terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

A ÚLTIMA NOITE DE BORIS GRUSHENKO (Love and death, 1975, United Artists, 85min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Ghislain Cloquet. Montagem: Ron Kalish, Ralph Rosenblum. Figurino: Gladys de Segonzac. Direção de arte/cenários: Willy Holt. Produção executiva: Martin Poll. Produção: Charles H. Joffe. Elenco: Woody Allen, Diane Keaton. Estreia: 10/6/75

Quando se assiste aos primeiros filmes de Woody Allen - basicamente estruturados em uma narrativa à base de piada atrás de piada - dificilmente se pode imaginar que, por trás de seu humor iconoclasta e neurótico, existe uma profunda admiração por Dostoievski e Ingmar Bergman. Cada um a seu modo, o escritor russo e o cineasta sueco são grandes influências na obra de Allen, o que ficou óbvio quando ele iniciou uma jornada por filmes mais dramaticamente densos, como "Interiores" (78) e "Setembro" (87) - que dividiram a crítica -  ou com reflexões mais pessimistas, como "Crimes e pecados" (89) e "Match point" (2005) - ambos grandes sucessos. Um sinal de seu apreço pelas questões que viria a abordar futuramente é "A última noite de Boris Grushenko", um filme que ainda seguia seu estilo anárquico de fazer cinema mas que já apontava para um caminho mais sofisticado de contar histórias - que culminaria com os Oscar de filme, roteiro e direção para "Noivo neurótico, noiva nervosa" (77), seu trabalho seguinte. Carregado de referências culturais e históricas - mas nem por isso pedante ou presunçoso - "A última noite de Boris Grushenko" é um dos melhores filmes da fase pré-Oscar de Allen, com um equilíbrio perfeito entre o humor visual debochado e diálogos brilhantes que beiram o surreal.

Escrito durante um bloqueio criativo de Allen - que emperrou no meio daquele que se tornaria, anos mais tarde, "Um misterioso assassinato em Manhattan" (95) - e inspirado na leitura de um livro sobre a história da Rússia, "A última noite de Boris Grushenko" apresenta o diretor na pele do personagem-título, um pacifista intelectual deslocado em uma família pouco afeita a livros e atividades culturais. Apaixonado por uma prima, a bela Sonja (Diane Keaton), que não tem o menor interesse em seus desejos, nem mesmo depois de rejeitada por seu irmão - e prefere entregar-se a uma sucessão de amantes do que envolver-se com ele - o pacífico Boris se vê obrigado a partir para a guerra e impedir o avanço das tropas de Napoleão Bonaparte (James Tolkan). Com o tempo, ele se descobre um inusitado conquistador e acaba, por obra e graça do destino, como a principal peça de um plano para assassinar o líder francês - ao lado de sua amada Sonja.


Filmado na Hungria e na França, "A última noite de Boris Grushenko" teve uma saudável cota de problemas durante sua produção - o mais grave deles o sério problema intestinal do produtor Charles H. Joffe graças à comida de Budapeste - mas, surpreendentemente, é um dos filmes mais felizes da carreira de Woody Allen em seus primeiros anos. Ainda que apoiado em uma avalanche de piadas de todo tipo, o roteiro do diretor tem uma coesão e uma linha narrativa menos solta que seus trabalhos anteriores, o que viria a se refinar ainda mais nas obras seguintes, quando ele finalmente conseguiu reunir seu genial senso de humor com a linguagem cinematográfica de forma a equilibrar os dois fatores. Com uma fotografia caprichada do belga Ghislain Cloquet - que explora admiravelmente o clima dos cenários naturais para enfatizar o tom épico/histórico/romântico da trama - e uma edição enxuta que jamais deixa o ritmo cair, o filme não é apenas indicado aos fãs do cineasta, mas consegue a façanha de fazer rir até mesmo o mais renitente espectador. Tudo mérito das micagens de Allen e Keaton, em excepcional dueto que remete aos grandes momentos de Chaplin, Irmãos Marx e Bob Hope. Certeiro em suas observações perspicazes sobre a vida, a morte, o amor e outras considerações filosóficas, Allen não apenas faz rir: ele presta sinceras homenagens a alguns de seus maiores ídolos.

Em um dos diálogos mais geniais de sua filmografia, Allen faz com que seu personagem receba a visita de seu pai, na prisão, e receba dele notícias sobre alguns de seus conhecidos: surge então, de maneira brilhante, citações a "Crime e castigo", "Os irmãos Karamazov", "O idiota", "O jogador", "O duplo" e outras obras de Dostoievski. Em outras sequências, ele brinca com imagens e conversas que remetem a filmes do sueco Ingmar Bergman, como "Quando duas mulheres pecam" (66) e "O sétimo selo" (57), e até mesmo o título original do filme ("Amor e morte") é uma tentativa de evocar outros romances russos, como "Guerra e paz", de Tolstoi, e o já citado "Crime e castigo". Nenhum detalhe escapa à visão cínica de Allen, que arranca gargalhadas sem precisar deixar de lado a inteligência e comprova que ser erudito não necessariamente significa ser chato ou pedante. Uma pequena obra-prima de humor e sofisticação que ainda precisa ser redescoberto como um dos mais completos de seu realizador.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

A TRAVESSIA

A TRAVESSIA (The walk, 2015, Sony Pictures Entertainment/TriStar Productions, 123min) Direção: Robert Zemeckis. Roteiro: Robert Zemeckis, Christopher Brown, livro de Philippe Petit. Fotografia: Darius Wolszki. Montagem: Jeremiah O'Driscoll. Música: Alan Silvestri. Figurino: Suttirat Anne Larlab. Direção de arte/cenários: Naomi Shohan/Geoffroy Gosselin, Ann Smart. Produção executiva: Jacqueline Levine, Cherylanne Martin, Ben Waisbren. Produção: Jack Rapke, Steve Starskey, Robert Zemeckis. Elenco: Joseph Gordon-Levitt, Ben Kingsley, Charlotte Le Bon, James Badge Dale, Ben Schwartz. Estreia: 26/9/15 (New York Film Festival)

O vencedor do Oscar de melhor documentário de 2008, "O equilibrista", dirigido por James Marsh, contava a inacreditável história de Philippe Petit, um francês que conseguiu, em 1974, quando as Torres Gêmeas ainda nem estavam totalmente prontas, atravessar a distância entre elas equilibrado no fio que utilizava em suas apresentações artísticas em Paris. Como documentários não são exatamente gêneros populares - com raras exceções - o cineasta Robert Zemeckis achou que a trajetória de Petit em sua tentativa de atingir seu objetivo poderia render um belo e emocionante filme, capaz de atrair as mesmas multidões que lotaram os cinemas para assistir a alguns de seus maiores sucessos de bilheteria, como a trilogia "De volta para o futuro", o divertidíssimo "Uma cilada para Roger Rabbit" (88) e o multi-oscarizado "Forrest Gump: o contador de histórias" (94). Enganou-se. Com uma renda de pouco mais de 10 milhões de dólares arrecadados no mercado doméstico, "A travessia" foi uma grande decepção comercial, e nem mesmo sua renda internacional conseguiu apagar o gostinho amargo do fracasso, mal ultrapassando os 50 milhões e nem sequer dobrando seu custo (relativamente baixo) de 35 milhões de dólares. Nem mesmo a Academia de Hollywood, tão generosa com Zemeckis em outras ocasiões, pareceu impressionar-se com seu novo filme, lhe ignorando até mesmo nas categorias técnicas. Uma tremenda injustiça! Mesmo longe de ser o melhor trabalho do diretor, "A travessia" é entretenimento honesto, tecnicamente irrepreensível e com um clímax poderoso o bastante para prender o espectador na poltrona até os minutos finais.

Construindo sua narrativa em um estilo que lembra os famosos "filmes de golpe", o roteiro, baseado em livro do próprio Petit, acompanha o protagonista desde seus primeiros passos como equilibrista - sob os cuidados do experiente e ranzinza Papa Rudy (Ben Kingsley) - até seu mais famoso e arriscado espetáculo, um acontecimento ao mesmo tempo poético e assustador, belo e transgressor. Na pele de um Joseph Gordon-Levitt com sotaque francês e lentes de contato azuis, o personagem central apresenta todas as características típicas de um protagonista arrojado: é intransigente, quase arrogante, obsessivo e dotado de uma visão artística muito superior à sua percepção do perigo. Zemeckis não tenta forçar a simpatia do público com seu herói, deixando a missão com o seu ator principal - que mais uma vez demonstra um carisma acima de qualquer dúvida, mesmo tendo em mãos um personagem cuja fixação chega, em determinados momentos, a por em risco inclusive aqueles que aceitam colaborar com ela. Ao equilibrar (sem trocadilhos) o tom cômico com um ritmo de filmes de aventura da velha Hollywood e efeitos visuais espetaculares, "A travessia" é um programa completo, capaz de agradar a todos os tipos de público, mas que infelizmente não conseguiu a atenção que merecia.


Milimetricamente construído como um programa para seduzir qualquer espectador, "A travessia" é um produto raro dentro da indústria hollywoodiana. Não apela para nenhum tipo de violência, não é inspirado em nenhuma história em quadrinhos, não é sequência de um sucesso ou tampouco tem como ator principal um nome de forte apelo popular, capaz de levar o público às salas de exibição somente por sua presença. Nem mesmo o nome de Robert Zemeckis foi o bastante para convencer a audiência, no entanto. De volta ao formato tradicional de contar histórias no cinema desde "O voo" - que concorreu aos Oscar de ator (Denzel Washington) e roteiro original - o cineasta que há anos dedicava-se a experimentações, como "O Expresso Polar" (2004) comprova que não perdeu a habilidade em mergulhar em tramas centradas mais em personagens do que em desafios técnicos. Ainda que "A travessia" tenha como maior atrativo o envolvente clímax que coloca Philippe Petit a centenas de metros do chão, é sua jornada para atingir seu objetivo que determina o ritmo do filme, ditado pela edição ágil (mas nunca histérica) e sublinhado pela trilha sonora discreta de Alan Silvestri. É assim que Petit vai explicando sua ideia fixa à plateia, enquanto vai recrutando colaboradores, entre elas a namorada Annie (Charlotte Le Bon) e seu fotógrafo oficial, Jean-Louis (Clement Sibony), que chegam à Nova York convencidos a participar de um evento sem igual - e ilegal.

É quando o grupo de Petit chega à Nova York - depois de mais de uma hora de filme - que "A travessia" parece finalmente começar, e talvez essa demora em engrenar seja seu maior problema. Quando finalmente é hora do clímax - poderoso, engraçado, tenso e emocionante - é possível que boa parte da plateia já tenha se incomodado com os dois terços iniciais, interessantes mas sem maiores atrativos exceto a produção impecável e o carisma de Gordon-Levitt. Àqueles que tem paciência, porém, Zemeckis entrega um belo presente em seus trinta minutos finais: a sequência em que finalmente Petit faz sua travessia entre as torres do World Trade Center não apenas é um feito técnico impressionante (em especial em uma sessão 3D) como também é uma linda homenagem à cidade e aos edifícios, que surgem como personagens indispensáveis à história. Essa etapa final do filme - cuidadosamente filmada, editada e sonorizada - apaga todo e qualquer deslize anterior, mostrando porque o diretor é um dos mais conceituados e bem-sucedidos de Hollywod apesar de alguns fracassos no caminho. Os efeitos visuais deslumbrantes (injustamente esquecidos pelo Oscar) podem ser o que fica na memória do espectador, mas o carinho de Petit e do cineasta por Nova York também ficam evidentes no tom melancólico de seus últimos minutos. "A travessia" pode não ser um dos melhores filmes de Zemeckis, mas não faz feio em uma carreira vitoriosa e principalmente repleta de respeito a seu público.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

AS SUFRAGISTAS

AS SUFRAGISTAS (Suffragette, 2015, Ruby Films/Pathé/Film4, 106min) Direção: Sarah Gavron. Roteiro: Abi Morgan. Fotografia: Edu Grau. Montagem: Barney Pilling. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Jane Petrie. Direção de arte/cenários: Alice Normington/Barbara Herman-Skelding. Produção executiva: Nik Bower, Rose Garnett, Cameron McCracken, Teresa Moneo, Tessa Ross, James Schamus. Produção: Alison Owen, Faye Ward. Elenco: Carey Mulligan, Helena Bonham-Carter, Anne-Marie Duff, Ben Whishaw, Brendan Gleeson, Meryl Streep, Romola Garai. Estreia: 04/9/15 (Festival de Teluride)

Tinha tudo para ser um daqueles filmes que a Academia de Hollywood adora e enche de estatuetas douradas: uma história socialmente relevante, um elenco com nomes já lembrados em outras ocasiões (Carey Mulligan, Helena Bonham-Carter, Meryl Streep), um tema de grande importância sociopolítica (os direitos das mulheres) e uma reconstituição de época caprichada. No entanto, "As sufragistas" - filme que tem como foco narrativo a luta das mulheres inglesas pelo direito ao voto, no começo do século XX - acabou passando batido pelas cerimônias de premiação e naufragou nas bilheterias, apesar dos elementos que poderiam ter feito dele um vencedor. Não deixou de ser um tanto injusta essa esnobada absoluta: por mais que o filme da cineasta Sarah Gavron esteja longe da perfeição, é consistente o bastante para levantar discussões e comparações com a fragilizada sociedade ocidental contemporânea. Além disso, ainda apresenta mais uma ótima atuação de Carey Mulligan, perfeita no papel principal e mais uma vez se mostrando uma das melhores atrizes de sua geração. Dono de um timing perfeito de lançamento, falta à "As sufragistas" um pouco mais de uma contundência que lhe poderia tornar muito maior.

A estrutura do roteiro de Abi Morgan segue uma linha narrativa bastante tradicional, inserindo uma protagonista fictícia em um contexto real: Carey Mulligan, caprichando no tom suave de sua personagem, interpreta Maud Watts, uma jovem londrina que, em 1912, trabalha no insalubre ambiente de uma lavanderia, assim como fazia sua mãe e da mesma forma que fazem muitas mulheres de sua geração, que se dividem entre o lar e um sub-emprego que não lhes dá nem ao menos o direito ao voto. É justamente essa questão que se põe no caminho de Maud quando ela se vê repentinamente próxima de Violet Miller (Anne-Marie Duff), uma das maiores entusiastas do movimento sufragista inglês - e que trabalha a seu lado, incentivando a participação de todas as mulheres na militância. Mesmo contra a vontade do marido, Sonny (Ben Whishaw), que não vê com bons olhos a participação feminina na política e especialmente a de sua mulher em questões consideradas masculinas, Maud acaba se envolvendo cada vez mais nos comícios, nas passeatas e nas discussões parlamentares a respeito do assunto - e quando chega a participar de atos considerados terroristas, corre o risco de perder a guarda do único filho.


O problema de "As sufragistas" nem é tanto o didatismo do roteiro ou a indecisão entre enfatizar a luta feminina pelo direito ao voto (retratada na figura carismática da líder do movimento, Emmeline Pankhurst, vivida rapidamente por Meryl Streep) ou os dilemas de sua protagonista - um símbolo da luta contra o machismo e a sociedade patriarcal que lhe oprime desde a infância, quando era abusada pelo patrão. Sempre que a cineasta opta por sequências que ilustram a violência da repressão do Estado contra as mulheres, seu filme demonstra fragilidade técnica, com uma edição que mais esconde do que mostra e por vezes soa confusa e sem energia. Por outro lado, quando o foco é o olhar melancólico e expressivo de Carey Mulligan, a produção cresce em emoção e atinge o objetivo de alcançar o espectador e torná-lo cúmplice de sua narrativa. Para isso, Mulligan conta com o apoio de Helena Bonham-Carter em uma atuação discreta mas poderosa, que foge de seus trabalhos mais conhecidos ao lado do ex-marido Tim Burton: sua composição de uma mulher que enfrenta o machismo da sociedade de cabeça erguida e peito aberto é, talvez, uma das melhores de sua carreira, infelizmente ignorada pela Academia que já havia lhe indicado duas vezes ao Oscar (melhor atriz por "Asas do amor", em 1998, e coadjuvante por "O discurso do rei", em 2011). A química entre ela, Mulligan e Anne-Marie Duff é a maior força do filme de Sarah Gavron - o que não deixa de ser coerente de se dizer a respeito de uma obra que fala justamente sobre o poder da união entre mulheres.

Com apenas um longa para cinema no currículo (o pouco visto "Brick Lane", de 2007), Sarah Gavron dá um grande passo à frente na carreira, com uma produção correta e socialmente relevante, estrelada por nomes fortes e sem maiores escorregões. Não criou uma obra com o impacto que se poderia esperar de um tema tão contundente, mas foi feliz ao não apelar para o melodrama exagerado ou o panfletarismo barato. Equilibrado em suas intenções (ainda que por vezes um tantinho aquém do que se poderia desejar em ênfase), Gavron se mostrou uma diretora sensível, inteligente e capaz de explorar com sutileza o talento de seu excepcional elenco. "As sufragistas" é um filme de grande importância, e se não é um grande e inesquecível filme, ao menos levanta questões e provoca reflexões a cada dia mais prementes em um mundo progressivamente conservador. Vale mais pela intenção do que pelo resultado, mas jamais pode ser considerado ruim ou insignificante.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

A PELE DE VÊNUS (La Vénus à la fourrure, 2013, R.P. Productions, 96min) Direção: Roman Polanski. Roteiro: Roman Polanski, David Ives, romance de Leopold von Sacher-Masoch, peça teatral de David Ives. Fotografia: Pawel Edelman. Montagem: Hervé de Luze, Margot Meynier. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Dinah Collin. Direção de arte/cenários: Bruno Via/Philippe Cord'homme. Produção: Robert Benmussa, Alain Sarde. Elenco: Mathieu Amalric, Emmanuelle Seigner. Estreia: 25/5/13 (Festival de Cannes)

Quando trabalhou junto com a atriz Emmanuelle Seigner pela primeira vez, no thriller "Busca frenética" (1988), o diretor Roman Polanski encontrou na bela francesa uma esposa e uma musa. Desde então dirigiu-a em "Lua de fel" (1992) e "O último portal" (1999), mas nunca teve a oportunidade de mostrar à plateia a evolução de seu talento como atriz, adquirida com a experiência e a maturidade. Trabalhando com o marido pela primeira vez em seu idioma natural - o francês - a bela Seigner finalmente teve a chance de deixar de ser coadjuvante para ser a estrela em "A pele de Vênus", que estreou no Festival de Cannes 2013 com efusivos elogios e rendeu ao veterano Polanski um César (o Oscar francês) de melhor diretor. Com um roteiro inspirado na peça de teatro de David Ives - por sua vez baseado no romance homônimo de Leopold von Sacher-Masoch - o filme volta a brincar com a obsessão do cineasta por ambientes claustrofóbicos, e envolve a plateia em um jogo de sedução e dominação inteligente e perspicaz, que tem especial ressonância àqueles apaixonados por teatro. Com uma invejável química entre Seigner e Mathieu Amalric - que substituiu Louis Garrell pouco antes do começo das filmagens - e um ritmo que se mantém em constante ebulição, "A pele de Vênus" é mais um filme que confirma Roman Polanski como um inquieto criador de obras perturbadoras e densas.

Uma clara homenagem ao teatro - forma de arte de que o próprio Polanski já se utilizou em filmes como "A morte e a donzela" (2004) e "O deus da carnificina" (2013) - e à arte da atuação, "A pele de Vênus" é, também, uma sofisticada obra de arte, recheada de referências culturais e psicológicas, que, ao contrário do que poderia acontecer, jamais soa pedante ou inalcançável. É, sem dúvida, muito acima da média do cinema popular (em que o cérebro do espectador raramente é acionado), mas dificilmente pode ser acusado de intelectualizado em excesso. Ao abraçar uma estrutura puramente teatral - sem respiros artificiais ou tramas paralelas desnecessárias - o roteiro, coescrito pelo diretor e pelo autor da peça original, exige da plateia uma atenção e uma disposição absolutas, mas lhe dá em troca um espetáculo do mais alto nível. É contra-indicado àqueles que reclamam da verborragia do teatro filmado, mas suas qualidades cinematográficas - a edição precisa, a trilha sonora impecável de Alexandre Desplat, a direção segura de Polanski - conseguem facilmente conquistar a admiração até do mais exigente espectador que se deixar envolver pela complexa relação estabelecida entre seus dois protagonistas.


Thomas (Mathieu Amalric) é um dramaturgo que está em vias de estrear como diretor, adaptando um clássico e polêmico romance escrito no século XVIII. Depois de testar dezenas de candidatas ao principal papel feminino e quase desistindo de sua busca, ele se vê surpreendido pela bela e determinada Vanda (Emmanuelle Seigner), que chega ao teatro onde os ensaios devem tomar forma com o firme objetivo de mostrar a ele que é a atriz ideal para viver a personagem, que, coincidentemente, tem o mesmo nome que ela. A princípio recusando-se a testar Vanda por ela ter chegado atrasada e parecer pouco apropriada fisicamente ao papel, aos poucos Thomas vai percebendo que, por trás de sua aparência vulgar e pouco inteligente, ela é uma mulher não apenas completamente dedicada à sua profissão como também apaixonada pelo texto - do qual ele tem indisfarçável orgulho. Não demora para que ele se deixe seduzir pelo talento da moça, que transforma uma simples audição em um sagaz jogo de dominação - que é, afinal, o tema da peça de Thomas. Cada vez mais certo de que Vanda (por coincidência ou não, o mesmo nome da protagonista de sua trama) é a melhor escolha para a peça, ele aceita sua proposta de fazer uma espécie de ensaio informal ali mesmo, diante de uma plateia vazia: surge, então, uma bizarra relação entre os dois.

E é esse relacionamento sui generis que conduz "A pele de Vênus" durante seus 96 minutos. Valorizando cada trecho de diálogos - bem escritos, inteligentes, irônicos e questionadores a respeito de temas como fetichismo e a complexidade das relações homem/mulher - mas jamais esquecendo as ferramentas do cinema (edição, fotografia), Polanski brinda o espectador com um brilhante exercício artístico, que sublinha o melhor de cada linguagem e as reapresenta em forma de um novo e excitante tabuleiro, onde cada nova cena ilumina um novo lado da personalidade - do texto, da direção e dos personagens, que se multiplicam conforme a narrativa vai se tornando mais e mais sinuosa. Para sua sorte, conta com dois atores excepcionais nas reviravoltas dramáticas e que seguram com extrema habilidade cada nuance proposta pelo roteiro. Elegante, fascinante e inteligente, "A pele de Vênus" é o melhor que um teatro filmado pode ser.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

STRAPPED (Strapped, 2010, AltarBoy Productions, 95min) Direção e roteiro: Joseph Graham. Fotografia: Matthew Boyd. Montagem: Sharon Franklin. Música: Inu, Windows to Sky. Direção de arte/cenários: Will King/Andrew Colon. Produção executiva: Derek Curl, Raymond Murray. Produção: Joseph Graham, William D. Parker. Elenco: Ben Bonenfant, Nick Frangione, Artem Mishin, Carlo D'Amore, Michael Klinger, Raphael Baker. Estreia: 17/7/10

Quando se tem ambições comerciais amplas, filmes de temática homossexual seguem padrões não muito ousados: ou apelam para versões gays de histórias de amor trágicas ou optam por produções mais politizadas, com a intenção de conscientizar o público sobre os problemas da comunidade. Foi assim com o ótimo "Milk: a voz da igualdade" (2008), que, dirigido por Gus Van Sant, deu o segundo Oscar de melhor ator a Sean Penn e ainda levou a estatueta de roteiro original ao contar a história de Harvey Milk, político homossexual que levantou a bandeira dos direitos gays, lutou contra o ódio dos fundamentalistas mais fervorosos dos EUA e acabou assassinado. Deixando de lado o talento de todos os envolvidos no filme e sua grande qualidade como cinema, porém, seu sucesso muito se deveu à força do dinheiro envolvido, nos nomes fortes do elenco e da produção e de um generoso empurrão da crítica. Produções independentes, baratas, sem nomes conhecidos no elenco e sem a máquina dos grandes estúdios normalmente passam em branco junto às plateias, ficando relegadas a seu público-alvo ou a poucos curiosos desprovidos de preconceito. Foi o que aconteceu com "Strapped", que não ganhou nem mesmo título em português, nunca estreou oficialmente no Brasil e mesmo assim conquistou fãs com sua honestidade e inteligência ao retratar, com um roteiro repleto de metáforas, a rotina de um garoto de programa que, descobre, mesmo sem querer, que tem muitos sentimentos escondidos por trás de sua fachada de autossuficiência.

Escrito e dirigido por Joseph Graham - especializado em produções de temática gay - e estrelado por um elenco de atores desconhecidos que dão plena conta do recado, "Strapped" é praticamente um conto surreal, que mistura um erotismo sutil (mas por vezes bastante sexy) com momentos de quase sentimentalismo. O mérito é, em boa parte, do roteiro, que consegue a façanha de ficar à beira do didático ao explorar inúmeros tipos que constroem a diversidade do universo que se propõe a iluminar, mas consegue escapar dos estereótipos e dos exageros que normalmente povoam o gênero. Graham consegue, de maneira fluente e com ritmo admirável, conduzir sua narrativa de forma a envolver a plateia e fazer com que ela acompanhe seu protagonista sem nome (ou, dependendo do ponto de vista, com vários nomes diferentes) em sua involuntária jornada de autodescobrimento com prazer e interesse. Para isso, muito ajuda a presença de Ben Bonenfant, um ator longe de ser brilhante ou dono de uma beleza avassaladora, mas que tem carisma e um ar de ingenuidade que serve perfeitamente ao personagem e o aproxima da audiência com extrema facilidade. Mesmo que o texto não aprofunde o bastante o histórico do protagonista - que veste um personagem diferente para cada cliente que se apresenta - o filme seduz o espectador pela despretensão e pelo tom realista/fantástico que imprime em cada sequência.


"Strapped" já começa em plena ação com o protagonista visitando John (Artem Mishin), um russo casado que, aproveitando-se de uma viagem da esposa, o chama para momentos de sexo casual e acaba desabafando com ele, contando sobre uma experiência de sua adolescência, quando se apaixonou perdidamente por um colega e viu o preconceito de perto, através dos olhos da própria família. Programa encerrado, o rapaz se vê perdido em um prédio cuja saída parece inalcançável e dá de cara com Leon (Carlo D'Amore), que o reconhece de programas anteriores e o leva para seu apartamento, onde ele dá de cara com uma festa particular regada a álcool e drogas - e com dois convidados muito especiais, entre os quais um jovem e tímido escritor Gary (Nick Frangione), que se encanta por sua sensualidade quase desajeitada. Em seguida, ele topa com David (Michael Klinger), também casado, que, a pretexto de ajudá-lo a sair do edifício, se esgueira com o rapaz para a lavanderia, onde revela seu desejo secreto por homens: o encontro acaba mal, e o jovem prostituto é amparado por Sam (Paul Gerrior), um homem de meia-idade que se revela uma pessoa solitária e com experiências de vida absolutamente fascinantes. É quando já está quase amanhecendo que o seguro e cobiçado michê descobre, da forma mais surpreendente possível, que dentro do "prédio mais gay da rua mais gay da cidade" pode estar sua chance de encontrar o amor.

Utilizando sem medo a metáfora do prédio sem saída como um retrato da encruzilhada existencial de seu protagonista, "Strapped" felizmente não se mantém como um filme de uma ideia só. Ao apresentar diversos tipos de homossexuais, ele quebra as barreiras de estereótipos e mostra ao público momentos de grande humanização de todos eles, desde o russo que nunca esqueceu o primeiro amor até o homem de meia-idade sedento por um abraço e uma boa conversa. Sem deixar de lado o aspecto mais festivo do mundo gay (com direito a cocaína, álcool e stripteases), Joseph Graham busca principalmente mostrar a comunidade homossexual masculina com todos os seus problemas e algumas eventuais alegrias. Até soa um tanto melancólico em boa parte do tempo, mas tal opção cabe perfeitamente em seu objetivo de tirar da prostituição masculina o glamour que muitos filmes acabaram por emprestar. Ainda que o protagonista não esteja exatamente desgostoso com sua profissão, o roteiro deixa claro sua solidão, os perigos que ele corre e até mesmo a falta de vínculos que o impede de encontrar o amor e o carinho não remunerados. O final feliz que finalmente consegue vislumbrar - depois de uma bela sequência romântico/erótica - é realista ao mesmo tempo em que flerta com o romantismo mais assumido. Essa surpresa final (essa ruptura com o quase pessimismo anterior) é que faz de "Strapped" um filme acima da média, apesar de alguns problemas decorrentes do perceptível orçamento baixo. É um filme que merece ser descoberto e admirado, não apenas por seu público-alvo mas por todos aqueles que admiram produções que falam sobre pessoas - seus medos, inseguranças e pequenas felicidades. Uma pequena pérola do cinema LGBT.




terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

O SONO DA MORTE

O SONO DA MORTE (Before I wake, 2015, Relativity Media, 97min) Direção: Mike Flanagan. Roteiro: Mike Flanagan, Jeff Howard. Fotografia: Michael Fimognari. Montagem: Mike Flanagan. Música: Danny Elfman, The Newton Brothers. Figurino: Lynn Falconer. Direção de arte/cenários: Patricio M. Farrell/Tim Pope. Produção executiva: Mali Elfman, David S. Greathouse, Lew Horwitz, Michael Ilitch Jr., Dale Armin Johnson, D. Scott Lumpkin, Julie B. May, Glenn Murray. Produção: Sam Englebardt, William D. Johnson, Trevor Macy. Elenco: Kate Bosworth, Thomas Jane, Jacob Tremblay, Annabeth Gish. Estreia: 07/4/16

Coisas do destino: se o filme "O sono da morte" tivesse sido lançado na data prevista, em setembro de 2015, um de seus maiores trunfos provavelmente teria passado batido. No entanto, sua produtora, a Relativity Media, declarou falência antes de sua estreia e deixou-lhe em um limbo de onde sairia apenas em 2016, quando foi comprado e distribuído internacionalmente pela Netflix. De uma certa forma, foi um percalço providencial: quando finalmente a produção de Mike Flanagan viu a luz do dia, seu ator-mirim, Jacob Tremblay, já era uma pequena grande estrela graças à "O quarto de Jack", que virou queridinho da crítica e deu a Brie Larson o Oscar de melhor atriz. Assim como na dramática história de mãe e filho presos em um cativeiro durante anos, o suspense de Flanagan tem na diminuta figura de Tremblay seu maior destaque: em uma trama que foge do terror fácil, o garotinho dá mais um show, oferecendo consistência dramática e sensibilidade à uma história que mistura tensão, fantasia e sobrenatural sem nunca definir-se completamente por nenhum dos gêneros com que flerta. Apesar dessa indecisão (ou talvez até por causa da ousadia de tal proposta), "O sono da morte" acaba por ser o melhor filme do diretor que, no mesmo ano de 2016, lançou outros duas produções de terror: "Hush: a morte ouve" e "Ouija: origem do mal".

Assim como o australiano "O Babadook", de 2014, usava um monstro assustador como metáfora para a depressão, em "O sono da morte" o diretor Flanagan (também coautor do roteiro e editor) também explora sentimentos de tristeza e solidão para narrar o encontro entre um casal em luto pela morte do filho pequeno e um menino órfão que tem problemas para encontrar novos pais graças a um estranho dom (ou maldição) que o impede de levar uma infância normal. Os pais, Jessie e Mark, são interpretados por Kate Bosworth e Thomas Jane, em atuações apenas corretas. Inconsoláveis com a morte do filho ainda criança, eles decidem amainar a dor através da adoção de Cody (um trabalho impecável de Jacob Tremblay, já mostrando o potencial que o mundo conheceria em seu filme seguinte). Órfão e traumatizado por uma série de lares que acabaram por não efetivar sua adoção, o menino de oito anos é recebido com carinho e atenção, mas não demora para que estranhos acontecimentos abalem a estrutura de seu novo lar: o que começa com a aparição inesperada de belas borboletas coloridas e a surpreendentes visitas do falecido filho torna-se, aos poucos, uma espécie de pesadelo vívido. E não é apenas impressão, já que Cody tem o poder de transformar todos os seus sonhos em realidade - inclusive a constante aparição de um monstro que se recusa a abandonar o garoto.


O mais interessante no roteiro de Flanagan é a sua opção por inserir elementos de terror em uma história repleta de dor e melancolia, tornando-os ferramentas narrativas dúbias ao espectador escolado no gênero. Mesmo que a aparição do monstro que atormenta Cody não acrescente nenhuma novidade aos filmes de terror que são lançados a granel, sua função na trama foge do óbvio ao não limitar-se apenas a provocar sustos. O "Homem-Cancro" que aterroriza o menino e o faz desesperadamente evitar noites de sono tem um alcance psicológico muito maior do que se poderia esperar em um filme de suspense, mas isso não o impede de, como bom vilão, ameaçar a paz dos personagens em sequências desenhadas com louvável cuidado pela fotografia discreta e pela trilha sonora eficiente em sublinhar cada sentimento da aflita família. São nos momentos de maior pavor que o pequeno Jacob Tremblay mostra a que veio, lembrando, com uma atuação segura e surpreendente, a impressionante presença de Haley Joel Osment em "O sexto sentido" (1999). Diante dele, Kate Bosworth e Thomas Jane - não exatamente grandes atores - empalidecem, mas felizmente não deixam escapar o tom, entregando interpretações consistentes mesmo quando a trama parece estar a um passo do inverossímil.

Vendido erroneamente como um filme de terror comum, "O sono da morte" pode pegar o espectador de surpresa: na verdade, é um drama familiar denso e angustiante, que se aproveita dos clichês de um gênero pouco afeito a ousadias para fazer pensar e emocionar. Essa ambiguidade é, ao mesmo tempo, uma de suas maiores qualidades e um de seus maiores defeitos: ainda que acrescente camadas mais inteligentes a um estilo normalmente rígido em suas regras, pode afastar os fãs mais radicais. No fim das contas, vale a pena conferir nem que seja para perceber que o pequeno Tremblay não brilhou em "O quarto de Jack" apenas por sorte: ele é realmente um espanto de ator.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

HEDWIG: ROCK, AMOR E CONFUSÃO (Hedwig and the Angry Inch, 2001, New Line Cinema, 95min) Direção: John Cameron Mitchell. Roteiro: John Cameron Mitchell, romance de John Cameron Mitchell, Stephen Trask. Fotografia: Frank G. DeMarco. Montagem: Andrew Marcus. Música: Stephen Trask. Figurino: Arianne Phillips. Direção de arte/cenários: Therese DePrez/Liesl Deslauriers. Produção executiva: Michael De Luca, Amy Henkels, Mark Tusk. Produção: Pamela Koffler, Katie Roumel, Christine Vachon. Elenco: John Cameron Mitchell, Michael Pitt, Miriam Shor, Stephen Trask, Theodore Liscinski, Alberta Watson, Maurice Dean Wint. Estreia: 19/01/01 (Festival de Sundance)

Energético, criativo, ousado. É difícil não chegar ao final de uma sessão de "Hedwig: rock, amor e confusão" - um subtítulo desnecessário e bobo, diga-se de passagem - sem que esses três adjetivos não estejam saltitando na mente do espectador. Uma mistura anárquica e debochada de comédia, drama e musical com fortes cores homossexuais, o filme de estreia de John Cameron Mitchell é também uma tour de force que revelou no diretor então iniciante uma capacidade ímpar de surpreender em vários campos de seu ofício: além de comandar o espetáculo e ter escrito o roteiro (adaptado de uma peça teatral de sua autoria), Mitchell também reservou para si o papel principal da produção, em uma decisão ao mesmo tempo corajosa (o mercado para filmes de temática gay nunca foi exatamente grande em Hollywood ou no mundo, especialmente quando eles não tem um grande astro como chamariz) e acertada (sem um grande nome na liderança do elenco, a liberdade criativa estava assegurada). O resultado veio na aclamação da crítica, na profusão de prêmios e homenagens de diversos festivais internacionais e em uma merecida indicação ao Golden Globe de melhor ator em comédia/musical. Melhor que tudo isso, porém, foi a aceitação popular: em pouco tempo, "Hedwig" tornou-se cult por excelência e credenciou seu criador a partir para experiências ainda mais radicais ("Shortbus", de 2006) ou comportadas ("Reencontrando a felicidade", de 2010, que deu à Nicole Kidman uma indicação ao Oscar de melhor atriz).

Nascido no palcos - onde marcou presença desde 1998, quando mesmo sendo uma produção off-Broadway saiu da temporada com prêmios bastante importantes do teatro norte-americano - e muito bem-recebido no cinema, Hedwig é um personagem dos mais exóticos e encontrou em seu criador o intérprete perfeito. Sem medo do ridículo ou do exagero de determinadas situações, Mitchell encarna com segurança e determinação tanto o drama quanto a comédia que existem na trajetória do protagonista, conduzindo a narrativa com um misto de gêneros que, em mãos menos capazes, poderia facilmente tornar-se dispersivo. Inserindo números musicais na narração da trajetória de Hedwig desde sua infância até a vida adulta e ilustrando-os com animações criativas e irreverentes, o cineasta/roteirista convida a plateia a mergulhar em um universo à parte, recheado de personagens excêntricos e/ou idiossincráticos e sequências que, a despeito da seriedade de seu conteúdo, nunca ultrapassam o tom de sarcasmo e ironia. No final das contas, a leveza de "Hedwig" acaba por ser seu maior trunfo.


Logo na primeira cena a plateia já é apresentada a tudo que virá pela frente: com um figurino inspirado no glam rock dos anos 70, Hedwig é a vocalista de uma banda que tenta lutar contra a indiferença de uma audiência formada pelos frequentadores ocasionais de um restaurante. É pouco para seu talento, principalmente quando ela começa a contar sua trajetória até ali e se descobre que ela é a responsável pelo sucesso de Tommy Gnosis (Michael Pitt), um ídolo pop de fama internacional que só está no topo do sucesso graças às músicas que ela compôs quando ambos estavam juntos. Recheando sua narrativa com sarcasmo e deboche, Hedwig viaja à Alemanha de infância um tanto traumática, à juventude de descobertas sexuais (e um bizarro casamento com um militar, que resultou em uma cirurgia de sexo incompleta que lhe inspirou a batizar seu grupo musical de "Angry Inch" - a polegada irada) e suas desventuras amorosas e artísticas. Recusando-se terminantemente a apelar para qualquer espécie de sentimentalismo ou autopiedade, Hedwig frequentemente ri da própria desgraça e disfarça sua dor com canções que vão da melancolia à mais pura gozação. Com uma performance vocal arrebatadora somada a seus méritos como ator, Mitchell constrói um personagem-título inspiradíssimo, que desperta no público um misto de compaixão e admiração, mesmo que em determinados momentos sua garra em mostrar-se forte e resiliente impeça o espectador de conectar-se emocionalmente a ele. É somente quando sua máscara de altivez desaparece e um ser humano surge sob ela que o filme se torna mais fascinante e palpável. Uma pena que isso ocorra tão raramente.

"Hedwig: rock, amor e traição" é um filme de concepção anárquica e sagaz, quase uma desconstrução dos musicais típicos de Hollywood. É muito mais "Velvet goldmine" (98), de Todd Haynes, do que qualquer produção com Fred Astaire ou Judy Garland. É devasso, ousado, quase ultrajante em seu modo de ver e transmitir temas delicados, mas paradoxalmente é dono de uma pureza quase comovente. É como se John Cameron Mitchell fizesse de seu protagonista um anti-herói dotado de uma ingenuidade maleável, que se adequa através da ironia a um mundo de decepções e libertinagem. Não tenta arrancar compaixão do público, quer apenas fazê-lo rir e divertir-se por uma hora e meia de boa música e transgressão. É bem-sucedido em boa parte do tempo - é impossível não admirar-se com a variedade de talentos de seu criador - mas corre o risco de aborrecer àqueles que, de certa forma, não pertencem a seu público-alvo. Os mais conservadores devem ficar à distância do filme de Mitchell na mesma medida em que todos aqueles que procuram o cinema para romper com os padrões estéticos e/ou sociais devem fazer dele um programa obrigatório. Basta decidir em qual time se encaixar e esperar por 95 minutos de diversão - ou procurar um entretenimento mais careta.