segunda-feira

DUELO AO SOL

DUELO AO SOL (Duel in the sun, 1946, Selznick International Pictures, 129min) Direção: King Vidor. Roteiro: David O. Selznick, inspirado no romance de Niven Busch, adaptado por Oliver H. P. Garrett. Fotografia: Lee Garmes, Ray Rennahan, Hal Rosson. Música: Dimitri Tiomkin. Figurino: Walter Plunkett. Direção de arte/cenários: J. McMillan Johnson/James Basevi. Produção: David O. Selznick. Elenco: Jennifer Jones, Gregory Peck, Joseph Cotten, John Huston, Lillian Gish, Lionel Barrymore, Herbert Marshall. Estreia: 29/12/46

2 indicações ao Oscar: Atriz (Jennifer Jones), Atriz Coadjuvante (Lillian Gish)

Dinheiro não era problema: os constantes atrasos nas filmagens, a contratação (e demissão de sete diferentes diretores), as interferências diretas do produtor e o marketing agressivo ao custo então assombroso de dois milhões de dólares deixavam isso bem claro. A qualidade dramática também não parecia incomodar: cenas eram escritas e reescritas constantemente, e até mesmo refilmadas, mesmo que isso distanciasse a trama do romance original, escrito por Niven Busch. E as ambições eram bem exageradas: repetir o sucesso internacional (de crítica e público) de "... E o vento levou", lançado sete anos antes e imediatamente alçado à condição de clássico. Porém, nem sempre as coisas saem como o previsto, especialmente em Hollywood, e "Duelo ao sol" acabou se tornando mais lembrado por seus excessos (inúmeros) do que por suas qualidades (poucas, e nem sempre redentoras). Produzido por David O. Selznick no ápice de seu vício em anfetaminas e sofrendo de um sério problema dramático (a falta de carisma dos personagens centrais), o filme marcou época - foi um relevante êxito comercial, principalmente como resultado de sua farta campanha promocional e influenciou cineastas como Martin Scorsese e Pedro Almodóvar -, mas, visto sob uma ótica contemporânea, tem contornos escandalosamente machistas e racistas que nem mesmo a espetacular fotografia em Technicolor consegue amenizar.

Na verdade, o filme, oficialmente dirigido por King Vidor, sofre de uma séria tendência ao melodrama, com um enredo que poderia facilmente ser confundido com o de uma telenovela mexicana (não fosse tão eivado de preconceito racial): logo nas primeiras cenas, a protagonista, Pearl Chavez (Jennifer Jones em uma caracterização equivocada e excessivamente "étnica") praticamente testemunha o assassinato de sua mãe, morta por seu próprio pai quando flagrada com um amante. Depois da execução de seu pai, Pearl é mandada aos cuidados de uma prima distante, Laura Belle (a veterana Lillian Gish em seu único desempenho indicado ao Oscar). Laura vive em uma fazenda com o marido, o senador Jackson McCanles (Lionel Barrymore), e os dois filhos, de personalidades totalmente opostas: o caçula, Jesse (Joseph Cotten), acaba de terminar a faculdade de Direito, é educado, gentil e cavalheiresco; por sua vez, o mais velho, Lewton (Gregory Peck), é violento, bruto e pouco afeito a regras sociais. Ambos se sentem atraídos pela beleza selvagem de Pearl, mas, apesar de prezar a amizade de Jesse, ela acaba não resistindo a Lewton, com quem inicia uma relação baseada em sexo e quase obsessão - um relacionamento que não apenas irá contrapor os dois irmãos, mas também abalar todo o alicerce familiar.


Na pele de Pearl Chavez, a esposa de Selznick, Jennifer Jones, tem uma atuação que beira o exagero, apesar de ter sido indicada ao Oscar de melhor atriz. Assumindo o papel que seria de Teresa Wright - que saiu do projeto por estar grávida -, Jones acabou virando um dos focos do produtor, que via no filme a chance de oferecer a ela o mais emblemático trabalho de sua carreira (a despeito de Jones já ter uma estatueta em casa, por "A canção de Bernadette", de 1943). Para torná-la ainda mais atraente, Selznick chegou ao extremo de contratar o veterano diretor Joseph von Sternberg apenas para cuidar do visual da produção (leia-se da própria Jennifer). Não ajudou muito. Apesar de algumas sequências fotografadas com um Technicolor de ferir os olhos - especialmente crepúsculos e vastas paisagens -, "Duelo ao sol" não consegue deixar de ser extremamente cafona a maior parte do tempo, desde a concepção dos personagens até a plasticidade perceptivelmente kitsch dos cenários e figurinos. Gregory Peck, no auge da juventude, faz o que pode com um personagem francamente detestável, e só mesmo a ótima Butterfly McQueen (a Prissy de "... E o vento levou") para conseguir arrancar um pouco de humor do roteiro - ainda que faça praticamente o mesmo papel que fez no clássico de 1939.

Mas o pior de tudo é perceber como o roteiro trata de temas polêmicos sem a menor preocupação com o politicamente correto - termo longe de ser conhecido nos anos 1940. Não é que "Duelo ao sol" ignore todas as convenções: ele simplesmente faz questão de apresentá-las sob uma ótica de normalidade (o que, à época, poderia até não chocar ninguém, mas hoje em dia é absolutamente desprezível). No roteiro não faltam menções preconceituosas a respeito de indígenas (a protagonista é frequentemente tratada como "mestiça", em tom pejorativo) e imigrantes; a forma como Lewt trata Pearl é agressiva - a primeira noite de sexo entre eles é claramente um estupro - e, o que é pior, a trama é conduzida de modo a fazer o público torcer pelo romance abusivo (a ponto de Pearl apaixonar-se por ele justamente pelo jeito que ele a trata). Os atos de Lewt não são os atos de um homem apaixonado defendendo a mulher que ama, e sim o de um proprietário cuidando do que possui, uma mercadoria que precisa estar sempre a sua disposição. Sem disfarçar tais elementos francamente absurdos, o roteiro ainda peca por ser superficial e desnecessariamente longo, em mais uma tentativa de criar uma embalagem de épico para um filme que, apesar de ter seus fãs, é um dos mais discutíveis clássicos da velha Hollywood.

domingo

O AMANHÃ É ETERNO

O AMANHÃ É ETERNO (Tomorrow is forever, 1946, International Pictures, 104min) Direção: Irving Pichel. Roteiro: Lenore Coffe, estória de Gwen Bristow. Fotografia: Joe Valentine. Montagem: Ernest Nims. Música: Max Steiner. Figurino: Jean Louis. Direção de arte: Wiard B. Ihnen. Produção: David Lewis. Elenco: Orson Welles, Claudette Colbert, George Brent, Lucile Watson, Richard Long, Natalie Wood. Estreia: 18/01/46

Em 1946, Orson Welles já não era mais considerado apenas o gênio precoce por trás do revolucionário "Cidadão Kane" (1941): seu filme seguinte, "Soberba" (1942), havia sido mutilado pela RKO, com medo de um novo fracasso de bilheteria, e o ambicioso documentário "It's all true" (com cenas filmadas no Brasil) nem chegou a ser completado. Foi, então, sem maiores expectativas, que ele estrelou "O amanhã é eterno", um melodrama com enredo de telenovela e produção caprichada que tem em sua presença um dos principais atrativos. Na pele de um herói romântico e desprendido, ele mostra que, além de cineasta de imenso talento, também era um intérprete poderoso, capaz de agigantar um filme sem grandes pretensões artísticas. Ao lado da sempre ótima Claudette Colbert e uma estreante Natalie Wood (ainda criança), Welles faz do filme de Irving Pichel uma história de amor tocante e ainda com ecos da recém terminada II Guerra Mundial.

A trama, roteirizada por Lenore Coffe (indicada ao Oscar por "Quatro filhas", de 1938), começa com o final da I Guerra Mundial, comemorado principalmente pela jovem Elizabeth (Claudette Colbert), que finalmente irá reencontrar o marido, John Andrew McDonald (Orson Welles). Sua felicidade, porém, acaba quando ela recebe a notícia de sua morte em combate. Ao desespero de saber-se viúva do grande amor de sua vida junta-se a descoberta de uma gravidez. As coisas só não ficam piores porque seu chefe, Lawrence Hamilton (George Brent), resolve ajudá-la a se recuperar, com a ajuda de sua tia, Jessica (Lucile Watson): apaixonado por Elizabeth, o rapaz lhe propõe casamento e insiste em adotar seu bebê - batizado com o nome do verdadeiro pai. Sem muitas opções, a jovem aceita ambos os pedidos, e juntos, o casal tem mais um filho, algum tempo depois. Vinte anos se passam. Os EUA estão em vias de entrar em outra guerra, para angústia de Elizabeth - que vê seu filho mais velho, Drew (Richard Long), interessado em alistar-se nas tropas do país. É então que o novo químico contratado pela empresa de Lawrence é apresentado à família, junto com sua pequena filha adotiva, Margaret (Natalie Wood). O dr. Erik Kessler, na verdade, é John Andrew, que não morreu, mas, desfigurado por uma explosão, decidiu ficar longe da mulher que amava - e, depois de uma cirurgia plástica inovadora, se reinventou com nova identidade.


Logo que chega à casa de seu novo chefe, Andrew/Kessler reconhece Elizabeth, mas ela não é capaz do mesmo. Se aproximando aos poucos da família, ele constata que Drew é seu filho - e que ainda é apaixonado pela mulher da qual se afastou. Mas a iminência do aniversário de 21 anos do rapaz (data que lhe permitirá tomar suas decisões sem precisar da autorização dos pais) acelera as decisões que o antigo soldado precisa tomar. Afinal, ele precisa revelar sua real identidade? Ou é melhor manter tudo como está, sob pena de desestruturar a vida de uma família? Essas questões, típicas de melodrama, são conduzidas com sutileza pelo diretor, que faz uso da bela fotografia em preto-e-branco e da música de Max Steiner para enfatizar o clima dramático do roteiro. Claudette Colbert, do alto de sua elegância, faz o contraponto exato à aura de abnegação do personagem de Welles - um homem misterioso e atormentado por um passado que precisa esconder a qualquer preço. Por fim, há a pequena Natalie Wood, então com apenas oito anos de idade e dotada de um carisma e um talento que, alguns anos mais tarde, a colocariam em destaque no cenário hollywoodiano.

"O amanhã é eterno" é um filme pouco lembrado quando se fala da carreira de Orson Welles - e da própria história do cinema norte-americano. Não ganhou Oscar, não faz parte de nenhuma lista dos melhores filmes de todos os tempos e tampouco é muito conhecido até mesmo pelos maiores fãs da era de ouro de Hollywood. Mas é uma produção sincera, comovente e honesta em suas emoções e objetivos. É uma bela e triste história de amor e abnegação, com a guerra como pano de fundo e um elenco acima de qualquer suspeita. Para ser descoberto

sábado

INDISCRIÇÃO

INDISCRIÇÃO (Christmas in Connecticut, 1945, Warner Bros, 101min) Direção: Peter Godfrey. Roteiro: Lionel Houser, Adele Commandini, estória de Aileen Hamilton. Fotografia: Carl Guthrie. Montagem: Frank Magee. Música: Frederick Hollander. Figurino: Milo Anderson. Direção de arte/cenários: Stanley Fleischer/Casey Roberts. Produção executiva: Jack L. Warner. Produção: William Jacobs. Elenco: Barbara Stanwyck, Dennis Morgan, Sydney Greenstreet, Reginald Gardiner, S. Z. Sakall, Robert Shayne, Una O'Connor, Frank Jenks, Joyce Compton, Dick Elliott. Estreia: 11/8/45

O fim da II Guerra Mundial, em agosto de 1945, não foi um alívio apenas econômico e social: parecia que finalmente, com a derrota da Alemanha nazista, as coisas iriam voltar ao normal, inclusive em Hollywood. Era hora de comemorar a vitória e ter esperanças de um futuro mais auspicioso - e antes que filmes sobre o conflito e seus personagens começassem a pipocar nos cinemas, contando a história já com gostinho de ufanismo, nada mais certeiro do que agradar ao público com comédias leves e despretensiosas, que combinassem com o novo astral. E um dos primeiros filmes a se beneficiarem dessa euforia não poderia caber melhor nessa receita: dirigido pelo britânico Peter Godfrey (um nome reconhecido dos palcos ingleses), "Indiscrição" é uma deliciosa comédia romântica, estrelada por uma atriz mais lembrada por seus papéis dramáticos do que por seus dotes cômicos. Uma bela surpresa para muitos, o show maior do filme de Godfrey é de Barbara Stanwyck, que herdou a protagonista com a saída de Bette Davis do projeto.

Recém saída de "Pacto de sangue" (1944), um de seus filmes mais populares - e onde encarnou uma típica femme fatale do cinema noir -, Stanwyck se reinventa como heroína cômico/romântica, um papel que, futuramente, poderia tranquilamente ser encarnado por Meg Ryan ou Katherine Heigl (mas talvez sem o mesmo resultado). Sem apoiar-se na beleza ou sensualidade, a atriz constrói sua Elizabeth Lane a partir de uma série de mal-entendidos que vão revelando, aos poucos, sua verdadeira natureza sentimental: a princípio uma mulher sem interesses na vida doméstica ou familiar, Lane vai, aos poucos, se apresentando diante do público como uma típica protagonista do gênero - ainda que muito mais independente e geniosa que a maioria delas. Ligeiramente inspirada em uma personalidade real - uma colunista chamada Gladys Taber, colaboradora da revi, sta Family Circle, então popular -, Lane é a antítese da mulher desprotegida e ingênua: conhecida nacionalmente por sua coluna na revista Smart Housekeeping, ela mantém a imagem de dona-de-casa exemplar, encantando seus leitores com a descrição de uma vida simples ao lado do marido, do filho e de um grande talento na cozinha. Acontece que, na verdade, esta imagem não corresponde à verdade, uma vez que ela não apenas é solteira como jamais morou na fazenda onde diz morar e tampouco saber fritar sequer um ovo. Tudo poderia ficar eternamente dessa forma, mas uma inesperada situação muda completamente sua rotina.


Às vésperas do Natal, o editor da revista, Alexander Yardley (Sydney Greenstreet), lhe comunica que, como uma espécie de ação de marketing, irá proporcionar a um soldado recém chegado da guerra que passe os feriados de final de ano junto com a família de Elizabeth. Pior ainda: ele mesmo irá unir-se ao grupo, no que considera um grande e feliz evento. Com medo da possibilidade de ser desmascarada e perder o emprego, a colunista toma uma atitude desesperada e aceita se casar com um dedicado pretendente, John Sloan (Reginald Gardiner) - dono de uma fazenda no interior de Connecticut. Seu plano é tentar manter as aparências até o fim do feriado, com a ajuda do amigo Felix Bassenak (S. Z. Sakall), um chefe de cozinha que é o verdadeiro dono das receitas que ela publica - mas as coisas saem do previsto quando ela se apaixona pelo soldado, Jefferson Jones (Dennis Morgan), e põe em risco o teatro. A partir daí, é um festival de troca de bebês, diálogos inspirados, mal-entendidos e um toque de romance na medida certa.

Apesar do título original - "Natal em Connecticut" - e do tema, "Indiscrição" estreou nos EUA no mesmo mês de agosto que decretou o final da guerra. Teve sorte: fez um enorme sucesso de bilheteria, principalmente pelo tom alto astral e pela despretensão. Com o objetivo único de entreter e fazer esquecer (ao menos por 100 minutos) os horrores de um conflito que já durava anos, o filme encontrou seu público e rendeu muito mais do que seu estúdio, a Warner, esperava. Foi um sucesso merecido: é engraçado, leve, dinâmico e inteligente como um bom passatempo deve ser. Não é dos clássicos mais conhecidos, mas até mesmo quem tem preconceito contra o gênero pode perceber suas qualidades. É um filme que merece ser redescoberto!

sexta-feira

ESTE MUNDO É UM HOSPÍCIO

ESTE MUNDO É UM HOSPÍCIO (Arsenic and old lace, 1944, Warner Bros, 118min) Direção: Frank Capra. Roteiro: Julius J. Epstein, Philip G. Epstein, peça teatral de Joseph Kesselring. Fotografia: Sol Polito. Montagem: Daniel Mandell. Música: Max Steiner. Figurino: Orry-Kelly. Direção de arte/cenários: Max Parker. Produção executiva: Jack L. Warner. Elenco: Cary Grant, Priscilla Lane, Raymond Massey, Jack Carson, Edward Everett Horton, Peter Lorre, James Gleason. Estreia: 01/9/44

Os espectadores acostumados com as produções de caráter construtivo do cineasta Frank Capra levaram um susto quando, em setembro de 1944, finalmente estreou nos EUA seu "Este mundo é um hospício": longe de ser um filme de espírito nobre, com personagens íntegros e mensagens otimistas, a adaptação da peça teatral de Joseph Kesselring era uma comédia de humor negro que, a despeito do diretor e da presença do astro Cary Grant, em nada lembrava seus trabalhos anteriores, especialmente os três que lhe deram o Oscar - "Aconteceu naquela noite" (1934), "O galante Mr. Deeds" (1936) e "Do mundo nada se leva" (1938). Sem o otimismo inquebrantável que marcava a filmografia de Capra - mas ainda com altas doses de bom humor -, o filme que o diretor realizou imediatamente antes de partir para a II Guerra como voluntário é uma comprovação de sua versatilidade e uma das comédias mais interessantes dos anos 1940, por sua temática inusitada e personagens politicamente incorretos.

A trajetória de "Este mundo é um hospício" em direção às telas começou com sua estreia teatral, na Broadway, em 10 de janeiro de 1941. No mesmo ano, a Warner Bros desembolsou 175 mil dólares pelos direitos de adaptação - mais 15% da renda para os produtores da peça, Howard Lindsay e Russel Crouse - e atraiu Capra para a direção. Ávido para mostrar seu talento em filmes menos inspiradores e sérios, o cineasta abraçou o projeto com entusiasmo, mas logo alguns problemas começaram a aparecer. Primeiro, a presença de Boris Karloff no filme (no papel que ele criara no palco) não aconteceu, para desgosto do ator, que viu seus colegas de cena Josephine Hull, Jean Adair e John Alexander brilharem na transposição para o cinema: os Lindsay e Crouse não liberaram o astro de filmes de terror nem mesmo com a proposta da Warner em emprestar Humphrey Bogart para substituí-lo nos palcos pelo tempo das filmagens e Raymond Massey acabou com seu papel, sob pesada maquiagem. Além disso, Bob Hope - a primeira escolha do estúdio para um dos papéis centrais -, não foi liberado pela Paramount, e Cary Grant, escalado para o filme, não exatamente fã do projeto. Emprestado da Columbia para estrelar "Satã janta conosco", Grant perdeu o papel (por clamor popular) para Monty Wooley e, sem nada programado pelo período de contrato, acabou escolhido pelo estúdio - mas não se adaptou com o estilo de Capra, foi severamente criticado pela imprensa da época por um suposto exagero em sua atuação e nunca gostou do resultado final do filme.


Mas se a interpretação de Grant mereceu críticas - e realmente em alguns momentos em que ele parece destoar do tom do restante do elenco, apesar de não comprometer o todo -, é preciso também responsabilizar Frank Capra. O cineasta, ciente do que estava acontecendo, pretendia corrigir os excessos no processo de edição - mas, com a entrada dos EUA na II Guerra, após o ataque japonês a Pearl Harbor, em dezembro de 1941, mal acabou as filmagens e partiu para produzir documentários sobre o conflito. Sem o controle do diretor na fase de montagem, "Este mundo é um hospício" permaneceu com seus pequenos defeitos (um ritmo por vezes cansativo, entre eles), mas não deixa de ser um entretenimento de primeira, divertidíssimo com sua trama nonsense, seus diálogos brilhantes e a ousadia de tratar de um tema pesado (assassinatos em série) sem apelar para o sensacionalismo. Filmado quase totalmente em um único cenário (o que mantém sua estrutura teatral bem definida) e centrado basicamente nas marcações do elenco e sua interação, o filme é uma aula narrativa - pode até aborrecer quem não gosta do estilo, mas é de um notável equilíbrio entre as linguagens de cinema e teatro.


Obrigada, por contrato, a não estrear o filme antes que a montagem teatral fosse encerrada na Broadway, a Warner Bros engavetou "Este mundo é um hospício" até setembro de 1944 - levando-se em consideração que as filmagens foram encerradas em dezembro de 1941, foram quase três anos de espera até seu lançamento (ainda que soldados das Forças Armadas tenham tido acesso ao material antes, por cortesia de Jack L. Warner). Esse atraso no lançamento impediu que o filme fosse considerado para o Oscar, mas sua qualidade cômica tornou-o um pequeno clássico. A história gira em torno de Mortimer Brewster (Cary Grant), um crítico teatral que, avesso ao casamento, acaba de ceder à tentação de comprometer-se com a bela Elaine Harper (Priscilla Lane). Nesse mesmo dia, em clima de comemoração, ele descobre que suas amáveis e delicadas tias, Abby (Josephine Hull) e Martha (Jean Adair), tem quase uma dúzia de cadáveres de homens solitários enterrados no porão - vítimas de sua "compaixão", que as leva a envenená-los para tirá-los da solidão. Enquanto tenta lidar com a situação inusitada, Brewster ainda tem que internar o irmão desequilibrado que pensa que é Theodore Roosevelt (John Alexander) e reencontrar outro irmão, Jonathan (Raymond Massey), foragido da prisão e que, ao lado do pretenso médico Einstein (Peter Lorre), quer resolver antigas pendências familiares.

Com um ritmo frenético que mal dá tempo ao espectador de recuperar-se de uma sequência de acontecimentos para cair em outra, "Este mundo é um hospício" se beneficia - e muito - do desempenho exemplar de Josephine Hull e Jane Adair, como duas cândidas e inocentes tia que agem como exemplares senhoras idosas enquanto se igualam ao sobrinho assassino procurado pela polícia. Com personagens secundários igualmente deliciosos e reviravoltas constantes, o filme - roteirizado pela dupla Julius e Philip G. Epstein, de "Casablanca" - cumpre o que promete e, se não é o melhor Frank Capra, é, sem dúvida, a ovelha negra em sua filmografia, graças a seu total desprendimento em relação a valores morais e éticos. É simplesmente uma comédia. E das boas!!

quinta-feira

UM BARCO E NOVE DESTINOS

UM BARCO E NOVE DESTINOS (Lifeboat, 1944, 20th Century Fox, 97min) Direção: Alfred Hitchcock. Roteiro: Jo Swerling, estória de John Steinbeck. Fotografia: Glen MacWilliams. Montagem: Dorothy Spencer. Música: Hugo Friedhofer. Figurino: Rene Hubert. Direção de arte/cenários: James Basevi, Maurice Ransford/Thomas Little. Produção: Kenneth Macgowan. Elenco: Tallulah Bankhead, William Bendix,Walter Slezak, Mary Anderson, John Hodiak, Henry Hull, Heather Angel, Hume Cronyn, Canada Lee. Estreia: 11/01/44

3 indicações ao Oscar: Diretor (Alfred Hitchcock), História Original, Fotografia em preto-e-branco

Apesar de sua vitoriosa e aplaudida carreira ter sido uma das mais consistentes da história do cinema, o cineasta inglês Alfred Hitchcock nunca foi muito considerado pela Academia de Hollywood. Em todas as longas décadas em que esteve na ativa, concorreu ao Oscar em cinco ocasiões, mas foi homenageado apenas com uma estatueta pelo conjunto da obra, em 1968. A segunda vez em que foi lembrado - a primeira foi por "Rebecca: a mulher inesquecível", que ganhou o prêmio máximo em 1940 - foi por um filme que, levando-se em consideração toda a sua extensa filmografia, pode ser considerado quase um estranho no ninho. Além de ter sido um dos poucos filme do mestre do suspense a não fazer o costumeiro sucesso de bilheteria, "Um barco e nove destinos" mostrava um outro lado do cineasta, preocupado com questões técnicas e ousadias visuais. Sem trilha sonora (exceto na abertura e no encerramento), com um único cenário, sem vilões aparentes e um desenvolvimento gradual da trama, que apresenta diversos episódios dotados de clímax próprio, o filme mostra que Hitchcock era mais do que simplesmente um exímio contador de histórias: por trás da aparente simplicidade do roteiro, há uma crítica mordaz, em plena guerra, ao despreparo dos países democratas diante da ameaça organizada no nazismo. Tal nuance não agradou muito aos críticos americanos, mas em nada apaga o brilhantismo do resultado final. Pelo contrário, lhe oferece um outro nível de compreensão e entendimento.

Segundo declaração do próprio Hitchcock a François Truffaut em sua longa entrevista, sua intenção era fazer de seu filme um microcosmo da guerra, que ainda estava a pleno vapor. Conhecido por suas ideias políticas liberais, o escritor John Steinbeck foi chamado pelo cineasta para criar o argumento da produção, logo desenvolvido por Jo Swerling, colaborador de Frank Capra. No primeiro dos dois filmes que seu contrato de empréstimo com a 20th Century Fox previa (o segundo nunca chegou a acontecer, devido ao atraso nas filmagens e estouro do orçamento), Hitch tomou algumas decisões impopulares junto aos executivos da produção. Primeiro, decidiu que todo o filme seria rodado em ordem cronológica (ou seja, todo o elenco precisaria estar à sua disposição pelo tempo que as gravações durassem). Depois, resolveu (acertadamente, por razões óbvias) que tudo seria feiito em estúdio (o que obrigou a Fox a construir um tanque com milhões de litros de água). E, em terceiro lugar, não só abriria mão de uma trilha sonora constante como escolheu um elenco sem grandes astros (ou seja, sem nenhum astro com apelo o suficiente para garantir o retorno do investimento). Além disso, bateu pé em filmar cada página do roteiro, para desespero de Darryl Zanuck, que temia que o resultado final ultrapassasse as três horas de duração.


As filmagens também não foram exatamente um passeio na floresta. Problemas logísticos (que nem o uso de quatro botes diferentes, dois deles cortados ao meio, conseguiam facilitar) se acumulavam conforme o tempo passava: por duas ocasiões a produção teve que parar completamente para que os atores se recuperassem (das pneumonias de Tallulah Bankhead, de uma doença de Mary Anderson e de duas costelas quebradas de Hume Cronyn, que também quase se afogou) e a tensão era constante entre a politizada Bankhead e o ator austríaco Walter Slezak, com quem ela mantinha frequentes atritos a respeito de sua origem e do fato de seu personagem ser um nazista. De certa forma, esta animosidade serviu como uma luva para o clima de paranoia e hostilidade que permeia toda a narrativa, e contribuiu para que o filme não se tornasse apenas uma demonstração da habilidade técnica de Hitchcock. Sem maiores artifícios que não sua trama, seu elenco e sua capacidade de extrair o máximo de cada momento, o diretor acabou por realizar um extraordinário exercício dramático - merecidamente listado entre os dez melhores filmes do ano pela National Board of Review.

A trama começa com o naufrágio de um navio americano, saído de Nova York com destino a Londres, atacado por um bombardeiro alemão no meio do Oceano Atlântico. Os sobreviventes do desastre acabam se reunindo em um pequeno barco salva-vidas, onde precisam colocar de lado suas diferenças sociais e culturais enquanto esperam por socorro (ou tentam imaginar algum modo de sair da angustiante situação). A experiente jornalista Connie Porter (Tallulah Bankhead) logo percebe que as coisas não serão fáceis, apesar da aparente união do grupo em prol do mesmo objetivo. Fazem parte da turma o engenheiro do navio, John Kovac (John Hodiak), o operador de rádio Stanley Garrett (Hume Cronyn), a enfermeira Alice McKenzie (Mary Anderson), o milionário Charles Rittenouse (Henry Hull), o marinheiro Gus Smith (William Bendix), o comissário de bordo Joe (Canada Lee), e uma jovem mãe inglesa junto com seu bebê. Se as probabilidades de sobrevivência são pequenas, elas ficam ainda mais complicadas quando o grupo resgata Willi (Walter Slezak), um alemão no qual eles não sabem se podem confiar plenamente. A partir daí, Hitchcock constrói sua teia, oferecendo a cada personagem uma personalidade complexa e multidimensional - as quais ele conduz com inteligência e precisão. O maior destaque acaba ficando mesmo com Tallulah Bankhead, que acabou sendo eleita a melhor atriz do ano pelos críticos de Nova York: sua Constance Porter é, de certa forma, a voz da razão entre os colegas, e provavelmente a personagem com arco dramático mais completo, conforme vai se despojando de seus luxos como forma de manter-se viva. Longe de ser considerado um dos maiores filmes de Hitchcock, "Um barco e nove destinos" merece ser redescoberto e estudado como um de seus mais bem-sucedidos exercícios narrativos e visuais.

quarta-feira

LAURA

LAURA (Laura, 1944, 20th Century Fox, 88min) Direção: Otto Preminger. Roteiro: Jay Dratler, Samuel Hoffenstein, Elizabeth Reinhardt, romance de Vera Caspary. Fotografia: Joseph LaShelle. Montagem: Louis Loeffler. Música: David Raskin. Figurino: Bonnie Cashin. Direção de arte/cenários: Leland Fuller, Lyle Wheeler/Thomas Little. Produção: Otto Preminger. Elenco: Gene Tierney, Dana Andrews, Clifton Webb, Vincent Price, Judith Anderson. Estreia: 11/10/44

5 indicações ao Oscar: Diretor (Otto Preminger), Ator Coadjuvante (Clifton Webb), Roteiro Adaptado, Fotografia em preto-e-branco, Direção de Arte/Cenários em preto-e-branco
Vencedor do Oscar de Fotografia em preto-e-branco 

A carreira do cineasta Otto Preminger ficou marcada eternamente pelo filme "Laura", um dos pilares do que é hoje conhecido como cinema noir hollywoodiano. Indicado ao Oscar por seu trabalho, porém, ele por pouco não ficou restrito ao cargo de produtor. Graças a conflitos internos dentro da própria indústria - mais precisamente com o chefão da 20th Century Fox, o poderoso Darryl F. Zanuck -, Preminger estava com a carreira em compasso de espera quando convenceu o estúdio a prestar atenção em um livro da escritora Vera Caspary, uma trama policial contada sob o ponto de vista de cinco personagens e que tinha grande potencial de transformar-se em um excelente filme. Zanuck, com quem ele tinha uma rusga que vinha desde sua substituição nas filmagens de "Raptado" (1938) e que havia jurado que ele nunca mais dirigiria um filme na Fox enquanto ele estivesse no comando, seguiu seu conselho, garantiu os direitos do romance - mas, conforme o prometido, não lhe ofereceu a direção. Preminger podia até produzir "Laura", mas o diretor seria Rouben Mamoulian. Preminger se conformou (relativamente) com o fato, mas não perdeu as esperanças. Até que finalmente os ventos começaram a soprar em seu favor.

Logo que as primeiras imagens feitas por Mamoulian chegaram a Preminger ele imediatamente percebeu que havia algo errado: notando erros na concepção visual do cineasta, nas interpretações e na condução geral do filme, ele buscou apoio justamente em Zanuck - que concordou com suas observações e exigiu refilmagem de tudo que havia sido feito até então. Quando os ajustes se provaram ainda piores do que as cenas originais, no entanto, o chefão da Fox fez o que Preminger tanto esperava: demitiu Mamoulian e permitiu que ele finalmente assumisse o posto de diretor. Realizado, o novo comandante entrou em cena com a missão de recuperar as duas semanas perdidas - e o fez em grande estilo. Substituiu o diretor de fotografia (Lucien Ballard por Joseph LaShelle), alterou figurinos e cenários - incluindo a pintura da protagonista, feita pela esposa de Mamoulian - e direcionou sua atenção aos atores e seus personagens. Preminger sentia que entendia melhor os personagens do que Mamoulian - que, segundo ele, não conhecia pessoas como as retratadas no filme (leia-se pouco confiáveis e/ou agradáveis). Preminger sabia que seus personagens não eram exemplos de boa conduta, tampouco eram boas pessoas - e tinha certeza de que essa era uma das maiores qualidades do roteiro, e uma das chaves para seu sucesso no gênero, então dando seus primeiros passos no imaginário popular.


E é o imaginário um ponto crucial em "Laura": sua protagonista é, em boa parte da narrativa, a soma de várias versões, de várias abstrações, de pontos de vistas conflitantes e/ou complementares. Laura Hunt (Gene Tierney) é uma bela e sedutora publicitária, cujo violento assassinato dá início ao filme: com o objetivo de desvendar o homicídio aparentemente gratuito - a vítima foi morta com um tiro de espingarda no rosto -, o detetive Mark McPherson (Dana Andrews) é obrigado a tomar contato com o universo sofisticado e quase fútil que a cercava. Isso inclui seu noivo, Shelby Carpenter (Vincent Price), a socialite Ann Treadwell (Judith Anderson) e o colunista Waldo Lydecker (Clifton Webb) - principal fonte de informações a respeito dos últimos dias de vida da morta, por quem nutria um sentimento indisfarçável de posse. Enquanto busca descobrir os motivos que levaram ao crime (e separa as verdades das mentiras contadas pelos suspeitos), McPherson acaba apaixonado por Laura, que exerce sobre ele um incômodo fascínio, seja através dos depoimentos ou devido a um hipnotizante retrato da jovem, que enfeita sua sala de estar. Com as cartas já expostas na mesa e a investigação em andamento, porém, um fato novo joga tudo em uma nova perspectiva: o retorno de Laura, que reaparece para surpresa de todos - e passa a fazer parte dos candidatos a assassino.

Grande sucesso popular em seu lançamento - em especial a bela música-tema, composta por David Raskin - e cultuado continuamente pela crítica, "Laura" é, na verdade, um filme que tinha tudo para dar errado. Dos problemas com a troca de direção (e suas subsequentes substituições em cargos-chave) até os atritos entre Otto Preminger e Darryl F. Zanuck (que insistia em impor sua vontade em alguns pontos, sempre perdendo para o diretor), tudo apontava para um resultado no mínimo duvidoso. A escalação do elenco - ainda no início do projeto - já dava mostras do que vinha pela frente: o papel-título, cobiçado por Marlene Dietrich, foi oferecido a Rosalind Russell e recusado (a atriz considerou-o pequeno); Zanuck queria sua mulher, Jennifer Jones, mas Preminger, na prerrogativa de produtor, preferiu Gene Tierney, que acabou marcada para sempre por seu desempenho etéreo e dúbio. E Clifton Webb, que chegou a ser indicado ao Oscar de coadjuvante por sua volta ao cinema depois de dezenove anos, não era nem de longe a escolha do chefão Zanuck, que temia que o fato do ator ser homossexual assumido comprometesse o desempenho do filme nas bilheterias - uma falácia sem tamanho, uma vez que Webb é um dos pilares de "Laura" e dono de alguns de seus melhores diálogos. Construído de forma eficiente e intrigante, "Laura" se beneficia do clima de mistério imposto pelo cineasta e pela bela fotografia (premiada pela Academia), além de envolver a plateia em uma trama que surpreende sem soar inverossímil e conquista pela elegância que transmite apesar da podridão que esconde debaixo dos caros tapetes de seus protagonistas. Um clássico eterno e justificado!

terça-feira

SOMBRA DO PAVOR

SOMBRA DO PAVOR (Le corbeau, 1943, Continental Films, 92min) Direção: Henri- Georges Clouzot. Roteiro: Louis Chavance, adaptação de Henri-Georges Clouzot, Louis Chavance. Fotografia: Nicholas Hayer. Montagem: Marguerite Beuagé. Música: Tony Aubin. Direção de arte: Andrej Andrejew. Produção: René Montis, Raoul Ploquin. Elenco: Pierre Fresnay, Ginette Leclerc, Micheline Francey, Héléna Manson, Pierre Larquey, Louis Seigner. Estreia: 28/9/43

Em 1943, a sensação era de medo e indefinição. A guerra já estava em curso há quatro anos e a Alemanha nazista ameaçava dominar o mundo com sua postura eugenista e genocida. Nesse cenário, triste, sombrio e desesperador, poucos filmes fariam mais sentido do que "Sombra do pavor", segundo longa-metragem do cineasta Henri-Georges Clouzot - que mais tarde assinaria os clássicos "As diabólicas" e "Salário do medo". Se utilizando da atmosfera claustrofóbica provocada pela situação política para construir um suspense baseado em um clima de paranoia geral, Clouzot brindou a plateia com uma sofisticada trama em que ninguém parece ser exatamente inocente - mas nem todos são totalmente culpados. Inspirado em uma história real ocorrida em uma pequena cidade no sul da França entre 1917 e 1922, "Sombra do pavor" não foi recebido com o entusiasmo que merecia quando estreou, mas, aos poucos, foi tornando-se um filme que faz jus à fama do cineasta de ser o "Hitchcock francês". Sem apelar para a violência gratuita e sustos estéreis, o filme de Clouzot é uma pequena obra-prima do gênero - e injustamente relegado a um segundo plano em sua carreira.

Taxado de colaboracionista por ter se mantido ativo durante a ocupação alemã durante a II Guerra, Clouzot ficou impedido de filmar em solo francês até 1947 - destino semelhante a outros membros da equipe, como a atriz Micheline Francey, o ator Noel Roquevert e o desenhista de produção Andrej Andrejew, todos suspensos por terem trabalhado para a Continental Films, uma companhia germânica. Mas foi a Continental quem teve coragem de bancar "Sombra do pavor", um filme que claramente refletia, em tom de ficção, o tumultuado estado de espírito de uma nação aprisionada. Como um microcosmo do país está a pequena Saint Robin, uma cidadezinha do interior cujos habitantes mais notórios começam a receber cartas anônimas, que acusam outros moradores de crimes e condutas questionáveis. O principal alvo do remetente - que assina com o pseudônimo "O corvo" - é o médico Rémy Germain (Pierre Fresnay), que não apenas é acusado de manter um romance com Laura (Micheline Francey), a esposa de Vorzet (Pierre Larquey) seu colega psiquiatra como também de cometer abortos nas mulheres que o procuram clandestinamente. Aos poucos outras cartas começam a jogar uns contra os outros, com acusações as mais variadas - de fraudes financeiras a romances extraconjugais. Porém, quando um paciente comete suicídio a situação foge do pretenso controle, com a prisão de uma enfermeira e uma onda de histeria coletiva que transfigura a imagem de tranquilidade do local.


Não são poucas as qualidades de "Sombra do pavor": da ambientação soturna (cortesia da fotografia esplêndida de Nicholas Hayer) ao elenco de atores totalmente imersos em personagens que são, de certa forma, representações de setores da sociedade (médicos, padres, pessoas comuns), tudo funciona como um relógio. Clouzot usa sua câmera como uma espécie de voyeur, se infiltrando por entre as vielas da cidade, pelos quartos e consultórios, quase pelos pensamentos de seus moradores. Há uma profusão de ângulos inusitados, sempre buscando o melhor efeito no público, que é incapaz de resistir ao desenrolar da trama e buscar, assim como os personagens, descobrir quem, dentre eles, é capaz de um estrago tão grande através de um artifício tão simples. O roteiro faz questão de soltar pistas falsas (e até criar um falso desfecho, perto do fim), e construir sequências exemplares, como a cena do funeral - em que uma carta é jogada no meio da rua - ou na igreja - quando o remetente anônimo deixa que a carta flutue em direção aos fiéis. Clouzot se beneficia, também, de uma gama de personagens cujos segredos (ou meias-verdades) são essenciais ao mistério e à complexidade do enredo - que rendeu, em 1951, um remake americano, dirigido por Otto Preminger e chamado "Cartas venenosas" (The 13th letter).

"Sombra do pavor" é um filme de suspense exemplar! Oferece à audiência uma trama consistente e intrigante, uma direção inteligente - que evita o clichê - e um elenco sob medida. Foge dos sustos fáceis e do sangue aos borbotões e opta pela angústia psicológica, enfatizada por um visual caprichado e extremamente meticuloso. Clouzot chega, em momentos de extrema sofisticação narrativa, a filmar sob o ponto de vista das cartas, dando a elas o status de personagem - nada mais justo quando se trata de um filme em que elas são praticamente as protagonistas. Pode até lembrar "As bruxas de Salem" - a peça teatral de Arhur Miller sobre a histeria coletiva no interior de Massasuchets no século XVII - mas tem personalidade própria e demonstra, sem espaços para qualquer dúvida, que Henri-Georges Clouzot foi um dos maiores cineastas da Europa e um dos mestres do gênero.

DUELO AO SOL

DUELO AO SOL (Duel in the sun, 1946, Selznick International Pictures, 129min) Direção: King Vidor. Roteiro: David O. Selznick, inspirado n...