segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

ALEXANDRIA

ALEXANDRIA (Agora, 2009, Mod Producciones/Himenóptero, 127min) Direção: Alejandro Amenábar. Roteiro: Alejandro Amenábar, Mateo Gil. Fotografia: Xavi Giménez. Montagem: Nacho Ruiz Capillas. Música: Dario Marianelli. Figurino: Gabriella Pescucci. Direção de arte/cenários: Guy Hendrix Dyas/Larry Dias. Produção executiva: Simón de Santiago, Jaime Ortiz de Artiñano. Produção: Álvaro Augustin, Fernando Bovaira. Elenco: Rachel Weisz, Max Minghella, Oscar Isaac, Ashraf Barhom, Michael Lonsdale, Rupert Evans. Estreia: 17/5/09 (Festival de Cannes)

Houve uma demora de cinco anos entre o lançamento de "Mar adentro" - Oscar de melhor filme estrangeiro em 2005 - e "Alexandria", realização seguinte do cineasta chileno Alejandro Amenábar. Nada de novo: entre "Os outros" (2001), seu primeiro grande sucesso internacional, e "Mar adentro", que lhe deu reconhecimento e prestígio entre a crítica, o intervalo já havia sido de consideráveis três anos - uma eternidade dentro da veloz indústria hollywoodiana, mas um período de tempo relativamente aceitável quando se trata de diretores detalhistas e dedicados a projetos menos óbvios. É o caso de "Alexandria", que custou bastante caro (cerca de 70 milhões de dólares) para uma produção sem grandes efeitos visuais ou garantia de retorno (leia-se chamarizes de bilheterias, como grandes astros ou personagens facilmente identificáveis, como super-heróis ou personalidades conhecidas da plateia) e acabou pagando um preço alto por sua ousadia. Praticamente ignorado pela crítica e um fiasco comercial, a história da filósofa e astrônoma grega Hipátia não encontrou seu público e terminou sua carreira nos cinemas com uma renda pouco superior a 700 mil dólares de arrecadação. Tal desastre não apenas arranhou seriamente a reputação de Amenábar - que só retornou aos longas com o péssimo "Regressão" (2015) - mas privou a plateia de conhecer um filme que, se não é tão bom quanto os trabalhos anteriores do cineasta, ao menos tem uma inteligência muito acima da média - e uma relevância histórica extremamente importância em uma época de tanta intolerância religiosa como a atual.

Como o próprio título nacional sugere, o filme se passa em Alexandria, cidade egípcia famosa por seu farol e por sua biblioteca, considerada a maior do mundo. É lá, no ano de 391 que a trama, criada por Amenábar e Mateo Gil, tem início: Hipátia (Rachel Weisz, esforçada) é uma brilhante filósofa que leciona na célebre biblioteca local, ensinando a seus discípulos as ainda rudimentares noções de astronomia, além de matemática e filosofia. Bonita e inteligente, ela se dedica incansavelmente ao estudos dos movimentos dos corpos celestes, enquanto rejeita delicadamente as investidas de Orestes (Oscar Isaac em começo de carreira), um de seus alunos, e de Davus (Max Minghella), seu escravo pessoal. Em um período conturbado pelos conflitos entre cristãos, judeus e pagãos, ela precisa também manter-se no fio da navalha: racional, ela não sente-se à vontade em nenhuma religião, mas sabe que isso é potencialmente perigoso para sua integridade física. Quando os cristãos tomam o poder, graças à liderança de Cirilo (Sammy Samir) e Ammonius (Ashraf Barhom), ela não consegue impedir a destruição da biblioteca nem tampouco a violência que explode nas ruas da cidade. Vinte anos mais tarde, as coisas ainda estão delicadas: seu ex-aluno, Orestes, é o prefeito, mas não concorda com as atitudes radicais dos cristãos - que querem impor suas leis e perseguir quem lhes é contrário - e, com a ajuda de um antigo colega, Synesius (Rupert Evans), tornado bispo, tenta convencê-la a converter-se ao cristianismo como forma de manter suas aulas. Hipátia se recusa e entra em rota de colisão com o poder.


Ainda que encontre em Hipátia uma protagonista interessante e que serve como fio condutor de uma trama que tenta retratar a histórica rivalidade entre judeus e cristãos, o roteiro de "Alexandria" esbarra em uma comprometedora ausência de foco narrativo que enfraquece suas redentoras qualidades. Ao abraçar simultaneamente a trajetória da filósofa e os acontecimentos trágicos e violentos à sua volta, relacionados com a intolerância, Amenábar acaba por optar pela superficialidade em ambos os terrenos. A rica história de Hipátia muitas vezes fica em segundo plano - e frequentemente suas cenas são resumidas a longas explanações sobre seus estudos de Astronomia e suas questões relativas ao Universo: essa falta de aprofundamento em sua personalidade acaba por mostrar-se crucial, impedindo uma aproximação maior do público até mesmo quando o filme força um triângulo amoroso um tanto improvável entre ela, Davus e Orestes. Tal artifício, ao invés de envolver a plateia, acaba por diluir o impacto de algumas de suas melhores sequências - aquelas que mostram, de maneira sutil e elegante (mas sempre contundentes) os perigos que cercam o fanatismo e a falta de empatia entre as religiões. Essa indecisão narrativa, somada a um ritmo claudicante, enfraquece o conjunto, restando ao espectador apenas a opção de avaliar o filme por suas partes.

Se o roteiro falha em aprofundar seus temas e se distancia tanto do épico religioso quanto do romance, cabe ao elenco escolhido por Amenábar dar conta dessas inconsistências. E nesse quesito o cineasta não pode reclamar. Bom diretor de atores, o chileno tem em Rachel Weisz seu principal apoio: em um papel escrito especificamente para ela, a atriz premiada com o Oscar por "O jardineiro fiel" (2005) pode não estar em seu melhor desempenho, mas tem força dramática o suficiente para segurar uma personagem de cuja vida pessoal pouco se sabe e transformá-la em alguém de carne e osso, verossímil mesmo quando a trama escorrega para a tragédia. Oscar Isaac, ainda antes de conhecer o gostinho da fama, faz o que pode com seu Orestes, que começa como um potencial vilão e se transforma em um dos grandes apoiadores da protagonista - a cena em que desafia Cirilo e se recusa a ajoelhar-se diante da Bíblia é intensa e emocionante. Mas o maior destaque do elenco é o jovem Max Minghella, filho do diretor Anthony Minghella, vencedor do Oscar por "O paciente inglês" (96): com o ingrato papel do escravo cristão Davus, que assume importância crucial conforme a história vai avançando, Max demonstra maturidade e sensibilidade, assumindo todas as nuances de seu personagem com coragem e determinação de veterano - até mesmo sua transformação física é crível e realista. O cuidado de Amenábar em extrair o melhor de seus atores é seu maior trunfo: "Alexandria" fica marcado na mente do público justamente por causa deles, que dão vida a um argumento muitas vezes frágil e ambicioso demais. Ainda assim, é um filme injustiçado, que merece uma segunda chance.

domingo, 18 de dezembro de 2016

OS OITO ODIADOS

OS OITO ODIADOS (The hateful eight, 2015, Double Feature Films, 187min) Direção e roteiro: Quentin Tarantino. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Fred Raskin. Música: Ennio Morricone. Figurino: Courtney Hoffman. Direção de arte/cenários: Yohei Taneda/Rosemary Brandenburg. Produção executiva: Georgia Kacandes, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Richard N. Gladstein, Shannon McIntosh, Stacey Sher. Elenco: Kurt Russell, Samuel L. Jackson, Jennifer Jason Leigh, Walter Goggins, Bruce Dern, Michael Madsen, Tim Roth, Demián Bichir, James Parks, Channing Tatum. Estreia: 07/12/15

3 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Jennifer Jason Leigh), Fotografia, Trilha Sonora Original
Vencedor do Oscar de Melhor Trilha Sonora Original
Vencedor do Golden Globe de Melhor Trilha Sonora Original 

Já nem é mais novidade: a cada filme novo de Quentin Tarantino que chega às telas o mundo se divide entre aqueles que o incensam como um dos mais originais e inventivos cineastas norte-americanos já existentes e aqueles que questionam seu talento e criatividade, lançando mãos de críticas que - vá lá - até fazem certo sentido sob determinados pontos de vista. Porém, a verdade é que, independente do fato de gravitar sempre em um universo todo particular (aparentemente localizado em algum lugar entre os anos 70 e 80 e povoado de filmes de baixo orçamento e roteiros pra lá de bizarros), Tarantino é um dos poucos diretores em atividade no cinema americano ainda capazes de suscitar tanta discussão e despertar tanto interesse da mídia, do público e da crítica. E não poderia ser diferente em relação a "Os oito odiados", seu oitavo longa, que correu o sério risco de jamais ver a luz dos projetores quando teve seu roteiro vazado antes mesmo da fase de pré-produção. Furioso com o imprevisto - e coberto de razão - Tarantino quase desistiu do projeto mas, convencido pelo amigo Samuel L. Jackson (apaixonado pela história e pelos personagens), voltou atrás na decisão. Sorte dos fãs inveterados (que encontrarão no filme, em versão exagerada, tudo que o diretor sempre ofereceu em seus trabalhos anteriores) e azar dos detratores (que, se arriscarem uma sessão, podem correr o risco de uma overdose de longos diálogos, sangue aos borbotões e maneirismos técnicos que a tantos agrada e a tantos outros repele).

Revisitando um gênero caro à sua memória afetiva, o western (que já havia homenageado com propriedade no ótimo "Django livre"), Tarantino acrescenta a "Os oito odiados" um clima de mistério à Agatha Christie e um tom teatral que enfatiza como nunca sua facilidade absurda de criar diálogos inspiradíssimos e personagens antológicos em situações extremas. Situando sua trama em um período imediatamente posterior à Guerra de Secessão, o diretor joga o público direto no gélido frio do Wyoming, onde a diligência do caçador de recompensas John Ruth (Kurt Russell em um grande momento da carreira) encontra um concorrente, o famoso Major Marquis Warren (Samuel L. Jackson mostrando porque é um dos maiores atores americanos de sua geração, especialmente quando dirigido por Tarantino). Warren pede que Ruth lhe dê uma carona (e aos cadáveres que ele pretende trocar por uma gorda quantia de dólares) até a cidade de Red Rock e não demora para juntar-se a ele e à sua prisioneira, Daisy Domergue (a sensacional Jennifer Jason Leigh) na difícil viagem rumo a seu destino. Domergue é uma assassina procurada que Ruth tem a intenção de entregar ao carrasco de Red Rock e todos eles se surpreendem quando, ainda no caminho em direção à cidade, eles dão de cara com Chris Mannix (Walton Goggins), que alega ser o novo xerife do local e que também pede ajuda para chegar até lá.

No meio do caminho, devido a uma nevasca, a diligência se vê obrigada a fazer uma parada inesperada na estalagem de Minnie Mink (Dana Gourrier), uma conhecida de Warren que, em viagem para visitar a mãe, deixou o local aos cuidados do mexicano Bob (Demian Bichir). Juntando-se aos demais hóspedes também presos na hospedaria - o carrasco Oswaldo Mobray (Tim Roth), o lacônico Joe Gage (Michael Madsen) e o veterano General Sandy Smithers (Bruce Dern) - os novos visitantes não demoram a perceber um clima de tensão e desconfiança no ar. O que ninguém sabe, porém, é que os comparsas de Daisy não tem a menor intenção de permitir que ela seja entregue e enforcada, e que tem um plano elaborado para resgatá-la antes de sua chegada a Red Rock. Caberá então ao perspicaz Major Warren descobrir quem do grupo reunido na hospedaria está ao lado da temida e debochada assassina.


"Os oito odiados" é Tarantino do primeiro frame - os créditos com o mesmo design dos letreiros já trai suas origens - ao último minuto - que chega somente depois de quase três horas de duração. Muitos reclamam da demora em começar a ação propriamente dita (tiros, sangue, violência), mas é difícil sentir-se incomodado ao ver em cena atores tão fantásticos - Samuel L. Jackson, Michael Madsen, Tim Roth, Bruce Dern e Jennifer Jason Leigh (os três primeiros repetindo a parceria com o diretor e Jennifer merecidamente indicada ao Oscar de coadjuvante) - desfilando seu talento pela tela. Com o auxílio luxuoso da bela fotografia de Robert Richardson (também indicada ao Oscar) e da sensacional trilha sonora do veterano Ennio Morricone (vencedor de sua primeira estatueta por seu trabalho), o filme realmente aparenta ter um problema de ritmo - só depois de uma hora e meia é que as coisas realmente começam a acontecer - mas basta olhar com atenção para perceber que nada é por acaso, nenhum diálogo é supérfluo e a longa duração serve para mergulhar o espectador na tensão indispensável ao clímax sanguinolento, de dar inveja à carnificina de "Cães de aluguel", filme de estreia de Tarantino e que o colocou, de primeira, no coração dos cinéfilos e da crítica.

Com uma violência estilizada que enfatiza seu humor nigérrimo - Jennifer Jason Leigh passa o filme inteiro sendo espancada, para horror das feministas - e o tom politicamente incorreto que sempre caracterizou a obra do diretor, "Os oito odiados" é a cara de seu criador. Seus diálogos são longos e expressivos. Sua violência é um misto de crueza e humor negro. Seu linguajar é cortante e realista, Não é uma obra-prima como "Pulp fiction, tempo de violência" ou "Bastardos inglórios", mas é mais uma declaração incontestável de um estilo cinematográfico que já está indelevelmente marcado na cultura popular norte-americana e mundial há pelo menos duas décadas, quer se goste ou não. Falem bem ou falem mal, é impossível ficar indiferente a um filme de Quentin Tarantino. E de quantos artistas se pode dizer o mesmo hoje em dia?

sábado, 17 de dezembro de 2016

MUNDO CÃO

MUNDO CÃO (Mundo cão, 2016, Zencrane Filmes/Globo Filmes, 101min) Direção: Marcos Jorge. Roteiro: Marcos Jorge, Lusa Silvestre. Fotografia: Toca Seabra. Montagem: André Finotti. Figurino: Cássio Brasil. Direção de arte/cenários: Valdy Lopes. Produção executiva: Cláudia da Natividade, Rune Tavares, Rodrigo Sarti Werthein. Produção: Iafa Britz. Elenco: Lázaro Ramos, Babu Santana, Adriana Esteves, Milhem Cortaz, Thainá Duarte, Vini Carvalho, Paulinho Serra. Estreia: 17/3/16

Dividido entre o sucesso comercial de comédias populares - normalmente de qualidade abaixo da média - e filmes com temática policial, o cinema nacional volta e meia tenta dar alguns passos em direção a outros gêneros e enfoques, nem sempre com muito êxito. Um dos exemplos positivos dessa constante busca por novos ares é "Mundo cão", um suspense urbano que tira proveito dos altos índices de intolerância e violência das cidades grandes para mergulhar o público em um pesadelo realista e perturbador. Seguindo a mesma linha do sensacional "O lobo atrás da porta", de Fernando Coimbra, o cineasta Marcos Jorge - que tem no currículo o elogiado "Estômago" (2007) - constrói sua trama dentro de uma realidade plausível e facilmente reconhecível pela plateia, transformando a segurança do lar e da família em um ambiente de medo e angústia. Pode não atingir o mesmo nível de desconforto, mas surpreende pela brutalidade psicológica e pela coragem de eleger como protagonista um cidadão comum e desprovido de qualquer tipo de heroísmo. É a vida real transposta para a tela, ainda que envernizada pela força da ficção e da linguagem cinematográfica.

O cenário é a São Paulo de 2007, antes da extinção da lei que permitia o sacrifício de animais abandonados. O protagonista é Santana (Babu Santana), que trabalha no Departamento de Combate às Zoonoses, recolhendo cães perigosos pelas ruas da cidade ao lado do colega, Ramiro (Paulinho Serra). Bom marido, pai dedicado e homem religioso, Santana nem imagina que toda a sua estrutura doméstica pode vir abaixo quando é chamado à uma escola por conta de um animal raivoso que está assustando as crianças. Trabalhando conforme a lei, os dois colegas levam o cachorro para o Centro, onde esperam o prazo de três dias antes que profissionais especializados o sacrifiquem. Quando o dono do animal aparece é que a coisa complica: Nenê (Lázaro Ramos) é um ex-presidiário, agressivo e explosivo, cuja renda vem parcialmente de rinhas entre cães - e, inconsolável com a perda de um de seus maiores campeões, resolve vingar sua morte. Quem acaba sendo escolhido como alvo para tal retaliação é justamente Santana, que parte em defesa própria no meio de uma discussão e deflagra uma guerra interna com resultados imprevisíveis.


A batalha que se segue - com a vingança de Nenê e a posterior revanche de Santana - é digna dos mais empolgantes filmes de suspense americanos. O roteiro não para de levar o espectador a caminhos os mais diversos, nunca deixando antever os próximos passos de seus personagens. Como um reflexo da irracionalidade animal, suas atitudes partem sempre em direção a consequências mais e mais violentas e incontroláveis, que atingem a todos que os cercam. É assim que Santana, pacífico pai de família, abandona a civilidade quando o que considerava sua maior fortaleza - seu lar em um subúrbio tranquilo - é maculado pela intensidade do ódio. Ao perceber que nem sua mulher, Dilza (Adriana Esteves, ótima), nem seus dois filhos - a adolescente Isaura (Thainá Duarte) e o menino João (Vini Carvalho) - estão a salvo da impetuosidade cruel de Nenê, ele deixa de lado todo e qualquer resquício de humanidade para tornar-se alguém capaz de defender o que lhe resta de dignidade e paz. Esse paradoxo é o grande trunfo do filme de Marcos Jorge: a violência como forma de recuperar a paz.

Com uma direção seca e pontual, que destaca as atuações viscerais de Babu Santana e Lázaro Ramos - o primeiro a quilômetros de distância do Tim Maia que lhe revelou ao grande público e o segundo com um registro de vilão construído em detalhes - "Mundo cão" é um artigo raro dentro da produção de cinema brasileiro. Apostando em um gênero ainda pouco explorado mas repleto de possibilidades, Marcos Jorge oferece ao público uma história forte, sustentada por atores competentes e uma tensão constante, que vai sendo ampliada conforme se percebe todos os seus desdobramentos. Ainda que em algum momento perto do desfecho o ritmo caia um pouco - até como forma de preparar o clímax, irônico e cruel - a edição se equilibra entre a agilidade necessária a um filme com ambições comerciais e a suavidade de uma obra que procura dialogar com discussões mais sérias do que simplesmente jogar nas telas uma sucessão de tragédias. Se sai bem na maior parte do tempo, envolvendo a plateia em sua rede desde as primeiras cenas, e só não é ainda melhor por estender-se demais no terceiro ato. Um pecado menor em um filme que está bem acima da média da produção comercial brasileira.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

A VISITA

A VISITA (The visit, 2015, Blinding Edge Pictures/Blumhouse Produtions, 94min) Direção e roteiro: M. Night Shyamalan. Fotografia: Maryse Alberti. Montagem: Luke Ciarrocchi. Figurino: Amy Westcott. Direção de arte/cenários: Naaman Marshall/Dennis Madigan, Christine Wick. Produção executiva: Ashwin Rajan, Steven Schneider. Produção: Marc Bienstock, Jason Blum, M. Night Shyamalan. Elenco: Olivia DeJonge, Ed Oxenbuld, Deanna Dunagan, Peter McRobbie, Kathryn Hahn. Estreia: 30/8/15 (Dublin)

Nada como um reboot na própria carreira para recuperar o prestígio perdido. Que o diga M. Night Shyamalan, que depois de tornar-se diretor de um dos maiores sucessos da história do cinema, "O sexto sentido" (99) - e de ter sido indicado ao Oscar por ele - entrou em uma curva descendente das mais violentas de que se tem notícia em Hollywood, culminando em produções massacradas impiedosamente por crítica e público, como "O último mestre do ar"  (2010) e "Depois da Terra" (2013). Sabendo que a única forma de retomar as rédeas da carreira seria voltando a assumir o controle artístico total de sua obra, Shyamalan respirou fundo, bancou sozinho o orçamento de meros cinco milhões de dólares e, com liberdade irrestrita, voltou às boas graças com a imprensa e a plateia. "A visita" pode não chegar aos pés de seu filme mais famoso - tanto em qualidade quanto em bilheteria - mas prova, sem sombra de dúvida, que seu talento em provocar tensão e arrepios ainda se mantém intacto, assim como sua incrível capacidade de arrancar performances memoráveis de seus atores juvenis.

Se em "O sexto sentido" o diretor revelou Haley Joel Osment, que chegou a ser indicado ao Oscar de coadjuvante para depois desaparecer do radar de Hollywood como mais uma criança-prodígio que não soube superar a adolescência, em "A visita" ele multiplica a equação por dois, ainda que sem a mesma potência. A ótima Olivia DeJonge e o carismático Ed Oxenbuld vivem os irmãos Becca e Tyler, os protagonistas de uma trama bizarra e assustadora justamente por estar seriamente calcada na verossimilhança, assim como os demais filmes de Shyamalan, capaz de transformar um filme de super-herói em um drama psicológico dos mais atraentes, como fez em "Corpo fechado" (2000). Becca e Tyler são dois pré-adolescentes criados pela mãe (Kathryn Hahn), depois que seu pai os abandonou por outra mulher. Ainda não totalmente recuperados da perda, eles recebem o convite dos avós maternos para que passem uma semana em sua fazenda enquanto sua mãe viaja com o novo namorado. O convite não seria nada demais se não fosse por um detalhe importantíssimo: eles não conhecem os avós, que cortaram relações com a filha por não concordarem com seu namoro, anos antes. A tentativa de reaproximação é vista com bons olhos por Becca - que resolve filmar tudo para transformar em um documentário - e o encontro finalmente acontece. Mas então coisas estranhas começam a acontecer.


A princípio carinhosos e atenciosos, os avós (Deanna Dunagan e Peter MacRobbie) passam a demonstrar um comportamento no mínimo assustador depois que a noite cai e os netos são obrigados a permanecerem em seu quarto: ela anda nua pela casa, arranha paredes e solta ruídos apavorantes. Ele mantém algo escondido em um quarto de ferramentas. E aos poucos outras atitudes disparam o sinal de alerta em Tyler, muito mais disposto a acreditar que há algo sinistro acontecendo. Ele resolve, então, deixar uma câmera escondida na sala de estar - e a partir daí, outras revelações irão transformar uma inocente semana em família em um pesadelo de que só a mente criativa de M. Night Shyamalan é capaz, com direito a sustos, momentos de pura tensão e respiros de um humor quase inocente, que impede a trama de descambar para o terror explícito. Conduzido com mão firme pelo diretor, que abdica de trilha sonora original e aposta no já quase clichê found footage (câmera na mão, como um documentário), "A visita" acaba por conquistar o público exatamente por não ter ambições de revolucionar o gênero, e sim de enfatizar suas maiores qualidades e inclusive abraçar seus lugares-comuns. Seu ritmo é cadenciado, sem pressa de revelar antecipadamente todos os seus trunfos, e seu elenco de atores desconhecidos do grande público só deixa tudo ainda mais desconfortável.

Mesmo longe da genialidade de seus melhores trabalhos, "A visita" é um poderoso lembrete de M. Night Shyamalan à indústria que o elevou às alturas e depois praticamente o abandonou à própria sorte - em parte também por uma dose de presunção que o levou a cometer erros frequentes de avaliação sobre sua arte. Com orçamento enxuto, elenco sem astros e uma história envolvente, o cineasta mais celebrado do início dos anos 2000 recuperou parte do sucesso perdido. Que seja apenas o começo de uma nova e empolgante fase, em que o talento se sobreponha à ambição.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

O ÚLTIMO JANTAR

O ÚLTIMO JANTAR (The last supper, 1995, Columbia Pictures, 92min) Direção: Stacy Title. Roteiro: Dan Rosen. Fotografia: Paul Cameron. Montagem: Luis Colina. Música: Mark Mothersbaugh. Figurino: Leesa Evans. Direção de arte/cenários: Linda Burton/Dea Jensen. Produção executiva: David Cooper. Produção: Matt Cooper, Larry Weinberg. Elenco: Cameron Diaz, Ron Eldard, Annabeth Gish, Jonathan Penner, Courtney B. Vance,  Bill Paxton, Ron Perlman, Nora Dunn, Charles Durning, Jason Alexander. Estreia: 08/9/95 (Festival de Toronto)

Poucos gêneros são tão subestimados no cinema quanto a comédia de humor negro: frequentemente incompreendidas pela plateia (mesmo quando incensadas pela crítica), elas acabam sendo relegadas a segundo plano, como um meio-termo entre o pastelão que lota os cinemas e as comédias mais sofisticadas que costumam ganhar um ou outro prêmio da Academia. É justamente nesse nicho de mercado que se situa "O último jantar", pequena pérola lançada no Festival de Toronto de 1995, passou praticamente em branco pelas telas e ainda não teve a sorte de ser descoberta pelo grande público. Em tempos sombrios como o que vivemos, não deixa de ser confortante perceber que ainda existe gente capaz de pensar com clareza e sobriedade sobre os perigos do radicalismo social e político. Tratando o assunto com leveza e imparcialidade, o roteiro de Dan Rosen leva o espectador a questionar as próprias certezas - e de quebra, dá seu tiro de misericórdia com um toque de ironia espetacular, que abala qualquer alicerce politicamente correto.

Dirigido por Stacy Title - que depois deu seguimento à carreira com filmes de terror - "O último jantar" é uma comédia de sutilezas, que aposta basicamente em uma única situação para levar seu humor até as últimas consequências. Quem comanda a trama é um grupo de estudantes universitários de tendências políticas liberais e que dividem uma casa em uma pequena cidade do estado de Iowa que está com os nervos à flor da pele graças ao desaparecimento de uma criança. Inteligentes, articulados e bem informados, os cinco amigos tem o costume de receber para jantar, todos os domingos, pessoas com quem possam discutir assuntos polêmicos e relevantes - e assim manter o pensamento crítico e a mente aberta. Em uma noite particularmente chuvosa, porém, a rotina é quebrada involuntariamente quando o convidado é o desconhecido Zach (Bill Paxton), que deu carona a um deles, Pete (Ron Eldard), em seu caminhão. Durante a refeição, Zach não apenas se mostra totalmente contrário a tudo que eles pensam como também se torna agressivo e violento, o que resulta em um trágico assassinato. A princípio apavorados com a situação, aos poucos os amigos resolvem enterrar o corpo no quintal e esquecer o assunto. Tudo estaria relativamente em paz se o acontecimento não lhes desse uma bizarra ideia: e se, ao invés de apenas conversar com aqueles que tem pensamentos contrários aos seus eles os envenenassem?


A partir daí, o filme de Title vira uma sinistra brincadeira, onde os protagonistas escolhem suas prováveis vítimas entre as criaturas mais conservadoras e desprezíveis da região para tentar, sempre em vão, demovê-las de suas ideias pequenas e salvá-las de uma morte que elas nem sabem que está à espreita. Um padre (Charles Durning) que culpa os homossexuais pela AIDS, um machista radical (Mark Harmon) que prega a supremacia masculina e um feroz ativista contra o meio-ambiente (Jason Alexander) são alguns dos desavisados que caem nas mãos dos cada vez mais justiceiros companheiros de cruzada, que, subitamente, passam a entrar em conflito interno. Considerando que estão indo longe demais, Jude (Cameron Diaz, antes de ser catapultada para a fama) tenta fazer os amigos pararem com as execuções, mas encontra resistência principalmente em Luke (Courtney B, Vance), que considera seus atos como pura justiça. A situação só piora de vez quando, devido ao atraso de seu voo, uma celebridade controversa e extremamente perigosa (Ron Perlman) senta-se à mesa do grupo - e subverte completamente o roteiro da noite.

Ao elaborar um filme que, além de divertir, desperta questionamentos de extrema importância - afinal, o que diferencia os fascistas dos ditos "liberais"? - "O último jantar" dá um passo à frente em comparação com as comédias normalmente acéfalas que normalmente chegam ao mercado. Mesmo que não se aprofunde nos debates que provoque (o que não é sua intenção, diga-se de passagem), o roteiro faz o próprio espectador por em xeque suas convicções e certezas absolutas. Com um humor certeiro e nunca apelativo, o filme encontra na direção eficiente e simples de Stacy Title a comandante ideal - a cineasta jamais tenta sobrepujar sua história com malabarismos desnecessários de câmera ou artifícios de edição. Sua condução da trama é simples e clássica, contrastando inteligentemente com os tons surreais do roteiro. Com um elenco coeso - o resto do grupo de protagonistas é formado pelo casal Paulie (Annabeth Gish) e Marc (Jonathan Penner) - e um tema contundente, "O último jantar" deveria ser obrigatório.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

TRIÂNGULO AMOROSO

TRIÂNGULO AMOROSO (3,2010, X-Filme Creative Pool, 119min) Direção e roteiro: Tom Tykwer. Fotografia: Frank Griebe. Montagem: Mathilde Bonnefoy. Música: Reinhold Heil, Johnny Klimek, Gabriel Isaac Mounsey, Tom Tykwer. Figurino: Polly Matthies. Direção de arte/cenários: Uli Hanish/Kai Koch. Produção executiva: Uwe Schott. Produção: Stefan Arndt, Barbara Buhl, Gebhard Henke, Jorn Klamroth. Elenco: Sophie Rois, Sebastian Schipper, David Striesow, Angela Winkler, Annedore Kleist. Estreia: 10/9/10 (Bienal de Veneza)

Bem antes de unir-se aos irmãos Wachowski no ambicioso "A viagem" (2012) e na cultuada telessérie "Sense8", o alemão Tom Tykwer já dava o que falar para os fãs de cinema europeu. Em 1999, lançou o ultrapop "Corra Lola, corra", que fez seu nome percorrer festivais e consagrar-se principalmente junto à plateia mais jovem. Depois de assinar também a adaptação do best-seller "Perfume: a história de um assassino" (2006) e o thriller político "Trama internacional" (2009), estrelado por Clive Owen e Naomi Watts - nenhum deles recebidos com o esperado estardalhaço - o cineasta resolveu polemizar um pouco e voltou à sua terra natal para realizar "Triângulo amoroso", uma história de amor nada convencional que lhe permitiu utilizar seu modo particular de fazer cinema sem a interferência de estúdios americanos. Um tanto ousado mas jamais vulgar ou imoral, seu filme retrata com inteligência e sofisticação a eterna busca pela realização amorosa e sexual sem nenhum ranço reducionista ou falsamente libertário: algo de que somente o cinema europeu é capaz.

A apresentadora de TV Hanna (Sophie Rois) e o engenheiro Simon (Sebastian Schipper) vivem juntos há cerca de vinte anos e levam uma vida confortável e pacífica. Justamente quando ele está com a mãe doente e descobre ter câncer em um dos testículos, ela conhece e sente-se irremediavelmente atraída por Adam (David Stresow), um médico mais jovem que não demora em dar sinais de que também está interessado nela. Os dois tornam-se amantes e algum tempo depois, Simon conhece o rapaz no vestiário do clube que ambos frequentam. Para sua surpresa - até então um heterossexual convicto - surge uma forte desejo entre eles, e um flerte inconsequente evolui para um caso mais sério. Sem que saibam disso, portanto, o casal mantém o mesmo amante, sem que isso atrapalhe seu relacionamento, maduro e estável. Quando eles finalmente decidem se casar, porém, uma gravidez inesperada os obriga a encarar uma realidade que eles preferiam manter escondida.


Com um elenco de atores que destoam radicalmente dos conceitos de beleza do cinema comercial e uma estrutura narrativa ágil e criativa - telas paralelas constantemente empurrando a trama, sem espaço para momentos de maior reflexão - "Triângulo amoroso" é um delicioso antídoto ao asséptico cinemão americano. Mesmo que suas cenas de sexo não mostrem mais do que o convencional, sua temática é tratada com maturidade e naturalidade, jamais buscando julgar seus personagens ou apontar certo ou errado. De forma sutil e inteligente, o roteiro, escrito pelo próprio diretor, vai apresentando seus personagens como gente de carne e osso, capazes de fraquezas quase imperdoáveis mas simpáticos o bastante para que sejam compreendidos pela plateia. Com uma espécie de lema "chumbo trocado não dói", Tykwer expõe com ironia as dificuldades dos cidadãos do novo milênio em impor seus desejos, diante da cerca do conservadorismo da sociedade. Até mesmo Hanna e Simon são vítimas de tais regras de comportamento, já que, mesmo aparentemente modernos e abertos a novas experiências, são incapazes de explicitá-las. Como um pivô involuntário, cabe a Adam tentar romper, mesmo que devagar, as barreiras que ele mesmo já derrubou em sua vida - ele tem um filho e tem uma relação bastante amistosa com a mãe da criança. É ele, com seu jeito mais leve de lidar com a vastidão de possibilidades da sexualidade, que irá ser o catalisador das mudanças na vida do casal - pelo menos aquelas que eles estiverem dispostos a aceitar. O final dessa confusão toda é surpreendente.

Com um visual elegante e características próprias de contar sua história, "Triângulo amoroso" insere-se em uma quase tradição do cinema europeu de retratar relacionamentos alternativos e/ou à frente do seu tempo. Assim como François Truffaut fez em "Jules e Jim: uma mulher para dois" (62), Tom Tykwer sacode a mesmice dos contos de fada oferecidos pelo cinema ao mostrar, sem meias palavras, uma forma nova de interrelação, de acordo mais com as necessidades pessoais do que com as normas impostas pela sociedade. Seu pulo do gato foi justamente incluir na equação a bissexualidade, um tema ainda pouco discutido a sério nas telonas. Seu filme pode não ser a última palavra no assunto, mas é uma necessária lufada de ar fresco na discussão. E além de tudo, é uma obra que acredita na força da imagem e da edição - elementos cruciais para o bom cinema, utilizados com maestria e inteligência. Um filme subestimado, que tem tudo para tornar-se cult com o passar do tempo.

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

SPOTLIGHT: SEGREDOS REVELADOS

SPOTLIGHT: SEGREDOS REVELADOS (Spotlight, 2015, Participant Media/First Look Media/Anonymous Content, 128min) Direção: Tom McCarthy. Roteiro: Tom McCarthy, Josh Singer. Fotografia: Masanobu Takayanagi. Montagem: Tom McArdle. Música: Howard Shore. Figurino: Wendy Chuck. Direção de arte/cenários: Stephen H. Carter/Vanessa Knoll, Shane Vieau. Produção executiva: Michael Bederman, Bard Dorros, Jonathan King, Peter Lawson, Xavier Marchand, Pierre Omidyar, Tom Ortenberg, Josh Singer, Jeff Skoll. Produção: Blye Pagon Faust, Steve Golin, Nicole Rocklin, Michael Sugar. Elenco: Michael Keaton, Mark Ruffalo, Rachel McAdams, Liev Schreiber, John Slattery, Stanley Tucci, Billy Crudup, Brian D'Arcy James. Estreia: 03/9/15 (Festival de Veneza)

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Tom McCarthy), Ator Coadjuvante (Mark Ruffalo), Atriz Coadjuvante (Rachel McAdams), Roteiro Original, Montagem
Vencedor de 2 Oscar: Melhor Filme, Roteiro Original

O jornalismo é uma das carreiras mais retratadas por Hollywood, e já inspirou clássicos absolutos, como "A montanha dos sete abutres" (51), de Billy Wilder, "Rede de intrigas" (76), de Sidney Lumet, e "Todos os homens do presidente" (76), de Alan J. Pakula. Não por acaso, esses três exemplos da relação entre o cinema e a imprensa foram algumas das inspirações do diretor Tom McCarthy na realização de seu "Spotlight: segredos revelados", um dos mais contundentes e sérios ataques já realizados pela sétima arte contra a instituição da Igreja católica. Uma das mais premiadas produções da temporada 2015 - incluindo o cobiçado Oscar de melhor filme - a obra de McCarthy (também um ator e com o delicado "O visitante", de 2008, no currículo) é um soco no estômago do espectador, contando uma história que vai ao âmago de um dos maiores escândalos religiosos do século XX, mas em momento algum apela para o sensacionalismo. Narrado em um acertado tom semi-documental que evita qualquer tipo de espetacularização da dor, é o sóbrio e seco retrato de uma investigação jornalística responsável e relevante, que ganhou o Pulitzer em 2003 e revelou, sem medo de represálias, um esquema de acobertamento de centenas de crimes de abuso sexual infantil cometidos por padres durante décadas - e que mostrou-se de dimensão internacional quando atingiu também diversos outros países, incluindo o Brasil.

Talvez o principal acerto do roteiro, escrito por Josh Singer e o próprio diretor, tenha sido o de ater-se fielmente aos fatos, resistindo à tentação de eleger um protagonista com ares de herói para buscar a adesão da plateia. Confiando na força de sua história, McCarthy se propõe unicamente a explorar os meandros da investigação liderada pelo veterano Walter Robinson (Michael Keaton em grande fase na carreira): apoiado e incentivado pelo novo editor, Mark Baron (Liev Schreiber), ele reúne seu grupo de repórteres para aprofundar o caso de uma série de estupros cometidos por padres e tratados com condescendência por bispos e cardeais na região de Boston. Dedicados e inteligentes, os jornalistas partem, então, em busca da verdade, mesmo que isso possa abalar uma instituição respeitada e secular. Sasha Pfeiffer (Rachel McAdams), por exemplo, frequenta a missa ao lado da avó e compreende as implicações da publicação da matéria. O eficiente Mike Rezendes (Mark Ruffalo) é incansável em sua batalha pelas informações do advogado Mitchell Garabedian (Stanley Tucci). E Matt Carroll (Brian D'Arcy James), pai de família, sente-se ameaçado pela presença de possíveis abusadores próximo a seus filhos pequenos.


Desviando a câmera sempre que o drama ameaça ultrapassar os limites do bom-gosto e da discrição, Tom McCarthy aproxima o espectador através mais do cérebro do que do coração - ainda que não evite que a emoção tome conta em alguns momentos realmente tocantes. A edição precisa de Tom McArdle serve como sinalizador de tal sutileza: apesar dos diálogos fortes, "Spotlight" prefere o foco mais humanista da questão, apontando seu olhar para os braços marcados pelas seringas que uma das vítimas apresenta sem alarde, ou para a tensão constante de outra, que transfere para a comida uma vida inteira de depressão e angústia. A câmera quase voyeur chega a surpreender personagem e público quando testemunha um dos acusados, um aparentemente inofensivo senhor religioso, assumindo seus crimes e afirmando, tranquilamente, que também já foi estuprado. O roteiro de "Spotlight" tenta não sublinhar o que já é suficientemente brutal, e essa honestidade é um de seus maiores acertos: não há aquela trilha sonora crescente quando uma revelação é feita, não há lágrimas rolando diante de lembranças doloridas, não há heroísmo individual. Tudo bem que algumas cenas parecem feitas para apresentação no Oscar (como um discurso de Rezendes pertinho do final), mas são pecados insignificantes diante da grandeza de "Spotlight" como cinema.

Criticado por alguns justamente por seu estilo quase minimalista de contar uma história tão bombástica, Tom McCarthy fez uma sucessão de escolhas brilhantes para seu filme. É discreto, é honesto e é sério, o que falta para muitos filmes que se pretendem relevantes. Tem um elenco coeso e homogêneo (vencedor do prêmio máximo do Sindicato de Atores). E jamais tenta chamar mais a atenção do que a história que conta: ao eleger sua trama como principal elemento em uma época em que grandes orçamentos e personagens já consagrados formam o menu básico da programação, o diretor/ator/roteirista já merece ser aplaudido, e sua indicação ao Oscar ao lado de Alejandro Gonzalez Iñarrítu (por seu belo mas exibicionista "O regresso") demonstra que, mesmo quando cai na armadilha do previsível, a Academia sabe reconhecer quando alguém tenta ser verdadeiro e original. Uma pena que, diante das estatuetas técnicas de "Mad Max: Estrada da Fúria", "Spotlight" tenha ficado com apenas dois prêmios (filme e roteiro). Merecia mais.