quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

A LONGA CAMINHADA DE BILLY LYNN

A LONGA CAMINHADA DE BILLY LYNN (Billy Lynn's long halftime walk, 2016, Bona Film Group/Film4/Ink Factory, 113min) Direção: Ang Lee. Roteiro: Jean-Christophe Castelli, romance de Ben Fountain. Fotografia: John Toll. Montagem: Tim Squyres. Música: Jeff Dana, Mychael Danna. Figurino: Joseph G. Aulisi. Direção de arte/cenários: Mark Friedberg/Elizabeth Keenan. Produção executiva: Brian Bell, Guo Guangchang, Jeff Robinov, Ben Waisbren. Produção: Stephen Cornwell, Ang Lee, Marc Platt, Rhodri Thomas. Elenco: Joe Alwyn, Garrett Hedlund, Arturo Castro, Mason Lee, Astro, Vin Diesel, Steve Martin, Kirsten Stewart, Chris Tucker, Tim Blake Nelson. Estreia: 14/10/16 (Festival de Nova York)

É incrível, mas mesmo um cineasta de imenso talento, como é o caso de Ang Lee (vencedor de dois Oscar de direção e um de filme estrangeiro) pode cometer grandes equívocos. O primeiro deles foi "Cavalgada com o diabo" (99), sobre a Guerra de Secessão e estrelado por Tobey Maguire. Depois, veio "Hulk" (2003), que apesar das qualidades é mais lembrado como um fracasso do que como um êxito comercial. E então, depois do enorme sucesso e dos prêmios por "As aventuras de Pi" (2012), surge "A longa caminhada de Billy Lynn", que não apenas naufragou nas bilheterias americanas (mal ultrapassou a marca de 1 milhão de dólares de arrecadação, contra seu orçamento de 40) como também colecionou críticas nada amigáveis da imprensa, normalmente bastante gentil com os filmes do cineasta. Enfatizando seu ritmo lento em excesso, sua falha em transmitir as mensagens que deseja e a fragilidade do roteiro - baseado em romance de Ben Fountain - as resenhas negativas infelizmente tem razão: o filme de Lee é indubitavelmente chato, e na maior parte do tempo falha sensivelmente em transmitir sua principal mensagem contra a guerra no Iraque.

Ao contrário do que fez o inglês Sam Mendes, que também criticava a intervenção americana no Oriente Médio em seu "Soldado anônimo" (2005) - também fracasso de bilheteria, mas elogiado e prestigiado pela crítica - o trabalho de Ang Lee não consegue, em momento algum, conquistar a empatia da plateia para seu protagonista, interpretado pelo britânico Joe Alwyn em sua estreia no cinema. Apesar de demonstrar talento, Alwyn é inexperiente para desviar das constantes armadilhas de um roteiro confuso, sem emoção e que dá a impressão de não caminhar para lugar algum. Diretor sensível e inteligente, Lee consegue extrair bons desempenhos de seus atores mesmo quando a tarefa parece árdua, mas esbarra em uma surpreendente incapacidade de fazer com que sua história seja atraente para o público, o que não deixa de ser decepcionante quando se trata de um homem que transformou um filme de kung-fu em arte pura com "O tigre e o dragão" (2000) e emocionou o mundo com um romance entre cowboys homossexuais em "O segredo de Brokeback Mountain" (2005). Talvez focado em experimentar um formato novo - com um número de frames muito superior ao convencional - o cineasta tenha deixado escapar o que de melhor ele sempre apresentou em sua filmografia: o sentimento acima de qualquer outro elemento narrativo.


Mesmo em filmes como "As aventuras de Pi", filmado em 3D e recheado de efeitos visuais fascinantes, Ang Lee nunca abriu mão de dar extrema atenção à verdadeira alma de seus trabalhos: os personagens. Em "A longa caminhada de Billy Lynn", porém, parece que ele esqueceu de seu mandamento primordial: não apenas o protagonista como todos os coadjuvantes carecem de força e de empatia, impedindo a plateia de conectar-se a suas reações e emoções. Essa falta absoluta de identificação do público com o personagem central é imperdoável, uma vez que o centro da narrativa é justamente a trajetória emocional de Billy, iluminada através de flashbacks que nem sempre funcionam como deveriam e por vezes chegam a atrapalhar a condução da história, mais confundindo do que esclarecendo. O roteiro, por sua vez, insinua o tempo todo que algo grandioso está sendo preparado para seu clímax e quando tem a oportunidade de converter esse restinho de expectativa em algo que justifique as quase duas horas de duração do filme, entrega um desfecho tão decepcionante quanto o resto da produção - se é que alguém da audiência ainda tinha esperanças de um final menos morno.

O pior é que a sinopse do filme de Lee é até instigante: Billy Lynn, o protagonista, é um jovem de 19 anos de idade tornado uma espécie de herói de guerra depois de um ato de coragem cometido durante um confronto no Iraque. Com sua ação filmada e televisionada, ele e seu pelotão (intitulado Brave Squad) conquistam a admiração incondicional do povo norte-americano a ponto de haver interesse até mesmo de Hollywood em transformar sua trajetória em filme. Para capitalizar em cima da popularidade do grupo, o exército dos EUA programa uma espécie de turnê dos soldados, culminando com sua apresentação no show de intervalo de um jogo de futebol transmitido no Dia de Ação de Graças. Nesse meio-tempo, Lynn conhece as diferenças entre o que se fala a respeito do conflito no Oriente Médio e o que realmente acontece nos campos de batalha - enquanto relembra também sua relação com a família. Essa trama, porém, não engrena, deixando o espectador sempre esperando que a ação vá começar a qualquer momento, o que não acontece jamais. "A longa caminhada de Billy Lynn" é um grande passo em falso na carreira de Ang Lee e um dos filmes mais decepcionantes da temporada 2016.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

COM A MALDADE NA ALMA

COM A MALDADE NA ALMA (Hush... hush, sweet Charlotte, 1964, 20th Century Fox, 133min) Direção: Robert Aldrich. Roteiro: Henry Farrell, Lukas Heller, estória de Henry Farrell. Fotografia: Joseph Biroc. Montagem: Michael Luciano. Música: De Vol. Figurino: Norma Koch. Direção de arte/cenários: William Glasgow/Raphael Bretton. Produção: Robert Aldrich. Elenco: Bette Davis, Olivia de Havilland, Joseph Cotten, Agnes Moorehead, Mary Astor, Victor Buono. Estreia: 15/12/64

7 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Agnes Moorehead), Fotografia em P&B, Montagem, Trilha Sonora Original, Canção ("Hush... Hush, Sweet Charlotte), Figurino em P&B, Direção de Arte/Cenários em P&B
Vencedor do Golden Globe de Atriz Coadjuvante (Agnes Moorehead) 

Depois do estrondoso sucesso de "O que terá acontecido a Baby Jane?" (62), todo mundo em Hollywood estava ansioso por um reencontro entre suas duas protagonistas, Bette Davis e Joan Crawford. Todo mundo exceto Robert Aldrich, o diretor do filme, que teve de lidar com a célebre e amplamente conhecida rivalidade entre elas durante as (e depois das) filmagens. Aldrich preferia qualquer coisa no mundo a ter de passar novamente pelo pesadelo de domar as duas megeras, mas como em Hollywood quem manda é o vil metal, em 1964 ele estava outra vez diante do desafio de dominar o furacão: com o objetivo puro e simples de capitalizar em cima da tendência inaugurada por "Baby Jane" - filmes de terror estrelados por grandes nomes da era de ouro do cinema, como "Almas mortas", que manteve Crawford em alta mesmo nos anos 60 - Aldrich aceitou o desafio de realizar "Com a maldade na alma", que seguiria à risca todos os mandamentos do gênero, com direito a cabeças rolando, suspense psicológico de almanaque e reviravoltas nem tão surpreendentes assim. A grande questão é que nem mesmo o cineasta - já devidamente escolado em bastidores problemáticos - poderia prever que a produção, criada como veículo para Bette e Joan, acabasse desfalcado de uma das estrelas e chegasse às telas com apenas metade do apelo comercial.

Chegando à locação prevista para o filme e já entrando em crise com Bette Davis - que fazia questão de ostentar uma situação mais confortável durante as filmagens - a pouco delicada Joan Crawford acabou não esquentando banco: depois de algumas semanas, nem precisou utilizar-se da cláusula que lhe desobrigava de participar das campanhas publicitárias do filme ao lado da colega de cena e foi demitida por Aldrich... e só ficou sabendo através dos jornais, devidamente avisados por Davis. É óbvio que tal situação não ajudou em nada a já complicada trajetória do filme - rebatizado como "Hush... Hush, Sweet Charlotte" depois que o original "O que terá acontecido à prima Charlotte" dava à produção um indisfarçável ar de caça-níqueis (o que na verdade ela era). Para substituir Crawford foi chamada Olivia de Havilland - que já havia ficado com um papel seu em "A dama enjaulada", do mesmo ano, e que tornou-se amiga inseparável de Bette Davis, a ponto de brindarem com Coca-cola toda manhã - vale lembrar que Joan fazia parte da diretoria da Pepsi à época. A entrada de Olivia no filme pode ter deixado os bastidores menos tensos (ou divertidos, dependendo do ponto de vista), mas certamente prejudicou o resultado final: "Com a maldade na alma" não tem a metade da inventividade, crueldade e do irresistível tom de decadência de "Baby Jane".


É lógico que um filme estrelado por Bette Davis já é, por si só, imperdível, uma vez que a grande atriz invariavelmente dá um show, mesmo quando tem em mãos um papel com possibilidades limitadas. Porém, "Com a maldade na alma" esbarra em um roteiro que se pretende cheio de reviravoltas quando, na verdade, apenas se estende desnecessariamente em uma trama muitas vezes enfadonha. O começo, é preciso que se diga, é sensacional: no final dos anos 20, um grandioso baile oferecido por um dos fazendeiros mais ricos de Baton Rouge, no sul dos EUA é abalado pelo cruel e violento assassinato de um homem, que tem a cabeça e uma das mãos decepadas com um cutelo. Imediatamente a culpa recai sobre a filha do dono da casa, Charlotte Hollis (Bette Davis), cujos planos de fugir com a vítima (casada) foram interrompidos pela covardia do rapaz. Décadas mais tarde, Charlotte vive sozinha na vasta propriedade da família, depois da morte do pai, e passa por dificuldades devido à desapropriação da fazenda para construção de uma ponte. Acreditando cegamente que quem está por trás da situação é a viúva de seu ex-amante, Jewel Mayhew (Mary Astor), ela fica aliviada com a chegada de uma prima há muito distante, Miriam Deering (Olivia de Havilland). Porém, Miriam, que antigamente era o interesse amoroso do médico de Charlotte, Drew Bayliss (Joseph Cotten), não chega para ajudar a prima a resolver a questão das terras e sim para ajudá-la na transição para uma nova vida, distante de onde ela foi criada. É o que basta para a sanidade mental de Charlotte começar a dar sérios sinais de declínio.

Sem o duelo de interpretações proporcionado por Davis e Crawford em "Baby Jane", "Com a maldade na alma" se sustenta basicamente no admirável talento da primeira em tirar leite de pedra. O roteiro parece não se decidir entre o trash e o suspense psicológico, mesclando cenas puramente camp com momentos em que busca soar como Alfred Hitchcock - inspiração óbvia desde o sucesso comercial de "Psicose" (60). Nem sempre funciona, mais por culpa de uma história bastante previsível do que pela direção de Aldrich (sempre tentando encontrar a maneira menos fácil de enxergar uma cena) ou pela atuação de seus atores, ainda que Olivia de Havilland nunca tenha parecido tão canastrona. A reviravolta da trama tampouco entusiasma ou surpreende aos espectadores mais escolados e somente Agnes Moorehead (de "A feiticeira") consegue sobressair-se, com um trabalho premiado com o Golden Globe e indicado ao Oscar - por incrível que pareça, o filme obteve uma recepção bem mais calorosa da Academia do que "Baby Jane", sendo indicado a sete estatuetas no ano em que "My fair lady" sagrou-se o grande campeão. Na pele da leal e corajosa empregada da solitária solteirona, Moorehead é a única que chega a ameaçar roubar a cena de Bette Davis, que, como sempre, entrega-se de corpo e alma a um filme, mesmo que ele não esteja entre seus melhores. É Davis, sempre ela, que faz "Com a maldade na alma" valer a pena. Nem que seja para assistir-se a mais um de seus shows particulares.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

CINE HOLLIÚDY

CINE HOLLIÚDY (Cine Holliúdy, 2013, Dowtown Films, 91min) Direção e roteiro: Halder Gomes. Fotografia: Carina Sanginitto. Montagem: Helgi Thor. Direção de arte/cenários: Juliana Ribeiro. Produção executiva: Halder Gomes, Dayane Queiroz. Produção: Halder Gomes. Elenco: Edmilson Filho, Miriam Freeland, Roberto Bomtempo, Joel Gomes, Rainer Cadete, Jesuíta Barbosa, Falcão. Estreia: 09/8/13

A princípio, um filme nacional cujo protagonista lembra Carlitos e que pode ser descrito como uma mistura entre "Cinema Paradiso" (1989), de Giuseppe Tornatore e "Bye bye, Brasil" (1976), de Cacá Diegues pode parecer um samba do crioulo doido, uma miscelânea sem sentido de estilos e nacionalidades com tudo para dar errado. Porém, quando a comédia "Cine Holliúdy" chega a seus créditos finais, depois de uma hora e meia de um humor ingênuo e despretensioso, é impossível ao espectador não ter se deixado cativar. Versão estendida de um curta-metragem do cineasta cearense Helder Gomes, o filme é uma lufada de ar fresco nas comédias pasteurizadas e rigidamente presas à fórmula já desgastada do tradicional cinema de humor brasileiro. Com raízes nitidamente regionalistas e sem ter vergonha delas - muito pelo contrário, as assume com extremo orgulho e as utiliza como mais um meio de fazer rir, através de um dialeto particular a ponto da necessidade de se utilizar legendas para melhor compreensão - "Cine Holliúdy" é uma grande e carinhosa brincadeira com a sétima arte, debochado e nostálgico em doses exatas. E de quebra ainda faz uma sutil crítica aos governos populistas e à chegada da televisão nos mais escondidos recantos do país, matando assim, a diversão popular representada pelo circo e pelas salas de cinema.


Apesar das leituras sociais e políticas que pode suscitar, porém, "Cine Holliúdy" é, acima de tudo, entretenimento. E dos bons. Simples, direto e sem medo de atingir o público pela pureza de seu humor quase infantil, o filme de Halder Gomes se beneficia de uma estrutura narrativa sem maiores ousadias e um protagonista cujo carisma gigantesco conquista o espectador logo de cara. Dotado de uma esperança e uma pureza que o tornam irresistível a qualquer público, Francisgleydisson é herdeiro direto do vagabundo de Chaplin, com seu humor físico de uma precisão cirúrgica e seu humanismo à toda prova. Não à toa, faz parte de sua receita uma criança (seu filho, que tem no pai seu maior e infalível ídolo) e uma dama (sua esposa, apaixonada pelo marido e disposta a qualquer sacrifício para manter-se a seu lado e alimentar seus sonhos). É esse triângulo familiar o alicerce no qual se sustenta a trama criada pelo cineasta, que mergulha no coração do Brasil dos anos 70 para contar uma história de amor ao cinema - mais especificamente o cinema de artes marciais que consagrou-se à época graças a filmes de Bruce Lee e outros menos cotados. São filmes assim que Francisgleydisson apresenta em seu cinema itinerante, que sofre com a concorrência da televisão e a burocracia que enfrenta em cada cidade a que chega.


Sem medo de apostar em estereótipos para alcançar com facilidade a simpatia do público, Helder Gomes acerta em cheio ao assumir o lado quase circense de seu filme. Quando Francisgleydisson e sua família chegam à uma pequena cidade do interior do Ceará para abrir seu "Cine Holliúdy", o que se vê na tela é um desfile de tipos impagáveis, invariavelmente com o objetivo de fazer rir através da identificação imediata. Muitas vezes sem mesmo um nome, os habitantes do lugar surgem para comentar a chegada da novidade, expor suas expectativas e, posteriormente, unir-se aos demais conterrâneos na fatídica exibição, um clímax cuidadosamente preparado para arrancar gargalhadas sem muito espaço para qualquer tipo de aprofundamentos psicológicos e/ou dramáticos. Em certos casos, seria um defeito. No filme de Gomes, é um gol de placa: de forma certeira ele apresenta seus personagens secundários com poucas linhas de texto e não é preciso mais nada para que todos eles já fiquem registrados na mente do espectador. O galã, o cego, o gay, a moça fogosa, o padre, o prefeito, a primeira-dama e outros tipos são apenas símbolos, arquétipos cômicos que fortalecem a proposta do cineasta em fazer de seu filme um microcosmo do Brasil, uma visão bem-humorada de um país que, mesmo afundado em uma ditadura militar, ainda não havia desistido de sonhar (e que metáfora melhor para o sonho do que uma tela de cinema?).

Diretor de dois filmes de temática espírita ("Bezerra de Menezes" e "As mães de Chico Xavier"), Helder Gomes encontrou em "Cine Holliúdy" sua voz definitiva. É um filme de personalidade forte e com o timing exato de humor e sensibilidade (em um equilíbrio inversamente proporcional ao italiano "Cinema Paradiso", de quem pega emprestado o nome e a temática), além de ser dono de uma brasilidade absolutamente indissociável de sua trama e protagonistas. Na pele do doce e sonhador Francisgleydisson, o ator Edmilson Filho - campeão de artes marciais que faz uso de seu impressionante talento para o humor físico para criar uma antológica sequência na parte final do filme - surge como uma grande revelação do cinema nacional, uma alternativa saudável e renovadora aos artifícios do chamado "cinema comercial brasileiro". Com seu carisma à serviço de um roteiro delicioso, de humor brejeiro mas nunca vulgar, ele transforma o filme em uma joia rara, digno de figurar entre as grandes comédias já produzidas no Brasil. Imperdível!

domingo, 15 de janeiro de 2017

INTERESTELAR

INTERESTELAR (Interstellar, 2014, Paramount Pictures/Warner Bros/Legendary Entertainment, 169min) Direção: Christopher Nolan. Roteiro: Christopher Nolan, Jontahan Nolan. Fotografia: Hoyte Van Hoytema. Montagem: Lee Smith. Música: Hans Zimmer. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: Nathan Crowley/Gary Fettis, Helen Kozora-Tell. Produção executiva: Jordan Goldberg, Jake Myers, Kip Thorne, Thomas Tull. Produção: Christopher Nolan, Lynda Obst, Emma Thomas. Elenco: Matthew McConaughey, Anne Hathaway, Jessica Chastain, Matt Damon, Michael Caine, Ellen Burstyn, David Oyelowo, Wes Bentley, William Devane, Casey Affleck, Topher Grace. Estreia: 26/10/14

5 indicações ao Oscar: Trilha Sonora Original, Direção de Arte/Cenários, Edição de Som, Mixagem de Som, Efeitos Visuais
Vencedor do Oscar de Efeitos Visuais 

Em 2006, quando ainda era um projeto da Paramount Pictures, "Interestelar" seria dirigido por um tal de Steven Spielberg, que contratou Jonathan Nolan para escrever o roteiro, inspirado em teorias científicas do físico Kip Thorne. A história original, que envolvia um conceito chamado de "caminho de minhoca" e várias outras situações que também inspiraram Carl Sagan a escrever seu clássico "Contato", acabou sendo deixada de lado pelo oscarizado cineasta em 2012, quando foi parar, então, nas mãos do irmão do roteirista, um homem que, em poucos anos de carreira, já havia redefinido os filmes de super-heróis com uma sombria trilogia protagonizada por Batman e criado um dos mais fascinantes e inteligentes filmes de ação da história ("A origem"): assumindo um projeto arriscado, caro (165 milhões de dólares) e sujeito à boa vontade de uma plateia mal-acostumada com blockbusters que não exigem muito do cérebro, Christopher Nolan transferiu a produção para sua casa (Warner Bros) e, com uma equipe de confiança a seu lado, realizou mais uma obra-prima que conquistou o público. Com mais de 600 milhões de dólares arrecadados ao redor do mundo, "Interestelar" - uma ficção científica empolgante, inteligente e emocionante - também colocou seu diretor em uma posição bastante privilegiada na indústria, ao ser o quarto filme seguido do diretor eleito como um dos dez melhores do ano pelo American Film Institute.

Como é comum na filmografia de Nolan, "Interestelar" se utiliza de uma técnica impecável para contar uma história que, no fundo, tem ressonâncias emocionais da mais alta profundidade. Sua receita de sucesso - contar com personagens fortes e ligações interpessoais que conectem a plateia com a trama, por mais complexa que ela possa parecer a princípio - mostrou-se vitoriosa principalmente em "A origem" (2010), e volta a funcionar à perfeição neste que talvez seja seu filme mais difícil até o momento. Longo (quase três horas de duração), dotado de um ritmo próprio que evita os clichês de filmes de ação e repleto de explicações científicas que poderiam assustar qualquer espectador acostumado às explosões sem sentido de Michael Bay, "Interestelar" é a prova cabal de que inteligência e diversão podem tranquilamente caminhar lado a lado - e que o público não é tão avesso quanto se pensa ao ato de por o cérebro para funcionar de vez em quando. Vencedor do Oscar de efeitos visuais - concorreu também às estatuetas de edição de som, mixagem de som, trilha sonora e direção de arte - o filme seduz pelo visual estonteante, mas se torna uma experiência única quando deixa a sensibilidade falar mais alto que a tecnologia.


A história imaginada por Nolan começa como mais uma produção sobre futuros distópicos, onde a humanidade está ameaçada de desaparecer diante de uma série de catástrofes que foram minando, pouco a pouco, todos os recursos naturais da Terra. É nesse ambiente desolador que o público é apresentado ao protagonista, Cooper (Matthew McConaughey), um engenheiro e piloto de testes da NASA tornado fazendeiro no Texas após a morte da esposa, e que tenta, a muito custo, manter a propriedade da família e cuidar dos dois filhos e do sogro. Seu destino, porém, logo lhe será revelado: após investigar o aparecimento de misteriosos sinais em sua fazenda, Cooper resolve seguir suas coordenadas e acaba parando em um bunker secreto, comandado pelo veterano John Brand (Michael Caine), um cientista com quem já havia trabalhado no passado. É Brand quem convence Cooper a entrar na mais perigosa aventura de sua vida: juntar-se a um pequeno grupo de exploradores - que inclui a filha de seu ex-chefe, Amelia (Anne Hathaway) - e viajar no espaço à procura de planetas que possam servir de salvação para o aparentemente inevitável extermínio da Terra e seus habitantes. Pensando nos filhos e na possibilidade de salvar a humanidade - um plano B seria o de colonização de outro ambiente propício à sobrevivência humana - Cooper aceita a missão, para desespero de sua filha, Murphy (Mackenzie Foy), uma menina de inteligência acima da média que se recusa a aceitar a partida do pai. A viagem exploratória começa, e é a partir daí que "Interestelar" pega todo mundo de surpresa.

Durante mais de duas horas, o roteiro dos irmãos Nolan segue o padrão dos filmes de ficção científica a que o público está habituado: efeitos visuais de primeira, alguns diálogos recheados de termos complexos, sequências de ação deslumbrantes e com altas doses de suspense, personagens que não são exatamente o que parecem. São seus trinta minutos finais, porém, que o tornam especial. Com uma reviravolta que põe em perspectiva tudo que foi mostrado até então e torna essenciais cada linha de diálogo e cada detalhe mostrados anteriores, a trama fecha um ciclo que, mais do que científico e metafísico, é essencialmente familiar e emotivo, oferecendo à uma Murphy adulta (e vivida com a competência de sempre por Jessica Chastain) uma importância crucial para um desfecho de arrepiar até ao mais cínico dos espectadores. Não importa se a plateia entende os conceitos de "buraco de minhoca" ou tem domínio da maior parte das explanações científicas da trama: é a humanidade que vem dos personagens que faz do filme universal e atemporal. Mais uma obra-prima de Christopher Nolan.

sábado, 14 de janeiro de 2017

O HOMEM IRRACIONAL

O HOMEM IRRACIONAL (Irrational man, 2015, Gravier Productions, 95min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Darius Khondji. Montagem: Alisa Lepselter. Figurino: Suzy Benzinger. Direção de arte/cenários: Carl Sprague/Jennifer Engel. Produção executiva: Ronald L. Chez, Adam B. Stern, Allan Teh. Produção: Letty Aronson, Stephen Tenenbaum, Edward Walson. Elenco: Joaquin Phoenix, Emma Stone, Parker Posey. Estreia: 15/5/15 (Festival de Cannes)

O método de trabalho de Woody Allen o preserva de um dos mais nocivos processos da indústria de Hollywood. Enquanto um filme seu é lançado e passa pelo longo e muitas vezes dolorido escrutínio da crítica e do público, ele já está mergulhado em outro projeto, a quilômetros de distância da obra anterior. É assim que sua carreira sobrevive firme e forte há mais mais de quatro décadas: sem deixar-se abalar pela recepção à sua vasta filmografia, que se divide entre pequenas obras-primas, filmes apenas corretos e alguns tropeços inquestionáveis. Pois foi saindo de um desses insucessos, o enfadonho "Magia ao luar" (2014) que Allen voltou a alguns de seus temas mais caros. Em "O homem irracional" ele mistura filosofia e literatura em uma trama de suspense que, assim como a maioria de seus trabalhos mais recentes, borra frequentemente a linha entre o bem e o mal de seu protagonista e surpreende a plateia com relevantes observações sobre a eterna discussão entre o certo e o errado. Não é estupendo como "Match point" (2005), mas significa vários passos adiante em relação a seu filme anterior - e é estrelado pela mesma Emma Stone.

Encantadora como sempre, Stone interpreta Jill Pollard, uma estudante de filosofia, brilhante e dedicada, que cai de amores pelo novo professor de sua universidade, o taciturno e misterioso Abe Lucas (Joaquin Phoenix exagerando na pose de pessimista de plantão). A fama de Lucas o procede quando ele chega à faculdade, mas ninguém sabe exatamente quais boatos a seu respeito são realmente verdadeiros. É verdade que seu melhor amigo morreu enquanto trabalhava em uma guerra? Foi esse mesmo amigo que lhe roubou a mulher e lhe jogou em uma profunda depressão? E sua reputação de mulherengo procede? Parece que sim, ou ao menos em parte, conforme Jill descobre com o tempo. Não apenas ela se apaixona por ele, a despeito de ter um namorado carinhoso, como tem que relevar o fato de que outra professora, Rita Richards (Parker Posey), não parece disposta a deixar o caminho livre para seu romance. Mesmo envolvido por Jill, porém, Lucas não consegue deixar de lado sua forma pouco agradável de ver a vida, até que um dia uma solução lhe aparece diante dos olhos: um assassinato que, a seu ver, vai ajudar a transformar o mundo em um lugar melhor. Mas será que essa maneira pouco ortodoxa de consertar o que está errado é justificável?


Quem é fã do cinema de Woody Allen vai ter muito a admirar em "O homem irracional", que apresenta sem disfarces muitas de suas características mais conhecidas, como os longos diálogos recheados de referências culturais sofisticadas e a extrema concisão no número de personagens e tramas paralelas. Concentrando todo seu foco nas relações de Abe Lucas com as duas mulheres que o cercam - e as consequências de suas ações aparentemente bem pensadas - o cineasta nova-iorquino mais uma vez explora a fascinante questão do crime como solução, mas, apesar das intenções ambiciosas, nem sempre atinge seu alvo. Talvez culpa da falta de carisma de Joaquin Phoenix, a falha do diretor em envolver o espectador de forma completa acaba por tornar seu filme uma espécie de ensaio de tudo o que realmente poderia ser. A ideia central é ótima, as reviravoltas são inteligentes e o final é imprevisível, mas existe uma apatia em seu protagonista que acaba por contagiar todo o resto da produção. Por mais que Emma Stone esteja ótima e Parker Posey brilhe em cada cena em que apareça, a ausência de empatia do espectador com o personagem central impede que a trama se torne ainda mais envolvente e praticamente anula o principal elemento do filme: a curiosidade sobre seu destino.

Ainda assim, "O homem irracional" apresenta muitas qualidades a serem apreciadas. Mestre em criar diálogos inteligentes e interessantes, Allen se utiliza de teorias filosóficas (de Kierkegaard a Hanna Arendt) para sublinhar os atos de seus personagens e lhes empresta características bastante humanas, ainda que por vezes esbarre na superficialidade. O filme também sofre com alguns problemas de ritmo, mas nada que atrapalhe o prazer que sempre é acompanhar os personagens neuróticos e brilhantes de um cineasta que, apesar da longevidade da carreira, ainda é capaz, ocasionalmente, de brindar o público com histórias fascinantes e relevantes. "O homem irracional" não se inscreve na lista de seus grandes filmes, mas é um entretenimento da qualidade que se espera de Woody Allen.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

HOLLYWOODLAND: BASTIDORES DA FAMA

HOLLYWOODLAND: BASTIDORES DA FAMA (Hollywoodland, 2006, Focus Features/Miramax, 126min) Direção: Allen Coulter. Roteiro: Paul Bernbaum. Fotografia: Jonathan Freeman. Montagem: Michael Berenbaum. Música: Marcelo Zarvos. Figurino: Julie Weiss. Direção de arte/cenários: Leslie McDonald/Odetta Stoddard. Produção executiva: J. Miles Dale, Jake Myers, Joe Pichirallo. Produção: Glenn Williamson. Elenco: Ben Affleck, Adrien Brody, Diane Lane, Bob Hoskins, Robin Tunney, Lois Smith. Estreia: 31/8/06 (Festival de Veneza)

Provavelmente apenas os mais dedicados estudiosos do cinema e da televisão conhecem - de nome e sem consultas ao Google - a trajetória do ator George Reeves, morto em 1959 depois de uma carreira marcada essencialmente por sua participação no seriado de tv "As aventuras do Super-homem", que permaneceu no ar entre 1952 e 1958 e no qual ele interpretava o super-herói de Krypton. Sentindo-se preso no papel que praticamente o impediu de ser levado a sério como ator dramático, Reeves foi encontrado morto, vítima de um tiro justamente na ocasião em que sua casa estava repleta de convidados. Foi suicídio ou homicídio? E, no caso de a segunda resposta for a correta, quem o cometeu? A jovem noiva, Leonore Lemmon (Robin Tunney)? A amante casada com um chefão da indústria de cinema, Toni Mannix (Diane Lane)? Ou o próprio executivo, Eddie Mannix (Bob Hoskins), vingando-se do adultério? Todas essas questões, ainda não definitivamente resolvidas, são a base de "Hollywoodland: bastidores da fama", filme que investiga, em tom ficcional, um caso que abalou a indústria do entretenimento americano à sua época. Comandado por Allen Coulter - experiente diretor de episódios de séries, como "Arquivo X", "Sex and the city", "A sete palmos", "Família Soprano" e "Roma" - e estrelado por um surpreendente Ben Affleck, o filme não chega a atingir todo o potencial de seu explosivo tema, mas é uma curiosa viagem pelos bastidores de Hollywood e os perigos da fogueira das vaidades que a cidade se orgulha em ser.

Na verdade, o roteiro se concentra em Louis Simo (Adrien Brody), um detetive particular com problemas no casamento que começa a investigar a morte de Reeves a partir do pedido da mãe da vítima, a aparentemente inconsolável Helen Bessolo (Lois Smith). Sabendo que o caso pode lhe dar a visibilidade necessária para que crie um nome respeitável na profissão, Simo passa a dedicar-se dia e noite à investigação - o que significa mergulhar não apenas na rotina do ator nas semanas imediatamente anteriores à sua morte, mas principalmente voltar no tempo, até os dias do começo de sua carreira, quando contou com a inestimável ajuda da bela Toni Mannix para manter-se confortavelmente e conseguir o papel de Super-homem em uma bem-sucedida série. Conforme vai avançando pelos meandros do sistema de entretenimento, Simo percebe que o glamour muitas vezes oferecido ao público nem sempre corresponde a bastidores saudáveis e/ou felizes. Esse choque de realidade o fará questionar a própria vida e carreira - principalmente quando, durante a investigação, passa a entender os sentimentos dúbios de Reeves em relação a seu status de ídolo popular.


Indicado ao Golden Globe de melhor ator em filme dramático e premiado no Festival de Veneza por sua atuação discreta e eficiente, Ben Affleck acerta o tom de seu George Reeves, criando um personagem repleto de idiossincrasias e nuances, fato raro em uma carreira marcada por severas críticas a seu talento como intérprete. Herdando um papel que quase foi de Hugh Jackman, ele deixa de lado sua persona de astro para tornar-se um ator real, imprimindo verdade e melancolia por baixo da máscara de vaidade e orgulho exibida por Reeves para o grande público. Não chega a ser uma atuação extraordinária e digna de um Oscar, mas é um grande passo para um ator que, à época, frequentava mais as manchetes sensacionalistas devido a seu romance com Jennifer Lopez - e o fracasso retumbante de filmes como "Contato de risco" (2003) e "Sobrevivendo ao Natal" (2004) - do que por seus méritos artísticos. Não à toa, seu trabalho chamou mais a atenção do público e da imprensa do que a interpretação sóbria e contida de Adrien Brody, que, desde seu inesperado Oscar por "O pianista" (2002) tenta encontrar um veículo adequado a seu modo quase sonolento de atuação. Na pele de Louis Simo ele nem precisa se esforçar muito para transmitir toda a sensação de tédio e desencanto que nasce das revelações que surgem em seu caminho - é uma interpretação minimalista que funciona, embora em alguns momentos dê a impressão de nunca atingir um clímax. E, de certa forma, esse é um problema do filme em si.

Mesmo tendo em mãos uma história intrigante e repleta de possibilidades, o roteirista Paul Bernbaum não consegue atingir todo seu potencial, principalmente por não conseguir fazer a conexão entre a história de Simo e a trajetória de Reeves de forma orgânica. Utilizando-se de flashbacks de forma confusa a maior parte do tempo, o filme tampouco ultrapassa a superficialidade quando trata dos bastidores de Hollywood, perdendo a chance de explorar um universo sempre rico e interessante. Diane Lane - que em 2015 viveu a esposa do roteirista Dalton Trumbo em "Trumbo: lista negra" - faz o que pode para dar vida a uma personagem dividida entre as aparências e a paixão, mas sofre com a irregularidade do roteiro. Sem apontar uma solução definitiva para o caso da morte de Reeves, o filme simplesmente levanta questões sem resolvê-las, para frustração do público que procura um desfecho mais contundente. É um bom filme, mas é incapaz de ficar na memória da plateia. Uma pena!

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

SETE MINUTOS DEPOIS DA MEIA-NOITE

SETE MINUTOS DEPOIS DA MEIA-NOITE (A monster calls, 2016, Apaches Entertainment, 108min) Direção: J.A. Bayona. Roteiro: Patrick Ness, romance homônimo de sua autoria, ideia de Siobhan Dowd. Fotografia: Oscar Faura. Montagem: Jaume Martí, Bernat Vilaplana. Música: Fernando Velázquez. Figurino: Steven Noble. Direção de arte/cenários: Eugenio Caballero/Pilar Revuelta. Produção executiva: Álvaro Augustin, Ghislain Barrois, Sandra Hermida, Jonathan King, Enrique López Lavigne, Patrick Ness, Bill Pohlad, Jeff Skoll, Patrick Wachsberger. Produção: Belén Atienza. Elenco: Lewis MacDougall, Felicity Jones, Sigourney Weaver, Liam Neeson, Toby Kebell, Geraldine Chaplin. Estreia: 09/9/16 (Festival de Toronto)

Aplaudido pelo mundo já em seu primeiro longa-metragem - o assustador "O orfanato" (2007) - e  posteriormente taxado de "o Steven Spielberg espanhol" por causa do sucesso de "O impossível" (2012), que deu uma indicação ao Oscar de melhor atriz à Naomi Watts, J.A. Bayona volta a mostrar sensibilidade na manipulação das emoções humanas (e principalmente infantis) em "Sete minutos depois da meia-noite", um impressionante e comovente drama de fantasia que, assim como "O labirinto do fauno" (2006), do mexicano Guillermo Del Toro, é uma ode à força da imaginação contra as tragédias do dia-a-dia. Ao contrário do premiado filme de Del Toro, porém, o filme de Bayona não fez tanto barulho nas bilheterias (cobriu seu orçamento apenas com a ajuda da arrecadação mundial) e foi solenemente ignorado pelo Oscar. Tal descaso, no entanto, não reflete nem de longe sua imensa qualidade: "Sete minutos depois da meia-noite" é um dos mais inteligentes e criativos filmes dos últimos anos, um devastador drama sobre amadurecimento disfarçado de aventura juvenil.

Inspirado em um livro infantil iniciado por Siobhan Dowd e finalizado por Patrick Ness após a morte do autor original, "Sete minutos depois da meia-noite" é um espetáculo visual de primeira linha à serviço de uma história fascinante e avassaladora, que trata de assuntos espinhosos com o verniz da fantasia e da imaginação pueril. O protagonista é Connor O'Malley (Lewis MacDougall), um menino irlandês de doze anos que está passando pelo pior período de sua curta existência: sua mãe (Felicity Jones, de "A teoria de tudo") está enfrentando um câncer terminal que a impede de conviver com ele de modo ideal; seu pai (Toby Kebell, de "Black Mirror") mora nos EUA com a nova família e não tem planos de incluí-lo em sua vida; sua avó (Sigourney Weaver), com quem não tem a melhor das relações, quer obrigá-lo a morar com ela; e na escola, ele sofre constante bullying por parte dos colegas mais fortes. Em uma noite, exatamente às 12:07, Connor recebe a visita de um monstro gigantesco em formato de árvore que avisa que irá visitá-lo sempre no mesmo horário para lhe contar três histórias que poderão lhe ajudar nessa fase da vida. O monstro completa o aviso informando-o também de que a última história será de sua autoria - e deverá explicar os motivos de seus pesadelos.


De forma brilhante e surpreendente, Bayona transforma um conto de solidão e trauma em um show de efeitos especiais que, ao invés de eclipsar a força da história, sublinha seu tom lúdico e fantástico. As narrativas do monstro são apresentadas em formato de animação, mas nada de esperar a estética Pixar ou Disney: o cineasta utiliza de cada uma das fábulas da apavorante criatura (com a voz de Liam Neeson e feições que vão se tornando mais humanas conforme a trama avança) para analisar, de maneira poética mas bastante contundente, todos os medos e sentimentos de Connor (e, por conseguinte, de boa parte da plateia, adulta ou não). Ao questionar fundamentos essenciais, como a bondade, a compaixão e a raiva, o roteiro do mesmo Patrick Ness que terminou o livro vai fortalecendo o caráter de seu protagonista e preparando-o para enfrentar o maior desafio de sua vida, que é encarar a morte da mãe e a maturidade precoce. É admirável os meios encontrados por Bayona e sua equipe em equilibrar tão organicamente a vida real de Connor e sua imaginação sem deixar que nenhuma das linhas narrativas sobreponha-se à outra - e mais importante ainda, que consiga fazer com que ambas se conectem tão naturalmente até o final, de uma tristeza profunda, mas dono de uma beleza incontestável.

Contando com um excepcional ator juvenil no papel principal - Lewis McDougall, que também participou do exótico "Peter Pan" (2015), de Joe Wright - e veteranos competentes entre os coadjuvantes - como Sigourney Weaver como sua irascível avó e Geraldine Chaplin, uma espécie de amuleto de sorte do diretor, tendo feito pontas em seus três trabalhos até aqui - "Sete minutos depois da meia-noite" surge como um dos melhores filmes de sua temporada. Com um roteiro de ritmo preciso e equilibrado, um visual acachapante e o tom emocional acertadamente adequado a uma história que mira em vários tipos de plateia, o filme de Bayona é um triunfo em todos os aspectos, capaz de cativar qualquer espectador disposto a mergulhar em uma narrativa repleta de simbolismos e metáforas que, longe de aborrecer ou confundir, apenas valorizam a beleza de suas intenções e de sua realização. Imperdível!