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domingo

HOMEM DE FERRO 2


HOMEM DE FERRO 2 (Iron Man 2, 2010, Paramount Pictures/Marvel Studios, 124min) Direção: Jon Favreau. Roteiro: Justin Theroux, personagens criados por Stan Lee, Don Heck, Larry Lieber, Jack Kirby. Fotografia: Matthew Libatique. Montagem: Dan Lebental. Música: John Debney. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: J. Michael Riva/Lauri Gaffin. Produção executiva: Louis D'Esposito, Susan Downey, Jon Favreau, Alan Fine, Stan Lee, David Maisel, Denis L. Stewart. Produção: Kevin Feige. Elenco: Robert Downey Jr., Gwyneth Paltrow, Mickey Rourke, Scarlett Johansson, Samuel L. Jackson, Jon Favreau, Don Cheadle, Sam Rockwell, John Slattery, Clark Gregg, Paul Bettany, Kate Mara. Estreia: 26/4/2010

Indicado ao Oscar de Efeitos Visuais

Não foi surpresa para ninguém quando, mesmo com o primeiro "Homem de ferro" ainda em cartaz, um segundo capítulo foi confirmado pela Marvel. Com uma renda doméstica superior a 300 milhões de dólares (e uma bilheteria mundial de quase o dobro), a adaptação das aventuras de Tony Stark, o bilionário tornado super-herói, deu o pontapé inicial para a criação de um universo cinematográfico próprio, que daria origem a uma série de filmes extremamente bem-sucedidos em termos comerciais e de crítica. Confirmando a regra de quem em time que está ganhando não se mexe, o estúdio manteve Jon Favreau na direção, Robert Downey Jr. no papel-título (dessa vez com um salário compatível com sua importância no projeto) e Gwyneth Paltrow na pele de sua secretária/interesse amoroso Pepper Potts. A única baixa foi a substituição de Terrence Howard por Don Cheadle - uma intriga de bastidores que foi assunto por um bom tempo em publicações sobre o tema. Com um orçamento um pouco mais generoso que o primeiro filme e as expectativas nas alturas, "Homem de ferro 2" chegou às telas na primavera norte-americana de 2010 e, novamente para nenhuma surpresa, transformar-se em um dos campeões de bilheteria do ano. A boa notícia é que, apesar de seguir quase à risca o manual de roteiros de Hollywood, o filme de Favreau conseguiu manter o frescor do material original e revelou-se um entretenimento à altura, graças, em boa parte, ao enxuto e bem estruturado roteiro de Justin Theroux

Indicado por Downey Jr., com quem havia trabalhado no script da comédia "Trovão tropical" (2009), Theroux teve a vantagem de não precisar voltar às origens do personagem, tão bem contadas no primeiro capítulo. Dessa vez, a história se ampara em três frentes: na primeira, Stark precisa lidar com a pressão do governo norte-americano que insiste para que ele compartilhe de sua tecnologia para colaborar na defesa do país. Na segunda, ele se vê frente a frente com o desgaste de sua saúde, prejudicada por sua exposição ao material radoiativo que o mantém vivo. E, por fim, uma parte do passado de sua família vem à tona quando o físico russo Ivan Vanko - filho de um cientista que fora sócio de seu pai nas indústrias Stark - chega ao país para unir-se a Justin Hammer, seu principal rival nos negócios, e vingar-se do fato de ter sido deportado do país, acusado de traição. As três tramas caminham paralelamente durante o filme, para se encontrarem no ato final - que consegue ser mais empolgante que o original graças aos efeitos indicados ao Oscar e por sua integração natural ao enredo.


 E se a saída de Terrence Howard por questões salariais e artísticas - o estúdio sugeriu um corte de 80% do seu cachê, em relação ao primeiro filme, quando o ator teve um pagamento maior que o de Robert Downey Jr., e diminuição de seu personagem devido à insatisfação do diretor com seu desempenho - os acréscimos a essa segunda parte da saga do Homem de Ferro fizeram a festa para os espectadores.Na pele do principal vilão, Ivan Vanko, o primeiro acerto: em alta depois de sua indicação ao Oscar de melhor ator por "O lutador" (2008), Mickey Rourke entrou no elenco como um grande atrativo - mas depois da estreia reclamou a quem quisesse ouvir que suas melhores cenas haviam sido cortadas, e que tal situação havia tornado inútil toda a sua preparação anterior às filmagens (o que incluiu uma viagem à Rússia e treinamento físico específico). Para viver o rival de Stark, o empresário Justin Hammer, a escolha inicial de escalar Al Pacino foi substituída pela presença de Sam Rockwell, mais jovem e de maior diálogo com a plateia juvenil. E por fim, o melhor da festa: a presença de Scarlett Johansson como Natasha Romanov - que, como todo fã dos quadrinhos sabe, é o nome civil da Viúva Negra, personagem cuja importância vai se tornando cada vez maior no decorrer do lançamento dos outros filmes da Marvel. Anteriormente reservado para Emily Blunt, o papel ficou vago quando a atriz não conseguiu conciliar o trabalho com as filmagens de "As viagens de Gulliver", e não faltaram nomes cogitados para seu lugar: Angelina Jolie, Jessica Biel, Gemma Arterton e Jessica Alba estavam entre os boatos - assim como Natalie Portman (que depois estrelaria "Thor", de Kenneth Branagh) e Brie Larson (a Capitã Marvel em pessoa). Johansson tingiu os cabelos de ruivo, envolveu-se em treinamentos físicos antes e durante as filmagens, e surgiu como mais um elo do Homem de Ferro com a S.H.I.E.L.D. - que se tornará ponto crucial nos filmes seguintes da série.

Mais do que apenas um filme realizado para encher os cofres da Marvel - a esta altura já bem recheado -, "Homem de ferro 2" é, mais do que tudo, uma produção que estabelece ainda mais as fundações do universo cinematográfico da produtora, oferecendo ao público tudo que uma superprodução escapista e milionária pode oferecer. Tem bons momentos de humor (em boa parte graças ao carisma de Downey Jr., cada vez mais à vontade no papel principal), cenas de ação caprichadas e personagens coadjuvantes que não estão em cena como meros figurantes. Para quem gosta do gênero é um programa dos mais satisfatórios - em compensação, os detratores do cinemão comercial hollywoodiano continuarão torcendo o nariz para seus efeitos mirabolantes, piadas irônicas e mitologia própria. É uma questão de gosto - e os mais de 620 milhões de dólares arrecadados ao redor do mundo deixa bem claro que muita gente aprova as aventuras de Tony Stark.

terça-feira

O LUTADOR

O LUTADOR (The wrestler, 2008, Wild Bunch/Protozoa Pictures, 109min) Direção: Darren Aronofsky. Roteiro: Robert Siegel. Fotografia: Maryse Alberti. Montagem: Andrew Weisblum. Música: Clint Mansell. Figurino: Amy Westcostt. Direção de arte/cenários: Tim Grimes/Theo Sena. Produção executiva: Vincent Maraval, Agnès Mentre, Jennifer Roth. Produção: Darren Aronofsky, Scott Franklin. Elenco: Mickey Rourke, Marisa Tomei, Evan Rachel Wood, Mark Margolis. Estreia: 05/9/08 (Festival de Veneza)

2 indicacões ao Oscar: Ator (Mickey Rourke), Atriz Coadjuvante (Marisa Tomei)
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Ator/Drama (Mickey Rourke), Canção ("The wrestler") 

Poucos atores tiveram seu auge e decadência tão nitidamente marcados diante do público quanto Mickey Rourke. O símbolo sexual que mexeu com a cabeça e a libido das mulheres em "9 1/2 semanas de amor" e o ator intenso e talentoso que entusiasmou a crítica no barra-pesada "Coração satânico" - ambos de 1986 - parecia ter um futuro brilhante pela frente, até que escolhas equivocadas na carreira, uma vida pessoal atribulada (com escândalos frequentes a respeito de violência doméstica) e uma surpreendente tentativa de tornar-se boxeador enterrou sua credibilidade e tornou seu rosto - que tanto havia encantado as plateias - uma triste constatação dos males provocados pelos excessos. Quando tudo aparentava estar perdido, porém, Rourke pegou o mundo de surpresa: primeiro ressurgiu em "Sin City, a cidade do pecado" na pele do anti-heroi Marv, um dos maiores destaques do filme de Robert Rodriguez. E três anos depois, ressurgido das cinzas, saiu louvado do Festival de Veneza por seu trabalho em "O lutador", de Darren Aronofsky, que foi eleito o melhor filme - só não carregou a estatueta de melhor ator porque as regras do festival impediam que a mesma obra fosse homenageada em ambas as categorias. Em um papel que caiu como uma luva para seu momento, Rourke calou a boca daqueles que consideravam sua carreira encerrada e ainda, de quebra, ganhou o Golden Globe e foi indicado ao Oscar - que perdeu para Sean Penn, outro rebelde domado. Uma volta por cima como Hollywood adora - mas que infelizmente não teve continuidade graças ao comportamento errático do próprio ator.

Esse comportamento irresponsável de Rourke, aliás, quase lhe custou a chance de retornar às boas graças da crítica e do público: mesmo sabendo que o papel principal havia sido escrito com o ator em mente, o estúdio produtor não tinha a menor intenção de tê-lo no elenco, a ponto de Nicolas Cage ter começado a fazer pesquisas para estrelar o filme e Aronofsky ter considerado Sylvester Stallone como astro. A sorte parecia estar do lado de Rourke, no entanto: Cage desistiu do projeto por achar que não teria tempo suficiente para preparar-se, e o diretor chegou à conclusão de que a escalação de Stallone faria o filme ficar perigosamente semelhante à "Rocky Balboa" (06) - com quem divide o tom elegíaco e a trama familiar. Quando teve a chance de contar com Rourke, no entanto, o cineasta se surpreendeu com uma recusa - o ator não gostou do roteiro e nem era especialmente simpático às lutas livres profissionais. Insistente, Aronofsky alterou boa parte dos diálogos... e finalmente "O lutador" tinha seu protagonista. Exímio diretor de atores - foi ele quem levou Ellen Burstyn e Natalie Portman ao páreo do Oscar por "Réquiem para um sonho" e "Cisne negro", respectivamente - Aronofsky arrancou de Rourke uma atuação visceral, sensível e forte, capaz de, ao mesmo tempo, chocar e emocionar como nunca antes em sua carreira.


As semelhanças entre personagem e intérprete são perceptíveis já na trama central: Rourke vive Robin Ramzinski, um ídolo das lutas-livres profissionais nos anos 80 que, na meia-idade, sobrevive às custas de um remoto passado de glórias, participando de feiras para poucos fãs e lutas comemorativas das quais participa apenas como convidado de honra - mas que não lhe pagam bem o bastante para que ele não precise complementar o orçamento trabalhando como balconista de um supermercado. Um fracassado em todas as frentes, ele costuma afogar as mágoas no bar de strip-tease onde trabalha a mãe solteira Cassidy (Marisa Tomei, indicada ao Oscar de atriz coadjuvante), por quem sente-se atraído romanticamente e a quem tenta desajeitadamente conquistar. É ela quem irá encorajá-lo a consertar outra parte deficiente de sua vida: a filha Stephanie (Evan Rachel Wood), com quem mantém uma relação de fria distância e com quem irá buscar uma aproximação, principalmente depois de um enfarte que pode encerrar sua carreira e sua vida.

Sem medo de retratar o ambiente totalmente desprovido de glamour dos bastidores da luta-livre - e de mostrá-lo de forma dolorosamente realista, sem filtros e meias-verdades - Darren Aronofsky desconstroi todo o romantismo dos filmes do gênero, em cenas cruas e regadas a uma melancolia típica de personagens perdedores e desiludidos. Embalados por uma inspirada trilha sonora - Axl Rose cedeu os direitos de sua "Sweet child o'mine" para o filme por ter gostado do roteiro e Bruce Sprinsgteen compôs a bela canção-título vencedora do Golden Globe e injustamente esquecida pelo Oscar - os lutadores que gravitam ao redor do protagonista são tão desajustados quanto ele, homens que ganham a vida através de uma violência de mentira e são incapazes de romper com um universo opressivo e rarefeito. Esse tom de pessimismo, equilibrado com sensibilidade e as atuações acima da média fazem de "O lutador" um dos dramas mais intensos de sua época, com ou sem Oscar no currículo.

segunda-feira

SIN CITY, A CIDADE DO PECADO

SIN CITY, A CIDADE DO PECADO (Sin City, 2005, Dimenson Films, 124min) Direção: Frank Miller, Robert Rodriguez, Quentin Tarantino. Roteiro: HQ de Frank Miller. Fotografia e montagem: Robert Rodriguez. Música: John Debney, Graeme Revell, Robert Rodriguez. Direção de arte/cenários: Steve Joyner,Jeanette Scott/David Hack, Jeannette Scott. Produção executiva: Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Elizabeth Avellan. Elenco: Bruce Willis, Mickey Rourke, Benicio Del Toro, Clive Owen, Brittany Murphy, Michael Madsen, Rutger Hauer, Elijah Wood, Nick Stahl, Michael Clarke Duncan, Powers Boothe, Josh Hartnett, Jessica Alba, Rosario Dawson. Estreia: 28/3/05

Depois do sucesso estrondoso de "X-Men" e "Homem-aranha" as adaptações de histórias em quadrinhos para as telas de cinema viraram moeda corrente em Hollywood, com resultados os mais diversos, tanto em termos de qualidade quanto de bilheteria. Mas ninguém em sã consciência poderia imaginar que uma adaptação fosse tão longe em fidelidade quanto "Sin City, a cidade do pecado", dirigida, produzida, fotografada, editada e musicada (ufa!) por Robert Rodriguez, que, de posse de praticamente todo e qualquer controle sobre a obra, ainda teve a ousadia de co-assinar a direção com o criador das histórias em papel, Frank Miller. O sindicato de diretores não gostou e expulsou Rodriguez de seu quadro. A plateia náo se deu ao trabalho de se interessar por isso, encantada que estava com o resultado final do trabalho dos co-diretores (que ainda contaram com a luxuosa ajuda de Quentin Tarantino em uma cena). Mais do que a transição de uma história em quadrinhos para a tela de cinema, "Sin City, a cidade do pecado" - subtítulo absolutamente desnecessário - é uma pequena obra-prima dentro de um subgênero do qual provavelmente é o mais bem acabado produto.

Assim como nas publicações editadas, o filme "Sin City" é dividido em histórias independentes que vez ou outra se cruzam sutilmente. O primeiro segmento - que serviu como uma espécie de teste visual para o sinal verde dos produtores - é uma pequena cena estrelada pelo sempre péssimo Josh Hartnett, e nem ele consegue estragar o impacto que esses poucos minutos causam no espectador. A partir daí, o que se segue é um festival de violência, clima noir e uma sensação de ineditismo que faz das duas horas seguintes uma experiência rica e empolgante.



A trama começa pra valer quando o policial Hartigan (Bruce Willis, talvez um pouco novo demais para o papel) consegue impedir um jovem psicopata (vivido por um irreconhecível Nick Stahl) de matar uma garotinha e com isso ganha sua afeição eterna, que se revelará quase vinte anos depois, quando ela, já adulta (e interpretada com inegável sensualiade por Jessica Alba), parte com ele em busca de vingança por seus anos passados na cadeia por um crime que não cometeu. Outro que precisa provar sua inocência e encontrar os culpados por um violento assassinato é Marv (Mickey Rourke em impressionante caracterização), que busca vingar a morte de uma prostituta com quem passou a noite mais carinhosa de sua vida. O que ele sequer desconfia, porém, é que gente muito importante - em altos níveis de poder - não deseja que ele descubra a verdade. E Clive Owen - vindo do sucesso crítico de "Closer, perto demais" - vive Dwight, um homem disposto a qualquer coisa para proteger sua namorada, a garçonete Shellie (Brittany Murphy), de seu antigo amante, o truculento policial Jackie (Benicio Del Toro em um papel que despertou a cobiça de Adrien Brody), que tem uma perigosa relação com as prostitutas lideradas por Gail (Rosario Dawson).

Se fosse um filme policial comum, ainda assim "Sin City" seria imperdível, tão interessante é sua gama de personagens marginalizadas e suas histórias repletas de sangue e suor. Mas a obra de Robert Rodriguez é muito mais do que simples cinema. Visualmente impactante e dono de um roteiro com diálogos brilhantes - cortesia do texto enxuto e visceral de Frank Miller - o filme passa por cima do politicamente correto e do medo de mostrar a violência como ela é para, com a licença de ser literalmente quadrinhos no cinema, explicitar situações chocantes - pedofilia, cães comendo seres humanos - sem soar gratuito e/ou apelativo.

É difícil ficar indiferente a "Sin City". Seja por suas qualidades visuais - a fotografia belíssima lembra os clássicos do cinema noir e a maquiagem deixa os atores irreconhecíveis -, por suas histórias violentas ou por seu elenco de peso (em que até mesmo Mickey Rourke e Bruce Willis conseguem brilhar sem fazer esforço), o filme de Robert Rodriguez é, com certeza, um gigantesco passo à frente na tecnologia de unir - com talento e parcimônia - quadrinhos e cinema. Bravíssimo!

terça-feira

O HOMEM QUE FAZIA CHOVER


O HOMEM QUE FAZIA CHOVER (The rainmaker, 1997, American Zoetrope/Constellation Entertainment/Douglas/Reuther Productions, 135min) Direção: Francis Ford Coppola. Roteiro: Francis Ford Coppola, Michael Herr, romance de John Grisham. Fotografia: John Toll. Montagem: Barry Malkin. Música: Elmer Bernstein. Figurino: Aggie Guerard Rodgers. Direção de arte/cenários: Howard Cummings/Barbara Munch. Produção: Michael Douglas, Fred Fuchs, Steven Reuther. Elenco: Matt Damon, Claire Danes, Danny DeVito, Mickey Rourke, Roy Scheider, Virginia Madsen, Mary Kay Place, Jon Voight, Dean Stockwell, Teresa Wright. Estreia: 18/11/97

Francis Ford Coppola é um cineasta de extremos. Ou tem lapsos da mais absoluta genialidade e produz filmes definitivos como "O poderoso chefão" e "Apocalypse now" ou assina fracassos estrondosos como "O fundo do coração" e "Tucker, um homem e seu sonho" (que, a despeito de sua qualidade fazem parte de uma nada lisonjeira lista de prejuízos absolutos). Por isso, não deixa de ser estranho ver seu nome estampado nos créditos de "O homem que fazia chover", mais uma adaptação para o cinema de um livro de John Grisham. Não que o filme tenha sido um erro total ou um furo comercial - mas porque em nenhum momento dos seus longos 135 minutos se percebe o talento visionário e a paixão que imprimiu em seus melhores trabalhos. "O homem que fazia chover" é um ótimo drama de tribunal - que felizmente não se resume somente às cenas do julgamento em si - mas, se é uma das melhores recriações da obra de Grisham para as telas, é apenas um filme correto dentro da filmografia genial de seu diretor.

Como sempre acontece nas histórias de Grisham, o protagonista é um advogado o jovem Rudy Baylor (Matt Damon) acaba de formar-se em Direito e, antes mesmo de passar no exame da Ordem, é contratado pela firma do misterioso Bruiser Stone (Mickey Rourke), para onde leva dois casos dos quais já cuidava; o testamento da velha senhora Birdie (Teresa Wright) - em cujo apartamento dos fundos ele mora, e um importante caso contra uma empresa de planos de saúde, que se recusa a pagar o tratamento de leucemia do jovem Donny Ray Black (Johnny Whitworth). Enquanto tenta levar o poderoso à julgamento - contando com a ajuda do colega Deck Shifflet (Danny DeVito),cujo maior talento é aliciar possíveis clientes em hospitais e delegacias - Baylor se apaixona por Kelly Riker (Claire Danes), uma jovem vítima de um marido abusivo.


O que há de melhor em "O homem que fazia chover" é a sua narrativa clássica e linear. Diferentemente do que fez em "Drácula de Bram Stoker", quando abusou de sua veia criativa em sequência de poesia ímpar que expandiam a trama criada pelo autor irlandês, aqui o cineasta se atém a contar a história imaginada por Grisham, sem apelar para efeitos de luz e sombra ou subterfúgios outros. O público que se dispor a assistir ao filme é presenteado com uma história simples de bem contra o mal - um tanto maniqueísta, sim, mas interessante o suficiente para manter a atenção até o final. E é fundamental para que a audiência torça por seu protagonista que ele seja vivido por um ator como Matt Damon. Em vias de tornar-se queridinho de Hollywood por "Gênio indomável" - que lhe deu um Oscar de roteiro original - Damon é a perfeita encarnação do rapaz boa-pinta, de bom coração e sensível com que a plateia pode (e deve) identificar-se. Sua escalação, um golpe de mestre de Coppola, dá o tom exato do que é "O homem que fazia chover": um filme simples, sem maiores sofisticações.

Mas por simples que não se entenda simplório. Apesar de não buscar soluções inéditas ou enquadramentos mirabolantes de câmera, Coppola não se descuida do roteiro - que ele mesmo adaptou. Ainda que as personagens não sejam exatamente multidimensionais, elas proporcionam a seus atores boas oportunidades de demonstrar seu talento. Mary Kay Place dá o tom exato a sua Dot Black, a mãe do jovem Donny Ray, uma mulher determinada a não deixar que o sofrimento de seu filho passe em branco. Danny DeVito brilha como o divertido Deck Shifflet e até mesmo coadjuvantes rápidos - como Dean Stockwell e Virginia Madsen - estão em momentos bastante inspirados. Talvez nesse cuidado com a direção de atores esteja mais claro o envolvimento do cineasta com o projeto, cujo resultado final recebeu a total aprovação de seu criador. De todas as adaptações de livros seus feitos por Hollywood, "O homem que fazia chover" é a preferida de John Grisham.

"O homem que fazia chover" é competente, é extremamente bem feito e tem um elenco exemplar. Não é nem de longe o melhor Francis Ford Coppola da história, mas é entretenimento de primeira linha e é bem capaz de empolgar os fãs do gênero.

quinta-feira

CORAÇÃO SATÂNICO


CORAÇÃO SATÂNICO (Angel heart, 1987, TriStar Pictures, 113min) Direção: Alan Parker. Roteiro: Alan Parker, romance "Falling angel", de William Hjorstberg. Fotografia: Michael Seresin. Montagem: Gerry Hambling. Música: Trevor Jones. Figurino: Aude Bronson-Howard. Direção de arte/cenários: Brian Morris/Robert J. Franco, Leslie Pope. Casting: Risa Bramon, Billy Hopkins. Produção executiva: Mario Kassar, Andrew Vajna. Produção: Elliott Kastner, Alan Marshall. Elenco: Mickey Rourke, Robert DeNiro, Lisa Bonet, Charlotte Rampling. Estreia: 06/3/87

Uma das experiências mais apavorantes do cinema dos anos 80, “Coração satânico” não é apenas um filme de terror. Filmes de terror assustam (ou não) e quando acabam são facilmente esquecíveis. Esta obra-prima do inglês Alan Parker não dá um único susto em suas mais de duas horas de duração, mas em compensação angustia, incomoda, e o que talvez seja mais importante: fica na memória por um bom tempo.

Baseado em um romance pouco conhecido de William Hjorstberg, “Coração satânico” já começa bem pela atmosfera lúgubre e escura, que perpassa todo o filme. Passada nos anos 50, a trama gira em torno de Harry Angel (Mickey Rourke, ótimo), um detetive particular que recebe a incumbência de encontrar Johnny Favorite, um músico de jazz que deve favores a seu empregador, o misterioso Louis Cypher (Robert De Niro, apavorante). Seguindo a pista de Favorite, Angel vai parar em New Orleans, onde se depara com rituais de vudu e magia negra e se envolve com a dúbia Evangeline Proudfoot (Lisa Bonet), que aparenta saber bem mais do que quer revelar. Enquanto vai se enredando cada vez mais nas investigações, o detetive acaba sendo o suspeito de inúmeros crimes que acontecem sempre que ele está por perto. Para salvar a própria pele, ele vai mais a fundo no caso e acaba descobrindo uma verdade aterradora sobre seu cliente e sobre si mesmo.


É difícil dizer o que é mais acertado em “Coração satânico”. O roteiro, escrito pelo próprio Alan Parker é intrincado e assustador na medida certa, entregando aos poucos a verdade sobre seus personagens, defendidos por atores em plena forma. Se Robert De Niro não precisa provar nada a ninguém, é Mickey Rourke quem se destaca, na atuação de sua vida - um papel oferecido a Jack Nicholson, Al Pacino e ao próprio DeNiro. O tom sombrio da fotografia devidamente úmida e escura de Michael Seresin combina à perfeição com a música perfeita de Quincy Jones, que buscou nas raízes do gospel a inspiração para seu trabalho.

Repleto de metáforas óbvias e outras nem tão óbvias assim, “Coração satânico” é um dos mais angustiantes trabalhos do cinema de suspense da história. Sujo, desagradável e sem concessões ao comercial, o filme de Parker é cinema com C maiúsculo, um exercício para se ver e rever inúmeras vezes. E ficar chocado sempre.

terça-feira

9 1/2 SEMANAS DE AMOR


9 1/2 SEMANAS DE AMOR (9 1/2 weeks, 1986, MGM Pictures, 112min) Direção: Adrian Lyne. Roteiro: Sarah Kernochan, Zalman King, Patricia Louisianna Knop, romance de Elizabeth McNeill. Fotografia: Peter Biziou. Montagem: Caroline Biggerstaff, Ed Hansen, Tom Rolf, Mark Winitsky. Música: Jack Nitzsche. Figurino: Bobbie Read. Direção de arte/cenários: Ken Davis/Christian Kelly. Casting: Nan Dutton, Vicki Huff, Mary Jo Slater, Lynn Stalmaster. Produção executiva: Keith Barish, Frank Konigsberg. Produção: Mark Damon, Sidney Kimmel, Zalman King, Antony Rufus-Isaacs. Elenco: Mickey Rourke, Kim Basinger, Margaret Whitton, David Margulies, Christine Baranski, Karen Young. Estreia: 21/02/86

Adrian Lyne é um cineasta que, a julgar por seus filmes, dispensa um bom roteiro se puder contar com um visual interessante. Exemplo disso é "9 1/2 semanas de amor", um dos filmes ícones dos anos 80, que foi um fracasso de bilheteria nos EUA, mas virou cult no resto do mundo, deflagrando o que convencionou-se chamar de “estética de videoclip”, da qual também fazem parte produtos como “Top Gun, ases indomáveis” e “Flashdance, em ritmo de embalo”, este último sintomaticamente comandado pelo mesmo Adrian Lyne.

Na verdade, o fracasso comercial do filme justifica-se plenamente pela fragilidade do roteiro, inspirado em um livro desconhecido de Elizabeth McNeill, que parte de uma premissa quase inacreditável e segue sem rumo certo por duas horas de projeção. Se não vejamos: a bela e sexy Elizabeth (homônima da autora do livro, o que de certa forma sugere um alter-ego mal disfarçado) trabalha numa galeria de arte – uma profissão “cool” - e, tirando seu ex-marido, que ela deselegantemente passa para uma colega, tem uma vida sexual bem pobrezinha. Um dia ela encontra na rua com o misterioso e charmoso John (Mickey Rourke, ainda em forma e em vias de transformar-se em promessa de astro). Depois de relutar um pouco – bem pouco, na verdade – ela acaba entregando-se em uma relação baseada em puro sexo e submissão. Aos poucos, no entanto, ela começa a temer por sua segurança física e emocional, uma vez que seu amante não lhe dá nenhum tipo de segurança fora dos domínios sexuais.


E a história resume-se a isso. Entre as – justiça seja feita – extremamente bem fotografadas e excitantes cenas de sexo, o casal não parece, em momento algum, personagens de um filme romântico e sim de um pornô light e com ambições à clássico. Kim Basinger, que não está particularmente bonita e Mickey Rourke têm uma química invejável, apesar dos boatos de que não se suportaram durante as filmagens - o ator preferia Isabella Rosselini para o papel e nunca fez questão de esconder a preferência. Também não ajudou em nada o fato de Lyne proibir os dois de se falaram fora dos sets de filmagem - se bem que, a julgar pela declaração de Basinger de que beijar Rourke causava a mesma sensação de levar um cinzeiro aos lábios nem mesmo os dois atores faziam questão de um relacionamento social...

Mas a definição de que é um filme que analisa os limites da sexualidade da mulher é balela. Nem adiantou Lyne tentar profundidades subliminares como vestir Elizabeth de roupas escuras quando encontra John, em oposição a suas roupas claras nas outras cenas. O que fica depois de uma sessão de “9 ½ semanas de amor” são as lembranças de sua adequada trilha sonora e de duas ou três cenas quentes e bem coreografadas. Não é muito para um filme que fez a cabeça de muitos casais de sua época. Mas provavelmente os fãs não estão nem aí pra isso...

CORPOS ARDENTES


CORPOS ARDENTES (Body heat, 1981, Warner Bros, 113min) Direção e roteiro: Lawrence Kasdan. Fotografia: Richard H. Kline. Montagem: Carol Littleton. Música: John Barry. Figurino: Renie Conley. Direção de arte/cenários: Bill Kenney/Rick T. Gentz. Casting: Wally Nicita. Produção: Fred T. Gallo. Elenco: William Hurt, Kathleen Turner, Richard Crenna, Mickey Rourke, Ted Danson, J.A. Preston, Kim Zimmer. Estreia: 28/8/81

No início da década de 80, antes mesmo que o termo "erotic thriller" fosse cunhado e se tornasse quase um subgênero dentro da indústria hollywoodiana, o roteirista Lawrence Kasdan (autor de, entre outros, "Os caçadores da Arca perdida") incendiou o cinema americano com "Corpos ardentes", uma releitura de um estilo caro na década de 40 mas que estava sumido das telas há um bom tempo: os filmes noir. Ao acrescentar tórridas cenas de sexo a uma trama repleta de reviravoltas, sombras, personagens amorais e uma sedutora mulher fatal, o cineasta conseguiu, em sua estreia como diretor, ressuscitar um gênero considerado morto e revelar ao mundo a então estonteante Kathleen Turner.

A trama de "Corpos ardentes" se passa em um escaldante verão na cidade litorânea de Miranda Beach, perto de Miami. É durante essa onda de calor intenso que o advogado mulherengo e pouco ético Ned Racine (William Hurt) conhece e fica fascinado pela bela Matty Walker (Kathleen Turner), uma mulher casada que o envolve facilmente com seu poder de sedução. Não demora muito e logo os dois estão vivendo um tórrido romance baseado em sexo e desejo desmedido. Quando resolvem se livrar do marido de Matty, planejam com cuidado seu assassinato. Logicamente, as coisas não saem como o esperado e Ned se vê no meio de uma perigosa trama que pode levá-lo à prisão.


"Corpos ardentes" é um filme que merece ser visto e revisto. O roteiro de Kasdan consegue equilibrar um texto com diálogos saborosos, personagens bastante interessantes (inclusive um advogado dançarino vivido pelo novato Ted Danson e um especialista em explosivos interpretado por um jovem Mickey Rourke) e viradas qye prendem o espectador na poltrona sem apelar para cartas tiradas da manga. A fotografia calorosa transmite a exata noção das altas temperaturas que empurram suas personagens ao crime e à paixão, emulando com perfeição as principais características do estilo de cinema que legou à história clássicos como "Pacto de sangue", do genial Billy Wilder.

A trilha sonora de John Barry, tonitruante e sempre presente nos momentos cruciais da trama também se destaca por nunca atrapalhar o desenvolvimento da história, por si só forte o suficiente para envolver a plateia. As personagens centrais, por sua vez, são sensacionais: Ned Racine é um advogado mau-caráter, blasé, cafajeste ao extremo e metido a don juan que acaba em uma teia que o joga em um pesadelo sem fim e Matty Walker é o sonho de qualquer atriz que saiba usar o corpo sem parecer vulgar e a voz de veludo sem soar clichê. Fria, calculista e extremamente envolvente, ela seduz não apenas Ned Racine, mas todo o público, que se deixa levar por seu belo sorriso. A cena em que William Hurt quebra uma janela apenas para beijá-la é o ápice de todo o tesão que Kasdan deseja transmitir em sua obra. À plateia resta apenas segurar a respiração.

"Corpos ardentes" é um exemplar muito digno dos chamados "erotic thrillers", lançado em uma época em que as histórias e os climas eram mais importantes do que o sexo pelo sexo. A química entre William Hurt e Kathleen Turner é das mais fascinantes e é utilizada com generosidade por Kasdan, confiante no talento e no carisma do casal. Um filme que precisa ser redescoberto.

O PREÇO DA TRAIÇÃO

  O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...