domingo, 25 de junho de 2017

FAHRENHEIT 451

FAHRENHEIT 451 (Fahrenheit 451, 1966, Anglo Enterprises, 112min) Direção: François Truffaut. Roteiro: François Truffaut, Jean-Louis Richard, romance de Ray Bradbury. Fotografia: Nicolas Roeg. Montagem: Thom Noble. Música: Bernard Herrmann. Figurino: Tony Walton. Direção de arte/cenários: Syd Cain. Produção executiva: Miriam Brickman. Produção: Lewis M. Allen. Elenco: Oskar Werner, Julie Christie, Cyril Cusack, Anton Diffring. Estreia: 07/9/66 (Festival de Veneza)

Em 1953, o escritor Ray Bradbury imaginou um futuro distópico onde livros seriam proibidos pelo governo e incinerados pelos bombeiros, impedindo a população a ter acesso a qualquer palavra escrita. Alguns anos mais tarde, seu romance, batizado de "Fahrenheit 451" - em teoria, a temperatura necessária para a combustão das publicações - chegou às mãos do francês François Truffaut, notoriamente avesso a ficções científicas, e transformou completamente a opinião do célebre cineasta. Apaixonado pelo conceito da trama concebida por Bradbury e certo de que poderia fazer dela um filme memorável, Truffaut passou os próximos seis anos em busca de financiamento para o projeto. Nascia então seu primeiro - e único - filme falado em inglês. Lançado no Festival de Veneza de 1966, "Fahrenheit 451" é um clássico por excelência: inteligente, perturbador e emocionante, se mantém como uma crítica feroz ao totalitarismo ao mesmo tempo que convida o público a uma poética homenagem à literatura e seu poder transformador.

Antes de chegar às telas, porém, "Fahrenheit 451" mostrou-se um desafio dos mais trabalhosos para o inveterado cinéfilo, colaborador assíduo do prestigioso "Cahièrs du Cinéma" e já consagrado por filmes como "Os incompreendidos" (59) e "Jules e Jim: uma mulher para dois" (62). Não apenas o financiamento demorava a sair, mas também seu elenco dos sonhos parecia impossível de escalar. Para os dois principais papéis femininos, por exemplo, Truffaut queria a francesa Jean Seberg e a americana Tippi Hedren, mas viu seu desejo frustrado em dose dupla: Hedren estava ocupada com Alfred Hitchcock e Seberg (estrela do seminal "Acossado", de Jean-Luc Godard) foi considerada um nome pouco comercial pelos produtores. Nem mesmo Jane Fonda acertou sua participação e a contratação de Julie Christie para ambos os papéis (pela metade do cachê cobrado então pela atriz), ao contrário de ajudar, só complicou ainda mais a situação: sua presença causou a defecção do ator Terence Stamp - escolhido para interpretar o protagonista, Montag. Ex-namorado de Christie, o ator inglês não ficou confortável com a ideia de trabalhar com ela - especialmente quando havia a forte possibilidade de, fazendo dois personagens em cena, a bela Christie roubar a atenção. O resultado foi uma tremenda dor de cabeça aos produtores, que passaram a cogitar nomes tão diversos quanto Montgomery Clift, Marlon Brando, Paul Newman, Jean-Paul Belmondo, Charles Aznavour e Peter O'Toole - até que Truffaut finalmente bateu o martelo com Oskar Werner... e se arrependeu amargamente.





Não foi a primeira vez que cineasta e ator trabalharam juntos - ambos foram parte fundamental do sucesso de "Jules e Jim". Mas certamente Truffaut jamais imaginaria que a parceria outrora tão feliz se tornaria motivo de tanto desgosto. Com visões completamente opostas a respeito da forma como retratar o bombeiro Montag - personagem principal e que serve de ponte entre o filme e o público -, diretor e ator entraram em frequente rota de colisão durante as filmagens, e o próprio Truffaut declarou posteriormente que só não chegou a ponto de desistir do projeto devido à sua paixão pela história e pelo tempo que havia gasto na pré-produção. A situação ficou tão delicada que os dois chegaram a ficar sem dirigir a palavra um ao outro durante as duas últimas semanas de trabalho - some-se a isso uma crise nervosa de Julie Christie e as dificuldades do diretor em comunicar-se em inglês enquanto trabalhava em Londres e chega a ser quase um milagre que "Fahrenheit 451" tenha sido completado - e indo ainda mais longe, tenha ficado tão bom. Com o roteiro escrito em inglês por Truffaut e Jean-Louis Richard (que não dominavam o idioma e não ficaram totalmente satisfeitos com o resultado final), a adaptação do romance de Bradbury acerta em todos os aspectos - como cinema, como crítica social e como transposição de uma obra literária para as telas.


A criatividade de Truffaut começa já nos créditos de abertura: uma vez que no universo proposto pelo roteiro a leitura é algo proibido, não há letreiros e sim uma narração em off apresentando o elenco e a equipe técnica. Logo em seguida, o público passa a conhecer uma sociedade opressiva e totalitária, onde a população vive à mercê de um governo que proíbe o consumo de livros - e incentiva as denúncias contra aqueles que desafiam as leis. Nesse universo quase asséptico intelectualmente, a única função do corpo de bombeiros é justamente incinerar todos os livros descobertos e impedir que outros meios de comunicação senão a televisão sejam acessíveis como meio de informação. O protagonista, vivido por Oskar Werner, é Guy Montag, um desses bombeiros, um profissional dedicado e à espera de uma promoção que está em vias de chegar. E é justamente nesse ponto de sua carreira que Montag é surpreendido por um novo sentimento: fascinado pela bela Clarisse (Julie Christie), ele se vê subitamente curioso em conhecer o prazer da leitura, para desespero de sua mulher, a fútil Linda (também Christie). Tentado a mergulhar cada vez mais em um novo ambiente (onde o livre-pensar é uma realidade e o idealismo intelectual é capaz de forjar mártires orgulhosos), Montag descobre que seus fechados horizontes podem transformar-se em infinitas possibilidades - mas, para isso, precisa escolher entre a vida que leva e os perigos do não-conformismo.

Visualmente interessante - ainda que pareça um tanto datado - e contado em ritmo fluido e envolvente, "Fahrenheit 451" é uma obra-prima. Nem mesmo os embates dos bastidores foi capaz de minar o que há de mais brilhante no filme: sua mensagem de amor à liberdade e à literatura. Um pouco incômoda em seus momentos iniciais - até que a plateia finalmente compreenda exatamente o que está acontecendo - e fascinante em seu terço final, quando Montag descobre um novo caminho para sua vida, a obra de Truffaut sobrevive ao tempo como uma das mais importantes ficções científicas do cinema moderno (mesmo que abra mão de alguns elementos icônicos do gênero, como a violência e os efeitos visuais abundantes, que transformariam os filmes das décadas seguintes mais e mais parecidos com videogames do que com cinema). Felizmente a ideia de Mel Gibson em refilmá-lo não vingou: dificilmente alguém seria capaz de ser tão competente em transmitir as ideias do romance de Bradbury do que Truffaut foi em seu único filme em língua inglesa.

sábado, 24 de junho de 2017

ELYSIUM

ELYSIUM (Elysium, 2013, TriStar Pictures, 109min) Direção e roteiro: Neill Blomkamp. Fotografia: Trent Opaloch. Montagem: Julian Clarke, Lee Smith. Música: Ryan Amon. Figurino: April Ferry. Direção de arte/cenários: Philip Ivey/Peter Lando. Produção executiva: Sue Baden-Powell. Produção: Bill Block, Neill Blomkamp, Simon Kinberg. Elenco: Matt Damon, Jodie Foster, Sharlto Copley, Alice Braga, William Fitchner, Diego Luna, Wagner Moura. Estreia: 07/8/13

Depois do inesperado - ainda que justo - sucesso de "Distrito 9", que chegou a concorrer aos Oscar de melhor filme e roteiro adaptado em 2010, todo mundo em Hollywood estava curioso em saber qual seria o projeto seguinte de seu diretor, Neill Blomkamp. Inteligente e sabendo que em time que está ganhando não se mexe, o cineasta sul-africano resolveu então que o melhor a fazer seria manter o que havia dado certo em sua obra-prima (a crítica social através da ficção científica, seu amigo de infância Sharlto Copley e o equilíbrio entre drama e ação), injetar um orçamento mais generoso (que ultrapassou a barreira dos 100 milhões de dólares) e contar com a presença de astros populares (Matt Damon e Jodie Foster). Nem tudo deu exatamente certo: apesar do relativo sucesso nos EUA, "Elysium" não repetiu a mesma performance de "Distrito 9", dividiu a crítica e só conseguiu se pagar com a bilheteria mundial. Não deixa de ser injusto. Apesar de não ter o mesmo brilhantismo do filme mais conhecido de Blomkamp, "Elysium" é uma produção muito mais interessante do que a grande maioria dos lançamentos do gênero: diverte, faz pensar, é tecnicamente impecável e conta com um elenco internacional de fazer inveja a qualquer diretor muito mais experiente.

Com um filme tão impressionante como "Distrito 9" como cartão de visitas, não foi difícil a Neill Blomkamp escalar um time de sonhos para o elenco de "Elysium". além dos prestigiados Matt Damon e Jodie Foster (dois dos mais inteligentes e confiáveis astros de Hollywood), o cineasta contou com o mexicano Diego Luna e os brasileiros Alice Braga e Wagner Moura para dar vida a uma história fascinante sobre um mundo pós-apocalíptico onde a diferença de classes não é apenas endêmica: ela faz também a diferença entre a vida e a morte. Com uma impressionante direção de arte e uma fotografia assombrosa, "Elysium" é um filme de extrema urgência e relevância social, uma metáfora pouco sutil sobre a política de imigração e, melhor ainda, um entretenimento que jamais esquece sua principal função: divertir a plateia com cenas de ação empolgantes e personagens cativantes. Pode-se até dizer que em sua segunda metade as situações se atropelam um pouco, mas mesmo assim é difícil não concordar que sua mistura entre cinema e crítica social é construída com precisão cirúrgica - e que é virtualmente impossível desviar os olhos da tela do primeiro ao último minuto da sessão.


A trama se passa em 2154, e a Terra está completamente arruinada, sofrendo com escassez de recursos e uma superpopulação escravizada em subempregos e miséria. Sua condição miserável contrasta radicalmente com aquela que levam os felizardos que, com dinheiro o suficiente para isso, moram em uma estação espacial chamada Elysium, praticamente um clube de luxo, sofisticado e habitado por aqueles considerados a nata da sociedade. O único problema do local - mantido com mão de ferro pela secretária de defesa, Delacourt (Jodie Foster) - são as constantes tentativas de invasão por moradores da Terra, que procuram desesperadamente chegar até as milagrosas camas existentes por lá (e que curam qualquer doença). Uma dessas desesperadas é Frey (Alice Braga), cuja filha pequena sofre de leucemia: amiga de infância do operário Max (Matt Damon) - que abandonou a vida de pequenos crimes para viver em paz -, Frey acaba pedindo ajuda ao melhor amigo, que aceita o desafio quando ele mesmo é exposto à radiação em seu trabalho e se vê condenado a poucos dias de vida. Contando com o apoio logístico do rebelde Spider (Wagner Moura), Max vai fazer o possível para salvar-se e à filha de Frey - e para isso terá de bater de frente com o violento Kruger (Sharlto Copley), capaz de qualquer coisa para defender os privilégios da alta sociedade de Elysium.

Visualmente impressionante, "Elysium" é um filme de grande impacto, especialmente quando mostra os contrastes entre os moradores de uma Los Angeles completamente destruída e o luxo que envolve a estação espacial da classe privilegiada. Mesmo que o tema implore por um discurso mais incisivo em termos de crítica, porém, o roteiro prefere ater-se às regras da ficção científica, desenvolvendo mais uma história (fascinante e bem resolvida) do que uma tese de mestrado. Acerta em cheio nessa opção: sem jamais deixar de ilustrar sua simpatia pelos habitantes da Terra (sofridos, doentes, explorados, expostos a uma dura realidade de vida), Blomkamp conta sua história focando-se basicamente na trajetória de seu herói (vivido com garra por Matt Damon) e deixando a luta de classes como um tema incidental (potente, doloroso, relevante, mas incidental). Dessa forma, ele realiza um filme que é, ao mesmo tempo, um entretenimento dos mais empolgantes (em termos técnicos e emocionais) e um comentário socialmente importantíssimo - em especial em vista do que viria pela frente na política de imigração dos EUA da era Trump. Indispensável tanto pelo discurso quanto por suas qualidades artísticas, "Elysium" é um filme subestimado - mas que deve, com o passar do tempo, ter reconhecido seu devido valor.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

DONNIE BRASCO

DONNIE BRASCO (Donnie Brasco, 1997, Sony Pictures/Mandalay Entertainment, 127min) Direção: Mike Newell. Roteiro: Paul Attanasio, livro de Joseph D. Pistone, Richard Woodley. Fotografia: Peter Sova. Montagem: Jon Gregory. Música: Patrick Doyle. Figurino: Aude Bronson-Howard, David Robinson. Direção de arte/cenários: Donald Graham Burt/Leslie Pope. Produção executiva: Alan Greenspan, Patrick McCormick. Produção: Louis DiGiaimo, Mark Johnson, Barry Levinson, Gail Mutrux. Elenco: Al Pacino, Johnny Depp, Michael Madsen, James Russo, Anne Heche, Bruno Kirby, Zeljko Ivanek, Paul Giamatti, Tim Blake Nelson. Estreia: 24/02/97

Indicado ao Oscar de Roteiro Adaptado

Durante seis anos, entre 1978 e 1984, o agente especial do FBI Joseph Pistone trabalhou infiltrado entre os mafiosos de Nova York, quase sem contato com a própria família e conquistando a confiança de um dos integrantes do grupo, que passou a considerá-lo como um filho. Tal história, com seus desdobramentos talvez previsíveis mas sempre interessantes, estava pronta para ser contada no cinema desde o lançamento do livro "Donnie Brasco: my undercover life with the Mafia", publicado nos EUA em 1988. Escrito pelo próprio Pistone (cuja cabeça ainda está a prêmio) e o jornalista Richard Woodley, o livro estava nos planos de Hollywood a um bom tempo quando o inglês Mike Newell entrou no projeto: celebrado pelo enorme sucesso de seu "Quatro casamentos e um funeral" (94), Newell chegou com moral, substituindo outro britânico até então considerado para o trabalho (Stephen Frears) e injetando no filme uma elegância e uma sobriedade que possivelmente um cineasta americano não seria capaz de imprimir. Com o elenco liderado por Al Pacino e Johnny Depp - dois nomes populares e de prestígio junto ao público e à crítica - e pronto para estrear no Natal de 1996, "Donnie Brasco" acabou sendo vítima do próprio estúdio: com três outros filmes de grande visibilidade entrando em cartaz quase ao mesmo tempo (e lutando por indicações ao Oscar), a Sony empurrou seu lançamento para fevereiro de 1997. Deu mais ou menos certo: mesmo lançado longe da temporada de premiações, o filme de Newell arrebatou uma indicação na categoria de roteiro adaptado quase um ano depois de sua estreia - e as outras produções da Sony foram relativamente recompensadas pela Academia, em especial "Jerry Maguire: a grande virada", que levou a estatueta de ator coadjuvante (Cuba Gooding Jr.).

Se "Donnie Brasco" tinha mais chances de convencer a Academia do que seus irmãos de estúdio - "O espelho tem duas faces" (96) e "O povo contra Larry Flynt" (96) - é difícil dizer, especialmente em um ano em que as produções independentes foram mais felizes no resultado final. Mas é óbvio que, levando-se em consideração seu tema, seus valores de produção e os vastos elogios da crítica especializada, o filme de Newell tinha tudo para ter uma sorte bem maior se tivesse sido lançado no período adequado - inclusive nas bilheterias, já que não fez muito barulho em casa mas rendeu mais de 120 milhões pelo mundo, em grande parte devido à presença de Johnny Depp, então um jovem astro em ascensão, e Al Pacino, um dos maiores atores do cinema americano. Sua química é um dos motivos que fazem do filme uma das produções mais interessantes do final dos anos 90 - uma narrativa séria e minimalista que lembra os policiais da década de 70 (não por acaso também estrelados por Pacino). Cineasta pouco afeito a malabarismos estéreis, Newell se concentra em caprichar na ambientação e no desenvolvimento dos personagens - cortesia também do roteiro de Paul Attanasio, que equilibra admiravelmente a trama policial com os problemas domésticos do protagonista. Com um elenco coadjuvante igualmente brilhante, "Donnie Brasco" foge facilmente da limitação de gênero, alcançando níveis dramáticos que o elevam acima da média. 


A trama é centrada basicamente no relacionamento entre o jovem agente Joseph Pistone - que assume o pseudônimo de Donnie Brasco e é vivido por Johnny Depp de forma discreta, sem os habituais exageros que se tornaram característica de seus desempenhos - e o mafioso Lefty Ruggiero (Al Pacino), que, apesar de não ser o chefão do grupo, lhe serve como ponte de acesso a nomes, crimes e detalhes dos delitos cometidos por outros integrantes do bando, especialmente Sonny Black (Michael Madsen), que se torna o líder durante a temporada do rapaz como infiltrado. Enquanto vai se tornando parte integrante da quadrilha, Donnie vai se afastando da esposa, Maggie (Anne Heche) e das filhas, ao mesmo tempo em que fortalece laços de amizade e quase lealdade com Ruggiero - até que o cerco se fecha e ele precisa redobrar os cuidados para não ser desmascarado e completar sua missão (que inclui, obviamente, mandar seu mentor para a cadeia).

Narrado de forma correta e sem sobressaltos, "Donnie Brasco" é um filme que substitui as cenas de ação alucinantes por um tom de mais densidade psicológica e dramática. Seu registro quase cerebral pode aborrecer a quem procura um filme policial nos moldes mais tradicionais (leia-se tiroteios, perseguições e violência extrema), mas é justamente essa opção de Mike Newell que faz toda a diferença. Seria bastante diferente, por exemplo, se outros nomes cotados para o projeto tivessem assumido o papel central - como Alec Baldwin, Nicolas Cage ou John Cusack, que certamente dariam outro estilo à produção. Dotado de um ritmo atípico, é um filme que envolve o espectador aos poucos, o mergulhando gradativamente em uma trama que fala de amizade, dever, traição e paranoia em doses exatas e tratadas com o máximo de talento. Apesar de se alongar desnecessariamente nos minutos finais, é uma obra pela qual é difícil não se deixar conquistar, senão por sua história incrível, ao menos por sua direção elegante e pelo elenco em ótimo momento. Um dos grandes filmes de Pacino pós-Oscar - e talvez um dos mais subestimados de sua brilhante carreira.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

DOIS CARAS LEGAIS

DOIS CARAS LEGAIS (The nice guys, 2016, Warner Bros, 116min) Direção: Shane Black. Roteiro: Shane Black, Anthony Bagarozzi. Fotografia: Philippe Rousselot. Montagem: Joel Negron. Música: David Buckley, John Ottman. Figurino: Kym Barrett. Direção de arte/cenários: Richard Bridgland/Danielle Berman, Tommy Wilson. Produção executiva: Anthony Bagarozzi, Peter Hampden, Ken Kao, Michael J. Malone, Norman Merry, Hal Sadoff, Alex Walton. Produção: Joel Silver. Elenco: Russell Crowe, Ryan Gosling, Kim Basinger, Matt Bomer, Lois Smith, Angourie Rice, Margaret Qualley, Yaya DaCosta. Estreia: 15/5/16 (Festival de Cannes)

A brincadeira já começava no trailer, com imagens que lembravam os filmes da década de 70 (período em que se passa o filme), utilizava o logo da Warner da época e mostrava Kim Basinger sob o anúncio de "apresentando". Mas era apenas uma pequena amostra do que estava por vir. "Dois caras legais" é diversão pura, uma comédia de ação que não se leva a sério, apresenta dois protagonistas completamente atípicos e subverte os clichês do gênero policial a cada cena. Coescrito e dirigido por Shane Black - o responsável por "Máquina mortífera" e o padrão de filmes policiais hollywoodianos a partir dos anos 80 - e estrelado por Russell Crowe e Ryan Gosling em dias inspirados (e com um timing cômico impecável), o filme pode não ter tido a repercussão que merecia - rendeu pouco mais de 60 milhões de dólares em todo o mundo - mas serve para confirmar a teoria de que um bom roteiro e um bom elenco são muito mais eficazes para a produção de um bom filme do que efeitos digitais e super-heróis cada vez menos surpreendentes.

Inicialmente pensado como piloto de uma série de televisão, "Dois caras legais" transformou-se em roteiro para o cinema quando Black percebeu que as possibilidades de ganhar uma temporada seriam quase nulas. Foi um mal que aconteceu para o bem: no conciso tempo de pouco menos de duas horas, a história (repleta de reviravoltas e personagens dúbios) ganha corpo, interesse e serve como uma luva para divertir a plateia sem recorrer a piadas forçadas ou cenas de ação hipertrofiadas. Dosando em igual quantidade humor e ação, o diretor consegue um equilíbrio admirável e de certa forma volta às origens, depois de ter comandado uma superprodução ("Homem de ferro 3", de 2013) controlada com rédeas curtas pela Marvel. Em seu novo filme, ele parece respirar aliviado sem tanta pressão, e tal leveza se reflete no tom debochado (ainda que carinhoso) do resultado final. Com diálogos brilhantes, uma reconstituição de época caprichada e um elenco afiadíssimo, "Dois caras legais" é um dos filmes mais subestimados de sua temporada - e um programão para quem procura entretenimento puro e simples.


Os dois caras legais do título são Jackson Healy (Russell Crowe) e Holland March (Ryan Gosling), detetives particulares da Los Angeles de 1977 que tem seus caminhos cruzados quando se veem investigando o mesmo caso. March é viúvo e vive com a filha pré-adolescente, Holly (a ótima Angourie Rice), enquanto curte a depressão se afogando em álcool e aceitando trabalhos para localizar pessoas desaparecidas; Healy é solteiro e resolve a maioria de seus casos utilizando-se de métodos violentos e pouco ortodoxos. Um dia, March é contratado por uma senhora idosa, Mrs. Glenn (Lois Smith), para encontrar sua sobrinha, uma atriz pornô que todos acreditam ter morrido em um acidente de carro - mas que ela insiste ter visto, bem viva, alguns dias depois do desastre. Em sua busca, o rapaz esbarra com o nome de Amelia Kuttner (Margaret Qualley), uma jovem que parece estar muito mais envolvida no caso do que parece - e que também está sendo procurada por Healy. É nesse ponto que a mãe da garota, Judith (Kim Basinger), chefe do Departamento de Estado, entra em cena, contratando os dois para impedir que sua filha seja prejudicada por um filme "alternativo" que fez com alguns amigos.

A mistura de comédia e filme policial engendrada por Shane Black ainda recebe a ajuda de ingredientes inusitados, como os bastidores da indústria de filmes pornográficos, criminosos excêntricos, tiroteios em locais públicos e muito, muito bom humor. Mesmo que a história por vezes soe confusa, o roteiro é tão recheado de boas piadas e bons personagens que fica difícil reclamar. Russell Crowe e Ryan Gosling estão absolutamente à vontade em cena, em uma parceria que implora por um segundo capítulo - e a jovem Angourie Rice quase rouba o filme na pele da precoce filha de Gosling, que assume papel fundamental no desfecho da trama. Engraçado, leve e despretensioso, "Dois caras legais" é uma das mais gratas surpresas da temporada 2016 - e uma lembrança do quanto Russell Crowe faz falta no cinemão americano.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

O DESPERTAR

O DESPERTAR (The awakening, 2011, StudioCanal/BBC Films, 102min) Direção: Nick Murphy. Roteiro: Stephen Volk, Nick Murphy. Fotografia: Eduard Grau. Montagem: Victoria Boydell. Música: Daniel Pemberton. Figurino: Caroline Harris. Direção de arte/cenários: Jon Henson/Robert Wischhusen-Hayes. Produção executiva: Jenny Borgars, Will Clarke, Olivier Courson, Robin Guise, Peter Hampden, Norman Merry, Joe Oppenheimer, Peter Raven, Carole Sheridan. Produção: Sarah Curtis, Julia Stannard, David M. Thompson. Elenco: Rebecca Hall, Dominic West, Imelda Staunton, Isaac Hempstead Wright, Shaun Dooley. Estreia: 16/9/11 (Festival de Toronto)

Via de regra, um bom filme de fantasmas conta sempre com uma ambientação apropriada, uma história interessante, um final surpreendente e um bom elenco. Funcionou muito bem, por exemplo, em "O sexto sentido" (99), em "Os outros" (2001) e em "O orfanato" (2007). Funciona apenas em parte em "O despertar". Co-produzido pela BBC Films, o filme de Nick Murphy - oriundo da televisão - tem como seus maiores trunfos as presenças das ótimas Rebecca Hall e Imelda Staunton, mas esbarra em problemas de ritmo e foco, que acabam por diluir as boas ideias do roteiro e dar a impressão de que é mais longo do que deveria. Ainda assim, por levar-se a sério e não cair na tentação de pregar sustos aleatórios, é uma produção acima da média, capaz de conquistar os fãs do gênero, principalmente graças a algumas surpresas em seu final - mesmo que ele se arraste mais do que o necessário depois de seu clímax.

A trama tem início na Inglaterra de 1921, ainda se recuperando do final da I Guerra Mundial. Esse ambiente, ainda traumatizado pela perda de milhares de vidas, é fértil para Florence Cathcart, que trabalha ajudando a polícia a desmascarar fraudes que envolvem falsos médiuns e comunicações com os mortos. Escritora relativamente famosa, ela é procurada por Robert Mallory (Dominic West), o diretor de uma escola para meninos que vem, segundo ele, sendo assombrado por fantasmas que provavelmente tem relação com uma tragédia ocorrida na mansão alguns anos antes. Mesmo pouco interessada, Florence aceita o desafio de provar que tudo não passa de imaginação ou armação, e assim que chega na escola sente-se aceita pela governanta, Maud (Imelda Staunton), e procura se informar a respeito de tudo que acontece no local - ainda chocado com a recente morte de um aluno. Quando percebe que talvez haja realmente algo de estranho na história, Florence pede que todos os alunos sejam mandados para casa. Ficam na imensa propriedade apenas ela, Mallory, Maud, um empregado e um aluno, Thomas Hill (Isaac Hempstead Wright) - e revelações irão testar a coragem e o ceticismo da experiente caçadora de mentiras.


O roteiro de Stephen Volck e do diretor Nick Murphy usa e abusa de todos os clichês do gênero, mas felizmente o fazem de forma inteligente, inserindo aos poucos todos os elementos de sua trama e sem exagerar nos sustos. Sua opção acertada em apostar na atmosfera lúgubre e nos personagens - interessantes e bem desenvolvidos - faz toda a diferença: mesmo que a história seja quase derivativa em seus desdobramentos, ela prende a atenção por se levar a sério e realmente envolver o espectador. Rebecca Hall é a atriz ideal para o papel principal, com seu rosto quase frio e postura pétrea; seus embates com Imelda Staunton - uma atriz gigantesca quando tem a oportunidade de mostrar seu talento - são hipnotizantes e compensam alguns momentos mortos. Já a química entre Hall e Dominic West não é tão eletrizante: ambos são bons atores mas falta algo para que o relacionamento entre Florence e Mallory convença a plateia (talvez o fato de ambos transmitirem uma aura pouco expansiva e/ou carismática). Ainda assim, o roteiro leva a trama até o final sem maiores tropeços, oferecendo um bom espetáculo aos fãs de um filme de terror elegante e sutil.

Fugindo dos sustos óbvios e seguindo um caminho de mais sugestão e menos terror - que muito deu certo nos filmes de Shyamalan, Amenábar e Bayona citados no primeiro parágrafo -, "O despertar" faz parte de uma linhagem de produções que tentam resgatar o clima nostálgico de clássicos do gênero. Acerta em boa parte do tempo (a ambientação, a direção cuidadosa, o elenco bem escalado), mas não é um filme perfeito: se estende sem necessidade, falha em criar uma empatia entre a protagonista e o público e não assusta tanto quanto deveria. Porém, diante da enxurrada de filmes baratos de terror que chegam ao consumo do espectador sem oferecer mais do que roteiros pífios e atuações canhestras, é um bálsamo. Merece ser descoberto e recomendado!

terça-feira, 20 de junho de 2017

O DESTINO MUDOU SUA VIDA

O DESTINO MUDOU SUA VIDA (Coal miner's daughter, 1980, Universal Pictures, 124min) Direção: Michael Apted. Roteiro: Tom Rickman, livro de Loretta Lynn, George Vecsey. Fotografia: Ralf D. Bode. Montagem: Arthur Schmidt. Figurino: Joe I. Tompkins. Direção de arte/cenários: John W. Corso/John M. Dwyer. Produção executiva: Bob Larson. Produção: Bernard Schwartz. Elenco: Sissy Spacek, Tommy Lee Jones, Beverly D'Angelo, Levon Helm, Phyllis Boyens. Estreia: 07/3/80

07 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz (Sissy Spacek), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Direção de Arte/Cenários, Som
Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Sissy Spacek)
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme (Comédia/Musical), Atriz Comédia/Musical (Sissy Spacek) 

Para muita gente (especialmente no Brasil), o nome Loretta Lynn não significa muita coisa. Nos EUA, porém, a história é bem diferente: uma das cantoras mais reconhecidas e famosas do país, Lynn tem inúmeros prêmios nas prateleiras (incluindo o Grammy) e é, desde a década de 60, uma referência em música country e gospel. O tamanho de sua importância é tanto que em 1980 ela recebeu uma das maiores homenagens que podem ser feitas a um artista vivo: um filme contando sua vida, produzido por um grande estúdio (a Universal Pictures) e com visibilidade e prestígio o bastante para chegar até a temporada de premiações e sair dela com alguns troféus muito ambicionados. Indicado ao Oscar de melhor filme, "O destino mudou sua vida" deu à Sissy Spacek a estatueta dourada de melhor atriz - além de todos os outros prêmios do ano, das associações de críticos ao Golden Globe. A chuva de aplausos reconhece justamente o melhor do filme, baseado em uma autobiografia da cantora, escrita em parceria com George Vecsey: convencional e sem muito brilho narrativo, "O destino mudou sua vida" deve seu sucesso à Spacek, convincente em todas as fases da personagem e mostrando um surpreendente talento vocal.

Escolhida pessoalmente pela própria Loretta Lynn para interpretá-la nas telas, e batendo até mesmo Meryl Streep na disputa pelo papel, Sissy Spacek mostra, em "O destino mudou sua vida", uma outra faceta de seu talento. Indicada ao Grammy de melhor vocal feminina em música country, ela não hesita em soltar a voz nas apresentações de Lynn, assim como sua parceira de cena Beverly D'Angelo, que interpreta a cantora Patsy Cline, grande inspiração da protagonista e que se torna sua amiga íntima durante sua trajetória rumo ao sucesso. Em sua preparação para o papel, Spacek acompanhou Lynn em uma de suas turnês, e, mantendo-se no personagem mesmo quando não estava diante das câmeras, ela impressiona com uma caracterização impecável, em expressão corporal, sotaque e, mais importante que tudo, compreensão dos variados estados de espírito de sua personagem. De adolescente insegura e apaixonada à artista consagrada, a Loretta Lynn criada pela atriz conquista pela força e pela honestidade de sua arte - surgida de suas experiências pessoais e totalmente autodidata.


O acontecimento mais importante da vida de Loretta - antes da fama e do sucesso - foi o encontro com aquele que seria seu futuro marido, Oliver 'Moon' Lynn (Tommy Lee Jones). O ano era 1947 e, com apenas 13 anos de idade, a filha mais velha de um mineiro do Kentucky, se apaixona à primeira vista, apesar da objeção dos pais. O casamento quase imediato sofre com a inexperiência da garota e a falta de jeito do marido, mas uma gravidez logo os une definitivamente e eles se mudam para Washington. Alguns mais mais tarde e já mãe de quatro filhos, Loretta é uma competente dona-de-casa e tem sua vida transformada com um presente aparentemente inútil que ganha do marido: um violão. Apaixonada por música, ela aprende sozinha a tocar e, com o apoio de Moon, começa a apresentar-se em festas locais de música country. Entusiasmada, passa a compor as próprias canções e, ao lado do marido, vai em busca do sucesso, procurando gravadoras e shows para demonstrar seu trabalho. Começa aí uma trajetória de êxito e respeito que a levará a se tornar uma das mais conhecidas cantoras country de sua geração.

Sem grandes acontecimentos dramáticos além da vida pessoal da protagonista, sacrificada em prol da carreira - e uma morte que o filme trata sem dar muita importância -, "O destino mudou sua vida" é uma produção correta, sem grandes escorregões mas igualmente sem muito brilho. Sissy Spacek realmente carrega o filme nas costas, com uma interpretação irretocável, mas a direção de Michael Apted (que depois levaria Sigourney Weaver e Jodie Foster à disputa pelo Oscar em "Nas montanhas dos gorilas", de 1988, e "Nell", de 1994, respectivamente) não consegue fazer milagres com um roteiro que, ao seguir a linha cronológica dos acontecimentos, serve apenas para retratar, sem muita inventividade, uma carreira linear e quase desinteressante - à parte o trabalho de Spacek, a história de Loretta não chega a entusiasmar àqueles que não conhecem sua música, e a edição tampouco ajuda (alguns minutos a menos não faria mal nenhum à trama). No final das contas, um filme honesto e bem realizado, mas que não justifica as sete indicações ao Oscar (incluindo melhor filme e roteiro adaptado). Vale por Sissy, uma grande atriz no papel de sua vida!

segunda-feira, 19 de junho de 2017

DE CASO COM A MÁFIA

DE CASO COM A MÁFIA (Married to the mob, 1988, Orion Pictures, 104min) Direção: Jonathan Demme. Roteiro: Barry Strugatz, Mark R. Burns. Fotografia: Tak Fujimoto. Montagem: Craig McKay. Música: David Byrne. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: Kristi Zea/Nina Ramsey. Produção executiva: Joel Simon, Bill Todman Jr.. Produção: Edward Saxon, Kenneth Utt. Elenco: Michelle Pfeiffer, Matthew Modine, Dean Stockwell, Alec Baldwin, Mercedes Ruehl, Joan Cusack, Oliver Platt, Nancy Travis, Chris Isaak. Estreia: 11/8/88

Indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante (Dean Stockwell)

Muitas vezes, especialmente em Hollywood, há males que vem pra bem. Quando o cineasta Jonathan Demme - já celebrado pela comédia maluca "Totalmente selvagem" - assumiu as rédeas do projeto de "De caso com a máfia", os atores cotados para os papéis principais eram Jessica Lange e Tom Cruise. Não que os dois astros fossem incapazes (Cruise era um astro em ascensão e Lange já tinha um Oscar de coadjuvante em casa há uns bons anos), mas é difícil imaginar como teria ficado o filme com suas presenças, afinal ela já era considerada uma atriz séria e ele povoava os sonhos de milhares de adolescentes desde "Top Gun: ases indomáveis" (86). No fim das contas, Cruise preferiu - apesar das mudanças no roteiro solicitadas por ele - seguir seu caminho de galã e fazer "Cocktail" (88) e Lange nem chegou a ser convidada para o elenco. Melhor assim: ele foi substituído por Matthew Modine (menos carismático, mas um ator bem melhor) e o principal papel feminino foi parar nas mãos de Michelle Pfeiffer, em vias de tornar-se uma das mais requisitadas atrizes da época (não à toa, foi indicada ao Oscar de coadjuvante no mesmo ano, por "Ligações perigosas", de Stephen Frears). O resultado é um filme alto astral, quase esquizofrênico em sua mistura de gêneros e uma das produções que empurraram Demme para o mainstream - e, em consequência, para o Oscar de melhor direção por "O silêncio dos inocentes", três anos depois.


Assim como fez em "Totalmente selvagem", Demme não se prende a um único estilo narrativo, obrigando o espectador a acompanhar seus personagens por uma série de desvios, que vão da comédia romântica ao filme de gângster, do humor quase pastelão de Almodóvar à violência de Scorsese. Conduzindo com segurança um roteiro que foge do convencional, ele imprime um ritmo próprio à trama, oferecendo uma experiência bem mais rica ao público do que simplesmente uma história sobre embates entre mafiosos e a polícia. Com uma trilha sonora vibrante - que inclui até mesmo Jorge Benjor - e um visual propositalmente cafona, "De caso com a máfia" é um filme que não se leva a sério, e nesse caminho de quase autodeboche ganha a simpatia imediata da plateia, cativada com sua comunicação fácil e direta. É lógico que, para isso, conta com a luminosidade de Michelle Pfeiffer (com ótimo timing cômico) e com a atuação inspirada de Dean Stockwell, que acabou concorrendo ao Oscar de coadjuvante por seu desempenho como um chefão do crime ameaçado pelo ciúme da esposa.


Matthew Modine, saído das filmagens de "Nascido para matar" (87) e ainda traumatizado pelos longos meses de trabalho com Stanley Kubrick declarava que não via nada de engraçado no roteiro - e talvez por isso mesmo sua atuação como o agente do FBI Mike Downey soe tão verdadeiramente dotada de frescor: assim como o ator estava em meio a um filme sem saber exatamente o que estava fazendo, seu personagem também é pego no meio de um furacão e precisa aprender a lidar com um misto de sentimentos inesperados. Downey é um policial infiltrado encarregado de vigiar a bela Angela (Michelle Pfeiffer), que acaba de ficar viúva do mafioso Frank deMarco (Alec Baldwin) - o FBI acredita que ela seja amante de outro integrante da máfia, o expansivo chefão Tony Russo (Dean Stockwell), e a missão de Downey é descobrir, através dela, algo que possa levar o criminoso à cadeia. Acontece que o próprio Downey acaba se apaixonando por Angela - que não só recusa as investidas de Russo como deseja viver uma vida longe do crime organizado, dos "amigos" do falecido marido e principalmente da mulher de Russo, a possessiva Connie (Mercedes Ruehl).

Deliciosamente sarcástico, "De caso com a máfia" tira sarro dos filmes de gângster de forma inteligente e perspicaz, sem precisar apelar para a sátira explícita ou citações óbvias. Ao retratar os mafiosos como pessoas incapazes de lidar com situações banais (como o casamento ou o ciúme), o roteiro não apenas lhes tira o glamour como os deixa extremamente próximos do espectador. Essa opção de privá-los da sensação de perigo constante não deixa de ser corajosa - especialmente porque uma das subtramas do filme tem a ver com o risco que o jovem policial corre de ser descoberto -, mas ao mesmo tempo dá ao resultado final um tom mais anárquico e iconoclasta, típico de Jonathan Demme antes de tornar-se o bem-comportado diretor de "Filadélfia" (93) e "Sob o domínio do mal" (2004). Com o brilho de Michelle Pfeiffer no auge da beleza, a química perfeita entre Dean Stockwell e Mercedes Ruehl e uma trilha sonora das mais empolgantes - quem não se deixa levar logo de cara com Rosemary Clooney cantando "Mambo italiano"? -, é uma comédia das mais espertas da década de 80, e uma prova de que até mesmo temas sombrios podem render boas gargalhadas.

domingo, 18 de junho de 2017

CUJO

CUJO (Cujo, 1983, Sunn Classic Pictures, 93min) Direção: Lewis Teague. Roteiro: Don Carlos Dunaway, Lauren Currier, romance de Stephen King. Fotografia: Jan De Bont. Montagem: Neil Travis. Música: Charles Bernstein. Figurino: Jack Buehler. Direção de arte/cenários: Guy Comtois/John Bergman. Produção: Daniel H. Blatt, Robert Singer. Elenco: Dee Wallace, Daniel Hugh-Kelly, Danny Pintauro, Christopher Stone, Ed Lauter, Kaiulani Lee. Estreia: 10/8/83

Tudo começou quando o escritor Stephen King deu de cara com o assustador cachorro de seu mecânico, enquanto aguardava o conserto de sua motocicleta. Criativo e com a imaginação à solta, não demorou para transformar esse encontro tão banal em um romance assustador, publicado em 1981 depois de um processo de escrita que ele mesmo não lembra de ter desenvolvido (cortesia de seu vício em álcool, então no auge). Transformado em filme dois anos depois de seu lançamento nas livrarias, "Cujo" chegou às telas em uma produção barata, dirigida por um cineasta pouco conhecido e com um elenco sem grandes estrelas. Tais circunstâncias, no entanto, não o impediram de atingir um alto grau de fidelidade a seu original literário e, melhor ainda, manter um nível de suspense capaz de grudar o espectador na poltrona até seus minutos finais. Graças a um grande domínio narrativo, uma edição enxuta e o belo trabalho de Dee Wallace (mais conhecida como a mãe de Elliott no sucesso "ET", de 1982), "Cujo" é um pequeno grande filme, uma pérola rápida (93 minutos contando com os créditos) e quase sempre esquecida (injustamente) dentre as dezenas de adaptações de obras de King.

O próprio King teve um envolvimento bastante efetivo na realização do filme, dirigido por Lewis Teague - que em seguida assinaria a segunda parceria de Michael Douglas e Kathleen Turner nas telas, a comédia "A joia do Nilo" (85): apesar de não estar creditado, colaborou ativamente no roteiro e chegou a declarar que a atuação de Dee Wallace era a melhor que ele já havia visto em uma adaptação de uma obra sua - o que talvez seja verdade se não forem contabilizados os trabalhos impecáveis de Kathy Bates em "Louca obsesão" (vencedor do Oscar) e "Eclipse total". Totalmente entregue à sua personagem, Wallace cumpre com louvor sua missão de deixar o público angustiado e tenso - a credibilidade que ela imprime em cada cena conduz a ação a um alto grau de claustrofobia e realismo que fazem o terço final do filme ser simplesmente um dos mais tensos exercícios de suspense dos anos 80. Sem medo de fazer de um animal doméstico um vilão dos mais violentos da história, "Cujo" transforma uma situação corriqueira em um puro pesadelo.


Apesar do cão São Bernardo ser o personagem-título e principal elemento da narrativa, os humanos é que dominam os dois primeiros terços do filme de Teague. Boa parte da ação inicial serve para apresentar a família Trenton, aparentemente parte de um lar feliz e bem estruturado: o pai, Vic (Daniel-Hugh Kelly) é publicitário e anda às voltas com um problema profissional que pode lhe custar o emprego; o filho pequeno, Ted (Danny Pintauro) é um menino feliz mas constantemente apavorado com o "monstro do armário"; e a mãe, Donna (Dee Wallace) é uma dona-de-casa dedicada e presente. Na verdade, porém, há um segredo que põe em risco seu casamento: ela tem um caso com o conquistador da cidade, Steve Kemp (Christopher Stone) - e sua culpa a impede de levar uma vida totalmente em paz. Enquanto se desenrola o drama doméstico, o cachorro do mecânico Joe Camber (Ed Lauter) é mordido por um morcego e desenvolve raiva, passando a atacar - e matar! - qualquer um que cruze seu caminho, inclusive seu dono. A viagem de sua esposa e de seu filho deixam sua oficina (localizada a alguns quilômetros da cidade) completamente abandonada - e é lá que Donna e o pequeno Ted ficarão à mercê de Cujo, quando o carro que estão levando para o conserto simplesmente se recusa a funcionar.

Presos em um carro em uma oficina distante, em um dia de calor extremo e sem condições de pedir ajuda - Vic também está fora da cidade, a trabalho -, mãe e filho iniciam uma odisseia de pavor, compartilhada de forma exata pela câmera detalhista do cineasta, que acompanha cada minuto de seu desespero com o máximo de tensão. A trilha sonora discreta e a edição competente do futuro diretor Jan De Bont completam o cenário, estabelecendo um panorama que permite ao público mergulhar sem reservas na história. Mesmo que apenas o ato final se concentre nos ataques de Cujo a mãe e filho, são exatamente esses poucos minutos (que parecem muito mais, devido ao talento do diretor em expandir a linha do medo até seu limite máximo) que permanecem na memória da plateia depois que os créditos finais surgem na tela. Mais do que um filme que mexe com os nervos do espectador, "Cujo" é a prova de que até mesmo as mais minimalistas histórias de Stephen King são capazes de se transformar em ótimos filmes - desde que contem com a equipe apropriada e não tentem inventar a roda. É um filme de suspense de tirar o sono - ou ao menos pensar duas vezes antes de mexer com qualquer cachorro.

sábado, 17 de junho de 2017

CREED: NASCIDO PARA LUTAR

CREED: NASCIDO PARA LUTAR (Creed, 2015, MGM/Warner Bros/New Line Cinema, 133min) Direção: Ryan Coogler. Roteiro: Ryan Coogler, Aaron Covington, estória de Ryan Coogler, personagens criados por Sylvester Stallone. Fotografia: Maryse Alberti. Montagem: Claudia Castello, Michael P. Shawver. Música: Ludwig Goransson. Figurino: Antoinette Messam, Emma Potter. Direção de arte/cenários: Hannah Beachler/Amanda Carroll. Produção executiva: Nicolas Stern. Produção: Robert Chartoff, William Chartoff, Sylvester Stallone, Kevin King-Templeton, Charles Winkler, David Winkler, Irwin Winkler. Elenco: Michael B. Jordan, Sylvester Stallone, Tessa Thompson, Phylicia Rashad, Andre Ward, Tony Bellew. Estreia: 19/11/15

Indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante (Sylvester Stallone)
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Sylvester Stallone)

Em 1977, "Rocky, um lutador" surpreendeu aos desavisados e saiu da cerimônia do Oscar com os prêmios de filme e direção - contra obras como "Taxi driver", "Rede de intrigas" e "Todos os homens do presidente". Desde então, seu criador e intérprete, Sylvester Stallone vem passando por altos e baixos, intercalando sucessos de bilheteria e crítica com bombas que quase acabaram com sua carreira. Para sua sorte, porém, seu personagem mais famoso - ao lado do questionável John Rambo - volta e meia ressurge para dar um novo gás à sua carreira. Em 2006, por exemplo, ele parecia ter encerrado sua trajetória, com o êxito quase inesperado de "Rocky Balboa", que ele mesmo estrelou e dirigiu e que arrecadou mais de 150 milhões de dólares mundo afora - provando que sua popularidade ainda estava longe de diminuir. Mas eis que, quase uma década mais tarde, um jovem cineasta negro chamado Ryan Coogler, aplaudido por um filme-denúncia de grande importância - "Fruitvale Station: a última parada" - resolveu que ainda não era hora de aposentar o icônico lutador. Depois de muito insistir com o próprio Stallone, Coogler finalmente o convenceu a abençoar o projeto de "Creed: nascido para matar" - onde Balboa, para surpresa de muitos, é um personagem coadjuvante. Tal demonstração de humildade do ator não passou despercebida - ele levou pra casa o Golden Globe, foi unanimemente elogiado pela imprensa e só não ganhou o Oscar porque Mark Rylance, de "Ponte dos espiões", lhe passou a perna na última hora.

Na verdade, o projeto de "Creed" surgiu antes mesmo da estreia de "Fruitvale Station" - e foi o sucesso do filme, baseado em uma história real, que fez com que o desejo de Ryan Coogler se tornasse realidade. A princípio relutantes em retornar ao universo de Rocky Balboa, tanto Sylvester Stallone quanto o produtor Irwin Winkler só aceitaram diante da ideia proposta pelo jovem diretor: contar não mais uma história sobre Balboa, mas sim utilizá-lo como uma ponte para a introdução de um outro personagem, consistente com a  mitologia dos filmes e de fácil comunicação até mesmo com a plateia que não foi criada tendo Rocky como referência cultural. Surgia assim a história de Adonis Creed, filho bastardo de um antigo rival e amigo do lutador, o igualmente memorável Apollo Creed (interpretado por Carl Weathers nos quatro primeiros capítulos da série), que aparece na vida de Rocky como uma lembrança do passado e inicia com ele uma relação de pai e filho que ajuda o aposentado atleta a enfrentar uma batalha ainda mais dolorosa e aparentemente invencível: um câncer.


A relação entre Creed e Balboa acabou sendo o principal atrativo para Stallone, que durante a pré-produção teve que lidar com um golpe dos mais devastadores: a morte de seu filho Sage, aos 36 anos de idade, vítima de um ataque cardíaco. Em uma ironia das mais cruéis, o veterano ator estava em vias de fazer um filme que tinha como um dos principais temas um relacionamento paternal e tinha sua vida pessoal virada do avesso com uma perda irreparável. Inteligente, Coogler usou tal tristeza a seu favor: não apenas fez o ator perceber que o trabalho lhe faria bem como explorou ao máximo o sentimento de finitude que ele vinha experimentando. O resultado não poderia ter sido melhor, e a crítica reconheceu: desde "Copland" (97), Stallone não recebia elogios tão calorosos a uma atuação, e a indicação ao Oscar de melhor ator coadjuvante (na condição inédita de favorito) apenas coroou um sucesso também comercial. Com uma renda de mais de 100 milhões de dólares apenas no mercado doméstico, "Creed" comprovou a perenidade de Rocky Balboa no coração do público.

Mas, apesar do apelo de Stallone junto às plateias, é injusto creditar apenas a ele o êxito de "Creed": com um roteiro que não tenta inventar a roda e faz uso apropriado de todos os clichês que fizeram da série um fenômeno cultural, Ryan Coogler  criou uma história universal de amor - aos amigos, à família, à namorada, ao esporte. E de quebra , acertou em cheio ao escolher seu ator principal. Carismático e talentoso, Michael B. Jordan já havia trabalhado com o diretor em "Fruitvale Station" - e foi responsável por boa parte da recepção positiva ao filme. Em "Creed" ele demonstra ainda mais poder de fogo ao dividir suas cenas com um monstro sagrado como Stallone e não se deixar eclipsar. Na pele de Adonis Creed, o jovem ator vai da fúria à tristeza, da solidão à paixão e do medo à ousadia em um piscar de olhos - e leva a plateia junto, até o final (quase previsível, mas ainda assim emocionante como nos melhores momentos dos filmes da série). Uma bem-vinda injeção de sangue novo em um personagem constantemente em reinvenção, "Creed: nascido para lutar" é um programa e tanto para os fãs - e até para aqueles raros espectadores que nunca ouviram falar em Rocky Balboa.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

TRAMA MACABRA

TRAMA MACABRA (Plot family, 1976, Universal Pictures, 120min) Direção: Alfred Hitchcock. Roteiro: Ernest Lehman, romance de Victor Canning. Fotografia: Leonard J. South. Montagem: J. Terry Williams. Música: John Williams. Figurino: Edith Head. Direção de arte/cenários: Henry Bumstead/James W. Payne. Produção: Alfred Hitchcock. Elenco: Bruce Dern, Barbara Harris, William Devane, Karen Black, Ed Lauter, Cathleen Nesbit. Estreia: 21/3/76

O 53º e último filme do mestre do suspense - lançado quatro anos antes de sua morte, em 29 de abril de 1980 - pode ser considerado também sua mais atípica produção. Tudo bem que seu senso de humor frequentemente cruel ainda pode ser visto em algumas sequências, mas "Trama macabra" em quase nada lembra o auge do cinema de Alfred Hitchcock: sem grandes momentos de tensão, sem cenas antológicas e com personagens não exatamente carismáticos ou simpáticos, a adaptação do romance de Victor Canning feita por Ernest Lehman (colaborador do cineasta no bem mais lembrado "Intriga internacional", de 1959) é, na verdade, uma comédia de humor negro com alguns (poucos) lances de suspense e um elenco sem os grandes astros que frequentemente enfeitavam as obras do cineasta. Não deixa de ser um melancólico final de carreira para um dos maiores diretores da história do cinema.

A seu favor, pode-se dizer que, mesmo com falhas, "Trama macabra" ainda é uma obra divertida, inteligente e capaz de prender a atenção do público até seu final (um tanto anticlimático, mas coerente com seu desenvolvimento e de certa forma esperto em fugir do caminho que parecia tomar em sua primeira metade). Mesmo aos 75 anos de idade e com a saúde frágil, Hitchcock sabia como manipular as expectativas de sua plateia, e, se o resultado final dessa sua comédia de erros não é mais consistente, é justo supor que boa parte da culpa vem do fato de que o cineasta estava, então, privado de três de seus maiores e mais importantes colaboradores: o editor George Tomasini, o diretor de fotografia Robert Burks (que havia morrido em um incêndio) e o compositor Bernard Herrmann (demitido pela Universal Pictures depois de ter sua trilha para "Cortina rasgada" recusada pelo estúdio). Por mais brilhante que fosse, Hitch já não estava mais confortável em seu meio - desde "Marnie: confissões de uma ladra" (64) ele vinha perdendo sua comunicação com o público e, pior ainda, não se conformava com as mudanças radicais que haviam passado a ditar as regras da indústria. Sem os grandes astros do passado com que havia trabalhado, sem suas musas inspiradoras e sem seus parceiros habituais nos bastidores, o diretor realizou "Trama macabra" quase como uma forma de mostrar que ainda tinha suas cartas na manga e que sabia se reinventar.


Buscando inspiração na obra do cineasta alemão Ernst Lubitsch, conhecido em Hollywood por suas comédias sofisticadas, Hitchcock fez de "Trama macabra" um desvio na sua filmografia e, pela primeira vez desde "O terceiro tiro" (56) optou pela leveza como tom narrativo, deixando de lado as neuroses e paranoias de suas obras mais celebradas. Impossibilitado de contar com Al Pacino ou Jack Nicholson em um dos papéis principais - o primeiro estava em alta devido ao sucesso de "O poderoso chefão" (72) e sua continuação, e o segundo estava ocupado nas filmagens de "Um estranho no ninho" (75), que lhe daria o primeiro Oscar - e depois de descartar Goldie Hawn e Liza Minnelli para viver a protagonista, Hitchcock acertou em escalar os menos conhecidos Bruce Dern e Barbara Harris como o casal central de sua estória. Ela interpreta a falsa paranormal Blanche Tyler, que ganha a vida oferecendo consultas a pessoas interessadas em comunicar-se com seus entes queridos já mortos - e ele é seu namorado, George Lumley, um taxista que lhe passa todas as informações necessárias para que as fraudes funcionem. O filme começa quando uma das clientes de Blanche,  a milionária Julia Rainbird (Cathleen Nesbitt) pede sua ajuda para encontrar um sobrinho, abandonado ainda bebê e que agora ela pretende fazer seu herdeiro. Entusiasmados com a possibilidade de embolsar um bom dinheiro com a situação, Blanche e George entram de cabeça na investigação sobre o paradeiro do tal sobrinho - e descobrem que tem muita coisa errada na história. Enquanto isso, o ambicioso Arthur Adamson (William Devane) - dono de uma joalheria - segue uma rotina de sequestros para aumentar sua coleção de pedras preciosas e nem desconfia que é, na verdade, o futuro herdeiro de uma fortuna.

O roteiro de Ernest Lehman é inteligente e apresenta seus personagens de maneira a nunca permitir ao público a antecipação de seus próximos movimentos - até o embate final, um tudo ou nada que, apesar de prometer bastante, não chega a empolgar. Talvez o maior problema do filme seja justamente a opção de Hitchcock em forçar humor em momentos que poderiam alcançar grande potência dramática - uma perseguição automobilística, por exemplo, em que os personagens principais agem como se estivessem em uma produção da Disney e não correndo um sério perigo de morte. Essa falha, por mais proposital que seja, enfraquece o resultado final de "Trama macabra" a ponto de transformar o filme em uma obra esquecível e decepcionante - mas mesmo assim acima da média. Graças ao talento de Hitchcock em dominar as regras do seu próprio jogo, ele consegue transformar um filme menor em um entretenimento no mínimo agradável. Pouco para quem, como ele, assinou obras-primas incontestáveis - mas bem mais do muita gente já tentou realizar.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

COMO EU ERA ANTES DE VOCÊ

COMO EU ERA ANTES DE VOCÊ (Me before you, 2016, MGM/New Line Cinema, 106min) Direção: Thea Sharrock. Roteiro: Jojo Moyes, romance de Jojo Moyes. Fotografia: Remi Adefarasin. Montagem: John Wilson. Música: Craig Armstrong. Figurino: Jill Taylor. Direção de arte/cenários: Andrew McAlpine/Sara Wan. Produção executiva: Sue Baden-Powell, Trent Walton. Produção: Alison Owen, Karen Rosenfelt. Elenco: Emilia Clarke, Sam Claffin, Janet McTeer, Charles Dance, Vanessa Kirby, Samantha Spiro, Brendan Coyle, Jenna Coleman, Stephen Peacocke. Estreia: 23/5/16

Até a estreia de "Game of thrones", em 2011, a britânica Emilia Clarke era uma ilustre desconhecida do grande público. Porém, bastou uma única temporada da série, baseada em livros de George R.R. Martin, para que a intérprete de Daenerys Targaryen se tornasse um rosto mundialmente popular, assim como o restante do vasto elenco. Para confirmar seu status de estrela, no entanto, lhe faltava ainda um sucesso na tela grande, que a apresentasse também ao público imune à febre causada pela vitoriosa produção da HBO. Tal situação foi resolvida da melhor maneira possível: unindo o rosto de Clarke à adaptação de um romance best-seller, "Como eu era antes de você" provou-se um êxito senão previsível, ao menos pouco surpreendente: arrecadou mais de 200 milhões de dólares mundo afora e emocionou os espectadores mais sensíveis, seduzidos por uma história de amor à moda antiga, bem-humorada e delicada. É difícil saber se tamanha aprovação se deve mais à fidelidade dos leitores do livro de Jojo Moyes ou dos fãs de "Game of thrones" - o fato é que o filme de estreia da cineasta Thea Sharrock cumpre exatamente o que promete e, se não é inesquecível, ao menos diverte e envolve seu público-alvo com uma narrativa dinâmica e sensível.

Anos-luz distante de sua personagem em "Game of thrones", Emilia Clarke demonstra carisma o bastante para encarar o desafio de interpretar uma jovem comum, sem efeitos visuais ou cenários mirabolantes para dividir com ela as atenções. Ela vive Louisa Clark, uma bem-humorada e otimista garota inglesa que, depois de perder o emprego como atendente de uma charmosa padaria que acaba de fechar as portas, vê-se diante do desafio de encontrar um novo trabalho, que a ajude a complementar a renda da família. Depois de alguma procura, ela parece encontrar uma posição satisfatória: ser cuidadora de um rapaz tetraplégico, filho de uma das famílias mais ricas da região. Will Traynor (Sam Claffin), atropelado por uma moto e sem movimento abaixo do pescoço desde então, vive em um anexo à mansão de seus pais, perdeu totalmente o interesse na vida e, a princípio, não se deixa conquistar pela alegria contagiante de Louisa. Com o passar do tempo, porém, as coisas começam a mudar: seduzido pelo entusiasmo de sua nova cuidadora, Will aceita acompanhá-la em programas que até então considerava perdidos, como viagens, concertos e até a festa de casamento de sua ex-namorada. O que ele não sabe é que Louisa descobriu que ele tem planos de cometer suicídio assistido - e, apaixonada, quer fazê-lo desistir dessa ideia e mantê-lo a seu lado.


Apesar do tema doloroso, "Como eu era antes de você" tem a seu favor uma leveza inesperada - cortesia de Jojo Moyes, autora do romance original e do roteiro que adapta seu livro com o máximo de fidelidade à trama e a seu espírito romântico. O otimismo incorrigível de Louisa - encarnada com ritmo correto por Emilia Clarke - é o contraponto perfeito para a melancolia de Traynor, e sua combinação de espíritos é a sustentação de uma história que não apresenta grandes novidades mas sabe manipular com destreza os clichês que a formam. Primeiro longa-metragem da diretora Thea Sharrock - com experiência em episódios de séries de TV e demonstrando um apropriado timing tanto para o humor quanto para o romance, "Como eu era antes de você" é uma feliz união de um roteiro simples e de fácil comunicação com seu público, uma dupla central carismática e talentosa e o apelo sempre irresistível de um melodrama bem construído. Some-se a isso um visual moderno e atraente, uma trilha sonora convidativa (com duas canções de Ed Sheeran em momentos-chave) e o sucesso é inevitável.

Assim como em "A culpa é das estrelas" - baseado em romance de John Green e também muito bem-sucedido em sua versão cinematográfica - e nas adaptações dos livros de Nicholas Sparks, é certo que boa parte do êxito comercial de "Como eu era antes de você" se deve aos leitores que, encantados com a trama criada por Jojo Moyes, correram aos cinemas para ver nas telas a personificação de seus personagens (interessantes e bem desenvolvidos na medida do possível dentro de um filme de gênero e sem maiores pretensões). Porém, não é preciso ter tido contato com a obra original para se deixar conquistar: fluido e leve, engraçado e comovente, o filme de Sharrock é uma boa surpresa para aqueles que procuram um entretenimento livre de efeitos visuais de última geração e sexo gratuito. Sensível e discreto, "Como eu era antes de você" é uma adaptação digna e honesta, valorizada por seus atores - Charles Dance e Janet McTeer completam o elenco, como os pais de Traynor - e calorosa em suas intenções. Só há contraindicações àqueles que definitivamente não gostam de histórias de amor: para os demais é só preparar a caixa de lenços.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

COLORS: AS CORES DA VIOLÊNCIA

COLORS: AS CORES DA VIOLÊNCIA (Colors, 1988, Orion Pictures, 120min) Direção: Dennis Hopper. Roteiro: Michael Schiffer, estória de Michael Schiffer, Richard DiLello. Fotografia: Haskell Wexler. Montagem: Robert Estrin. Música: Herbie Hancock. Direção de arte/cenários: Ron Foreman/Ernie Bishop. Produção: Robert H. Solo. Elenco: Sean Penn, Robert Duvall, Maria Conchita Alonso, Don Cheadle, Damon Wayans, Leon, Mario Lopez. Estreia: 15/4/88

No final da década de 80, a cidade de Los Angeles enfrentava, em seu dia-a-dia, um fenômeno dos mais perigosos: a proliferação de gangues, que agiam nos subúrbios, provocavam ondas de violência e batiam de frente com a força policial - dedicada e corajosa, mas praticamente impotente diante da abissal desigualdade numérica. Enquanto os policiais contavam com uma equipe de cerca de 250 homens e mulheres, os membros de gangues chegavam a 70.000 (espalhados em quase 600 grupos diferentes). Diante desse quadro aterrador, Dennis Hopper não viu outra solução senão modificar o roteiro original de Michael Schiffer - que versava sobre traficantes de drogas em Chicago - para retratar, com o máximo de frieza e realismo, o embate entre os dois lados da lei em seu quarto longa-metragem como diretor (e oito anos depois de sua última incursão na função, com "Anos de rebeldia"). Com o cenário e o pano de fundo modificados por Schiffer, surgia então "Colors: as cores da violência", um sucesso inesperado de bilheteria que esfregava na cara do espectador uma realidade até então conhecida apenas através de telejornais ou romantizações vindas de Hollywood. Com membros de gangues contratados como extras e seguranças da equipe, "Colors" conseguiu o feito raro de promover um cessar-fogo provisório durante as filmagens - e reacendeu a polêmica da violência no cinema quando, em algumas salas de exibição, provocou tumultos e distúrbios.

A crueza do tema e da realização de Hopper - que filma quase como um documentário, com cenas que mal se conectam entre si e são fotografadas de forma nervosa e urgente - espalhou-se também para os bastidores da produção, quando seu astro, Sean Penn, foi preso e passou trinta e três dias na cadeia por ter agredido um paparazzo (vale lembrar que, na época, ele era casado com Madonna, e os dois frequentavam os tabloides sensacionalistas com assiduidade quase religiosa). Da mesma forma, um ataque a tiros em um funeral (em uma cena crucial do filme) foi praticamente repetida a poucos metros de distância da filmagem, para descrédito de alguns críticos um tanto quanto céticos em relação ao realismo da sequência. A despeito de tal grau de realismo, porém, o resultado final do filme não deixa de ser surpreendentemente morno - uma quase decepção, especialmente por ser dirigido por um dos ícones da rebeldia no cinema e autor de um dos filmes seminais da contracultura, o clássico "Sem destino" (69). 





"Colors", apesar do visual sujo e do tom naturalista, peca por não envolver o público em sua trama, preferindo a denúncia social ao desenvolvimento dramático de seu roteiro, que dificilmente escapa dos clichês e tampouco apresenta personagens carismáticos o bastante para conquistar a plateia. Tanto o novato Danny McGavin (Sean Penn, bom ator como sempre) quanto o veterano Bob Hodges (Robert Duvall) parecem criados seguindo a regra consagrada pela série "Máquina mortífera", em que dois parceiros de personalidades diferentes se unem em prol do mesmo objetivo e passam a se admirar e respeitar mutuamente. Não há uma química muito consistente entre McGavin e Louisa (Maria Conchita Alonso), por exemplo: fica a impressão de que seu envolvimento acontece unicamente para acrescentar um obstáculo a mais no conflito entre o jovem policial e os integrantes das gangues - assim como a família feliz de Hodges serve como contraponto ao caos urbano e tenta dar densidade a um personagem que, não fosse o talento de Robert Duvall, seria igual a tantos outros já retratados pelo cinema norte-americano. Sem buscar novidades em sua narrativa, "Colors" destaca-se mesmo é pelo tema pulsante e pelo desempenho de seus atores principais.

Longe de ser um grande filme - as cenas de ação são formulaicas e editadas sem ritmo, falta empatia aos protagonistas e o roteiro é simplista ao extremo -, "Colors" se beneficia (e muito) do talento de Sean Penn e Robert Duvall. Atores extremamente competentes, eles conseguem extrair o que há de bom no roteiro e disfarçar a superficialidade da trama - basicamente a tentativa dos policiais de Los Angeles em acabar com a guerra entre gangues, mais especificamente entre os Bloods e os Crisps. Enquanto o mais experiente Hodges faz isso através do diálogo e de uma malandragem adquirida com os anos de prática, seu colega McGavin prefere apelar para a violência e a ameaça física. Nada que seja particularmente empolgante ou criativo a ponto de tornar-se memorável. É um filme que cumpre o que promete, mas deixa no ar a sensação de que poderia ter sido bem melhor, dados os talentos envolvidos. À época de seu lançamento teve seu impacto, mas não resistiu tão bem ao tempo e hoje dificilmente é capaz de surpreender aos espectadores mais exigentes.

terça-feira, 13 de junho de 2017

A CHEGADA

A CHEGADA (Arrival, 2016, Sony Entertainment,  116min) Direção: Denis Villeneuve. Roteiro: Eric Heisserer, conto "Story of your life", de Ted Chiang. Fotografia: Bradford Young. Montagem: Joe Walker. Música: Jóhan Jóhansson. Figurino: Renée April. Direção de arte/cenários: Patrice Vermette/Marie-Soleil Dénomné, Paul Hotte, André Valade. Produção executiva: Dan Cohen, Eric Heisserer, Karen Lunder, Tory Metzger, Milan Popelka, Stan Wlodkowski. Produção: Dan Levine, Shawn Levy, David Linde, Aaron Ryder. Elenco: Amy Adams, Jeremy Renner, Forest Whitaker, Michael Stuhlbarg, Mark O'Brien. Estreia: 01/9/16 (Festival de Veneza)

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Dennis Villeneuve), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Direção de Arte/Cenários, Edição de Som, Mixagem de Som
Vencedor do Oscar de Edição de Som 

Quando um filme - seja de ficção científica, seja do gênero que for - permanece na memória e no coração do espectador muito depois de seus créditos finais, certamente ele é muito mais do que um simples filme. Produções que ultrapassam os limites da arte e suscitam reflexões acerca de temas como destino, finitude e livre arbítrio tendem a tornar-se clássicas já em seu nascimento - haja visto obras como "2001: uma odisseia no espaço" (68), de Stanley Kubrick, e "Blade Runner: o caçador de androides" (82), de Ridley Scott, que se mantém no imaginário popular há décadas justamente por inserir, em um gênero específico, um vasto material intelectual e sensorial que vai além do que é exposto na tela, exercitando tanto o coração quanto o cérebro da plateia. Não chega a ser uma surpresa, portanto, que "A chegada" possa facilmente entrar na seleta lista dos grandes filmes de ficção científica da história do cinema - e que certamente irá resistir à passagem dos anos: inteligente, sensível e tecnicamente impecável, a primeira incursão do canadense Denis Villeneuve no gênero é simplesmente uma obra-prima que confirma o cineasta como uma das vozes mais originais e criativas a surgirem nos últimos anos.

Desde que seu "Incêndios" (2010) encantou o mundo e concorreu ao Oscar de melhor filme estrangeiro, Villeneuve passou a demonstrar, em sua filmografia, uma preocupação constante com a alma e a psicologia de seus personagens. Fossem eles baseados em livros consagrados ("O homem duplicado", baseado em José Saramago) ou dentro dos limites de filmes de gênero (o suspense "Os suspeitos" ou o policial "Sicário: terra de ninguém"), seus protagonistas viviam sempre no fio da navalha, torturados por questões pessoais que os empurravam à frente e mexiam com as engrenagens das tramas. Em "A chegada" não é diferente: com base no conto "Story of your life", de Ted Chiang, o roteiro de Eric Heisserer, apesar de se utilizar fartamente dos elementos da ficção científica, é escorado totalmente nas emoções muito humanas de sua personagem central, a linguista Louise Banks, interpretada com brilhantismo por Amy Adams. Por mais que os efeitos visuais originais e criativos imaginados pela equipe de Martine Bertrand e Patrice Vermette sejam empolgantes e fujam do lugar-comum, é o coração de Louise que sustenta a ação do filme, que preenche aos poucos os vácuos que o roteiro vai propositalmente deixando pelo caminho até o final avassalador e comovente. Genialmente concebido como uma espécie de quebra-cabeças cujas peças só vão fazer sentido quando a imagem estiver totalmente formada, o roteiro de "A chegada" é uma aula de narrativa - em que cada cena, cada linha de diálogo e cada silêncio é parte indispensável para o resultado final.


Quando começa, "A chegada" parece mais uma ficção científica convencional: doze naves espaciais de formato ovalado chegam à Terra, provocando pânico e desconfiança na população e nas lideranças mundiais. Em busca de comunicação com os visitantes, um coronel norte-americano, Weber (Forest Whitaker) recruta a linguista Louise Banks (Amy Adams), que já havia trabalhado para o governo em circunstâncias anteriores (e bem menos inusitadas). Louise se junta a um time de cientistas que inclui o matemático Ian Donnelly (Jeremy Renner) e centenas de pesquisadores espalhados pelo mundo. Conforme vai avançando em seus contatos com uma dupla de alienígenas - a quem eles batizam de Abbott e Costello - e aprendendo sua forma de comunicação, Louise passa a ter visões de sua vida e começa a questionar seu senso de realidade e até que ponto ela será capaz de controlar os limites de sua interação com os desconhecidos viajantes.

Contar qualquer detalhe a mais de "A chegada" é estragar a bela experiência que ele é. Descobrir as razões que trazem os alienígenas ao nosso planeta e de que forma seu contato com os humanos irá alterar o destino de Louise é uma das melhores e mais emocionantes surpresas de um filme que, apesar de ter em seu desfecho um de seus grandes trunfos, cresce a cada revisão. Cuidadosamente realizado - da fotografia suja de Bradford Young à música impactante de Jóhan Jóhansson - e dotado de uma inteligência rara em blockbusters (rendeu mais de 200 milhões de dólares nas bilheterias contra um orçamento relativamente baixo de 47 milhões), o filme de Villeneuve é uma viagem sensorial das mais empolgantes, que trata o espectador com respeito e jamais subestima sua capacidade intelectual. O que é injustificável é a ausência de Amy Adams entre as oito indicações ao Oscar recebidas pela produção - que incluíram melhor filme, diretor e roteiro adaptado: com uma atuação extraordinária que demonstra toda a extensão de seu talento dramático, Adams simplesmente carrega a plateia por uma trajetória emocional das mais enriquecedoras, capaz de prender a atenção do primeiro ao último minuto sem jamais cair no óbvio ou no previsível. Conduzido com elegância e segurança por um cineasta nitidamente apaixonado por sua história, "A chegada" é uma pequena obra-prima moderna - e que fez de Villeneuve o cineasta ideal para assinar a esperada continuação de "Blade Runner". Imperdível e inesquecível!

segunda-feira, 12 de junho de 2017

EU, CHRISTIANE F., 13 ANOS, DROGADA E PROSTITUÍDA

EU, CHRISTIANE F., 13 ANOS, DROGADA E PROSTITUÍDA (Christiane F.: Wir Kinder vom Banhof Zoo, 1981, Solaris Film, 138min) Direção: Ulrich Edel. Roteiro: Herman Weigel, Ulrich Edel, livro de Kari Hermann, Horst Rieck. Fotografia: Jurgen Jurges, Justus Pankau. Montagem: Jane Seitz. Música: Jurgen Knieper. Figurino: Myrella Bordt. Direção de arte/cenários: Sabine Eichinger, Harald Muchametow/Rainer Schaper, Holger Scholz. Produção: Bernd Eichinger, Hans Weth. Elenco: Natja Brunckhorst, Thomas Haustein, Jens Kuphal, Christiane Reichelt. Estreia: 02/4/81

Publicado em 1979 e imediatamente alçado à categoria de best-seller mundial, o livro "Eu, Christiane F., 13 anos, drogada e prostituída" chocou os leitores com sua descrição crua e detalhada de uma juventude perdida em meio ao consumo de drogas. Mesmo tendo a Alemanha dos anos 70 como cenário, o livro, escrito em primeira pessoa, fazia sentido em qualquer parte do planeta e, por isso, amedrontou pais e despertou discussões acaloradas - mas quase sempre inúteis. O fato é que, ao jogar luz sobre uma realidade pesada e que muita gente preferiria ignorar, o livro tornou-se fundamental em escancarar um lado feio e amargo da adolescência - e virou leitura quase obrigatória da época. Dois anos após seu lançamento nas livrarias, como era de se esperar, "Christiane F." chegou às telas - e, livre da influência pasteurizadora de Hollywood, chegou às telas da maneira mais fiel possível. Sem medo de soar sujo, desagradável e/ou realista demais, o filme de Ulrich Edel é um retrato doloroso e depressivo, mas bem-sucedido no que mais importa: a fidelidade ao clima decadente e claustrofóbico da obra original.

Virando sua câmera para ambientes desprovidos de glamour - e se utilizando de jovens viciados, prostitutas e afins como extras - o cineasta então estreante (e que depois mudaria o nome para Uli Edel e iria para Hollywood para assinar filmes como "Corpo em delito", estrelado por Madonna em 1992) mergulha sem medo do universo de sua protagonista, e equilibra sua ousadia com uma narrativa convencional e de fácil diálogo com a plateia. Mesmo sem poupar o público de cenas francamente indigestas, o diretor conta sua história sem sobressaltos e sem artifícios, estabelecendo desde suas primeiras cenas uma atmosfera de familiaridade que vai, aos poucos, se transformando em um cenário de desespero e decadência. Para isso, conta com a ajuda de Natja Brunkhorst, sua atriz principal: aos 14 anos durante as filmagens, a jovem intérprete é a personificação exata da personagem central. De aparência cândida e inocente quando vista pela primeira vez, ela vai se transformando diante do espectador - física e moralmente - de acordo com a descida a seu inferno pessoal, tratado no roteiro de forma séria e sem espaço para momentos de humor (mesmo o mais negro). A barra é pesada, e felizmente o filme não cai na tentação de aliviá-la para tornar o processo mais palatável ao público médio: assim como o livro que lhe deu origem, "Christiane F." é um soco no estômago - e um alerta atemporal a pais e educadores.


Quando o filme começa, Christiane é uma pré-adolescente de 13 anos igual a tantas outras: mora com a mãe e a irmã em um apartamento em Berlim, frequenta a escola regularmente e, vez ou outra, mente a idade para poder ser aceita em clubes da moda. Em um desses locais, o Sound, é que sua vida irá tomar rumo completamente oposto ao que seguia até então: acompanhando a melhor amiga, Kessi (Daniela Jaeger), ela conhece um outro mundo, bastante diverso do seu, e, encantada com as inúmeras possibilidades que se abrem diante dela (ainda que muitas delas pouco atraentes), mergulha em uma rotina de festas, shows de rock e, posteriormente consumo desenfreado de drogas. Parte de um grupo de adolescentes igualmente envolvidos com esse comportamento errático - no qual também participa Detlev (Thomas Haustein), por quem ela se apaixona - Christiane não demora a perceber que suas escolhas tem consequências trágicas e dolorosas. Viciada em heroína, ela segue o caminho do namorado e apela à prostituição como forma de manter seu novo estilo de vida.

Com uma trilha sonora recheada de canções de David Bowie - que faz uma participação especial como ele mesmo em uma sequência que dá início à travessia da protagonista rumo à autodestruição - e um visual sujo que traduz com perfeição o clima da história contada, "Christiane F." cumpre com louvor a missão a que se propõe: é uma adaptação fiel, um drama desconcertante sobre uma parcela representativa da juventude e um poderoso recorte de sua época. Ainda hoje bastante controverso e impactante, é um filme fundamental e um dos mais importantes sobre o assunto - que foge do filtro moralizador de Hollywood para buscar um tom de extrema honestidade, valorizado pelo elenco juvenil e absolutamente entregue. Um filme que resiste bravamente ao tempo!

domingo, 11 de junho de 2017

CAMINHOS VIOLENTOS

CAMINHOS VIOLENTOS (At close range, 1986, Hemdale, 111min) Direção: James Foley. Roteiro: Nicholas Kazan, estória de Nicholas Kazan, Elliott Lewitt. Fotografia: Juan Ruíz Anchia. Montagem: Howard Smith. Música: Patrick Leonard. Figurino: Hilary Rosenfeld. Direção de arte/cenários: Peter Jamison/R. Chris Westlund. Produção executiva: John Daly, Derek Gibson. Produção: Don Guest, Elliott Lewitt. Elenco: Christopher Walken, Sean Penn, Mary Stuart Masterson, Chris Penn, David Strathairn, Millie Perkins, Eileen Ryan, Kiefer Sutherland, Crispin Glover. Estreia: Fevereiro de 1986 (Festival de Berlim)

A parceria artística entre Madonna e Sean Penn - um dos casais mais explosivos e comentados da década de 80 - nunca foi exatamente auspiciosa. Seu único encontro nas telas foi no desastroso "Surpresa de Shangai" (86), um fracasso comercial e de crítica, e não fosse por manchetes frequentes expondo sua relação complicada - e algumas canções do álbum "True blue", lançado em 1984 - era bem possível que seu casamento tivesse passado à história sem maiores lembranças. Mas, justiça seja feita, se as carreiras de ambos entraram em curva ascendente depois do divórcio em 1989, ao menos uma colaboração entre os dois (ainda que indireta) pode ser creditada a seu favor: é de Madonna e seu parceiro musical de então, Patrick Leonard, a bela "Live to tell", tema musical de "Caminhos violentos", estrelado por Penn. Das primeiras imagens até os créditos finais, a melancólica canção pontua com firmeza uma história trágica e verdadeira, dirigida por James Foley - que também dirigiria a cantora em "Quem é essa garota?" (87) e em alguns videoclipes - e calcada visualmente nos filmes de rebeldia juvenil da década de 50. É um filme dramaticamente potente, escorado na atuação visceral do jovem ator e que confirma seu status de indisciplinado mais talentoso de sua geração.

Baseado em fatos reais, ocorridos no estado da Pensilvânia, "Caminhos violentos" é filmado por James Foley com uma clima crescente de claustrofobia e tensão, com uma fotografia crua e seca e uma edição direta e objetiva. Sem floreios estilísticos ou artifícios narrativos, o roteiro, escrito por Nicholas Kazan - filho de Elia, que dirigiu o ícone da rebeldia no cinema, James Dean, em seu filme de estreia, "Vidas amargas" (54) - opta pelo naturalismo, entregando ao espectador uma obra impactante e dolorosa, uma história pungente de amor e violência entre pai e filho, valorizada pelo embate de atuações entre Penn (então um jovem ator em começo de carreira) e Christopher Walken (já consagrado com um Oscar por "O franco-atirador", de 1978). Apesar de sua evidente entrega ao papel, Walken não foi, porém, a primeira escolha do diretor - quem o recusou foi ninguém menos que Robert DeNiro, que o considerou sombrio demais. Talvez DeNiro tivesse um pouco de razão (apesar de aceitar, pouco depois, viver o diabo em pessoa no impressionante "Coração satânico", de Alan Parker): o pai criminoso e cruel interpretado por Walken é, sem dúvida, um dos personagens mais intensos de uma carreira repleta deles, e sem dúvida, um de seus pontos altos.


Brad Whitewood, o personagem de Walken, é o centro da trama de "Caminhos violentos": um pai ausente que, depois de anos sem dar notícias, volta ao convívio dos dois filhos, Brad Jr. e Tommy (Sean Penn e Chris Penn, irmãos também na vida real). Quem se deixa seduzir facilmente pela vida de pequenos crimes do pai é Brad Jr., um rapaz que divide seu tempo entre alguns serviços mecânicos, consumo de drogas leves e o namoro com a delicada Terry (Mary Stuart Masterson): frequentando a casa do pai e participando de alguns de seus roubos de tratores, ele passa a vislumbrar uma vida menos sacrificada que poderá lhe ajudar a planejar um futuro com a namorada. As coisas saem do controle, porém, quando o rapaz percebe que a vida bandida do pai não se resume apenas a furtos supostamente inocentes: testemunha de uma fria queima de arquivo, Brad Jr. tentará, então, afastar-se da rede de violência que ameaça não apenas a sua própria sobrevivência, mas também das pessoas que ama.

Fracasso de bilheteria nos EUA mas elogiado pelos críticos europeus, "Caminhos violentos" foge dos padrões comerciais do cinemão de Hollywood ao eleger como protagonistas dois personagens pouco heróicos e/ou simpáticos. Mesmo que Brad Jr. lute contra o destino trágico que parece lhe ser inevitável e para isso bata de frente com o próprio pai, ele tampouco é um exemplo de conduta, errando com mais frequência do que acertando e envolvendo pessoas inocentes em um mundo de sangue e brutalidade. É graças ao trabalho irretocável de Sean Penn que ele conquista a simpatia do espectador e conduz a narrativa até o final avassalador, em um clímax cujo poder está centrado basicamente na química entre os dois atores e na direção segura de Foley - que se utiliza de todos os elementos dramáticos de forma a emoldurar uma trama densa e pessimista. Um dos trabalhos fundamentais da trajetória de Sean Penn rumo ao estrelato, "Caminhos violentos" é também, com justiça, um de seus filmes preferidos da década de 80 - uma obra imperdível.

sábado, 10 de junho de 2017

BUBBLE

BUBBLE (The bubble/Ha-Buah, 2006, Uchovsky Fox/Metro Productions, 90min) Direção: Eytan Fox. Roteiro: Eytan Fox, Gal Uchovsky. Fotografia: Yaron Scharf. Montagem: Yosef Grunfeld, Yaniv Rize. Música: Ivri Lider. Figurino: Oren Dar. Direção de arte/cenários: Oren Dar, Ido Dolev. Produção executiva: Leon Edery, Moshe Edery, Micky Rabinovitz, David Silber. Produção: Ronen Ben-Tal, Amir Feingold, Gal Uchovsky. Elenco: Ohad Knoller, Yousef  'Joe' Sweid, Daniella Wircer, Alon Freidmann, Zohar Liba. Estreia: 29/6/06

Tel Aviv, a segunda maior cidade de Israel, é frequentemente descrita como uma cidade cosmopolita e à parte - dentro do possível - dos violentos conflitos raciais que dividem o país. Justamente por isso apelidada carinhosamente de "A bolha", ela é o cenário e personagem de "Bubble", elogiado drama do diretor Eytan Fox, conhecido do público desde seu belo e romântico "Delicada relação" (2002) - que acompanhava de forma sensível o amor entre dois soldados israelitas. Novamente voltando sua câmera para uma história de amor homossexual - dessa vez com contornos políticos um pouco mais definidos e uma preocupação social mais explícita -, Fox consegue ser ainda mais feliz: premiado em diversos festivais de cinema voltados à comunidade LGBT, "Bubble" é um filme de várias camadas, com personagens bem desenvolvidos e uma trama que mescla romantismo e realismo em doses exatas - e que não se furta a criticar, de forma contundente, a cultura de ódio que separa judeus e palestinos.

Se Tel Aviv é chamada de "A bolha", o mesmo nome pode ser aplicado ao apartamento de um trio de amigos que moram na cidade e tentam levar a vida sem envolver-se em questões políticas. Noam (Ohad Knoller) acaba de sair de seu serviço militar e trabalha como vendedor em uma loja de discos; Yali (Alon Friedman) é gerente de um bar de propriedade de um casal de lésbicas; e Lulu (Daniella Wircer) é desenhista de moda. Seu pacto de manter-se longe de qualquer assunto que possa lhes fazer sair de seu mundo particular, porém, é alterado quando Noam conhece Ashraf (Yousef "Joe" Sweid), um árabe que chega à cidade de forma clandestina em busca de trabalho. Empregado por Yali e apaixonado por Noam, o rapaz precisa não apenas esconder sua origem mas também despistar seu modo de vida da própria família, que, conservadora, tem até um casamento arranjado para ele. A situação dramática de Ashraf - cujo cunhado é um importante membro do Jihad - acaba atingindo a todos, que passam a viver em constante tensão, e a fortalecer a relação entre ele e Noam, que não aceita ver sua relação ameaçada por questões religiosas.


Ao cercar sua dupla de protagonistas por coadjuvantes com histórias e dramas particulares - Lulu não se conforma com a atitude de um ex-amante que a abandonou depois de sua primeira noite e não enxerga que é alvo do amor platônico de um amigo; Yali vive uma relação de desejo e repulsa por um militar que conheceu no trabalho; a irmã de Ashraf está em vias de casar-se e é alvo da intolerância dos soldados da fronteira - o roteiro de "Bubble" cria um panorama rico e profundo de diferentes estilos de vida que fazem de Tel Aviv uma cidade com vida própria. Ao contrapor a rotina rígida dos árabes ortodoxos com a juventude que frequenta raves e assume uma existência desprovida de preconceitos de raça e orientação sexual, Eytan Fox traça um painel universal, retratando um mundo onde o moderno convive (nem sempre de forma harmoniosa) com o tradicional, e pessoas são vistas unicamente por sua religião e não por suas personalidades - únicas e ao mesmo tempo tão semelhantes. Fox equilibra com inteligência momentos românticos com sequências de tensão e busca até mesmo inserir humor quando é possível, amparado por uma trilha sonora eclética (que conta com a brasileira Bebel Gilberto) e por atuações inspiradas.

Com uma química transbordante entre seus atores principais - que transmitem a exata noção de familiaridade e intimidade que o roteiro exige - e um ritmo que vai envolvendo o espectador gradativamente até o final inesperado, "Bubble" é uma obra que ultrapassa a delimitação de "filme gay" - por mais que seu casal protagonista seja de homossexuais e outros gays tenham importância crucial na narrativa, sua intenção é jogar luz em um tema cada vez mais premente na sociedade mundial: a intolerância. A violência que está impregnada em cada sequência do filme, sempre à espreita e à espera de explodir, é a violência que existe em qualquer parte do mundo, contra gays, negros, indígenas, mulheres e praticantes de qualquer religião que não seja a "correta". Em seu filme, Fox deixa claro que é impossível permanecer dentro de uma bolha, distante do mundo: há sempre uma fresta por onde a realidade penetra, para fazer seus estragos - ou para despertar o melhor de cada um. "Bubble" é um filme que faz refletir enquanto conta sua história, e se emociona é porque consegue cativar o espectador com personagens humanos, verossímeis e encantadores, que parecem de carne e osso e que podem morar na casa ao lado. É um filme a ser descoberto e admirado por qualquer um que acredite no amor e na solidariedade.