quinta-feira

AS CONFISSÕES DE SCHMIDT


AS CONFISSÕES DE SCHMIDT (About Schmidt, 2002, New Line Cinema, 125min) Direção: Alexander Payne. Roteiro: Alexander Payne, Jim Taylor, romance de Louis Begley. Fotografia: James Glennon. Montagem: Kevin Tent. Música: Rolfe Kent. Figurino: Wendy Chuck. Direção de arte/cenários: Jane Ann Stewart/Teresa Visinare. Produção executiva: Bill Badalato, Rachel Horovitz. Produção: Michael Besman, Harry Gittes. Elenco: Jack Nicholson, Hope Davis, Dermot Mulroney, Kathy Bates, June Squibb. Estreia: 22/5/2002 (Festival de Cannes)

2 indicações ao Oscar: Ator (Jack Nicholson), Atriz Coadjuvante (Kathy Bates)

Vencedor de 2 Golden Globes: Ator/Drama (Jack Nicholson), Roteiro 

Quando Jack Nicholson subiu ao palco na cerimônia de entrega dos Golden Globes 2003 para receber sua estatueta não conseguiu esconder certa surpresa: segundo ele, foi inesperado ser eleito o melhor ator dramático do ano por um filme que ele considerava uma comédia. Parte da responsabilidade de tal confusão, na verdade, é do diretor Alexander Payne: assim como acontece em toda a sua filmografia, o cineasta não hesita, em "As confissões de Schmidt", em borrar as fronteiras que separam o riso das lágrimas, criando um adorável híbrido que aproxima, como raramente acontece, o espectador de seus personagens - quase todos críveis e humanos apesar de suas idiossincrasias. É um bálsamo para seus elencos - não à toa seus intérpretes chegam à corrida do Oscar - e um oásis para seu público, exposto a tramas e situações que, corriqueiras ou não, soam refrescantes diante de uma dieta abarrotada de blockbusters com personagens rasos e enredos indigentes. Frequentemente encontrando material na literatura, Payne é, também, um roteirista excepcional, capaz de extrair o melhor de suas fontes originais - ou, em alguns casos, alterá-las para que melhor caibam em seu universo. Baseado no primeiro livro de uma trilogia de Louis Begley, "As confissões de Schmidt" tem mudanças substanciais em sua história - feitas com o objetivo de encaixá-las em um argumento original do diretor e aliviar um pouco a personalidade talvez polêmica em excesso do personagem principal -, mas mantém o tom irônico do autor do romance e permite a Nicholson que exercite uma persona quase rara em sua carreira: um homem comum.

Primeira e única opção de Payne para o papel de Warren Schmidt, um homem confrontado com a solidão e a relação difícil com a filha única, Nicholson apresenta à plateia um lado frágil que lhe permite exercitar a comédia e o drama com iguais medidas. Enquanto o roteiro não se furta a apelar para momentos de humor - a briga com um colchão d'água e um encontro inesperado em uma jacuzzi, por exemplo, são sensacionais - tampouco foge de revelar os sentimentos mais sinceros do personagem em cenas cruciais. À vontade como há muito não conseguia estar, Nicholson encontra em Kathy Bates a parceira ideal para um embate dos mais fascinantes - não por acaso Bates arrebatou uma indicação ao Oscar de coadjuvante e protagoniza uma das cenas mais memoráveis do filme (aquela que conta com a jacuzzi). Construindo seu Schmidt com detalhes sutis e sem implorar pela empatia do público - pelo contrário, o personagem soa até desagradável em algumas situações -, o ator volta a encantar aos fãs com um desempenho irretocável, em que disfarça até mesmo os tiques que colecionou em sua longa carreira. No fim das contas, apesar de todos os defeitos - e principalmente por causa do carisma de Nicholson - é fácil simpatizar com o protagonista, um homem com quem se pode cruzar em qualquer supermercado.

 

Funcionário dedicado de uma seguradora, Warren Schmidt não sabe exatamente o que fazer com a chegada da aposentadoria. Sua vida tediosa consiste em trabalhar e conviver com a esposa, Helen (June Squibb) - em quem, segundo confessa, não reconhece a mulher com que se casou quase quarenta anos antes. Sua filha, Jeannie (Hope Davis) há muito não mora com os pais e está de casamento marcado com Randall Hertzel (Dermot Mulroney), de quem Warren não tem a melhor opinião. Quando Helen morre subitamente, Schmidt precisa lidar não apenas com a solidão inesperada e com o descaso da filha - ele precisa encontrar um novo motivo para seguir seus dias, algo além da adoção à distância de um pequeno órfão africano, com quem se corresponde com surpreendente sinceridade. Viajando do Nebraska até o Colorado para o casamento de Jeannie, ele vai encontrar no caminho pessoas que vão lhe abrir os olhos em relação a tudo que o cerca - especialmente Roberta (Kathy Bates), a personalíssima mãe de Randall, uma mulher cuja independência chega a assustar seu conservadorismo.

Ignorando os dois últimos livros da trilogia de Louis Begley, Alexander Payne faz de "As confissões de Schmidt" um filme coerente com sua obra, tanto em termos temáticos quanto visuais. Explorando personagens distantes de qualquer glamour e demonstrando por eles um carinho disfarçado de ironia, o cineasta convida o espectador a uma visita à vida de gente comum, com problemas ordinários e nem sempre com soluções perfeitas para eles. O final agridoce sublinha o tom melancólico da narrativa, mas jamais força o público à emoção barata. Seu estilo distante pode soar seco, mas no fundo Payne é um humanista, um autor que consegue enxergar a beleza e a generosidade até mesmo no mais impenitente misantropo. Os fãs de histórias sobre gente como a gente só podem agradecer seus presentes ao cinema.

quarta-feira

A PRIMEIRA NOITE DE TRANQUILIDADE


A PRIMEIRA NOITE DE TRANQUILIDADE (La prima notte di quete, 1972, Mondial Televisione Film/Adel Productions/Valoria Films, 132min) Direção: Valerio Zurlini. Roteiro: Valerio Zurlini Enrico Medioli, estória de Valerio Zurlini. Fotografia: Dario Di Palma. Montagem: Mario Morra. Música: Mario Nascimbene. Figurino: Luca Sabatelli. Direção de arte/cenários: Enrico Tovaglieri/Franco Gambarana. Elenco: Alain Delon, Sonia Petrova, Giancarlo Giannini, Renato Salvatori, Alida Valli, Salvo Randone, Lea Massari, Patrizia  Adiutori. Estreia: 18/10/72

Dentre os cineastas italianos celebrados nas décadas de 1960 e 1970, o nome do italiano Valerio Zurlini frequentemente é lembrado com o respeito reservado a Fellini, Bertolucci, Antonioni e Rosselini. Dono de um estilo discreto, que valorizava o visual em comunhão com um tom existencialista, Zurlini chegou a ganhar um prêmio no Festival de Veneza (em 1962, pelo filme “Dois destinos”, estrelado por Marcello Mastroianni e Jacques Perrin), mas sua obra mais conhecida – e ainda assim por uma parcela do público que nem de longe faz jus à sua qualidade dramática – é “A primeira noite de tranquilidade”. Lançado em 1972 como capítulo final da chamada Trilogia do Amor – que conta também com “Verão violento” (1959) e “A moça com a valise” (1961) -, o drama romântico estrelado por Alain Delon deixa claro ao espectador porque Zurlini era considerado o poeta da melancolia e da desilusão amorosa.

Delon, em uma das melhores atuações de sua carreira, vive Daniele Dominici, professor de Literatura que chega à pequena cidade de Rimini para substituir um colega de licença. Entediado com a rotina modorrenta do local – e com a falta generalizada de interesse por parte de seus alunos -, o novo professor se junta a um grupo que diminui as frustrações da vida com jogatina, festas em boates e bebedeiras. Sua vida, perdida em um cotidiano sem expectativas – e dividida com a esposa depressiva, com quem mantém um relacionamento puramente de aparências – sofre um baque quando ele percebe estar irremediavelmente atraído por Vanina (Sonia Petrova), uma bela e misteriosa aluna, namorada de um jovem milionário da cidade, que usa de seu poder econômico para humilhá-la sempre que possível. Apaixonado pela sensibilidade de Vanina e soterrado pela tristeza que o acompanha e sublinha a atmosfera melancólica de Rimini, Daniele vislumbra a possibilidade de finalmente encontrar um caminho que fuja da dor de sua existência. Porém, o que o atrai em Vanina é justamente o que pode lhes separar: uma visão pessimista da vida e a força avassaladora da realidade.

  

O inteligente roteiro de ”A primeira noite de tranquilidade” não se contenta apenas em contar uma história de amor ameaçada pela sensação de derrota: Zurlini espalha por seu filme referências literárias e artísticas que elevam sua produção a um nível intelectual acima da média. Através de conversas aparentemente banais, o público pode reconhecer citações de Stendhal, D.H. Lawrence, Dante, Shakespeare e Goethe (autor do poema que dá origem ao título original do filme) e o cineasta não hesita em utilizar-se de escultura renascentistas para ilustrar passagens de extrema beleza – até mesmo como metáfora das aspirações puras e utópicas de seus personagens. O estilo literário do cineasta fica bastante patente, da mesma forma, em sua opção de oferecer a seus atores longos diálogos, que contrastam com o ritmo veloz do cinema que entrava em voga nos anos 1970. Seus personagens se movem lentamente rumo à um destino que já julgam traçados anteriormente, e a edição não apressa sua jornada – pelo contrário, parece apenas contemplar, com olhos de ressaca, uma tragédia anunciada.

Relegado a um injusto segundo plano na história do cinema italiano – ao menos em termos de popularidade -, Valerio Zurlini transmite, em seu “A primeira noite de tranquilidade” um senso de inevitabilidade do destino que exala de cada cena, de cada diálogo, de cada personagem. A fascinante sequência em uma boate, em que Daniele e Vanina se encaram apaixonados, alheios ao caos à sua volta, talvez seja o melhor exemplo de seu estilo sensível e contundente: ao som da bela “Domani è un altro giorno”, na voz de Ornella Vanoni, seus protagonistas experimentam um momento de paz antes da tormenta – e convidam o espectador a juntar-se a eles em um mergulho triste e melancólico rumo à noite em que finalmente se pode dormir sem sonhar. “A primeira noite de tranquilidade” é uma pérola escondida no meio de dezenas de prouções europeias de seu tempo. Vale a pena procurá-la.

terça-feira

A CARTA


A CARTA (The letter, 1940, Warner Bros, 95min) Direção: William Wyler. Roteiro: Howard Koch, peça teatral de W. Somerset Vaughm. Fotografia: Tony Gaudio. Montagem: George Amy, Warren Low. Música: Max Steiner. Figurino: Orry-Kelly. Direção de arte/cenários: Carl Jules Weyl. Produção executiva: Hal B. Wallis. Produção: William Wyler. Elenco: Bette Davis, Herbert Marshall, James Stephenson, Frieda Inescort. Estreia: 14/11/40

07 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (William Wyler), Atriz (Bette Davis), Ator Coadjuvante (James Stephenson), Fotografia em preto-e-branco, Montagem, Trilha Sonora Original


Em 1940, a Academia de Hollywood ainda era relativamente jovem, mas já tinha o nome de Bette Davis marcado em sua história: em 12 anos, a estrela já tinha dois Oscar para chamar de seu e continuava relevante a ponto de ser uma das maiores estrelas do star system de Hollywood. Seu nome era um chamariz de bilheteria tão poderoso que nem mesmo sua personalidade – forte a ponto de angariar muitos desafetos dentro da indústria – a impedia de ser uma das atrizes mais disputadas pelos grandes diretores de seu tempo. Um desses diretores, William Wyler, não apenas lhe dava a chance de grandes papéis – foi o responsável por “Jezebel” (1938), que lhe rendeu o segundo Oscar de melhor atriz  - como também não se importava em bater de frente com ela durante as filmagens. Seus épicos embates nos bastidores não atrapalhavam em nada o resultado de seus trabalhos – como se pode comprovar com “A carta”, que rendeu, a ambos, indicações à estatueta dourada e um enorme êxito comercial.

Fã ardorosa do filme – a que considera um de seus melhores trabalhos justamente pela direção de Wyler -, Davis teve um período complicado durante as filmagens, que foi além de seus conflitos com o cineasta. Se Wyler também tinha altercações violentas com outro membro do elenco – James Stephenson, que muitas vezes chegou a abandonar o set por causa de suas divergências artísticas e acabou recompensado com uma indicação ao Oscar de ator coadjuvante -, Davis passou por maus bocados ao descobrir-se grávida na primeira semana de trabalho e, sem ter certeza do nome do pai da criança que esperava, fazer um aborto sem o conhecimento dos colegas. Nem Wyler – com quem ela já havia tido um romance anteriormente – soube de tais percalços, e nada disso impediu que a atriz entregasse mais um desempenho brilhante, quase mutilado pelos executivos da Warner, preocupados com o tom dúbio do caráter da protagonista, Leslie Crosbie.

  

Criada por W. Somerset Maughan como personagem principal de uma peça de teatro lançada em 1927, Crosbie realmente não cabe no panteão das mocinhas sofredoras e estoicas adoradas pelo público que lotava os cinemas no final da década de 1930 – ainda que a própria Davis fizesse questão de interpretar personagens que destoavam do senso comum da época. Logo na primeira sequência – pouco mais de dois minutos que demoraram um dia inteiro para ficar ao gosto do perfeccionista Wyler – Crosbie atira várias vezes, sem dó, em um homem que cai morto na frente de sua propriedade, uma fazenda de borracha em Cingapura. Esposa de Robert Crosbie (Herbert Marshall), um fazendeiro, ela alega que cometeu o crime como forma de proteger-se do assédio que sofreu durante a ausência do marido. Logo o advogado Howard Joyce (James Stephenson) é contratado para cuidar de seu caso – que tem tudo para ser tratado realmente como legítima defesa. No entanto, uma carta escrita por Leslie à vítima – com um teor romântico que desmente a alegação anterior – pode revelar a verdade sobre o homicídio.

Remake de um filme lançado com Jeanne Eagels em 1929 – que foi indicado ao Oscar de melhor atriz e tinha Herbert Marshall (o Robert da nova versão) no papel da vítima -, “A carta” é um misto de romance e filme pré-noir, com um clima de suspense que não chega a afastá-lo das características de um melodrama típico. Com um final alterado em virtude do famigerado Código Hays – que não permitia que personagens de caráter duvidoso tivesse qualquer possibilidade de final feliz – e uma protagonista que tirou o sono dos executivos da Warner Bros (que imploravam ao diretor que a tornasse mais simpática aos olhos do espectador), o filme de Wyler se escora basicamente em seu elenco impecável. Além de Davis – expressiva como nunca -, “A carta” revelou ao público um ator até então desconhecido e que infelizmente não teve a sorte de colher os louros de seu desempenho. Indicado por Jack Warner em pessoa, James Stephenson agradou em cheio o exigente William Wyler e ganhou o papel do advogado Howard Joyce – apenas para depois ver o próprio Warner recusar a escolha com medo de oferecer um papel tão importante a um ator sem poder de marquise. Coube a Wyler contornar a situação inusitada e convencer o presidente do estúdio de que Stephenson era a melhor opção. O resultado foi uma indicação ao Oscar de ator coadjuvante, um prestígio do qual não pode usufruir por muito tempo – Stephenson morreu inesperadamente, aos 53 anos, de ataque cardíaco, poucos meses depois da entrega das estatuetas. “A carta” acabou sendo seu legado artístico – e sendo ao lado de uma estrela da grandeza de Bette Davis não deixa de ser um senhor legado.


quarta-feira

A DESPEDIDA


A DESPEDIDA (Blackbird, 2019, Millenium Media/Busted Shark Productions/Eclectic Pictures, 97min) Direção: Roger Michell. Roteiro: Christian Torpe, roteiro original de sua autoria. Fotografia: Mike Eley. Montagem: Kristina Hetheringon. Música: Peter Gregson. Figurino: Dinah Collin. Direção de arte/cenários: John Paul Kelly/Caroline Smith. Produção executiva: Boaz  Davidson, Andrey Georgiev, Jeffrey Greenstein, Andrew Kotliar, Avi Lerner, Bryan Lord, Heidy Jo Markel, Joshua Sason, Trevor Short, Jonathan Yunger, Elizabeth Zavoyskiy. Produção: David Bernardi, Sherryl Clark, Rob Van Norden. Elenco: Susan Sarandon, Kate Winslet, Mia Wasikowska, Sam Neill, Lindsay Dunca, Rainn Wilson, Bex-Taylo-Klaus, Anson Boon. Estreia: 06/9/2019 (Festival de Toronto)

Portadora de uma doença degenerativa incurável, mulher reúne a família em um último fim-de-semana, com o objetivo de aparar as arestas de suas relações e despedir-se daqueles a quem ama. A sinopse do filme "A despedida" soa tão genérica quanto seu título nacional, mas a boa notícia é que, apesar dos clichês abundantes, o remake do dinamarquês "Coração mudo" (2014), comandado por Roger Michell, é uma produção bastante digna e capaz de comover o público com facilidade - principalmente pela união de um elenco que conta com duas vencedoras do Oscar e atores com prestígio e experiência suficientes para evitar o dramalhão fácil. Nem sempre consegue escapar das armadilhas de uma trama assumidamente emocional, mas dotado de um ritmo agradável e um roteiro que trata de um assunto pesado - a eutanásia - com uma leveza inesperada, o filme é uma bela surpresa, ainda que pouco marcante, o que se refletiu em sua repercussão quase nula desde sua estreia no Festival de Toronto de 2019.

Escrito pelo mesmo Christian Thorpe do filme original, o roteiro de "A despedida" apresenta seus personagens aos poucos - e só expõe a situação principal depois que o espectador já os conhece o bastante para apreciar suas reações diante de um dilema dos mais dilacerantes. Lily (Susan Sarandon, sempre excepcional) e Paul (Sam Neill) formam um casal apaixonado e leal, que criou suas duas filhas com amor e liberdade. A mais velha, Jennifer (Kate Winslet) cresceu uma mulher um tanto controladora, que não abre muito espaço para espontaneidade em sua vida, para incômodo do marido, Michael (Rainn Wilson), e do filho adolescente Jonathan (Anson Boon). A caçula, Anna (Mia Wasikowska), mais rebeldes e desajustada, vive em constantes altos e baixos, o que interfere inclusive no seu relacionamento com a namorada, Chris (Bex Taylor-Klaus). Sofrendo de uma doença que em pouco tempo lhe deixará completamente incapaz de uma vida normal, Lily decide cometer suicídio assistido, contando com a ajuda do marido, que é médico, e para despedir-se adequadamente de todos a quem ama, organiza um fim-de-semana em sua bela casa no litoral - uma espécie de Natal adiantado, que conta também com a presença da sempre fiel e melhor amiga Liz (Lindsay Duncan). Reunido, o grupo tenta ignorar a tensão de uma morte anunciada - o que traz à tona ressentimentos, segredos e sentimentos até então disfarçados sob a aparência de uma família feliz.


 

Não há novidades em "A despedida": o tema, os personagens, os conflitos, tudo parece já ter sido explorado em outras produções mais ou menos bem-sucedidas. Mas é inegável que no filme de Michell - o homem por trás do delicioso "Um lugar chamado Notting Hill" (1999) - as engrenagens funcionam com uma delicadeza ímpar. Por mais que as coisas aconteçam de acordo com os manuais de roteiro (com direito a reviravoltas e um equilíbrio sutil entre drama e algum humor), é difícil não se deixar envolver com o drama proposto, principalmente por jogar luz sob um tema ainda doloroso e polêmico. A produção acerta em não se deixar levar por um tom fúnebre - para o que colabora a luminosa fotografia de Mike Eley, que tira proveito da beleza natural de West Sussex como contraponto à angústia da trama. Também não atrapalha nem um pouco ter em cena atores tão à vontade quanto o elenco escolhido - um time de excelentes intérpretes, que aproveitam cada linha de diálogo para brilhar. Se Susan Sarandon e Kate Winslet não precisam provar mais nada há algum tempo, sobra para Rainn Wilson e Bex Taylor-Klaus chamarem a atenção: ele distante anos-luz de seu mais célebre personagem - o Dwight da série "The office" - e ela oferecendo nuances inesperadas as uma personagem que poderia facilmente cair no estereótipo barato.

"A despedida" não é um filme que fica na memória. Talvez seja sintomático que, apesar do tema, do gênero e do elenco brilhante, tenha sido solenemente ignorado em todas as cerimônias de premiação que tanto apreciam seu estilo. Porém, ao abraçar com sensibilidade e honestidade uma história com tantas possibilidades de cair no grotesco ou no sentimentaloide mais ofensivo, se torna um programa de rara inteligência e sutileza. E claro, contar com um elenco tão fabuloso apenas ajuda a tornar tudo bem mais palatável. É um filme com (grandes) qualidades e (alguns) defeitos - a falta de originalidade sendo o mais óbvio. Mas é, acima de tudo, um filme digno ainda que por vezes um tanto superficial.

terça-feira

UM CLARÃO NAS TREVAS


UM CLARÃO NAS TREVAS (Wait until dark, 1967, Warner Bros, 108min) Direção: Terence Young. Roteiro: Robert Carrington, Jane Howard-Hammerstein, peça teatral de Frederick Knott. Fotografia: Charles Lang. Montagem: Gene Milford. Música: Henry Mancini. Direção de arte//cenários: George Jenkins/George James Hopkins. Produção: Mel Ferrer. Elenco: Audrey Hepburn, Alan Arkin, Richard Crenna, Efrem Zimbalist Jr., Jack Weston, Samantha Jones, Julie Herrod. Estreia: 26/10/67

Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Audrey Hepburn)

Durante a II Guerra Mundial, a então adolescente Audrey Hepburn, de 16 anos de idade, servia como enfermeira voluntária em um hospital holandês. Quando vários soldados aliados chegaram em busca de cuidados depois da batalha de Arnhem, a futura bonequinha de luxo cuidou de um jovem paraquedista inglês chamado Terence Young - sem jamais poder imaginar que, mais de vinte anos depois, ele seria o diretor de seu primeiro e único filme de suspense, "Um clarão nas trevas". Último filme de Hepburn antes de um hiato autoimposto de quase uma década - ela só voltaria às telas em "Robin e Marian", de 1976 -, a adaptação da peça teatral de Frederick Knott foi um dos grandes êxitos de bilheteria de 1967, em parte graças à engenhosa campanha de marketing que remetia aos ensinamentos de Hitchock, e em parte devido à curiosidade do público em acompanhar uma de suas atrizes mais queridas rumo à escuridão de um gênero que, a despeito de seu sucesso comercial, nunca foi considerado dos mais nobres pela indústria de Hollywood. O fato de Hepburn ter arrebatado uma indicação ao Oscar por seu desempenho - ao lado de Anne Bancroft ("A primeira noite de um homem"), Faye Dunaway ("Bonnie& Clyde: uma rajada de balas") e Katharine Hepburn (a vencedora, por "Adivinhe quem vem para jantar") - diz mais sobre o prestígio da estrela do que pela boa vontade da Academia em homenagear uma produção cujo maior objetivo é assustar a plateia - ainda que ela faça isso com extrema destreza.

Young, cujos créditos incluem três filmes de James Bond dos anos 1960 - "O satânico Dr. No" (1962), "Moscou contra 007" (1963) e "007 contra a chantagem atômica" (1965) - se demonstra um artesão competente ao explorar todas as possibilidades visuais de roteiro que nem sempre consegue escapar de suas origens teatrais - no palco a peça de Knott contava com as presenças de Lee Remick e Robert Duvall. O excesso de diálogos (nem todos indispensáveis) é o maior problema, uma vez que outra característica típica de produções adaptadas do teatro (o cenário único) serve para ampliar o tom claustrofóbico da trama e encaminhar o filme para seu clímax - minutos onde a tensão atinge seu nível máximo especialmente quando assistidos no escuro (daí a campanha de marketing que insistia que todas as salas e exibição ficassem completamente às escuras para melhor resultado). Este último ato, que apresenta o confronto entre mocinha e vilão com inteligência e impecável senso narrativo, compensa o ritmo irregular da produção até então e oferece ao público o que de melhor o cinema de suspense pode oferecer.

 

"Um clarão nas trevas" começa com a única sequência fora do cenário principal do filme, quando o espectador é apresentado a uma boneca recheada de heroína que chega à Nova York, vinda do Canadá, pelas mãos de uma atraente jovem (Samantha Jones), que, por motivos não revelados, a entrega a um desconhecido. Este desconhecido é (Efrem Zimbalist Jr.), um fotógrafo casado com Susy (Audrey Hepburn), uma mulher ainda tentando acostumar-se com sua nova rotina como deficiente visual, consequência de um acidente de carro. O que o casal não sabe é que tal boneca é o objeto do desejo de uma gangue perigosa e violenta, liderada pelo cruel Harry Roat (Alan Arkin), que não hesita em matar quem quer que atravesse seu caminho. Com a ajuda de seus dois companheiros, o sedutor Mike (Richard Crenna em papel para o qual foi Robert Redford foi considerado) e o quase atrapalhado Galindo (Jack Weston), ele se introduz no universo de Susy disposto a recuperar o artefato - e encontra uma resistência completamente inesperada.

Realizado como uma tentativa de salvar o casamento de Audrey Hepburn e do produtor Mel Ferrer, "Um clarão nas trevas" não obteve sucesso neste ponto específico - o relacionamento acabou no ano seguinte - mas tornou-se um campeão de bilheteria e reafirmou o poder comercial da atriz. É bem provável que nem mesmo Julie Andrews (também cotada para o papel central), no auge de sua popularidade na década de 1960, fosse capaz de atrair o público da mesma forma que Hepburn. Não deixa de ser sintomático que, anos mais tarde, o ator Alan Arkin tenha revelado que só ficou com o papel porque nenhum ator queria ficar marcado por um personagem capaz de machucar a atriz (mesmo na ficção). Arkin chegou a declarar, em tom de brincadeira, que um dos motivos pelos quais não foi indicado ao Oscar de coadjuvante por sua atuação (segundo Stephen King, uma das melhores encarnações do mal no cinema) tem a ver com o fato de que "ninguém é indicado ao Oscar por ser mau com Audrey Hepburn!" Brincando ou não, Arkin até tem um pouco de razão. Seu personagem até pode causar arrepios no espectador, mas é Hepburn quem domina o filme e justifica seu sucesso de bilheteria. Sua única incursão no suspense é, também, um dos vários pontos fortes de sua carreira.

segunda-feira

CHAMADA DE EMERGÊNCIA


CHAMADA DE EMERGÊNCIA (The call, 2013, TriStar Pictures/Stage 6 Films/Troika Pictures, 96min) Direção: Brad Anderson. Roteiro: Richard D'Ovidio, estória de Richard D'Ovidio, Nicole D'Ovidio, Jon Bokenkamp. Fotografia: Tom Yatsko. Montagem: Avi Youabian. Música: John Debney. Figurino: Magali Guidasci. Direção de arte/cenários: Franco-Giacomo Carbone/Robert Gould. Produção executiva: Philip M. Cohen, William C. Gallo, Guy J. Louthan, Dale Rosenbloom. Produção: Bradley Gallo, Jeff Graup, Michael A. Helfant, Michael J. Luisi, Robert L. Stein. Elenco: Halle Berry, Abigail Breslin, Michael Eklund, Morris Chestnut, Roma Maffia, Michael Imperioli, Justina Machado. Estreia: 14/3/2013

Depois de ganhar o Oscar de melhor atriz em 2002 por "A última ceia" - e tornar-se a primeira e até hoje única mulher negra a conseguir tal façanha -, Halle Berry passou a sofrer do mesmo problema de várias outras intérpretes premiadas com a estatueta: acometida da proverbial "maldição do Oscar", viu sua carreira entrar em uma espiral decadente, tanto em termos artísticos quanto financeiros. Filmes sofríveis como "Mulher-gato" (2004) e "Na companhia do medo" (2003) pareciam afundá-la em uma série de escolhas tão equivocadas que nem mesmo sua presença na série de continuações da série "X-Men" (onde dava vida à Tempestade) conseguia equilibrar. Foi somente em 2013, mais de uma década depois de sua vitória - e quando pouca gente ainda acreditava no potencial comercial de seu nome - que Berry voltou a cair nas graças do público: mesmo que não tenha feito um sucesso avassalador, "Chamada de emergência" arrecadou respeitáveis 68 milhões de dólares pelo mundo (contra um orçamento quase irrisório de 13 milhões) e reposicionou sua atriz principal na indústria - ainda que logo em seguida ela retornasse à sua rotina de más decisões profissionais.

Dirigido por Brad Anderson - mas sem o tom claustrofóbico e féerico de seu "O operário" (2004) -, "Chamada de emergência" é um filme de suspense que se utiliza sem pudores de todos os seus elementos mais clássicos. Sua coragem em assumir-se claramente como entretenimento é uma de suas maiores qualidades: em nenhum momento Anderson tenta transformar o roteiro em algo maior do que ele é, escorando-se com extrema confiança em um ritmo ágil, no talento de seus atores e na premissa, um tanto inverossímil mas bastante eficiente. Enxuto (apenas 96 minutos contando com os créditos) e nervoso, o filme conduz o espectador a uma viagem de constante tensão, que vai se avolumando até o terceiro (e um tanto exagerado) ato. Halle Berry brilha no papel central - e divide os méritos com Abigail Breslin (a Pequena Miss Sunshine em pessoa) e com o ótimo Michael Eklund, excelentes como as demais peças de um jogo violento e imprevisível.


 

Jordan Turner (Berry) trabalha como operadora do sistema de emergência de Los Angeles. Experiente mas incapaz de ser totalmente insensível em relação ao que testemunha, ela acaba por passar por um incidente traumático (mostrado nos primeiros ótimos minutos de projeção) e, insegura quanto à sua própria capacidade de lidar com o stress da profissão, tenta readaptar-se aos poucos na rotina de seus colegas. Seis meses depois do evento que a abalou profundamente, porém, ela terá uma chance de convencer a si mesma de que mantém intacto seu talento em ajudar as vítimas que procuram ajuda. A adolescente Casey (Abigail Breslin) liga desesperadamente para a emergência, e pede socorro: acaba de ser sequestrada em um shopping-center e está telefonando de um celular, trancada no porta-malas de um carro. Assumindo as rédeas da situação, Jordan conta com a ajuda de sua tarimba para manter a jovem em relativa calma e dos colegas policiais para que sigam as pistas que podem levá-los a evitar o pior. Nesse meio-tempo, Casey se demonstra uma vítima pouco propensa à passividade - o que não basta, no entanto, para diminuir seu terror diante da violência que passa a presenciar conforme seu raptor vai ficando cada vez menos pacífico.

É interessante lembrar que o primeiro cineasta ligado à "Chamada de emergência" foi Joel Schumacher, que em 2003 lançou "Por um fio" - os roteiros de ambos os filmes lidam com a urgência do tempo, com psicopatas violentos e com protagonistas lidando com a pressão de nunca abandonar o telefone. "Chamada de emergência" sofre, nesse ponto, com algumas inverossimilhanças que, se não atrapalham a tensão, podem minar a suspensão de realidade tão necessária a filmes do gênero: Casey consegue ficar conectada com Jordan o filme todo, sem que a ligação caia nem mesmo em situações em que isso seja pouco provável, e o final apresenta uma série de coincidências que soam um tanto forçadas em uma história que fluía com tanta naturalidade - também é um pouco frustrante a explanação a respeito dos motivos do criminoso, uma subtrama que em nada acrescenta à tensão construída com tanto cuidado até então. O fato de Jordan buscar justiça com as próprias mãos também é algo que incomoda, apesar de tal subterfúgio fazer parte da lista de elementos clássicos do gênero - em especial dentro de uma indústria que praticamente exige o embate entre herói e vilão nos momentos decisivos da ação. Apesar disso, o final é corajoso ao evitar (um pouco) o previsível e encerrar a história deixando no público a satisfação de um desfecho compensador. "Chamada de emergência" é um filme de suspense assumidamente realizado com o objetivo de divertir durante sua hora e meia de duração - e cumpre sua missão com louvor. Não muda a história do cinema, mas leva o espectador a um passeio de montanha-russa dos mais eficazes.

domingo

CELESTE E JESSE PARA SEMPRE


CELESTE E JESSE PARA SEMPRE (Celeste & Jesse forever, 2012, Envision Media Arts/Team Todd/PalmStar Media, 92min) Direção: Lee Toland Krieger. Roteiro: Rashida Jones, Will McCormack. Fotografia: David Lanzenberg. Montagem: Yana Gorskaya, Jonathan Melin. Música: Zach Cowie, Sunny Levine. Figurino: Julia Caston. Direção de arte/cenários: Ian Phillips/Joseph Oxford. Produção executiva: Kevin Frakes, Rashida Jones, Will McCormack. Produção: Lee Nelson, Jennifer Todd, Suzanne Todd. Elenco: Rashida Jones, Andy Samberg, Elijah Wood, Will McCormack, Emma Roberts, Chris Messina, Chris Pine. Estreia: 20/01/2012 (Festival de Sundance)

Celeste e Jesse nasceram um para o outro. Amigos desde a escola, se descobriram almas gêmeas, se apaixonaram, se casaram e pareciam destinados a viverem felizes para sempre. Mas a vida é real e de viés, e como o amor nem sempre é o bastante, Celeste e Jesse estão se divorciando - principalmente porque ela não vê no marido a menor disposição de amadurecer e tornar-se o que ela considera um homem de verdade, digno de ser o pai de um filho seu. Apesar da separação, porém, Celeste e Jesse continuam grudados, morando praticamente juntos (ele ainda vive no estúdio nos fundos da casa dela) e enervando os amigos, que não se conformam com sua relação sui generis. A aparente tranquilidade entre Celeste e Jesse - que poderiam facilmente viver no limbo entre casamento e divórcio para o resto da vida - é quebrada, no entanto, quando o rapaz descobre que uma noite casual de sexo (quando já estava novamente solteiro) terá consequências bem mais sérias do que ele poderia esperar: subitamente, o infantil Jesse está em vias de tornar-se pai, e a exigente Celeste passa a questionar se a separação era o que ela realmente queria. Em crise no trabalho como analista de tendências e vendo o ex-marido avançando na carreira que deixava de lado durante seu relacionamento, ela tenta reconstruir a vida - mas talvez a missão não seja tão fácil quanto ela julgava.

Só de começar justamente pelo fim de um relacionamento - contrariando as regras das comédias românticas hollywoodianas e apostando na melancolia mais do que no encantamento -, "Celeste e Jesse para sempre" já merece ser aplaudido entusiasticamente. Porém, mais do que essa relativa ousadia da atriz e roteirista Rashida Jones (cansada da mesmice do gênero e disposta a enxergar os relacionamentos amorosos por ângulos menos óbvios), o filme estrelado pela própria Jones e por Andy Samberg (antes do estouro da série "Brooklyn Nine-nine") oferece ao público uma gama variada de sentimentos, que vão das risadas resultantes de piadas visuais e verbais e referências pop a algumas discretas lágrimas. Ao criar protagonistas críveis e dotados de falhas que os aproximam profundamente do espectador, o roteiro foge da idealização estéril das histórias de amor cinematográficas para entregar um sensível e (por que não?) incômodo estudo sobre relações humanas. Longe de ser um mergulho denso e sufocante ao estilo Ingmar Bergman, o filme de Lee Toland Krieger - que posteriormente assinaria episódios de séries como "Modern love", "Riverdale" e "Você" - é um exemplar típico do cinema independente norte-americano do começo dos anos 2000, como ""(500) dias com ela" (2009), de Marc Webb, com suas histórias agridoces e simpáticas dispostas a subverter um dos gêneros mais queridos e tradicionais de Hollywood. Distantes da aparência artificial dos símbolos sexuais que frequentam os romances açucarados realizados dentro dos domínios dos grandes estúdios, Jones e Samberg ainda tem a vantagem de serem excelentes intérpretes, dando consistência e veracidade a diálogos dolorosos (e também a outros, mais leves e menos marcantes).

 

"Celeste e Jesse para sempre" talvez deva muito de seu frescor e sua verdade ao fato de ter sido inspirado (muito livramente) no relacionamento dos dois roteiristas, Jones e Will McCormack (que marca presença no filme como um amigo do casal central): toda vez que o roteiro se concentra na relação dos protagonistas e deixa de lado as tramas paralelas desnecessárias (a estrelinha pop que remete a cantoras ao estilo Britney Spears, o amigo gay vivido por Elijah Wood) o filme alcança tons bem mais interessantes e sólidos. Mesmo que o humor por vezes soe um tanto deslocado (mas nunca vulgar ou pastelão em excesso), o equilíbrio entre drama e comédia é certeiro, permitindo ao público respiros aliviados enquanto acompanha as desventuras amorosas de um par que, perceptivelmente, funciona muito mais na teoria que na prática. É um toque de mestre dos roteiristas mostrar que Celeste e Jesse se amam mas estão, apesar de tanta sintonia em determinados pontos, em frequências diferentes no que mais importa - um detalhe crucial que é o algoz de seu relacionamento. Não há certo ou errado na situação (ainda que ela imprima um tom mais duro do que o simpático e quase bobalhão ex-marido) e justamente por isso as coisas funcionem tão bem a maior parte do tempo. É fácil dar razão à Celeste quando ela reclama da falta de ambição de Jesse, assim como não é difícil ficar ao lado dele quando ela resolve perceber que o ama justamente quando ele está finalmente tentando progredir emocionalmente.

São vários os momentos marcantes de "Celeste e Jesse para sempre": a constatação de Jesse que terá um filho e não será com a mulher que ama; o duro diálogo do ex-casal no meio da rua; o discurso de Celeste no casamento de uma amiga. São momentos que emocionam e tocam fundo no espectador - e que provavelmente foram responsáveis para que John Lasseter chamasse a dupla de roteiristas para criar a trama de "Toy story 4" (2019). Simples e complexo ao mesmo tempo (exatamente como a vida), o filme é uma comédia romântica sem açúcar - mas com personagens apaixonantes em suas falhas e equívocos. Uma pérola que comprova o talento de Rashida Jones atrás das câmeras e de Andy Samberg longe de sua tradicional persona boba. Para ver e rever de tempos em tempos.

AS CONFISSÕES DE SCHMIDT

AS CONFISSÕES DE SCHMIDT (About Schmidt, 2002, New Line Cinema, 125min) Direção: Alexander Payne. Roteiro: Alexander Payne, Jim Taylor, roma...