quarta-feira, 24 de agosto de 2016

NOSFERATU: UMA SINFONIA DO HORROR

NOSFERATU: UMA SINFONIA DO HORROR (Nosferatu, eine symphonie des grauens, 1922, Jofa-Atelier Berlin-Johannistal, 94min) Direção: W.F. Murnau. Roteiro: Henrik Galleen, romance "Drácula", de Bram Stoker. Fotografia: Fritz Arno Wagner. Figurino: Albin Grau. Produção: Enrico Dieckmann, Albin Grau. Elenco: Max Schreck, Gustav von Wangenheim, Greta Schroder. Elenco: 17/02/22

A imagem é forte o bastante para ser reconhecida até mesmo pelos fãs de cinema que nunca tiveram a oportunidade de assistir ao filme que lhe deu origem: o assustador Conde Orlok levanta-se, rígido e cadavérico, com seus afiados dentes de coelho, orelhas de morcego, careca e dotado de gigantescas unhas, do caixão onde descansa durante os dias. A cena, envolta por uma atmosfera claustrofóbica e um tom de pesadelo, já faz parte do inconsciente coletivo há pelo menos nove décadas, mas mantém-se como um dos mais brilhantes ícones visuais jamais criados pela sétima arte. Criado em conjunto pelo cineasta F.W. Murnau e pelo ator Max Schreck, o Conde Orlok é o protagonista de “Nosferatu, uma sinfonia do horror”, um filme lançado em 1922 e que, ao mesmo tempo, fez a glória de seu estúdio, o Prana, e o levou à falência, em mais uma prova inconteste de que a ironia e o cinema caminham de mãos dadas.
            
Não que o filme tenha sido um fracasso de bilheteria ou algo parecido, muito pelo contrário. Louvado pela crítica e abraçado pelo público, ele acabou vitimado por outro inimigo, muito mais perigoso do que estacas e a luz do sol: a Justiça. Explica-se: a intenção de Murnau era filmar uma adaptação do romance “Drácula”, escrita pelo irlandês Bram Stoker, publicado em 1897, mas teve seus planos barrados pela família do escritor, que não lhe deu permissão para levar o projeto adiante. Não se dando por vencido, ele resolveu, então, fazer algumas alterações na trama central (não muitas e bem mal disfarçadas) e vender seu filme como uma história diferente. Não colou. Logicamente todo mundo percebeu que o que estava na tela era a tradução em imagens do livro de Stoker. Resultado: um processo por violação de direitos autorais e uma ordem judicial de destruição de todas as cópias da obra. O estúdio não conseguiu lidar com a dívida e decretou falência, mas para a sorte de milhares de cinéfilos o filme não desapareceu como desejavam seus detratores. Muito pelo contrário: com o passar dos anos, “Nosferatu” acabou por tornar-se um dos mais adorados e imitados produtos do gênero, tendo merecido inclusive um desnecessário remake dirigido por Werner Herzog em 1978 – estrelado por Klaus Kinski e Isabelle Adjani, que reaproveita muitas de suas ideias visuais – e uma interessante homenagem pelo diretor E. Elias Merhige e pelo roteirista Steven Katz chamada “A sombra do vampiro” – que insinuava, em tom de humor, que o ator Max Schreck era um sanguessuga de verdade contratado por Murnau para dar maior veracidade às cenas imaginadas por ele.
          
 Logicamente a hipótese levantada pela brincadeira de Merhige e Katz não passa de hipótese, mas não é difícil imaginar de onde ele tirou tal ideia: realmente a atuação de Schreck é notável, transmitindo uma sensação de repulsa e putrefação como poucas vezes o cinema foi capaz – especialmente sem contar com os recursos modernos. Contando com a ajuda providencial da fotografia de Fritz Arno Wagner, que transforma cada rua em uma armadilha e cada montanha em uma representação do mal, Murnau construiu uma narrativa de ritmo ágil e tensão crescente, que oferece ao espectador um espetáculo que mistura com precisão um clima gótico e altas doses do expressionismo alemão, movimento do qual o cineasta era um dos maiores expoentes. Sustentado por uma trama forte e personagens marcantes (ainda que criados por Stoker e não pelo roteirista Henrik Galeen), Murnau extrai o máximo efeito de seus jogos de luz e sombras, fazendo deles personagens cruciais para a série de grandes momentos do filme: da primeira aparição do Conde, quase escondido em um túnel que leva à sua propriedade até seu célebre desfecho (que foge do final do livro em que foi baseado), “Nosferatu” é uma antologia de cenas visualmente bem arquitetadas e realizadas por um diretor inteligente e de grande talento.
         

Cinco anos depois de assinar “Nosferatu”, F.W. (de Friedrich Wilhelm) Murnau chegou à Hollywood, amparado pelo sucesso de outros filmes, como “A última gargalhada” (24) e as adaptações (dessa vez autorizadas) de “Tartufo”, de Moliére (25) e “Fausto”, de Goethe (26). Seu primeiro filme fora da Alemanha, “Aurora” (27), foi produzido para um grande estúdio, a Fox, e levou 3 Oscar na primeira cerimônia de entrega das estatuetas: um prêmio especial de produção artística e única (!!), atriz (Janet Gaynor, também premiada por outros dois filmes) e fotografia (o que comprova seu talento especial em imprimir um visual único à sua filmografia – outra prova disso seria a vitória, na mesma categoria, de seu último filme, “Tabu” (31), que estreou uma semana depois de sua morte em um acidente de carro).
           
 Mas, se existe um filme que resume à perfeição todo o perfeccionismo de Murnau em contar uma história de forma visual e cinética, esse filme é, sem dúvida, “Nosferatu”. A história do famigerado Conde que abandona seu castelo nos Montes Cárpatos em busca do pescoço da pura Ellen (Greta Schroder) – esposa de seu corretor imobiliário, Hutter (Gustav von Wangenheim) – é narrada sem privar o espectador de momentos máximos na história do cinema (e de quebra mantém, quase um século depois de seu lançamento, uma atmosfera tétrica e desconfortável). Uma obra-prima à qual se deve muito.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

O GABINETE DO DR. CALIGARI

O GABINETE DO DR. CALIGARI (Das cabinet des Dr. Caligari, 1920, Descla/Bioscop, 78min) Direção: Robert Wiene. Roteiro: Carl Mayer, Hans Janowitz. Fotografia: Willy Hameister. Música: Alfredo Antonini, Giuseppe Becce. Figurino: Walter Reinman. Direção de arte/cenários: Walter Reinman, Walter Rohrig, Hermann Warm/Hermann Warm. Produção: Rudolf Meinert, Erich Pommer. Elenco: Werner Krauss, Conrad Veidt, Friedrich Feher, Lil Dagover. Estreia: 26/02/20

Ao público contemporâneo, para quem filmes de horror precisam obrigatoriamente de sangue aos borbotões, assassinos mascarados e um susto a cada cinco minutos, uma obra como “O gabinete do Dr. Caligari” pode parecer uma comédia grotesca – e provavelmente sem muita graça. Mas em 1920, quando estreou na Alemanha, o filme de Robert Wiene – hoje um cineasta esquecido pelos compêndios de cinema – causou uma revolução estética das mais importantes na história da sétima arte. A partir dele – uma história fantástica que mistura assassinatos misteriosos, hipnotismo e loucura – teve início no cinema mundial uma série de obras de grande impacto visual e temático cuja herança pode ser sentida, em maior ou menor grau, em boa parte dos filmes do gênero lançados a partir de então – com influência extrema principalmente nos clássicos “filmes de monstro” da Universal Pictures, como “Drácula”, de Tod Browning e “Frankenstein”, de James Whale, ambos realizados mais de uma década depois.
            
Frequentemente ligado ao expressionismo alemão, “O gabinete do Dr. Caligari” na verdade vai além do movimento artístico nascido na Munique de 1912 ao extrapolar os limites do teatro e das artes plásticas e imaginar um universo particular na linguagem cinematográfica. Tendo como principal base o trabalho do pioneiro Georges Méliès – que fugia do realismo com suas criações altamente estilizadas e claramente fantasiosas – o filme de Wiene não se furta a recorrer a artifícios visuais que então soavam como altas inovações e que ainda hoje impressionam pela criatividade e ousadia. Não à toa, muitos críticos da época passaram a chamar a influência do filme em produções posteriores de “caligarismo” – em outras palavras, um expressionismo próprio do cinema.


           
Não deixa de ser irônico, porém, que as melhores ideias para a realização do filme não tenham sido de seu diretor – que assumiu a condução do projeto depois que Fritz Lang, que faria o clássico de ficção científica “Metrópolis” oito anos depois, recusou a oferta – mas sim de seu produtor, E. Pommer, que foi quem encomendou os cenários (inclinados, em escala fora de proporção e nitidamente criados para ressaltarem o efeito onírico da narrativa) aos expressionistas Hermann Warm, Walter Roehrig e Walter Reimann e quem impôs o final quase convencional – que, de certa forma, vai contra toda a rebeldia visual da história e que serve apenas para encerrar de forma menos heterodoxa um conto sombrio e perturbador que remetia ao autoritarismo prussiano da I Guerra Mundial (mais um toque do produtor Pommer) e antevia assustadoramente o destino da nação alemã sob o comando de Adolf Hitler. Talvez possa parecer exagero, mas a trama criada pelo roteirista Carl Mayer – a de um homem levado ao homicídio pelo controle mental que sofre de um mestre todo-poderoso – se encaixa perfeitamente como metáfora da lavagem cerebral orquestrada pelo nazismo.
           
 A trama é, levando-se em consideração todas as surpresas visuais, bastante simples: em conversa com um senhor de idade que se diz crente em entidades sobrenaturais, o jovem Francis (Friedrich Feher) conta os assustadores eventos que testemunhou um tempo antes, em companhia do melhor amigo, Alan (Hans Heinrich von Twardowski), na pequena cidade de Holstenwall. Visitada por uma feira de variedades, a localidade sente-se atraída pela presença do misterioso Dr. Caligari (Werner Krauss), que se apresenta como o mestre do vidente sonâmbulo Cesar (Conrad Veidt, tornado famoso por sua interpretação antológica). Segundo o veterano cientista, Cesar está dormindo há 26 anos ininterruptos, e só acorda para prever mortes (que realmente ocorrem logo em seguida). Uma das vítimas de tais premonições é o próprio Alan, mas Francis nem de longe desconfia de que o assassino é o próprio Cesar, cumprindo, inconscientemente, ordens de Caligari. Quando os dois sequestram Jane (Lil Dagover), sua namorada, cabe a ele resgatá-la e desmascarar Caligari.
            
O roteiro de Mayer é enxuto e dono de uma concisão admirável: em pouco mais de uma hora de duração, “O gabinete do Dr. Caligari” apresenta os personagens, expõe os conflitos, cria o suspense, atinge o clímax (quando Cesar carrega Jane por telhados com perspectivas visuais que sublinham a aura de pesadelo da história) e surpreende o espectador com um final que mostra claramente o objetivo do produtor em equilibrar os conceitos de filme de arte e cinema comercial. As atuações a um passo da caricatura encaixam-se perfeitamente no tom excessivo e teatral da proposta, que estabeleceu de forma inteligente os parâmetros que viriam a ser seguidos desde então. Não é um filme para ser visto com olhos de hoje, mas sim como uma das obras fundamentais dos primórdios do cinema de horror. Como tal, é imprescindível.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

O NASCIMENTO DE UMA NAÇÃO


O NASCIMENTO DE UMA NAÇÃO (Birth of a nation, 1915, David W. Griffith Corp., 165min) Direção: D.W. Griffith. Roteiro: D.W. Griffith, Frank E. Woods, Thomas Dixon Jr., romance e peça "The Clansman: an historical romance of Ku Klux Klan, de Thomas Dixon Jr.. Fotografia: G.W. Bitzer. Montagem: D.W. Griffith, Joseph Henabery, James Smith, Rose Smith, Raoul Walsh. Música: Joseph Carl Breil, D.W. Griffith. Produção: D.W. Griffith, H.E. Aitken. Elenco: Lilian Gish, Mae Marsh, Henry B. Walthall, Miriam Cooper, George Siegmann, Joseph Henabery. Estreia: 08/02/15

Pode um filme com uma ideologia repulsiva e desprezível tornar-se um dos maiores clássicos da história do cinema, mantendo-se como uma das grandes influências da sétima arte mesmo depois de mais de cem anos de sua realização? Se tal filme chamar-se “O nascimento de uma nação” a resposta é, infelizmente, positiva. Lançada por D.W. Griffith em 1915 – quando o cinema ainda engatinhava e a Guerra Civil americana ainda não estava cicatrizada na alma dos EUA – a ambiciosa adaptação para as telas da peça de teatro “The Clansman: na historical romance of the Ku Klux Klan”, de Thomas Dixon é um espetáculo admirável de técnica e narrativa, mas tem como base um viés tão explicitamente racista que não é de surpreender que mesmo em seu lançamento – quando o conceito de politicamente correto ainda inexistia – tenha sido alvo de protestos tão furiosos e indignados, especialmente da Associação Nacional para o Avanço das Pessoas de Cor (NAACP). O tom francamente preconceituoso da história de Dixon, que chega a usar atores brancos com o rosto pintado de preto para interpretar negros, é, sem dúvida, aviltante e monstruoso, mas isso não impediu seu imenso sucesso de bilheteria – uma prova inconteste de que o público já estava mais do que pronto para encarar filmes que ultrapassassem poucos minutos.

No caso de “O nascimento de uma nação”, bem mais do que poucos minutos. Alcançando a marca de 193 minutos de duração, o filme de Griffith é um épico monumental, que mostrou, pela primeira vez à plateia, inovações narrativas e técnicas que serviriam de base para toda e qualquer produção subsequente. Utilizando de forma exemplar movimentos de câmera até então inéditos e ideias brilhantes como a montagem paralela e a alternância de sequências, o cineasta (com 39 anos à época das filmagens) construiu um verdadeiro manual de técnicas cinematográficas hoje aplicadas à exaustão tanto por Hollywood como pelo resto do mundo. Visto com olhos modernos, o filme parece mais uma curiosidade do que exatamente genial do ponto de vista estético, mas basta contextualizá-lo para se perceber, sem muito esforço, os motivos que o levam a continuar sendo referência e base do cinema moderno apesar dos distorcidos valores éticos de sua trama.


Os absurdos já começam no texto que abre o filme, que debita à chegada forçada dos negros americanos aos EUA a semente da discórdia que resultaria, na segunda metade do século XIX, na Guerra de Secessão que contrapôs o Norte abolicionista e o Sul escravocrata – pano de fundo, como se sabe, do maior filme de todos os tempos, “...E o vento levou”. Essa guerra civil é o que empurra a trama criada por Dixon, um pregador de grande fama no país no início do século e que criou seu livro (e posterior peça de teatro) como forma de engrandecer e louvar os atos da Ku Klux Klan, que, segundo seu ponto de vista, salvou o Sul da anarquia do domínio negro depois da conclusão do conflito. Tendo em vista sua ideologia, é fácil compreender os mecanismos dramáticos que levam o roteiro a fazer o público comprar a ideia de que os violentos cavaleiros de capuz branco são, na verdade, os heróis da história. Não é de admirar, portanto, o choque das plateias mais esclarecidas, que viam diante de seus olhos, menos de 50 anos depois do final da guerra, o mais claro e explícito retrato de racismo jamais cometido na história do cinema até hoje. Felizmente, para Griffith, seu talento parecia maior que suas ideias equivocadas – provavelmente herdadas de seu pai, um soldado do Norte derrotado – e mesmo o fracasso de seu filme seguinte, “Intolerância”, de 1916 (praticamente um pedido público de desculpas) não o impediu de permanecer como um nome imprescindível para o desenvolvimento do cinema como arte – não à toa, ele fez parte, juntamente com Charles Chaplin, Douglas Fairbanks Jr. e Mary Pickford (a quem descobriu, aliás) na criação da United Artists em 1919.

Mas, afinal, o que faz de “Nascimento de uma nação” um filme tão nocivo e revoltante a ponto de seu diretor ter que realizar um super-produção tão cara quanto “Intolerância” somente para implorar perdão? Aparentemente, sua trama é simples e nada ofensiva: a família Stoneman vive no Norte dos EUA e é liderada pelo político Ted (Robert Harron), que se identifica com os ideais abolicionistas do presidente Abraham Lincoln (Joseph Henabery). Por outro lado, no Sul do país, vivem os Cameron, escravocratas convictos que enviam seus três filhos homens para lutarem na guerra e defender seus interesses. Benjamin (Henry B. Walthall), o mais velho dos Cameron, torna-se Coronel, mas não consegue impedir a derrota para o sul, o que acaba por dar aos negros a liberdade e uma representatividade inédita no governo – para desespero dos vencidos. O assassinato de Lincoln – que tentava manter a paz e a ordem após a guerra – altera de vez os ânimos e dá início à segunda (e mais inacreditável) parte da trama.

Com maioria no Congresso, os negros passam a ser retratados pelo filme como ignorantes, indolentes, obcecados pelo poder, fascistas e incompetentes. Como seu maior representante, surge Silas Lynch (George Siegmann), um mulato que assume um cargo de liderança com o apoio de Ted Stoneman e se apaixona por sua filha única, Elsie (Lilian Gish), com quem tem intenção de casar-se. Acontece que Elsie é apaixonada por Benjamin Stoneman, a quem conheceu no hospital quando trabalhava de enfermeira voluntária. O romance acaba quando a jovem descobre que sua alma-gêmea é um dos líderes de uma organização secreta criada pelos brancos do Norte como retaliação à dominação negra no país – mas faz as pazes com ele quando seu grupo a salva de ser obrigada a casar-se com Lynch, um homem violento e cruel que não aceita suas recusas. É a Ku Klux Klan quem irá reestabelecer a ordem perdida a partir do momento em que os negros tomaram o poder.

E é assim o roteiro de Griffiths – escrito em parceria com Frank E. Woods – trata a história: os negros são descritos de forma estereotipada, caricata e francamente antipática, enquanto os homens brancos do Norte aparecem em cena como heróis fulgurantes, que surgem na hora certa para impedir que suas mulheres, crianças e velhos sejam submetidos a atrocidades vindas de “um povo inferior”. A retórica visual é grandiloquente, impactante e, fosse ela a serviço de uma visão menos absurda, louvável. O problema é que toda essa categoria e inteligência se perdem, diante de um discurso repugnante e ofensivo. “O nascimento de uma nação” é, sem dúvida, um grande filme, indispensável até. Mas seria ainda maior e mais genial se não colaborasse com a intolerância que seu próprio diretor iria criticar em sua obra seguinte.

sexta-feira, 11 de março de 2016

THE NORMAL HEART

THE NORMAL HEART (The normal heart, 2014, HBO Films, 132min ) Direção: Ryan Murphy. Roteiro: Larry Kramer, peça teatral de sua autoria. Fotografia: Danny Moder. Montagem: Adam Penn. Música: Cliff Martinez. Figurino: Daniel Orlandi. Direção de arte/cenários: Shane Valentino/Andrew Basemann, Amanda Carroll. Produção executiva: Jason Blum, Dante Di Loreto, Dede Gardner, Ryan Murphy, Brad Pitt. Produção: Scott Ferguson, Alexis Martin Woodall. Elenco: Mark Ruffalo, Julia Roberts, Matt Bomer, Taylor Kitsch, Jim Parsons, Alfred Molina, Jonathan Groff, Dennis O'Hare, BD Wong, Corey Stoll. Estreia: 25/5/14

Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator Coadjuvante em Minissérie ou Filme Para a TV (Matt Bomer)

Em 2014, Matthew McConaughey e Jared Leto levaram os Oscar de melhor ator e ator coadjuvante respectivamente por seus elogiados desempenhos em "Clube de Compras Dallas", um filme no máximo razoável que, graças à força de suas interpretações chegou a concorrer à cobiçada estatueta de melhor filme. Se tivesse tido a sorte de ter sido produzido para o cinema e não para a televisão - através da HBO - a adaptação da premiada peça teatral de Larry Kramer "The normal heart" poderia ter tido um destino ainda mais feliz. Dirigido por Ryan Murphy - criador de várias séries televisivas de sucesso, como "Glee" e "American Horror Story" - o filme, que estreou nos EUA poucos meses depois da cerimônia que consagrou Leto e McConaughey, compartilha com o filme de Jean-Marc Vallé (que também ganhou o Oscar de maquiagem) o mesmo tema - o início da epidemia da AIDS, no princípio da década de 80 - mas acaba se revelando muito mais satisfatório, tanto em termos emocionais quanto informativos. Com um excelente elenco liderado por Mark Ruffalo e Julia Roberts (casada com o diretor de fotografia do filme, Danny Moder), "The normal heart" segue a tradição de grandes obras sobre o tema, como "E a vida continua", "Meu querido companheiro" e "Angels in America", mas vai além deles ao ser o primeiro a explicitar sem medo a sexualidade de seus personagens centrais.

Baseado em personagens e histórias reais - alterados para efeito de maior liberdade dramática pelo autor Larry Kramer - "The normal heart" não tem medo de deixar bem claro ao espectador que seus protagonistas são gays com vida sexual ativa e despreocupada, ao contrário de obras criticadas pela comunidade homossexual (como "Filadélfia") em que os personagens transmitem a impressão de viver em quase celibato. A trama se concentra principalmente em Ned Weeks (Mark Ruffalo), escritor abertamente gay que se torna um determinado ativista na busca por informações e tratamentos para a então iniciante epidemia da AIDS nos EUA. Ainda chamada de "câncer gay" por médicos desconhecedores de detalhes sobre suas formas de transmissão e metabolismo, a doença chama a atenção da infectologista Emma Brookner (Julia Roberts), que se une a Weeks na tentativa de formar uma equipe de cidadãos interessados em ajudar novos pacientes. Cada vez mais apavorado com o crescente número de vítimas - boa parte deles seus conhecidos - o escritor incorre na ira do governo ao acusá-lo de ignorar os números e impedir o controle da doença. A seu lado, fica seu incansável namorado, o jornalista Felix Turner (Matt Bomer), a estoica médica (que precisa mover-se em uma cadeira de rodas em consequência de uma poliomielite) e alguns poucos amigos que relevam seus métodos raivosos de atacar as autoridades. Nem mesmo seu irmão mais velho, o influente advogado Ben (Alfred Molina) escapa de suas violentas acusações - e tudo fica ainda pior quando Felix se revela portador do vírus.


Começando sua história em 1981 e atravessando uma década inteira de desesperadoras tentativas do protagonista em se fazer ouvir ou acreditar - nem mesmo a própria comunidade gay aceitava suas ideias "absurdas" de diminuir a promiscuidade para evitar o contágio nos primeiros estágios da epidemia - o roteiro de Larry Kramer se equilibra com sucesso entre os dramas pessoais de Ned e Felix (um romance verossímil e que não prescinde de algumas tórridas cenas de amor) e sua exaustiva trajetória em direção à atenção da população em relação a uma das maiores epidemias da história da humanidade. Com uma edição precisa e uma trilha sonora acertada - nunca acima do tom, mas sempre presente quando necessária - "The normal heart" mostra um Ryan Murphy surpreendentemente sóbrio na condução da trama, sem os exageros habituais de suas séries e sem a insegurança que era o maior pecado de "Comer, rezar, amar", sua estreia no cinema. As cenas dramáticas surgem na hora certa e sem excessos, apenas como ilustração dramática de todo o trágico cenário que o roteiro desenha através dos acontecimentos e dos diálogos inteligentes que não hesitam em apontar o dedo para o governo norte-americano e a hipocrisia e o conservadorismo assassino do período Reagan. Assustador e por vezes revoltante, o filme também se beneficia da garra de seus atores.

Se Julia Roberts surge como um chamariz para o grande público - desprovida de glamour e de seu largo sorriso - é o elenco masculino quem acaba por destacar-se, em especial Mark Ruffalo e Matt Bomer, ambos premiados por suas interpretações. Ruffalo foi eleito o melhor ator de televisão no Satelitte Awards e Bomer levou pra casa um Golden Globe de melhor ator coadjuvante em minissérie ou filme televisivo, e fica difícil dizer qual dos dois está melhor em cena. Enquanto Ruffalo surpreende em uma atuação que equilibra fúria e delicadeza, Bomer se revela um ator de primeira linha ao dar vida a um homem que vê sua rotina radicalmente alterada por uma doença devastadora - sua transformação física é impressionante e, ao contrário do que acontece muitas vezes, trabalha a favor da profundidade de seu personagem, e não contra. É quase impossível segurar as lágrimas com seu desempenho - uma prova inconteste de sua imensa qualidade.

Tendo como um dos produtores executivos o ator Brad Pitt, e contando ainda no elenco com rostos conhecidos do público cativo da televisão, como Jim Parsons (de "Big Bang Theory"), Jonathan Groff (de "Looking"), Taylor Kitsch (da segunda temporada de "True detective") e Dennis O'Hare (de "American Horror Story"), "The normal heart" é um dos melhores filmes de 2014 - e pouco importa que não tenha sido feito diretamente para o cinema. No final das contas, isso é o que menos irá contar para todos que se permitirem um pouco de emoção real e honesta.

quinta-feira, 10 de março de 2016

RAUL: O INÍCIO, O FIM E O MEIO

RAUL: O INÍCIO, O FIM E O MEIO (Raul: o início, o fim e o meio, 2012, A.F. Cinema e Vídeo/Elixir Entretenimento, ) Direção: Walter Carvalho. Roteiro: Walter Gudel. Fotografia: Lula Carvalho. Montagem: Pablo Ribeiro. Produção: Denis Feijão. Estreia: 23/3/12

Não é preciso ser fã do rock indefinível criado por seu protagonista para se gostar de "Raul: o início, o fim e o meio", documentário de Walter Carvalho sobre um dos mais polêmicos astros da música brasileira, que escapava facilmente de qualquer rótulo que porventura o mercado quisesse lhe impor. Basta gostar de história da cultura popular nacional - ou de documentários inteligentes - para se deixar envolver. Ao contrário do filme anterior de Carvalho - um dos mais renomados diretores de fotografia do cinema nacional - que contava a vida do roqueiro Cazuza em tom ficcional, esse seu trabalho é resultado de uma pesquisa que consumiu mais de dois anos de sua vida, além de entrevistas com mais de 90 pessoas que tiveram algum tipo de contato com Seixas. O resultado é um filme emocionante, engraçado, nostálgico e revelador, ainda que felizmente não tenha a intenção de "definir" seu personagem principal.

Inserido em uma tradição recente da cinematografia nacional - que vem trazendo à luz nomes esquecidos e/ou injustiçados do cancioneiro popular brasileiro, como "Loki" (sobre Arnaldo Baptista) e "Ninguém sabe o duro que eu dei" (genial trabalho sobre Wilson Simonal) - "Raul: o início, o fim e o meio" tem a seu favor o carisma de seu investigado, um artista cuja obra rica e surpreendente ainda hoje mantém-se viva graças a legiões de fãs apaixonados e à contemporaneidade de sua música, que se presta a inúmeras leituras. É impossível para qualquer brasileiro nunca ter escutado ou cantarolado Seixas, e essa espécie de "inconsciente coletivo" apenas ajuda o filme, que, através de depoimentos de gente que realmente tem o que contar sobre o artista, cria um mosaico tão vasto sobre sua personalidade que, ao término da sessão não apenas um Raul fica na mente do público e sim vários: tudo depende do olho do espectador.


Entremeadas às canções saudosas de Seixas - e a seleção de Carvalho é fenomenal - existe depoimentos de todas as suas companheiras (e, com a exceção de sua primeira mulher, Edith, todas ainda mantém um perceptível carinho por ele), de seus amigos de infância, de suas filhas, de fãs, de colegas de trabalho e, como não poderia deixar de ser, de dois polêmicos parceiros: Paulo Coelho e Marcelo Nova. Enquanto o primeiro dá um longo depoimento sobre sua relação com Raul - e não tem medo aí de assumir que apresentou a eles todas as drogas possíveis, além de conduzi-lo ao estranho mundo da contracultura - o segundo tem que lidar com as acusações de alguns fãs e amigos do compositor de que foi o responsável por sua morte precoce (enquanto outras vozes, como Caetano Veloso, o defendem, acreditando em seu relacionamento de admiração genuína). Doente, Seixas morreu aos 44 anos - mas aparentando bem mais - depois de uma tourné de 50 shows com Nova (que o resgatou de um triste "chega pra lá" da indústria fonográfica).

Como filme, "Raul: o início, o fim e o meio" é o que se propõe a ser: um documento sobre um dos mais criativos e verdadeiros artistas pop do Brasil, que misturou Elvis Presley a Luiz Gonzaga sem jamais deixar de imprimir sua personalidade forte. E é inteligente ao optar por não chegar a nenhuma conclusão, o que seria no mínimo incoerente com a própria arte de Raul, que se intitulava uma "metamorfose ambulante". Seja como "carimbador maluco" (que o apresentou a uma nova geração de fãs), como "maluco beleza" ou como o criador de uma "sociedade alternativa", ele deixou sua marca indelével na cultura musical nacional. E não deixa de ser uma obrigação assistir à sua história. Ele é, definitivamente, a mosca que não para de pousar na nossa sopa (que o diga Paulo Coelho em uma cena destinada à antológica do filme). E nós não cansamos desse zunido...

quarta-feira, 9 de março de 2016

CORAÇÕES DE FERRO

CORAÇÕES DE FERRO (Fury, 2014, Columbia Pictures, 134min) Direção e roteiro: David Ayer. Fotografia: Roman Vasyanov. Montagem: Jay Cassidy, Dody Dorn. Música: Steven Price. Figurino: Maja Meschede, Anna B. Sheppard. Direção de arte/cenários: Andrew Menzies/Lee Gordon, Malcolm Stone. Produção executiva: Anton Lessine, Alex Ott, Brad Pitt, Sasha Shapiro, Ben Waisbren. Produção: David Ayer, Bill Block, John Lesher, Ethan Smith. Elenco: Brad Pitt, Logan Lerman, Shia LaBeouf, Michael Peña, Jon Bernthal, Jim Parrack, Jason Isaacs. Estreia: 15/10/14

Sim, esse é mais um daqueles filmes que retratam a II Guerra Mundial sob a ótica dos aliados - leia-se norte-americanos - e que fazem a alegria dos pseudointelectuais que adoram reclamar da forma com que Hollywood romantiza o conflito a favor dos EUA. E sim, não foge muito da tradicional receita das produções do gênero, lembrando principalmente o excepcional "O resgate do soldado Ryan", obra-prima de Steven Spielberg lançada em 1998. Escrito e dirigido por David Ayer - autor do roteiro do premiado "Dia de treinamento" (2000) e da vergonhosa adaptação para as telas do seriado televisivo "SWAT" (2003) - "Corações de ferro" tem a seu favor, porém, a despeito de sua quase previsibilidade, um elenco impecável e um tom que se equilibra com sucesso entre a violência e a poesia. Com uma renda abaixo do esperado nas bilheterias - pouco mais de 80 milhões, pouco se considerada a presença de um astro do calibre de Brad Pitt encabeçando os créditos - o filme falhou também em ser lembrado pelas cerimônias de premiação da temporada 2014, sendo ignorado até mesmo nas categorias técnicas, onde normalmente filmes do estilo encontram espaço.

Brad Pitt - que também é um dos produtores executivos do filme - lidera o elenco de "Corações de ferro", mas generosamente divide seu espaço em cena com outros cinco atores mais jovens, que interpretam os subordinados de seu Sargento Collier na missão de enfrentar os nazistas em plenas linhas inimigas, já nos meses finais da guerra. Experiente e quase cínico, Collier se torna o mentor e protetor do introvertido Norman Ellison (Logan Lerman), que entra na batalha por acaso, sendo escalado para ser um dos pilotos do tanque "Fury" - um dos pouco veículos ainda em funcionamento quando a trama tem início. Extremamente jovem e sem histórico em batalhas campais, Norman a princípio é hostilizado e desprezado pelos colegas (como convém a uma boa história do gênero), mas com a amizade do sargento e o desenrolar dos acontecimentos (quando é obrigado a tomar parte de momentos sangrentos e chocantes), aos poucos torna-se ciente de seu papel no jogo. No meio do caminho, descobre - da pior maneira possível - que a guerra não escolhe vítimas.


O roteiro de David Ayer não chega a ser um primor de criatividade, mas ao menos tem o mérito de proporcionar a seus atores alguns bons diálogos e algumas cenas bastante interessantes, principalmente quando dá um tempo em suas sequências de guerra - bem filmadas, mas nada excepcionais - e concentra-se na forma como cada um dos soldados lida com a trágica situação em que se encontram. Como dita o clichê, existe o soldado cristão Bible (vivido por um discreto e eficiente Shia LaBeouf), o latino Gordo (Michael Peña), o fanfarrão violento Coon-Ass (Jon Bernthal, da série "The walking dead") e o boa-gente Binkowski (Jim Parrack). Ayer não se dá muito ao trabalho de desenvolver com profundidade nenhum deles e nem dar-lhes um passado, mas ainda assim fica difícil não se deixar envolver com eles e seus medos diante de um inimigo real e imediato. Ao contar (mais) uma história de perda de inocência, o diretor disfarça a quase burocracia do roteiro com sua segurança em comandar sequências bem orquestradas de batalha, valorizadas pela fotografia e pelo trabalho de som, que mergulham o espectador no meio do conflito, como é mandatório em um filme de guerra que se preze.

Mesmo que não seja um triunfo completo e não esteja destinado a tornar-se um clássico do gênero, "Corações de ferro" não decepciona aos fãs nem de obras sobre a II Guerra Mundial nem de Brad Pitt. Apesar de contida e discreta, a atuação do ator é um dos maiores destaques do filme de Ayer, mesclando com sutileza sentimentos díspares como fúria, desespero, ternura e firmeza sem nunca deixar de convencer a plateia de que é realmente um homem comum tornado herói diante de circunstâncias extremas. Suas cenas com Logan Lerman - cujo personagem dócil e encantador ele acaba por adotar informalmente, apesar de saber que tais características estão com as horas contadas - são as melhores do filme. Apesar da abundância de lugares-comuns, "Corações de ferro" é um filme de guerra com alma, o que lhe dá um diferencial muito bem-vindo em relação a seus semelhantes. Impossível ficar insensível a suas intenções.

terça-feira, 8 de março de 2016

CÁSSIA

CÁSSIA (Cássia, 2014, Midgal Filmes,120min) Direção e roteiro: Paulo Henrique Fontenelle. Fotografia: Vinícius Brum. Montagem: Paulo Henrique Fontenelle. Música: Cássia Eller. Produção executiva: Alex Sander Silva. Produção: Iafa Britz. Estreia: 19/10/14

A morte da cantora Cássia Eller, no finalzinho de 2001, no auge do sucesso e da popularidade, pegou o Brasil inteiro de surpresa - um choque quase tão brutal quanto o falecimento de Elis Regina, em janeiro de 1982. A comparação não é gratuita: em ambos os casos houve a interrupção de uma carreira brilhante com muito ainda a oferecer, elogios unânimes de crítica e público e o desrespeito por parte da imprensa, que irresponsável e covardemente, buscou no sensacionalismo de uma tragédia o alimento para intermináveis boatos a respeito de suas causas. Sem querer aprofundar-se na morbidez da mídia em relação ao caso e sim celebrar a vida de Eller e seu imenso talento em encantar, transgredir e impressionar positivamente todos que porventura cruzassem seu caminho, o cineasta Paulo Henrique Fontenelle presenteou o público com o documentário "Cássia", um trabalho fascinante, emocionante e verdadeiro sobre uma das artistas mais irreverentes e surpreendentes da música popular brasileira de todos os tempos.


Seguindo uma narrativa cronológica que ajuda a situar a carreira da cantora àqueles que a conheciam apenas por seus trabalhos mais famosos - a saber, os álbuns "Com você... meu mundo ficaria completo" (em que flertava descaradamente com a MPB, em conflito com a alma roqueira dos primeiros discos) e "Acústico MTV" (sua consagração absoluta ao misturar Piaf, Chico Buarque, Nando Reis, Gilberto Gil e Mutantes) - o filme de Fontenelle começa mostrando os primeiros passos de Eller na música, ainda em Brasília, e acompanha, através de depoimentos de amigos, colegas, jornalistas e dela própria (através de imagens de arquivo e de cartas lidas em off pela atriz Malu Mader) sua trajetória rumo ao sucesso profissional. De aparência agressiva e vozeirão potente, Cássia primeiro conquistou um público mais afeito a seu jeito transgressor, assumidamente apaixonado pela forma com que ela mostrava no palco uma personalidade radicalmente distante de sua timidez quase patológica, rompida apenas pela intimidade de seus leais amigos. Aos poucos, foi sofisticando o repertório, variando os estilos musicais a que punha a voz e quando se deu conta já era matéria de revistas e jornais, que invariavelmente a chamavam de uma das maiores revelações da música nacional. Daí para a consagração definitiva foi um pulo. E junto com o sucesso em proporções jamais imaginadas, aquele velho e conhecido problema: a roda-viva da fama.


A leveza com que Cássia levava sua carreira transformou-se, da noite para o dia, em um peso que ela percebeu não ter forças para carregar. Ao mesmo tempo em que era amada desesperadamente pelos fãs - os antigos, os novos e os ocasionais - e vivia uma fase de plena felicidade ao lado da companheira Maria Eugênia e do filho Francisco, a cantora entrava em um esquema pesadíssimo de trabalho, uma rotina que ela tentava quebrar fazendo shows às escondidas em cidades do interior (para desespero de seu empresário). Como acontece com frequência no mundo musical - histórias como as de Kurt Cobain e Amy Winehouse (coincidentemente também tema de documentários feitos à mesma época) - o mundo de Eller, já completo, não soube lidar com a pressão da fama em escala tão gigantesca. E o desfecho que todo mundo acha que conhece é finalmente revelado por pessoas que realmente testemunharam o fim desde o seu princípio. E é aí que reside a maior força do documentário de Fontenelle: dar voz a quem tem algo a dizer e não a quem especula ou quer vender revistas. Pela primeira (e definitiva) vez a história verdadeira sobre o que aconteceu nos últimos dias de Cássia é contada - e, para alívio geral, a narração foge do sensacionalismo barato e do sentimentalismo fácil. É jornalismo puro. Do mais sincero.

Os minutos derradeiros de "Cássia" merecem um capítulo à parte. O documentário mostra a luta de Maria Eugênia pela guarda de Francisco - reivindicada pelo pai da cantora, com quem ela nem mantinha a melhor das relações. Por pura e simples ganância, o avô do menino buscava uma forma de usufruir de seu patrimônio e enfrentou uma batalha judicial contra a companheira de Cássia, que tinha a seu lado a opinião pública, os amigos da artista e o próprio menino - além do desejo expresso de Eller para que sua família se mantivesse unida caso algo lhe acontecesse (um pressentimento funesto, infelizmente tornado realidade). Fontenelle mostra com clareza a forma com que, mesmo sem querer, uma das cantoras mais insubordinadas a surgir no Brasil conseguiu furar o bloqueio do conservadorismo ao abrir um precedente legal para adoção de crianças por pais (e mães) homossexuais. Mais um tapa de sinceridade e espontaneidade na cara de um país que ainda não a mostrava totalmente e foi obrigado a aplaudir uma mulher sem papas na língua, que adorava subir ao palco e desafiar o status quo, que não tinha medo de expor sua alma e seu coração quando cantava e que principalmente uniu vários tipos de público ao misturar samba, rock, mpb, hip hop, Beatles, Nirvana e Zé Ramalho em um mesmo irresistível balaio musical.

"Cássia" é uma belíssima homenagem à sua musa. Sóbrio, respeitoso, honesto e generoso ao mostrar ao grande público a mulher delicada, terna e suave que existia debaixo de uma armadura de irreverência e deboche. Mas é, acima de tudo, um presente inestimável a todos aqueles que ainda se deixam levar por sua inconfundível voz sempre que ela surge, potente e imprevisível. Para ver, rever sempre e, mais do que tudo, ouvir com muita saudade.