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quinta-feira

UM LUGAR NO CORAÇÃO

 


UM LUGAR NO CORAÇÃO (Places in the heart, 1984, TriStar Pictures, 111min) Direção e roteiro: Robert Benton. Fotografia: Néstor Almendros. Montagem: Carol Littleton. Música: John Kander. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Gene Callahan/Derek Hill, Lee Poll. Produção executiva: Michael Hausman. Produção: Arlene Donovan. Elenco: Sally Field, Danny Glover, John Malkovich, Ed Harris, Amy Madigan, Lindsay Crouse. Estreia: 04/10/84

07 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Robert Benton), Atriz (Sally Field), Ator Coadjuvante (John Malkovich), Atriz Coadjuvante (Lindsay Crouse), Roteiro Original, Figurino

Vencedor de 2 Oscar: Atriz (Sally Field), Roteiro Original

Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Sally Field)

Na cerimônia do Oscar que premiou os melhores filmes de 1984, uma situação atípica configurou-se na categoria de melhor atriz. Três das candidatas ao prêmio da Academia estavam na briga por papéis quase similares. Tanto Jessica Lange em "Minha terra, minha vida" quanto Sissy Spacek em "O rio do desespero" e Sally Field em "Um lugar no coração" chegaram às finais da disputa interpretando mulheres fortes e determinadas a defender sua propriedades rurais. Field levava vantagem - estava indicada por uma produção que também concorria a estatuetas de filme, direção e roteiro - e acabou saindo vitoriosa pela segunda vez na carreira, mas a a coincidência temática acusava mais do que simples falta de originalidade: no meio da década de 1980, uma espécie de ciclo de filmes situados nos anos pós-Depressão parecia servir como uma luva ao conservadorismo do governo Reagan, então em seu primeiro mandato como presidente. Ao voltar os olhos para o passado, os grandes estúdios de Hollywood recontavam uma parte da história que ninguém desejava repetir - e de quebra davam a cineastas e atores grandes oportunidades dramáticas e artísticas. Tudo bem que "Um lugar no coração" não levou o Oscar de melhor filme, mas sua premiação na categoria de roteiro original - contra três comédias - é sinal inequívoco de que até mesmo a Academia se deixou levar por tal sentimento de melancolia e superação.

Não que o filme de Robert Benton - voltando ao Oscar cinco anos depois do triunfo de seu "Kramer vs Kramer" (1979) - careça de qualidades que justificam seu sucesso junto à crítica. Com uma protagonista com ecos de Scarlett O'Hara e um tom triunfalista capaz de emocionar aos espectadores mais sensíveis, "Um lugar no coração" é um filme à moda antiga, com personagens complexos, uma trama simples mas eficiente e a felicidade de driblar o sentimentalismo e os clichês - quando estes aparecem servem como combustível para a história e não como uma muleta narrativa. Amparado por uma atuação caprichada de Sally Field - que também saiu vitoriosa no Golden Globe - e um elenco coadjuvante brilhante que inclui um jovem John Malkovich e Danny Glover em um de seus primeiros papéis importantes, a produção de Benton conquista desde as primeiras cenas, graças a um roteiro redondo que permite à plateia que se envolva com os dramas de seus personagens - mesmo contando uma história norte-americana em sua raiz mais profunda, é inegável que os sentimentos que inspiram são universais.

 

A protagonista de "Um lugar no coração" é Edna Spalding. Dona de casa, esposa e mãe dedicada de dois filhos pequenos, ela vive em uma pequena fazenda localizada em Waxahachie, Texas, no começo dos anos 1930. Sua vida pacata e sem sobressaltos - apesar do constante perigo que cerca seu marido xerife - sofre uma triste reviravolta quando um acidente a deixa inesperadamente viúva. Cheia de dívidas e sem experiência de trabalho braçal, Edna se recusa a capitular e vender sua propriedade - o que resultaria também em uma separação da família. Dotada de extrema força de vontade e garra, ela resolve então trabalhar exaustivamente para transformar suas terras em uma fazenda de algodão, contando, para isso, com a ajuda de Moses (Danny Glover) - um homem negro que aparece no local pedindo esmola - e Will Denby (John Malkovich), um rapaz cego que aluga um quarto em sua casa. Correndo contra o tempo e as dificuldades da economia frágil da época, a voluntariosa Edna ainda precisa escapar das ameaças da Klu Klux Klan, que não vê com bons olhos sua amizade com Moses.

Cuidadoso na reconstituição de época e no trabalho de direção de seus atores, Robert Benton faz um gol e tanto em "Um lugar no coração". Ao construir um roteiro que trata com carinho tanto seus protagonistas como seus coadjuvantes, o cineasta oferece ao espectador uma viagem ao passado, evocada diretamente de suas próprias lembranças. Nascido na mesma Waxahachie de seus protagonistas, Benton faz das recordações da sua infância a matéria-prima de sua história, ainda que ela seja completamente fictícia. O tom nostálgico que perpassa cada sequência - valorizado pela música de John Kander e a bela fotografia do veterano Néstor Almendros - é responsável direto pelo sucesso de sua narrativa, que foge dos exageros mesmo quando faz de sua personagem central uma mulher quase sem defeitos. Ao dotar Edna Spalding de um caráter firme e brios de guerreira, o diretor parece dizer que não lhe interessa mostrar o que ela tem de errado, e sim sublinhar sua força e dignidade. Saindo dos anos 1970, uma época em que anti-heróis dominavam a indústria, o cinema norte-americano dava sinais de que pretendia voltar a valores mais sólidos e menos cínicos. Dentro dessa premissa, "Um lugar no coração" é exemplar - e de quebra emociona sem fazer muito esforço.

segunda-feira

GREMLINS

GREMLINS (Gremlins, 1984, Warner Bros, 106min) Direção: Joe Dante. Roteiro: Chris Columbus. Fotografia: John Hora. Montagem: Tina Hirsch. Música: Jerry Goldsmith. Direção de arte/cenários: James H. Spencer/Jackie Carr. Produção executiva: Steven Spielberg, Kathleen Kennedy, Frank Marshall. Produção: Michel Finnell. Elenco: Zach Galligan, Phoebe Cates, Corey Feldman, Hoyt Axon, Frances Lee McCain, Polly Holliday. Estreia: 08/6/84

No verão norte-americano de 1984, os cinemas dos EUA foram dominados por animaizinhos estranhos, de origem misteriosa e que, caso não cumpridas as regras para seu bem-estar, se transformavam - de dóceis e encantadores - em criaturas vorazes, cruéis e debochadas. Eram os gremlins, protagonistas de um dos maiores sucessos de bilheteria da década de 1980. Dirigido por Joe Dante, escrito por Chris Columbus e produzido por Steven Spielberg no auge de sua imaginação criativa, "Gremlins" acabou por se tornar um ícone de sua época, um misto de comédia e horror que pegou todo mundo de surpresa com seu senso de humor macabro. Quarta maior bilheteria de um ano que também apresentou ao público os sucessos "Os Caça-fantamas" e "Indiana Jones e o templo da perdição" (este último dirigido pelo mesmo Spielberg que foi seu produtor executivo), o filme de Dante também atingiu, com o passar do tempo, o status de cult por excelência, um filme amado por diversas gerações e que, a despeito de seu jeitão trash, ainda mantém, mesmo depois de mais de trinta anos de idade, o frescor e a originalidade de sua estreia.

A ideia inicial era de fazer "Gremlins" um filme de horror, mas quando o roteiro de Chris Columbus - ainda sem os dois filmes de "Esqueceram de mim" no currículo - chegou às mãos de Steven Spielberg, o já consagrado cineasta achou que era melhor transformar a trama em uma produção dirigida a um público mais jovem. Depois de algumas importantes alterações - inclusive com a exclusão de cenas mais violentas -, Spielberg encontrou em Joe Dante o diretor ideal para a empreitada: conhecido como um fiel discípulo de Roger Corman e alguém capaz de trabalhar com orçamentos apertados, Dante havia chamado a atenção de Spielberg com "Grito de horror" (1981) e parecia a escolha mais apropria - antes disso, até mesmo Tim Burton, ainda sem nenhum longa na carreira havia chamado a atenção do produtor, sendo deixado de lado justamente por sua inexperiência. Com Dante no barco, junto com o roteiro de Columbus e a supervisão atenta de Spielberg, "Gremlins" começou a tomar forma. Se na fase de testes de elenco nomes como os de Emilio Estevez e Judd Nelson foram recusados para o papel que ficou com Zach Galligan, o processo de filmagens obrigou a decisões criativas que modificaram razoavelmente o script de Columbus. Foi por decisão de Spielberg, por exemplo, a divisão entre o bem e o mal, representada pelo terno Gizmo e seus agressivos filhotes (em especial o líder, Stripe) - o criador de "ET: O extraterrestre" (1982) sabia que o público precisaria se identificar com algum dos bichinhos. E a regra de não expor os personagens-título à luz surgiu de uma prosaica falta de confiança de Dante (e da Amblin Entertainment) nos efeitos especiais da época - algo que o próprio Spielberg havia experimentado na pele, durante as filmagens de "Tubarão" (1975).


Quarta maior bilheteria de 1984, "Gremlins" se passa às vésperas do Natal, quando o jovem Billy (Zach Galligan) ganha, de presente do pai, um encantador e desconhecido animalzinho encontrado em posse de um chinês idoso e hesitante. O bichinho - um mogwai, segundo o experiente oriental - é capaz de conquistar o coração até do mais empedernido ser humano, mas, para manter-se dessa forma, seu dono precisa cuidar de três regras importantíssimas: eles não podem ser expostos à luz, não podem ser molhados e muito menos comer depois da meia-noite. Não é preciso ser especialista em cinema para imaginar que as normas não serão cumpridas e que o doce Gizmo será testemunha da proliferação de seus irmãos anarquistas e cruéis. Em bando e vorazes, os gremlins tomam conta da cidade e caberá a Billy e sua paixonite, Kate (Phoebe Cates), resolver a bagunça generalizada. Mesclando um humor sinistro e momentos de suspense, Joe Dante conduz a plateia a uma montanha-russa constante - e que poderia ter sido ainda maior caso a versão original, de 160 minutos, tivesse sido aprovada pela Warner. O estúdio, aliás, teve certos problemas com os órgãos de censura dos EUA, que consideravam o filme pouco palatável para plateias menores de 13 anos: junto com "Indiana Jones e o templo da perdição", o filme de Joe Dante praticamente obrigou a MPAA (Motion Pictures Association of America) a criar uma nova classificação (PG-13), que permitia a entrada de menores de 13 anos desde que acompanhados dos pais.

Divertido e feito com o simples objetivo de entreter, "Gremlins" deu frutos: não apenas teve uma segunda parte, lançada em 1990 e novamente dirigida por Joe Dante, como aproximou dois cérebros criativos. Encantado com o trabalho de Chris Columbus no roteiro do filme, Steven Spielberg esteve envolvido em dois de seus futuros projetos, "O enigma da pirâmide" (dirigido por Barry Levinson) e "Os Goonies" (comandado por Richard Donner), ambos lançados em 1985. Além disso, "Gremlins" - neologismo criado pelo escritor Roald Dahl em seu "Gremlin Lore" - ficou na mente daqueles que o assistiram em seu lançamento como uma diversão um tanto insana, capaz de tirar sarro de coros de Natal, "Branca de Neve e os sete anões" e o american way of life. No fundo, é uma sessão da tarde para quem não tem paciência para filmes água com açúcar.

sexta-feira

PASSAGEM PARA A ÍNDIA

PASSAGEM PARA A ÍNDIA (A passage to India, 1984, EMI Films, 154min) Direção: David Lean. Roteiro: David Lean, romance de E.M. Forster e peça teatral de Santha Rama Rau. Fotografia: Ernest Day. Montagem: David Lean. Música: Maurice Jarre. Figurino: Judy Moorcroft. Direção de arte/cenários: John Box/Hugh Scaife. Produção: John Brabourne, Richard B. Goodwin. Elenco: Judy Davis, Victor Banerjee, Peggy Ashcroft, James Fox, Alec Guinness, Nigel Havers. Estreia: 14/12/84 

11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (David Lean), Atriz (Judy Davis), Atriz Coadjuvante (Peggy Ashcroft), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Som
Vencedor de 2 Oscar: Atriz Coadjuvante (Peggy Ashcroft), Trilha Sonora Original
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme Estrangeiro, Atriz Coadjuvante (Peggy Ashcroft), Trilha Sonora Original 

Quatorze anos separam "A filha de Ryan" e "Passagem para a Índia". Nesse meio tempo, o cineasta David Lean, consagrado por filmes épicos como "A ponte do Rio Kwai" (57), "Lawrence da Arábia" (62) e "Doutor Jivago" (65) ficou longe das telas, decepcionado com a recepção fria da crítica e do público a seu último trabalho - e cogitou inclusive abandonar de vez a carreira de diretor. Seu retorno, porém, mostrou que a distância da indústria não lhe tirou a sensibilidade e tampouco o olhar apurado para encontrar o drama psicológico de personagens escondidos em vastas paisagens. Escrito durante o ano de 1982, entre Nova Déli e Zurique, o roteiro de "Passagem para a Índia" abandona a peça teatral escrita por Santha Rama Rau (cujo texto não valorizava as vastas possibilidades visuais da trama, justamente pelas limitações de um palco) e se concentra na sutileza da construção dos protagonistas criados pelo romancista E.M. Forster e mergulha sem medo no embate entre as culturas indiana e britânica - sem poupar a plateia de suas características mais marcantes: a fotografia impecável, a reconstituição de época caprichada e uma inspirada trilha sonora (que deu a Maurice Jarre um merecido prêmio da Academia).

Mesmo sem a opulência dos trabalhos mais conhecidos de Lean, "Passagem para a Índia" brinda o espectador com belos momentos - cortesia da fotografia de Ernest Day - e atuações precisas de um elenco homogêneo, que inclui desde uma  jovem Judy Davis até os veteranos Alec Guinness e Peggy Ashcroft (vencedora do Oscar de coadjuvante) e o ator indiano Victor Banerjee, uma opção mais do que acertada do cineasta, uma vez que o tema principal do filme é o embate entre duas culturas conflitantes e, paradoxalmente, complementares. O resultado, belo e interessante, não reflete, nas telas, o clima pouco amistoso dos bastidores, onde o veterano diretor se via em constante atrito com a equipe e com o elenco. Com Judy Davis a briga era por discordâncias em relação à personagem; com Victor Banerjee o problema era o sotaque; Peggy Ashcroft reclamava das alterações do roteiro em relação ao romance e da falta de respeito com os colegas; e com Alec Guinness o problema foi tão grande que, após as filmagens (e depois que o ator viu que grande parte de suas cenas foram cortadas na edição final), os dois nunca mais se falaram. Com tantas situações desagradáveis por trás das câmeras, é surpreendente, porém, como "Passagem para a Índia" funciona diante dos olhos da plateia.


Tudo bem que a trama em si demora a engrenar, confirmando a tendência de Lean em estender suas cenas de modo a proporcionar ao espectador uma submersão total no universo retratado - no caso, a Índia do período colonial, ou seja, no início dos anos 1920. É para lá que vão Adela Quested (Judy Davis) e a espiritualizada Sra. Moore (Peggy Ashcroft), mãe de seu futuro noivo, o magistrado Ronny Heaslop (Nigel Havers). O desejo de ambas é conhecer a fundo a cultura do país, mas não demora para que percebam que sua viagem não será tão produtiva nesse aspecto: não há interação social entre britânicos e ingleses, e até mesmo pessoas de alto nível intelectual, como o médico Aziz Ahmed (Victor Banerjee), são tratados com uma relativa distância pela sociedade formada pelos colonizadores (da qual faz parte inclusive Ronny). A única exceção entre tais conterrâneos é o professor Richard Fielding (Edward Fox), cuja mente mais aberta aproxima as duas turistas do doutor, um viúvo querido pela comunidade, mas um tanto ingênuo em relação às coisas do mundo. Quando Aziz organiza um piquenique nas cavernas mais famosas do local, um incidente acaba levando todos ao tribunal, com Adela o acusando de abuso sexual.

No fundo, a trama de "Passagem para a Índia" é apenas um pretexto para o olhar arguto do escritor E.M. Forster em relação a temas como preconceito racial, diferença de classes e repressão sexual. David Lean, deixa claro, através de sequências belamente filmadas e de interpretações preciosas, que entendeu o âmago do romance - e aproveita ao máximo o rico cenário para contar sua história sem pressa e com delicadeza. O ritmo pode incomodar aos mais impacientes (em especial no início, quando o roteiro se concentra em longos planos e diálogos), mas o resultado final é digno de figurar na filmografia do diretor, um dos maiores do cinema inglês. Judy Davis brilha com uma personagem dúbia e complexa, mas foi Peggy Ashcroft quem levou o Oscar de coadjuvante, por um desempenho caloroso e sensível que faz a ponte entre dois mundos extremamente distintos mas intrinsecamente ligados. Um filme para públicos especiais, que apreciam uma boa história contada através de imagens caprichadas e delicadeza acima de qualquer crítica. Um belo canto do cisne para um homem que encantou gerações com seu bom gosto e inteligência.

sábado

OS GRITOS DO SILÊNCIO

OS GRITOS DO SILÊNCIO (The killing fields, 1984, Goldcrest Films International, 141min) Direção: Roland Joffé. Roteiro: Bruce Robinson. Fotografia: Chris Menges. Montagem: Jim Clark. Música: Mike Oldfield. Figurino: Judy Moorcroft. Direção de arte/cenários: Roy Walker. Produção: David Puttnam. Elenco: Sam Waterston, Haing S. Ngor, John Malkovich, Julian Sands, Craig T. Nelson. Estreia: 02/11/84

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Roland Joffé), Ator (Sam Waterston), Ator Coadjuvante (Haing S. Ngor), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem
Vencedor de 3 Oscar: Ator Coadjuvante (Haing S. Ngor), Fotografia, Montagem
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Haing S. Ngor) 

Alguns críticos reclamaram de sentimentalismo, mas é inegável que a utilização da bela "Imagine", do cantor John Lennon na cena final de "Os gritos do silêncio" é um choque dos mais bem-vindos: sua letra utópica e sua melodia delicada fazem um contraste sublime com a violência, a dor e o desespero mostrados pelo cineasta Roland Joffé em quase duas horas e meia de duração. Um comentário otimista à dureza da história contada, a música do ex-beatle encerra uma jornada das mais intensas do cinema da década de 80, um grito contra a guerra e suas consequências nefastas e um filme que justificou plenamente - em termos cinematográficos - todos os elogios e prêmios que conquistou, incluindo as sete indicações ao Oscar e suas três merecidas estatuetas. Uma história real escrita pelo jornalista Sydney Schanberg e adaptada para as telas por Bruce Robinon, "Os gritos do silêncio" ainda mantém sua força de denúncia e sua grande capacidade de emocionar - em especial graças à honestidade que emana de cada uma de suas sequências.

Nitidamente apaixonado pela história de seu primeiro longa-metragem - e que já havia sido cobiçada por ninguém menos que Stanley Kubrick -, Roland Joffé mergulha sem reservas em um pesadelo claustrofóbico, adiantando em alguns anos o que Oliver Stone faria com seus filmes sobre a Guerra do Vietnã (e, sem dourar a pílula, escancarando um dos mais sangrentos e dolorosos episódios do século XX). Com uma narrativa crua e direta, Joffé abandona o lirismo de Francis Ford Coppola e seu "Apocalypse now" (79) para criar, com a ajuda da oscarizada fotografia de Chris Menges, um filme que trai seu passado de documentarista e suas preocupações político-sociais através de um visual sujo, realista e sem retoques. O público até pode demorar a embarcar na viagem - seu primeiro ato não deixa de ser um tanto confuso, justamente para dar a sensação de urgência e desespero dos personagens -, mas depois que isso acontece é impossível ficar indiferente. "Os gritos do silêncio" é uma obra repleta de grandes acertos - e os maiores estão diante do espectador, nas figuras inesquecíveis de seus atores principais, Sam Waterston e Haing S. Ngor.


Praticamente desconhecido à época do lançamento, Waterston foi uma aposta ousada e corajosa do diretor e seu produtor, David Puttnam, que desafiaram o desejo do estúdio de ter um astro de maior popularidade encabeçando o elenco. Nomes dispostos a encarar o desafio não faltavam: Dustin Hoffman, Roy Scheider e Alan Arkin foram alguns dos atores interessados, mas todos eles acabavam desistindo diante dos perigos que poderiam correr durante as filmagens na Tailândia - na verdade, perigos devidamente ampliados por Joffé e Puttnam como forma de desencorajar os intérpretes que poderiam ameaçar sua escolha por Waterston. No final das contas, a aposta deu muito certo - em um trabalho discreto mas extremamente eficaz, Waterston é capaz de transmitir toda a vasta gama de emoções de seu personagem (coragem, medo, indignação, remorso, orgulho, saudade) sem precisar apelar para excessos de qualquer tipo. Sua atuação lhe rendeu uma indicação ao Oscar e ao Golden Globe - e um dos papéis mais consistentes de sua carreira. Na pele do jornalista Sydney Schanberg, correspondente do New York Times na Guerra do Camboja do começo dos anos 70, ele serve como reflexo do espectador, tomando contato com um mundo de violência extrema e regras arbitrárias que põem a sua vida e de seus colegas em risco - especialmente a de seu intérprete local, Dith Pran, que se separa da própria família para ficar ao lado do repórter no pior momento do conflito. Pran, um homem íntegro e corajoso, é a segunda metade de um par inesquecível das telas... principalmente quando se sabe a história por trás do ator que lhe dá vida, Haing S. Ngor.

Formado em Medicina no Camboja, Ngor se viu obrigado a esconder sua condição por saber que os soldados do Khmer Vermelho - que invadiram o país em 1975 - estavam assassinando pessoas de nível intelectual superior contrários à sua ideologia. Isso não impediu, no entanto, que ele fosse preso e torturado, além de ter perdido a mulher e o filho recém-nascido na hora do parto (a esposa não quis chamá-lo para não denunciar sua profissão). Depois de fugir para a Tailândia e os EUA, foi escolhido por Joffé para interpretar Dith Pran - e só aceitou o papel que lhe trazia tantas más recordações porque o cineasta estava com imensas dificuldades em encontrar um ator cambojano para o filme, uma vez que a política do Khmer também perseguia artistas. O resultado não poderia ter sido mais satisfatório, porém: unanimemente elogiado pela crítica, Ngor levou pra casa o Golden Globe e o Oscar de ator coadjuvante (segunda vez na história do prêmio em que a estatueta ficava com um ator não-profissional).

O fato é que a mistura de narrativa semidocumental com um elenco afiado - que conta com um jovem John Malkovich em papel coadjuvante - faz de "Os gritos do silêncio" um filme obrigatório. Forte, doloroso e pungente, mas igualmente imprescindível como retrato da desumanidade da guerra. Um enorme acerto de Roland Joffé já em seu primeiro trabalho em longa-metragens.

quinta-feira

SPLASH: UMA SEREIA EM MINHA VIDA

SPLASH: UMA SEREIA EM MINHA VIDA (Splash, 1984, Touchstone Pictures, 111min) Direção: Ron Howard. Roteiro: Lowell Ganz, Babaloo Mandel, Bruce Jay Friedman, estória de Brian Grazer. Fotografia: Don Peterman. Montagem: Daniel P. Hanley, Michael Hill. Música: Lee Holdridge. Figurino: May Routh. Direção de arte/cenários: Jack T. Collins. Produção executiva: John Thomas Lenox. Produção: Brian Grazer. Elenco: Tom Hanks, Daryl Hannah, John Candy, Eugene Levy. Estreia: 09/3/84

Indicado ao Oscar de Roteiro Original

Praticamente uma década antes de consagrar-se como um ator sério - e de quebra levar dois Oscar consecutivos, nos anos 94/95 -, Tom Hanks já era um astro devidamente reconhecido pelo grande público. Um exemplo claro disso foi a surpreendente bilheteria de "Splash: uma sereia em minha vida", estrelado por ele em 1984: primeiro filme lançado pela subsidiária da Disney (a Touchstone Pictures), a obra de Ron Howard custou meros oito milhões de dólares e rendeu, somente no mercado doméstico, mais de 60 milhões, arrancando elogios da crítica, capas de revista e uma inesperada indicação ao Oscar de roteiro original. Apesar do tom leve e romântico do filme e da beleza ímpar de Daryl Hannah, porém, é claro que o carisma de Hanks foi o maior responsável por fazer do filme um êxito incontestável - e isso que o próprio ator costuma brincar e dizer que ele foi apenas o 11º intérprete a ser considerado para o papel principal.

Pode até ser um pouco de exagero de Tom Hanks, mas o fato é que, realmente, antes de seu nome ser confirmado como o astro do filme, vários outros atores foram cotados para viver o protagonista - desde astros já reconhecidos (como John Travolta, Richard Gere, Burt Reynolds e Jeff Bridges) até grandes comediantes (Chevy Chase, Bill Murray, Robin Williams e Dudley Moore). A presença de Hanks, no entanto, é um dos maiores trunfos de "Splash": simpático e capaz de despertar empatia em qualquer um na plateia, ele nem precisa de muito esforço para convencer, mesmo diante de uma premissa quase absurda e fantasiosa a ponto de parecer conto de fadas. A atmosfera lúdica - acentuada pela trilha sonora delicada de Lee Holdridge - ganha contornos cômicos com a direção segura de Howard, que abriu mão de dirigir "Footlose: ritmo louco" (84) para dar vida à estória imaginada pelo produtor Brian Grazer em 1977, durante uma viagem. Com um roteiro esperto e divertido, "Splash" é um passatempo tão inofensivo que não é de admirar que tenha resistido tão bem ao tempo - e que seja tão delicioso assisti-lo hoje quanto o era há mais de trinta anos.


As cenas iniciais já deixam claro que trata-se de um filme em cuja fantasia a plateia precisa embarcar sem reservas: um menino é salvo de afogar-se no mar por uma sereia da sua idade. Ele mantém segredo a respeito do assunto (mesmo porque não tem certeza se tudo não passava de imaginação) e segue sua vida normalmente. Vinte anos mais tarde, o menino, agora um homem, chamado Allen Bauer (Tom Hanks) gerencia o negócio de distribuição de verduras de sua família, ao lado do irmão mais velho, Freddie (John Candy) - irresponsável e mulherengo. Recém abandonado pela esposa, Allen sofre um novo acidente no mar e acorda em uma ilha, ao lado de uma estonteante loura - que desaparece logo em seguida. De posse da carteira do rapaz, porém, a sereia apaixonada descobre seu paradeiro em Nova York e decide procurá-lo. Sem saber falar inglês e desconhecendo completamente a cultura dos humanos, ela deixa com que Allen pense que ela é uma estrangeira e os dois começam um relacionamento amoroso e dedicado. Batizada como Madison, a sereia logo começa a aprender a conviver com seu amado - mas precisa evitar ser desmascarada pelo cientista Cornbluth (Eugene Levy), cujo maior objetivo na vida é comprovar a existência de sereias.

Equilibrando sua narrativa entre o idílio romântico de Allen e Madison e subtramas cômicas - as tentativas de Cornbluth em provar sua hipótese científica, as escapadas de Freddie, a distação da velha secretária de Allen -, Ron Howard cria uma pequena pérola do gênero. A excelente química entre Tom Hanks e Daryl Hannah é tão incrível que é difícil imaginar que a bela sereia poderia ter sido interpretada por outra atriz - e isso que várias foram cotadas o papel: Jodie Foster, Brooke Shields, Debra Winger, Ally Sheedy, Rosanna Arquette, Michelle Pfeiffer, Tatum O'Neal, Diane Lane, Melanie Griffith e Kathleen Turner poderiam ter sido a estrela de um filme que deu à Hannah seu primeiro papel principal e um daqueles que a farão ser eternamente lembrada pelos fãs. Linda e carismática, ela foi a escolha perfeita - que o digam as centenas de meninas batizadas de Madison justamente por causa de seu sucesso. "Splash" pode não ser um dos filmes mais importantes da história, mas é, sem dúvida, um passatempo dos mais encantadores.

terça-feira

ASAS DA LIBERDADE

ASAS DA LIBERDADE (Birdy, 1984, TriStarPictures, 120min) Direção: Alan Parker. Roteiro: Sandy Kroopf, Jack Behr, romance de William Wharton. Fotografia: Michael Seresin. Montagem: Gerry Hambling. Música: Peter Gabriel. Figurino: Kristi Zea. Direção de arte/cenários: Geoffrey Kurland/George R. Nelson. Produção executiva: David Manson. Produção: Alan Marshall. Elenco: Matthew Modine, Nicolas Cage, John Harkins, Bruno Kirby, Sandy Baron, Karen Young. Estreia: 21/12/84

A ideia central de "Asas da liberdade" - um jovem traumatizado pela guerra se entrega à obsessão em tornar-se um pássaro - é, ao mesmo tempo, surreal e inverossímil. Só mesmo um diretor do porte de Alan Parker (que já tinha no currículo os excelentes "O expresso da meia-noite", de 1978, e "Fama", de 1980) conseguiria transformar tal material, baseado em um romance de William Wharton, em um filme que fosse comercialmente atraente e palatável ao gosto do público médio sem que perdesse sua essência metafórica e poética. Dono de um estilo visual apurado e uma elegância natural em sua filmografia, Parker realizou uma obra fascinante, que saiu do Festival de Cannes 1985 com o Grande Prêmio do Júri - que deixou-se seduzir pela bela história de amizade, lealdade e dor criada por Wharton. Estrelado por dois então jovens atores em início de carreira - Matthew Modine e Nicolas Cage -, "Asas da liberdade" pode não ter tido o devido reconhecimento à época de sua estreia (fracassou nas bilheterias e foi ignorado pelo Oscar), mas talvez seja um dos filmes mais importantes da década de 80 - e um dos primeiros a falar, ainda que sutilmente, sobre as consequências emocionais da Guerra do Vietnã.

No livro de Wharton, os dois personagens centrais são sobreviventes da II Guerra Mundial. No filme, Parker mudou o cenário do conflito (incidental, mas crucial para o desenvolvimento da trama) para o sudeste asiático - uma forma inteligente de aproximar a plateia da estória e, de quebra, mexer em uma ferida ainda muito dolorida na sociedade norte-americana. De qualquer forma, a geografia da guerra é o que menos importa: o que interessa ao cineasta e à sua bela fábula são os sentimentos, a alma e o coração de sua dupla central de protagonistas, ambos traumatizados e, à sua maneira, obrigados a lidar com as consequências da violência e da solidão. Ilustrado por uma inspirada trilha sonora de Peter Gabriel, o filme de Parker é, sobretudo, um brilhante estudo sobre a capacidade humana de sublimar a dor através da fuga e da ilusão - sublinhadas por belíssimas sequências aéreas captadas por Michael Seresin, que em seguida assinaria também a fotografia do trabalho seguinte do cineasta, a obra-prima "Coração satânico" (86).


"Asas da liberdade" tem, a princípio, duas linhas narrativas paralelas (que abrigam uma terceira em sua reta final, como forma de jogar luz sobre momentos-chave da história). Logo de início o público é apresentado a Al Columbato (Nicolas Cage), um jovem soldado americano que, em consequência de ferimentos sofridos na guerra, teve o rosto completamente reconstruído pelos cirurgiões. Ainda inconformado com sua situação, ele é procurado por um médico, o Major Weiss (John Harkins), que lhe pede ajuda para que possa fazer progressos no tratamento de outra vítima do conflito, Birdy (Matthew Modine), grande amigo de Al: depois de ter desaparecido por um mês no Vietnã, o jovem foi encontrado e levado para o hospital sem ferimentos, mas claramente com sérios problemas mentais. Comportando-se como um pássaro e sem dizer uma única palavra aos médicos e enfermeiros, Birdy parece viver um um mundo particular, e o médico acredita que Al - devido à sua relação com o rapaz - seja a pessoa ideal para mudar o quadro de catatonia. Enquanto tenta arrancar alguma informação ou melhora em seu colega, Al vai relembrando sua amizade com ele, desde que, de desconhecidos quase rivais, tornaram-se companheiros inseparáveis, a despeito de suas diferentes personalidades.

O flashback das memórias de Al é a segunda linha narrativa proposta pelo roteiro - e, como um quebra-cabeças, vai juntando pedaços sobre o estranho comportamento de Birdy, que desde sempre sentiu-se como alguém deslocado da sociedade e do mundo a seu redor. Fanático por pássaros a ponto da obsessão, o rapaz tinha em Al sua ponte com a realidade - uma realidade que frequentemente o aborrecia e decepcionava, e que acabou por levando-o à sua atual situação. Parker não dá respostas fáceis para o comportamento de Birdy, preferindo deixar que a poesia de suas imagens seja mais contundente do que palavras ou explicações psicológicas baratas. Preferindo aprofundar a relação entre os personagens a tentar encontrar uma saída fácil para as questões levantadas pelo roteiro, o cineasta encontra em Matthew Modine e Nicolas Cage uma dupla impecável - em especial Modine, fascinante em seu desempenho silencioso como o atormentado Birdy. Com um desfecho que não tenta agradar a todo mundo e um desenvolvimento de ritmo próprio, "Asas da liberdade" envolve aos poucos, com uma história bem contada e repleta de sutilezas, amparada em bons atores, um visual caprichado e a coragem de fugir do óbvio. Uma pérola que precisa ser redescoberta!

quinta-feira

DUBLÉ DE CORPO

DUBLÉ DE CORPO (Body double, 1984, Columbia Pictures, 114min) Direção: Brian De Palma. Roteiro: Brian De Palma, Robert J. Avrecht, estória de Brian De Palma. Fotografia: Stephen H. Burum. Montagem: Jerry Greenberg, Bill Pankow. Música: Pino Donaggio. Figurino: Gloria Gresham. Direção de arte/cenários: Ida Random/Cloudia. Produção executiva: Howard Gottfried. Produção: Brian De Palma. Elenco: Craig Wasson, Melanie Griffith, Gregg Henry, Dennis Franz, Deborah Shelton. Estreia: 15/10/84

Brian De Palma é um fã confesso de Alfred Hitchcock. Mais do que isso, porém, é um cineasta de grande sensibilidade e talento, capaz de utilizar-se das referências ao mestre do suspense para dar forma a tramas surpreendentes, com um apuro visual impecável e pleno domínio do ritmo e da tensão. Um exemplo claro disso é "Dublê de corpo", um de seus mais famosos (e violentos) filmes: repleto de citações - diretas ou indiretas - à filmografia de Hitch, seu trabalho imediatamente posterior ao polêmico "Scarface" (83), refilmagem sanguinolenta do clássico de Howark Hawks, é uma aula de cinema, tanto tecnicamente quanto em termos de narrativa. Não exatamente reconhecido à época de seu lançamento - chegou a ser indicado a Pior Diretor no Framboesa de Ouro - e posteriormente alçado à categoria de cult, é um filme que resiste bravamente ao teste do tempo por ao menos uma grande razão: mais que uma simples homenagem a um dos mais seminais criadores do suspense no cinema, é, na verdade, um compêndio do que o melhor o gênero pode oferecer a seu público.

A partir de uma ideia surgida durante as filmagens de "Vestida para matar" - quando a atriz Angie Dickinson precisou de uma dublé de corpo para suas cenas no chuveiro - e preenchido com algumas experiências de De Palma nos bastidores de seus filmes anteriores, o roteiro de "Dublé de de corpo"  é repleto de reviravoltas e mudanças de rumo, que prendem o espectador do primeiro ao último minuto. Tudo começa quando o ator Jake Scully (Craig Wasson em papel oferecido a Kurt Russell), sofrendo de claustrofobia, é demitido de um filme B de terror, dirigido por seu amigo Rubin (Dennis Franz), por não conseguir manter-se no caixão onde seu personagem, um vampiro, passa parte de seu dia. Frustrado e humilhado, ele chega em casa e flagra a esposa com outro homem: em poucas horas ele está sem trabalho, sem mulher e sem casa para morar. Buscando um novo emprego, ele conhece o também ator Sam Bouchard (Gregg Henry), que lhe oferece uma solução inesperada: enquanto ele viaja a serviço, Scully pode ficar no fantástico apartamento de um amigo, tendo como única obrigação regar as plantas do lugar. Antes de deixar o novo hóspede sozinho, porém, Bouchard lhe apresenta outro atrativo do lugar: a sexy vizinha da casa em frente, que toda noite faz um sensual striptease diante da janela. Não demora para que Scully - sozinho e deprimido - se sinta completamente atraído pela bela e desinibida moradora, a quem vê também sendo espancada pelo marido (em uma referência clara à "Janela indiscreta", de 1956).


Obcecado pela vizinha, o ator passa a seguí-la, mas não consegue evitar que, em plena luz do dia, ela seja roubada por um sinistro indígena - sua claustrofobia volta a atacá-lo quando está correndo atrás do criminoso em um túnel, quase como James Stewart em "Um corpo que cai" (58) - nem tampouco que, mais tarde, ela seja violentamente assassinada. Testemunha ocular do homicídio, Scully (que chegou a trocar alguns beijos com a vítima) se surpreende, porém, quando, ao assistir um vídeo pornô, descobre que talvez seus olhos tenham lhe pregado uma peça. Penetrando o submundo dos filmes de sexo hardcore, ele conhece Holly Body (Melanie Griffith), uma profissional que será seu passaporte para uma série de descobertas desconcertantes a respeito de tudo aquilo que ele julgava saber - e pelo caminho, perceber que foi usado como um peão em uma conspiração muito mais complicada do que parecia.

Com pleno domínio das ferramentas que o cinema pode oferecer, Brian De Palma mergulha a plateia em um jogo de espelhos cruel e angustiante, sem poupar cenas de violência e um erotismo perturbador. Revelando Melanie Griffith - indicada ao Golden Globe de atriz coadjuvante por um papel recusado por Brooke Shields e oferecido também à Jamie Lee Curtis, Tatum O'Neal e Carrie Fischer - como um símbolo sexual quase inusitado e ousado a ponto de mostrar uma longa sequência sem diálogos (que remete a si mesmo, em um momento clássico de "Vestida para matar"), "Dublé de corpo" é também um fascinante estudo sobre o voyeurismo e a obsessão, retratados com um senso de urgência e paranoia de que somente De Palma é capaz sem soar derivativo ou vazio. Um dos grandes filmes da década de 80, tão marcante hoje quanto há trinta anos.

quarta-feira

GOSTO DE SANGUE

GOSTO DE SANGUE (Blood simple., 1984, River Road Productions, 99min) Direção: Joel Coen. Roteiro: Joel Coen, Ethan Coen. Fotografia: Barry Sonnenfeld. Montagem: Roderick Jaynes, Don Wiegmann. Música: Carter Burwell. Figurino: Sara Medina-Pape. Direção de arte: Jane Musky. Produção executiva: Daniel F. Bacaner. Produção: Ethan Coen. Elenco: John Getz, Frances McDormand, Dan Hedaya, M. Emmet Walsh, Samm-Art Williams. Estreia: 07/9/84 (Festival de Toronto)

Nada como começar com o pé direito. Filme de estreia dos irmãos Coen - que uma década e meia mais tarde se consagrariam com os Oscar de filme, direção e roteiro com "Onde os fracos não tem vez" (07) - o policial noir "Gosto de sangue" já mostra, de forma crua, criativa e surpreendente todos os elementos que fariam a fama dos cineastas no futuro. Ao lado de um roteiro mirabolante e cheio de surpresas, estão presentes a direção primorosa de atores, a movimentação frenética e imprevisível da câmera e a paixão inconteste pelo cinema em si, homenageado através da utilização dos signos e ingredientes de um dos gêneros mais queridos pelos cinéfilos - e que seria novamente revisitado por eles em obras de narrativa mais sofisticada, como "Ajuste final" (90) e "O homem que não estava lá" (01). No fundo apenas uma história de policial que remete a clássicos da literatura pulp, mas banhada a sangue, suor e uma certa dose de humor negro, o primeiro filme dos Coen é uma pequena amostra do extraordinário talento com que os irmãos iriam presentear os fãs da sétima arte dali em diante.

O cenário é o Texas, árido como fica o coração de Julian Marty (Dan Hedaya), o proprietário de um bar, quando tem a confirmação de que sua esposa, Abby (Frances McDormand) o está traindo com um funcionário, o jovem Ray (John Getz). Indignado com a traição, ele contrata o mesmo detetive particular que lhe forneceu as provas do adultério, Loren Visser (M. Emmet Walsh), para acabar com o novo casal. Com a promessa de abocanhar dez mil dólares, o detetive aceita a missão. O problema é que quando dinheiro está em jogo as coisas nunca são simples, e o que aparentava ser apenas uma história de traição e morte se transforma rapidamente em um jogo de trapaças e surpresas, onde ninguém é o que realmente mostra aos outros - e a morte pode não ser algo tão definitivo quanto soa. A partir daí, vítimas e criminosos passam a confundir os papéis, embaralhando as cartas até o final surpreendente, onde apenas o mais esperto (ou sortudo) sobreviverá.


Em "Gosto de sangue", os irmãos Coen brindam o público com cenas de grande inventividade visual. Se em "Onde os fracos não tem vez" eles surpreenderam a audiência com a ausência de uma trilha sonora, aqui eles se permitem criar uma longa sequência sem diálogos, sublinhando a tensão de uma situação sui generis apenas com a iluminação dos faróis de um carro e o desespero de um dos personagens, que se vê diante de um dilema que somente em seus filmes faz sentido, apesar do inusitado. Com ângulos sempre desenhados de forma a seduzir a plateia e extrair de cada momento a melhor solução visual, a fotografia de Barry Sonnenfeld - que posteriormente passaria à carreira de diretor com os dois capítulos de "A família Addams" - é um componente a mais na execução de uma trama que jamais deixa o espectador descansar das surpresas. A edição ágil - cortesia dos próprios diretores com o pseudônimo de Roderick Jaynes e de Don Wiegmann - e a trilha sonora, repleta de canções típicas da região onde se passa a história, ilustram com ainda mais poder o conto de ganância e luxúria que se desenrola na tela, ainda que o sexo (relativamente discreto) esteja ligado de forma indelével à culpa e à violência que envolve a todos.

Uma das estreias mais alvissareiras da história do cinema, "Gosto de sangue" conquista pela inteligência com que trata seu público. Apresentando uma Frances McDormand bela como nunca -  ela ficou com o papel (a escolhida nos testes, Holly Hunter teve que abandonar o projeto por compromissos teatrais) e com o diretor, com quem casou-se após as filmagens - e um M. Emmet Walsh diabólico no limite da loucura, o filme conta uma história de amor e vingança que passa como um vento avassalador, que destroi a quem estiver no caminho. Uma pequena obra-prima.

terça-feira

GATINHAS E GATÕES

GATINHAS E GATÕES (Sixteen candles, 1984, Universal Pictures, 93min) Direção e roteiro: John Hughes. Fotografia: Bobby Byrne. Montagem: Edward Warschilka. Música: Ira Newborn. Direção de arte/cenários: John W. Corso/Jennifer Polito. Produção executiva: Ned Tanen. Produção: Hilton A. Green. Elenco: Molly Ringwald, Anthony Michael Hall, Michael Schoeffling, Paul Dooley, Justin Henry, Haviland Morris, Gedde Watanabe, John Cusack, Joan Cusack, Carlin Glynn, Liane Curtis, Jami Gertz, Zelda Rubinstein. Estreia: 04/5/84

Se existia um cineasta na década de 80 que entendia o que se passava nas cabeças e nos corações dos adolescentes, esse cineasta era John Hughes. Com uma pequena série de comédias românticas estreladas por sua musa Molly Ringwald - que começou com "Gatinhas e gatões" e inclui "Clube dos cinco" e "A garota de rosa-shocking" (que ele escreveu e Howard Deutch dirigiu), além de "Curtindo a vida adoidado", sem sua atriz-símbolo - ele marcou toda uma geração de jovens, que conseguia enxergar na tela seus medos, suas dúvidas e seus desejos retratados com carinho e um senso de humor delicado que equilibrava ingenuidade e picardia. Tratando de assuntos que interessavam a seu público-alvo, como sexualidade, relações familiares e dúvidas existenciais, seus filmes encantavam principalmente por causa da linguagem simples, da despretensão e da escolha certeira de seus elencos. Representada especialmente por Molly Ringwald, que chegou a ser capa da revista Time por conta de seu sucesso nas obras do diretor, a adolescência vista pelos olhos de John Hughes conquistou lugar de honra na história do cinema pop americano.

A trama de "Gatinhas e gatões" é de uma simplicidade comovente: no dia de seu aniversário de dezesseis anos, a adolescente Samantha Baker (Molly Ringwald, que conseguiu o papel contra Laura Dern) acorda decepcionada com o fato de não ver no espelho nenhuma diferença em relação ao dia anterior. Porém, uma outra decepção, ainda maior, acontece quando ninguém em sua casa lembra da data, para ela tão importante por representar um passo a mais em direção à idade adulta: focados no casamento de sua irmã mais velha, seus pais, irmãos e avós nem mesmo a cumprimentam pela data, o que a deixa arrasada. Para piorar seu dia - já completamente arrasado pela indiferença familiar - ela não consegue deixar de lado sua paixão avassaladora pelo popular Jake Ryan (Michael Schoeffling, que depois faria par romântico com Winona Ryder em "Minha mãe é uma sereia"), comprometido com uma patricinha mais velha e insensível. Em uma festa da escola - onde é obrigada a levar o intercambista chinês que mora com seus avós e que descobre as maravilhas do mundo ocidental da maneira mais direta possível - Sam ainda precisa lidar com o assédio de Ted (Anthony Michael Hall), um nerd que apostou com seus amigos (entre os quais um jovem John Cusack) que conseguiria seduzí-la. Surge entre os dois uma inusitada amizade, que os ajudará, a ambos, a terminar a noite bastante diferentes de como a começaram.


Assistir a "Gatinhas e gatões" equivale a uma boa viagem no tempo: tudo que havia de mais típico de sua época está presente em cena. O figurino exagerado - o chapéu que a protagonista usa no início do filme virou moda entre sua faixa etária - encontra eco na trilha sonora deliciosa (com Spandau Ballet e David Bowie entre os ilustres participantes) e nas referências culturais espalhadas pelo cenário, como pôsteres de bandas oitentistas como Culture Club, que decoram o quarto de Samantha. Até mesmo o que hoje é considerado clichê no gênero - festas radicais, estereótipos juvenis, final feliz - surge na trama, que é temperada por cenas de um humor ingênuo e que funciona às mil maravilhas mesmo depois de tanto tempo. A então novata Joan Cusack, por exemplo, nem precisa falar muito para levar a audiência às gargalhadas na pele de uma estudante presa em um aparelho ortopédico que a impede de coisas básicas como beber água ou tomar cerveja de uma latinha: Cusack já apostava no tipo de humor que a levaria a concorrer ao Oscar de coadjuvante em duas ocasiões, além de contracenar com o irmão, John, que na década seguinte se tornaria um dos mais confiáveis atores de Hollywood.

E por falar em atores, pode parecer impossível imaginar o triângulo central de "Gatinhas e gatões" formado por outros que não Ringwald, Anthony Michael Hall (que ainda fez parte de "Clube dos cinco" e "Mulher nota 1000", não dirigido por Hughes) e Michael Schoeffling, mas não deixa de ser interessante pensar em como seria o resultado se outros testados para os papéis tivessem conseguido passar. Além de Laura Dern como Samantha, o público poderia ter tido a oportunidade de ver Viggo Mortensen como o galã Jake Ryan e Jim Carrey (!!!) como o nerd Ted. Felizmente Hughes fez as escolhas certas - e ainda lançou um dos gêneros mais queridos da década de 80. Com "Gatinhas e gatões" surgiram os filmes de adolescentes em crise que tanto apaixonaram a juventude em seu tempo. Só por isso já merece todos os louvores.

segunda-feira

A DAMA DE VERMELHO

A DAMA DE VERMELHO (The woman in red, 1984, MGM Pictures, 87min) Direção: Gene Wilder. Roteiro: Gene Wilder, roteiro original do filme "Un elephant ca trompe enormement", de Yves Robert, Jean-Loup Dabadie. Fotografia: Fred Schuler. Montagem: Christopher Greenbury. Música: John Morris. Figurino: Ruth Myers. Direção de arte/cenários: David L. Snyder/Peg Cummings. Produção executiva: Jack Frost Sanders. Produção: Victor Drai. Elenco: Gene Wilder, Kelly Le Brok, Charles Grodin, Judith Ivey, Gilda Radner, Joseph Bologna, Michael Huddleston. Elenco: 14/8/83

Vencedor do Oscar de Melhor Canção ("I just called to say 'I love you'")
Vencedor do Golden Globe de Melhor Canção ("I just called to say 'I love you'")

O ator Gene Wilder todo mundo conhece: é aquele que fez o Willy Wonka da primeira versão de "A fantástica fábrica de chocolates" (71), a raposa da adaptação musical de "O pequeno príncipe" (74) e o homem casado que se apaixonava por uma ovelha em "Tudo que você sempre quis saber sobre sexo (mas tinha medo de perguntar)" (72), de Woody Allen. O cineasta Gene Wilder, porém, é bem menos conhecido, até mesmo pelos mais calorosos fãs da sétima arte: com apenas três filmes no currículo, Wilder conheceu o sucesso já em seu segundo trabalho, a refilmagem de uma comédia francesa de 1976 que tratava, de forma irônica, dos dessabores do adultério na vida de um homem comum. Com o título de "A dama de vermelho", seu filme acabou dando um Oscar de melhor canção a Stevie Wonder (a deliciosa "I just called to say 'I love you'") e revelando a belíssima Kelly Le Brok, que fez apenas mais um filme relativamente importante na carreira (a comédia adolescente "Mulher nota 1000"), casou-se com Steven Segal e hoje é apenas mais um nome da década de 80 que sumiu sem deixar maiores vestígios.

Com sua cara de nerd desesperado, Wilder nem precisa fazer muita força para despertar risadas com seu personagem, Theodore Pierce, um profissional da publicidade que, bem casado e pai de família exemplar, cai de amores pela bela modelo Charlotte (Kelly Le Brok parecidíssima com Liv Tyler) no momento em que a vê pela primeira vez, tendo sua saia vermelha levantada à la Marilyn Monroe. Excitado pela possibilidade de levá-la pra cama, Theodore começa uma rede de mentiras e mal-entendidos que envolve uma das secretárias de sua agência (a esposa de Wilder, a ótima Gilda Radner) e seus melhores amigos - um dos quais teve seu casamento posto em risco devido a suas próprias escapadelas sexuais. Mesmo sabendo das consequências que sua traição pode acarretar, incluindo o fim de sua relação com a aparentemente dócil Didi (Judith Ivey), Pierce embarca sem pensar duas vezes na tentativa de conquistar a estonteante dama de vermelho.


As trapalhadas de Pierce atrás de Charlotte - que incluem uma sessão desastrada em um salão de beleza e uma tentativa de cavalgar em um haras milionário - são a base de "A dama de vermelho", cujo roteiro também é escrito por Wilder. Durante dois terços do filme, não cabe mais a Le Brock do que desfilar sua beleza pela tela e dizer meia-dúzia de palavras, enquanto o show pertence ao ator, que deita e rola com as possibilidades da trama, especialmente quando encontra com Gilda Radner, a secretária que se torna sua inimiga mortal depois de um encontro mal-sucedido. Mesmo sem dizer uma palavra, Radner, com seu timing perfeito, é capaz de fazer rir justamente por seu silêncio raivoso, como uma Glenn Close de "Atração fatal" sem as cenas de sexo, mas com a mesma sede de vingança. E é também interessante a maneira como Wilder ilustra seu conto sobre adultério com histórias paralelas pouco auspiciosas - que, no entanto, não o demovem um centímetro de seu desejo lúbrico e arriscado.

Ligeira e leve - apesar do tema, Wilder jamais carrega as tintas no erotismo ou na vulgaridade para a qual poderia facilmente descambar caso fosse menos inteligente e mais afeito a risadas fáceis - "A dama de vermelho" é uma comédia sem contra-indicações. É agradável, engraçada de verdade, simpática e, mais importante do que tudo, jamais cai na tentação de julgar seus personagens, tornando-os mais críveis do que se espera em uma comédia (apesar de Le Brock descrever o protagonista como "bonitinho", é possível deixar esse pequeno lapso escapar graças à empatia dos atores e dos personagens). No final das contas, é um clássico da "Sessão da Tarde", o que diz muito sobre sua ingenuidade em tempos tão explícitos quanto os de hoje. Uma sessão nostálgica e divertida.

sexta-feira

O QUE FIZ EU PARA MERECER ISTO?

O QUE FIZ EU PARA MERECER ISTO? (Qué he hecho yo para merecer esto?, 1984, Kaktus Produciones Cinematograficas, 101min) Direção e roteiro: Pedro Almodovar. Fotografia: Angel L. Fernandez. Montagem: José Salcedo. Música: Bernardo Bonezzi. Figurino: Cecília Roth. Direção de arte: Román Arango, Pin Morales. Produção executiva: Hervé Hachuel. Elenco: Carmen Maura, Luis Hostalot, Veronica Forqué, Gonzalo Suarez, Chus Lampreave. Estreia: 25/10/84

Em seu quarto longa-metragem, Pedro Almodovar deixou de lado o deboche característico de seus primeiros trabalhos para falar sério. Quer dizer, mais ou menos. Ao contar a triste e melancólica história de uma mulher presa a uma vida sem esperanças, o cineasta espanhol mais popular da Espanha não abdicou de um certo humor negro, unindo a ele uma visão crítica sobre a sociedade de seu país, mais precisamente sobre a parcela menos favorecida economicamente. Tendo como protagonista a excelente Carmen Maura - que transmite em sua atuação a seriedade proposta mesmo diante dos absurdos característicos da obra do diretor - "O que fiz eu para merecer isto?" é, justamente por esse desvio de rota na trajetória almodovariana de fazer rir, seu filme menos popular. Mas sempre é hora de corrigir essa injustiça.

Gloria, a protagonista interpretada por Maura em sua terceira colaboração com Almodovar, é uma faxineira que vive em um prédio pouco luxuoso de Madri com o marido taxista, Antonio (Angel de Andrés-Lopez) - que se gaba de saber falsificar assinaturas e caligrafias - a sogra (Chus Lampreave), que vende víveres à própria família, e os dois filhos adolescentes - um trafica drogas e o outro ela mesma entrega a seu dentista pedófilo como forma de dar-lhe uma vida melhor. Sua vida triste e solitária - apesar do constante movimento em seu apartamento minúsculo - só é alterada quando ela encontra com sua vizinha, a garota de programa Cristal (Veronica Forqué) e faz faxinas na casa do escritor Lucas Villalba (Gonzalo Suaréz), que deseja escrever uma falsa biografia de Hitler e quer a ajuda das fraudes de Antonio.


Almodovar não deixa de brincar com o espectador, com seu costumeiro humor debochado, mas dessa vez ele segura a mão, preferindo contar sua história de maneira menos lúdica e mais seca. A fotografia ultra-colorida que é característica de seu cinema, por exemplo, inexiste, sendo substituída por um visual seco e quase sóbrio, que reflete com precisão a atmosfera quase sombria de sua narração. Mesmo quando brinca com referências quase desconexas - citando "Carrie, a estranha" na personagem da menina maltratada pela mãe que mora no mesmo prédio que Gloria - o cineasta não perde o foco de sua trama, construindo a partir da relação de sua protagonista com outras pessoas uma família menos disfuncional que a sua mesma. E terço final do filme, que assume ares de trama policial, conduz a um desfecho agridoce e sensível.

"O que fiz eu para merecer isto?" é quase uma obra atípica de Almodovar. Mas apresenta o mesmo carinho com que o diretor sempre tratou seus personagens, mesmo que de maneira tortuosa. É uma prova de seu amadurecimento, que o levaria a ser um dos maiores cineastas de seu tempo.

domingo

AMOR À PRIMEIRA VISTA


AMOR À PRIMEIRA VISTA (Falling in love, 1984, Paramount Pictures, 106min) Direção: Ulu Grosbard. Roteiro: Michael Cristofer. Fotografia: Peter Suschitzky. Montagem: Michael Kahn. Música: Dave Grusin. Figurino: Richard Bruno. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Steven Jordan. Produção: Marvin Worth. Elenco: Robert De Niro, Meryl Streep, Harvey Keitel, Jane Kaczmarek, Dianne Wiest, Jesse Bradford. Estreia: 21/11/84

Um dos erros mais recorrentes dentro da indústria de Hollywood tem a ver com a confiança excessiva dos executivos em relação a determinados astros e estrelas. Nem sempre atores e atrizes consagrados conseguem passar por cima de um roteiro frágil e sem criatividade. E isso é claramente visível em "Amor à primeira vista", um romance açucarado e sem muito conteúdo que apostou suas fichas apenas no talento inquestionável de sua dupla de protagonistas, Robert DeNiro e Meryl Streep. Por melhores que eles sejam, no entanto - e eles o são - mesmo assim não foram capazes de salvar o filme do belga Ulu Grosbard, que naufragou nas bilheterias e não foi feliz nem mesmo nas cerimônias de premiação de 1984. A razão para tamanha decepção? A história fraca e mal desenvolvida, que não permite a dois dos maiores atores do cinema americano a chance de brilharem como devem - e podem.

A história de "Amor à primeira vista" se passa em Nova York e começa em uma véspera de Natal. Atrapalhados com seus inúmeros pacotes e sacolas de compras, o engenheiro Frank Raftis (DeNiro) e a design Molly Gilmore (Streep) se esbarram em uma livraria e, por engano, levam um o presente do cônjuge do outro. Se encontrando no trem algumas ocasiões depois, eles acabam se tornando uma espécie de amigos, até que se descobrem apaixonados um pelo outro. No entanto, ambos são casados e seus relacionamentos são fortes o bastante para impedí-los de consumar seu caso extra-conjugal. Quando ele aceita uma proposta de trabalho em Washington, porém, a urgência de seus sentimentos começa a falar mais alto.


O maior problema de "Amor à primeira vista" é a quase frieza do relacionamento entre seus protagonistas. Grosbard não é feliz em transmitir o sufocamento que a paixão causa em Frank e Molly, que, ao invés de parecerem angustiados com sua situação pouco invejável de amor proibido, soam como um casal quase indiferente ao nascimento de seus sentimentos. Também não convence a solidez de suas relações matrimoniais - especialmente o casamento de Molly, que em nenhum momento justifica sua renúncia à paixão por Frank. Somente no ato final do filme as coisas começam a parecer mais com "Desencanto", de David Lean, do que com qualquer novela de televisão - e mesmo assim, devido ao talento de Streep e DeNiro, que tentam tirar leite de pedra, tornando crível um texto sem maiores lances de criatividade e emoção.

No fim das contas, "Amor à primeira vista" é apenas um romance correto, com pouco sal, mas ainda assim capaz de comover os corações mais sensíveis e apaixonados. Mas de que o casal central de atores - repetindo a parceria de "O franco-atirador" - merecia bem mais que isso, não há dúvida.

sábado

O EXTERMINADOR DO FUTURO


O EXTERMINADOR DO FUTURO (The terminator, 1984, Orion Pictures, 108min) Direção: James Cameron. Roteiro: James Cameron, Gale Anne Hurd, diálogos adicionais de William Wisher. Fotografia: Adam Greenberg. Montagem: Mark Goldblatt. Música: Brad Fiedel. Figurino: Hilary Wright. Direção de arte/cenários: George Costello/Maria Rebman Caso. Produção executiva: John Daly, Derek Gibson. Produção: Gale Anne Hurd. Elenco: Arnold Schwarzenegger, Michael Bihen, Linda Hamilton, Paul Winfield, Lance Henriksen, Bill Paxton, Bess Motta. Estreia: 26/10/84

Antes de tornar-se multimilionário com "Titanic" e auto-conceder-se a pecha de visionário com o megalomaníaco "Avatar", James Cameron era um cara legal. A prova cabal dessa afirmação é "O exterminador do futuro", um filme realizado com alguns trocados - cuja primeira ideia foi vendida por um mísero dólar - e que não apenas firmou Arnold Schwarzenegger como astro número 1 do cinema de ação mas também mostrou que em cinema, uma ideia na cabeça é muito mais importante do que efeitos visuais de última ponta na mesa de pós-produção.

E a ideia na cabeça de Cameron quando criou a trama de "O exterminador" não poderia ter sido melhor e mais intrigante. Na Los Angeles de 1984, a garçonete Sarah Connor (Linda Hamilton) é caçada - sem ter a menor ideia do motivo - por um truculento e misterioso homem que ela nunca viu antes na vida. Totalmente perdida e sem saber o que está acontecendo, ela é protegida por outro desconhecido, Kyle Reese (Michael Biehn), que depois de salvá-la diversas vezes da morte, finalmente lhe explica o porquê de tanta violência: ela está sendo perseguida por um Exterminador (Arnold Schwarzenegger) que tem a missão de matá-la porque, no futuro, ela será a mãe do líder da resistência humana contra o domínio das máquinas. Ele, Kyle Reese, foi enviado, do futuro, pelo próprio John Connor, para protegê-la e evitar assim que seu nascimento seja impedido.

Sem contar com os orçamentos milionários com os quais faria seus filmes seguintes - a começar por "Aliens, o resgate", em 1986 - Cameron demonstra, em "O exterminador do futuro" que é, sim, um cineasta talentoso, inteligente e, mais importante do que tudo, com um senso de ritmo impecável. As cenas de ação de "Exterminador" não tem efeitos visuais mirabolantes, mas são tão empolgantes quanto se tivessem. Por ter menos dinheiro - leia-se um orçamento quase ridículo em comparação com sua sequência rodada em 1991 - Cameron se viu obrigado a ser mais criativo e essa criatividade faz desse primeiro exemplar da série um clássico absoluto da ficção científica, capaz de ser ao mesmo tempo extremamente eficaz como filme de ação e nunca deixar de ser inteligente e intrigante.

É impossível, por exemplo, deixar de relacionar a caça à Sarah Connor com a matança ordenada por Herodes logo após o nascimento de Cristo e essa ressonância religiosa de certa forma eleva "O exterminador do futuro" a um patamar acima de seus congêneres, que normalmente apelam para a violência high-tech como forma de disfarçar sua falta de conteúdo. Aqui, Cameron usa e abusa da violência, aproveitando que ainda não havia em cima do cinema a pressão a favor do "politicamente correto". Schwarzenegger - em um papel oferecido a Sylvester Stallone - destrói uma delegacia de polícia, mata um grupo de punks, extermina meia dúzia de Sarahs Connors e não pensa duas vezes em arrasar o que passa à sua frente. Dá pra imaginar algo assim nos chatíssimos dias de hoje? Nem mesmo o próprio Schwarza quis comprar essa briga: na continuação, ele é o herói do filme, para não manchar sua imagem e estragar seu caminho rumo à política.

Mesmo com seu jeitão de primo pobre de suas continuações hiperbolizadas, o primeiro capítulo das aventuras de Sarah Connor e de seus exterminadores continua sendo uma origem digna e extremamente divertida. Responsabilidade da mistura perfeita entre um roteiro esperto, um diretor talentoso e um elenco perfeitamente escalado - apesar de ser uma atriz bastante limitada, Linda Hamilton segura bem as pontas de sua responsabilidade, a ponto de ter conquistado Cameron: eles se casaram um tempo depois da estreia do filme e mesmo que hoje estejam separados, ninguém tira de Hamilton o fato de ser a eterna Sarah Connor.

sexta-feira

UM ESPÍRITO BAIXOU EM MIM


UM ESPÍRITO BAIXOU EM MIM (All of me, 1984, Universal Pictures, 93min) Direção: Carl Reiner. Roteiro: Phil Alden Robinson, adaptação de Henry Olek, romance de Edwin Davis. Fotografia: Richard H. Kline. Montagem: Bud Molin. Música: Patrick Williams. Direção de arte: Edward G. Carfagno. Produção: Stephen J. Friedman. Elenco: Steve Martin, Lily Tomlin, Victoria Tennant, Madolyn Smith. Estreia: 21/9/84

No início dos anos 80, um dos comediantes mais bem-sucedidos era Steve Martin. Oriundo do popular programa de TV "Saturday night live", ele esteve em uma sucessão de comédias que agradaram o público e/ou a crítica, como "O panaca" e "Cliente morto não paga", ambos dirigidos pelo veterano Carl Reiner. No entanto, nenhum de seus filmes anteriores com o cineasta conseguiu atingir o mesmo grau de êxito de "Um espírito baixou em mim", um imenso sucesso de bilheteria que ainda proporciou a ele os prêmio de melhor ator pela associação de críticos de Nova York e pela National Society of Film Critics, o que, levando-se em consideração a resistência da crítica em homenagear comédias em suas escolhas, apenas reitera o respeito com que ele era tratado na época.

"Um espírito baixou em mim" é uma comédia ligeira, sem pretensões outras a não ser fazer o espectador rir sem precisar exigir muito do cérebro - apesar de nunca subestimar a inteligência de seu público. A elegância com que Reiner conduz sua trama, sempre a um passo do nonsense, é uma prova de que fazer rir não necessariamente precisa de piadas sobre fluidos corporais. "Um espírito baixou em mim" mostra que um bom roteiro e um par de atores inspirados podem fazer milagres.

Steve Martin vive Roger Cobb, um advogado pouco feliz com sua profissão. Às vésperas de atuar em um caso que pode fazer sua carreira deslanchar - mesmo que atrapalhe seu noivado com a fútil Peggy (Madolyn Smith) - ele se vê obrigado a comparecer à mansão de Edwina Cutwater (Lily Tomlin), uma milionária arrogante e irascível que, às portas da morte, tem um plano infalível para transmigrar sua alma para o corpo de Terry (Victoria Tennant), filha de um empregado. Nutrindo uma antipatia à primeira vista pela moribunda, Cobb - cujo maior sonho é abandonar o direito e dedicar-se ao jazz - passa a viver os piores dias de sua vida quando, por um incidente na hora do procedimento de transmigração, recebe sua alma e passa a dividir seu corpo com ela. Até mesmo em meio a um julgamento, ele é metade Roger Cobb, metade Edwina Cutwater.

Só mesmo alguém muito mau-humorado é capaz de resistir ao humor de "Um espírito baixou em mim". O trabalho fabuloso de Steve Martin - dono de um raro timing para a comédia física - encontra sua cara-metade em Lily Tomlin, uma atriz especializada em um humor sarcástico e mordaz. A química perfeita entre os dois já é motivo suficiente para conferir o filme, que peca apenas por estender demais seu ato final ao invés de aproveitar o espetáculo-solo de Martin e a nítida adequação de Tomlin a seu papel de mulher ressentida e amargurada.

"Um espírito baixou em mim" não mudou a história do cinema - e nem tinha essa intenção. Mas é uma diversão honesta, inofensiva e extremamente engraçada, que apresenta o melhor trabalho da carreira de Steve Martin, um dos atores mais genuinamente engraçados dos anos 80.

quinta-feira

AMADEUS


AMADEUS (Amadeus, 1984, The Saul Zaentz Company, 160min) Direção: Milos Forman. Roteiro: Peter Shaffer, peça teatral homônima do mesmo autor. Fotografia: Miroslav Ondricek. Montagem: Michael Chandler, Nena Danevic. Figurino: Theodor Pistek. Direção de arte/cenários: Patrizia Von Brandenstein/Karel Cerny. Produção executiva: Michael Hausman, Bertil Ohlsson. Produção: Saul Zaentz. Elenco: Tom Hulce, F. Murray Abraham, Elizabeth Berridge, Simon Callow, Jeffrey Jones, Cynthia Nixon. Estreia: 06/9/84

11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Milos Forman), Ator (F. Murray Abraham, Tom Hulce), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Figurino, Direção de Arte, Som, Maquiagem
Vencedor de 8 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Milos Forman), Ator (F. Murray Abraham), Roteiro Adaptado, Figurino, Direção de Arte, Som, Maquiagem
Vencedor de 4 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (Milos Forman), Ator/Drama (F. Murray Abraham), Roteiro


"Obra-prima" não é um adjetivo que foi criado para ser usado levianamente. Mas não existe definição melhor para o que o tcheco Milos Forman conseguiu fazer com "Amadeus", sua adaptação da peça teatral de Peter Schaffer que foi o merecidíssimo vencedor de 8 Oscar em 1984. Poucas vezes o cinema conseguiu unir com tanta qualidade sucesso de crítica e comercial falando de um assunto teoricamente hermético: música clássica. E talvez a chave de seu êxito seja justamente o fato de que, apesar de falar de música clássica sim, ele centra-se principalmente na relação entre o genial compositor austríaco Wolfgang Amadeus Mozart e seu arqui-rival, o italiano Salieri. Ao focar sua atenção em tão ricos personagens, Forman e cia se dão ao luxo de utilizar a obra inigualável do músico apenas como pano de fundo - um senhor pano de fundo, que ilustra com maestria a fogueira de vaidades retratada no roteiro.

"Amadeus" é narrado em flashback através da voz de Salieri, que, envelhecido e internado em um hospital psiquiátrico depois de uma tentativa de suicídio, conta a um padre sua relação de admiração/inveja com Mozart. Considerando que o músico austríaco foi escolhido por Deus como seu instrumento na Terra a despeito de seus modos vulgares e da dissipação de sua vida pessoal, ele utiliza de sarcasmo e amargura para mostrar a forma como Mozart tornou-se o compositor mais respeitado e popular de sua época. Surpreendentemente, ele assume inclusive uma parcela de responsabilidade em sua morte.


Se fosse necessário escolher apenas uma das inúmeras qualidades do filme de Forman - e é inegável que ele tem uma quantidade considerável delas - provavelmente a grande vitória seria da atuação de F. Murray Abraham como Salieri. Apesar de defender um papel ingrato e tratado com certo maniqueísmo pelo roteiro (que se dedica a retratá-lo como invejoso e sem o talento que o verdadeiro compositor possuía), Abraham se agiganta a tal ponto de relegar a personagem-título a um quase segundo plano. Na verdade, os reais protagonistas de "Amadeus" são Salieri e seus sentimentos negativos, que impulsionam a narrativa do dramaturgo Peter Shaffer em direção a mais do que simplesmente uma cinebiografia. "Amadeus" é, além de uma sublime história de genialidade, o retrato, em cores vibrantes (e até mesmo em um noir extraordinário), de uma época e uma sociedade.

Fotografado com maestria e utilizando-se apenas de luz natural, é um filme visualmente deslumbrante, capaz de deixar de queixo caído até o mais indiferente espectador. As sequências que apresentam as óperas de Mozart, por exemplo, são exuberantes, viscerais e emocionantes, saindo do espectro limitatório a que sua música erroneamente é imposto. Milos Forman fez questão de filmar "Don Giovanni", por exemplo, no mesmo palco onde a ópera estreou, e esses detalhes acabam sendo a alma de "Amadeus" - só para constar: todos os estudiosos de música afirmam que todos os movimentos musicais apresentados no filme são exatos e sincronizados, um toque de perfeccionismo que, não apenas respeitoso com o público, é um toque de gênio a mais, oportunizando à audiência um espetáculo completo e verdadeiro. Um espetáculo, diga-se de passagem, que encontra em seus dois intérpretes centrais a base para seu impressionante êxito.

Se Murray Abraham hipnotiza com sua atuação impecável, Tom Hulce entrega uma interpretação irreverente e moderna de Mozart, retratado no filme como um homem dono de uma quase imaturidade e de um prazer de viver além de qualquer sucesso e fama. Apesar de não encontrar eco nas descrições do compositor feitas por historiadores, a gargalhada insana do protagonista acabou se tornando a marca registrada do filme, o ponto pelo qual ele é mais frequentemente lembrado. No entanto, os fãs de bom cinema e boa música jamais conseguirão esquecer a majestade de "Amadeus", que merece, mais do que qualquer filme que se pretenda erudito, a classificação de obra-prima!

quarta-feira

RUAS DE FOGO


RUAS DE FOGO (Streets of fire, 1984, Universal Pictures, 93min) Direção: Walter Hill. Roteiro: Larry Gross, Walter Hill. Fotografia: Andrew Laszlo. Montagem: Jim Coblentz, Freeman A. Davies, Michael Ripps. Música: Ry Cooder. Figurino: Marilyn Vance. Direção de arte/cenários: John Vallone/Richard C. Goddard. Casting: Judith Holstra, Marcia Ross. Produção executiva: Gene Levy. Produção: Lawrence Gordon, Joel Silver. Elenco: Michael Paré, Diane Lane, Willem Dafoe, Rick Moranis, Amy Madigan, Rick Rossovich, Bill Paxton, Mykelty Williamson, Ed Begley Jr. Estreia: 01/6/84

Algumas ideias dos estúdios hollywoodianos acabam se espatifando no caminho de tornarem-se mais do que ideias. Um desses insights que nunca passaram de projetos era o de uma trilogia de ação noir protagonizado por Michael Paré na pele do mercenário cool Tom Cody, o herói de "Ruas de fogo". O fracasso retumbante do filme inicial da trilogia, dirigido por Walter Hill, jogou a possibilidade em uma gaveta dos engravatados do estúdio, onde permanece até hoje, mesmo depois do filme ter-se tornado, com o tempo, uma espécie de cult-movie.

Passado em um lugar e uma época não identificados pelo roteiro, "Ruas de fogo" - título tirado de um verso de Bruce Springsteen - começa com o sequestro da estrela do rock Ellen Aim (uma jovem Diane Lane dublada vergonhosamente nas cenas musicais) por um grupo de motoqueiros vândalos e violentos, liderados por Raven Shaddock (Willem Dafoe). Para resgatá-la, seu empresário e atual namorado, Billy Fish (Rick Moranis) contrata o atraente e cínico Tom Cody (Michael Paré), sem saber que ele e a cantora tiveram um apaixonado caso romântico que acabou quando o rapaz foi pra guerra. Acompanhado da durona McCoy (Amy Madigan), Cody invade a vizinhança barra-pesada de Raven, dando início a uma guerra sem tréguas.

Batizado com o subtítulo de "Uma fábula do rock'n'roll", "Ruas de fogo" não agradou o público à época de seu lançamento, apesar de ter várias semelhanças temáticas e visuais com um sucesso anterior do diretor Walter Hill, "Warriors, os selvagens da noite". Deixando de lado o humor que foi o diferencial em sua maior bilheteria, "48 horas", estrelado pelo então ascendente Eddie Murphy, Hill ficou em um constrangedor meio do caminho. O roteiro de "Ruas" não se aprofunda em desenvolvimento de personagens, não tem senso de humor e nem ao menos apresenta cenas de ação antológicas. Por que então ainda permanece firme e forte no imaginário de uma boa parte da geração que assistia a filmes nos anos 80?


Basicamente, o charme maior de "Ruas de fogo" reside em sua vibrante trilha sonora, composta por Ry Cooder depois que três versões de James Horner foram descartadas pelo diretor. Não apenas pontuando a ação - em um roteiro fraquinho e sem grandes qualidades -, a música é parte integrante e fundamental na história de amor entre Cody e Ellen Aim. Canções como "Tonight is what means to be young" e "Nowhere fast" tornaram-se clássicas e são o maior destaque do filme, sobrevivendo na memória da audiência mais do que os diálogos clichê e as personagens mal delineadas do roteiro, co-escrito por Walter Hill e Larry Gross. Não é à toa que sempre que as músicas são o centro da atenção no filme, ele cresce e torna-se mais orgânico.

"Ruas de fogo" faz parte daquele rol de filmes que eram reprisados volta e meia nas tardes globais na segunda metade da década de 80 e como tal se mantém como uma espécie de relíquia quase sentimental, ainda que seja bastante fraco em termos artísticos. Tom Cody não vingou, assim como a carreira de Michael Paré. Mas ele sempre será lembrado por quem tem trinta e poucos anos..

terça-feira

INDIANA JONES E O TEMPLO DA PERDIÇÃO


INDIANA JONES E O TEMPLO DA PERDIÇÃO (Indiana Jones and the temple of doom, 1984, Paramount Pictures, 118min) Direção: Steven Spielberg. Roteiro: Willard Huyck, Gloria Katz, história de George Lucas. Fotografia: Douglas Slocombe. Montagem: Michael Kahn. Música: John Williams. Figurino: Anthony Powell. Direção de arte/cenários: Elliot Scott/Peter Howitt. Casting: Jane Feinberg, Mike Fenton, Marci Liroff, Mary Selway Buckley. Produção executiva: George Lucas, Frank Marshall. Produção: Robert Watts. Elenco: Harrison Ford, Kate Capshaw, Jonathan Ke Quan, Amrish Puri. Estreia: 23/5/84

2 indicações ao Oscar: Trilha Sonora, Efeitos Visuais
Vencedor do Oscar de Efeitos Visuais


Depois do monumental sucesso de bilheteria de “Caçadores da Arca Perdida” só mesmo uma pessoa extremamente fosse pouco afeito a dar continuidade a suas obras (é bom lembrar que isso foi antes de "Jurassic Park"...) Mas como o personagem central do filme, o arqueólogo Indiana Jones se prestava a novas aventuras por que não utilizá-lo em mais um espetacular passeio de montanha-russa? A partir desse raciocínio bastante esperto surgiu "Indiana Jones e o templo da perdição", que utilizava inclusive ideias deixadas de lado no filme original.

A nova aventura de Jones se passa antes da primeira e como o filme original, começa com uma cena sem ligação direta com a história que vem adiante. A seqüência inicial se passa na Shangai de 1939, onde Spielberg brinca de dirigir um musical e apresenta a personagem feminina da vez, Wllie Scott, vivida por Kate Capshaw, que será não apenas o interesse romântico do herói mas também a responsável pelo alívio cômico de uma obra, que, ao contrário do primeiro filme, tem cenas bastante violentas e tensas, o que acabou prejudicando seu desempenho nas bilheterias, afinal crianças também vão aos cinemas, certo?

E são crianças o centro da trama, dessa vez. Indo parar em um vilarejo indiano graças um de seus vários desafetos, Indiana Jones acaba sendo confundido como um enviado de Deus para recuperar as crianças do local, aprisionadas em um templo, hipnotizadas e maltratadas por um assustador seguidor de uma seita que exige sacrifícios humanos. Acompanhado de Willie e de seu fiel seguidor, o pequeno Short Round (Ke Huy Quan), Jones entra em cena disposto a ajudar no que for preciso e presenteia a platéia com algumas das melhores seqüências que o cinema de entretenimento pode proporcionar. Enquanto “Caçadores da Arca Perdida” tinha um ar mais despretensioso e alma de matiné, “Indiana Jones e o Templo da Perdição” pega pesado em cenas assustadoras e de uma tensão palpável. Felizmente os momentos de humor são suficientes para aliviar e não tornar uma diversão familiar em um filme de horror.


Criticado por seu tom sombrio, "O templo da perdição" não tem medo em mostrar uma violência que em "Caçadores" era apenas imaginada e mostrada de forma escapista e com censura livre. Aqui, o vilão arranca o coração das vítimas com as próprias mãos, crianças são chicoteadas impiedosamente e todos os perigos que os protagonistas encaram soam realmente arriscados. A fantasia divertida é substituída por uma tensão constante e o que isso acrescenta em qualidade tira em alcance. O próprio Spielberg não gosta muito do resultado final de "Perdição", preferindo lembrar dele como o responsável por seu contato com Kate Capshaw, com quem viria a se casar tempos depois. Capshaw, inclusive, é a responsável por proporcionar o alívio cômico através do qual o público respira entre cenas extremamente empolgantes para os fãs dos filmes de ação.

"Indiana Jones e o templo da perdição" não é tão delicioso de se assistir quanto "Os caçadores da arca perdida" - até mesmo sua fotografia acompanha a escuridão que permeia o roteiro. Mas surpreende pela ousadia em não se deixar levar pela mesmice e não fica nada a dever ao primeiro em termos técnicos. Digamos que é o irmão mais sério de "Os caçadores"...

segunda-feira

FOOTLOOSE, RITMO LOUCO


FOOTLOOSE, RITMO LOUCO (Footloose, 1984, Paramount Pictures, 107min) Direção: Herbert Ross. Roteiro: Dean Pitchford. Fotografia: Ric Waite. Montagem: Paul Hirsch. Figurino: Gloria Gresham. Direção de arte/cenários: Ron Hobbs/Mary Olivia Swanson. Casting: Jane Feinberg, Mike Fenton, Marci Liroff. Produção executiva: Daniel Melnick. Produção: Lewis J. Rachmil, Craig Zadan. Elenco: Kevin Bacon, Lori Singer, Dianne Wiest, John Lithgow, Chris Penn, Sarah Jessica Parker. Estreia: 17/02/84

2 indicações ao Oscar: Canção ("Footlose", "Let's hear it for the boy")

Existem situações apresentadas em filmes que parecem tão absurdas que é difícil acreditar que elas realmente aconteceram na vida real. E é mais ou menos isso que acontece quando se assiste a "Footloose, ritmo louco", um dos clássicos absolutos dos anos 80, constantemente reprisado na televisão aberta na década seguinte. Segundo Kenny Loggins, compositor da conhecida canção-tema indicada ao Oscar, os acontecimentos mostrados no filme de Herbert Ross são inspirados em eventos que realmente aconteceram em uma pequena cidade de Oklahoma em 1978, quando um grupo de adolescentes conseguiu acabar com a lei que proibia qualquer tipo de dança nas festas.

Logicamente o roteiro de Dean Pitchford floreia um pouco a história para melhor apetecer à plateia jovem, que lotou sessões de cinema mundo afora e transformou o filme em um sucesso atemporal - há inclusive boatos de uma refilmagem, que Zach Efron dispensou para não ficar marcado como ator de musicais. Mas o fato é que apesar de parecer forçada, a trama é baseada em situações reais e conquista o público independentemente de suas origens veridícas. Kevin Bacon, no papel que lhe rendeu o estrelato aos 24 anos, vive Ren McCormack, que chega, depois do divórcio dos pais, a uma pequena cidade do interior dos EUA. Acostumado com uma vida liberal e quase independente, ele fica chocado com a rigidez das regras impostas por Shaw Moore (John Lithgow), o reverendo da cidade. Seguidas cegamente pela população - mas questionadas ferozmente por sua filha Ariel (Lori Singer) - as leis morais impedem inclusive que os jovens da cidade possam dançar em suas festas. Apaixonado por Ariel, Ren resolve convencer seus colegas a exigir uma festa de formatura com tudo que eles tem direito - e bate de frente com o líder espiritual do lugar.


Sem pretensões maiores a não ser contar uma história simples e divertida - ainda que critique de forma não muito velada a hipocrisia religiosa e utilize a dança mais uma vez como metáfora para o sexo - o filme de Herbert Ross (diretor do elogiadíssimo "Momento de decisão") seduz justamente por sua falta de ambição. Não há grandes complexidades psicológicas em suas personagens - ainda que os atos do reverendo tenham razões bem justificáveis - e nem mesmo o romance central chega a ser eletrizante (culpa talvez da fraca Lori Singer, que ficou com o papel principal depois da recusa de várias atrizes jovens que começavam no cinema à época). Mas sua trilha sonora vibrante conquista até o mais preguiçoso espectador.

Aliás, é o público fiel que faz de "Footloose" o sucesso que ele é ate hoje. Kevin Bacon, mesmo consagrado por inúmeros outros papéis importantes, ainda é lembrado por seu Ren McCormack (que o diga um engraçadíssimo episódio da extinta série "Will & Grace") e sua coreografia enlouquecida - e ele ficou com o papel apenas porque Tom Cruise estava compromissado com outro filme e Rob Lowe machucou-se antes das filmagens. E seria interessante imaginar como seria o resultado final se o megalomaníaco Michael Cimino tivesse sido o diretor ou qualquer outra atriz fizesse par romântico com Bacon - e aí pode-se escolher entre Daryl Hannah, Melanie Griffith, Michelle Pfeiffer, Jamie Lee Curtis, Meg Ryan, Jennifer Jason-Leigh, Jodie Foster, Brooke Shields, Diane Lane ou Bridget Fonda. Possivelmente qualquer uma seria mais memorável que a apática Lori Singer, que permite, em uma revisão, ser eclipsada pelos coadjuvantes que fizeram carreira - o falecido Chris Penn bem mais magro e a Carrie Bradshaw em pessoa Sarah Jessica Parker em uma partipação pequena.

"Footloose" ainda funciona como sessão de tarde. E sua música-tema ainda levanta qualquer festa saudosista.

O PREÇO DA TRAIÇÃO

  O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...