terça-feira, 11 de julho de 2017

PEGGY SUE: SEU PASSADO À ESPERA

PEGGY SUE: SEU PASSADO À ESPERA (Peggy Sue got married, 1986, TriStar Pictures, 103min) Direção: Francis Ford Coppola. Roteiro: Jerry Leichtling, Arlene Sarner. Fotografia: Jordan Cronenweth. Montagem: Barry Malkin. Música: John Barry. Figurino: Theadora Van Runckle. Direção de arte/cenários: Dean Tavoularis/Marvin March. Produção executiva: Barrie M. Osborne. Produção: Paul R. Gurian. Elenco: Kathleen Turner, Nicolas Cage, Joan Allen, Helen Hunt, Sofia Coppola, Barbara Harris, Jim Carrey, Don Murray, Barry Miller, Kevin J. O'Connor. Estreia: 05/10/86

3 indicações ao Oscar: Atriz (Kathleen Turner), Fotografia, Figurino

A carreira de Francis Ford Coppola se divide entre produções ambiciosas (que tanto podem agradar em cheio quanto serem solenemente ignoradas pelo público) e filmes menores, de baixo orçamento e pretensões ainda menores. Em 1986, ele estava vindo do fracasso comercial do épico musical "Cotton Club" (84) quando acertou a mão com um drama romântico, delicado e sensível que refletia a nostalgia generalizada em relação à uma época mais inocente dos EUA, pré-assassinato de John Kennedy e Guerra do Vietnã. Projeto herdado da diretora Penny Marshall (que foi afastada pelos produtores por ser considerada inexperiente para um filme que já era tido pelo estúdio como uma produção relativamente grande), "Peggy Sue: seu passado à espera" não apenas deu à Kathleen Turner um dos maiores papéis de sua carreira (e uma subsequente indicação ao Oscar de melhor atriz) como contava com um jovem Jim Carrey em papel coadjuvante e revelou o nome de Nicolas Cage à plateia (ainda que em uma atuação um tanto equivocada e questionada pelo próprio diretor).

Na verdade, a presença de Cage esteve por um fio principalmente por sua insistência em utilizar-se de um tom de voz que tanto Coppola (seu próprio tio) e os produtores simplesmente odiaram desde o princípio. O fato de Cage ter vencido a disputa diz muito sobre sua personalidade persuasiva, mas é inegável que sua presença desequilibra o resultado final - quando Penny Marshall estava no comando da produção, por exemplo, os nomes cotados para viver o protagonista masculino foram os de Tom Hanks, Dennis Quaid e Sean Penn, todos atores bem menos excêntricos e de registro mais sutil. Sempre que Cage entra em cena, o filme assume um tom mais debochado, contrastando com o lirismo impresso pela fotografia de Jordan Cronenweth (também indicada ao Oscar) e pela trilha sonora leve e onírica, a cargo de John Barry e canções populares do começo dos anos 60. Felizmente a presença do ator não atrapalha o desempenho luminoso de Kathleen Turner, que transborda emoção e graça em cada diálogo.


Substituindo Debra Winger, que abandonou o projeto depois de um acidente de bicicleta, Turner está plenamente à vontade em cena, convencendo tanto como a dona-de-casa frustrada de 43 anos em vias de divorciar-se quanto como a adolescente atônita ao descobrir seu poder inexplicável de mudar os rumos de sua vida quando acorda em 1960. Aproveitando-se de um roteiro que explora o humor, o romantismo e o surreal da situação, a atriz revelada por Lawrence Kasdan em "Corpos ardentes" (81) entrega uma performance encantadora e tão mágica quanto o enredo: Peggy Sue, uma mulher desiludida com o fim de seu casamento com o namorado de adolescência, Charles Bodell (Nicolas Cage), vai quase à contragosto a uma festa para celebrar o reencontro de seus colegas de escola. Coroada rainha da festa, ela subitamente desmaia e, para sua surpresa/deleite/angústia, desperta em 1960, quando ainda não estava definitivamente comprometida com o futuro marido. Percebendo a possibilidade de modificar seu destino, ela resolve tentar a sorte com outro rapaz, o sensível e rebelde poeta Michael Fitzsimmons (Kevin J. O'Connor) - mas para isso ela terá de desvencilhar-se de Charles, completamente apaixonado por ela.

Equilibrando seu filme entre as decisões amorosas da protagonista e a forma como ela passa a lidar com a novidade temporal de sua vida - o reencontro com a irmã caçula, o contato com os avós já falecidos, a tentativa de ajudar Charles em sua carreira musical lhe dando de bandeja um sucesso ainda não lançado dos Beatles, sua associação com o gênio da escola, Richard Norvick (Barry Miller) -, Coppola dirige "Peggy Sue" com mão leve, sem jamais pesar o drama e preferindo sublinhar o tom lúdico do roteiro, em contraste com o humor acelerado e juvenil de "De volta para o futuro", dirigido por Robert Zemeckis um ano antes e que também brincava com viagens no tempo. Felizmente evitando explicações mirabolantes para a situação central - e também uma solução fácil e insatisfatória -, o filme fecha sua trama de forma coerente e emocionante, sem trair o público ou transfigurar seus personagens. Um entretenimento adulto e um dos melhores Francis Ford Coppola da década de 80!

segunda-feira, 10 de julho de 2017

JOGA A MAMÃE DO TREM

JOGA A MAMÃE DO TREM (Throw momma from the train, 1987, Orion Pictures, 88min) Direção: Danny De Vito. Roteiro: Stu Silver. Fotografia: Barry Sonnenfeld. Montagem: Michael Jablow. Música: David Newman. Figurino: Marilyn Vance-Straker. Direção de arte/cenários: Ida Random/Anne D. McCulley. Produção executiva: Arne L. Schmidt. Produção: Larry Brezner. Elenco: Billy Cristal, Danny De Vito, Anne Ramsey, Rob Reiner, Kim Greist, Kate Mulgrew. Estreia: 11/12/87

Indicado ao Oscar de Atriz Coadjuvante (Anne Ramsey)

Em 1951, Alfred Hitchcock lançou um de seus mais emblemáticos filmes, "Pacto sinistro", baseado em um romance de Patricia Highsmith - e cujo tema central, a transferência de culpa, era um de seus preferidos. Quase quarenta anos mais tarde, comprovando a perenidade e importância de sua obra como referência cultural, uma comédia de humor negro chegava às telas inspirada em sua premissa e, apesar da inteligência acima da média do roteiro - e da falta de efeitos visuais de última geração e de grandes astros em seu elenco -, faturou alto nos EUA, com uma bilheteria de quase 60 milhões de dólares. Estreia do ator Danny De Vito como diretor, "Joga a mamãe do trem" também conseguiu um fato raro: driblou a resistência da Academia de Hollywood em levar comédias ao Oscar e deu à veterana Anne Ramsey uma indicação à estatueta de atriz coadjuvante.


Conhecida do grande público por seu trabalho como Mamma Fratelli, a matriarca do crime na comédia juvenil "Os goonies" (87), Ramsey foi a escolha mais do que perfeita de De Vito para encarnar a irascível e cruel mãe do aspirante a escritor Owen (o próprio diretor em momento inspirado) - e fonte de todos os seus males e inseguranças. Mesmo sofrendo de constantes dores durante as filmagens, devido a uma cirurgia feita para tratar um câncer na garganta, a atriz simplesmente rouba todas as cenas em que aparece, oferecendo ao filme um tom de história em quadrinhos que equilibra com precisão os momentos menos histriônicos do roteiro de Stu Silver. Sempre que Owen e sua mamãezinha querida estão em cena, o filme abandona a narrativa mais convencional - repleta de diálogos espertos e citações culturais - para mergulhar no absurdo: é a chance que o diretor tem em mostrar criatividade e versatilidade, ensaiando um humor negro que chegaria ainda mais longe em seu trabalho seguinte, "A guerra dos Roses" (89), estrelado por Michael Douglas e Kathleen Turner. Chegando quase ao pastelão, De Vito diverte a plateia, mas é quando ele flerta com o suspense e com a comédia de situações é que demonstra o quão acertada foi sua primeira experiência na cadeira de diretor.



Na verdade, a realização de "Joga a mamãe do trem" começou com um pequeno impasse, relativo a um detalhe imprescindível para a trama: os direitos de imagem de "Pacto sinistro", de posse da Warner Bros, que não parecia inclinada a cedê-los para uma produção de outro estúdio (no caso, a Orion Pictures). A solução apareceu na forma de uma troca comercial aparentemente vantajosa para ambos os lados: para poder utilizar trechos da obra de Hitchcock, a Orion cedia à Warner os direitos de sua bem-sucedida comédia "Arthur, o milionário sedutor" (81), para que o estúdio fizesse a continuação que estava em seus planos. A vantagem dupla foi apenas aparente, no entanto, já que, enquanto "Joga a mamãe do trem" se tornava um dos quinze filmes mais vistos de 1987, "Arthur 2" naufragava violentamente nas bilheterias. O sucesso do filme de De Vito, mais do que afirmar que nem sempre o público é previsível, mostrava também que, por trás de sua diminuta figura, havia um talento inversamente proporcional também como cineasta.

Em seu primeiro filme, De Vito interpreta Owen Lift, um solteirão tímido e inseguro que sonha em tornar-se escritor - a despeito de não demonstrar muito talento na função e viver humilhado por sua quase sádica mãe (Anne Ramsey). Ele frequenta as aulas de redação ministradas por Larry Donner (Billy Cristal), um autor frustrado e amargurado pelo fato de ter seu livro roubado pela ex-mulher - agora famosa e milionária. Preso em um bloqueio criativo devido ao trauma, Donner é procurado pelo insistente Owen em busca de conselhos, mas interpreta mal uma dica do escritor e, depois de assistir ao filme de Hitchcock, acredita que a solução para os problemas de ambos é um assassinato cruzado: ele viaja, então, para matar a ex-mulher de Donner, e o persegue para fazê-lo cumprir sua parte no trato e dar fim à sua beligerante genitora. Obviamente, as coisas não saem como previstas, e é aí que o roteiro e a direção, somados ao elenco impagável, transformam "Joga a mamãe do trem" em um passatempo divertido e inteligente e em uma das comédias mais relevantes dos anos 80.

domingo, 9 de julho de 2017

SURPRESAS DO CORAÇÃO

SURPRESAS DO CORAÇÃO (French kiss, 1995, Polygram Filmed Entertainment/20th Century Fox, 111min) Direção: Lawrence Kasdan. Roteiro: Adam Brooks. Fotografia: Owen Roizman. Montagem: Joe Hutshing. Música: James Newton Howard. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Jon Hutman/Kara Lindstrom. Produção executiva: Charles Okun. Produção: Tim Bevan, Eric Fellner, Kathryn F. Galan, Meg Ryan. Elenco: Meg Ryan, Kevin Kline, Timothy Hutton, Jean Reno, François Cluzet. Estreia: 05/5/95

Desde sua estreia como cineasta em 1981, com o neonoir "Corpos ardentes", o roteirista Lawrence Kasdan sempre demonstrou uma versatilidade ímpar, percorrendo praticamente todos os estilos com inteligência e talento. Foi assim com os dramas "O reencontro" (83) e "Grand Canyon: ansiedade de uma geração" (91), a comédia de humor negro "Te amarei até te matar" (90), o romance de "O turista acidental" (88) e os westerns "Silverado" (85) e "Wyatt Earp" (94). Não chega a ser uma surpresa, portanto, que seu nome esteja por trás de "Surpresas do coração", sua primeira (e até agora única) investida na comédia romântica. Tampouco é surpreendente que, como aval para sua estreia, ele tenha contado com a providencial ajuda daquela que, na metade dos anos 90, era o principal nome de Hollywood no gênero: Meg Ryan. Uma das produtoras do filme, Ryan é a cara do projeto, uma produção agradável, divertida e inofensiva que, se não chega a ser memorável, ao menos é um passatempo bastante sofisticado, emoldurado por belas paisagens francesas e por um roteiro esperto que brinca com as diferenças culturais entre EUA e França - além de contar com um belo elenco e a fotografia inspirada de Owen Roizman em seu último trabalho.

Como frequentemente acontece no mundo do cinema, "Surpresas do coração" caiu nas mãos de Kasdan na hora certa: esgotado depois das problemáticas filmagens de "Wyatt Earp" - realizado com grande ambição mas recebido com frieza pelo público e pela crítica - e querendo um período de férias, ele encontrou, no roteiro de Adam Brooks, a desculpa perfeita para passar um tempo na França ao mesmo tempo em que trabalhava em um projeto menos grandioso. Sem poder contar com a presença de Gérard Depardieu (para quem o protagonista masculino foi escrito), o cineasta resolveu a questão da melhor forma possível e chamou para o elenco um amigo pessoal, parceiro habitual e, ainda mais importante, um ator sensacional. Em seu quinto trabalho com Kasdan, o premiado e sempre imprevisível Kevin Kline acrescenta um tempero a mais no filme, em uma personificação impagável de anti-galã - com direito a visual desleixado, mau-humor constante... e um charme incontestável.


A trama começa quando Kate (Meg Ryan), uma americana em vias de casar-se com o noivo, Charlie (Timothy Hutton), e assumir cidadania canadense, descobre, da pior maneira possível, que ele desistiu do compromisso depois de apaixonar-se por uma jovem francesa em sua viagem a Paris. Desesperada para reconquistá-lo, ela supera sua fobia de voar e resolve viajar ao encontro do novo casal. No avião, ela senta ao lado de Luc Teyssier (Kevin Kline), um típico francês falastrão e estranhamente interessado em suas histórias. Na verdade, o que Kate não sabe e só irá descobrir muito depois - quando já for tarde para tomar qualquer providência a respeito - é que Luc é um conhecidíssimo ladrão de joias que escondeu um valioso colar em sua mochila, juntamente com uma muda com a qual planeja começar um vinhedo em sua terra natal. Roubada por um antigo comparsa de Luc e sem possibilidade de voltar para casa, só resta à Kate reencontrar Charlie - e para isso, ela conta com a ajuda inesperada do adorável criminoso.

"Surpresas do coração" é o que se pode esperar de um filme estrelado por Meg Ryan. Assim como em todos os seus trabalhos anteriores do estilo, a atriz é simpática, engraçada e desajeitada na medida certa para a identificação da plateia feminina e interesse da masculina. Tal previsibilidade é, ao mesmo tempo, o maior trunfo e o calcanhar de Aquiles do filme: enquanto oferece ao público o que ele deseja quando se trata de uma comédia romântica (belas paisagens, personagens adoráveis, bons momentos de humor, uma trilha sonora inspirada), o trabalho de Kasdan não surpreende em momento algum, seguindo com lealdade canina todos os passos de uma produção do gênero. É lógico que o desempenho de Kevin Kline acrescenta prestígio ao filme (assim como o elenco francês, que inclui Jean Reno e François Cluzet, além do vencedor do Oscar Timothy Hutton), mas desta vez Kasdan não imprime uma marca diferencial, uma releitura que dê sua personalidade ao filme. É uma comédia romântica simples e eficiente, mas sem a intensidade de seus trabalhos anteriores - o que talvez seja algo proposital, afinal ele queria férias, não é verdade? No final das contas, para os fãs de Ryan, Kline e comédias românticas em geral, é um prato saboroso. Para o resto do público, é um passatempo dos mais divertidos - o que já é muito mais do que se pode dizer de boa parte de seus congêneres.

sábado, 8 de julho de 2017

TRÊS MULHERES, TRÊS AMORES

TRÊS MULHERES, TRÊS AMORES (Mystic Pizza, 1988, The Samuel Goldwyn Company, 104min) Direção: Donald Petrie. Roteiro: Amy Jones, Perry Howze, Randy Howze, Alfred Uhry, estória de Amy Jones. Fotografia: Timothy Suhrstedt. Montagem: Don Brochu, Marion Rothman. Música: David McHugh. Figurino: Jennifer Von Meyerhauser. Direção de arte/cenários: David Chapman/Clay Griffith. Produção executiva: Samuel Goldwyn Jr.. Produção: Mark Levinson, Scott Rosenfelt. Elenco: Annabeth Gish, Julia Roberts, Lily Taylor, Vincent D'Onofrio, Conchata Ferrell, William R. Moses, Adam Storke, Matt Damon. Estreia: 21/10/88

Kat está em vias de iniciar a faculdade em Yale, mas aceita um trabalho extra de babá - até que não consegue controlar seus sentimentos e se envolve em uma relação destinada ao fracasso; sua irmã, Daisy, sensual e extrovertida, inicia um namoro com um rapaz de classe social superior à sua, surda aos avisos de que seu final não tem como ser feliz; e Jojo, que acabou de abandonar o noivo no altar, tenta reconquistá-lo a despeito de seu medo de compromissos e de sua libido à flor da pele serem problemas a superar para que a relação vingue. As três jovens trabalham como garçonetes em uma pizzaria de uma pequena cidade de Connecticut chamada Mystic e, além de lutarem por sua felicidade, são as protagonistas de um adorável pequeno filme chamado "Três mulheres, três amores", primeiro longa-metragem do cineasta Donald Petrie e responsável pelos primeiros papéis de destaque de um trio de atrizes que iria se destacar na década de 90 - sem falar que uma delas iria se tornar um dos maiores nomes do cinema americano do final do século XX: lançado no final de 1988, foi um dos filmes que chamaram a atenção do público e da crítica para uma bela e sorridente candidata a estrela: Julia Roberts.

Às vésperas de ser indicada pela primeira vez ao Oscar - como coadjuvante de "Flores de aço" (89) - e conhecer o estrelato absoluto com "Uma linda mulher" (90) - que lhe colocou novamente no páreo por uma estatueta que só viria uma década mais tarde -, Roberts já demonstrava, em "Três mulheres, três amores", o carisma e o talento que o público estava em vias de celebrar. Mérito também dos produtores, que a testaram para o papel da doidivanas Jojo mas resolveram acertadamente escalá-la para viver a voluptuosa Daisy, uma personagem capaz de explorar todas as facetas de sua capacidade dramática, e deixar Jojo nas mãos de Lily Taylor, também dando seus primeiros passos no cinema e se encaminhando para ser uma das queridinhas do cenário independente. Seu desempenho é repleto de uma jovialidade e de uma energia quase palpáveis, especialmente quando ao lado de Vincent D'Onofrio, que, na pele de seu atônito noivo católico, Bill - que não entende a fixação da noiva em sexo e seu medo de compromissos: juntos, Taylor e D'Onofrio proporcionam ao filme o toque de humor apropriado, que equilibra a determinação de Daisy e o romantismo de Kat - a personagem mais centrada e, justamente por isso, a mais surpreendente das três protagonistas.





Sensível e responsável, Kat resolve se dividir entre o emprego de garçonete na pizzaria e um trabalho de babá para a filha pequena do arquiteto Tim (William R. Moses), cuja esposa está viajando a trabalho. Enquanto aguarda o momento de embarcar para a universidade, ela começa a passar tempo demais com a menina e, por consequência, com seu pai, o que a leva a um romance inesperado e pouco recomendável - especialmente para alguém tão romântica e responsável. Nem mesmo sua irmã, Daisy, é tão inconsequente: apesar de namorar um rapaz rico, Charlie (Adam Storke), Daisy jamais se permite ser magoada ou inferiorizada, e usa de sua personalidade forte para impor seu ponto de vista mesmo que isso arrisque seu relacionamento. Juntas, as três se completam e dão força umas às outras - uma espécie de família abençoada pela dona do restaurante, Leona (Conchata Ferrell), cujo ingrediente secreto de seu molho unanimemente elogiado ela insiste em manter apenas para si.

Leve e despretensioso, "Três mulheres, três amores" (que quase ganhou uma sequência nos anos 90) se tornou o cartão de visitas de Donald Petrie, um diretor que especializou-se em comédias e episódios de séries de televisão até que, em 2000, tirou a sorte grande com "Miss Simpatia", um enorme sucesso de bilheteria estrelado por Sandra Bullock - e que redefiniu os rumos de sua carreira, levando-o para a seara das comédias românticas ("Como perder um homem em dez dias", de 2003, também surpreendeu positivamente). Já em seu primeiro filme, ele demonstra um bom senso de ritmo, de carinho pelos personagens e, ainda mais importante, a capacidade de criar identificação entre público e a história a ser contada. Pode parecer pouco, mas quando os créditos finais sobem e a plateia se despede das três moçoilas que lhe fizeram companhia nos últimos 100 minutos, pode-se perceber que nem todo cineasta consegue causar tanta simpatia e leveza. Uma ótima sessão da tarde adulta!

sexta-feira, 7 de julho de 2017

A MULHER DO TENENTE FRANCÊS

A MULHER DO TENENTE FRANCÊS (The French Lieutenant's woman, 1981, United Artists, 124min) Direção: Karel Reisz. Roteiro: Harold Pinter, romance de John Fowles. Fotografia: Freddie Francis. Montagem: John Bloom. Música: Carl Davis. Figurino: Tom Rand. Direção de arte/cenários: Assheton Gordon/Ann Mollo. Produção: Leon Clore. Elenco: Meryl Streep, Jeremy Irons, Hilton McRae, Emily Morgan, Charlotte Mitchell. Estreia: 18/9/81 (Festival de Toronto)

5 indicações ao Oscar: Atriz (Meryl Streep), Roteiro Adaptado, Montagem, Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Meryl Streep) 

Quando Meryl Streep recebeu sua primeira indicação ao Oscar de melhor atriz, por "A mulher do tenente francês" (81), ela já estava acostumada a ser lembrada pela Academia na categoria de coadjuvante - já havia sido indicada por "O franco-atirador" (78) e premiada por "Kramer vs Kramer" (79). Seu desempenho duplo no filme de Karel Reisz lhe valeu um Golden Globe de melhor atriz em drama, um prêmio dos críticos de Los Angeles e o BAFTA - mas, do alto de sua modéstia, ela o considera um dos mais fracos de sua carreira. Basta assistir ao filme uma única vez, no entanto, para constatar que já nos primeiros anos de sua carreira no cinema, Streep já era um fenômeno. Mesmo que Helen Mirren fosse a escolha do escritor John Fowles (autor do livro que deu origem ao filme), é difícil imaginar que alguém pudesse ser tão absolutamente certeira nos papéis centrais. Já brilhando em seu talento de imitar sotaques, a atriz teve lições diárias para aperfeiçoar seu tom britânico - mas é em seu olhar, sua expressão corporal e na vasta gama de emoções que ela transmite que reside seu maior trunfo: a sinceridade.

Sem buscar respostas definitivas a respeito da personagem-título, Streep serve como um canal (espetacular) para que a trama de Fowles (autor também do romance que originou "O colecionador", de 1966) chegue ao espectador da forma mais limpa e emocionante possível. Um livro difícil de ser adaptado (que o digam cineastas como Milos Forman, Mike Nichols, Sidney Lumet e Fred Zinnemann, entre outros que tentaram a façanha durante anos), "A mulher do tenente francês" ganha requintes de sofisticação com o roteiro escrito pelo premiado dramaturgo Harold Pinter. Experiente, Pinter criou uma solução inusitada como forma de comportar dois dos três finais alternativos propostos por Fowles em sua obra: inventou uma trama paralela, contemporânea, que dialogava com a trágica e romântica estória descrita no livro. Nem sempre funciona - em alguns momentos desvia o foco sem necessidade e não tem a força necessária para envolver o público -, mas não deixa de ser um exemplo de criatividade e, de certa forma, liga o passado e o presente com toques poéticos e dramáticos que também realçam as diferenças cruciais na visão do comportamento feminino em circunstâncias e tempos distintos.


A trama original se passa no interior da Inglaterra do século XIX, e é centrada na figura melancólica e desamparada de Sarah (Meryl Streep), que passa seus dias à sombra do preconceito de que é vítima graças a seu infeliz caso de amor com um militar francês, que a abandonou à própria sorte. Seu semblante misterioso acaba por chamar a atenção de Charles (Jeremy Irons), um biólogo que está no lugar para acertar os detalhes de seu casamento. Atraído irremediavelmente pela aura trágica de Sarah - cuja história é contada aos quatro ventos pela cidade -, o rapaz acaba por aproximar-se dela, a princípio por curiosidade e posteriormente por uma paixão avassaladora que arrisca sua reputação e seu noivado. Sarah, no entanto, não é uma personalidade fácil de decifrar - e logo Charles percebe que embarcou em um relacionamento cujas consequências poderão ser desastrosas. Enquanto isso, em uma narrativa paralela, um estúdio de Hollywood está filmando a trajetória de Sarah e Charles - e seus intérpretes, Anna e Mike (novamente Streep e Irons) se descobrem tão apaixonados quanto seus personagens.





 A divisão da história em dois tempos - com suas características próprias e personagens distintos - proporciona a Meryl Streep e Jeremy Irons (que voltariam a contracenar em "A casa dos espíritos", em 1994) a chance de mostrar sua versatilidade como intérpretes, dotando cada um de seus personagens com motivações e sentimentos próprios. Mesmo que a subtrama contemporânea não seja tão envolvente quanto o romance entre Sarah e Charles, a química entre os dois atores é brilhante, valorizada pela edição (indicada ao Oscar) e pela diferença de tons na fotografia de Freddie Francis - mais pesada no passado, mais clara no presente. O clima de opressão da vida de Sarah é também ilustrada pela trilha sonora inspirada e pela direção de arte, cinzenta e enevoada como sua alma. Dirigido com precisão pelo tcheco Karel Reisz, "A mulher do tenente francês" é um clássico romântico dos anos 80 - e mesmo que a própria Meryl Streep o contradiga, uma das atuações mais sutis e delicadas de sua carreira.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

SPLASH: UMA SEREIA EM MINHA VIDA

SPLASH: UMA SEREIA EM MINHA VIDA (Splash, 1984, Touchstone Pictures, 111min) Direção: Ron Howard. Roteiro: Lowell Ganz, Babaloo Mandel, Bruce Jay Friedman, estória de Brian Grazer. Fotografia: Don Peterman. Montagem: Daniel P. Hanley, Michael Hill. Música: Lee Holdridge. Figurino: May Routh. Direção de arte/cenários: Jack T. Collins. Produção executiva: John Thomas Lenox. Produção: Brian Grazer. Elenco: Tom Hanks, Daryl Hannah, John Candy, Eugene Levy. Estreia: 09/3/84

Indicado ao Oscar de Roteiro Original

Praticamente uma década antes de consagrar-se como um ator sério - e de quebra levar dois Oscar consecutivos, nos anos 94/95 -, Tom Hanks já era um astro devidamente reconhecido pelo grande público. Um exemplo claro disso foi a surpreendente bilheteria de "Splash: uma sereia em minha vida", estrelado por ele em 1984: primeiro filme lançado pela subsidiária da Disney (a Touchstone Pictures), a obra de Ron Howard custou meros oito milhões de dólares e rendeu, somente no mercado doméstico, mais de 60 milhões, arrancando elogios da crítica, capas de revista e uma inesperada indicação ao Oscar de roteiro original. Apesar do tom leve e romântico do filme e da beleza ímpar de Daryl Hannah, porém, é claro que o carisma de Hanks foi o maior responsável por fazer do filme um êxito incontestável - e isso que o próprio ator costuma brincar e dizer que ele foi apenas o 11º intérprete a ser considerado para o papel principal.

Pode até ser um pouco de exagero de Tom Hanks, mas o fato é que, realmente, antes de seu nome ser confirmado como o astro do filme, vários outros atores foram cotados para viver o protagonista - desde astros já reconhecidos (como John Travolta, Richard Gere, Burt Reynolds e Jeff Bridges) até grandes comediantes (Chevy Chase, Bill Murray, Robin Williams e Dudley Moore). A presença de Hanks, no entanto, é um dos maiores trunfos de "Splash": simpático e capaz de despertar empatia em qualquer um na plateia, ele nem precisa de muito esforço para convencer, mesmo diante de uma premissa quase absurda e fantasiosa a ponto de parecer conto de fadas. A atmosfera lúdica - acentuada pela trilha sonora delicada de Lee Holdridge - ganha contornos cômicos com a direção segura de Howard, que abriu mão de dirigir "Footlose: ritmo louco" (84) para dar vida à estória imaginada pelo produtor Brian Grazer em 1977, durante uma viagem. Com um roteiro esperto e divertido, "Splash" é um passatempo tão inofensivo que não é de admirar que tenha resistido tão bem ao tempo - e que seja tão delicioso assisti-lo hoje quanto o era há mais de trinta anos.


As cenas iniciais já deixam claro que trata-se de um filme em cuja fantasia a plateia precisa embarcar sem reservas: um menino é salvo de afogar-se no mar por uma sereia da sua idade. Ele mantém segredo a respeito do assunto (mesmo porque não tem certeza se tudo não passava de imaginação) e segue sua vida normalmente. Vinte anos mais tarde, o menino, agora um homem, chamado Allen Bauer (Tom Hanks) gerencia o negócio de distribuição de verduras de sua família, ao lado do irmão mais velho, Freddie (John Candy) - irresponsável e mulherengo. Recém abandonado pela esposa, Allen sofre um novo acidente no mar e acorda em uma ilha, ao lado de uma estonteante loura - que desaparece logo em seguida. De posse da carteira do rapaz, porém, a sereia apaixonada descobre seu paradeiro em Nova York e decide procurá-lo. Sem saber falar inglês e desconhecendo completamente a cultura dos humanos, ela deixa com que Allen pense que ela é uma estrangeira e os dois começam um relacionamento amoroso e dedicado. Batizada como Madison, a sereia logo começa a aprender a conviver com seu amado - mas precisa evitar ser desmascarada pelo cientista Cornbluth (Eugene Levy), cujo maior objetivo na vida é comprovar a existência de sereias.

Equilibrando sua narrativa entre o idílio romântico de Allen e Madison e subtramas cômicas - as tentativas de Cornbluth em provar sua hipótese científica, as escapadas de Freddie, a distação da velha secretária de Allen -, Ron Howard cria uma pequena pérola do gênero. A excelente química entre Tom Hanks e Daryl Hannah é tão incrível que é difícil imaginar que a bela sereia poderia ter sido interpretada por outra atriz - e isso que várias foram cotadas o papel: Jodie Foster, Brooke Shields, Debra Winger, Ally Sheedy, Rosanna Arquette, Michelle Pfeiffer, Tatum O'Neal, Diane Lane, Melanie Griffith e Kathleen Turner poderiam ter sido a estrela de um filme que deu à Hannah seu primeiro papel principal e um daqueles que a farão ser eternamente lembrada pelos fãs. Linda e carismática, ela foi a escolha perfeita - que o digam as centenas de meninas batizadas de Madison justamente por causa de seu sucesso. "Splash" pode não ser um dos filmes mais importantes da história, mas é, sem dúvida, um passatempo dos mais encantadores.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

PRESENTE DE GREGO

PRESENTE DE GREGO (Baby boom, 1987, United Artists, 110min) Direção: Charles Shyer. Roteiro: Nancy Meyers, Charles Shyer. Fotografia: William A. Fraker. Montagem: Lynzee Klingman. Música: Bill Conti. Figurino: Susan Becker. Direção de arte/cenários: Jeffrey Howard/Lisa Fischer. Produção: Nancy Meyers. Elenco: Diane Keaton, Sam Shepard, Harold Ramis, James Spader, Pat Hingle, Sam Wanamaker. Estreia: 17/9/87 (Festival de Toronto)

A década de 80 viu surgir, no cinemão hollywoodiano, um período que, refletindo o austero governo Reagan, virava suas câmeras para a celebração dos "tradicionais valores americanos" - e que, com o recrudescimento da AIDS, tentava reafirmar os benefícios do núcleo familiar. Foi nesse nicho que até filmes de suspense como "Atração fatal" (87) encontravam um jeito de salientar o conservadorismo do público, identificado com o pensamento puritano da indústria e lotando as salas de cinema. Nada mais normal, portanto, considerando-se essa peculiaridade do mercado, que comédias censura livre para consumo geral se tornassem sucesso de bilheteria - especialmente se estreladas por crianças (de preferência de colo). Foi assim que "Três homens e um bebê" - estrelado por Tom Selleck, Ted Danson e Steve Guttenberg e refilmagem de um êxito francês - e este "Presente de grego" caíram como uma luva no gosto popular. Com uma trama simples (quase simplória), uma atriz de carisma no papel principal e um adorável bebê como atrativo extra, o filme do diretor Charles Shyer - na época casado com a roteirista/produtora Nancy Meyers, com quem assinaria ainda a refilmagem de "Operação Cupido" (98) - chegou a concorrer a dois Golden Globes (melhor filme e melhor atriz, ambas na subcategoria comédia/musical) e esteve perto de dar à Diane Keaton o prêmio de melhor atriz do ano pela National Society of Film Critics. Um exagero, diga-se de passagem, mas que comprova seu prestígio junto à crítica.

Sem precisar de muito esforço para convencer a plateia - e mantendo seu estilo ímpar e naturalista de interpretação -, Keaton dá vida à J.C. Wyatt, uma executiva de Nova York, obcecada por trabalho e que mal arruma tempo para transar com o namorado/marido, Steven Buchner (Harold Ramis), também pouco afeito a romance e sentimentos mundanos, como paternidade e responsabilidade familiar. Às vésperas de uma sonhada e muito batalhada promoção, porém, Wyatt se vê diante de uma inesperada herança de parentes distantes: a pequena Elizabeth, um bebê lindo, adorável, saudável e que não dá a mínima para as pretensões de sua nova mãe em focar-se unicamente na carreira profissional. Depois de tentar entregar a menina para adoção e perder o namorado, Wyatt acaba por perceber que a maternidade não combina com seus planos - demitida, ela se muda para um chalé em Vermont e resolve levar uma vida completamente oposta à que tinha em mente. Depois de reformar sua casa, vira mãe em tempo integral, inicia um flerte com o veterinário Jeff Cooper (Sam Shepard) e entra, quase sem querer, na indústria de alimentos caseiros para bebês - o que a levará de volta a suas velhas questões no mercado de trabalho.


Nitidamente dividido em duas partes desiguais e irregulares, "Presente de grego" parece, a princípio, um filme que aplaude o talento feminino em desdobrar-se em inúmeros papéis - e um retrato do novo perfil da mulher no final do século XX. A primeira metade - em que a protagonista corta um dobrado para compreender as necessidades de sua nova filha - é divertida, agradável e simpática ao extremo, principalmente devido ao carisma de Diane Keaton e à fotogenia das pequenas Kristina e Michelle Kennedy (que se dividiam no papel da pequena Elizabeth). Mesmo que o humor não seja exatamente criativo ou inovador, é delicioso, simples e encantador. Basta que a trama mude de rumo, no entanto, para que tudo se transforme, tanto em ritmo quanto em intenções. Se até então o roteiro focava sua atenção na desastrosa tentativa de Wyatt em descobrir seu até então desconhecido instinto materno - com cenas engraçadas e leves na medida certa -, sua mudança de endereço desvia também os caminhos de sua trajetória. Como em todo bom filme familiar que se preze, a outrora fria e mecânica executiva descobre os prazeres da vida simples, inicia um novo negócio... e, para completar o novo ciclo, encontra um homem (afinal, a família tradicional precisa imperar, certo?).

É uma pena que "Presente de grego" não mantenha o mesmo pique e a mesma despretensão de sua primeira metade. O tom leve de sessão da tarde logo dá espaço para uma trama quadrada em excesso, que parece insistir no fato de que é imprescindível a uma mulher a presença masculina - sem a qual qualquer sucesso (familiar, profissional) sempre estará incompleto. O romance entre Wyatt e o veterinário (interpretado no piloto automático por Sam Shepard) não é tão interessante quanto o relacionamento da executiva com a pequena Elizabeth (que mesmo sem ter consciência disso, causa um terremoto na vida da mãe adotiva). Quando estão juntas em cena, mãe e filha são doces e emocionantes - quando separadas pelo roteiro fazem o filme se parecer com dezenas de outros similares. É um entretenimento competente, atraente e leve, mas com sérios problemas de ritmo - e, apesar da novidade (uma mulher confrontada com uma maternidade inesperada, ao invés de homens desavisados), perde a oportunidade de ser feminista como poderia - e deveria - ser.