domingo, 19 de fevereiro de 2017

A ONDA

A ONDA (Die welle, 2008, Rat Pack Filmproduktion, 107min) Direção: Dennis Gansel. Roteiro: Johnny Dawkins, Ron Birnbach, adaptação de Dennis Gansel, Peter Thorwarth, conto de William Ron Jones. Fotografia: Torsten Breuer. Montagem: Ueli Christen. Música: Heiko Maile. Figurino: Ivana Milos. Direção de arte/cenários: Knut Loewe/Tilman Lasch. Produção: Christian Becker. Elenco: Jurgen Vogel, Frederick Lau, Max Riemelt, Jennifer Ulrich, Christiane Paul. Estreia: 18/01/08 (Festival de Sundance)

Em abril de 1967, um professor de História chamado Ron Jones, conduziu uma experiência com seus alunos de Palo Alto, na Califórnia, tentando provar a eles que regimes ditatoriais como o nazismo poderiam tranquilamente encontrar espaço em qualquer sociedade democrática do pós-guerra. O trabalho acabou rendendo um romance escrito por Morton Rhue (pseudônimo de Todd Strasser) e uma adaptação para a televisão escrita por ele mesmo. Em 2007, o cineasta Dennis Gansel, cujo avô fez parte da juventude hitlerista, seduzido por suas promessas de proporcionar-lhe uma carreira artística, encontrou na narrativa de Jones o material ideal para um filme que demonstrasse, nas telas de cinema, sua ideologia contrária a qualquer tipo de fascismo. Nascia, então, "A onda", uma transposição honesta, forte e inquietante que estreou no Festival de Sundance de 2008 e, com um final mais impactante do que o livro e a história real, conquista o público com uma trama surpreendente e chocante.

O protagonista é Rainer Wenger (Jurgen Vogel), um carismático professor de história que, mesmo com planos de utilizar o conceito de anarquia para um projeto com seus alunos, acaba sendo obrigado pela direção a optar pelo seu exato oposto, a autocracia. Como forma de mostrar aos jovens que um regime autoritário não floresceu por acaso na Alemanha nazista, ele propõe a eles que formem um novo e rígido sistema político dentro da própria sala de aula, tendo-o como líder. A princípio tímidos e relutantes, aos poucos os estudantes começam a empolgar-se com a ideia, especialmente quando os mais introvertidos e problemático passam a experimentar o gostinho de pertencer a um grupo e os demais percebem a importância da união que surge entre eles. Porém, com o tempo, as coisas começam a sair do controle de Wenger: o uniforme obrigatório do grupo (batizado como "A onda") se transforma imediatamente em uma espécie de passaporte para um mundo com novas regras e leis, que exclui aqueles que não compartilham de seu pensamento, e, utilizando-se de seu logotipo como propaganda, alguns dos membros iniciam uma campanha para impor suas ideias. Sentindo que algo está muito errado, a jovem Karo (Jennifer Ulrich) - expulsa do grupo por não concordar com suas normas - tenta abrir os olhos do namorado, Marco (Max Riemelt), jogador de polo aquático que vê na turma de colegas o apoio que necessita para se tornar um atleta mais bem-sucedido.


Com um roteiro simples e direto, que vai envolvendo a plateia cada vez mais, conforme a experiência de Wenger vai saindo de seu controle, "A onda" é um filme alemão com um ritmo ágil e inteligente que dialoga muito mais com o cinema americano do que com produções europeias com pretensões artísticas. Apesar da questão cada vez mais relevante que apresenta para discussão, em nenhum momento o filme de Dennis Gansel se propõe a ser mais do que entretenimento acima de tudo. Para isso, não abre mão do suspense, do drama, de pitadas de romance e de um clímax arrebatador, que leva quase às últimas consequências a proposta inicial. Com uma direção correta, que não corre riscos desnecessários e conduz a narrativa de forma sóbria, "A onda" se apoia basicamente em sua empolgante premissa e em seus (bons) atores, Jurgen Vogel à frente: sem exagerar nas tintas de seu mestre apaixonado que vê seu experimento escapar de suas mãos de maneira trágica, Vogel não procura o brilho fácil, dividindo a atenção com um elenco de jovens intérpretes dotados de garra e carisma suficientes para manter o público ligado até as últimas cenas. Max Riemelt - que anos depois estaria no elenco da cultuada série "Sense 8" - é um dos destaques, como um rapaz dividido entre a fidelidade a seus colegas (e consequentemente à sua futura carreira no esporte) e a noção de que algo está muito errado nas regras propostas por seu líder.

Apresentando algumas sequências bastante interessantes visualmente - em especial no terço final, quando o diretor se utiliza do branco do uniforme do grupo para enfatizar a falta de individualidade dos personagens - e conduzido com discrição, "A onda" é um filme de suma importância nos tempos difíceis de obscurantismo e fascismo que vem tomando conta do mundo. Alertando para os perigos do totalitarismo, o belo trabalho de Dennis Gansel consegue aquilo que o bom cinema deveria conseguir sempre: entreter e fazer pensar, divertir e questionar. Pode suscitar muitas discussões e só por isso já deveria ser mais conhecido e louvado - mas além disso, é uma história interessante e bem contada, amparada por um roteiro sóbrio e um elenco esforçado. Imprescindível em qualquer momento histórico!

sábado, 18 de fevereiro de 2017

BELEZA OCULTA

BELEZA OCULTA (Collateral beauty, 2016, New Line Cinema/Village Roadshow Pictures, 97min) Direção: David Frankel. Roteiro: Allan Loeb. Fotografia: Maryse Alberti. Montagem: Andrew Marcus. Música: Theodore Shapiro. Figurino: Leah Katznelson. Direção de arte/cenários: Beth Mickle/Kara Zeigon. Produção executiva: Michael Bederman, Bruce Berman, Richard Brener, Peter Cron, Michael Disco, Toby Emmerich, Steven Muchin, Steven Pearl, Ankur Rungta. Produção: Anthony Bregman, Bard Dorros, Kevin Scott Frakes, Allan Loeb, Michael Sugar. Elenco: Will Smith, Edward Norton, Kate Winslet, Helen Mirren, Keira Knightley, Michael Peña, Naomie Harris, Jacob Latimore. Estreia: 12/12/16

Conhecido por liderar o elenco de produções de bilheteria milionária, como "Independence Day" (96) e "Homens de preto" (97), o ator Will Smith entrou no século XXI disposto a mostrar que também sabia ser sério quando necessário - e de cara recebeu uma indicação ao Oscar de melhor ator por "Ali" (2001). A partir daí dividiu a carreira em produções que se escoravam unicamente em seu carisma para conquistar o público - "Eu, robô" (2004), "Hitch: conselheiro amoroso" (2005), "Eu sou a lenda" (2007) e "Hancock" (2008) - e tentativas de manter sua aura de intérprete dramático e maduro - "À procura da felicidade" (2006, que lhe rendeu outra indicação à estatueta dourada), "Sete vidas" (2008) e "Um homem entre gigantes" (2015). É dessa segunda leva que surgiu "Beleza oculta", uma sensível e um tanto inverossímil fábula sobre o amor, o perdão e a esperança dirigida pelo mesmo David Frankel da comédia "O diabo veste Prada" (2006). Ficando com o papel principal que foi de Hugh Jackman até que problemas de agenda o impediram de manter-se no projeto, Smith entrega mais um desempenho memorável, ao lado de um elenco estelar que conta com Kate Winslet, Edward Norton, Keira Knightley e Helen Mirren. Sucesso apenas moderado nos EUA, o filme é uma adocicada fábula natalina que pode até emocionar aos menos exigentes mas carece de um roteiro menos óbvio - apesar de sua reviravolta final relativamente surpreendente.

Quando o filme começa, o público é apresentado ao publicitário Howard - interpretado de corpo e alma por Smith - comemorando, ao lado dos sócios, um ano extremamente produtivo e bem-sucedido profissionalmente. Três anos mais tarde, porém, a situação é bastante diferente: sua agência está em franco declínio com a perda de importantes clientes, basicamente devido à falta de interesse de Howard, que perdeu todo o entusiasmo com a vida desde a morte de sua única filha, fato que o levou ao divórcio e uma depressão profunda. Preocupados com Howard - ou mais precisamente com os problemas financeiros que sua nova rotina pode acarretar - seus três colegas resolvem tomar uma atitude tão desesperada quanto surreal: sabendo que, em seus delírios, o rapaz escreveu cartas melancólicas ao Amor, ao Tempo e à Morte, eles contratam três atores de teatro amador para confrontar o rapaz e fazê-lo voltar ao normal. A ideia, no entanto, não é assim tão altruísta, já que o objetivo também é desacreditar Howard diante de investidores e obrigá-lo a vender sua parte na empresa. É assim que entram em cena Brigitte (Helen Mirren), Amy (Keira Knightley) e Raffi (Jacob Latimore) - respectivamente, a Morte, o Amor e o Tempo - para ajudar a resolver a situação. Nesse meio-tempo, Howard tenta frequentar um grupo de apoio às pessoas de luto, liderado por Madeleine (Naomi Harris) - também uma mulher lutando contra a tristeza depois de perder uma filha.


O roteiro de "Beleza oculta" poderia centrar-se apenas na história de Howard e seus amigos imaginários, mas, para embaralhar ainda mais as coisas, seus três sócios também tem problemas com os quais lidar. Whit (Edward Norton) passa por um divórcio complicado e tem uma relação difícil com a filha adolescente; Claire (Kate Winslet), solteira, vê o tempo passar diante dos seus olhos sem que consiga realizar o sonho de tornar-se mãe; e Simon (Michael Peña), esconde de todos uma doença grave e incurável que em breve o privará da companhia da família. A seu modo, todos estão lidando com as abstrações citadas por Howard em seus momentos de tristeza, mas a trama deixa de aprofundar-se nas questões levantadas, preferindo contar uma história linear e recheada de sentimentalismo, que tenta emocionar ao apelar para o limite entre o comovente e o piegas. Apoiando-se no talento incontestável de seu elenco - que faz o possível e o impossível para dar consistência e verossimilhança a personagens nem sempre bem construídos no papel - o filme de David Frankel é visualmente atraente e cativa a plateia por apresentar com fluência emoções primárias e universais, mas falha ao subestimar a inteligência do espectador: tudo é entregue de forma maniqueísta e simplória, sem espaços para nada mais do que uma narrativa previsível e sem maiores traços de inventividade.

Will Smith está ótimo, convencendo em todas as nuances de seu personagem - assim como Helen Mirren consegue atingir as notas certas de sua Brigitte. Mas é uma pena que Frankel tenha desperdiçado atores tão talentosos quanto Edward Norton e Kate Winslet em papéis sem grandes possibilidades. "Beleza oculta" é um bom filme para quem procura se emocionar ou para os fãs do estupendo elenco reunido por David Frankel, mas deixa a sensação de promessa não totalmente cumprida, já que perde a oportunidade de ouro de ser inesquecível ou ter o impacto possível - tanto junto ao público quanto em relação à crítica, que torceu o nariz para seu roteiro raso e justificou sua falha também em conquistar os eleitores da Academia de Hollywood: mesmo com sua estreia acontecendo em dezembro (época quente para as produções que ambicionam indicações ao Oscar), foi ignorado por todas as cerimônias de premiação. Infelizmente não é o caso de ter sido injustiçado: é um filme agradável, mas jamais marcante.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

UM HOMEM CHAMADO OVE

UM HOMEM CHAMADO OVE (En man som heter Ove, 2015, Tre Vanner Produktion AB, 116min) Direção: Hannes Holm. Roteiro: Hannes Holm, romance de Fredrik Backman. Fotografia: Goran Hallberg. Montagem: Fredrik Morheden. Música: Gaute Storaas. Figurino: Camilla Lindblom. Direção de arte/cenários: Jan Olof Agren. Produção executiva: Michael Hjorth, Fredrik Wikstrom. Produção: Annica Bellander, Nicklas Wikstrom Nicastro. Elenco: Rolf Lassgard, Bahar Pars, Filip Berg, Ida Engvoll, Tobias Almborg. Estreia: 13/12/15

2 indicações ao Oscar: Melhor Filme Estrangeiro, Maquiagem

Talvez nem mesmo os mais assíduos frequentadores de mostras de cinema e festivais internacionais consigam fazer, sem pensar por um bom tempo, uma lista de filmes suecos que conseguiram ultrapassar as barreiras do idioma e chegar às telas nacionais nos últimos vinte anos. Não tão tradicionais e populares no Brasil como as produções espanholas, francesas e italianas, os filmes da terra de Ingmar Bergman apenas ocasionalmente tem a oportunidade de romper o hermetismo do mercado brasileiro de exibição - e para que isso aconteça, nada mais oportuno e eficaz do que uma indicação ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Por isso - e logicamente por suas qualidades inerentes - o emocionante "Um homem chamado Ove" conseguiu a façanha de conquistar o público sem apelar para efeitos visuais de última geração ou orçamentos inchados. Adaptado do romance de Fredrik Backman - que vendeu mais de 700 mil exemplares em sua língua original - e dirigido por Hannes Holm, o filme tornou-se um enorme sucesso na Suécia, chegando a figurar entre as cinco maiores bilheterias da história do país antes de começar uma vitoriosa trajetória em festivais que culminou com sua candidatura à estatueta dourada. Simples, direto e de fácil comunicação com a plateia, é um oásis de delicadeza em meio à pretensão do cinema que convencionou-se chamar de "cabeça" pelo simples fato de não ser falado em inglês.

Ao contrário do alemão "Toni Erdmann", seu rival na disputa pelo Oscar, que já tem refilmagem hollywoodiana engatilhada apesar de ser dolorosamente chato, "Um homem chamado Ove" nem precisa ganhar um remake para cativar a plateia. Contando uma história universal de amor, perda e redenção, o roteiro do também diretor Holm brinca com duas linhas temporais para iluminar a rotina de um senhor que, às vésperas de completar 60 anos, perde o sentido da existência ao ser demitido e perder a esposa a quem idolatrava. Interpretado com maestria por Rolf Lassgard, o protagonista se apresenta como um homem amargurado e de mal com a vida, que passa os dias implicando com os vizinhos e tentando manter a ordem no condomínio fechado em que mora, no interior da Suécia. Ranzinza e fechado, ele vê seu dia-a-dia ser transformado com a chegada de uma nova família ao local. A jovem iraniana Parvaneh (Bahar Pars), grávida e mãe de duas meninas, se torna uma inesperada fonte de vivacidade e prazer na vida do solitário ancião, que também ajuda o marido da nova amiga, Patrik (Tobias Almborg), a adaptar-se em sua nova realidade. Aos poucos, sua existência cinzenta ganha novas cores, e seus constantes desejos de morrer - refletidos em suas frequentes e frustradas tentativas de suicídio - dão lugar a um relacionamento construtivo que muda inclusive sua percepção dos demais companheiros de condomínio.


Iluminando o passado de Ove através de elucidativos flashbacks que explicam seu comportamento atual, o filme de Holm utiliza-se de uma edição inteligente - ainda que relativamente comum - para revelar ao público diferentes nuances do protagonista. Interpretado ainda por Filip Berg em sua juventude e Viktor Baagoe na infância, Ove se demonstra, a cada cena, uma pessoa dona de uma personalidade complexa, consequência de uma vida repleta de amor e paixões - seja pela esposa, Sonja (Ida Engvoll), ou por carros e motores, que lhe fascinam desde criança. Conforme o roteiro vai avançando e os reais sentimentos de Ove vão sendo expostos pela bela fotografia e pela doce trilha sonora, o filme vai alcançando uma dimensão bem mais humana e singela do que se poderia supor. Mesmo apelando para o clichê em sua estrutura dramática, o filme jamais se deixa atrapalhar pelo previsível ou pela apatia: seu protagonista é, sim, um típico idoso chato e desagradável, cheio de manias e regras, mas a forma com que ele transforma tudo isso em combustível para uma nova fase da vida é capaz de desenhar um sorriso no rosto do mais cínico dos espectadores. E para isso, nem é preciso uma grande reviravolta ou armadilhas sentimentalistas.

Contando sua história com delicadeza e um senso de ritmo que evita tempos mortos, Hannes Holm convida a plateia a testemunhar, sem pressa, a mudança de percepção do personagem principal em relação à vida e ao que ela (ainda) o oferece. De forma surpreendente, o roteiro consegue cativar a audiência tanto nos flashbacks que contam a história de amor entre Ove e Sonja quanto em seu presente tedioso, alterado pela convivência com a juventude e a esperança de seus novos companheiros de jornada. Mesmo que não apresente maiores novidades em sua trama, é um filme dotado de uma beleza tão simples e delicada que se torna impossível não se deixar envolver por ele. Um belo programa, que merece ser descoberto pelo público que gosta de ter o coração aquecido por uma boa e humana história sobre pessoas que podem estar na casa ao lado.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

A LEI DA NOITE

A LEI DA NOITE (Live by night, 2016, Warner Bros, 129min) Direção: Ben Affleck. Roteiro: Ben Affleck, romance de Dennis Lehane. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: William Goldenberg. Música: Harry Gregson-Williams. Figurino: Jacqueline West. Direção de arte/cenários: Jess Gonchor/Nancy Haigh. Produção executiva: Chris Brigham, Chay Carter, Dennis Lehane. Produção: Ben Affleck, Jennifer Davisson, Leonardo DiCaprio, Jennifer Todd. Elenco: Ben Affleck, Elle Fanning, Brendan Gleeson, Sienna Miller, Chris Messina, Robert Glenister, Remo Girone, Zoe Saldana, Chris Cooper. Estreia: 13/12/16

Não é a primeira vez que os caminhos de Ben Affleck e do escritor Dennis Lehane se cruzam: a estreia de Affleck como diretor, em 2007 foi com a adaptação do romance "Gone baby, gone", batizada no Brasil como "Medo da verdade" e que deu à Amy Ryan uma indicação ao Oscar de atriz coadjuvante. De lá pra cá, Affleck colecionou elogios e prêmios com novas incursões à carreira de diretor - como a estatueta de melhor filme, por "Argo", em 2013 - e Lehane viu outro livro seu ganhar as telas ("Ilha do medo", de Martin Scorsese, de 2010) e chegou a roteirizar um conto seu em "A entrega", dirigido por Michael R. Roskam em 2014. O reencontro entre os dois, porém, não foi dos mais felizes: apático e desinteressante, "A lei da noite" decepcionou nas bilheterias e foi desprezado pela crítica e pelas cerimônias de premiação, tornando-se, até agora, o elo mais fraco de uma filmografia que vinha se mostrando bastante consistente e empolgante. Mesmo contando com algumas louváveis qualidades, o quarto trabalho de Affleck como diretor não empolga nem cativa o espectador - e só não é ainda pior porque, inteligente e já experiente, ele soube cercar-se de uma equipe acima de qualquer suspeita, que disfarça suas eventuais falhas.

Abandonando sua temática urbana contemporânea, Lehane buscou, para "A lei da noite", raízes no cinema noir e em sua iconografia facilmente reconhecível pelos cinéfilos: estão presentes no filme a narração em off, mulheres fatais, regras de moral bastante elásticas, violência e o visual deslumbrante oferecido pelo premiado Robert Richardson - vencedor do Oscar por "JFK" (91). Porém, apesar de todos os elementos estarem no lugar, há algo que falta ao resultado final: alma. Apesar da reconstituição de época caprichada, do excelente trabalho do elenco (exceção ao próprio Affleck, mau ator como em seus piores dias) e da ambientação sofisticada, não existe empatia em relação ao protagonista e até mesmo as tramas secundárias são apresentadas de forma confusa, em um roteiro que não se aprofunda em nenhuma delas e ainda deixa o público sem ter por quem torcer. Tivesse deixado o ego um pouco de lado e escalado um ator melhor para viver o personagem principal (como Leonardo DiCaprio, que foi considerado mas permaneceu apenas como um dos produtores) talvez parte do problema resolvido, mas sua falta de expressão acaba por ser o tiro de misericórdia em uma produção morna e lenta que em nenhum momento empolga a plateia. A falta de personalidade de "A lei da noite" pode até ser creditada às diferenças criativas entre o diretor e a Warner Bros - que exigiu um filme com mais ação em detrimento de diálogos e uma trama mais psicológica que era a intenção de Affleck e deixou o resultado final capenga - mas é inegável que o domínio narrativo apresentado nos trabalhos anteriores do diretor/ator/roteirista faz uma enorme falta quando se assiste a um filme com mais de duas horas de duração que parecem o dobro de tempo quando a sessão acaba.


Assim como todo policial noir, "A lei da noite" acompanha a trajetória de um anti-herói. Joe Coughlin (Ben Affleck) é o filho caçula de um respeitado policial de Boston (Brendan Gleeson), mas isso não o impede de flertar abertamente com o mundo do crime, assaltando bancos e roubando até mesmo dos perigosos mafiosos que lucram com a Lei Seca. Um desses golpes o aproxima de Emma Gould (Sienna Miller, irreconhecível), que também é amante de um poderoso chefão local. Tal romance acaba por colocá-lo em maus lençóis: condenado à prisão e sabendo da morte da bela namorada, ele sai da cadeia disposto a vingar-se e aceita trabalhar com um dos rivais de seu novo inimigo. Enquanto sobe na carreira, se envolve com a cubana Graciela (Zoe Saldana), um relacionamento que irá despertar a fúria da Ku Klux Klan e deixá-lo em rota de colisão com rivais que também buscam enriquecer com o contrabando de bebidas - e posteriormente com o jogo. Para proteger-se, Coughlin se aproxima do xerife local, Figgis (Chris Cooper) e de sua ambiciosa filha, Loretta (Elle Fanning).

Com tantos personagens e tramas paralelas jogadas na tela, "A lei da noite" sofre de um sério problema de foco. Ben Affleck desperdiça alguns ótimos personagens como coadjuvantes de uma trama central clichê e sem novidades, deixando de lado atuações milagrosas de Chris Cooper e Elle Fanning e concentrando-se na relação entre seu protagonista e Graciela e em sua trajetória como criminoso: nenhuma das duas histórias é forte o bastante para manter o espectador interessado, e ambas são desenvolvidas superficialmente, quase com preguiça, o que é um pecado mortal para um filme que se pretende um thriller policial. Não deixa de ser lamentável que uma produção tão cuidadosa e com tantos talentos envolvidos tenha ficado tão aquém de seu potencial. Dessa vez Ben Affleck errou feio. "A lei da noite" não é um filme insuportável, mas está longe de ser bom como poderia ser - e mais longe ainda do que se esperava dele.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

EDIFÍCIO MASTER (Edifício Master, 2002, Videofilmes, 110min) Direção e roteiro: Eduardo Coutinho. Fotografia: Jacques Cheuiche. Montagem: Jordana Berg. Produção executiva: João Moreira Salles, Mauricio Andrade Ramos. Estreia: 03/10/02

Quem conhece a obra do cineasta Eduardo Coutinho sabe de sua quase sobrenatural capacidade de arrancar declarações inesperadas de seus entrevistados - e até mesmo de transformar a mais comum das pessoas em um personagem inesquecível e fascinante. Esse talento único está em grande forma em um dos seus melhores trabalhos, "Edifício Master", lançado em 2002 e referência obrigatória para todos os fãs do gênero. Parte da lista dos 100 melhores filmes nacionais de todos os tempos elaborada pela Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) em 2015 e premiado nos festivais de Gramado e Havana, além da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte), o brilhante trabalho de Coutinho reflete como poucos a diversidade do país, utilizando-se para isso um prédio de apartamentos residenciais, localizado em Copacabana, no Rio de Janeiro. Ao contrário da imagem de glamour e luxo que o endereço pode transmitir em um primeiro momento, os moradores escolhidos pelo diretor para contarem um pouco a respeito de suas vidas são pessoas simples e idiossincráticas, que compõem um panorama eclético e emocionante de uma parte numerosa e frequentemente ignorada do Brasil: a classe média baixa, com seus altos e baixos pessoais, profissionais e familiares.

Ao dar voz a indivíduos aparentemente simples mas dotados de complexidades que são reveladas gradualmente, conforme as entrevistas vão se desenrolando, Eduardo Coutinho deixa claro ao espectador que, mais do que buscar a excentricidade de cada um, ele procura suas banalidades - e, por consequência, sua humanidade mais radical. Com uma variada gama de personalidades em mãos, o cineasta faz do público o voyeur não apenas de um vizinho qualquer, mas de quase quatro dezenas deles, devassando suas intimidades e pensamentos mais honestos. Desfilam pela tela tanto jovens sonhadores e/ou presos a doenças psicológicas ou sociais, casais com histórias de amor variadas, um veterano ator de televisão, uma garota de programa, pessoas de meia-idade amarradas a um passado saudoso que não volta mais, uma ex-dançarina que fez fama no Japão na juventude e vários outros rostos desconhecidos que vão revelando suas grandezas e mesquinharias sem medo de julgamentos ou críticas. Dotado de momentos emocionantes - como o morador que canta "My way", de Frank Sinatra, com os olhos marejados de lágrimas - e outros bastante curiosos - a jovem maníaco-depressiva que tem fobia de pessoas e não consegue sequer olhar nos olhos de Coutinho, por exemplo - "Edifício Master" é um fascinante compêndio sobre a natureza humana, repleto de uma verdade de que somente os melhores documentários conseguem atingir.


Mesmo que tenha escolhido um número relativo pequeno de moradores - 37, de um universo de cerca de 500 à época das filmagens - Eduardo Coutinho comprova, com sua inteligente amostragem, que existem sentimentos que unem todos os seres humanos. A solidão, por exemplo, é uma constante participante das entrevistas, tanto nos personagens mais jovens quanto naqueles mais experientes - tanto nos solteiros quanto nos casados. O que Coutinho faz com admirável destreza é escancarar as portas de cada apartamento, convidando o público a penetrar em vidas de completos estranhos que, alguns minutos mais tarde, tornam-se quase íntimos. Nenhuma história soa pequena diante do vasto interesse do diretor na alma humana: da senhora assaltada que não consegue livrar-se do trauma, da jovem expulsa grávida da casa dos pais e que recomeça a vida no prédio, dos jovens músicos em busca de uma oportunidade, de uma rígida imigrante que acredita que o trabalho duro é a única forma de manter a sanidade física e financeira e do casal de viúvos apaixonados depois de se conhecerem em um anúncio de jornal, tudo é matéria-prima para a curiosidade carinhosa do documentário, que prescinde de artifícios narrativos para atingir seu objetivo: não há nada mais no cinema de Coutinho do que ele mesmo, seus convidados, uma câmera e a emoção que surge em cada minuto. É simples, direto e extremamente eficiente.

Um prédio de 12 andares com 276 apartamentos e que já foi o lar de nomes como Rogéria, Elke Maravilha e Leila Diniz, o Edifício Master passou por mudanças radicais desde o lançamento do filme. Se no momento da realização ele já não era mais o lar de prostitutas, drogados e cafetões que foi por um período de tempo - graças à uma administração mais séria e menos liberal - mais de uma década depois as coisas estavam ainda mais atraentes para seus moradores. O preço dos apartamentos, por exemplo, disparou de cerca de R$ 35 mil em 2002 para R$ 700 mil em 2015, ano em que Eduardo Coutinho morreu assassinado pelo próprio filho, vítima de esquizofrenia. O porteiro ganhou uniforme, as câmeras de vigilância ficaram mais sofisticadas e os moradores tornaram-se, por algum tempo, celebridades do bairro, sendo reconhecidas nas ruas e supermercados como estrelas de cinema. Suas solidões encontraram eco na plateia, que descobriu, graças à imensa sensibilidade que escorre de cada entrevista, que seres humanos são, essencialmente, uns iguais aos outros, com suas dores e delícias. Uma obra-prima atemporal e universal!

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

DZI CROQUETTES (Dzi Croquettes, 2009, Canal Brasil, 110min) Direção: Raphael Alvarez, Tatiana Issa. Montagem: Raphael Alvarez. Produção executiva: Raphael Alvarez, Tatiana Issa. Produção: Raphael Alvarez. Estreia: 04/9/09

Em 1972, em plena ditadura militar, que havia privado a população civil da liberdade de expressão, um grupo de teatro formado por 13 atores/dançarinos sem medo de enfrentar o preconceito e dispostos a quebrar todas as regras pré-estabelecidas surgiu como um sopro de ar fresco nos palcos do Rio de Janeiro. Batizados de Dzi Croquettes - em uma homenagem debochada ao grupo norte-americano The Coquettes - e desafiando o bom-comportamento compulsório que vigorava no país, eles chocaram e conquistaram públicos surpreendidos com um humor cáustico e transgressor que não demorou em chamar a atenção da repressão - e os levar a buscar novos horizontes na Europa. Celebrados em Paris (onde tinham como madrinha ninguém menos que Liza Minelli), eles conheceram a fama, o delírio e uma liberdade artística que influenciou todo o teatro brasileiro dos anos subsequentes. Como forma de resgatar as lembranças de um período histórico da cultura nacional e apresentar às novas gerações uma das mais importantes manifestações artísticas já criadas nos palcos, o documentário "Dzi Croquettes" estreou no Festival Internacional de Cinema do Rio em setembro de 2009 e começou uma vitoriosa trajetória internacional, arrebatando prêmios em Los Angeles, Miami, São Francisco e Turim. Dirigido por Raphael Alvarez e Tatiana Issa, o filme é um precioso estudo sobre o amor ao teatro, a liberdade de expressão, a amizade e a genialidade de um grupo de pessoas que, munidas de bom-humor, garra, dedicação e muito talento, deixaram uma marca indelével nas artes cênicas do Brasil.

Acompanhando a trajetória da companhia desde seus primeiros passos - com a liderança crucial do bailarino norte-americano Lennie Dale, que também foi responsável por transformar Elis Regina em fenômeno dos palcos além da grande cantora que sempre foi - e mergulhando o espectador em um universo de alegria e coragem, os diretores constroem um minucioso mosaico histórico e cultural, que não apenas joga luz sobre cada um dos treze integrantes da divertida trupe, mas também ilumina um período de trevas pelo qual passou a arte brasileira, cerceada e violentada pela repressão mais vil e ignorante. Apesar de situar com clareza sua narrativa no auge da ditadura militar, porém, o filme opta, acertadamente, pelo tom alegre e alto-astral que caracterizava as apresentações. Borrando propositalmente as barreiras da sexualidade, eles subiam ao palco travestidos como mulheres, mas sem a preocupação de esconder a barba ou os pelos do corpo, criando um novo estilo de encenação que misturava música, teatro, dança e crítica social da mais inteligente e cáustica possível. De sua criação até o exílio na Europa - com direito a um final melancólico e algumas mortes traumatizantes - o documentário de Alvarez e Issa mapeia com precisão a importância de seus espetáculos para o futuro do teatro nacional e não tem medo de ensaiar momentos de grande emoção, mesmo que sutil.


Filha do cenógrafo Américo Issa, que trabalhou em alguns espetáculos do Dzi Croquettes, a codiretora Tatiana aproveita a deixa para acrescentar a um trabalho já relevante e imprescindível como documento histórico, uma dose de nostalgia e sensibilidade extra. Sem deixar-se cair na armadilha do sentimentalismo, ela usa de sua própria experiência (ainda criança) nos bastidores dos espetáculos para situar a companhia como um núcleo familiar sui generis, conforme eles mesmos se consideravam. Dando a cada um dos atores o espaço merecido, o roteiro mescla imagens de arquivo preciosas e entrevistas reveladoras de integrantes, fãs e artistas cujo trabalho foi diretamente influenciado por seu espírito transgressor e cáustico. Miguel Falabella, Cláudia Raia e Pedro Cardoso, por exemplo, revelam como o besteirol - gênero teatral brasileiro por nascimento e excelência - deve muito de sua estrutura aos roteiros nonsense das peças e como Lennie Dale fez dos palcos nacionais um pedaço da Broadway. Algumas integrantes das Frenéticas também dão seu depoimento, lembrando como a personalidade de cada membro da equipe oferecia ao conjunto uma identidade própria e inimitável.

Mas são as entrevistas com os Dzi Croquettes ainda vivos que dão ao documentário o sabor especial que lhe transforma em um espetáculo raro. Inteligentes, sensíveis e cientes de sua importância no cenário teatral brasileiro (e mundial), eles contam histórias saborosas a respeito dos bastidores, enquanto relembram suas relações interpessoais, muitas vezes difíceis e muitas outras fascinantes. Amigos, colegas, amantes e familiares, os atores da companhia viviam sob o signo da liberdade total, inserindo em seu teatro todas as rebeldias e idiossincrasias que faziam deles artistas únicos que afrontavam toda e qualquer regra que porventura considerassem ultrapassadas. Uma festa constante nos palcos e nos bastidores, o grupo acabou por dar origem a um documentário que mantém vivos seus ideais e reflete, com delicadeza e a devida reverência, toda a grandeza de sua coragem. Um filme imprescindível para os amantes do teatro, das artes e da liberdade!

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

PROMETHEUS

PROMETHEUS (Prometheus, 2012, 20th Century Fox, 124min) Direção: Ridley Scott. Roteiro: Jon Spaihts, Damon Lindelof, elementos criados por Dan O'Bannon, Ronald Shusett. Fotografia: Dariusz Wolski. Montagem: Pietro Scalia. Música: Marc Streitenfeld. Figurino: Janty Yates. Direção de arte/cenários: Arthur Max/Sonja Klaus. Produção executiva: Michael Costigan, Michael Ellenberg, Mark Huffam, Damon Lindelof. Produção: David Giler, Walter Hill, Ridley Scott. Elenco: Noomi Rapace, Michael Fassbender, Logan Marshal-Green, Charlize Theron, Guy Pearce, Idris Elba, Rafe Spall, Patrick Wilson. Estreia: 11/4/12

Em 1979, o filme "Alien: o oitavo passageiro" estreou e mudou a forma como o público e a crítica passaram a enxergar a ficção científica no cinema. Referência absoluta no gênero desde então, gerou fortunas com suas sequências - dirigidas por James Cameron (86), David Fincher (92) e Jean-Pierre Jeunet (98) - e nunca deixou de suscitar especulações a respeito de possíveis novas continuações. Demorou mais de três décadas, porém, para que seu diretor original, Ridley Scott, retomasse as rédeas do universo que ajudou a moldar. Para surpresa de muitos, porém, o cineasta inglês não retomou as aventuras da destemida Tenente Ripley, interpretada por Sigourney Weaver nos quatro primeiros capítulos da série: em "Prometheus", ele conta, de maneira elegante mas não menos tensa, fatos acontecidos décadas antes de tudo que foi mostrado no original, em uma jogada ousada e inteligente. Foi parcialmente bem-sucedido: nos EUA, a bilheteria foi apenas razoável (126 milhões de dólares contra o orçamento generoso de 130), mas no resto do mundo, aproveitando-se da fama de uma das marcas mais famosas de Hollywood, chegou perto de 280 milhões. Longe de ser também uma unanimidade entre a crítica, ficou no meio-termo entre aqueles que louvaram a coragem do diretor em fugir do óbvio e aqueles que esperavam muito mais do reencontro do criador com a criatura. Mas, afinal, "Prometheus" é um bom filme ou apenas um mero caça-níqueis de luxo?


Há duas maneiras de se assistir e julgar "Prometheus": como um espectador neófito, a quem todo o universo criado nos quatro primeiros filmes simplesmente inexiste (e a quem portanto tudo é novidade, como um filme qualquer do gênero), ou como um fã da série, ansioso por conhecer as origens de um dos monstros mais longevos da ficção científica cinematográfica (e, consequentemente, muito mais exigente quando se trata do assunto). Para ambas as tribos, o roteiro oferece belos momentos de ação e suspense - tudo orquestrado com a elegância natural de Ridley Scott e um visual estonteante, cortesia da bela fotografia de Dariusz Wolski e da extraordinária direção de arte, concebida a partir do filme original de 1979, mas mostrada ao público do século XXI com todo o requinte que um orçamento generoso e efeitos visuais caprichados podem proporcionar. Porém, ao tentar abraçar esses dois mundos, Scott acabou por ficar no meio do caminho entre a claustrofobia do primeiro capítulo e o senso de espetáculo que James Cameron injetou na continuação de 1986. Coerentemente, em seus dois primeiros atos - em que a atmosfera de tensão sobrepõe-se à ação graficamente violenta - Scott mostra-se mais à vontade em conduzir sua narrativa, dosando com parcimônia momentos mais contemplativos com sequências que dão pistas sobre o que virá pela frente, quando seus personagens finalmente serão obrigados a encarar que não estão sozinhos no universo - e, pior ainda, o estão dividindo com uma espécie não exatamente amistosa.


A trama de "Prometheus" se passa em 2093 - vinte e nove anos antes, portanto, dos acontecimentos do primeiro "Alien". A dupla de arqueologistas Elizabeth Shaw (Noomi Rapace) e Charlie Holloway (Logan Marshall-Green) faz parte da seleta tripulação escolhida pelo milionário Peter Weyland (Guy Pearce sob pesadíssima maquiagem) para explorar vida extra-terrestre, uma vez que foram responsáveis por encontrar, em uma remota ilha da Escócia algum tempo antes, desenhos rupestres que confirmam suas teorias de há recados para a humanidade desde tempos imemoriais. Depois de hibernar por alguns anos, o grupo de cientistas desembarca em um planeta desconhecido, com a missão de encontrar aqueles que acredita-se ser os criadores da raça humana. A diretora da missão, a ambiciosa Meredith Vickers (Charlize Theron), os proíbe de qualquer contato com tais seres e permanece na nave, ao contrário de David (Michael Fassbender), um androide perfeitamente construído para conviver entre os humanos que é o homem de confiança de Weyland. Assim como em "Alien", eles encontram o que não deveriam encontrar, e sobem a bordo de posse da cabeça de um humanoide que encontram no planeta. Durante a investigação que busca mais detalhes sobre o encontrado, uma série de violentos incidentes que vitimam os cientistas fazem com que Vickers e Shaw entrem em conflito sobre como lidar com a situação e de que forma podem sair com vida do planeta - e ao mesmo tempo manter a salvo as descobertas que seus estudos realizaram.

Assim como acontece em todos os episódios da série "Alien", a trama de "Prometheus" gira em torno de um alienígena assassino que vai trucidando cada um dos personagens, normalmente apresentados com pouca profundidade pelo roteiro. No filme de Scott não é diferente. Com exceção da protagonista vivida por Noomi Rapace (a estrela da versão sueca de "Os homens que não amavam as mulheres"), nenhum dos tripulantes da nave é explorado além de um nível superficial pelo roteiro - até mesmo o romance entre Elizabeth e Charlie é tratado sem muito cuidado, apesar da boa química entre os atores. Charlize Theron está bem na pele da ambiciosa Meredith Vickers, mas não tem muito o que fazer além de servir de um empecilho a mais na missão de seus colegas de viagem. Sobra, então, a Michael Fassbender roubar a cena mais uma vez: como o androide David, ele chama a atenção da plateia desde sua primeira cena, transmitindo com perfeição todas as nuances de um personagem que, mesmo não sendo humano, apresenta muito mais complexidades do que se poderia esperar. É Fassbender quem dá o toque de mais sensibilidade de um filme que, apesar de alguns exageros inverossímeis (que tal uma personagem sair correndo depois de uma cesareana?), diverte e impressiona pela qualidade técnica. Não chega a ser um "Alien: o oitavo passageiro" - mas algum dos filmes da série chega?