domingo, 25 de junho de 2017

FAHRENHEIT 451

FAHRENHEIT 451 (Fahrenheit 451, 1966, Anglo Enterprises, 112min) Direção: François Truffaut. Roteiro: François Truffaut, Jean-Louis Richard, romance de Ray Bradbury. Fotografia: Nicolas Roeg. Montagem: Thom Noble. Música: Bernard Herrmann. Figurino: Tony Walton. Direção de arte/cenários: Syd Cain. Produção executiva: Miriam Brickman. Produção: Lewis M. Allen. Elenco: Oskar Werner, Julie Christie, Cyril Cusack, Anton Diffring. Estreia: 07/9/66 (Festival de Veneza)

Em 1953, o escritor Ray Bradbury imaginou um futuro distópico onde livros seriam proibidos pelo governo e incinerados pelos bombeiros, impedindo a população a ter acesso a qualquer palavra escrita. Alguns anos mais tarde, seu romance, batizado de "Fahrenheit 451" - em teoria, a temperatura necessária para a combustão das publicações - chegou às mãos do francês François Truffaut, notoriamente avesso a ficções científicas, e transformou completamente a opinião do célebre cineasta. Apaixonado pelo conceito da trama concebida por Bradbury e certo de que poderia fazer dela um filme memorável, Truffaut passou os próximos seis anos em busca de financiamento para o projeto. Nascia então seu primeiro - e único - filme falado em inglês. Lançado no Festival de Veneza de 1966, "Fahrenheit 451" é um clássico por excelência: inteligente, perturbador e emocionante, se mantém como uma crítica feroz ao totalitarismo ao mesmo tempo que convida o público a uma poética homenagem à literatura e seu poder transformador.

Antes de chegar às telas, porém, "Fahrenheit 451" mostrou-se um desafio dos mais trabalhosos para o inveterado cinéfilo, colaborador assíduo do prestigioso "Cahièrs du Cinéma" e já consagrado por filmes como "Os incompreendidos" (59) e "Jules e Jim: uma mulher para dois" (62). Não apenas o financiamento demorava a sair, mas também seu elenco dos sonhos parecia impossível de escalar. Para os dois principais papéis femininos, por exemplo, Truffaut queria a francesa Jean Seberg e a americana Tippi Hedren, mas viu seu desejo frustrado em dose dupla: Hedren estava ocupada com Alfred Hitchcock e Seberg (estrela do seminal "Acossado", de Jean-Luc Godard) foi considerada um nome pouco comercial pelos produtores. Nem mesmo Jane Fonda acertou sua participação e a contratação de Julie Christie para ambos os papéis (pela metade do cachê cobrado então pela atriz), ao contrário de ajudar, só complicou ainda mais a situação: sua presença causou a defecção do ator Terence Stamp - escolhido para interpretar o protagonista, Montag. Ex-namorado de Christie, o ator inglês não ficou confortável com a ideia de trabalhar com ela - especialmente quando havia a forte possibilidade de, fazendo dois personagens em cena, a bela Christie roubar a atenção. O resultado foi uma tremenda dor de cabeça aos produtores, que passaram a cogitar nomes tão diversos quanto Montgomery Clift, Marlon Brando, Paul Newman, Jean-Paul Belmondo, Charles Aznavour e Peter O'Toole - até que Truffaut finalmente bateu o martelo com Oskar Werner... e se arrependeu amargamente.





Não foi a primeira vez que cineasta e ator trabalharam juntos - ambos foram parte fundamental do sucesso de "Jules e Jim". Mas certamente Truffaut jamais imaginaria que a parceria outrora tão feliz se tornaria motivo de tanto desgosto. Com visões completamente opostas a respeito da forma como retratar o bombeiro Montag - personagem principal e que serve de ponte entre o filme e o público -, diretor e ator entraram em frequente rota de colisão durante as filmagens, e o próprio Truffaut declarou posteriormente que só não chegou a ponto de desistir do projeto devido à sua paixão pela história e pelo tempo que havia gasto na pré-produção. A situação ficou tão delicada que os dois chegaram a ficar sem dirigir a palavra um ao outro durante as duas últimas semanas de trabalho - some-se a isso uma crise nervosa de Julie Christie e as dificuldades do diretor em comunicar-se em inglês enquanto trabalhava em Londres e chega a ser quase um milagre que "Fahrenheit 451" tenha sido completado - e indo ainda mais longe, tenha ficado tão bom. Com o roteiro escrito em inglês por Truffaut e Jean-Louis Richard (que não dominavam o idioma e não ficaram totalmente satisfeitos com o resultado final), a adaptação do romance de Bradbury acerta em todos os aspectos - como cinema, como crítica social e como transposição de uma obra literária para as telas.


A criatividade de Truffaut começa já nos créditos de abertura: uma vez que no universo proposto pelo roteiro a leitura é algo proibido, não há letreiros e sim uma narração em off apresentando o elenco e a equipe técnica. Logo em seguida, o público passa a conhecer uma sociedade opressiva e totalitária, onde a população vive à mercê de um governo que proíbe o consumo de livros - e incentiva as denúncias contra aqueles que desafiam as leis. Nesse universo quase asséptico intelectualmente, a única função do corpo de bombeiros é justamente incinerar todos os livros descobertos e impedir que outros meios de comunicação senão a televisão sejam acessíveis como meio de informação. O protagonista, vivido por Oskar Werner, é Guy Montag, um desses bombeiros, um profissional dedicado e à espera de uma promoção que está em vias de chegar. E é justamente nesse ponto de sua carreira que Montag é surpreendido por um novo sentimento: fascinado pela bela Clarisse (Julie Christie), ele se vê subitamente curioso em conhecer o prazer da leitura, para desespero de sua mulher, a fútil Linda (também Christie). Tentado a mergulhar cada vez mais em um novo ambiente (onde o livre-pensar é uma realidade e o idealismo intelectual é capaz de forjar mártires orgulhosos), Montag descobre que seus fechados horizontes podem transformar-se em infinitas possibilidades - mas, para isso, precisa escolher entre a vida que leva e os perigos do não-conformismo.

Visualmente interessante - ainda que pareça um tanto datado - e contado em ritmo fluido e envolvente, "Fahrenheit 451" é uma obra-prima. Nem mesmo os embates dos bastidores foi capaz de minar o que há de mais brilhante no filme: sua mensagem de amor à liberdade e à literatura. Um pouco incômoda em seus momentos iniciais - até que a plateia finalmente compreenda exatamente o que está acontecendo - e fascinante em seu terço final, quando Montag descobre um novo caminho para sua vida, a obra de Truffaut sobrevive ao tempo como uma das mais importantes ficções científicas do cinema moderno (mesmo que abra mão de alguns elementos icônicos do gênero, como a violência e os efeitos visuais abundantes, que transformariam os filmes das décadas seguintes mais e mais parecidos com videogames do que com cinema). Felizmente a ideia de Mel Gibson em refilmá-lo não vingou: dificilmente alguém seria capaz de ser tão competente em transmitir as ideias do romance de Bradbury do que Truffaut foi em seu único filme em língua inglesa.

sábado, 24 de junho de 2017

ELYSIUM

ELYSIUM (Elysium, 2013, TriStar Pictures, 109min) Direção e roteiro: Neill Blomkamp. Fotografia: Trent Opaloch. Montagem: Julian Clarke, Lee Smith. Música: Ryan Amon. Figurino: April Ferry. Direção de arte/cenários: Philip Ivey/Peter Lando. Produção executiva: Sue Baden-Powell. Produção: Bill Block, Neill Blomkamp, Simon Kinberg. Elenco: Matt Damon, Jodie Foster, Sharlto Copley, Alice Braga, William Fitchner, Diego Luna, Wagner Moura. Estreia: 07/8/13

Depois do inesperado - ainda que justo - sucesso de "Distrito 9", que chegou a concorrer aos Oscar de melhor filme e roteiro adaptado em 2010, todo mundo em Hollywood estava curioso em saber qual seria o projeto seguinte de seu diretor, Neill Blomkamp. Inteligente e sabendo que em time que está ganhando não se mexe, o cineasta sul-africano resolveu então que o melhor a fazer seria manter o que havia dado certo em sua obra-prima (a crítica social através da ficção científica, seu amigo de infância Sharlto Copley e o equilíbrio entre drama e ação), injetar um orçamento mais generoso (que ultrapassou a barreira dos 100 milhões de dólares) e contar com a presença de astros populares (Matt Damon e Jodie Foster). Nem tudo deu exatamente certo: apesar do relativo sucesso nos EUA, "Elysium" não repetiu a mesma performance de "Distrito 9", dividiu a crítica e só conseguiu se pagar com a bilheteria mundial. Não deixa de ser injusto. Apesar de não ter o mesmo brilhantismo do filme mais conhecido de Blomkamp, "Elysium" é uma produção muito mais interessante do que a grande maioria dos lançamentos do gênero: diverte, faz pensar, é tecnicamente impecável e conta com um elenco internacional de fazer inveja a qualquer diretor muito mais experiente.

Com um filme tão impressionante como "Distrito 9" como cartão de visitas, não foi difícil a Neill Blomkamp escalar um time de sonhos para o elenco de "Elysium". além dos prestigiados Matt Damon e Jodie Foster (dois dos mais inteligentes e confiáveis astros de Hollywood), o cineasta contou com o mexicano Diego Luna e os brasileiros Alice Braga e Wagner Moura para dar vida a uma história fascinante sobre um mundo pós-apocalíptico onde a diferença de classes não é apenas endêmica: ela faz também a diferença entre a vida e a morte. Com uma impressionante direção de arte e uma fotografia assombrosa, "Elysium" é um filme de extrema urgência e relevância social, uma metáfora pouco sutil sobre a política de imigração e, melhor ainda, um entretenimento que jamais esquece sua principal função: divertir a plateia com cenas de ação empolgantes e personagens cativantes. Pode-se até dizer que em sua segunda metade as situações se atropelam um pouco, mas mesmo assim é difícil não concordar que sua mistura entre cinema e crítica social é construída com precisão cirúrgica - e que é virtualmente impossível desviar os olhos da tela do primeiro ao último minuto da sessão.


A trama se passa em 2154, e a Terra está completamente arruinada, sofrendo com escassez de recursos e uma superpopulação escravizada em subempregos e miséria. Sua condição miserável contrasta radicalmente com aquela que levam os felizardos que, com dinheiro o suficiente para isso, moram em uma estação espacial chamada Elysium, praticamente um clube de luxo, sofisticado e habitado por aqueles considerados a nata da sociedade. O único problema do local - mantido com mão de ferro pela secretária de defesa, Delacourt (Jodie Foster) - são as constantes tentativas de invasão por moradores da Terra, que procuram desesperadamente chegar até as milagrosas camas existentes por lá (e que curam qualquer doença). Uma dessas desesperadas é Frey (Alice Braga), cuja filha pequena sofre de leucemia: amiga de infância do operário Max (Matt Damon) - que abandonou a vida de pequenos crimes para viver em paz -, Frey acaba pedindo ajuda ao melhor amigo, que aceita o desafio quando ele mesmo é exposto à radiação em seu trabalho e se vê condenado a poucos dias de vida. Contando com o apoio logístico do rebelde Spider (Wagner Moura), Max vai fazer o possível para salvar-se e à filha de Frey - e para isso terá de bater de frente com o violento Kruger (Sharlto Copley), capaz de qualquer coisa para defender os privilégios da alta sociedade de Elysium.

Visualmente impressionante, "Elysium" é um filme de grande impacto, especialmente quando mostra os contrastes entre os moradores de uma Los Angeles completamente destruída e o luxo que envolve a estação espacial da classe privilegiada. Mesmo que o tema implore por um discurso mais incisivo em termos de crítica, porém, o roteiro prefere ater-se às regras da ficção científica, desenvolvendo mais uma história (fascinante e bem resolvida) do que uma tese de mestrado. Acerta em cheio nessa opção: sem jamais deixar de ilustrar sua simpatia pelos habitantes da Terra (sofridos, doentes, explorados, expostos a uma dura realidade de vida), Blomkamp conta sua história focando-se basicamente na trajetória de seu herói (vivido com garra por Matt Damon) e deixando a luta de classes como um tema incidental (potente, doloroso, relevante, mas incidental). Dessa forma, ele realiza um filme que é, ao mesmo tempo, um entretenimento dos mais empolgantes (em termos técnicos e emocionais) e um comentário socialmente importantíssimo - em especial em vista do que viria pela frente na política de imigração dos EUA da era Trump. Indispensável tanto pelo discurso quanto por suas qualidades artísticas, "Elysium" é um filme subestimado - mas que deve, com o passar do tempo, ter reconhecido seu devido valor.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

DONNIE BRASCO

DONNIE BRASCO (Donnie Brasco, 1997, Sony Pictures/Mandalay Entertainment, 127min) Direção: Mike Newell. Roteiro: Paul Attanasio, livro de Joseph D. Pistone, Richard Woodley. Fotografia: Peter Sova. Montagem: Jon Gregory. Música: Patrick Doyle. Figurino: Aude Bronson-Howard, David Robinson. Direção de arte/cenários: Donald Graham Burt/Leslie Pope. Produção executiva: Alan Greenspan, Patrick McCormick. Produção: Louis DiGiaimo, Mark Johnson, Barry Levinson, Gail Mutrux. Elenco: Al Pacino, Johnny Depp, Michael Madsen, James Russo, Anne Heche, Bruno Kirby, Zeljko Ivanek, Paul Giamatti, Tim Blake Nelson. Estreia: 24/02/97

Indicado ao Oscar de Roteiro Adaptado

Durante seis anos, entre 1978 e 1984, o agente especial do FBI Joseph Pistone trabalhou infiltrado entre os mafiosos de Nova York, quase sem contato com a própria família e conquistando a confiança de um dos integrantes do grupo, que passou a considerá-lo como um filho. Tal história, com seus desdobramentos talvez previsíveis mas sempre interessantes, estava pronta para ser contada no cinema desde o lançamento do livro "Donnie Brasco: my undercover life with the Mafia", publicado nos EUA em 1988. Escrito pelo próprio Pistone (cuja cabeça ainda está a prêmio) e o jornalista Richard Woodley, o livro estava nos planos de Hollywood a um bom tempo quando o inglês Mike Newell entrou no projeto: celebrado pelo enorme sucesso de seu "Quatro casamentos e um funeral" (94), Newell chegou com moral, substituindo outro britânico até então considerado para o trabalho (Stephen Frears) e injetando no filme uma elegância e uma sobriedade que possivelmente um cineasta americano não seria capaz de imprimir. Com o elenco liderado por Al Pacino e Johnny Depp - dois nomes populares e de prestígio junto ao público e à crítica - e pronto para estrear no Natal de 1996, "Donnie Brasco" acabou sendo vítima do próprio estúdio: com três outros filmes de grande visibilidade entrando em cartaz quase ao mesmo tempo (e lutando por indicações ao Oscar), a Sony empurrou seu lançamento para fevereiro de 1997. Deu mais ou menos certo: mesmo lançado longe da temporada de premiações, o filme de Newell arrebatou uma indicação na categoria de roteiro adaptado quase um ano depois de sua estreia - e as outras produções da Sony foram relativamente recompensadas pela Academia, em especial "Jerry Maguire: a grande virada", que levou a estatueta de ator coadjuvante (Cuba Gooding Jr.).

Se "Donnie Brasco" tinha mais chances de convencer a Academia do que seus irmãos de estúdio - "O espelho tem duas faces" (96) e "O povo contra Larry Flynt" (96) - é difícil dizer, especialmente em um ano em que as produções independentes foram mais felizes no resultado final. Mas é óbvio que, levando-se em consideração seu tema, seus valores de produção e os vastos elogios da crítica especializada, o filme de Newell tinha tudo para ter uma sorte bem maior se tivesse sido lançado no período adequado - inclusive nas bilheterias, já que não fez muito barulho em casa mas rendeu mais de 120 milhões pelo mundo, em grande parte devido à presença de Johnny Depp, então um jovem astro em ascensão, e Al Pacino, um dos maiores atores do cinema americano. Sua química é um dos motivos que fazem do filme uma das produções mais interessantes do final dos anos 90 - uma narrativa séria e minimalista que lembra os policiais da década de 70 (não por acaso também estrelados por Pacino). Cineasta pouco afeito a malabarismos estéreis, Newell se concentra em caprichar na ambientação e no desenvolvimento dos personagens - cortesia também do roteiro de Paul Attanasio, que equilibra admiravelmente a trama policial com os problemas domésticos do protagonista. Com um elenco coadjuvante igualmente brilhante, "Donnie Brasco" foge facilmente da limitação de gênero, alcançando níveis dramáticos que o elevam acima da média. 


A trama é centrada basicamente no relacionamento entre o jovem agente Joseph Pistone - que assume o pseudônimo de Donnie Brasco e é vivido por Johnny Depp de forma discreta, sem os habituais exageros que se tornaram característica de seus desempenhos - e o mafioso Lefty Ruggiero (Al Pacino), que, apesar de não ser o chefão do grupo, lhe serve como ponte de acesso a nomes, crimes e detalhes dos delitos cometidos por outros integrantes do bando, especialmente Sonny Black (Michael Madsen), que se torna o líder durante a temporada do rapaz como infiltrado. Enquanto vai se tornando parte integrante da quadrilha, Donnie vai se afastando da esposa, Maggie (Anne Heche) e das filhas, ao mesmo tempo em que fortalece laços de amizade e quase lealdade com Ruggiero - até que o cerco se fecha e ele precisa redobrar os cuidados para não ser desmascarado e completar sua missão (que inclui, obviamente, mandar seu mentor para a cadeia).

Narrado de forma correta e sem sobressaltos, "Donnie Brasco" é um filme que substitui as cenas de ação alucinantes por um tom de mais densidade psicológica e dramática. Seu registro quase cerebral pode aborrecer a quem procura um filme policial nos moldes mais tradicionais (leia-se tiroteios, perseguições e violência extrema), mas é justamente essa opção de Mike Newell que faz toda a diferença. Seria bastante diferente, por exemplo, se outros nomes cotados para o projeto tivessem assumido o papel central - como Alec Baldwin, Nicolas Cage ou John Cusack, que certamente dariam outro estilo à produção. Dotado de um ritmo atípico, é um filme que envolve o espectador aos poucos, o mergulhando gradativamente em uma trama que fala de amizade, dever, traição e paranoia em doses exatas e tratadas com o máximo de talento. Apesar de se alongar desnecessariamente nos minutos finais, é uma obra pela qual é difícil não se deixar conquistar, senão por sua história incrível, ao menos por sua direção elegante e pelo elenco em ótimo momento. Um dos grandes filmes de Pacino pós-Oscar - e talvez um dos mais subestimados de sua brilhante carreira.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

DOIS CARAS LEGAIS

DOIS CARAS LEGAIS (The nice guys, 2016, Warner Bros, 116min) Direção: Shane Black. Roteiro: Shane Black, Anthony Bagarozzi. Fotografia: Philippe Rousselot. Montagem: Joel Negron. Música: David Buckley, John Ottman. Figurino: Kym Barrett. Direção de arte/cenários: Richard Bridgland/Danielle Berman, Tommy Wilson. Produção executiva: Anthony Bagarozzi, Peter Hampden, Ken Kao, Michael J. Malone, Norman Merry, Hal Sadoff, Alex Walton. Produção: Joel Silver. Elenco: Russell Crowe, Ryan Gosling, Kim Basinger, Matt Bomer, Lois Smith, Angourie Rice, Margaret Qualley, Yaya DaCosta. Estreia: 15/5/16 (Festival de Cannes)

A brincadeira já começava no trailer, com imagens que lembravam os filmes da década de 70 (período em que se passa o filme), utilizava o logo da Warner da época e mostrava Kim Basinger sob o anúncio de "apresentando". Mas era apenas uma pequena amostra do que estava por vir. "Dois caras legais" é diversão pura, uma comédia de ação que não se leva a sério, apresenta dois protagonistas completamente atípicos e subverte os clichês do gênero policial a cada cena. Coescrito e dirigido por Shane Black - o responsável por "Máquina mortífera" e o padrão de filmes policiais hollywoodianos a partir dos anos 80 - e estrelado por Russell Crowe e Ryan Gosling em dias inspirados (e com um timing cômico impecável), o filme pode não ter tido a repercussão que merecia - rendeu pouco mais de 60 milhões de dólares em todo o mundo - mas serve para confirmar a teoria de que um bom roteiro e um bom elenco são muito mais eficazes para a produção de um bom filme do que efeitos digitais e super-heróis cada vez menos surpreendentes.

Inicialmente pensado como piloto de uma série de televisão, "Dois caras legais" transformou-se em roteiro para o cinema quando Black percebeu que as possibilidades de ganhar uma temporada seriam quase nulas. Foi um mal que aconteceu para o bem: no conciso tempo de pouco menos de duas horas, a história (repleta de reviravoltas e personagens dúbios) ganha corpo, interesse e serve como uma luva para divertir a plateia sem recorrer a piadas forçadas ou cenas de ação hipertrofiadas. Dosando em igual quantidade humor e ação, o diretor consegue um equilíbrio admirável e de certa forma volta às origens, depois de ter comandado uma superprodução ("Homem de ferro 3", de 2013) controlada com rédeas curtas pela Marvel. Em seu novo filme, ele parece respirar aliviado sem tanta pressão, e tal leveza se reflete no tom debochado (ainda que carinhoso) do resultado final. Com diálogos brilhantes, uma reconstituição de época caprichada e um elenco afiadíssimo, "Dois caras legais" é um dos filmes mais subestimados de sua temporada - e um programão para quem procura entretenimento puro e simples.


Os dois caras legais do título são Jackson Healy (Russell Crowe) e Holland March (Ryan Gosling), detetives particulares da Los Angeles de 1977 que tem seus caminhos cruzados quando se veem investigando o mesmo caso. March é viúvo e vive com a filha pré-adolescente, Holly (a ótima Angourie Rice), enquanto curte a depressão se afogando em álcool e aceitando trabalhos para localizar pessoas desaparecidas; Healy é solteiro e resolve a maioria de seus casos utilizando-se de métodos violentos e pouco ortodoxos. Um dia, March é contratado por uma senhora idosa, Mrs. Glenn (Lois Smith), para encontrar sua sobrinha, uma atriz pornô que todos acreditam ter morrido em um acidente de carro - mas que ela insiste ter visto, bem viva, alguns dias depois do desastre. Em sua busca, o rapaz esbarra com o nome de Amelia Kuttner (Margaret Qualley), uma jovem que parece estar muito mais envolvida no caso do que parece - e que também está sendo procurada por Healy. É nesse ponto que a mãe da garota, Judith (Kim Basinger), chefe do Departamento de Estado, entra em cena, contratando os dois para impedir que sua filha seja prejudicada por um filme "alternativo" que fez com alguns amigos.

A mistura de comédia e filme policial engendrada por Shane Black ainda recebe a ajuda de ingredientes inusitados, como os bastidores da indústria de filmes pornográficos, criminosos excêntricos, tiroteios em locais públicos e muito, muito bom humor. Mesmo que a história por vezes soe confusa, o roteiro é tão recheado de boas piadas e bons personagens que fica difícil reclamar. Russell Crowe e Ryan Gosling estão absolutamente à vontade em cena, em uma parceria que implora por um segundo capítulo - e a jovem Angourie Rice quase rouba o filme na pele da precoce filha de Gosling, que assume papel fundamental no desfecho da trama. Engraçado, leve e despretensioso, "Dois caras legais" é uma das mais gratas surpresas da temporada 2016 - e uma lembrança do quanto Russell Crowe faz falta no cinemão americano.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

O DESPERTAR

O DESPERTAR (The awakening, 2011, StudioCanal/BBC Films, 102min) Direção: Nick Murphy. Roteiro: Stephen Volk, Nick Murphy. Fotografia: Eduard Grau. Montagem: Victoria Boydell. Música: Daniel Pemberton. Figurino: Caroline Harris. Direção de arte/cenários: Jon Henson/Robert Wischhusen-Hayes. Produção executiva: Jenny Borgars, Will Clarke, Olivier Courson, Robin Guise, Peter Hampden, Norman Merry, Joe Oppenheimer, Peter Raven, Carole Sheridan. Produção: Sarah Curtis, Julia Stannard, David M. Thompson. Elenco: Rebecca Hall, Dominic West, Imelda Staunton, Isaac Hempstead Wright, Shaun Dooley. Estreia: 16/9/11 (Festival de Toronto)

Via de regra, um bom filme de fantasmas conta sempre com uma ambientação apropriada, uma história interessante, um final surpreendente e um bom elenco. Funcionou muito bem, por exemplo, em "O sexto sentido" (99), em "Os outros" (2001) e em "O orfanato" (2007). Funciona apenas em parte em "O despertar". Co-produzido pela BBC Films, o filme de Nick Murphy - oriundo da televisão - tem como seus maiores trunfos as presenças das ótimas Rebecca Hall e Imelda Staunton, mas esbarra em problemas de ritmo e foco, que acabam por diluir as boas ideias do roteiro e dar a impressão de que é mais longo do que deveria. Ainda assim, por levar-se a sério e não cair na tentação de pregar sustos aleatórios, é uma produção acima da média, capaz de conquistar os fãs do gênero, principalmente graças a algumas surpresas em seu final - mesmo que ele se arraste mais do que o necessário depois de seu clímax.

A trama tem início na Inglaterra de 1921, ainda se recuperando do final da I Guerra Mundial. Esse ambiente, ainda traumatizado pela perda de milhares de vidas, é fértil para Florence Cathcart, que trabalha ajudando a polícia a desmascarar fraudes que envolvem falsos médiuns e comunicações com os mortos. Escritora relativamente famosa, ela é procurada por Robert Mallory (Dominic West), o diretor de uma escola para meninos que vem, segundo ele, sendo assombrado por fantasmas que provavelmente tem relação com uma tragédia ocorrida na mansão alguns anos antes. Mesmo pouco interessada, Florence aceita o desafio de provar que tudo não passa de imaginação ou armação, e assim que chega na escola sente-se aceita pela governanta, Maud (Imelda Staunton), e procura se informar a respeito de tudo que acontece no local - ainda chocado com a recente morte de um aluno. Quando percebe que talvez haja realmente algo de estranho na história, Florence pede que todos os alunos sejam mandados para casa. Ficam na imensa propriedade apenas ela, Mallory, Maud, um empregado e um aluno, Thomas Hill (Isaac Hempstead Wright) - e revelações irão testar a coragem e o ceticismo da experiente caçadora de mentiras.


O roteiro de Stephen Volck e do diretor Nick Murphy usa e abusa de todos os clichês do gênero, mas felizmente o fazem de forma inteligente, inserindo aos poucos todos os elementos de sua trama e sem exagerar nos sustos. Sua opção acertada em apostar na atmosfera lúgubre e nos personagens - interessantes e bem desenvolvidos - faz toda a diferença: mesmo que a história seja quase derivativa em seus desdobramentos, ela prende a atenção por se levar a sério e realmente envolver o espectador. Rebecca Hall é a atriz ideal para o papel principal, com seu rosto quase frio e postura pétrea; seus embates com Imelda Staunton - uma atriz gigantesca quando tem a oportunidade de mostrar seu talento - são hipnotizantes e compensam alguns momentos mortos. Já a química entre Hall e Dominic West não é tão eletrizante: ambos são bons atores mas falta algo para que o relacionamento entre Florence e Mallory convença a plateia (talvez o fato de ambos transmitirem uma aura pouco expansiva e/ou carismática). Ainda assim, o roteiro leva a trama até o final sem maiores tropeços, oferecendo um bom espetáculo aos fãs de um filme de terror elegante e sutil.

Fugindo dos sustos óbvios e seguindo um caminho de mais sugestão e menos terror - que muito deu certo nos filmes de Shyamalan, Amenábar e Bayona citados no primeiro parágrafo -, "O despertar" faz parte de uma linhagem de produções que tentam resgatar o clima nostálgico de clássicos do gênero. Acerta em boa parte do tempo (a ambientação, a direção cuidadosa, o elenco bem escalado), mas não é um filme perfeito: se estende sem necessidade, falha em criar uma empatia entre a protagonista e o público e não assusta tanto quanto deveria. Porém, diante da enxurrada de filmes baratos de terror que chegam ao consumo do espectador sem oferecer mais do que roteiros pífios e atuações canhestras, é um bálsamo. Merece ser descoberto e recomendado!

terça-feira, 20 de junho de 2017

O DESTINO MUDOU SUA VIDA

O DESTINO MUDOU SUA VIDA (Coal miner's daughter, 1980, Universal Pictures, 124min) Direção: Michael Apted. Roteiro: Tom Rickman, livro de Loretta Lynn, George Vecsey. Fotografia: Ralf D. Bode. Montagem: Arthur Schmidt. Figurino: Joe I. Tompkins. Direção de arte/cenários: John W. Corso/John M. Dwyer. Produção executiva: Bob Larson. Produção: Bernard Schwartz. Elenco: Sissy Spacek, Tommy Lee Jones, Beverly D'Angelo, Levon Helm, Phyllis Boyens. Estreia: 07/3/80

07 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz (Sissy Spacek), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Direção de Arte/Cenários, Som
Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Sissy Spacek)
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme (Comédia/Musical), Atriz Comédia/Musical (Sissy Spacek) 

Para muita gente (especialmente no Brasil), o nome Loretta Lynn não significa muita coisa. Nos EUA, porém, a história é bem diferente: uma das cantoras mais reconhecidas e famosas do país, Lynn tem inúmeros prêmios nas prateleiras (incluindo o Grammy) e é, desde a década de 60, uma referência em música country e gospel. O tamanho de sua importância é tanto que em 1980 ela recebeu uma das maiores homenagens que podem ser feitas a um artista vivo: um filme contando sua vida, produzido por um grande estúdio (a Universal Pictures) e com visibilidade e prestígio o bastante para chegar até a temporada de premiações e sair dela com alguns troféus muito ambicionados. Indicado ao Oscar de melhor filme, "O destino mudou sua vida" deu à Sissy Spacek a estatueta dourada de melhor atriz - além de todos os outros prêmios do ano, das associações de críticos ao Golden Globe. A chuva de aplausos reconhece justamente o melhor do filme, baseado em uma autobiografia da cantora, escrita em parceria com George Vecsey: convencional e sem muito brilho narrativo, "O destino mudou sua vida" deve seu sucesso à Spacek, convincente em todas as fases da personagem e mostrando um surpreendente talento vocal.

Escolhida pessoalmente pela própria Loretta Lynn para interpretá-la nas telas, e batendo até mesmo Meryl Streep na disputa pelo papel, Sissy Spacek mostra, em "O destino mudou sua vida", uma outra faceta de seu talento. Indicada ao Grammy de melhor vocal feminina em música country, ela não hesita em soltar a voz nas apresentações de Lynn, assim como sua parceira de cena Beverly D'Angelo, que interpreta a cantora Patsy Cline, grande inspiração da protagonista e que se torna sua amiga íntima durante sua trajetória rumo ao sucesso. Em sua preparação para o papel, Spacek acompanhou Lynn em uma de suas turnês, e, mantendo-se no personagem mesmo quando não estava diante das câmeras, ela impressiona com uma caracterização impecável, em expressão corporal, sotaque e, mais importante que tudo, compreensão dos variados estados de espírito de sua personagem. De adolescente insegura e apaixonada à artista consagrada, a Loretta Lynn criada pela atriz conquista pela força e pela honestidade de sua arte - surgida de suas experiências pessoais e totalmente autodidata.


O acontecimento mais importante da vida de Loretta - antes da fama e do sucesso - foi o encontro com aquele que seria seu futuro marido, Oliver 'Moon' Lynn (Tommy Lee Jones). O ano era 1947 e, com apenas 13 anos de idade, a filha mais velha de um mineiro do Kentucky, se apaixona à primeira vista, apesar da objeção dos pais. O casamento quase imediato sofre com a inexperiência da garota e a falta de jeito do marido, mas uma gravidez logo os une definitivamente e eles se mudam para Washington. Alguns mais mais tarde e já mãe de quatro filhos, Loretta é uma competente dona-de-casa e tem sua vida transformada com um presente aparentemente inútil que ganha do marido: um violão. Apaixonada por música, ela aprende sozinha a tocar e, com o apoio de Moon, começa a apresentar-se em festas locais de música country. Entusiasmada, passa a compor as próprias canções e, ao lado do marido, vai em busca do sucesso, procurando gravadoras e shows para demonstrar seu trabalho. Começa aí uma trajetória de êxito e respeito que a levará a se tornar uma das mais conhecidas cantoras country de sua geração.

Sem grandes acontecimentos dramáticos além da vida pessoal da protagonista, sacrificada em prol da carreira - e uma morte que o filme trata sem dar muita importância -, "O destino mudou sua vida" é uma produção correta, sem grandes escorregões mas igualmente sem muito brilho. Sissy Spacek realmente carrega o filme nas costas, com uma interpretação irretocável, mas a direção de Michael Apted (que depois levaria Sigourney Weaver e Jodie Foster à disputa pelo Oscar em "Nas montanhas dos gorilas", de 1988, e "Nell", de 1994, respectivamente) não consegue fazer milagres com um roteiro que, ao seguir a linha cronológica dos acontecimentos, serve apenas para retratar, sem muita inventividade, uma carreira linear e quase desinteressante - à parte o trabalho de Spacek, a história de Loretta não chega a entusiasmar àqueles que não conhecem sua música, e a edição tampouco ajuda (alguns minutos a menos não faria mal nenhum à trama). No final das contas, um filme honesto e bem realizado, mas que não justifica as sete indicações ao Oscar (incluindo melhor filme e roteiro adaptado). Vale por Sissy, uma grande atriz no papel de sua vida!

segunda-feira, 19 de junho de 2017

DE CASO COM A MÁFIA

DE CASO COM A MÁFIA (Married to the mob, 1988, Orion Pictures, 104min) Direção: Jonathan Demme. Roteiro: Barry Strugatz, Mark R. Burns. Fotografia: Tak Fujimoto. Montagem: Craig McKay. Música: David Byrne. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: Kristi Zea/Nina Ramsey. Produção executiva: Joel Simon, Bill Todman Jr.. Produção: Edward Saxon, Kenneth Utt. Elenco: Michelle Pfeiffer, Matthew Modine, Dean Stockwell, Alec Baldwin, Mercedes Ruehl, Joan Cusack, Oliver Platt, Nancy Travis, Chris Isaak. Estreia: 11/8/88

Indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante (Dean Stockwell)

Muitas vezes, especialmente em Hollywood, há males que vem pra bem. Quando o cineasta Jonathan Demme - já celebrado pela comédia maluca "Totalmente selvagem" - assumiu as rédeas do projeto de "De caso com a máfia", os atores cotados para os papéis principais eram Jessica Lange e Tom Cruise. Não que os dois astros fossem incapazes (Cruise era um astro em ascensão e Lange já tinha um Oscar de coadjuvante em casa há uns bons anos), mas é difícil imaginar como teria ficado o filme com suas presenças, afinal ela já era considerada uma atriz séria e ele povoava os sonhos de milhares de adolescentes desde "Top Gun: ases indomáveis" (86). No fim das contas, Cruise preferiu - apesar das mudanças no roteiro solicitadas por ele - seguir seu caminho de galã e fazer "Cocktail" (88) e Lange nem chegou a ser convidada para o elenco. Melhor assim: ele foi substituído por Matthew Modine (menos carismático, mas um ator bem melhor) e o principal papel feminino foi parar nas mãos de Michelle Pfeiffer, em vias de tornar-se uma das mais requisitadas atrizes da época (não à toa, foi indicada ao Oscar de coadjuvante no mesmo ano, por "Ligações perigosas", de Stephen Frears). O resultado é um filme alto astral, quase esquizofrênico em sua mistura de gêneros e uma das produções que empurraram Demme para o mainstream - e, em consequência, para o Oscar de melhor direção por "O silêncio dos inocentes", três anos depois.


Assim como fez em "Totalmente selvagem", Demme não se prende a um único estilo narrativo, obrigando o espectador a acompanhar seus personagens por uma série de desvios, que vão da comédia romântica ao filme de gângster, do humor quase pastelão de Almodóvar à violência de Scorsese. Conduzindo com segurança um roteiro que foge do convencional, ele imprime um ritmo próprio à trama, oferecendo uma experiência bem mais rica ao público do que simplesmente uma história sobre embates entre mafiosos e a polícia. Com uma trilha sonora vibrante - que inclui até mesmo Jorge Benjor - e um visual propositalmente cafona, "De caso com a máfia" é um filme que não se leva a sério, e nesse caminho de quase autodeboche ganha a simpatia imediata da plateia, cativada com sua comunicação fácil e direta. É lógico que, para isso, conta com a luminosidade de Michelle Pfeiffer (com ótimo timing cômico) e com a atuação inspirada de Dean Stockwell, que acabou concorrendo ao Oscar de coadjuvante por seu desempenho como um chefão do crime ameaçado pelo ciúme da esposa.


Matthew Modine, saído das filmagens de "Nascido para matar" (87) e ainda traumatizado pelos longos meses de trabalho com Stanley Kubrick declarava que não via nada de engraçado no roteiro - e talvez por isso mesmo sua atuação como o agente do FBI Mike Downey soe tão verdadeiramente dotada de frescor: assim como o ator estava em meio a um filme sem saber exatamente o que estava fazendo, seu personagem também é pego no meio de um furacão e precisa aprender a lidar com um misto de sentimentos inesperados. Downey é um policial infiltrado encarregado de vigiar a bela Angela (Michelle Pfeiffer), que acaba de ficar viúva do mafioso Frank deMarco (Alec Baldwin) - o FBI acredita que ela seja amante de outro integrante da máfia, o expansivo chefão Tony Russo (Dean Stockwell), e a missão de Downey é descobrir, através dela, algo que possa levar o criminoso à cadeia. Acontece que o próprio Downey acaba se apaixonando por Angela - que não só recusa as investidas de Russo como deseja viver uma vida longe do crime organizado, dos "amigos" do falecido marido e principalmente da mulher de Russo, a possessiva Connie (Mercedes Ruehl).

Deliciosamente sarcástico, "De caso com a máfia" tira sarro dos filmes de gângster de forma inteligente e perspicaz, sem precisar apelar para a sátira explícita ou citações óbvias. Ao retratar os mafiosos como pessoas incapazes de lidar com situações banais (como o casamento ou o ciúme), o roteiro não apenas lhes tira o glamour como os deixa extremamente próximos do espectador. Essa opção de privá-los da sensação de perigo constante não deixa de ser corajosa - especialmente porque uma das subtramas do filme tem a ver com o risco que o jovem policial corre de ser descoberto -, mas ao mesmo tempo dá ao resultado final um tom mais anárquico e iconoclasta, típico de Jonathan Demme antes de tornar-se o bem-comportado diretor de "Filadélfia" (93) e "Sob o domínio do mal" (2004). Com o brilho de Michelle Pfeiffer no auge da beleza, a química perfeita entre Dean Stockwell e Mercedes Ruehl e uma trilha sonora das mais empolgantes - quem não se deixa levar logo de cara com Rosemary Clooney cantando "Mambo italiano"? -, é uma comédia das mais espertas da década de 80, e uma prova de que até mesmo temas sombrios podem render boas gargalhadas.