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quinta-feira

UM LUGAR NO CORAÇÃO

 


UM LUGAR NO CORAÇÃO (Places in the heart, 1984, TriStar Pictures, 111min) Direção e roteiro: Robert Benton. Fotografia: Néstor Almendros. Montagem: Carol Littleton. Música: John Kander. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Gene Callahan/Derek Hill, Lee Poll. Produção executiva: Michael Hausman. Produção: Arlene Donovan. Elenco: Sally Field, Danny Glover, John Malkovich, Ed Harris, Amy Madigan, Lindsay Crouse. Estreia: 04/10/84

07 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Robert Benton), Atriz (Sally Field), Ator Coadjuvante (John Malkovich), Atriz Coadjuvante (Lindsay Crouse), Roteiro Original, Figurino

Vencedor de 2 Oscar: Atriz (Sally Field), Roteiro Original

Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Sally Field)

Na cerimônia do Oscar que premiou os melhores filmes de 1984, uma situação atípica configurou-se na categoria de melhor atriz. Três das candidatas ao prêmio da Academia estavam na briga por papéis quase similares. Tanto Jessica Lange em "Minha terra, minha vida" quanto Sissy Spacek em "O rio do desespero" e Sally Field em "Um lugar no coração" chegaram às finais da disputa interpretando mulheres fortes e determinadas a defender sua propriedades rurais. Field levava vantagem - estava indicada por uma produção que também concorria a estatuetas de filme, direção e roteiro - e acabou saindo vitoriosa pela segunda vez na carreira, mas a a coincidência temática acusava mais do que simples falta de originalidade: no meio da década de 1980, uma espécie de ciclo de filmes situados nos anos pós-Depressão parecia servir como uma luva ao conservadorismo do governo Reagan, então em seu primeiro mandato como presidente. Ao voltar os olhos para o passado, os grandes estúdios de Hollywood recontavam uma parte da história que ninguém desejava repetir - e de quebra davam a cineastas e atores grandes oportunidades dramáticas e artísticas. Tudo bem que "Um lugar no coração" não levou o Oscar de melhor filme, mas sua premiação na categoria de roteiro original - contra três comédias - é sinal inequívoco de que até mesmo a Academia se deixou levar por tal sentimento de melancolia e superação.

Não que o filme de Robert Benton - voltando ao Oscar cinco anos depois do triunfo de seu "Kramer vs Kramer" (1979) - careça de qualidades que justificam seu sucesso junto à crítica. Com uma protagonista com ecos de Scarlett O'Hara e um tom triunfalista capaz de emocionar aos espectadores mais sensíveis, "Um lugar no coração" é um filme à moda antiga, com personagens complexos, uma trama simples mas eficiente e a felicidade de driblar o sentimentalismo e os clichês - quando estes aparecem servem como combustível para a história e não como uma muleta narrativa. Amparado por uma atuação caprichada de Sally Field - que também saiu vitoriosa no Golden Globe - e um elenco coadjuvante brilhante que inclui um jovem John Malkovich e Danny Glover em um de seus primeiros papéis importantes, a produção de Benton conquista desde as primeiras cenas, graças a um roteiro redondo que permite à plateia que se envolva com os dramas de seus personagens - mesmo contando uma história norte-americana em sua raiz mais profunda, é inegável que os sentimentos que inspiram são universais.

 

A protagonista de "Um lugar no coração" é Edna Spalding. Dona de casa, esposa e mãe dedicada de dois filhos pequenos, ela vive em uma pequena fazenda localizada em Waxahachie, Texas, no começo dos anos 1930. Sua vida pacata e sem sobressaltos - apesar do constante perigo que cerca seu marido xerife - sofre uma triste reviravolta quando um acidente a deixa inesperadamente viúva. Cheia de dívidas e sem experiência de trabalho braçal, Edna se recusa a capitular e vender sua propriedade - o que resultaria também em uma separação da família. Dotada de extrema força de vontade e garra, ela resolve então trabalhar exaustivamente para transformar suas terras em uma fazenda de algodão, contando, para isso, com a ajuda de Moses (Danny Glover) - um homem negro que aparece no local pedindo esmola - e Will Denby (John Malkovich), um rapaz cego que aluga um quarto em sua casa. Correndo contra o tempo e as dificuldades da economia frágil da época, a voluntariosa Edna ainda precisa escapar das ameaças da Klu Klux Klan, que não vê com bons olhos sua amizade com Moses.

Cuidadoso na reconstituição de época e no trabalho de direção de seus atores, Robert Benton faz um gol e tanto em "Um lugar no coração". Ao construir um roteiro que trata com carinho tanto seus protagonistas como seus coadjuvantes, o cineasta oferece ao espectador uma viagem ao passado, evocada diretamente de suas próprias lembranças. Nascido na mesma Waxahachie de seus protagonistas, Benton faz das recordações da sua infância a matéria-prima de sua história, ainda que ela seja completamente fictícia. O tom nostálgico que perpassa cada sequência - valorizado pela música de John Kander e a bela fotografia do veterano Néstor Almendros - é responsável direto pelo sucesso de sua narrativa, que foge dos exageros mesmo quando faz de sua personagem central uma mulher quase sem defeitos. Ao dotar Edna Spalding de um caráter firme e brios de guerreira, o diretor parece dizer que não lhe interessa mostrar o que ela tem de errado, e sim sublinhar sua força e dignidade. Saindo dos anos 1970, uma época em que anti-heróis dominavam a indústria, o cinema norte-americano dava sinais de que pretendia voltar a valores mais sólidos e menos cínicos. Dentro dessa premissa, "Um lugar no coração" é exemplar - e de quebra emociona sem fazer muito esforço.

segunda-feira

SEGREDOS DE UMA NOVELA


SEGREDOS DE UMA NOVELA (Soapdish, 1991, Paramount Pictures, 97min) Direção: Michael Hoffman. Roteiro: Robert Harling, estória de Robert Harling, Andrew Bergman. Fotografia: Ueli Steiger. Montagem: Garth Craven. Música: Alan Silvestri. Figurino: Nolan Miller. Direção de arte/cenários: Eugenio Zanetti/Lee Poli. Produção executiva: Herert Ross. Produção: Alan Greisman, Aaron Spelling. Elenco: Sally Field, Kevin Kline, Whoopi Goldberg, Elisabeth Shue, Robert Downey Jr,, Cathy Moriarty, Gary Marshall, Teri Hatcher, Kathy Namiji. Estreia: 31/5/91

Ao contrário do que acontece no Brasil, onde gozam de relativo prestígio junto ao público e à crítica, as telenovelas produzidas nos EUA não são exatamente um veículo nobre para atores. Normalmente apresentadas no horário vespertino, as novelas norte-americanas (ao contrário das séries, hoje alçadas a filé mignon das emissoras) frequentemente apelam para tramas rocambolescas e inverossímeis, anos e mais anos de duração e um tom que raramente escapa do dramalhão mais cafona. A julgar pela comédia "Segredos de uma novela", seus bastidores também não são nada tranquilos: exageros cômicos à parte, o filme de Michael Hoffman - que posteriormente assinaria o romântico "Um dia especial" (1996), o shakespereano "Sonho de uma noite de verão" (1999) e o subestimado "A última estação" (2009) - retrata o dia-a-dia da produção de uma dessas novelas tão populares quanto inacreditáveis de forma ao mesmo tempo debochada e carinhosa. Co-produzido por Aaron Spelling - ele mesmo vindo do mundo da televisão, onde produziu sucessos como "As panteras" e  "Barrados no baile" - e estrelado por um elenco de sonhos, "Segredos de uma novela" diverte enquanto dura, mas, assim como os produtos que critica, é provável que desapareça da memória do espectador tão logo acabe sua sessão.

Longe de querer ser a obra definitiva sobre o assunto - soa bem mais como uma descompromissada sessão da tarde do que um tratado a respeito de teledramaturgia popular -, o filme de Hoffman brinca com as percepções do público a respeito de astros, estrelas, roteiristas e produtores sem preocupar-se com a fidelidade absoluta - e acerta em cheio ao utilizar-se de metalinguagem como forma de enfatizar  os absurdos que circundam a criação de uma obra aberta. Ao criticar as reviravoltas que abundam nas produções televisivas, o roteiro também faz uso delas para efeito histriônico: na trama criada pelo dramaturgo Robert Harling e desenvolvida por ele e Andrew Bergman, há espaço para romances interrompidos, maternidades escondidas, traições e sexualidades duvidosas - tudo revelado ao vivo, diante de um público ávido por ser surpreendido a cada capítulo.

A protagonista do filme é Celeste Talbert (Sally Field,  estrela absoluta da telenovela "The sun also sets", no ar há anos com espantosos índices de audiência e prêmios acumulados pela crítica. Idolatrada pelos fãs, Talbert parece estar entrando em seu inferno astral: abandonada pelo marido, ela ainda precisa lidar com a velada perseguição do jovem produtor David Barnes (Robert Downey Jr.), que seduzido pela promessa de uma noite de amor com a ambiciosa Montana Moorehead (Cathy Moriarty), procura um jeito de aumentar seu papel na novela mesmo ameaçando sua coerência interna. Protegida pela roteirista principal, Rose Schwartz (Whoopi Goldberg), Talbert tenta não se deixar abater pela crise, mas vê as coisas se complicarem ainda mais quando, para seu desespero, seu antigo amante, Jeffrey Anderson (Kevin Kline), volta à cena como seu novo par romântico, o que traz à luz um passado traumático e um segredo que pode abalar sua popularidade. Não bastasse tudo isso, ela começa a sentir o peso da idade, principalmente quando sua sobrinha, Lori Craven (Elisabeth Shue), passa a disputar com ela, involuntariamente, o posto de atriz preferida pelas plateias, e ilustrar capas de revistas.

Criada por Robert Harling durante os bastidores das filmagens de "Flores de aço" - baseado em uma peça de sua autoria, e estrelado por Sally Field em 1989 -, a trama de "Segredos de uma novela" foi desenvolvida pelo próprio Harling e pelo roteirista/cineasta Andrew Bergman, que poucos anos depois cometeria o infame "Striptease" (1996), com Demi Moore. Brincando com os excessos dramáticos atrelados às produções televisivas (onde parece não haver limites para a falta de verossimilhança), eles não hesitam em forçar situações que, por um lado refletem o tom do gênero, e por outro fazem rir desse mesmo tom. Field, ela mesma um ícone da televisão norte-americana dos anos 1960, com "A noviça voadora" e figurinha fácil nas telinhas nas últimas décadas, com participações em "Plantão médico" e papel central em "Brothers and sisters", está precisa em seu timing cômico, e encontra em Kevin Kline o parceiro ideal: seu Jeffrey Anderson é o retrato perfeito do ator de teatro respeitado (mas sem sucesso popular) que encontra na teledramaturgia barata a forma de sobreviver de sua arte. A presença de Kline, um dos grandes e mais subestimados atores de Hollywood, não apenas valoriza o filme de Hoffman, mas acrescenta sabor aos bastidores em si - não fosse ele a interpretar Anderson o papel poderia ter ficado com Burt Reynolds, que, por coincidência ou não, é ex-namorado da própria Sally Field. Uma ironia que seria bem-vinda ao propósito da produção - mas que não aconteceu por receio do próprio Reynolds.

A energia caótica de "Segredos de uma novela" é um trunfo: reuniões de diretoria - com ideias absurdas jorrando de mentes mais interessadas em índices de audiência do que integridade artística -, intrigas rocambolescas, ressentimentos pouco disfarçados e a fogueira das vaidades queimando tudo à sua volta fazem da produção um entretenimento cujo teor narcisista é facilmente perdoável. Mesmo que o roteiro por vezes exagere na superficialidade - o que talvez seja uma crítica a mais à indústria - e não permita que parte do elenco tenha seu potencial explorado a contento - caso de Robert Downey Jr., Elisabeth Shue e até mesmo Whoopi Goldberg -, o saldo final é no mínimo agradável. Rindo do que acontece por trás das câmeras de um programa de televisão, o filme acaba, de certa forma, homenageando sua capacidade de reinvenção e perenidade junto ao público. A sensação de assistí-lo é, de certa forma, a mesma de tomar um café da tarde junto a seus personagens mais queridos - e suas idiossincrasias mais extraordinárias.

quarta-feira

AUSÊNCIA DE MALÍCIA

AUSÊNCIA DE MALÍCIA (Absence of malice, 1981, Columbia Pictures, 116min) Direção: Sydney Pollack. Roteiro: Kurt Luedtke. Fotografia: Owen Roizman. Montagem: Sheldon Kahn. Música: Dave Grusin. Figurino: Bernie Pollack. Direção de arte/cenários: Terence Marsh/John Franco Jr.. Produção executiva: Ronald L. Schwary. Produção: Sydney Pollack. Elenco: Paul Newman, Sally Field, Bob Balaban, Melinda Dillon, Luther Adler. Estreia: 15/11/81

3 indicações ao Oscar: Ator (Paul Newman), Atriz Coadjuvante (Melinda Dillon), Roteiro Original

Um belo dia, o repórter Kurt Luedtke, editor-executivo do The Detroit Free Press, percebeu que já tinha experiência o suficiente dentro do universo do jornalismo para escrever um roteiro sobre o assunto. Pediu demissão, mudou-se para Los Angeles e, inspirado pela história real de um colega do Washington Post que havia sido obrigado a devolver um Pulitzer quando foi descoberto que sua história era inventada, criou a trama de "Ausência de malícia" - que discutia os problemas inerentes à liberdade de expressão. Apresentando um tema contundente na democracia dos EUA - que poucos anos antes havia testemunhado a queda de um presidente graças à denúncias de uma dupla de jornalistas -, o roteiro de Luedtke logo interessou ao cineasta George Roy Hill - vencedor do Oscar por "Golpe de mestre" (73). Apesar do interesse, no entanto, Hill não se manteve à frente do projeto por muito tempo, mas teve um substituto à altura. Já no comando da produção, o consagrado Sydney Pollack mostrou que não tinha medo da potencial controvérsia a respeito do tema central do filme e escalou para os papéis centrais uma dupla de grandes astros, Al Pacino e Diane Keaton (ambos do elenco de "O poderoso chefão"). A saída de Pacino - e posteriormente de Keaton - não abalou o cineasta, que ofereceu então os papéis ao prestigiado Paul Newman e a recém oscarizada Sally Field. Surgia então um filme que encantaria boa parte da crítica, renderia mais de 40 milhões de dólares nas bilheterias e chegaria à lista de indicados ao Oscar em três importantes categorias.

Corajosamente indo em direção contrária ao bem sucedido "Todos os homens do presidente" (76), que narrava a investigação do Washington Post que revelou o escândalo de Watergate e levou à renúncia de Richard Nixon, Sydney Pollack mostra, em "Ausência de malícia", um outro lado do jornalismo investigativo, questionando os limites da liberdade de expressão. Se no premiado filme de Alan J. Pakula os repórteres vividos por Dustin Hoffman e Robert Redford eram o protótipo do heroísmo e da coragem, na obra de Pakula o outro lado do universo jornalístico é mostrado através de Megan Carter (Sally Field), uma repórter ambiciosa mas um tanto ingênua que é pega em uma armadilha criada pelas raposas do FBI: por sua causa, o nome de Mike Gallagher (Paul Newman) é ligado à investigação de um homicídio, apesar de seu álibi e de suas contundentes negativas. Filho de um conhecido mafioso recentemente morto, Gallagher passa a ter sua vida devassada pelos jornais e seu negócio como comerciante de bebidas em Miami prejudicado. Em busca da verdade - e para consertar seu possível erro de julgamento -, Megan começa a investigar os detalhes de sua própria notícia e esbarra em Teresa (Melinda Dillon), uma velha amiga de Mike, que pode ser a chave de todo o interesse do empresário em proteger sua privacidade.


Contando com uma atuação exemplar de Paul Newman, que injeta um misto de elegância e mistério a um personagem cujas reais intenções e motivações só vão sendo relevadas aos poucos, "Ausência de malícia" apresenta um ritmo que o aproxima mais das cerebrais produções policiais dos anos 70 do que dos filmes mais ágeis da década seguinte. Dirigido com segurança e sem espaço para piadas fora de hora, o filme de Pollack só força um pouco a barra quando o roteiro insiste em um romance pouco convincente entre sua dupla de protagonistas: por mais que seja irresistível acrescentar uma dose de
leveza à trama, a história de amor entre Megan e Mike soa deslocada e desnecessária - principalmente porque interrompe o fluxo da narrativa mais importante e atraente. Isso não impediu, porém, que o roteiro de Luedtke fosse candidato ao Oscar da categoria - que perdeu para "Carruagens de fogo", o papa-Oscar surpresa da temporada. Newman também concorreu à estatueta, assim como a coadjuvante Melinda Dillon, mas ambos também foram derrotados - ele pelo veterano Henry Fonda ("Num lago dourado") e ela por Maureen Stapleton ("Reds"). Apenas Sally Field ficou de fora das indicações - e por ironia, a primeira escolha para seu papel, Diane Keaton, chegou às cinco finalistas da categoria de melhor atriz, por "Reds".

Longe de ser um clássico da estatura de "Todos os homens do presidente" ou outros filmes que se utilizam dos bastidores do jornalismo para fazer uma crônica d sua época, "Ausência de malícia" é um filme apenas correto, valorizado por seus atores e pela direção contida de Sydney Pollack. Discute um tema relevante, mas lhe falta paixão e até mesmo uma química mais potente entre Newman e Sally Field, dois atores excelentes mas que nem sempre conseguem o essencial: despertar a simpatia da plateia. Essa falha acaba por atrapalhar o resultado final, apesar do capricho das atuações e da discussão que levanta. Um bom filme, mas muito aquém de outras obras bem melhores de Pollack.

terça-feira

OLHO POR OLHO

OLHO POR OLHO (Eye for an eye, 1996, Paramount Pictures, 104min) Direção: John Schlesinger. Roteiro: Amanda Silver, Rick Jaffa, romance de Erika Holzer. Fotografia: Amir Mokri. Montagem: Peter Honess. Música: James Newton Howard. Figurino: Bobbie Read. Direção de arte/cenários: Stephen Hendrickson/Jan K. Bergstrom. Produção: Michael I. Levi. Elenco: Sally Field, Ed Harris, Kiefer Sutherland, Joe Mantegna, Philip Baker Hall, Keith David, Beverly D'Angelo, Charlayne Woodard. Estreia: 12/01/96

Desde que Charles Bronson vingou a morte da família no cultuado "Desejo de matar", de 1972, a justiça pelas próprias mãos tornou-se um assunto recorrente no cinema americano, mas normalmente como tema de filmes de orçamento limitado, com atores do segundo time e diretores pouco afeitos a objetivos outros que não lucrar com o desejo ilimitado da plateia em saborear o sangue marginal de vilões cruéis e dotados de todo o maniqueísmo de que um roteirista é capaz. Por isso não deixa de ser surpreendente ver uma atriz do nível de Sally Field e um diretor como John Schlesinger - ambos respeitados e vencedores do Oscar - envolvidos em "Olho por olho", um drama de suspense que, no fundo e apesar de contar com nomes de prestígio nos créditos, não passa de uma versão menos trash das dezenas de filmes do estilo. O fato de ser baseado em um livro não impede o roteiro de tropeçar em todos os clichês possíveis e só mesmo a presença da sempre carismática Sally Field impede a produção de soar como mais um telefilme barato.

Dirigido no piloto automático por John Schlesinger - que no passado comandou o clássico moderno "Perdidos na noite" (69) - "Olho por olho" peca principalmente por não acrescentar nada ao que já é quase um subgênero do cinema norte-americano. Seu filme não é um drama marcante, nem tampouco um suspense aterrorizante. Não desperta discussões a respeito de seu tema ou permanece na mente do espectador após o final da sessão. E é justamente essa falta de ousadia ou personalidade que joga no lixo todas as possibilidades da história, já não tão original. Karen McCann (Sally Field, boa atriz mas desperdiçada em um papel sem grandes nuances) leva uma vida pacata e feliz ao lado do marido, Mack (Ed Harris) e das duas filhas, Julie (Olivia Burnette) - do seu primeiro casamento - e Megan (Alexandra Kyle). Essa vida normal sofre um violento baque quanto Julie é estuprada e morta em casa, praticamente diante dos olhos de sua mãe, que ouve tudo pelo celular. A dor da perda logo é amenizada quando a polícia prende o criminoso, Robert Doob (Kiefer Sutherland, exercitando mais uma vez seu lado maligno), mas tudo vai por terra quando ele é absolvido por questões técnicas. Revoltada, Karen entra em um grupo de ajuda a pais na mesma situação e, escondida do marido, resolve vingar-se por conta própria do assassino.


Contando com a ajuda de dois colegas do grupo, Karen arruma uma arma, entra em aulas de defesa pessoal e tiro, enquanto inicia uma relação de confiança e amizade com outra integrante, Angel (Charlayne Woodard), que perdeu um filho pequeno em um assalto. Quando Doob passa a desconfiar das ideias de Karen - que ronda sua vizinhança como forma de planejar sua morte - as coisas ficam ainda piores: sentindo que o marginal também não hesitará em atacar a pequena Megan como represália, ela abre mão dos conselhos do marido e do bom-senso para vingar-se em grande estilo. Nem mesmo uma surpresa na sua relação com Angel a demove da ideia, que toma forma definitiva quando ela manda a família passar uma noite fora da casa onde vivem.

Sem grandes surpresas que justifiquem sua realização - o desfecho é anti-climático e a forma encontrada por Karen de sair da história de mãos limpas não chega a ser exatamente original - "Olho por olho" é o tipico filme que vale exclusivamente por seu elenco, repleto de talentos isolados que valorizam o produto final. Sally Field substituiu Jamie Lee Curtis e não precisa provar seu talento dramático no mínimo desde seu primeiro Oscar, por "Norma Rae" (79) e, apesar de ser subaproveitado como o marido da protagonista - que faz pouco mais do que ficar a seu lado durante seus momentos de crise emocional - Ed Harris segura com competência o nível de interpretação de Field, e Kiefer Sutherland mostra mais uma vez porque era um dos vilões preferidos de Hollywood antes de virar o herói Jack Bauer na série televisiva "24 horas". É o trabalho dos três que faz de um filme apenas médio uma sessão razoavelmente interessante.

sábado

UMA BABÁ QUASE PERFEITA

UMA BABÁ QUASE PERFEITA (Mrs. Doubtfire, 1993, 20th Century Fox, 125min) Direção: Chris Columbus. Roteiro: Randi Mayem Singer, Leslie Dixon, romance "Alias Madame Doubtfire", de Anne Fine. Fotografia: Donald McAlpine. Montagem: Raja Gosnell. Música: Howard Shore. Figurino: Marit Allen. Direção de arte/cenários: Angelo Graham/Garrett Lewis. Produção executiva: Matthew Rushton. Produção: Mark Radcliffe, Robin Williams. Elenco: Robin Williams, Sally Field, Pierce Brosnan, Harvey Fierstein, Lisa Jakub, Matthew Lawrence, Mara Wilson, Robert Prosky. Estreia: 24/11/93

Vencedor do Oscar de Melhor Maquiagem
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme Comédia/Musical, Melhor Ator Comédia/Musical (Robin Williams) 

Em 1992, o ator Robin Williams foi do céu ao inferno em termos de bilheteria: enquanto a anti-belicista comédia "Toys, a revolta dos brinquedos", de Barry Levinson não despertou o interesse de ninguém da plateia e saiu de cartaz como se nunca tivesse existido, a animação "Aladim" se tornou um dos maiores sucessos comerciais do ano e lhe rendeu um Golden Globe especial pela dublagem do gênio da lâmpada, uma dos maiores (senão a maior) qualidade da produção. Esse seu talento para a improvisação e para o humor escrachado já havia sido o maior responsável por sua primeira indicação ao Oscar, em 1987, por "Bom dia, Vietnã", do mesmo Levinson, mas parecia ter sumido em seus trabalhos seguintes no cinema, onde explorou (muito bem) seu lado de ator dramático. Indicado outras duas vezes ao Oscar de melhor ator - pelo inesquecível "Sociedade dos poetas mortos" (90) e pelo lúdico "O pescador de ilusões" (91) - Williams devia a seu público uma comédia que lhe devolvesse o status de humorista que havia conquistado nos palcos americanos. Foi então que ele apareceu com "Uma babá quase perfeita", um filme pequeno (25 milhões de dólares de orçamento) que acabou sua carreira nos cinemas americanos com mais de 200 milhões arrecadados e dois Golden Globes na prateleira: melhor comédia e melhor ator em comédia/musical.

Dirigido por Chris Columbus - um especialista em filmes para a família que tinha entre seus êxitos o mastodôntico sucesso "Esqueceram de mim" (90) - "Uma babá quase perfeita" tem como objetivo puro e único o entretenimento, sem ambições outras que não fazer a plateia rir do começo ao fim. Com Williams em cena, isso não é nada difícil. Dotado de um histrionismo nato e um timing cômico impecável, ele deita e rola na pele de Daniel Hillard, um ator desempregado que passa pelo pior período de sua vida: não apenas ele está sem trabalhar no que ama (e é obrigado a um serviço pouco empolgante nos bastidores de uma emissora de TV local) como acaba de se divorciar da esposa, Miranda (Sally Field), uma bem-sucedida arquiteta que cansou-se sua pretensa irresponsabilidade. Inconformado com a determinação judicial que lhe permite ver seus três filhos apenas uma vez por semana, Daniel tem uma ideia maquiavélica: sabendo que Miranda está à procura de uma governanta que fique com as crianças no período pós-escola, ele cria, com a ajuda de seu irmão maquiador e seu talento para a atuação, a babá perfeita: Mrs. Doubtfire, uma inglesa sessentona, de modos rígidos e dona de um currículo invejável. Obviamente Miranda cai de amores pela nova empregada - e Daniel aproveita a situação para colocar areia no novo interesse romântico da ex-mulher, o antigo namorado Stuart (Pierce Brosnan).


Desvencilhando-se facilmente do estigma de ser um filme de uma piada só, "Uma babá quase perfeita" consegue, ao mesmo tempo, ser uma comédia pastelão da melhor estirpe - com Williams vendo seus seios de mentira pegando fogo, sua máscara voando pela janela e sua dentadura caindo dentro de um copo de vinho no meio de um jantar - e um sofisticado manancial de citações culturais contemporâneas vindas da metralhadora giratória que é o ator - são lembrados, visual ou verbalmente, Barbra Streisand, "Psicose", "Crepúsculo dos deuses" e "Dança com lobos", entre outros. Essa mescla de humor popular com a sutileza da comédia referencial talvez tenha sido, ao lado do talento de seu protagonista, o responsável pelo filme ter agradado tanto e à tanta gente. É difícil escapar das risadas em "Uma babá quase perfeita", seja das palhaçadas visuais criadas por Columbus e Williams ou pelo crescendo de situações embaraçosas que o roteiro vai criando crescentemente até o clímax - engraçadíssimo - em um restaurante sofisticado, onde Daniel (e Mrs. Doubtfire) estão presentes ao mesmo tempo. Só vendo para entender.

Contando ainda com a simpatia natural de Sally Field como Miranda Hillard e o futuro 007 Pierce Brosnan como o rival do protagonista - além de uma maquiagem extraordinária que levou o Oscar da categoria - "Uma babá quase perfeita" ainda arruma espaço para a emoção: dificilmente filhos de pais separados conseguem segurar as lágrimas em seus momentos finais, repletos de uma sinceridade ímpar que conquistaram milhares de espectadores pelo mundo. Uma feliz reunião de ingenuidade, bom humor e o talento único de Robin Williams em fazer rir e chorar, é um filme sem contra-indicações, capaz de agradar aos pais, aos filhos e aos mau-humorados de plantão. Um triunfo do humor.

quinta-feira

NORMA RAE

NORMA RAE (Norma Rae, 1979, 20th Century Fox, 110min) Direção: Martin Ritt. Roteiro: Irving Ravetch, Harriet Frank Jr.. Fotografia: John A. Alonzo. Montagem: Sidney Levin. Música: David Shire. Direção de arte/cenários: Walter Scott Herndon/Tracy Bousman. Produção: Tamara Asseyev, Alex Rose. Elenco: Sally Field, Beau Bridges, Ron Leibman, Pat Hingle, Grace Zabriskie. Estreia: 02/3/79

4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz (Sally Field), Roteiro Adaptado, Canção ("It goes like it goes")
Vencedor de 2 Oscar: Atriz (Sally Field), Canção ("It goes like it goes")
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Sally Field) 
Vencedor da Palma de Ouro de Melhor Atriz (Sally Field) - Festival de Cannes

Vinte anos antes de Erin Brockovich, outra mulher valente do interior dos EUA mostrou seu valor nas telas de cinema. Assim como a personagem que deu o Oscar de melhor atriz à Julia Roberts em 2001, Norma Rae, uma trabalhadora da indústria têxtil do Alabama que tornou-se peça fundamental na consolidação do sindicato profissional de sua área no início dos anos 70, é uma personagem real. Melhor dizendo, quase real. Inspirado na vida de Crystal Lee Sutton, que morava na Carolina do Norte, o filme de Martin Ritt sobre a descoberta de uma mulher de sua força interior e de sua coragem contra a opressão no mercado de trabalho rendeu à Sally Field - até então uma atriz de televisão sem maiores créditos no cinema - a Palma de Ouro de melhor atriz em Cannes e posteriormente, tornou-a a atriz mais premiada do ano, com reconhecimento de todas as associações críticas dos EUA, o Golden Globe e finalmente o Oscar. Seu desempenho, que equilibrava com inteligência força e fragilidade, provou que ali estava bem mais que a antiga Noviça Voadora - e que herdar um papel recusado por Jane Fonda e Jill Clayburgh não poderia ter sido sorte maior.

Até mesmo Shirley MacLaine estava de olho no papel de Norma Rae, uma mulher comum que vive no sul dos EUA com os pais e os dois filhos - um de cada pai. Amante de um homem casado e eternamente infeliz em suas escolhas amorosas, ela leva uma vida banal, sem maiores acontecimentos, trabalhando na fábrica têxtil de sua cidadezinha do Alabama - a mesma fábrica que também emprega seus pais e grande parte dos habitantes. Tudo começa a mudar quando ela conhece Reuben Warshowsky (Ron Leibman), nova-iorquino que chega ao interior com a intenção de organizar um sindicato para os trabalhadores da fábrica. Logo Reuben percebe que a coisa não será fácil, uma vez que, mesmo sendo constantemente explorados por seus patrões, os funcionários tem medo de confrontá-los. Somado ao racismo inerente à região, o medo de todos faz com que Norma - que sente algo mais do que simples simpatia pelo forasteiro - resolva assumir a liderança de seus colegas. Em pouco tempo, a união começa a crescer e ela vê que sua dedicação pode lhe arrumar problemas. Tanto em casa com o novo marido, Sonny (Beau Bridges), quanto com todos aqueles que ela desafia com suas ideias revolucionárias.


Sally Field foi a escolha perfeita para viver a destemida Norma Rae. Carismática e dona de um sorriso contagiante, com o filme de Martin Ritt ela deu os primeiros passos de uma vitoriosa carreira no cinema - que lhe rendeu inclusive uma segunda estatueta da Academia, por "Um lugar no coração", em 1984. Seu trabalho foge do exagero, preferindo um viés mais intimista às reações de sua personagem, mesmo quando tragédias pessoais interferem em sua trajetória rumo à conscientização social. Também é preciso dar valor ao roteiro de Irving Ravetch e Harriet Frank Jr., também indicado ao Oscar: sem assumir um tom panfletário, ele oferece a Field a chance de brilhar tanto em cenas domésticas (quando ela conversa francamente com os filhos depois de sua prisão) quanto em momentos de maior emoção (a clássica sequência em que ela conclama seus colegas a interromper as máquinas em pleno horário de expediente). Sintomaticamente, essas duas cenas realmente aconteceram na vida de Crystal Lee Sutton, não foram invenção dos roteiristas.

Aliás, Lee Sutton não ficou exatamente satisfeita com o resultado final do filme de Martin Ritt, uma vez que preferia que sua história fosse contada em um documentário. É inegável, no entanto, que, sob os auspícios de Hollywood, com uma atriz conhecida do grande público e com os inúmeros prêmios arrecadados em seu caminho, sua trajetória atingiu e inspirou muito mais gente. Ela pode ter não gostado, mas muita gente gostou e ainda gosta da história da corajosa Norma Rae Webster.

domingo

FORREST GUMP, O CONTADOR DE HISTÓRIAS

FORREST GUMP, O CONTADOR DE HISTÓRIAS (Forrest Gump, 1994, Paramount Pictures, 142min) Direção: Robert Zemeckis. Roteiro: Eric Roth, romance de Winston Groom. Fotografia: Don Burgess. Montagem: Arthur Scmidt. Música: Alan Silvestri. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Rick Carter/Nancy Haigh. Produção: Wendy Finerman, Steve Starskey, Steve Tisch. Elenco: Tom Hanks, Sally Field, Robin Wright, Gary Sinise, Mykelty Williamson, Haley Joel Osment. Estreia: 06/7/94. Bilheteria nos EUA: U$ 329.691.196

13 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Robert Zemeckis), Ator (Tom Hanks), Ator Coadjuvante (Gary Sinise), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Direção de Arte/Cenários, Efeitos Visuais, Som, Efeitos Sonoros, Maquiagem
Vencedor de 6Oscar: Melhor Filme, Diretor (Robert Zemeckis), Ator (Tom Hanks), Roteiro Adaptado, Montagem, Efeitos Visuais
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (Robert Zemeckis), Ator/Drama (Tom Hanks)

É engraçado como alguns filmes conseguem um diálogo imediato com a plateia, mesmo que aparentemente nada tenham a ver com ela. Talvez seja culpa do cinismo que assolava o cinema americano dos anos 90, talvez seja porque o público estava precisando de uma espécie de super-herói humano, mas o fato é que "Forrest Gump, o contador de histórias", de Robert Zemeckis simplesmente superou toda e qualquer expectativa de seu estúdio (a Paramount Pictures) e, com uma renda superior a 300 milhões de dólares somente no mercado americano, tornou-se parte do inconsciente coletivo não apenas de uma nação, mas do mundo todo. Com sua mistura perfeita entre comédia, drama e efeitos visuais impecáveis, a adaptação do romance de Winston Groom foi o grande vencedor do Oscar de 1994 em seis categorias - incluindo as principais: filme, diretor e ator (o segundo consecutivo de Tom Hanks). O melhor de tudo é que mereceu o sucesso todo.

"Forrest Gump" é um filme difícil de resumir. O protagonista - vivido magistralmente por Hanks - é um rapaz de QI abaixo da média que, desde a infância traumática (abandonado pelo pai, com problemas nas pernas) contou com a superproteção da mãe (interpretada com gosto por Sally Field, apenas dez anos mais velha do que Hanks na vida real). Graças a ela, Gump estudou em uma escola para crianças normais, onde conheceu e se apaixonou à primeira vista pela doce Jenny (interpretada por Robin Wright na idade adulta). Sem dar importância a suas limitações, o rapaz entra na universidade devido a seu dom como esportista, volta da guerra do Vietnã condecorado (depois de salvar a vida de quase todo o seu pelotão), inicia um bem-sucedido negócio no ramo da pesca de camarão, torna-se ídolo do ping-pong e estampa capas de revistas depois que resolve correr país afora. Nesse ínterim, conhece três presidentes americanos, é testemunha do caso Watergate, trava conhecimento com Elvis Presley e John Lennon e em momento algum esquece ou desiste de proteger a mulher por quem é loucamente apaixonado.

Forrest Gump, o protagonista, é uma das mais carismáticas personagens da história do cinema americano. Ingênuo, simples e amoroso, Gump é uma espécie de alter-ego lúdico de qualquer pessoa da plateia. Homens ou mulheres, adultos ou crianças, todos se envolvem positivamente com sua trajetória: ele não deseja ser herói ou ídolo, ele simplesmente o é, por acaso puro e simples. Presente sempre no lugar certo e no momento exato, Forrest Gump é testemunha ocular da história americana e o fato de não ser nada além de um "caipira" do Alabama faz com que o público se identifique com ele de forma incondicional. Ao contrário do protagonista de "Rain Man", por exemplo, ele não é genial com números ou irritantemente metódico: ele é um homem com inteligência abaixo da média mas com um coração imenso e fiel.



Metódico somente o trabalho de Tom Hanks: em uma atuação consagradora, o único ator a conseguir o feito de arrebatar 2 Oscar consecutivos (o outro foi Spencer Tracy) construiu um Forrest Gump exemplar. Somente seu meticuloso trabalho vocal e corporal já lhe justificaria a estatueta, mas além disso, ele consegue humanizar sua personagem sem nunca escorregar na tentação de transformá-la em uma aberração simpática. Na interpretação de Hanks, Gump é um ser humano e não uma personagem inverossímil e, para isso, ele conta com um elenco coadjuvante de peso. Além de Field - já acostumada a conquistar o público sem muito esforço - a bela Robin Wright e o experiente Gary Sinise não ficam atrás em matéria de intensidade. Wright - na época mais conhecida por ser namorada de Sean Penn - alcança o equilíbrio perfeito entre as insanidades e a melancolia de sua Jenny, uma jovem marcada por uma infância violenta e uma vida adulta sofrida e inconstante. E Sinise - indicado ao Oscar de coadjuvante - vive um Tenente Dan Taylor excepcional (e para isso também conta a perfeição dos efeitos visuais que lhe arrancam as pernas na maior parte do filme).

Os efeitos visuais, aliás, merecem um capítulo à parte: ao misturar com extrema perfeição cenas do filme com imagens de arquivo, Robert Zemeckis atingiu um nível de excelência que é capaz de assombrar mesmo depois de quase 17 anos. Sem deixar que o aspecto técnico sobressaísse em relação ao nível emocional da trama - por si só empolgante o suficiente - o cineasta provou que, mais do que um diretor conectado aos avanços dos efeitos visuais, ele é acima de tudo um real artista, cuja principal preocupação é contar uma boa história. E uma boa história não é o que falta a "Forrest Gump".

O roteiro excepcional de Eric Roth - também vencedor do Oscar - é um primor de inteligência, bom-humor e ritmo. Em nenhum momento "Forrest Gump" é previsível ou carece de ritmo. Equilibra piadas irônicas com cenas de partir o coração. Alterna uma música original belíssima de Alan Silvestri com uma seleção de canções dos anos 60 de encantar os ouvidos. Mas, acima de tudo, jamais subestima a inteligência e a sensibilidade do espectador. Um clássico instantâneo e um dos filmes mais importantes da história do cinema!

FLORES DE AÇO

FLORES DE AÇO (Steel magnolias, 1989, Columbia Pictures, 117min) Direção: Herbert Ross. Roteiro: Robert Harling, peça teatral de sua autoria. Fotografia: John A. Alonzo. Montagem: Paul Hirsch. Música: Georges Delerue. Figurino: Julie Weiss. Direção de arte/cenários: Gene Callahan, Edward Pisoni/Garrett Lewis, Lee Poll. Casting: Hank McCann. Produção executiva: Victoria White. Produção: Ray Stark. Elenco: Sally Field, Dolly Parton, Julia Roberts, Daryl Hannah, Shirley MacLaine, Olympia Dukakis, Tom Skerrit, Dylan McDermot, Sam Shepard. Estreia: 15/11/89

Indicado ao Oscar de Atriz Coadjuvante (Julia Roberts)
Golden Globe de Melhor Atriz Coadjuvante (Julia Roberts) 

Em 1977, o cineasta Herbert Ross esteve em seu auge, chegando a concorrer consigo mesmo ao Oscar de Melhor Filme - graças à comédia romântica "A garota do adeus" e ao drama de balé "Momento de decisão". Depois, teve uma carreira irregular, onde sucessos de bilheteria como "Footloose" e "O segredo do meu sucesso" dividiam espaço com obras bem menos consideradas, como o fraco "Dinheiro do céu". Em 1989 ele voltou a chamar a atenção da crítica e do público com um filme cujo grandioso elenco feminino seria praticamente impossível de ignorar: "Flores de aço", um dramalhão familiar disfarçado de comédia de costumes que hoje em dia só é realmente lembrado por ter sido a primeira real oportunidade da carreira de Julia Roberts, que foi indicada ao Oscar de coadjuvante.

Apesar de ser coadjuvante (e ter ficado com o papel oferecido a Winona Ryder e Meg Ryan), é a personagem de Roberts que serve como fio condutor e ponto em comum das personagens criadas pelo roteiro de Robert Harling (que escreveu a peça teatral que deu origem ao roteiro em homenagem à irmã, morta depois de uma cirurgia mal-sucedida). Pouco antes de ser alçada à condição de mega-estrela com sua participação em "Uma linda mulher" (que estrearia nos cinemas poucos meses depois), Roberts vive Shelby, uma jovem diabética que, nas primeiras cenas do filme, se casa com seu príncipe encantado, o charmoso Jackson (Dylan McDermott) e parte para uma vida distante da pequena cidade da Louisianna, onde vive sua família, liderada pela superprotetora M'Lynn (Sally Field). O filme conta a trágica história de Shelby - que tem diabetes e arrisca uma gravidez perigosa para formar uma família - através dos olhos de um grupo de mulheres que frequentam o salão de beleza da exuberante Truvy (Dolly Parton). As reuniões femininas que tem lugar na casa da esteticista acabam sendo o mais perto que todas elas tem de reuniões familiares - ainda que algumas delas realmente tenham uma família de verdade.



"Flores de aço" é um filme para mulheres e não é sexismo ou preconceito afirmar isso. As personagens masculinas pouco aparecem ou tem participação ativa na trama (ainda que o elenco conte com nomes importantes como Tom Skerrit e Sam Shepard), deixando que o "sexo frágil" mande no jogo o tempo todo. No entanto, o resultado final, apesar das promessas, não deixa de ser insatisfatório. Ao concentrar seu foco na relação entre M'Lynn e Shelby, Ross ganha em parte - porque Sally Field e Roberts dão conta do recado lindamente - mas perde por não dar oportunidade de brilho a outros membros do seu formidável elenco. Shirley MacLaine, por exemplo, tem o ingrato papel de uma matrona desagradável e mau-humorada e nem mesmo o inegável talento da atriz consegue tirar muito da superficialidade de sua personagem. E Daryl Hannah, enfeiada propositalmente para viver a cabeleireira, tem um dos trabalhos mais pálidos de sua carreira.

"Flores de aço" é considerada uma comédia dramática. Como drama funciona muito bem - apesar de exagerar na sacarina em seu final. Como comédia, no entanto, não desperta mais do que alguns sorrisos tímidos. Vale para ver Julia Roberts antes de virar a atriz mais bem paga de Hollywood.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...