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sexta-feira

SEM MEDO DE VIVER


SEM MEDO DE VIVER (Fearless, 1993, Warner Bros, 122min) Direção: Peter Weir. Roteiro: Rafael Yglesias, romance de sua autoria. Fotografia: Allen Daviau. Montagem: William Anderson, Armen Minasian, Lee Smith. Música: Maurice Jarre. Figurino: Marilyn Matthews. Direção de arte/cenários: John Stoddart/John Anderson. Produção: Mark Rosenberg, Paula Weinstein. Elenco: Jeff Bridges, Isabella Rossellini, John Turturro, Rosie Perez, Benicio Del Toro, Tom Hulce. Estreia: 15/10/93

Indicado ao Oscar de Atriz Coadjuvante (Rosie Perez)

De vez em quando uma receita com todos os ingredientes certos pode não ter o resultado esperado, por  razões as mais variadas. Cinema, então, apesar de frequentemente usar e abusar de fórmulas já testadas previamente, é uma incógnita: para cada produção que confirma a validade de elementos já devidamente consagrados, outras várias avisam de que nem sempre a confluência de fatores bem-sucedidos é garantia de sucesso. É o caso de "Sem medo de viver", lançado pela Warner no final de 1993 com evidentes intenções de chegar ao Oscar - com um diretor de prestígio, um ator principal dos mais bem quistos na indústria e um tema capaz de suscitar discussões e quiça lágrimas, o filme viu frustrados seus planos quando foi praticamente ignorado pela Academia (concorreu a apenas uma estatueta) e naufragou nas bilheterias, arrecadando pouco menos de sete milhões de dólares pelo mundo. Com o passar dos anos, porém, e com o apoio da crítica, acabou por adquirir o status de cult, encontrando seu público e passando a ser considerado uma pérola escondida na filmografia dos envolvidos. 

Baseado no romance "Fearless", de Rafael Yglesias, publicado no mesmo ano de lançamento do filme, "Sem medo de viver" é um filme estranho: já começa com o protagonista, Max Klein (Jeff Bridges), conduzindo um grupo de atônitos sobreviventes de um desastre aéreo para longe do acidente. Não demora muito para que seu ato de heroísmo faça dele uma espécie de celebridade - uma consequência com a qual não se sente exatamente à vontade. O que o surpreende, na verdade, é sua repentina inabilidade de conexão com a esposa, Laura (Isabella Rossellini), e o filho pequeno, Jonah, e a sensação de invulnerabilidade e imortalidade. Crente de que sobreviver ao acidente foi como nascer de novo, Max quer recomeçar a vida, redescobrir sentimentos e - como parte de sua mente um tanto desequilibrada pelo trauma - testar seus novos poderes de resistir à morte. Através de Bill Perlman (John Turturro), psicólogo da companhia aérea, designado para acompanhar os passageiros que saíram vivos da tragédia, Max conhece Carla Rodrigo (Rosie Perez), uma jovem que perdeu o filho de poucos meses diante de seus olhos. Surge entre ele, com sua síndrome de super-herói, e ela, com seu exarcebado sentimento de culpa, uma relação inesperada.

 

Dois grandes trunfos fazem com que "Sem medo de viver" escape das armadilhas lacrimosas em que poderia cair. Um deles é a direção do australiano Peter Weir, um dos cineastas mais consistentes a aportar em Hollywood na década de 1980 - depois de sucessivos êxitos de crítica em sua terra natal, como "Picnic na montanha misteriosa" (1975) e "Gallipoli" (1981), em 1993 ele já tinha concorrido ao Oscar de direção por "A testemunha" (1985) e "Sociedade dos poetas mortos" (1989). O segundo deles é a atuação inspirada de Jeff Bridges, que ficou com o papel inicialmente pensado para Mel Gibson (parceiro do diretor em "Gallipolli" e "O ano em que vivemos em perigo" (1984)) e lhe deu uma profundidade comovente. Bridges, que chegou a declarar o filme como um de seus trabalhos preferidos, imprime a Max Klein uma verdade que impede que o roteiro - escrito pelo mesmo Rafael Yglesias autor do romance que lhe deu origem - descambe para a inverossimilhança. Por mais improváveis que sejam algumas atitudes do protagonista, a presença de Bridges equilibra a balança e conduz a história de redenção, desespero e culpa de forma sensível e sem apelar excessivamente ao dramalhão. Apesar da história em si ser bastante pesada - especialmente a trama que envolve Rosie Perez -, a mão elegante de Weir é sentida especialmente em sequências mais lúdicas, como o clímax final e a cena de abertura. Sem cair na tentação de dar tudo mastigadinho à plateia, o diretor a convida à reflexão - e talvez este tenha sido o problema de "Sem medo de viver" junto à pouco ousada Academia.

Ao homenagear apenas Rosie Perez com uma indicação - ela perdeu a estatueta para a pequena Anna Paquin, por "O piano" (1993) -, a Academia perdeu a oportunidade de aplaudir a soberba interpretação de Jeff Bridges, a direção econômica e poética de Weir e a trilha sonora eficiente de Maurice Jarre. Mesmo que não esteja no mesmo nível dos melhores trabalhos do diretor - "A testemunha", "Sociedade dos poetas mortos" e o posterior "O show de Truman: o show da vida" (1998) -, "Sem medo de viver" é um belo filme, envolvente e intrigante na medida certa. Não é uma obra-prima, mas é capaz de tocar alguns corações mais sensíveis e confirmar seu realizador como uma das mais interessantes aquisições internacionais de Hollywood.

terça-feira

A ÚLTIMA SESSÃO DE CINEMA


A ÚLTIMA SESSÃO DE CINEMA (The last picture show, 1971, Columbia Pictures, 118min) Direção: Peter Bogdanovich. Roteiro: Peter Bogdanovich, Larry McMurtry, romance de Larry McMurtry. Fotografia: Robert Surtees. Montagem: Donn Cambern. Direção de arte/cenários: Polly Platt/Walter Scott Herndon. Produção executiva: Bert Schneider. Produção: Stephen J. Friedman. Elenco: Timothy Bottoms, Jeff Bridges, Cybill Sheperd, Ben Johnson, Cloris Leachman, Ellen Burstyn, Eillen Brennan, Sam Bottoms, Randy Quaid, Clu Gulager. Estreia: 02/10/71

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Peter Bogdanovich), Ator Coadjuvante (Jeff Bridges), Ator Coadjuvante (Ben Johnson), Atriz Coadjuvante (Ellen Burstyn), Atriz Coadjuvante (Cloris Leachman), Roteiro Adaptado, Fotografia

Vencedor de 2 Oscar: Ator Coadjuvante (Ben Johnson), Atriz Coadjuvante (Cloris Leachman)

Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Ben Johnson)

Uma bela fotografia em preto-e-branco para sublinhar o tom melancólico e decadente. Personagens perdidos entre a busca por um futuro incerto e a nostalgia de um passado cálido. Uma atmosfera carregada de sensualidade e frustrações juvenis. Um diretor com olhar apurado e sensível aos detalhes. Um elenco equilibrado entre jovens promessas e talentos já consagrados. E um roteiro delicado, quase contemplativo e carregado de uma tristeza quase palpável. Com esses ingredientes certeiros, "A última sessão de cinema" tornou-se, quase de imediato, a obra-prima mais duradoura do cineasta Peter Bogdanovich. Adaptado do romance de Larry McMurtry - que ainda veria seu "Laços de ternura" fazer a limpa no Oscar de 1983 e sairia premiado pela Academia pela versão cinematográfica do conto "O segredo de Brokeback Mountain", de Anne Proulx em 2005 -, o filme de Bogdanovich surgiu, em 1971, como uma bem-vinda lembrança de que, a despeito das novidades formais que vinham chegando à Hollywood a reboque de uma nova geração de realizadores, nada é mais importante do que contar uma boa história, repleta de humanismo e sentimentos universais. Indicado a oito Oscar (incluindo melhor filme, direção e roteiro adaptado), "A última sessão de cinema" não demorou a virar cult e encontrar o caminho para o coração do público e da crítica. Em seu retrato carinhoso do fim de um período, não deixa de ser considerado uma espécie de irmão mais velho e mais sério de "Loucuras de verão" (1973) - em que George Lucas acompanhava um grupo de amigos em sua última noite antes da partida para a faculdade, no começo dos anos 1960. Porém, se a divertida obra de Lucas prima pelo bom-humor, a adaptação do livro de McMurtry opta por um viés mais desolado e dramático - e encontra em Bogdanovich o diretor ideal.

Em seu segundo longa-metragem - para efeitos práticos é conveniente deixar de lado sua experiência em "Viagem ao planeta das mulheres", de 1968, uma produção russa que ele reeditou e lançou sob o pseudônimo de Derek Thomas - e única indicação ao Oscar de melhor diretor, Bogdanovich demonstra uma segurança ímpar, assim como um senso de nostalgia que seus trinta anos de idade poderiam apenas imaginar (ou emular do romance de  Larry McMurtry, um escritor texano cujas reminiscências serviram de inspiração para a trama e que coescreveu o roteiro com o cineasta). Talvez a perda do pai durante as filmagens tenha um pouco de responsabilidade pela tristeza quase palpável das imagens fotografadas por Robert Surtees, mas o fato é que a história de amor, perda e ritos de passagem que tem lugar na empoeirada Anarene, Texas no período compreendido entre novembro de 1951 e outubro de 1952 toca fundo no coração - e fica com o espectador por um bom tempo após o fim da sessão. Poucas vezes em Hollywood uma adaptação cinematográfica encontrou correspondência tão fiel - tanto em termos de transposição da trama quanto em clima. Pode-se dizer que o ator Sal Mineo, responsável pelo encontro de cineasta e livro, fez um favor e tanto aos cinéfilos.


 

Mineo, apaixonado pela obra mas ciente de que não tinha mais idade para viver qualquer um dos protagonistas mais jovens, apresentou o romance a Bogdanovich, que também encantou-se pelos personagens e resolveu traduzir as palavras de McMurtry em imagens. Para isso, tomou uma decisão considerada arriscada comercialmente: filmar em preto-e-branco. Incentivado por Orson Welles em sua cruzada artística, o cineasta (quase) iniciante, desafiou as regras não escritas que condenavam à morte qualquer produção que fugisse do que se considerava um investimento seguro. Escolhendo a pequena Archer City como locação principal de seu projeto (não por acaso a cidade natal de McMurtry) e contando com um elenco de jovens atores praticamente iniciantes, o diretor cercou-se, no entanto, de talentos já consagrados na lista de coadjuvantes. Na impossibilidade de contar com James Stewart em um dos papéis cruciais da história (o veterano ator já estava comprometido com uma série de televisão), sua escolha recaiu sobre Ben Johnson, que, incentivado por John Ford, não apenas aceitou o desafio como fez uma limpa nas cerimônias de premiação da temporada: mesmo com pouco menos de 10 minutos em cena, Johnson levou o BAFTA, o Golden Globe e o Oscar. Sua colega de elenco, Cloris Leachman também conquistou a Academia e ficou com a estatueta de atriz coadjuvante por seu desempenho como Ruth Popper, uma mulher negligenciada pelo marido e que encontra consolo nos braços do jovem Sonny Crawford (Timothy Bottoms, uma grata revelação). Leachman, no entanto, contou com a sorte: seu papel seria de Ellen Burstyn, que preferiu viver Lois Farrow, uma beldade de outrora, mãe da moça mais cobiçada da cidade - interpretada pela estonteante Cybill Sheperd - e que tem nas lembranças do passado sua maior felicidade.

Mas se o elenco de veteranos é de encher os olhos, a sensação maior de "A última sessão de cinema" é  grupo de jovens talentos reunidos pelo cineasta. Jeff Bridges concorreu ao Oscar de coadjuvante por seu desempenho como Duane Jackson, o namorado da desejada Jacy - papel de estreia de Cybill Sheperd, que aproveitou as filmagens para ter um rápido namoro com o colega de cena e se envolver com o diretor, levando-o ao fim de seu casamento com a designer de produção Polly Platt. Timothy Bottoms quase rouba a cena na pele de Sonny, um rapaz perdido entre o presente sonolento e um futuro nebuloso, e de quebra arrumou trabalho também para o irmão, Sam, que conquista o público mesmo sem dizer uma palavra na pele de Billy - cujo destino trágico catalisa o memorável desfecho do filme. O equilíbrio alcançado por Bogdanovich, entre juventude e maturidade, entre presente, passado e futuro e entre sonhos e frustrações é o grande trunfo de "A última sessão de cinema". O carinho com que o roteiro trata seus personagens é plenamente perceptível nas belas imagens de Surtees e não é de surpreender que o cineasta os tenha revisitado em uma continuação temporã, o pouco visto e pouco lembrado "Texasville", lançado sem sucesso em 1990: assim como acontece com boa parte dos habitantes da pequena Anarene, o filme perdeu o trem da história e serviu apenas de encerramento (desnecessário, ainda que simpático) para um dos mais importantes filmes norte-americanos do começo dos anos 1970.

HOMEM DE FERRO


HOMEM DE FERRO (Iron Man, 2008, Paramount Pictures/Marvel Studios, 125min) Direção: Jon Favreau. Roteiro: Mark Fergus, Hawk Ostby, Art Marcum, Matt Holloway, personagens criados por Stan Lee, Don Heck, Larry Lieber, Jack Kirby. Fotografia: Matthew Libatique. Montagem: Dan Lebental. Música: Ramin Djawadi. Figurino: Rebecca Bentjen, Laura Jean Shannon. Direção de arte/cenários: J. Michel Riva/Lauri Gaffin. Produção executiva: Avi Arad, Peter Billingsley, Louis D''Esposito, Ross Fanger, Jon Favreau, Stan Lee, David Maisel. Produção: Avi Arad, Kevin Feige. Elenco: Robert Downey Jr., Jeff Bridges, Gwyneth Paltrow, Terrence Howard, Jon Favreau, Paul Bettany, Leslie Bibb, Shaun Toub, Faran Tahir, Clark Gregg, Samuel L. Jackson. Estreia: 14/4/2008 (Sydney)

2 indicações ao Oscar: Edição de Som, Efeitos Visuais

No mundo do cinema, assim como na vida, há males que vem pra bem. Se tivesse sido realizado lá em 1990, quando surgiram as primeiras notícias a respeito, um filme estrelado pelo Homem de Ferro provavelmente não repetiria o sucesso de "Batman" (1989), dirigido por Tim Burton. Primeiro porque o super-herói da Marvel não tinha o mesmo impacto do homem morcego, e segundo - e mais importante - seu intérprete ideal ainda não estava pronto para o desafio. No começo da década de 1990, Robert Downey Jr. tateava em busca de uma personalidade artística própria e estrelava desde comédias românticas inócuas - como "O céu se enganou" (1989) - até filmes de ação pouco inspirados - a exemplo de "Air America: loucos pelo perigo" (1990), ao lado de Mel Gibson. Na década seguinte, conheceria a glória do prestígio - com uma indicação ao Oscar de melhor ator, por "Chaplin" (1992), e o início de um período em que quase sucumbiu às drogas. Foi somente depois de provar que seu talento estava intacto apesar dos altos e baixos que Downey Jr. finalmente encontrou o papel de sua vida: depois de ver o ator na comédia policial "Beijos e tiros" (2005), o ator/diretor Jon Favreau, escolhido para finalmente tocar adiante o projeto estrelado pelo multimilionário Tony Stark, encontrou nele o intérprete ideal. Era 2007, e a carreira de Downey Jr. nunca mais seria a mesma - assim como a história da Marvel no cinema.

Primeiro filme totalmente financiado da Marvel Studios - e o primeiro de um acordo com a Paramount Pictures - e rodado a um custo estimado de 140 milhões de dólares, "Homem de ferro" foi beneficiado pelo destino. Tivesse realmente sido produzido pela Universal Pictures em 1990, teria sido dirigido por Stuart Gordon, não exatamente um cineasta acostumado a grandes produções. Se mais tarde, em 1996, quando a 20th Century Fox assumiu o projeto, ele tivesse ido adiante, a presença de Nicolas Cage no papel principal poderia tanto ser um pró (ele recém havia recebido um Oscar por "Despedida em Las Vegas" e "A rocha" era um sucesso prestes a acontecer) quanto um contra (não demoraria para que Cage se tornasse um ator de apelo duvidoso nas bilheterias). Dois anos depois, foi a vez de Tom Cruise demonstrar interesse no personagem, mas novamente nada aconteceu. Em 1999, para a feliz ilusão dos cinéfilos, ninguém menos que Quentin Tarantino se viu envolvido na concepção de um roteiro e em um possível contrato como diretor, mas em seguida os direitos foram transferidos para a New Line Cinema e, com eles tal possibilidade. Joss Whedon, fã do personagem e diretor de episódios de séries de televisão, como "Buffy: a caça-vampiros", chegou perto de finalmente dar uma cara a Stark e companhia - mas só se uniria de vez ao universo Marvel com "Os vingadores" (2012). A última tentativa da New Line em levar "Homem de ferro" adiante foi com Nick Cassavetes - conhecido por dramas como "Loucos de amor" (1998) e "Diário de uma paixão" (2004), porém foi somente com a retomada da Marvel que as coisas finalmente aconteceram.

 

De posse dos direitos do personagem, a Marvel percebeu que, a menos que ela mesma tomasse as rédeas, seu tão estimado projeto jamais veria a luz dos refletores. Foi assim que Jon Favreau - mais conhecido como ator - ganhou sua tão sonhada chance de assumir o comando do filme: escalado para dirigir "Capitão América: o primeiro vingador" (que só chegaria às telas em 2011), Favreau optou por contar a história do multimilionário Tony Stark em direção à glória como o aclamado Homem de Ferro, e levou o desafio a sério. Com a Industrial Light & Magic contratada para supervisionar os efeitos visuais (acabou sendo o último trabalho do mestre Stan Winston, indicado ao Oscar da categoria) e vários escritores das revistas do personagem chamados para evitar discrepâncias em relação a suas origens, Favreau acertou em mesclar um tom mais sério a uma atmosfera leve e atualizar a história. Nos quadrinhos, Stark se torna o Homem de Ferro durante sua participação na Guerra do Vietnã, mas o roteiro do filme fez uma alteração crucial para uma maior comunicação com as plateias do século XXI, e transferiu parte da ação para o Afeganistão. Acertando em cheio em aproximar protagonista e público, Favreau teve ainda mais sorte em contar com Downey Jr. na pele de Tony Stark, um milionário filantropo, mulherengo, amante de aventuras e inventor - baseado no empresário Howard Hughes - que, depois de escapar por pouco de ser morto por um grupo terrorista, passa a se dedicar a aprimorar sua armadura de Homem de Ferro com o objetivo de lutar contra o mal.

Downey Jr. - que recebeu módicos 500 mil dólares por seu trabalho, menos inclusive do quanto foi pago a Terrence Howard, seu colega de elenco - é o corpo e a alma de "Homem de ferro". Mesmo ao lado de nomes fortes como Jeff Bridges, ele conduz o ritmo e o tom quase debochado do filme, conquistando o público sem fazer muito esforço. Clive Owen e Hugh Jackman - que chegaram a ser cogitados para o papel - podem ser excelentes atores, mas Downey nasceu para viver o Homem de Ferro, segundo palavras de seu próprio criador, Stan Lee. Seu talento não apenas para dar vida ao personagem, mas também para improvisar boa parte de suas falas durante as filmagens - para desespero do ortodoxo Bridges e da premiada Gwyneth Paltrow, que interpreta Pepper Potts, secretária e interesse romântico do herói - justifica o sucesso do filme junto à crítica e às mais exigentes plateias. O roteiro pode não apresentar nada de novo (em especial aos fãs dos quadrinhos) e os efeitos visuais não chegam a surpreender, mas o desempenho do ator, que teve sua carreira retomada com gás total, é motivo mais que suficiente para que até mesmo o espectador menos interessado no gênero dê uma conferida. É entretenimento de primeira, e o pontapé inicial da vitoriosa criação do Universo Cinematográfico Marvel!

TUCKER: UM HOMEM E SEU SONHO

TUCKER: UM HOMEM E SEU SONHO (Tucker: The man and his dream, 1988, Paramount Pctures/Lucasfilm, 110min) Direção: Francis Ford Coppola. Roteiro: Arnold Schulman, David Seidler. Fotografia: Vittorio Storaro. Montagem: Priscilla Nedd-Friendly. Música: Joe Jackson. Figurino: Milena Canonero. Direção de arte/cenários: Dean Tavoularis/Armin Ganz. Produção executiva: George Lucas. Produção: Fred Fuchs, Fred Roos. Elenco: Jeff Bridges, Joan Allen, Martin Landau, Frederic Forrest, Mako, Elias Koteas, Christian Slater, Jay O. Sanders, Peter Donat. Estreia: 12/8/88

3 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Martin Landau), Figurino, Direção de Arte/Cenários

Os homens e seus sonhos: em 1945, logo depois da II Guerra Mundial, Preston Tucker tinha o sonho de construir um carro popular, eficiente, seguro e econômico - mas não conseguiu ir muito longe em seu objetivo, atropelado que foi pelos gigantes da indústria automobilística que não viam com bons olhos sua intrusão em seu meio. Em 1974, o cineasta Francis Ford Coppola, apaixonado pelo carro criado por Tucker, sonhava em realizar um filme contando a história de seu empreendimento e sua batalha judicial para manter-se no mercado. Tucker foi acusado de fraude e levado a julgamento, vendo seu sonho despedaçar-se tão logo tornou-se realidade. Coppola também penou para levar adiante seu projeto - em 1974, queria Marlon Brando no papel principal, mas o filme não foi adiante e ele foi realizar o problemático "Apocalipse now". Tão logo acabou o suplício das pós-produção, chamou Burt Reynolds para protagonizar sua história e mais uma vez o sonho não se tornou realidade. Foi somente em 1988, mais de uma década depois da primeira vez em que pensou no filme é que finalmente "Tucker: o homem e seu sonho" viu a luz dos refletores. No papel central, nem Brando, nem Reynolds nem Jack Nicholson (a quem também foi oferecido), e sim um Jeff Bridges vibrante, entusiasmado e bom ator como nunca. O sonho estava realizado, mas assim como o heroi visionário de Bridges, Coppola também sentiu o sabor agridoce da vitória parcial.

Enquanto Tucker se viu obrigado a encerrar a produção de seus carros depois de apenas 51 exemplares, Coppola não obteve, com seu filme, o reconhecimento esperado e devido, tanto da crítica quanto do público. Com uma renda doméstica insuficiente até mesmo para cobrir o orçamento modesto de 23 milhões de dólares e aplausos apenas mornos da imprensa e das cerimônias de premiação - recebeu tímidas 3 indicações ao Oscar e não converteu nenhuma em estatueta - a história de Preston Tucker acabou por refletir, como em um espelho, as batalhas do cineasta por manter seus princípios artísticos em uma indústria tão impiedosa quanto Hollywood. Dono de dois exemplares do carro de Tucker (outros dois são de propriedade do produtor do filme, George Lucas), Coppola tem uma trajetória de perdas e ganhos tão intensa que não é de espantar sua admiração pelo destemido empresário, que, como ele, era capaz de arriscar qualquer coisa para realizar o que considerava certo. Ele também uma vítima das corporações que ditam as regras de seu negócio, Coppola parece dizer que ele é o Preston Tucker do cinema: um homem de visão, talento e entusiasmo, mas que, como um Davi, infelizmente não tem a força necessária para derrotar poderosos Golias.


Fascinante enquanto reflexo de seu realizador, como cinema "Tucker: um homem e seu sonho" não chega a ser tão admirável quanto os melhores filmes de Francis Ford Coppola. Apesar da paixão que sente por seu biografado, o cineasta parece preso a uma narrativa convencional em excesso, mesmo que o roteiro tente inserir um pouco de humor no tom documental que abre o filme - uma referência aos documentários cinematográficos da época em que se passa a história. Visualmente requintado (a direção de arte e o figurino foram indicados ao Oscar e perderam para "Ligações perigosas", de Stephen Frears), o filme apresenta tudo o que se pode esperar de um cineasta do porte de Coppola: uma direção sensível, atores em composições admiráveis (Martin Landau também concorreu ao Oscar), uma fotografia deslumbrante do veterano Vittorio Storaro e uma edição ágil e criativa. Apenas o roteiro - construído sobre informações coletadas pelo diretor através da Justiça americana, que mantinha confidencialidade sobre o processo - carece de maior força, raramente atingindo todas as inúmeras possibilidades que oferece em um primeiro momento. Entre o início promissor e o final climático - onde a força do talento de Jeff Bridges ilumina tudo a seu redor - há um exagero de cenas redundantes, que parece reiterar, sem necessidade, a batalha de Tucker contra seus algozes.

A trama é simples: com o fim da II Guerra, Preston Tucker (Jeff Bridges) convence a família, os amigos e o público (através de anúncios em revistas), de que será o responsável por criar um carro capaz de concorrer com aqueles fabricados pelas grandes montadoras do país (GM, Ford e Chrysler). Obtendo financiamento com a ajuda do esperto e experiente Abe (Martin Landau) e contando com o apoio logístico do jovem engenheiro Alex Tremulis (Elias Koteas), ele consegue finalmente chegar ao protótipo de seu veículo - mas esbarra, então, nos todo-poderosos da indústria, que passam, então, a lutar contra ele até o ponto de acusá-lo criminalmente e levá-lo a julgamento. Coppola conduz com adequadas serenidade e leveza uma história que, apesar dos dramas, é fundamentada basicamente em esperança e paixão - paixão essa que era também a de Gian-Carlo, filho do diretor, morto aos 22 anos de idade e a quem o filme é dedicado. Emocionante sem ser piegas, "Tucker: um homem e seu sonho" é um sonho de Francis Ford Coppola a respeito do sonho de Preston Tucker. Pode não ser uma obra-prima, mas é movido a sentimentos positivos e uma bela nostalgia - o que já é bem mais do que se pode dizer de muitos filmes mais ambiciosos, mais elogiados e bem menos competentes.

segunda-feira

A QUALQUER CUSTO

A QUALQUER CUSTO (Hell or high water, 2016, Film 44/OddLot Entertainment/Sidney Kimmel Entertainment, 102min) Direção: David Mackenzie. Roteiro: Taylor Sheridan. Fotografia: Giles Nuttgens. Montagem: Jake Roberts. Música: Nick Cave, Warren Ellis. Figurino: Malgosia Turzanska. Direção de arte/cenários: Tom Duffield/Wilhelm Pfau. Produção executiva: Braden Aftergood, Bill Lischak, Michael Nathanson, John Penotti, Gigi Pritzker, Rachel Shane, Bruce Toll. Produção: Peter Berg, Carla Hacken, Sidney Kimmel, Julie Yorn. Elenco: Chris Pine, Ben Foster, Jeff Bridges. Estreia: 16/5/16 (Festival de Cannes)

4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator Coadjuvante (Jeff Bridges), Roteiro Original, Montagem

Quando "A qualquer custo" estreou, na mostra Um Certo Olhar do Festival de Cannes 2016, foi impossível não perceber a influência do cinema dos irmãos Coen - mais especificamente de "Onde os fracos não tem vez" (2007) - na narrativa proposta pelo roteirista Taylor Sheridan e pelo diretor David Mackenzie. Longe de ser um ponto negativo no filme, a homenagem (talvez involuntária, talvez proposital) acaba por ser um trunfo a mais em uma produção barata (custou 12 milhões de dólares, menos do que o salário dos grandes astros de Hollywood) que foi conquistando o público aos poucos e que, com a ajuda da crítica especializada, terminou a temporada disputando o Oscar em quatro categorias, incluindo melhor filme e ator coadjuvante (Jeff Bridges totalmente à vontade). Bem-humorado, ágil e emocionante na medida certa, é um bem azeitado misto de western moderno e comédia dramática que ainda encontra tempo para uma contundente crítica ao sistema financeiro norte-americano, cada vez mais dominado pelas instituições bancárias.

Os protagonistas da trama são dois irmãos de temperamentos opostos: o mais velho, Tanner (Ben Foster), é impulsivo, irresponsável e acaba de sair da prisão; o mais novo, Toby (Chris Pine), amarga uma separação traumática, o afastamento dos filhos e um período de sofrimento enquanto cuidava da mãe doente. Para pagar as dívidas da fazenda herdada e apaziguar os ânimos da ex-mulher, Toby aceita fazer parte do plano de seu irmão e assaltar uma série de bancos do interior do Texas. No meio do caminho, eles passam a ser caçados pelo dedicado Marcus Hamilton (Jeff Bridges), que, ao lado do parceiro indígena, Alberto Parker (Gil Birmingham), embarca em uma incansável busca pelo paradeiro dos dois jovens, que aproveitam sua odisseia pessoal para reafirmarem seus laços familiares, prejudicados pelo longo processo de doença de sua mãe e pela prisão de Tanner.


O roteiro de Taylor Sheridan é um primor de concisão e objetividade, que não apela para tramas paralelas desnecessárias nem tampouco cria coadjuvantes supérfluos: tudo que apresenta desde seu primeiro minuto é crucial para o desenvolvimento da história que se propõe a narrar, inclusive os personagens que cruzam o caminho dos protagonistas (um tom quase surreal que também lembra muito o estilo dos irmãos Coen). Indicado ao Oscar em sua categoria, Sheridan mistura elementos de faroeste moderno com visual e ritmo de road movie, apoiando-se basicamente no talento de seus atores para conquistar a plateia. Para sua sorte, a direção de David Mackenzie acerta o tom com extrema habilidade, entregando a responsabilidade a um elenco nitidamente confortável em seus papéis. Se Jeff Bridges brinca como nunca na pele do policial no encalço dos irmãos assaltantes - seus diálogos com o parceiro são sensacionais - e Ben Foster comprova sua capacidade ilimitada de entregar-se de corpo e alma a seus trabalhos, é Chris Pine quem mais surpreende, inundando de humanidade e sensibilidade um personagem que é, talvez, o mais importante de sua carreira, normalmente focada em produções mais comerciais e menos independentes. É seu personagem o elo do filme com o público, e o ator consegue transmitir toda as nuances exigidas sem apelar para excessos. Um grande acerto.

Sem evitar a violência necessária - mas cuidando para que ela não seja o ponto crucial do filme - Mackenzie constrói o suspense de "A qualquer preço" através dos atos de seus personagens, todos plenamente cientes das consequências de suas ações. Mesmo que talvez seja previsível que algo trágico vá acontecer no final do caminho (afinal trata-se de um conto sobre trangressões morais e legais como forma de remediar injustiças, o que nunca acaba em final totalmente feliz), o roteiro toma o cuidado de não ser óbvio ou explícito demais, passando sua mensagem de maneira direta e clara, sem subestimar a inteligência da plateia ou saturá-la com discursos panfletários. É um filme que entrega à audiência exatamente aquilo que promete - e até um pouco mais, se for levado em consideração o alto grau de qualidade de seu elenco, muito acima do chamado do dever. Um dos grandes filmes da temporada 2016, mesmo que em formato discreto e despretensioso.

quinta-feira

O FIO DA SUSPEITA

O FIO DA SUSPEITA (Jagged edge, 1985, Columbia Pictures, 108min) Direção: Richard Marquand. Roteiro: Joe Eszterhas. Fotografia: Matthew F. Leonetti. Montagem: Sean Barton, Conrad Buff. Música: John Barry. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Gene Callahan/Peter J. Smith. Produção: Martin Ransohoff. Elenco: Glenn Close, Jeff Bridges, Peter Coyote, Robert Loggia, Lance Henriksen, James Karen, Marshall Colt. Estreia: 05/9/85 (Festival de Toronto)

Indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante (Robert Loggia)

A cena é típica: em uma mansão à beira-mar de São Francisco, uma mulher é surpreendida durante o sono por um homem vestido com uma máscara que lhe esconde o rosto. Violentamente, o invasor a mata a facadas, mutilando-a e utilizando seu sangue como tinta, para escrever na parede uma ofensa final. Assim começa o filme "O fio da suspeita", do mesmo Richard Marquand que também dirigiu o ultra bem-sucedido "O retorno de Jedi" (83), e se a sequência parece familiar é porque seu criador é o mesmo Joe Eszterhas de "Instinto selvagem", realizado em 1992. Usando os mesmos elementos que usaria para escrever o maior sucesso de sua carreira - uma boa história, personagens interessantes e reviravoltas até os últimos minutos - Eszterhas conquistou o público, graças à elegância da direção de Marquand (em seu penúltimo filme) e ao elenco impecável, que dá credibilidade e legitimidade a uma trama policial que, mesmo sem maiores novidades, prende o espectador de seu instigante começo até o desfecho climático - que, ao contrário do que foi dito à época de seu lançamento, não foi alterado e sim tornado mais claro depois das primeiras exibições.

No filme, a vítima da primeira cena é a milionária Page Forrester, que morre e deixa toda a sua fortuna para o marido, Jake (Jeff Bridges), que, logicamente, passa a ser o principal suspeito do crime. Quando uma faca similar à arma do crime é encontrada em seu armário no clube, Jake é imediatamente indiciado e somente uma boa defesa pode impedí-lo de uma condenação pelo júri popular. Entra em cena então a competente Teddy Barnes (Glenn Close), que abandonou o Direito Penal depois de uma decepção profissional, mas que acaba seduzida pelo charme irresistível do réu. Enquanto trabalha na defesa do jovem milionário, Teddy entra em confronto com o venal promotor Thomas Krasny (Peter Coyote) - com intenções de ascender politicamente graças ao caso - e se vê envolvida sentimentalmente pelo cliente, que jura inocência. Para deixar tudo ainda mais confuso, Teddy começa a receber bilhetes anônimos, escritos à máquina e que afirmam a inocência do acusado.


Confiante em seu elenco e na história que tinha em mãos, Richard Marquand acertou em cheio em não tentar inventar a roda, preferindo apostar em uma narrativa linear e simples, pontuada aqui e ali com algumas surpresas para manter o interesse do público e o ritmo da trama. Equilibrando com maestria tanto o lado romântico do enredo quanto seu ângulo policial, o cineasta explora com inteligência o talento de seus dois protagonistas, ambos com atuações sutis e que deixam espaço para o brilho de seus colegas de cena - que o diga Robert Loggia, indicado ao Oscar de ator coadjuvante por seu desempenho como Sam Ransom, investigador que auxilia Teddy em sua busca pela verdade. Também optando por uma interpretação sem excessos, Loggia quase rouba a cena, com um personagem à margem de todo o jogo de poder e sedução que se desenrola à sua volta. O mesmo pode ser dito de Peter Coyote, que mesmo com um personagem um tanto clichê em mãos, o transforma em uma pessoa de carne e osso. Glenn Close - em papel oferecido a Jane Fonda e Kathleen Turner e que quase foi rejeitada pelo produtor Martin Ransohoff por ser considerada feia - está elegante e sóbria, transmitindo todas as nuances de sua personagem antes de encarar as duas vilãs que marcariam sua carreira (e lhe dariam indicações ao Oscar), em "Atração fatal" (87) e "Ligações perigosas" (88). E Jeff Bridges, no personagem mais sedutor de sua carreira, segura com unhas e dentes o personagem dúbio herdado de Michael Douglas - coincidentemente ou não, o protagonista de "Instinto selvagem".

Inteligente, elegante e dotado de todos os ingredientes que fazem a festa dos fãs de filmes policiais passados em tribunais, "O fio da suspeita" agrada a qualquer espectador que se disponha a acompanhar uma história bem contada, com atores competentes e um final coerente e lógico. Sem apelar para as estripulias eróticas de "Instinto selvagem" e "Jade" (95), seus filmes mais famosos, Eszterhas brinda a plateia com um roteiro coeso e fluente, que jamais perde o foco e de quebra mantém o suspense mesmo quando tudo parece se encaminhar para o óbvio. Seu final - que pode ou não agradar aos mais exigentes - pode não ser brilhante, mas pelo menos não ofende a inteligência do público como muitos suspenses que se pretendem surpreendentes e acabam por cair no inverossímil. Um belo filme policial dos anos 80 que sobrevive muito bem ainda hoje.

quarta-feira

BRAVURA INDÔMITA

BRAVURA INDÔMITA (True grit, 2010, Paramount Pictures, 110min) Direção: Joel Coen, Ethan Coen. Roteiro: Ethan Coen, Joel Coen, romance de Charles Portis. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Roderick Jaynes. Música: Carter Burwell. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: Jess Gonchor/Nancy Haigh. Produção executiva: David Ellison, Megan Ellison, Robert Graf, Paul Schwake, Steven Spielberg. Produção: Ethan Coen, Joel Coen, Scott Rudin. Elenco: Jeff Bridges, Hailee Steinfeld, Matt Damon, Josh Brolin, Barry Pepper, Domhnall Gleeson. Estreia: 14/12/10

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Direção (Ethan Coen, Joel Coen), Ator (Jeff Bridges), Atriz Coadjuvante (Hailee Steinfeld), Roteiro Adaptado, Fotografia, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Edição de Som, Mixagem de Som

“Onde os fracos não tem vez”, que conquistou a Academia em 2007, já tinha os dois pés cravados em alguns dos mais fortes cânones do western, mas os irmãos Coen – que já haviam brincado com sucesso com vários gêneros caros ao cinema americano – ainda não tinham assinado um faroeste tradicional, daqueles com cavalos, tiroteios heróicos, xerifes, mocinhas valentes e crepúsculos espetaculares. “Bravura indômita”, lançado em 2010, acabou com essa falha. Baseado no romance de Charles Portis que também foi a base do filme de mesmo nome que deu o Oscar de melhor ator a John Wayne, o remake da dupla que já havia revirado os elementos do cinema noir (“Gosto de sangue” e “O homem que não estava lá”), das comédias malucas(“Arizona nunca mais”), dos filmes de gângsters (“Ajuste final”), dos musicais (“E aí, meu irmão cadê você?”) e das comédias românticas (“O amor custa caro”) é um exemplo típico do melhor que o cinemão hollywoodiano pode oferecer ao público quando se trata de narrativas clássicas. Bem escrito – com diálogos inteligentes e salpicados do humor típico dos diretores – e dirigido com extrema competência, é um filme capaz de agradar aos mais exigentes fãs do gênero e, de quebra, arrebanhar cinéfilos que nunca foram muito entusiastas de duelos ao sol.
Indicado a dez Oscar na cerimônia de 2011 dominada pela mediocridade de “O discurso do rei”, “Bravura indômita” mereceu cada uma de suas indicações. Com uma realização impecável – a mais requintada da carreira dos diretores – o filme transcende tanto o livro no qual é baseado quanto o original lançado em 1960. Dotada de uma irreverência e um sarcasmo apenas ensaiado no filme anterior, essa nova versão oferece ao espectador uma trama cujos conceitos de heroísmo, vingança e justiça são bem mais elásticos e coerentes com uma geração que certamente rejeitaria o maniqueísmo inerente aos gloriosos tempos do gênero, onde as mulheres normalmente eram relegadas a segundo plano. Só por ter como protagonista uma mulher – ou melhor dizendo, uma adolescente de 14 anos – “Bravura indômita” já mostra que tem mais a dizer do que a maioria de seus pares. Indicada inexplicavelmente ao Oscar de atriz coadjuvante – já que sua Mattie Ross é a personagem central da trama – a novata Hailee Steinfeld se mostra à altura do desafio, encarando sem medo a oportunidade de enfrentar, logo em sua estreia nas telas, nomes como Jeff Bridges, Matt Damon e Josh Brolin.
Mattie Ross, a personagem de Steinfeld, é uma jovem que chega a uma pequena cidade do interior para reclamar o corpo do pai, covardemente assassinado por um empregado, Tom Chaney (Josh Brolin, assustador). Dotada de uma coragem sem igual, ela quer, na verdade, caçar o criminoso e entregá-lo à justiça. Para isso, ela chega até o lendário Rooster Cogburn (Jeff Bridges), que há muito já deixou para trás seus melhores dias como caçador de recompensas. Aceitando a proposta da menina – teimosa e pouco afeita às delicadezas femininas que ele, bêbado e acostumado com o violento universo masculino de carteados e assassinatos – de buscar Chaney, Cogburn acaba se surpreendendo quando a própria contratante resolve acompanhá-lo na missão. Depois de uma série de discussões, os dois iniciam a jornada, juntamente com o xerife LaBoeuf (Matt Damon), também com razões de sobra para querer por as mãos no fora-da-lei.

Com essa história simples em mãos, Ethan e Joel Coen apagam a má impressão que deixaram com sua experiência anterior em remakes – quando transformaram “Quinteto da morte” no sem graça “Matadores de velhinhas” – e realizam um de seus melhores filmes. Normalmente acostumados a trabalhar com material próprio, eles acabam por transformar a história de Charles Portis em um território fértil para seu jeito particular de fazer cinema, salpicando de humor e uma certa estranheza uma trama aparentemente banal. Juntamente com cenas de estonteante beleza – cortesia da fotografia excepcional de Roger Deakins, que se aproveita dos cenários naturais para construir sequências de encher os olhos – os diretores apresentam uma visão ao mesmo tempo carinhosa e irônica a um gênero constantemente em processo de mutação e redescoberta pelo público. Avessos à violência explícita, eles não hesitam em mostrar corpos em putrefação quando necessário, mas evitam utilizá-la como artifício narrativo primordial, concentrando seu foco na relação entre o trio de personagens principais – uma relação calcada em um misto de admiração, desprezo e solidariedade que somente um roteiro tão repleto de nuances é capaz de apresentar sem parecer esquizofrênico ou incoerente. E além do senso de ritmo invejável – quando a história parece querer esfriar o temido Chaney entra em cena para agitar as coisas – os irmãos Coen também dão a Jeff Bridges mais um personagem dos melhores em sua carreira.
Brigão, ranzinza e politicamente incorreto, Rooster Cogburn deu  John Wayne seu único Oscar e quase deu a Bridges sua segunda estatueta apenas um ano depois de sua primeira vitória pelo cantor country de “Coração louco”. Sem medo das comparações com a clássica interpretação de um dos atores mais fortemente vinculados ao western americano, Bridges injetou a Cogburn um senso de humor ácido que combina com exatidão com a visão quase iconoclasta dos cineastas, que respeitam os elementos do faroeste sem precisar, para isso, ater-se à visão normalmente preconceituosa com que os filmes do gênero apresentavam de mulheres, indígenas e afins. O “Bravura indômita” do século XXI não entra em discussões sexistas ou raciais, preferindo abster-se de polêmicas e apenas contar, da melhor forma possível, uma boa história. Contando com a ajuda de um grande orçamento – e a produção executiva de Steven Spielberg – os oscarizados irmãos cineastas/roteiristas juntaram uma equipe técnica impecável, um elenco acima de qualquer suspeita, uma trama já testada e aprovada por várias gerações de cinéfilos e seu talento imenso para criar um novo clássico. Mesmo tendo perdido todos os Oscar a que concorria – injustamente, diga-se de passagem – “Bravura indômita” é um filme a ser lembrado como um perfeito exemplo do cinemão que só Hollywood é capaz de fazer.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...