terça-feira

CAPITÃO FANTÁSTICO

CAPITÃO FANTÁSTICO (Captain Fantastic, 2016, Bleeker Street/ShivHands Pictures, 118min) Direção e roteiro: Matt Ross. Fotografia: Stéphane Fontaine. Montagem: Joseph Krings. Música: Alex Somers. Figurino: Courtney Hoffman. Direção de arte/cenários: Russell Barnes/Tania Cupczack, Susan Magestro. Produção executiva: Declan Baldwin, Nimitt Mankad. Produção: Lynette Howell Taylor, Monica Levinson, Jamie Patricof, Shivani Rawat. Elenco: Viggo Mortensen, George McKay, Frank Langella, Ann Dowd, Kathryn Hahn, Samantha Isler, Annalise Basso, Nicholas Hamilton, Missy Pile, Steve Zahn. Estreia: 23/01/16 (Festival de Sundance)

Indicado ao Oscar de Melhor Ator (Viggo Mortensen)

Ben Cash cria seus seis filhos longe de qualquer influência de um mundo capitalista a que ele considera pernicioso e fascista. Educados pelos pais, que lhe indicam leituras, os ensinam a caçar e preparar o próprio alimento, a discutir qualquer assunto com segurança e desafiar o sistema sempre que possível, Cash mora com a família em um ônibus, no meio de uma floresta, e dentre suas excentricidades, está comemorar o dia de Noam Chomsky ao invés do Natal e, ocasionalmente, roubar comida dos supermercados como forma de protesto e autopreservação. A prole - dividida entre adolescentes e crianças - segue uma rígida rotina de exercícios físicos, atividades intelectuais e alimentação saudável, sobrevivendo à margem da sociedade de consumo condenada por seu patriarca, e sua união aponta para um núcleo familiar sadio e feliz. Porém, quando Leslie, a mulher de Ben, sofre uma séria crise nervosa e precisa voltar a conviver com os pais e a irmã, ele se vê obrigado a introduzir os meninos em um universo do qual ele sempre os quis proteger e afastar - e testemunha um inevitável choque cultural.

Em "Capitão Fantástico", segundo longa-metragem dirigido pelo também ator Matt Ross, o ousado Ben Cash é interpretado por Viggo Mortensen, em um trabalho inspiradíssimo que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de melhor ator. Na pele de um homem que busca incansavelmente uma sociedade mais justa ao orientar seus próprios filhos a seguirem uma conduta mais próxima da natureza e dos valores humanistas, Mortensen parece ter encontrado o papel de sua vida: é difícil vê-lo em cena e não acreditar em cada um de seus diálogos, de seus sentimentos, de suas atitudes. Em um mundo cada vez mais egocêntrico e avassaladoramente competitivo, seu personagem é um sopro de verdade e resistência, ainda que nem sempre seus métodos possam ser considerados louváveis. É irresistível pensar que Ben está coberto de razão em distanciar sua prole de um mundo doente - mas será que não é sua função de pai lhes dar o direito de escolha? E por que as crianças são educadas dentro de suas convicções, sem chance de discordância? E não é possível que a doença de sua mulher seja consequência de uma vida aparentemente saudável mas alternativa a ponto do segregacionismo e isolamento social? Mortensen dá vida à Ben com sensibilidade e maturidade, e o roteiro de Ross abre espaço para discussões bastante interessantes, e acerta ao jamais abandonar seu principal objetivo: entreter o público com uma trama delicada, emocionante e por vezes bastante engraçada.


Logo nas primeiras cenas, Matt Ross deixa claro que o dia-a-dia da família Cash não é dos mais tediosos: a disciplina que exige dos filhos não é apenas cultural, mas também extremamente focada em atividades físicas, praticadas por todos, desde o mais velho, Bodevan (George McKay), até os menores. Todos eles também são leitores vorazes - ficção, filosofia, história, sociologia e até sexualidade são assuntos banais nas discussões familiares - e questionadores do status quo. São capazes de discutir a Declaração de Direitos Universais e "Lolita", de Vladimir Nabokov, e rejeitam a alimentação equivocada dos norte-americanos. Ben os trata de igual para igual, sem tratá-los com condescendência ou superioridade. São crianças felizes, acima de tudo, mas seu universo particular sofre uma ruptura brusca quando seu avô, Jack (Frank Langella), resolve entrar na Justiça pela guarda de todos: segundo ele, as crianças são prejudicadas por sua falta de convívio com pessoas de sua idade e privadas de uma educação convencional que lhes será útil no futuro. A situação fica ainda mais delicada quando Bodevan revela ao pai seu desejo de cursar uma universidade - desejo compartilhado inclusive por sua mãe.

Não há cenas desnecessárias em "Capitão Fantástico": seu roteiro é preciso e eficaz é construído exemplarmente a modo de apresentar à plateia seus personagens, seus conflitos e suas questões sem que nada pareça aleatório ou soe forçado. O elenco infantil tira de letra o desafio de representar membros de uma família que tem ecos do movimento hippie e se desenha como uma utopia moderna, e Viggo Mortensen aparece como o maestro de uma sinfonia comovente e, em certos momentos, bastante divertida - o embate entre a cultura natural e intelectual dos Cash com a sociedade capitalista e ególatra do resto dos familiares tem cenas preciosas. Matt Ross não busca a emoção rasteira ou a discussão maniqueísta: seus personagens são complexos e falíveis, e embora Ben seja o herói da estória, ele tampouco está absolutamente correto e acima de críticas. O diretor equilibra com presteza todos os elementos de sua trama, constrói uma atmosfera sólida e crível, e consegue, com inteligência, criar um desfecho que torna tudo ainda mais humano e honesto - mas que pode não agradar aos mais radicais. Elogiadíssimo pela crítica, principalmente pelo desempenho de Mortensen, "Capitão Fantástico" é, sem favores, um dos melhores filmes de sua temporada, e uma pérola a ser constantemente revisitada como um presente para a alma.

segunda-feira

CÉU AZUL

CÉU AZUL (Blue sky, 1994, Orion Pictures, 101min) Direção: Tony Richardson. Roteiro: Rama Laurie Stagner, Arlene Sarner, Jerry Leitchling, estória de Rama Laurie Stagner. Fotografia: Steve Yaconelli. Montagem: Robert K. Lambert. Música: Jack Nitzsche. Figurino: Jane Robinson. Direção de arte/cenários: Timian Alsaker/Gary John Constable. Produção: Robert H. Solo. Elenco: Jessica Lange, Tommy Lee Jones, Powers Boothe, Carrie Snodgress, Amy Locane, Chris O'Donnell, Anna Klemp. Estreia: 24/8/94

Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Jessica Lange)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Jessica Lange) 

Na longa lista de males que vem para o bem na história de Hollywood, "Céu azul" merece um lugar de destaque. Filmado no verão norte-americano de 1990 e pronto para ser lançado em 1991, o último filme do diretor Tony Richardson acabou ficando na prateleira por mais três anos devido à falência de seu estúdio (Orion Pictures) e só chegou aos cinemas em 1994. A má notícia é que, a essa altura, o cineasta já havia morrido e não chegou a ver seu filme estrear. A boa notícia é que, lançado em um ano particularmente fraco de grandes desempenhos femininos, o filme empurrou sua estrela Jessica Lange em direção a um Golden Globe e a seu segundo Oscar (o primeiro na categoria principal). Sua premiação foi absolutamente justa: é Lange, com sua sensualidade e sua precisão em interpretar mulheres à beira do precipício, é o corpo e a alma de uma produção fraca e, não fosse por sua presença magnética, facilmente esquecível. Indeciso entre um drama familiar e conflitos políticos, o roteiro acaba por não explorar a contento nenhum dos dois enfoques e, em vez de ser dois filmes em um, o resultado final é apenas o resultado de duas metades que nem sempre se comunicam com coerência.

Uma heroína com a sensualidade trágica de uma Ava Gardner e a densidade psicológica de um personagem de Tennessee Williams, a protagonista de "Céu azul" é Carly Marshall, a esposa bipolar de um engenheiro nuclear que trabalha para o governo dos EUA. No início da década de 60, antes da morte de Kennedy e do trauma da guerra do Vietnã, o afável Hank (Tommy Lee Jones) é parte fundamental dos estudos do país em relação a testes atômicos - mas é sua mulher a mais perigosa das armas com as quais ele tem de lutar: transferido do Havaí para o Alabama (em boa parte por causa do comportamento errôneo de Carly), ele não precisa apenas lidar com suas crises nervosas, mas também com o efeito que ela causa aos homens a seu redor. No novo lar, por exemplo, ela tira do sério o oficial Vince Johnson (Powers Boothe), superior de Hank, homem casado e pai de um adolescente, Glenn (Chris O'Donnell), que se envolve justamente com a filha mais velha do casal, Alex (Amy Locane). O relacionamento escandaloso entre Carly e Vince - que fica evidente a todos que os rodeiam - acaba tendo consequências também na vida profissional de Hank, que testemunha um acidente e se vê no centro de um jogo de interesses políticos em que a conduta de sua mulher é peça fundamental.


Único roteiro escrito por Rama Laurie Stagner até hoje, "Céu azul" é livremente baseado em sua mãe, que também viveu um conturbado relacionamento com o marido militar na década de 60. É perceptível seu carinho no desenho da protagonista, uma personagem complexa e rica em nuances, todas muito bem exploradas por uma Jessica Lange particularmente inspirada. Carly não é alguém com quem se possa simpatizar completamente - seu comportamento chega às raias da irresponsabilidade -, mas Lange injeta humanidade e alma a cada cena, enfatizando suas carências e inseguranças e a aproximando do público. O problema do filme é sua tentativa de contar duas histórias paralelas sem que haja maior aprofundamento em nenhuma delas - o que a edição apressada apenas deixa ainda mais claro. A trama que envolve Hank e seu embate com militares superiores a respeito da radiação nuclear que deixa vítimas inesperadas é interessante, mas praticamente some diante da imponência da atuação da atriz principal, que engole a tudo e a todos. E tampouco ajuda o fato de Tommy Lee Jones não ser exatamente um ator carismático e o desfecho ser tão anticlimático.

Em poucas palavras, "Céu azul" é um filme que existe e se mantém graças ao desempenho notável de uma atriz no auge do talento e a uma personagem que lhe permite explorar uma variedade imensa de possibilidades. Não é o filme marcante que poderia ser com um roteiro um pouco menos superficial ou uma direção mais segura - o que é de surpreender levando-se em conta a longa e premiada carreira de Tony Richardson. Não fosse a performance oscarizada de Jessica Lange - e até a sorte de ter sido lançado em um período favorável à sua premiação, poderia se tornar facilmente esquecível e relegado à história como uma produção quase medíocre. Salva-se como uma sessão descompromissada e uma aula de interpretação feminina, mas é apenas isso.

domingo

A CASA DO FIM DO MUNDO

A CASA DO FIM DO MUNDO (A home at the end of the world, 2004, Warner Independent Pictures, 97min) Direção: Michael Mayer. Roteiro: Michael Cunningham, romance de sua autoria. Fotografia: Enrique Chediak. Montagem: Andrew Marcus, Lee Percy. Música: Duncan Sheik. Figurino: Beth Pasternak. Direção de arte/cenários: Michael Shaw/Mark Steel. Produção executiva: Michael Hogan, John Sloss. Produção: John N. Hart Jr., Tom Hulce, Pamela Koffler, Katie Roumel, Jeffrey Sharp, Christine Vachon, John Wells. Elenco: Colin Farrell, Dallas Roberts, Robin Wright Penn, Sissy Spacek, Erik Smith, Harris Allan. Estreia: 09/6/94

Michael Cunningham é um excelente escritor. Vencedor do Pulitzer por "As horas" - que deu origem ao filme vencedor do Oscar de melhor atriz (Nicole Kidman) - e autor devidamente reconhecido pela qualidade consistente de seus personagens, ele achou que poderia, também, virar roteirista de cinema. Porém, uma coisa é escrever um romance, com espaço para divagações e aprofundamentos psicológicos e outra bem diferente é colocar em imagens as situações e personagens imaginadas - especialmente quando não se tem muito tempo para isso. É por isso que "A casa do fim do mundo", baseado em um livro escrito por ele mesmo, não funciona como poderia em sua transição para as telas. Enquanto "As horas" foi adaptado pelo dramaturgo David Hare, acostumado com a linguagem dramática e experiente em dotar de ritmo até mesmo um enredo truncado por uma estrutura que comportava três tempos diferentes, a versão para as telas de "Uma casa no fim do mundo" (título bem mais apropriado, apesar da pequena diferença) não chega nem aos pés do material original, esvaziando seus personagens e a trama central e banalizando sua discussão a respeito de amizade, amor e definições de família.

Prejudicado pela inexperiência de seu diretor, Michael Mayer, estreando em longas-metragem, e pelo roteiro superficial (uma decepção, haja visto que Cunningham é um escritor comprovadamente capaz), "A casa do fim do mundo" não atinge nem de longe todo o seu potencial. Começando pelas caracterizações um tanto óbvias e preguiçosas, passando por um desenvolvimento sonolento e culminando com um final anticlimático, o filme desperdiça bons atores em uma produção que nem ao menos tenta ser ousada ou corajosa. Os personagens, riquíssimos nas páginas do romance, parecem apenas estereótipos na tela, clichês ambulantes que não conseguem cativar o espectador ou sequer interessá-lo em uma trama que corre aos tropeções, sem nenhuma sutileza ou emoção. Some-se a isso a falta de carisma de Dallas Roberts - um dos protagonistas - e a falta de química entre Colin Farrell e Robin Wright (então ainda assinando com o sobrenome de Sean Penn) e o resultado é desastroso. Só não é pior porque, apesar da direção sem inspiração, Farrell e Wright são sensacionais e compensam (quase) todos os deslizes.


Assim como no livro, a estória começa mostrando o início da amizade entre Bobby e Jonathan, dois adolescentes que, em 1974, estão prestes a se aventurar no mundo das drogas e do sexo. Bobby é traumatizado pela morte trágica do irmão mais velho, e vive com o pai alcóolatra desde que perdeu a mãe - o que o faz aproximar-se ainda mais de Alice (Sissy Spacek), a mãe de Jonathan. O relacionamento dos rapazes vai ficando cada vez mais íntimo (em todos os quesitos) e eles se separam apenas quando Jonathan abandona Cleveland para estudar em Nova York. Alguns anos mais tarde, Bobby (já na pele de Colin Farrell, um tanto deslocado no papel) resolve procurar o velho amigo e tentar a vida longe da zona de conforto. É então que chega ao apartamento onde Jonathan (interpretado pelo novato Dallas Roberts) vive com Clare (Robin Wright Penn), uma mulher um pouco mais velha com quem ele mantém um relacionamento pouco tradicional. Logo Bobby e Clare se envolvem - a despeito dela ser apaixonada por Jonathan - e os três passam a viver juntos, como uma atípica família. As coisas avançam quando Clare fica grávida e todos eles resolvem se mudar para uma propriedade afastada, perto de Woodstock.

Os lances dramáticos da trama, costurados com delicadeza no romance, são jogados ao espectador sem muita parcimônia, na adaptação feita por Cunningham. Todas as nuances que envolvem o triângulo amoroso central - Bobby ama Clare, que ama Jonathan, que ama Bobby - são desenvolvidos quase com medo, sem aprofundamento algum. Temas como a homossexualidade de Jonathan, seu relacionamento com Bobby e a doença que os aproxima ainda mais, são tratados sem a delicadeza esperada - assim como a relação entre Clare e Bobby, que soa abrupta e inverossímil. O próprio Bobby é dono de uma inocência tão grande que é difícil de acreditar, principalmente porque Colin Farrell - um ótimo ator, fato já demonstrado diversas vezes - soa desconfortável em boa parte do filme. Além disso, tudo parece muito fácil para os protagonistas: não há conflitos, não há grandes problemas (ao menos na forma como tudo é tratado pelo roteiro) e até o final é completamente incoerente. Uma pena que um livro tão formidável tenha sido adaptado com tão pouco cuidado justamente por seu autor. Poderia ser mais uma obra-prima, mas é apenas um filme muito aquém de suas possibilidades.

sábado

SONATA DE OUTONO

SONATA DE OUTONO (Hostsonaten/Autumn Sonata, 1978, Personafilms, 89min) Direção e roteiro: Ingmar Bergman. Fotografia: Sven Nykvist. Montagem: Sylvia Ingmarsdotter. Figurino: Ingher Pehrsson. Direção de arte: Anna Asp. Elenco: Ingrid Bergman, Liv Ullman, Lena Nyman, Halvar Bjork. Estreia: 08/8/78

2 indicações ao Oscar: Atriz (Ingrid Bergman), Roteiro Original
Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme Estrangeiro 

Apesar de dividirem o mesmo sobrenome e serem dois dos maiores ícones que o cinema sueco fabricou em sua história, o cineasta Ingmar Bergman e a atriz Ingrid Bergman se encontraram apenas uma única vez nos sets de filmagem. O destino quis, porém, que esse encontro fosse mais do que especial: não apenas marcou o último trabalho da estrela, que morreu de câncer em 1982, como também retratava, de forma incômoda, boa parte de seus sentimentos em relação à sua história pessoal. Assim como Ingrid abandonou sua família para viver seu romance com o cineasta italiano Roberto Rossellini, no final dos anos 1940, sua personagem em "Sonata de outono" é uma mãe cujo relacionamento com a filha é marcado por ressentimentos e rancores oriundos de sua opção pela carreira em detrimento da maternidade. Falando sueco nas telas pela primeira vez em onze anos e entregando uma atuação visceral, Bergman arrebatou uma indicação ao Oscar de melhor atriz por seu desempenho e conquistou os prêmios do National Board of Review, da National Society of Film Critics e dos críticos de Nova York. Tão generosa receptividade teve muito a ver com o prestígio do diretor e da atriz, mas o fato é que é impossível ficar incólume às devastadas emoções oferecidas pelo filme em pouco menos de noventa minutos.

Explorando ao máximo a estrutura teatral de seu roteiro, com marcações bem definidas e ênfase nos diálogos, fortes e emocionais, "Sonata de outono" se beneficia ao máximo com o talento de seu elenco - Bergman e Liv Ullman à frente - e a fotografia espetacular de Sven Nykvist, seu habitual colaborador. Nykvist registra com sensibilidade tanto os exteriores bonitos por natureza da Noruega - onde o cineasta se refugiou por um tempo devido a problemas com o fisco sueco - quanto as cores quentes que refletem o estado de espírito de suas protagonistas - em especial  o vermelho, que enfatiza a distância entre mãe cosmopolita e filha retraída. Embaladas por uma trilha sonora que inclui Chopin, Bach e Handel, as personagens centrais se enfrentam em embates dolorosos e cruéis, testemunhados apenas pela câmera discreta do diretor e pelo público, agoniado pelas palavras não ditas e pelas verdades dilacerantes que as atingem como chicotadas. Se em seus primeiros minutos o filme passa uma atmosfera de doce reencontro familiar, aos poucos vai deixando claro que, apesar das aparências, há muito a ser resolvido entre todos para que a paz enfim reine (ou não).


Com sua costumeira classe, Ingrid Bergman vive Charlotte Andergast, uma pianista clássica internacionalmente reconhecida que, depois de quase uma década, finalmente aceita ser recebida na casa de sua filha mais velha, Eva (Liv Ullman), que vive com o marido, Viktor (Halvar Bjork), em uma cidadezinha costeira, onde ele é pastor. Recuperando-se da morte do segundo marido, a quem acompanhou em seus últimos dias, Charlotte imagina um período de tranquilidade e descanso de suas excursões e compromissos, mas assim que chega é surpreendida com a presença de sua outra filha, Helena (Lena Nyman), que sofre de uma doença mental grave e que ela julgava estar internada. Seu reencontro com as duas faz com que a pianista seja obrigada a confrontar fantasmas do passado, principalmente quando Eva faz questão de aproveitar a visita da mãe para desabafar a respeito dos traumas originados pela ausência constante da figura materna na infância e adolescência.

O público acostumado à filmografia de Ingmar Bergman sabe de suas inclinações psicanalíticas, e "Sonata de outono" não foge à regra. Os longos e profundos diálogos transbordam sensibilidade e dor, mas a poesia das imagens criadas pelo cineasta transformam a experiência em uma sessão de análise das mais instigantes e incômodas. Eva, a personagem de Liv Ullman vai crescendo a cada cena, acumulando coragem para, no clímax, disparar as verdades que a vem destroçando desde criança - e Charlotte, sua mãe, transita entre sua zona de conforto (enterrar as mágoas e fingir uma felicidade que talvez não exista) e o medo de ver-se como um monstro, responsável pela infelicidade de quem deveria cuidar. Bergman filma o embate entre mãe e filha com delicadeza e plasticidade impecável, jamais apelando para o sentimentalismo mas enfatizando, sempre que possível, a distância (física e emocional) de suas protagonistas. O resultado é um drama psicológico e familiar dos mais impactantes - e um dos filmes mais importantes de um cineasta de valor inestimável à sétima arte.

sexta-feira

BEM-VINDOS A MARWEN

BEM-VINDOS A MARWEN (Welcome to Marwen, 2018, Universal Pictures/DreamWorks, 116min) Direção: Robert Zemeckis. Roteiro: Robert Zemeckis, Caroline Thompson. Fotografia: C. Kim Miles. Montagem: Jeremiah O'Driscoll. Música: Alan Silvestri. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Stefan Dechant/Hamish Purdy. Produção executiva: Jacqueline Levine, Jeff Malmberg. Produção: Cherylanne Martin, Jack Rapke, Steve Starkey, Robert Zemeckis. Elenco: Steve Carell, Leslie Mann, Diane Kruger, Janelle Monáe. Estreia: 21/12/18

Em 2015, Robert Zemeckis transformou o documentário "O equilibrista" (2008) no drama "A travessia", estrelado por Joseph Gordon-Levitt e amargou um dos raros fracassos de bilheteria de uma carreira repleta de êxitos incontestáveis, como a trilogia "De volta para o futuro" e "Forrest Gump: o contador de histórias", que lhe deu o Oscar de melhor filme e direção em 1995. Depois de novamente decepcionar comercialmente com "Aliados" (2016), drama de guerra que, mesmo com a presença de Brad Pitt e Marion Cottilard não chamou a atenção do público, ele voltou a buscar na vida real a inspiração para seu trabalho. "Bem-vindos a Marwen", que estreou no final de 2018 nos cinemas americanos, é a dramatização do documentário "Marwencol", dirigido por Jeff Malmberg e vencedor de diversos prêmios da crítica desde seu lançamento. A fascinante história de um homem que tenta recobrar a sanidade mental através da criação de um mundo de fantasia protagonizado por bonecos encontrou, em Zemeckis, o diretor ideal - mas acabou se tornando o terceiro malogro consecutivo em sua trajetória. Completamente ignorado até pela Academia, que esnobou seus espetaculares efeitos visuais, o filme estrelado pelo cada vez melhor Steve Carell já pode ser considerado uma das mais injustiçadas produções de seu tempo - afinal, apesar de tudo, é um trabalho belo e sensível, que reitera o talento do cineasta em equilibrar com maestria técnica e emoção.

Os primeiros minutos de "Bem-vindos a Marwen" dá a impressão de que Zemeckis voltou a brincar com com suas técnicas de captura de movimento, que marcou uma fase de sua carreira na primeira década dos anos 2000. Na sequência de abertura, um capitão norte-americano sofre um acidente com seu avião e se vê prestes a morrer nas mãos de nazistas quando é salvo por um grupo de mulheres armadas, lideradas pela corajosa Wendy. Toda a cena é apresentada em forma de animação, e logo se percebe que a situação narrada é fruto da imaginação de Mark Hogancamp (Steve Carell), um homem que tenta esquecer de um traumático incidente, quando foi violentamente espancado por um grupo de neonazistas na saída de um bar. Preso à sua nova realidade, ele mergulha sem medo na confecção de uma narrativa na qual ele mesmo é um corajoso capitão do exército que conta com a ajuda de um time de mulheres - todas inspiradas em pessoas reais - e que luta contra os alemães durante a II Guerra, em uma cidadezinha belga chamada Marwen. Enquanto espera o julgamento de seus agressores, Mark se encanta com a nova vizinha, Nicol (Leslie Mann), que passa a fazer parte de sua imaginação fértil, assim como a hostil Deja Thoris (Diane Kruger), uma bruxa que serve como uma espécie de conselheira e terapeuta.


O roteiro de "Bem-vindos a Marwen" é um achado: ao mesmo tempo em que sensibiliza o espectador com o drama de Mark (interpretado com sutilezas por Carell, em uma atuação inspiradíssima), aproveita para demonstrar o domínio que tem das técnicas de animação, oferecendo à plateia momentos divertidos e violentos com os bonecos manipulados pelo protagonista. Os efeitos visuais são perfeitos - e criados a partir da ação dos próprios atores, em um processo fascinante que impede a sensação de frieza que muitas vezes acompanha as produções mais ambiciosas. O grande achado do diretor, porém, é a forma encontrada de transmitir, através dos bonecos, a angústia e a personalidade complexa do personagem central: aos poucos o público vai compreendendo a extensão de seu problema e de como seu hobby é, mais do que uma diversão, uma terapia que pode lhe salvar da depressão mais absoluta. Sem estender-se desnecessariamente em sua trama, Zemeckis encontra o contraponto ideal entre a realidade e a ilusão, convidando a audiência a uma viagem inusitada e emocionante, que foge dos clichês graças ao talento de todos os envolvidos - com especial destaque à trilha sonora de Alan Silvestri, que evoca docemente todas as fases mentais de Mark.

Talvez o motivo do fracasso de "Bem-vindos a Marwen" seja justamente sua delicadeza.  Acostumados ao excesso de informações dos blockbusters e à total falta de sutileza das produções dos grandes estúdios, é bem possível que os espectadores não tenham se interessado por um filme que fala de pequenas emoções, de pessoas feridas em seu mais íntimo e do poder da imaginação como parte da cura de um trauma inimaginável. Azar de quem perdeu a oportunidade de ter contato com uma pequena pérola do cinema hollywoodiano - que, vez ou outra, ainda consegue acertar no alvo quando se trata contar boas histórias de forma criativa. Que o tempo lhe faça justiça e que o filme se transforme, com o passar do anos, no cult movie que merece ser.

quinta-feira

A BELA DA TARDE

A BELA DA TARDE (Belle de jour, 1967, Robert et Raymond Hakim Productions, 100min) Direção: Luis Buñuel. Roteiro: Luis Buñuel, Jean-Claude Carrière, romance de Joseph Kessel. Fotografia: Sacha Vierny. Montagem: Louisette Houtecoeur. Figurino: Hélène Noury. Direção de arte/cenários: Robert Clavel. Produção: Raymond Hakim, Robert Hakim. Elenco: Catherine Deneuve, Jean Sorel, Michel Piccoli, Geneviève Page, Pierre Clementi, Françoise Fabian. Estreia: 24/5/67
 
Não é difícil entender o fascínio que "A bela da tarde" vem despertando nos cinéfilos do mundo inteiro desde sua estreia, em 1967. Além de contar com a beleza estonteante de Catherine Deneuve - no auge da carreira - e ser dirigido pelo prestigiado Luis Buñuel, mestre do surrealismo no cinema, o filme, que ganhou o Leão de Ouro no Festival de Veneza, ficou décadas longe dos olhos do público, devido a problemas de direitos autorais e, até 1995, através de uma campanha liderada por Martin Scorsese, manteve inalterada sua aura de filme cult. Quando voltou a seu lugar de direito - os braços da plateia e o coração dos críticos - ganhou uma nova geração de fãs e reabriu discussões a respeito de seus simbolismos e questionamentos. Maior sucesso comercial da carreira de Buñuel e admirado até mesmo por Alfred Hitchcock - o que não é nenhuma surpresa, haja visto o histórico do cineasta inglês a respeito de louras sensuais -, "A bela da tarde" é, também, o mais acessível dos trabalhos do diretor espanhol: mesmo que faça uso de elementos narrativos pouco convencionais em alguns momentos, é uma produção muito menos complexa do que, por exemplo, "O anjo exterminador" ou "Esse obscuro objeto do desejo" (77), dois dos mais ambíguos de seus filmes - e, sintomaticamente, dois de seus maiores êxitos profissionais.

Polêmico e sensual, "A bela da tarde" é, também, um presente para estudantes de psicologia, que vem, desde seu lançamento, se prestando a longos debates a respeito de suas metáforas visuais e sonoras - além da riqueza de seus personagens, desde a protagonista até os coadjuvantes mais efêmeros na trama. Construído alternando uma atmosfera de sonho com uma realidade crua, o roteiro de Buñuel e Carrière segue uma estrutura convencional, mas que abre espaço para digressões psicanalíticas e/ou sexuais que casavam com perfeição com o momento histórico e social pelo qual passava o mundo (e mais precisamente a Europa) no final dos anos 60. Retratando a hipocrisia da alta sociedade e questionando o papel da mulher como puro objeto, o filme subverte as expectativas e apresenta uma heroína que vai contra os ideais femininos mais clássicos. Séverine (interpretada por uma Catherine Deneuve no limite entre a castidade e o furor) pode até parecer como a mais devotada e compreensiva esposa, mas por dentro é um vulcão de desejos secretos, os quais exorciza primeiro em forma de sonhos eróticos pouco banais, e depois através de uma atitude radical: a prostituição de luxo. O que pode parecer apenas a realização de voyeurismo barato, porém, torna-se material rico de possibilidades nas mãos inteligentes e iconoclastas de Buñuel.


Fotografado com requinte pelo experiente Sacha Vierny, "A bela da tarde" já mostra a que veio na primeira sequência, em que um idílico momento entre um atraente e jovem casal dá lugar a uma situação de violência e submissão sexual. Logo se descobre que o acontecimento é apenas parte dos sonhos de Séverine, que vive uma relação tranquila e asséptica com o marido, Pierre (Jean Sorel). Os dois chegam a dormir em camas separadas, e seu casamento é o retrato do tédio amoroso - o que não reflete os constantes desejos da esposa, recheados de fetiches pouco triviais. A solução que ela encontra para dar vazão a tais sentimentos sem que precise acabar com seu relacionamento surge na figura de Madame Anais (Geneviève Page), a dona de uma casa de alta prostituição, que a recebe de braços abertos. Linda, sexy e exalando classe, Séverine recebe a alcunha de A Bela da Tarde - ela necessariamente precisa deixar o trabalho às cinco da tarde para voltar à vida normal. Nos períodos em que passa na casa de Madame Anais, Séverine entra em contato com clientes com os mais variados tipos de fantasia - até que encontra Marcel (Pierre Clementi), um marginal do submundo que se torna obcecado por ela e ameaça quebrar a harmonia entre as aparências e a realidade.

Com simbolismos facilmente decodificáveis até para o menos experiente dos espectadores, Luis Buñuel conduz a trajetória de Séverine como uma espécie de coleção de anedotas a respeito de seus clientes - todos levemente bizarros e ao menos um francamente assustador - e suas aspirações sensuais. Apesar da beleza de Deneuve, o filme não se permite em ser um inventário de taras e cenas de sexo gratuitas, muito pelo contrário: a atriz só aparece nua em uma cena (envolta em um véu preto) e o erotismo é apenas sugerido, nunca explícito. Através de sons e imagens cuidadosamente escolhidas, o cineasta convida a plateia a penetrar em um mundo tanto excitante quanto sombrio - mesmo que o filme jamais pese a mão na violência e no estudo da psique humana. Ao optar por apenas contar uma história e apresentar seus personagens, sem julgá-los ou forçar uma compreensão óbvia, "A bela da tarde" consegue ser, ao mesmo tempo, um belo e elegante drama sobre sexo e uma obra de arte que atravessou gerações e continua, ainda hoje, atual e visualmente atraente. Seu final, em aberto, apenas confirma tudo que foi mostrado antes: uma obra inteligente e perspicaz, mas nem por isso vazia e superficial. Um belo e indispensável filme - uma porta de entrada para a curiosa filmografia de seu irrequieto diretor.

quarta-feira

OPERAÇÃO FRONTEIRA

OPERAÇÃO FRONTEIRA (Triple frontier, 2019, Netflix/Atlas Entertainment, 125min) Direção: J.C. Chandor. Roteiro: Mark Boal, J.C. Chandor, estória de Mark Boal. Fotografia: Roman Vasyanov. Montagem: Ron Patane. Música: Disasterpiece. Figurino: Marlene Stewart. Direção de arte/cenários: Greg Berry/Jay Hart. Produção executiva: Kathryn Bigelow, Mark Boal, Anna Gerb, Thomas Hayslip, Andrés Calderon. Produção: Neal Dodson, Alex Gartner, Andy Horwitz, Charles Roven. Elenco: Ben Affleck, Oscar Isaac, Charlie Hunnam, Garret Hedlund, Pedro Pascal, Adria Arjona. Estreia: 06/3/2019

Em abril de 2017, o projeto de um filme de ação escrito por Mark Boal (vencedor do Oscar por "Guerra ao terror") saiu definitivamente dos planos da Paramount, que, durante o processo de pré-produção, contava com Tom Hardy e Channing Tatum nos papéis principais. A dupla de astros não gostou das mudanças feitas no roteiro e pularam fora do barco, iniciando um processo de deserção que culminou também com a saída da diretora Kathryn Bigelow, que preferiu dedicar seu tempo ao polêmico "Detroit em rebelião" (2017). Um mês depois, a Netflix, empenhada em adquirir prestígio com suas produções próprias, resolveu arriscar e bancar o filme, dessa vez já com os nomes de Ben Affleck e Oscar Isaac garantidos. Com a volta de Charlie Hunnam - que retornou ao projeto depois de uma desistência anterior - ao elenco e à aquisição de Garret Hedlund e Pedro Pascal, os cinco personagens centrais encontraram intérpretes ideais. A grande surpresa, no entanto, ficou com o anúncio do nome do diretor. Conhecido por obras mais cerebrais, como "Margin call: o dia antes do fim" (2011) e "O ano mais violento" (2014), o cineasta J. C. Chandor parecia um tanto inadequado para uma produção calcada mais na adrenalina do que em palavras e sutilezas. Mas como nem só de cartas marcadas vive a indústria, "Operação Fronteira" acabou se saindo melhor que a encomenda: é um filmaço que nada deve às produções dos grandes estúdios - e é, de longe, um dos melhores trabalhos da carreira de Ben Affleck.

Um projeto que já existia desde 2010, quando Johnny Depp e Tom Hanks estavam cotados para seu elenco, "Operação Fronteira" despertou interesse em vários astros de Hollywood, que, por um momento ou outro, tiveram seus nomes ligados a ele. Antes que o elenco estivesse formado em definitivo, atores dos mais variados tipos e gerações estiveram em negociação com os produtores. Quando ainda estava na Columbia, o roteiro foi considerado por veteranos (Denzel Washington, Sean Penn), oscarizados (Leonardo DiCaprio, Mahershala Ali, Casey Affleck) e atores populares (Will Smith, Mark Wahlberg), mas foi somente quando a Netflix entrou na jogada é que, de uma ideia empacada em discussões, o roteiro finalmente saiu do papel. Com Ben Affleck e Oscar Isaac - que já havia trabalhado com Chandor em "O ano mais violento" -, "Operação Fronteira" ganhou prestígio e uma seriedade que talvez não tivesse com atores mais afeitos à bilheteria do que à qualidade. O resultado é um filme de ação com mais inteligência que a média, e que equilibra com precisão momentos de tensão com um desenvolvimento interessante de personagens.


Tudo bem que o roteiro não abre mão de certos clichês e não se aprofunda em nenhum drama pessoal, preferindo apenas delinear rapidamente seus protagonistas para entrar logo na ação, mas abraça sem vergonha alguns lugares-comuns e os insere de forma orgânica na trama. É assim que o público não se importa em ver Ben Affleck como Redfly Davis, um antigo soldado que tenta ganhar a vida vendendo imóveis e com problemas de relacionamento com a ex-mulher e a filha adolescente, ou Garret Hedlund como Ben Miller, que sobrevive às custas de muito sangue perdido em ringues de luta. Redfly e Miller são apenas dois integrantes do grupo que o ambicioso Pope Garcia (Oscar Isaac) reúne com o objetivo de exterminar um famoso traficante e roubar milhares de dólares escondidos em uma casa escondida no meio da Floresta Amazônica. A eles unem-se o irmão de Miller, Ironhead (Charlie Hunnam) - que ganha dinheiro com palestras de autoajuda, desde que saiu do Exército - e o experiente piloto Catfish Morales (Pedro Pascal), cuja licença para pilotar foi cassada quando ele foi flagrado transportando drogas. Pela primeira vez em suas vidas os cinco embarcam em uma missão com objetivos pessoais e não patriotas, mas a preocupação ética logo é substituída por outras muito maiores quando o plano começa a dar errado - e eles precisam improvisar e abrir mão de alguns princípios para chegarem vivos a seu final.

Apesar do nome de Mark Boal no roteiro e da direção do elogiado J.C. Chandor, "Operação Fronteira" nada mais é do que um excelente filme de ação, sem maiores preocupações artísticas. Sua maior qualidade é aliar com sucesso entretenimento popular e qualidade narrativa. Como era de se esperar, as coisas dão muito errado para Pope e seus parceiros, e Chandor aproveita a situação para conduzir o público por uma aventura tão perigosa quanto empolgante, onde a personalidade de cada um se choca com as decisões que precisam ser tomadas em prol da segurança e do cumprimento da missão. Por ser um filme que destaca mais o elenco do que performances individuais, o conjunto é mais interessante do que atuações específicas, mas ainda assim a presença de Oscar Isaac como o líder do grupo consegue se sobressair - especialmente porque seu personagem é o que mais dá margem a dúvidas a respeito de seu caráter. No final das contas, quando o filme apresenta seu desfecho (coerente e satisfatório), resta ao público confirmar que a Netflix se firma cada vez mais no universo dos grandes estúdios - e que sua presença diante dos grandes conglomerados é fato mais que consumado. "Operação Fronteira" é um de seus mais consistentes produtos e, embora não vá sair vitorioso em cerimônias de premiação, agrada plenamente aos fãs do gênero.

CAPITÃO FANTÁSTICO

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