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quarta-feira

O PLANO PERFEITO


O PLANO PERFEITO (Inside man, 2006, Universal Pictures, 129min) Direção: Spike Lee. Roteiro: Russell Gewirtz. Fotografia: Matthew Libatique. Montagem: Barry Alexander Brown. Música: Terence Blanchard. Figurino: Donna Berwick. Direção de arte/cenários: Wynn Thomas/Geore DeTitta Jr.. Produção executiva: Karen Kehela Sherwood, Jon Kilik, Daniel M. Rosenberg, Kim Roth, Christian Stibbe. Produção: Brian Grazer. Elenco: Denzel Washington, Clive Owen, Jodie Foster, Willem Dafoe, Christopher Plummer, Chiwetel Ejiofor. Estreia: 20/3/2006

Um dos filmes mais populares da carreira de Spike Lee, "O plano perfeito" é, também, um de seus projetos menos pessoais. Assumindo o comando da produção depois da saída do diretor original - Ron Howard abandonou o barco para realizar "A luta pela esperança", com Russell Crowe -, Lee deixou de lado a maioria de suas marcas registradas para assinar uma obra inserida em um subgênero de grande tradição cinematográfica - os filmes de roubo  - e que, com um elenco de nomes conhecidos, não teve dificuldade em encontrar seu público. Com uma renda de mais de 180 milhões de dólares e elogios da maior parte da crítica, o 17º longa-metragem de Lee abraça todas as convenções do estilo e só não se tornou uma pequena obra-prima devido ao roteiro um tanto confuso de Russell Gerwitz, que insiste em reviravoltas por vezes desnecessárias e no desenvolvimento raso de seus personagens - nenhum deles carismático o bastante para despertar a torcida do espectador.

O filme começa com um monólogo de Dalton Russell (Clive Owen), explicando como aconteceu o roubo a banco no qual ele tomou parte. Em um flashback, o público é então jogado ao momento em que Dalton e seus cúmplices entram em uma agência do Manhattan Trust Bank de Nova York. Mascarados e armados, eles dão início à ação criminosa, tomando funcionários e clientes como reféns. Quem é chamado para comandar a resposta ao assalto é o detetive Keith Frazier (Denzel Washington), que não demora a chegar ao local com o parceiro, Bill Mitchell (Chiwetel Ejiofor) e unir-se a outro líder da polícia, o Capitão John Darius (Willem Dafoe). Sem saber ao certo quantas pessoas estão mantidas dentro do banco - e nem ao menos com quantos criminosos estão lidando - Frazier e seus colegas começam a dialogar com Russell, que aparenta não ter a menor pressa em concluir seu roubo e faz exigências surpreendentes para liberar os prisioneiros. A situação fica ainda mais complexa quando entra em cena Madeline White (Jodie Foster), contratada pelo dono do banco, Arthur Case (Christopher Plummer), para impedir que um cofre secreto seja descoberto e tenha seu conteúdo exposto.


 

Dirigindo com inteligência mas sem os rasgos de ironia e fúria de seus trabalhos mais conhecidos, Spike Lee faz de "O plano perfeito" um filme correto mas nunca brilhante. Tudo está em seu devido lugar: a trilha sonora de Terence Blanchard (uma das poucas marcas registradas do cineasta), o elenco acima de qualquer crítica (mais uma colaboração entre Lee e Denzel Washington), a fotografia elegante de Matthew Libatique (que seria indicado ao Oscar alguns anos depois, por "Cisne negro"), que substitui as cores quentes por uma paleta mais sóbria e claustrofóbica. Porém, apesar de suas inúmeras qualidades - devidamente louvadas pela crítica -, o filme falha em conectar-se emocionalmente com o espectador. A opção do roteiro em não aprofundar seus personagens e, com uma pequena exceção ao Keith Frazier vivido por Denzel, não fornecer informações de seu passado ou suas motivações, pode até ser interessante - focar no momento da ação tem prós e contras em uma narrativa -, mas impede o espectador de realmente se importar com os desdobramentos além do que está no centro da trama.  O excesso de questões a serem resolvidas também atrapalha - o que Arthur Case está escondendo em seu cofre pessoal? Por que Dalton Russell escolheu justamente o Manhattan Trust Bank? Quem dentre as pessoas interrogadas por Frazier é cúmplice no assalto? O exagero de perguntas (nem todas respondidas a contento) é o calcanhar de Aquiles de "O plano perfeito".

Com um roteiro que força suas reviravoltas - ingrediente básico do gênero - e não consegue deixar de ser mais confuso do que surpreendente, "O plano perfeito" peca ao negar ao público um elemento crucial: a diversão. Ao contrário de Steven Soderbergh e sua trilogia iniciada com "Onze homens e um segredo" (2000), que aposta no humor e na leveza para seduzir a plateia, Spike Lee prefere se levar a sério demais, optando por conduzir o público em um emaranhado de pistas e personagens dúbios que jamais conquistam o espectador completamente. O clímax frio tampouco ajuda a elevá-lo acima da média e torná-lo o clássico moderno que poderia ser. Mesmo assim, com seu elenco impecável, o filme de Lee agrada ao não subestimar a inteligência de quem se dispõe a passar duas horas envolvido em uma trama que foge do derivativo e do lugar comum. Um filme de adulto, ideal para quem gosta de ter suas células cinzentas desafiadas.

quinta-feira

INFILTRADO NA KLAN


INFILTRADO NA KLAN (BlackKkKlansman, 2018, Focus Features/Legendary Entertainment/Perfect World Pictures, 135min) Direção: Spike Lee. Roteiro: Spike Lee, Charlie Wachtel, David Rabinowitz, Kevin Willmot, livro de Ron Stallworth. Fotografia: Chayse Irvin. Montagem: Barry Alexander Brown. Música: Terence Blanchard. Figurino: Marci Rodgers. Direção de arte/cenários: Curt Beech/Cathy T. Marshall. Produção executiva: Marcei A. Brown, Matthew A. Cherry, Edward H. Hamm Jr., Win Rosenfeld, Jeanette Volturno. Produção: Jason Blum, Spike Lee, Raymond Mansfield, Sean McKittrick, Jordan Peele, Shaun Redick. Elenco: John David Washington, Adam Driver, Laura Harrier, Topher Grace, Ryan Eggold, Jasper Paakkonen, Michael Buscemi, Alec Baldwin. Estreia: 14/5/2018 (Festival de Cannes)

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Spike Lee), Ator Coadjuvante (Adam Driver), Roteiro Adaptado, Montagem, Trilha Sonora Original

Vencedor do Oscar de Roteiro Adaptado

Vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes

 A sequência inicial de "Infiltrado na Klan" já deixa antever o que virá pelas próximas duas horas: diante de uma montagem de cenas dos filmes "O nascimento de uma nação" (1915) - considerado um dos filmes mais racistas da história do cinema - e "... E o vento levou" (1939) - cujo duvidoso retrato da escravidão vem sendo questionada seriamente nos últimos anos -, o supremacista branco Kennebrew Beauregard (vivido por Alec Baldwin) faz um febril discurso a respeito de como os afro-americanos estão tomando os EUA e impondo seu modo de vida através da violência. Seu ponto de vista assustador - que seria cômico se não fosse trágico - dá início ao melhor filme de Spike Lee em muito, muito tempo, uma afirmação comprovada pela generosa bilheteria e pelo reconhecimento da Academia de Hollywood, que lhe premiou com o Oscar de roteiro adaptado e o indicou em outras cinco categorias, incluindo as duas mais importantes: melhor filme e diretor. Ovacionado desde sua estreia, no Festival de Cannes de 2018 (de onde saiu com o Grande Prêmio do Júri), "Infiltrado na Klan" se torna ainda mais relevante por ter sido lançado menos de um ano depois das manifestações racistas de Charlottesville, na Virgínia, cujas imagens são mostradas no final do filme e que causaram a morte da jovem Heather Heyer. Mais importante do que nunca, a produção é o filme certo na hora certa. Mais importante ainda, foi dirigido no tom exato entre o drama social e a ironia, opção que muito provavelmente o Spike Lee do final dos anos 1980 e começo dos 1990 não teria feito.

Conhecido no final do século passado por sua virulência e tendência para o marketing agressivo, Spike Lee chamava a atenção tanto por seus discursos veementes quanto por seus trabalhos cinematográficos - dentre os quais destacam-se "Faça a coisa certa" (1989) e "Malcolm X" (1992), ambos louvados pela crítica e exemplos nítidos da ira do cineasta à época. Em "Infiltrado na Klan", o cineasta parece ter encontrado o meio-termo entre sua militância e as regras do cinema comercial - do qual aproximou-se nos anos 2000, com o sucesso financeiro de "O plano perfeito", que rendeu surpreendentes 186 milhões de dólares em 2006. Mesmo com um material explosivo em mãos, Lee prefere o caminho menos óbvio para contar sua história, talvez por ter consciência do quão surreal ela pode parecer aos olhos do espectador, mesmo sendo verdadeira. Baseado no livro em que Ronn Stallworth conta sua inusitada (e perigosa) aventura, o roteiro (escrito por Lee, Charlie Watchel, David Rabinowitz e Kevin Willmot), ganhou merecidamente o Oscar da categoria, ao fazer magistralmente a transposição das páginas para a tela: nunca antes Lee esteve tão certeiro em utilizar-se das ferramentas do cinema em seu favor.

Mais do que apenas contar uma história em imagens, o cineasta brinca com referências culturais - como a blackexploitation do cinema norte-americano - e não hesita em inserir, em momentos-chave, um tom menos ágil e mais contundente - é o caso do discurso do ativista negro Stokely Carmichael (Corey Hawkins), no começo do filme, e de um trágico relato de crime de ódio, feito por Jerome Turner (uma participação não creditada do veterano Harry Belafonte), perto do final. Ao contrário de quebrar o ritmo, tais acréscimos tornam a narrativa ainda mais rica e lembram o espectador que, apesar da leveza com que a trama vem sendo conduzida, o assunto é mais sério e urgente do que se pode imaginar. É admirável como Lee é capaz de equilibrar tão bem cenas cômicas (mas nunca de um humor histérico) e sequências de pura tensão (será que o protagonista conseguirá evitar o atentado a bomba planejado pela KKK contra a sua namorada ativista? Será que seu colega de missão será reconhecido em plena cerimônia do grupo?) As respostas a essas e outras questões que vão surgindo durante o filme são apresentadas de forma orgânica e com uma fluência empolgante, que envolve a plateia sem muito esforço. Para isso conta, também, a escalação certeira de um elenco acima de qualquer crítica.

Na pele de Ronn Stallworth, um  jovem policial negro do Colorado que consegue se infiltrar na sede local da KKK através de telefonemas e da ajuda de seu colega, Flip Zimmermann, está John David Washington, uma das grandes promessas da nova geração: filho do também ator Denzel Washington (que já colaborou diversas vezes com Spike Lee), John David tem um carisma que imediatamente põe o espectador a seu lado. Adam Driver, que interpreta Zimmermann, um judeu que assume a identidade de Stallworth quando é preciso uma presença física junto aos líderes da Klan, recebeu uma indicação ao Oscar de ator coadjuvante que confirmou uma fase excelente na carreira - além de sua atuação em filmes da nova série "Star Wars" ele voltou a concorrer à estatueta dourada (dessa vez na categoria principal) por "História de um casamento". E é preciso aplaudir o trabalho de Topher Grace, em um corajoso retrato de David Duke, um dos maiores líderes do grupo racista. Tudo é tão bem desenvolvido que até dá para perdoar a criação de um interesse romântico para Ronn, a militante Patrice Dumas, vivida por Laura Harrier, outra revelação do cineasta: ao contrário de outros filmes, a presença de Patrice não é apenas oferecer cenas idílicas, e sim servir como a voz da consciência de Ronn. Um toque que faz toda a diferença e torna "Infiltrado na Klan" um filme obrigatório não apenas para o público interessado no tema, mas principalmente para os fãs de cinema de qualidade. Uma pena que, podendo escolher essa pequena obra-prima como vencedor do Oscar de melhor filme, a Academia optou pelo raso e artificial "Green Book: O guia", que apresenta uma versão quase hipócrita do racismo. Se houvesse mais coragem por parte dos eleitores, o filme de Lee - que conta com o também cineasta Jordan Peele ("Corra!") entre os produtores - teria saído da cerimônia carregado de estatuetas douradas.

domingo

FAÇA A COISA CERTA

FAÇA A COISA CERTA (Do the right thing, 1989, Universal Pictures, 120min) Direção e roteiro: Spike Lee. Fotografia: Ernest Dickerson. Montagem: Barry Alexander Brown. Música: Bill Lee. Figurino: Ruth Carter. Direção de arte/cenários: Wynn Thomas/Steve Rosse. Produção: Spike Lee. Elenco: Danny Aiello, John Turturro, Spike Lee, Ossie Davis, Ruby Dee, Rosie Perez, Giancarlo Esposito, John Savage, Bill Nunn, Samuel L. Jackson, Martin Lawrence. Estreia: 19/5/89 (Festival de Cannes)

2 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Danny Aiello), Roteiro Original

Quando "Faça a coisa certa" estreou, no Festival de Cannes de 1989, ninguém poderia imaginar que o filme de Spike Lee se tornaria, imediatamente, uma das produções mais polêmicas do ano: louvada por parte da crítica (encantada com seu ritmo pulsante e sua coragem em dar voz à comunidade negra americana) e acusada por outra (tida como perigosa e capaz de incitar a violência), a obra conquistou fãs apaixonados e detratores furiosos - boa parte deles francamente descarregando sua munição no cineasta, um dos mais ferozes ativistas negros do país. Premiado pelos críticos de Boston, Chicago e Los Angeles e indicado a quatro Golden Globes (incluindo melhor drama, diretor e roteiro), o filme acabou sendo praticamente ignorado pela Academia (que lhe deu duas meras indicações ao Oscar, ainda que relativamente importantes) e passou à história como um dos mais impactantes produtos da temporada. Mas, afinal, o que "Faça a coisa certa" tem de tão especial a ponto de resistir ao tempo e permanecer como um documento fiel da identidade de sua comunidade?

Em primeiro lugar há o roteiro repleto de energia de Spike Lee, escrito como um hip hop contagiante e caloroso - refletido na fotografia de Ernest Dickerson e na trilha sonora de Bill Lee. Depois, há a militância incansável do jovem diretor, então com apenas 32 anos de idade e no auge de sua ferocidade. Por fim, o contexto de constante ebulição e tensão entre negros e brancos norte-americanos, e que explodiria de vez em 1991, na ocasião do espancamento, por policiais de Los Angeles, de Rodney King - um evento de grandes proporções que resultou em uma discussão internacional sobre racismo e abuso de poder. Sentindo na pele o preconceito e a discriminação, Lee transformou a dor em arte - e foi abraçado por todos aqueles que viram em seu filme um grito contra o sistema e a opressão, assim como incomodou àqueles confortáveis com o status quo. Fugindo de estereótipos fáceis e soluções moralistas, o cineasta aponta sua câmera para situações cotidianas que, aos poucos, vão se tornando o estopim de uma explosão de violência das mais inquietantes da década de 80.


Não existe propriamente um protagonista em "Faça a coisa certa", mas todos os personagens se conectam através de Mookie (vivido pelo próprio Spike Lee), um falastrão entregador de pizza que trabalha para a família de Sal Fragione (Danny Aiello, indicado ao Oscar de ator coadjuvante). Há 25 anos funcionando no Brooklyn, a pizzaria de Sal é um local tradicional do lugar, apesar das relações um tanto instáveis do proprietário e dos moradores - em sua maioria negros e latinos, para desgosto do filho mais velho de Sal, o pouco amigável Pino (John Turturro). Enquanto passa o dia entregando as encomendas do restaurante e lidando com sua vizinhança - além de sua namorada, Tina (Rosie Perez) - o simpático funcionário acaba por ser testemunha privilegiada de um incidente que irá mudar radicalmente o modo de vida dos envolvidos: em um dia de extremo calor, um comentário aparentemente aleatório (questionando a ausência de negros na "parede da fama" da pizzaria) empurra os clientes de Sal a uma rebelião de grandes proporções. Sal, que se considerava parte do bairro, não deixa barato - e a violência explode, incontrolável.

Contando sua história em um crescente grau de tensão - o que começa como uma comédia ligeira vai aos poucos assumindo contornos de uma tragédia anunciada - e com um ritmo ágil e despretensioso que contrasta com o peso do desfecho e da denúncia, "Faça a coisa certa" acerta principalmente em evitar paternalismos fáceis e, mesmo que nitidamente favorável a um lado específico da questão, discutir seus temas com a contundência de quem realmente sabe o que está falando. Seu clímax - que assustou a Paramount a ponto de o estúdio abandonar o projeto, prontamente encampado pela Universal Pictures - é um dos mais potentes da carreira de Spike Lee, e mesmo que seu final acene com uma pontinha de esperança, o roteiro cumpre o que promete, cutucando uma chaga muito aberta na sociedade americana e impondo uma discussão urgente e necessária. Forte, intenso e contundente, "Faça a coisa certa" é um filme atemporal, cuja mensagem ressona ainda nos dias de hoje - quando parece que toda a política de inclusão social democrata voltou décadas e parece cada vez mais distante do ideal. Um filme imprescindível!

sábado

O VERÃO DE SAM

O VERÃO DE SAM (The summer of Sam, 1999, 40 Acres & A Mule Filmworks/Touchstone Pictures, 142min) Direção: Spike Lee. Roteiro: Spike Lee, Victor Colicchio, Michael Imperioli. Fotografia: Ellen Kuras. Montagem: Barry Alexander Brown. Música: Terence Blanchard. Figurino: Ruth E. Carter. Direção de arte/cenários: Thérèse DePrez/Diane Lederman. Produção executiva: Jerri Carroll-Colicchio, Michael Imperioli. Produção: Jon Kilik, Spike Lee. Elenco: John Leguizamo, Mira Sorvino, Adrien Brody, Jennifer Esposito, Michael Rispoli, Bebe Neuwirth, Patti Lupone, Anthony LaPaglia, Ben Gazzarra, John Savage, Spike Lee. Estreia: 20/5/99 (Festival de Cannes)

A ideia inicial de Spike Lee era contar em forma de filme, uma das histórias mais apavorantes vivenciadas pelos moradores de Nova York na década de 70, quando um serial killer auto-intitulado "O Filho de Sam" usou de um revólver calibre 44 para matar seis pessoas e ferir outras sete, sempre à noite, entre agosto de 1976 e julho de 1977 - um dos mais quentes da história da cidade. A contrariedade dos familiares das vítimas, que não gostaram nem um pouco de ver o algoz de seus entes queridos transformado em possível heroi mudou a perspectiva do polêmico cineasta: a trama central então, mudou de foco, e apesar dos assassinatos terem importância fundamental em "O verão de Sam", são apenas o pano de fundo para um conto sobre preconceito, intolerância e medo. Candente e dotado de um ritmo ágil e angustiante, o filme é um dos melhores da carreira do diretor de "Faça a coisa certa" e "Malcolm X", valorizado pelo cuidado com a reconstituição de época e com um elenco de atores certos nos papéis corretos.

O protagonista de "O verão de Sam" é Vinny (o ótimo John Leguizamo, que improvisou boa parte de seus diálogos, com o incentivo do diretor), um cabeleireiro mulherengo que gasta suas noites dançando nas discotecas do Bronx ao lado da esposa, Dionna (Mira Sorvino) - e frequentemente transando com qualquer rabo-de-saia que passe à sua frente, não importa se é a sua chefe, Gloria (Bebe Neuwirth) ou a prima de sua mulher. Em uma dessas puladas de cerca, ele escapa de ser assassinado pelo Filho de Sam, um serial killer que vem apavorando a cidade de Nova York. Acreditando que sua sorte é um sinal de Deus para que mude de vida, ele resolve tentar ser o melhor marido possível, ao mesmo tempo em que Dionna, para mantê-lo a seu lado, passa a buscar formas diferentes de satisfazê-lo sexualmente. Nesse meio tempo, um dos policiais encarregados do caso, Lou Petrocelli (Anthony LaPaglia), criado no Bronx, pede ajuda ao mafioso local, Luigi (Ben Gazzarra), para que colabore nas investigações com seu vasto conhecimento do submundo do crime. Tal pedido acaba por envolver na história um grupo de moradores do bairro, que, preconceituosos e ignorantes, passam a perseguir a todos aqueles que julgam possíveis suspeitos. Um deles, o jovem Richie (Adrien Brody), acaba por se tornar o principal acusado, somente por vestir-se como punk, tocar rock em bares pouco recomendáveis e, vez ou outra, prostituir-se.


Costurando suas histórias com um ritmo cadenciado que jamais permite tempos mortos em sua narrativa, Spike Lee constrói um potente estudo sobre a culpa e o preconceito, jogando na mesma mistura uma sexualidade explosiva e marginal - com direito a cenas de orgias e diálogos repletos de palavrões - e uma violência tanto física quanto moral exasperantes. Enquanto o criminoso Filho de Sam se vê torturado pelas vozes em sua cabeça (que o impelem a matar), Richie é vítima de todos os tipos de preconceito, que surgem dentro de sua própria casa e se estendem pelas ruas de seu bairro. A forma como o roteiro trata Richie - um homem inocente destruído por suspeitas aleatórias - lembra os clássicos de Hitchcock, mas aquecidos a uma temperatura quase insuportável, refletida na fotografia quase em tom documental de Ellen Kuras e no desenho de som, que transforma a narrativa em um pesadelo kafkiano. Uma pena, porém, que Lee não tenha mantido a ousadia até o final, refreando a crueldade que poderia dar à mensagem do filme uma ênfase ainda mais contundente.

Afora esse pequeno senão, "O verão de Sam" tem de tudo para agradar a todos os paladares: é um filme policial competente - ainda que o roteiro não se detenha nas investigações em si -, é um drama romântico sensual, tem sequências musicais bem dirigidas (calma, nada de cantorias, apenas coreografias bem elaboradas ao som de música disco), um elenco bem dirigido e uma trilha sonora deliciosa com sucessos da década de 70 - ABBA, The Who, Thelma Huston. Nem mesmo sua longa duração - duas horas e meia - chega a ser um defeito, uma vez que a edição tem um invejável senso de ritmo e a história nunca deixa de ser interessante o bastante para manter a atenção da plateia. Um grande filme, que se apropria de uma das mais assustadoras lendas da crônica policial norte-americana para falar de pessoas comuns, vítimas da ignorância e do preconceito. Vale a pena assistir ou revisitar.

terça-feira

A ÚLTIMA NOITE

A ÚLTIMA NOITE (The 25th hour, 2002, Touchstone Pictures, 135min) Direção: Spike Lee. Roteiro: David Benioff, romance de sua autoria. Fotografia: Rodrigo Prieto. Montagem: Barry Alexander Brown. Música: Terence Blanchard. Figurino: Sandra Hernandez. Direção de arte/cenários: James Chinlund/Ondine Karady. Produção executiva: Nick Weschler. Produção: Julia Chasman, Jon Kilik, Spike Lee, Tobey Maguire. Elenco: Edward Norton, Philip Seymour Hoffman, Barry Pepper, Brian Cox, Rosario Dawson, Anna Paquin. Estreia: 19/12/02

Desde que surgiu no cenário hollywoodiano, com seu genial trabalho em "As duas faces de um crime", que lhe deu uma merecida indicação ao Oscar de ator coadjuvante, Edward Norton teve uma trajetória exemplar. Trabalhou com cineastas acima de qualquer suspeita, como Woody Allen, Milos Forman e David Fincher, assumiu a cadeira de diretor com o simpático "Tenha fé" e entregou no mínimo uma atuação inesquecível, como o skinhead arrependido de "A outra história americana", de 1998. Depois de alguns filmes que não exploraram todo o potencial de seu talento - entre eles "Dragão vermelho", terceiro filme estrelado por Hannibal Lecter - ele voltou a encantar seu público com "A última noite", um potente e polêmico drama dirigido pelo não menos controverso Spike Lee.

Realizado sob a tensão pós-11 de setembro, "A última noite" é baseado em um romance de David Benioff, também autor do belo roteiro, que discute preconceito, lealdade, diferenças sociais e a força da amizade sem soar piegas ou condescendente. Contando com um protagonista falível e um time de coadjuvantes interessantes por si mesmos, é um filme que foge do panfletarismo barato que caracteriza a obra de seu diretor, atingindo seu público justamente por ser honesto em suas discussões e seu amor incondicional por Nova York e suas idiossincrasias culturais e sociais.

Quando o filme começa, o protagonista Monty Brogan (Edward Norton, ótimo) está às vésperas de ir para a cadeia, condenado a sete anos de prisão por tráfico de drogas. Sua última noite de liberdade será passada ao lado da namorada, Naturelle (Rosario Dawson) e dos melhores amigos, o yuppie Frank (Barry Pepper, excelente) e o professor de Literatura Jacob (Philip Seymour Hoffman). Enquanto se sente angustiado com a possibilidade de ter sido denunciado pela mulher que ama, Monty encara suas últimas horas de liberdade como uma espécie de despedida de uma vida com certo conforto e tranquilidade e questiona o estado em que está a cidade que ama após os atentados cometidos por Osama Bin Laden. Nesse meio-tempo, Frank tenta convencê-lo de que o ajudará após a temporada na prisão e Jacob foge da tentação sexual representada por uma aluna adolescente, Mary (Anna Paquin).



Apesar de sua trama ter elementos policiais - tráfico de drogas, traição - "A última noite" é, acima de tudo, um drama familiar (sendo o núcleo familiar tradicional subsituído pelos amigos) que retrata com acuracidade diferentes estilos de vida americanos. Frank é o arrogante executivo das finanças que se acha mais importante que os amigos porque tem um salário muito maior que o deles; Jacob é o professor solitário e idealista que se deixa seduzir por uma aluna que precisa de boas notas; e Monty representa o tipo de gente que se deixa levar pelo caminho mais fácil de atingir o sucesso, vendendo drogas a estudantes e tornando-se um traficante conhecido e bem-sucedido. Apesar de suas diferenças, eles tem uma convivência pacífica e quase terna, só abalada pela presença de Naturelle, uma presença dúbia e sexy que tanto pode ser a mulher confiável em que Monty acredita plenamente ou a traidora que seus amigos pintam.

Dirigido com fúria contida por um Spike Lee discreto mas eficaz em sua maneira pungente de fazer cinema, "A última noite" se beneficia amplamente de seu elenco, composto por atores em seus melhores dias. Se Norton e Seymour Hoffman não precisam provar nada a ninguém, a surpresa maior fica por conta de Barry Pepper, que por pouco não rouba as cenas em que aparece, em uma interpretação inspirada e sutil que vai se avolumando até estourar nas suas últimas cenas, em que precisa espancar o melhor amigo para ajudá-lo a sobreviver na prisão. E na pele de James, o calejado pai de Monty, o onipresente Brian Cox brinda o público com um trabalho delicado e emocionante.

Um dos filmes mais subestimados da temporada 2002, "A última noite" é fascinante, forte, impactante e comovente na medida certa. Um belíssimo filme, feito para adultos que gostam de cinema com consistência.

O PREÇO DA TRAIÇÃO

  O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...