domingo, 13 de novembro de 2016

SONHOS ERÓTICOS DE UMA NOITE DE VERÃO

SONHOS ERÓTICOS DE UMA NOITE DE VERÃO (A midsummer night's sex comedy, 1982, Orion Pictures, 88min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Gordon Willis. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Santo Loquasto. Direção de arte/cenários: Mel Bourne/Carol Joffe. Produção executiva: Charles H. Joffe. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Woody Allen, Mia Farrow, José Ferrer, Julie Hagerty, Tony Roberts, Mary Steenburgen. Estreia: 16/7/82

Em 1982, o prestígio de Woody Allen, conquistado pelos Oscar de filme, roteiro e direção por "Noivo neurótico, noiva nervosa" (77) já não era mais o mesmo, principalmente entre crítica e público, que não aderiram com o mesmo entusiasmo a seus filmes seguintes. O denso "Interiores" (78), o poético mas pouco compreendido à época "Manhattan" (79) e o onírico e surreal "Memórias" (80) haviam afastado a plateia das salas de cinema, e o cineasta nova-iorquino parecia ter perdido o caminho para reconquistá-la. Antes que "Zelig" (83) - o falso documentário sobre um homem com a capacidade de transmutar-se em qualquer coisa que estivesse perto de si - recuperasse parte de seu sucesso, porém, Allen teve de enfrentar outro revés artístico: a comédia "Sonhos eróticos de uma noite de verão", que não apenas passou praticamente em branco pelas telas como amargou uma pouco agradável indicação ao Framboesa de Ouro de Pior Atriz para Mia Farrow - então em sua primeira colaboração com o diretor, com quem viveria até 1992 e faria ao todo 13 filmes.

Farrow, aliás, não era a primeira escolha para o papel que lhe coube, e só entrou no projeto porque a atriz inicialmente escalada, Diane Keaton, foi obrigada a abdicar do papel quando as filmagens foram adiantadas. Na verdade, "Zelig" - este sim com Farrow no papel principal feminino - deveria chegar às telas antes, conforme o combinado com a Orion Pictures, estúdio responsável pela produção. Uma série de problemas técnicos, porém, adiaram o lançamento por um ano, o que fez com que Allen, devendo um filme para estrear ainda em 1982, resolvesse criar um novo roteiro, despretensioso e leve, para ser filmado simultaneamente e lançado antes. Surgia, então, "Sonhos eróticos de uma noite de verão", com o título original inspirado em Shakespeare e o roteiro calcado em outra referência do cineasta, "Sorrisos de uma noite de amor" (55), de Ingmar Bergman. Com um elenco enxuto para dar conta de apenas oito personagens, o filme foi rodado no interior de Nova York e, com a fotografia sempre iluminada de Gordon Willis e as belas paisagens a serviço da trama, é uma lufada de ar fresco em uma filmografia que estava em um período de severa transição entre o humor popular e a busca pelo respeito artístico.

A trama, simples e repleta de um humor inteligente e sem as elocubrações intelectuais costumeiras na filmografia de Allen gira em torno de três casais e sua constante busca pela realização amorosa e sexual no início do século XX. O cenário é uma bucólica casa no interior, onde mora o inventor Andrew (Woody Allen) e sua esposa, Adrian (Mary Steenburgen), que passam por uma crise de vácuo sexual em seu relacionamento. É durante esse doloroso processo que eles resolvem receber a visita do respeitado professor Leopold (Jose Ferrer), que está a dias de casar-se com a jovem Ariel (Mia Farrow), filha de uma família de políticos e que teve, no passado, uma história mal resolvida com Andrew. Não bastasse esse reencontro inesperado, Ariel também chama a atenção de Maxwell (Tony Roberts), um médico mulherengo, amigo de Andrew, que chega à propriedade na companhia de sua nova conquista, Dulcy (Julie Hagerty). A ciranda de romance entre esses seis personagens é que move a trama, com elementos que remetem ao dramaturgo Anton Tchekov e um clima pastoril radicalmente oposto às características urbanas do diretor.

Mesmo fazendo parte do grupo de filmes menos louvados e conhecidos de Woody Allen, "Sonhos eróticos de uma noite de verão" apresenta alguns momentos de pura poesia visual e diálogos saborosos de que apenas o cineasta é capaz. As discussões entre os personagens a respeito de amor e sexo ficam no meio-termo entre a profundidade de suas obras mais densas e o deboche de suas comédias puras, valorizadas pelo elenco à vontade diante de um dos textos mais acessíveis de Allen - e isso inclui a própria Mia Farrow, cuja indicação ao Framboesa soa um tanto injusta. Mesmo que seja um pouco difícil de engolir o fato de sua personagem despertar tantas paixões, ela sai-se bastante bem em sua primeira incursão no grupo de colaboradores habituais do cineasta, como o ator Tony Roberts, que trabalhou com ele sete vezes em sua carreira e parece não ter a menor dificuldade em encarnar os personagens criados pelo amigo. É ele o maior destaque do elenco, fazendo uma dupla e tanto com Allen, em especial quando ambos se dedicam a disputar o amor de Ariel - uma situação que ameaça terminar em tragédia mas, graças ao bom humor do roteiro, leva a um desfecho inesperado e poético. Um filme que merece ser redescoberto.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

GENTE COMO A GENTE

GENTE COMO A GENTE (Ordinary people, 1980, Paramount Pictures, 124min) Direção: Robert Redford. Roteiro: Alvin Sargent, romance de Judith Guest. Fotografia: John Bailey. Montagem: Jeff Kanew. Figurino: Bernie Pollack. Direção de arte/cenários: J. Michael Riva, Phillip Bennett/William Fosser, Jerry Wunderlich. Produção: Ronald L. Schwary. Elenco: Donald Sutherland, Mary Tyler Moore, Timothy Hutton, Judd Hirsch, Elizabeth McGovern, M. Emmet Walsh. Estreia: 19/9/80

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Robert Redford), Atriz (Mary Tyler Moore), Ator Coadjuvante (Judd Hirsch), Ator Coadjuvante (Timothy Hutton), Roteiro Adaptado
Vencedor de 4 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Robert Redford), Ator Coadjuvante (Timothy Hutton), Roteiro Adaptado
Vencedor de 5 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (Robert Redford)), Atriz/Drama (Mary Tyler Moore), Ator Coadjuvante (Timothy Hutton), Revelação Masculina (Timothy Hutton) 

Em 1979, a Academia de Hollywood achou por bem oferecer suas mais valiosas estatuetas - melhor filme, direção, roteiro e ator - a um pequeno drama familiar chamado "Kramer vs Kramer", que também deu a uma então jovem Meryl Streep o prêmio de atriz coadjuvante. A preferência dos votantes por produções mais intimistas e voltadas para sentimentos comuns a uma parcela mais significativa da plateia se manteve no ano seguinte, quando a estreia do ator Robert Redford atrás das câmeras também saiu da cerimônia do Oscar carregado de homenagens. Passando por cima de obras superlativas, como "Touro indomável" (de Martin Scorsese) e "O homem elefante" (de David Lynch), o delicado "Gente como a gente" conquistou as láureas de melhor filme, diretor, roteiro adaptado (de um romance de Judith Guest) e ator coadjuvante (para o estreante Timothy Hutton, na época com apenas 20 anos de idade).

Em termos puramente cinematográficos, talvez realmente tenha sido um exagero da Academia optar pelo filme de Redford em detrimento das obras-primas de Scorsese e Lynch, mas não é difícil compreender suas razões, principalmente se for levada em conta a tendência da época em dar mais atenção a sentimentos discretos do que a grandes explosões de violência e dor. No final dos anos 70, os eleitores da Academia pareciam mais dispostos a abraçar famílias desfeitas do que grandes espetáculos - em uma espécie de surpreendente introspecção que não duraria por muitos anos, uma vez que já em 1982, com "Gandhi", de Richard Attenborough, eles voltaram a prestigiar gigantescas produções. E a obra de Guest, um romance devastador sobre a dor da perda, a incapacidade de lidar com o vazio existencial e o esfacelamento de um núcleo familiar aparentemente perfeito, serviu como uma luva para tais preferências conservadoras do Oscar. O resultado - nada surpreendente depois da chuva de Golden Globes (cinco no total, incluindo um prêmio de revelação masculina para Hutton, que também saiu como melhor coadjuvante) - espelhou também a escolha do National Board of Review e a Associação de Críticos de Nova York. Como se pode ver, não apenas a Academia se deixou seduzir pela sensibilidade de Redford em abordar temas tão difíceis.


"Gente como a gente" lança seu olhar curioso para dentro do lar da família Jarrett - ou o que sobrou dela após a morte do filho mais velho, Buck, em um acidente de barco. Desde o trágico acontecimento, seu irmão caçula, Conrad (Timothy Hutton), não se cansa de sentir-se culpado, o que o levou até mesmo a uma tentativa de suicídio. Já em casa depois de uma temporada em um hospital psiquiátrico, ele tenta retomar a rotina escolar e de treinos na equipe de natação, mas esbarra na frieza da própria mãe, Beth (Mary Tyler Moore), que tinha preferência pelo filho morto e demonstra desprezo e apatia pelo rapaz. Seu sofrimento em relação a isso é amenizado em parte pelas atenções do pai, Calvin (Donald Sutherland) - também aterrorizado pelos acontecimentos - e por seu novo terapeuta, Berger (Judd Hirsch, indicado ao Oscar de ator coadjuvante), que luta para fazê-lo compreender melhor o mundo a seu redor e perceber as coisas como elas realmente são. É graças a ele que o jovem Conrad se sente capaz de iniciar um tímido relacionamento com Jeannine (Elizabeth McGovern) mesmo quando não se sente totalmente apto a isso. Apesar de tudo, porém, é a falta de comunicação com Beth que o devasta - a ponto de ter a certeza absoluta de que não é amado por ela.

Dirigindo seu primeiro filme com ritmo europeu - lento, discreto, delicado - e evitando ao máximo o sentimentalismo barato que poderia vir com uma trama tão repleta de sofrimento, Robert Redford mostrou-se um cineasta interessado em questões relevantes e sinceras. Sua carreira posterior, no comando de uma série de filmes politicamente responsáveis e pungentes, demonstra seu cuidado em narrar histórias onde o maior interesse reside nos personagens e em seus fantasmas interiores. Surge daí seu talento em extrair de seus atores performances memoráveis. Usando sua experiência como ator para melhor orientar seu elenco, Redford consegue a façanha de criar personagens repletos de nuances e complexos a ponto de evitar o que mais se teme em filmes do gênero: o maniqueísmo. Beth, se aparenta uma frieza quase desprezível em relação ao filho mais jovem, tem seus momentos de dor, escondidos sob uma carapaça que nem mesmo a doçura do rapaz consegue romper. Calvin está no meio de um fogo cruzado, entre a mulher por quem se apaixonou e o filho que tenta ajudar (mas quem fará isso por ele?). E Conrad, sentindo-se culpado pela morte do irmão e pela decepção que causou à mãe, vê na autodestruição o caminho mais correto a seguir. São todos personagens fortes e verossímeis, tratados com respeito pelo roteiro de Alvin Sargent, também premiado com o Oscar. Pode não ser um filme espetacular ou que fez o cinema avançar como técnica, mas "Gente como a gente" tem qualidades redentoras e, assistido com o coração aberto, é emocionante e inesquecível.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

FEDORA

FEDORA (Fedora, 1978, Bavaria Atelier, 116min) Direção: Billy Wilder. Roteiro: Billy Wilder, I.A.L. Diamond, estória de Thomas Tryon. Fotografia: Gerry Fisher. Montagem: Stefan Arnsten, Fredric Steinkamp. Música: Miklos Rozsa. Figurino: Charlotte Fleming. Direção de arte/cenários: Alexandre Trauner/Robert André. Produção: Billy Wilder. Elenco: William Holden, Marthe Keller, Hildegard Knef, José Ferrer, Frances Sternhagen, Henry Fonda, Michael York. Estreia: 30/5/78 (Festival de Cannes)

Em 1950, o filme "Crepúsculo dos deuses" retratava, de forma poética e um tanto cruel, o fim de um período de glamour dentro da indústria de cinema de Hollywood. Através da personagem Norma Desmond, vivida com propriedade pela extraordinária Gloria Swanson, o diretor e roteirista Billy Wilder criticava com ferocidade o tratamento dado pela nova geração aos ídolos do passado, normalmente relegados a um mero arremedo de existência quando longe dos holofotes. Vinte e oito anos mais tarde, em seu penúltimo filme, Wilder voltaria ao tema, porém sem o mesmo sucesso e o mesmo tom de ironia. "Fedora", inspirado em um conto de Thomas Tryon, não convenceu a crítica como tantos de seus trabalhos anteriores e acabou ficando conhecido como um filme menor na carreira do brilhante cineasta. De fato, é uma produção menos empolgante, mas ainda assim um filme acima da média, com uma história com reviravoltas o suficiente para manter a atenção até seu minuto final.

Pensado inicialmente como um telefilme a ser lançado na CBS, "Fedora" foi resgatado de tal destino pela United Artists, que, com o nome de Billy Wilder em vista, achou que o filme merecia uma estreia em grande estilo. A oportunidade perfeita surgiu com a retrospectiva da carreira do cineasta, no Festival de Cannes de 1978, mas a morna recepção ao resultado final foi responsável pelo descaso da distribuição do filme no mercado tanto doméstico quanto internacional. Para desgosto do próprio Wilder, até mesmo as exibições-teste foram um tanto desastrosas, com a plateia reagindo de forma inadequada ao desenvolvimento da trama, adaptada para as telas por ele mesmo e seu fiel colaborador I.A.L. Diamond. Recusando-se a editar ainda mais sua obra - já mutilada em 12 minutos pela UA - o diretor, cujo último filme havia sido o também pouco louvado "Avanti!... Amantes à italiana" (72), teve de contentar-se em vê-la passar quase em branco pelos cinemas, de forma melancólica e um tanto quanto injusta que nem mesmo sua apresentação no Festival de Cinema de Chicago deu conta de apagar. Ainda assim, é um filme que merece ser descoberto, nem que seja a título de curiosidade.


William Holden - por coincidência ou não o protagonista também de "Crepúsculo dos deuses" - trabalha novamente sob o comando de Wilder, na pele de Barry Detweiler, um produtor de cinema em crise financeira que, com uma adaptação de "Anna Karenina" em mãos, resolve oferecer o papel principal à reclusa atriz Fedora (Marthe Keller), aposentada das telas e moradora em uma escondida ilha mediterrânea, ao lado de uma condessa idosa e temperamental, um médico misterioso e uma governanta hostil. Em suas tentativas de convencer a atriz a voltar às telas, Barry não hesita em relembrá-la de um encontro de sua juventude, mas esbarra não apenas no perceptível desequilíbrio mental da antiga estrela mas também na resistência de todos que a rodeiam - um grupo de pessoas que parece esconder um grande segredo em relação a ela. Tal segredo acaba vindo à tona depois de uma tragédia inesperada - e Detweiler ficará sabendo, então, que a busca pela eterna juventude pode atingir patamares jamais imaginados.

Contando sua história com ares sombrios e repletos de surpresas mirabolantes, Billy Wilder deixa de lado (um pouco) sua habitual ironia, preferindo dedicar-se a enfatizar o lado doentio e claustrofóbico do mundo do cinema - e das celebridades em geral. Ao mudar completamente o rumo de sua narrativa em seu ato final, o cineasta convida o público a adentrar em uma nova história, digna dos melhores contos de horror de Edgar Allan Poe e dotada de uma melancolia surpreendente, em especial vinda de um homem que conseguiu falar de alcoolismo sem cair no sentimentalismo - em "Farrapo humano" (45) - e do sensacionalismo da imprensa sem apelar para o panfletarismo - em "A montanha dos sete abutres" (51). Como percebendo que também ele estava com sua carreira na reta final, Wilder dá seu recado de forma elegante mas contundente, utilizando-se de um gênero (o suspense) para iluminar uma forma quase patológica de vida, com elementos que lembram bastante "A pele que habito" (2011), de Pedro Almodóvar. Com participações especiais de Henry Fonda e Michael York como eles mesmos, "Fedora" é um Billy Wilder atípico, mas jamais menor. É apenas menos óbvio e requer mais atenção e dedicação.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

A GAIOLA DAS LOUCAS

A GAIOLA DAS LOUCAS (La cage aux folles, 1978, Da Ma Produzione, 103min) Direção: Édouard Molinaro. Roteiro: Francis Veber, Édouard Molinaro, Marcello Danon, Jean Poiret, peça teatral de Jean Poiret. Fotografia: Armando Nannuzzi. Montagem: Monique Isnardon, Robert Isnardon. Música: Ennio Morricone. Figurino: Ambra Danon. Direção de arte/cenários: Marco Garbuglia/Carlo Gervasi. Produção: Marcello Danon. Elenco: Ugo Tognazzi, Michel Serrault, Claire Maurier, Rémi Laurent, Carmen Scarpitta, Benny Luke, Luísa Maneri. Estreia: 25/10/78

3 indicações ao Oscar: Diretor (Édouard Molinaro), Roteiro Adaptado, Figurino
Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme Estrangeiro 

Levando-se em consideração o quanto a plateia norte-americana é avesso a filmes legendados e seu alto grau de conservadorismo, não deixa de ser surpreendente que "A gaiola das loucas", produção italo-francesa dirigida por Édouard Molinaro em 1978 tenha se tornado, à época de seu lançamento, o filme estrangeiro de maior bilheteria nos EUA. Adaptação da peça teatral de Jean Poiret que ficou em cartaz em Paris ininterruptamente entre 1973 e 1978, o filme de Molinaro é uma comédia rasgada, quase histérica e que consegue, quase por milagre, tratar de um assunto delicado - homossexualidade - sem ofender a comunidade gay ou sofrer rejeição do público médio. Assumindo sem medo o histrionismo como forma narrativa e o exagero como forma de atingir a gargalhada, o cineasta mergulha o espectador em um universo recheado de excessos e que conquista justamente por apresentar personagens que, mesmo a um passo do estereótipo, se mostram falíveis e inseguros como boa parte de quem está do lado de fora da tela. Prova maior da sucessão de acertos de Molinaro é o fato de a Academia de Hollywood (normalmente avessa a comédias em suas cerimônias de premiação) ter aberto uma considerável exceção ao lhe indicar a três Oscar, incluindo melhor diretor e roteiro adaptado - além de uma tardia refilmagem feita em 1996 pelo veterano Mike Nichols, também sucesso de bilheteria.

A Gaiola das Loucas do título é a boate parisiense de propriedade do casal Renato Baldi (Ugo Tognazzi) e Albin Mougeotte (Michel Serrault) - que também se apresenta no local, sempre travestido e com shows de grande êxito. Vivendo juntos há mais de vinte anos, eles são surpreendidos com a notícia de que Laurent (Rémi Laurent), fruto da única experiência heterossexual de Renato, irá se casar com a namorada da faculdade. O problema é que a garota é filha de Simon Charrier (Michel Galabru), um político conservador e que zela pela moral e bons costumes da família francesa. Sabendo que contar a verdadeira natureza de seu relacionamento com Albin poderia colocar por água abaixo os planos amorosos do filho, Renato resolve afastar o amante de casa durante o jantar oferecido para que as famílias se apresentem. Ofendido com a ideia, Albin decide comparecer à reunião vestido como a mãe de Laurent - e o que já seria uma atitude temerária fica ainda mais perigosa quando a verdadeira progenitora do rapaz, Simone (Claire Maurier) também surge no apartamento devidamente redecorado para não ferir as suscetibilidades do venerável político.


Trabalhando em ritmo e estrutura de farsa, o roteiro de "A gaiola das loucas" brinca com todos os clichês e estereótipos da homossexualidade masculina, porém o faz com inteligência e respeito. Fica claro, conforme a história anda, que o filme é mais simpático à causa gay - e ao injustiçado Albin, dramático e espalhafatoso - do que à hipocrisia da direita representada por Simon Charrier. Para isso, é claro, o filme conta com a atuação espetacular de Michel Serrault, premiado com o César (o Oscar francês) por seu desempenho nunca aquém de hilariante. Se Ugo Tognazzi sai-se muito bem como a parte racional do casal, sempre tentando manter a paz doméstica mesmo nas crises do parceiro, é Serrault quem tem as cenas e diálogos mais apetitosos, em especial quando, na pele da mãe de Laurent, emplaca uma conversa surreal com o futuro sogro do rapaz. Some-se à essa situação bizarra o interesse da imprensa pelo político depois da morte do presidente em circunstâncias pouco e um empregado insatisfeito com sua obrigação de viver uma farsa e a confusão está formada em todas as frentes.

Sem perder o ritmo de sua narrativa em nenhum momento, sempre acrescentando informações e novidades à trama, Édouard Molinaro faz de "A gaiola das loucas" uma comédia absolutamente bem-sucedida, ao fugir do nicho de produção com temática gay - o que fatalmente o condenaria ao fracasso de bilheteria, haja visto que na década de 70 o assunto era um tabu ainda maior, mesmo no cinema europeu. Sem precisar disfarçar ou amenizar o enfoque na sexualidade de seus protagonistas - ainda que não exiba momentos de intimidade entre eles - o filme simplesmente conta sua história sem preocupar-se em desagradar os setores mais conservadores da plateia. Fazendo rir sem ridicularizar seus personagens (por mais que muitas vezes eles quase implorem por isso), o roteiro entrega à plateia um entretenimento divertido e inofensivo, capaz de fazer rir até ao mais sério dos espectadores. Não à toa, rendeu duas continuações inferiores - em 1980 e 1985 - e permanece vivo na memória do público há mais de trinta anos. Proeza de poucos!

terça-feira, 8 de novembro de 2016

CALIFORNIA SUITE

CALIFORNIA SUITE (California Suite, 1978, Columbia Pictures, 103min) Direção: Herbert Ross. Roteiro: Neil Simon. Fotografia: David M. Walsh. Montagem: Michael A. Stevenson. Música: Claude Bolling. Figurino: Patricia Norris. Direção de arte/cenários: Albert Brenner/Marvin March. P: Produção: Ray Stark. Elenco: Jane Fonda, Alan Alda, Maggie Smith, Michael Caine, Walter Matthau, Elaine May, Richard Pryor, Bill Cosby. Estreia: 18/12/78

3 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Maggie Smith), Roteiro Adaptado, Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Maggie Smith)
Vencedor do Golden Globe de Atriz/Comédia ou Musical (Maggie Smith) 

Em abril de 1976, a peça teatral "California Suite", escrita pelo dramaturgo Neil Simon, estreou em Los Angeles: no espetáculo em quatro atos, quatro atores interpretavam diversos personagens que viviam situações dramáticas e cômicas em um hotel da cidade. Um dos autores mais requisitados por Hollywood na década de 70, não demorou para que Simon transferisse seu texto ácido dos palcos para as telas. Com a direção de Herbert Ross - cineasta em alta na época graças às indicações ao Oscar por dois filmes no mesmo ano, "Momento de decisão" e "A garota do adeus", escrito pelo mesmo Neil Simon - e um elenco com nomes populares e de prestígio, a adaptação foi recebida com entusiasmo pela crítica, mas é bastante óbvio que seu resultado final carece da espontaneidade do palco e da criatividade de sua montagem teatral. Com os personagens interpretados por atores variados, o filme não passa de uma agradável sessão da tarde que sofre do mal da maioria dos filmes episódicos: a irregularidade.

A estrutura da peça - quatro histórias separadas tendo em comum apenas o cenário do hotel de luxo - se mantém na adaptação, mas dessa vez as tramas são claramente distintas em tom e elenco. Quem surge primeiro - em um dos melhores episódios - é a atriz britânica Diana Barrie (Maggie Smith, sensacional), que está em Los Angeles para comparecer à entrega do Oscar, para o qual foi indicada por uma comédia que ela mesma despreza. Como intérprete dramática de clássicos do teatro, ela desdenha do cinema comercial e, em sua presença na cidade, é acompanhada do marido, Sidney Cochran (Michael Caine), que abandonou a carreira de ator e guarda um segredo a sete chaves do grande público. No mesmo hotel em que Diana se prepara para a grande noite, está a jornalista Hannah Warren (Jane Fonda), que deixou Nova York para trás com o objetivo de encontrar o ex-marido, Bill (Alan Alda), e resolver problemas pendentes em relação à filha adolescente e rebelde. O relacionamento falido dos dois ainda tem arestas a aparar - e elas vêm à tona na tarde em que eles passam juntos, relembrando o passado. É o segmento menos interessante do filme, apesar dos intérpretes afiados e do talento superlativo de Fonda.


A terceira história - apesar do fato de todas acontecerem concomitantemente - traz à cidade dois casais de Chicago dispostos a um fim-de-semana de diversão, mas que acaba se tornando um pequeno pesadelo. Os médicos Willi Panama (Bill Cosby) e Chauncey Gump (Richard Pryor) chegam à Los Angeles com suas respectivas esposas, mas o fato de apenas um deles conseguir um quarto decente (por um erro do sistema) é suficiente para que tenha início uma série de pequenas competições internas que culminará em uma confusão sem precedentes dentro do lastimável quarto onde o menos afortunado é obrigado a dormir. É a trama com humor mais físico das quatro, valorizada pela ótima química entre Cosby e Pryor, dois dos maiores nomes do cinema negro norte-americano dos anos 70. A última história é também cômica, e só a presença de Walter Matthau já é mais do que suficiente para arrancar gargalhadas. Ele vive Marvin Michaels, que, enquanto aguarda a chegada da mulher, Millie (a também escritora Elaine May), para o bar mitzvah de um sobrinho, acaba cedendo à tentação de dormir com uma garota de programa - que, para seu desespero, acaba desabando em sua cama no hotel momentos antes do reencontro com a esposa. O timing cômico perfeito de Matthau, aliado ao eterno ar de desligada de May dão o tom exato da farsa criada por Simon - que nem mesmo a direção um tanto engessada de Ross consegue atrapalhar.

No final das contas, "California Suite" é apenas isso: um entretenimento simples, realizado por gente competente e sem ambições maiores do que divertir enquanto dura. Maggie Smith se deu bem por seu desempenho, ganhando o Oscar de atriz coadjuvante (sorte que sua personagem acaba por não ter) e o Golden Globe em um ano em que as cerimônias de premiação estavam com os olhos voltados para dramas mais sérios e relevantes politicamente (foi o ano de "O franco-atirador" e "Amargo regresso", que tratavam do retorno dos americanos da Guerra do Vietnã). Despretensioso e simples, é um filme que comprova o prestígio de Neil Simon na Hollywood da época, mas que resiste ao tempo única e exclusivamente graças a seu elenco impecável. Sem maiores expectativas pode render um bom passatempo.

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

MENINOS DO BRASIL

MENINOS DO BRASIL (The boys from Brazil, 1978, Paramount Pictures, 125min) Direção: Franklin J. Schaffner. Roteiro: Heywood Gould, romance de Ira Levin. Fotografa: Henri Decae. Montagem: Robert E. Swink. Música: Jerry Goldsmith. Figurino: Anthony Mendleson. Direção de arte/cenários: Gil Parrondo/Vernon Dixon. Produção executiva: Robert Fryer. Produção: Stanley O'Toole, Martin Richards. Elenco: Gregory Peck, Laurence Olivier, James Mason, Lilli Palmer, Rosemary Harris, Steve Guttenberg, Bruno Ganz, Uta Hagen, Denholm Elliott. Estreia: 04/10/78

3 indicações ao Oscar: Ator (Laurence Olivier), Montagem, Trilha Sonora Original

Hoje em dia, com o cinema de posse de um dos temas mais fascinantes da ciência - e que algumas décadas atrás soava apenas como uma delirante trama de ficção científica - a clonagem humana já não tem o mesmo impacto junto às plateias que se acostumaram a efeitos visuais acachapantes e uma realidade ainda mais assustadora. Nos anos 70, porém, a ideia de criar um ser humano idêntico a outro através de experiências genéticas era um assunto novo e praticamente inexplorado pela sétima arte. Lançado em 1976, o romance "Meninos do Brasil", do escritor Ira Levin - autor também de "O bebê de Rosemary", que Roman Polanski levou às telas em 1968 - não apenas lançava mão de tal artifício quase inédito, mas o ligava a outro argumento igualmente atraente ao público de cinema: os crimes de guerra cometidos pelo nazismo durante e após a II Guerra Mundial. Usando como protagonista o temível e infame Josef Mengele - conhecido também como "Anjo da Morte" - a trama de seu livro logo interessou à Hollywood, que em cerca de um ano estreava sua adaptação com uma equipe de tirar o chapéu.

Na direção, Franklin J. Schaffner, já premiado com um Oscar pelo comando de "Patton - rebelde ou herói?" (70). Na trilha sonora, o também já oscarizado - por "A profecia" (76) - Jerry Goldsmith. No elenco, Gregory Peck e Laurence Olivier - homenageados pela Academia por "A luz é para todos" (47) e "Hamlet" (48), respectivamente. E como coadjuvantes, o sempre preciso James Mason (indicado três vezes ao Oscar) e os futuramente respeitados Denholm Elliot e Rosemary Harris. Com tanta gente boa em cena e uma história intrigante em mãos, não tinha como dar errado. E não deu. Bem recebido pela crítica, "Meninos do Brasil" acabou por ser indicado em três categorias do Oscar, incluindo melhor ator para Laurence Olivier - que também concorreu ao Golden Globe e foi eleito o melhor ator do ano pelo National Board of Review, empatado com Jon Voight, por "Amargo regresso". Um suspense adulto e sem medo de ir até as últimas consequências em seu desejo de alertar para os perigos da ciência quando em mãos erradas, o filme de Schaffner cria uma atmosfera sombria e um tom de thriller para conquistar a plateia desde seus minutos iniciais e, ao contrário de "Maratona da morte" (76) - que também tinha um nazista foragido e Laurence Olivier na receita  - não exige da plateia a paciência de esperar até o ato final para esclarecer todas as questões levantadas pelo roteiro bem amarrado de Heywood Gould.



Se em "Maratona da morte" o veterano Laurence Olivier vivia um criminoso de guerra atrás de um tesouro roubado dos judeus mortos nos campos de concentração, em "Meninos do Brasil" ele muda de lado, na pele de Ezra Lieberman, um conhecido caçador de nazistas que é procurado pelo jovem Barry Kohler (Steve Guttenberg em início de carreira) com a informação de que um grupo de oficiais da SS está mantendo reuniões em uma cidade do Paraguai, com objetivos ainda não descobertos. Colocando escutas em tais reuniões, Kohler descobre que os criminosos - liderados pelo infame Josef Mengele (Gregory Peck) - tem planos de assassinar 94 homens com a idade de 65 anos, moradores de diferentes países do planeta. Intrigado com o projeto, Lieberman assume a investigação do caso e passa a visitar os familiares das primeiras vítimas. Para sua surpresa e choque, ele descobre que todos os mortos tinham em comum filhos adotivos da mesma idade e impressionante semelhança física e de personalidade. Quando a extensão dos planos nazistas ficam claros - para seu choque e desespero - resta a ele tentar impedir sua realização, que pode mergulhar a humanidade novamente em um pesadelo genocida.

A princípio um filme alarmista e pouco verossímil, "Meninos do Brasil" conquista principalmente por não ter medo em assumir seu lado sensacionalista, mas o cobrindo com uma bem-vinda dose de seriedade. A interpretação de Gregory Peck como Mengele pode não ser a melhor de sua carreira - apesar dele mesmo considerá-la um de seus pontos altos - mas Laurence Olivier mostra, com seu Ezra Lieberman, porque era um dos grandes atores de sua geração. Com a saúde frágil durante as filmagens, ele entrega mais uma performance memorável, oferecendo sua credibilidade à uma trama que, em mãos menos competentes, poderia facilmente descambar para uma produção B. O cuidado de Schaffner em tratar a história com um suspense que não subestima a inteligência da plateia é louvável, assim como sua opção em revelar os desdobramentos da trama de forma a encaminhar tudo para um clímax envolvente e digno, que não decepciona nem apela a incoerências patéticas. Os "meninos do Brasil" do título são realmente apavorantes - e seu objetivo é de arrepiar, mesmo que tudo não passe de uma (brilhante) ficção. Inteligente, sério, assustador. "Meninos do Brasil" é um filme que se mantém atual apesar da idade - especialmente em um mundo tão chocantemente fascista que começa a se (re)desenhar.

domingo, 6 de novembro de 2016

UM DIA MUITO ESPECIAL

UM DIA MUITO ESPECIAL (Una giornata particolare, 1977, Compagnia Cinematografica Champion, 106min) Direção: Ettore Scola. Roteiro: Ettore Scola, Ruggero Maccari. Fotografia: Pasqualino De Santis. Montagem: Raimondo Crociani. Música: Armando Trovaioli. Figurino: Enrico Sabbatini. Direção de arte/cenários: Luciano Ricceri. Produção: Carlo Ponti. Elenco: Marcello Mastroianni, Sophia Loren, John Vernon, Françoise Berd. Estreia: 19/5/77 (Festival de Cannes)

2 indicações ao Oscar: Melhor Filme Estrangeiro, Ator (Marcello Mastroianni)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme Estrangeiro


Menos celebrado que Federico Fellini e menos polêmico que Pier Paolo Pasolini e menos radical que Roberto Rossellini, o cineasta Ettore Scola pode ser considerado o mais poético dentre os diretores que colocaram a Itália no mapa do cinema internacional a partir dos anos 40. Sem abrir mão da crítica social que marcou o neorrealismo e buscando sempre o enfoque humanista em suas histórias, Scola acabou por assinar alguns dos mais brilhantes filmes realizados na Europa a partir de sua estreia, em 1964, com "Fala-se de mulheres". Da lista de suas realizações mais respeitadas, fazem parte de sua obra produções como "Nós que nos amávamos tanto" (74), "Feios, sujos e malvados" (75), "Casanova e a Revolução" (82), "O baile" (83) e "A viagem do Capitão Tornado" (90). Por melhores que todos sejam, no entanto, poucos conseguiram atingir o equilíbrio perfeito entre o drama intimista e a preocupação histórica de "Um dia muito especial", que lhe deu o Golden Globe de melhor filme estrangeiro de 1977, uma indicação ao Oscar na mesma categoria (e de quebra uma para Marcello Mastroianni) e um César (o Oscar francês). Centrando seu foco em um par de protagonistas em dias iluminados, Scola faz de um prédio de apartamentos da classe operária da Roma de 1938, um microcosmo de seu país - e quiçá do mundo, prestes a entrar em uma sangrenta guerra.

Com uma estrutura teatral mas jamais cansativa ou verborrágica em excesso, "Um dia muito especial" se passa no dia em que Adolf Hitler chegou à Roma, com o objetivo de encontrar-se com o presidente de então, Benito Mussolini. A guerra ainda não era uma certeza, mas a sombra do nazismo já começava a se espalhar pela Europa. Um dos entusiastas das ideias do ditador alemão é Emanuele (John Vernon), que aproveita sua visita ao país para, junto com milhares de conterrâneos, saudá-lo nas ruas da capital. Emanuele é casado com a dona-de-casa Antonietta (Sophia Loren), que aproveita a ausência do marido e dos seis filhos para alguns momentos de solidão que é incapaz de manter em sua apressada rotina. O que poderia ser apenas um dia normal, porém, se revela bastante atípico quando ela vai parar no apartamento de um vizinho, Gabriele (Marcello Mastroianni), em busca de seu passarinho de estimação. Gabriele é um locutor de rádio intelectual e discreto que não demora a fazer amizade com a bela matriarca, com quem consegue, surpreendentemente, encontrar uma conexão emocional e profunda. A verdade é que a solitária e carente Antonietta sente-se atraída pelos modos educados e gentis de Gabriele, que tem motivos de sobra para estar precisando de um ombro amigo: homossexual, ele acaba de ser demitido e está esperando pelos guardas que irão levá-lo para um campo de prisioneiros.


Apresentando seus personagens e dramas aos poucos, com elegância e sutileza, Ettore Scola - também coautor do roteiro, ao lado de Ruggero Maccari - apresenta também, de forma inteligente, alguns outros moradores do edifício onde moram Antonietta e Gabriele, pessoas aparentemente comuns mas dotadas de uma mesquinharia atroz que explica, em boa parte, os rumos tomados pela Itália nos anos seguintes, quando o país aliou-se com a Alemanha. O cineasta não faz a menor questão de esconder sua simpatia pelos protagonistas, imbuindo-os de um certo tom de resiliência que imediatamente os coloca no patamar de heróis silenciosos. Antonietta encara a falta de sensibilidade do marido e dos filhos e não encontra tempo nem ao menos de ler um livro - sem falar na ausência absoluta de romantismo e cavalheirismo de seu relacionamento. Gabriele, por sua vez, está vendo sua vida ser completamente destruída pela arbitrariedade do preconceito em relação à sua orientação sexual. São dois seres perdidos, tristes e necessitados de compaixão e carinho, que se encontram em um período curto mas forte o bastante para fortalecer seu senso de sobrevivência em dias difíceis que virão.

Amparando-se basicamente no trabalho de extrema sensibilidade de seus atores - a indicação de Mastroianni ao Oscar não foi mera homenagem da Academia - e em seu texto conciso e delicado, Scola apresenta um trabalho que foge dos clichês românticos ou do tratamento dado pelo cinema à homossexualidade, tratando do assunto com respeito e naturalidade. O romance entre seus personagens - mais do que simplesmente físico ou emocional - é fruto de sua extrema necessidade de afeto e compreensão, não de desejos vulgares ou lascívia adolescente. Antonietta vê em Gabriele a antítese de seu marido brutal, quase cruel. Gabriele vê na vizinha uma válvula de escape, um bote salva-vidas que pode lhe fazer respirar antes da tragédia iminente que bate à sua porta. São personagens tristes, mas carregados de uma humanidade de que somente o cinema europeu - Scola à frente - é capaz de retratar sem apelar para sentimentalismos ou estilizações. Seu cinema fascina justamente por tratar de pessoas de carne e osso, com sentimentos à flor da pele, e "Um dia muito especial" talvez seja a síntese mais terna de sua filmografia. Um belo filme, valorizado pela fotografia árida de Pasqualino De Santis e por seus intérpretes espetaculares.