domingo, 2 de julho de 2017

FAÇA A COISA CERTA

FAÇA A COISA CERTA (Do the right thing, 1989, Universal Pictures, 120min) Direção e roteiro: Spike Lee. Fotografia: Ernest Dickerson. Montagem: Barry Alexander Brown. Música: Bill Lee. Figurino: Ruth Carter. Direção de arte/cenários: Wynn Thomas/Steve Rosse. Produção: Spike Lee. Elenco: Danny Aiello, John Turturro, Spike Lee, Ossie Davis, Ruby Dee, Rosie Perez, Giancarlo Esposito, John Savage, Bill Nunn, Samuel L. Jackson, Martin Lawrence. Estreia: 19/5/89 (Festival de Cannes)

2 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Danny Aiello), Roteiro Original

Quando "Faça a coisa certa" estreou, no Festival de Cannes de 1989, ninguém poderia imaginar que o filme de Spike Lee se tornaria, imediatamente, uma das produções mais polêmicas do ano: louvada por parte da crítica (encantada com seu ritmo pulsante e sua coragem em dar voz à comunidade negra americana) e acusada por outra (tida como perigosa e capaz de incitar a violência), a obra conquistou fãs apaixonados e detratores furiosos - boa parte deles francamente descarregando sua munição no cineasta, um dos mais ferozes ativistas negros do país. Premiado pelos críticos de Boston, Chicago e Los Angeles e indicado a quatro Golden Globes (incluindo melhor drama, diretor e roteiro), o filme acabou sendo praticamente ignorado pela Academia (que lhe deu duas meras indicações ao Oscar, ainda que relativamente importantes) e passou à história como um dos mais impactantes produtos da temporada. Mas, afinal, o que "Faça a coisa certa" tem de tão especial a ponto de resistir ao tempo e permanecer como um documento fiel da identidade de sua comunidade?

Em primeiro lugar há o roteiro repleto de energia de Spike Lee, escrito como um hip hop contagiante e caloroso - refletido na fotografia de Ernest Dickerson e na trilha sonora de Bill Lee. Depois, há a militância incansável do jovem diretor, então com apenas 32 anos de idade e no auge de sua ferocidade. Por fim, o contexto de constante ebulição e tensão entre negros e brancos norte-americanos, e que explodiria de vez em 1991, na ocasião do espancamento, por policiais de Los Angeles, de Rodney King - um evento de grandes proporções que resultou em uma discussão internacional sobre racismo e abuso de poder. Sentindo na pele o preconceito e a discriminação, Lee transformou a dor em arte - e foi abraçado por todos aqueles que viram em seu filme um grito contra o sistema e a opressão, assim como incomodou àqueles confortáveis com o status quo. Fugindo de estereótipos fáceis e soluções moralistas, o cineasta aponta sua câmera para situações cotidianas que, aos poucos, vão se tornando o estopim de uma explosão de violência das mais inquietantes da década de 80.


Não existe propriamente um protagonista em "Faça a coisa certa", mas todos os personagens se conectam através de Mookie (vivido pelo próprio Spike Lee), um falastrão entregador de pizza que trabalha para a família de Sal Fragione (Danny Aiello, indicado ao Oscar de ator coadjuvante). Há 25 anos funcionando no Brooklyn, a pizzaria de Sal é um local tradicional do lugar, apesar das relações um tanto instáveis do proprietário e dos moradores - em sua maioria negros e latinos, para desgosto do filho mais velho de Sal, o pouco amigável Pino (John Turturro). Enquanto passa o dia entregando as encomendas do restaurante e lidando com sua vizinhança - além de sua namorada, Tina (Rosie Perez) - o simpático funcionário acaba por ser testemunha privilegiada de um incidente que irá mudar radicalmente o modo de vida dos envolvidos: em um dia de extremo calor, um comentário aparentemente aleatório (questionando a ausência de negros na "parede da fama" da pizzaria) empurra os clientes de Sal a uma rebelião de grandes proporções. Sal, que se considerava parte do bairro, não deixa barato - e a violência explode, incontrolável.

Contando sua história em um crescente grau de tensão - o que começa como uma comédia ligeira vai aos poucos assumindo contornos de uma tragédia anunciada - e com um ritmo ágil e despretensioso que contrasta com o peso do desfecho e da denúncia, "Faça a coisa certa" acerta principalmente em evitar paternalismos fáceis e, mesmo que nitidamente favorável a um lado específico da questão, discutir seus temas com a contundência de quem realmente sabe o que está falando. Seu clímax - que assustou a Paramount a ponto de o estúdio abandonar o projeto, prontamente encampado pela Universal Pictures - é um dos mais potentes da carreira de Spike Lee, e mesmo que seu final acene com uma pontinha de esperança, o roteiro cumpre o que promete, cutucando uma chaga muito aberta na sociedade americana e impondo uma discussão urgente e necessária. Forte, intenso e contundente, "Faça a coisa certa" é um filme atemporal, cuja mensagem ressona ainda nos dias de hoje - quando parece que toda a política de inclusão social democrata voltou décadas e parece cada vez mais distante do ideal. Um filme imprescindível!

sábado, 1 de julho de 2017

EXPERIMENTOS

EXPERIMENTOS (Experimenter, 2015, BB Films Production, 98min) Direção e roteiro: Michael Almereyda. Fotografia: Ryan Samul. Montagem: Kathryn J. Schubert. Música: Bryan Senti. Figurino: Kama K. Royz. Direção de arte/cenários: Deana Sidney/Nadya Gurevich. Produção executiva: Lee Broda, Christa Campbell, Trevor Crafts, Rogerio Ferezin, Lati Grobman, Mark Myers, Jeff Rice, Cláudio Szajman. Produção: Danny A. Abeckaser, Michael Almereyda, Fabio Golombek, Isen Robbins, Aimee Schoof, Uri Singer. Elenco: Peter Sarsgaard, Winona Ryder, Anthony Edwards, John Leguizamo, Anton Yelchin, Lori Singer, Dennis Haysbert, Jim Gaffigan, John Palladino. Estreia: 25/01/15 (Festival de Sundance)

O nome do psicólogo Stanley Milgram pode não dizer muito à maioria das pessoas, mas em 1961, mesmo propenso a sofrer todo tipo de crítica de colegas e da população em geral, ele conduziu uma série de experiências a respeito do conformismo e do respeito incondicional dos seres humanos em relação a vozes de autoridade - como forma de entender, ainda que vagamente, o que levou gente aparentemente pacífica a condescender com o holocausto alemão na II Guerra Mundial. Sua série de testes - que foi expandida para outros tipos de questionamento conforme o tempo passava - é a base do roteiro de "Experimentos", filme escrito e dirigido por Michael Almereyda e que estreou no Festival de Sundance de 2015 - para depois fazer o circuito de festivais de cinema e só chegar a um lançamento oficial em outubro do mesmo ano. Estrelado pelo sempre competente Peter Sarsgaard e pela sumida Winona Ryder, "Experimentos" é uma produção inteligente e criativa, mas que peca por não aprofundar a personalidade de seu protagonista e focar-se muito mais em seus polêmicos trabalhos.

Sarsgaard, que já havia interpretado um pesquisador no ótimo "Kinsey: vamos falar de sexo?" (2004), nem precisa se esforçar muito para convencer na pele de Milgram, que, tentando encontrar uma relação de paz com sua origem judaica, se torna um dos psicólogos mais controversos de sua época. Logo de cara o público já descobre os motivos de tanta discussão: escondido em um anexo à uma sala comercial, Milgram analisa suas cobaias humanas, que nem de longe desconfiam estar sendo observados. Homens e mulheres, de idades e classes sociais diferentes, aceitam dar choques elétricos em uma pessoa desconhecida toda vez que ela errar a resposta para um teste simples de múltipla escolha - mesmo que, atrás da parede, a vítima peça para que a tortura pare. Na verdade, não existem choques, mas o interesse do psicólogo é confirmar como a maioria esmagadora da população não consegue rebelar-se contra ordens superiores ainda que isso cause dor e sofrimento aos outros. Taxado de sádico e desprezado por seus colegas, ele insiste em tentar provar seus pontos de vista com outras experiências - algumas bem menos radicais, mas igualmente provocativas e surpreendentes.


Com uma narrativa que foge do convencional quando quebra a barreira da quarta parede e faz com que Milgram converse com o espectador, explicando suas teorias e contando sua história de amor com a esposa, Sasha (Winona Ryder, pouco explorada), "Experimentos" é um filme de fácil diálogo com a plateia, mas que não deixa de causar certo estranhamento justamente por sua criatividade estilística. Por mesclar o discurso em primeira pessoa do protagonista com momentos narrativos tradicionais, o roteiro de Almereyda parece perder o foco em determinadas situações - o que acarreta problemas de ritmo que somente o talento do elenco consegue disfarçar. Além de Sarsgaard e Winona, rostos conhecidos do público fazem participações especiais - caso de John Leguizamo, Anthony Edwards, Anton Yelchin e Dennis Haysbert (na pele do ator Ossie Davis, que estrelou, ao lado de William Shatner, um filme baseado no livro mais famoso de Milgram) - e, apesar do interesse pela trama sofrer um baque no terço final (quando Sarsgaard apela para uma barba pouco convincente e seus experimentos deixam de ter o mesmo impacto), o filme é um passatempo bastante inteligente e sensível.

Premiado no Festival de Cinema de Los Angeles, "Experimentos" é uma produção que foge radicalmente dos orçamentos gigantescos para contar uma história importante e que vale a pena ser conhecida. Peter Sarsgaard está extremamente à vontade em cena, e sua parceria com Winona Ryder - já uma atriz madura, discreta e minimalista - é um acerto, ainda que pouco seja explorada. Conhecido por "Nadja" (94), um filme de vampiros que tornou-se cult na década de 90, Michael Almereyda assina um filme despretensioso, barato e eficaz. Não é marcante ou impactante como poderia, mas é um trabalho honesto e mais uma grande atuação de Sarsgaard - um ator subestimado e ainda pouco aproveitado em Hollywood.

sexta-feira, 30 de junho de 2017

A FORÇA DO DESTINO

A FORÇA DO DESTINO (An officer and a gentleman, 1982, Paramount Pictures, 124min) Direção: Taylor Hackford. Roteiro: Douglas Day Stewart. Fotografia: Donald Thorin. Montagem: Peter Zinner. Música: Jack Nitzsche. Direção de arte/cenários: Philip M. Jefferies/James I. Berkey. Produção: Martin Elfand. Elenco: Richard Gere, Debra Winger, Louis Gosset Jr., David Keith, Robert Loggia, Lisa Blount, Tony Plana, David Caruso, Grace Zabriskie. Estreia: 28/7/82

6 indicações ao Oscar: Atriz (Debra Winger), Ator Coadjuvante (Louis Gosset Jr.), Roteiro Original, Montagem, Trilha Sonora Original, Canção Original ("Up where we belong")
Vencedor de 2 Oscar: Ator Coadjuvante (Louis Gosset Jr.), Canção Original ("Up where we belong")
Vencedor de 2 Golden Globes: Ator Coadjuvante (Louis Gosset Jr.), Canção Original ("Up where we belong")

O filme que confirmou o status de Richard Gere como um dos maiores símbolos sexuais do cinema nos anos 80 - em um papel recusado por John Travolta e Kurt Russell e oferecido a Jeff Bridges, Dennis Quaid e Christopher Reeve -, que foi a terceira maior bilheteria do ano de 1982 nos EUA e que ganhou dois Oscar pode ter conquistado milhares de corações românticos pelo planeta, mas nem todo mundo envolvido com ele tem os mesmos sentimentos. Debra Winger, a estrela de "A força do destino", não tem as melhores lembranças da produção, dirigida por Taylor Hackford e que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de melhor atriz: não apenas porque foi obrigada por contrato a fazer cenas de nudez com as quais não concordava - e que deu dores de cabeça ao diretor junto à censura - mas também pelo fato de que não teve um tempo exatamente fácil durante as filmagens. Segundo o livro "An actor and a gentleman", autobiografia do ator Louis Gosset Jr., a relação entre Winger e Gere era pouco amigável - e o fato da atriz não ter sido a primeira escolha para o papel, por "não ser sexy o suficiente", em palavras do produtor Don Simpson, apenas aumentava o clima pouco amistoso nas filmagens.

Na verdade, o principal papel feminino de "A força do destino" acabou nas mãos de Winger por desistências múltiplas. Sigourney Weaver, Anjelica Huston e Jennifer Jason Leigh foram as primeiras convidadas pela produção - ainda que tenham pouco em comum entre si. Rebecca De Mornay, Meg Ryan e Geena Davis também foram testadas, e somente depois de todo esse processo o nome de Winger foi confirmado. Hoje é difícil imaginar outra intérprete para Paula Pokrifki - especialmente devido ao sucesso financeiro do filme, a maior bilheteria da carreira de Richard Gere até a explosão de "Uma linda mulher" (90) -, mas até que o filme estreasse, no verão americano de 1982, tudo era questionável nos bastidores, inclusive a bela canção-tema "Up where we belong", que, desprezada pelo produtor, foi mantida no filme por teimosia de Taylor Hackford e acabou ganhando um Oscar - além de ter atingido as paradas de sucesso do mundo inteiro. No final das contas, "A força do destino" é mais um perfeito exemplo de uma produção que tinha tudo para dar errado... mas deu extraordinariamente certo!


Realizado com um orçamento irrisório de estimados 7,5 milhões de dólares, "A força do destino" rendeu, apenas no mercado doméstico, quase 130 milhões, além de ter sido eleito um dos dez melhores filmes do ano pelos críticos do National Board of Review, ter concorrido ao Golden Globe de melhor drama (além das indicações a Gere e Winger) e sido indicado a seis Oscar - venceu em duas categorias: melhor canção e ator coadjuvante (Louis Gosset Jr.). Tanto reconhecimento lhe deu facilmente um lugar de honra entre os clássicos românticos da década de 80, além de estabelecer alguns dos clichês que se tornariam regras nos anos seguintes - em especial o militar durão e irascível que, criado por Louis Gosset Jr., nunca mais abandonou qualquer filme que se preze sobre o assunto. Premiado também com o Golden Globe de ator coadjuvante, Gosset Jr. rouba todas as cenas em que aparece, equilibrando com enorme competência o drama romântico que se desenrola à sua volta: não é por acaso que sua figura é uma das mais marcantes do filme, a despeito do carisma de Gere e do talento de Winger, os dois protagonistas de uma história de amor simples e eficaz.

Sem maiores arroubos de criatividade, "A força do destino" é uma produção correta e com um roteiro redondo, escrito por Douglas Day Stewart, indicado ao Oscar da categoria. O protagonista é Zack Mayo (Richard Gere), um jovem sem muito sentido de responsabilidade, criado com negligência pelo pai após o suicídio da mãe e que decide dar um rumo para a sua vida ao entrar em um rígido treinamento militar de treze semanas em uma base naval. É nesse lugar que ele finalmente vai conseguir formar laços: com o colega Sid Worley (David Keith), com o treinador quase sádico Emil Foley (Louis Gosset Jr.), e principalmente com Paula Pokrifki (Debra Winger), que trabalha em uma fábrica da região e que, apesar da personalidade forte, sonha em tornar-se a esposa de um oficial da marinha. Com esses poucos personagens, Stewart conta uma história de amor, honra, lealdade e segundas chances, sem apelar para o sentimentalismo barato ou para a violência desnecessária. Um degrau acima dos romances melodramáticos de sua geração, "A força do destino" resiste bravamente ao tempo - graças à química entre Gere e Winger, à bela trilha sonora e à interpretação antológica de Louis Gosset Jr.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

AUSÊNCIA DE MALÍCIA

AUSÊNCIA DE MALÍCIA (Absence of malice, 1981, Columbia Pictures, 116min) Direção: Sydney Pollack. Roteiro: Kurt Luedtke. Fotografia: Owen Roizman. Montagem: Sheldon Kahn. Música: Dave Grusin. Figurino: Bernie Pollack. Direção de arte/cenários: Terence Marsh/John Franco Jr.. Produção executiva: Ronald L. Schwary. Produção: Sydney Pollack. Elenco: Paul Newman, Sally Field, Bob Balaban, Melinda Dillon, Luther Adler. Estreia: 15/11/81

3 indicações ao Oscar: Ator (Paul Newman), Atriz Coadjuvante (Melinda Dillon), Roteiro Original

Um belo dia, o repórter Kurt Luedtke, editor-executivo do The Detroit Free Press, percebeu que já tinha experiência o suficiente dentro do universo do jornalismo para escrever um roteiro sobre o assunto. Pediu demissão, mudou-se para Los Angeles e, inspirado pela história real de um colega do Washington Post que havia sido obrigado a devolver um Pulitzer quando foi descoberto que sua história era inventada, criou a trama de "Ausência de malícia" - que discutia os problemas inerentes à liberdade de expressão. Apresentando um tema contundente na democracia dos EUA - que poucos anos antes havia testemunhado a queda de um presidente graças à denúncias de uma dupla de jornalistas -, o roteiro de Luedtke logo interessou ao cineasta George Roy Hill - vencedor do Oscar por "Golpe de mestre" (73). Apesar do interesse, no entanto, Hill não se manteve à frente do projeto por muito tempo, mas teve um substituto à altura. Já no comando da produção, o consagrado Sydney Pollack mostrou que não tinha medo da potencial controvérsia a respeito do tema central do filme e escalou para os papéis centrais uma dupla de grandes astros, Al Pacino e Diane Keaton (ambos do elenco de "O poderoso chefão"). A saída de Pacino - e posteriormente de Keaton - não abalou o cineasta, que ofereceu então os papéis ao prestigiado Paul Newman e a recém oscarizada Sally Field. Surgia então um filme que encantaria boa parte da crítica, renderia mais de 40 milhões de dólares nas bilheterias e chegaria à lista de indicados ao Oscar em três importantes categorias.

Corajosamente indo em direção contrária ao bem sucedido "Todos os homens do presidente" (76), que narrava a investigação do Washington Post que revelou o escândalo de Watergate e levou à renúncia de Richard Nixon, Sydney Pollack mostra, em "Ausência de malícia", um outro lado do jornalismo investigativo, questionando os limites da liberdade de expressão. Se no premiado filme de Alan J. Pakula os repórteres vividos por Dustin Hoffman e Robert Redford eram o protótipo do heroísmo e da coragem, na obra de Pakula o outro lado do universo jornalístico é mostrado através de Megan Carter (Sally Field), uma repórter ambiciosa mas um tanto ingênua que é pega em uma armadilha criada pelas raposas do FBI: por sua causa, o nome de Mike Gallagher (Paul Newman) é ligado à investigação de um homicídio, apesar de seu álibi e de suas contundentes negativas. Filho de um conhecido mafioso recentemente morto, Gallagher passa a ter sua vida devassada pelos jornais e seu negócio como comerciante de bebidas em Miami prejudicado. Em busca da verdade - e para consertar seu possível erro de julgamento -, Megan começa a investigar os detalhes de sua própria notícia e esbarra em Teresa (Melinda Dillon), uma velha amiga de Mike, que pode ser a chave de todo o interesse do empresário em proteger sua privacidade.


Contando com uma atuação exemplar de Paul Newman, que injeta um misto de elegância e mistério a um personagem cujas reais intenções e motivações só vão sendo relevadas aos poucos, "Ausência de malícia" apresenta um ritmo que o aproxima mais das cerebrais produções policiais dos anos 70 do que dos filmes mais ágeis da década seguinte. Dirigido com segurança e sem espaço para piadas fora de hora, o filme de Pollack só força um pouco a barra quando o roteiro insiste em um romance pouco convincente entre sua dupla de protagonistas: por mais que seja irresistível acrescentar uma dose de
leveza à trama, a história de amor entre Megan e Mike soa deslocada e desnecessária - principalmente porque interrompe o fluxo da narrativa mais importante e atraente. Isso não impediu, porém, que o roteiro de Luedtke fosse candidato ao Oscar da categoria - que perdeu para "Carruagens de fogo", o papa-Oscar surpresa da temporada. Newman também concorreu à estatueta, assim como a coadjuvante Melinda Dillon, mas ambos também foram derrotados - ele pelo veterano Henry Fonda ("Num lago dourado") e ela por Maureen Stapleton ("Reds"). Apenas Sally Field ficou de fora das indicações - e por ironia, a primeira escolha para seu papel, Diane Keaton, chegou às cinco finalistas da categoria de melhor atriz, por "Reds".

Longe de ser um clássico da estatura de "Todos os homens do presidente" ou outros filmes que se utilizam dos bastidores do jornalismo para fazer uma crônica d sua época, "Ausência de malícia" é um filme apenas correto, valorizado por seus atores e pela direção contida de Sydney Pollack. Discute um tema relevante, mas lhe falta paixão e até mesmo uma química mais potente entre Newman e Sally Field, dois atores excelentes mas que nem sempre conseguem o essencial: despertar a simpatia da plateia. Essa falha acaba por atrapalhar o resultado final, apesar do capricho das atuações e da discussão que levanta. Um bom filme, mas muito aquém de outras obras bem melhores de Pollack.

terça-feira, 27 de junho de 2017

OS ELEITOS: ONDE O FUTURO COMEÇA

OS ELEITOS: ONDE O FUTURO COMEÇA (The right stuff, 1983, The Ladd Company, 193min) Direção: Philip Kaufman. Roteiro: Philip Kaufman, livro de Tom Wolfe. Fotografia: Caleb Deschanel. Montagem: Glenn Farr, Lisa Fruchtman, Tom Rolf, Stephen A. Rotter, Douglas Stewart. Música: Bill Conti. Direção de arte/cenários: Geoffrey Kirkland/George R. Nelson, Pat Pending. Produção executiva: James D. Brubaker. Produção: Robert Chartoff, Irwin Winkler. Elenco: Sam Shepard, Barbara Hershey, Ed Harris, Dennis Quaid, Fred Ward, Scott Glenn, Lance Henriksen, Kim Stanley, Veronica Cartwright, Pamela Reed, Jeff Goldblum, Kathy Baker, Scott Paulin, Charles Frank, Levon Helm. Estreia: 21/10/83

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator Coadjuvante (Sam Shepard), Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Direção de Arte/Cenários, Som, Efeitos Sonoros
Vencedor de 4 Oscar: Montagem, Trilha Sonora Original, Som, Efeitos Sonoros

As expectativas eram enormes. Primeiro, o roteiro era baseado em um livro do consagrado Tom Wolfe. Depois, seu tema - os primeiros passos dos EUA na corrida espacial - era empolgante. especialmente para o público norte-americano, notoriamente ufanista. E por fim, tudo levava a crer que se estaria diante de um épico grandioso, recheado de efeitos visuais acachapantes e sequências de ação de tirar o fôlego. Porém, quando "Os eleitos: onde o futuro começa" estreou, em outubro de 1983, a decepção foi grande em vários aspectos: não apenas naufragou nas bilheterias como desagradou àqueles que esperavam por mais um blockbuster superficial. Dirigido por Philip Kaufman com elegância, senso de humor e um ritmo destoante da maioria das produções do gênero, seu filme acabou sendo relativamente reconhecido apenas pela crítica e pela Academia, que lhe indicou ao Oscar em oito categorias - um reconhecimento um tanto agridoce para Kaufman, que se viu fora da disputa de diretor e roteiro mesmo com uma indicação a melhor filme do ano.

 Essa aparente incoerência da Academia - quase constante, aliás, como seus estudiosos podem perceber a cada ano - não impediu, no entanto, que "Os eleitos" saísse da cerimônia de premiação com um número generoso de estatuetas: reconhecido por sua montagem, trilha sonora, som e efeitos sonoros, o filme de Kaufman entrou, logo em seguida, em várias listas de melhores filmes da década de 80, o que, de certa forma, corrigiu a injustiça de seu fracasso comercial - responsável inclusive pelo fim de sua produtora (The Ladd Company). O fato é que, assim como aconteceu com vários bons filmes que passaram quase em branco pelo crivo do público, "Os eleitos" oferece muito mais do que um simples entretenimento: é inteligente, quase sarcástico e, mesmo que renda homenagens aos homens que retrata, jamais abandona o senso de crônica característico da prosa de Tom Wolfe. Mesmo que o próprio autor tenha ficado insatisfeito com as mudanças feitas na adaptação feita pelo cineasta, é inegável que existe, em cada cena, um cuidado em manter um alto nível de discurso, seja em diálogos rápidos e por vezes poéticos ou mesmo em cenas que comprovam a excelência de sua parte técnica. Surpreendendo a cada momento, Kaufman equilibra com maestria seu filme entre o corriqueiro (o treinamento e os testes a que os candidatos a astronautas são submetidos) e o sublime (suas viagens, tensas e paradoxalmente divertidas). Seu objetivo de realizar um épico é claro, e não fosse uma certa demora em engrenar, seu filme seria uma diversão perfeita.


Se Sam Shepard foi o único do elenco a conseguir uma indicação ao Oscar (como ator coadjuvante, perdendo para Jack Nicholson, em "Laços de ternura"), sua presença na lista de candidatos foi, de certa forma, uma maneira de homenagear todos os seus colegas de cena. Nomes em começo de carreira, como Dennis Quaid e Jeff Goldblum, e atores já conhecidos, como Ed Harris e Barbara Hershey, integram um elenco sem elos fracos, que conquistam o público com suas particularidades e estilos próprios. Kaufman não apenas se contenta em narrar com o máximo de detalhes possível o caminho dos astronautas rumo a seu lugar na história - ele também examina suas relações pessoais, familiares e matrimoniais, sem deixar que o ritmo pareça truncado (palmas para a edição oscarizada). Das primeiras cenas, que mostram o pioneiro Chuck Yeager (Shepard) em suas tentativas de romper a barreira do som, até a consagração dos sete homens escolhidos para liderar a corrida espacial americana, "Os eleitos" convida o espectador a uma viagem no tempo, que remete ao começo da Guerra Fria e à rivalidade entre EUA e URSS. Com imagens reais editadas com cenas recriadas com capricho, o filme de Kaufman brinca com o tom de semi-documentário, enquanto não abdica de rir de seus protagonistas, na verdade homens frequentemente inconscientes de sua importância histórica - um deles chega a dormir enquanto espera ser lançado ao espaço (!!).

Envolvente, por vezes divertido e quase sempre emocionante, "Os eleitos" é um filme que não deixou com que o tempo lhe diminuísse a qualidade. Mais de três décadas depois de seu lançamento nos cinemas ainda é um grande filme - talvez hoje ainda mais do que em sua estreia, já que pode ser visto à luz do tempo e devidamente consagrado como cult movie. Se Kaufman posteriormente investiria em filmes com alto teor erótico - "A insustentável leveza do ser" (88) e "Contos proibidos do Marquês de Sade" (2000), por exemplo -, aqui ele demonstra um domínio técnico e narrativo acima da média, e um cuidado com os detalhes que faz sua omissão entre os candidatos ao Oscar de direção quase criminosa. Mais de dez anos antes que "Apollo 13: do desastre ao triunfo" (94) - coincidentemente também estrelado por Ed Harris - se tornasse um grande sucesso de bilheteria e crítica (e também fosse indicado ao Oscar de filme, mas não de direção), "Os eleitos" já demonstrava que a corrida espacial era um terreno fértil para cineastas talentosos e sensíveis. Um vencedor, apesar dos pesares!

segunda-feira, 26 de junho de 2017

ENSINA-ME A VIVER

ENSINA-ME A VIVER (Harold and Maude, 1971, Paramount Pictures, 91min) Direção: Hal Ashby. Roteiro: Colin Higgins. Fotografia: John A. Alonzo. Montagem: William A. Sawyer, Edward Warschilka. Música: Cat Stevens. Figurino: William Theiss. Direção de arte/cenários: Michael Haller. Produção executiva: Mildred Lewis. Produção: Colin Higgins, Charles B. Mulvehill. Elenco: Ruth Gordon, Bud Cort, Vivian Pickles, Cyril Cusack. Estreia: 20/12/71

Alguns filmes parecem predestinados ao status de cult. Talvez pelo tema, pelo elenco ou pelas circunstâncias em que foram lançados, eles se tornam parte de um seleto grupo de produções que, mesmo sem a glória das premiações ou o selo de campeões de bilheteria, ultrapassam as limitações temporais e passam à eternidade graças às sensações que despertam nos espectadores. "Ensina-me a viver" é um desses afortunados. Longe de ter sido um estouro comercial no ano de seu lançamento (1971) - apesar de ter imediatamente conquistado fãs leais e devotados - e ignorado pelas principais cerimônias de premiação de Hollywood (recebeu apenas duas indicações ao Golden Globe), o filme de Hal Ashby ocupou lugar de destaque no coração do público principalmente pela forma afetuosa, respeitosa e bem-humorada com que trata de temas difíceis, como a velhice e a finitude. Mais do que uma história de amor entre duas pessoas completamente opostas, "Ensina-me a viver" é uma história de amor à vida e aos pequenos prazeres.

Antes de consagrar-se como o diretor de filmes vencedores do Oscar, como "Shampoo" (75), "Amargo regresso" (78) e "Muito além do jardim" (79), Hal Ashby só chegou ao comando de "Ensina-me a viver" quando o filme corria o sério risco de cancelamento. O projeto inicial, que teria o roteirista Colin Higgins como diretor, não passou da fase de pré-produção - quando, para papel o de protagonista masculino foram cotados nomes como Bob Balaban e Elton John (!!) - e a entrada de Ashby (que só tinha um filme no currículo) salvou o filme do limbo e lhe dotou de uma personalidade única, repleta de um humor seco e desconcertante, que quebra paradigmas românticos com a mesma desenvoltura com que se utiliza de alguns clichês do gênero para virá-los do avesso e apresentar ao público uma surpreendente e emocionante trama - que deixou apreensivos até mesmo os executivos da Paramount, temerosos com a reação da plateia diante do conteúdo pouco ortodoxo do roteiro.


Logo nas primeiras cenas o público é apresentado a Harold Chasen (Bud Cort), um excêntrico e solitário rapaz com mórbida fascinação pela morte. Constantemente simulando suicídio para chamar a atenção de sua mãe socialite - que não vê a hora de ou arranjar-lhe uma noiva ou mandar para uma instalação militar onde ele possa fazer carreira como seu tio - e frequentando funerais de desconhecidos, ele leva uma existência tão tediosa quanto fora do comum. Em um desses funerais é que ele conhece Maude (Ruth Gordon), que está às vésperas de completar seu 80º aniversário e, ao contrário dele, é obcecada pela vida. Igualmente solitária, mas dotada de um espírito aventureiro que a faz embarcar em situações impensáveis para gente de sua idade - como roubar carros e não dar a mínima importância a opiniões alheias -, Maude se torna uma companhia constante na vida do jovem, que vê nela um novo exemplo a ser seguido. Seus momentos juntos acabam se transformando em um amor inesperado e incompreendido.

Ilustrado por canções originais de Cat Stevens, "Ensina-me a viver" deve boa parte de seu charme irresistível e seu sucesso junto a plateias cativas à sua dupla central de atores. Apadrinhado por Robert Altman, o jovem Bud Cort parece talhado sob medida para viver o exótico Harold - um personagem quase inacreditável, mas interpretado com sensibilidade única. E Ruth Gordon dá um show na pele da divertida e entusiasmada Maude - uma mulher com um passado sombrio (revelado pelo roteiro apenas em uma tomada rápida que evita o sentimentalismo) e que persegue a vida com a sede de quem sabe que ela está cada vez mais finita. A química entre os dois - com direito até a uma cena de beijo - é esplêndida, como se ambos fossem feitos um para o outro, e se completassem com a naturalidade da existência. Mesmo não sendo um filme para todos os públicos - há quem possa se incomodar com o ritmo, com o estilo, com o visual - e merecidamente celebrado como cult, "Ensina-me a viver" é uma obra de rara luminosidade e sutileza, feita para todos aqueles que acreditam no amor e na vida.

domingo, 25 de junho de 2017

FAHRENHEIT 451

FAHRENHEIT 451 (Fahrenheit 451, 1966, Anglo Enterprises, 112min) Direção: François Truffaut. Roteiro: François Truffaut, Jean-Louis Richard, romance de Ray Bradbury. Fotografia: Nicolas Roeg. Montagem: Thom Noble. Música: Bernard Herrmann. Figurino: Tony Walton. Direção de arte/cenários: Syd Cain. Produção executiva: Miriam Brickman. Produção: Lewis M. Allen. Elenco: Oskar Werner, Julie Christie, Cyril Cusack, Anton Diffring. Estreia: 07/9/66 (Festival de Veneza)

Em 1953, o escritor Ray Bradbury imaginou um futuro distópico onde livros seriam proibidos pelo governo e incinerados pelos bombeiros, impedindo a população a ter acesso a qualquer palavra escrita. Alguns anos mais tarde, seu romance, batizado de "Fahrenheit 451" - em teoria, a temperatura necessária para a combustão das publicações - chegou às mãos do francês François Truffaut, notoriamente avesso a ficções científicas, e transformou completamente a opinião do célebre cineasta. Apaixonado pelo conceito da trama concebida por Bradbury e certo de que poderia fazer dela um filme memorável, Truffaut passou os próximos seis anos em busca de financiamento para o projeto. Nascia então seu primeiro - e único - filme falado em inglês. Lançado no Festival de Veneza de 1966, "Fahrenheit 451" é um clássico por excelência: inteligente, perturbador e emocionante, se mantém como uma crítica feroz ao totalitarismo ao mesmo tempo que convida o público a uma poética homenagem à literatura e seu poder transformador.

Antes de chegar às telas, porém, "Fahrenheit 451" mostrou-se um desafio dos mais trabalhosos para o inveterado cinéfilo, colaborador assíduo do prestigioso "Cahièrs du Cinéma" e já consagrado por filmes como "Os incompreendidos" (59) e "Jules e Jim: uma mulher para dois" (62). Não apenas o financiamento demorava a sair, mas também seu elenco dos sonhos parecia impossível de escalar. Para os dois principais papéis femininos, por exemplo, Truffaut queria a francesa Jean Seberg e a americana Tippi Hedren, mas viu seu desejo frustrado em dose dupla: Hedren estava ocupada com Alfred Hitchcock e Seberg (estrela do seminal "Acossado", de Jean-Luc Godard) foi considerada um nome pouco comercial pelos produtores. Nem mesmo Jane Fonda acertou sua participação e a contratação de Julie Christie para ambos os papéis (pela metade do cachê cobrado então pela atriz), ao contrário de ajudar, só complicou ainda mais a situação: sua presença causou a defecção do ator Terence Stamp - escolhido para interpretar o protagonista, Montag. Ex-namorado de Christie, o ator inglês não ficou confortável com a ideia de trabalhar com ela - especialmente quando havia a forte possibilidade de, fazendo dois personagens em cena, a bela Christie roubar a atenção. O resultado foi uma tremenda dor de cabeça aos produtores, que passaram a cogitar nomes tão diversos quanto Montgomery Clift, Marlon Brando, Paul Newman, Jean-Paul Belmondo, Charles Aznavour e Peter O'Toole - até que Truffaut finalmente bateu o martelo com Oskar Werner... e se arrependeu amargamente.





Não foi a primeira vez que cineasta e ator trabalharam juntos - ambos foram parte fundamental do sucesso de "Jules e Jim". Mas certamente Truffaut jamais imaginaria que a parceria outrora tão feliz se tornaria motivo de tanto desgosto. Com visões completamente opostas a respeito da forma como retratar o bombeiro Montag - personagem principal e que serve de ponte entre o filme e o público -, diretor e ator entraram em frequente rota de colisão durante as filmagens, e o próprio Truffaut declarou posteriormente que só não chegou a ponto de desistir do projeto devido à sua paixão pela história e pelo tempo que havia gasto na pré-produção. A situação ficou tão delicada que os dois chegaram a ficar sem dirigir a palavra um ao outro durante as duas últimas semanas de trabalho - some-se a isso uma crise nervosa de Julie Christie e as dificuldades do diretor em comunicar-se em inglês enquanto trabalhava em Londres e chega a ser quase um milagre que "Fahrenheit 451" tenha sido completado - e indo ainda mais longe, tenha ficado tão bom. Com o roteiro escrito em inglês por Truffaut e Jean-Louis Richard (que não dominavam o idioma e não ficaram totalmente satisfeitos com o resultado final), a adaptação do romance de Bradbury acerta em todos os aspectos - como cinema, como crítica social e como transposição de uma obra literária para as telas.


A criatividade de Truffaut começa já nos créditos de abertura: uma vez que no universo proposto pelo roteiro a leitura é algo proibido, não há letreiros e sim uma narração em off apresentando o elenco e a equipe técnica. Logo em seguida, o público passa a conhecer uma sociedade opressiva e totalitária, onde a população vive à mercê de um governo que proíbe o consumo de livros - e incentiva as denúncias contra aqueles que desafiam as leis. Nesse universo quase asséptico intelectualmente, a única função do corpo de bombeiros é justamente incinerar todos os livros descobertos e impedir que outros meios de comunicação senão a televisão sejam acessíveis como meio de informação. O protagonista, vivido por Oskar Werner, é Guy Montag, um desses bombeiros, um profissional dedicado e à espera de uma promoção que está em vias de chegar. E é justamente nesse ponto de sua carreira que Montag é surpreendido por um novo sentimento: fascinado pela bela Clarisse (Julie Christie), ele se vê subitamente curioso em conhecer o prazer da leitura, para desespero de sua mulher, a fútil Linda (também Christie). Tentado a mergulhar cada vez mais em um novo ambiente (onde o livre-pensar é uma realidade e o idealismo intelectual é capaz de forjar mártires orgulhosos), Montag descobre que seus fechados horizontes podem transformar-se em infinitas possibilidades - mas, para isso, precisa escolher entre a vida que leva e os perigos do não-conformismo.

Visualmente interessante - ainda que pareça um tanto datado - e contado em ritmo fluido e envolvente, "Fahrenheit 451" é uma obra-prima. Nem mesmo os embates dos bastidores foi capaz de minar o que há de mais brilhante no filme: sua mensagem de amor à liberdade e à literatura. Um pouco incômoda em seus momentos iniciais - até que a plateia finalmente compreenda exatamente o que está acontecendo - e fascinante em seu terço final, quando Montag descobre um novo caminho para sua vida, a obra de Truffaut sobrevive ao tempo como uma das mais importantes ficções científicas do cinema moderno (mesmo que abra mão de alguns elementos icônicos do gênero, como a violência e os efeitos visuais abundantes, que transformariam os filmes das décadas seguintes mais e mais parecidos com videogames do que com cinema). Felizmente a ideia de Mel Gibson em refilmá-lo não vingou: dificilmente alguém seria capaz de ser tão competente em transmitir as ideias do romance de Bradbury do que Truffaut foi em seu único filme em língua inglesa.