sexta-feira

A GRANDE JOGADA

 


A GRANDE JOGADA (Molly's game, 2017, STX Entertainment/The Mark Gordon Company, 140min) Direção: Aaron Sorkin. Roteiro: Aaron Sorkin, livro de Molly Bloom. Fotografia: Charlotte Brus Christensen. Montagem: Alan Baumgarten, Elliot Graham, Josh Schaeffer. Música: Daniel Pemberton. Figurino: Susan Lyall. Direção de arte/cenários: David Wasco/Patricia Larman, Sandy Reynolds-Wasco. Produção executiva: Oren Aviv, Felice Bee, Stuart M. Besser, Adam Fogelson, Leopoldo Goult, Robert Simonds, Donald Tang, Wang Zhongjun, Wang Zhonglei. Produção: Mark Gordon, Matt Jackson, Amy Pascal. Elenco: Jessica Chastain, Idris Elba, Kevin Costner, Michael Cera, Jeremy Strong, Chris O'Dowd, Graham Greene. Estreia: 08/9/2017 (Festival de Toronto)

Indicado ao Oscar de roteiro adaptado

           Conhecido como um premiado dramaturgo e roteirista (vencedor do Oscar por "A rede social" e sempre lembrado por associações de críticos por seus trabalhos no cinema e na televisão), Aaron Sorkin até que demorou para estrear na direção. De seu primeiro script (a adaptação de sua própria peça teatral "Questão de honra", estrelado por Tom Cruise e Jack Nicholson em 1992) até "A grande jogada", seu primeiro filme como cineasta, se passaram 25 anos - e nesse meio-tempo ele acrescentou outras láureas a seu currículo, graças a produções como "O homem que mudou o jogo" (2011) e "Steve Jobs" (2015). Com tal histórico, não é de surpreender que Sorkin tenha escolhido a dedo o material para seu primeiro longa-metragem. "A grande jogada" é tudo que se pode esperar de um filme comandado pelo roteirista/diretor: inteligente, ágil e com personagens complexos, defendidos por um elenco coeso, no qual se destaca a sensacional Jessica Chastain.

Chastain, uma atriz superlativa que valoriza cada filme, por mais medíocre que seja, encontrou em Molly Bloom, a protagonista de "A grande jogada", um papel que toda grande intérprete sonha: cheia de camadas e dona de uma história interessante o bastante para prescindir de qualquer muleta (leia-se romances desnecessários, doenças redentoras, e tudo mais que os roteiristas criam para oferecer momentos dramáticos que justifiquem indicações ao Oscar e afins). Por esse motivo, é inacreditável que a Academia tenha ignorado seu impecável trabalho e a deixado de fora inclusive do páreo na categoria. Sem deixar de lado a beleza e o glamour de sua atriz central, Sorkin oferece à Chastain possibilidades ilimitadas - e a atriz tira todas de letra, dona absoluta do filme e de sua personagem. Molly Bloom - o mesmo nome da personagem criada por James Joyce em "Ulisses" - é uma mulher que não pede desculpas e tenta (nem sempre com sucesso) manipular o próprio destino. Logo, está fadada a enfrentar as consequências de desafiar um mundo feito por e para os homens. Sim, "A grande jogada" é, de uma certa forma, um filme feminista.


Não, não há nada de panfletário em "A grande jogada". O que faz dele um filme feminista é o fato de ter como protagonista uma mulher corajosa e que não baixa a cabeça diante dos homens que tentam mandar no jogo. Se seu advogado - vivido pelo ótimo Idris Elba - é quem vai tentar salvar sua pele, ele o faz de acordo com suas diretrizes, que incluem manter a ética profissional mesmo quando corre o risco de parar na cadeira. Molly Bloom não pede desculpas pelo que é - e essa força, que nem mesmo sua derrocada consegue apagar completamente. Atleta frustrada (com uma carreira de esquiadora interrompida por um acidente) e com sérios problemas de relacionamento com o pai (Kevin Costner) - um homem exigente e pouco dado a carinhos -, Molly descobre, quase acidentalmente, o submundo do pôquer, e, depois de um tempo como coadjuvante de uma série de jogos, decide tornar-se a coordenadora de grupos milionários de celebridades e empresários. Competente e discreta, ela se torna uma conhecida e respeitada gerente de jogos - até que se envolve, sem querer, com a perigosa máfia russa, o que a coloca na mira do FBI.

Contado através de flashbacks, através das conversas de Molly com seu advogado, Charlie Jaffey (Idris Elba), "A grande jogada" usa e abusa de artifícios visuais para seduzir o público, e para isso, conta com a edição inteligente e diálogos afiados, com certa dose de ironia e personagens bastante interessantes. Do início, com Molly explicando sua trajetória de aspirante a atleta olímpica a gerente de noitadas milionárias de pôquer, até o final, quando ela se vê obrigada a pagar por seus erros de estratégia, o filme de Sorkin apresenta ao espectador jogadores dos mais variados níveis de vício - inclusive um ator de cinema (interpretado por Michael Cera) que, segundo consta, era Tobey Maguire, que levava seu amigo Leonardo DiCaprio para noites de jogatina que enriqueciam - e muito - a renda da protagonista. E se o tom da produção vai ficando cada vez mais sombrio conforme Molly vai se encrencado com a máfia russa sem saber, melhor ainda o filme vai se tornando, demonstrando o domíno do roteirista transformado em cineasta. Se em seu primeiro filme ele já demonstra tal segurança, é de se imaginar como será sua próxima incursão na cadeira de diretor. "A grande jogada" é um filme de enormes qualidades, um entretenimento adulto de alto gabarito que merece ser descoberto e aplaudido.

HAIR


HAIR (Hair, 1979, United Artists, 121min) Direção: Milos Forman. Roteiro: Michael Weller, peça musical de Gerome Ragni, James Rado. Fotografia: Richard Kratina, Miroslav Ondricek, Jean Talvin. Música: Galt MacDermot. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Stuart Wurtzel/George DeTita. Produção: Michael Butler, Lester Perksy. Elenco: John Savage, Treat Williams, Beverly D'Angelo, Annie Golden, Dorsey Wrigth. Estreia: 14/5/79

De sua estreia nos palcos off-Broadway, em outubro de 1967, até o lançamento de sua adaptação para o cinema, em maio de 1979, o musical "Hair" passou, de celebração da contracultura e do movimento hippie, a um espetáculo nostálgico que servia mais como lembrança de um período histórico relativamente recente do que como uma obra transgressora sobre um estilo de vida alternativo. Montado em diversos países, incluindo o Brasil, "Hair" até esteve na mira de Hollywood em seus primeiros anos em cartaz - George Lucas chegou a ser convidado para dirigir uma versão, mas preferiu dedicar-se a "Loucuras de verão" (1973) -, mas demorou até que realmente encontrasse um caminho para as telas. E quando o fez, desagradou profundamente seus autores, Gerome Ragni e James Rado. Com uma trama diferente do original, canções apresentadas fora da ordem estabelecida pela peça e personagens com personalidades alteradas pelo roteiro de Michael Weller, "Hair" ficou quase irreconhecível como filme - e isso que o diretor Milos Forman já sonhava com sua adaptação para o cinema desde os primeiros meses de sua exibição nos teatros.

Primeiro filme de Forman desde a chuva de Oscar para seu "Um estranho no ninho" (1975), "Hair" não chegou a ser um sucesso de bilheteria, mas agradou à crítica, a chegou a ser indicado ao Golden Globe de melhor comédia/musical. Forman, fã do original - que estava tentando montar em sua terra natal , Prag,  quando a Rússia invadiu a Tchecoslováquia - assumiu as rédeas do projeto com que sonhava desde que assistiu à montagem antes da Broadway, e fez o severo crítico Roger Ebert compará-lo favoravelmente ao clássico "Amor, sublime amor" (1960). Segundo Ebert, a versão do espetáculo conseguia ressuscitar os musicais da mesma forma que o filme de Jerome Robbins e Robert Wise. Boa parte da responsabilidade do entusiasmo da imprensa deve ser creditada à trilha sonora de Galt MacDermot, que inclui a antológica "Age of Aquarius", que abre o filme e imediatamente mergulha o espectador em um universo em que hippies e pacifistas convivem - nem sempre tranquilamente - com uma sociedade que envia seus filhos à guerra do Vietnã enquanto organizam jantares sofisticados e cheios de normas de etiqueta: não à toa, um dos momentos-chave do filme acontece em uma dessas reuniões, quando um dos protagonistas, George (Treat Williams) lidera uma invasão que choca os "cidadãos de bem" e seduz a elegante Sheila (Beverly D'Angelo) para seu grupo de manifestantes contra o sistema.

A trama de "Hair" - ao menos em sua versão cinematográfica - apresenta dois protagonistas de personalidades opostas que acabam por ter seus destinos misturados durante o efervescente período em que os EUA estão em um momento crítico de luta pelos direitos civis e no auge da famigerada guerra no Vietnã. Vindo de Oklahoma e alistado no exército está Claude Bukowski (John Savage). Liderando um grupo de hippies que transitam por Nova York está George Berger (Treat Williams). Aparentemente incompatíveis, os dois rapazes se tornam amigos e o ingênuo Claude conta com a ajuda dos novos companheiros para encontrar um meio de conquistar a - à primeira vista - inalcançável Sheila Franklin (Beverly D'Angelo), por quem se apaixonou ao vê-la cavalgando no Central Park. Nesse meio-tempo, o inocente rapaz do interior passa a comungar com os ideais do grupo de George, jovem que pregam a liberdade e a paz a qualquer custo. Quando ele finalmente sai da cidade e junta-se a seus colegas soldados, a diferença entre os dois grupos fica ainda mais explícita - e o discurso anti-guerra de seus novos amigos torna-se ainda mais certeira.

 

Filme de abertura do Festival de Cannes 1979 - apresentado fora de competição -, "Hair" é um musical no sentido exato do termo. Seus números de música, com coreografias de Twyla Tharp, comentam a ação e empurram a trama adiante de forma orgânica, apesar da diferença da ordem em que eram apresentadas no original dos palcos. O roteiro de Michael Weller também enfatiza a divergência entre George e Claude ao transformar o segundo em um jovem do interior que entra na guerra como voluntário - e não o líder do grupo hippie que tenta evitar sua participação no conflito. A mudança na personalidade de Claude é, provavelmente, a mais inquietante do filme, e o que provocou a maior parte das críticas em relação à adaptação. É inegável, porém, que as artimanhas de Weller para conquistar a simpatia do público a seus personagens, funciona muito bem no filme. A transformação de Claude é crível, especialmente porque Milos Forman faz questão de retratar George e seus seguidores sob luzes bem mais simpáticas do que aquelas reservadas para os milionários que servem de vilões. Ok, é tudo um bocado maniqueísta, mas a ingenuidade da obra original também o era, e tal característica acaba por ser muito útil para a felicidade do produto final - mesmo que ele seja quase uma obra nova para quem assistiu à peça.

"Hair" é, ainda, o retrato de uma época cuja inocência caminhava lado a lado com a violência, e na qual a juventude ainda tinha ideais próprios para servir de munição para suas batalhas. A direção de Milos Forman - que, a julgar por "Um estranho no ninho", tinha sua dose de inconformismo - conduz a narrativa sem percalços e em determinados momentos chega a ser quase brilhante. O carisma dos dois atores centrais, Treat Williams e John Savage (que também estava no elenco de outro filme sobre o Vietnã, o premiado "O franco-atirador"), segura o interesse do espectador, e o final, dono de uma ironia comovente, fecha a história com chave de ouro. É de se imaginar, porém, como seria o filme se duas celebridades musicais tivessem sido aprovadas em seus testes: Madonna e Bruce Springsteen tentaram vagas no elenco e não há dúvidas de que suas presenças acrescentariam um motivo a mais para se conferir um dos musicais obrigatórios da história do cinema.

segunda-feira

A GAROTA DINAMARQUESA


A GAROTA DINAMARQUESA (The Danish girl, 2015, Working Title Films/Focus Features, 119min) Direção: Tom Hooper. Roteiro: Lucinda Coxon, livro de David Ebershoff. Fotografia: Danny Cohen. Montagem: Melanie Ann Oliver. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Paco Delgado. Direção de arte/cenários: Eve Stewart/Michael Standish, Thierry Van Cappelen. Produção executiva: Liza Chasin, Ulf Israel, Kathy Morgan, Linda Reisman. Produção: Tim Bevan, Anne Harrison, Tom Hooper, Gail Mutrux. Elenco: Eddie Redmayne, Alicia Vikander, Ben Whishaw, Mathias Schonaerts, Amber Head. Estreia: 05/9/15 (Festival de Veneza)


4 indicações ao Oscar: Ator (Eddie Redmayne), Atriz Coadjuvante (Alicia Vikander), Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Alicia Vikander) 

Praticamente um século antes que discussões a respeito de gênero se tornassem corriqueiras - e que a palavra "transsexual" passasse a fazer parte do vocabulário comum, um artista de Copenhague ousou desafiar as regras e buscar sua realização pessoal mesmo diante de uma sociedade para quem qualquer diferença era o mesmo que um crime. Mesmo não tendo sido a primeira pessoa transgênero da história - e tampouco a primeira a passar por uma cirurgia -, Einar Wegener foi um dos pioneiros na questão e inspirou o livro "The danish girl", de David Ebershoff, que contou, de forma ficcionalizada, sua trajetória rumo à transformação física. Ao alterar elementos cruciais da vida de sua protagonista, o autor contou com mais liberdade criativa - e foi seu livro, mais do que a história real, a inspiração para "A garota dinamarquesa", sua adaptação para o cinema, comandada por Tom Hooper - o mesmo cineasta injustamente premiado com o Oscar por "O discurso do rei" (2010) e que assassinou a versão musical de "Os miseráveis" (2012), que premiou Anne Hathaway como a melhor atriz coadjuvante do ano. Seu terceiro filme, porém, para alívio de todos, é bem superior a suas duas obras anteriores - e, em uma prova de que nem sempre a Academia é coerente, seu filme com menos indicações à estatueta dourada: concorreu a quatro, inclusive melhor ator (Eddie Redmayne), mas ficou de fora da lista dos candidatos a melhor filme.

A batalha para transformar "A garota dinamarquesa" em filme começou quando Nicole Kidman, uma atriz de grande prestígio e já bastante respeitada pela crítica e pela indústria, se apaixonou pelo roteiro. Disposta a produzir, estrelar e até dirigir o filme caso fosse necessário, Kidman pensava em viver a protagonista, com alguma outra grande estrela no papel de Gerda, a esposa de Einar - que, na versão romantizada da história, ficava a seu lado incondicionalmente. Durante o tempo em que o projeto esteve nas mãos de Kidman, atrizes de primeira linha se revezavam ao lado da estrela de "Moulin Rouge: o amor em vermelho" (2001): Charlize Theron, Gwyneth Paltrow, Uma Thurman, Marion Cottilard e Rachel Weisz estiveram, em maior ou menor grau, comprometidas com a produção. As dificuldades, no entanto, fizeram com que Kidman abrisse mão de seus planos, e o roteiro, que Hooper já havia lido em 2008, finalmente encontrou um caminho para as telas quando, em 2012, o cineasta ofereceu o papel principal para Eddie Redmayne, com quem trabalhava em "Os miseráveis". Redmayne, subitamente alçado à condição de astro graças a seu Oscar de melhor ator por seu desempenho como o físico Stephen Hawking em "A teoria de tudo" (2014), assumiu a protagonização do filme ao lado da ascendente Alicia Vikander. Juntos, eles são o corpo e a alma de "A garota dinamarquesa", dois atores cujo trabalho deixam os pequenos defeitos ainda menores.


A trama de "A garota dinamarquesa" se passa na década de 1920 e começa em Copenhagen, onde vive o casal de artistas Einar e Gerda Weigener. Buscando reconhecimento a seu trabalho, frequentam o mundo artístico da cidade enquanto lidam com a frustração de não conseguirem ter um filho. Einar ainda tem um certo sucesso entre os críticos, e, na tentativa de ajudar a esposa com seus retratos, aceita substituir sua modelo e posar para uma tela. Vestido de mulher, o jovem sente que seu espírito é, na verdade, feminino. Assumindo uma nova personalidade chamada Lili, ele conta com o apoio de Gerda para fazer a transição de gênero e buscar auxílio médico para tal, mesmo que tal condição ainda fosse nova até mesmo para a medicina - que em muitos casos julga tratar-se de um problema psicológico.  Nessa trajetória, o casal se muda para a França e conta também com a ajuda de Hans (Mathias Schonaerts), amigo de infância de Einar, e Henrik (Ben Whishaw), que sente uma grande atração por Lili. Parte do universo artístico da Dinamarca, Einar/Lili e Gerda ousam desafiar a sociedade e lutar por sua verdade.

O roteiro de Lucinda Coxon - assim como o livro no qual foi inspirado - alterou substancialmente a verdadeira história de Einar e Gerda, ocultando principalmente a homossexualidade de Gerda, que, segundo consta, preferia o lado feminino do marido e que, depois da anulação do casamento, afastou-se dele e passou a viver em Paris, assumindo sua condição de lésbica. O romance - e consequentemente o roteiro - também inventou os personagens Hans e Henrik, assim como simplificou o tratamento físico de Einar, cujo destino no filme é ligeiramente diferente da história original. Tais liberdades artísticas não prejudicam o resultado final - exceto, é claro, se o espectador esperar uma cinebiografia convencional. Tom Hooper - que deixou para trás outros cineastas de renome, como Neil Labute e Lasse Halstrom - acerta em deixar o trabalho mais árduo para seus atores, e possibilita tanto a Redmayne quanto Vikander (premiada com o Oscar de atriz coadjuvante ainda que seja tão protagonista quanto seu parceiro de cena) apresentarem interpretações sutis e emocionantes. Logicamente houve polêmica na escolha de Redmayne, um ator cisgênero, para o papel central, mas a equipe de produção, como uma espécie de redenção, contou, segundo Hooper, com 40 transgêneros, a maioria como extras. Mas, controvérsias à parte, "A garota dinamarquesa" é um filme que homenageia seu protagonista e sua batalha com um olhar sensível e sério, sem apelar para qualquer tipo de humor ou julgamento. Redmayne está perfeito - ainda melhor do que em "A teoria de tudo" - e Alicia Vikander justifica sua estatueta com uma atuação profundamente comovente. A direção de Hooper não atrapalha - como o fez em seus primeiros filmes - e a reconstituição de época é preciosa, refletindo nos cenários e figurinos (também indicados ao Oscar) tanto o espírito dos personagens quanto seu universo artístico. "A garota dinamarquesa" é um filme importante e, a despeito de sua opção em seguir as regras de Hollywood e deixar a sexualidade de lado, uma produção bastante corajosa.

quinta-feira

FLORES RARAS

FLORES RARAS (Flores raras, 2013, LC Barreto Productions/Globo Filmes, 118min) Direção: Bruno Barreto. Roteiro: Matthew Chapman, Julie Sayres, livro "Flores raras e banalíssimas", de Carmem L. Oliveira, roteiro de Carolina Kotscho. Fotografia: Mauro Pinheiro Jr.. Montagem: Letícia Giffoni. Música: Marcelo Zarvos. Figurino: Marcelo Pies. Direção de arte/cenários: José Joaquim Salles/Clara Rocha. Produção executiva: Rômulo Marinho Jr., Penny Wolf. Produção: Lucy Barreto, Paula Barreto. Elenco: Glória Pires, Miranda Otto, Tracy Middendorf, Marcelo Airoldi, Treat Williams. Estreia: 09/02/2013 (Festival de Berlim)

Em dezembro de 1951, em meio a um bloqueio criativo, a poetista norte-americana Elizabeth Bishop aportou no Brasil, disposta a uma curta temporada para rever uma amiga de faculdade. Seus planos de ficar pouco tempo no país foram alterados graças a uma internação hospitalar - era alérgica a castanhas de caju - e à paixão avassaladora justamente pela companheira de sua colega. Lota Macedo de Soares, uma bem-sucedida arquiteta, encantada pela fragilidade de Bishop - que contrastava com sua personalidade forte e decidida -, não pensou duas vezes antes de assumir sua nova parceira. Começava então uma história de amor que atravessaria, aos trancos e barrancos, mais de uma década, e testemunharia momentos de dor e glória nas trajetórias de ambas. Embora tenham vivido um período auspicioso profissionalmente - Bishop ganhou um Pulitzer e Lota criou o ambicioso projeto do Aterro do Flamengo -, nem tudo era felicidade nos bastidores. O alcoolismo da escritora e a tendência da arquiteta em dominar a relação (além de problemas relacionados a seu trabalho no Rio) transformaram o idílio dos primeiros anos em uma constante guerra de nervos - e levaram o relacionamento a um final doloroso. Contada no livro "Flores raras e banalíssimas", de Carmem L. de Oliveira, a história de Bishop e Lota serviu como complemento ideal à redescoberta da poetisa pelo público brasileiro, na década de 1990 - e desde então lutou para ser adaptada para o cinema.

O preconceito a respeito do tema "delicado" do projeto afastou possíveis financiadores de "Flores raras", e o processo de realização do filme - já normalmente ampliado quando se trata de produções brasileiras - estendeu-se por quase uma década. Nem o compromisso de Bruno Barreto - diretor de um dos maiores sucessos do cinema nacional, "Dona Flor e seus dois maridos", de 1976 - em assumir a direção e o interesse de Glória Pires em interpretar Lota foram argumentos fortes o bastante para facilitar a batalha das produtoras Lucy (mãe de Bruno) e Paula Barreto. Nesses oito anos entre o lançamento do livro e a estreia do filme, pode-se dizer que o projeto amadureceu. Quando chegou ao Festival de Berlim de 2013, "Flores raras" já tinha a elegância e a delicadeza que a história pedia, somadas à experiência de Bruno, dono de uma respeitável carreira internacional, iniciada no final dos anos 1980. Lançado para o público brasileiro em agosto do mesmo ano de sua apresentação na Alemanha, o filme agradou mais aos críticos do que à plateia média, mais afeita a comédias despretensiosas do que a romances homossexuais de mulheres na meia-idade. No entanto, apesar da relação entre Lota e Bishop ser o centro da trama, "Flores raras" caminha na direção oposta a histórias de amor lacrimosas quando opta - acertadamente - em explorar também o mundo que as rodeia, repleto de armadilhas profissionais que as afastam fisicamente e, ao mesmo tempo, as aproximam emocionalmente.


Foi durante o período em que Lota e Bishop estiveram juntas, por exemplo, que Carlos Lacerda foi eleito o primeiro governador do então Estado da Guanabara (em 1961) e deu à Lota a missão (absurdamente absorvente) de projetar o Aterro do Flamengo, fato que obrigou as duas mulheres a deixarem o idílio de Petrópolis pela agitação do Rio de Janeiro. Bishop não era fã da cidade, e enquanto Lota trabalhava quase sem folga, a poeta saía a beber em botequins - e ser, quase sempre, carregada para casa. Antes disso, em 1956, foi premiada com o Pulitzer, uma honra que deve a seus momentos no Brasil, quando finalmente retornou à criação de suas obras - e ganhou de presente da companheira um estúdio com vista para o verde de sua propriedade. Sua relação com o Brasil era dúbia: ao mesmo tempo em que amava o espírito nacional, não deixava de perceber as mazelas da sociedade, o que, logicamente, não a tornava exatamente popular entre os nativos. Seu romance com Lota também tinha altos e baixos: planejavam longas viagens que nunca fizeram e frequentemente se desentendiam, principalmente por causa dos ciúmes da arquiteta. Em uma dessas crises, a escritora aceitou o convite para lecionar por uma temporada nos EUA, uma forma de afastar-se terapeuticamente de Lota, severamente deprimida pelos problemas de seu trabalho no Aterro. Era o começo do fim. E elas certamente perceberam isso, apesar das tentativas de ignorarem tal destino.

O filme de Bruno Barreto é, sem dúvida, um recorte caprichado e bastante abrangente do relacionamento entre Lota e Bishop. Boa parte dos acontecimentos mais importantes de seu período como amantes está retratado no roteiro de Matthew Chapman e Julie Sayres, adaptado tanto do livro de Carmem L. de Oliveira quanto de um primeiro tratamento escrito por Carolina Kotscho, e a direção de Barreto é contemplativa, sem chamar a atenção para si. O que realmente dá suporte a "Flores raras" - assim como dava à relação entre as protagonistas - é a combinação entre a força de Glória Pires (premiada como melhor atriz no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, de onde a produção saiu também com as estatuetas de direção, figurino e direção de arte) e a fragilidade física de Miranda Otto, que empresta à Elizabeth Shop um misto de elegância e inteligência. A atriz australiana (conhecida por sua participação na trilogia "O Senhor dos Anéis" e na série de TV "Homeland") é o contraponto ideal ao desempenho (como sempre) sólido de Glória, que não permite que a barreira do idioma atrapalhe uma bela interpretação. Se "Flores raras" fosse um filme medíocre, somente a dupla de atrizes centrais já bastaria para que fosse altamente recomendável. Como absolutamente não o é, o encontro entre dois talentos à prova de qualquer crítica o torna imperdível para qualquer fã de bom cinema.

quarta-feira

FILHOS DA GUERRA

FILHOS DA GUERRA (Europa, Europa, 1990, Bayerischer Rundfunk/Filmforderungsantalt, 112min) Direção: Agnieszka Holland. Roteiro: Agnieszka Holland, livro de Salomon Perel. Fotografia: Jacek Petrycki. Montagem: Ewa Smal, Isabelle Lorente. Música: Zbigniew Priesner. Figurino: Wieslawa Starska, Malgorzata Stefaniek. Direção de arte/cenários: Allan Starski/Ewa Braun, Anna Kowarska. Produção: Artur Brauner, Margaret Ménégoz. Elenco: Marco Hofschneider, Julie Delpy, Hanns Zischler, André Wilms, Ashley Wanninger. Estreia: 14/11/90

Indicado ao Oscar de Roteiro Adaptado
Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme Estrangeiro 

Em algumas ocasiões, por mais qualidades que um filme tenha, são situações alheias a ela que acabam por ficar marcadas em sua trajetória. É o caso de "Filhos da guerra", uma produção alemã dirigida pela polonesa Agniezska Holland que enfrentou o descaso das autoridades germânicas em seu lançamento e acabou não apenas por tornar-se uma das maiores bilheterias de filmes internacionais nos EUA, mas também por arrebatar uma série de prêmios da crítica - incluindo o Golden Globe de melhor filme estrangeiro e uma indicação ao Oscar de roteiro adaptado. Elogiado por onde passou e com respeitáveis 3,5 milhões de dólares de renda no mercado norte-americano - normalmente hermético a filmes legendados -, "Filhos da guerra" volta seu olhar a uma inacreditável história real ocorrida em meio à II Guerra Mundial, e trata, com sensibilidade, a capacidade humana de adaptar-se a situações adversas quando confrontado com a possibilidade da morte.


Com base no livro autobiográfico de Salomon Perel, o roteiro, escrito pela diretora, atravessa o período entre 1938 e 1945, quando seu protagonista, ainda adolescente, se vê diante dos horrores da II Guerra Mundial. Filho de judeus poloneses, ele e seu irmão mais velho saem da Alemanha temendo os horrores do antissemitismo, mas acabam separados no caminho rumo à Rússia. Sozinho e torturado pelas lembranças da invasão de seu apartamento, Salomon é internado em um orfanato comunista, onde torna-se parte de uma doutrina que acredita que "religião é o ópio do povo". Em seguida, confundido com um nazista, aceita se passar por ariano e torna-se parte do exército, como intérprete. Sempre à beira do pânico de ser descoberto, Salomon esconde sua circuncisão a todo preço - mesmo quando é assediado por um superior e se apaixona por Leni (Julie Delpy), uma jovem alemã com quem ele evita intimidades sexuais.


Vencedor de melhor filme estrangeiro pelos críticos de Kansas, Los Angeles e Nova York e pelo National Board of Review (que também o incluiu em sua lista dos de melhores do ano), "Filhos da guerra" segue o caminho inverso da maioria dos filmes do gênero, ao concentrar-se mais nos bastidores do conflito entre judeus e nazistas do que às batalhas em si. Mesmo as cenas mais violentas acontecem sob o ponto de vista do protagonista, interpretado pelo competente (mas nunca excelente) Marco Hofschneider. O foco do roteiro de Holland são as relações de Salomon com as situações que se apresentam e a forma com que ele lida com elas: ao moldar-se a cada uma, o personagem vai perdendo a própria identidade, ainda que ela nunca seja esquecida. O filme se utiliza da circuncisão do jovem como ponto de retorno a suas origens, como algo que ele não consegue esconder sem muita dor e sofrimento - e que pode afastá-lo de uma vida plena e sincera. Suas tentativas de sobreviver à perseguição aos judeus são cercadas de paranoia, desconfiança e uma constante sensação de não pertencimento, tudo conduzido com extrema sensibilidade pela cineasta que se tornaria famosa pela direção de uma nova versão do clássico "O jardim secreto" (lançada em 1993) e pelo irregular "Eclipse de uma paixão" (1995), estrelado pelo então ascendente Leonardo DiCaprio.

É fácil compreender o sucesso de "Filhos da guerra", tanto em termos comerciais quanto de crítica. Além do assunto ser caro às plateias, a direção de Agnieszka Holland insiste em um registro universal, questionando até que ponto uma pessoa é capaz de ir para garantir a própria sobrevivência. Ainda que soe um tanto superficial em vários momentos - opção da diretora em deixar a violência apenas como pano de fundo -, o filme conquista principalmente devido à atuação de Hofschneider, cujo carisma compensa a inexperiência. Seu olhar desesperado quando posto diante de situações diz muito mais do que diálogos longos, e Holland explora ao máximo a sutileza, como que a sublinhar a delicadeza ainda viva dentro do rapaz mesmo depois de tanta desgraça. Seu final abrupto pode incomodar, mas no balanço final, "Filhos da guerra" é um filme de suma importância, apesar das palavras do governo alemão, que recusou-se a inscrevê-lo para uma disputa no Oscar porque "não representava mais a nação germânica". Haja visto o enorme êxito do filme junto aos críticos - e ao extremo interesse da Academia em seu fundo histórico - pode-se apenas lamentar a visão de pouco alcance das autoridades locais, que traduziu a pouca bilheteria do filme na Alemanha em rejeição absoluta. Sorte das plateias que desafiaram sua percepção e encontraram um filme delicado e emocionante.

terça-feira

BRINQUEDO ASSASSINO

BRINQUEDO ASSASSINO (Child's play, 1988, United Artists, 87min) Direção: Tom Holland. Roteiro: Don Mancini, Tom Holland, John Lafia, estória de Don Mancini. Fotografia: Bill Butler. Montagem: Roy E. Peterson, Edward Warschilka. Música: Joe Renzetti. Figurino: April Ferry. Direção de arte/cenários: Daniel A. Lomino/Cloudia. Produção executiva: Barrie M. Osborne. Produção: David Kirschner. Elenco: Chris Sarandon, Catherine Hicks, Alex Vincent, Brad Dourif, Dinah Manoff. Estreia: 09/11/88

Antes de tornar-se vítima de uma série sofrível de filmes que apelavam para o humor trash, o boneco Chucky teve seus momentos de glória: sua estreia nas telas, "Brinquedo assassino", que custou menos de dez milhões de dólares, rendeu quatro vezes isso pelo mundo e o transformou, de imediato, um ícone do cinema de terror. Concebido como uma crítica ao consumismo infantil e ao marketing direcionado às crianças, o filme logo transformou-se em um violento conto sobrenatural, protagonizado por um boneco homicida e seu dono, um menino solitário que precisa provar aos adultos que sua imaginação infantil não chegaria ao ponto de inventar uma história tão bizarra - enquanto corpos vão sendo acumulados pelo caminho. Dirigido por Tom Holland, experiente cineasta que já havia conquistado os fãs do gênero com "A hora do espanto" (1985), "Brinquedo assassino" pode não ter chegado às telas da forma como inicialmente imaginado - mais um suspense psicológico do que um filme de terror despretensioso -, mas conquistou o público justamente por buscar o susto mais simples ao invés da sofisticação dramática. Não à toa, Chucky já faz parte do panteão reservado a nomes célebres como Leatherface, Freddy Krueger e Jason Vorhees.

A trama de "Brinquedo assassino" é simples como convém: durante uma perseguição policial, o homicida Charles Lee Ray - assim batizado em "homenagem" a criminosos famosos, como Charles Manson, Lee Harvey Oswald e James Earl Ray - é atingido pelo detetive Mike Norris (Chris Sarandon) e, antes de morrer, apela a um ritual de magia e passa sua alma para um boneco extremamente popular entre as crianças, o Good Guy. Esse mesmo brinquedo, chamado Chucky,  acaba parando nas mãos do menino Andy (Alex Vincent), que nem de longe imagina que seu novo amiguinho é capaz dos crimes mais cruéis em sua tentativa de tomar seu corpo. Quando finalmente percebe que Chucky não é tão inocente quanto tenta parecer para os adultos, Andy descobre que a verdade dificilmente será aceita pela polícia e até por sua mãe, Karen (Catherine Hicks): sua missão passa a ser, então, impedir novos assassinatos e destruir seu presente de aniversário, cada vez mais independente e violento.


É claro que a ideia de juntar brinquedos homicidas e crianças inocentes não poderia passar sem levantar polêmicas junto ao público mais conservador dos EUA: piquetes em frente aos estúdios da MGM exigiam que o filme fosse cancelado, para impedir que incentivasse a violência infantil. Logicamente suas reivindicações não foram acatadas e o filme estreou mesmo envolvido em debates a respeito do assunto. Não foi de nenhuma ajuda o fato de que, algum tempo depois do lançamento do filme, uma gangue juvenil estuprou e matou uma adolescente de 16 anos de idade enquanto seu líder declamava frases do roteiro. Tal controvérsia - que na verdade surge sempre que alguma produção flerta com a violência e é escolhida como bode expiatório - não impediu que "Brinquedo assassino" se tornasse um sucesso de bilheteria e até de crítica: o respeitado Roger Ebert, que não era um apreciador de produções do gênero, foi bastante generoso em sua avaliação e ofereceu um inesperado prestígio ao trabalho de Holland. É de imaginar se o conceito original criado pelo roteirista Don Mancini - que, segundo ele mesmo, usou apenas 50% do que havia imaginado - teria melhor recepção: na versão original, o sangue de Andy e Chucky se misturava e o boneco mataria todas as pessoas de quem o menino porventura pudesse desgostar por alguma razão.

De uma forma ou outra, "Brinquedo assassino" encontrou seu lugar junto aos admiradores dos filmes de terror, um status que nem mesmo as duas continuações diretas - lançadas em 1990 e 1991 - e a série de produções que apostavam no trash e no humor sombrio conseguiram. Transformando o sinistro boneco em praticamente uma piada, "A noiva de Chucky" (1998), "O filho de Chucky" (2004), "A maldição de Chucky" (2013) e "O culto de Chucky" (2017) levaram o personagem a um caminho praticamente sem volta, que nem mesmo um remake do original, lançado sem muito sucesso em 2019, conseguiu reverter. Mesmo que depois de trinta anos os sustos proporcionados pelo primeiro filme soem datados e mais risíveis do que assustadores, nada justifica a humilhação a que o pequeno e sádico boneco foi obrigado a passar. O melhor mesmo é ficar com o original apesar de seus defeitinhos e curtir uma boa e nostálgica sessão de terror.

segunda-feira

GREMLINS

GREMLINS (Gremlins, 1984, Warner Bros, 106min) Direção: Joe Dante. Roteiro: Chris Columbus. Fotografia: John Hora. Montagem: Tina Hirsch. Música: Jerry Goldsmith. Direção de arte/cenários: James H. Spencer/Jackie Carr. Produção executiva: Steven Spielberg, Kathleen Kennedy, Frank Marshall. Produção: Michel Finnell. Elenco: Zach Galligan, Phoebe Cates, Corey Feldman, Hoyt Axon, Frances Lee McCain, Polly Holliday. Estreia: 08/6/84

No verão norte-americano de 1984, os cinemas dos EUA foram dominados por animaizinhos estranhos, de origem misteriosa e que, caso não cumpridas as regras para seu bem-estar, se transformavam - de dóceis e encantadores - em criaturas vorazes, cruéis e debochadas. Eram os gremlins, protagonistas de um dos maiores sucessos de bilheteria da década de 1980. Dirigido por Joe Dante, escrito por Chris Columbus e produzido por Steven Spielberg no auge de sua imaginação criativa, "Gremlins" acabou por se tornar um ícone de sua época, um misto de comédia e horror que pegou todo mundo de surpresa com seu senso de humor macabro. Quarta maior bilheteria de um ano que também apresentou ao público os sucessos "Os Caça-fantamas" e "Indiana Jones e o templo da perdição" (este último dirigido pelo mesmo Spielberg que foi seu produtor executivo), o filme de Dante também atingiu, com o passar do tempo, o status de cult por excelência, um filme amado por diversas gerações e que, a despeito de seu jeitão trash, ainda mantém, mesmo depois de mais de trinta anos de idade, o frescor e a originalidade de sua estreia.

A ideia inicial era de fazer "Gremlins" um filme de horror, mas quando o roteiro de Chris Columbus - ainda sem os dois filmes de "Esqueceram de mim" no currículo - chegou às mãos de Steven Spielberg, o já consagrado cineasta achou que era melhor transformar a trama em uma produção dirigida a um público mais jovem. Depois de algumas importantes alterações - inclusive com a exclusão de cenas mais violentas -, Spielberg encontrou em Joe Dante o diretor ideal para a empreitada: conhecido como um fiel discípulo de Roger Corman e alguém capaz de trabalhar com orçamentos apertados, Dante havia chamado a atenção de Spielberg com "Grito de horror" (1981) e parecia a escolha mais apropria - antes disso, até mesmo Tim Burton, ainda sem nenhum longa na carreira havia chamado a atenção do produtor, sendo deixado de lado justamente por sua inexperiência. Com Dante no barco, junto com o roteiro de Columbus e a supervisão atenta de Spielberg, "Gremlins" começou a tomar forma. Se na fase de testes de elenco nomes como os de Emilio Estevez e Judd Nelson foram recusados para o papel que ficou com Zach Galligan, o processo de filmagens obrigou a decisões criativas que modificaram razoavelmente o script de Columbus. Foi por decisão de Spielberg, por exemplo, a divisão entre o bem e o mal, representada pelo terno Gizmo e seus agressivos filhotes (em especial o líder, Stripe) - o criador de "ET: O extraterrestre" (1982) sabia que o público precisaria se identificar com algum dos bichinhos. E a regra de não expor os personagens-título à luz surgiu de uma prosaica falta de confiança de Dante (e da Amblin Entertainment) nos efeitos especiais da época - algo que o próprio Spielberg havia experimentado na pele, durante as filmagens de "Tubarão" (1975).


Quarta maior bilheteria de 1984, "Gremlins" se passa às vésperas do Natal, quando o jovem Billy (Zach Galligan) ganha, de presente do pai, um encantador e desconhecido animalzinho encontrado em posse de um chinês idoso e hesitante. O bichinho - um mogwai, segundo o experiente oriental - é capaz de conquistar o coração até do mais empedernido ser humano, mas, para manter-se dessa forma, seu dono precisa cuidar de três regras importantíssimas: eles não podem ser expostos à luz, não podem ser molhados e muito menos comer depois da meia-noite. Não é preciso ser especialista em cinema para imaginar que as normas não serão cumpridas e que o doce Gizmo será testemunha da proliferação de seus irmãos anarquistas e cruéis. Em bando e vorazes, os gremlins tomam conta da cidade e caberá a Billy e sua paixonite, Kate (Phoebe Cates), resolver a bagunça generalizada. Mesclando um humor sinistro e momentos de suspense, Joe Dante conduz a plateia a uma montanha-russa constante - e que poderia ter sido ainda maior caso a versão original, de 160 minutos, tivesse sido aprovada pela Warner. O estúdio, aliás, teve certos problemas com os órgãos de censura dos EUA, que consideravam o filme pouco palatável para plateias menores de 13 anos: junto com "Indiana Jones e o templo da perdição", o filme de Joe Dante praticamente obrigou a MPAA (Motion Pictures Association of America) a criar uma nova classificação (PG-13), que permitia a entrada de menores de 13 anos desde que acompanhados dos pais.

Divertido e feito com o simples objetivo de entreter, "Gremlins" deu frutos: não apenas teve uma segunda parte, lançada em 1990 e novamente dirigida por Joe Dante, como aproximou dois cérebros criativos. Encantado com o trabalho de Chris Columbus no roteiro do filme, Steven Spielberg esteve envolvido em dois de seus futuros projetos, "O enigma da pirâmide" (dirigido por Barry Levinson) e "Os Goonies" (comandado por Richard Donner), ambos lançados em 1985. Além disso, "Gremlins" - neologismo criado pelo escritor Roald Dahl em seu "Gremlin Lore" - ficou na mente daqueles que o assistiram em seu lançamento como uma diversão um tanto insana, capaz de tirar sarro de coros de Natal, "Branca de Neve e os sete anões" e o american way of life. No fundo, é uma sessão da tarde para quem não tem paciência para filmes água com açúcar.

A GRANDE JOGADA

  A GRANDE JOGADA (Molly's game, 2017, STX Entertainment/The Mark Gordon Company, 140min) Direção: Aaron Sorkin. Roteiro: Aaron Sorkin, ...