sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

MULHERES DO SÉCULO XX

MULHERES DO SÉCULO XX (20th Century women, 2016, A24/Annapurna Pictures, 119min) Direção e roteiro: Mike Mills. Fotografia: Sean Porter. Montagem: Leslie Jones. Música: Roger Neill. Figurino: Jennifer Johnson. Direção de arte/cenários: Chris Jones/Aimee Athnos. Produção executiva: Chelsea Barnard. Produção: Anne Carey, Megan Ellison, Youree Henley. Elenco: Annette Bening, Elle Fanning, Greta Gerwig, Billy Crudup, Lucas Jade Zumann, Allison Elliot, Thea Gill. Estreia: 08/10/16 (Festival de Nova York)

Indicado ao Oscar de Roteiro Original

Em uma Hollywood cujas constantes reclamações a respeito da falta de bons papéis femininos acima dos 50 anos, a atriz Anette Bening vem mantendo uma constância interessante em sua carreira: volta e meia surge com uma personagem forte e bem-escrita, que lhe dá a oportunidade de demonstrar todas as nuances de seu talento. Foi assim em "Beleza americana" (1999), "Adorável Julia" (2005), "Minhas mães e meu pai" (2010) e "Correndo com tesouras" (2006) - não por coincidência, os três primeiros lhe deram indicações ao Oscar. Em "Mulheres do século XX" ela voltou a encantar à crítica, mas, apesar de ter sido lembrada pelos eleitores do Golden Globe, foi esnobada pela Academia e ficou de fora da lista das candidatas à estatueta. Melhor sorte teve o roteiro do também diretor Mike Mills, que, com uma protagonista inspirada em sua própria mãe, chegou à reta final da premiação ao lado dos badalados "La La Land: cantando estações" e "Manchester à beira-mar". Com uma prosa poética e recheada de nostalgia, ele mergulha o espectador em uma trama que, a despeito de parecer excessivamente simples, discute com bom-humor e sem exageros, um tema sempre caro e relevante: o feminismo.

Porém, apesar do título e do tema que percorre com maior ou menor destaque toda a sua narrativa, "Mulheres do século XX" é, principalmente, um filme sobre o amor familiar, mesmo que em um núcleo menos ortodoxo. Assim como em "Toda forma de amor" (2011) o cineasta Mike Mills se utiliza da memória afetiva para criar personagens quase inacreditáveis: no filme anterior, Christopher Plummer deu vida (e ganhou um Oscar de coadjuvante por isso) a um homem de 80 anos que, viúvo, resolve assumir a homossexualidade para o filho e viver uma história de amor outonal - um acontecimento baseado na vida de seu próprio pai. Em sua nova obra, é sua mãe quem ressurge, com cores carinhosas e quase melancólicas, na figura de Dorothea, uma mulher forte e estoica que, divorciada, tenta criar o filho adolescente na efervescente cultura da Califórnia do final dos anos 70. Sentindo-se incapaz de lhe transmitir tudo que acredita ser necessário para que sobreviva em um mundo em constante mudança, ela pede socorro a quem lhe parece mais correto: suas duas jovens inquilinas, que irão, então, iniciar o ingênuo Jamie (Lucas Jade Zumann) nas dores e delícias de um universo de liberdade, sexo, drogas e maturidade.


Concentrando-se nas dúvidas de Dorothea em relação à forma de criar o filho em um lar cuja mais constante figura masculina é William (Billy Crudup) - um faz-tudo que faz reparos em sua deteriorada casa e em sua ocasional solidão - o filme de Mills volta seu olhar também para duas fascinantes coadjuvantes femininas que completam o panorama informal sobre a situação da mulher nas décadas finais do século XX. A mais velha, Abbie (Greta Gerwig, ótima), sonha em ser fotógrafa, acaba de passar por uma séria doença e apresenta ao rapaz o mundo da vida noturna de Nova York, com suas bandas de punk rock, atitudes rebeldes e a luta pelos direitos das mulheres. A mais jovem, Julie (Elle Fanning), de apenas 17 anos, está experimentando o sexo, com todas as complicações inerentes a tal período - incluindo o medo de uma gravidez indesejada - e, a despeito de despertar sentimentos fortes em Jamie, não pretende envolver-se romanticamente com ninguém depois de uma série de experiências traumáticas. Cada uma a seu modo, Abbie e Julie serão fundamentais na transição do rapaz para a vida adulta e, ao som de uma caprichada trilha sonora, emolduram uma época de transformações culturais e sociais que ecoariam por muito tempo.

Mike Mills é inteligente em justapor essas duas camadas narrativas - pessoais e históricas - sem que uma atropele a outra e ambas sutilmente se completem. O amadurecimento de Jamie é mostrado com delicadeza e o tom certo de melancolia/nostalgia/bom humor, em um roteiro que privilegia momentos simples e cotidianos ao invés de elaborar grandiosas sequências catárticas. Com uma edição que intercala informações a respeito dos personagens através de imagens de arquivo e uma narração em off que revela ao público alguns de seus dramas e segredos, "Mulheres do século XX" deve muito de seu sucesso junto à crítica à força de seu elenco. Se Annette Bening novamente dá mostras de que é uma das grandes atrizes de sua geração, sempre arrancando o máximo de suas personagens e entregando ao público interpretações sensíveis e realistas, suas coadjuvantes não ficam atrás: Elle Fanning cresce a cada filme, sempre cativando com a intensidade de seus desempenhos, e Greta Gerwig (de "Frances Ha") rouba o filme com sua corajosa Abbie - são dela as melhores cenas e os melhores diálogos, e é difícil não se apaixonar por sua personagem. O único senão do filme é a presença quase apática do protagonista masculino, o iniciante Lucas Jade Zumann, que não chega a comprometer o resultado final, mas impede o filme de atingir todo o seu potencial. Um pequeno senão em um filme simpático, agradável e antenado com seu tempo, que reitera o talento de seu diretor em transformar memórias afetivas em pequenos e delicados filmes.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

QUASE 18

QUASE 18 (The edge of seventeen, 2016, Gracie Films/STC Entertainment, 104min) Direção e roteiro: Kelly Fremon Craig. Fotografia: Doug Emmett. Montagem: Tracey Wadmore-Smith. Música: Atli Orvarsson. Figurino: Carla Hetland. Direção de arte/cenários: William Arnold/Ide Foyle. Produção executiva: Oren Aviv, Pete Corral, Brendan Ferguson, Adam Fogelson, Cathy Schulman, Robert Simonds, Donald Tang, Lisa Walder, Zhongjun Wang, Zhonglei Wang, Jerry Ye. Produção: Julie Ansell, James L. Brooks, Kelly Fremon Craig. Elenco: Hailee Steinfeld, Woody Harrelson, Haley Lu Richardson, Kyra Sedgwick, Blake Jenner, Hayden Szeto. Estreia: 16/9/16 (Festival de Toronto)

Se tivesse sido lançada nos anos 80, a comédia adolescente "Quase 18" poderia facilmente ser confundida com uma produção de John Hughes, e sua protagonista interpretada por Molly Ringwald. Ícones do gênero em sua época graças a filmes como "Clube dos cinco", "A garota de rosa-shocking" e "Gatinhas e gatões", Hughes e Ringwald conquistaram legiões de fãs por terem conseguido o quase impossível: falar com uma plateia jovem e ávida por representatividade em um período repleto de heróis de ação brutamontes e efeitos visuais espetaculares. Com roteiros simples e diretos, que dialogavam sem frescura com seu público-alvo, seus filmes atravessaram gerações e tornaram-se tanto documentos de um momento específico no tempo quanto fontes de referência inesgotáveis. Foi assim que Will Gluck utilizou-se de seus elementos primordiais para criar o delicioso "A mentira" (2010) e é assim que a jovem Kelly Fremon Craig chegou a encantar a crítica e o público com sua estreia na direção: "Quase 18" tem John Hughes em seu DNA, e mantém o frescor e a inteligência de seus melhores trabalhos - além de contar com uma inspiradíssima Hailee Steinfeld no papel central.

Nadine, a atormentada protagonista de "Quase 18", parece ter sido escrito especialmente para Steinfeld, tamanha a sintonia entre personagem e atriz. Indicada ao Oscar de coadjuvante já em seu primeiro papel no cinema, no western "Bravura indômita", de 2010, a jovem Steinfeld demonstra no filme de Fremon Craig que seu talento vai muito além de sorte de principiante: carismática e expressiva, ela explora todas as nuances que o papel exige, a ponto de oferecer um lado humano e simpático até mesmo a suas atitudes mais egoístas e pouco razoáveis. Com um roteiro realista e sem condescendências escrito pela própria diretora, o filme foge das armadilhas de menosprezar os problemas de sua protagonista, fazendo com que o público consiga compreender o tamanho de cada um deles através de sua perspectiva - talvez exagerada, mas de acordo com sua idade e sua visão de mundo. Justamente por não fazer de Nadine uma adolescente exemplar e repleta de virtudes, mas sim uma pessoa mais próxima da realidade, o filme conquista, diverte e faz pensar - sem nunca deixar de lado sua aura de divertimento juvenil.


Nadine, a protagonista, é uma adolescente de dezessete anos que nunca sentiu o gostinho de ser a mais popular da escola ou ter muitos amigos. Quieta e desiludida, ela observa o próprio irmão, Darian (Blake Jenner), assumir o posto de preferido da mãe, Mona (Kyra Sedgwick), e destacar-se em todas as atividades a que se propõe, enquanto passa os dias reclamando da sorte ao lado da única amiga, Krista (Haley Lu Richardson). O que já era ruim torna-se ainda pior quando Krista resolve se apaixonar por Darian, deixando Nadine furiosa e sentindo-se a mais traída das criaturas. Só quem a entende é um colega nerd, Erwin (Hayden Szeto) - que ela não percebe ser apaixonado por ela - e um paciente professor, Mr. Bruner (Woody Harrelson), em quem ela descarrega toda a sua raiva e agressividade. Tentando sobreviver à adolescência, a menina ainda precisa lidar com a paixão que sente por um dos rapazes mais populares da escola, que mal sabe de sua existência, e a saudade do pai, que morreu quando ela ainda era uma criança.

Sem jamais cair na caricatura ou qualquer tipo de excesso, Hailee Steinfeld concorreu ao Globo de Ouro de melhor atriz em comédia ou musical, mas perdeu para Emma Stone, favorita absoluta por seu desempenho em "La La Land: cantando estações". Sua lembrança entre os indicados mostra, no entanto, que é difícil resistir a seu encanto juvenil e sua sinceridade contagiante. Logo na primeira cena, quando entra na sala do professor avisando que irá cometer suicídio, Nadine conquista a plateia com seu jeito exagerado e dramático de encarar a vida e as situações pelas quais passa, e durante os próximos 100 minutos, o público se deixa docilmente conduzir por seu universo de desespero e angústia - tudo mostrado com o bom-humor e o respeito que se poderia esperar de uma discípula de John Hughes como é o caso da diretora/roteirista. Sucesso moderado de bilheteria (rendeu o dobro do orçamento de 9 milhões de dólares, mas não chegou a causar barulho nas caixas registradoras da produtora), "Quase 18" é um filme pequeno, que nada contra a maré de superproduções caras e megalomaníacas e pode encontrar sua audiência em quem procura entretenimento menos ambiciosos. Merece ser descoberto como um legítimo representante de um gênero sempre querido e inteligente.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

FOME DE VIVER

FOME DE VIVER (The hunger, 1983, MGM, 97min) Direção: Tony Scott. Roteiro: Ivan Davis, Michael Thomas, romance de Whitley Strieber. Fotografia: Stephen Golblatt. Montagem: Pamela Power. Música: Denny Jaeger, Michel Rubini. Figurino: Milena Canonero. Direção de arte/cenários: Brian Morris/Ann Mollo. Produção: Richard A. Sheperd. Elenco: Catherine Deneuve, David Bowie, Susan Sarandon, Dan Hedaya, Beth Ehlers, Cliff De Young. Estreia: 29/4/83

Se existe um filme que já nasceu com a vocação de tornar-se cult, esse filme é "Fome de viver". Lançada dois anos depois da publicação do romance que lhe deu origem, escrito por Whitley Strieber, a produção dirigida pelo inglês Tony Scott - irmão de Ridley, recém saído da fria recepção a outro que logo se transformaria em objeto de culto, "Blade Runner: o caçador de androides" (82) - reunia logo em sua receita três ingredientes infalíveis para chamar a atenção do público dos ainda novos anos 80: o tema do vampirismo (jamais mencionado claramente, mas ainda assim bastante óbvio visualmente), a estética típica da geração MTV (ambientes enfumaçados, fotografia caprichada, edição ágil) e o elenco que juntava a europeia beleza glacial de Catherine Deneuve e a aura misteriosa e galante do roqueiro David Bowie (além da presença da então pouco conhecida, mas já bastante sensual Susan Sarandon). Longe de conquistar a unanimidade da crítica, incomodada justamente por seu cuidado extremo com o visual em detrimento da história, "Fome de viver" encontrou respaldo, porém, junto à uma parte da plateia que deixou-se seduzir pelo fascinante tom gótico do filme e o adotou calorosamente.

Sem precisar utilizar a palavra "vampiro" uma única vez durante todo o filme, Tony Scott acabou por conceber visualmente uma das mais perenes e impressionantes traduções de um tema clássico. Com escolhas certeiras - como a canção "Bela Lugosi's dead", da banda inglesa Bauhaus como ilustração da instigante sequência inicial - e uma atmosfera ao mesmo tempo sombria e erótica, o cineasta construiu um universo repleto de simbolismos a respeito de vida, morte, longevidade e sexo, iluminado pela fotografia deslumbrante de Stephen Goldblatt, de uma elegância que reflete o tom de extrema sutileza proposto pela trama criada por Strieber e roteirizada por Michael Thomas, que transfere para a Nova York do final do século XX o mundo fascinante e intrigante dos mortos-vivos sem apelar para a violência excessiva e utilizando os clichês do gênero de maneira criativa e moderna. Inserindo elementos contemporâneos à narrativa - uma das protagonistas é uma médica em busca da cura para a progeria, uma doença que causa o envelhecimento precoce - e apostando na sutileza em detrimento do horror explícito, Scott conseguiu o que parecia impossível: atualizar uma mitologia secular sem cair no ridículo ou no grotesco e ainda cativar uma nova geração de fãs.


Linda, sedutora e esbanjando elegância, Catherine Deneuve surge em cena como Miriam Blaylock, uma misteriosa mulher que se aproxima da dra. Sarah Roberts (Susan Sarandon) em uma sessão de autógrafos. Sua intenção é ajudar o marido, o músico John Baylock (David Bowie), que está sofrendo de uma condição que causa envelhecimento muito mais acelerado do que o normal - a ponto de tornar-se um senhor de mais de oitenta anos em poucas horas. Dedicada ao estudo clínico de uma possível cura para a doença do marido da bela estranha, Sarah nem de longe desconfia da verdade a respeito do bizarro casal: Miriam é uma centenária vampira egípcia que subsiste do sangue de seus amantes, a quem troca periodicamente, justamente quando eles começam a envelhecer. Seu relacionamento com John, que já dura mais de duzentos anos, está chegando ao destino final de todos os anteriores, e uma atração irresistível surge entre ela e a jovem médica, que sucumbe à tentação mesmo correndo o risco de tornar-se apenas mais uma amante/fonte de sangue da fria e estonteante Miriam. Enquanto isso, John tenta desesperadamente manter-se vivo e ao lado da mulher que ama - mesmo que para isso precise apelar para seus sensos mais primitivos e crueis, o que significa apelar para a concessão a seus instintos mortais.

Quem esperar um filme de terror convencional, ou até mesmo um conto vampiresco na acepção mais tradicional do termo pode até se decepcionar com "Fome de viver", uma vez que o filme de Tony Scott se afasta dos clichês mais óbvios do gênero - ao mesmo em que os abraça e os apresenta sob uma nova perspectiva narrativa. Em seu filme, não há um heroi em busca de redenção ou uma heroína em apuros sendo ameaçada por criaturas da noite com objetivos pura e simplesmente malévolos: seus protagonistas são os próprios vampiros, em conflito com sua realidade predadora ao mesmo tempo em que aproveitam os benefícios da juventude eterna (ou ao menos no caso dos amantes de Miriam, bem mais estendida do que o normal). Para ilustrar essa sensação de prazer constante ameaçado por um certo tédio blasé, a fotografia, a direção de arte e todos os elementos de cena (fumaça, pombos, cortinas esvoaçantes) são usados e abusados, para deleite de uns e desprezo de outros. A estética videoclipe, que encontrou na década de 80 um terreno fértil e hospitaleiro, é ingrediente crucial na receita do diretor, que mergulha sem medo na possível breguice de tal opção para imprimir uma marca registrada à história. Deu certo, mas só até determinado ponto: "Fome de viver" é, sem dúvida, um filme marcante por sua beleza, mas tropeça em um roteiro por vezes excessivamente frio e distante, que mais oferece perguntas do que respostas e que não desenvolve a contento todas as nuances de seus protagonistas, interpretados por um ícone do rock, uma diva europeia e uma grande atriz em começo de carreira. É uma mistura incendiária e interessante, que tanto pode encantar quanto aborrecer. É só tomar partido - e se deliciar com alguns dos momentos mais intensos da carreira de Scott - que depois embarcou no cinema de ação sem cérebro até suicidar-se em 2012, um trágico e irônico final para quem começou a carreira na sétima arte falando de vida eterna e escuridão.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

MÃE SÓ HÁ UMA

MÃE SÓ HÁ UMA (Mãe só há uma, 2016, Dezenove Som e Imagem, 82min) Direção e roteiro: Anna Muylaert. Fotografia: Barbara Alvarez. Montagem: Helio Villela. Música: Berna Ceppas. Figurino: Diogo Costa. Direção de arte: Thales Junqueira. Produção executiva: Maria Ionescu. Produção: Anna Muylaert, Sara Silveira. Elenco: Naomi Nero, Matheus Nachtergaele, Daniel Botelho, Dani Nefussi, Lais Dias, Luciana Paes, Helena Albergaria. Estreia: 12/02/16 (Festival de Berlim)

A história de um adolescente de 16 anos que descobre que não é filho legítimo da mãe que sempre o criou - e que, pior ainda, foi sequestrado na maternidade, assim como sua irmã caçula - seria um prato cheio para um cineasta convencional e pouco criativo. Não é difícil imaginar um roteiro centrado em lutas nos tribunais, cenas lacrimosas e todos aqueles clichês de famílias despedaçadas que fazem a festa dos fãs de telefilmes norte-americanos. Porém, Anna Muylaert não é uma cineasta convencional e pouco criativa: consagrada internacionalmente com "Que horas ela volta?" (2015), um filme emocional sem ser piegas e socialmente imprescindível sem ser panfletário, ela volta a surpreender com "Mãe só há uma", uma versão bastante inusitada da situação, levemente inspirada em fatos reais. Fugindo do óbvio sempre que possível e adicionando um elemento bastante complicador na trama, Muylaert se comprova como uma realizadora preocupada em ter uma assinatura própria - e mesmo que não chegue ao mesmo grande nível de seu filme anterior, entrega ao público uma obra no mínimo perturbadora em sua simplicidade estilística e complexidade dramática, apoiada em um ator estreante que ainda vai dar muito o que falar.

Sobrinho do ator Alexandre Nero, Naomi Nero ficou encarregado de dar vida ao protagonista, Pierre, um jovem em processo de descoberta da própria identidade que se vê no olho de um furacão quando descobre que a mulher que o criou desde o nascimento é na verdade uma criminosa, que o tirou de sua família verdadeira, mais rica e ainda traumatizada com seu desaparecimento. Além de lidar com tal situação - avassaladora para qualquer pessoa, especialmente em um período de transição tão conturbado quanto a adolescência - Pierre (ou Felipe, como sua família "verdadeira" o batizou ainda bebê) ainda guarda uma particularidade que pode chocar àqueles à sua volta: mesmo sem ser homossexual, gosta de vestir roupas femininas (mesmo quando está transando com mulheres) e não decidiu 100% qual sua preferência sexual. Tal característica, inserida no roteiro de forma inteligente e sem julgamentos, acaba por ser de vital importância para acrescentar uma provocativa e desafiadora camada a um conflito já bastante instigante, e nem sempre Nero consegue atingir todas as notas necessárias, ainda que se saia bastante bem na maior parte do tempo. Em uma interpretação contida, mais dada a silêncios do que a explosões, ele se aproveita de sua aparência ambígua para imprimir veracidade a um personagem difícil e repleto de nuances, e sob o comando de Muylaert, transforma Pierre/Felipe em alguém de carne e osso, não apenas uma criação fictícia. E esse mérito deve ser creditado à direção concisa e direta da cineasta.


Sem subterfúgios artificiais que possam tirar o foco do que lhe é mais importante - os personagens e seus conflitos internos e externos - o filme de Muylaert tem precisão cirúrgica quando se trata de investigar as emoções de Pierre e das pessoas à sua volta. Em menos de noventa minutos, ela vai fundo tanto na questão das dúvidas do protagonista em relação à sua sexualidade complicada quanto em seus dramas familiares. Sua profundidade, porém, não é facilmente identificável: ao invés de deter-se em infindáveis diálogos explicativos ou cenas desnecessariamente didáticas nas quais os personagens mais falam do que sentem, a cineasta acertadamente foca sua câmera para as expressões confusas, tensas e aflitivamente realistas de seus atores. Sem nenhum tipo de glamour, Muylaert simplesmente registra momentos de pessoas comuns passando por circunstâncias radicais - e se por diversas vezes dá a impressão de criar sequências desnecessárias (principalmente aquelas protagonizadas pelo menino Joaquim, irmão de sangue de Pierre/Felipe), ela mostra, em um final agridoce, que nada em seu roteiro é aleatório ou gratuito.

Nem mesmo a escolha de elenco de "Mãe só há uma" é gratuita: em uma inteligente brincadeira com o título, a diretora embaralha as cartas de seu filme e oferece à plateia a oportunidade de ver a mesma atriz em dois papeis diferentes. Tanto como a mãe biológica que reencontra o filho e tenta desesperadamente incluí-lo em sua vida - a despeito da perceptível falta de vontade do rapaz em fazer isso - quanto como a mãe de criação, uma sequestradora que não demonstra a menor culpa de seus atos, Dani Nefussi entrega uma atuação visceral, na tênue linha entre a emoção contida e a angústia mal-disfarçada. Quase irreconhecível em sua mudança de visual, é ela quem comanda, de certa forma, as mudanças mais radicais da narrativa, impulsionando a trama e catalisando boa parte das atitudes de seu rebento, inclusive e principalmente aquelas que vão desestruturar ainda mais o já abalado núcleo familiar - no qual se destaca, como sempre em performance impecável, o ator Matheus Nachtergaele. Nefussi representa as duas famílias de Pierre, duas vidas intimamente ligadas mas paradoxalmente distantes, e seu trabalho é o grande destaque do filme, que pode incomodar aos que procuram uma produção mais convencional mas que certamente vai agradar àquela parcela de espectadores que buscam mais do que simples diversão escapista. "Mãe só há uma" é mais uma prova da inquietude de sua diretora, uma das mais consistentes e sensíveis de sua geração. Vale a pena conferir e sentir-se desafiado.

domingo, 29 de janeiro de 2017

PASSAGEIROS

PASSAGEIROS (Passengers, 2016, Columbia Pictures, 116min) Direção: Morten Tyldum. Roteiro: Jon Spaihts. Fotografia: Rodrigo Prieto. Montagem: Maryann Brandon. Música: Thomas Newman. Figurino: Jany Temime. Direção de arte/cenário: Guy Hendrix Dyas/Gene Serdena. Produção executiva: Greg Basser, Bruce Berman, Ben Browning, David B. Householter, Jon Spaihts, Lynwood Spinks, Ben Waisbren. Produção: Stephen Hamel, Michael Maher, Ori Marmur, Neal H. Moritz. Elenco: Chris Pratt, Jennifer Lawrence, Laurence Fishburne, Michael Sheen, Andy Garcia. Estreia: 14/12/16

2 indicações ao Oscar: Trilha Sonora Original, Direção de Arte/Cenários

Quando um cineasta de fora de Hollywood consegue romper a barreira do bairrismo e chegar a uma indicação ao Oscar de melhor filme e direção, o que se espera que ele faça em seguida? Várias respostas seriam as corretas, mas o norueguês Morten Tyldum surpreendeu a todos optando pelo caminho menos provável: encarar uma ficção científica produzida por um grande estúdio e com um orçamento acima dos 100 milhões de dólares. Depois do contido e delicado "O jogo da imitação" - a história do matemático inglês que praticamente inventou o computador, abreviou a II Guerra Mundial em anos e foi condenado pelo governo por ser homossexual - Tyldum deixou a discrição de lado e abraçou sem medo o cinemão comercial com "Passageiros", realizado com todos os recursos de uma superprodução e dois atores em ascensão na liderança do elenco. Logicamente não obteve as mesmas críticas entusiasmadas de seu longa anterior, mas demonstrou um inesperado talento em lidar com as engrenagens de um gênero com regras próprias e bastante rígidas. Com um roteiro que equilibra com parcimônia ação, romance e suspense sem se preocupar com elocubrações metafísicas ou filosóficas, "Passageiros" cumpre o que promete, mesmo que jamais ouse.


Pensado inicialmente como um veículo para o ator Keanu Reeves - cuja companhia desenvolveu o projeto em seus primeiros estágios - "Passageiros" passou pelas mãos de vários nomes importantes de Hollywood antes de cair no colo de Tyldum, inclusive do criterioso David Fincher e do eclético Marc Forster. Depois da saída de Reeves - e consequentemente de sua cogitada colega de cena Rachel McAdams - a escolha de Chris Pratt, em alta depois do sucesso de "Guardiões da Galáxia" (2014) e "Jurassic World" (2015), pareceu uma escolha natural. Carismático e talentoso, Pratt conquista a plateia já em suas cenas iniciais, e sua simpatia consegue até mesmo fazer com que alguns de seus atos - bastante questionáveis - pareçam mais românticos do que realmente são. A seu lado, Jennifer Lawrence comprova que foi uma aposta certeira da indústria quando levou seu Oscar por "O lado bom da vida" (2012): bela, simpática e capaz de alcançar a nota certa em cada momento, ela ainda demonstra uma invejável química com seu parceiro de cena, transformando o que poderia ser mais uma experiência claustrofóbica e quase monótona em um agradável entretenimento, que agrada aos fãs do gênero sem afastar o espectador menos afeito a ele.


A história se passa na Starship Avalon, uma nave espacial que está levando 5.000 passageiros e mais duas centenas de tripulantes para uma das colônias da Terra, chamada Homestead Colony e que promete uma qualidade de vida muito superior à de seu planeta de origem. Atingida por uma chuva de asteroides, a nave sofre uma pane e acaba por despertar um dos viajantes, o engenheiro Jim Preston (Chris Pratt), que não demora a descobrir, para seu desespero, que ele acordou muito antes do esperado e que não há como chegar a seu destino final em menos de 90 anos. Tendo apenas o garçom androide Arthur (Michael Sheen) para conversar, ele leva um ano para chegar à conclusão de que a única maneira que tem de se relacionar com uma pessoa de verdade é acordando outro passageiro. Depois de examinar o perfil da escritora Aurora Lane (Jennifer Lawrence), ele acaba a escolhendo para ser sua parceira de desventura. A princípio acreditando que também despertou por acidente, ela ajuda o rapaz a procurar um modo de consertar a espaçonave e eles acabam se apaixonando. O despertar de um tripulante, Gus Mancuso (Laurence Fishburne) e a descoberta de que outros problemas ameaçam o sucesso da viagem - assim como a realidade sobre o despertar de Aurora (cujo nome é uma homenagem explícita à Bela Adormecida) - agitam ainda mais as coisas, obrigando a todos a forjar uma união para salvar suas vidas.

Ainda que o terço final carregue um pouco no exagero ao criar cenas de ação que justifiquem os gastos com efeitos especiais e o custo de 110 milhões de dólares, o roteiro de "Passageiros" tem uma vantagem em relação a alguns de seus congêneres: ao não se levar tão a sério como poderia, oferece ao público uma alternativa menos densa do que produções como "Gravidade" (2013), "Interestelar" (2014) e "A chegada" (2016), que se utilizaram dos elementos de ficção científica para discutir temas complexos e deixaram de lado, muitas vezes, a premissa básica do cinema de entretenimento: diversão. Sem intenção nenhuma a não ser levar a plateia a um passeio de duas horas em uma montanha-russa, Tyldum atinge plenamente seu objetivo, graças a um departamento técnico impecável - a direção de arte e a trilha sonora foram indicados ao Oscar - e a uma escalação certeira de elenco. Não muda a história da ficção científica e até pode ter alguns furos no roteiro, mas é praticamente impossível não se deixar envolver pela trama e por seu bom-humor contagiante. Uma ótima pedida.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

SILÊNCIO

SILÊNCIO (Silence, 2016, Cappa Defina Productions/CatchPlay, 161min) Direção: Martin Scorsese. Roteiro: Jay Cocks, Martin Scorsese, romance de Shusaku Endô. Fotografia: Rodrigo Prieto. Montagem: Thelma Schoonmaker. Música: Kathryn Kluge, Kim Allen Kluge. Figurino: Dante Ferretti. Direção de arte/cenários: Dante Ferretti/Francesca LoSchiavo. Produção executiva: Brandt Andersen, Michael Barnes, Paul Breuls, Dale A. Brown, Manu Gargi, Wayne Marc Godfrey, Niels Juul, Nicholas Kazan, Matthew J. Malek, Gianni Nunnari, Chad A. Verdi, Michelle Verdi, Tyler Zacharia. Produção: Vittorio Cecchi Gori, Barbara de Fina, Randall Emmett, David Lee, Gaston Pavlovich, Martin Scorsese, Emma Tillinger Koskoff, Irwin Winkler. Elenco: Andrew Garfield, Adam Driver, Liam Neeson, Ciàran Hinds, Tadanobu Asano, Issei Ogata. Estreia: 29/11/16 (Vaticano)

Indicado ao Oscar de Fotografia

Foi em 1988 que Martin Scorsese ganhou de presente de um padre de Nova York o romance "Silêncio", do escritor japonês Shusaku Endô, sobre dois jovens sacerdotes portugueses que partem para o Japão do século XVII em busca de seu mentor, que evidências apontam ter se tornado um apóstata - ou seja, renegado o cristianismo por medo de ser torturado e morto. Como um católico fervoroso que é, Scorsese ficou profundamente tocado com a história e pensou imediatamente em transformá-la em filme. No entanto, as reações raivosas a seu "A última tentação de Cristo", baseado no romance do grego Nikos Kazantzakis e também com alto teor de questionamento religioso, o levaram a deixar o projeto de lado. Demorou mais de uma década até que, ao lado do amigo Jay Cocks, retomasse a ideia de uma adaptação: de acordo com seus planos, "Silêncio" seria seu filme seguinte ao igualmente complicado (e igualmente projeto de estimação) "Gangues de Nova York" (2002). Mas as coisas, para variar, não correram conforme o esperado e, sem financiamento para uma produção cara e ambiciosa (além de potencialmente fadada a um fracasso comercial), Scorsese tratou de seguir a vida - e levar seu tão merecido Oscar, em 2007, por "Os infiltrados".

Quando finalmente conseguiu dinheiro suficiente para o início das filmagens, marcado para janeiro de 2015, porém, uma outra questão surgiu no caminho do diretor: a impossibilidade de contar com o elenco escalado na ocasião em que o projeto havia sido anunciado. Com a saída de Daniel Day-Lewis, Gael García Bernal e Benicio Del Toro, envolvidos em outros compromissos profissionais, Scorsese se viu obrigado a alterar a idade dos personagens e algumas de suas características para que melhor coubessem em suas novas escolhas. Assim, Day-Lewis foi substituído por Liam Neeson - invertendo a troca de papéis ocorrida em "Lincoln" (2012), de Steven Spielberg - e Gael García Bernal pelo promissor Andrew Garfield. No lugar de Benicio Del Toro - a mudança mais significativa em termos dramáticos - o escolhido foi Adam Driver, que, apesar da participação em "Star Wars: o despertar da força" (2015), dificilmente pode ser considerado um chamariz de bilheteria. Com um elenco talentoso e 40 milhões de dólares nas mãos, Scorsese viajou para Taiwan - maquiada como o Japão do século XVII pela direção de arte caprichada de Dante Ferretti e pela fotografia impressionante de Rodrigo Prieto - e deu início a 73 exaustivos dias de filmagens que finalmente proporcionaram ao diretor a chance de traduzir em imagens as palavras do escritor japonês. Infelizmente, porém, nem tudo mundo se entusiasmou com o resultado final de tanto esforço. Apesar de muitas críticas favoráveis, o filme acabou se tornando uma decepção tanto nas bilheterias (o que era relativamente esperado) quanto nas cerimônias de premiação (onde foi solenemente ignorado, salvo uma indicação ao Oscar de melhor fotografia).


Sem medo de chocar a audiência com sequências bastante explícitas - mas nunca apelativas - de tortura e violência cometidas contra aqueles que tentavam difundir o cristianismo no Japão do século XVII, Scorsese convida o espectador a uma narrativa de ritmo quase contemplativo, que contrasta vivamente com a constante tensão em que vivem os protagonistas, sempre a um passo de mergulharem em um pesadelo de intolerância e crueldade. As poderosas imagens de Rodrigo Prieto - sempre envoltas em brumas e luzes de velas - enfatizam com inteligência o turbilhão emocional de seus personagens, atormentados não apenas pelos perigos que enfrentam dia-a-dia, mas também por suas próprias consciências. A atuação extraordinária de Andrew Garfield - que no mesmo ano foi indicado ao Oscar de melhor ator por outro poderoso desempenho, em "Até o último homem", dirigido por Mel Gibson - encontra apoio no roteiro corajoso de Scorsese e Jay Cocks, que não hesita em intercalar longos diálogos teológicos com sequências inteiras dotadas de um significativo silêncio. A edição suave de Thelma Schoonmaker rompe radicalmente com sua tradição de agilidade e nervosismo, entregando ao público uma narrativa linear e delicada que equilibra a força da história com a suavidade de seus protagonistas, lutando por um ideal de paz e tolerância em um mundo pouco disposto a lhes dar ouvidos. Scorsese passeia com sua câmera por um Japão medieval povoado por pessoas com medo de suas crenças e buscando apoio espiritual diante das atrocidades cometidas em nome de Deus, mas nunca deixa de dar espaço a questionamentos, evitando apontar heróis ou vilões - ainda que, logicamente, o ponto de vista cristão sobreponha-se a qualquer outro no decorrer da trama. Dono de uma fé inabalável mas jamais fechado a discussões a respeito de sua religião, Scorsese mais uma vez levanta questionamentos relevantes na tela de cinema - mas, mais uma vez, parece pregar no deserto.

O fracasso de bilheteria de "Silêncio" não diz respeito à sua qualidade como cinema - Scorsese dá mostras, mais uma vez, do brilhante artista que é em diversos momentos da projeção - mas sim a seu tema. Controvérsia nunca foi algo estranho ao diretor nova-iorquino, que não tem medo de arriscar seu prestígio em projetos potencialmente inflamáveis, mas falar de intolerância religiosa em uma época em que o terrorismo parece uma ameaça indissolúvel apenas afastou ainda mais as plateias que lotam as salas atrás de escapismo. Seu filme é violento - não ao estilo "Os mercenários", mas dotado de uma violência real e sufocante - e inteligente demais para o público médio, mal-acostumado e fútil. Não é uma obra-prima, se estande em demais e por vezes parece um tanto redundante. Mas é visceral, sensível e de extrema relevância, além de apresentar algumas cenas plasticamente deslumbrantes e atuações intensas e apaixonadas - e um final devastador. O tempo fará justiça à "Silêncio", mais um grande filme a figurar no currículo impecável de Martin Scorsese.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

ANIMAIS NOTURNOS

ANIMAIS NOTURNOS (Nocturnal animals, 2016, Focus Features, 116min) Direção: Tom Ford. Roteiro: Tom Ford, romance "Tony & Susan", de Austin Wright. Fotografia: Seamus McGarvey. Montagem: Joan Sobel. Música: Abel Korzeniowski. Figurino: Ariane Phillips. Direção de arte/cenários: Shane Valentino/Meg Everist. Produção: Tom Ford, Robert Salerno. Elenco: Amy Adams, Jake Gyllenhaal, Michael Shannon, Aaron Taylor-Johnson, Armie Hammer, Laura Linney, Isla Fisher, Michael Sheen, Ellie Bamber,  Karl Glusman, Robert Aramayo, Jena Malone. Estreia: 02/9/16 (Festival de Veneza)

Indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante (Michael Shannon)

Os créditos de abertura de "Animais noturnos" - estranhos, desconfortáveis, quase agressivos ao olhar - já preparam o espectador para o que virá nas próximas duas horas: em seu segundo filme como cineasta, o estilista Tom Ford não brinca em serviço e apresenta ao público um dos mais claustrofóbicos estudos sobre a culpa e o desespero produzidos por Hollywood nos últimos anos. Não quer dizer que seja completamente bem-sucedido em tudo que ambiciona dizer, mas é preciso reconhecer sua coragem em nadar contra a corrente do cinemão médio americano e realizar uma obra tão perturbadora e ao mesmo tempo tão visualmente atraente. Baseado no romance "Tony & Susan", de Austin Wright, Ford forjou um exercício de estilo que equilibra lampejos de brilhantismo com um ritmo claudicante que quase põe tudo a perder. Calorosamente aclamado no Festival de Veneza - onde teve seus direitos de distribuição comprados pelo valor recorde de 10 milhões de dólares - e indicado a surpreendentes oito estatuetas no BAFTA (o Oscar britânico), "Animais noturnos" não é nem a obra-prima que muitos aplaudem nem a fraude que outros tantos denunciam: é um filme acima da média, mas com sérios defeitos que o impedem de atingir a todas as notas a que se propõe.

Alternando liberdade criativa e fidelidade à sua fonte original, Tom Ford repete a estrutura do livro de Wright ao mesmo tempo em que acrescenta outras nuances a uma trama já naturalmente densa e repleta de simbolismos: a protagonista é Susan Morrow (Amy Adams em mais uma interpretação extraordinária), dona de uma galeria de arte sofisticada e bem frequentada. Casada com um executivo bonito e igualmente bem-sucedido (Armie Hammer), ela não consegue deixar de lado uma constante solidão, que se agrava com as viagens do marido e a distância dos filhos. Em uma dessas crises de melancolia, ela recebe o manuscrito de um livro escrito por Tony Hastings (Jake Gyllenhaal), com quem foi casada anos antes, em uma relação que acabou de forma bastante traumática. Junto com o livro, chega uma nota, onde Tony pede à ex-mulher que o leia e dê sua opinião. Temerosa com as possíveis intenções de Tony - que saiu do relacionamento extremamente magoado e ofendido - ela inicia a leitura e se vê envolvida em uma história repleta de uma inesperada violência.


No livro de Tony, chamado "Animais noturnos", o protagonista é Edward Sheffield (também interpretado por Gyllenhaal), um homem comum que, em viagem de férias com a mulher e a filha adolescente, é abordado na estrada por três desconhecidos que transformam sua vida em um pesadelo. Tendo a família sequestrada e depois morta, Edward se une a um policial da pequena cidade onde ocorreu o crime, Bobby Andes (Michael Shannon, indicado ao Oscar de ator coadjuvante) - também passando por um grave problema pessoal - para buscar justiça pelas próprias mãos. Seu silencioso desespero encontra eco em Susan, que começa a perceber nas entrelinhas do romance uma sórdida e sutil vingança do homem a quem amava contra alguns dos acontecimentos que aceleraram sua separação. Conforme o livro vai chegando ao seu final - e seu reencontro com Tony se aproxima - a mulher segura e confiante vai dando lugar a uma outra, triste e consumida por uma série de arrependimentos.

Como todo artista consciente da força das imagens, Tom Ford faz de seus "Animais noturnos" um show visual, graças à belíssima fotografia de Seamus McGarvey e a direção de arte sofisticada de Shane Valentino. Mas, mais do que simplesmente enfeitar a tela com uma cuidadosa seleção de cores e contrastes, ele as utiliza como ferramentas para enfatizar ideias e pensamentos, o que é, sem dúvida, um dos maiores méritos de seu filme. Ao contrário de muitas obras que soam redundantes por não confiar na potência dos enquadramentos e da edição, "Animais noturnos" usa e abusa de silêncios e de pequenos detalhes que vão compondo o quadro geral proposto pelo roteiro. Conforme vai iluminando a história entre Susan e Edward - e de como ela é a base para o livro dele - o cineasta vai também empurrando o público rumo à uma conclusão que, longe de ser facilmente digerida, é igualmente brutal e desconcertante - o que seria impossível sem o elenco impecável escolhido a dedo. Se Aaron Taylor-Johnson (como um dos criminosos) saiu vencedor do Golden Globe e Michael Shannon recebeu uma indicação ao Oscar, eles são apenas peões em um jogo de xadrez comandado por dois atores em momentos brilhantes da carreira: Jake Gyllenhaal e Amy Adams.

Em um espetacular trabalho de interpretação, tanto Adams quanto Gyllenhaal encaram o desafio de trazer à luz dois personagens complexos, ricos em nuances e psicologicamente ambíguos de forma irretocável: enquanto Adams (injustamente esquecida pelo Oscar também por seu trabalho arrebatador em "A chegada") cria duas Susans distintas - um passado romântico e sonhador e um presente carente e solitário - com uma coerência impressionante, Gyllenhaal explora com meticulosidade um jovem repleto de sonhos profissionais pouco práticos e um personagem criado na sua imaginação, bem mais propenso a explicitar sua revolta através da violência. O uso constante de metáforas e símbolos pode até excessivo em determinados momentos, mas a garra do casal central de atores e a maneira sutil com que conduzem seus personagens praticamente anula os pecados do filme de Ford. Corajoso, inteligente e dono de uma personalidade rara no cinemão, "Animais noturnos" também é exagerado, pretensioso e de uma crueldade poética. Incoerências que fazem dele, no mínimo, um filme muito interessante mesmo àqueles que não concordem com seu estilo único.