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quarta-feira

O DESPERTAR DE UMA PAIXÃO

 


O DESPERTAR DE UMA PAIXÃO (The painted veil, 2006, Warner Independent Pictures/Bob Yari Productions, 125min) Direção: John Curran. Roteiro: Ron Nyswaner, romance de W. Somerset Maughan. Fotografia: Stuart Dryburgh. Montagem: Alexandre de Franceschi. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Ruth Myers. Direção de arte/cenários: Juhua Tu/Peta Lawson. Produção executiva: John Curran, Mark Gordon, Robert Katz, Ron Nyswaner. Produção: Sara Colleton, Jean-François Fonlupt, Edward Norton, Naomi Watts, Bob Yari. Elenco: Edward Norton, Naomi Watts, Liev Schreiber, Toby Jones, Juliet Howland. Estreia: 13/12/2006

Vencedor do Golden Globe de Trilha Sonora Original

Publicado em forma de folhetim na revista Cosmopolitan, entre novembro de 1924 e março de 1925, o o romance "The painted veil", de W. Somerset Maughan, deu origem a duas adaptações cinematográficas antes de 2006. A primeira, lançada em 1934 como "O véu pintado",  tinha Greta Garbo como estrela mas não chega a ser um grande destaque na carreira da icônica atriz. A segunda, batizada como "O sétimo pecado", estreou em 1957e apresentava Eleanor Parker no principal papel feminino - e é igualmente pouco lembrada em seu currículo. Por isso, quando uma terceira versão do filme chegou às telas, no final de 2006, não houve a gritaria sempre tão comum quando se trata de refilmagens de clássicos. Dirigido por John Curran (cineasta sem um grande sucesso para chamar de seu) e estrelado por dois atores de grande prestígio, Edward Norton e Naomi Watts, "O despertar de uma paixão" é uma adaptação fiel e elegante de uma história sobre amor, traição e perda - e se não alcançou o sucesso merecido, isso diz mais sobre o mau costume do público de consumir produtos rasos do que sobre suas várias qualidades.

A história se passa na década de 1920 e começa com o casamento da bela e frívola Kitty Garstin (Naomi Watts em papel oferecido a Nicole Kidman) com o jovem bacteriologista Walter Fane (Edward Norton). Ansiando por fugir dos domínios da mãe possessiva, Kitty aceita o pedido do introvertido Fane e se muda com ele para Shangai. Lá, sentindo-se solitária e deslocada, ela se apaixona por um conterrâneo, o vice-cônsul Charles Townsend (Liev Schreiber), e inicia um tórrido romance que, pouco discreto, acaba descoberto por seu marido. Ofendido em seus brios e disposto a punir a esposa, Fane planeja, então, uma vingança das mais cruéis: cabe a Kitty passar por um divórcio escandaloso e, por consequência, ser rejeitada pela sociedade, ou acompanhá-lo a um distante vilarejo acometido por um violento surto de cólera. Decepcionada com a atitude de Townsend em não ampará-la, Kitty embarca com o marido para uma viagem da qual não sabe se voltará. Longe da cidade, porém, ela acaba por encontrar um sentido para a própria vida - ajudar as freiras a cuidar de um orfanato - e ver com outros olhos o homem com quem se casou. A dúvida que surge, no entanto, é uma só: será que as provações poderão reaproximar o casal, ou o relacionamento já está definitivamente condenado?

 

Embalado pela bela trilha sonora de Alexandre Desplat, premiada com o Golden Globe, "O despertar de uma paixão" acerta o tom ao optar por uma narrativa clássica e suave, sem atropelos de ritmo ou excessos melodramáticos. O roteiro de Ron Nyswaner - autor de "Filadélfia" (1993) - conta sua história de forma a envolver o espectador gradualmente, dando tempo aos personagens (e ao público) de compreender todas as suas implicações, sejam elas românticas ou sociais. Mesmo que a direção de Curran seja pouco inventiva e até trivial visualmente, é difícil não se deixar impactar pelo belo trabalho de Edward Norton e Naomi Watts, também produtores do filme: em um registro minimalista que evita a grandiloquência, os dois atores mergulham em um universo de dor e sofrimento que se revela através de gestos simples e olhares angustiados. É interessante a maneira com que Curran transita entre o sublime dos momentos românticos e o terror das sequências que mostram as consequências da epidemia, como se mostrasse dois filmes que se cruzam em um mesmo e melancólico clímax. Para isso colabora a atmosfera claustrofóbica imposta pela fotografia quente de Stuart Dryburgh, que transmite com precisão o desespero da situação imposta pela história e os personagens.

Injustamente pouco lembrado dentro da filmografia de seus astros, "O despertar de uma paixão" passou praticamente em branco pelas cerimônias de premiação e tampouco fez barulho nas bilheterias. Filmado na China e coproduzido por uma companhia local que exigiu controle sobre o roteiro e o corte definitivo - felizmente sem maiores ônus ao resultado final -, talvez tenha sido prejudicado pelo tema pesado e pela campanha pouco esforçada do estúdio. Mas é uma produção caprichada, feita para adultos que procuram mais do que simplesmente finais felizes anódinos e artificiais. Pode-se dizer, sem medo, que é a versão definitiva do romance de Maughan.

terça-feira

ACONTECEU EM WOODSTOCK

 


ACONTECEU EM WOODSTOCK (Taking Woodstock, 2009, Focus Features, 120min) Direção: Ang Lee. Roteiro: James Schamus, livro de Elliot Tiber, Tom Monte. Fotografia: Eric Gautier. Montagem: Tim Squyres. Música: Danny Elfman. Figurino: Joseph G. Aulisi. Direção de arte/cenários: David Gropman/Ellen Christiansen De Jonge. Produção executiva: Michael Hausman. Produção: Celia Costas, Ang Lee, James Schamus. Elenco: Demetri Martin, Emile Hirsch, Imelda Staunton, Henry Goodman, Jonathan Groff, Jeffrey Dean Morgan, Mamie Gummer, Eugene Levy, Dan Fogler, Andy Prosky, Skylar Astin, Paul Dano. Estreia: 16/5/2009 (Festival de Cannes)

As lendas e fatos a respeito do Festival de Woodstock todo mundo já conhece - seus números, seus artistas, seus imprevistos e principalmente seu legado à história da música e da cultura popular (sem falar nos desdobramentos sociais e políticos). O que, então, poderia haver de novo a ser explorado em um filme quarenta anos depois do evento? A resposta surgiu quando o diretor Ang Lee foi interpelado por Elliot Tiber durante a divulgação de seu "Desejo e perigo" (2007): autor de um livro sobre os bastidores da organização do festival, do qual foi parte crucial, Tiber ofereceu ao cineasta a chance de contar a história sob um novo ponto de vista - e com um viés mais humano, comum em sua obra. Com seus colaboradores de confiança (James Schamus no roteiro, Eric Gautier na direção de fotografia e Tim Squyres na edição), o já vencedor de um Oscar (por "O segredo de Brokeback Mountain") lançou, no Festival de Cannes de 2009 o esperado "Aconteceu em Woodstock". O resultado, porém, ficou aquém das expectativas - tanto em termos financeiros quanto artísticos - e acabou se tornando um dos trabalhos menos memoráveis de Lee, a despeito de suas notáveis qualidades

Elliot Tiber, o autor do livro que deu origem ao filme, é interpretado por Demetri Martin, comediante em seu primeiro trabalho no cinema - uma falta de experiência e carisma que atrapalha muito as possibilidades de conexão com o espectador. Em 1969, Tiber abandona uma carreira pouco feliz de design de interiores em Nova York e retorna para a pequena cidade de White Lake com o objetivo de ajudar seus pais (Henry Goodman e Imelda Staunton) a manter vivo seu pequeno e nada convidativo hotel. A missão é complicada, já que nenhum dos dois é exatamente competente nos negócios e nada no lugar chama a atenção dos turistas ocasionais. A salvação da lavoura surge, no entanto, quanto ele menos espera: ao saber que uma cidade vizinha voltou atrás ao permitir a realização de um festival de música para o público hippie, o jovem toma as rédeas da situação e, depois de fazer contato com os produtores, transforma seu pacato lugarejo no cenário de um dos mais importantes acontecimentos culturais da história. Para isso, porém, ele precisa lutar contra o preconceito local, os problemas logísticos que envolvem a realização de algo inesperadamente gigantesco e encarar sua própria sexualidade conflituosa.

 

Fugindo da tentação de fazer do festival seu protagonista, Ang Lee segue mantendo-se fiel à sua marcante característica de priorizar os sentimentos humanos e, com eles, criar um amplo mosaico de personagens interessantes, como a travesti interpretada por Liev Schreiber (que assume o posto de segurança informal do evento), o jovem veterano do Vietnã vivido por Emile Hirsch e a idiossincrática mãe do protagonista (em um show particular de Imelda Staunton). Woodstock, na visão do cineasta, é apenas o pano de fundo (forte) para uma jornada de autodescobrimento, pincelada de momentos clássicos reproduzidos sutilmente pelo desenho de produção caprichado e pelo figurino, que dialogam com o tom onírico impresso pelo roteiro. A opção do filme em não mostrar absolutamente nenhum número musical - o que provavelmente é motivo de frustração para os fãs mais obcecados do festival - é surpreendente, mas condiz com o tom menos documental e mais emotivo da produção, que apesar disso falha em não aprofundar a contento todas as possibilidades que apresenta ao espectador. Tal problema impede que uma de suas maiores qualidades - o belo elenco - seja aproveitado em todo o seu potencial.

Quem começar uma sessão de "Aconteceu em Woodstock" com a intenção de ver Janis Joplin, Joe Cocker ou Jimi Hendrix certamente irá se decepcionar. O filme de Ang Lee é para um público que procura obras sobre pessoas em busca de si mesmas - mesmo que para isso seja preciso fazer parte de um evento de proporções gigantescas que mudou o mundo (ou ao menos a concepção de muita gente sobre ele). Pode não ser uma obra-prima como alguns dos melhores trabalhos do cineasta, mas é simpático e honesto o bastante para não fazer feio em uma filmografia marcada pela sensibilidade e pelo carinho por seus personagens.

sexta-feira

O DONO DO JOGO

O DONO DO JOGO (Pawn sacrifice, 2014, Universal Pictures, 115min) Direção: Edward Zwick. Roteiro: Steven Knight, estória de Steven Knight, Stephen J. Rivele, Christopher Wilkinson. Fotografia: Bradford Young. Montagem: Steven Rosenblum. Música: James Newton Howard. Figurino: Renée April. Direção de arte/cenários: Isabelle Guay/Fred Berthiaume. Produção executiva: Kevin Frakes, Árni Bjorn Helgason, Mike Ilitch Jr., Dale Armin Johnson, Julie B. May, Glenn P. Murray, Josette Perrotta, Stephen J. Rivele, Raj Singh, Christopher Wilkinson. Produção: Gail Katz, Tobey Maguire, Edward Zwick. Elenco: Tobey Maguire, Liev Schreiber, Michael Stuhlbarg, Peter Sarsgaard, Lily Rabe. Estreia: 11/9/14 (Festival de Toronto)

Mais conhecido por produções grandiosas que retratam períodos históricos abalados por conflitos bélicos, como "Tempo de glória" (89), "Lendas da paixão" (94) e "O último samurai" (2003), o cineasta Edward Zwick deu um tempo no sangue e mudou um pouco a imagem com o romântico "Amor e outras drogas", estrelado por Jake Gyllenhaal e Anne Hathaway em 2010. Mesmo assim não deixa de ser uma surpresa que seja ele o nome por trás de "O dono do jogo", um filme que contrasta bastante com sua filmografia mais conhecida ao apostar no minimalismo como principal elemento. Ao contar a história real da maior disputa já travada no universo do xadrez, Zwick aposta em um viés político-social inusitado, que mistura drama psicológico, suspense e muitos elementos biográficos em uma trama que só não é mais interessante devido a um ritmo claudicante e sua indecisão em escolher seu principal foco narrativo. No mais, é um trabalho inteligente que demonstra a capacidade do diretor em transitar por diferentes gêneros cinematográficos.

O protagonista do filme é o mundialmente conhecido e celebrado jogador de xadrez Bobby Fischer, até hoje a maior lenda do esporte e um dos nomes mais admirados por especialistas e pelo público que, em 1972, no auge da Guerra Fria, tornou-se o maior símbolo da luta dos EUA contra o comunismo russo sem disparar um único tiro ou fazer sequer uma ameaça de ataques nucleares: como gênio enxadrista, Fischer desafiou o campeão mundial Boris Spassky e, em um campeonato repleto de lances dramáticos e torcidas fanáticas, estampou capas de revistas, frequentou noticiários virou ídolo nacional - tudo isso enquanto lidava com sérios problemas mentais que logo o fariam buscar o isolamento social e o auto-exílio. Interpretado por Tobey Maguire, que embarcou no projeto também como produtor logo que se apaixonou pela história, Fischer surge em cena como uma celebridade de personalidade instável e difícil, capaz de enervar tanto seu empresário, Paul Marshall (Michael Stuhlbargh), quanto seu mentor espiritual, o Padre Phil Lombardy (Peter Sarsgaard), que o acompanham em sua trajetória rumo à vitória. Dado a frequentes ataques de paranoia e agressividade que remetem à uma infância de convivência constante com a perseguição política aos comunistas, o rapaz que cresceu desafiando jogadores mais velhos e experientes tem a chance de sua vida ao bater de frente com o regime soviético, representado pela figura de seu maior campeão. Vivido com excelência pelo cada vez melhor Liev Schreiber, o herói russo é o contraponto total de Fischer: centrado, calmo e pouco afeito a estrelismos. Sua rivalidade não é apenas no xadrez: o que está em jogo em suas disputas é a imagem que o mundo terá de seus países a partir de um simples campeonato de xadrez.


É difícil imprimir emoção e suspense em jogos de xadrez, mas Edward Zwick consegue quase o impossível ao fazer com que o público consiga sentir, pelo menos em parte, a atmosfera de tensão e expectativa que cercava cada partida. Com o apoio da edição criativa de Steven Rosenblum (seu parceiro habitual), o diretor mergulha a plateia em um período muito especial da história norte-americana - já castigada pela Guerra do Vietnã - para fazê-la compreender toda a extensão do conflito entre Fischer e Spassky. Experiente condutor de atores - por suas mãos Denzel Washington ganhou seu primeiro Oscar, como coadjuvante por "Tempo de glória" - Zwick não hesita em arrancar o melhor de seus intérpretes, oferecendo à Toby Maguire momentos bastante intensos na pele do complicado protagonista e à Liev Schreiber mais uma oportunidade de mostrar que é um dos atores mais subestimados de Hollywood. Ainda que deixe de lado o sempre ótimo Peter Sarsgaard (com um personagem pouco explorado), o filme tem a seu favor o cuidado na reconstituição de época e a seriedade com que trata seus temas, nunca escorregando na caricatura ou no exagero (mesmo que Maguire, vez ou outra, esbarre em alguns tons excessivos). Essas qualidades, porém, não impedem que seu maior problema seja bastante perceptível até mesmo ao mais distraído espectador: afinal, qual é o principal foco de "O dono do jogo"?

Não é errado que um filme trate de diversos assuntos ao mesmo tempo, principalmente quando esses temas estão conectados. O problema do roteiro de "O dono do jogo", porém, é que seus temas, apesar de intimamente ligados, não conseguem dialogar um com o outro de forma satisfatória. Em vez da fusão orgânica de suas tramas - os problemas psicológicos de Fischer; sua relação com a família; a disputa do campeonato mundial - o filme as apresenta quase como independentes entre si, sem uma conexão consistente ou empolgante entre elas. A impressão que se tem é que qualquer uma das subtramas poderia ser um filme diferente, tendo apenas os personagens como ligação. Essa falta mais significativa de elos entre os focos narrativos acaba enfraquecendo o resultado final e tornando o filme um entretenimento de qualidade, sim, mas longe de ser a produção memorável que poderia ser. Além do mais, seu desfecho - a partida final do campeonato mundial - é morno e anti-climático, responsabilidade que pode ser dividida entre o roteiro que tenta abraçar mais do que consegue e a direção que não dá conta de tanta indecisão. No final das contas, "O dono do jogo" é apenas um filme ok. Bobby Fischer e suas conquistas ainda estão esperando por uma produção à altura.

terça-feira

SPOTLIGHT: SEGREDOS REVELADOS

SPOTLIGHT: SEGREDOS REVELADOS (Spotlight, 2015, Participant Media/First Look Media/Anonymous Content, 128min) Direção: Tom McCarthy. Roteiro: Tom McCarthy, Josh Singer. Fotografia: Masanobu Takayanagi. Montagem: Tom McArdle. Música: Howard Shore. Figurino: Wendy Chuck. Direção de arte/cenários: Stephen H. Carter/Vanessa Knoll, Shane Vieau. Produção executiva: Michael Bederman, Bard Dorros, Jonathan King, Peter Lawson, Xavier Marchand, Pierre Omidyar, Tom Ortenberg, Josh Singer, Jeff Skoll. Produção: Blye Pagon Faust, Steve Golin, Nicole Rocklin, Michael Sugar. Elenco: Michael Keaton, Mark Ruffalo, Rachel McAdams, Liev Schreiber, John Slattery, Stanley Tucci, Billy Crudup, Brian D'Arcy James. Estreia: 03/9/15 (Festival de Veneza)

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Tom McCarthy), Ator Coadjuvante (Mark Ruffalo), Atriz Coadjuvante (Rachel McAdams), Roteiro Original, Montagem
Vencedor de 2 Oscar: Melhor Filme, Roteiro Original

O jornalismo é uma das carreiras mais retratadas por Hollywood, e já inspirou clássicos absolutos, como "A montanha dos sete abutres" (51), de Billy Wilder, "Rede de intrigas" (76), de Sidney Lumet, e "Todos os homens do presidente" (76), de Alan J. Pakula. Não por acaso, esses três exemplos da relação entre o cinema e a imprensa foram algumas das inspirações do diretor Tom McCarthy na realização de seu "Spotlight: segredos revelados", um dos mais contundentes e sérios ataques já realizados pela sétima arte contra a instituição da Igreja católica. Uma das mais premiadas produções da temporada 2015 - incluindo o cobiçado Oscar de melhor filme - a obra de McCarthy (também um ator e com o delicado "O visitante", de 2008, no currículo) é um soco no estômago do espectador, contando uma história que vai ao âmago de um dos maiores escândalos religiosos do século XX, mas em momento algum apela para o sensacionalismo. Narrado em um acertado tom semi-documental que evita qualquer tipo de espetacularização da dor, é o sóbrio e seco retrato de uma investigação jornalística responsável e relevante, que ganhou o Pulitzer em 2003 e revelou, sem medo de represálias, um esquema de acobertamento de centenas de crimes de abuso sexual infantil cometidos por padres durante décadas - e que mostrou-se de dimensão internacional quando atingiu também diversos outros países, incluindo o Brasil.

Talvez o principal acerto do roteiro, escrito por Josh Singer e o próprio diretor, tenha sido o de ater-se fielmente aos fatos, resistindo à tentação de eleger um protagonista com ares de herói para buscar a adesão da plateia. Confiando na força de sua história, McCarthy se propõe unicamente a explorar os meandros da investigação liderada pelo veterano Walter Robinson (Michael Keaton em grande fase na carreira): apoiado e incentivado pelo novo editor, Mark Baron (Liev Schreiber), ele reúne seu grupo de repórteres para aprofundar o caso de uma série de estupros cometidos por padres e tratados com condescendência por bispos e cardeais na região de Boston. Dedicados e inteligentes, os jornalistas partem, então, em busca da verdade, mesmo que isso possa abalar uma instituição respeitada e secular. Sasha Pfeiffer (Rachel McAdams), por exemplo, frequenta a missa ao lado da avó e compreende as implicações da publicação da matéria. O eficiente Mike Rezendes (Mark Ruffalo) é incansável em sua batalha pelas informações do advogado Mitchell Garabedian (Stanley Tucci). E Matt Carroll (Brian D'Arcy James), pai de família, sente-se ameaçado pela presença de possíveis abusadores próximo a seus filhos pequenos.


Desviando a câmera sempre que o drama ameaça ultrapassar os limites do bom-gosto e da discrição, Tom McCarthy aproxima o espectador através mais do cérebro do que do coração - ainda que não evite que a emoção tome conta em alguns momentos realmente tocantes. A edição precisa de Tom McArdle serve como sinalizador de tal sutileza: apesar dos diálogos fortes, "Spotlight" prefere o foco mais humanista da questão, apontando seu olhar para os braços marcados pelas seringas que uma das vítimas apresenta sem alarde, ou para a tensão constante de outra, que transfere para a comida uma vida inteira de depressão e angústia. A câmera quase voyeur chega a surpreender personagem e público quando testemunha um dos acusados, um aparentemente inofensivo senhor religioso, assumindo seus crimes e afirmando, tranquilamente, que também já foi estuprado. O roteiro de "Spotlight" tenta não sublinhar o que já é suficientemente brutal, e essa honestidade é um de seus maiores acertos: não há aquela trilha sonora crescente quando uma revelação é feita, não há lágrimas rolando diante de lembranças doloridas, não há heroísmo individual. Tudo bem que algumas cenas parecem feitas para apresentação no Oscar (como um discurso de Rezendes pertinho do final), mas são pecados insignificantes diante da grandeza de "Spotlight" como cinema.

Criticado por alguns justamente por seu estilo quase minimalista de contar uma história tão bombástica, Tom McCarthy fez uma sucessão de escolhas brilhantes para seu filme. É discreto, é honesto e é sério, o que falta para muitos filmes que se pretendem relevantes. Tem um elenco coeso e homogêneo (vencedor do prêmio máximo do Sindicato de Atores). E jamais tenta chamar mais a atenção do que a história que conta: ao eleger sua trama como principal elemento em uma época em que grandes orçamentos e personagens já consagrados formam o menu básico da programação, o diretor/ator/roteirista já merece ser aplaudido, e sua indicação ao Oscar ao lado de Alejandro Gonzalez Iñarrítu (por seu belo mas exibicionista "O regresso") demonstra que, mesmo quando cai na armadilha do previsível, a Academia sabe reconhecer quando alguém tenta ser verdadeiro e original. Uma pena que, diante das estatuetas técnicas de "Mad Max: Estrada da Fúria", "Spotlight" tenha ficado com apenas dois prêmios (filme e roteiro). Merecia mais.

quinta-feira

O MORDOMO DA CASA BRANCA

O MORDOMO DA CASA BRANCA (Lee Daniels' The Butler, 2013, AI-Film/Follow Through Productions/Salamander Pictures, 132min) Direção: Lee Daniels. Roteiro: Danny Strong, artigo "A butler well served by this election", de Wil Haygood. Fotografia: Andrew Dunn. Montagem: Joe Klotz. Música: Rodrigo Leão. Figurino: Ruth E. Carter. Direção de arte/cenários: Tim Galvin/Diane Lederman. Produção executiva: Len Blavatnik, James T. Bruce IV, Elizabeth Destro, Michael Finley, Aviv Giladi, Adonis Hadjiantonas, Vince Holden, Brett Johnson, Sheila Johnson, Jordan Kessler, Adam Merims, David Ranes, Matthew Salloway, Hilary Shor, Earl W. Stafford, Danny Strong, Bob Weinstein, Harvey Weinstein, R. Bryan Wright. Produção: Lee Daniels, Cassian Elwes, Buddy Patrick, Pamela Oas Williams, Laura Ziskin. Elenco: Forest Whitaker, Oprah Winfrey, David Oyelowo, Terrence Howard, Cuba Gooding Jr., Vanessa Redgrave, John Cusack, Jane Fonda, Alan Rickman, James Marsden, Robin Williams, Liev Schreiber, Mariah Carey, Lenny Kravitz, Alex Pettyfer, Jim Gleeson. Estreia: 05/8/13

Alguns filmes conquistam por seu valor artístico, por sua ousadia, criatividade e técnica impecável. Outros, no entanto, chegam ao coração da audiência por seus méritos emocionais, que prescindem de teorias ou análises mais profundas. Na segunda definição encontra-se "O mordomo da Casa Branca", filme do cineasta Lee Daniels, que já em seu filme de estreia, "Preciosa", arrebatou indicações ao Oscar de filme e direção. Inspirado em uma história real, o novo filme de Daniels retrata, em pouco mais de duas horas de duração, cinco décadas da história dos EUA, concentrando-se na luta pelos direitos civis da população negra - e contrapondo-a à dedicação do protagonista em servir os governantes do país independentemente da situação política.

Interpretado por Forest Whitaker em mais uma atuação esplêndida, Cecil Gaines é um herói silencioso e discreto, que acompanha as transformações sociais dos EUA de camarote: contratado como um dos mordomos da Casa Branca durante o mandato de Eisenhower (Robin Williams), ele segue à risca os conselhos que sempre recebeu durante sua educação como serviçal, mantendo-se invisível e apolítico mesmo quando as decisões políticas afetam diretamente seu povo - e principalmente sua família. Seu filho mais velho (muito bem interpretado por David Oyelowo), revoltado com a submissão a que a população negra é obrigada, junta-se aos ativistas que exigem mudanças - desde o pacifismo de Martin Luther King à violência dos Panteras Negras -, seu caçula, crédulo em seu governo, embarca para o Vietnã, e sua mulher, Gloria (Oprah Winfrey, extraordinária) se entrega à bebida como forma de lidar com a solidão. Muitas vezes incompreendido pelas pessoas que ama - que o julgam conivente com as desigualdades - ele não se furta a manter-se fiel às suas obrigações, o que acaba por torná-lo um homem de confiança de inúmeros presidentes.


A narrativa de Daniels é quadradinha, convencional, quase sem brilho. Porém, se o roteiro muitas vezes não consegue fugir do superficial - consequência inevitável da decisão de se contar tanta coisa em tão pouco tempo - ao menos mantém um ritmo que mantém a atenção do espectador sem fazer muito esforço. Didático na medida certa (para não afugentar aqueles que não conhecem a história americana a ponto de não precisar de legendas explicativas) e emocionante em diversos momentos - principalmente quando não tem medo de mostrar a extrema violência física e psicológica sofrida pelos negros - o filme pode até ser acusado de um certo maniqueísmo, mas tem a coragem de questionar a lealdade do protagonista ao mesmo tempo em que compreende sua ideologia de fidelidade extrema e absoluta: a cena em que pai e filho discutem violentamente sobre a imagem de Sidney Poitier (epítome do negro quase branco, aceito pelo mainstream americano nos anos 60 e renegado pelo ativismo radical justamente por esse motivo) é forte e exemplifica com perfeição a dubiedade dos sentimentos da família Gaines - além de permitir a Whitaker e Winfrey um de seus melhores momentos.

Aliás, se existe um outro grande motivo para se assistir a "O mordomo da Casa Branca" é o elenco reunido por Daniels: além de Mariah Carey (em uma participação mínima) e Lenny Kravitz - que já haviam trabalhado com o diretor em "Preciosa", o filme é um desfile de grandes atores em participações especiais (e muitas vezes com maquiagem que quase os deixa irreconhecíveis). É um prazer à parte ver nomes tão díspares quanto Alan Rickman, James Marsden, Liev Schreiber, John Cusack, Vanessa Redgrave, Cuba Gooding Jr., Terrence Howard e a sumida Jane Fonda em um filme com importância social tão fundamental - e não é difícil imaginar que sua inclusão no elenco tem muito a ver com suas próprias agendas políticas. É importante também perceber que o exagero do filme anterior do cineasta - o polêmico e exagerado "Obessão" - parece ter sido definitivamente enterrado, diante de uma obra tão carinhosa quanto essa.

"O mordomo da Casa Branca", ao contrário do apregoado, não tem nada a ver com "Histórias cruzadas", o superestimado que deu a Octavia Spencer o Oscar de atriz coadjuvante em 2012. Enquanto a obra de Tate Taylor era hipócrita a ponto de ter uma protagonista branca para salvar os negros oprimidos, o filme de Daniels dá aos próprios o poder de mudar sua história, lutando até o fim por seus direitos e enfrentando o sistema estabelecido. E se havia espaço para o humor escatológico e sem graça no primeiro, em "O mordomo" o registro é mais sério e apropriado ao tema. Pode não ser uma obra-prima, mas é comovente, relevante e redondinho. Merece ser apreciado por suas inúmeras qualidades.

sábado

PARA MAIORES

PARA MAIORES (Movie 43, 2013, Relativity Media, 94min) Direção: Elizabeth Banks, Steven Brill, Steve Carr, Rusty Candief, James Duffy, Griffin Dunne, Peter Farrelly, Patrik Forsberg, Will Graham, James Gunn, Brett Ratner, Jonathan van Tulleken. Roteiro: Rocky Russo, Jeremy Sosenko, Ricky Blitt, Bill O'Malley, Will Graham, Jack Kukoda, Matt Portenoy, Claes Kjellstrom, Jonas Wittenmark, Tobias Carlson, Will Carlough, Jonathan van Tulleken, Elizabeth Shapiro, Patrik Forsberg, Olle Sarri, Jacob Fleisher, Greg Pritkin, James Gunn. Fotografia: Mattian Anderssonn Rudh, Frank G. DeMarco, Steve Gainer, Matthew F. Leonetti, Daryn Okada, William Rexer, Eric Scherbarth, Newton Thomas Sigel, Tim Suhrstedt. Montagem: Debra Chiate, Patrick J. Don Vito, Suzy Elmiger, Mark Helfrich, Craig Herring, Myron I. Kerstein, Joe Randall-Cutler, Sam Seig, Cara Silverman, Sandy S. Solowitz, Jonathan van Tulleken, Hakan Warn, Paul Zucker. Música: Tyler Bates, Christophe Beck, Leo Birenberg, William Goodrum, Dave Hodge. Figurino: Anna Bingemann, Nancy Ceo, Roseanne Fiedler, Florence Kemper, Judianna Makovsky, Sydney Maresca, Salvador Pérez Jr.. Direção de arte/cenários: Toby Corbett, Jade Healy, Nolan Hooper, Robb Wilson King, Dina Lipton, Happy Massee, Arlan Jay Vetter, Inbal Weinberg/Jasmine E. Ballou, Robert Covelman, Andrea Mae Fenton, Isaac Gabaeff, Amber Haley, Jean Landry, Lance Lombardo, Jessica Panuccio, Halina Siwolop. Produção executiva: Ron Burkle, Jason Felts, Tucker Tooley, Tim Williams. Produção: Peter Farrelly, Ryan Kavanaugh, John Penotti, Charles B. Wessler. Elenco: Hugh Jackman, Kate Winslet, Liev Schreiber, Naomi Watts, Anna Faris, Chris Pratt, Kieran Culkin, Emma Stone, Richard Gere, Kate Bosworth, Justin Long, Jason Sudeikis, Uma Thurman, Bobby Cannavale, Kristen Bell, Christopher Mintz-Plasse, Chloe Grace Moretz, Gerard Butler, Sean William Scott, Johnny Knoxville, Halle Berry, Stephen Merchant, Terrence Howard, Elizabeth Banks, Josh Duhamel. Estreia: 25/01/13

A primeira pergunta que surge na cabeça do espectador enquanto sobem os créditos finais da comédia "Para maiores" é a tradicional em casos do tipo: "Por que diabos atores tão bons e tão consagrados aceitaram fazer essa porcaria?" De fato a lista de nomes envolvidos no projeto é de causar inveja a qualquer diretor de elenco de Hollywood - há desde indicados e vencedores do Oscar, como Hugh Jackman, Kate Winslet e Halle Berry, até astros em franca ascensão, como Emma Stone, Chris Pratt e Chloe Grace Moretz - especialmente se for levado em consideração que o orçamento total não ultrapassou os seis milhões de dólares, o que normalmente não paga nem um terço do cachê de alguns dos atores escalados. Mas a gritaria quase unânime contra o filme - apedrejado sem dó nem piedade por crítica e público - não deixa de ser um tanto quanto exagerada. Ok, o humor de alguns quadros está realmente no limite do bom-gosto e nem sempre funciona como poderia. Tudo bem, a história que os liga é pífia e em muitos momentos tem-se a nítida impressão de que o roteiro foi escrito por um grupo de adolescentes escatológicos no auge da puberdade. Mas outros grandes sucessos de bilheteria também não eram exatamente assim? Não é à toa que um dos roteiristas e diretores do filme seja Peter Farrelly - um dos irmãos responsáveis por "Debi & Loide", que, apesar de ter o mesmo tipo de humor, serviu de trampolim milionário para a carreira de Jim Carrey.

Talvez o maior estranhamento em relação à "Para maiores" seja justamente o fato de contar com atores de prestígio e respeito se prestando a situações constrangedoras normalmente relegadas a elencos de segundo ou terceiro escalões. Não é sempre que se vê Hugh Jackman interpretando um homem com os testículos localizados no queixo ou Halle Berry fazendo guacamole com um seio. Sim, é esse o nível de humor do filme, que usa e abusa do politicamente incorreto e de algumas piadas francamente ofensivas para conquistar as gargalhadas da audiência. De acordo com a bilheteria - pouco mais de 8 milhões em casa, cerca de 23 no mercado internacional - nem todo mundo entendeu (ou quis entender) a brincadeira. O estigma de humor pouco sofisticado pesou mais do que o elenco milionário, mas não é difícil de imaginar que, deixando o preconceito de lado (junto com qualquer tipo de suscetibilidade), o público possa ter alguns bons momentos de diversão, mesmo que jamais assuma isso diante dos outros.

Quem quiser encarar o desafio de experimentar a brincadeira quase insana que é "Para maiores" tem que se preparar para quase tudo. Literalmente. Tudo começa quando dois adolescentes, em busca de vingança contra um amigo nerd, falam a ele sobre a existência de um filme maldito, proibido em todos os países do mundo e que só pode ser localizado no submundo da Internet. Tal premissa - boba como convém - serve como elo de ligação entre todos os esquetes da produção, que fazem as vezes de alguns dos filmes encontrados durante a procura dos jovens. A partir daí é bobagem atrás de bobagem, com níveis variáveis de graça e escatologia. Se não, vejamos: no primeiro encontro com um solteirão cobiçadíssimo (Hugh Jackman), uma mulher (Kate Winslet) descobre que ele tem uma particularidade física desconcertante; Naomi Watts e Liev Schreiber (casados na vida real) contam a um casal de amigos como fazem para fazer de seu lar o ambiente escolar ideal para o filho adolescente que estuda em casa; às vésperas de pedir sua namorada (Anna Faris) em casamento, rapaz (Chris Pratt, casado com Faris também atrás das câmeras) se surpreende com uma proposta pouco usual da moça para apimentar suas relações sexuais; caixa de um supermercado (Kieran Culkin) reencontra a namorada (Emma Stone) e resolve por a relação em pratos limpos esquecendo de desligar o microfone e faz todos os clientes de testemunhas de suas palavras pouco sutis.


A sessão de humor descompromissado segue adiante mostrando uma reunião de acionistas de um IPod em forma de boneca que vem mutilando os pênis dos usuários adolescentes e que encontra no diretor da empresa (Richard Gere) um empecilho para as mudanças necessárias solicitadas por uma colega do sexo oposto (Kate Bosworth); Justin Long aparece como Robin, que frequenta uma sessão de encontros-relâmpagos e dá de cara com Lois Lane (Uma Thurman), a Supergirl (Kristen Bell), o Batman (Jason Sudeikis) e o Superman (Bobby Cannavale); Chloe Grace Moretz é uma adolescente que tem a primeira menstruação na casa do namorado e, desesperada, não consegue a ajuda dele e do cunhado (Christopher Mintz-Plasse) para resolver o problema; para limpar a barra com o melhor amigo (Sean William Scott), Johnny Knoxville lhe dá de presente um duende irlandês desbocado e violento (Gerard Butler), o que irá lhes causar grandes dores de cabeça (e em outras partes do corpo); Halle Berry e Stephen Merchant se encontram às cegas e iniciam uma brincadeira de "Verdade ou desafio" que logo descamba para consequências impensáveis; Terrence Howard é um treinador de basquete dos anos 50 que tenta convencer seus atletas negros que eles tem possibilidade de vencer os rivais brancos somente porque são negros; e Elizabeth Banks (diretora do esquete estrelado por Chloe Grace Moretz) tenta, no último quadro, convencer seu noivo (Josh Duhamell) que o gato que ele trata como filho a odeia e nutre por ele sentimentos pouco fraternais e muito sexuais.

É de frequente mau-gosto? Sim. É ofensivo e por vezes inacreditável? Também. Mas "Para maiores" atinge plenamente seu objetivo de jogar para o alto o politicamente correto que vem minando a comédia no cinema e fazer rir, mesmo que de nervoso. Como cinema - em termos técnicos e narrativos - é uma nulidade, mas sua coragem em nadar contra a corrente merece ser louvada até mesmo por todos aqueles que rejeitam ferozmente seu resultado final. Não é uma comédia para todo mundo - pode-se até dizer que é para poucos, em um extremo oposto à sofisticação de Woody Allen, por exemplo - mas pode encontrar seu público, desde que este esteja disposto a mergulhar sem medo na baixaria explícita de um filme que jamais se leva a sério. Questão apenas de querer se arriscar!

sexta-feira

UM ATO DE LIBERDADE

UM ATO DE LIBERDADE (Defiance, 2008, Paramount Vantage, 137min) Direção: Edward Zwick. Roteiro: Clayton Frohman, Edward Zwick, livro "Defiance: the Bielski Partisans", de Nechama Tec. Fotografia: Eduardo Serra. Montagem: Steven Rosenblum. Música: James Newton Howard. Figurino: Jenny Beavan. Direção de arte/cenários: Dan Weil/Veronique Melery. Produção executiva: Marshall Herskovitz. Produção: Pieter Jan Brugge, Edward Zwick. Elenco: Daniel Craig, Liev Schreiber, Jamie Bell, Mark Feuerstein, Mia Wasikowska, Alexa Davalos, Allan Corduner. Estreia: 31/12/08

Indicado ao Oscar de Trilha Sonora Original

Levando-se em conta de que trata-se de uma história real que retrata um período muitas vezes destacado pela Academia de Hollywood com um punhado de estatuetas - a saber, a luta dos judeus pela sobrevivência durante os trágicos anos da dominação nazista na II Guerra Mundial - foi uma surpresa que "Um ato de liberdade", dirigido pelo experiente Edward Zwick, tenha passado quase em branco no Oscar 2009, tendo sido lembrado apenas pela trilha sonora de James Newton Howard. Realizado com a competência habitual do cineasta e estrelado por um Daniel Craig no auge da popularidade graças a seu trabalho como James Bond em "Cassino Royale" e "Quantum of Solace", o filme também não agradou nas bilheterias, tornando-se mais uma obra a amargar o injusto título de fracasso apesar de suas inúmeras qualidades. Porém, quem passar por cima desses dois pontos negativos em seu currículo, encontrará todos os elementos que constroem um belo filme: sensibilidade, ritmo, ótimos atores e uma história das mais poderosas.

Inspirado em fatos reais, "Um ato de liberdade" começa em 1941, quando os alemães invadem um vilarejo da Bielorússia e dizimam parte da população, como parte da ocupação nazista. Sobreviventes do ataque, quatro irmãos resolvem manter-se escondidos na floresta, mesmo sabendo que comida e armas são artigos de luxo. Aos poucos, o irmão mais velho, Tulvia (Daniel Craig) passa a liderar um grupo cada vez maior de foragidos que, como eles, também procuram proteção na densidade da mata. Ponderado e cerebral, ele bate de frente com seu irmão Zus (Liev Schrieber), passional e de sangue quente, que propõe que eles se unam em armas contra o exército germânico. Nesse meio tempo, a comunidade de refugiados começa a formar suas próprias regras, inclusive com casamentos e novas lideranças - o que aproxima outro dos irmãos, Asael (Jamie Bell), da tímida Chaya (Mia Wasikowska).

Dotado de um ritmo que equilibra com talento cenas de grande suspense e violência com outras de registro mais sutil e delicado, "Um ato de liberdade" pode causar estranheza ao grande público justamente por essa aparente indecisão de enfoque. No entanto, o roteiro co-escrito pelo diretor tenta aprofundar com o máximo de clareza possível as personalidades dissonantes dos irmãos protagonistas, cujas diferenças acabam se tornando o maior dos conflitos da trama: é essa disputa nem sempre sutil pela liderança do grupo cada vez maior de sobreviventes do holocausto que empurra a narrativa e mantém o suspense, além de gerar a grande questão do filme: até que ponto o ser humano pode tolerar a violência sem que também apele para o sangue? Essa dúvida, lançada já no primeiro encontro entre Tulvia e Zus, é o cerne do filme de Zwick e, apesar de não ser respondida satisfatoriamente - afinal, não há uma resposta definitiva para isso - dá margem a interpretações acima da média de seu excelente elenco.

Longe da pressão de segurar uma superprodução de Hollywood, Daniel Craig está sensacional como Tulvia Bielski, um homem dividido entre o desejo de vingança e a responsabilidade de liderar um grupo cada vez maior de pessoas - de todos os sexos, idades e classes sociais. Zwick foi inteligente em entregar a ele - ligado a filmes de ação - o personagem mais reflexivo da trama, e deixar que Liev Schrieber, um ator de amplos recursos mas ainda não devidamente louvado por isso, ficasse com o impulsivo e vingativo Zus dono de algumas das cenas mais empolgantes do filme. No meio deles, o ótimo Jamie Bell - que estreou com o pé direito no papel título de "Billy Elliot", de Stephen Daldry - e a ainda iniciante Mia Wasikowska se destacam como par romântico e alívio à tanto sofrimento e dor fotografados com extrema competência por Eduardo Serra, que mantém do início ao fim o tom escuro, úmido e quase sem esperanças dos personagens no visual realista e cru, valorizado também pelo figurino e pela direção de arte discreta e eficiente, que desaparece diante da força da história.

"Um ato de liberdade" é, no fim das contas, um belo filme que equilibra com maestria ação, drama e história, oferecendo ao público duas horas de uma narrativa séria e clássica. Pode não marcar ou surpreender, mas é, acima de tudo, uma produção caprichada e com algo a dizer.

terça-feira

HURRICANE - O FURACÃO

HURRICANE - O FURACÃO (The Hurricane, 1999, Universal Pictures, 146min) Direção: Norman Jewison. Roteiro: Armyan Bernstein, Dan Gordon, livros "The 16th Round", de Rubin "Hurricane" Carter e "Lazarus and the Hurricane", de Sam Chaiton e Terry Swinton. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Stephen Rivkin. Música: Christopher Young. Figurino: Aggie Guerard-Rodgers. Direção de arte/cenários: Philip Rosenberg/Gordon Sim. Produção executiva: Marc Abraham, Irving Azoff, Thomas A. Bliss, Rudy Langlais, Tom Rosenberg, William Teitler. Produção: Armyan Bernstein, Norman Jewison, John Ketcham. Elenco: Denzel Washington, Deborah Kara Unger, Liev Schrieber, John Hannah, Dan Hedaya, Vicellous Reon Shannon, Clancy Brown, David Paymer, Rod Steiger, Debbi Morgan. Estreia: 17/9/99 (Festival de Toronto)

Indicado ao Oscar de Melhor Ator (Denzel Washington)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator/Drama (Denzel Washington)

Em 1966, o lutador de boxe Rubin "Hurricane" Carter, forte candidato ao título de campeão mundial de peso médio, foi preso, acusado de múltiplo homicídio. Condenado a três penas de prisão perpétua, ele nunca cansou de clamar inocência, chamando a atenção dos ativistas pelos direitos civis dos negros e de personalidades como o lutador Muhamad Ali, a atriz Ellen Burstyn e o cantor Bob Dylan, que inclusive compôs uma canção de protesto narrando os fatos que levaram o atleta à prisão e levantando a clara hipótese de perseguição racial. Tal história, um dos mais contundentes retratos das diferenças sociais dos EUA na década de 60 rendeu dois livros: um, escrito pelo próprio Carter, narrava sua vida repleta de preconceito e violência. O outro, mais inspirador, revelava a relação entre ele e um adolescente negro chamado Lesra, que, se identificando com a biografia do boxeador, convenceu seus tutores canadenses a colaborar na tentativa de um novo julgamento, mais de 30 anos depois de sua condenação. Essa história - escrita pelos professores do rapaz - foi o que serviu de base para "Hurricane, o furacão", a versão cinematográfica que quase deu o Oscar de melhor ator a Denzel Washington em 2000. Dirigido pelo veterano Norman Jewison - cujo "No calor da noite" também tinha o preconceito racial como mote dramático - a história de Rubin Carter chegou às tela cercada de elogios, mas não passou incólume ao teste da realidade: acusado de distorcer os fatos em favor do protagonista, o filme sofre de uma parcialidade que dilui sua denúncia (apesar de não diminuir seu valor como arte).

Fabuloso na pele de Rubin Carter, Denzel Washington levou o Golden Globe de melhor ator dramático, mas perdeu o Oscar para Kevin Spacey, brilhante em "Beleza americana". Alguns chegaram a culpar as controvérsias geradas pelo roteiro do filme - como a criação do personagem Della Pesca, vivido por Dan Hedaya, uma espécie de Javert (de "Os miseráveis", de Victor Hugo) em sua busca incessante pela condenação do protagonista desde sua infância - para enfatizar a conotação racial da perseguição. É possível que tais polêmicas tenham realmente respingado em Denzel, mas o fato é que nem mesmo sua atuação visceral consegue esconder a irregularidade do trabalho de edição e da fragilidade da estrutura do roteiro, que muda de tom e foco repentinamente, prejudicando inclusive o ritmo empolgante de sua primeira hora. Contando praticamente dois filmes em um só - a divisão fica clara entre os dois livros que lhe deram origem - Jewison não consegue manter a unidade de sua narrativa, deixando de lado, por exemplo, a montagem fora de ordem cronológica de seus primeiros minutos, que conquistam a audiência sem muito esforço. O terço inicial do filme, forte e dramático, logo é substituído por um tom mais ameno e pacifíco que, se corresponde às mudanças espirituais do protagonista em seu processo de amadurecimento na cadeia, deixa o produto final com menos força do que poderia se mantivesse a fúria do começo.


A trama já começa com a prisão de Carter, em 1966, juntamente com um amigo, igualmente negro, pela morte de três pessoas em um bar. Reconhecido por uma testemunha ocular retratada no filme como incapaz de tal - e coagida por um policial que persegue o lutador desde que ele ainda era uma criança, ele é imediatamente preso e, depois de um julgamento pouco mostrado em cena (o que dá margem às dúvidas sobre a veracidade de seu rigor histórico) é condenado e, rebelde, impõe sua forte personalidade junto às autoridades policiais, trocando o dia pela noite, estudando seu próprio caso e escrevendo sua biografia, chamada "O 16º round". O livro se torna um sucesso e, sete anos depois, cai nas mãos de um jovem negro chamado Lesra (Vicellous Reon Shannon), que, identificando-se com a história do famoso presidiário, inicia com ele uma correspondência fraternal. Morando no Canadá com três tutores que veem nele um futuro que estava ameaçado pelo descaso paterno e familiar, Lesra acaba por convencer seus amigos a iniciarem uma campanha que exija um novo julgamento para Carter - com base em incoerências durante o processo, eles desejam anular as sentenças.

É difícil não gostar de "Hurricane, o furacão": a direção de atores de Norman Jewison é certeira, extraindo de cada ator a expressão mais correta e apropriada, a trilha sonora de Christopher Young é eficaz, e a história é contada de forma emocionante, ainda que burocrática em seus dois terços finais. Além do mais, Denzel Washington entrega uma performance avassaladora, equilibrando fúria e desespero nas medidas certas. Mas talvez com mais ousadia no roteiro e na direção um filme bom poderia ter se transformado em uma pequena obra-prima. A falta de coragem dos produtores talvez tenha sido o golpe fatal para suas intenções. Mesmo assim, é um dos grandes filmes da temporada 99.

quarta-feira

PÂNICO

PÂNICO (Scream, 1996, New Dimension Films, 111min) Direção: Wes Craven. Roteiro: Kevin Williamson. Fotografia: Mark Irwin. Montagem: Patrick Lussier. Música: Marco Beltrami. Figurino: Cynthia Bergstrom. Direção de arte/cenários: Bruce Alan Miller/Michele Poulik. Produção executiva: Marianne Maddalena, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Cathy Konrad, Cary Woods. Elenco: Neve Campbell, Courteney Cox, David Arquette, Skeet Ulrich, Jamie Kennedy, Drew Barrymore, Rose McGowan, Matthew Lillard, Liev Schreiber. Estreia: 18/12/96

O pai de uma das mais cultuadas espécies do cinema de terror estava em baixa na década de 90. Depois de ver sua mais famosa criatura - Freddy Krueger - exposto ao ridículo nas inúmeras continuações de seu "A hora do pesadelo" - incluindo até uma comandada por ele mesmo dez anos mais tarde - Wes Craven estava disposto a dar um novo rumo à carreira e abandonar o gênero que havia lhe dado fama e dinheiro. Foi então que caiu em suas mãos o roteiro de um novato chamado Kevin Williamson que dava sangue novo (literalmente) aos slasher movies - filmes ao estilo "Halloween" e "Sexta-feira 13" - acrescentando à receita doses cavalares de humor e autocrítica. Craven topou dirigir o roteiro como homenagem aos fãs que o cobravam constantemente e a Miramax resolveu lançar seu novo produto dias antes do Natal de 1996, acreditando que a plateia precisava de uma opção  aos dramas lacrimosos que ambicionavam o Oscar e os filmes familiares que dominavam as salas de cinema no mesmo período. A estreia foi pouco alvissareira, mas não demorou muito para que a propaganda boca-a-boca mostrasse seu poder: ao final de sua estadia nas telas, "Pânico" não só estava com uma renda superior a 100 milhões de dólares, como havia se transformado em uma inesperada e bem-vinda franquia de terror adolescente - e adiado mais um pouco os planos de Craven em ser um cineasta sério.

O roteiro de Williamson - que se tornaria o escritor-selo da série e de outros filmes do gênero pelos anos seguintes, além de criar a série adolescente televisiva "Dawson's Creek" - não demora a apresentar seu vilão, um cruel assassino mascarado chamado Ghostface que, em uma sequência de 12 longos minutos, tortura psicologicamente e por fim mata a facadas a jovem Casey (Drew Barrymore) em uma noite na qual a garota está sozinha em casa. O crime assusta os moradores da pequena cidade de Woodsboro, que um ano antes havia tido repercussão nos noticiários nacionais graças ao estupro e à morte de uma moradora, Maureen Prescott. Não demora para que a filha única de Maureen - que testemunhou no julgamento do homem condenado por seu assassinato - perceba que ela é o alvo principal do assassino misterioso, que passa a matar pessoas próximas a ela. Tímida e reservada, Sidney (Neve Campbell) conta com a ajuda da polícia local para fugir e desmascarar o criminoso, especialmente do atrapalhado Dewey (David Arquette) - irmão de sua melhor amiga, Tatum (Rose MacGowan) - e de seu ambíguo namorado, Billy Loomis (Skeet Ulrich), de quem começa a desconfiar quando a paranoia se transforma em companheira constante. Além de tudo, Sidney ainda precisa lidar com a empáfia de Gale Weathers (Courteney Cox), repórter de TV que está em vias de publicar um livro narrando o homicídio de Maureen.


Visto como um simples filme de terror adolescente, "Pânico" talvez não ofereça mais do que seus similares, uma vez que segue à risca todos os mandamentos do gênero - e brinca com todos eles através de diálogos inteligentes e sarcásticos. O que fez dele um exemplar refrescante - e que o fez virar febre e gerar duas continuações imediatas e uma temporã, mais de uma década depois de sua estreia - é justamente a combinação na medida certa entre o clássico e o novo, oferecendo a seu público-alvo um cinema fast-food divertido, rápido e que foi ao encontro de suas necessidades. Violento sem exageros - pelo menos dentro da concepção de violência de um filme do gênero as mortes são ao mesmo tempo tensas e dotadas de um macabro senso de humor que deu margem inclusive às sátiras de "Todo mundo em pânico" - e recheado de citações visuais e verbais ao cinema de horror moderno (com direito a uma "participação especial" do próprio Freddy Krueger e inúmeras referências a clássicos do suspense), "`Pânico" conquistou também por não levar-se demasiadamente a sério, acrescentando um tom de deboche a uma receita já devidamente testada e aprovada: esse molho especial consegue inclusive disfarçar a apatia de sua mocinha, a insípida Neve Campbell, que tornou-se um ícone da nova geração dos filmes de terror - que ganhou uma sobrevida interessante graças ao sucesso do filme.

E, além de suas qualidades como entretenimento, "Pânico" também tem histórias saborosas em seus bastidores. Drew Barrymore, por exemplo, foi escalada para viver Sidney, mas conversando com Wes Craven, ambos chegaram à conclusão de que matar uma atriz conhecida do público logo na primeira cena seria um golpe de mestre, preparando a audiência para um vale-tudo, onde tudo poderia acontecer. Molly Ringwald, ídolo da adolescência dos anos 80, também chegou a ser convidada para o papel, mas recusou por achar-se velha demais (27 anos à época) para convencer como estudante secundarista - e entre outras possibilidades levantadas por Craven estavam Reese Witherspoon e Brittany Murphy. Brooke Shields quase ficou com o papel da repórter Gale Weathers quando Janeane Garofalo pulou fora, mas na última hora o diretor optou por Courteney Cox - famosa pela série "Friends" - que, durante as filmagens, conheceu e se apaixonou por seu futuro marido David Arquette (o casamento durou até 2013). E o próprio Arquette viu seu personagem ganhar importância devido à reação positiva do público nas sessões-teste, a ponto de garantir uma sobrevida para as continuações. Linda Blair, a Reagan McNeil de "O exorcista", faz uma ponta como repórter. E até Joaquin Phoenix, hoje respeitado como um dos melhores atores de sua geração, fez um teste para viver Billy Loomis.

Item essencial da filmografia juvenil dos anos 90 e divertido ao extremo - dentro da concepção de diversão que um filme que mostra adolescentes sendo assassinados a facadas - "Pânico" é também o pai de filmes menores, como "Eu sei o que vocês fizeram no verão passado" e "Prova final", que beberam na sua fonte até o esgotamento do filão. Imperdível.

SOB O DOMÍNIO DO MAL

SOB O DOMÍNIO DO MAL (The Manchurian candidate, 2004, Paramount Pictures, 129min) Direção: Jonathan Demme. Roteiro: Daniel Pyne, Dean Georgaris, roteiro de George Axelrod, romance de Richard Condon. Fotografia: Tak Fujimoto. Montagem: Carol Littleton, Laura Rosenthal. Música: Rachel Portman. Figurino: Albert Wolsky. Direção de arte/cenários: Kristi Zea/Leslie E. Rollins. Produção executiva: Scott Aversano. Produção: Jonathan Demme, Ilona Herzberg, Scott Rudin, Tina Sinatra. Elenco: Denzel Washington, Meryl Streep, Liev Schrieber, Jon Voight, Jeffrey Wright, Ted Levine, Miguel Ferrer, Vera Farmiga, Kimberly Elise, Zeljko Ivanek. Estreia: 22/7/04

A palavra "remake" tem o poder de causar arrepios nos cinéfilos, escaldados com aberrações como o desnecessário "Psicose" que Gus Van Sant cometeu em 1998 e outras atrocidades que volta e meia assombram clássicos absolutos da sétima arte. Nem mesmo nomes consagrados como Jonathan Demme - vencedor do Oscar pelo sublime "O silêncio dos inocentes" - conseguiram sair ilesos pela prova de tentar renovar histórias pré-aprovadas pela audiência, como demonstrou no terrível "O segredo de Charlie", estrelado por Mark Wahlberg e Charlize Theron em 2002, releitura de "Charada". Mas como em Hollywood nada é definitivo, Demme voltou a buscar inspiração no passado quando aceitou comandar a refilmagem de "Sob o domínio do mal", filmaço de 1962 dirigido por John Frankenheimer e estrelado por Frank Sinatra e Angela Lansbury. Percebendo na trama criada pelo romancista Richard Condon um reflexo ainda bastante atual da paranoia política - em especial pós-11 de setembro - Demme atualizou a história de forma inteligente, escalou um elenco impecável e criou um filme que, se não marcou época como seu original, ao menos tem o mérito de manter o interesse do espectador até o final com um tom opressivo e de suspense que raros cineastas conseguem atingir.

Enquanto no filme original - que Frankenheimer dirigiu no mesmo ano em que também lançou "O anjo violento", com Warren Beatty e "O homem de Alcatraz", com Burt Lancaster - a trama se apoiava no período posterior à Guerra da Coreia, a releitura de Demme tem como ponto de partida a Guerra do Golfo, de onde emerge o Sargento Raymond Shaw (Liev Schreiber, ótimo), que, assumindo o comando de seu pelotão depois de seu superior ter sido posto fora de combate, conseguiu salvar seus colegas soldados. Condecorado como herói de guerra, Shaw inicia uma promissora carreira política, seguindo os passos de seu falecido pai e de sua mãe, a ambiciosa senadora Eleanor Prentiss Shaw (Meryl Streep, estupenda como sempre). Adorado pelo público, ele é nomeado candidato à vice-presidente, substituindo o experiente Thomas Jordan (Jon Voight), pai de uma antiga namorada, com quem rompeu devido a maquinações de sua mãe. Porém, justamente quando começa sua escalada rumo à Casa Branca, Shaw passa a ser assediado por seu antigo superior, Tenente Ben Marco (Denzel Washington), que, torturado por pesadelos constantes, procura saber, através de Shaw ou qualquer outra pessoa ligada a seu período militar, o que realmente aconteceu durante os dias em que sua equipe esteve desaparecida.


Revelando aos poucos o horror da tramoia política que envolve Marco e Shaw - que tem ligações com empresas de tecnologia médica e a sede pelo poder no governo americano - Demme conta com uma edição que equilibra com inteligência momentos de pura claustrofobia e paranoia com cenas que demonstram de maneira quase cínica os meandros da política ianque (e por que não, mundial?). O público descobre junto com Marco - em atuação excepcional de Denzel Washington - toda a enorme teia de violência e interesses financeiros por trás de uma aparente trama de simples ambição. A partir do momento em que um colega de guerra (interpretado por um Jeffrey Wright assustador) chega até Marco e questiona suas lembranças, a audiência é mergulhada em um turbilhão de informações que podem ou não ser reais, em histórias que podem ou não ter acontecido, de pessoas que podem ou não ser dignas de confiança. É aí que o cineasta - que assombrou o mundo com seu Hannibal Lecter - mostra seu diferencial, contando sua história com sutileza visual, onde a iluminação e os enquadramentos dizem mais do que páginas de diálogo. Basta reparar na forma como Shaw e Marco, por exemplo, se comportam diante de forças que não podem controlar: uma pequena mudança de semblante, uma luz diferente e pronto... o suspense está instaurado!

Co-produzido por Tina Sinatra - que detinha os direitos do filme, herdados de Frank - "Sob o domínio do mal" tem também como destaque mais uma atuação irrepreensível de Meryl Streep, nitidamente se divertindo na pele da velha raposa política Eleanor Shaw, que deu a Angela Lansbury uma indicação ao Oscar de melhor atriz coadjuvante de 1962. Elegante e fria, Streep cria uma dupla afinadíssima com Liev Schrieber, um ator subestimado que mostrou-se à altura de substituir Laurence Harvey e entrar em embates com a própria Streep e Denzel Washington, dois monstros sagrados do cinema americano. São os atores excelentes, somados à direção segura de Demme e à história perigosamente realista de Condon que fazem com que a nova versão de "Sob o domínio do mal" seja, mais do que uma refilmagem, um produto que resiste bravamente às comparações.

terça-feira

A SOMA DE TODOS OS MEDOS

A SOMA DE TODOS OS MEDOS (The sum of all fears, 2002, Paramount Pictures, 124min) Direção: Phil Alden Robinson. Roteiro: Paul Attanasio, Daniel Pyne, romance de Tom Clancy. Fotografia: John Lindley. Montagem: Nicholas de Toth, Neil Travis. Música: Jerry Goldsmith. Figurino: Marie-Sylvie Deveau. Direção de arte/cenários: Jeannine Oppewall/Cindy Carr. Produção executiva: Tom Clancy, Sttarton Leopold. Produção: Mace Neufeld. Elenco: Ben Affleck, Morgan Freeman, James Cromwell, Ken Jenkins, Ron Rifkin, Bridget Monayhan, Liev Schreiber, Philip Baker Hall, Bruce McGill. Alan Bates, Colm Feore. Estreia: 31/5/02

Jack Ryan, fictício analista da CIA criado pelo escritor Tom Clancy apareceu pela primeira vez nas telas de cinema na pele de Alec Baldwin. Era 1990 e o filme "A caçada ao Outubro Vermelho" fez um enorme sucesso. Não demorou para que outros livros de Clancy protagonizados por Ryan chegassem às telas, mas como quem manda em Hollywood é o dinheiro, em "Jogos patrióticos" (1992) e "Perigo real e imediato" (1994) ele tinha o rosto ainda mais popular de Harrison Ford. Em 2002, porém, Ford estava um pouco velho demais para voltar à personagem e saiu de fininho de um novo filme estrelado pela personagem, sem divulgar os seus motivos. A despeito das qualidades e carisma de Ford, porém, sua substituição pelo bem mais jovem Ben Affleck mostrou-se acertada. "A soma de todos os medos" é um belo thriller de ação que joga com os temores de uma guerra nuclear de grandes proporções a seu favor. E é também uma das poucas vezes em que Affleck não consegue estragar um filme com sua costumeira apatia.

Quando a empolgante trama criada por Clancy - que queixou-se depois de inúmeros erros técnicos cometidos pelo roteiro - começa, os EUA estão em sério conflito com a Rússia a respeito da Chechênia. Quando o presidente russo morre repentinamente e é substituído pelo discreto Nemerov (Ciaran Hinds), a paranoia se instala em todos os setores do governo americano. O presidente, Robert Fowler (James Cromwell) logo passa a ser aconselhado por seus assessores diretos, que insistem no fato de que uma guerra nuclear é iminente. Quem não compartilha dessa opinião é o jovem analista Jack Ryan (Ben Affleck), mas quando uma bomba explode em Baltimore ele precisa provar que sua teoria - a de que uma facção terrorista tenciona iniciar uma guerra entre os dois países - é correta, antes que o mundo corra o risco de um holocausto nuclear.



O maior acerto de "A soma de todos os medos" seja justamente o de privilegiar o suspense em detrimento da ação pura e simples. As intrigas político-governamentais assumem relevância crucial na história, assim como as sequências extremamente bem realizadas de explosões e destruição que fazem a glória do gênero. Para isso, é louvável a escalação de um elenco coadjuvante repleto de atores excepcionais como Morgan Freeman, James Cromwell e Liev Schreiber, bem como a escolha certeira do irlandês Ciarán Hinds para o central papel do presidente russo Nemerov. Com seu olhar misterioso e sua voz aterrorizante, o ator rouba as cenas em que aparece e até faz a audiência esquecer que o pretenso protagonista (Jack Ryan) aparece bem menos do que nos outros filmes da série. E para quem questiona o fato de Affleck viver Ryan mesmo sendo bem mais jovem do que Harrison Ford a resposta parece ser uma só: assim como acontece volta e meia no cinema, "A soma de todos os medos" não é nem uma continuação nem um prequel e sim uma espécie de novo início (como aconteceu com "Superman" nos anos 2000).

"A soma de todos os medos" pode não ser o melhor filme do gênero realizado em Hollywood, mas é inegável que tem qualidades redentoras e uma tensão quase palpável. Convenhamos, é muito mais do que se pode esperar de produções comerciais que normalmente só oferecem violência e piadinhas infames.

KATE & LEOPOLD

KATE & LEOPOLD (Kate & Leopold, 2001, Miramax Films, 118min) Direção: James Mangold. Roteiro: James Mangold, Steven Rogers, história de Steven Rogers. Fotografia: Stuart Dryburgh. Montagem: David Brenner. Música: Rolfe Kent. Figurino: Donna Zakowska. Direção de arte/cenários: Mark Friedberg/Stephanie Carroll. Produção executiva: Kerry Orent, Meryl Poster, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Cathy Konrad. Elenco: Meg Ryan, Hugh Jackman, Liev Schreiber, Breckin Meyer, Natasha Lyonne, Bradley Whitford, Philip Bosco. Estreia: 25/12/01

Indicado ao Oscar de Melhor Canção ("Until")

Filme ideal para aquelas mulheres que reclamam da falta de romantismo e galanteria dos homens contemporâneos, a comédia romântica "Kate & Leopold", protagonizada pela estrela máxima do gênero, Meg Ryan, é uma aula de como conquistar um público ávido por histórias de amor com finais felizes. Em pouco menos de duas horas de duração, o filme de James Mangold usa e abusa de clichês, mas o faz com tanto carinho, bom humor e leveza que é difícil deixar de gostar.

O cientista Stuart (vivido com graça pelo prestigiado Liev Schreiber) descobre um rasgo no tempo que o permite visitar a Nova York de 1876. Na apressada volta para 2001 ele acaba, por acidente, ganhando a companhia de Leopold (Hugh Jackman, perfeito), um duque falido que está sendo pressionado por seu tio a fazer um bom casamento. Em choque com as diferenças culturais e sociais de duas épocas completamente distintas, o gentil e cavalheiro Leopold acaba conquistado pela ex-namorada de Stuart, a executiva Kate McKay (Meg Ryan), que, desiludida com a espécie masculina em geral, demora a perceber que também está apaixonada pelo galante duque, que, de quebra, ajuda o irmão da moça, o aspirante a ator Charlie (Breckin Meyer) a mudar suas atitudes para seduzir uma colega.



O roteiro do diretor Mangold - exercitando um estilo diferente do dramalhão que apresentou em "Garota, interrompida" - escrito em parceria com Steven Rogers não tenta explicar como funciona as viagens no tempo que são cruciais para o início da trama, deixando que a bela e delicada história de amor entre os protagonistas comande o espetáculo. Ao optar por centrar seus esforços na dupla de atores, o cineasta marca um gol de placa. Enquanto Ryan continua utilizando seu arsenal de caras e bocas que a fizeram a preferida entre o público cativo das comédias românticas, é o astro Hugh Jackman quem rouba todas as cenas. Distante anos-luz de seu personagem mais conhecido, o furioso Wolverine de "X-Men", o ator australiano demonstra um timing cômico perfeito, além de ter o tipo físico ideal para encarnar o sedutor Leopold. Juntos, ele e Meg formam um casal adorável, o que torna a experiência de assistir a "Kate & Leopold" deliciosa.

E dá pra não simpatizar com um filme que homenageia, ainda que de leve, o clássico "Bonequinha de luxo"?

PS - Reparem na ponta da atriz Viola Davis (indicada ao Oscar de coadjuvante por "Dúvida") como a policial que aborda Leopold em seu primeiro passeio pelas ruas da Nova York de 2001.

quarta-feira

PÂNICO 3

PÂNICO 3 (Scream 3, 2000, Dimension Films, 116min) Direção: Wes Craven. Roteiro: Ehren Kruger, personagens criados por Kevin Williamson. Fotografia: Peter Deming. Montagem: Patrick Lussier. Música: Marco Beltrami. Figurino: Abigail Murray. Direção de arte/cenários: Bruce Alan Miller/Gene Serdena. Produção executiva: Cary Granat, Andrew Rona, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Cathy Konrad, Marianne Maddalena, Kevin Williamson. Elenco: Neve Campbell, Courtney Cox-Arquette, David Arquette, Liev Schreiber, Patrick Dempsey, Parker Posey, Emily Mortimer, Lance Henriksen, Heather Matarazzo, Jamie Kennedy. Estreia: 03/02/00

Não deixa de ser irônico que um filme como o primeiro “Pânico”, que em 1997 causou a ressurreição do gênero “terror adolescente” ao usar inteligentemente todos os clichês possíveis e imagináveis tenha se transformando em um objeto do próprio deboche. Ao brincar com a temática de filmes como “Sexta-feira 13” e “A hora do pesadelo” – este último criado pelo mesmo Wes Craven que dirigiu “Pânico” – a obra escrita por Kevin Williamson e comandada por Craven rendeu muito mais do que o esperado e tornou-se uma griffe. Mas o que fazia do primeiro filme uma deliciosa sessão de terror acabou se perdendo no meio do caminho entre o original e este seu terceiro capítulo.

Dessa vez o assassino (ou assassinos) que perseguia a jovem Sidney Prescott (a cada vez pior Neve Campbell) começa a massacrar os atores que filmam “A punhalada 3” – sacaram a ironia óbvia? – que é a segunda continuação de um filme de terror que conta a história mostrada no filme original. As pistas seguidas pelo detetive Mark Kincaid (Patrick Dempsey antes de voltar aos holofotes com a série “Gray’s anatomy”) parecem levar à juventude de Maureen, a mãe de Sidney, que, ao que parece, estava envolvida no mundo do cinema. O principal suspeito dos crimes passa a ser um misterioso produtor (vivido por um constrangido Lance Henriksen). E logicamente, Sidney sai de seu anonimato para ajudar a polícia a capturar o criminosoe reencontra seus amigos, a repórter Gale Weathers (Courtney Cox ainda Arquette) e o policial aposentado Dewey (David Arquette).



O que funcionou às mil maravilhas no primeiro capítulo da série continua: as mortes ainda são violentas e a tensão se mantém ocasionalmente. O que deu certo com reservas na segunda parte ainda existe: as citações à cultura pop e as brincadeiras com celebridades  pipocam a cada momento – dessa vez com Carrie Fisher e a dupla Jay & Silent Bob, dos filmes de Kevin Smith.  O elenco coadjuvante também tenta salvar a pátria, em especial a sempre divertida Parker Posey, musa do cinema independente americano dos anos 90 que interpreta uma atriz chegada a laboratórios... Mas fica evidente a falta que faz a presença de Kevin Williamson por trás das páginas do roteiro. A metalinguagem, que é interessante em certos momento e simplesmente banal em outros, é exagerada a ponto de diluir o impacto da revelação do nome do criminoso, um final bastante anti-climático que encerra de maneira apenas regular o que poderia ser uma das trilogias mais bacanas do cinema recente - e que ganhou uma nova vida em 2011.

sexta-feira

PÂNICO 2

PÂNICO 2 (Scream 2, 1997, Dimension Films, 120min) Direção: Wes Craven. Roteiro: Kevin Williamson. Fotografia: Peter Deming. Montagem: Patrick Lussier. Música: Marco Beltrami. Figurino: Kathleen Detoro. Direção de arte/cenários: Bob Ziembicki/Bob Kensiger. Produção executiva: Harvey Weinstein, Kevin Williamson, Bob Weinstein. Produção: Cathy Konrad, Marianne Maddalena. Elenco: Neve Campbell, Courteney Cox, David Arquette, Jerry O'Connell, Jada Pinket-Smith, Omar Epps, Liev Schreiber, Heather Graham, Timothy Olyphant, Sarah Michelle Gellar, Joshua Jackson, Jamie Kennedy, Tori Spelling, Portia de Rossi, Rebecca Gayhart. Estreia: 12/12/97

Em 1996, cansado de ver sua mais famosa criação - o cruel assassino Freddy Krueger - humilhado em inúmeras sequências cada vez mais absurdas de seu "A hora do pesadelo", o cineasta Wes Craven resolveu virar o jogo. De posse de um roteiro repleto de sustos e violência misturados com referências pop e brincadeiras a respeito do próprio gênero terror, "Pânico" virou sucesso imediato, especialmente entre a plateia jovem, sedenta por sair da mesmice do estilo. Entusiasmados com a bilheteria de mais de 160 milhões de dólares, Craven e o roteirista Kevin Williamson - criador da série de TV "Dawson's Creek" - fizeram o que qualquer um com um mínimo tino comercial faria: uma sequência. Sendo assim, menos de dois anos depois da estreia do primeiro capítulo, "Pânico 2" chegava às telas com o objetivo de amealhar ainda mais fãs graças a seu misterioso assassino mascarado.

Com um atraso de dois anos em relação a seu lançamento americano, "Pânico 2" chegou ao Brasil em ... Lembrando que, à época, não havia a possibilidade de baixar filmes, a expectativa dos fãs era enorme. E eles não se decepcionaram. Cientes da faixa etária e dos anseios de seu público-alvo, Craven e Williamson rechearam "Pânico 2" de ainda mais mortes, inúmeras piadas a respeito do gênero e, melhor ainda, mais suspense. Levando-se em consideração de que o "fator-surpresa" não estava mais presente (acontecimento comum em continuações), o roteirista e o diretor apostaram naquilo que se transformaria na marca registrada da série: apesar de não poupar a audiência de sangue e violência, nenhum dos filmes se leva tão a sério como poderia. E é justamente aí, nessas suas auto-crítica e auto-gozação que o filme ganha o espectador (ao menos aquele que se dispõe a dispender duas horas de seu tempo assistindo a uma bobagem descompromissada).



E bobagem descompromissada é exatamente o que "Pânico 2" é (e o primeiro e os seguintes, também o são). Quem procura elocubrações psicológicas, coerências psiquiátricas e personagens bem construídos que passe bem longe da série. "Pânico 2" é o típico filme que merece ser visto com muita pipoca e refrigerante, de preferência junto a uma plateia disposta a levar alguns sustos por 120 minutos. Deixando a credibilidade e o senso crítico em um canto quieto do cérebro é possível divertir-se bastante.

Depois dos trágicos acontecimentos do primeiro filme, a jovem Sidney Prescott (a inexpressiva Neve Campbell) está longe de sua cidade natal, Woodsboro, dedicando-se a um curso de teatro e tentando levar sua vida. No entanto, seu desejo de esquecer a violência de seu passado mostra-se em vão quando um misterioso assassino mascarado começa a imitar os crimes anteriores. Contando com a ajuda de seus amigos - o detetive Dwight (David Arquette), a jornalista Gale Wheaters (Courteney Cox) e o estudante (Jamie Kennedy) - Sidney tenta desmascarar o criminoso, que ataca cruelmente suas vítimas, todas elas bastante próximas à estudante. Quem parece estar por trás dos homicídios é (Liev Schreiber), acusado erroneamente por Sidney, no passado, de ter morto sua mãe.

"Pânico 2" já começa muito bem, ecoando o primeiro filme, em uma sequência inicial que dá o tom exato do que vem pela frente: um casal de jovens negros (vividos por Jada Pinkett e Omar Epps) são assassinados durante a pré-estreia do filme inspirado nos acontecimentos do primeiro capítulo (o uso da meta-linguagem é uma constante da série). A partir daí, o roteiro se encarrega de matar uma meia dúzia de adolescentes, sempre com muita violência e sangue, para deleite do público. Enquanto espalha pistas falsas sobre a identidade do assassino, Craven aproveita para falar mal de continuações, estabelecer clichês do gênero e até mesmo brincar com acontecimentos reais acontecidos com o elenco (como a situação de Courteney Cox ter tido fotos de seu rosto montadas sobre um falso corpo nu). Equilibrando essas piadas quase internas com cenas de muito suspense, o filme segue fluentemente até seu final que, sim, é decepcionante.

Filmado em absoluto segredo (os próprios atores só souberam o nome do assassino pouco antes das filmagens da cena), o final de "Pânico 2" não deixa de ser anti-climático, ainda que coerente com sua estética do exagero. Mesmo assim, é pouco provável que vá decepcionar àqueles que procuram assustar-se no escurinho do cinema (ou da sala de estar). Para os fãs do gênero, é um filme indispensável, como toda a série.

segunda-feira

O PREÇO DE UM RESGATE

O PREÇO DE UM RESGATE (Ransom, 1996, Touchstone Pictures, 121min) Direção: Ron Howard. Roteiro: Richard Price, Alexander Ignon, história de Cyril Hume, Richard Maibaum. Fotografia: Piotr Sobocinski. Montagem: Dan Hanley, Mike Hill. Música: James Horner. Figurino: Rita Ryack. Direção de arte/cenários: Michael Corenblith/Susan Bode. Produção executiva: Todd Hallowell. Produção: Brian Grazer, B. Kiplin Hagopian, Scott Rudin. Elenco: Mel Gibson, Rene Russo, Gary Sinise, Delroy Lindo, Lily Taylor, Liev Schreiber, Evan Handler, Donnie Wahlberg, Brawley Nolte, Dan Hedaya. Estreia: 08/11/96

Durante as filmagens de "O preço de um resgate", policial inspirado em um telefilme apresentado ao vivo nos primórdios da TV americana, seu diretor Ron Howard se viu em uma situação no mínimo rara: seu trabalho anterior, "Apollo 13" disputava o Oscar de melhor produção do ano com "Coração valente", cujo responsável pela direção era ninguém menos que Mel Gibson, o protagonista de seu filme. Essa pequena curiosidade, porém, não atrapalhou em nada o resultado final, nem em termos de qualidade nem tampouco de bilheteria: com uma renda de mais de 130 milhões de dólares, "O preço de um resgate" foi mais um dos sucessos comerciais de Gibson - que, aliás, levou vantagem na festa do Oscar, ficando com as estatuetas de filme e direção (prêmio este que Howard nem sequer disputou).

Quando "O preço de um resgate" estreou, Gibson estava no auge de sua popularidade e do respeito por parte da crítica, por isso não é surpresa que o filme tenha feito tanto sucesso. A boa notícia é que, apesar de alguns erros na carreira do ator, este aqui é um de seus pontos altos, um trabalho maduro em que ele não apenas é um astro carismático e sedutor, mas também um ator experiente e capaz de emocionar sua plateia com uma personagem dúbio e rico de nuances. Mesmo que não seja exatamente brilhante, o roteiro de Alexander Ignon e do escritor Richard Price é dotado de reviravoltas empolgantes o bastante para manter a atenção do público até suas cenas finais, onde infelizmente apela para os tiroteios corriqueiros dos filmes do gênero. Até que isso aconteça, no entanto, o espectador é brindado com uma trama interessante e dramática na medida certa.



Gibson interpreta Tom Mullen, um bem-sucedido empresário do ramo da aviação que tem seu único filho, o pequeno Sean (Brawley Nolte, filho do ator Nick Nolte) sequestrado praticamente diante de seu nariz, em uma feira em um parque de Nova York em plena luz do dia. Seu desespero e de sua esposa, Kate (Rene Russo) aumenta conforme o tempo passa e os agressores exigem a quantia de dois milhões de dólares para libertar o menino. Depois de uma tentativa frustrada de recuperar o filho - em que um dos sequestradores é morto - Mullen se enfurece com a prepotência dos criminosos e resolve não apenas recusar-se a pagar o resgate mas também entregar o dobro da quantia a qualquer pessoa com informações que levem até a gangue. Sua ousada decisão muda os rumos da situação e o policial Jimmy Shaker (Gary Sinise) assume, a partir daí importância fundamental na investigação.

Apesar de ser uma espécie de refilmagem - fato do qual Mel Gibson só tomou ciência às vésperas da filmagem - "O preço de um resgate" não tem, em momento algum, ranso de produto requentado. É um drama policial intenso, centrado principalmente na angústia de Mullen e Kate e na interrelação entre os criminosos - cujos intérpretes incluem um novato Liev Schreiber. Howard acertou em cheio em intercalar cenas de grande tensão com outras onde investiga as consequências de um crime na vida de uma família. Ao eleger como protagonista um empresário não necessariamente ético ou imaculado, ele o aproxima da plateia, principalmente devido ao trabalho poderoso de Gibson e Rene Russo, que, trabalhando juntos novamente - depois de dois filmes da série "Máquina mortífera" - apresentam uma ótima química. Russo, inclusive, tem uma atuação que lhe prova uma boa atriz dramática por trás de sua beleza clássica.

"O preço de um resgate" é um policial acima da média, com um roteiro bem cuidado - no que a assinatura de um literato como Richard Price faz uma grande diferença - e uma preocupação sincera com o trabalho dos atores. E é uma das últimas interpretações dignas da carreira de Mel Gibson até o momento (com a exceção de "Sinais", lançado seis anos depois).

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...