terça-feira, 20 de junho de 2017

O DESTINO MUDOU SUA VIDA

O DESTINO MUDOU SUA VIDA (Coal miner's daughter, 1980, Universal Pictures, 124min) Direção: Michael Apted. Roteiro: Tom Rickman, livro de Loretta Lynn, George Vecsey. Fotografia: Ralf D. Bode. Montagem: Arthur Schmidt. Figurino: Joe I. Tompkins. Direção de arte/cenários: John W. Corso/John M. Dwyer. Produção executiva: Bob Larson. Produção: Bernard Schwartz. Elenco: Sissy Spacek, Tommy Lee Jones, Beverly D'Angelo, Levon Helm, Phyllis Boyens. Estreia: 07/3/80

07 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz (Sissy Spacek), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Direção de Arte/Cenários, Som
Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Sissy Spacek)
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme (Comédia/Musical), Atriz Comédia/Musical (Sissy Spacek) 

Para muita gente (especialmente no Brasil), o nome Loretta Lynn não significa muita coisa. Nos EUA, porém, a história é bem diferente: uma das cantoras mais reconhecidas e famosas do país, Lynn tem inúmeros prêmios nas prateleiras (incluindo o Grammy) e é, desde a década de 60, uma referência em música country e gospel. O tamanho de sua importância é tanto que em 1980 ela recebeu uma das maiores homenagens que podem ser feitas a um artista vivo: um filme contando sua vida, produzido por um grande estúdio (a Universal Pictures) e com visibilidade e prestígio o bastante para chegar até a temporada de premiações e sair dela com alguns troféus muito ambicionados. Indicado ao Oscar de melhor filme, "O destino mudou sua vida" deu à Sissy Spacek a estatueta dourada de melhor atriz - além de todos os outros prêmios do ano, das associações de críticos ao Golden Globe. A chuva de aplausos reconhece justamente o melhor do filme, baseado em uma autobiografia da cantora, escrita em parceria com George Vecsey: convencional e sem muito brilho narrativo, "O destino mudou sua vida" deve seu sucesso à Spacek, convincente em todas as fases da personagem e mostrando um surpreendente talento vocal.

Escolhida pessoalmente pela própria Loretta Lynn para interpretá-la nas telas, e batendo até mesmo Meryl Streep na disputa pelo papel, Sissy Spacek mostra, em "O destino mudou sua vida", uma outra faceta de seu talento. Indicada ao Grammy de melhor vocal feminina em música country, ela não hesita em soltar a voz nas apresentações de Lynn, assim como sua parceira de cena Beverly D'Angelo, que interpreta a cantora Patsy Cline, grande inspiração da protagonista e que se torna sua amiga íntima durante sua trajetória rumo ao sucesso. Em sua preparação para o papel, Spacek acompanhou Lynn em uma de suas turnês, e, mantendo-se no personagem mesmo quando não estava diante das câmeras, ela impressiona com uma caracterização impecável, em expressão corporal, sotaque e, mais importante que tudo, compreensão dos variados estados de espírito de sua personagem. De adolescente insegura e apaixonada à artista consagrada, a Loretta Lynn criada pela atriz conquista pela força e pela honestidade de sua arte - surgida de suas experiências pessoais e totalmente autodidata.


O acontecimento mais importante da vida de Loretta - antes da fama e do sucesso - foi o encontro com aquele que seria seu futuro marido, Oliver 'Moon' Lynn (Tommy Lee Jones). O ano era 1947 e, com apenas 13 anos de idade, a filha mais velha de um mineiro do Kentucky, se apaixona à primeira vista, apesar da objeção dos pais. O casamento quase imediato sofre com a inexperiência da garota e a falta de jeito do marido, mas uma gravidez logo os une definitivamente e eles se mudam para Washington. Alguns mais mais tarde e já mãe de quatro filhos, Loretta é uma competente dona-de-casa e tem sua vida transformada com um presente aparentemente inútil que ganha do marido: um violão. Apaixonada por música, ela aprende sozinha a tocar e, com o apoio de Moon, começa a apresentar-se em festas locais de música country. Entusiasmada, passa a compor as próprias canções e, ao lado do marido, vai em busca do sucesso, procurando gravadoras e shows para demonstrar seu trabalho. Começa aí uma trajetória de êxito e respeito que a levará a se tornar uma das mais conhecidas cantoras country de sua geração.

Sem grandes acontecimentos dramáticos além da vida pessoal da protagonista, sacrificada em prol da carreira - e uma morte que o filme trata sem dar muita importância -, "O destino mudou sua vida" é uma produção correta, sem grandes escorregões mas igualmente sem muito brilho. Sissy Spacek realmente carrega o filme nas costas, com uma interpretação irretocável, mas a direção de Michael Apted (que depois levaria Sigourney Weaver e Jodie Foster à disputa pelo Oscar em "Nas montanhas dos gorilas", de 1988, e "Nell", de 1994, respectivamente) não consegue fazer milagres com um roteiro que, ao seguir a linha cronológica dos acontecimentos, serve apenas para retratar, sem muita inventividade, uma carreira linear e quase desinteressante - à parte o trabalho de Spacek, a história de Loretta não chega a entusiasmar àqueles que não conhecem sua música, e a edição tampouco ajuda (alguns minutos a menos não faria mal nenhum à trama). No final das contas, um filme honesto e bem realizado, mas que não justifica as sete indicações ao Oscar (incluindo melhor filme e roteiro adaptado). Vale por Sissy, uma grande atriz no papel de sua vida!

segunda-feira, 19 de junho de 2017

DE CASO COM A MÁFIA

DE CASO COM A MÁFIA (Married to the mob, 1988, Orion Pictures, 104min) Direção: Jonathan Demme. Roteiro: Barry Strugatz, Mark R. Burns. Fotografia: Tak Fujimoto. Montagem: Craig McKay. Música: David Byrne. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: Kristi Zea/Nina Ramsey. Produção executiva: Joel Simon, Bill Todman Jr.. Produção: Edward Saxon, Kenneth Utt. Elenco: Michelle Pfeiffer, Matthew Modine, Dean Stockwell, Alec Baldwin, Mercedes Ruehl, Joan Cusack, Oliver Platt, Nancy Travis, Chris Isaak. Estreia: 11/8/88

Indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante (Dean Stockwell)

Muitas vezes, especialmente em Hollywood, há males que vem pra bem. Quando o cineasta Jonathan Demme - já celebrado pela comédia maluca "Totalmente selvagem" - assumiu as rédeas do projeto de "De caso com a máfia", os atores cotados para os papéis principais eram Jessica Lange e Tom Cruise. Não que os dois astros fossem incapazes (Cruise era um astro em ascensão e Lange já tinha um Oscar de coadjuvante em casa há uns bons anos), mas é difícil imaginar como teria ficado o filme com suas presenças, afinal ela já era considerada uma atriz séria e ele povoava os sonhos de milhares de adolescentes desde "Top Gun: ases indomáveis" (86). No fim das contas, Cruise preferiu - apesar das mudanças no roteiro solicitadas por ele - seguir seu caminho de galã e fazer "Cocktail" (88) e Lange nem chegou a ser convidada para o elenco. Melhor assim: ele foi substituído por Matthew Modine (menos carismático, mas um ator bem melhor) e o principal papel feminino foi parar nas mãos de Michelle Pfeiffer, em vias de tornar-se uma das mais requisitadas atrizes da época (não à toa, foi indicada ao Oscar de coadjuvante no mesmo ano, por "Ligações perigosas", de Stephen Frears). O resultado é um filme alto astral, quase esquizofrênico em sua mistura de gêneros e uma das produções que empurraram Demme para o mainstream - e, em consequência, para o Oscar de melhor direção por "O silêncio dos inocentes", três anos depois.


Assim como fez em "Totalmente selvagem", Demme não se prende a um único estilo narrativo, obrigando o espectador a acompanhar seus personagens por uma série de desvios, que vão da comédia romântica ao filme de gângster, do humor quase pastelão de Almodóvar à violência de Scorsese. Conduzindo com segurança um roteiro que foge do convencional, ele imprime um ritmo próprio à trama, oferecendo uma experiência bem mais rica ao público do que simplesmente uma história sobre embates entre mafiosos e a polícia. Com uma trilha sonora vibrante - que inclui até mesmo Jorge Benjor - e um visual propositalmente cafona, "De caso com a máfia" é um filme que não se leva a sério, e nesse caminho de quase autodeboche ganha a simpatia imediata da plateia, cativada com sua comunicação fácil e direta. É lógico que, para isso, conta com a luminosidade de Michelle Pfeiffer (com ótimo timing cômico) e com a atuação inspirada de Dean Stockwell, que acabou concorrendo ao Oscar de coadjuvante por seu desempenho como um chefão do crime ameaçado pelo ciúme da esposa.


Matthew Modine, saído das filmagens de "Nascido para matar" (87) e ainda traumatizado pelos longos meses de trabalho com Stanley Kubrick declarava que não via nada de engraçado no roteiro - e talvez por isso mesmo sua atuação como o agente do FBI Mike Downey soe tão verdadeiramente dotada de frescor: assim como o ator estava em meio a um filme sem saber exatamente o que estava fazendo, seu personagem também é pego no meio de um furacão e precisa aprender a lidar com um misto de sentimentos inesperados. Downey é um policial infiltrado encarregado de vigiar a bela Angela (Michelle Pfeiffer), que acaba de ficar viúva do mafioso Frank deMarco (Alec Baldwin) - o FBI acredita que ela seja amante de outro integrante da máfia, o expansivo chefão Tony Russo (Dean Stockwell), e a missão de Downey é descobrir, através dela, algo que possa levar o criminoso à cadeia. Acontece que o próprio Downey acaba se apaixonando por Angela - que não só recusa as investidas de Russo como deseja viver uma vida longe do crime organizado, dos "amigos" do falecido marido e principalmente da mulher de Russo, a possessiva Connie (Mercedes Ruehl).

Deliciosamente sarcástico, "De caso com a máfia" tira sarro dos filmes de gângster de forma inteligente e perspicaz, sem precisar apelar para a sátira explícita ou citações óbvias. Ao retratar os mafiosos como pessoas incapazes de lidar com situações banais (como o casamento ou o ciúme), o roteiro não apenas lhes tira o glamour como os deixa extremamente próximos do espectador. Essa opção de privá-los da sensação de perigo constante não deixa de ser corajosa - especialmente porque uma das subtramas do filme tem a ver com o risco que o jovem policial corre de ser descoberto -, mas ao mesmo tempo dá ao resultado final um tom mais anárquico e iconoclasta, típico de Jonathan Demme antes de tornar-se o bem-comportado diretor de "Filadélfia" (93) e "Sob o domínio do mal" (2004). Com o brilho de Michelle Pfeiffer no auge da beleza, a química perfeita entre Dean Stockwell e Mercedes Ruehl e uma trilha sonora das mais empolgantes - quem não se deixa levar logo de cara com Rosemary Clooney cantando "Mambo italiano"? -, é uma comédia das mais espertas da década de 80, e uma prova de que até mesmo temas sombrios podem render boas gargalhadas.

domingo, 18 de junho de 2017

CUJO

CUJO (Cujo, 1983, Sunn Classic Pictures, 93min) Direção: Lewis Teague. Roteiro: Don Carlos Dunaway, Lauren Currier, romance de Stephen King. Fotografia: Jan De Bont. Montagem: Neil Travis. Música: Charles Bernstein. Figurino: Jack Buehler. Direção de arte/cenários: Guy Comtois/John Bergman. Produção: Daniel H. Blatt, Robert Singer. Elenco: Dee Wallace, Daniel Hugh-Kelly, Danny Pintauro, Christopher Stone, Ed Lauter, Kaiulani Lee. Estreia: 10/8/83

Tudo começou quando o escritor Stephen King deu de cara com o assustador cachorro de seu mecânico, enquanto aguardava o conserto de sua motocicleta. Criativo e com a imaginação à solta, não demorou para transformar esse encontro tão banal em um romance assustador, publicado em 1981 depois de um processo de escrita que ele mesmo não lembra de ter desenvolvido (cortesia de seu vício em álcool, então no auge). Transformado em filme dois anos depois de seu lançamento nas livrarias, "Cujo" chegou às telas em uma produção barata, dirigida por um cineasta pouco conhecido e com um elenco sem grandes estrelas. Tais circunstâncias, no entanto, não o impediram de atingir um alto grau de fidelidade a seu original literário e, melhor ainda, manter um nível de suspense capaz de grudar o espectador na poltrona até seus minutos finais. Graças a um grande domínio narrativo, uma edição enxuta e o belo trabalho de Dee Wallace (mais conhecida como a mãe de Elliott no sucesso "ET", de 1982), "Cujo" é um pequeno grande filme, uma pérola rápida (93 minutos contando com os créditos) e quase sempre esquecida (injustamente) dentre as dezenas de adaptações de obras de King.

O próprio King teve um envolvimento bastante efetivo na realização do filme, dirigido por Lewis Teague - que em seguida assinaria a segunda parceria de Michael Douglas e Kathleen Turner nas telas, a comédia "A joia do Nilo" (85): apesar de não estar creditado, colaborou ativamente no roteiro e chegou a declarar que a atuação de Dee Wallace era a melhor que ele já havia visto em uma adaptação de uma obra sua - o que talvez seja verdade se não forem contabilizados os trabalhos impecáveis de Kathy Bates em "Louca obsesão" (vencedor do Oscar) e "Eclipse total". Totalmente entregue à sua personagem, Wallace cumpre com louvor sua missão de deixar o público angustiado e tenso - a credibilidade que ela imprime em cada cena conduz a ação a um alto grau de claustrofobia e realismo que fazem o terço final do filme ser simplesmente um dos mais tensos exercícios de suspense dos anos 80. Sem medo de fazer de um animal doméstico um vilão dos mais violentos da história, "Cujo" transforma uma situação corriqueira em um puro pesadelo.


Apesar do cão São Bernardo ser o personagem-título e principal elemento da narrativa, os humanos é que dominam os dois primeiros terços do filme de Teague. Boa parte da ação inicial serve para apresentar a família Trenton, aparentemente parte de um lar feliz e bem estruturado: o pai, Vic (Daniel-Hugh Kelly) é publicitário e anda às voltas com um problema profissional que pode lhe custar o emprego; o filho pequeno, Ted (Danny Pintauro) é um menino feliz mas constantemente apavorado com o "monstro do armário"; e a mãe, Donna (Dee Wallace) é uma dona-de-casa dedicada e presente. Na verdade, porém, há um segredo que põe em risco seu casamento: ela tem um caso com o conquistador da cidade, Steve Kemp (Christopher Stone) - e sua culpa a impede de levar uma vida totalmente em paz. Enquanto se desenrola o drama doméstico, o cachorro do mecânico Joe Camber (Ed Lauter) é mordido por um morcego e desenvolve raiva, passando a atacar - e matar! - qualquer um que cruze seu caminho, inclusive seu dono. A viagem de sua esposa e de seu filho deixam sua oficina (localizada a alguns quilômetros da cidade) completamente abandonada - e é lá que Donna e o pequeno Ted ficarão à mercê de Cujo, quando o carro que estão levando para o conserto simplesmente se recusa a funcionar.

Presos em um carro em uma oficina distante, em um dia de calor extremo e sem condições de pedir ajuda - Vic também está fora da cidade, a trabalho -, mãe e filho iniciam uma odisseia de pavor, compartilhada de forma exata pela câmera detalhista do cineasta, que acompanha cada minuto de seu desespero com o máximo de tensão. A trilha sonora discreta e a edição competente do futuro diretor Jan De Bont completam o cenário, estabelecendo um panorama que permite ao público mergulhar sem reservas na história. Mesmo que apenas o ato final se concentre nos ataques de Cujo a mãe e filho, são exatamente esses poucos minutos (que parecem muito mais, devido ao talento do diretor em expandir a linha do medo até seu limite máximo) que permanecem na memória da plateia depois que os créditos finais surgem na tela. Mais do que um filme que mexe com os nervos do espectador, "Cujo" é a prova de que até mesmo as mais minimalistas histórias de Stephen King são capazes de se transformar em ótimos filmes - desde que contem com a equipe apropriada e não tentem inventar a roda. É um filme de suspense de tirar o sono - ou ao menos pensar duas vezes antes de mexer com qualquer cachorro.

sábado, 17 de junho de 2017

CREED: NASCIDO PARA LUTAR

CREED: NASCIDO PARA LUTAR (Creed, 2015, MGM/Warner Bros/New Line Cinema, 133min) Direção: Ryan Coogler. Roteiro: Ryan Coogler, Aaron Covington, estória de Ryan Coogler, personagens criados por Sylvester Stallone. Fotografia: Maryse Alberti. Montagem: Claudia Castello, Michael P. Shawver. Música: Ludwig Goransson. Figurino: Antoinette Messam, Emma Potter. Direção de arte/cenários: Hannah Beachler/Amanda Carroll. Produção executiva: Nicolas Stern. Produção: Robert Chartoff, William Chartoff, Sylvester Stallone, Kevin King-Templeton, Charles Winkler, David Winkler, Irwin Winkler. Elenco: Michael B. Jordan, Sylvester Stallone, Tessa Thompson, Phylicia Rashad, Andre Ward, Tony Bellew. Estreia: 19/11/15

Indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante (Sylvester Stallone)
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Sylvester Stallone)

Em 1977, "Rocky, um lutador" surpreendeu aos desavisados e saiu da cerimônia do Oscar com os prêmios de filme e direção - contra obras como "Taxi driver", "Rede de intrigas" e "Todos os homens do presidente". Desde então, seu criador e intérprete, Sylvester Stallone vem passando por altos e baixos, intercalando sucessos de bilheteria e crítica com bombas que quase acabaram com sua carreira. Para sua sorte, porém, seu personagem mais famoso - ao lado do questionável John Rambo - volta e meia ressurge para dar um novo gás à sua carreira. Em 2006, por exemplo, ele parecia ter encerrado sua trajetória, com o êxito quase inesperado de "Rocky Balboa", que ele mesmo estrelou e dirigiu e que arrecadou mais de 150 milhões de dólares mundo afora - provando que sua popularidade ainda estava longe de diminuir. Mas eis que, quase uma década mais tarde, um jovem cineasta negro chamado Ryan Coogler, aplaudido por um filme-denúncia de grande importância - "Fruitvale Station: a última parada" - resolveu que ainda não era hora de aposentar o icônico lutador. Depois de muito insistir com o próprio Stallone, Coogler finalmente o convenceu a abençoar o projeto de "Creed: nascido para matar" - onde Balboa, para surpresa de muitos, é um personagem coadjuvante. Tal demonstração de humildade do ator não passou despercebida - ele levou pra casa o Golden Globe, foi unanimemente elogiado pela imprensa e só não ganhou o Oscar porque Mark Rylance, de "Ponte dos espiões", lhe passou a perna na última hora.

Na verdade, o projeto de "Creed" surgiu antes mesmo da estreia de "Fruitvale Station" - e foi o sucesso do filme, baseado em uma história real, que fez com que o desejo de Ryan Coogler se tornasse realidade. A princípio relutantes em retornar ao universo de Rocky Balboa, tanto Sylvester Stallone quanto o produtor Irwin Winkler só aceitaram diante da ideia proposta pelo jovem diretor: contar não mais uma história sobre Balboa, mas sim utilizá-lo como uma ponte para a introdução de um outro personagem, consistente com a  mitologia dos filmes e de fácil comunicação até mesmo com a plateia que não foi criada tendo Rocky como referência cultural. Surgia assim a história de Adonis Creed, filho bastardo de um antigo rival e amigo do lutador, o igualmente memorável Apollo Creed (interpretado por Carl Weathers nos quatro primeiros capítulos da série), que aparece na vida de Rocky como uma lembrança do passado e inicia com ele uma relação de pai e filho que ajuda o aposentado atleta a enfrentar uma batalha ainda mais dolorosa e aparentemente invencível: um câncer.


A relação entre Creed e Balboa acabou sendo o principal atrativo para Stallone, que durante a pré-produção teve que lidar com um golpe dos mais devastadores: a morte de seu filho Sage, aos 36 anos de idade, vítima de um ataque cardíaco. Em uma ironia das mais cruéis, o veterano ator estava em vias de fazer um filme que tinha como um dos principais temas um relacionamento paternal e tinha sua vida pessoal virada do avesso com uma perda irreparável. Inteligente, Coogler usou tal tristeza a seu favor: não apenas fez o ator perceber que o trabalho lhe faria bem como explorou ao máximo o sentimento de finitude que ele vinha experimentando. O resultado não poderia ter sido melhor, e a crítica reconheceu: desde "Copland" (97), Stallone não recebia elogios tão calorosos a uma atuação, e a indicação ao Oscar de melhor ator coadjuvante (na condição inédita de favorito) apenas coroou um sucesso também comercial. Com uma renda de mais de 100 milhões de dólares apenas no mercado doméstico, "Creed" comprovou a perenidade de Rocky Balboa no coração do público.

Mas, apesar do apelo de Stallone junto às plateias, é injusto creditar apenas a ele o êxito de "Creed": com um roteiro que não tenta inventar a roda e faz uso apropriado de todos os clichês que fizeram da série um fenômeno cultural, Ryan Coogler  criou uma história universal de amor - aos amigos, à família, à namorada, ao esporte. E de quebra , acertou em cheio ao escolher seu ator principal. Carismático e talentoso, Michael B. Jordan já havia trabalhado com o diretor em "Fruitvale Station" - e foi responsável por boa parte da recepção positiva ao filme. Em "Creed" ele demonstra ainda mais poder de fogo ao dividir suas cenas com um monstro sagrado como Stallone e não se deixar eclipsar. Na pele de Adonis Creed, o jovem ator vai da fúria à tristeza, da solidão à paixão e do medo à ousadia em um piscar de olhos - e leva a plateia junto, até o final (quase previsível, mas ainda assim emocionante como nos melhores momentos dos filmes da série). Uma bem-vinda injeção de sangue novo em um personagem constantemente em reinvenção, "Creed: nascido para lutar" é um programa e tanto para os fãs - e até para aqueles raros espectadores que nunca ouviram falar em Rocky Balboa.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

TRAMA MACABRA

TRAMA MACABRA (Plot family, 1976, Universal Pictures, 120min) Direção: Alfred Hitchcock. Roteiro: Ernest Lehman, romance de Victor Canning. Fotografia: Leonard J. South. Montagem: J. Terry Williams. Música: John Williams. Figurino: Edith Head. Direção de arte/cenários: Henry Bumstead/James W. Payne. Produção: Alfred Hitchcock. Elenco: Bruce Dern, Barbara Harris, William Devane, Karen Black, Ed Lauter, Cathleen Nesbit. Estreia: 21/3/76

O 53º e último filme do mestre do suspense - lançado quatro anos antes de sua morte, em 29 de abril de 1980 - pode ser considerado também sua mais atípica produção. Tudo bem que seu senso de humor frequentemente cruel ainda pode ser visto em algumas sequências, mas "Trama macabra" em quase nada lembra o auge do cinema de Alfred Hitchcock: sem grandes momentos de tensão, sem cenas antológicas e com personagens não exatamente carismáticos ou simpáticos, a adaptação do romance de Victor Canning feita por Ernest Lehman (colaborador do cineasta no bem mais lembrado "Intriga internacional", de 1959) é, na verdade, uma comédia de humor negro com alguns (poucos) lances de suspense e um elenco sem os grandes astros que frequentemente enfeitavam as obras do cineasta. Não deixa de ser um melancólico final de carreira para um dos maiores diretores da história do cinema.

A seu favor, pode-se dizer que, mesmo com falhas, "Trama macabra" ainda é uma obra divertida, inteligente e capaz de prender a atenção do público até seu final (um tanto anticlimático, mas coerente com seu desenvolvimento e de certa forma esperto em fugir do caminho que parecia tomar em sua primeira metade). Mesmo aos 75 anos de idade e com a saúde frágil, Hitchcock sabia como manipular as expectativas de sua plateia, e, se o resultado final dessa sua comédia de erros não é mais consistente, é justo supor que boa parte da culpa vem do fato de que o cineasta estava, então, privado de três de seus maiores e mais importantes colaboradores: o editor George Tomasini, o diretor de fotografia Robert Burks (que havia morrido em um incêndio) e o compositor Bernard Herrmann (demitido pela Universal Pictures depois de ter sua trilha para "Cortina rasgada" recusada pelo estúdio). Por mais brilhante que fosse, Hitch já não estava mais confortável em seu meio - desde "Marnie: confissões de uma ladra" (64) ele vinha perdendo sua comunicação com o público e, pior ainda, não se conformava com as mudanças radicais que haviam passado a ditar as regras da indústria. Sem os grandes astros do passado com que havia trabalhado, sem suas musas inspiradoras e sem seus parceiros habituais nos bastidores, o diretor realizou "Trama macabra" quase como uma forma de mostrar que ainda tinha suas cartas na manga e que sabia se reinventar.


Buscando inspiração na obra do cineasta alemão Ernst Lubitsch, conhecido em Hollywood por suas comédias sofisticadas, Hitchcock fez de "Trama macabra" um desvio na sua filmografia e, pela primeira vez desde "O terceiro tiro" (56) optou pela leveza como tom narrativo, deixando de lado as neuroses e paranoias de suas obras mais celebradas. Impossibilitado de contar com Al Pacino ou Jack Nicholson em um dos papéis principais - o primeiro estava em alta devido ao sucesso de "O poderoso chefão" (72) e sua continuação, e o segundo estava ocupado nas filmagens de "Um estranho no ninho" (75), que lhe daria o primeiro Oscar - e depois de descartar Goldie Hawn e Liza Minnelli para viver a protagonista, Hitchcock acertou em escalar os menos conhecidos Bruce Dern e Barbara Harris como o casal central de sua estória. Ela interpreta a falsa paranormal Blanche Tyler, que ganha a vida oferecendo consultas a pessoas interessadas em comunicar-se com seus entes queridos já mortos - e ele é seu namorado, George Lumley, um taxista que lhe passa todas as informações necessárias para que as fraudes funcionem. O filme começa quando uma das clientes de Blanche,  a milionária Julia Rainbird (Cathleen Nesbitt) pede sua ajuda para encontrar um sobrinho, abandonado ainda bebê e que agora ela pretende fazer seu herdeiro. Entusiasmados com a possibilidade de embolsar um bom dinheiro com a situação, Blanche e George entram de cabeça na investigação sobre o paradeiro do tal sobrinho - e descobrem que tem muita coisa errada na história. Enquanto isso, o ambicioso Arthur Adamson (William Devane) - dono de uma joalheria - segue uma rotina de sequestros para aumentar sua coleção de pedras preciosas e nem desconfia que é, na verdade, o futuro herdeiro de uma fortuna.

O roteiro de Ernest Lehman é inteligente e apresenta seus personagens de maneira a nunca permitir ao público a antecipação de seus próximos movimentos - até o embate final, um tudo ou nada que, apesar de prometer bastante, não chega a empolgar. Talvez o maior problema do filme seja justamente a opção de Hitchcock em forçar humor em momentos que poderiam alcançar grande potência dramática - uma perseguição automobilística, por exemplo, em que os personagens principais agem como se estivessem em uma produção da Disney e não correndo um sério perigo de morte. Essa falha, por mais proposital que seja, enfraquece o resultado final de "Trama macabra" a ponto de transformar o filme em uma obra esquecível e decepcionante - mas mesmo assim acima da média. Graças ao talento de Hitchcock em dominar as regras do seu próprio jogo, ele consegue transformar um filme menor em um entretenimento no mínimo agradável. Pouco para quem, como ele, assinou obras-primas incontestáveis - mas bem mais do muita gente já tentou realizar.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

COMO EU ERA ANTES DE VOCÊ

COMO EU ERA ANTES DE VOCÊ (Me before you, 2016, MGM/New Line Cinema, 106min) Direção: Thea Sharrock. Roteiro: Jojo Moyes, romance de Jojo Moyes. Fotografia: Remi Adefarasin. Montagem: John Wilson. Música: Craig Armstrong. Figurino: Jill Taylor. Direção de arte/cenários: Andrew McAlpine/Sara Wan. Produção executiva: Sue Baden-Powell, Trent Walton. Produção: Alison Owen, Karen Rosenfelt. Elenco: Emilia Clarke, Sam Claffin, Janet McTeer, Charles Dance, Vanessa Kirby, Samantha Spiro, Brendan Coyle, Jenna Coleman, Stephen Peacocke. Estreia: 23/5/16

Até a estreia de "Game of thrones", em 2011, a britânica Emilia Clarke era uma ilustre desconhecida do grande público. Porém, bastou uma única temporada da série, baseada em livros de George R.R. Martin, para que a intérprete de Daenerys Targaryen se tornasse um rosto mundialmente popular, assim como o restante do vasto elenco. Para confirmar seu status de estrela, no entanto, lhe faltava ainda um sucesso na tela grande, que a apresentasse também ao público imune à febre causada pela vitoriosa produção da HBO. Tal situação foi resolvida da melhor maneira possível: unindo o rosto de Clarke à adaptação de um romance best-seller, "Como eu era antes de você" provou-se um êxito senão previsível, ao menos pouco surpreendente: arrecadou mais de 200 milhões de dólares mundo afora e emocionou os espectadores mais sensíveis, seduzidos por uma história de amor à moda antiga, bem-humorada e delicada. É difícil saber se tamanha aprovação se deve mais à fidelidade dos leitores do livro de Jojo Moyes ou dos fãs de "Game of thrones" - o fato é que o filme de estreia da cineasta Thea Sharrock cumpre exatamente o que promete e, se não é inesquecível, ao menos diverte e envolve seu público-alvo com uma narrativa dinâmica e sensível.

Anos-luz distante de sua personagem em "Game of thrones", Emilia Clarke demonstra carisma o bastante para encarar o desafio de interpretar uma jovem comum, sem efeitos visuais ou cenários mirabolantes para dividir com ela as atenções. Ela vive Louisa Clark, uma bem-humorada e otimista garota inglesa que, depois de perder o emprego como atendente de uma charmosa padaria que acaba de fechar as portas, vê-se diante do desafio de encontrar um novo trabalho, que a ajude a complementar a renda da família. Depois de alguma procura, ela parece encontrar uma posição satisfatória: ser cuidadora de um rapaz tetraplégico, filho de uma das famílias mais ricas da região. Will Traynor (Sam Claffin), atropelado por uma moto e sem movimento abaixo do pescoço desde então, vive em um anexo à mansão de seus pais, perdeu totalmente o interesse na vida e, a princípio, não se deixa conquistar pela alegria contagiante de Louisa. Com o passar do tempo, porém, as coisas começam a mudar: seduzido pelo entusiasmo de sua nova cuidadora, Will aceita acompanhá-la em programas que até então considerava perdidos, como viagens, concertos e até a festa de casamento de sua ex-namorada. O que ele não sabe é que Louisa descobriu que ele tem planos de cometer suicídio assistido - e, apaixonada, quer fazê-lo desistir dessa ideia e mantê-lo a seu lado.


Apesar do tema doloroso, "Como eu era antes de você" tem a seu favor uma leveza inesperada - cortesia de Jojo Moyes, autora do romance original e do roteiro que adapta seu livro com o máximo de fidelidade à trama e a seu espírito romântico. O otimismo incorrigível de Louisa - encarnada com ritmo correto por Emilia Clarke - é o contraponto perfeito para a melancolia de Traynor, e sua combinação de espíritos é a sustentação de uma história que não apresenta grandes novidades mas sabe manipular com destreza os clichês que a formam. Primeiro longa-metragem da diretora Thea Sharrock - com experiência em episódios de séries de TV e demonstrando um apropriado timing tanto para o humor quanto para o romance, "Como eu era antes de você" é uma feliz união de um roteiro simples e de fácil comunicação com seu público, uma dupla central carismática e talentosa e o apelo sempre irresistível de um melodrama bem construído. Some-se a isso um visual moderno e atraente, uma trilha sonora convidativa (com duas canções de Ed Sheeran em momentos-chave) e o sucesso é inevitável.

Assim como em "A culpa é das estrelas" - baseado em romance de John Green e também muito bem-sucedido em sua versão cinematográfica - e nas adaptações dos livros de Nicholas Sparks, é certo que boa parte do êxito comercial de "Como eu era antes de você" se deve aos leitores que, encantados com a trama criada por Jojo Moyes, correram aos cinemas para ver nas telas a personificação de seus personagens (interessantes e bem desenvolvidos na medida do possível dentro de um filme de gênero e sem maiores pretensões). Porém, não é preciso ter tido contato com a obra original para se deixar conquistar: fluido e leve, engraçado e comovente, o filme de Sharrock é uma boa surpresa para aqueles que procuram um entretenimento livre de efeitos visuais de última geração e sexo gratuito. Sensível e discreto, "Como eu era antes de você" é uma adaptação digna e honesta, valorizada por seus atores - Charles Dance e Janet McTeer completam o elenco, como os pais de Traynor - e calorosa em suas intenções. Só há contraindicações àqueles que definitivamente não gostam de histórias de amor: para os demais é só preparar a caixa de lenços.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

COLORS: AS CORES DA VIOLÊNCIA

COLORS: AS CORES DA VIOLÊNCIA (Colors, 1988, Orion Pictures, 120min) Direção: Dennis Hopper. Roteiro: Michael Schiffer, estória de Michael Schiffer, Richard DiLello. Fotografia: Haskell Wexler. Montagem: Robert Estrin. Música: Herbie Hancock. Direção de arte/cenários: Ron Foreman/Ernie Bishop. Produção: Robert H. Solo. Elenco: Sean Penn, Robert Duvall, Maria Conchita Alonso, Don Cheadle, Damon Wayans, Leon, Mario Lopez. Estreia: 15/4/88

No final da década de 80, a cidade de Los Angeles enfrentava, em seu dia-a-dia, um fenômeno dos mais perigosos: a proliferação de gangues, que agiam nos subúrbios, provocavam ondas de violência e batiam de frente com a força policial - dedicada e corajosa, mas praticamente impotente diante da abissal desigualdade numérica. Enquanto os policiais contavam com uma equipe de cerca de 250 homens e mulheres, os membros de gangues chegavam a 70.000 (espalhados em quase 600 grupos diferentes). Diante desse quadro aterrador, Dennis Hopper não viu outra solução senão modificar o roteiro original de Michael Schiffer - que versava sobre traficantes de drogas em Chicago - para retratar, com o máximo de frieza e realismo, o embate entre os dois lados da lei em seu quarto longa-metragem como diretor (e oito anos depois de sua última incursão na função, com "Anos de rebeldia"). Com o cenário e o pano de fundo modificados por Schiffer, surgia então "Colors: as cores da violência", um sucesso inesperado de bilheteria que esfregava na cara do espectador uma realidade até então conhecida apenas através de telejornais ou romantizações vindas de Hollywood. Com membros de gangues contratados como extras e seguranças da equipe, "Colors" conseguiu o feito raro de promover um cessar-fogo provisório durante as filmagens - e reacendeu a polêmica da violência no cinema quando, em algumas salas de exibição, provocou tumultos e distúrbios.

A crueza do tema e da realização de Hopper - que filma quase como um documentário, com cenas que mal se conectam entre si e são fotografadas de forma nervosa e urgente - espalhou-se também para os bastidores da produção, quando seu astro, Sean Penn, foi preso e passou trinta e três dias na cadeia por ter agredido um paparazzo (vale lembrar que, na época, ele era casado com Madonna, e os dois frequentavam os tabloides sensacionalistas com assiduidade quase religiosa). Da mesma forma, um ataque a tiros em um funeral (em uma cena crucial do filme) foi praticamente repetida a poucos metros de distância da filmagem, para descrédito de alguns críticos um tanto quanto céticos em relação ao realismo da sequência. A despeito de tal grau de realismo, porém, o resultado final do filme não deixa de ser surpreendentemente morno - uma quase decepção, especialmente por ser dirigido por um dos ícones da rebeldia no cinema e autor de um dos filmes seminais da contracultura, o clássico "Sem destino" (69). 





"Colors", apesar do visual sujo e do tom naturalista, peca por não envolver o público em sua trama, preferindo a denúncia social ao desenvolvimento dramático de seu roteiro, que dificilmente escapa dos clichês e tampouco apresenta personagens carismáticos o bastante para conquistar a plateia. Tanto o novato Danny McGavin (Sean Penn, bom ator como sempre) quanto o veterano Bob Hodges (Robert Duvall) parecem criados seguindo a regra consagrada pela série "Máquina mortífera", em que dois parceiros de personalidades diferentes se unem em prol do mesmo objetivo e passam a se admirar e respeitar mutuamente. Não há uma química muito consistente entre McGavin e Louisa (Maria Conchita Alonso), por exemplo: fica a impressão de que seu envolvimento acontece unicamente para acrescentar um obstáculo a mais no conflito entre o jovem policial e os integrantes das gangues - assim como a família feliz de Hodges serve como contraponto ao caos urbano e tenta dar densidade a um personagem que, não fosse o talento de Robert Duvall, seria igual a tantos outros já retratados pelo cinema norte-americano. Sem buscar novidades em sua narrativa, "Colors" destaca-se mesmo é pelo tema pulsante e pelo desempenho de seus atores principais.

Longe de ser um grande filme - as cenas de ação são formulaicas e editadas sem ritmo, falta empatia aos protagonistas e o roteiro é simplista ao extremo -, "Colors" se beneficia (e muito) do talento de Sean Penn e Robert Duvall. Atores extremamente competentes, eles conseguem extrair o que há de bom no roteiro e disfarçar a superficialidade da trama - basicamente a tentativa dos policiais de Los Angeles em acabar com a guerra entre gangues, mais especificamente entre os Bloods e os Crisps. Enquanto o mais experiente Hodges faz isso através do diálogo e de uma malandragem adquirida com os anos de prática, seu colega McGavin prefere apelar para a violência e a ameaça física. Nada que seja particularmente empolgante ou criativo a ponto de tornar-se memorável. É um filme que cumpre o que promete, mas deixa no ar a sensação de que poderia ter sido bem melhor, dados os talentos envolvidos. À época de seu lançamento teve seu impacto, mas não resistiu tão bem ao tempo e hoje dificilmente é capaz de surpreender aos espectadores mais exigentes.