terça-feira

AMOR, SUBLIME AMOR

AMOR, SUBLIME AMOR (West Side Story, 1961, United Artists, 153min) Direção: Jerome Robbins, Robert Wise. Roteiro: Ernest Lehman, peça teatral de Jerome Robbins e música de Arthur Laurents, inspirada em "Romeu e Julieta", de William Shakespeare. Fotografia: Daniel L. Fapp. Montagem: Thomas Stanford. Música: Leonard Bernstein. Figurino: Irene Sharaff. Direção de arte/cenários: Boris Leven/Victor Gangelin. Produção: Robert Wise. Elenco: Richard Beymer, Natalie Wood, Russ Tamblyn, Rita Moreno, George Shakiris, Simon Oakland, Ned Glass. Estreia: 18/10/61

11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Jerome Robbins, Robert Wise), Roteiro Adaptado, Ator Coadjuvante (George Chakiris), Atriz Coadjuvante (Rita Moreno), Fotografia em cores, Montagem, Figurino em cores, Direção de Arte/Cenários em cores, Som, Trilha Sonora/Musical
Vencedor de 10 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Jerome Robbins, Robert Wise), Ator Coadjuvante (George Chakiris), Atriz Coadjuvante (Rita Moreno), Fotografia em cores, Montagem, Figurino em cores, Direção de Arte/Cenários em cores, Som, Trilha Sonora/Musical
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme/Musical, Ator Coadjuvante (George Chakiris), Atriz Coadjuvante (Rita Moreno) 

Trinta e seis anos antes que o australiano Baz Luhrmann subvertesse o tom solene da obra mais famosa do dramaturgo William Shakespeare e transferisse "Romeu e Julieta" para uma ensolarada cidade litorânea e substituísse espadas por armas automáticas e o silêncio romântico por tiroteios e música pop, uma outra versão heterodoxa da peça teatral já havia conquistado o mundo. Primeiro na Broadway e depois nas telas de cinema, "Amor, sublime amor" - ou simplesmente "West Side Story" - mostrou a força e contemporaneidade da mais icônica história de amor jamais criada. Ainda que com algumas alterações em relação ao musical original, montado na Broadway, o filme (codirigido por Jerome Robbins e Robert Wise) ganhou o público, a crítica e a Academia de Hollywood, arrebatando impressionantes dez estatueta do Oscar, incluindo melhor filme e diretor (dividido pela primeira vez na história, em um acontecimento que só seria igualado, até hoje, na cerimônia de 2008, quando os irmãos Joel e Ethan Coen foram premiados por "Onde os fracos não tem vez"). O maior sucesso de bilheteria do ano de 1961 e referência absoluta para os filmes musicais que viriam depois dele, "Amor, sublime amor" pode até chatear algumas plateias menos pacientes (são duas horas e meia de cantoria e coreografias), mas, no final das contas, para os fãs do gênero é um clássico indiscutível.

A trajetória de "Amor, sublime amor" rumo às telas de cinema começou em 1957, quando o musical escrito por Arthur Laurents, musicado por Elmer Bernstein e Stephen Sondheim e coreografado por Jerome Robbins, estreou na Broadway. Em sua concepção, a trama giraria em torno de da história de amor de dois jovens cuja relação era ameaçada por diferenças religiosas: com o título de "East Side Story", o roteiro se desenvolvia no turbilhão de um romance entre um rapaz católico e uma jovem judia. Percebendo o aumento da imigração porto-riquenha em Nova York, porém, os criadores da peça resolveram mudar o conflito e torná-lo mais próximo da realidade do momento: surgia assim o impossível romance entre uma porto-riquenha e um descendente de poloneses. Com o título modificado para o eternizado "West Side Story", o espetáculo estreou e foi um sucesso instantâneo, ficando em cartaz por quase dois anos. Como não poderia deixar de ser, seu êxito logo chamou a atenção de Hollywood - mais precisamente do produtor Walter Mirisch, que viu nele o potencial de uma bela carreira também no cinema. Logo de cara, porém, esbarrou em um problema quase intransponível: Jerome Robbins, o autor de todas as energéticas coreografias que encantaram o público no teatro, se recusou a trabalhar no filme, a menos que o dirigisse. Ciente de que Robbins nunca havia dirigido um filme, Mirisch conseguiu chegar a um meio-termo com seu novo contratado, e entregou a ele a direção das sequências de dança, enquanto Robert Wise ficava encarregado das demais cenas. O acordo não durou muito.

Antes mesmo que Robbins fosse afastado do projeto devido ao atraso das filmagens e o estouro do orçamento que seu perfeccionismo havia causado - ele insistia em filmar cada cena de inúmeros ângulos, o que, logicamente, desagradou os produtores -, outra questão tomou conta dos bastidores. Considerados velhos demais para interpretarem jovens rebeldes, praticamente todos os atores da peça original foram descartados para a transição à tela grande, pouco importando se o novo elenco sabia ou não cantar (em Hollywood, onde era quase tradição o uso de dublagem em filmes do gênero, esse era apenas um detalhe quase insignificante, por incrível que pareça). A partir daí, atores e atrizes de todos os tipos foram cogitados e/ou testados para o projeto: no lado feminino, os nomes mais famosos cotados foram os de Suzanne Pleshette e Audrey Hepburn - que pulou fora por conta de uma gravidez. Entre os homens, a lista incluía futuros astros como Anthony Perkins, Richard Chamberlain, Burt Reynolds e Warren Beatty. Beatty era, segundo boatos, o preferido da atriz Natalie Wood, escolhida para o principal papel feminino - uma teoria que não se sustenta, já que os dois jovens atores não tinham exatamente se dado muito bem nas recentes filmagens de "Clamor do sexo" (1961) e só viriam a assumir um romance depois da separação da atriz. Com Beatty e os demais candidatos fora do páreo, a protagonização masculina ficou com Richard Beymer, até então mais conhecido por séries de televisão do que por sua carreira cinematográfica. Nem mesmo Beymer, que trinta anos mais tarde passaria a ser reconhecido como Benjamin Horne, o ambicioso empresário da série cult "Twin Peaks" (em que voltou a contracenar com Russ Tamblyn), tinha certeza se era a melhor escolha da produção - talvez porque a primeira opção do diretor havia sido ninguém menos que Elvis Presley.


Presley, um dos maiores ídolos musicais de todos os tempos, brincava de ator desde "Ama-me com ternura", lançado em 1956, mas seus filmes nunca exigiam dele mais do que cantar e explorar seu carisma. Em "Amor, sublime amor", ele teria a chance de fugir da previsibilidade das produções que serviam apenas de veículo para vender discos e fazer parte de algo que prometia ser um enorme sucesso. Porém, por conta de seu então empresário, o temido "Coronel", que não gostava da ideia de ter sua galinha de ovos de ouro participando de um projeto cujo controle ele não teria, Presley abandonou o barco - e a possibilidade de ter seu nome associado a um clássico dos mais adorados pelo público. A recusa do "Coronel" não tinha nada de escolha artística: a participação de Elvis no filme não lhe daria direitos sobre as canções da trilha sonora - e além disso, das doze canções do roteiro, apenas metade seriam interpretadas por ele. Na visão mercenária de seu empresário, era um mau negócio em termos financeiros, e conforme o tempo provou, quem mais saiu perdendo foi o cantor: o disco com a trilha sonora do filme tornou-se a mais vendida da história e, com o impressionante número de 249 semanas em cartaz em Paris, "Amor, sublime amor" também mantém o recorde de tempo de um único filme nos cinemas franceses. Mas, apesar do sucesso de público e de Oscars, o filme de Robbins e Wise não conquistou completamente a crítica norte-americana.

Se Roger Ebert, um dos mais respeitados críticos de cinema dos EUA, louvou "Amor, sublime amor" e o colocou na lista de seus filmes preferidos, o mesmo não pode ser dito a respeito da temida Pauline Kael, que massacrou o filme em suas colunas: dos diálogos que considerou antiquados às sequências de dança com as quais não se empolgou - passando pelo desempenho de Natalie Wood -, Kael não se deixou seduzir pelo filme como a maioria de seus colegas. Isso não o impediu, no entanto, de tornar-se parte do inconsciente coletivo internacional. Com algumas das canções mais famosas do cancioneiro norte-americano - "Maria", "I feel pretty" e "America" são conhecidas mesmo por quem nunca assistiu ao filme -, "Amor, sublime amor" conta, através de números de dança e música, a trágica história de amor entre Maria (Natalie Wood), uma jovem porto-riquenha cujo irmão é o líder de uma gangue em Nova York, e Tony (Richard Beymer), descendente de poloneses indiretamente ligado à gangue rival. Substituindo lutas por coreografias, diálogos por canções icônicas e alterando em parte o final da peça de Shakespeare, o filme até pode soar um pouco datado - em especial quando se lembra que os musicais mais bem-sucedidos das últimas décadas -, mas é, sem dúvida, um dos mais importantes produtos cinematográficos realizados em Hollywood. Com dez Oscar e três importantes Golden Globes no currículo, também ficou na história como um dos filmes mais premiados pela Academia - e em 2020 será revisitado por Steven Spielberg, em um remake talvez desnecessário., consequência de ser um dos filmes mais adorados pelos fãs do gênero.

segunda-feira

ATRAVÉS DE UM ESPELHO

ATRAVÉS DE UM ESPELHO (Sasom i en spegel, 1961, Svensk Filmindustri, 90min) Direção e roteiro: Ingmar Bergman. Fotografia: Sven Nykvist. Montagem: Ulla Ryghe. Figurino: Mago. Direção de arte: P. A. Lundgren. Produção: Allan Ekelund. Elenco: Harriet Andersson, Gunnar Bjornstrand, Max Von Sydow, Lars Passgard. Estreia: 16/10/61

2 indicações ao Oscar: Melhor Filme Estrangeiro, Roteiro Original
Vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro 

Fazia pouco tempo que a Academia de Hollywood havia criado oficialmente a categoria de Melhor Filme Estrangeiro quando o sueco Ingmar Bergman levou seu segundo Oscar consecutivo. Não que fosse um acontecimento inédito - o italiano Federico Fellini também já tinha duas estatuetas em casa, por "A estrada da vida" e "Noites de Cabíria", premiados em 1956 e 1957, respectivamente. Acontece que, ao contrário de "A fonte e a donzela" (vencedor do Oscar em 1960), o segundo filme oscarizado de Bergman, "Através de um espelho", não foi exatamente aplaudido pela crítica norte-americana quando foi lançado, e um dos artigos chegava a prever que o auge criativo do cineasta estava em seus últimos momentos. Nem mesmo a aprovação da Academia (e sua indicação ao Oscar de roteiro original no ano seguinte, quando foi exibido nos EUA) ajudou a mudar essa situação. Foi preciso que muitos anos se passassem até que finalmente o filme fosse reconhecido como um clássico - e levando-se em conta que até o próprio diretor, pouco afeito a autoelogios, o considerava um de seus melhores trabalhos, demorou bastante para que assumisse, junto aos críticos, um lugar de destaque em sua elogiada filmografia. Vencedor de um prêmio no Festival de Berlim em 1962, "Através de um espelho" é um dos primeiros passos de Bergman em direção à estrutura consagrada cinco anos mais tarde com uma de suas obras-primas, "Persona" (1966).

Assim como em "Persona" e em boa parte de sua obra, Bergman usa e abusa de longas pausas, diálogos profundos e personagens de uma complexidade ímpar. Através de um roteiro que lembra o teatro de Strindberg - e cuja estrutura mais tarde seria emulada pelos filmes mais sérios de Woody Allen -, "Através de um espelho" se mostra sucinto e com intenções filosóficas. A busca por Deus, crises de fé e a procura incessante por uma paz de espírito que se revela muito mais difícil do que se poderia supor, o filme de Bergman é aparentemente econômico em termos dramáticos, mas emocionalmente devastador. Lógico que, sob a visão quase gélida do cineasta, a emoção parece mais cerebral, e é justamente esse aparente paradoxo (razão vs sentimento) que se revela a base do filme: os personagens são inteligentes e cultos, mas sua tentativa de racionalizar o que os devora por dentro acaba se revelando inútil quando a angústia e o desespero assumem a protagonização.


A trama, desenvolvida no roteiro do próprio Bergman, tem início com o retorno de Karin (Harriet Andersson) ao convívio familiar, depois de uma temporada em um hospital psiquiátrico. Seu relacionamento com o marido, Martin (Max von Sydow), há muito deixou de ser um casamento tradicional, transformando-se, aos poucos, em uma amizade profunda. Martin se dedica a cuidar da esposa, e resolve levá-la à propriedade de verão da família, em uma ilha distante. A eles, juntam-se o pai de Karin, David (Gunnar Bjornstrand) - um célebre escritor que praticamente abandonou os filhos após a morte da esposa - e seu irmão, Minus (Lars Passggard), batalhando a seu próprio modo com os hormônios da adolescência. O que deveria ser uma reunião familiar pacífica aos poucos vai se tornando uma grande sessão de terapia: Karin descobre que sua doença mental, herdada da mãe, é incurável, e David tenta reaproximar-se dos filhos - enquanto cabe a Martin tentar equilibrar as relações e apoiar sua mulher em sua descida rumo à insanidade e a busca por uma resposta de Deus a suas questões mais profundas.

Longe de ser um filme fácil, "Através de um espelho" não deixa de ser, também, uma das obras mais acessíveis de Bergman. Apesar de sua utilização de símbolos e metáforas, seu roteiro é linear e fluido, como uma boa peça de teatro. Para isso, ele conta, logicamente, com um quarteto de atores completamente entregues. Harriet Andersson brilha na pele de Karin, a mais complexa dos personagens, uma mulher constantemente no fio da navalha. Max von Sydow, um dos colaboradores habituais do diretor, mostra, mais uma vez, como a economia de gestos e palavras pode engrandecer um filme. O estreante Lars Passgard também dá conta do recado, com um personagem cujos sentimentos somente aos poucos vão sendo revelados (ao espectador e a ele mesmo), e o veterano Gunnar Bjornstrand transmite, através de uma interpretação discreta, todo o turbilhão de culpa e melancolia de seu David. Um filme para adultos, "Através de um espelho" é quase a antítese do cinema comercial americano - para uns, um bálsamo. Para outros, uma tortura. Ainda assim, é impossível negar seu brilhantismo dramático e sua direção exemplar.

domingo

O CAMINHO DAS NUVENS

O CAMINHO DAS NUVENS (O caminho das nuvens, 2003, Luiz Carlos Barreto Produções Cinematográficas, 85min) Direção: Vicente Amorim. Roteiro: David França Mendes. Fotografia: Gustavo Hadba. Montagem: Pedro Amorim. Música: André Abujamra. Figurino: Cristina Kangussu, Valeria Stefani. Direção de arte: Jean-Louis Leblanc. Produção executiva: Paula Barreto. Produção: Bruno Barreto, Lucy Barreto, Luiz Carlos Barreto, Angelo Gastal. Elenco: Cláudia Abreu, Wagner Moura, Ravi Ramos Lacerda, Manoel Sebastião, Felipe Newton, Cristina de Lima, Cláudio Jaborandy, Sidney Magal, Carol Castro, Augusto Madeira, Alexandre Zacchia. Estreia: 11/8/2003 (Festival de Toronto)

Dois dos mais assíduos e talentosos nomes do cinema brasileiro durante o final dos anos 1990/começo dos anos 2000, Cláudia Abreu e Wagner Moura se encontraram pela primeira vez nas telas graças a dois dos mais reconhecidos e longevos produtores nacionais, Lucy e Luiz Carlos Barreto. "O caminho das nuvens" pode não ter levado multidões às salas de cinema, mas foi uma promissora estreia de Vicente Amorim como diretor de longas-metragem. Depois de trabalhar como diretor de curtas e alguns episódios da série de televisão "A justiceira", o cineasta, apesar de nascido na Áustria e criado em diversas cidades do mundo, voltou sua câmera para o interior do Nordeste brasileiro, com suas dificuldades econômicas e sociais, para criar uma história de amor familiar e da obstinação de um homem para oferecer uma vida digna para seus filhos. Contando com o carisma extraordinário de sua dupla de protagonistas e uma trilha sonora repleta de sucessos de Roberto Carlos (interpretados pela própria Cláudia Abreu), "O caminho das nuvens" é, no mínimo, um filme simpático - apesar de apresentar uma trama um tanto fraca e um final em aberto que pode incomodar à parte da plateia.

Premiado como Melhor Ator no Festival de Cartagena, Wagner Moura está à vontade na pele de Romão, um pai de família sem estudo e desempregado que acredita piamente que apenas um emprego que pague 1000 reais pode resolver o problema de sustentar a mulher, Rose (Cláudia Abreu), e os cinco filhos - um deles ainda de colo. Sem dinheiro para pagar passagens de ônibus a todos, Romão e sua prole embarcam em uma viagem absurda, de bicicletas, do nordeste do país até o Rio de Janeiro, onde ele espera - como um obcecado Dom Quixote - encontrar finalmente o emprego que sonha. No meio do caminho, o grupo ganha dinheiro como pode: as crianças lavam carros e Rose, mãe dedicada e esposa amorosa, se apresenta em restaurantes de beira de estrada, cantando músicas de Roberto Carlos, sempre acompanhada de um de seus meninos. Tentando sobreviver de forma honrada, a família encontra ainda uma dificuldade inesperada quando o filho mais velho, Antônio (Ravi Ramos Lacerda), resolve tornar-se independente dos pais: sentindo-se maduro o suficiente para isso, ele desafia o poder paterno e põe em risco a estabilidade da caravana.


O roteiro, escrito por David França Medeiros, não se propõe a fazer discursos sobre a desigualdade social e tampouco aprofunda a psicologia de seus personagens, dos quais o público só tem informações esparsas e pouco informativas. O que interessa a Medeiros - e a Amorim, como diretor -, são as interrelações que surgem no decorrer de seu road movie, sejam elas entre pais e filhos, marido e mulher, ou a família com outros personagens que vão surgindo no caminho. Tais personagens, que tanto ajudam quanto atrapalham o herói em sua jornada, são ainda menos desenvolvidos: aparecem, cumprem seu papel na trama e são abandonados, assim como a estrada que vai ficando para trás a cada dia. Tal decisão do roteiro é justificada e coerente, mas priva o espectador de algumas histórias paralelas que poderiam ser igualmente fascinantes - como o diretor de um show para turistas, vivido por Sidney Magal, que se utiliza de Romão e alguns de seus filhos para uma versão estilizada de rituais indígenas em um hotel. A presença de tal personagem é catalisadora: não apenas reforça a vontade do protagonista de seguir seus instintos, como mostra ao jovem Antônio um mundo bem distante de seu universo - limitado pela proteção da família e pelos áridos cenários a que está acostumado.

A trilha sonora de "O caminho das nuvens" é um caso à parte. Belas canções de Roberto Carlos ("Como é grande o meu amor por você", "Se você pensa") ilustram cada movimento da família, interpretadas por uma surpreendentemente afinada Cláudia Abreu - que não esquece de acrescentar o sotaque nordestino a suas apresentações. De certa forma, a música alivia a dor e a dureza da trajetória de Romão e Rose, oferecendo a ela uma aura romântica que os faz lembrar, sempre, de que, apesar das dificuldades, eles tem grande amor e respeito um pelo outro. Os olhares expressivos de Cláudia e Wagner em determinados momentos dizem mais do que muitos diálogos - e a música sublinha seus sentimentos mais nobres. Poucos anos mais tarde, o cineasta Breno Silveira voltaria a utilizar o cancioneiro de Roberto no sensível "À beira do caminho" (2012), mas "O caminho das nuvens" faz isso de maneira ainda mais orgânica e sentimental. É um complemento e tanto para um filme delicado e que, se não encontrou seu público à época de seu lançamento (apesar de ser uma co-produção da Globo Filmes), vale a pena descobrir, nem que seja pelos talentos superlativos de sua dupla central de atores.

sábado

UM GOSTO DE MEL

UM GOSTO DE MEL (A taste of honey, 1961, Woodfall Film Productions, 101min) Direção: Tony Richardson. Roteiro: Shelagh Delaney, Tony Richardson, peça teatral de Shelagh Delaney. Fotografia: Walter Lassally. Montagem: Antony Gibbs. Música: John Addison. Direção de arte: Ralph Brinton. Produção: Tony Richardson. Elenco: Rita Tushingham, Dora Bryan, Murray Melvin, Robert Stephens, Paul Danquah. Estreia: 14/9/61

Vencedor do Golden Globe de Revelação Feminina (Rita Tushingham)
Vencedor de 2 Palmas de Ouro no Festival de Cannes: Melhor Ator (Murray Melvin), Melhor Atriz (Rita Tushingham)

 A crítica especializada aprovou com louvor. Cerimônias de premiação tradicionais, como o Golden Globe, o BAFTA e o National Board of Review o endossaram sem pestanejar, lhe concedendo estatuetas importantes. E até mesmo o júri do prestigiado Festival de Cannes se deixou seduzir, lhe concedendo os prêmios de melhor ator e melhor atriz. Baseado em uma peça de teatro escrita por uma adolescente de 18 anos de idade, o filme britânico "Um gosto de mel" só foi ignorado mesmo pela Academia de Hollywood, que simplesmente fez vista grossa diante de seu enorme sucesso e polêmica. Ao retratar sem pudores relações que poderiam ser vistas como chocantes pelo público mais conservador, o filme de Tony Richardson marcou época, conquistou fãs através do tempo e inspirou no mínimo duas canções de Morrissey, líder da banda The Smiths, e o título de uma das músicas dos Beatles. Como se vê, nem sempre um Oscar faz falta no currículo de uma produção.

A trama, imaginada pela muito jovem Shelagh Delaney em sua vitoriosa peça de teatro, tem como protagonista a jovem Jo (Rita Tushingham), um adolescente de 17 anos que vive com sua heterodoxa mãe, Helen (Dora Bryan, vencedora do BAFTA de melhor atriz). Quando Helen - pouco afeita à solidão e bastante fã de bebidas alcóolicas - se casa novamente, com um quase desconhecido, Jo se vê sem lugar para morar. Em suas tentativas de encontrar um lugar ao sol, ela se envolve romanticamente com Jimmy (Paul Danquah), um marinheiro negro que logo vai embora da cidade e a deixa (sem que nenhum deles saiba) grávida. Novamente sem companhia, ela conhece o tímido Geoffrey (Murray Melvin), de quem se torna grande amiga e colega de apartamento. Quando a gravidez vem à tona, os dois resolvem criar a criança como se fosse deles - apesar de Geoffrey ser homossexual. A nova família, recém formada, sofre um golpe, porém, quando Helen reaparece e exige seu lugar como avó da criança prestes a nascer.


Ao tratar com naturalidade tanto a relação de Jo (uma adolescente branca, de classe operária, e portanto, respeitável) com Jimmy (um rapaz negro) quanto com Geoffrey (um gay assumido), o enredo de "Um gosto de mel" já mexia em vespeiros que poucos gostariam de ver tocados em uma década de 1960 que apenas começava a nascer - e que daria origem, pouco depois, ao movimento hippie, ao feminismo, à luta pelos direitos civis e, nos EUA, a luta contra a Guerra do Vietnã. Como se isso não fosse o bastante, no entanto, o roteiro da jovem dramaturga e do experiente cineasta ainda toca em questões mais complexas ainda. Se ser mãe solteira não era um status dos mais invejados da época, será que seria menos pior do que fazer parte de um novo tipo de núcleo familiar - que envolvia um homem gay e uma avó pouco convencional? E, mais complicado ainda, com uma criança fruto de um romance interracial? Ainda que não responda tais questões, preferindo contar a história sem buscar soluções, o filme já merece aplausos por tocar sem medo em tais controvérsias. Para isso, conta com a atuação refrescante de Rita Tushingham, estreante que ganhou o papel central em uma disputa com cerca de 2000 candidatas e provou-se uma aposta certeira e levou pra casa a Palma de Ouro de Melhor Atriz no Festival de Cannes 1961: longe de ser uma beldade com agressivo sex appeal, a jovem Tushingham continuou no cinema, mas nunca mais atingiu o mesmo patamar de sucesso de sua estreia - que lhe rendeu, também, um Golden Globe de revelação feminina.

Com diálogos inteligentes e personagens verossímeis, "Um gosto de mel" conquistou não apenas a crítica e o público mais aberto a novos ares. O cantor Morrissey citou o filme em duas das músicas de sua banda, The Smiths: "This night has opened my eyes" e "Reel around the fountain" contém frases do roteiro - o cantor, nascido na cidade de Manchester, onde o filme foi rodado, tornou-se fã incondicional da produção. Outra celebridade musical que também inspirou-se no filme de Richardson foi Paul McCartney: segundo o livro "Revolution in the head", de Ian MacDonald, o beatle nomeou "Your mother should know" a partir de um dos diálogos do roteiro. Mas, apesar de tantos elogios, prêmios e homenagens, "Um gosto de mel" é um bom filme ou apenas corajoso e à frente de seu tempo? É inegável que a qualidade dos diálogos e sua franqueza são admiráveis, e que a direção de Tony Richardson extrai de seus atores interpretações naturais, mas também não se pode deixar de perceber um certo tom mais adequado à sua época do que à atualidade. Se os temas discutidos ainda encontram eco no preconceituoso mundo do século XXI, algumas cenas podem parecer até ingênuas. É um charme, obviamente, e funcionou muito bem no começo dos anos 1960. Hoje vale mais como documento histórico - ainda que ainda possa conquistar jovens idealistas e apaixonados.

sexta-feira

O CASAMENTO DE RACHEL

O CASAMENTO DE RACHEL (Rachel getting married, 2008, Sony Pictures Classic, 110min) Direção: Jonathan Demme. Roteiro: Jenny Lumet. Fotografia: Declan Quinn. Montagem: Tim Squyres. Música: Donald Harrison Jr., Zafer Tawil. Figurino: Susan Lyall. Direção de arte/cenários: Ford Wheeler/Chryss Hionis. Produção executiva: Carol Cuddy, Ilona Herzberg. Produção: Neda Armian, Jonathan Demme, Marc Platt. Elenco: Anne Hathaway, Debra Winger, Rosemarie De Witt, Anisa George, Mather Zickel, Tunde Adebimpe, Bill Irwinn, Anna Deavere Smith, Sebastian Stan. Estreia: 01/9/08 (Festival de Veneza)

 Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Anne Hathaway)

Quando Jonathan Demme começou a chamar a atenção do público, na segunda metade da década de 1980, ele se destacava por comédias amalucadas com personagens femininas fortes - "Totalmente selvagem" (1986), com Melanie Griffith, e "De caso com a máfia" (1988), com Michelle Pfeiffer, tornaram-se cult movies principalmente por suas atrizes principais. Depois, em uma nova fase, ele abraçou o cinema comercial (pero no mucho) com filmes vencedores do Oscar - "O silêncio dos inocentes" (1991), vencedor das cinco principais estatuetas da Academia, e "Filadélfia" (1993), que deu o primeiro troféu a Tom Hanks e premiou Bruce Springsteen por sua bela "Streets of Philadelphia". Mais tarde, depois do fracasso do ambicioso "Bem-amada", estrelado por Oprah Winfrey em 1998, dedicou-a remakes: "O segredo de Charlie" (2002), tinha Mark Wahlberg e Thandie Newton, e "Sob o domínio do mal" (2004) foi estrelado por Denzel Washington e Meryl Streep, mas nenhum fez barulho nas bilheterias e junto aos críticos. Foi assim, como um cineasta já acostumado aos altos e baixos da profissão e que buscava conforto dirigindo documentários e videoclipes, que Demme voltou aos holofotes. Realizado de forma independente e emprestando seu visual dos documentários, "O casamento de Rachel" estreou no Festival de Veneza de 2008 - e, de cara, chamou a atenção para a qualidade que seria seu maior trunfo nas cerimônias de premiação da temporada: o desempenho excepcional de sua protagonista, Anne Hathaway.

Uma atriz então em ascensão, com papéis tanto em dramas premiados como "O segredo de Brokeback Mountain" (2005) quanto em sucessos de bilheteria como "O diabo veste Prada" (2006), a jovem Hathaway (que levaria o Oscar de coadjuvante pela versão cinematográfica do musical "Os miseráveis", de 2012) foi a escolha perfeita para viver a conturbada e complexa protagonista do filme de Demme, uma mulher não exatamente admirável, mas tão repleta de nuances que somente uma atriz com seu talento conseguiria segurar sem apelar para os clichês que se poderia esperar. Tudo bem que o roteiro de Jenny Lumet - filha do veterano cineasta Sidney Lumet - foge completamente de qualquer emoção mais fácil, mas é a união da direção de Jonathan e da atuação de Hathaway que dá a estrutura da narrativa. Filmado com uma câmera na mão e contando apenas com uma trilha sonora diagética (originada apenas pelos sons dentro da ação), "O casamento de Rachel" se equilibra com cuidado entre um drama familiar e o registro de uma cerimônia que tem espaço para reconciliações, brigas, lavagem de roupa suja e, para salvação de todos, demonstrações de amor profundo e apaixonado. Tudo regado a vários gêneros musicais (inclusive com a participação de uma escola de samba) e interpretações precisas - e conta-se aí o retorno da ótima Debra Winger, no papel,  secundário mas crucial, da mãe da personagem central.


Kym Buchman, a protagonista, acaba de ser liberada provisoriamente de sua reabilitação para o casamento de sua irmã mais velha, Rachel (Rosemarie De Witt). Ausente de casa há nove meses, e frequentadora habitual da clínica de onde está saindo, Kym não é exatamente uma pessoa confiável, o que fica claro com a constante vigilância de seu pai, Paul (Bill Irwin) e com o clima de tensão que seu retorno ao lar provoca em todos. A relação entre Kym e Rachel é de carinho, mas não demora para que a noiva passe a sentir-se incomodada com a presença de sua irmã mais nova - especialmente quando Kym começa a dar sinais de que pretende aproveitar a festa para tentar remendar alguns de seus erros do passado, o que inclui um acidente fatal que ainda não está superado pela família. Envolvida também em uma relação casual com um dos padrinhos do noivo, Kieran (Mather Zickel), a quem conheceu em uma reunião de Alcóolicos Anônimos, Kym está sempre a um passo de uma recaída - ou, pior ainda, de uma tentativa desesperada de provar-se uma mulher mais segura e confiante para todos os convidados do casamento, incluindo a desconhecida família do noivo.

Ainda que tenha recuperado parte do prestígio do diretor, "O casamento de Rachel" nem de longe chega a lembrar a genialidade demonstrada em seus filmes mais populares - principalmente o inesquecível "O silêncio dos inocentes". Seu filme acerta em não fazer de Kym uma heroína chorosa ou vítima - ainda que isso faça dela um tanto irritante, também a torna muito mais crível. Anne Hathaway deita e rola com as oportunidades do papel (que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de melhor atriz), e enfrenta com segurança a série de desafios que o roteiro lhe apresenta, incluindo um embate violento com sua mãe e uma sessão de lembranças que traz à tona (mais uma vez) a tragédia causada por ela na adolescência. Os personagens de Lumet são realistas, humanos e passíveis de erros, e é exatamente por isso que "O casamento de Rachel" consegue ser tão incômodo e quase desagradável em alguns momentos. A delicadeza com que Demme trata a produção, no entanto, evita o melodrama barato e a aproxima mais da filmografia de Robert Altman - grande referência do diretor durante as filmagens. Simples no visual e complexo nos sentimentos, "O casamento de Rachel" não é recomendado para quem busca entretenimento puro - mas pode conquistar àqueles que procuram uma consistência dramática cada vez mais rara no cinemão norte-americano.

quinta-feira

BOM COMPORTAMENTO

BOM COMPORTAMENTO (Good time, 2017, Elara Pictures/Rhea Films, 101min) Direção e roteiro: Benny Safdie, Josh Safdie. Fotografia: Sean Price Williams. Montagem: Ronald Bronstein, Benny Safdie. Música: Oneothrix Point Never. Figurino: Miyako Bellizzi, Mordechai Rubinstein. Direção de arte/cenários: Sam Lisenco/Audrey Turner. Produção executiva: Jean-Luc De Fanti. Produção: Sebastian Bear-McClard, Oscar Boyson, Terry Douglas, Paris Kasidokostas Latsis. Elenco: Robert Pattinson, Benny Safdie, Buddy Duress, Jennifer Jason Leigh, Taliah Webster, Barkhad Abdi. Estreia: 25/5/17 (Festival de Cannes)

Fazer parte de um fenômeno cultural logicamente ajuda na carreira de um ator/atriz. Ao mesmo tempo, porém, pode transformar-se em uma prisão, especialmente quando tal fenômeno não alcança, em termos de prestígio, o tanto que alcançou comercialmente. É o que aconteceu com o elenco da saga "Crepúsculo", inspirada nos livros de Stephanie Meyer: desde que começaram a chegar aos cinemas, em 2008, suas adaptações lotaram salas de exibição mundo afora e deram instantaneamente a seus atores principais, Kristen Stewart e Robert Pattinson, status de estrelas. Mesmo bombardeados pela crítica, os filmes seguiram aplaudidos por milhares de adolescentes, encantados com o triângulo amoroso entre uma mortal, um vampiro melancólico e um lobisomem juvenil. Presos a personagens quase risíveis e entregando atuações constrangedoras, os jovens atores saíram da empreitada com seus currículos chamuscados e desacreditados diante de Hollywood. Demorou um bom tempo até que finalmente eles começassem a demonstrar que, por trás de ídolos juvenis, eles tinham talento suficiente para encarar desafios maiores. Kristen (que começou a ser notada como a filha de Jodie Foster em "O quarto do pânico", de  2002) foi a primeira, integrando o elenco de produções de peso, como a versão cinematográfica de "Na estrada", de Jack Kerouac - dirigida por Walter Salles em 2012 - e "Acima das nuvens" (2014), de Olivier Assayas, que lhe rendeu um César de atriz coadjuvante (ela foi a primeira atriz norte-americana a levar o prêmio, considerado o Oscar francês). Já seu colega de elenco - e também namorado por um determinado período de tempo, durante as filmagens da série - demorou um pouco mais a convencer além de seus fãs adolescentes.

Lembrado também como Cedric Diggory em "Harry Potter e o cálice de fogo" (2005), Pattinson já tinha vivido o pintor Salvador Dalí em "Poucas cinzas", de 2008, antes mesmo de interpretar o vampiro Edward Cullen, mas seu trabalho nas tramas de Meyer atrapalhou sua trajetória como ator sério. Suas participações em "Bel Ami: o sedutor" (baseado em Guy de Maupassant) e "Cosmópolis", dirigido por David Cronenberg, chamaram a atenção de alguns críticos, mas não chegaram a alterar a forma como o espectador médio o via. Até que "Bom comportamento", uma produção independente com orçamento de cerca de 4,5 milhões de dólares mudou tudo: aplaudidíssimo no Festival de Cannes 2017, o filme dos irmãos Benny e Josh Safdie lhe rendeu indicações a vários prêmios na temporada, elogios rasgados da imprensa e a chance de finalmente deixar para trás a imagem de galã púbere. A melhor notícia, no entanto, é que ele realmente faz esquecer as caras e bocas de seu mais célebre papel e convence com um personagem amoral e pouco confiável - escrito especialmente para ele depois que ele contatou os diretores/roteiristas e comunicou que queria trabalhar com eles.


Intrigado pelo cartaz do filme "Amor, drogas e Nova York" quando o viu pela Internet, Pattinson escreveu um email aos irmãos, demonstrando interesse em um projeto qualquer no futuro. Poucas semanas depois os três se encontraram, e os Safdie, sabendo que o nome do ator poderia abrir muitas portas para uma produção sem o apoio de grandes produtoras, não perderam tempo. Logo criaram Connie Nickas, um jovem criminoso que, movido pela força do amor que sente por seu irmão com problemas mentais, Nick (o próprio Benny Safdie, um dos diretores), se vê obrigado a entrar em uma perigosa jornada para tirá-lo do hospital em que se encontra internado desde que um assalto cometido pelos dois resultou em sua prisão. Para isso, ele conta com a ajuda de sua namorada, Corey (participação especial de Jennifer Jason Leigh) e com a adolescente Crystal (Taliah Lennice Webster), que se envolve quase sem querer na situação.

Situando sua trama em uma única noite (com poucos flashbacks), "Bom comportamento" não é, nem de longe, um filme perfeito. Apesar do esforço de Pattinson e alguns bons momentos de tensão, a trama não é forte o bastante para segurar a atenção da plateia sem que se torne cansativa. Um tanto superficial em seu desenvolvimento e com um roteiro que deixa coisas demais para a imaginação do espectador, tem um começo promissor, mas vai perdendo o gás com o decorrer do tempo - para retomá-lo, e mesmo assim sem a mesma força, na reta final. Desperdiçando o talento de Jennifer Jason Leigh e de Barkhad Abdi (indicado ao Oscar de coadjuvante por "Capitão Phillips", de 2013), "Bom comportamento" aposta todas as suas fichas no desempenho de seu ator central e no ritmo ágil: acerta no primeiro - Pattinson nunca esteve tão bem em cena -, mas tropeça no segundo, já que a agilidade da edição é, talvez, um dos calcanhares de Aquiles da produção: ao invés de complexa e inteligente, é apenas confusa. O filme seguinte dos cineastas, "Joias brutas", foi igualmente elogiado pela crítica e havia quem confiasse que a Academia iria lembrar de Adam Sandler entre seus indicados da temporada 2019 - e novamente pareceu mais uma alucinação coletiva, já que foi a produção foi solenemente ignorada pelo Oscar. Aparentemente, os irmãos tem talento, mas ainda precisam lapidá-lo antes de sua consagração. "Bom comportamento" apresenta boas ideias, mas está bem longe de estar acima da média.

quarta-feira

A TORTURA DO MEDO

A TORTURA DO MEDO (Peeping Tom, 1960, Michael Powell, 101min) Direção: Michael Powell. Roteiro: Leo Marks. Fotografia: Otto Heller. Montagem: Noreen Ackland. Música: Brian Easdale. Direção de arte: Arthur Lawson. Produção: Michael Powell. Elenco: Karlheinz  Bohm, Moira Shearer, Anna Massey, Maxine Audley, Brenda Bruce, Michael Goodliffe, Jack Watson. Estreia: 07/4/60

Dois pesos e duas medidas. Quando "Psicose" estreou nos EUA, em junho de 1960, não demorou a tornar-se um dos maiores sucessos de bilheteria da carreira de Alfred Hitchcock, e uma das influências mais duradouras da história do cinema - além de uma merecidíssima indicação ao Oscar de melhor diretor. Poucos meses antes, no entanto, o britânico "A tortura do medo" havia sido lançado nos cinemas da Inglaterra e, depois de mero cinco dias de exibição, defenestrado das salas de exibição graças à polêmica em torno de seu tema e de seu resultado final. A comparação entre os dois títulos não é gratuita: assim como no filme dirigido pelo mestre do suspense, a produção dirigida por Michael Powell tem como protagonista um assassino em série, tornado simpático perante os olhos da plateia, e não hesita em fazer do espectador uma testemunha privilegiada de seus atos sangrentos. Porém, enquanto o filme de Hitchcock marcou positivamente sua trajetória já vitoriosa, o trabalho de Powell simplesmente destruiu sua carreira: a enxurrada de críticas negativas, a reação quase histérica do público e o tom mórbido em excesso afastaram o cineasta de sua Inglaterra natal e praticamente jogaram em um ostracismo o homem por trás de espetáculos como "Os sapatinhos vermelhos" (1948) e "Neste mundo e no outro" (1946) - ao menos até ser sua filmografia redescoberta e louvada por Francis Ford Coppola e Martin Scorsese no final da década de 1960.


Mas afinal de contas, por que essa gritaria toda em torno de ""A tortura do medo", que chegou a ser listado entre "os 25 filmes mais perigosos" pela revista Premiere? Visto hoje, à luz do tempo e depois de uma overdose de produções bem mais violentas e apelativas - algumas bem-sucedidas e outras abandonadas até mesmo por seu público-alvo -, o filme de Powell até soa datado, com sua fotografia excessivamente colorida e um roteiro indeciso entre o horror puro (que chocou até mesmo seu estúdio produtor, que cortou algumas cenas mais pesadas) e o drama psicológico que tenta explicar, ainda que superficialmente o comportamento de seu protagonista. Mas é bom lembrar que, à sua época, tudo que hoje soa ultrapassado era quase uma afronta ao espectador - e o filme ficou conhecido também por ser a primeira produção britânica comercial a exibir a nudez feminina. Mas o que talvez tenha sido considerado o auge da polêmica tem mais a ver com os bastidores do que com a trama: em um toque ousado, Michael Powell colocou a si mesmo, seu filho pequeno e sua esposa em cena, interpretando, respectivamente, o pai do protagonista, ele mesmo na infância e sua mãe, que já aparece morta; tal decisão ultrajou a crítica e acelerou a trajetória do filme em direção ao status de "maldito".


O personagem principal de "A tortura do medo" é Mark Lewis (Karlheinz Bohm), um jovem aparentemente normal, que trabalha para um estúdio de cinema londrino e completa o orçamento com fotografias eróticas que vende para uma sex shop. O que ninguém que o cerca sabe, no entanto, é que seu hobby é matar mulheres e filmar o momento de suas mortes. Sua vida solitária sofre um abalo quando Helen Stephens (Anna Massey), uma jovem que vive em um dos apartamentos do prédio que ele herdou dos pais, se aproxima dele e torna-se uma espécie de amiga. Morando com a mãe, cega, Helen nem de longe imagina que Mark vê nela, ao mesmo tempo, uma confidente (ainda que não completamente) e uma possível vítima de seus impulsos homicidas. Sua relação com a vizinha não o impede, porém, de saber que a polícia está em seu rastro, principalmente depois da morte de uma colega de trabalho - cujo corpo ele escondeu no baú de um dos cenários do filme em que está trabalhando. Enquanto não é descoberto, ele deixa escapar para Helen, aos poucos, alguns traumas de infância que podem ter contribuído para seus problemas psicológicos.

Ao apresentar Mark como praticamente a vítima de uma infância e não apenas um serial killer a quem o público poderia odiar sem culpa, Michael Powell mudou as regras do jogo (de certa forma da mesma maneira que Hitchcock em "Psicose") e surpreendeu negativamente seu público, apaixonado pelo belo "Os sapatinhos vermelhos" - e que sentiu-se traído com o tom mórbido e perturbador de seu filme. Em seu terceiro e último trabalho com Moira Shearer (que ficou com um pequeno mas crucial papel, que herdou de Joan Plowright e Julie Andrews), o cineasta mergulha o espectador em um pesadelo de cores fortes e claustrofóbico ao extremo. Sem alívio cômico e sem a carpintaria dramática de Hitchcock, Powell constrói um suspense incômodo que se torna inesquecível justamente por suas características menos comerciais. Um dos filmes preferidos de Martin Scorsese, "A tortura do medo" é uma pérola ainda pouco conhecida do grande público, mas pode ser considerado, sem favor algum, um dos precursores dos slasher movies que fariam a glória dos filmes de terror que proliferariam a partir da década de 1980 - mas com uma sofisticação a que eles jamais poderiam aspirar.

AMOR, SUBLIME AMOR

AMOR, SUBLIME AMOR (West Side Story, 1961, United Artists, 153min) Direção: Jerome Robbins, Robert Wise. Roteiro: Ernest Lehman, peça teat...