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sexta-feira

MUDANÇA DE HÁBITO

 


MUDANÇA DE HÁBITO (Sister act, 1992, Touchstone Pictures, 100min) Direção: Emile Ardolino. Roteiro: Paul Rudnick (como Joseph Howard). Fotografia: Adam Greenberg. Montagem: Richard Halsey. Música: Marc Shaiman. Figurino: Molly Maginnis. Direção de arte/cenários: Jackson De Govia/Thomas L. Roysden. Produção executiva: Scott Rudin. Produção: Teri Schwartz. Elenco: Whoopi Goldberg, Maggie Smith, Harvey Keitel, Bill Nunn, Kathy Najimy. Estreia: 29/5/92

Algumas comédias, por razões diversas, conseguem a façanha de dar certo a despeito de serem construídas sobre a frágil base de uma piada única. "Mudança de hábito" é um desses milagres. Lançado sem grandes expectativas no outono americano de 1992, o filme produzido pela Touchstone Pictures tornou-se um dos maiores sucessos de bilheteria de um ano  repleto de cartas marcadas, como "Batman: o retorno" e "Máquina mortífera 3". A explicação possível para tamanho êxito? O carisma exuberante de Whoopi Golberg: fresquinha do Oscar de coadjuvante por "Ghost: o outro lado da vida" (1990), a atriz revelada por Steven Spielberg em "A cor púrpura" (1985) demonstrou, ao exibir seus dons cômicos e musicais, poder suficiente para protagonizar produções comerciais para toda a família. É impossível não se deixar cativar por Goldberg, capaz de chamar os holofotes para si mesmo ao lado de atores excepcionais como Maggie Smith e Harvey Keitel.

Um projeto que remete a 1987 - e que sofreu um processo por plágio, encerrado após a recusa de um acordo com os requerentes -, "Mudança de hábito" seria um veículo para o estrelato de Bette Midler, então o grande nome feminino do estúdio. Sua desistência acabou por acarretar diversas mudanças no roteiro conforme o tempo passava - e nomes importantes, como Nancy Meyers e Carrie Fisher estiveram envolvidas nas mudanças que acabaram, segundo o roteirista original, Paul Rudnick, desfigurando o material original a ponto de fazê-lo assinar os créditos com um pseudônimo. E se a presença de Goldberg ajudou no sucesso comercial do filme, seu relacionamento com o diretor Emile Ardolino - mais conhecido por "Dirty dancing: ritmo quente" (1987) - não foi das melhores, principalmente devido às interferências da atriz no roteiro. Tais dificuldades, no entanto, acabaram não transparecendo no resultado final: leve e divertido, "Mudança de hábito" conquista desde as primeiras cenas, e se não deixa de ser um tanto previsível, ao menos não tenta parecer  mais inventivo do que realmente é.

 

A trama gira em torno de Deloris Van Cartier (vivida com graça e verve por Goldberg), que vive como cantora em Reno, Nevada, onde tenta convencer o namorado, Vince LaRocca (Harvey Keitel), a abandonar a esposa para assumir seu relacionamento. Em uma noite como tantas outras, porém, Deloris dá de cara com LaRocca assassinando um empregado, o que a faz cair na real de que o amante é um gângster perigoso e com sérios problemas na justiça. Com medo de também ser morta, ela procura a polícia e, a contragosto, é convencida a esconder-se até que possa prestar depoimento e colocar o criminoso na cadeia. Mas se já não estava feliz com o fato de ter que sumir do mapa, a pouco confiável Deloris entra em pânico quando descobre que irá ficar por meses em um convento. Sob as ordens da pouco amistosa Madre Superiora (Maggie Smith), ela assume o nome de Irmã Mary Clarence e, a princípio revoltada com as rígidas regras do local, aos poucos descobre uma missão quase impossível: transformar o coral das freiras - desafinado, apático e desacreditado - em uma nova potência. Mas é claro que LaRocca não está disposto a desistir de encontrar a testemunha de seu crime...

E é só isso. A piada única - o confronto entre a dionisíaca Deloris e a paz quase celestial do convento - se estende por 100 minutos, sem aprofundamento de nenhum tipo. Logicamente não se pode esperar tratados éticos/religiosos em uma comédia feita para se assistir comendo pipoca, mas faz falta um embate maior entre a protagonista e a Madre Superiora (Maggie Smith sempre esplêndida, mas dessa vez subaproveitada) e até um tempo maior no desenvolvimento de sua amizade com as outras freiras - é decepcionante, por exemplo, que a ótima Kathy Najimy seja desperdiçada. É falta de ousadia, inclusive, ter uma protagonista envolvida em casas noturnas, crimes, bebida e drogas sem que tal assunto seja sequer mencionado de forma mais adulta - mais uma vez a classificação etária e o puritanismo hollywoodiano (em especial da Touchstone) sepultaram o que poderia render ótimos momentos de humor. É de se imaginar o que faria o espanhol Pedro Almodóvar, cotado para dirigir o filme depois do sucesso internacional de seu "Mulheres à beira de um ataque de nervos" (1988).

E para encerrar, uma curiosidade das mais inusitadas: enquanto começava a escrever o primeiro tratamento de seu roteiro, Paul Rudnick recebeu, de Bette Midler, o conselho de visitar um convento verdadeiro, para conhecer melhor sua rotina. Ideia aceita, Rudnick foi até um convento em Connecticut e descobriu que sua Madre Superiora, Dolores Hart, havia trabalhado, na juventude, em Hollywood: atriz, cantora e dançarina, fez parte do elenco de algumas produções, como "Balada sangrenta" (1958) e é, ainda hoje, membro da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, com direito a voto no Oscar.

O VIOLINISTA QUE VEIO DO MAR

 


O VIOLINISTA QUE VEIO DO MAR ( Ladies in Lavender, 2004, UK Film Council/Baker Street/Future Films, 104min) Direção: Charles Dance. Roteiro: Charles Dance, conto de William J. Locke. Fotografia: Peter Biziou. Montagem: Michael Parker. Música: Nigel Hess. Figurino: Barbara Kidd. Direção de arte/cenários: Caroline Amies/David Hindle. Produção executiva: Bill Allan, Charles Dance, Emma Hayter, Robert Jones. Produção: Elizabeth Karlsen, Nik Powell. Elenco: Judi Dench, Maggie Smith, Daniel Bruhl, Natascha McElhone, Freddie Jones, Toby Jones, Miriam Margoyles. Estreia: 14/6/2004 (Festival de Taormina)

Conhecido por seu trabalho como intérprete em produções de prestígio como "Assassinato em Gosford Park" (2001) e "O jogo da imitação" (2014) e séries premiadas como "Game of thrones" e "The crown", o ator britânico Charles Dance tem, em seu currículo, uma interessantíssima incursão como diretor. Lançado discretamente em 2004, "O violinista que veio do mar" já seria imperdível por ter seu elenco liderado pelas espetaculares Judi Dench e Maggie Smith, mas, além disso - e de ser o primeiro trabalho em língua inglesa do alemão Daniel Bruhl -, a adaptação do conto de William J. Locke é um filme acima da média, com um ritmo delicado que ecoa as belas paisagens da costa inglesa e brinda o espectador com personagens fascinantes e uma trama que surpreende pelos desdobramentos inusitados (mas nunca inverossímeis ou tirados da manga). Valorizado pelos desempenhos exemplares de Dench e Smith - o que não chega a ser uma surpresa -, o filme de Dance é um deleite para os fãs de histórias contadas com sutileza e sobriedade.

A trama gira em torno de Ursula (Judi Dench) e Janet (Maggie Smith), duas irmãs viúvas que moram juntas em um chalé na costa da Cornualha, poucos anos antes da II Guerra Mundial. Sua rotina pacata e sem grandes acontecimentos é abalada depois de uma violenta tormenta, quando um jovem desacordado é encontrado na praia. A princípio temerosas de colocar um desconhecido dentro de casa, logo elas resolvem cuidar do rapaz, que não fala sua língua e cuja origem é uma incógnita. Aos poucos sua comunicação vai ficando menos complicada: ao aprender noções rudimentares de inglês, o novo hóspede se identifica como Andrea, um polonês que, a caminho dos EUA para tentar a sorte como violonista, sobreviveu a um naufrágio. Enquanto se recupera dos ferimentos, Andrea, sem perceber, despertar sentimentos há muito enterrados nas duas solitárias idosas - que passam a temer sua partida especialmente quando ele inicia uma amizade com a extrovertida Olga (Natasha McElhone), uma bela russa que mora nas proximidades do chalé.

 

Fazendo pequenas alterações na história original - como a transferência para os anos pré-I Guerra Mundial e o desfecho da relação entre os protagonistas -, o roteiro do também diretor se apoia em pequenos momentos, emoções discretas e diálogos curtos (mas repletos de subtextos). Acostumadas a atuações minimalistas e sutis, Judi Dench e Maggie Smith voltam a encantar com desempenhos comoventes, pontuadas pelo bom trabalho do alemão Daniel Bruhl em seu primeiro filme falado em inglês: a interação entre os três personagens principais são o que há de melhor na obra, em uma dinâmica pontuada de mistério, sedução e até um pouco de suspense. Deixando sempre no ar uma série de possibilidades que impedem que o espectador adivinhe os próximos acontecimentos, o filme de Dance imprime uma sensação deliciosa de uma história contada em frente à lareira, com personagens humanos e bem escritos diante de situações que caminham entre o romântico e trágico. Só não é ainda melhor por sua falha em explorar a contento a relação entre o misterioso violinista e Olga - um relacionamento que nunca deixa exatamente claro a que veio (a não ser precipitar o ato final da trama).

Em seu primeiro (e até agora único) trabalho como diretor, Charles Dance mostra-se atento às sutilezas, tanto de sua trama quanto de suas estupendas atrizes. Talvez pelo fato de ser também um intérprete, Dance valoriza a construção paulatina de climas e relações entre seus personagens, enfatizando-as mais do que à própria trama, que serve, na verdade, como uma forma de retrato da solidão e suas vicissitudes. Narrado em um ritmo delicado que não deixa espaço para cortes bruscos e catarses exageradas, "O violinista que veio do mar" é um oásis de paz e sensibilidade - e mais um exemplo do talento dos colaboradores envolvidos.

segunda-feira

ASSASSINATO NUM DIA DE SOL


ASSASSINATO NUM DIA DE SOL (Evil under the sun, 1982, Universal Pictures, 117min) Direão: Guy Hamilton. Roteiro: Anthony Shaffer, romance de Agatha Christie. Fotografia: Christopher Challis. Montagem: Richard Marden. Figurino: Anthony Powell. Direção de arte/cenários: Elliot Scott/Peter Howitt. Produção: John Brabourne, Richard Goodwin. Elenco: Peter Ustinov, Colin Blakely, Jane Birkin, Nicholas Clay, Maggie Smith, Roddy McDowall, James Mason, Sylvia Miles, Diana Rigg, Denis Quilley, Emily Hone. Estreia: 25/01/82 (Festival de Manilla)

Encorajados pelo sucesso de "Assassinato no Expresso Oriente" (1974) - que deu o Oscar de atriz coadjuvante a Ingrid Bergman e ainda concorreu a outras cinco estatuetas da Academia -, os produtores John Brabourne e Richard Goodwin descobriram um filão dos mais rentáveis: adaptações caprichadas de obras de Agatha Christie, a rainha do romance policial. Foi assim que surgiram "Morte sobre o Nilo" (1978), "A maldição do espelho" (1980) e "Assassinato num dia de sol", lançado em 1982. Ao contrário de seus antecessores, porém, a segunda personificação de Peter Ustinov como o célebre detetive Hercule Poirot (de um total de seis) não atingiu as expectativas: não apenas fracassou em termos comerciais, com uma bilheteria bem aquém do esperado, como não repercutiu como o esperado junto à crítica e às cerimônias de premiação. Talvez por ser a transposição de um livro não tão famoso da autora, talvez por ser a menos ambiciosa das adaptações da série - sem nenhum nome estelar no elenco -, o filme sofre também de um ritmo pouco envolvente e personagens pouco carismáticos, mas ainda assim tem o charme inegável das tramas da escritora inglesa.

Com algumas pequenas alterações que não chegam a desfigurar a obra original - como a mudança de cenário (da Inglaterra para uma ilha banhada pelo Mar Adriático), a fusão de dois personagens em um e a mudança de gênero de outro - e a direção elegante de Guy Hamilton (também responsável por "A maldição do espelho"), "Assassinato num dia de sol" apresenta, em sua concepção, todos as marcantes características de Agatha Christie, que vão desde locações exóticas e personagens pouco confiáveis até uma resolução surpreendente - ainda que rocambolesca em excesso. A figura de Hercule Poirot, sua criação mais notável e popularmente conhecida, encontrou em Peter Ustinov a encarnação perfeita - mais até do que aquela forjada por Albert Finney em "Assassinato no Expresso Oriente" e anos-luz à frente da caricatura engendrada por Kenneth Branagh em suas duas (até agora) incursões no universo do detetive - e os suspeitos do crime imaginado pela romancista formam uma deliciosa seleção de milionários fúteis, serviçais abelhudos e uma vítima fácil de detestar: elementos que constroem uma estrutura sólida, amplamente celebrada pelos fãs do gênero e fielmente reconstituída por Hamilton e sua equipe.


 

A trama urdida por Christie e adaptada por Anthony Shaffer - também autor do roteiro de "Morte sobre o Nilo" - começa quando o veterano detetive Hercule Poirot é contratado, por uma seguradora, para investigar o caso de um diamante falsificado que ele descobre estar nas mãos do milionário Horace Blatt (Colin Blakely). Blatt está em lua-de-mel com Arlena Marshall (Diana Rigg), uma atriz aposentada, em uma idílica ilha no litoral do Mar Adriático, e é para lá que Poirot embarca, às custas de seus empregadores. O hotel onde Blatt e Marshall estão é de propriedade de Daphne Castle (Maggie Smith), que no passado abandonou a carreira artística e ainda tenta superar a rivalidade com a nova hóspede - que tampouco é benquista pelos demais visitantes do local. Quando Marshall é encontrada morta na praia, a Poirot caberá elucidar o crime: além do viúvo e da própria Daphne, também são suspeitos um casal de empresários do meio teatral - Odel e Myra Gardener (James Mason e Sylvia Miles) -, o autor de uma biografia não autorizada sobre a vítima - Rex Brewster (Roddy McDowall) - e um jovem casal em crise devido ao romance extraconjugal do marido - Patrick e Christine Redfern (Nicholas Clay e Jane Birkin).

"Assassinato num dia de sol" sofre principalmente de um ritmo claudicante, que, ao contrário das adaptações anteriores da dupla de produtores, falha ao criar a atmosfera de suspense necessária a um gênero que depende basicamente dela. Não ajuda também que as pistas que levam à resolução do crime sejam jogadas de forma tão morna - da mesma forma que o clímax, que nem de longe reflete os melhores momentos da autora do romance original. A própria solução do assassinato soa um tanto difícil de engolir, tamanho o excesso de reviravoltas e detalhes, e o elenco, apesar de talentoso, é mal aproveitado por Hamilton, que parece mais interessado em explorar as belas paisagens do que desenvolver os personagens - e, por consequência, torná-los importantes para o espectador. Peter Ustinov brilha como Hercule Poirot, assim como Maggie Smith como a dona do hotel (personagem que é uma amálgama de dois personagens do livro) e Jane Birkin como a sofrida e frágil Christine Redfern, uma mulher vitimizada pelos maus-tratos do marido adúltero. Porém, falta mais consistência à trama (ou à maneira com que foi traduzida para as telas) e nem tudo sai com a excelência esperada em uma produção de Bradbourne e Goodwin. Mesmo assim, é um entretenimento luxuoso, muito bem embalado e muito mais eficiente do que as modernizações vergonhosas realizadas por Kenneth Branagh e seu egocentrismo.

quinta-feira

HARRY POTTER E O PRISIONEIRO DE AZKABAN


HARRY POTTER E O PRISIONEIRO DE AZKABAN (Harry Potter and the prisoner of Azkaban, 2004, Warner Bros, 142min) Direção: Alfonso Cuarón. Roteiro: Steve Kloves, romance de J.K. Rowling. Fotografia: Michael Seresin. Montagem: Steven Weisberg. Música: John Williams. Figurino: Jany Temine. Direção de arte/cenários: Stuart Craig/Stephenie McMillan. Produção executiva: Michael Barnathan, Callum McDougall, Tanya Seghatchian. Produção: Chris Columbus, David Heyman, Mark Radcliffe. Elenco: Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint, Michael Gambon, Maggie Smith, Gary Oldman, Emma Thompson, Julie Walters, Alan Rickman, David Thewliss, Tom Felton, Richard Griffiths, Fiona Shaw, Julie Christie, Robbie Coltrane. Estreia: 23/5/2004

2 indicações ao Oscar: Trilha Sonora Original, Efeitos Visuais

Quando Chris Columbus voltou atrás em sua decisão de comandar todos os filmes da série "Harry Potter" - da qual ele já havia dirigido os dois primeiros - uma nova odisseia de bastidores começou. A Warner, afinal, tinha um investimento dos mais preciosos em mãos (os direitos de todos os sete livros da saga) para entregá-lo a qualquer um. Entre os candidatos a assumir as rédeas do terceiro capítulo da milionária obra da britânica J.K. Rowling, então, surgiram nomes tão díspares quanto M. Night Shyamalan e Marc Forster. O primeiro tinha no currículo o megasucesso "O sexto sentido" (1999), que havia lhe rendido indicações ao Oscar de filme, direção e roteiro; o outro havia sido responsável por "A última ceia" (2001), que deu à Hale Berry a estatueta de melhor atriz. A responsabilidade de estar à frente de um blockbuster dos mais esperados da temporada 2004, porém, não foi tão sedutora assim, e ambos declinaram do convite: Shyamalan para realizar "A vila" (2004), e Forster para assinar "Em busca da Terra do Nunca" (2004). Foi aí que entrou em cena o mexicano Guillermo Del Toro, cujo currículo até então (com filmes como "Mutação", de 1997, "A espinha do diabo", de 2001, e "Blade II: O caçador de vampiros", de 2002) pouco recomendava para uma produção cujo público-alvo era infanto-juvenil. Para surpresa de muitos, Del Toro recusou o convite para penetrar no mundo de Hogwarts, mas não sem antes recomendar um amigo: enquanto preferiu tocar adiante um projeto de estimação - a adaptação de "Hellboy", baseado nas HQs de Mike Mignola -, ele apontou para seu conterrâneo Alfonso Cuarón. Em um primeiro olhar, Cuarón não poderia estar mais distante de Harry Potter, com filmes como o sexy "E sua mãe também" - que havia lhe rendido uma indicação ao Oscar de roteiro original - no portfolio. No entanto, Cuarón também sabia ser sensível e apropriado aos espectadores juvenis, como mostrou em 1995, ao adaptar o clássico "A princesinha", de Frances Hodgson Burnett, com a dose certa de emoção e delicadeza.

Com Cuarón no comando - aprovado por Rowling, fã de seus trabalhos anteriores - e um orçamento de estimados 130 milhões de dólares, "Harry Potter e o prisioneiro de Azkaban" começava a dar os primeiros passos da série em direção à seriedade que os últimos capítulos apresentariam. Com um visual diferente dos dois primeiros filmes - cortesia da bela fotografia de Michael Seresin - e com sequências inteiras filmadas com câmeras em movimento, o terceiro filme da série apresenta também diferenças no figurino (especialmente os protagonistas) e um ritmo que equilibra cenas de ação, suspense e até comédia (como sempre acontece no começo do filme, Potter sofre nas mãos de seus tios e resolve a situação da melhor maneira que pode, com a ajuda de seus dons de bruxo, é claro). O roteiro, novamente adaptado por Steve Kloves, apresenta ao espectador novos elementos da saga, como o misterioso Sirius Black (interpretado com gosto por Gary Oldman), o padrinho do protagonista, que foge da prisão de Azkaban e, segundo a lenda, tem o objetivo de assassinar Harry, uma vez que é um dos mais fiéis seguidores do temido Voldemort (Ralph Fiennes). O que acontece, porém, é que Potter acaba descobrindo que o que sempre foi tido como verdade pode muito bem ser apenas parte dela. Com a ajuda de Hermione (Emma Watson) e Ron (Rupert Grint) - assim como também de alguns professores que conhecem a real história de Black -, o adolescente enfrenta o ano letivo mais perigoso de sua vida, visto até mesmo pelas previsões da professora Trelwaney (Emma Thompson, em papel pequeno que ela tira de letra).


Substituindo o falecido Richard Harris no crucial papel do professor Dumbledore, que foi oferecido também a Ian McKellen, Peter O'Toole e Christopher Lee, mantém em alto nível o elenco coadjuvante da série. Nomes como Maggie Smith, Alan Rickman, Fiona Shaw e Julie Walters continuam servindo de apoio a seus jovens colegas de cena, com generosidade ímpar. Conforme a trajetória de Harry Potter vai ficando cada vez menos infantil e se aproxima de momentos bastante tensos e violentos, a importância do corpo docente de Hogwarts se torna ainda mais importante e presente - e é admirável que a direção de Cuarón seja sensível ao ritmo da trama: o cineasta acelera quando precisa e mantém-se delicada ao examinar a relação de Potter com os personagens a seu lado. Daniel Radcliffe - assim como seus colegas mais próximos - mostra um amadurecimento tanto físico quanto artístico: não é um grande ator, mas é difícil imaginar outro intérprete para o jovem bruxo, um dos personagens mais populares da literatura e do cinema, um perfeito exemplo de entretenimento divertido e realizado com extremo cuidado e talento.

E "Harry Potter e o prisioneiro de Azkaban" é justamente isso: entretenimento de primeira, capaz de agradar aos fãs dos livros e até mesmo àqueles que nunca abriram uma página sequer da saga de Rowling. Apesar de tratar - metaforicamente - com temas como depressão (representada pelos aterrorizantes dementadores), o filme de Cuarón se mantém no limite entre a fantasia e o terror, que ficaria a cada filme mais próximo dos protagonistas. Único filme da saga a não alcançar (por pouco) a marca de 800 milhões de dólares de bilheteria mundial, "Harry Potter e o prisioneiro de Azkaban" concorreu a dois Oscar (trilha sonora original e efeitos visuais) e provou que, a despeito das mudanças na cadeira de diretor, mantém uma coerência interna e uma qualidade à prova das grandes expectativas de seu público. Cuarón, que assumiu não ter lido nenhum dos livros quando convidado para comandar esse terceiro filme - e que levaria o Oscar de direção por "Gravidade" (2013) - mostrou-se uma escolha certeira, que manteve o alto nível da série e emprestou-lhe um prestígio que apenas colaborou para seu sucesso de crítica e público.

domingo

HARRY POTTER E A CÂMARA SECRETA

HARRY POTTER E A CÂMARA SECRETA (Harry Potter and the chamber of secrets, 2002, Warner Bros, 161min) Direção: Chris Columbus. Roteiro: Steve Kloves, romance de J. K. Rowling. Fotografia: Roger Pratt. Montagem: Peter Honess. Música: John Williams. Figurino: Lindy Hemming. Direção de arte/cenários: Stuart Craig/Stephenie McMillan. Produção executiva: Michael Barnathan, David Barron, Chris Columbus, Mark Radcliffe. Produção: David Heyman. Elenco: Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint, Richard Harris, Maggie Smith, Kenneth Branagh, Julie Walters, Alan Rickman, Robbie Coltrane, Jason Isaacs, Tom Felton. Estreia: 03/11/02

Quando "Harry Potter e a câmara secreta" estreou, no final de 2002, até mesmo o público que não acompanhava a saga do jovem bruxo em sua encarnação literária já conhecia seu universo mágico: graças à "Harry Potter e a pedra filosofal", o primeiro capítulo de uma coleção que prometia estender-se até um sétimo volume, o mundo inteiro estava tomado por uma febre que não atingia apenas seu público-alvo (o infantojuvenil), mas que havia se espalhado também entre aqueles adultos sem medo de entregar-se à fantasia. Com uma renda mundial de quase 980 milhões de dólares e elogiado pela maioria dos críticos, o filme de Chris Columbus - diretor também de "Esqueceram de mim" (1990) e "Uma babá quase perfeita" (1993) - estabeleceu as regras do jogo, apresentou seus personagens e confirmou o apelo comercial que há muito tempo as editoras já conheciam (e festejavam). Sem mexer em um time já ganhando, a Warner manteve a mesma equipe do primeiro filme para a realização do segundo e, para a surpresa de ninguém, voltou a cativar plateias ao redor do mundo - e mais uma vez chegou perto de um sucesso quase bilionário, com uma bilheteria de 88 milhões de dólares em seu fim-de-semana de estreia. 

Mais sombrio do que o primeiro filme - em uma transformação gradual da série, que vai ficando menos ingênua conforme a trama vai caminhando e os protagonistas vão de crianças a adolescentes, "Harry Potter e a câmara secreta" é o filme mais longo da série, a despeito do fato de o livro no qual ele é baseado é o segundo mais curto da saga, e começou a ser filmado apenas três dias após a estreia de "Harry Potter e a pedra filosofal". Tal pressa tinha motivo: não apenas o elenco infantil logo começaria a passar pela puberdade (a tragédia de qualquer produtor) como o ator Richard Harris, que vivia um personagem crucial nos filmes, Alvo Dumbledore - um dos professores mais importantes de Hogwarts e peça fundamental na trajetória do protagonista - estava com a saúde debilitada a ponto de ser quase afastado das filmagens; Harris morreu poucas semanas antes do lançamento do filme, e foi substituído, nas produções seguintes, por Michael Gambon. Com o elenco reforçado pela presença de Jason Isaacs e Kenneth Branagh, "Harry Potter e a câmara secreta" consegue uma façanha e tanto: mantém o alto nível de entretenimento do primeiro filme (se é que não o eleva) e agrada em cheio aos fãs dos livros.


"Harry Potter e a câmara secreta" começa com um tom leve, mas não demora a mergulhar aos poucos em uma tensa jornada: ainda na casa de seus tios, Potter é visitado por um atrapalhado elfo doméstico, Dobby (voz de Tony Jones), que não apenas coloca o bruxinho em péssimos lençóis, graças a suas interferências em outros membros da família. Sua aparição, no entanto, tem motivos bastante sinistros: segundo ele, coisas horríveis estão para acontecer em Hogwarts, e Potter deve evitar voltar à escola. É claro que seus avisos de nada adiantam: Potter retorna para mais um ano letivo, assim como seus melhores amigos, Ron e Hermione, e logo de cara percebe que os conselhos que não seguiu estavam mais do que certos. Vozes vindas das paredes, escritos de sangue com mensagens enigmáticas e alunos sendo petrificados sem motivo aparente levam Harry a uma investigação que revela muito mais do que ele esperava e remete à uma misteriosa câmara secreta, cujo histórico é ligado à presença malévola de Voldemort, que controla (não se sabe como) o lendário quarto da escola.

Assim como em "Harry Potter e a pedra filosofal", o segundo filme dirigido por Columbus ainda mostra seus protagonistas aprendendo a lidar com seus novos dons e lutando contra o mal, seja ele na forma de um apavorante guardião da câmara secreta, na pele do maquiavélico Draco Malfoy (Tom Felton) ou na figura pouco amistosa de Voldemort - além das dúbias ações do professor Severo Snape (Alan Rickman). A primeira metade do filme é dedicada a ilustrar os acontecimentos funestos que ameaçam fechar a escola, e sua segunda parte hipnotiza o espectador com revelações surpreendentes e constrói um clímax dos mais interessantes. Kenneth Branagh - substituindo Hugh Grant, que não pode participar do filme por problemas de agenda - é a melhor e mais acertada aquisição neste segundo capítulo, interpretando um falastrão e vaidoso Gilderoy Lockhart, professor que mostra sua real personalidade quando é chamado a desafiar o mal vindo do tétrico cômodo. É ele quem equilibra o tom entre a comédia (especialidade de Ron) e a tragédia (cortesia de Voldemort em si). O elenco juvenil se mostra mais à vontade nas peles dos protagonistas, e os veteranos do grupo (Harris, Maggie Smith, Julie Walters, Alan Rickman) aproveitam cada minuto em cena para provar que, mesmo em um filme direcionado a uma plateia menos madura, são capazes de roubar a cena - coisa que os efeitos visuais, discretos mas eficientíssimos, ajuda a ressaltar. Tão bom quanto o primeiro capítulo da saga, "Harry Potter e a câmara secreta" é, também, o último da série dirigido por Chris Columbus - um cineasta acostumado com o sucesso e com o diálogo com a audiência mais jovem. Columbus deu o pontapé inicial a um universo que se tornaria, a cada filme, mais e mais escuro e surpreendente.

quarta-feira

HARRY POTTER E A PEDRA FILOSOFAL

HARRY POTTER E A PEDRA FILOSOFAL (Harry Potter and the sorcere's stone, 2001, Warner Bros, 152min) Direção: Chris Columbus. Roteiro: Steve Kloves, romance de J. K. Rowling. Fotografia: John Seale. Montagem: Richard Francis-Bruce. Música: John Williams. Figurino: Juddiana Makovsky. Direção de arte/cenários: Stuart Craig/Stephenie McMillan. Produção executiva: Michael Barnathan, Chris Columbus, Duncan Henderson, Mark Radcliffe. Produção: David Heyman. Elenco: Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint, Richard Harris, Maggie Smith, Alan Rickman, Ian Hart, Julie Walters, John Hurt, Robbie Coltrane, Fiona Shaw, Richard Griffiths, Harry Melling. Estreia: 04/11/2001

3 indicações ao Oscar: Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários

Não tinha como dar errado: o primeiro volume de um fenômeno editorial que só crescia a cada livro lançado, um cineasta acostumado a lidar com potenciais blockbusters e todo o capricho que um generoso orçamento de cerca de 125 milhões de dólares pode comprar. Além disso, um marketing poderoso, uma pré-produção que enchia de expectativas os fãs mais ardorosos, e um elenco que reunia jovens iniciantes com veteranos acima de qualquer suspeita. "Harry Potter e a pedra filosofal" não era apenas mais um filme, era um evento de enormes proporções e uma aposta certeira da Warner para bater de frente com outro fenômeno literário que também chegava às telas de cinema: o ambicioso "O Senhor dos Anéis". Mesmo com um público-alvo mais jovem do que aquele dos filmes de Peter Jackson que começavam sua trajetória nas salas de exibição, a comparação entre as duas produções não era completamente equivocada: ambos os filmes davam o pontapé inicial em séries que tanto poderiam passar à história como imensos sucessos ou avassaladores fracassos. Para o bem de todos e felicidade geral dos estúdios, porém, os leitores fiéis - e os neófitos curiosos - correram para os cinemas, e os críticos, normalmente bem avessos à superproduções, aplaudiram de pé e ficaram ansiosos pelo próximo capítulo.

A trajetória de "Harry Potter e a pedra filosofal" para passar das páginas escritas pela britânica J. K. Rowling para os cinemas do mundo inteiro já começou com uma batalha campal para que o estúdio chegasse ao nome mais apropriado para sentar na cadeira de diretor. Rowling sugeriu o nome do excêntrico Terry Gilliam - e provavelmente por seu histórico irregular o cineasta foi dispensado pela Warner. A princípio, o estúdio pensava em transformar os livros em um filme de animação - uma providência que evitaria os problemas que poderiam ter com o elenco infantil, que fatalmente cresceriam durante a produção dos (então) sete livros. Steven Spielberg até demonstrou interesse na primeira fase de negociações, mas acabou recusando o trabalho por, segundo boatos de bastidores, considerá-lo "fácil demais" - o que não deixa de ser verdade, haja visto seu vasto currículo de filmes-evento. A saída de Spielberg do projeto o levou novamente à estaca zero, e sua sugestão para a empreitada, M. Night Shyamalan, tampouco teve sucesso nas negociações. Nomes de vários estilos começaram a pipocar na imprensa especializada como sendo de prováveis diretores do primeiro filme - dos mais sérios (Jonathan Demme, Alan Parker, Peter Weir) aos mais apropriados para desenvolver um universo mais divertido e mais próximo à obra literária (Ivan Reitman, Rob Reiner, Brad Silberling). Quem acabou levando a melhor, no entanto, foi um diretor já acostumado com sucessos de bilheteria infantojuvenis: Chris Columbus, o homem por trás de "Esqueceram de mim" (90) e "Uma babá quase perfeita" (92) se apaixonou pelos livros de Rowling através de sua filha, e insistiu tanto com os executivos da Warner que acabou ganhando o trabalho - não apenas para o primeiro filme, mas também para o segundo.


Mas se encontrar um diretor que agradasse à escritora e respeitasse o desejo do estúdio de uma produção comercialmente viável foi difícil, o pior ainda estava por vir: o elenco. Rowling exigia que os atores escolhidos para o filme fossem britânicos, o que logo de cara excluía alguns fãs do livro que sonhavam em fazer parte do espetáculo, como Robin Williams, Rosie O'Donnell. Rowling em pessoa escolheu Alan Rickman (Severo Snape), Maggie Smith (McGonnagal) e Robbie Coltrane (Hagrid) para papéis fundamentais na trama, e o irlandês Richard Harris (única exceção permitida pela escritora) para viver o sábio Albus Dombledore, mas a grande questão no momento era uma só: quem irá interpretar os fiéis amigos do protagonista e, principalmente, quem emprestaria seu rosto a Harry Potter pela próxima década? Chris Columbus tinha uma ideia bastante clara a esse respeito, e sempre que perguntado sobre o assunto pelos executivos da Warner, mostrava cenas de uma adaptação televisiva de Charles Dickens, "David Copperfield" (1999) e apontava para o jovem Daniel Radcliffe como o intérprete ideal. Foram mais de 5000 testes até que finalmente a diretora de elenco do filme conseguiu o que o diretor mais desejava: convencer os pais do rapaz para que aprovassem sua participação no projeto. Para interpretar seus dois leais companheiros foram escolhidos Rupert Grint (Ronnie Weasley) e Emma Watson (Hermione Granger). No papel do rival de Potter na escola Howgrats de bruxaria, o escolhido foi Tom Felton, que havia feito o teste para viver Harry. E o resto é de conhecimento internacional.

Filmado na Inglaterra e na Escócia entre setembro de 2000 e março de 2001, "Harry Potter e a pedra filosofal" acabou se tornando um capítulo de estreia dos mais empolgantes. Somado ao senso de ritmo e humor de Columbus, o roteiro de Steve Kloves acertou em cheio ao introduzir sua trama e seus personagens de maneira fluida e sem pressa: com 152 minutos de duração, o filme mantém o espectador atento dos primeiros (e cômicos) momentos até seu clímax - um jogo de xadrez sinistro onde o mal começa a mostrar a que veio, fato que irá se aprofundar nos demais filmes (e livros), que vão se tornando gradualmente sombrios. A química entre o elenco de novatos e veteranos é impecável e o visual foi lembrado pela Academia com uma indicação aos Oscar de direção de arte e figurino - a trilha sonora, do onipresente John Williams também foi indicada. Aplaudido pela crítica e pelos fãs mais exigentes, "Harry Potter e a pedra filosofal" arrecadou quase 1 bilhão de dólares pelo mundo - foi a maior bilheteria do ano - e abriu as portas para os demais filmes da série, cada vez menos infantil e mais empolgante. Uma produção infanto-juvenil que ultrapassa sua definição mais óbvia e conquista também a plateia mais velha, o filme de  Chris Columbus é um entretenimento dos mais bem-sucedidos, e se não foi levado tão a sério quanto seu rival direto - "O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel" - ao menos se mantém fresco e agradável mesmo depois de quase vinte anos. Um clássico instantâneo!

terça-feira

CALIFORNIA SUITE



CALIFORNIA SUITE (California Suite, 1978, Columbia Pictures, 103min) Direção: Herbert Ross. Roteiro: Neil Simon. Fotografia: David M. Walsh. Montagem: Michael A. Stevenson. Música: Claude Bolling. Figurino: Patricia Norris. Direção de arte/cenários: Albert Brenner/Marvin March. P: Produção: Ray Stark. Elenco: Jane Fonda, Alan Alda, Maggie Smith, Michael Caine, Walter Matthau, Elaine May, Richard Pryor, Bill Cosby. Estreia: 18/12/78


3 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Maggie Smith), Roteiro Adaptado, Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Maggie Smith)
Vencedor do Golden Globe de Atriz/Comédia ou Musical (Maggie Smith) 

Em abril de 1976, a peça teatral "California Suite", escrita pelo dramaturgo Neil Simon, estreou em Los Angeles: no espetáculo em quatro atos, quatro atores interpretavam diversos personagens que viviam situações dramáticas e cômicas em um hotel da cidade. Um dos autores mais requisitados por Hollywood na década de 70, não demorou para que Simon transferisse seu texto ácido dos palcos para as telas. Com a direção de Herbert Ross - cineasta em alta na época graças às indicações ao Oscar por dois filmes no mesmo ano, "Momento de decisão" e "A garota do adeus", escrito pelo mesmo Neil Simon - e um elenco com nomes populares e de prestígio, a adaptação foi recebida com entusiasmo pela crítica, mas é bastante óbvio que seu resultado final carece da espontaneidade do palco e da criatividade de sua montagem teatral. Com os personagens interpretados por atores variados, o filme não passa de uma agradável sessão da tarde que sofre do mal da maioria dos filmes episódicos: a irregularidade.

A estrutura da peça - quatro histórias separadas tendo em comum apenas o cenário do hotel de luxo - se mantém na adaptação, mas dessa vez as tramas são claramente distintas em tom e elenco. Quem surge primeiro - em um dos melhores episódios - é a atriz britânica Diana Barrie (Maggie Smith, sensacional), que está em Los Angeles para comparecer à entrega do Oscar, para o qual foi indicada por uma comédia que ela mesma despreza. Como intérprete dramática de clássicos do teatro, ela desdenha do cinema comercial e, em sua presença na cidade, é acompanhada do marido, Sidney Cochran (Michael Caine), que abandonou a carreira de ator e guarda um segredo a sete chaves do grande público. No mesmo hotel em que Diana se prepara para a grande noite, está a jornalista Hannah Warren (Jane Fonda), que deixou Nova York para trás com o objetivo de encontrar o ex-marido, Bill (Alan Alda), e resolver problemas pendentes em relação à filha adolescente e rebelde. O relacionamento falido dos dois ainda tem arestas a aparar - e elas vêm à tona na tarde em que eles passam juntos, relembrando o passado. É o segmento menos interessante do filme, apesar dos intérpretes afiados e do talento superlativo de Fonda.


A terceira história - apesar do fato de todas acontecerem concomitantemente - traz à cidade dois casais de Chicago dispostos a um fim-de-semana de diversão, mas que acaba se tornando um pequeno pesadelo. Os médicos Willi Panama (Bill Cosby) e Chauncey Gump (Richard Pryor) chegam à Los Angeles com suas respectivas esposas, mas o fato de apenas um deles conseguir um quarto decente (por um erro do sistema) é suficiente para que tenha início uma série de pequenas competições internas que culminará em uma confusão sem precedentes dentro do lastimável quarto onde o menos afortunado é obrigado a dormir. É a trama com humor mais físico das quatro, valorizada pela ótima química entre Cosby e Pryor, dois dos maiores nomes do cinema negro norte-americano dos anos 70. A última história é também cômica, e só a presença de Walter Matthau já é mais do que suficiente para arrancar gargalhadas. Ele vive Marvin Michaels, que, enquanto aguarda a chegada da mulher, Millie (a também escritora Elaine May), para o bar mitzvah de um sobrinho, acaba cedendo à tentação de dormir com uma garota de programa - que, para seu desespero, acaba desabando em sua cama no hotel momentos antes do reencontro com a esposa. O timing cômico perfeito de Matthau, aliado ao eterno ar de desligada de May dão o tom exato da farsa criada por Simon - que nem mesmo a direção um tanto engessada de Ross consegue atrapalhar.

No final das contas, "California Suite" é apenas isso: um entretenimento simples, realizado por gente competente e sem ambições maiores do que divertir enquanto dura. Maggie Smith se deu bem por seu desempenho, ganhando o Oscar de atriz coadjuvante (sorte que sua personagem acaba por não ter) e o Golden Globe em um ano em que as cerimônias de premiação estavam com os olhos voltados para dramas mais sérios e relevantes politicamente (foi o ano de "O franco-atirador" e "Amargo regresso", que tratavam do retorno dos americanos da Guerra do Vietnã). Despretensioso e simples, é um filme que comprova o prestígio de Neil Simon na Hollywood da época, mas que resiste ao tempo única e exclusivamente graças a seu elenco impecável. Sem maiores expectativas pode render um bom passatempo.

quinta-feira

MINHA QUERIDA DAMA

MINHA QUERIDA DAMA (My old lady, 2014, BBC Films, 107min) Direção: Israel Horovitz. Roteiro: Israel Horovitz, peça teatral de sua autoria. Fotografia: Michel Amathieu. Montagem: Stephanie Ahn, Jacob Craycroft. Música: Mark Orton. Figurino: Jacqueline Bouchard. Direção de arte/cenários: Pierre-François Limbosch/Daphné Deboaisne. Produção executiva: Daniel Battsek, Raphael Benoliel, Charles S. Cohen, Mike Goodridge, Israel Horovitz, Russ Krasnoff, Christine Langan, Joe Oppenheimer. Produção: David C. Barrot, Nitsa Benchetrit, Gary Foster, Rachael Horovitz. Elenco: Kevin Kline, Maggie Smith, Kristin Scott Thomas, Dominique Pinon. Estreia: 10/9/14

Nada como bons atores de posse de bons diálogos e personagens com profundidade o bastante para explorar seus talentos: essa é a certeza que fica após uma sessão de "Minha querida dama", que, apesar do título nacional remeter ao clássico musical estrelado por Audrey Hepburn nos anos 60, é a adaptação de uma peça teatral feita pelo próprio autor, Israel Horovitz, estreando também - e com o pé direito - na função de cineasta. Iniciando com ares de comédia de situação e terminando como um drama familiar de proporções trágicas, o primeiro trabalho de Horovitz no cinema jamais trai suas origens no palco (diálogos precisos e marcações bem definidas na maior parte do tempo), mas consegue ir além de suas possíveis limitações, graças principalmente ao trio de atores centrais que defendem sua trama: Kevin Kline, Maggie Smith e Kristin Scott Thomas, todos eles geniais em cena.

Tendo como cenário de sua história a bela e sempre fotogênica Paris, Horovitz não perde nenhuma oportunidade de sair da claustrofobia de um roteiro originário do teatro, arejando sua própria trama sem medo de diluir a densidade dos conflitos e a força de seus personagens. Confiando nas palavras que ele mesmo escreveu e na capacidade de seus astros em dar a elas a complexidade necessária, o dramaturgo tornado cineasta brinda o público com um dos mais subestimados filmes de 2014 - e que precisa urgentemente ser descoberto por todos aqueles que encontram prazer em assistir a uma boa história, povoada por gente de verdade e não apenas por super-heróis e personagens sobre-humanos. Mas que esse mesmo público se prepare para conhecer personagens não exatamente simpáticos - ao menos à primeira vista.


A trama começa com a chegada de Mathias Gold (Kevin Kline, disparado um dos melhores atores de sua geração) à Paris. Três vezes divorciado, sem filhos, sem trabalho e sem perspectivas, ele viaja à capital francesa com o objetivo claro de vender a propriedade que herdou de seu pai e reorganizar sua bagunçada vida financeira. Logo que põe os pés na espaçosa casa que lhe pertence, porém, ele descobre que as coisas não serão tão fáceis quanto ele poderia imaginar: segundo uma lei do país, seu pai comprou a casa com um contrato que só lhe dá total poder sobre ela quando a atual dona morrer - e pior ainda: enquanto ela viver, o novo proprietário é obrigado a lhe pagar uma taxa de 2.400 euros mensais. Chocado com a descoberta - e de certa forma achando que isso é apenas mais uma vingança do pai, com quem nunca manteve uma relação das melhores - Mathias fica mais aliviado quando descobre que a inquilina, Mathilde Girard (Maggie Smith), já passou dos 90 anos de idade, o que, ao menos se espera, irá abreviar sua espera pelo desfecho do caso. Já se preparando para encontrar um novo comprador - o que não falta, graças à qualidade da ampla construção - ele encontra outro empecilho: a filha de Mathilde, Chloé (Kristin Scott Thomas), que deseja manter-se como a dona do sobrado.

Enquanto mantém sua primeira metade em um agradável tom cômico - com Mathias vendendo às escondidas os móveis da família Girard e enfrentando Chloé e Mathilde com diálogos leves e ferinos - Horovitz apresenta ao público uma divertida comédia de costumes, repleta de momentos que confirmam o extraordinário timing cômico de Kevin Kline e Maggie Smith (não por acaso já premiados com o Oscar de coadjuvantes por performances cômicas, respectivamente em "Um peixe chamado Wanda" e "California Suite"). Mas é quando a trama começa a mostrar seu lado dramático que o filme cresce e se torna ainda mais interessante. Uma sucessão de segredos do passado trazidos à tona é o suficiente para que os personagens mostrem suas reais facetas - bem mais trágicas e dignas de compaixão do que poderiam aparentar a princípio. É hora, então, de mais um show de seus intérpretes, que conseguem passar da frivolidade do humor descompromissado para a profundidade de uma quase tragédia familiar com uma espantosa naturalidade. Não vem ao caso destrinchar todas as possibilidades do desfecho - até para não estragar as surpresas - mas vale a pena dizer que poucas vezes três gêneros (drama, comédia e romance) conseguiram caminhar juntos de forma tão orgânica nos últimos anos sem prejuízo de nenhum deles. Mérito do roteiro coeso, da direção discreta e principalmente do elenco impecável - que torna tudo verdadeiro e crível. Uma bela surpresa que passou despercebida pelas salas de cinema.

domingo

O QUARTETO

O QUARTETO (Quartet, 2012, Headline Pictures/BBC Films, 98min) Direção: Dustin Hoffman. Roteiro: Ronald Harwood, peça teatral de sua autoria. Fotografia: John de Borman. Montagem: Barney Pilling. Música: Dario Marianelli. Figurino: Odile Dicks-Mireaux. Direção de arte/cenários: Andrew McAlpine/Sarah Wittle. Produção executiva: Christoph Daniel, Jamie Laurenson, Xavier Marchand, Marc Schmidheiny, Thorsten Schumacher, Dickon Stainer, Dario Suter. Produção: Finola Dwyer, Stewart Mackinnon. Elenco: Maggie Smith, Tom Courtenay, Pauline Collins, Michael Gambon, Billy Connolly, Gwyneth Jones, Sheridan Smith. Estreia: 09/9/12 (Festival de Toronto)

Um dos maiores atores de sua geração, Dustin Hoffman tem seu nome nos créditos de alguns dos filmes fundamentais da história do cinema, como "A primeira noite de um homem", "Sob o domínio do medo", "Todos os homens do presidente", "Tootsie" e dezenas de outros - isso sem contar nas duas produções que lhe deram o Oscar, "Kramer X Kramer" e "Rain Man". Com isso em vista, é difícil acreditar que somente em 2012 ele tenha finalmente utilizado toda a experiência adquirida em décadas de carreira para fazer sua estreia na direção. Porém, quando se assiste a seu primeiro filme, "O quarteto", é impossível não pensar que essa demora foi providencial. Dotado de uma maturidade profissional que o impede de cometer excessos ou cair na armadilha do egocentrismo, Hoffman entrega à plateia uma deliciosa ode à arte, à experiência e à amizade, embalada por uma trilha sonora à base de clássicos absolutos e estrelada por um elenco de veteranos visivelmente à vontade em seus papéis.

O roteiro de Ronald Harwood - premiado com o Oscar por "O pianista" - é baseado em uma peça teatral de sua própria autoria e, nas sensíveis mãos de Hoffman, vira uma declarada homenagem a todos os artistas que, mesmo longe dos palcos, ainda tem a música e o dom no coração e na alma. Assim são os moradores da Beecham House, uma casa de repouso para artistas aposentados que, como sempre acontece com lugares assim, sofre com a constante falta de patrocínio para manter-se. Para arrecadar um dinheiro que pode aliviar as finanças por um bom tempo, os moradores costumam realizar um concerto anual - no dia do aniversário de Giuseppe Verdi - e assim conquistar a simpatia e a atenção do público em geral. A paz e a tranquilidade comuns à rotina da casa são perturbados, no entanto, com a chegada de Jean Horton (Maggie Smith, fantástica mais uma vez), uma festejada cantora lírica afastada dos holofotes há décadas para manter a aura de diva. Sua entrada em cena entusiasma seus antigos colegas, que resolvem convidá-la para juntar-se a eles em uma apresentação de "Rigoletto". A recusa de Jean em tomar parte da programação, porém, não diz respeito somente a seu medo de fracassar em público, e sim a seu reencontro com Reggie (Tom Courtenay), com quem foi brevemente casada no passado e por quem ainda nutre fortes sentimentos.


Contando sua história de forma serena - com a ajuda da trilha sonora da melhor qualidade - Dustin Hoffman faz uso exemplar dos diálogos ora sardônicos ora sensíveis do roteiro de Harwood, deixando que cada ator os transforme em pequenas pérolas. Pauline Collins quase rouba a cena como a doce Cissy Robson - uma artista delicada e à beira da demência - e Billy Connolly tira proveito da personalidade dionisíaca de seu Wilf Bond para deitar e rolar com tiradas engraçadíssimas a respeito do ato de envelhecer e perder toda a libido da juventude. Tom Courtenay é o mais contido do quarteto, principalmente porque seu Reggie serve como o contraponto sensato do grupo, e suas cenas com Maggie Smith (indicada ao Golden Globe por seu desempenho) banham de humanidade e sensibilidade uma trama que tem nesses elementos sua principal qualidade. Sem apelar para piadas vulgares ou dramas forçados, o filme de Hoffman conquista principalmente pelo otimismo.

Assim como "O exótico Hotel Marigold" jogava luz sobre personagens cujo perfil etário é o oposto do que reina em Hollywood, "O quarteto" tem orgulho do histórico de seus atores e personagens. Hoffman faz questão de homenagear, nos créditos finais, todos os artistas aposentados que fazem parte do elenco de apoio de seu filme, como uma forma de enfatizar ainda mais sua admiração por sua obra. Falando de velhice, nostalgia e arte sem recorrer à melancolia, Dustin Hoffman faz de sua estreia na cadeira de diretor uma ensolarada e carinhosa cortesia à experiência e ao talento. "O quarteto" é uma delícia de se assistir e revela que o "pequeno grande homem" parece ser tão bom atrás das telas quanto diante delas. Bravo!

sexta-feira

O EXÓTICO HOTEL MARIGOLD

O EXÓTICO HOTEL MARIGOLD (The Best Exotic Marigold Hotel, 2011, Blueprint Pictures, 124min) Direção: John Madden. Roteiro: Oli Parker, romance "These foolish things", de Deborah Moggach. Fotografia: Ben Davis. Montagem: Chris Gill. Música: Thomas Newman. Figurino: Louise Stjernsward. Direção de arte/cenários: Alan MacDonald/Tina Roberts. Produção executiva: Jonathan King, Jeff Skoll, Ricky Strauss. Produção: Graham Broadbent, Peter Czernin. Elenco: Judi Dench, Bill Nighy, Tom Wilkinson, Maggie Smith, Dev Patel, Penelope Wilton, Celia Imrie. Estreia: 30/11/11 (Festival de Torrento)

Certas coisas nem os experientes analistas de mercado de Hollywood conseguem explicar, mesmo com tabelas, cálculos e equações. Um exemplo? Como um filme feito fora de um grande estúdio, com um custo estimado em 10 milhões de dólares e estrelado por atores com uma média de idade de 60 anos pode alcançar mais de 130 milhões de arrecadação pelo mundo afora, a ponto de gerar uma continuação? Levando-se em consideração ainda que "O exótico Hotel Marigold" não é baseado em quadrinhos, não tem cenas de ação nem tampouco tem em seu elenco nomes como Sylvester Stallone ou Bruce Willis - que apesar da idade ainda insistem em produções anabolizadas, como a série "Os mercenários" - seu resultado nas bilheterias é ainda mais impressionante. Esse choque, porém, é dissipado assim que se assiste aos primeiros minutos do filme de John Madden, comandante do oscarizado "Shakespeare apaixonado": divertida, leve e nunca aquém de extremamente agradável, a adaptação do romance "These foolish things", de Deborah Moggach, é daquelas de deixar qualquer um com um sorriso no rosto. Cortesia, também, do dream team de atores ingleses escalado por Madden.

O tal Exótico Hotel Marigold do título é uma quase espelunca localizada na Índia onde vai parar meia-dúzia de ingleses da terceira idade, atraídos pela propaganda enganosa de seu site, que promete luxo e conforto para idosos de todo o mundo. Na verdade, o hotel é gerenciado pelo jovem, ambicioso e desajeitado Sonny Kapoor (Dev Patel, de "Quem quer ser um milionário?"), que tem esperanças de realmente transformar as ruínas do prédio de propriedade de sua família em um estabelecimento respeitável, como forma de conquistar a admiração de sua rígida mãe e a aceitação dos familiares da mulher que ama, a bela Sunaina (Tena Desae). O estado quase calamitoso do hotel, porém, não impede que seus novos hóspedes aproveitem todas as possibilidades da nova rotina, especialmente porque todos tem seus motivos particulares para estarem ali. Evelyn Greensdale (Judi Dench) acaba de ficar viúva e sem economias, e viaja com a intenção de respirar novos ares .sem precisar gastar muito. O juiz de Direito Graham Dashwood (Tom Wilkinson) precisa reencontrar um amor do passado, com quem perdeu contato há quarenta anos. O casal Douglas e Jean Ainslie (Bill Nighy e Penelope Wilton) está em crise, sentindo-se no fim da vida e recusando-se a recolher-se a um conjunto habitacional para pessoas de sua idade. A preconceituosa Muriel Donnelly (Maggie Smith), ex-governanta, precisa fazer uma cirurgia no quadril, bem mais acessível na Índia. E Norman Cousins (Ronald Pickup) e Madge Hardcastle (Celia Imrie) buscam novas experiências amorosas: ele puramente sexuais, ela atrás de um casamento milionário.


Dividindo seu tempo de forma justa e imparcial com todos os fascinantes personagens criados por Moggach, o roteiro de Oli Parker consegue equilibrar com maestria momentos de puro humor inglês - em especial quando entra em cena a brilhante Maggie Smith e sua ranzinza Sra. Donnelly - e cenas de grande sensibilidade, como todas aquelas que envolvem a resolução da história de amor de Dashwood e o nascente romance entre Evelyn e Douglas - que vê nela o extremo oposto de sua egoísta e desagradável esposa. Mesmo quando o filme desvia seu foco dos novos moradores do hotel e se concentra na difícil relação de Sonny com sua mãe o ritmo não chega a ser comprometido. É uma surpresa perceber, aliás, como o roteiro consegue dar conta de tantos personagens - desenvolvendo de forma satisfatória suas complexidades e idiossincrasias - sem tornar-se superficial e sem estender-se desnecessariamente além das palatáveis duas horas de duração. Mérito também, é claro, da edição ágil mas jamais apressada e da direção fluida de Madden, que evita com sucesso ser maior do que seus atores ou de sua história. Sua discrição, ao contrário de demonstrar falta de personalidade, apenas o confirma como um cineasta afeito mais aos atores do que a pirotecnias ou estripulias visuais - vale lembrar que em seu currículo constam também os potentes mas pouco vistos "A prova" (06) e "No limite da mentira" (2010).

Tocando de leve em temas espinhosos como preconceito racial, abandono na terceira idade e homossexualidade - sempre com respeito, delicadeza e certa dose de bom humor - "O exótico Hotel Marigold" certamente conquistou seu enorme público por sua estrutura despretensiosa, sustentada por um bom roteiro, bom elenco e direção competente. Em tempos onde cada filme tenta ser maior e mais barulhento do que o outro, é um oásis de pureza e ar puro. Mereceu todo o sucesso que fez.

quinta-feira

ASSASSINATO EM GOSFORD PARK

ASSASSINATO EM GOSFORD PARK (Gosford Park, 2001, USA Films/Capitol Films, 137min) Direção: Robert Altman. Roteiro: Julian Fellowes. Fotografia: Andrew Dunn. Montagem: Tim Squyres. Música: Patrick Doyle. Figurino: Jenny Beavan. Direção de arte/cenários: Stephen Altman/Anna Pinnock. Produção executiva: Jane Barclay, Sharon Harel, Robert Jones, Hannah Leader. Produção: Robert Altman, Bob Balaban, David Levy. Elenco: Maggie Smith, Michael Gambon, Kristin Scott Thomas, Camilla Rutherford, Charles Dance, Tom Hollander, Jeremy Northam, Bob Balaban, Ryan Phillipe, Stephen Fry, Kelly McDonald, Helen Mirren, Clive Owen, Eileen Atkins, Emily Watson, Derek Jacobi, Richard E. Grant. Estreia: 07/11/01 (Festival de Londres)

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Robert Altman), Atriz Coadjuvante (Helen Mirren), Atriz Coadjuvante (Maggie Smith), Roteiro Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Golden Globe de Melhor Diretor (Robert Altman) 

Uma luxuosa casa de campo inglesa pré-II Guerra. Um fim-de-semana festivo, com convidados elegantíssimos e criados dedicados mas um tanto ressentidos. Um anfitrião aparentemente generoso, mas dono de segredos pouco louváveis. Esnobes britânicos e "vulgares" americanos da terra do cinema. E um homicídio misterioso cometido na biblioteca obrigando um típico inspetor a penetrar em um mundo de meias-verdades, traições e romances escusos. Parece Agatha Christie, mas é apenas "Assassinato em Gosford Park", o filme que deu ao cineasta Robert Altman sua última indicação ao Oscar, em 2002. Seguindo sua prática de trabalhar com um numeroso elenco de nomes de primeira linha - aqui atores britânicos consagrados nos palcos - ele brinca com a tradição dos romances policiais em um filme que, apesar do título e das características marcantes de um gênero específico, é mais uma dura crítica ao sistema de classes inglês do que um mero whodunit.

Com base em uma ideia de Altman e do ator Bob Balaban, o roteirista Julian Fellowes - que acabou por ganhar uma estatueta da Academia e depois tornou-se o criador da aclamada série "Dowtown Abbey" - utilizou-se de seu vasto conhecimento sobre os hábitos da alta sociedade britânica dos anos 30 para escrever uma astuciosa história a respeito não apenas de um assassinato, mas das engrenagens que moviam/movem/moverão o dia-a-dia e a rotina de patrões e empregados nem sempre felizes com suas relações de poder e hierarquia. Sutilmente explicitando tais relações em cada cena (nenhum personagem é mostrado sem que um empregado esteja por perto, por exemplo), Altman conquistou a crítica também por espalhar por seu filme uma elegância que reflete com perfeição a frieza e a indiferença dos personagens em relação à tragédia ocorrida em um dos aposentos da mansão: para os serviçais importa mais manter o funcionamento das refeições; para os aristocratas, tudo não passa de mais um aborrecimento que interrompe um fim-de-semana já movimentado o bastante por intrigas de bastidores. Essa opção do diretor apenas confirma seu estilo inconfundível, que a tantos agrada e a outros tantos repele. "Assassinato em Gosford Park" pode fascinar ou ser simplesmente chato. Depende apenas do gosto do espectador.


A história se passa em novembro de 1932, na casa de campo do benemérito William McCordle (Michael Gambon), que recebe convidados para um fim-de-semana regado a uma caçada em sua propriedade e jantares refinados, criados pela veterana cozinheira Mrs. Croft (Eileen Atkins) e organizados pela rígida governanta, Mrs. Wilson (Helen Mirren). Casado com a esnobe Lady Sylvia (Kristin Scott Thomas), o aristocrata McCordle não é exatamente um homem gentil ou delicado, mas é tratado com deferência pelos convidados, uma vez que, em maior ou menor grau, todos eles precisam de seu dinheiro,seja para manter um estilo de vida sofisticado, financiar um filme, manter uma pensão tida erroneamente como vitalícia ou evitar uma falência. Enquanto no andar de cima o jogo de interesses corre solto e pouco sutil, na parte de baixo da mansão, os criados vivem seus próprios dramas - que se misturam aos dos patrões quando o anfitrião aparece morto e a polícia surge para investigar o caso.

Em um elenco repleto de grandes atores do teatro e do cinema britânicos (o americano Ryan Philippe interpreta o criado de um astro do cinema vivido por Jeremy Northam), é difícil dizer quem está melhor. Maggie Smith e Helen Mirren foram indicadas ao Oscar de coadjuvante - a primeira pela interpretação de uma dama antipática e interesseira que vive da pensão da vítima do homicídio e não esconde seu desprezo pelos americanos e por aqueles abaixo dela na escala social, e a segunda como a líder dos empregados que esconde um segredo doloroso sobre o passado de seu patrão - mas outros nomes se destacam diante dos lúcidos diálogos de Fellowes. É o caso de Kristin Scott Thomas, mais uma vez demonstrando seu imenso talento como Lady Sylvia - uma viúva pouco propensa a sofrer pela morte do marido - e Eileen Atkins, que somente no terço final da narrativa mostra o poder de sua personagem, até então relegada a um injusto segundo plano. Dirigidos como se estivessem em uma bela peça teatral, todos brindam o espectador com trabalhos discretos e minimalistas, valorizados pelo roteiro aparentemente simples mas repleto de camadas que somente a experiência de Altman conseguiria orquestrar.

"Assassinato em Gosford Park" concorreu a sete Oscar, mas bateu de frente com "Uma mente brilhante" e "O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel" na busca pelas estatuetas. Foi (mais) um retorno de Altman às boas graças da crítica e da Academia, fato que não se repetiria mais até sua morte em 2006. Pode-se dizer que foi um testamento à altura de uma carreira que sempre teimou em não respeitar convenções comerciais - ou então revirá-las a ponto de torná-las irreconhecíveis. Não é um filme para todos, e sim para seus fãs - que não são poucos.

CLUBE DAS DESQUITADAS

CLUBE DAS DESQUITADAS (The first wives club, 1996, Paramount Pictures, 103min) Direção: Hugh Wilson. Roteiro: Robert Harling, romance de Olivia Goldsmith. Fotografia: Donald Thorin. Montagem: John Bloom. Música: Marc Shaiman. Figurino: Theoni V. Aldredge. Direção de arte/cenários: Peter Larkin/Leslie E. Rollins. Produção executiva: Adam Schroeder, Erza Swerdlow. Produção: Scott Rudin. Elenco: Goldie Hawn, Bette Midler, Diane Keaton, Maggie Smith, Sarah Jessica Parker, Elizabeth Berkeley, Victor Garber, Dan Hedaya, Stockard Channing, Stephen Collins, Marcia Gay Harden, Eileen Eckart, Philip Bosco, Jennifer Dundas. Estreia: 20/9/96

Indicado ao Oscar de Melhor Trilha Sonora Original Comédia/Musical

Tudo já começa nos créditos de abertura - que relembram as clássicas comédias que fizeram a glória de Doris Day - e na sequência inicial, que mostra a despedida de quatro inseparáveis amigas quando seus dias de colegial chegam ao fim, nos efervescentes anos 60. Esses dois momentos são pistas valiosas do que virá pela frente em "Clube das desquitadas", uma divertida comédia feminista que troca a ingenuidade matreira da época do flower power pelo cinismo materialista da década de 90. Inesperado sucesso de bilheteria em um período onde apenas produções de apelo masculino lotavam as salas de exibição, o filme de Hugh Wilson - diretor sem nenhuma obra marcante no currículo - soou como um oásis frente à destruição em massa de filmes como "Independence day" e "Twister" e mostrou que, ao contrário do que esperava a própria Paramount Pictures, ainda havia espaço na indústria americana para filmes menores e estrelado por outros nomes que não Bruce Willis e Arnold Schwarzenegger.

A trama começa quando uma das quatro amigas da primeira cena, a milionária Cynthia Swann Griffin (participação especial de Stockard Channing), comete suicídio ao ler a notícia do casamento de seu ex-marido com uma garota muitos anos mais jovem. Em seu funeral, as amigas remanescentes - que não tiveram mais contato depois da formatura - se reencontram e, tristes e constrangidas com o afastamento mútuo, resolvem reafirmar sua ligação. É aí que descobrem que estão passando, todas elas, pelo mesmo problema de sua amiga recém-falecida. A atriz Elise Elliot (Goldie Hawn) está passando por uma crise na carreira por causa da idade e, além de ter sido largada pelo marido, o produtor Bill Atchinson (Victor Garber), está correndo o sério risco de ser obrigada a pagar-lhe uma pensão e dividir com ele tudo que conquistou. A dona-de-casa Brenda Cushman (Bette Midler) foi trocada pela fútil Shelly (Sarah Jessica Parker) e seu ex-marido, Morton (Dan Hedaya) não parece inclinado a compartilhar com ela tudo que eles construíram juntos. E Annie Paradis (Diane Keaton) acaba de descobrir que o marido por quem ainda é apaixonada, Aaron (Stephen Collins), está de caso com sua própria terapeuta, Leslie (Marcia Gay Harden). Frustradas e desiludidas, as três resolvem se unir para retomar o que lhes é de direito, se utilizando de todas as técnicas possíveis e imagináveis para isso.


Mais do que os mirabolantes planos bolados pelas três protagonistas para atingirem seus objetivos maquiavélicos, o mais engraçado no roteiro, baseado em um romance de Olivia Goldsmith são as inúmeras referências à cultura popular contemporânea americana, em especial quando o assunto é a carreira cinematográfica de Elise Elliot, em um papel feito sob medida para a ótima Goldie Hawn - e que, por ironia, foi oferecido primeiramente à Jessica Lange. Na pele da vaidosa atriz vencedora do Oscar e do Golden Globe, Hawn (ela mesma já premiada com as duas estatuetas) dispara farpas para todos os lados, ironizando de forma inteligente a forma como a indústria de Hollywood trata as atrizes que já não servem mais aos ideais de juventude dos estúdios e produtores. A crítica à ditadura da beleza, inclusive, é um dos pontos altos do filme, que não perde nenhuma oportunidade de alfinetar a tendência masculina de trocar suas mulheres de 50 anos por alguém com a metade da idade: nesse ponto, aliás, reside a fraqueza maior da produção, que, a favor da risada constante, opta pelo maniqueísmo absoluto, transformando todos os personagens masculinos da história em completos idiotas.

Esse pequeno senão, porém, não consegue apagar o que "Clube das desquitadas" tem de melhor: a química perfeita entre suas três protagonistas. Cada uma dentro de seu estilo de humor - a sofisticação neurótica de Diane Keaton, o escracho visual de Bette Midler, o carisma insofismável de Goldie Hawn - as veteranas atrizes nem precisam fazer muito esforço para ganhar a simpatia e a cumplicidade da plateia, que embarca sorridente a seu lado para acompanhar sua divertida história de vingança - que acaba em uma antológica cena de dança ao som de "You don't own me", cantada na versão original por Leslie Gore, falecida há poucos dias. Pode não ser um filme que mudará a vida de alguém, mas faz rir, entretém e apresenta um trio de protagonistas de tirar o chapéu - que, apesar da promessa, nunca mais se reuniu nas telas. Para uma comédia despretensiosa, está mais do que bom.

sábado

RICARDO III

RICARDO III (Richard III, 1995, Mayfair Entertainment International, 104min) Direção: Richard Loncraine. Roteiro: Ian McKellen, Richard Loncraine, peça teatral de William Shakespeare. Fotografia: Peter Biziou. Montagem: Paul Green. Música: Trevor Jones. Figurino: Shuna Harwood. Direção de arte/cenários: Tony Burrough. Produção executiva: Maria Apodiacos, Ellen Dinerman Little, Ian McKellen, Joe Simon. Produção: Stephen Bayly, Lisa Katselas Paré. Elenco: Ian McKellen, Annette Bening, Robert Downey Jr., Jim Broadbent, Kristin Scott Thomas, Nigel Hawthorne, John Wood, Maggie Smith, Jim Carter, Dominic West. Estreia: 20/8/95 (Brasil)

2 indicações ao Oscar: Figurino, Direção de Arte/Cenários

De todas as polêmicas que envolvem o dramaturgo inglês William Shakespeare - desde sua sexualidade até a autoria verdadeira de suas obras - duas certezas emergem soberanas sempre que um filme baseado em alguma peça sua chega aos cinemas: a perenidade de sua percepção da alma humana e a estrutura sempre moderna de seus textos, que permite que qualquer adaptação mantenha o espírito do original intocado. Um perfeito exemplo dessa afirmação é "Ricardo III", que o ator Ian McKellen levou dos palcos para as telas em 1995. Baseado em uma montagem ousada que alterava a data da ação para os primórdios da ascensão do nazismo (incutindo assim uma crítica política que em nada diminui o impacto da trama) e enxugava o texto em cerca de 50%, o filme de Richard Loncraine é um triunfo artístico, mas peca em ditar o ritmo necessário que poderia fazer dele uma das mais excitantes transposições do bardo para o cinema.

McKellen, também autor do roteiro, está espetacular como o personagem-título - reza a lenda que ele perdeu uma indicação ao Oscar 96 por apenas dois votos - o deformado e vil irmão caçula do Rei Edward (John Wood) que, na Europa dos anos 30, cobiça o trono da Inglaterra a ponto de urdir intrigas e assassinatos para alcançá-lo. Frio e cruel, ele não hesita em incluir até mesmo outro irmão, Clarence (Nigel Hawthorne), entre as vítimas que faz rumo ao poder. Sua trajetória sangrenta, porém, encontra firme resistência na Rainha Elizabeth (Annette Bening) - tornada americana na adaptação de Loncraine - e no irmão dela, Lord Rivers (Robert Downey Jr.), a quem ele considera dois arrivistas sociais. Casado com a bela Lady Anne (Kristin Scott Thomas), viúva de uma suas vítimas, Richard não medirá esforços em atingir seu objetivo e tornar-se um monarca ditatorial e fascista.


Com cuidadosa reconstituição de época - foi indicado aos Oscars de figurino e direção de arte - "Ricardo III" é uma produção que enche os olhos, conquistando o espectador logo de cara com uma sequência de ação empolgante que apresenta seu protagonista já mostrando seu lado maligno - no que muito colabora o olhar ensandecido de McKellen, um dos grandes atores de seu tempo. Conforme a história avança, no entanto, algo parece sair do lugar. Talvez os cortes no texto original de Shakespeare tenham sido exagerados, pois em vários momentos fica a impressão clara de que algo aconteceu e não foi explicado à plateia. Esse sentimento de confusão permanece até o final, e essa confiança do cineasta no conhecimento prévio do público da história que está sendo contada acaba por prejudicar sua narrativa. Não fica claro, por exemplo, os motivos que levam o protagonista a odiar tanto a Lord Rivers - exceto, lógico, pelo fato de ele ser o cunhado do rei. Tampouco é explicado o motivo que leva Lady Anne a aceitar desposar Ricardo, a despeito de ele ser o assassino de seu marido.

Essas falhas no roteiro de "Ricardo III" terminam por ser o calcanhar de Aquiles da obra, de resto um trabalho exemplar de grandes atuações e um texto poderoso enfatizado por um desenho de produção impecável e luxuoso. Shakespeare sabia como ninguém burilar as ambições e desejos humanos e poucos personagens seus são tão absurdamente apavorantes em sua sinceridade quanto o rei Ricardo, que encontra na atuação do monstro Ian McKellen a personificação ideal. Nem seu ritmo um tanto irregular apaga o brilho de seu desempenho.

quinta-feira

O JARDIM SECRETO

O JARDIM SECRETO (The secret garden, 1993, Warner Bros, 101min) Direção: Agnieszka Holland. Roteiro: Caroline Thompson, romance de Frances Hogdson Burnett. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Isabelle Lorente. Música: Zbigniew Preisner. Figurino: Marit Allen. Direção de arte/cenários: Stuart Craig/Stephenie McMillan. Produção executiva: Francis Ford Coppola. Produção: Fred Fuchs, Tom Luddy, Fred Roos. Elenco: Kate Maberly, Heydon Prowse, Andrew Knott, Maggie Smith, John Lynch. Estreia: 13/8/93

Publicado em 1911 pela escritora inglesa Frances Hogdson Burnett, o livro infanto-juvenil "O jardim secreto" acabou se tornando, com o passar do tempo, em um clássico indiscutível do gênero, encantando geração após geração com sua prosa delicada e mágica. Chega a ser surpreendente que, com essa paixão toda de um público constantemente renovado, o romance tenha demorado tanto tempo para chegar aos domínios de Hollywood, sempre tão ávido por potenciais investimentos (adaptações para a televisão já existiam, mas sem maior sucesso). Foi somente em 1993 - mais de oito décadas depois de seu lançamento, portanto - que a história da pequena Mary Lennox finalmente chegou às telas, sob os auspícios do produtor executivo Francis Ford Coppola e a direção da incensada polonesa Agnieszka Holland, vinda do inegável êxito de seu "Filhos da guerra" (90). Visualmente deslumbrante - cortesia da fotografia de Roger Deakins e da bela reconstituição de época de Stuart Craig e Maritt Allen - o filme acabou se tornando, também ele, objeto de estimação de espectadores mais sensíveis.

Apesar de dirigido principalmente a um público mais jovem, "O jardim secreto" não pode ser considerado puramente infantil, especialmente porque a narrativa de Holland mescla com sutileza uma sofisticação onírica que pode fazer o deleite da plateia adulta com os elementos dramáticos que cativaram os leitores mirins por várias gerações. O roteiro de Caroline Thompson - apesar de alterar pequenos detalhes que somente os mais fanáticos pela obra poderão perceber e reclamar - é construído de forma a fisgar o espectador desde suas primeiras cenas e conduzí-lo a um universo feérico, repleto de mistérios e possibilidades inexploradas, além de apresentar personagens cativantes, defendidos por um elenco de estreantes bastante eficaz, começando por Kate Maberly, adorável como a protagonista Mary Lennox. Mary é uma menina inglesa de dez anos de idade que foi criada na Índia pelos pais, a quem pouco via e a quem perde tragicamente em um terremoto. Órfã, ela volta para seu país de origem para ficar aos cuidados de seu único parente, Archibald Crane (John Lynch), um tio que ela desconhece. Tão logo chega à imensa propriedade de Crane - viúvo da tia da garota - Mary percebe que sua rotina de menina mimada está acabada. Praticamente ignorada por seu tio, ela tem contato apenas com a rígida governanta, Sra. Medlock (Maggie Smith, sempre imbatível em papéis de damas severas) e com uma criada, Martha (Laura Crossley), que acaba apresentando-a a seu irmão caçula, Dickon (Andrew Knott) - que, apesar de ser um empregado da mansão, se torna seu melhor amigo.


As tardes de brincadeiras entre Mary e Dickon acabam por levá-los a um misterioso jardim, que pertencia à falecida sra. Crane e que, abandonado desde sua morte, pereceu sem maiores cuidados. Juntas, as duas crianças passam a tratar do local, que se transforma magicamente em um deslumbrante e aprazível cenário. Sua rotina, bem menos sufocante e triste do que era no começo, fica ainda mais colorida quando ela descobre que, além dela, existe outra criança morando na propriedade de seu tio: seu primo Colin (Heydon Prowse), um menino frágil e doente que acredita que, por sua mãe ter morrido em seu parto, não viverá por muito mais tempo. Sem nunca sair da mansão e ver a luz do sol, o menino é tratado como porcelana por Medlock, que irá interpor-se ferozmente à ideia de Mary em levar o primo para brincar em seu jardim - uma ideia aparentemente absurda que mudará a vida de todos na casa.

Sim, a trama de "O jardim secreto" é ingênua quase em excesso. Também tem seu lado melodramático, que pode levar os mais sensíveis às lágrimas e, em alguns momentos, é nitidamente infanto-juvenil. Mas, a despeito de tais características - que não chegam a incomodar, uma vez que tudo é realizado com extremo cuidado e bom-gosto - é um filme para encher os olhos e aquecer o coração. Sem o cinismo que tornou-se moeda corrente no cinema americano desde os anos 80 e dotado de poesia e sentimento, é um filme obrigatório para crianças de todas as idades.

terça-feira

MORTE SOBRE O NILO

MORTE SOBRE O NILO (Death on the Nile, 1978, EMI Films/Mersham Productions Ltd, 140min) Direção: John Guillermin. Roteiro: Anthony Shaffer, romance de Agatha Christie. Fotografia: Jack Cardiff. Montagem: Malcolm Cooke. Música: Nino Rota. Figurino: Anthony Powell. Direção de arte: Peter Murton. Produção: John Brabourne, Richard Goodwin. Elenco: Peter Ustinov, David Niven, Mia Farrow, Bette Davis, Maggie Smith, Simon MacCorckindale, Lois Chiles, Angela Lansbury, Olivia Hussey, Jane Birkin, Jon Finch, George Kennedy, Jack Warden. Estreia: 29/9/78

Vencedor do Oscar de Figurino

Poucas vezes os fãs da literatura policial de Agatha Christie puderam ver uma adaptação decente de seus romances para a tela de cinema. Aliás, não é preciso utilizar nem mesmo os cinco dedos de uma mão para contar quantos filmes baseados em sua obra valeram a pena. Primeiro, foi em 1956, com a obra-prima "Testemunha da acusação", dirigida por Billy Wilder e estrelada por Charles Laughton e Marlene Dietrich. Depois, em 1974, quando "Assassinato no Orient Express" chegou a dar um Oscar de coadjuvante para Ingrid Bergman. E por fim, em 1978, quando John Guillermin - co-diretor de "Inferno na torre" - assumiu o comando de "Morte sobre o Nilo" que marcou a primeira vez em que o grande ator Peter Ustinov vestiu a pele do detetive belga Hercule Poirot - outras cinco ocasiões vieram, sem o mesmo êxito em termos de crítica e público. Com uma produção bem cuidada, que resultou em um Oscar para o figurino de Anthony Powell, um roteiro bastante fiel à sua origem e um elenco de grandes atores, "Morte sobre o Nilo" é um filme policial à moda antiga que certamente não decepciona os leitores da Rainha do Crime.

Mesmo que Albert Finney tenha recebido calorosos elogios e uma indicação ao Oscar por sua composição como Poirot, Ustinov consegue sair-se ainda melhor na pele do famoso e egocêntrico detetive, equilibrando um senso de humor sutil com a seriedade que o papel pede em seus momentos mais sérios. E seriedade é o que não falta na trama criada por Agatha Christie, que se utiliza de uma paisagem exótica - os pontos turísticos do Egito e uma viagem de barco pelo caudaloso rio Nilo - para criar uma trama que aproveita todos os ingredientes de sua vasta literatura para prender a atenção do público desde suas primeiras cenas até a climática revelação do nome do criminoso, com todos os suspeitos reunidos na mesma sala para ouvir as conclusões do detetive mais famoso do universo do romance policial.


A vítima da vez é a bela, milionária e fria Linnet Ridgeway (Lois Chiles em papel recusado por Cybill Sheperd), recentemente casada com o sedutor Simon Doyle (Simon MacCorkindale, da extinta telessérie "Manimal"), que ela roubou de sua amiga pobre Jacqueline De Bellefort (Mia Farrow). Em plena lua-de-mel e perseguida por sua antiga companheira, ela embarca com o marido em uma viagem pelo Egito e se vê cercada de potenciais inimigos, que incluem uma escritora de livros baratos que foi processada por ela (Angela Lansbury), o advogado que cuida de suas finanças (George Kennedy), uma dama-de-companhia que a acusa de ser filha do homem que roubou o dinheiro de sua família (Maggie Smith), um médico que a culpa por um processo por imperícia (Jack Warden) e até uma ambiciosa e impulsiva ladra de joias (Bette Davis). Junto a outros suspeitos que desejam a morte de Linnet, porém, está no barco o detetive belga Hercule Poirot (Ustinov), que se unirá a um coronel inglês (David Niven) para desvendar o crime - que logo se multiplicará em três conforme a viagem vai prosseguindo.

A maior qualidade de "Morte sobre o Nilo", além de sua trama bem urdida e intrigante, é a elegância com que John Guillermin conduz a história, a despeito da violência inerente à narrativa policial. A impecável reconstituição de época e o elenco à prova de qualquer crítica servem à perfeição para o desfile de tipos excêntricos criados por Agatha Christie e retratados com respeito e seriedade pelo cineasta, que contrabalança todo o sangue da história (mostrado com parcimônia, nas horas exatas) com o senso crítico de humor que caracteriza a obra da escritora inglesa - e para o qual contribui a atuação perspicaz de Peter Ustinov e a classe de sempre de Bette Davis e Maggie Smith, roubando as cenas como patroa e dama-de-companhia. Mesmo que o filme chegue a quase duas horas e meia de duração em nenhum momento o ritmo fica cansativo, mostrando o talento de Guillermin em dosar com inteligência o suspense policial com o estudo irônico de seus personagens. Uma enorme bola dentro quando se fala em adaptações de Christie para o cinema.

sábado

ASSASSINATO POR MORTE

ASSASSINATO POR MORTE (Murder by death, 1976, Columbia Pictures Corporation/Rastar Pictures, 94min) Direção: Robert Moore. Roteiro: Neil Simon. Fotografia: David M. Walsh. Montagem: John F. Burnett. Música: Dave Grusin. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Stephen Grimes/Marvin March. Produção: Ray Stark. Elenco: Alec Guinness, Peter Sellers, Truman Capote, Peter Falk, David Niven, Maggie Smith, James Coco, Eileen Brennan, Elsa Lanchester, Nancy Walker, Estelle Winwood, James Cromwell, Richard Narita. Estreia: 23/6/76

Os fãs da literatura policial clássica, que não conseguem viver sem um crime repleto de suspeitos para lhes fazer companhia irão saborear ainda mais a brincadeira, mas é difícil não se deixar envolver com o clima de homenagem satírica que "Assassinato por morte", escrito pelo dramaturgo Neil Simon, faz a um dos gêneros mais populares das livrarias - e também do cinema, haja visto as constantes adaptações de seus mais famosos títulos para as telas. Reunir em um mesmo filme meia dúzia dos mais célebres detetives já criados pelas férteis mentes de Agatha Christie, Dashiel Hammett e Earl Derr Biggers (disfarçados sob outros nomes por motivos possivelmente jurídicos mas ainda assim facilmente identificáveis) é mérito de Simon, que criou um jogo de gato-e-rato inteligente, irônico e banhado em um carinho que só mesmo quem conhece seus personagens consegue. Junte-se a esse sarcasmo a direção aparentemente sóbria de Robert Moore e um elenco espetacular - que inclui David Niven, Peter Sellers, Maggie Smith, Alec Guinness, Truman Capote e um juvenil James Cromwell - e tem-se uma das comédias mais injustamente esquecidas dos anos 70.

O escritor Truman Capote não poderia ter sido escolha mais feliz para interpretar o excêntrico milionário Lionel Twain, que reúne em sua casa um grupo de famosos detetives para propor-lhes um perigoso jogo: ele anuncia que um assassinato irá ocorrer à meia-noite e que, a despeito de suas qualidades investigativas, nenhum deles será capaz de descobrir o criminoso - e se isso acontecer o vencedor sairá da mansão (repleta de quartos sombrios, uma campainha que grita e salas que aparecem e desaparecem) com um milhão de dólares em mãos. É o bastante para que todos fiquem bastante empolgados, uma vez que dívidas batem à porta de cada um deles. Quando o próprio anfitrião aparece morto com 12 facadas nas costas - depois da morte do mordomo cego (vivido por Alec Guinness em vias de tornar-se Obi Wan Kenobi em "Star Wars") - a corrida começa e verdades escondidas sobre os detetives ameaçam vir à tona.


Um triunfo de roteiro e de ambientação, "Assassinato por morte" diverte sem contra-indicações. Ao contrário das comédias histéricas que apostariam no riso descontrolado que viriam nos anos 80 - graças ao sucesso de filmes como "Apertem os cintos, o piloto sumiu..." (80) - a obra de Robert Moore aposta na inteligência do espectador em reconhecer os sinais inequívocos que distinguem seus personagens e em se deixar envolver por uma trama que brinca sem medo com os clichês dos romances policiais, distorcendo-os em função de suas possibilidades cômicas. E para isso, conta com um elenco de grandes atores mergulhando sem medo na paródia e até mesmo em sua auto-imagem. Estão em cena David Niven e Maggie Smith como o casal Charleston (inspirado em Nick e Nora Charles, criados por Dashiel Hammett), Peter Sellers brilhando como Sidney Wang (fazendo as vezes do Charlie Chan de Earl Derr Biggers), Peter Falk como o falastrão Sam Diamond (ou Sam Spade, imortalizado por Humphrey Bogart em adaptações de livros de Hammett), Elsa Lanchester como Miss Marbles (ou Miss Marple, criação de Agatha Christie, em cuja adaptação de "Testemunha de acusação" ela também atuou) e James Coco na pele de Milo Perrier (Hercule Poirot, outro inesquecível personagem da escritora inglesa). Cada um com suas características próprias, eles deleitam o espectador com piadas visuais e verbais capazes de alegrar o mais aficcionado fã da literatura policial.

Quem procurar em "Assassinato por morte" um humor fácil pode se decepcionar. Apesar de algumas gags geniais - como os impagáveis diálogos entre o mordomo cego e a cozinheira surda-muda - o roteiro de Neil Simon privilegia a inteligência e o sarcasmo em detrimento da piada previsível ou do riso forçado. Suas referências podem afastar a plateia menos afeita à sátira, mas aqueles que se arriscarem certamente terão uma hora e meia de diversão de primeiro nível - e que fatalmente os levará de volta aos livros de Christie, Hammett e Biggers. Afinal, nada como uma boa homenagem para dar valor a quem merece!

O PREÇO DA TRAIÇÃO

  O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...