quarta-feira, 21 de setembro de 2016

CARTA DE UMA DESCONHECIDA

CARTA DE UMA DESCONHECIDA (Letter from a unknown woman, 1948, Rampart Productions, 86min) Direção: Max Ophuls. Roteiro: Howard Koch, romance de Stefan Zweig. Fotografia: Frank Planer. Montagem: Ted J. Kent. Música: Daniele Amfitheatrof. Figurino: Travis Banton. Direção de arte/cenários: Alexander Golitzen/Russell A. Gaussman. Produção: John Houseman. Elenco: Joan Fontaine, Louis Jordan, Mady Christians, Marcel Journet, Howard Freeman. Estreia: 28/4/48

Não exatamente um gênero cinematográfico, mas frequentemente tratado como tal, o melodrama é, também, alvo de constantes críticas e desdém. Desprezado pelos fãs mais intelectualizados da sétima arte - normalmente por apelar para temas românticos e dramáticos que se assemelham às telenovelas, por sua vez também vítimas de pouco caso por parte dos espectadores - o gênero que tanto encanta cineastas consagrados como Pedro Almodóvar poucas vezes viu um exemplar tão perfeitamente adequado às suas características quanto "Carta de uma desconhecida", dirigido pelo alemão Max Ophuls. Sem abrir mão de tudo que o gênero pede - lágrimas, reviravoltas, amores impossíveis e mortes dramáticas - o filme acabou por ser considerado um clássico absoluto do melhor cinema dramático feito em Hollywood na década de 40 e ainda hoje faz parte da lista dos favoritos de boa parte da crítica.

A história tem pedigree - é baseada em um livro de Stefan Zweig, escritor austríaco que chegou a morar no Brasil - e a sofisticação de Ophuls em transformar as palavras do romance de Zweig e do roteiro de Howard Koch faz com que a sensibilidade e a dramaticidade da trama desfilem diante da plateia como um balé bem orquestrado, suave como a protagonista Lisa Brendl (Joan Fontaine, então casada com o produtor William Dozier, cuja companhia, a Rampart Productions, bancou o projeto). Mesmo já com 30 anos de idade, Fontaine - cuja inimizade com a irmã, Olivia de Havilland, era notória em Hollywood - convence plenamente como a adolescente de 16 anos que dá início a uma trama de amor platônico e dor que irá atravessar anos e uma série de autossacrifícios. Uma atriz de grande capacidade dramática, Fontaine considerava "Carta de uma desconhecida" seu melhor filme - e vale lembrar que em seu currículo inclui-se trabalhos como "Rebecca, a mulher inesquecível" (40) e "Suspeita" (41), ambos dirigidos por Alfred Hitchcock.


O cenário é Viena e tudo começa - ou termina, dependendo do ponto de vista - no início do século XX, quando o outrora famoso pianista Stefan Brand (Louis Jordan), já sem a mesma alegria de viver da juventude, prepara-se para participar de um duelo. Antes que isso aconteça, porém, ele recebe de seu criado uma carta escrita por uma mulher de cuja existência ele nem sabia (ou lembrava) existir. As primeiras palavras da carta - "Quando você estiver lendo essa carta eu já estarei morta!" - imediatamente capturam a sua atenção e, a partir daí, tanto ele quanto a plateia estarão fisgadas por uma história absolutamente simples, mas totalmente devastadora. A autora da carta, Lisa Brendl, era uma jovem de 16 anos quando ouviu pela primeira vez Stefan - seu vizinho - tocar piano. A paixão à primeira vista a impede de sequer tentar levar uma vida adolescente normal, mas sua rotina é abalada quando se vê obrigada a mudar-se, com a mãe e o padrasto, para o interior. Depois que a desajeitada corte de um outro rapaz a faz finalmente voltar à Viena, finalmente ela já é adulta e pode viver sua história de amor. Mas é aí que tudo realmente começa a dar errado na mesma medida em que ela acredita estar a um passo da felicidade.

Não há dúvidas de que a trama de "Carta de uma desconhecida" é digna do maior novelão mexicano - especialmente quando o roteiro apela para tragédias e um sentimento de culpa de que só atrizes da competência de Fontaine são capazes sem parecerem ridículas. É certo também que sua Lisa é de uma ingenuidade e altruísmo quase inverossímeis - mesmo que se leve em conta que a história se passa na Europa do início do século XX. Mas a encenação de Max Ophuls suplanta toda a alta dose de açúcar do roteiro, protegendo seus personagens e sua trama com carinho e elegância. Encontrando soluções visuais brilhantes para enfatizar a passagem de tempo e ao mesmo tempo sublinhar o quanto algumas coisas permanecem inalteradas, Ophuls encarrega-se também de dar credibilidade e seriedade a um romance que, em mãos menos capazes, poderia descambar para um dramalhão piegas e cafona. Graças à sua assinatura, "Carta de uma desconhecida" pode ser visto como um dos mais importantes filmes de sua época - e um catalisador de emoções ainda bastante potente para os mais sensíveis. Grande cinema, a despeito de qualquer preconceito de que possa ser vítima.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

INTERLÚDIO

INTERLÚDIO (Notorius, 1946, RKO Radio Pictures, 101min) Direção: Alfred Hitchcock. Roteiro: Ben Hecht, estória "The song of the dragon", de John Taintor Foote. Fotografia: Ted Tetzlaff. Montagem: Theron Warth. Música: Roy Webb. Direção de arte/cenários: Carroll Clark, Albert S. D'Agostino/Claude Carpenter, Darrell Silvera. Produção: Alfred Hitchcock. Elenco: Ingrid Bergman, Cary Grant, Claude Rains, Louis Calhern, Leopoldine Konstantin. Estreia: 15/8/46

2 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Claude Rains), Roteiro Original



Alfred Hitchcock sempre fez questão de deixar bem claro que, quando resolvia transformar um livro ou peça de teatro em filme, utilizava-se apenas da parte do material que lhe interessava, abandonando o restante e preenchendo as lacunas da forma que melhor lhe fosse útil. Um exemplo mais do que claro de que ele falava a verdade é “Interlúdio”, que ele lançou em 1946 e se tornou sua segunda colaboração consecutiva com a bela Ingrid Bergman: a partir de um conto publicado no jornal Saturday Evening Post, chamado “A canção das chamas”, o cineasta criou uma trama de espionagem das mais brilhantes, que se aproveitava da situação política do mundo – o recente fim da II Guerra Mundial – para prender o espectador através de uma singela história de amor. E, ironia das ironias, justamente por causa de suas pesquisas para o roteiro, Hitch esteve na mira do FBI por alguns meses.

Com o país envolto em uma aura de paranoia nuclear, o FBI não gostou nem um pouco de saber que Hitchcock havia visitado um dos maiores cientistas do país com perguntas “suspeitas” a respeito da fabricação de uma bomba atômica – e nem adiantou saber que tal cientista havia afirmado categoricamente que era impossível que tal fato acontecesse. O que interessava ao diretor, no entanto, eram apenas detalhes que pudessem servir de elemento dramático para a história que estava então começando a conceber em sua mente – uma história que tinha como linha de ação a ideia simples “uma moça tem que dormir com um espião para conseguir informações para ajudar o país, mesmo apaixonada por um colega.” A inclusão de elementos químicos e a construção de uma bomba atômica, por incrível que pareça, apavorou o produtor David O. Selznick a tal ponto que ele fez o que ninguém esperava: vendeu todo o pacote – diretor, Ingrid Bergman, Cary Grant e o roteiro “improvável” – para a RKO. Endividado com o orçamento estourado do faroeste “Duelo ao sol”, com Jennifer Jones, Selznick se livrou do que ele considerava dois problemas ao mesmo tempo. Deixou passar um dos melhores filmes de Hitchcock – e olha que estamos falando de um homem que tem tantas obras-primas no currículo que fica difícil contar em uma única mão seus melhores trabalhos.


A trama de “Interlúdio” começa quando um espião nazista é condenado à morte por um tribunal americano. Apesar de não compactuar com as ideias do pai e levar uma vida de liberdade e independência, sua única filha, Alice (Ingrid Bergman) é procurada pelo envolvente T.R. Devlin (Cary Grant), agente do governo que lhe propõe uma missão como forma de amenizar a imagem de sua família junto aos EUA. Apaixonada por Devlin, Alice aceita participar da aventura e parte com ele para o Rio de Janeiro, onde deverá reencontrar e retomar contato com o nazista Alexander Sebastian (Claude Rains), amigo de seu pai e cuja mansão serve de esconderijo para os espiões alemães vivendo no Brasil. Para sua surpresa, Alexander não apenas se apaixona por ela como a pede em casamento – proposta que ela se vê impelida a aceitar para dar continuidade ao plano. Aos poucos ela e Devlin descobrem que Alexander realmente está usando sua casa para esconder urânio – quase ao mesmo tempo em que a jovem passa a correr sério risco de ser desmascarada pelo espião e por sua manipuladora mãe (Leopoldine Konstantin).

Repleto de sequências brilhantes, “Interlúdio” é o que de melhor Alfred Hitchcock tem a oferecer a seu público. Com uma trama simples que se desenrola de forma suave e envolvente, o filme funciona tanto como romance quanto como suspense de espionagem – com cenas geniais em ambos os gêneros. O longo beijo entre Bergman e Cary Grant, por exemplo, trapaceia o famigerado Código Hays ao mesclar o ato romântico a uma conversa aparentemente banal sobre comerem frango no jantar (para desespero de um Ben Hetch nada disposto a ver seu roteiro com uma cena do tipo) e não deixa de ser angustiante perceber o quanto Alice espera que Devlin interceda a seu favor e a impeça de casar-se com um espião nazista enquanto a ama. Como suspense, destacam-se a sequência em que os dois descem à adega de Sebastian para investigar sua coleção de vinhos (uma cena cuja consequência é vital para a trama) e os minutos finais, quando Alice passa de heroína à vítima e tem seus problemas confundidos por Devlin como uma recaída a seu problema com álcool. São em momentos assim que se percebe o porquê de Hitchcock ter-se apaixonado por Ingrid: além de linda e elegante, a sueca (em vias de envolver-se com Roberto Rosselini e um escândalo que a baniria de Hollywood por anos) brilha em uma interpretação das mais convincentes de sua carreira.

“Interlúdio” é, por fim, um Hitchcock da melhor safra – e um dos seus melhores em preto-e-branco. É elegante, sutil, inteligente e com uma dupla de atores em dias de grande inspiração. Tudo bem que a história contada por Hitch – a de que Bergman certa vez recusava-se a sair de seu quarto até que ele dormisse com ela – é absurda, mas o diretor sabia o que fazia. Mesmo que depois ele tivesse que conviver com o FBI na sua cola.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

GILDA

GILDA (Gilda, 1946, Columbia Pictures Corporation, 110min) Direção: Charles Vidor. Roteiro: Marion Parsonnet, estória de E.A. Ellington, adaptação de Jo Eisinger. Fotografia: Rudolph Maté. Montagem: Charles Nelson. Música: Hugo Friedhofer. Figurino: Jean Louis. Direção de arte/cenários: Stephen Goosson/Robert Priestley. Produção: Virginia Van Upp. Elenco: Glenn Ford, Rita Hayworth, George Macready, Joseph Calleia, Steven Geray. Estreia: 14/02/46


Em 1946, o exército norte-americano fez vários testes nucleares no Atol de Bikini. Uma das bombas, batizada de Gilda, era uma sincera homenagem à personagem-título de um dos filmes de maior sucesso do ano e à sua intérprete, a atriz Rita Hayworth. O que poderia ser considerado um elogio para a maioria das mulheres ciosas de sua beleza, porém, não agradou nem um pouco à estonteante então esposa de Orson Welles. Ofendida com o ato, Hayworth parecia prever que a imagem transmitida pelo filme de Charles Vidor – a de uma mulher cuja maior qualidade residia na sua capacidade de enlouquecer os homens através da aparência – a seguiria pelo resto da vida e da carreira. A mulher que declarou, não sem uma ponta de mágoa, que “os homens dormem com Gilda e acordam comigo!” deve à produção de Vidor – que ela recusou, a princípio – a perenidade de seu status de símbolo sexual. Talvez apenas Marilyn Monroe e sua saia levantada por acidente em “O pecado mora ao lado” seja uma imagem tão excitante na história do cinema quanto o strip-tease de Gilda. Que o diga o escritor Stephen King, que fez com que a personagem tivesse importância crucial – ainda que indireta – em seu conto “Rita Hayworth and the Shawshank redemption”, que deu origem ao genial filme “Um sonho de liberdade”, dirigido por Frank Darabont em 1994.

A trama de “Gilda” não é exatamente um primor, chegando muitas vezes ao nível do superficial. Sorte de Vidor e da Columbia Pictures – e seu chefão Harry Cohn – que a química entre o casal central, formado por Hayworth e o canadense Glenn Ford, extrapolou os limites do roteiro e tornou-se a maior força do filme, estendendo-se para a vida real e acompanhando os dois para sempre. Quando estão juntos em cena, Hayworth e Ford suplantam o enredo pouco criativo e justificam a aura de sensualidade que fez desse trabalho específico de Vidor – que já havia dirigido a atriz em “Modelos” (41) e voltaria a comandá-la em “Carmen” (48) – sua obra mais marcante. Valorizado pela fotografia em preto-e-branco de Rudolph Mate, que usa e abusa das sombras para sublinhar a atmosfera sexy e esfumaçada de boates, cassinos e ambientes propensos a todo tipo de crime, “Gilda” é um filme noir que poderia tranquilamente ter Humphrey Bogart em seu elenco. E por pouco não teve.


Convidado para interpretar o perdido Johnny Farrel, principal papel masculino do filme, Bogart declinou da proposta afirmando – com toda a razão, como se veria mais tarde – que sua presença ou de qualquer outro ator ao lado de Rita Hayworth seria totalmente desnecessária, uma vez que a beleza radiante da atriz ofuscaria tudo à sua volta. Logicamente o ator não estava tendo uma premonição, mas basta que Hayworth apareça pela primeira vez em cena para que realmente todo o resto torne-se menos importante do que ela. Sua entrada no filme – em uma sequência clássica onde ela mostra o lindo rosto ao levantá-lo e jogando os cabelos para trás – só encontra rival em outro momento fundamental do erotismo no cinema americano: Gilda entoando “Put the blame on Mame” (dublada por outra cantora) enquanto ensaia um strip-tease que chega apenas a uma luva e uma gargantilha, mas deixa todos os homens da boate – e da plateia – suspirando de paixão.

E paixão é a mola-mestra do filme – assim como o ódio e a vingança, dois de seus efeitos colaterais mais conhecidos. Em Buenos Aires (uma mudança surpreendente de cenários, especialmente nos anos 40 obcecados por EUA, França e Alemanha), o jogador Johnny Farrell (Glenn Ford) passa a ser o protegido do misterioso Bernard Mundson (George MacReady), que o contrata como gerente de um de seus cassinos. Homem de confiança do patrão – que tem contatos no mínimo suspeitos com um grupo de empresários ligados a minas de tungstênio – Farrell vê sua lealdade ao novo amigo sofrer um duro golpe quando descobre que sua esposa, a americana Gilda (Hayworth no auge da beleza), é a mesma mulher por quem ele ainda sofre depois de uma decepção amorosa. Tanto um quanto o outro tem arestas para aparar em relação ao fim do romance, mas tal embate ameaça sucumbir à atração irresistível que ambos ainda sentem – até que Mundson é dado como morto em um acidente de avião durante uma fuga. O que poderia ser a grande chance para o reacender do antigo amor, porém, mostra-se, na prática, mais um exercício de vingança.

E é isso. A trama, simples e direta – mas que tenta parecer intrincada com todas as negociações de Mundson e seus sinistros sócios – é apenas moldura para o show de química entre Hayworth e Glenn Ford. O roteiro é recheado de diálogos de duplo sentido e não se furta a apelar até mesmo para um final ao estilo noir, com reviravoltas e um crime redentor. A direção de Charles Vidor é elegante e discreta. O figurino, como se poderia esperar, tornou-se ícone da moda. Mas é Rita e sua Gilda – uma mulher como nunca mais houve outra – a verdadeira razão de ser de um filme que, com outra intérprete, correria o risco de ser apenas mais um no longo universo dos clássicos do cinema americano.

domingo, 18 de setembro de 2016

A FELICIDADE NÃO SE COMPRA

A FELICIDADE NÃO SE COMPRA (It's a wonderful life, 1946, Liberty Films, 130min) Direção: Frank Capra. Roteiro: Frances Goodrich, Albert Hackett, Frank Capra, estória de Philip Van Doren Stern. Fotografia: Joseph Biroc, Joseph Walker. Montagem: William Hornbeck. Música: Dimitri Tiomkin. Figurino: Edward Stevenson. Direção de arte/cenários: Jack Okey/Emile Kuri. Produção: Frank Capra. Elenco: James Stewart, Donna Reed, Lionel Barrymore, Thomas Mitchell, Henry Travers. Estreia: 21/12/46

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Frank Capra), Ator (James Stewart), Montagem, Som
Vencedor do Golden Globe de Melhor Diretor (Frank Capra) 


É até difícil de acreditar, mas um dos filmes mais adorados pelas plateias dos últimos sessenta anos – e capaz de emocionar ao mais renitente e cínico espectador – foi um fracasso tão grande de bilheteria à época de sua estreia que abreviou a vida do estúdio independente que lhe deu origem. Baseado em uma pequena história publicada em um cartão de Natal, “A felicidade não se compra” talvez seja o filme que melhor ilustra as características da obra do cineasta Frank Capra, um dos mais populares e importantes diretores da era de ouro de Hollywood. Impregnada de otimismo, senso de humor, delicadeza e uma grande dose de ingenuidade, a história de um homem simples que em momentos de desespero reencontra a razão de viver através de um anjo disposto a conquistar suas almejadas asas foi sobrepujada, em seu lançamento, pelo êxito do drama pós-guerra “Os melhores anos de nossas vidas”, tanto nas bilheterias quanto no reconhecimento da Academia. Mas bastou que fosse redescoberto, nos anos 70, para tornar-se, indubitavelmente, um clássico natalino dos mais adorados pelo público através das décadas.

Escolhido por Capra para ser o primeiro filme de sua recém-fundada Liberty Films, na qual era sócio dos cineastas George Stevens e William Wyler e que pretendia lançar obras relevantes e sérias, “A felicidade não se compra” caiu em seu colo quando já estava em desenvolvimento por outro estúdio e com o nome de Cary Grant como protagonista. Baseado em um conto de Philip Van Doren, o roteiro do casal Frances Goodrich e Albert Hackett acabou sendo retocado pelo diretor para melhor caber em sua escolha para o papel central, o hesitante James Stewart. Era a primeira – e foi a única – vez em que Capra trabalhou escrevendo um filme seu, mas as intenções eram as melhores: apesar da fúria dos roteiristas anteriores, Capra (já vencedor do Oscar por “Aconteceu naquela noite”, de 1934) sabia que a história encontraria, nas mãos de Stewart, um calor humano mais crível e condizente com a trama central, e se para isso fosse preciso alterar alguns detalhes, assim seria feito. E foi. Ainda em dúvida se já era hora de voltar aos sets de filmagem – depois de ter se juntado ao exército americano na guerra – Stewart foi convencido pelo colega Lionel Barrymore a aceitar o papel que também já havia sido cogitado para Henry Fonda. Premiado com o Golden Globe e indicado ao Oscar por seu desempenho, o ator jamais poderia imaginar que o quase simplório George Bailey se transformaria no trabalho mais icônico de sua longa e vitoriosa carreira.


Lançado com apenas um dia de diferença de “Os melhores anos de nossas vidas” – que levou multidões aos cinemas e seria o grande vencedor do Oscar do ano seguinte – “A felicidade não se compra” foi um fracasso inesperado. Não apenas porque era a união de dois nomes bastante populares à época (Capra e Stewart) mas também porque ninguém poderia imaginar que as plateias fossem rechaçar tão violentamente um filme com intenções tão nobres. Foi somente quando caiu em domínio público, em 1974 – graças a confusões burocráticas – que sua sorte virou. Redescoberto por uma nova geração que passou a acompanhar suas tradicionais reprises televisivas no período do Natal, o filme começou, então, a conquistar fãs leais e influentes – como os diretores Rob Reiner e Edward Zwick – e ser parte de um ritual anual que o converteu em uma instituição norte-americana.

A história é simples, mas repleta de uma poesia redentora e humanista que equilibra até mesmo a acidez um tanto cínica de alguns momentos: tentando desesperadamente ganhar seu almejado par de asas, o anjo Clarence (a princípio apenas uma luz no céu, e posteriormente na figura bizarra de Henry Travers) recebe a incumbência de seus superiores de descer à Terra e ajudar um cidadão em apuros. O tal cidadão é George Bailey (James Stewart), que, na véspera de Natal, pensa em suicidar-se devido a manobras sujas do banqueiro Potter (Lionel Barrymore). Para melhor entender a situação, Clarence é posto a par - juntamente com a plateia - de toda a história do rapaz. Morador da pequena Bedford Falls, George abdicou de seus sonhos de juventude (viajar pelo mundo e tornar-se arquiteto) para permanecer ao lado da família e dar continuidade aos negócios do pai. Casado com a bela Mary (Donna Reed) e pai de adoráveis crianças, ele aos poucos acostumou-se com uma nova rotina, de ajudar aos amigos e necessitados do lugar. Seu desespero vem do fato de ter perdido todo o dinheiro guardado para as casas populares sonhadas pelos contribuintes. Mas Clarence, nem um pouco disposto a perder a oportunidade de finalmente ser presenteado com suas asas, decide impedir o suicídio de George mostrando a ele como seria a vida da cidade e de muitas pessoas a seu redor se ele nunca tivesse existido.

Com uma meia-hora final brilhante - quando George percebe sua importância para as outras pessoas - e a coragem radical de não tentar evitar um sentimentalismo quase exagerado, "A felicidade não se compra" é a prova contundente de que a sinceridade é um ingrediente dos mais importantes do cinema. Debaixo do humor ingênuo, da lição de vida e da crítica mordaz à ambição, o que mais se sobressai do filme de Capra é uma sinceridade à toda prova e um amor à humanidade que fica óbvio em cada cena e principalmente no olhar de felicidade de Bailey ao constatar que não há nada de mais importante no mundo do que a amizade - e que cada pessoa tem o poder de transformar a vida de outras. Uma bela lição em um filme atemporal!