sexta-feira, 7 de abril de 2017

KINGSMAN: SERVIÇO SECRETO

KINGSMAN: SERVIÇO SECRETO (Kingsman: The Secret Service, 2014, 20th Century Fox, 129min) Direção: Matthew Vaughn. Roteiro: Jane Goldman, Matthw Vaughn, comic book de Mark Millar, Dave Gibbons. Fotografia: George Richmond. Montagem: Eddie Hamilton, Jon Harris. Música: Henry Jackman, Matthew Margeson. Figurino: Arianne Phillips. Direção de arte/cenários: Paul Kirby/David Morison, Jennifer Williams. Produção executiva: Dave Gibbons, Pierre Lagrange, Stephen Marks, Mark Millar, Claudia Vaughn. Produção: Adam Bohling, David Reid, Matthew Vaughn. Elenco: Colin Firth, Taron Egerton, Samuel L. Jackson, Mark Strong, Michael Caine, Mark Hamill, Jack Davenport. Estreia: 13/12/14 

Em uma determinada cena de "Kingsman: Serviço Secreto", o agente Harry Hart (Colin Firth), em um diálogo com o vilão, Valentine (Samuel L. Jackson), lhe responde à pergunta sobre gostar de filmes de espionagem: "Hoje em dia eles estão um pouco sérios demais para o meu gosto. Mas os antigos... eram maravilhosos!" E completa: "Eu sempre senti que os filmes antigos de James Bond eram tão bons quanto seus vilões. Enquanto criança eu sempre preferi me ver, no futuro, como um grande megalomaníaco!". Esse tom de homenagem/reverência/ironia do filme, mais do que simplesmente parte do estilo do diretor (inglês, é claro) Matthew Vaughn, é fator fundamental para que o filme, baseado em um comic book lançado em 2012 (dois anos antes da estreia do filme, o que não deixa de ser um feito e tanto em uma indústria que às vezes leva décadas desenvolvendo seus projetos) tenha sido tão bem-sucedido, tanto em termos de crítica quanto de bilheteria. Com uma renda de mais de 400 milhões de dólares arrecadados pelo mundo, a comédia de ação de Vaughn - produtor dos primeiros filmes de Guy Ritchie e diretor do igualmente divertido "Kick-ass: quebrando tudo" (2010) - é tudo que um filme do gênero precisa ser: engraçado, movimentado, absurdo e muito, muito bem dirigido.

Indo ainda mais longe em sua criatividade em criar sequências de ação alucinantes que jamais perdem o bom-humor, Vaughn não decepciona em "Kingsman": da primeira cena (com a participação especial de Mark Hamill, o Luke Skywalker em pessoa) até o final explosivo - passando por no mínimo duas cenas geniais, em um pub e em uma igreja lotada - o cineasta parece não ter medo de coisas mundanas, como classificação etária ou a gravidade. Em uma época em que poucas coisas realmente chamam a atenção pela novidade, ele alcança um nível de frescor admirável, principalmente por inserir em suas lutas um ator respeitado por seus dotes dramáticos e vencedor de um Oscar, o britânico Colin Firth. Perceptivelmente se divertindo como nunca na carreira, Firth protagoniza momentos de puro nonsense sem nunca perder a classe, se reinventando e mostrando ser capaz de pular de papéis sérios para deliciosas bobagens sem deixar de lado sua tradicional fleuma. Com uma química impecável com o jovem Taron Egerton, ele surge como o mais improvável herói de filmes de ação - e tira de letra o desafio.


Criado como forma de homenagear as histórias de espionagem que encantavam Vaughn e Mark Millar - um dos autores do comic book que deu origem ao filme - e surgido durante as filmagens de "Kick-ass", o enredo de "Kingsman" explora todos os clichês do gênero, sempre lhe oferecendo altas doses extras de sarcasmo e modernidade. É assim que, sem desrespeitar os cânones já consagrados, conquista também uma audiência mais acostumada a efeitos visuais do que sutilezas - e, ignorando as diferenças de faixa etária, agrada tanto ao público mais adulto quanto àqueles que buscam apenas um entretenimento descompromissado para passar o tempo. Boa parte desse sucesso vem da escalação mais do que certeira do jovem Taron Egerton, que ganhou o papel depois da recusa de Aaron Taylor-Johnson e de ter concorrido com cerca de sessenta atores - incluindo o promissor Jack O'Connell. Carismático, talentoso e dotado de um senso de humor que é imprescindível ao projeto como um todo, Egerton - que depois voltaria a roubar a cena em "Voando alto", ao lado de Hugh Jackman - tem uma química impecável com Colin Firth e não parece incomodado de atuar com gente como Michael Caine e Samuel L. Jackson. Jackson, por sua vez, igualmente parece extremamente à vontade como o grande vilão do filme, Richmond Valentine - que foi oferecido a Tom Cruise, Leonardo DiCaprio e Idris Elba antes de cair em seu colo.

Seguindo a coerência de sua ideia em criar um vilão tão megalomaníaco que beira a caricatura, o roteiro de "Kingsman" apresenta Valentine como um gênio da tecnologia, cujos planos de salvar a Terra do aquecimento global envolve sacrificar parte da população e contar com líderes de todo o mundo. É ele a quem uma organização secreta inglesa chamada Kingsman precisa deter antes que seja tarde demais - e quem lidera a missão é Harry Hart, mais conhecido como Galahad (Colin Firth), que recruta para fazer do grupo o jovem delinquente Gary Enwim, ou simplesmente "Egsy" (Taron Egerton). Filho de um agente morto em ação há alguns anos, Egsy aceita concorrer a uma vaga no disputado time - e o treinamento árduo o revela como um talentoso e audacioso cavalheiro, que irá lutar em pé de igualdade contra o mal representado por Valentine. O treinamento de Egsy, sua transformação gradual de adolescente problemático em um homem de honra, sua relação filial com Harry... tudo está presente no roteiro, de forma orgânica e surpreendentemente moderna e agradável. Mas nada se compara à maneira com que Matthew Vaughn comanda as cenas de luta em seu filme: é impossível ficar impassível diante da adrenalina impressa em cada ângulo, em cada movimento de câmera, que simplesmente joga o espectador no meio de coreografias elaboradas para criar a sensação do mais absoluto (porém organizado) caos. São cenas brilhantes, editadas com maestria e corajosamente violentas, ainda que sua violência seja embalada por um visual colorido e quase irreal - uma prova da excelência do conjunto de fotografia, edição e trilha sonora. Uma conquista em todos os aspectos, "Kingsman: Serviço Secreto" é uma pequena obra-prima do gênero, um filme que, assim como "Kick-ass" subverte as regras para reapresentá-las de forma atraente e irresistível. Vaugh, que desistiu de assinar "X-Men: dias de um futuro esquecido" para comandar essa releitura dos filmes de espionagem, mais uma vez acertou em cheio. Imperdível!

quinta-feira, 6 de abril de 2017

GUARDIÕES DA GALÁXIA

GUARDIÕES DA GALÁXIA (Guardians of the Galaxy, 2014, Marvel Studios/Marvel Enterprises, 121min) Direção: James Gunn. Roteiro: James Gunn, Nicole Perlman, comic books de Dan Abnett, Andy Lanning, personagens de Bill Mantlo, Keith Giffen, Jim Starlin, Steve Englehart, Steve Gan, Steve Gerber, Val Mayerik. Fotografia: Ben Davis. Montagem: Fred Raskin, Hughes Winborne, Craig Wood. Música: Tyler Bates. Figurino: Alexandra Byrne. Direção de arte/cenários: Charles Wood/Richard Roberts. Produção executiva: Victoria Alonso, Louis D'Esposito, Alan Fine, Nik Korda, Jeremy Latcham, Stan Lee. Produção: Kevin Feige. Elenco: Chris Pratt, Zoe Saldana, Dave Bautista, Bradley Cooper, Vin Diesel, Lee Pace, Michael Rooker, Djimon Houson, John C. Reilly, Karen Gillan, Glenn Close, Benicio Del Toro. Estreia: 21/7/14

2 indicações ao Oscar: Maquiagem, Efeitos Visuais

Quem disse que apenas de super-heróis conhecidos e consagrados vive a Marvel? Em 2014, um filme que não tinha um personagem adorado pelo público (como Homem-Aranha, Thor, Capitão América ou Homem de Ferro) nem um astro capaz de arrastar multidões apenas por sua causa (o maior sucesso de seu ator central havia sido "Jurassic World", de 2013, que tinha nos dinossauros seu principal ponto de venda e interesse) surpreendeu a todos com uma bilheteria mundial de mais de 770 milhões de dólares. Confirmação absoluta do poder da marca Marvel, "Guardiões da galáxia" faz parte do mesmo universo dos Vingadores - do qual fazem parte os personagens citados acima - mas suas ligações com ele são apenas circunstanciais, perceptíveis apenas aos fãs mais antenados, que percebem cada detalhe que une todas as histórias em uma só. Àqueles que não tem o mesmo encantamento ou interesse pelo mundo de super-heróis que vem povoando as telas de cinema há quase uma década - os primeiros filmes dessa nova concepção foram "Homem de Ferro" e "O incrível Hulk", ambos de 2008 - o filme de James Gunn serve perfeitamente como uma divertida, agitada e descompromissada comédia de ação, comandada por um espetacular Chris Pratt e recheada de efeitos visuais caprichados e personagens coadjuvantes carismáticos e interessantes. Não à toa, apesar da incerteza acerca de sua bilheteria antes da estreia, o final já deixa claro que a aposta não era tão às cegas assim. Cinema de verão, afinal, é exatamente como "Guardiões da galáxia".

Visualmente impecável, o filme de James Gunn é quase infantil em seu humor fácil e personagens que prescindem de todo tipo de realismo, mas ainda assim consegue cativar todos os tipos de público. O roteiro - coescrito pelo diretor e por Nicole Perlman, primeira mulher a ter seu nome nos créditos de um roteiro da Marvel - usa e abusa do bom-humor, inserindo piadas nas horas exatas e fazendo de seu protagonista um personagem de quem é impossível desgostar. Sem levar-se demais a sério, a história é quase uma desculpa para uma sequência de bons momentos de ação e comédia, embalados em uma direção de arte de um colorido quase kitsch e uma trilha sonora deliciosa - uma seleção de hits da década de 80 que chegou ao número 1 da revista Billboard e foi indicada ao Grammy. Ilustrando espirituosamente uma trama recheada de efeitos visuais, explosões e personagens de aparência excêntrica (o filme concorreu ao Oscar de maquiagem, mas perdeu para "O Grande Hotel Budapeste"), as músicas escolhidas pelo diretor transformam o que já era entretenimento de primeira em uma viagem de montanha-russa na companhia de um grupo de adoráveis defensores da galáxia (ainda que alguns com intenções bem menos nobres do que simplesmente colocar a vida em risco por puro altruísmo).





A história começa na Terra, em 1988, quando o adolescente Peter Quill é abduzido por uma nave espacial logo depois da morte de sua mãe. Sem saber nem mesmo quem é seu pai, o rapaz leva consigo apenas uma fita cassete gravada por sua mãe com sucessos musicais da época e um pacote de presente ainda não aberto. Vinte e seis anos mais tarde, Quill trabalha como mercenário das galáxias, vendendo sua mão-de-obra e seu jogo de cintura em lidar com os mais variados tipos de alienígenas para resolver pequenos problemas interplanetários. Bem-humorado e feliz com sua atividade profissional (além de reconhecido e prestigiado por ela), Quill subitamente vê sua cabeça à prêmio quando, depois de roubar uma misteriosa esfera com o poder de destruir o mundo, passa a ser caçado pelo perigoso Ronan (Lee Pace) e seus violentos asseclas. Para defender-se (e ao mundo), ele se une então a um grupo no mínimo excêntrico, formado pelo ambicioso guaxinim Rocket (voz de Bradley Cooper), a árvore mutante Groot (voz de Vin Diesel), o agressivo Drax (Dauve Batista) e a vingativa Gamora (Zoe Saldana). Juntos, eles são a última esperança de impedir a destruição do universo.


A partir daí, dá-lhe cenas de ação que equilibram com destreza efeitos especiais caprichadíssimos (que perderam o Oscar para "Interestelar", de Christopher Nolan) e piadas realmente engraçadas e que surgem organicamente no roteiro - não como artifício narrativo, mas sim como parte essencial de um conjunto de extrema coesão. Agarrando com unhas e dentes o papel principal, Chris Pratt parece ter nascido para interpretar Peter Quill, com um misto de heroísmo, sarcasmo e pureza que o torna irresistível. Sua química com o restante da equipe é admirável, conduzida com leveza por James Gunn, um cineasta sem vasta experiência mas com inteligência o suficiente para explorar as maiores qualidades da trama (o humor, os personagens carismáticos, a despretensão) sem tentar impor um estilo próprio ou ousadias desnecessárias. Um excelente meio-termo entre entretenimento rápido e eficaz e um produto comercial gigantesco (por menores que fossem as expectativas trata-se de um filme da Marvel, afinal de contas), "Guardiões da galáxia" não conquistou às exigentes plateias mundiais à toa: é uma das mais gratificantes experiências do universo dos gibis, entregando mais do que prometia e apresentando ao público uma gama de personagens encantadores e simpáticos. Uma pérola do gênero!

quarta-feira, 5 de abril de 2017

THE BEACH BOYS: UMA HISTÓRIA DE SUCESSO

THE BEACH BOYS: UMA HISTÓRIA DE SUCESSO (Love & Mercy, 2014, River Road Entertainment, 121min) Direção: Bill Pohlad. Roteiro: Oren Moverman, Michael Alan Lerner. Fotografia: Robert Yeoman. Montagem: Dino Jonsater. Música: Atticus Ross. Figurino: Danny Glicker. Direção de arte/cenários: Keith Cunningham/Maggie Martin. Produção executiva: Jim Lefkowitz, Oren Moverman, Ann Ruark. Produção: Bill Pohlad, Claire Rudnick Polstein, John Wells. Elenco: Paul Dano, John Cusack, Paul Giamatti, Elizabeth Banks, Jake Abel, Kenny Wormald, Brett Davern. Estreia: 07/9/14 (Festival de Toronto)

Quando foi atender aquele homem excêntrico e gentil que procurava um carro novo naquele dia de 1986, a jovem Melinda Leadbetter jamais imaginaria que sua vida seria profundamente alterada: aquele homem era Brian Wilson, ex-integrante de um dos grupos musicais de maior sucesso dos anos 60, e sua relação com ele revelaria não apenas uma mente brilhante e à frente de seu tempo, mas também perturbada e controlada por um médico inescrupuloso que o impedia de levar uma vida normal. A relação entre Melinda e Brian - e o retrato do começo do desequilíbrio mental do artista - são o tema de "The Beach Boys: uma história de sucesso", uma cinebiografia quase convencional mas, acima de tudo, fiel aos fatos e dotada de uma alma que a torna irresistível aos fãs do grupo, que tem a oportunidade de conhecer um lado pouco glamouroso de um ídolo que substituiu os palcos e a fama por clínicas e paranoia. Com um roteiro inteligente que intercala fases distintas da vida de Wilson com (bons) atores se dividindo no papel, o filme de Bill Pohlad não deixa de ser um sopro de criatividade dentro de seu subgênero, optando por um foco narrativo específico ao invés de debruçar-se sobre uma vida inteira - o que fatalmente acabaria  na superficialidade.

Uma história repleta de acontecimentos dramáticos irresistíveis ao cinema, a trajetória de Brian Wilson através de seus problemas psicológicos já tinha flertado com as telas em duas ocasiões: na década de 80, com William Hurt na pele do músico e Richard Dreyfuss como seu médico particular, Eugene Landy, e nos anos 90, com Jeff Bridges no papel central. Nenhuma das duas tentativas conseguiu ultrapassar os limites das possibilidades - o que não deixa de ser um alívio, em especial se for considerado que o filme com Hurt e Dreyfuss teria o dedo do próprio Landy na produção, o que fatalmente alteraria profundamente a veracidade dos fatos narrados. Landy, afinal de contas, pode facilmente ser considerado o vilão da história: mantendo Wilson sob seu rígido comando, ele se aproveitava da fragilidade do paciente para manipulá-lo e afastá-lo de quem quer que pudesse realmente ajudar em sua recuperação. Foi assim, por exemplo, com a própria Melinda, que se viu no meio do fogo cruzado entre os dois assim que entrou na vida de Brian: fascinado por ela, o autor de algumas das canções mais amadas da história da música americana comprou uma briga com seu psicólogo para agarrar-se a uma espécie de último fiapo de esperança de manter-se são. Esse confronto entre Melinda e Landy se alterna, no roteiro escrito por Oren Moverman (indicado ao Oscar por "O mensageiro", de 2009) e Michael Alan Lerner, com a criação do mais radical álbum dos Beach Boys, o mal-compreendido "Pet Sounds" - surgido em meio aos demônios pessoais de seu compositor.


Na juventude - e em fase de total ebulição criativa - Brian Wilson é interpretado por Paul Dano, vencedor do prêmio de melhor ator pelos críticos de Nova York e indicado ao Golden Globe por seu desempenho hipnótico. Totalmente imerso no personagem, Dano entrega a melhor atuação de sua carreira, mesclando momentos de bravata com outros de puro desespero e angústia - fustigados por seu pai, um homem mais afeito ao lucro do que à arte e incapaz de uma palavra de afeto. Torturado por pensamentos aflitivos, o rapaz vai contra o óbvio e se afasta dos palcos para conceber um disco revolucionário em música e conceito - algo que nem todo mundo se esforçava para compreender em sua importância cultural. Vinte anos mais tarde, Wilson ganha a forma de John Cusack e, maltratado pelo tempo e por uma vida de excessos e remédios fortíssimos, é quase incapaz de dar um passo sem consultar seu médico/guru/guarda-costas Eugene Landy (interpretado com gosto por um excelente Paul Giamatti). Uma sombra do que poderia ter sido, Wilson vê em Melinda uma luz no fim do túnel, e mesmo com a saúde mental debilitada, se envolve em uma história de amor improvável e que pode lhe salvar a vida. Cusack está bem no papel, mas é quase eclipsado por Giamatti - que rouba todas as cenas em que aparece, como um parasita detestável e ameaçador (sua interpretação é tão admirável que o próprio Brian Wilson ficou pouco à vontade ao vê-lo em cena). No meio de tantos talentos, Elizabeth Banks surpreende em um papel sério e discreto - um porto seguro dentre tantas tormentas.

Pontuado por uma sutil trilha sonora de Atticus Ross - colaborador habitual de David Fincher - e editado de forma a manter o espectador interessado no desenrolar dos acontecimentos, "The Beach Boys: uma história de sucesso" é um conjunto de acertos. A direção de Bill Pohlad não tenta chamar mais a atenção do que a história ou os personagens, servindo como um fio condutor eficiente mas nunca maior do que a trama. Bem-sucedido produtor - de filmes oscarizados, como "O segredo de Brokeback Mountain" (2005) e "12 anos de escravidão" (2014) - e estreante como cineasta, Pohlad faz um primeiro trabalho primoroso em sua sutileza e delicadeza em tratar de assuntos desagradáveis sem afastar o público. Oferecendo uma cinebiografia que foge das narrativas convencionais, ele entrega um filme que consegue agradar aos fãs da banda e apresentá-la (ou ao menos introduzir sua música) a neófitos e/ou admiradores ocasionais. Um belo drama musical, embalado por canções das mais agradáveis já gravadas e com um elenco em dias inspirados. O que mais se pode esperar?

terça-feira, 4 de abril de 2017

LABIRINTO DE MENTIRAS

LABIRINTO DE MENTIRAS (Im labyrinth des schweigens, 2014, Claussen Wobke Putz Filmproduktion/Naked Eye Filmproduktion, 124min) Direção: Giulio Ricciarelli. Roteiro: Elisabeth Bartel, Giulio Ricciarelli, ideia de Elisabeth Bartel, colaboração de Amelie Sybergberg. Fotografia: Martin Langer, Roman Osin. Montagem: Andrea Mertens. Música: Sebastian Pille, Niki Reiser. Figurino: Aenne Plaumann. Direção de arte/cenários: Manfred Doring/Janina Jaensch. Produção: Jakob Claussen, Sabine Lamby, Uli Putz. Elenco: Alexander Fehling, André Szymanski, Friederike Becht, Johannes Krish. Estreia: 06/9/14 (Festival de Berlim)

Uma cicatriz ainda longe de cicatrizar na história do mundo em geral e na carne da população alemã em particular, o nazismo e a forma como ele encontrou espaço para proliferar na sociedade germânica dos anos da II Guerra Mundial ainda é tema de muita discussão, polêmica e histórias (já contadas ou ainda inéditas). Uma prova disso é "Labirinto de mentiras", o candidato do país à corrida do Oscar de melhor filme estrangeiro de 2014. Baseado em fatos reais e dotado de uma sobriedade que evita qualquer tipo de sentimentalismo ou apelo sádico, o filme do italiano Giulio Ricciarelli pode até não apresentar nenhuma novidade ao gênero, mas é uma produção caprichada, que trata do tema com seriedade e respeito, além de discutir, de forma discreta, o colaboracionismo (ou indulgência) do povo alemão diante do maior crime contra a humanidade da História. Sem imagens cruéis ou catarses emocionais grandiosas, é uma obra sutil e inteligente, com um roteiro que acerta em centrar seu foco em um protagonista quase ingênuo que, com o passar do tempo, se vê diante de uma realidade tão aterradora que o faz repensar toda a sua existência. Um herói com quem o público pode facilmente se identificar, Johann Radmann é também os olhos e os ouvidos da plateia - e seu choque com o que descobre é impossível de não ser compreendido.

Advogado recém-formado e trabalhando na Promotoria de Frankfurt em tediosos casos relacionados ao trânsito, Radmann conta as horas para ter a chance de mostrar sua competência em algo menos banal. Levando uma vida pacata e centrada na ética e no que considera correto, ele vê uma oportunidade surgir através do jornalista Thomas Gnielka (André Szymanski), que cobra das autoridades alguma atitude contra um aparentemente idôneo professor de crianças que é reconhecido por um ex-prisioneiro de Auschwitz como um dos guardas responsáveis pelas barbaridades cometidas durante a II Guerra. O ano é 1958 e o conflito parece fazer parte de um passado muito distante, mas Radmann resolve investigar mais a fundo - e, com a ajuda de seu superior, Fritz Bauer (Gert Voss), responsabilizar criminalmente não apenas este acusado, mas uma série de outros colaboradores nazistas que vivem vidas normais desde a morte de Hitler. O que o rapaz nem de longe desconfia é que as informações a respeito do que realmente acontecia nos campos de concentração são bem diferentes daquelas a que boa parte da população tinha notícia: conforme vai avançando em direção à verdade, Radmann vai se tornando amargo e desiludido, em especial quando percebe que muita gente gostaria de enterrar o passado - e esquecer as atrocidades cometidas em nome do patriotismo.


Alexander Fehling - que interpretou o interesse romântico de Claire Danes na quinta temporada da série "Homeland"- sai-se muito bem na pele de Johann Radmann, equilibrando com precisão todas as nuances do personagem. De jovem idealista e dotado de rígidas regras de conduta - que o faz emprestar dinheiro para uma ré para que a lei não seja minimamente alterada - até um homem confrontado com uma verdade inconveniente e desconfortável, o ator transita com segurança, sem buscar o caminho mais fácil: seu personagem é um exemplo de retidão moral, mas também tem atitudes bastante humanas e quase equivocadas, o que o aproxima do espectador. Suas reações enquanto vai tomando consciência de que todos à sua volta podem ser culpados, de alguma maneira, pelo que aconteceu na guerra, reflete o estado de espírito de alguém traído e enganado pela própria pátria - a quem ele ama mas talvez não goste mais. É um caminho penoso que o afasta de amigos, colegas e até da mulher por quem é apaixonado, mas do qual ele não pode mais sair sem feridas profundas. E o roteiro de "Labirinto de mentiras" não tem medo de empurrá-lo cada vez mais em direção às trevas do conhecimento.

Giulio Riciarelli acerta em não se deixar cair na armadilha de ilustrar sua história com descrições detalhadas dos horrores do nazismo: sua tática em explorar a tragédia através de olhares emocionados e/ou chocados é exemplar, evitando o dramalhão fácil. O crescimento emocional de seu protagonista é crível e compreensível diante dos fatos - e o elenco coadjuvante confirma o talento do cineasta em dirigir seus atores sem buscar neles qualquer tipo de excesso. Marcado pela sutileza e pela elegância mesmo se tratando de uma produção com todas as possibilidades de desviar-se para o panfletário oco, "Labirinto de mentiras" é um grande filme, uma das produções mais interessantes a respeito do tema - a despeito de sua despretensão narrativa, que contrasta com a importância de seu desfecho para a história da Alemanha e do mundo pós-guerra. Imperdível!

segunda-feira, 3 de abril de 2017

INTRIGAS DE ESTADO

INTRIGAS DE ESTADO (State of play, 2009, Universal Pictures/Working Title Films, 127min) Direção: Kevin MacDonald. Roteiro: Matthew Michael Carnahan, Tony Gilroy, Billy Ray, série de televisão de Paul Abbott. Fotografia: Rodrigo Prieto. Montagem: Justine Wright. Música: Alex Heffes. Figurino: Jacqueline West. Direção de arte/cenários: Mark Friedberg/Cheryl Carasik. Produção executiva: Paul Abbott, Liza Chasin, Debra Hayward, E. Benneth Walsh. Produção: Tim Bevan, Eric Fellner, Andrew Hauptman. Elenco: Russell Crowe, Ben Affleck, Rachel McAdams, Helen Mirren, Robin Wright, Jason Bateman, Jeff Daniels, Viola Davis, David Harbour. Estreia: 17/4/09

Na falta de bons roteiros originais, ou ao menos na falta de coragem de investir em ideias novas, Hollywood constantemente volta sua atenção para materiais já previamente testados, seja em livros, histórias em quadrinhos ou até mesmo em clássicos queridos pelo público. Nessa ânsia por encontrar boas histórias, nem ao menos programas de televisão são poupados. Um exemplo dessa afirmação é "Intrigas de estado", uma produção de primeira linha, com atores famosos e consagrados, um estúdio tradicional (Universal Pictures) e um diretor promissor que tem origem em uma série da BBC inglesa, levada ao ar em 2003. Com uma sutil mudança em um crucial detalhe da trama - substituiu-se uma companhia de petróleo por uma agência militar - e a tentativa de condensar seis episódios em palatáveis duas horas de duração, o filme de Kevin MacDonald (de "O último rei da Escócia", que deu o Oscar de melhor ator a Forest Whitaker em 2007), o filme acabou por passar quase em branco nos EUA e não conquistar nem mesmo a boa vontade da crítica, apesar de contar com um elenco de primeira e com um tema bastante inflamável em um país ainda em estado de nervos com os constantes conflitos no Oriente Médio.

Aliás, o escocês Kevin MacDonald nem foi a primeira escolha do estúdio para comandar "Intrigas de estado", cuja pré-produção foi uma verdadeira dança das cadeiras. O primeiro nome cotado para a direção foi o de Edward Zwick, que nem chegou a manter-se por muito tempo no cargo. Antes de MacDonald finalmente assinar com o estúdio, nomes tão díspares quanto Ang Lee, Richard Linklater, Jim Jarmusch e Brian DePalma foram sondados - e, obviamente, cada um deles certamente daria um enfoque e um estilo diferentes ao roteiro. Com um cineasta como MacDonald (competente mas sem a força suficiente para chamar público por si só) à frente do projeto, apenas um elenco de peso poderia equilibrar as coisas - e nesse ponto nenhum produtor estava disposto a brincadeiras. A princípio o filme reuniria Brad Pitt e Edward Norton quase dez anos depois de seu cultuado "Clube da luta" (1999), o que imediatamente acendeu o interesse de todo mundo. Porém, uma greve de roteiristas tirou Pitt do filme (o ator queria que partes do roteiro fossem reescritas) e o atraso acabou por também afastar Norton. Ben Affleck imediatamente embarcou em seu lugar, mas antes que Russell Crowe assumisse o lugar de Brad, outros astros foram cogitados para o papel - mais precisamente Nicolas Cage, Johnny Depp e Tom Hanks. Com Robin Wright (ainda Penn) e Rachel McAdams nos principais papéis femininos e Helen Mirren substituindo o conterrâneo Bill Nighy na pele da editora-chefe do Washigton Globe, tudo parecia garantir uma vitória certa. Porém, a bilheteria tímida de pouco mais de 37 milhões de dólares no mercado doméstico mostrou que nem sempre uma receita de sucesso funciona como o esperado. E nesse caso específico, somente a aversão das plateias a qualquer trama remotamente ligada às guerras do governo Bush pode explicar.


Não há nada de flagrantemente errado em "Intrigas de estado": o roteiro é inteligente e com um bom número de reviravoltas; a direção de MacDonald é sóbria e competente (ainda que sem brilho); o elenco é homogêneo (apesar das caras e bocas de Ben Affleck) e o ritmo é eficiente, mérito da edição ágil de Justine Wright, da fotografia precisa de Rodrigo Prieto e da trilha sonora de Alex Heffes. Então por que a receptividade tão morna (ou até mesmo fria)? Talvez seja mesmo o fato de que produções que tem as guerras no Oriente Médio nunca conquistarem boas bilheterias - nem mesmo quando juntam um time como Matt Damon e o diretor Paul Greengrass, que apesar do sucesso de seus filmes sobre Jason Bourne amargaram o naufrágio de "Zona verde" em 2010. Mas é também preciso reconhecer que, apesar da reunião de talentos e da história instigante, "Intrigas de estado" é um filme apenas correto, sem aquele tempero que transforma um mero entretenimento em um filme inesquecível. Talvez seja a falta de química entre Russell Crowe (ótimo ator mas em modo piloto automático) e Ben Affleck (péssimo ator que mata a dubiedade de seu personagem graças às suas limitações dramáticas). Talvez seja o foco confuso - afinal, qual das tramas é realmente a mais importante? Ou talvez seja mesmo porque a história simplesmente falha em cativar o interesse da plateia e seus personagens sejam desprovidos de qualquer carisma.

O filme até que começa bem: pelas ruas de Washington, um homem é perseguido por outro e, quando finalmente se vê encurralado, morre a tiros. Um ciclista que passava no local também é atingido pelo criminoso e, no dia seguinte, a jovem Sonia Baker (Maria Thayer) morre em um misterioso acidente no metrô da cidade. Sua morte é manchete, uma vez que ela fazia parte de uma comissão que investigava a fundo uma empresa privada em vias de tornar-se a responsável pela segurança militar dos EUA. Seu trágico e inesperado fim também revela um romance secreto com Stephen Collins (Ben Affleck), um senador casado que é um dos principais integrantes da comissão. O "acidente" chama a atenção da jovem e ambiciosa repórter Della Frye (Rachel McAdams), que vê no caso a oportunidade de mudar de status dentro do Washington Globe. Para isso, ela conta com a ajuda do veterano Cal McAffrey (Russell Crowe), que, não apenas tem interesse jornalístico no caso: ele é amigo pessoal de Collins - e viveu um apaixonado romance com a esposa dele, Ann (Robin Wright Penn). Conforme as investigações avançam, McAffrey chega à conclusão de que terá de decidir entre acreditar ou não no velho amigo, que pode ter muito mais responsabilidade nas mortes do que aparenta.

A questão é: vale a pena gastar duas horas assistindo a "Intrigas de estado"? Sim e não. O produto final é um filme obviamente bem produzido, com uma equipe acima de qualquer suspeita e uma história com desdobramentos certamente surpreendente - em especial ao espectador menos escolado. Porém, o filme soa frio, quase distante da audiência, sem um personagem no qual o público pode se espelhar. Mesmo o heroico jornalista vivido por Russell Crowe não consegue conectar-se com a plateia, em parte pela quase antipatia que o ator neozelandês transmite no papel. Rachel McAdams faz o que pode com uma personagem bem chatinha, e Ben Affleck é o Ben Affleck de sempre, com uma gama de nuances rasa e apática. Só mesmo as presenças de Helen Mirren e Robin Wright conseguem sobressair-se - mesmo em papéis pequenos as duas atrizes são uma delícia de ver.

domingo, 2 de abril de 2017

UM HOMEM ENTRE GIGANTES

UM HOMEM ENTRE GIGANTES (Concussion, 2015, Sony Pictures, 123min) Direção: Peter Landesman. Roteiro: Peter Landesman, artigo "Brain's game" de Jeanne Marie Laskas. Fotografia: Salvatore Totino. Montagem: William Goldenberg. Música: James Newton Howard. Figurino: Dayna Pink. Direção de arte/cenários: David Crank/James V. Kent. Produção executiva: Greg Basser, Bruce Berman, David Crockett, Michael Schaefer, Ben Waisbren. Produção: Elizabeth Cantillon, Giannina Scott, Ridley Scott, Larry Shuman, David Wolthoff. Elenco: Will Smith, Alec Baldwin, Albert Brooks, Gugu Mbatha-Raw, David Morse, Arliss Howard, Mike O'Malley, Eddie Marsan, Paul Reiser, Luke Wilson. Estreia: 10/11/15

"Um homem entre gigantes" é um filme corajoso. Não apenas porque dá a Will Smith a chance de mostrar-se um competente ator dramático - mesmo porque ele já fez isso outras vezes, chegando a concorrer ao Oscar de melhor ator em duas ocasiões, por "Ali" (2001) e "À procura da felicidade" (2006). A maior ousadia do filme - que tem Ridley Scott como um de seus produtores - é bater de frente com uma das maiores potências financeiras dos EUA: o futebol americano. Na verdade, quem primeiro teve esse peito foi o médico legista Bennet Omalu, um nigeriano que, sem a paixão pelo esporte cultivada desde o berço, apresentou uma estarrecedora verdade científica que pôs em risco uma das maiores instituições ianques - assim como sua própria vida e de sua família ainda começando. As conclusões de Omalu foram publicadas na matéria "Brain's game", escrita por Jeanne Marie Laskas para a revista GQ, e ficaram à disposição do público interessado, mas colocar um astro do porte de Smith no papel principal de um filme de um grande estúdio (Sony Pictures) para contar uma história que desmistifica uma paixão tão forte não deixa de ser uma atitude valente, e p resultado não poderia ter sido outro: com um orçamento discreto de 35 milhões de dólares, "Um homem entre gigantes" naufragou nas bilheterias americanas, sem cobrir nem mesmo seu custo de produção - e só não passou totalmente em branco nas cerimônias de premiação mais conhecidas porque conseguiu arrancar uma indicação ao Golden Globe de melhor ator dramático. Como se pode perceber, coragem demais às vezes dá muito errado!

Porém, se fracassou comercialmente e em conquistar o voto dos viciados eleitores da Academia, "Um homem entre gigantes" merecia sorte muito melhor. Não apenas é um empolgante drama médico - com elementos de suspense muito bem dosados pelo roteiro do também diretor Peter Landesman - como também é de suma importância por tratar de um assunto normalmente ignorado pela grande mídia: as sérias e fatais consequências de um estilo de vida considerado glamouroso e excitante, mas que esconde, por trás de seus capacetes, a decadência mental e física. Landesman - que tratou sobre o assassinato de John Kennedy no igualmente pouco visto "JFK: a história não contada" (2013) - sabe equilibrar com destreza tanto o lado médico da trama (sem cair em didatismos aborrecidos) quanto o drama pessoal e profissional de seu protagonista (um imigrante negro que bate de frente com a poderosa liga de futebol americano, a temida e respeitada NFL). Acertando em cheio no tom sério e urgente da narrativa, o cineasta (ainda em seu segundo filme) não cai na armadilha do sensacionalismo e foge com inteligência de questões raciais, apelando para os problemas pessoais de Omalu quando estritamente necessário ao andamento da história. Jornalista investigativo antes de tornar-se cineasta, Landesman mantém a sobriedade de sua primeira vocação, com uma produção satisfatória tanto informativa quanto dramaticamente - mérito também do excelente elenco.


Se Will Smith mais uma vez mostra sua competência como ator sério - embora às vezes fique a centímetros do exagero - os coadjuvantes de "Um homem entre gigantes" também são dignos de nota, a começar por David Morse, quase irreconhecível como Mike Webster, o primeiro ex-jogador cujo cadáver cai nas mãos de Bennet Omalu, dando início a uma investigação estarrecedora: morto aos 50 anos, Webster (um ídolo do futebol americano, adorado pelos torcedores e admirado pela sociedade em geral) demonstra, em sua necropsia, severos danos cerebrais, incompatíveis com sua idade. Mesmo indo contra ordens superiores, o médico resolve fazer exames mais detalhados - e outras duas mortes de jogadores aposentados que apresentavam comportamento errático e mentalmente desequilibrado o levam até a conclusão de que todos sofriam de um mal causado pelas constantes concussões sofridas durante as partidas de futebol. Apoiado por outros médicos, ele conta também com a ajuda de Julian Bailes (Alec Baldwin), que fica a seu lado quando a liga de futebol americano resolve desacreditá-lo - ou, pior ainda, usar de ameaças reais para impedi-lo de revelar a verdade e colocar em risco uma das mais sólidas instituições do país.

Até mesmo quando se distancia um pouco do tema central e inclui uma história de amor no roteiro - Omalu se apaixona e casa com a jovem Prema (Gugu Mbatha-Raw), imigrante a quem ele hospeda a pedido de amigos -, o filme de Landesman não perde o ritmo e o interesse. Ao contrário de ser apenas um alívio romântico, o relacionamento entre o casal serve para definir o tamanho das perdas a que o protagonista se arrisca quando entra como um Davi na luta contra o Golias representado pelo corporativismo das instituições esportivas norte-americanas. Os momentos de suspense surgem quando Prema, grávida,  passa a ser o principal alvo dos inimigos do marido, cada vez mais ávido em provar não apenas que está certo (e que se não houver mudanças outras mortes irão ocorrer) mas também em mostrar que sua formação na África não faz dele um médico com menos qualidades e competência do que seus colegas americanos. Essa forma sutil de tocar ainda no preconceito é outro pequeno grande trunfo de "Um homem entre gigantes", um filme que merece ser valorizado por suas qualidades dramáticas, por sua temática relevante e pela coragem de expor ao grande público uma verdade que - apesar de tudo - parece não ter mudado muita coisa na mentalidade dos magnatas do esporte. Um belo filme e mais uma bela atuação de Will Smith!

sábado, 1 de abril de 2017

JOGO DO DINHEIRO

JOGO DO DINHEIRO (Money monster, 2016, TriStar Pictures, 98min) Direção: Jodie Foster. Roteiro: Jamie Linden, Alan DiFiore, Jim Kouf, estória de Alan DiFiore, Jim Kouf. Fotografia: Matthew Libatique. Montagem: Matt Chesse. Música: Dominic Lewis. Figurino: Susan Lydall. Direção de arte/cenários: Kevin Thompson/Lydia Marks. Produção executiva: Tim Crane, Kerry Orent, Regina K. Scully, Ben Waisbren. Produção: Lara Alameddine, George Clooney, Daniel Dubiecki, Grant Heslov. Elenco: George Clooney, Julia Roberts, Jack O'Connell, Dominic West, Caitriona Balfe, Giancarlo Esposito, Christopher Denham. Estreia: 12/5/16

Atriz consagrada com dois Oscar e cineasta bissexta, Jodie Foster gosta de retratar, em ambas as funções, personagens em situações-limite, à beira (ou durante) um ataque de nervos. Foi assim com a mãe solteira, vivida por ela mesma, que tentava lidar com a pressão de ter um filho superdotado, em "Mentes que brilham" (1991), com a recém desempregada (Holly Hunter) que se reencontrava com todas os problemas de seu clã, em "Feriados em família" (1995), e com o pai de família (Mel Gibson) que luta contra a depressão ao iniciar uma inusitada amizade com um bicho de pelúcia, em "Um novo despertar" (2011). E é assim também com o personagem central de seu quarto longa-metragem, "Jogo do dinheiro": em estado de absoluto desespero (por razões plenamente compreensíveis), o jovem Kyle Budwell é o mais novo membro da galeria de angustiados protagonistas da filmografia de Foster. Interpretado com energia e dedicação por Jack O'Connell, ator revelado por Angelina Jolie em "Invencível" (2014), Kyle é, certamente, o mais trágico dentre todos, e também o mais crítico: com base em um roteiro sem medo de remexer em uma das maiores feridas americanas (a especulação financeira responsável pela imensa crise econômica enfrentada pelo país). Uma interessante mistura entre "Wall Street: poder e cobiça" (1987) e "Rede de intrigas" (1976), "Jogo do dinheiro" não alcançou muita repercussão nos EUA (talvez seja inteligente e adulto demais para isso), mas merece ser descoberto - se não é o melhor filme da diretora, ao menos é bastante superior à média e apresenta um elenco que dispensa comentários.

George Clooney - um dos produtores do filme, o que o confirma como um astro de cinema com uma agenda política atuante e questionadora - surge em cena como Lee Gates, o exibicionista e um tanto arrogante consultor financeiro que apresenta um programa de televisão chamado "Money Monster", no qual comenta os altos e baixos da bolsa de valores e aconselha os telespectadores a respeito de investimentos em ações. Uma de suas dicas, no entanto, acaba por surpreender até mesmo aos mais experientes analistas do mercado, e uma empresa aparentemente sólida, perde milhões e milhões de dólares de uma hora para outra. O que parecia apenas uma situação comum em um meio tão instável, porém, acaba com consequências imprevisíveis: durante a apresentação de um programa ao vivo, o cenário é invadido por Kyle Budwell (Jack O'Connell), um zelador que perdeu todo o dinheiro que tinha ao seguir a orientação de Gates e exige, em rede nacional, que sua história seja contada e que os reais motivos da queda das ações seja explicado. Enquanto o prédio é evacuado - além de uma arma de mão o rapaz também obriga Gates a vestir um colete acoplado a uma bomba - a diretora do programa, Patty Fenn (Julia Roberts), tenta ganhar tempo e encontrar uma maneira de convencer Kyle a desistir de seus planos. Com ajuda externa, ela tenta descobrir a verdade por trás da empresa de Walt Camby (Dominic West) - que parece ter muito mais a esconder do que aparentava a princípio.


Ao tentar equilibrar a tensão da relação entre Kyle e Gates - claustrofóbica, opressiva e muitas vezes perigosa - com a investigação comandada por Patty através da cabine de onde mantém o programa no ar, o roteiro não chega a encontrar um meio-termo ideal, mantendo um ritmo irregular que nem mesmo o carisma de seus atores é capaz de esconder. Competente em arrancar atuações memoráveis de seus atores e experiente em lidar com intrigas de bastidores - um dos episódios da segunda temporada de "House of Cards" tem a sua assinatura -, Jodie Foster imprime um tom de urgência e relevância à trama, mas nem sempre consegue conexão com o espectador. Talvez o tema e os personagens pouco simpáticos sejam os maiores responsáveis, mas é somente no terço final do filme, quando finalmente os três protagonistas parecem estar no mesmo time - e lutando contra as injustiças e a corrupção do sistema financeiro - é que "Jogo do dinheiro" deslancha. Gradualmente aumentando a pressão sobre Kyle e revelando ao público que por trás de sua ingenuidade há também um esquema de interesses escusos e putrefatos, Foster vai aos poucos ganhando terreno para um final explosivo - alterado a seu próprio pedido e talvez menos climático do que o desfecho original, mais cínico e irônico.

Mesmo sem traduzir o roteiro, considerado como um dos melhores inéditos de 2014, em um filme capaz de mudar a percepção da audiência sobre o assunto tratado - e nem mesmo transformá-lo em uma produção de grande impacto, Jodie Foster consegue sair de sua zona de conforto como diretora, deixando de lado os dramas familiares para explorar um terreno mais pantanoso. Demonstra segurança - em especial na direção de atores, provavelmente herança de seus trabalhos com gente do naipe de Scorsese, Jonathan Demme e Robert Zemeckis - e evita, felizmente, estragar a tensão crescente com piadinhas infundadas ou inapropriadas. "Jogo do dinheiro" é um filme sério - o que não significa chato ou pedante - e adulto, realizado para aquele tipo de audiência que procura outras opções além de super-heróis e efeitos especiais mirabolantes. Fala de pessoas e de como atos trazem consequências - previsíveis ou não, passíveis ou não de conserto. É um filme quase amargo, mas com um sabor de verdade, o que muito falta no cinema norte-americano atual. Pode tornar-se um clássico ou um filme injustiçado de uma diretora muito inteligente: só o tempo dirá.