchetto). O único solteiro do grupo é Alessandro (Eugenio Masciari), um professor que mora sozinho enquanto não encontra "a mulher certa". O reencontro, marcado pelos tradicionais momentos nostálgicos, pela missa do galo e pela comilança generalizada é finalizado, no entanto, com uma bomba detonada pelos patriarcas: com medo das limitações que os anos vindouros podem trazer, eles resolveram - unilateralmente, é claro - que irão morar com um dos filhos. Cabe aos rebentos apenas decidirem qual deles será o felizardo a ter a vida alterada pela nova configuração familiar.

 

A partir do anúncio feito por Saverio e Trieste, o tom de "Parente é serpente" fica ainda mais amargo - apesar de não abandonar o humor, dessa vez com origem em uma série de revelações inesperadas e um ritmo mais apurado. Se até então as rachaduras na estrutura familiar estavam disfarçadas pelas regras de etiqueta natalina e os ressentimentos pareciam definitivamente enterrados, a notícia dada pelos pais transforma a aparente cordialidade fraternal em um campo de guerra. Cada um tem seus motivos para não desejarem a convivência diária com os genitores - que vão desde a falta de espaço e privacidade até a possibilidade de terem descobertos seus segredos mais profundos. Os embates - até então discretos e embalados pelo senso de preservação - se tornam mais raivosos (e por consequência mais propensos à agressão). E ninguém parece disposto a abrir mão das pretensas liberdades, nem mesmo com a chance de ficar com o apartamento prometido como forma de abono. E é nesse ato final que a ferocidade do humor de Mario Monicelli fica ainda mais evidente, desvelando sem medo a hipocrisia que cerca os núcleos familiares: os diálogos (deliciosos em sua sordidez) encontram eco em uma direção de atores precisa, que explora o melhor de cada um dos atores, dando a todos um momento de brilho. Como em uma boa peça de teatro, o roteiro vai crescendo até o clímax - uma mescla surpreendente de ironia e melancolia que encerra a narrativa com chave de ouro, além de reforçar o impecável tom de humor sombrio.

Mesmo não sendo o mais popular ou influente filme da carreira de Monicelli, "Parente é serpente" é uma produção que jamais envergonha sua obra pregressa. Inteligente, sarcástico e dotado de uma boa dose de cinismo, o resultado final conquista ao revelar em seus personagens (falíveis, dúbios, capazes de grandezas e mesquinharias) um espelho dos espectadores. Sem heróis ou vilões, o filme se utiliza do humor como ferramenta para discutir - sem falsos moralismos - as relações familiares, a velhice, a intolerância e a superficialidade da vida de aparências. O final - que flerta com o absurdo, mas sempre com os pés firmes no chão - é um primor de coragem mesmo em um mundo ainda longe das limitações do politicamente correto. É Mario Monicelli em seu melhor!

sexta-feira

MUDANÇA DE HÁBITO

 


MUDANÇA DE HÁBITO (Sister act, 1992, Touchstone Pictures, 100min) Direção: Emile Ardolino. Roteiro: Paul Rudnick (como Joseph Howard). Fotografia: Adam Greenberg. Montagem: Richard Halsey. Música: Marc Shaiman. Figurino: Molly Maginnis. Direção de arte/cenários: Jackson De Govia/Thomas L. Roysden. Produção executiva: Scott Rudin. Produção: Teri Schwartz. Elenco: Whoopi Goldberg, Maggie Smith, Harvey Keitel, Bill Nunn, Kathy Najimy. Estreia: 29/5/92

Algumas comédias, por razões diversas, conseguem a façanha de dar certo a despeito de serem construídas sobre a frágil base de uma piada única. "Mudança de hábito" é um desses milagres. Lançado sem grandes expectativas no outono americano de 1992, o filme produzido pela Touchstone Pictures tornou-se um dos maiores sucessos de bilheteria de um ano  repleto de cartas marcadas, como "Batman: o retorno" e "Máquina mortífera 3". A explicação possível para tamanho êxito? O carisma exuberante de Whoopi Golberg: fresquinha do Oscar de coadjuvante por "Ghost: o outro lado da vida" (1990), a atriz revelada por Steven Spielberg em "A cor púrpura" (1985) demonstrou, ao exibir seus dons cômicos e musicais, poder suficiente para protagonizar produções comerciais para toda a família. É impossível não se deixar cativar por Goldberg, capaz de chamar os holofotes para si mesmo ao lado de atores excepcionais como Maggie Smith e Harvey Keitel.

Um projeto que remete a 1987 - e que sofreu um processo por plágio, encerrado após a recusa de um acordo com os requerentes -, "Mudança de hábito" seria um veículo para o estrelato de Bette Midler, então o grande nome feminino do estúdio. Sua desistência acabou por acarretar diversas mudanças no roteiro conforme o tempo passava - e nomes importantes, como Nancy Meyers e Carrie Fisher estiveram envolvidas nas mudanças que acabaram, segundo o roteirista original, Paul Rudnick, desfigurando o material original a ponto de fazê-lo assinar os créditos com um pseudônimo. E se a presença de Goldberg ajudou no sucesso comercial do filme, seu relacionamento com o diretor Emile Ardolino - mais conhecido por "Dirty dancing: ritmo quente" (1987) - não foi das melhores, principalmente devido às interferências da atriz no roteiro. Tais dificuldades, no entanto, acabaram não transparecendo no resultado final: leve e divertido, "Mudança de hábito" conquista desde as primeiras cenas, e se não deixa de ser um tanto previsível, ao menos não tenta parecer  mais inventivo do que realmente é.

 

A trama gira em torno de Deloris Van Cartier (vivida com graça e verve por Goldberg), que vive como cantora em Reno, Nevada, onde tenta convencer o namorado, Vince LaRocca (Harvey Keitel), a abandonar a esposa para assumir seu relacionamento. Em uma noite como tantas outras, porém, Deloris dá de cara com LaRocca assassinando um empregado, o que a faz cair na real de que o amante é um gângster perigoso e com sérios problemas na justiça. Com medo de também ser morta, ela procura a polícia e, a contragosto, é convencida a esconder-se até que possa prestar depoimento e colocar o criminoso na cadeia. Mas se já não estava feliz com o fato de ter que sumir do mapa, a pouco confiável Deloris entra em pânico quando descobre que irá ficar por meses em um convento. Sob as ordens da pouco amistosa Madre Superiora (Maggie Smith), ela assume o nome de Irmã Mary Clarence e, a princípio revoltada com as rígidas regras do local, aos poucos descobre uma missão quase impossível: transformar o coral das freiras - desafinado, apático e desacreditado - em uma nova potência. Mas é claro que LaRocca não está disposto a desistir de encontrar a testemunha de seu crime...

E é só isso. A piada única - o confronto entre a dionisíaca Deloris e a paz quase celestial do convento - se estende por 100 minutos, sem aprofundamento de nenhum tipo. Logicamente não se pode esperar tratados éticos/religiosos em uma comédia feita para se assistir comendo pipoca, mas faz falta um embate maior entre a protagonista e a Madre Superiora (Maggie Smith sempre esplêndida, mas dessa vez subaproveitada) e até um tempo maior no desenvolvimento de sua amizade com as outras freiras - é decepcionante, por exemplo, que a ótima Kathy Najimy seja desperdiçada. É falta de ousadia, inclusive, ter uma protagonista envolvida em casas noturnas, crimes, bebida e drogas sem que tal assunto seja sequer mencionado de forma mais adulta - mais uma vez a classificação etária e o puritanismo hollywoodiano (em especial da Touchstone) sepultaram o que poderia render ótimos momentos de humor. É de se imaginar o que faria o espanhol Pedro Almodóvar, cotado para dirigir o filme depois do sucesso internacional de seu "Mulheres à beira de um ataque de nervos" (1988).

E para encerrar, uma curiosidade das mais inusitadas: enquanto começava a escrever o primeiro tratamento de seu roteiro, Paul Rudnick recebeu, de Bette Midler, o conselho de visitar um convento verdadeiro, para conhecer melhor sua rotina. Ideia aceita, Rudnick foi até um convento em Connecticut e descobriu que sua Madre Superiora, Dolores Hart, havia trabalhado, na juventude, em Hollywood: atriz, cantora e dançarina, fez parte do elenco de algumas produções, como "Balada sangrenta" (1958) e é, ainda hoje, membro da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, com direito a voto no Oscar.

segunda-feira

CORPO EM EVIDÊNCIA

 


CORPO EM EVIDÊNCIA (Body of evidence, 1992, Constantin Film/Dino De Laurentiis Company, 99min) Direção: Uli Edel. Roteiro: Brad Mirman. Fotografia: Douglas Milsome. Montagem: Thom Noble. Música: Graeme Revell. Figurino: Susan Becker. Direção de arte/cenários: Victoria Paul/Jerie Kelter. Produção executiva: Stephen Deutsch, Melinda Jason. Produção: Dino De Laurentiis, Martin Moscowicz. Elenco: Madonna, Willem Dafoe, Joe Mantegna, Jurgen Prochnow, Frank Langella, Anne Archer, Julianne Moore. Estreia: 15/01/93

Apenas noventa dias separam o lançamento do livro "Sex", do álbum "Erotica" e do filme "Corpo em evidência" e este fato não é mera coincidência. Além de girarem em torno de sexo (em suas mais complexas variações), os três produtos tem algo mais em comum: a cantora/atriz Madonna, então no auge de sua cruzada contra o conservadorismo e a hipocrisia vigente no mundo em geral e nos EUA em particular. Dirigido pelo alemão Uli Edel e produzido pelo veterano Dino De Laurentiis (que escolheu a estrela pop pessoalmente para o projeto), "Corpo em evidência" serviu como uma luva para os interesses messiânicos da artista, mas acabou se espatifando nas bilheterias. Com uma renda mundial de apenas 13 milhões de dólares - nem metade de seu custo - e críticas nem um pouco alvissareiras (em especial relacionadas ao fraco desempenho de sua atriz central), o filme acabou se tornando um dos maiores fiascos da década de 1990 e provou que, apesar do descomunal talento de Madonna em provocar e despertar polêmicas (além de suas óbvias qualidades musicais), sua trajetória no cinema ainda era um desafio a ser vencido. E nem mesmo a presença de atores respeitados como Willem Dafoe e Frank Langella conseguiu salvar o filme do desastre.

Assim como em "Instinto selvagem" - grande sucesso lançado meses antes e que também se utilizava do erotismo como chamariz de bilheteria -, "Corpo em evidência" lança mão de elementos policiais para contar uma história repleta de reviravoltas e com uma protagonista feminina de comportamento dúbio e sexualmente agressivo. Aqui a personagem central é Rebecca Carlson, a dona de uma galeria de arte que é acusada de provocar a morte de seu amante mais velho, Andrew Marsh (Michael Foster), vítima de um ataque cardíaco fulminante depois de uma agitada noite de sexo. O fato de cocaína ser encontrada no organismo da vítima - o que apressou a tragédia - e a notícia de que Rebecca é a maior beneficiária de seu testamento bastam para que a polícia a indicie e a leve a julgamento. Para defendê-la, Rebecca contrata os serviços do conservador Frank Dulaney (Willem Dafoe), que acaba sendo enredado em uma teia de sedução engendrada por sua cliente: os dois iniciam uma relação baseada em dominação e sexo violento, situação que o faz questionar a inocência de sua cliente. Conforme o relacionamento vai avançando, Dulaney parte em busca da verdade, que pode estar ligada à secretária de Marsh, a bela e discreta Joanne Braslow (Anne Archer).

 

Centrado em sequências que usam e abusam do corpo de Madonna e de sua falta de pudor em testar os limites da censura - o filme teve cenas cortadas em sua exibição nos EUA -, "Corpo em evidência" peca, no entanto, em desenvolver a contento os conflitos paralelos de sua trama. Não há profundidade alguma no roteiro de Brad Mirman, que perde preciosas oportunidades de explorar a tensa relação entre seus protagonistas - tanto em termos sexuais quanto éticos - e seus desdobramentos dramáticos (Julianne Moore interpreta a esposa de Dulaney, mas é subaproveitada em cenas quase constrangedoras). A trama policial tampouco é empolgante, caminhando em um ritmo que impede a conexão do espectador - e portanto seu interesse. Edel não consegue nem mesmo transformar as cenas eróticas em algo sexy, com uma fotografia escura que esconde os corpos de Madonna e Defoe mesmo em seus momentos mais quentes. Também não ajuda em nada o texto repleto de clichês e a atuação quase mecânica de seus atores - a começar por Madonna, incapaz de convencer como mulher fatal apesar de seus nítidos esforços. Nem particularmente bonita ela está, prejudicada por um figurino sóbrio em excesso, que apaga seu carisma de estrela - algo que ela recuperaria poucos anos depois, quando assumiu o papel-título do musical "Evita" (1996) e chegou a ganhar um Golden Globe de melhor atriz.

Para quem não exige muito de um filme policial com pitadas de erotismo, "Corpo em evidência" pode agradar, justamente por não tentar fugir dos elementos clássicos do gênero e tentar surpreender com um final tirado da manga. Como cinema é bastante problemático - desde o roteiro morno até a direção apática - e nem mesmo a oportunidade de discutir a polêmica prática do sadomasoquismo é aproveitada de forma inteligente. Não fosse a ousadia de apresentar cenas mais adultas do que a maioria das produções hollywoodianas, seria uma produção bastante esquecível - se não absolutamente medíocre. E não deixa de ser sintomático que um filme policial seja mais lembrado por uma sequência específica - Madonna queimando o peito de Willem Dafoe com cera quente - do que por sua trama.

quarta-feira

AS BARREIRAS DO AMOR

 


AS BARREIRAS DO AMOR (Love field, 1992, Orion Pictures, 105min) Direção: Jonathan Kaplan. Roteiro: Don Roos. Fotografia: Ralf D. Bode. Montagem: Jane Kurson. Música: Jerry Goldsmith. Figurino: Collen Atwood, Peter Mitchell. Direção de arte/cenários: Mark Freeborn/Jim Erickson. Produção executiva: George Goodman, Kate Guinzburg. Produção: Sarah Pillsbury, Midge Sanford. Elenco: Michelle Pfeiffer, Dennis Haysbert, Stephanie McFadden, Brian Kerwin, Louise Latham, Beth Grant. Estreia: 11/12/92

Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Michelle Pfeiffer)

Vencedor do Urso de Prata (Melhor Atriz) no Festival de Berlim (Michelle Pfeiffer) 

Coisas de Hollywood: pronto para ser lançado em 1990, o drama "As barreiras do amor" - primeiro filme da produtor da atriz Michelle Pfeiffer, a Via Rosa - acabou sendo guardado em uma gaveta da Orion Pictures enquanto o estúdio enfrentava uma série de dificuldades financeiras que quase o levaram à falência. Sua demora em estrear, no entanto, mostrou-se providencial: o desempenho de Pfeiffer acabou por dar a ela o prêmio de melhor atriz no Festival de Berlim e indicações ao Golden Globe e ao Oscar - um currículo que destaca o que a produção tem de melhor. Apesar de suas boas intenções, o filme de Jonathan Kaplan não consegue deixar de dar a impressão de ser um telefilme de luxo, com ritmo irregular e situações repletas de clichês. 

A trama se passa em 1963, durante um conturbado período, repleto de revoltas por direitos civis e por manifestações contrárias à Guerra do Vietnã. Praticamente alheia aos problemas do país, a cabeleireira Lurene Hallett (Michelle Pfeiffer) vive uma rotina centrada no trabalho, na vida conjugal ao lado do marido, Ray (Brian Kerwin), e principalmente em sua dedicação quase doente por Jackie Kennedy - a quem admira por, entre outras razões, ter sobrevivido dignamente a um aborto espontâneo, como ela. A chance de ver de perto a mulher por quem é quase obcecada acontece com a visita do presidente e da primeira-dama à sua cidade, Dallas - uma visita que acaba tragicamente, com o assassinato de JFK. Arrasada, Lurenne resolve comparecer ao funeral, em Washington, apesar da proibição do marido. No ônibus que a leva até a capital do país ela conhece Paul Cater (Dennis Haysbert), um rapaz negro que está viajando ao lado da filha pequena, Jonell (Stephanie McFadden), uma criança calada e estranhamente nervosa. Sentindo que há algo de errado na relação entre os dois, a jovem acaba por envolvê-los em um mal-entendido que os leva a virar alvo da polícia - pouco afeita a respeitar cidadãos a quem considera inferiores.

 

Ao relembrar ao público norte-americano um de seus maiores traumas - vale lembrar que foi realizado antes do estupendo "JFK: a pergunta que não quer calar" (1991), de Oliver Stone - e tocar em uma de suas feridas mais profundas (o racismo), "As barreiras do amor" acrescenta um elemento novo a um subgênero dos mais queridos do cinema - o road movie -, convidando o público a acompanhar personagens que vão revelando aos poucos camadas que fazem deles seres bem mais complexos do que em uma primeira constatação. Pfeiffer consegue sair facilmente do tipo femme fatale que a acompanhava até então ao imprimir em sua Lurenne um tom de futilidade e ingenuidade que vai sendo substituída gradualmente pela sensação de desamparo e percepção de um mundo que foge de seu dia-a-dia açucarado: seu trabalho é primoroso, especialmente na transição entre dona-de-casa deslumbrada para uma mulher que encara o próprio sofrimento e vê diante de si um mundo de injustiças e violência. Dennis Haysbert - substituindo Denzel Washington, que abandonou o projeto pelas famosas "divergências artísticas" - não fica atrás, com uma interpretação silenciosa e discreta, em que comunica mais com o olhar do que com longos diálogos (ainda que, quando necessário, também saiba demonstrar a dimensão de seu talento). Completando o trio de protagonistas, a pequena Stephanie McFadden não se deixa intimidar por seus colegas veteranos, transmitindo em suas feições delicadas um mundo de medo e traumas que vão se revelando conforme a estrada vai ficando para trás.

Uma pena, porém, que a direção de Jonathan Kaplan seja tão quadrada. Não é preciso que haja grandes ousadias em um filme cujo roteiro (escrito por Don Roos, que mais tarde assinaria a direção de "O oposto do sexo", de 1998, e "Finais felizes", de 2005) segue todas as regras já conhecidas pelo grande público, mas Kaplan simplesmente evita qualquer desvio no que se poderia esperar do percurso dos personagens - e uma edição mais enxuta talvez resolvesse parte do problema de ritmo que acomete a produção em seu segundo ato. Comentado por uma trilha sonora atípica de Jerry Goldsmith, "As barreiras do amor" é um filme agradável e bem realizado, mas que não atinge todo o seu potencial e não consegue escapar de seu destino de ser um trabalho pouco memorável na carreira dos envolvidos.

segunda-feira

JOGOS DE ADULTOS

 


JOGOS DE ADULTOS (Consenting adults, 1992, Hollywood Pictures, 99min) Direção: Alan J. Pakula. Roteiro: Matthew Chapman. Fotografia: Stephen Goldblatt. Montagem: Sam O'Steen. Música: Michael Small. Figurino: Gary Jones, Ann Roth. Direção de arte/cenários: Carol Spier/Gretchen Rau. Produção executiva: Pieter Jan Brugge. Produção: Alan J. Pakula, David Permut. Elenco: Kevin Kline, Mary Elizabeth Mastrantonio, Kevin Spacey, Forest Whitaker, Rebecca Miller. Estreia: 16/10/92

Em 1982, o diretor Alan J. Pakula assinou uma de suas obras-primas, "A escolha de Sofia", que rendeu o Oscar de melhor atriz à Meryl Streep e marcou a estreia de Kevin Kline no cinema. Dez anos depois, cineasta e astro voltaram a se encontrar em "Jogos de adultos" - mas, já com Kline consagrado com uma estatueta de coadjuvante por "Um peixe chamado Wanda" (1988), o reencontro ficou muito longe de ser memorável. Vindo do sucesso apenas razoável de "Acima de qualquer suspeita" (1990) - que tornou anêmico o romance best-seller de Scott Turow - e antes de unir Julia Roberts e Denzel Washington na versão cinematográfica de "O Dossiê Pelicano", de John Grisham, Pakula decepcionou crítica e público com uma produção insossa que em momento algum lembra o brilhantismo de seus melhores trabalhos. Com um roteiro preguiçoso que praticamente evita qualquer tipo de suspense e uma direção quase mecânica, "Jogos de adultos" falha em todos os quesitos - e nem a presença de um iniciante Kevin Spacey oferece maiores motivos de entusiasmo.

A trama começa de forma promissora: entediados com a vida doméstica e com a solidão a dois imposta pela ida da filha à universidade, o casal formado por Richard e Priscilla Parker (Kevin Kline e Mary Elizabeth Mastrantonio) vê sua rotina alterada pela chegada à vizinhança de outro casal, bem menos convencional. Eddy e Kay Otis (Kevin Spacey e Rebecca Miller) não apenas se tornam amigos próximos mas também apresentam aos vizinhos um estilo de vida mais leve e divertido - e até mesmo quando Eddy demonstra não ser exatamente uma pessoa muito ética profissionalmente isso não atrapalha suas relações. A coisa começa a mudar de figura, porém, quando o simpático e sedutor novo amigo surge com uma ideia ousada: percebendo a atração de Richard por sua mulher e ele próprio encantado por Prsicilla, Eddy propõe uma troca de casais. Depois de muito hesitar, Richard aceita a proposta - mas quando Kay aparece violentamente assassinada, ele passa a ser o principal suspeito. Certo de que Eddy tem responsabilidade pelo crime, o até então pacato compositor de jingles comerciais luta para provar sua inocência e comprovar a culpa de seu carismático vizinho - agora viúvo e apaixonado por Priscilla.

 

Chega a ser inacreditável que um cineasta do porte de Pakula, que dotou produções como "A trama" (1974) e "Todos os homens do presidente" (1976) de um senso impecável de ritmo, seja o mesmo de "Jogos de adultos": com uma direção sem criatividade e uma edição monótona que impede qualquer chance de despertar interesse no espectador, seu filme sofre de uma absoluta falta de energia. Anêmico a ponto de anestesiar até mesmo aos normalmente bons atores que tem em mão - além dos dois Kevins o elenco conta ainda com Forest Whitaker -, o compasso do roteiro de Matthew Chapman (que mais tarde cometeria o problemático "A cor da noite", estrelado por Bruce Willis em 1994) não permite qualquer envolvimento do público, perdido (no pior sentido da palavra) em uma trama cuja reviravolta é previsível ainda no primeiro ato. Sem aprofundar nenhuma das questões levantadas em seu começo - a crise no casamento dos protagonistas, a personalidade dúbia do vilão, as engrenagens da justiça -, sua história peca principalmente ao negar à audiência os principais elementos de um filme de suspense: o mistério e a catarse: fica evidente desde os primeiros minutos que Eddy não é flor que se cheire e que sua insistência em movimentar a vida amorosa dos dois casais tem segundas e terceiras intenções, e o roteiro não faz a menor questão de subverter expectativas ou tomar rumos que não os mais óbvios. E isso sem falar no ato final, de uma pobreza criativa sem tamanho.

É uma pena que a soma de tantos talentos não impeça que "Jogos de adultos" seja uma produção tão esquecível - para não dizer medíocre. Nem mesmo Kevin Kline e Kevin Spacey, conhecidos por seus dotes dramáticos, conseguem oferecer qualquer tipo de energia que amenize a sensação de apatia que perpassa todos os 99 minutos (que parecem ser mais longos do que o normal) de projeção. Uma mancha desnecessária no currículo de todos os envolvidos.

domingo

O MISTÉRIO DE CANDYMAN


O MISTÉRIO DE CANDYMAN (Candyman, 1992, TriStar Pictures, 99min) Direção: Bernard Rose. Roteiro: Bernard Rose, conto "The forbidden", de Clive Barker. Fotografia: Anthony B. Richmond. Montagem: Dan Rae. Música: Philip Glass. Figurino: Leonard Pollack. Direção de arte/cenários: Jane Ann Stewart/Kathryn Peters. Produção executiva: Clive Barker. Produção: Steve Golin, Alan Poul, Sigurjon Sighvatsson. Elenco: Virginia Madsen, Tony Todd, Xander Berkeley, Vanessa Williams, Kasi Lemmons, DeJuan Guy. Estreia: 11/9/92 (Festival de Toronto)

Quando surgiu, no conto "The forbidden", do britânico Clive Barker, o personagem Candyman tinha características físicas bastante específicas: tinha uma cor amarela sobrenatural e uma barba ruiva. Quando chegou às telas de cinema, em 1992, pelas mãos do cineasta Bernard Rose, porém, não apenas a localização de sua lenda era distinta do original, mas também seu visual: transferido de Liverpool, na Inglaterra, para uma Chicago distante dos pontos turísticos, Candyman transmutou-se em um homem negro, alto e com um passado trágico que afetava diretamente sua mitologia. Com um aspecto quase romântico que remetia a vilões sedutores como Drácula, o protagonista de "O mistério de Candyman" acabou por fazer história também por motivos polêmicos: enquanto muitos louvavam o fato de um ator negro (Tony Todd) assumir um papel até então inédito para afrodescendentes (o protagonista de um slasher movie), muitos outros reclamavam da possibilidade da ideia reforçar estereótipos negativos a respeito de uma minoria frequentemente vista como ameaça. Controvérsias à parte - algumas até mesmo risíveis -, o filme de Rose não fez feio: rendeu quatro vezes o seu custo, entrou na invejada relação de cult movies, rendeu duas continuações (e um reboot lançado em 2021) e aferrou-se no inconsciente coletivo dos fãs do gênero.

Tratado com uma seriedade rara de se encontrar nos filmes de terror dos anos 1990, "O mistério de Candyman" é, na verdade, o encontro de duas ideias que, juntas, acabaram por ser a base de um roteiro que consegue, ao mesmo tempo, fortalecer os cânones do gênero e despertar discussões sociais - bem mais aprofundadas no filme de 2021 mas já com suas sementes lançadas no primeiro capítulo. Ao enredo de Barker, que versava sobre a luta de classes na Inglaterra da década de 1970 por trás de uma história de horror, foram acrescentados, com a mudança geográfica, elementos que davam foco a questões raciais e violência urbana, temas prementes nos EUA à época: vale lembrar que o espancamento de Rodney King, em Los Angeles - o estopim de uma série de distúrbios que sacudiram o país - aconteceu apenas um ano e meio antes da estreia do filme de Rose. Ao transferir a ação da narrativa de Liverpool para um conjunto habitacional nos subúrbios de Chicago, o roteiro não apenas optou por aproximá-la de um cenário mais familiar a este tipo de tensão como também utilizou-se da locação real de um homicídio que abalou a cidade em 1987: uma mulher chamada Ruthie Mae McCoy foi violentamente assassinada em seu apartamento por um homem que entrou em seu banheiro por um buraco atrás do espelho - um crime verdadeiro que não apenas serviu de inspiração como foi incorporado à trama de forma orgânica.

 

Apesar de Candyman ser o protagonista do filme de Rose, ele não aparece em cena antes de 40 minutos de projeção. Quem assume o posto de personagem central até então é Helen Lyle (Virginia Madsen no papel mais popular de sua carreira), uma estudante que, debruçada em suas pesquisas sobre folclore urbano, passa a dedicar-se a investigar a lenda de um homem que, tendo seu nome citado cinco vezes diante do espelho, o atravessa e mata suas vítimas com um gancho que tem no lugar de uma das mãos. A origem de Candyman vem da época da escravidão - mas Helen quer provar, sem espaço para dúvidas, de que tudo não passa mesmo de uma história para ser contada em rodas de acampamento. Com a ajuda de sua amiga, Bernardette (Kasi Lemmons), ela chega até Cabrini-Green, o conjunto habitacional que foi local de um suposto ataque da violenta entidade mística. Ao penetrar em um universo onde a violência e o descaso das autoridades são moedas correntes, Helen se vê envolvida em uma série de assassinatos que aparentemente tem ligação com a lenda que ela pretende desacreditar.

A maior qualidade do filme de Bernard Rose - um cineasta britânico que poucos anos depois assinaria uma biografia romanceada de Beethoven, chamada "Minha amada imortal" (1995) - é se levar a sério. Em uma época em que o cinema de terror frequentemente apostava no humor como elemento indispensável para conquistar plateias cada vez mais jovens, "O mistério de Candyman" aposta em um tom sóbrio, valorizado pela trilha sonora de Philip Glass e pela fotografia de Anthony B. Richmond. A escolha de Tony Todd para viver o personagem central - que quase ficou nas mãos de Eddie Murphy - é outro acerto admirável, a ponto de tornar o ator um dos rostos mais conhecidos do gênero. Também é louvável a intenção do roteiro em discutir (ainda que timidamente) questões raciais - a própria Helen se revolta ao perceber que somente o ataque a uma mulher branca que obriga a polícia a agir positivamente no gueto. Violento e tenso - com sequências bastante sangrentas e um final surpreendente -, "O mistério de Candyman" é uma produção rara, feita com capricho e com intenções de afirmar seu anti-herói no rol dos maiores vilões do gênero. Mesmo sofrendo críticas pesadas à sua opção de transformá-lo em negro - o cineasta Carl Franklin chegou a afirmar que o filme "joga com o medo que a classe média branca sente dos negros" -, Bernard Rose tem o mérito nada desprezível de fazer de um filme de terror um motivo de discussão. Poucos filmes - de quaisquer gêneros - podem se gabar disso.

quinta-feira

OBSESSÃO FATAL

OBSESSÃO FATAL (Unlawful entry, 1992, 20th Century Fox, 117min) Direção: Jonathan Kaplan. Roteiro: Lewis Colick, estória de George D. Putnam, John Katchmer, Lewis Colick. Fotografia: Jamie Anderson. Montagem: Curtiss Clayton. Música: James Horner. Figurino: April Ferry. Direção de arte/cenários: Lawrence G. Paull/Rick Simpson. Produção: Charles Gordon. Elenco: Kurt Russell, Ray Liotta, Madeleine Stowe, Roger E. Mosley, Ken Lerner, Deborah Offner, Carmen Argenziano. Estreia: 26/6/92

Em 3 de março de 1991, um dos acontecimentos mais infames da história da polícia de Los Angeles rodou o mundo: o espancamento violento e cruel de Rodney King, um taxista negro, acusado de dirigir em alta velocidade, por quatro agentes brancos. A indignação apenas aumentou, quando, no final de abril de 1992, os policiais foram absolvidos por um júri popular: uma onda de rebeliões por toda a Califórnia durou três dias em que confrontos, incêndios, saques e depredações mostraram a revolta da população afro-americana, causando mortes e destruição - e resultando, de forma indireta, como uma espécie de compensação, na absolvição do ex-jogador de futebol O.J. Simpson por duplo homicídio, em 1995. Não era exatamente um período apropriado para a estreia de um filme que tratava justamente de abuso policial - mas mesmo assim, a 20th Century Fox correu o risco e lançou "Obsessão fatal", um suspense dirigido pelo veterano Jonathan Kaplan que não tinha medo de eleger como vilão alguém que deveria (ao menos no imaginário do cinema popular) ser o herói. A crítica se dividiu, o público também, e o filme arrecadou quase 60 milhões de dólares nas bilheterias. Nada mal para um filme que, mesmo longe de ser memorável, ousou em mostrar o outro lado da moeda - exatamente em uma época em que este lado se revelava tão dúbio.

Lançado no mesmo ano em que o cineasta Jonathan Kaplan também estreou seu "Love field: as barreiras do amor" - que deu à Michelle Pfeiffer uma indicação ao Oscar de melhor atriz -, "Obsessão fatal" é um filme de gênero, sem ambições de revolucionar o cinema ou chegar às cerimônias de premiação (ainda que Ray Liotta tenha sido indicado ao MTV Movia Awards na categoria de Melhor Vilão). Com personagens bem definidos entre bem e mal e uma narrativa clássica e sem sobressaltos, o roteiro segue o padrão dos filmes policiais hollywoodianos, inovando apenas na inversão de papéis e questionando até que ponto o cidadão comum está realmente a salvo quando nas mãos da autoridade oficial. Um questionamento importante - e que por pouco não foi enfatizado com a presença de Kevin Costner (então a personificação do homem americano médio) no elenco: assim como Jeff Bridges e Bill Pullman (pré-sucesso de "Independence Day"), Costner foi considerado para o papel principal do filme, que acabou nas mãos bastante competentes de Kurt Russell, e é de imaginar como seria a reação do público ao ver nas telas o seu herói patriota e de dignidade ilibada enfrentando o mal fardado. Levando-se em consideração o ponto de ebulição pelo qual passavam os EUA à época, porém, foi até melhor que o namoradinho da América (recém oscarizado por "Dança com lobos") tenha preferido um outro viés para tocar no inconsciente do país, estrelando o romance interracial "O guarda-costas", ao lado da cantora Whitney Houston, e levando multidões às salas de exibição.


Ray Liotta - que também não foi a escolha inicial para o papel do vilão, já que Mel Gibson, John Travolta, Tom Berenger e Charlie Sheen recusaram a proposta - dá seguimento a sua tendência em interpretar personagens ameaçadores com uma composição exata entre gentileza e violência (ao menos até o clímax um tanto exagerado). No filme de Kaplan, ele vive o policial Pete Davis, o atencioso agente da lei que ajuda o casal Carr em um momento de angústia, quando eles tem sua casa invadida por um estranho. Prestimoso ao extremo, ele orienta Michael (Kurt Russell) na instalação de sistemas de segurança e, aos poucos, torna-se um amigo sempre disposto a colaborar em qualquer circunstância. Elogiado por Carr a seus superiores, Davis passa inclusive a frequentar os mesmos ambientes do casal - especialmente porque sente-se irremediavelmente atraído pela bela Karen (Madeleine Stowe), com quem tenta iniciar um flerte. Tal constatação e um episódio de violência testemunhado por Michael faz com que ele resolva afastar-se do policial, mas esbarra em um grande problema: como proteger-se de alguém que deveria justamente ser a sua proteção?

Apesar do tema altamente inflamável, Jonathan Kaplan não se aprofunda na questão principal a ser discutida, preferindo seguir o caminho do entretenimento. Não é uma opção inválida, uma vez que sua intenção é apenas conduzir a plateia por duas horas de tensão, e ele o faz com relativo sucesso. Liotta deita e rola com seu personagem, enquanto sobra a Russell tomar a dianteira no posto de herói e defender a frágil e bela esposa - Madeleine Stowe, que tem a incumbência de dar vida ao menos ativo dos protagonistas e não faz feio. Entre mortos e feridos, todos se salvam. Mesmo que por vezes seja um tanto previsível, "Obsessão fatal" é um bom filme de suspense, que prende a atenção até os últimos minutos e, de quebra, desmonta a imagem superior e inquebrantável de autoridade constituída tão questionável no momento de sua estreia. Um filme que é, para o bem e para o mal, um retrato de sua época.

terça-feira

HOFFA: UM HOMEM, UMA LENDA

HOFFA: UM HOMEM, UMA LENDA (Hoffa, 1992, 20th Century Fox, 140min) Direção: Danny De Vito. Roteiro: David Mamet. Fotografia: Stephen H. Burum. Montagem: Lynzee Klingman, Ronald Roose. Música: David Newman. Figurino: Deborah Lynn Scott. Direção de arte/cenários: Ida Random/Brian Savegar. Produção executiva: Joseph Isgro. Produção: Caldecot Chubb, Danny De Vito, Edward R. Pressman. Elenco: Jack Nicholson, Danny De Vito, Armand Assante, J.T. Walsh, John C. Reilly, Robert Prosky, Frank Whaley, Bruno Kirby, Kevin Anderson, Paul Guilfoyle. Estreia: 25/12/92

2 indicações ao Oscar: Fotografia, Maquiagem

Para o público brasileiro, o nome de Jimmy Hoffa pode não significar muita coisa, mas para os norte-americanos sua importância é fundamental. Líder do poderoso sindicato dos caminhoneiros entre 1958 e 1971, ele bateu de frente com o então senador Robert Kennedy quando foi acusado de ligações com o crime organizado, foi condenado à prisão e até hoje seu desaparecimento, em 1975, é considerado um dos maiores mistérios policiais dos EUA. Motivo tanto de admiração quanto de desconfiança por suas intenções e métodos pouco ortodoxos, Hoffa acabou sendo tema do filme mais sério do ator/diretor Danny De Vito - que fracassou nas bilheterias e foi praticamente ignorado nas cerimônias de premiação (assim como concorreu ao Golden Globe de melhor ator em drama também recebeu indicações ao Framboesa de Ouro de melhor ator e diretor). Retratado com respeito e sobriedade por De Vito, "Hoffa: um homem, uma lenda" se beneficia do roteiro de David Mamet, da atuação gigantesca de Jack Nicholson e de sua suntuosa fotografia (indicada ao Oscar) para contar uma história que, a despeito de não ser de muito interesse fora dos EUA, é contada de forma correta e inteligente.

Um projeto inicialmente cobiçado por Oliver Stone e Barry Levinson, "Hoffa" custou cerca de 35 milhões de dólares à 20th Century Fox e rendeu pouco mais de 20 milhões no mercado doméstico - o que não chega a ser uma surpresa, haja visto a rejeição do público a filmes com temática política.  A maior surpresa vem do fato de ser dirigido por Danny De Vito, até então o nome por trás de duas comédias de humor negro, "Joga a mamãe do trem" (87) e "A guerra dos Roses" (89): muito mais ambicioso e sério do que em suas incursões anteriores na direção, De Vito demonstra segurança ímpar em desenvolver uma trama repleta de idas e vindas temporais e detalhes a respeito de política americana sem perder o ritmo - ainda que o roteiro de Mamet demore um pouco mais do que deveria para finalmente envolver o espectador e exija da plateia um prévio conhecimento de seus personagens. Com uma maquiagem indicada ao Oscar para transformar-lhe no protagonista, Jack Nicholson está em um grande momento da carreira, engolindo cada cena com os discursos inflamados do sindicalista - seus confrontos com Kennedy (Kevin Anderson) são o ponto alto do filme, oferecendo ao público a dramatização quase literal de um dos duelos políticos mais tensos dos anos 60.





Por incrível que pareça, é o roteiro de David Mamet, um dos mais respeitados dramaturgos americanos de sua geração, um dos problemas de "Hoffa": quando o filme começa, demora a deixar claro para os neófitos quem é o protagonista, quais suas intenções e as circunstâncias de seu relacionamento com o caminhoneiro Bobby Ciaro (Danny De Vito), que acaba por se tornar seu homem de confiança com o passar dos anos. Intercalando passado e presente - quando Hoffa e Ciaro estão em um restaurante à beira da estrada esperando por um encontro de negócios e relembrando sua história -, o roteiro especula sobre o destino do personagem central com um desfecho cru e violento que contrasta com o tom sóbrio e elegante adotado até então. Discordando da versão oficial divulgada pelo FBI, De Vito e Mamet criam um clímax dramaticamente mais envolvente, que surpreende pelo inesperado e pela direção competente. Infelizmente o filme se estende desnecessariamente por duas horas e meia - uma edição mais enxuta, especialmente na primeira parte do filme, faria muito bem ao resultado final e evitaria alguns momentos menos interessantes.

A seu favor, "Hoffa: um homem, uma lenda" tem alguns trunfos redentores: a fotografia de Stephen H. Burum (que perdeu o Oscar para "Nada é para sempre", de Robert Redford) é impecável, em cenas construídas milimetricamente para encher os olhos do espectador; a reconstituição de época também é extremosa e a trilha sonora de Thomas Newman é discreta e pouco invasiva, ajudando a estabelecer o clima de tensão que perpassa todo o filme. No entanto, é a presença de Jack Nicholson que torna a obra de Danny De Vito especial: não à toa, o veterano ator considera Jimmy Hoffa um de seus melhores personagens e uma de suas melhores interpretações. No final das contas, mesmo que tenha seus defeitos de ritmo e seja de interesse restrito, "Hoffa" é um filme acima da média sobre uma das personalidades fundamentais da política norte-americana do século XX.

sábado

MARIDOS E ESPOSAS

MARIDOS E ESPOSAS (Husbands and wives, 1992, TriStar Pictures, 103min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Carlo Di Palma. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Susan Bode. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Woody Allen, Mia Farrow, Judy Davis, Sydney Pollack, Liam Neeson, Juliette Lewis, Ron Rifkin, Blythe Danner. Estreia: 14/9/92 (Festival de Toronto)

2 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Judy Davis), Roteiro Original

Em 1992, o mundo do cinema foi pego de surpresa com um escândalo envolvendo um de seus mais discretos membros: o mesmo Woody Allen avesso à badalações e que preferia tocar jazz a frequentar as cerimônias de entrega do Oscar - estatueta que ele já havia ganho por "Noivo neurótico, noiva nervosa" (77) e "Hannah e suas irmãs" (86) - estampava as capas dos tabloides sensacionalistas graças ao controverso final de sua relação amorosa e profissional com a atriz Mia Farrow, que vinha desde 1980 e computava uma dúzia de filmes: aos 66 anos, Allen estava apaixonado por Soon-yi Previn, filha adotiva de Mia de apenas 21 anos. No rastro da polêmica, todo mundo se aproveitou: Farrow acusou o cineasta de pedofilia (fato que ainda em 2014 despertava acaloradas discussões), jornais venderam como nunca, os detratores de Allen encontraram finalmente um motivo para desprezá-lo (a despeito das afirmações de Farrow se mostrarem improcendentes com o passar do tempo) e a TriStar Pictures antecipou a estreia de "Maridos e esposas", comédia dramática que analisava os relacionamentos de dois casais de amigos - e que mostrava Woody se afastando de Mia por estar interessado em uma aluna décadas mais jovem - para lucrar em cima da polêmica. Por baixo de tanta gritaria, porém, o que pouca gente percebeu foi que, fofocas à parte, o filme era muito bom. Desde "Crimes e pecados" (89) o diretor/roteirista não encontrava um equilíbrio tão grande em drama, humor e insights sobre relações humanas.

Filmando em tom de documentário - câmera na mão, entrevistas diretas, cortes abruptos - "Maridos e esposas" é, na verdade, um Woody Allen típico, na forma e no conteúdo. Ele mesmo interpreta Gabe Roth, professor de literatura que acaba de escrever seu próprio livro e vive um relacionamento pacifico e quase tedioso com Judy (Mia Farrow), que está no segundo casamento. O filme começa quando eles recebem a visita de um casal de amigos, Jack (Sydney Pollack) e Sally (Judy Davis) que, para sua surpresa, anunciam sua separação. Tidos como um exemplo de relacionamento, Jack e Sally resolveram seguir caminhos diferentes na vida e tal fato cai como uma bomba na vida de Gabe e Judy, que lidam com a situação de maneiras opostas: enquanto Judy tenta servir de cupido entre Sally e Michael (Liam Neeson), um colega de trabalho pelo qual ela mesma está atraída, Gabe se envolve com Rain (Juliette Lewis), uma brilhante aluna com uma queda por homens com o triplo de sua idade.


Sob a luz do escândalo Soon-yi, "Maridos e esposas" foi dissecado exaustivamente pela mídia, pelo público e por qualquer pessoa que julgasse ter uma opinião sobre o caso. Não adiantou que fosse divulgado que o papel pensado para Mia Farrow fosse o de Sally e não o de Judy (uma passivo-agressiva neurastência e manipuladora): os conspiradores de plantão já afirmavam que Allen estava propositalmente dando à atriz um papel amargo e antipático. Não bastava que o final do filme contrariasse o final da história na vida real: todos achavam que o diretor estava justificando, em seu roteiro, as atitudes que tomara fora dos sets. Foram tantas teorias, tantos boatos transformados em fatos e opiniões pessoais tidas como verdades universais que o filme - enquanto produto cinematográfico - acabou ficando em segundo plano. Uma pena. Nem mesmo as duas indicações ao Oscar (roteiro e atriz coadjuvante) foram o suficiente para que fosse dada mais importância a ele. E isso que Judy Davis simplesmente arrasa na pele da insegura Sally: além de concorrer ao Oscar e ao Golden Globe, ela foi premiada pelos críticos de Los Angeles, pelo National Board of Review e pela National Society of Film Critics. Só a cena em que ela discute a relação com o ex-marido pelo telefone da casa do homem com quem está de saída para a ópera vale o filme todo.

À parte escândalos e teorias, "Maridos e esposas" é um Woody Allen da melhor safra. Inteligente, engraçado, perspicaz e realista, o roteiro nunca se deixa mergulhar na autocomplacência ou na crítica exagerada às relações, dando a todas elas uma dose de generosidade, independente de seu grau de neurose. Além do mais, é o ponto final de uma parceria que muito deu ao cinema americano nos anos 80. Uma chave de ouro que ainda será descoberta como um dos melhores filmes da década de 90.

sexta-feira

O GUARDA-COSTAS

O GUARDA-COSTAS (The bodyguard, 1992, Warner Bros, 129min) Direção: Mick Jackson. Roteiro: Lawrence Kasdan. Fotografia: Andrew Dunn. Montagem: Donn Cambern, Richard A. Harris. Música: Alan Silvestri. Figurino: Susan Nininger. Direção de arte/cenários: Jeffrey Beecroft/Lisa Dean. Produção: Kevin Costner, Lawrence Kasdan, Jim Wilson. Elenco: Kevin Costner, Whitney Houston, Gary Kemp, Bill Cobbs, Ralph Waite, Michele Lamar Richars. Estreia: 25/11/92

2 indicações ao Oscar: Melhor Canção ("I have nothing", "Run to you")

Primeiro, na metade dos anos 70, o projeto que seria estrelado por Diana Ross e Steve McQueen foi cancelado por ser considerado muito controverso (vale lembrar que o racismo era uma chaga social ainda maior no período). Poucos anos depois, ainda na mesma década, ele voltou à baila, novamente com Ross cotada como estrela, mas dessa vez ao lado do ex-namorado Ryan O'Neal - e novamente ficou só no papel, justamente porque as diferenças entre os outrora amantes impediram que a coisa andasse. Foi preciso, então, praticamente outros vinte anos para que finalmente "O guarda-costas" visse a luz dos refletores. E, levando-se em consideração o estouro de bilheteria - e o status de clássico kitsch que amealhou com o passar do tempo, devido às inúmeras apresentações na televisão - o filme que conta a história de amor entre um guarda-costas branco e uma estrela da música pop negra (que vem a ser sua cliente) não poderia ter estreado em melhor momento. Estrelado por um Kevin Costner no auge da popularidade - ainda surfando na onda do prestígio acumulado pelos sete Oscar de seu "Dança com lobos" (90) e pela polêmica do genial "JFK" (91), de Oliver Stone - e pela cantora Whitney Houston - que estreava no cinema no rastro de seu êxito nas paradas de sucesso - "O guarda-costas" custou a bagatela de 25 milhões de dólares e  arrecadou mais de 120 milhões só no mercado doméstico (EUA e Canadá), além de ver sua trilha sonora quebrar recordes de vendas, puxada pela música-chiclete da década, "I will always love you", hit country que Houston regravou especialmente para o filme e transformou em uma das canções mais emblemáticas de sua carreira.

Houston - que morreu precocemente, vítima de uma overdose em 2012 - não era uma atriz de muitas nuances, mas era dona de uma beleza delicada e de um carisma inegável, o que fez dela a escolha ideal para o papel da protagonista do filme de Mick Jackson, que até então não apresentava nada mais recomendável no currículo do que a comédia romântica "L.A. Story", estrelada por Steve Martin em 1991. Marron, vivida por Houston no filme, é uma cantora extremamente popular, linda, milionária e talentosa que, em vias de também ser reconhecida como grande atriz ao ser indicada ao Oscar, passa a ser ameaçada (via cartas anônimas e bombas caseiras) de morte. Para protegê-la, é contratado Frank Farmer (Kevin Costner), famoso como o melhor do ramo e por ter entre suas regras não trabalhar com celebridades. O pagamento generoso, porém, faz com que ele mude de ideia, mas logo ele percebe que terá muito trabalho pela frente: não apenas a equipe da cantora não é exatamente simpática à ideia de um estranho circulando e impondo ordens, mas a própria estrela, subestimando o perigo que corre, o trata apenas como mais um empregado. As coisas mudam, no entanto, quando ela se apaixona por ele, é correspondida, e o criminoso começa a dar sinais de estar mais perto do que se pensava.


O roteiro de "O guarda-costas" - escrito pelo cineasta Lawrence Kasdan - é repleto de clichês, mas eles desfilam pela tela banhados em um visual tão caprichado que é difícil não se deixar conquistar. A mansão de Marron - a mesma utilizada por Francis Ford Coppola na famosa cena da cabeça de cavalo em "O poderoso chefão" (72) - é espetacular, assim como as referências do cineasta aos clássicos "Metrópolis" (22), de Fritz Lang (citado plasticamente no videoclipe "Queen of the night") e "Yojimbo, o guarda-costas", de Akira Kurosawa (filme preferido do personagem de Costner, que o assiste em companhia de sua cliente/namorada). Tais momentos desviam a trama de sua previsibilidade e até mostram o dedo de Kasdan, um roteirista/diretor que sempre demonstrou carinho pelas tradições cinematográficas - haja visto sua revisita ao western em "Silverado" e seu script para o vitorioso "Caçadores da arca perdida" (81). Aqui ele equilibra o tom cerebral do cinema policial dos anos 70 com referências à cultura popular da década de 90, evitando tanto a violência excessiva quanto o erotismo que se tornaria ingrediente obrigatório em filmes de suspense após o sucesso de "Instinto selvagem" (92). O romance entre Farmer e Rachel beira o puritanismo (a cena de amor entre eles é basicamente um beijo e um corte para a manhã seguinte) e as sequências em que Frank precisa passar à ação soam mais como uma justificativa para enquadrar o filme no gênero policial do que uma necessidade orgânica do roteiro.

Apesar dos pesares, porém, "O guarda-costas" é um dos filmes-ícone dos anos 90 e sobrevive incólume a quaisquer críticas e esnobismo por parte dos cinéfilos mais intelectualoides. Suas constantes reprises na TV aberta ainda conquistam audiência, a trilha sonora entoada por Whitney Houston se mantém inesquecível e é difícil encontrar alguma pessoa que nunca tenha o assistido ao menos uma vez. Um clássico moderno, a despeito de suas falhas.

quinta-feira

NADA É PARA SEMPRE

NADA É PARA SEMPRE (A river runs through it, 1992, Allied Filmmakers/Wildwood Enterprises, 130min) Direção: Robert Redford. Roteiro: Richard Friedenberg, estória de Norman MacLean. Fotografia: Philippe Rousselot. Montagem: Robert Estrin, Lynzee Klingman. Música: Mark Isham. Figurino: Kathy O'Rear. Direção de arte/cenários: Jon Hutman/Gretchen Rau. Produção executiva: Jake Eberts. Produção: Patrick Markey,Amalia Mato, Robert Redford. Elenco: Tom Skerrit, Brad Pitt, Craig Scheffer, Brenda Blethyn, Emily Lloyd, Joseph Gordon-Levitt. Estreia: 30/10/92

3 indicações ao Oscar: Roteiro Adaptado, Fotografia, Trilha Sonora Original
Vencedor do Oscar de Fotografia


Há de se reconhecer que, vez ou outra, a Academia de Hollywood acerta em cheio em suas escolhas. Um perfeito exemplo dessa afirmação é o Oscar de melhor fotografia concedido a Philippe Rousselot na cerimônia de 1993: as belíssimas sequências captadas por ele para o filme "Nada é para sempre", são o que há de melhor no filme de Robert Redford, baseado na estória real do escritor Norman MacLean e na sua relação com a família e a natureza (mais especificamente a pesca). Tratando cada cena como se fosse um quadro, o diretor de fotografia francês - que já tinha no currículo uma indicação à estatueta por seu trabalho em "Esperança e glória" (87) - transforma as vastas paisagens de Montana em um personagem de crucial importância para a trama, ditando o ritmo da narrativa e emoldurando em deslumbrantes takes a bela e trágica história contada com delicadeza e poesia por um inspirado Redford - que conseguiu os direitos de filmagem por muito tempo cobiçados por gente como William Hurt.

Diretor bissexto - ele assinou apenas três filmes em doze anos - Robert Redford ganhou um Oscar já por sua estreia na função, com o dramático "Gente como a gente", de 1980, que, assim como "Nada é para sempre", tem um núcleo familiar como base para uma história que versa sobre amor, amizade, perdas e o duro aprendizado que vem com elas. Um cineasta arraigado aos valores mais tradicionais da sociedade americana - apesar de sua postura política liberal - Redford traduz, em seus filmes, uma visão poética e melancólica de seu país, seja através de um vilarejo lutando por seus direitos básicos - tema de "Rebelião em Milagro" (88) - ou de uma família desestruturada pelo suicídio de um adolescente incapaz de lidar com suas inseguranças frente a um futuro incerto. Em "Nada é para sempre", ele viaja até o inicio do século XX para vasculhar os preconceitos, a religiosidade e a estrutura social de uma pequena cidade americana que serve como microcosmo de um país em construção. E encontra uma poderosa história, que conta de maneira suave e caudalosa como um rio em toda a sua extensão.


O cerne de "Nada é para sempre" é a pesca, esporte praticado de forma quase sagrada pelos homens da família MacLean (sim, o sistema é patriarcal, onde à mãe, vivida por Brenda Blethyn, cabem apenas os afazeres domésticos e as eventuais visitas à Igreja presbiteriana local onde seu marido é o pastor). O chefe da casa - vivido com a medida certa de aspereza e delicadeza por Tom Skerrit - é o pastor da pequena localidade onde moram, e educa os dois filhos com rigidez, dentro das normas religiosas e morais com que também foi criado. A história começa realmente quando o mais velho dos irmãos, Norman (Craig Scheffer), retorna, depois de seis anos distante, à casa dos pais. Formado mas ainda indeciso em relação à seu futuro, ele encontra o caçula, Paul (Brad Pitt em seu primeiro papel de destaque depois do furor que causou em "Thelma & Louise", de 1991) respeitado como jornalista, mas metido em diversas encrencas relacionadas a jogo e bebidas. O reencontro dos irmãos - de personalidades distintas mas profundamente ligados um ao outro - também acontece quando Norman se apaixona por Jesse (Emily Lloyd), de convições religiosas diferentes às de sua família e Paul resolve desafiar a preconceituosa sociedade local envolvendo-se com uma bela mestiça indígena.

Como se pode perceber, a história é o que menos importa em "Nada é para sempre", uma vez que nada conta de diferente. O que faz a diferença no filme - e o que o torna tão fascinante - é a união de fatores que forma o conjunto. Além da espetacular fotografia e da trilha sonora sutil de Mark Isham (que substituiu outra, de autoria de Elmer Bernstein), o roteiro de Richard Friedenberg - indicado ao Oscar - mantém a poesia da prosa de Norman MacLean, tanto na narração em off quanto em vários diálogos, valorizados pelo elenco bem escalado. Apesar de Craig Scheffer ser o protagonista, Brad Pitt rouba todas as cenas com seu carisma jovem que, logo em seguida o tornaria o astro mais popular de Hollywood. Tom Skerrit e Brenda Blethyn emocionam sem fazer alarde e até mesmo um pequeno Joseph Gordon-Levitt, em sua estreia no cinema, dá as caras com o jovem Norman. Filmado com precisão, delicadeza e a dose certa de emoção - leia-se sem apelar para o sentimentalismo - "Nada é para sempre" é para ser degustado com calma, paciência e serenidade. Como uma boa pescaria.

quarta-feira

PARA O RESTO DE NOSSAS VIDAS

PARA O RESTO DE NOSSAS VIDAS (Peter's friends, 1992, BBC/Channel Four Films/Renaissance Films, 104min) Direção: Kenneth Branagh. Roteiro: Rita Rudner, Martin Bergman. Fotografia: Roger Lanser. Montagem: Andrew Marcus. Figurino: Susan Coates, Stephanie Collie. Direção de arte/cenários: Tim Harvey/Martin Childs. Produção executiva: Stephen Evans. Produção: Kenneth Branagh. Elenco: Kenneth Branagh, Emma Thompson, Stephen Fry, Hugh Laurie, Imelda Staunton, Alphonsia Emmanuel, Richard Briers, Phyllida Law. Estreia: 18/9/92 (Festival de Toronto)

Depois que chamou a atenção do público, da crítica e da Academia de Hollywood com sua visão quase melancólica de "Henry V", de 1988 - pelo qual concorreu aos Oscar de ator e diretor - o irlandês Kenneth Branagh mudou-se de mala e cuia para a terra do cinema e foi brincar de Hitchcock. Seu estiloso "Voltar a morrer" (91) não obteve a mesma receptividade generosa, apesar das inúmeras qualidades, e ele fez então o que lhe pareceu mais sensato: deixou de lado qualquer projeto mais ambicioso, correu para sua amada Inglaterra, chamou um grupo de talentosos amigos e lançou "Para o resto de nossas vidas", um pequeno grande filme sobre amizade, companheirismo e os efeitos do tempo. Injetando uma bem-vinda dose do típico humor britânico em uma trama que poderia soar repetitiva ao público acostumado com histórias semelhantes - desde, no mínimo, "O reencontro" (83), de Lawrence Kasdan - Branagh contou com um brilhante roteiro e um elenco excepcional (que inclui atores que posteriormente ficariam mais conhecidos da audiência, como Hugh Laurie e Imelda Staunton) para mostrar que sua versatilidade não tinha tamanho.

O próprio Branagh e sua então esposa Emma Thompson estão no elenco do filme, que começa no Reveillon de 1982, quando um grupo de teatro amador de Londres tenta sem muito sucesso chamar a atenção dos milionários convidados da festa. Dez anos mais tarde - com o país transformado política e socialmente pelo governo de Margaret Tatcher - a companhia se desfez, cada um seguiu seu caminho na vida e um encontro entre eles é fato raríssimo. Por isso, nenhum deles é capaz de dizer não quando Peter Morton (Stephen Fry), que acaba de perder os pais, os convida para romper o ano em sua espetacular mansão. Solitário, introspectivo - e com um segredo que pretende revelar ao final do feriado - Peter nem percebe que é o alvo das atenções de Maggie (Emma Thompson), solteirona que trabalha no mercado editorial e que decide que é a mulher certa para ele. Quem também tem problemas em encontrar a alma gêmea é Sarah (Alphonsia Emmanuel), cujo namorado atual, Brian (Tony Slattery), com quem mantém uma relação recente e sexualmente insaciável, é casado e pai de um menino. Sarah já namorou Andrew (Branagh), que abandonou a Inglaterra para tentar a sorte na Califórnia e casou-se com Carol (Rita Rudner, co-autora do espirituoso roteiro), uma perua vaidosa que é conhecida pelo papel em uma telenovela diurna sem maiores qualidades artísticas. Completam o círculo de amigos o casal formado por Roger (Hugh Laurie) e Mary (Imelda Staunton), que trabalham compondo jingles publicitários e convivem com o drama de ter perdido um de seus gêmeos ainda bebê.


"Para o resto de nossas vidas" tinha tudo para ser um festival de clichês, mas, milagre dos milagres, funciona maravilhosamente bem, principalmente por sua acertada opção em salientar o humor das situações propostas pela trama. Mesmo dramas mais densos, como o vivido pelo casal obrigado a suportar a morte de um filho - e a revelação final de Peter, que dá sentido à reunião proposta no argumento - são tratados com leveza e discrição, o que impede o filme de descambar para o dramalhão lacrimoso. Os diálogos afiados soam orgânicos e naturais, com críticas pouco disfarçadas, por exemplo, à comunidade do entretenimento americano, à cultura exagerada da beleza e às diferenças culturais existentes entre EUA e Inglaterra. E é preciso dizer que tais diálogos, que assumem quase a estrutura de uma peça de teatro (o que é condizente, de certa forma, com a origem dos personagens), encontram um elenco à altura. Em meio a tantos bons atores - todos beneficiados com ao menos uma grande cena - destacam-se Emma Thompson e Imelda Staunton. Enquanto Imelda brilha como a neurótica Mary (que põe seu casamento em risco com a obsessão de cuidar do único filho que ainda tem) sem precisar nem ao menos falar muito, Thompson quase rouba o filme na pele da divertida Maggie. Conhecida até então por desempenhos mais sérios - sendo que um deles, "Retorno a Howards End", lhe daria um Oscar já em 1993 - ela deixa vislumbrar um delicioso senso de humor que Hollywood tentaria explorar sem muito sucesso (mais por culpa do filme do que por dela) em "Junior" (94).

Pontuado por uma vibrante trilha sonora que inclui sucessos de Cyndi Lauper, The Pretenders, Al Green, Tina Turner e Tears for Fears, "Para o resto de nossas vidas" cumpre com louvor tudo que promete. Faz rir, pode emocionar, envolve com personagens verossímeis e repletos de falhas de caráter (e ainda assim encantadores) e, de quebra, dá a sensação de estar acontecendo na casa ao lado. Poucas vezes Kenneth Branagh foi tão despretensioso. E poucas vezes acertou tão em cheio.

terça-feira

BOB ROBERTS

BOB ROBERTS (Bob Roberts, 1992, Miramax Films, 102min) Direção e roteiro: Tim Robbins. Fotografia: Jean Lépine. Montagem: Lisa Zeno Churgin. Música: David Robbins. Figurino: Bridget Kelly. Direção de arte/cenários: Richard Hoover/Brian Kasch. Produção executiva: Tim Bevan, Ronna B. Wallace, Paul Webster. Produção: Forrest Murray. Elenco: Tim Robbins, Giancarlo Esposito, Alan Rickman, Ray Wise, Gore Vidal, David Straithairn. Estreia: 04/9/92

Imagine um Bolsonaro sem a cara de insano e dotado de carisma. Imagine também que, antes de candidatar-se a qualquer cargo político, ele tenha iniciado uma carreira de cantor, espalhando suas ideias neofascistas e ridiculamente racistas pelas emissoras de rádio e televisão a ponto de conquistar um público apaixonado (se bem que essa parte do público bovino aplaudindo barbaridades nem é preciso imaginar). E por fim, imagine que ele estivesse envolvido em escândalos relacionados a tráfico de drogas e manobras sujas para denegrir a honra de seu adversário direto. Pois é exatamente assim que é Bob Roberts, personagem criado por Tim Robbins para sua estreia na direção. Republicano arraigado, cantor folk de canções que defendem a pena de morte e o extermínio de moradores de rua entre outras barbaridades, demagogo e ídolo de uma parcela da sociedade americana tão podre quanto ele, Roberts é candidato ao Senado e, disputando voto a voto com Brickley Paiste (o escritor Gore Vidal), não hesita em apelar para os mais golpes baixos para alavancar sua campanha. Interpretado na medida certa de ironia pelo próprio Tim Robbins - que concorreu ao Golden Globe por seu desempenho - o venal político é a prova cabal de que não é só no Brasil que o povo tem os representantes que merece. As situações absurdas mostradas no filme seriam cômicas se não fossem trágicas. Mas divertem e fazem massagem no cérebro, o que pode ser dito de pouquíssimos filmes americanos.

Robbins, que foi comparado a Orson Welles por sua estreia - por ter dirigido, escrito e produzido o filme, além de interpretar o papel-título, cantar e compor as canções da trilha sonora ao lado do irmão David - fez de seu primeiro trabalho uma espécie de "O jogador" da política (com a diferença de ter alcançado menos sucesso comercial e ser superior ao filme de Robert Altman que ele coincidentemente estrelou). Não apenas escancara o lado sujo dos bastidores políticos - ainda que pouca gente tenha se surpreendido com tal podridão - como conta com um numeroso elenco de astros convidados em pequenas pontas. Até mesmo como forma de posicionar-se diante das atrocidades do governo Bush (o pai, não o filho igualmente boçal) estão em cena, em papéis diminutos, Susan Sarandon (esposa de Robbins à época), Peter Gallagher, Helen Hunt, James Spader, Fred Ward e John Cusack, além de um estreante Jack Black e, em papéis mais importantes, Alan Rickman e David Straithairn. Juntos, eles compõem um painel divertido e por vezes assustador do tamanho das mentiras e manipulações de que são capazes os homens e mulheres que almejam chegar ao poder nos EUA. Narrada em estilo semi-documental (o filme em si é um documentário que está sendo feito sobre a carreira e a ascensão de Roberts), é uma estreia genial de um ator que sempre esteve abertamente ligado à causas políticas (e por isso mesmo sempre comprou brigas, juntamente com Sarandon, principalmente com os produtores do Oscar, que os baniram da cerimônia por anos depois que eles se manifestaram, ao vivo, contra a política do governo em barrar haitianos portadores do vírus HIV).


Utilizando-se da ironia como ferramenta central de seu roteiro, Robbins leva o público a acompanhar a meteórica ascensão de Bob Roberts de cantor pouco conhecido a ídolo de uma geração de eleitores que compartilham, como ele, de ideias dramaticamente contra a democracia. Roberts renega o legado dos anos 60 e dos jovens que lutavam contra a Guerra do Vietnã, prega a utilização de um orçamento ainda maior para a segurança do país em detrimento de ajudar aos mais necessitados (parasitas, segundo ele, que tiram o lugar de trabalhadores mais dispostos) e é abertamente racista. Suas ideias são transmitidas em suas músicas e videoclipes (todos eles realizados de maneira séria mas decididamente hilariantes em sua crítica), além de discursos inflamados e entrevistas que invariavelmente acabam com a fúria dos apresentadores - é especialmente divertida a sequência em que ele vai participar de um programa ao estilo "Saturday night live" e pé francamente hostilizado pelo elenco. Sua máscara, no entanto, não engana a um homem em especial: o repórter independente Bugs Raplin (Giancarlo Esposito, irreconhecível e excepcional), que tem como principal objetivo de vida mostrar ao público quem é de verdade o almofadinha que, por trás de um homem preocupado com o bem-estar das crianças, esconde alguém capaz de usar dinheiro de casas populares para traficar drogas.

"Bob Roberts" é um rasgo de sarcasmo e mordacidade na bem-comportada comédia americana. Politicamente ousado e sem medo de tocar em feridas bem abertas no imaginário ianque - tais como a guerra inventada por George Bush e a manipulação da opinião pública através da mídia - o filme de Tim Robbins também é cruel por expor uma juventude desinformada e manobrável, capaz dos atos mais insanos para defender seus pontos de vista tortuosos. Mesmo que o roteiro trate os eleitores de Roberts como um bando de idiotas (como o são aqueles que assinam embaixo dos absurdos da bancada evangélica da nossa câmara de deputados e do já citado Bolsonaro), isso não transforma a obra em um produto maniqueísta: não interessa ao diretor discutir o que não deve ser discutido. Bob Roberts - o candidato - é um câncer no sistema político. "Bob Roberts" - o filme - é uma das comédias mais inteligentes da década de 90.

segunda-feira

UMA EQUIPE MUITO ESPECIAL

UMA EQUIPE MUITO ESPECIAL (A league of their own, 1992, Columbia Pictures, 128min) Direção: Penny Marshall. Roteiro: Lowell Ganz, Babaloo Mandel, estória de Kim Wilson, Kelly Kandaele. Fotografia: Miroslav Ondricek. Montagem: Adam Bernardi, George Bowers. Música: Hans Zimmer. Figurino: Cynthia Flynt. Direção de arte/cenários: Bill Groom/George DeTitta Jr.. Produção executiva: Penny Marshall. Produção: Elliot Abbot, Robert Greenhut. Elenco: Tom Hanks, Geena Davis, Lori Petty, Madonna, Rosie O'Donnell, Bill Pullman, David Straithairn, Jon Lovitz, Garry Marshall. Estreia: 01/7/92

No auge da II Guerra, enquanto a maioria dos homens americanos estavam defendendo o país nas trincheiras inimigas, restava às mulheres manter os EUA, até mesmo em funções até então consideradas masculinas. E se nessa época havia fazendeiras, caminhoneiras e empresárias, por que não jogadoras de baseball? Um dos esportes mais amados pelo público ianque, ele estava em sérias dificuldades com o êxodo de seus mais populares jogadores, que estavam jogando por suas vidas nas mais distantes plagas. Com medo de perder as generosas bilheterias que o jogo lhes proporcionava, os empresários tiveram então uma ideia brilhante: criar uma liga feminina de baseball, com o objetivo de manter acesa a chama até o retorno dos (esperava-se) vencedores soldados. Assim começa "Uma equipe muito especial", a divertida comédia que Penny Marshall - diretora dos sucessos "Quero ser grande" (88) e "Tempo de despertar" (90) - fez alcançar mais de 100 milhões de dólares de arrecadação somente no mercado doméstico no verão de 1992. Sucesso de público e crítica, o filme cria uma história de ficção em cima de uma situação verídica (a criação de tal liga) que até então era desconhecida da maior parte dos americanos e faz rir e emociona com um roteiro enxuto escrito pela dupla mais quente da época, Baballo Mandel e Lowell Ganz.

A trama criada pelos roteiristas começa em 1943, no Oregon, quando o descobridor de talentos Ernie Capadino (Jon Lovitz) propõe à talentosa Dotti Hinson (Geena Davis em momento especialíssimo da carreira, acumulando sucesso atrás de sucesso) que o acompanhe para um teste em Chicago: se aprovada, ela entraria em um time de baseball profissional com um salário tentador (ao menos para uma fazendeira cujos dias se resumem a ordenhar vacas, cuidar da casa, esperar que o marido retorne da guerra e ocasionalmente jogar com um grupo de amigas). Dottie a princípio recusa o convite, mas acaba aceitando a proposta, desde que possa levar junto sua irmã caçula, Kit (Lori Petty), com quem mantém uma relação carinhosa porém de certa rivalidade. Em pouco tempo, ambas estão escaladas para serem treinadas por Jimmy Dugan (Tom Hanks, divertidíssimo), que, de uma lenda do esporte acabou por tornar-se um pária por seu vício em álcool. Juntamente com outras mulheres igualmente talentosas, elas encaram o machismo do mundo esportivo - antes de jogadoras elas são tratadas como fêmeas, que precisam saber comportar-se socialmente e manter-se atraentes fisicamente - e iniciam uma bem-sucedida carreira.


O fio condutor da história de "Uma equipe muito especial" - a amizade e a competitividade entre Dotti e Kit - é apenas desculpa para Penny Marshall divertir o público com piadas sutis e ácidas sobre o comportamento feminino da década de 40 e o universo machista e ganancioso do baseball. Enquanto Dotti está vivenciando apenas uma fase de sua vida, que ela pretende que volte aos eixos quando seu marido (Bill Pullman) retornar do conflito, suas colegas tem no jogo e no campeonato o centro de suas existências. É somente ao lado das demais jogadoras que Doris Murphy (Rosie O'Donnell) sente-se enturmada, que a desbocada e liberal Mae Mordabito (Madonna) pode ser quem ela realmente é, que a feiosa Marla (Megan Cavanagh) sente-se valorizada (mesmo que nos documentários sobre o time ela seja sempre filmada de longe para não atrapalhar a ideia de que todas as atletas da liga são bonitas e sensuais). Essa espécie de família que é criada a partir da união entre todas elas é o que dá ao filme seu sabor especial, mesclando momentos de humor com cenas quase comoventes - em especial quando uma das jogadoras recebe a triste notícia da morte de seu marido. Buscando um humor simples e familiar, ela atinge o espectador aos poucos, até mesmo aquele que entende de baseball tanto quanto de física quântica.

"Uma equipe muito especial" talvez seja apenas mais um filme de esportes americanos feito para americanos, mas é impossível negar as qualidades que o fazem conquistar também o público internacional. O timing cômico do roteiro é invejável (todas as cenas com o filho obeso de uma das jogadoras é sensacional), a direção é convencional mas eficaz, a trilha sonora de Hans Zimmer cumpre sua função com louvor (e tem direito até a uma canção feita especialmente por Madonna, "This used to be my playground", que concorreu ao Golden Globe) e o elenco está em dias inspirados. Tom Hanks engordou para o papel e construiu um Jimmy Dugan irascível e ao mesmo encantador; Geena Davis pegou o papel de Debra Winger dias antes do início das filmagens e tornou-se exímia jogadora; e até Madonna sai-se bem como a sexy Mae Topa Tudo (o que dá origem a uma ótima piada). No final das contas, é uma comédia acima da média, capaz de arrancar sorrisos até do mais exigente espectador.

O PREÇO DA TRAIÇÃO

  O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...