terça-feira, 15 de agosto de 2017

UMA MULHER DESCASADA

UMA MULHER DESCASADA (An unmarried woman, 1978, 20th Century Fox, 124min) Direção e roteiro: Paul Mazursky. Fotografia: Arthur Ornitz. Montagem: Stuart H. Pappé. Música: Bill Conti. Figurino: Albert Wolsky. Direção de arte/cenários: Pato Guzman/Edward Stewart. Produção: Paul Mazursky, Tony Ray. Elenco: Jill Clayburgh, Alan Bates, Michael Murphy, Lisa Lucas, Cliff Gorman, Pat Quinn, Kelly Bishop, Linda Miller, Raymond J. Barry. Estreia: 05/3/78

3 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz (Jill Clayburgh), Roteiro Original
Palma de Ouro (Melhor Atriz) no Festival de Cannes - Jill Clayburgh 

No final dos anos 1970, as definições de família tradicional já estavam em acelerada mudança, assim como o papel das mulheres dentro da sociedade e do mercado de trabalho. Os dias em que apenas os homens eram os provedores e às mulheres cabia a administração da casa e a educação dos filhos começavam a desvanecer frente a novos conceitos de relação e configurações mais diversas de núcleo familiar. Em 1979, por exemplo, Robert Benton saiu da cerimônia do Oscar carregado de estatuetas por "Kramer X Kramer", que tratava exatamente deste novo panorama social. Um ano antes, porém, outro filme se antecipou ao tema - e se não chegou a consagrar-se vencedor, apesar de três importantes indicações, abriu as portas para a discussão de um assunto que estava no ar, esperando uma chance de ganhar a devida atenção. Escrito, dirigido e produzido por Paul Mazursky, "Uma mulher descasada" concorreu aos Oscar de melhor filme, roteiro original e atriz - e se Jill Clayburgh perdeu o prêmio para Jane Fonda, por "Amargo regresso" (que tratava de outro assunto tabu na época, a guerra do Vietnã), teve melhor sorte no Festival de Cannes, de onde saiu laureada com a Palma de Ouro.

A premiação de Clayburgh em Cannes, assim como suas indicações ao Oscar, ao Golden Globe e ao BAFTA, são homenagens a uma interpretação naturalista, discreta e radicalmente próxima das experiências da plateia. Em um papel escrito especialmente para ela pelo roteirista/diretor Mazursky - mas que chegou a ser oferecido a (e devidamente recusado por) Jane Fonda -, a atriz, que voltou a concorrer ao Oscar no ano seguinte, por "Encontros e desencontros" e faleceu em 2010, entrega um desempenho memorável, mas calcado em uma extrema sutileza e economia. Até mesmo na mais visceral das cenas, não há o tradicional escândalo e as previsíveis lágrimas em excesso - tudo é calculado de forma a buscar a empatia do público através da identificação imediata e emocional. Com diálogos certeiros e recheados de um inesperado senso de humor, o roteiro de Mazursky convida o espectador a acompanhar sua protagonista por um caminho de autoconhecimento mental, sexual e comportamental que retrata, à sua maneira, um período específico dos EUA e, ao mesmo tempo, de uma universalidade admirável. Sem ambicionar nada mais do que contar uma boa história, "Uma mulher descasada" acabou por tornar-se uma obra capaz de, como poucos, definir sua época.


Tudo bem que a ambientação do filme seja glamorosa e os personagens desfilem pelas ruas charmosas de Nova York e frequentem galerias de arte, bares da moda e boates sofisticadas. Seus sentimentos são universais e encontram eco em qualquer pessoa que já tenha passado por situações similares. Tudo bem que Erica, a protagonista, não precisa preocupar-se em sustentar sozinha a filha adolescente ou procurar um lugar para morar depois que o marido, Martin (Michael Murphy), a troca por uma mulher mais jovem. E tudo bem que ela encontra suporte no grupo de amigas e tem dinheiro o bastante para contar com a ajuda de uma terapeuta. Mas a essência do trauma e suas consequências são as mesmas pelas quais passam quaisquer mulheres, independentes de classe social, raça ou geografia. Sim, nem todas tem condições de buscar o tempo perdido em termos sexuais se relacionando casualmente com conhecidos ou se envolvendo com um artista internacional, como Saul (Alan Bates), mas a procura pela ressurreição do desejo e da autoestima encontra espelho mesmo na mais simples alma feminina. Nesse ponto, é notável o talento de Mazursky em compreender os meandros da psicologia do sexo oposto - o que justifica sua indicação ao Oscar de roteiro original mesmo tendo ficado de fora da disputa pela estatueta de diretor.

Se em "Kramer X Kramer" era o marido interpretado por Dustin Hoffman o surpreendido por um pedido de divórcio - pela esposa Meryl Streep, buscando uma identidade profissional que o casamento não lhe permitia -, em "Uma mulher descasada", como o título deixa óbvio, é a esposa quem leva um choque. Erica, a protagonista, acreditava viver um casamento seguro e sem sobressaltos - tinha um bom emprego e uma relação saudável com a filha adolescente. Quando a bomba é detonada - seu marido Martin revela estar apaixonado por outra mulher e lhe pede o divórcio -, a ela resta apenas juntar os cacos, divertir-se ao lado das amigas e, mesmo atônita com a surpresa, não se deixar levar pelo pessimismo e pelo medo do futuro. Enquanto faz as pazes com o corpo, a sexualidade e sua capacidade de viver sozinha, ela encontra em si mesma a força necessária para recomeçar a vida - com ou sem um parceiro a seu lado. Feminista mas não radical e tampouco didático ou simplório, "Uma mulher descasada" é um filme que, mesmo tantos anos depois de seu lançamento, ainda é um exemplo de como o cinema pode ser eterno mesmo quando não se deixa contagiar por gigantismos ou exageros. Paul Mazursky fez, à sua maneira, uma produção hollywoodiana com alma de cinema francês. Um elogio e tanto!

domingo, 13 de agosto de 2017

OLHOS DA JUSTIÇA

OLHOS DA JUSTIÇA (Secret in their eyes, 2015, IM Global, 111min) Direção: Billy Ray. Roteiro: Billy Ray, roteiro original de Juan José Campanella, Eduardo Sacheri, romance de Eduardo Sacheri. Fotografia: Danny Moder. Montagem: Jim Page. Música: Emilio Kauderer. Figurino: Shay Cunliffe. Direção de arte/cenários: Nelson Coates/Andrea Joel. Produção executiva: Matt Berenson, Juan José Campanella, Stuart Ford, Russell Levine, Jeremiah Samuels, Robert Simonds, Lee Jea Woo, DEborah Zipser. Produção: Matt Jackson, Mark Johnson. Elenco: Chiwetel Ejiofor, Nicole Kidman, Julia Roberts, Michael Kelly, Dean Norris, Alfred Molina, Joe Cole. Estreia: 12/11/15 (Itália)

Ao menos dois motivos podem justificar o remake de uma produção estrangeira dentro dos moldes de Hollywood. Primeiro: por mais sucesso que o original possa fazer no mercado norte-americano, seu alcance ainda é muito limitado, principalmente pela barreira do idioma (não é segredo para ninguém a aversão do público médio a legendas). E segundo: poucos produtores conseguiriam resistir à ideia de ganhar uma bela grana ao copiar um êxito já comprovado - chancelado, preferencialmente, por nomes e rostos conhecidos da plateia. Isso explica "Olhos da justiça", refilmagem (bastante) livre do excepcional "O segredo dos seus olhos", vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro de 2009. Baseado em um romance de Eduardo Sacheri, o filme de Juan José Campanella derrotou produções badaladas, como "A fita branca", de Michael Haneke, e "O profeta", de Jacques Audiard, e se tornou um dos filmes mais elogiados da temporada, com uma mistura perfeita de romance, drama e policial, além de uma atuação quase mágica de Ricardo Darín. Sua releitura hollywoodiana, porém, não teve a mesma sorte: recebida com frieza pela crítica, também falhou em conquistar o público, e, apesar da presença de Julia Roberts e Nicole Kidman (dois chamarizes fortes), mal conseguiu arrecadar 20 milhões de dólares no mercado doméstico (EUA e Canadá). De uma certa forma esse resultado foi até previsível.


Sua bilheteria tímida (leia-se fracasso monumental, em linguagem de Hollywood) deixou claro para todo mundo que nem sempre grandes estrelas são garantia de sucesso, especialmente quando elas não estão a função de uma franquia que pode caminhar por si mesma (caso dos filmes de super-heróis) ou em busca de um Oscar, com uma campanha milionária de marketing na retaguarda. Bancado por uma companhia independente, a IM Global (depois que a Warner abandonou o projeto a meio caminho) e dirigido por Billy Ray (um cineasta competente mas sem grandes êxitos comerciais no currículo), "Olhos da justiça" talvez tenha confiado demais no interesse do público por uma história já consagrada e no poder de fogo de seu elenco. Mais um exemplo de como refilmagens não são exatamente o caminho das pedras para o sucesso financeiro (raras vezes a ideia dá certo, como no caso de "A gaiola das loucas", dirigida por Mike Nichols em 1996), o filme de Ray amargou uma esnobada geral - e no fim das contas nem merecia tamanho descaso. Visto como um filme independente (o que é especialmente difícil, principalmente para os fãs do original), "Os olhos da justiça" até tem suas qualidades e pode ser digerido facilmente pelo público que procura um drama policial. Visto sem expectativas irreais, é uma produção competente - mesmo que tenha momentos que lembrem mais telefilmes do que grande cinema.


A principal mudança na estrutura da trama - em relação ao filme argentino - é a alteração do gênero de um dos personagens principais (e sua relação com os demais protagonistas). Enquanto na produção de Campanella a vítima do crime brutal que dá início à ação era uma jovem recém-casada cuja morte transforma a busca pelo culpado uma obsessão do marido, na versão americana quem morre é uma adolescente que vem a ser filha de uma investigadora policial, especializada em contra-terrorismo - uma mudança que também serve para definir de forma decisiva o tempo e o local da primeira parte do enredo, saindo da Argentina da ditadura militar dos anos 70 para a Los Angeles pós-11/9. Jess Cobb, a policial que sofre a traumática perda, é vivida por uma Julia Roberts despida de qualquer glamour e escondendo seu famoso sorriso - o personagem, masculino no livro de Eduardo Sacheri, no roteiro de Campanella e até no primeiro tratamento de Billy Ray, foi reescrito especialmente para ela, que se sai bastante bem apesar de dividir o foco da narrativa com o drama romântico que se desenrola a seu lado - este sim, bem menos potente do que aquele apresentado pelo material original.

No filme de Campanella, o romance entre os protagonistas interpretados por Ricardo Darín e Soledad Villamil é intenso, repleto de silêncios, olhares e uma química palpável, que conduz a trama com a mesma força do enredo policial. Em "Olhos da justiça" a mágica não se repete. Por mais talentosos que sejam, Nicole Kidman (substituindo Gwyneth Paltrow) e Chiwetel Ejiofor não conseguem reproduzir a tensão sexual entre seus personagens. Enquanto Kidman interpreta a promotora Claire Sloane, que se divide entre a carreira e sentimentos mais pessoais (a atração que sente pelo colega, o desejo de quebrar as regras para vingar a amiga), Ejiofor faz o possível para dar consistência a um personagem que o próprio roteiro não desenvolve a contento - o dedicado Ray Kasten, que passa dez anos preso a duas obsessões: encontrar o assassino da filha de Jess e conquistar o amor de Claire, por quem se apaixonou à primeira vista e a quem jamais esqueceu. As duas tramas paralelas (o romance e o policial) caminham juntas em uma edição repleta de flashbacks pouco inventivos e atuações em registro quase automático: com exceção de alguns momentos inspirados de Julia Roberts, o filme não chega a empolgar (e até a famosa sequência em um estádio de futebol, aqui devidamente alterado para beisebol, é muito mais intensa no filme original, ainda que Ray faça esforço para criar a tensão necessária). Um filme apenas mediano, "Olhos da justiça" se beneficia do elenco (ainda que não em dias excelentes), uma trama forte (ainda que diluída por mudanças um tanto desnecessárias e um final diferente) e pela produção bem cuidada. Serve como entretenimento, mas não passará ao status de cult de seu material original.

sábado, 12 de agosto de 2017

A MISSÃO

A MISSÃO (The Mission, 1986, Warner Bros, 125min) Direção: Roland Joffé. Roteiro: Robert Bolt. Fotografia: Chris Menges. Montagem: Jim Clark. Música: Ennio Morricone. Figurino: Enrico Sabbatini. Direção de arte/cenários: Stuart Craig. Produção: Fernando Ghia, David Puttnam. Elenco: Robert De Niro, Jeremy Irons, Liam Neeson, Aidan Quinn, Ray McAnally, Cherie Lunghi. Estreia: 16/5/86 (Festival de Cannes)

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Roland Joffé), Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Oscar de Melhor Fotografia
Vencedor de 2 Golden Globes: Roteiro, Trilha Sonora Original
Palma de Ouro (Melhor Filme) no Festival de Cannes

Não é à toa que a Igreja Católica tem grande carinho e admiração por "A missão", a ponto de colocá-lo frequentemente em listas dos melhores filmes religiosos de todos os tempos: ao romantizar a exploração jesuíta entre indígenas do século XVIII e torná-la menos violenta e colonizadora do que realmente foi, a produção dirigida por Roland Joffé elege, como um de seus heroicos protagonistas, um padre espanhol dedicado e corajoso, capaz de qualquer sacrifício para proteger seus pupilos - inclusive opor-se com veemência contra o reino de Portugal, que se torna seu maior inimigo. No entanto, se como História o filme pode ser questionado em sua visão um tanto simplista, como cinema é um filme de enormes qualidades - qualidades estas que lhe renderam a Palma de Ouro no Festival de Cannes 86 (além do Grande Prêmio do Júri) e sete indicações ao Oscar, incluindo melhor filme e direção. Uma produção imponente, séria e adulta, "A missão" comprova a tendência de seu diretor em tratar de temas relevantes e socialmente interessantes - a despeito de seu potencial comercial. Prova disso é a renda do filme no mercado doméstico (EUA e Canadá): apenas 17 milhões de dólares, uma renda que não pagou nem mesmo o custo total da produção. Seu relativo fracasso não chega a ser surpreendente: em uma época em que as salas de cinema lotavam de espectadores dispostos a aplaudir superproduções caras como "Aliens: o resgate" ou despretensiosas como "Crocodilo Dundee", o filme de Joffé surgiu como uma opção "difícil" e "densa", mirando um público mais sofisticado - que também não lhe deu a atenção devida, preferindo, assim como a Academia, o Vietnã de Oliver Stone, em "Platoon".

"A missão" é um grande filme, valorizado pela direção segura de Joffé, pela belíssima fotografia de Chris Menges (premiada com o Oscar), pela trilha sonora arrebatadora de Ennio Morricone - e pela presença magnética de Robert De Niro e Jeremy Irons nos papéis principais. O primeiro interpreta (com toda a carga dramática com que o público já está acostumado) Rodrigo Mendoza, um conhecido caçador de indígenas - a quem captura para vender como escravos na colônia onde vive, na América do Sul do século XVIII. Irons vive o Padre Gabriel, jesuíta que tem como objetivo de vida catequizar os mesmos índios caçados por Mendoza. O caminho dos dois se cruza quando o caçador, depois de uma tragédia familiar, procura abrigo nas missões comandadas pelo sacerdote: convertido ao catolicismo, ele se torna parte integrante da companhia, convivendo com religiosos e seus catequizandos - até que a Espanha vende o território onde eles trabalham para Portugal e os obriga a pegar em armas para defender a continuidade de seu projeto.


O roteiro de Robert Bolt se divide claramente em três capítulos, cada um com ritmo e desenvolvimento próprios. A primeira parte apresenta os protagonistas, sem muitos diálogos e concentrando seu foco em imagens fortes e poderosas, que estabelecem a personalidade dos personagens e sua relação com o meio em que vivem. Essa primeira etapa acaba quando Mendoza abandona a vida de caçador de escravos para tentar encontrar uma redenção espiritual - e para isso conta com o apoio de Gabriel, outros padres e a comunidade jesuítica fundada por ele. O terceiro capítulo é o mais intenso: confrontados com a possibilidade de perder tudo que foi construído até então, os dois homens tão diferentes entre si se unem - um com a palavra, o outro com a ação - para defender o que acreditam ser um bem maior. Mesmo a violência que surge a partir daí parece sagrada e justificável - e da maneira como é mostrada por Joffé, até poética.

Questões históricas e éticas à parte - é discutível o benefício das missões jesuíticas em termos de colonização, nem sempre tão pacífica como mostrada no filme -, "A missão" funciona perfeitamente como cinema. Roland Joffé é um cineasta que sabe emocionar sem soar panfletário ou melodramático, e essa característica é essencial para que o espectador não se sinta manipulado diante de uma história que já é poderosa por si mesma. O tom quase seco do diretor torna o resultado final menos impactante dramaticamente (a quem já está acostumado a catarses gigantescas e pirotécnicas), mas ressoa com muito mais potência na alma do público. Ao mostrar dois protagonistas tão opostos, o roteiro acerta em cheio, especialmente porque seus atores estão no auge do talento e da maturidade artística - De Niro já tinha dois Oscar em casa e Irons levaria o seu poucos anos mais tarde - e porque não há, entre eles, a busca pelo brilho fácil ou previsível. Assim como fez com Sam Waterston  Haing S. Ngor em "Os gritos do silêncio" - uma dupla improvável que se completa ao encontrar uma missão na vida -, Joffé deu a seus dois atores principais a chance de fugir do óbvio e do já visto. Por essas e outras é que seu filme acaba sendo uma experiência tão gratificante e inesquecível!

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

MACBETH: AMBIÇÃO E GUERRA

MACBETH: AMBIÇÃO E GUERRA (Macbeth, 2015, See-Saw Films/DMC Film, 113min) Direção: Justin Kurzel. Roteiro: Todd Louiso, Jacob Koskoff, Michael Lessie, peça teatral de William Shakespeare. Fotografia: Adam Arkapaw. Montagem: Chris Dickens. Música: Jed Kurzel. Figurino: Jacqueline Durran. Direção de arte/cenários: Fiona Crombie/Alice Felton. Produção executiva: Jenny Borgars, Oliver Courson, Danny Perkins, Tessa Ross, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Iain Canning, Laura Hastings-Smith, Emile Sherman. Elenco: Michael Fassbender, Marion Cottilard, Paddy Considine, David Thewlis, Jack Reynor, Sean Harris, Elizabeth Debicki. Estreia: 23/5/15 (Festival de Cannes)

Escrito no início dos anos 1600, o texto de "Macbeth" tornou-se, com um tempo, um dos mais celebrados do imortal William Shakespeare - e também o mais cercado de superstições e lendas a respeito de suas montagens. Ao falar basicamente sobre o mal e a ambição, a obra chegou ao ponto de ser chamada simplesmente de "a peça escocesa", como forma de isolar toda as maldições que (segundo consta) atinge suas montagens. Dona de alguns dos personagens mais conhecidos do teatro mundial - especialmente o personagem-título e sua esposa -, a peça também chegou ao cinema em diversas ocasiões, mais notadamente em uma versão dirigida por Orson Welles em 1948 e uma adaptação de Roman Polanski, lançada em 1971. Sem uma nova releitura cinematográfica desde então, "Macbeth" chegou ao século XXI sob a direção do australiano Justin Wurzel - relativamente conhecido de circuitos de festivais graças à sua estreia como cineasta, "Os crimes de Snowtown" (2011): visualmente exuberante, dramaticamente convincente e passível de uma nova compreensão psicológica, "Macbeth: ambição e guerra" tem a seu favor, também, a certeira escalação de seus dois atores centrais. Sempre arrebatadores, Michael Fassbender e Marion Cottilard - que voltariam a trabalhar com o diretor na adaptação do videogame "Assassin's Creed" - agigantam o filme de Wurzel e dignificam uma das maiores obras teatrais da história.

Violenta, impiedosa e cruel, a trama de "Macbeth" não poupa sangue e apresenta seus protagonistas como um casal absolutamente ganancioso e frio. O roteiro do filme de Wurzel dá uma amenizada em suas características principais, mas o faz de maneira orgânica e coerente com a visão proposta pelo cineasta: o Macbeth de Michael Fassbender sofre de um grave transtorno pós-traumático, oriundo de suas batalhas para defender o trono da Escócia e garantir o reinado de Duncan (David Thewlis), seu parente distante; e sua esposa, vivida por Marion Cottilard, é atormentada pela perda precoce de um filho, um fato que, se não a absolve de todos os pecados que virá a cometer, ao menos oferece ao espectador (e à atriz) uma camada a mais de complexidade e humanidade. Substituindo Natalie Portman - a escolha original para o papel -, Cottilard pode parecer, por sua nacionalidade, uma opção estranha para uma personagem tão vinculada a intérpretes britânicas, mas basta uma cena para que o público deixe de lado qualquer reserva e se deixe envolver pela sedução de uma das mais perversas criações dramáticas do teatro universal: um misto de beleza, inteligência e calculismo, Lady Macbeth encontra em Cottilard uma personificação exemplar, que justifica toda e qualquer ascendência sobre o marido ambicioso.


E se Marion Cottilard encarna com perfeição a infame esposa do protagonista, Michael Fassbender não faz por menos na pele de Macbeth. Dedicado e intenso, Fassbender entrega-se de maneira avassaladora ao filme - adaptação de sua preferida dentre as peças de Shakespeare. Segundo o diretor, o ator alemão leu o roteiro nada menos que 200 vezes antes que as filmagens sequer começassem - e o resultado de tanto empenho é perceptível em cada cena: transmitindo sem erro todas as nuances de seu personagem (ambição, medo, paranoia, coragem, loucura), Fassbender não apenas entrega uma atuação impecável, mas também a coloca instantaneamente no rol das maiores interpretações de sua carreira repleta de grandes desempenhos, e na cobiçada companhia de nomes como Laurence Olivier, Orson Welles, Ian McKellen e Kenneth Branagh - atores internacionalmente reconhecidos como intérpretes shakespereanos. A intensidade de Fassbender, assim como sua figura imponente e carismática, engole cada cena do filme de Kurzel, mesmo quando ao lado de colegas também bastante talentosos - desde o veterano David Thewlis como o Rei Duncan até o jovem Jack Reynor, que, vindo do cinema independente, interpreta com segurança o príncipe Malcolm. Mesmo que suas participações sejam pequenas, servem como apoio ao trabalho irretocável do protagonista.

E se não bastasse as atuações irrepreensíveis de seu elenco, "Macbeth: ambição e guerra" consegue se destacar também por seu visual. A bela fotografia de Adam Arkapaw é a moldura perfeita para a violenta trama que se desenrola diante dos olhos do espectador, ilustrando com imagens o estado mental de seus personagens. Nem mesmo as pequenas mudanças em relação à peça (a criação de uma quarta feiticeira, por exemplo) são capazes de estragar o espetáculo, especialmente porque o roteiro segue a sangrenta história ao pé da letra. Para quem ainda não conhece, ela acompanha a trajetória de Macbeth, um general que, depois de receber, através de feiticeiras, a notícia de que se tornará o rei da Escócia, se une à esposa para apressar tal destino, eliminando todas as pessoas que poderiam ser um empecilho para tal - sejam elas homens, mulheres ou crianças. A partir daí, sua ambição desmedida o empurra para a paranoia, a loucura e ainda mais violência - tudo tratado com seriedade e delicadeza pela direção de Wurzel, que se mostra plenamente digno de comandar uma das mais importantes sagas do teatro universal. Para os fãs de Shakespeare é um programa indispensável!

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

QUEREM ME ENLOUQUECER

QUEREM ME ENLOUQUECER (Nuts, 1987, Warner Bros, 116min) Direção: Martin Ritt. Roteiro: Tom Topor, Darryl Ponicsan, Alvin Sargent, peça teatral de Tom Topor. Fotografia: Andrzej Barkowiak. Montagem: Sidney Levin. Música: Barbra Streisand. Figurino: Joe Tompkins. Direção de arte/cenários: Joel Schiller/Anne McCulley. Produção executiva: Cis Corman, Teri Schwartz. Produção: Barbra Streisand. Elenco: Barbra Streisand, Richard Dreyfuss, Maureen Stapleton, Karl Malden, Eli Wallach, Leslie Nielsen, James Whitmore, Robert Webber. Estreia: 11/12/87

Quando "Querem me enlouquecer" estreou nos EUA, no final de 1987, já fazia quatro anos que o público não via Barbra Streisand nos cinemas. Em seu último filme, "Yentl" (83), ela havia assumido as múltiplas funções de diretora, roteirista, produtora, atriz e compositora das canções da trilha sonora, e sua ausência das telas era sentida pelos fãs e pela crítica, à espera de seu novo trabalho. Para surpresa de muitos, no entanto, a estrela multimídia retornou com menos ambição e em registro completamente diferente. Adaptado de uma peça de teatro de Tom Topor lançada em 1980 em Nova York, "Querem me enlouquecer" é um drama de tribunal que ofereceu à atriz uma chance de mostrar que nem só de comédias e musicais era feita sua carreira: com um pagamento recorde (à época) de cinco milhões de dólares, Streisand novamente acumulou cargos (atuou, produziu, compõs a trilha sonora e, dizem, colaborou no roteiro), mas deixou a direção a cargo de Martin Ritt e entregou-se de corpo e alma à sua personagem, dividindo a cena com um elenco de vencedores do Oscar que valorizam cada cena da produção.

O primeiro é Richard Dreyfuss - vencedor da estatueta por "A garota do adeus" (77). Primeira escolha para o papel do advogado Aaron Levinsky, Dreyfuss recusou o papel, cobiçado por nomes como Alan Arkin, John Malkovich e Sean Penn (!!) e obrigou a Warner a uma busca árdua para substituí-lo. Depois que Dustin Hoffman saiu definitivamente do projeto (devido a questões salariais e as famosas "diferenças criativas", nomes fortes foram cotados para fazer frente a Streisand. De Marlon Brando a Richard Gere - passando por Paul Newman, Al Pacino, Kevin Kline, Robert De Niro, Robert Duvall e Jeff Bridges -, parecia que qualquer ator com o mínimo de visibilidade estava na lista dos produtores. Quando finalmente Dreyfuss capitulou e assinou contrato, o filme não apenas teve um problema sério resolvido (a escalação de seu protagonista masculino), mas também ganhou em prestígio e popularidade - no mesmo ano, o ator era o principal nome da comédia policial "Tocaia", grande sucesso de bilheteria nos EUA. Dando continuidade a seu cuidado na escalação do elenco, os produtores ainda contaram com a presença de Maureen Stapleton (Oscar de atriz coadjuvante por "Reds", de 1981) e Karl Malden (vencedor por "Sindicato de ladrões", de 1954, também na categoria de coadjuvante). Malden, na pele do padrasto da personagem principal, ficou com um papel oferecido a veteranos como Kirk Douglas, Gregory Peck, Burt Lancaster e Robert Mitchum - e saiu-se muito bem em seu delicado papel, responsável pela desistência da Universal Pictures em produzir o filme.


Diante de alguns elementos polêmicos da trama de "Querem me enlouquecer", os executivos da Universal abandonaram o projeto, que seria dirigido por Mark Rydell e estrelado por Debra Winger, escolhida pelo diretor em detrimento de Streisand - já interessada em protagonizar o filme. Com a saída de Winger, não demorou para que o próprio Rydell também demonstrasse desinteresse pela produção. Era o que a atriz/cantora/produtora precisava para tomar as rédeas da situação: contratou Martin Ritt para a direção, ficou com o papel principal e encarou a controvérsia que fatalmente iria ser suscitada pelo filme. O resultado, se não foi um sucesso estrondoso de bilheteria, ao menos conquistou parte da crítica e chegou a ser indicado a três Golden Globes: melhor filme, ator e atriz. Dessa vez a Academia não se deixou encantar pelos dotes artísticos de Barbra, mas o espectador que passar por cima desse pequeno detalhe tem tudo para se deixar envolver com um drama de tribunal da melhor qualidade, com um texto inteligente, direção segura e interpretações inspiradíssimas - e que apresenta Leslie Nielsen em seu último papel dramático no cinema, antes de encarar de vez a persona mais popular de sua carreira, na série de filmes "Corra que a polícia vem aí".

A protagonista do filme é Claudia Draper, uma garota de programa de luxo que é presa logo depois de matar um cliente. Ela alega legítima defesa, mas sua família, para evitar um escândalo maior, decidem que declará-la mentalmente incapaz será mais eficaz. Revoltada com a decisão tomada sem seu consentimento, Claudia conta com a ajuda do defensor público Aron Levinsky (Richard Dreyfuss) garantir seu direito a um julgamento justo e imparcial - o que pode trazer à tona um passado repleto de traumas e segredos inconvenientes. Em sua luta, Levinsky bate de frente com médicos e promotores, além de brigar também (e principalmente) com a mãe e o padrasto de sua cliente, preocupados em ver seus nomes nas páginas policiais. O roteiro conduz com relativo equilíbrio a denúncia social e o suspense, oferecendo momentos de brilho para todos os seus ótimos atores, mas Martin Ritt peca em ser excessivamente convencional em sua narrativa e não dar a seu poderoso clímax a força que poderia dar. Apesar disso, "Querem me enlouquecer" é um drama de tribunal realizado com a seriedade e o talento apreciados pelos fãs do gênero, que não terão do que reclamar quando acabar a sessão - que mais uma vez prova a extensão do talento de sua atriz central.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

MAMÃEZINHA QUERIDA

MAMÃEZINHA QUERIDA (Mommie dearest, 1981, Paramount Pictures, 129min) Direção: Frank Perry. Roteiro: Frank Yablans, Frank Perry, Tracy Hotchner, Robert Getchell, livro de Christina Craword. Fotografia: Paul Lohmann. Montagem: Peter E. Berger. Música: Henry Mancini. Figurino: Irene Sharaff. Direção de arte/cenários: Bill Malley/Richard C. Goddard. Produção executiva: David Koontz, Terence O'Neill. Produção: Frank Yablans. Elenco: Faye Dunaway, Diana Scarwid, Steve Forrest, Howard da Silva, Mara Hobel. Estreia: 16/9/81

Em 1978, a publicação de "Mamãezinha querida" nos EUA causou comoção geral e polêmicas infindáveis. Escrito por Christina, filha adotiva da atriz Joan Crawford, o livro mostrava um lado cruel e violento de uma das maiores estrelas da era de ouro de Hollywood, falecida então há apenas quatro anos. Ao contar em detalhes os tormentos físicos e psicológicos pelos quais passou durante sua infância e sua adolescência com uma das mulheres mais conhecidas do mundo nas décadas de 40 e 50, Christina tornou-se autora de um enorme best-seller internacional, mas ao mesmo tempo, arriscou-se a - como realmente aconteceu - ser taxada de mentirosa e oportunista, especialmente por ter sido deixada de fora do testamento de sua mãe. A controvérsia, ao contrário de prejudicar o sucesso do livro, apenas jogou ainda mais lenha na fogueira - e não demorou para que os produtores de cinema vissem no explosivo material a chance de um grande êxito comercial (e possíveis estatuetas douradas). No final das contas, as bilheterias não foram exatamente milionárias - apesar de quintuplicar o orçamento, sua renda não chegou nem aos 20 milhões de dólares no mercado doméstico - e as únicas estatuetas que levou não foram nem um pouco lisonjeiras.

Sofrendo de críticas impiedosas desde sua estreia nos cinemas, "Mamãezinha querida" logo tornou-se uma dor de cabeça inesperada para a Paramount - até que o limão se transformou em limonada: percebendo que boa parte do público repetia a sessão do filme e frequentava as salas de exibição como uma espécie de happening, inclusive repetindo parte de seus diálogos, os executivos tomaram uma decisão arriscada. Para fúria do diretor estreante Frank Perry e de sua atriz principal, Faye Dunaway - o marketing da produção mudou radicalmente, enfatizando o tom exagerado do roteiro e das interpretações. Para quem esperava no mínimo uma indicação ao Oscar, não deve ter sido fácil para Dunaway - que divide com Crawford o gênio bastante forte - ser eleita a pior atriz do ano no famigerado Framboesa de Ouro. Aliás, é importante salientar que o filme simplesmente provocou um arrastão: além de Dunaway como pior atriz, "Mamãezinha querida" ainda saiu "vitorioso" nas categorias de pior filme, pior ator coadjuvante (Steve Forrest), pior atriz coadjuvante (Diana Scarwid) e pior roteiro - sem falar que foi eleito o pior filme da década, em 1990, e pior drama dos 25 anos do prêmio, em 2005. Mas será que, apesar de tantas críticas, o filme de Perry é realmente tão ruim quanto reza a lenda?





É impossível negar que existe, por todo o filme, uma atmosfera camp, artificial e pouco naturalista. O enfoque do primeiro roteiro - que seria dirigido por Franco Zefirelli e teria Anne Bancroft no papel principal mas acabou sendo substituído posteriormente - ainda conseguia fugir do maniqueísmo sensacionalista (e Crawford não seria retratada com tanta fúria), mas a produção estrelada por Dunaway usa e abusa de sua música dramática (composta por Henry Mancini), dos closes que transformam o rosto de atriz em assustadoras caretas e de uma gratuidade que chega a ser, em alguns momentos, quase risível. Não ajuda que o elenco secundário seja péssimo (em especial Diana Scarwid como Christina adolescente) e a direção de arte capriche em reconstruir os frequentemente cafonas cenários da época, que colaboram com o tom excessivo do texto e da direção. Sempre um tom acima do normal, Dunaway (uma excelente atriz, mas infelizmente dirigida sem a força necessária) mal consegue transmitir a ideia de que, por trás da monstruosa mãe, existe uma pessoa com sentimentos reais e (logicamente) sérios transtornos psicológicos. Esse erro crucial - a falha em obter qualquer simpatia da plateia, por mais complicado que isso fosse, levando-se em conta a trama - é o que desvia o filme de suas possibilidades mais sérias e o conduz a uma comédia involuntária.


Rejeitado para sempre por Dunaway - que se recusa terminantemente a falar sobre o filme que ela acreditava poder lhe render um segundo Oscar -, "Mamãezinha querida" é um festival de atrocidades. Na pele de Joan Crawford, a bela atriz de "Chinatown" (74) e "Rede de intrigas" (76) simplesmente transforma a vida de sua filha em um inferno na Terra (o roteiro ignora que além de Christina e Christopher, mostrados no filme, a estrela tinha ainda outros dois filhos): surras, gritos, ataques histéricos em meio à madrugada, castigos desproporcionais e até uma inesperada e patética rivalidade profissional estão na lista de crueldades que Christina descreveu em seu livro - em parte desmentido por pessoas que conviveram com a família durante os anos em que a história é contada. Nas mãos de um diretor mais experiente e menos afeito ao sucesso fácil, a adaptação poderia ter sido um filme sério, capaz de desnudar os bastidores do glamour de Hollywood. Como foi feito, acabou por tornar-se motivo de piada por parte da crítica e foi salvo pelo status de cult movie, que o mantém vivo até hoje como um exemplo de absoluto exagero dramático. Serve como curiosidade, mas artisticamente é bem sofrível...

terça-feira, 8 de agosto de 2017

LADY MACBETH

LADY MACBETH (Lady Macbeth, 2016, BBC Films, 89min) Direção: William Oldroyd. Roteiro: Alice Birch, romance de Nikolai Leskov. Fotografia: Ari Wegner. Montagem: Nick Emerson. Música: Dan Jones. Figurino: Holly Waddington. Direção de arte/cenários: Jacqueline Abrahms/Thalia Ecclestone. Produção executiva: Lizzie Francke, Christopher Granier-Deferre, Steve Jenkins, Christopher Moll, Jim Reeve. Produção: Fodhla Cronin O'Reilly. Elenco: Florence Pugh, Cosmo Jarvis, Paul Hinton, Naomi Ackie, Christophe Fairbanks. Estreia: 10/9/16 (Festival de Toronto)

Antes de mais nada, é preciso deixar claro que, apesar do título, o filme "Lady Macbeth", dirigido pelo britânico William Oldroyd, não é uma adaptação da famosa tragédia de William Shakespeare, mas sim de uma novela escrita pelo russo Nikolai Leskov e publicada em 1865. Apenas inspirada na personagem clássica do teatro, a trama de Leskov - chamada "Lady Macbeth do Distrito de Mtsensk" - é uma crítica mordaz à hipocrisia e ao papel submisso da mulher na Europa do século XIX e, já filmada uma vez em 1962 pelo cineasta polonês Andrzej Wajda, encontrou em Florence Pugh a protagonista ideal. Com apenas 20 anos de idade na ocasião do lançamento do filme, Pugh está simplesmente avassaladora no papel principal, uma mulher à frente de seu tempo, capaz de manipular os homens a seu redor para praticar os mais cruéis atos de violência em nome de um sentimento que apenas ela é capaz de compreender completamente. Essa semelhança com a personagem de Shakespeare - que também servia como incentivo e má influência ao marido - é o que transforma a protagonista em uma das mais complexas e fascinantes, mesmo que ela nem precise falar muito para provocar tempestades à sua volta.

O roteiro de Alice Birch é econômico no uso de diálogos, assim como a trilha sonora de Dan Jones, sutil mas pontual, como um comentário discreto a respeito das imagens que se desenrolam na tela - belíssimas paisagens inglesas captadas pela câmera de Ari Wegner e que marcam a passagem de tempo e o estado de espírito de seus personagens. Com um elenco de rostos desconhecidos do grande público a seu favor, o diretor conduz o espectador a uma trama de paixão, adultério, mentiras e intrigas que, além de tudo, discute a situação feminina na sociedade da época: longe da submissão que se esperava de uma mulher na Inglaterra do século XIX (cenário do filme), a protagonista, Katherine, não aceita submeter seu futuro e sua vida a decisões de homens que considera inferiores intelectual e emocionalmente. Nem sempre suas atitudes são exatamente corretas (quase nunca, pode-se dizer), mas não deixa de ser empolgante ver uma mulher forte e dominadora sendo responsável pelos rumos da própria vida (e das alheias, por consequência). O mais surpreendente, no caso, é que seja a aparentemente frágil Florence Pugh o corpo e a alma por trás de todas as desgraças da trama.


Katherine é uma jovem de 17 anos vendida por seu pai para um casamento de puro interesse na Inglaterra rural dos anos 1860. Seu marido, Alexander (Paul Hilton), é muito mais velho que ela, e seu sogro, Boris (Christopher Fairbank), é um homem agressivo e frio, que a trata como propriedade. Além disso, Katherine nota que não há nenhum interesse de Alexander em consumar o casamento, o que a deixa ainda mais frustrada e solitária. Uma viagem dos dois homens da casa acaba por permitir à recém-casada a possibilidade de explorar o mundo fora das paredes da fazenda - e é assim que ela acaba tendo a oportunidade de conhecer Sebastian (Cosmo Jarvis), um dos novos empregados do marido. Imediatamente surge uma atração física incontrolável entre os dois - que não demoram em se envolver em um tórrido caso de amor. Seu romance é percebido por Anna (Naomi Ackie), sua aia, e chega aos ouvidos de seu sogro. Começa, então, uma violenta história de assassinatos, que não poupa ninguém que atravessa o caminho dos amantes - sempre orientados pela mente calculista de Katherine.

Revelar os desdobramentos da trama seria privar o espectador de experimentar uma viagem imprevisível e chocante à mente de uma psicopata atípica - que acredita cometer atrocidades em nome de um amor avassalador. Florence Pugh se entrega com paixão total à sua personagem - que gradualmente vai se transformando de adolescente meiga em mulher fria e à beira da vulgaridade. Suas cenas com Cosmo Jarvis são quentes e filmadas com extremo bom gosto, mesmo quando sua relação não parece exatamente romântica e sim puramente carnal. Polêmicas à parte - o primeiro encontro sexual entre os protagonistas pode incomodar aos politicamente corretos -, o filme de Oldroyd é de uma inteligência rara, por permitir que seus personagens ajam livres de qualquer ética e construam um suspense que vai se avolumando até o desfecho poderoso e melancólico. Uma pequena obra-prima que merece ser descoberta!