segunda-feira, 28 de novembro de 2016

JULIETA

JULIETA (Julieta, 2016, El Deseo S/A, 99min) Direção: Pedro Almodóvar. Roteiro: Pedro Almodóvar, contos de Alice Munro. Fotografia: Jean Claude Carrieu. Montagem: José Salcedo. Música: Alberto Iglesias. Figurino: Sonia Grande. Direção de arte/cenários: Antxon Gómez/Federico G. Cambero. Produção: Agustin Almodóvar, Esther Garcia. Elenco: Emma Suárez, Adriana Ugarte, Daniel Grao, Inma Cuesta, Rossy de Palma, Dario Grandinetti, Michelle Jenner, Pilar Castro, Nathalia Poza, Susi Sánchez, Joaquín Notario, Priscilla Delgado. Estreia: 08/4/16

Depois de flertar com o suspense psicológico em "A pele que habito" (2011) e voltar às origens debochadas com "Os amantes passageiros" (2013), o cineasta espanhol Pedro Almodóvar estava devendo aos fãs um novo mergulho no denso universo feminino do melodrama - gênero que lhe proporcionou os maiores sucessos de crítica da carreira, como "Tudo sobre minha mãe" (99) e "Volver" (06), e do qual estava afastado desde "Abraços partidos" (09). Pois foi somente no Festival de Cannes de 2016 que ele presenteou o público com mais uma pequena obra de arte, um filme delicado e sensível sobre a alma humana e seus desvãos: inspirado em três contos da escritora canadense Alice Munro, "Julieta" saiu da Riviera Francesa sem nenhum prêmio, mas reconquistou o carinho da plateia graças à sua extrema delicadeza e força dramática. Ainda um exímio diretor e roteirista implacável, Almodóvar se debruça sobre a tristeza e a melancolia para contar as desventuras da personagem-título - interpretada com segurança por Emma Suárez e Adriana Ugarte - em meio a seus belíssimos enquadramentos e suas características cores vivas.

Renunciando totalmente ao humor podreira do início de sua carreira e que vez ou outra dava as caras em suas produções mais sérias, dessa vez Almodóvar resolveu apostar sem medo no drama explícito, sem espaço para respiros. Ainda mantém o flashback como peça fundamental de sua narrativa - algo que faz como poucos - e jamais abandona o cuidado extremo com o visual de suas cenas, valorizado pela fotografia de Jean Claude Carrieu, discreta o bastante para não chamar mais atenção do que a trama que se desenrola diante do espectador. O uso impactante do vermelho também continua parte indissociável de sua personalidade artística, bem como sua inacreditável capacidade de transformar o mais banal drama doméstico em um poderoso estudo sobre as emoções humanas. Amor, culpa, ciúme, inveja, solidão e desejo estão presentes em cada momento do filme, misturados pelas mãos mágicas do cineasta e interpretados por uma dupla de expressivas atrizes dividindo o papel central. Assim como todos os seus filmes anteriores, "Julieta" não é drama de uma única emoção - e Almodóvar faz com que o espectador sinta cada uma delas sem que para isso precise apelar para lágrimas e sorrisos fáceis.


A trama, aparentemente simples, começa quando Julieta (Emma Suárez), uma ex-professora de literatura grega em vias de deixar Madri com o namorado, o escultor Lorenzo (Dario Grandinetti, de "Fale com ela", também de Almodóvar), reencontra, na rua, a jovem Beatriz (Michelle Jenner), amiga de infância de sua única filha, Antía. O reencontro mexe profundamente com Julieta, que não vê nem tem notícias da filha há anos, desde que esta viajou para um retiro espiritual e nunca mais procurou a mãe. Desistindo de sair do país e voltando para o apartamento onde morava com a menina, Julieta entra em uma jornada através do tempo, relembrando sua história de amor e perda com Xoan (Daniel Grao), iniciada em uma viagem de trem e terminada tragicamente, de forma a deixar marcas indeléveis em sua alma. Dessas memórias - quando é interpretada por Adriana Ugarte - fazem parte outros personagens importantes, como a empregada doméstica Marian (Rossy de Palma, presença constante na obra do diretor) e a escultora Ava (Inma Cuesta), que, de um modo ou outro, são fundamentais no rumo dos acontecimentos.

Magistralmente executado - sem excessos e dotado de uma elegância quase inédita na carreira do cineasta - "Julieta" é um filme de notas menores, uma surpresa quando se trata do normalmente excêntrico Almodóvar. Apresentando emoções contidas e represadas, sua trama aposta no minimalismo, como refletindo o silêncio da protagonista diante de seu constante desespero. Ao fugir de sua zona de conforto e evitar catarses grandiosas, o diretor segue o caminho inverso de sua obra até aqui e surpreende positivamente, mostrando (mais uma vez) que, por trás do rebelde e escandaloso autor de "Mulheres à beira de um ataque de nervos" (88) existe um homem de sensibilidade rara quando se trata de conhecer a alma humana - em especial a feminina. Até mesmo o final - anti-climático para alguns, emocionante para outros - é quase uma antítese do Almodóvar histriônico ao que se está acostumado. E é sempre refrescante e empolgante perceber que um grande artista ainda tem o poder de se reinventar com tanta genialidade. Bravo, Almodóvar! Mais uma vez.

sábado, 26 de novembro de 2016

O CONVITE

O CONVITE (The invitation, 2015, Gamechanger Films, 100min) Direção: Karyn Susama. Roteiro: Phil Hay, Matt Manfredi. Fotografia: Bobby Shore. Montagem: Plummy Tucker. Música: Theodore Shapiro. Figurino: Alysia Raycraft. Direção de arte/cenários: Almitra Corey/Ben Plunkett. Produção executiva: Nate Bolotin, Dan Cogan, Wendy Ettinger, Mynette Louie, Tony Mancilla, Julie Parkr Benello, Aubin Paul. Produção: Martha Griffin, Phil Hay, Matt Manfredi, Nick Spicer. Elenco: Logan Marshall-Green, Emayatzy Corinealdi, John Carroll Lynch, Tammy Blanchard, Michiel Huisman, Mike Boyle, Michelle Krusiec, Jordi Vilasuso, Jay Larson, Marieh Delfino, Toby Huss. Estreia: 13/3/15

As cenas iniciais, tensas e com um certo ar de estranhamento, já dá uma pista do que virá: em direção a um jantar na casa de amigos, o casal Will (Logan Marshall-Green) e Kira (Emayatzy Corinealdi) atropela um cervo, e, sem outra opção em vista, o rapaz é obrigado a sacrificar o animal com uma das ferramentas do carro. É esse tom de angústia e tensão que irá se desenvolver e aprofundar por todos os 100 minutos de duração de "O convite", primeiro longa-metragem da nova-iorquina Karyn Susama depois do terror adolescente "Garota infernal" (09). Amadurecida como cineasta e de posse de um material infinitamente mais rico e promissor, ela faz de seu filme um exercício constante de desconforto, enfatizado por uma fotografia opressiva e um elenco que, mesmo sem astros conhecidos, oferece ao espectador um senso de perigo iminente que vai crescendo cada vez mais, até o final aterrador e chocante.

Acostumada a lidar com protagonistas femininas - são dela também "Boa de briga" (2000), com Michelle Rodriguez, e "Aeon Flux" (05), com Charlize Theron - Susama dessa vez centra sua atenção no personagem de Logan Marshall-Green, do elenco de "Prometheus" (12) e idêntico à Tom Hardy em certos momentos. Com uma atuação minimalista e corajosa ao romper com os clichês do gênero, ele empresta a seu Will tintas de tristeza e sofrimento que o afastam do estereótipo de herói inabalável. Contando a história sob seu atormentado ponto de vista, a cineasta o aproxima do espectador sem apelar para artifícios desonestos, utilizando-se apenas de seus conflitos internos para transformá-lo em uma pessoa de carne e osso, falível e propensa a crises de desespero e solidão - mesmo quando rodeado de gente. Will, o protagonista de "O convite", é um personagem de tragédia perdido em meio a uma trama de suspense - uma espécie de Cassandra de calças, incapaz de fazer com que as pessoas enxerguem o óbvio destino reservado a elas.


Will é um homem com um passado traumático. Seu casamento com Eden (Tammy Blanchard) naufragou depois da morte acidental do filho pequeno, um golpe pesado demais para que eles se mantivessem juntos de maneira saudável. Dois anos depois de perder contato com a ex-mulher, ele recebe o convite para juntar-se a ela, a seu novo marido, David (Michiel Huisman), e a um grupo de antigos amigos em um jantar na casa onde viviam anteriormente. Acompanhado da nova companheira, Kira, ele aceita participar da reunião, mas tão logo chega no local passa a sentir uma estranha energia vinda de seus anfitriões. Suas dúvidas em relação às intenções do convite, porém, não são compartilhadas pelos demais convidados, que se sujeitam tranquilamente a todas as brincadeiras e testes propostos para animar a noite. Tranquilos e aparentemente felizes, Eden e David não se cansam de propalar os benefícios de um culto que conheceram durante uma viagem ao México - um simulacro de religião que a ensinou a lidar com a dor da perda e mudou sua vida. Convencido de que o encontro tem muitas ligações com tal culto, Will tenta alertar os amigos, mas ninguém dá ouvidos a seus avisos.... até que ele mesmo passa a duvidar de sua sanidade mental.

Um suspense psicológico que substitui com eficiência a violência gráfica pelo clima claustrofóbico e aflitivo, "O convite" vai construindo sua tensão gradualmente, mergulhando o público em um caldeirão de estranheza que vai ficando mais aguda conforme o tempo passa. De inocentes jogos de salão até revelações melancólicas, a noite alegre vai se tornando um círculo de paranoia crescente, que leva a plateia consigo até explodir em um clímax sangrento que não apenas cumpre o que promete desde seus primeiros minutos, como também critica contundentemente a forma como alguns tipos de religião se aproveitam da dor alheia para promover a violência e o desespero. Desviando com esperteza dos clichês que inundam o gênero, Karyn Susama entrega um filme de horror que prescinde de assassinos mascarados para promover o medo e a agonia. Com os dois pés bem fincados na realidade, ela conquista a audiência e levanta questionamentos relevantes em dias de obscurantismo religioso. De quantos filmes de terror pode-se dizer a mesma coisa?

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

INDIGNAÇÃO

INDIGNAÇÃO (Indignation, 2016, RT Features/X-Filme Creative Pool, 110min) Direção: James Schamus. Roteiro: James Schamus, romance de Philip Roth. Fotografia: Christopher Blauvelt. Montagem: Andrew Marcus. Música: Jay Wadley. Figurino: Amy Roth. Direção de arte/cenários: Inbal Weinberg/Philippa Culpepper. Produção executiva: Stefanie Azpiazu, Jonathan Bronfman, Avy Eschenazy, Logan Lerman, Sophie Mas, Woody Mu, Lourenço Sant'Anna, Lisa Wolofsky. Produção: Anthony Bregman, James Schamus, Rodrigo Teixeira. Elenco: Logan Lerman, Sarah Gadon, Danny Burnstein, Tracy Letts, Linda Emond. Estreia: 24/01/16 (Festival de Sundance)

Um dos mais celebrados escritores norte-americanos, Philip Roth não teve a mesma sorte das livrarias quando adaptado para o cinema. Dono de uma prosa contundente e sofisticada, ele viu seu mais famoso romance, "A marca humana", chegar às telas sob a direção de Robert Benton em uma versão apenas morna estrelada por Anthony Hopkins e Nicole Kidman chamada "Revelações" (04) e "O animal agonizante" ganhar o mundo sem muito alarde como "Fatal", dirigido por Isabel Coixet e estrelado por Ben Kingsley e Penelope Cruz em 2008. Normalmente explorando em sua premiada literatura o universo da imigração judaica nos EUA e a luta do homem contra seus instintos sexuais, Roth é um autor que exige a compreensão absoluta de um dos elementos mais difíceis de traduzir na tela: estados de espírito. Seus personagens, frequentemente torturados por pensamentos angustiados e grande senso crítico em relação ao mundo em que vivem, não encontravam eco fora das páginas até que James Schamus - produtor de importantes filmes de Ang Lee, como "Tempestade de gelo" (97) e "O tigre e o dragão" (2000) - resolveu que era hora de mudar esse cenário. Surge "Indignação", a melhor e mais tocante transposição do universo de Philip Roth para a sétima arte.

Com uma estreia discreta no Festival de Sundance de 2016 e um lançamento pouco ambicioso depois de passar por uma série de outros festivais de cinema, "Indignação" é um drama poderoso e emocionante, que toca em diversos nervos da sociedade norte-americana, movida a hipocrisias e preconceitos, ao contar uma história que começa como romance juvenil para se transformar em uma dramática trama sobre escolhas e obrigações morais. Com uma surpreendente atuação do jovem Logan Lerman - revelado na série de filmes "Percy Jackson" - no papel principal e uma reconstituição de época impecável mas discreta, o filme convida o espectador a mergulhar em um mundo claustrofóbico de regras brutais e machistas, capazes de ressonâncias eternas e excruciantes dores na alma. Não é o que se pode chamar de um entretenimento leve, mas Schamus conduz seu roteiro com o máximo de leveza possível, erguendo pouco a pouco, cena por cena, um muro de preceitos aparentemente simples que só mostrará sua extensão nos minutos finais - sutis, mas ensurdecedores.


Valorizando ao máximo os longos diálogos criados por Philip Roth - em especial uma brilhante sequência entre o protagonista e o reitor de sua universidade, a respeito de religião - o roteiro de James Schamus não subestima a inteligência do espectador lhe oferecendo soluções fáceis ou óbvias. A jornada do personagem central rumo à maturidade emocional é repleta de percalços que contrastam com sua natureza pura e honesta, consequência de uma criação com rígidos valores morais que, paradoxalmente, irão ser os responsáveis pelos mais dramáticos momentos de sua vida adulta, quando é obrigado a decidir entre manter seus princípios ou criar outros, mais benevolentes e de acordo com sentimentos até então inéditos e desconhecidos. Lerman, até então um ator pouco explorado - seu trabalho mais impactante havia sido em outro retrato de um rito de passagem, o belo "As vantagens de ser invisível" (2012) - transmite com sensibilidade todas as nuances de um personagem difícil, cuja ação interior é tão ou mais importante quanto a exterior. Nunca seu olhar assustado e frágil coube tão bem quanto na sua personificação de Marcus Messner, o tímido filho de um açougueiro judeu de Nova Jersey que entra na universidade de Ohio, em 1951 para descobrir que o mundo é muito mais opressivo, com seus códigos não-escritos de conduta, do que a rotina enfadonha de atender aos clientes de seu pai.

Resistindo bravamente quanto a juntar-se aos outros (poucos) judeus da universidade, que insistem em tentar recrutá-lo em uma espécie de confraria, Marcus tampouco aceita com serenidade a obrigação de participar das missas católicas do local - que tem tanta importância quanto seu desempenho curricular. Em suas tentativas de respirar, ele conhece a bela Olivia Hutton (Sarah Gadon), que o surpreende com uma liberalidade sexual e sentimental além de qualquer experiência anterior. Repentinamente, porém, os rumos de sua relação passam a ser ditados pela hipocrisia da sociedade que os envolve - com sua absoluta falta de pudores quando o assunto é sexo, Olivia se torna uma ameaça aos planos de Marcus, o que os encaminha a uma possível tragédia. Mas será que o rapaz terá força o bastante para impedir tal destino? Ou os desígnios da falsa moralidade são maiores do que seus sentimentos? Com tais questionamentos na mesa, Philip Roth construiu uma trama urdida com base na dor do amadurecimento e na certeza da impotência frente ao preconceito, e James Schamus honra tal obra com um filme adulto, sério, elegante e principalmente respeitoso com a fonte original, desde o tom quase cerimonioso até a escalação certeira do elenco. Valorizado ainda pela bela música de Jay Wadley, "Indignação" é uma pérola escondida, pronta para ser descoberta pelos fãs do bom cinema.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

O HOMEM QUE MUDOU O JOGO

O HOMEM QUE MUDOU O JOGO (Moneyball, 2011, ColumbiaPictures, 131min) Direção: Bennett Miller. Roteiro: Steven Zaillian, Aaron Sorkin, livro de Michael Lewis. Fotografia: Wally Pfister. Montagem: Christopher Tellefsen. Música: Mychael Danna. Figurino: Kasia Malicja Maione. Direção de arte/cenários: Jess Gonchor/Nancy Haigh. Produção executiva: Mark Bakshi, Andrew Karsch, Sidney Kimmel, Scott Rudin. Produção: Michael De Luca, Rachael Horovitz, Brad Pitt. Elenco: Brad Pitt, Jonah Hill, Philip Seymour Hoffman, Robin Wright, Chris Pratt, Spike Jonze, Stephen Bishop, Brent Jennings, Tammy Blanchard, Arliss Howard. Estreia: 09/9/11 (Festival de Toronto)

06 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Brad Pitt), Ator Coadjuvante (Jonah Hill), Roteiro Adaptado, Montagem, Mixagem de Som

Poucas pessoas em Hollywood conseguiriam convencer um estúdio a bancar um filme a respeito de beisebol e matemática, dois assuntos não exatamente populares - especialmente fora dos EUA, onde o esporte é praticamente veneno de bilheteria. E uma dessas poucas pessoas é o diretor Steven Soderbergh, que desde 1989, quando ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes com "sexo, mentiras e videotape", consagrou-se como o cineasta independente mais bem-sucedido do cinema norte-americano. Nem mesmo alguns tiros n'água foram o suficiente para diminuir seu prestígio na indústria - e o Oscar de melhor diretor por "Traffic" (2000) no mesmo ano em que também concorria por "Erin Brokovich, uma mulher de talento" só aumentou seu cacife. Portanto, quando Soderbergh surgiu com a ideia de fazer um filme sobre o esporte com o elenco formado por ex-jogadores e profissionais da liga, poucos se surpreenderam com a aquiescência da Columbia Pictures em bancar os custos da produção. A surpresa veio mesmo quando o próprio diretor saiu fora do projeto, por divergências em relação ao roteiro, escrito pelo premiado Steven Zaillian. A entrada em cena de um novo comandante - Bennett Miller, indicado ao Oscar por "Capote" (05) - e um astro de primeira grandeza no papel principal - Brad Pitt - imediatamente inchou o orçamento, e o que seria uma produção menor ganhou destaque na mídia e nas cerimônias de premiação. Indicado a seis Oscar - incluindo melhor filme e ator - e com uma considerável bilheteria doméstica de mais de 75 milhões de dólares, "O homem que mudou o jogo" talvez tenha sido super-apreciado, mas é um filme bastante interessante, a despeito de seu tema pouco atraente.

Desprovido de seu charme de galã e de seu carisma irresistível, Brad Pitt arrancou uma indicação ao Oscar de melhor ator por seu desempenho como Billy Beane, o gerente geral de um time de beisebol de Oakland que tenta, com a ajuda de seu novo assistente, Peter Brand (Jonah Hill, lembrado como coadjuvante pela Academia), melhorar os índices de aproveitamento de sua equipe mesmo com um orçamento irrisório em comparação com os rivais. Perdendo os atletas-astros para times maiores, Beane e Brand - formado em Economia e sem nenhuma relação com o esporte em si - criam uma nova forma de calcular o quanto cada jogador pode render em campo, através de gráficos e percentuais. Contratando homens até então desacreditados ou relegados ao banco de reservas, eles enfrentam a descrença dos analistas técnicos e até do treinador, Art Howe (Philip Seymour Hoffman); Mas, para surpresa de todos, depois de um período de tempo as vitórias começam a acumular-se, transformando o Oakland Athletics em uma espécie de fenômeno inesperado.


Baseado em uma história real, contada por Michael Lewis em seu livro "Moneyball", o filme de Bennet Miller se beneficia de uma edição inteligente, que mergulha o espectador dentro não apenas dos jogos em si - cujas regras não são tão facilmente compreensíveis quanto as do futebol - mas das entranhas do esporte em geral. A melancolia dos estádios vazios, a frieza das negociações contratuais, a agonia das derrotas e a euforia das vitórias são retratadas de forma quase documental, com a câmera de Wally Pfister (diretor de fotografia preferido de Christopher Nolan) sempre atenta a qualquer detalhe capaz de humanizar cada um de seus personagens. Mesclando imagens de arquivo com cenas feitas especialmente para o filme, Miller consegue a proeza de enfatizar a emoção do esporte sem precisar, para isso, abdicar de uma certa dose de racionalidade que dá ao resultado final uma curiosa mescla entre cérebro e coração: é impossível não torcer pelos desacreditados jogadores menosprezados, mesmo que a direção quase cirúrgica evite qualquer traço de sentimentalismo. Até mesmo a relação entre Beane e a filha pré-adolescente é tratada com discrição, apesar de permitir à Pitt que demonstre a sutileza de sua atuação.

Centrando todo seu foco nos dois protagonistas, "O homem que mudou o jogo" conta com participações especiais ilustres - além de Philip Seymour Hoffman como o treinador Art Howe, aparecem em cena Robin Wright (como a ex-mulher de Beane), o diretor Spike Jonze (como o novo marido dela) e Chris Pratt, antes de tornar-se popular como o herói de "Guardiões da galáxia" (2014), como um dos jogadores resgatados pelo método audacioso de Beane e Brand. Como um filme que se propõe a narrar uma história quase inacreditável sem apelar para grandes reviravoltas ou artifícios dramáticos, se utiliza de um excelente roteiro - que, inicialmente escrito por Steven Zaillian, foi burilado por Aaron Sorkin e indicado ao Oscar a categoria, perdendo para "Os descendentes" - para celebrar a persistência e o amor ao esporte, na figura de um protagonista falível e realista, iluminado por flashbacks reveladores que explicam sua trajetória de atleta promissor a gerente em crise profissional. Sem excesso de nenhuma natureza - característica de seu diretor - é uma obra que cresce em uma revisão, desde que se saiba exatamente quais são seus objetivos e seu estilo narrativo. Mais uma bola dentro na carreira de Brad Pitt.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

HERÓIS IMAGINÁRIOS

HERÓIS IMAGINÁRIOS (Imaginary heroes, 2004, Signature Pictres, 111min) Direção e roteiro: Dan Harris. Fotografia: Tim Orr. Montagem: James Lyons. Música: Deborah Lurie. Figurino: Michael Wilkinson. Direção de arte/cenários: Rick Butler/Mila Khalevich. Produção executiva: Rudy Cohen, Jan Fantl. Produção: Illana Diamant, Moshe Diamant, Frank Hubner, Art Linson, Gina Resnick, Denise Shaw. Elenco: Sigourney Weaver, Jeff Daniels, Emile Hirsch, Michelle Williams, Kip Pardue, Deirde O'Connell, Ryan Donowho, Suzanne Santo. Estreia: 14/9/04 (Festival de Toronto)

A princípio, tem-se a nítida impressão de que "Heróis imaginários" é uma versão modernizada de "Gente como a gente", estreia de Robert Redford como cineasta, que ganhou os Oscar de melhor filme e direção de 1980: uma família já com uma saudável cota de problemas precisa lidar com o suicídio do primogênito enquanto o caçula, ainda adolescente, tenta encontrar o equilíbrio necessário para sobreviver em um mundo pouco hostil. Porém, não precisa-se de muito tempo para perceber, com uma dose de alívio, que o filme de Dan Harris pode até ter se inspirado na produção estrelada por Donald Sutherland e Mary Tyler Moore, mas tem personalidade própria. Em seu primeiro longa-metragem como diretor - em seu currículo já constava o roteiro de "X-Men 2" (2003) - Harris, com 35 anos à época do lançamento do filme, demonstra maturidade surpreendente ao falar de luto, desajuste social e angústias de todo tipo sem cair na armadilha do sentimentalismo barato nem mesmo quando ameaça descambar para o dramalhão.

Apesar de ser Sigourney Weaver o grande nome do elenco, o real protagonista de "Heróis imaginários" é o jovem Emile Hirsch, que quatro anos mais tarde se consagraria no papel central de "Na natureza selvagem", dirigido por Sean Penn. Hirsch interpreta Tim Travis, o filho mais novo de uma família aparentemente normal que vê seu mundo virar de cabeça para baixo quando o primogênito, Matt (Kip Pardue), comete suicídio. Exímio nadador e orgulho do pai, Ben (Jeff Daniels), Matt só consegue manifestar sua infelicidade crônica com a vida dando um tiro na cabeça. Sua morte violenta e inesperada joga toda a família em uma espiral de angústia da qual cada um só consegue emergir da própria maneira. Ben, o pai, passa a andar a esmo pelas ruas e faltar ao trabalho. A mãe, Sandy (Sigourney Weaver), apela para pequenas transgressões, como fumar maconha e flertar com rapazes mais jovens. A filha universitária, Penny (Michelle Williams dando início a uma série de filmes dramáticos que passariam a lhe dar prestígio), passa a frequentar cada vez menos o lar. E Tim, que teve o azar de encontrar o corpo do irmão, luta para enfrentar os problemas da adolescência ao mesmo tempo em que procura encaixar-se em um núcleo familiar cada vez menos atraente e significativo.


Emprestando a Tim seu talento em parecer vulnerável e introvertido, Emile Hirsch cabe como uma luva no papel do protagonista, sem carregar nas tintas dramáticas nem quando segredos de família e a verdade sobre sua relação com o irmão surgem com a força de um caminhão desgovernado. Amparado pela atuação sensível e discreta de Sigourney Weaver - responsável por alguns dos melhores momentos do filme - o jovem ator alcança a rara façanha de criar um personagem melancólico na medida certa, sem forçar a compaixão da plateia ou buscar o caminho mais fácil de conquistar sua simpatia. Seu Tim é repleto de nuances - todas exploradas com delicadeza e bom senso, graças ao roteiro do diretor - e é louvável como o cineasta consegue atingir todas as notas de sua trama mesmo quando opta por revelar todos os seus elementos aos poucos, como uma jornada de autodescoberta dolorida mas imprescindível. Como em todos os bons filmes sobre a difícil travessia da infância para a vida adulta, "Heróis imaginários" tem em seu caminho decepções, alegrias e uma bem-vinda dose de otimismo que dá o equilíbrio exato entre a tristeza das perdas e a felicidade de se estar vivo.

Sem pretensões a tornar-se retrato de uma geração, "Heróis imaginários" é o recorte de um ritual de passagem, pura e simplesmente. Torna-se especial graças ao roteiro sensível, à direção inspirada de um cineasta ainda bastante jovem e antenado e a um elenco em estado de graça, capaz de transformar sentimentos comuns em matéria-prima de uma história que poderia acontecer em qualquer lugar do mundo, em qualquer classe social ou qualquer tipo de família. É a essência de "Gente como a gente", mas tornada mais acessível a uma plateia jovem e com valores um tanto diferentes daqueles revelados por Redford no final da década de 70 - um exemplo disso são as relações de Tim com sua namorada, Steph (Suzanne Santo) e com seu melhor amigo e vizinho, Kyle (Ryan Donowho), bem mais ousadas do que no filme oscarizado. O conteúdo principal ainda é forte e contundente, mas a forma é mais moderna e atraente para as novas plateias. Vale ser descoberto e apreciado por quem procura bons dramas familiares, mas sua despretensão o impede de ser ainda melhor.

terça-feira, 22 de novembro de 2016

A GRANDE ILUSÃO

A GRANDE ILUSÃO (All the king's men, 2006, Columbia Pictures, 128min) Direçao: Steven Zaillian. Roteiro: Steven Zaillian, romance de Robert Penn Warren. Fotografia: Pawel Edelman. Montagem: Wayne Wahrman. Música: James Horner. Figurino: Marit Allen. Direção de arte/cenários: Patrizia Von Brandenstein/Patricia Schneider. Produção executiva: James Carville, Andy Grosch, Michael Hausman, Ryan Kavanaugh, Todd Phillips, Andreas Schmid, David Thwaites. Produção: Ken Lemberger, Mike Medavoy, Arnold W. Messer, Steven Zaillian. Elenco: Sean Penn, Jude Law, Kate Winslet, Anthony Hopkins, Mark Ruffalo, Patricia Clarkson, James Gandolfini, Jackie Earle Haley, Kathy Baker, Talia Balsam, Tom McCarthy. Estreia: 10/9/06 (Festival de Toronto)

O remake de "A grande ilusão", cujo original de 1949 ganhou os Oscar de melhor filme, ator (Broderick Crawford) e atriz coadjuvante (Mercedes McCambridge), serviu para reiterar duas verdades absolutas em Hollywood: primeiro, que política é um assunto que definitivamente não atrai as plateias americanas que frequentam as salas de cinema; segundo, que nem mesmo uma seleção de atores do primeiríssimo escalão é capaz de fazer mágica quando há o desinteresse do público. Com um elenco estrelado, repleto de astros vencedores e indicados ao Oscar, o filme de Steven Zaillian - ele mesmo ganhador da estatueta pelo roteiro de "A lista de Schindler" (93) - fracassou homericamente nas bilheterias e não obteve apoio nem mesmo da crítica especializada, que praticamente ignorou sua estreia - um ano depois, aliás, da data inicialmente prevista para seu lançamento. Mas o que é mais chocante nessa história toda é que o filme, apesar de violentamente rechaçado, está muito longe de ser ruim ou medíocre: é um trabalho bastante interessante, valorizado por seus intérpretes e com uma trama de grande relevância política, especialmente nos dias que seguem.

Baseado não no filme de Robert Rossen, mas mais especificamente no romance que lhe deu origem - escrito por Robert Penn Warren e inspirado na trajetória do político Huey Long, que foi governador da Louisiana - "A grande ilusão" tem como protagonista o populista Willie Stark (Sean Penn, em grande performance), que se torna governador do estado depois de desmascarar os conchavos de políticos mais experientes que queriam usá-lo como joguete. Incensado pela população carente, que vê nele uma sinceridade que inexiste em outros candidatos, Stark vê sua ascensão incomodar as camadas mais importantes da região, homens de grande poder financeiro que se sentem ameaçados com as promessas e obras do novo líder. Embriagado pelo poder - que o faz trair sucessivamente a esposa, tanto com jovens artistas quanto com sua auxiliar de campanha, Sadie Burke (Patricia Clarkson) - Stark entra na mira de seus inimigos, que iniciam uma campanha pedindo seu impeachment. Abusando de métodos pouco ortodoxos, ele então pede ajuda ao jornalista Jack Burden (Jude Law), que o acompanha desde seus primeiros dias de vida pública, a tentar descobrir algum podre no passado de seu principal rival, o juiz Irwin (Anthony Hopkins) - que vem a ser, por coincidência, padrinho do jovem. Não bastasse tanta confusão, Burden testemunha a forma como Stark se deixa envolver pelo lado sujo do poder, o que inclui seu melhor amigo de juventude, Adam Stanton (Mark Ruffalo) e a irmã deste, seu grande amor Anne (Kate Winslet).


Apesar da profusão de personagens importantes - defendidos por atores nunca aquém de brilhantes - e da trama com mais de um foco de interesse, "A grande ilusão" não incorre no erro tão comum de confundir o espectador, com idas e vindas desnecessárias: sempre que faz uso de flashback, o roteiro de Zaillian o faz com inteligência e parcimônia, servindo-se dele para iluminar detalhes a respeito de seus protagonistas e explicar ao público os caminhos que os levaram até determinado ponto da narrativa. Vista sob a ótica de Jack Burden - um Jude Law injustamente esquecido pelas cerimônias de premiação - e, portanto, com um certo distanciamento que vai sumindo aos poucos, a história de Willie Stark não prescinde de tramoias, ameaças, chantagens e violência, mas, ao situar a trama na década de 50 (décadas antes da mídia imediatista dos dias atuais), o diretor/roteirista de certa forma justifica os atos quase desprezíveis de seu personagem central. É perceptível que, apesar dos erros cometidos por Stark em sua ascensão, há uma certa dose de simpatia por ele - talvez devido à atuação cheia de garra de Sean Penn, talvez devido à maneira brutal com que ele é desprezado pelos poderosos. Essa ambiguidade, bem retratada por Zaillian é outro ponto forte do filme, que jamais aponta uma verdade absoluta sobre Stark, oferecendo à plateia algo a refletir mesmo depois do fim da sessão.

Logicamente, o filme de Zaillian não é perfeito, e sua demora em engrenar é um de seus pecados - a primeira sequência, que mostra Stark, Burden e seu segurança/capanga (Jackie Earle Haley) em direção à residência de um de seus inimigos mais confunde do que intriga. A transformação de Stark também é um tanto problemática, uma vez que não fica muito claro ao espectador em que momento de sua trajetória ele se deixou seduzir pelo poder fácil e por suas vantagens - e qual o destino de sua esposa, a princípio importantíssima em suas decisões e repentinamente desaparecida da narrativa. Mas são defeitos pequenos diante de um filme forte, interessante e realizado perceptivelmente com esmero e dedicação - Sean Penn e Mark Ruffalo, por exemplo, são atores politicamente engajados, o que deve ter contribuído consideravelmente em suas decisões de participar do projeto. Uma pena que não encontrou sua audiência: "A grande ilusão" é um filme que merece ser descoberto.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

DE VOLTA PARA O FUTURO - PARTE III

DE VOLTA PARA O FUTURO - PARTE III (Back to the future - Part III, 1990, Universal Pictures, 118min) Direção: Robert Zemeckis. Roteiro: Bob Gale, estória e personagens de Robert Zemeckis, Bob Gale. Fotografia: Dean Cundey. Montagem: Harry Keramidas, Arthus Schmidt. Música: Alan Silvestri. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Rick Carter/Margie Stone McShirley, Jim Teegarden. Produção executiva: Kathleen Kennedy, Frank Marshall, Steven Spielberg. Produção: Neil Canton, Bob Gale. Elenco: Michael J. Fox, Christopher Lloyd, Mary Steenburgen, Lea Thompson, Elisabeth Shue, Thomas F. Wilson, James Tolkan. Estreia: 25/5/90

Quando Robert Zemeckis e Bob Gale resolveram que o sucesso estrondoso de "De volta para o futuro" (85) merecia uma continuação, se depararam com uma situação atípica dentro da indústria hollywoodiana: ao invés de experimentarem um bloqueio criativo, eles foram brindados com uma profusão de ideias, que expandiam o universo de viagens no tempo a ponto de dar material não apenas para uma, mas duas sequências. Então, com o aval da Universal Pictures, entusiasmada com a centena de milhares de dólares arrecadados pelo primeiro filme, diretor e roteirista tomaram a decisão então inédita de rodar dois filmes simultaneamente, para que estreassem com o intervalo de um ano entre um e outro. Assim, a história do adolescente que precisava voltar trinta anos no passado para garantir que sua existência não fosse apagada acabava por se transformar em uma trilogia das mais amadas de sua época, repleta de personagens adoráveis, diálogos bem escritos e cenas que entraram para o inconsciente coletivo. Uma pena que seu encerramento, "De volta para o futuro - parte III" seja o menos empolgante da série, deixando no ar uma ligeira sensação de anti-clímax.

Depois de dedicar os dois primeiros filmes à família de Marty McFly (Michael J. Fox) - tanto em 1955 quanto em um 1985 alternativo - o roteiro do terceiro capítulo volta seus olhos para o outro protagonista da história, o cientista Emmett Brown (Christopher Lloyd, sempre ótimo), dessa vez remetendo os personagens para o Velho Oeste, mais precisamente para o ano de 1885, onde Brown está levando uma vida pacífica e tranquila, segundo uma carta escrita de próprio punho para ele mesmo, no futuro. A complicação começa, porém, quando ambos descobrem, em 1955, que apenas uma semana depois de ter escrito a carta, o cientista será assassinado por um conhecido criminoso local. Para impedir que tal tragédia ocorra, Marty convence o amigo a deixá-lo retornar no tempo mais uma vez. É assim que ele chega a uma Hill Valley em seus primórdios e, assumindo o pseudônimo de Clint Eastwood, conhece seus antepassados, Seamus (também Michael J. Fox) e Maggie McFly (Lea Thompson), o apavorante "Mad Dog" Tannen (Thomas F. Wilson) e a professora Clara Clayton (Mary Steenburgen), que, tão logo chega no local, desperta uma inesperada paixão no solitário Emmett Brown.


Como uma grande homenagem a um dos gêneros mais queridos de Hollywood, "De volta para o futuro - parte III" abarca uma infindável coleção dos maiores ícones do western. Do nome adotado por Marty quando chega à Hill Valley até o clímax em uma estrada de ferro, todos os elementos mais clássicos do faroeste desfilam pela tela, de forma mais ou menos explícita. Há o saloon onde se encontram os valentões e McFly dá de cara com Mad Dog pela primeira vez; há os bailes ao ar livre onde a comunidade confraterniza em momentos de paz; há os figurinos típicos, com direito a um extravagante conjunto vestido pelo protagonista ("Deve ter roubado de algum chinês morto!"); há ataques indígenas e, finalmente, há a moldura esplendorosa do Monument Valley, cenário arquetípico facilmente reconhecível até mesmo por aquela plateia que jamais ouviu falar em John Ford. Para aproximar-se de um público mais jovem e menos afeito à nostalgia, Zemeckis reveste todos esses ingredientes com um atraente senso de humor e aventura que disfarça sua real intenção: realizar um faroeste à moda antiga, mas com os recursos da (então) moderna tecnologia cinematográfica. Ao mesmo tempo em que brinca com os demais filmes da série - com cenas e situações que dialogam diretamente com os capítulos anteriores - o diretor injeta sangue novo à mitologia do enredo, mostrando a construção da torre do relógio (peça-chave nos três filmes), apresentando os pioneiros McFly nos EUA e o início da rivalidade entre a família do protagonista e os Tannen - que um século mais tarde ainda estará bem viva, como mostram as brigas entre George e Biff. Sem perder em momento algum o senso de humor e a coerência interna com o universo criado em 1985, o filme só não é perfeito por estender-se demais.

Com uma trama sem a quantidade de acontecimentos dos dois primeiros filmes - tão movimentados que chegavam a dar um nó na cabeça do espectador - e a história principal centrada no romance entre Brown e Clara Clayton, "De volta para o futuro - parte III" se ressente de uma edição mais enxuta, capaz de limar alguns excessos. O clímax do filme, por exemplo, em um trem à toda velocidade, mais cansa o público do que o encanta, e o desfecho da história, mesmo que necessário, estende-se mais do que deveria: não deixa nenhuma ponta solta, o que é admirável, mas demora a ponto do quase tédio. Por mais que o público goste de Marty McFly e Emmett Brown, sua despedida poderia ser bem mais ágil e divertida. É um final agradável, simpático e coerente, mas que não chega a estar à altura dos dois primeiros filmes, o que, de certa forma, era uma missão quase impossível.