sábado, 21 de janeiro de 2017

É APENAS O FIM DO MUNDO

É APENAS O FIM DO MUNDO (Juste la fin du monde, 2016, Sons of Manual/MK2 Productions/Téléfilm Canada, 97min) Direção: Xavier Dolan. Roteiro: Xavier Dolan, peça teatral de Jean-Luc Lagarce. Fotografia: André Turpin. Montagem: Xavier Dolan. Música: Gabriel Yared. Direção de arte/cenários: Colombe Raby/Pascale Deschênes. Produção executiva: Patrick Roy. Produção: Sylvain Corbeil, Xavier Dolan, Nancy Grant, Elisha Karmitz, Nathanael Karmitz, Michel Merkt. Elenco: Gaspard Ulliel, Marion Cotillard, Vincent Cassel, Léa Seydoux, Nathalie Baye. Estreia: 19/5/16 (Festival de Cannes)

Um perfeito exemplo de que nem mesmo a crítica é capaz de chegar a um consenso quando se trata de arte é o filme "É apenas o fim do mundo", sexto longa-metragem do jovem canadense Xavier Dolan: vaiado pela imprensa na ocasião de sua estreia no Festival de Cannes de 2016, o filme acabou saindo da Riviera Francesa com o Grande Prêmio do Júri Oficial e o Prêmio do Júri Ecumênico, além de ter ficado entre os nove pré-finalistas ao Oscar de melhor filme estrangeiro do ano. Sucesso de bilheteria na França, onde arrastou mais de 1 milhão de pessoas às salas de cinema, a adaptação da peça teatral de Jean-Luc Lagarce é, talvez, o mais maduro filme do diretor, que mantém nele suas características mais importantes mas consegue, ao mesmo tempo, administrar sua tendência ao excesso e entregar à plateia uma obra dramaticamente consistente e visualmente atraente, com um equilíbrio excepcional entre as linguagens do teatro e do cinema e um elenco excepcional.

Encontrando no texto de Lagarce - inspirado em suas próprias vivências familiares - uma matéria-prima que vai ao encontro de sua coerente filmografia até o momento, Xavier Dolan constrói uma atmosfera claustrofóbica e melancólica que, como qualquer bom teatro, vai se avolumando gradativamente até a explosão final, catártica e emocional. Ao contrário de seus filmes anteriores, onde os conflitos eram sempre resolvidos no grito - do início ao fim da projeção - em "É apenas o fim do mundo" os dramas são tratados de forma discreta, sutil, em fogo brando, dando apenas pequenas mostras do turbilhão que se passa nos corações e nas mentes de seus personagens, todos com uma saudável cota de problemas e angústias. Utilizando com inteligência a linguagem cinematográfica, ele faz uso exemplar dos silêncios reveladores e da edição minimalista, que revelam com parcimônia o clima de desespero e nostalgia que acompanha a visita do protagonista à casa dos pais, doze anos depois de sua deserção. Vivido com brilhante suavidade por Gaspard Ulliel (que foi o herói romântico de "Eterno amor" (04), de Jean-Pierre Jeunet), o escritor Louis Knipper é mais um alter-ego do cineasta, mas concebido com mais nuances e menos agressividade - uma docilidade que contrasta com a violência de seus dramas pessoais.


Afastado da família há mais de uma década, Louis resolve fazer uma inesperada visita à cidade natal, com o objetivo declarado já em sua primeira fala, de "anunciar a sua morte". Assim que chega em casa, porém, o rapaz já se vê diante da dificuldade de expressar seus sentimentos, uma vez que todos parecem munidos de uma extrema incapacidade de empatia. Sua excêntrica mãe (Nathalie Baye) preocupa-se exclusivamente com o cardápio da ocasião, falando sem parar para disfarçar seu desconforto. Sua irmã caçula, Suzanne (Léa Seydoux) - com quem teve pouco contato - é uma jovem rebelde e hostil, que vê nele uma possibilidade de abandonar um lar opressivo e tedioso. Seu irmão mais velho, Antoine (Vincent Cassel), é bruto, amargo e pouco afeito a demonstrações de carinho - nem mesmo com a bela e fragilizada esposa, Catherine (Marion Cottilard). Sintomaticamente, é com ela, a única pessoa sem laços de sangue, que surge o maior entendimento: não é preciso palavras para que a frequentemente oprimida Catherine descubra o motivo da visita de Louis, que aos poucos passa a questionar a decisão de informar à família seu estado de saúde.

Com uma trilha sonora escolhida a dedo - desde a abertura com "Home is where it hurts", da cantora Camille, até os créditos finais ao som de "Natural blues", de Moby - Dolan pontua sua narrativa com imagens poderosas (um de seus pontos fortes) para ilustrar as muitas vezes dolorosas palavras escritas por Jean-Luc Lagarce, que encontram nos atores escolhidos pelo diretor seus intérpretes ideais. Gaspard Ulliel nunca esteve tão bem, transmitindo a dor de seu personagem mesmo sendo o mais silencioso dentre toda a barulhenta família. Nathalie Baye - que já havia trabalhado com o diretor em "Laurence anyways" (2012) - se entrega com corpo e alma à sua quase desagradável mãe, enquanto Vincent Cassel faz como ninguém o tipo "boçal com orgulho". Não à toa, ambos estão foram indicados ao César de coadjuvantes - o filme também está no páreo de melhores ator, diretor, montagem e filme estrangeiro. Mas é Marion Cottilard, mais uma vez, que rouba a cena. Com uma personagem que difere de tudo que já fez até então - uma mulher oprimida e quase humilhada por um marido abusivo - a vencedora do Oscar por "Piaf, um hino ao amor" (2008) mostra, mais uma vez, porque é uma das grandes atrizes de sua geração. Seus momentos de dor e compreensão com Gaspard Ulliel são o grande trunfo de "É apenas o fim do mundo", um filme de silêncios e segredos que aponta um novo caminho na carreira de Xavier Dolan. Difícil entender as vaias.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

KING COBRA

KING COBRA (King Cobra, 2016, Rabbit Bandini Productions, 91min) Direção: Justin Kelly. Roteiro: Justin Kelly, estória de Justin Kelly, D. Madison Savage, livro de Andrew E. Stoner, Peter A. Conway. Fotografia: Benjamin Loeb. Montagem: Joshua Raymond Lee. Música: Tim Kvanosky. Figurino: Matthew Simonelli. Direção de arte/cenários: Anastasia White/Christine Foley. Produção executiva: Brandon Baker, Edward Bass, Marla Lynn Brandon, Pichai Chirathivat, Michael Clofine, Matthew Helderman, Kim Jackson, Katie Leary, Jeffrey C. Leo, Joe Listhaus, Austin Renfroe, Jason Rose, Ron Simons, Luke Dylan Taylor, Jack Warner, Derek Zemrak. Produção: James Franco, Vince Jovilette, Scott Levenson, Jordan Yale Levine, Iris Torres. Elenco: Garrett Clayton, Christian Slater, James Franco, Alicia Silverstone, Keegan Allen, Molly Ringwald. Estreia: 16/4/16 (Tribeca Festival)

 É difícil saber o que os realizadores de "King Cobra" esperavam fazer. Se sua intenção era criar um novo "Boogie nights: prazer sem limites" (97), retratando de forma crua os bastidores da indústria do cinema pornô, deram com os burros n'água, porque seu diretor e roteirista Justin Kelly não tem nem de longe o mesmo talento de Paul Thomas Anderson. Porém, se o objetivo era chegar aos limites do trash com uma produção apelativa e por vezes canhestra que emula o espírito do objeto de seu estudo (os filmes de sexo explícito), pode-se dizer que fez um gol de placa. Produzido por James Franco - que se envolve muitas vezes em produções de gosto muitíssimo duvidoso - e sem medo de chocar ou surpreender o espectador (nem sempre de forma positiva), o filme é no mínimo curioso, mas dificilmente pode ser considerado bom cinema, ainda que sua coragem já lhe dê certa vantagem em uma indústria cada vez menos ousada, especialmente quando se trata de histórias gays.

Baseado em fatos reais contados em um livro de Andrew Stoner e Peter A. Conway, "King Cobra" acompanha os acontecimentos que levaram ao assassinato, em 2007, de Bryan Kocis, dono da Cobra Videos, especializada em filmes pornôs direcionados ao público homossexual masculino. Rebatizado como Stephen no filme dirigido por Justin Kelly, o empresário é vivido por Christian Slater em uma atuação corajosa e desprovida de tiques que pode ser considerada, sem medo, a melhor de sua carreira. Stephen é mostrado no filme como um homem comum, respeitado pela vizinhança e amado pela família mas que esconde de todos a real origem de sua vida confortável: como produtor de vídeos de sexo explícito, ele não apenas ganha dinheiro o suficiente para manter seus luxos mas também conhece rapazes com quem pode saciar seus desejos sexuais. É essa a relação que ele começa com o jovem Sean (Garrett Clayton), que se torna um dos mais populares astros de sua produtora, com o pseudônimo de Brent Corrigan. A relação entre eles - prejudicada pelo fato de Stephen querer dominar o rapaz de todas as formas possíveis - aos poucos começa a ficar complicada, e é aí que entram em cena os elementos catalisadores de toda a tragédia.


Garoto de programa agenciado pelo próprio namorado Joe (James Franco), o ambicioso Harlow (Keegan Allen) logo descobre, através do grande sucesso de Corrigan, que produzir seus próprios vídeos pode ser um meio fácil de sustentar a vida de excessos que a dupla leva. Aproveitando-se da vontade do jovem Corrigan em assumir o controle da sua vida, a dupla resolve tentá-lo com uma proposta tentadora - mas Stephen surge no meio do caminho, atrapalhando seus negócios. Uma reviravolta na história (relacionada ao contrato assinado pelo rapaz com o produtor) encaminha tudo para a violência e o crime. Nessa hora, é preciso dizer, o roteiro de Kelly é particularmente feliz, contando sua história sem apelar para os malabarismos narrativos que destruíram "Crimes em Wonderland" (2003), que falava sobre a decadência do ator pornô John Holmes (Val Kilmer). Mudando o tom chulo de sua primeira metade - que apresenta cenas de sexo filmadas sem glamour e de uma crueza admirável, ainda que questionável do ponto de vista estético - ele passa a apontar de forma simples e direta os motivos que levaram à trágica morte de Stephen/Bryan. É incômodo e desconfortável em muitos momentos, mas de certa forma, sua sinceridade acaba por amenizar seus defeitos visuais e transformá-los em estilo narrativo.

Não é difícil perceber, no entanto, que alguns defeitos de "King Cobra" são duros de engolir. O maior deles é a falta de carisma e talento do protagonista Garrett Clayton, que parece ter assumido o tom canastrão de seu personagem mesmo quando suas cenas não lhe exigem tal desempenho. Sua apatia fica ainda mais nítida quando comparada com a forma quase febril com que seus companheiros de elenco encaram o roteiro, em especial os atores mais conhecidos do elenco, Christian Slater (deixando definitivamente para trás o status de símbolo sexual adolescente dos anos 80) e James Franco (corajosamente brincando com sua imagem de bom moço). Com sequências que beiram o exagero sendo constantemente jogadas na tela (aparentemente sem critério mas que no fundo fazem parte de um conjunto doentiamente coerente), o filme acaba por assumir, quase sem querer, o status de cult - uma obra que, através dos excessos e da crueza visual e temática, pode vir a encontrar seu público junto a espectadores que buscam alternativas à pasteurização hollywoodiana mesmo que (e talvez exatamente por isso) elas quebrem seus paradigmas narrativos e estéticos. Além do mais, quase como um bônus, o elenco de "King Cobra" ainda traz outras surpresas, como Molly Ringwald (a garota de rosa shocking em pessoa) na pele da irmã de Stephen, e Alicia Silverstone como a mãe (?!) de Garrett. Não é um filme para qualquer público - pode chocar aos mais sensíveis - mas merece uma conferida por sua coragem em afrontar tudo que se espera de um filme com pretensões comerciais. Aplausos pela ousadia.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

A LONGA CAMINHADA DE BILLY LYNN

A LONGA CAMINHADA DE BILLY LYNN (Billy Lynn's long halftime walk, 2016, Bona Film Group/Film4/Ink Factory, 113min) Direção: Ang Lee. Roteiro: Jean-Christophe Castelli, romance de Ben Fountain. Fotografia: John Toll. Montagem: Tim Squyres. Música: Jeff Dana, Mychael Danna. Figurino: Joseph G. Aulisi. Direção de arte/cenários: Mark Friedberg/Elizabeth Keenan. Produção executiva: Brian Bell, Guo Guangchang, Jeff Robinov, Ben Waisbren. Produção: Stephen Cornwell, Ang Lee, Marc Platt, Rhodri Thomas. Elenco: Joe Alwyn, Garrett Hedlund, Arturo Castro, Mason Lee, Astro, Vin Diesel, Steve Martin, Kirsten Stewart, Chris Tucker, Tim Blake Nelson. Estreia: 14/10/16 (Festival de Nova York)

É incrível, mas mesmo um cineasta de imenso talento, como é o caso de Ang Lee (vencedor de dois Oscar de direção e um de filme estrangeiro) pode cometer grandes equívocos. O primeiro deles foi "Cavalgada com o diabo" (99), sobre a Guerra de Secessão e estrelado por Tobey Maguire. Depois, veio "Hulk" (2003), que apesar das qualidades é mais lembrado como um fracasso do que como um êxito comercial. E então, depois do enorme sucesso e dos prêmios por "As aventuras de Pi" (2012), surge "A longa caminhada de Billy Lynn", que não apenas naufragou nas bilheterias americanas (mal ultrapassou a marca de 1 milhão de dólares de arrecadação, contra seu orçamento de 40) como também colecionou críticas nada amigáveis da imprensa, normalmente bastante gentil com os filmes do cineasta. Enfatizando seu ritmo lento em excesso, sua falha em transmitir as mensagens que deseja e a fragilidade do roteiro - baseado em romance de Ben Fountain - as resenhas negativas infelizmente tem razão: o filme de Lee é indubitavelmente chato, e na maior parte do tempo falha sensivelmente em transmitir sua principal mensagem contra a guerra no Iraque.

Ao contrário do que fez o inglês Sam Mendes, que também criticava a intervenção americana no Oriente Médio em seu "Soldado anônimo" (2005) - também fracasso de bilheteria, mas elogiado e prestigiado pela crítica - o trabalho de Ang Lee não consegue, em momento algum, conquistar a empatia da plateia para seu protagonista, interpretado pelo britânico Joe Alwyn em sua estreia no cinema. Apesar de demonstrar talento, Alwyn é inexperiente para desviar das constantes armadilhas de um roteiro confuso, sem emoção e que dá a impressão de não caminhar para lugar algum. Diretor sensível e inteligente, Lee consegue extrair bons desempenhos de seus atores mesmo quando a tarefa parece árdua, mas esbarra em uma surpreendente incapacidade de fazer com que sua história seja atraente para o público, o que não deixa de ser decepcionante quando se trata de um homem que transformou um filme de kung-fu em arte pura com "O tigre e o dragão" (2000) e emocionou o mundo com um romance entre cowboys homossexuais em "O segredo de Brokeback Mountain" (2005). Talvez focado em experimentar um formato novo - com um número de frames muito superior ao convencional - o cineasta tenha deixado escapar o que de melhor ele sempre apresentou em sua filmografia: o sentimento acima de qualquer outro elemento narrativo.


Mesmo em filmes como "As aventuras de Pi", filmado em 3D e recheado de efeitos visuais fascinantes, Ang Lee nunca abriu mão de dar extrema atenção à verdadeira alma de seus trabalhos: os personagens. Em "A longa caminhada de Billy Lynn", porém, parece que ele esqueceu de seu mandamento primordial: não apenas o protagonista como todos os coadjuvantes carecem de força e de empatia, impedindo a plateia de conectar-se a suas reações e emoções. Essa falta absoluta de identificação do público com o personagem central é imperdoável, uma vez que o centro da narrativa é justamente a trajetória emocional de Billy, iluminada através de flashbacks que nem sempre funcionam como deveriam e por vezes chegam a atrapalhar a condução da história, mais confundindo do que esclarecendo. O roteiro, por sua vez, insinua o tempo todo que algo grandioso está sendo preparado para seu clímax e quando tem a oportunidade de converter esse restinho de expectativa em algo que justifique as quase duas horas de duração do filme, entrega um desfecho tão decepcionante quanto o resto da produção - se é que alguém da audiência ainda tinha esperanças de um final menos morno.

O pior é que a sinopse do filme de Lee é até instigante: Billy Lynn, o protagonista, é um jovem de 19 anos de idade tornado uma espécie de herói de guerra depois de um ato de coragem cometido durante um confronto no Iraque. Com sua ação filmada e televisionada, ele e seu pelotão (intitulado Brave Squad) conquistam a admiração incondicional do povo norte-americano a ponto de haver interesse até mesmo de Hollywood em transformar sua trajetória em filme. Para capitalizar em cima da popularidade do grupo, o exército dos EUA programa uma espécie de turnê dos soldados, culminando com sua apresentação no show de intervalo de um jogo de futebol transmitido no Dia de Ação de Graças. Nesse meio-tempo, Lynn conhece as diferenças entre o que se fala a respeito do conflito no Oriente Médio e o que realmente acontece nos campos de batalha - enquanto relembra também sua relação com a família. Essa trama, porém, não engrena, deixando o espectador sempre esperando que a ação vá começar a qualquer momento, o que não acontece jamais. "A longa caminhada de Billy Lynn" é um grande passo em falso na carreira de Ang Lee e um dos filmes mais decepcionantes da temporada 2016.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

COM A MALDADE NA ALMA

COM A MALDADE NA ALMA (Hush... hush, sweet Charlotte, 1964, 20th Century Fox, 133min) Direção: Robert Aldrich. Roteiro: Henry Farrell, Lukas Heller, estória de Henry Farrell. Fotografia: Joseph Biroc. Montagem: Michael Luciano. Música: De Vol. Figurino: Norma Koch. Direção de arte/cenários: William Glasgow/Raphael Bretton. Produção: Robert Aldrich. Elenco: Bette Davis, Olivia de Havilland, Joseph Cotten, Agnes Moorehead, Mary Astor, Victor Buono. Estreia: 15/12/64

7 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Agnes Moorehead), Fotografia em P&B, Montagem, Trilha Sonora Original, Canção ("Hush... Hush, Sweet Charlotte), Figurino em P&B, Direção de Arte/Cenários em P&B
Vencedor do Golden Globe de Atriz Coadjuvante (Agnes Moorehead) 

Depois do estrondoso sucesso de "O que terá acontecido a Baby Jane?" (62), todo mundo em Hollywood estava ansioso por um reencontro entre suas duas protagonistas, Bette Davis e Joan Crawford. Todo mundo exceto Robert Aldrich, o diretor do filme, que teve de lidar com a célebre e amplamente conhecida rivalidade entre elas durante as (e depois das) filmagens. Aldrich preferia qualquer coisa no mundo a ter de passar novamente pelo pesadelo de domar as duas megeras, mas como em Hollywood quem manda é o vil metal, em 1964 ele estava outra vez diante do desafio de dominar o furacão: com o objetivo puro e simples de capitalizar em cima da tendência inaugurada por "Baby Jane" - filmes de terror estrelados por grandes nomes da era de ouro do cinema, como "Almas mortas", que manteve Crawford em alta mesmo nos anos 60 - Aldrich aceitou o desafio de realizar "Com a maldade na alma", que seguiria à risca todos os mandamentos do gênero, com direito a cabeças rolando, suspense psicológico de almanaque e reviravoltas nem tão surpreendentes assim. A grande questão é que nem mesmo o cineasta - já devidamente escolado em bastidores problemáticos - poderia prever que a produção, criada como veículo para Bette e Joan, acabasse desfalcado de uma das estrelas e chegasse às telas com apenas metade do apelo comercial.

Chegando à locação prevista para o filme e já entrando em crise com Bette Davis - que fazia questão de ostentar uma situação mais confortável durante as filmagens - a pouco delicada Joan Crawford acabou não esquentando banco: depois de algumas semanas, nem precisou utilizar-se da cláusula que lhe desobrigava de participar das campanhas publicitárias do filme ao lado da colega de cena e foi demitida por Aldrich... e só ficou sabendo através dos jornais, devidamente avisados por Davis. É óbvio que tal situação não ajudou em nada a já complicada trajetória do filme - rebatizado como "Hush... Hush, Sweet Charlotte" depois que o original "O que terá acontecido à prima Charlotte" dava à produção um indisfarçável ar de caça-níqueis (o que na verdade ela era). Para substituir Crawford foi chamada Olivia de Havilland - que já havia ficado com um papel seu em "A dama enjaulada", do mesmo ano, e que tornou-se amiga inseparável de Bette Davis, a ponto de brindarem com Coca-cola toda manhã - vale lembrar que Joan fazia parte da diretoria da Pepsi à época. A entrada de Olivia no filme pode ter deixado os bastidores menos tensos (ou divertidos, dependendo do ponto de vista), mas certamente prejudicou o resultado final: "Com a maldade na alma" não tem a metade da inventividade, crueldade e do irresistível tom de decadência de "Baby Jane".


É lógico que um filme estrelado por Bette Davis já é, por si só, imperdível, uma vez que a grande atriz invariavelmente dá um show, mesmo quando tem em mãos um papel com possibilidades limitadas. Porém, "Com a maldade na alma" esbarra em um roteiro que se pretende cheio de reviravoltas quando, na verdade, apenas se estende desnecessariamente em uma trama muitas vezes enfadonha. O começo, é preciso que se diga, é sensacional: no final dos anos 20, um grandioso baile oferecido por um dos fazendeiros mais ricos de Baton Rouge, no sul dos EUA é abalado pelo cruel e violento assassinato de um homem, que tem a cabeça e uma das mãos decepadas com um cutelo. Imediatamente a culpa recai sobre a filha do dono da casa, Charlotte Hollis (Bette Davis), cujos planos de fugir com a vítima (casada) foram interrompidos pela covardia do rapaz. Décadas mais tarde, Charlotte vive sozinha na vasta propriedade da família, depois da morte do pai, e passa por dificuldades devido à desapropriação da fazenda para construção de uma ponte. Acreditando cegamente que quem está por trás da situação é a viúva de seu ex-amante, Jewel Mayhew (Mary Astor), ela fica aliviada com a chegada de uma prima há muito distante, Miriam Deering (Olivia de Havilland). Porém, Miriam, que antigamente era o interesse amoroso do médico de Charlotte, Drew Bayliss (Joseph Cotten), não chega para ajudar a prima a resolver a questão das terras e sim para ajudá-la na transição para uma nova vida, distante de onde ela foi criada. É o que basta para a sanidade mental de Charlotte começar a dar sérios sinais de declínio.

Sem o duelo de interpretações proporcionado por Davis e Crawford em "Baby Jane", "Com a maldade na alma" se sustenta basicamente no admirável talento da primeira em tirar leite de pedra. O roteiro parece não se decidir entre o trash e o suspense psicológico, mesclando cenas puramente camp com momentos em que busca soar como Alfred Hitchcock - inspiração óbvia desde o sucesso comercial de "Psicose" (60). Nem sempre funciona, mais por culpa de uma história bastante previsível do que pela direção de Aldrich (sempre tentando encontrar a maneira menos fácil de enxergar uma cena) ou pela atuação de seus atores, ainda que Olivia de Havilland nunca tenha parecido tão canastrona. A reviravolta da trama tampouco entusiasma ou surpreende aos espectadores mais escolados e somente Agnes Moorehead (de "A feiticeira") consegue sobressair-se, com um trabalho premiado com o Golden Globe e indicado ao Oscar - por incrível que pareça, o filme obteve uma recepção bem mais calorosa da Academia do que "Baby Jane", sendo indicado a sete estatuetas no ano em que "My fair lady" sagrou-se o grande campeão. Na pele da leal e corajosa empregada da solitária solteirona, Moorehead é a única que chega a ameaçar roubar a cena de Bette Davis, que, como sempre, entrega-se de corpo e alma a um filme, mesmo que ele não esteja entre seus melhores. É Davis, sempre ela, que faz "Com a maldade na alma" valer a pena. Nem que seja para assistir-se a mais um de seus shows particulares.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

CINE HOLLIÚDY

CINE HOLLIÚDY (Cine Holliúdy, 2013, Dowtown Films, 91min) Direção e roteiro: Halder Gomes. Fotografia: Carina Sanginitto. Montagem: Helgi Thor. Direção de arte/cenários: Juliana Ribeiro. Produção executiva: Halder Gomes, Dayane Queiroz. Produção: Halder Gomes. Elenco: Edmilson Filho, Miriam Freeland, Roberto Bomtempo, Joel Gomes, Rainer Cadete, Jesuíta Barbosa, Falcão. Estreia: 09/8/13

A princípio, um filme nacional cujo protagonista lembra Carlitos e que pode ser descrito como uma mistura entre "Cinema Paradiso" (1989), de Giuseppe Tornatore e "Bye bye, Brasil" (1976), de Cacá Diegues pode parecer um samba do crioulo doido, uma miscelânea sem sentido de estilos e nacionalidades com tudo para dar errado. Porém, quando a comédia "Cine Holliúdy" chega a seus créditos finais, depois de uma hora e meia de um humor ingênuo e despretensioso, é impossível ao espectador não ter se deixado cativar. Versão estendida de um curta-metragem do cineasta cearense Helder Gomes, o filme é uma lufada de ar fresco nas comédias pasteurizadas e rigidamente presas à fórmula já desgastada do tradicional cinema de humor brasileiro. Com raízes nitidamente regionalistas e sem ter vergonha delas - muito pelo contrário, as assume com extremo orgulho e as utiliza como mais um meio de fazer rir, através de um dialeto particular a ponto da necessidade de se utilizar legendas para melhor compreensão - "Cine Holliúdy" é uma grande e carinhosa brincadeira com a sétima arte, debochado e nostálgico em doses exatas. E de quebra ainda faz uma sutil crítica aos governos populistas e à chegada da televisão nos mais escondidos recantos do país, matando assim, a diversão popular representada pelo circo e pelas salas de cinema.


Apesar das leituras sociais e políticas que pode suscitar, porém, "Cine Holliúdy" é, acima de tudo, entretenimento. E dos bons. Simples, direto e sem medo de atingir o público pela pureza de seu humor quase infantil, o filme de Halder Gomes se beneficia de uma estrutura narrativa sem maiores ousadias e um protagonista cujo carisma gigantesco conquista o espectador logo de cara. Dotado de uma esperança e uma pureza que o tornam irresistível a qualquer público, Francisgleydisson é herdeiro direto do vagabundo de Chaplin, com seu humor físico de uma precisão cirúrgica e seu humanismo à toda prova. Não à toa, faz parte de sua receita uma criança (seu filho, que tem no pai seu maior e infalível ídolo) e uma dama (sua esposa, apaixonada pelo marido e disposta a qualquer sacrifício para manter-se a seu lado e alimentar seus sonhos). É esse triângulo familiar o alicerce no qual se sustenta a trama criada pelo cineasta, que mergulha no coração do Brasil dos anos 70 para contar uma história de amor ao cinema - mais especificamente o cinema de artes marciais que consagrou-se à época graças a filmes de Bruce Lee e outros menos cotados. São filmes assim que Francisgleydisson apresenta em seu cinema itinerante, que sofre com a concorrência da televisão e a burocracia que enfrenta em cada cidade a que chega.


Sem medo de apostar em estereótipos para alcançar com facilidade a simpatia do público, Helder Gomes acerta em cheio ao assumir o lado quase circense de seu filme. Quando Francisgleydisson e sua família chegam à uma pequena cidade do interior do Ceará para abrir seu "Cine Holliúdy", o que se vê na tela é um desfile de tipos impagáveis, invariavelmente com o objetivo de fazer rir através da identificação imediata. Muitas vezes sem mesmo um nome, os habitantes do lugar surgem para comentar a chegada da novidade, expor suas expectativas e, posteriormente, unir-se aos demais conterrâneos na fatídica exibição, um clímax cuidadosamente preparado para arrancar gargalhadas sem muito espaço para qualquer tipo de aprofundamentos psicológicos e/ou dramáticos. Em certos casos, seria um defeito. No filme de Gomes, é um gol de placa: de forma certeira ele apresenta seus personagens secundários com poucas linhas de texto e não é preciso mais nada para que todos eles já fiquem registrados na mente do espectador. O galã, o cego, o gay, a moça fogosa, o padre, o prefeito, a primeira-dama e outros tipos são apenas símbolos, arquétipos cômicos que fortalecem a proposta do cineasta em fazer de seu filme um microcosmo do Brasil, uma visão bem-humorada de um país que, mesmo afundado em uma ditadura militar, ainda não havia desistido de sonhar (e que metáfora melhor para o sonho do que uma tela de cinema?).

Diretor de dois filmes de temática espírita ("Bezerra de Menezes" e "As mães de Chico Xavier"), Helder Gomes encontrou em "Cine Holliúdy" sua voz definitiva. É um filme de personalidade forte e com o timing exato de humor e sensibilidade (em um equilíbrio inversamente proporcional ao italiano "Cinema Paradiso", de quem pega emprestado o nome e a temática), além de ser dono de uma brasilidade absolutamente indissociável de sua trama e protagonistas. Na pele do doce e sonhador Francisgleydisson, o ator Edmilson Filho - campeão de artes marciais que faz uso de seu impressionante talento para o humor físico para criar uma antológica sequência na parte final do filme - surge como uma grande revelação do cinema nacional, uma alternativa saudável e renovadora aos artifícios do chamado "cinema comercial brasileiro". Com seu carisma à serviço de um roteiro delicioso, de humor brejeiro mas nunca vulgar, ele transforma o filme em uma joia rara, digno de figurar entre as grandes comédias já produzidas no Brasil. Imperdível!

domingo, 15 de janeiro de 2017

INTERESTELAR

INTERESTELAR (Interstellar, 2014, Paramount Pictures/Warner Bros/Legendary Entertainment, 169min) Direção: Christopher Nolan. Roteiro: Christopher Nolan, Jontahan Nolan. Fotografia: Hoyte Van Hoytema. Montagem: Lee Smith. Música: Hans Zimmer. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: Nathan Crowley/Gary Fettis, Helen Kozora-Tell. Produção executiva: Jordan Goldberg, Jake Myers, Kip Thorne, Thomas Tull. Produção: Christopher Nolan, Lynda Obst, Emma Thomas. Elenco: Matthew McConaughey, Anne Hathaway, Jessica Chastain, Matt Damon, Michael Caine, Ellen Burstyn, David Oyelowo, Wes Bentley, William Devane, Casey Affleck, Topher Grace. Estreia: 26/10/14

5 indicações ao Oscar: Trilha Sonora Original, Direção de Arte/Cenários, Edição de Som, Mixagem de Som, Efeitos Visuais
Vencedor do Oscar de Efeitos Visuais 

Em 2006, quando ainda era um projeto da Paramount Pictures, "Interestelar" seria dirigido por um tal de Steven Spielberg, que contratou Jonathan Nolan para escrever o roteiro, inspirado em teorias científicas do físico Kip Thorne. A história original, que envolvia um conceito chamado de "caminho de minhoca" e várias outras situações que também inspiraram Carl Sagan a escrever seu clássico "Contato", acabou sendo deixada de lado pelo oscarizado cineasta em 2012, quando foi parar, então, nas mãos do irmão do roteirista, um homem que, em poucos anos de carreira, já havia redefinido os filmes de super-heróis com uma sombria trilogia protagonizada por Batman e criado um dos mais fascinantes e inteligentes filmes de ação da história ("A origem"): assumindo um projeto arriscado, caro (165 milhões de dólares) e sujeito à boa vontade de uma plateia mal-acostumada com blockbusters que não exigem muito do cérebro, Christopher Nolan transferiu a produção para sua casa (Warner Bros) e, com uma equipe de confiança a seu lado, realizou mais uma obra-prima que conquistou o público. Com mais de 600 milhões de dólares arrecadados ao redor do mundo, "Interestelar" - uma ficção científica empolgante, inteligente e emocionante - também colocou seu diretor em uma posição bastante privilegiada na indústria, ao ser o quarto filme seguido do diretor eleito como um dos dez melhores do ano pelo American Film Institute.

Como é comum na filmografia de Nolan, "Interestelar" se utiliza de uma técnica impecável para contar uma história que, no fundo, tem ressonâncias emocionais da mais alta profundidade. Sua receita de sucesso - contar com personagens fortes e ligações interpessoais que conectem a plateia com a trama, por mais complexa que ela possa parecer a princípio - mostrou-se vitoriosa principalmente em "A origem" (2010), e volta a funcionar à perfeição neste que talvez seja seu filme mais difícil até o momento. Longo (quase três horas de duração), dotado de um ritmo próprio que evita os clichês de filmes de ação e repleto de explicações científicas que poderiam assustar qualquer espectador acostumado às explosões sem sentido de Michael Bay, "Interestelar" é a prova cabal de que inteligência e diversão podem tranquilamente caminhar lado a lado - e que o público não é tão avesso quanto se pensa ao ato de por o cérebro para funcionar de vez em quando. Vencedor do Oscar de efeitos visuais - concorreu também às estatuetas de edição de som, mixagem de som, trilha sonora e direção de arte - o filme seduz pelo visual estonteante, mas se torna uma experiência única quando deixa a sensibilidade falar mais alto que a tecnologia.


A história imaginada por Nolan começa como mais uma produção sobre futuros distópicos, onde a humanidade está ameaçada de desaparecer diante de uma série de catástrofes que foram minando, pouco a pouco, todos os recursos naturais da Terra. É nesse ambiente desolador que o público é apresentado ao protagonista, Cooper (Matthew McConaughey), um engenheiro e piloto de testes da NASA tornado fazendeiro no Texas após a morte da esposa, e que tenta, a muito custo, manter a propriedade da família e cuidar dos dois filhos e do sogro. Seu destino, porém, logo lhe será revelado: após investigar o aparecimento de misteriosos sinais em sua fazenda, Cooper resolve seguir suas coordenadas e acaba parando em um bunker secreto, comandado pelo veterano John Brand (Michael Caine), um cientista com quem já havia trabalhado no passado. É Brand quem convence Cooper a entrar na mais perigosa aventura de sua vida: juntar-se a um pequeno grupo de exploradores - que inclui a filha de seu ex-chefe, Amelia (Anne Hathaway) - e viajar no espaço à procura de planetas que possam servir de salvação para o aparentemente inevitável extermínio da Terra e seus habitantes. Pensando nos filhos e na possibilidade de salvar a humanidade - um plano B seria o de colonização de outro ambiente propício à sobrevivência humana - Cooper aceita a missão, para desespero de sua filha, Murphy (Mackenzie Foy), uma menina de inteligência acima da média que se recusa a aceitar a partida do pai. A viagem exploratória começa, e é a partir daí que "Interestelar" pega todo mundo de surpresa.

Durante mais de duas horas, o roteiro dos irmãos Nolan segue o padrão dos filmes de ficção científica a que o público está habituado: efeitos visuais de primeira, alguns diálogos recheados de termos complexos, sequências de ação deslumbrantes e com altas doses de suspense, personagens que não são exatamente o que parecem. São seus trinta minutos finais, porém, que o tornam especial. Com uma reviravolta que põe em perspectiva tudo que foi mostrado até então e torna essenciais cada linha de diálogo e cada detalhe mostrados anteriores, a trama fecha um ciclo que, mais do que científico e metafísico, é essencialmente familiar e emotivo, oferecendo à uma Murphy adulta (e vivida com a competência de sempre por Jessica Chastain) uma importância crucial para um desfecho de arrepiar até ao mais cínico dos espectadores. Não importa se a plateia entende os conceitos de "buraco de minhoca" ou tem domínio da maior parte das explanações científicas da trama: é a humanidade que vem dos personagens que faz do filme universal e atemporal. Mais uma obra-prima de Christopher Nolan.

sábado, 14 de janeiro de 2017

O HOMEM IRRACIONAL

O HOMEM IRRACIONAL (Irrational man, 2015, Gravier Productions, 95min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Darius Khondji. Montagem: Alisa Lepselter. Figurino: Suzy Benzinger. Direção de arte/cenários: Carl Sprague/Jennifer Engel. Produção executiva: Ronald L. Chez, Adam B. Stern, Allan Teh. Produção: Letty Aronson, Stephen Tenenbaum, Edward Walson. Elenco: Joaquin Phoenix, Emma Stone, Parker Posey. Estreia: 15/5/15 (Festival de Cannes)

O método de trabalho de Woody Allen o preserva de um dos mais nocivos processos da indústria de Hollywood. Enquanto um filme seu é lançado e passa pelo longo e muitas vezes dolorido escrutínio da crítica e do público, ele já está mergulhado em outro projeto, a quilômetros de distância da obra anterior. É assim que sua carreira sobrevive firme e forte há mais mais de quatro décadas: sem deixar-se abalar pela recepção à sua vasta filmografia, que se divide entre pequenas obras-primas, filmes apenas corretos e alguns tropeços inquestionáveis. Pois foi saindo de um desses insucessos, o enfadonho "Magia ao luar" (2014) que Allen voltou a alguns de seus temas mais caros. Em "O homem irracional" ele mistura filosofia e literatura em uma trama de suspense que, assim como a maioria de seus trabalhos mais recentes, borra frequentemente a linha entre o bem e o mal de seu protagonista e surpreende a plateia com relevantes observações sobre a eterna discussão entre o certo e o errado. Não é estupendo como "Match point" (2005), mas significa vários passos adiante em relação a seu filme anterior - e é estrelado pela mesma Emma Stone.

Encantadora como sempre, Stone interpreta Jill Pollard, uma estudante de filosofia, brilhante e dedicada, que cai de amores pelo novo professor de sua universidade, o taciturno e misterioso Abe Lucas (Joaquin Phoenix exagerando na pose de pessimista de plantão). A fama de Lucas o procede quando ele chega à faculdade, mas ninguém sabe exatamente quais boatos a seu respeito são realmente verdadeiros. É verdade que seu melhor amigo morreu enquanto trabalhava em uma guerra? Foi esse mesmo amigo que lhe roubou a mulher e lhe jogou em uma profunda depressão? E sua reputação de mulherengo procede? Parece que sim, ou ao menos em parte, conforme Jill descobre com o tempo. Não apenas ela se apaixona por ele, a despeito de ter um namorado carinhoso, como tem que relevar o fato de que outra professora, Rita Richards (Parker Posey), não parece disposta a deixar o caminho livre para seu romance. Mesmo envolvido por Jill, porém, Lucas não consegue deixar de lado sua forma pouco agradável de ver a vida, até que um dia uma solução lhe aparece diante dos olhos: um assassinato que, a seu ver, vai ajudar a transformar o mundo em um lugar melhor. Mas será que essa maneira pouco ortodoxa de consertar o que está errado é justificável?


Quem é fã do cinema de Woody Allen vai ter muito a admirar em "O homem irracional", que apresenta sem disfarces muitas de suas características mais conhecidas, como os longos diálogos recheados de referências culturais sofisticadas e a extrema concisão no número de personagens e tramas paralelas. Concentrando todo seu foco nas relações de Abe Lucas com as duas mulheres que o cercam - e as consequências de suas ações aparentemente bem pensadas - o cineasta nova-iorquino mais uma vez explora a fascinante questão do crime como solução, mas, apesar das intenções ambiciosas, nem sempre atinge seu alvo. Talvez culpa da falta de carisma de Joaquin Phoenix, a falha do diretor em envolver o espectador de forma completa acaba por tornar seu filme uma espécie de ensaio de tudo o que realmente poderia ser. A ideia central é ótima, as reviravoltas são inteligentes e o final é imprevisível, mas existe uma apatia em seu protagonista que acaba por contagiar todo o resto da produção. Por mais que Emma Stone esteja ótima e Parker Posey brilhe em cada cena em que apareça, a ausência de empatia do espectador com o personagem central impede que a trama se torne ainda mais envolvente e praticamente anula o principal elemento do filme: a curiosidade sobre seu destino.

Ainda assim, "O homem irracional" apresenta muitas qualidades a serem apreciadas. Mestre em criar diálogos inteligentes e interessantes, Allen se utiliza de teorias filosóficas (de Kierkegaard a Hanna Arendt) para sublinhar os atos de seus personagens e lhes empresta características bastante humanas, ainda que por vezes esbarre na superficialidade. O filme também sofre com alguns problemas de ritmo, mas nada que atrapalhe o prazer que sempre é acompanhar os personagens neuróticos e brilhantes de um cineasta que, apesar da longevidade da carreira, ainda é capaz, ocasionalmente, de brindar o público com histórias fascinantes e relevantes. "O homem irracional" não se inscreve na lista de seus grandes filmes, mas é um entretenimento da qualidade que se espera de Woody Allen.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

HOLLYWOODLAND: BASTIDORES DA FAMA

HOLLYWOODLAND: BASTIDORES DA FAMA (Hollywoodland, 2006, Focus Features/Miramax, 126min) Direção: Allen Coulter. Roteiro: Paul Bernbaum. Fotografia: Jonathan Freeman. Montagem: Michael Berenbaum. Música: Marcelo Zarvos. Figurino: Julie Weiss. Direção de arte/cenários: Leslie McDonald/Odetta Stoddard. Produção executiva: J. Miles Dale, Jake Myers, Joe Pichirallo. Produção: Glenn Williamson. Elenco: Ben Affleck, Adrien Brody, Diane Lane, Bob Hoskins, Robin Tunney, Lois Smith. Estreia: 31/8/06 (Festival de Veneza)

Provavelmente apenas os mais dedicados estudiosos do cinema e da televisão conhecem - de nome e sem consultas ao Google - a trajetória do ator George Reeves, morto em 1959 depois de uma carreira marcada essencialmente por sua participação no seriado de tv "As aventuras do Super-homem", que permaneceu no ar entre 1952 e 1958 e no qual ele interpretava o super-herói de Krypton. Sentindo-se preso no papel que praticamente o impediu de ser levado a sério como ator dramático, Reeves foi encontrado morto, vítima de um tiro justamente na ocasião em que sua casa estava repleta de convidados. Foi suicídio ou homicídio? E, no caso de a segunda resposta for a correta, quem o cometeu? A jovem noiva, Leonore Lemmon (Robin Tunney)? A amante casada com um chefão da indústria de cinema, Toni Mannix (Diane Lane)? Ou o próprio executivo, Eddie Mannix (Bob Hoskins), vingando-se do adultério? Todas essas questões, ainda não definitivamente resolvidas, são a base de "Hollywoodland: bastidores da fama", filme que investiga, em tom ficcional, um caso que abalou a indústria do entretenimento americano à sua época. Comandado por Allen Coulter - experiente diretor de episódios de séries, como "Arquivo X", "Sex and the city", "A sete palmos", "Família Soprano" e "Roma" - e estrelado por um surpreendente Ben Affleck, o filme não chega a atingir todo o potencial de seu explosivo tema, mas é uma curiosa viagem pelos bastidores de Hollywood e os perigos da fogueira das vaidades que a cidade se orgulha em ser.

Na verdade, o roteiro se concentra em Louis Simo (Adrien Brody), um detetive particular com problemas no casamento que começa a investigar a morte de Reeves a partir do pedido da mãe da vítima, a aparentemente inconsolável Helen Bessolo (Lois Smith). Sabendo que o caso pode lhe dar a visibilidade necessária para que crie um nome respeitável na profissão, Simo passa a dedicar-se dia e noite à investigação - o que significa mergulhar não apenas na rotina do ator nas semanas imediatamente anteriores à sua morte, mas principalmente voltar no tempo, até os dias do começo de sua carreira, quando contou com a inestimável ajuda da bela Toni Mannix para manter-se confortavelmente e conseguir o papel de Super-homem em uma bem-sucedida série. Conforme vai avançando pelos meandros do sistema de entretenimento, Simo percebe que o glamour muitas vezes oferecido ao público nem sempre corresponde a bastidores saudáveis e/ou felizes. Esse choque de realidade o fará questionar a própria vida e carreira - principalmente quando, durante a investigação, passa a entender os sentimentos dúbios de Reeves em relação a seu status de ídolo popular.


Indicado ao Golden Globe de melhor ator em filme dramático e premiado no Festival de Veneza por sua atuação discreta e eficiente, Ben Affleck acerta o tom de seu George Reeves, criando um personagem repleto de idiossincrasias e nuances, fato raro em uma carreira marcada por severas críticas a seu talento como intérprete. Herdando um papel que quase foi de Hugh Jackman, ele deixa de lado sua persona de astro para tornar-se um ator real, imprimindo verdade e melancolia por baixo da máscara de vaidade e orgulho exibida por Reeves para o grande público. Não chega a ser uma atuação extraordinária e digna de um Oscar, mas é um grande passo para um ator que, à época, frequentava mais as manchetes sensacionalistas devido a seu romance com Jennifer Lopez - e o fracasso retumbante de filmes como "Contato de risco" (2003) e "Sobrevivendo ao Natal" (2004) - do que por seus méritos artísticos. Não à toa, seu trabalho chamou mais a atenção do público e da imprensa do que a interpretação sóbria e contida de Adrien Brody, que, desde seu inesperado Oscar por "O pianista" (2002) tenta encontrar um veículo adequado a seu modo quase sonolento de atuação. Na pele de Louis Simo ele nem precisa se esforçar muito para transmitir toda a sensação de tédio e desencanto que nasce das revelações que surgem em seu caminho - é uma interpretação minimalista que funciona, embora em alguns momentos dê a impressão de nunca atingir um clímax. E, de certa forma, esse é um problema do filme em si.

Mesmo tendo em mãos uma história intrigante e repleta de possibilidades, o roteirista Paul Bernbaum não consegue atingir todo seu potencial, principalmente por não conseguir fazer a conexão entre a história de Simo e a trajetória de Reeves de forma orgânica. Utilizando-se de flashbacks de forma confusa a maior parte do tempo, o filme tampouco ultrapassa a superficialidade quando trata dos bastidores de Hollywood, perdendo a chance de explorar um universo sempre rico e interessante. Diane Lane - que em 2015 viveu a esposa do roteirista Dalton Trumbo em "Trumbo: lista negra" - faz o que pode para dar vida a uma personagem dividida entre as aparências e a paixão, mas sofre com a irregularidade do roteiro. Sem apontar uma solução definitiva para o caso da morte de Reeves, o filme simplesmente levanta questões sem resolvê-las, para frustração do público que procura um desfecho mais contundente. É um bom filme, mas é incapaz de ficar na memória da plateia. Uma pena!

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

SETE MINUTOS DEPOIS DA MEIA-NOITE

SETE MINUTOS DEPOIS DA MEIA-NOITE (A monster calls, 2016, Apaches Entertainment, 108min) Direção: J.A. Bayona. Roteiro: Patrick Ness, romance homônimo de sua autoria, ideia de Siobhan Dowd. Fotografia: Oscar Faura. Montagem: Jaume Martí, Bernat Vilaplana. Música: Fernando Velázquez. Figurino: Steven Noble. Direção de arte/cenários: Eugenio Caballero/Pilar Revuelta. Produção executiva: Álvaro Augustin, Ghislain Barrois, Sandra Hermida, Jonathan King, Enrique López Lavigne, Patrick Ness, Bill Pohlad, Jeff Skoll, Patrick Wachsberger. Produção: Belén Atienza. Elenco: Lewis MacDougall, Felicity Jones, Sigourney Weaver, Liam Neeson, Toby Kebell, Geraldine Chaplin. Estreia: 09/9/16 (Festival de Toronto)

Aplaudido pelo mundo já em seu primeiro longa-metragem - o assustador "O orfanato" (2007) - e  posteriormente taxado de "o Steven Spielberg espanhol" por causa do sucesso de "O impossível" (2012), que deu uma indicação ao Oscar de melhor atriz à Naomi Watts, J.A. Bayona volta a mostrar sensibilidade na manipulação das emoções humanas (e principalmente infantis) em "Sete minutos depois da meia-noite", um impressionante e comovente drama de fantasia que, assim como "O labirinto do fauno" (2006), do mexicano Guillermo Del Toro, é uma ode à força da imaginação contra as tragédias do dia-a-dia. Ao contrário do premiado filme de Del Toro, porém, o filme de Bayona não fez tanto barulho nas bilheterias (cobriu seu orçamento apenas com a ajuda da arrecadação mundial) e foi solenemente ignorado pelo Oscar. Tal descaso, no entanto, não reflete nem de longe sua imensa qualidade: "Sete minutos depois da meia-noite" é um dos mais inteligentes e criativos filmes dos últimos anos, um devastador drama sobre amadurecimento disfarçado de aventura juvenil.

Inspirado em um livro infantil iniciado por Siobhan Dowd e finalizado por Patrick Ness após a morte do autor original, "Sete minutos depois da meia-noite" é um espetáculo visual de primeira linha à serviço de uma história fascinante e avassaladora, que trata de assuntos espinhosos com o verniz da fantasia e da imaginação pueril. O protagonista é Connor O'Malley (Lewis MacDougall), um menino irlandês de doze anos que está passando pelo pior período de sua curta existência: sua mãe (Felicity Jones, de "A teoria de tudo") está enfrentando um câncer terminal que a impede de conviver com ele de modo ideal; seu pai (Toby Kebell, de "Black Mirror") mora nos EUA com a nova família e não tem planos de incluí-lo em sua vida; sua avó (Sigourney Weaver), com quem não tem a melhor das relações, quer obrigá-lo a morar com ela; e na escola, ele sofre constante bullying por parte dos colegas mais fortes. Em uma noite, exatamente às 12:07, Connor recebe a visita de um monstro gigantesco em formato de árvore que avisa que irá visitá-lo sempre no mesmo horário para lhe contar três histórias que poderão lhe ajudar nessa fase da vida. O monstro completa o aviso informando-o também de que a última história será de sua autoria - e deverá explicar os motivos de seus pesadelos.


De forma brilhante e surpreendente, Bayona transforma um conto de solidão e trauma em um show de efeitos especiais que, ao invés de eclipsar a força da história, sublinha seu tom lúdico e fantástico. As narrativas do monstro são apresentadas em formato de animação, mas nada de esperar a estética Pixar ou Disney: o cineasta utiliza de cada uma das fábulas da apavorante criatura (com a voz de Liam Neeson e feições que vão se tornando mais humanas conforme a trama avança) para analisar, de maneira poética mas bastante contundente, todos os medos e sentimentos de Connor (e, por conseguinte, de boa parte da plateia, adulta ou não). Ao questionar fundamentos essenciais, como a bondade, a compaixão e a raiva, o roteiro do mesmo Patrick Ness que terminou o livro vai fortalecendo o caráter de seu protagonista e preparando-o para enfrentar o maior desafio de sua vida, que é encarar a morte da mãe e a maturidade precoce. É admirável os meios encontrados por Bayona e sua equipe em equilibrar tão organicamente a vida real de Connor e sua imaginação sem deixar que nenhuma das linhas narrativas sobreponha-se à outra - e mais importante ainda, que consiga fazer com que ambas se conectem tão naturalmente até o final, de uma tristeza profunda, mas dono de uma beleza incontestável.

Contando com um excepcional ator juvenil no papel principal - Lewis McDougall, que também participou do exótico "Peter Pan" (2015), de Joe Wright - e veteranos competentes entre os coadjuvantes - como Sigourney Weaver como sua irascível avó e Geraldine Chaplin, uma espécie de amuleto de sorte do diretor, tendo feito pontas em seus três trabalhos até aqui - "Sete minutos depois da meia-noite" surge como um dos melhores filmes de sua temporada. Com um roteiro de ritmo preciso e equilibrado, um visual acachapante e o tom emocional acertadamente adequado a uma história que mira em vários tipos de plateia, o filme de Bayona é um triunfo em todos os aspectos, capaz de cativar qualquer espectador disposto a mergulhar em uma narrativa repleta de simbolismos e metáforas que, longe de aborrecer ou confundir, apenas valorizam a beleza de suas intenções e de sua realização. Imperdível!

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

O QUE VIER

O QUE ESTÁ POR VIR (L'avenir, 2016, Les Films du Losange, 102min) Direção e roteiro: Mia Hansen-Love. Fotografia: Denis Lenoir. Montagem: Marion Monnier. Figurino: Rachel Raoult. Direção de arte: Anna Falguères. Produção: Charles Gillibert. Elenco: Isabelle Huppert, André Marcon, Roman Kolinka, Edith Scob. Estreia: 13/02/16 (Festival de Berlim)

Que Isabelle Huppert é uma das maiores atrizes francesas de sua geração não é segredo para nenhum fã de cinema que acompanha os festivais internacionais desde o final dos anos 70, quando ganhou sua primeira Palma de Ouro no Festival de Cannes pelo filme "Violette" (78). Indicada dezesseis vezes ao César (o Oscar francês) e premiada com a estatueta em 1996, por "Mulheres diabólicas", ela teve seu enorme talento finalmente revelado ao grande público em 2016, quando arrebatou um Golden Globe e uma merecida indicação ao Oscar por seu irretocável desempenho em "Elle". Por mais que seu trabalho no filme de Paul Verhoeven seja sensacional, no entanto, ele foi apenas parte de um ano glorioso, que também mostrou às plateias outra atuação digna de prêmios. Em "O que está por vir", escrito e dirigido por Mia Hansen-Love, ela também encantou a crítica e causou um arrastão de prêmios - em Los Angeles, Nova York e Londres ela saiu vitoriosa, por sua capacidade de dar vida tanto à vítima de abuso sexual do filme homenageado pela Academia quanto à professora que tem sua vida comum transformada por uma série de pequenos dramas familiares.

Inspirada pela vida de sua própria mãe, Hansen-Love constrói um filme tipicamente francês, com tudo que isso tem de bom e de ruim. Da profissão da protagonista - professora de filosofia - até a forma com que ela encara os desafios que são postos diante de si - com muita conversa e poucas lágrimas - tudo em "O que está por vir" trai sua origem. Por esse motivo, é difícil imaginar outra atriz mais adequada ao papel principal do que Huppert, que não hesita em explorar todas as suas nuances dramáticas para retratar o desespero e a melancolia de uma mulher que percebe que todas as coisas que pensava estar sob controle estão desmoronando à sua volta. Com simples olhares e entonações de voz, ela comanda uma orquestra de emoções internas, como um espetáculo minimalista cuja principal matéria-prima é a vida como ela é, sem maiores sobressaltos ou reviravoltas mirabolantes.


A protagonista é Nathalie Chazeaux, uma dedicada e experiente professora de filosofia, que encanta aos alunos com sua inteligência e carisma. Bem-casada e mãe de dois filhos universitários, ela passa os dias lidando com as exigências da carreira docente e os cuidados com a mãe, Yvette (Edith Scob), que recusa a ideia de ser internada em um abrigo para idosos doentes mesmo estando com a saúde bastante debilitada. Admirada e referência para antigos alunos, como o jovem Fabien (Roman Kolinka), Nathalie subitamente começa a ver seu mundo aparentemente perfeito ruir diante de seus olhos: seu marido, Heinz (André Marcon), lhe comunica que tem uma amante e que está apaixonado por ela. Sua mãe tem o estado de saúde agravado. E seu último refúgio, o trabalho, passa a ser ameaçado por novas propostas educacionais - que lhe consideram obsoleta e ultrapassada diante das novas formas de pensar a filosofia. Depois que sua mãe morre, ela redescobre a liberdade, mas não sabe exatamente o que fazer com ela.

Em ritmo contemplativo, suave e delicado como sua protagonista, "O que vier" é, ao mesmo tempo, uma ode ao futuro e um olhar melancólico para o passado. Mia Hansen-Love imprime em cada cena um tom de tranquilidade que se aproveita das belas paisagens de Paris e do interior da França como moldura para as transformações pelas quais passa Nathalie. Antiga defensora de ideias libertárias e de esquerda e na meia-idade uma mulher mais acomodada com a vida burguesa (ou apenas mais madura e consciente de suas escolhas de vida), ela encontra confronto mais com as discussões idealistas com o ex-aluno Fabien do que com o ex-marido adúltero - uma forma nítida da cineasta em mostrar que, para Nathalie, importa mais a força e a vitalidade da juventude do que os esqueletos de um passado que não volta mais. Uma personagem forte e determinada, Nathalie é uma das mais leves criações da carreira de Isabelle Huppert - um gol feito em parceria com a direção discreta de Hansen-Love, que jamais descamba para o dramalhão lacrimoso mesmo quando tudo aponta para soluções melodramáticas e excessivas. "O que vier" é um filme para quem gosta do bom cinema francês - aqueles que não conseguem encantar-se com seu ritmo próprio, portanto, devem evitá-lo. Ainda que Huppert valha qualquer sacrifício.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

AS VANTAGENS DE SER INVISÍVEL

AS VANTAGENS DE SER INVISÍVEL (The perks of being a wallflower, 2012, Summit Entertainment, 102min) Direção: Stephen Chbosky. Roteiro: Stephen Chbosky, romance de sua autoria. Fotografia: Andrew Dunn. Montagem: Mary Jo Markey. Música: Michael Brook. Figurino: David C. Robinson. Direção de arte/cenários: Inbal Weinberg/Merissa Lombardo. Produção executiva: Stephen Chbosky, James Powers. Produção: Lianne Halfon, John Malkovich, Russell Smith. Elenco: Logan Lerman, Emma Watson, Ezra Miller, Paul Rudd, Dylan McDermott, Melanie Linskey, Joan Cusack, Johnny Simmons, Mae Whitman, Kate Walsh. Estreia: 08/9/12 (Festival de Toronto)

Sempre que um livro ou filme tenta "definir" uma geração ou descrevê-la com intenções sociológicas corre o sério risco de uma generalização oca e simplista. A sorte é que, apesar da desvantagem numérica, para cada dezena de bombas metidas a profundas surge uma pérola capaz de devolver aos cinéfilos a esperança e o sorriso. É o que acontece com "As vantagens de ser invisível", a delicada, terna e sensível adaptação de um romance... delicado, terno e sensível, que narra as aventuras de um adolescente desajustado quando finalmente encontra em uma dupla de meio-irmãos a turma pela qual sempre ansiou. Escrito e dirigido pelo mesmo Stephen Chbosky que escreveu o livro que lhe deu origem, o filme conquista o espectador principalmente por jamais tentar parecer mais do que é: um simples entretenimento de qualidade - ainda que justamente essa sua discrição o eleve acima da média do gênero e o faça ser interessante até mesmo por quem já saiu da faixa etária de seu público-alvo há um bom tempo.

O protagonista do filme é o tímido Charlie (interpretado com sutileza e talento por Logan Lerman), um rapaz de 16 anos com um pesado histórico de problemas psicológicos, que carrega consigo o trauma da morte de uma tia querida (Melanie Linskey, a paixão de Kate Winslet em "Almas gêmeas") e um profundo desajuste ao mundo que o cerca. Inteligente e dedicado, ele chega em uma escola nova e logo faz amizade com o professor de Inglês (Paul Rudd), que se comunica com ele através de alguns livros clássicos que o fazem perceber o mundo à sua volta. Mas o que acaba sendo mais importante que tudo é seu encontro com Sam (Emma Watson, deixando a Hermione da série "Harry Potter" pra trás) e Patrick (Ezra Miller, de "Precisamos falar sobre o Kevin"), dois jovens que não se importam em seguir as regras pré-estabelecidas e, por consequência, não chegam a ser os mais populares da escola: ela vem de uma série de fofocas a respeito de seu comportamento promíscuo e ele vive um relacionamento escondido com o esportista Brad (Johnny Simmons) e não faz questão de esconder sua sexualidade. Ao lado dos novos amigos - em especial Sam, por quem se apaixona - Charlie passa a ter uma nova visão da vida e de si mesmo.


Apesar de sua trama não parecer exatamente empolgante - e chegar perigosamente perto de todos os clichês que sufocam o gênero - "As vantagens de ser invisível" tem a seu favor a delicadeza com que Chbosky trata suas personagens e a maneira com que jamais as julga. Mesmo que as atitudes de Sam e Patrick (e até mesmo algumas de Charlie) não sejam exemplares, elas não soam artificiais nem tampouco forçadas, boa parte devido à sensibilidade com que o escritor/cineasta conduz as interpretações de seu elenco juvenil. Enquanto Emma Watson demonstra uma segurança de veterana a despeito de sua pouca idade e Ezra Miller exercita novamente sua veia rebelde, o novato Logan Lerman seduz a audiência com uma aura de inocência convincente como poucas vezes o cinema registrou. É difícil ficar imune ao charme e à beleza de suas cenas com Watson, que transmitem a sensação exata do primeiro amor e das descobertas a respeito da vida e das relações - o que a bela trilha sonora ainda reitera com precisão, em especial quando David Bowie solta a voz na bela "Heroes", que ilustra com perfeição os sentimentos dos protagonistas e sintomaticamente comenta uma das mais belas sequências do filme.

Tratando de assuntos polêmicos - drogas, homossexualidade, rebeldia juvenil - com respeito e nunca ultrapassando os limites do bom-gosto e da discrição, Chbosky faz um gol de placa já em sua segunda incursão às telas, e demonstra habilidade em dirigir seus atores - vale lembrar que o elenco ainda inclui Joan Cusack e Dylan McDermott, que, mesmo em papéis pequenos, se saem bastante bem. Feito com o objetivo de não decepcionar os (muitos) fãs do livro, "As vantagens de ser invisível" acaba por se tornar independente de sua origem literária: é um dos grandes pequenos filmes de 2012.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

O FILHO ETERNO

O FILHO ETERNO (O filho eterno, 2016, RT Features, 82min) Direção: Paulo Machline. Roteiro: Leonardo Levis, livro de Cristóvão Tezza. Fotografia: Carlos Firmino. Montagem: Olivia Brenga. Música: Guilherme Garbato, Gustavo Garbato. Figurino: Maria Barbalho. Direção de arte: Rodrigo Alonso, Isabelle Bittencourt. Produção executiva: Ana Kormanski, Marisa Merlo, Raphael Mesquita, Daniel Pech. Produção: Rodrigo Teixeira. Elenco: Marcos Veras, Débora Falabella, Pedro Vinícius. Estreia: 11/10/16

Sucesso de vendas nas livrarias e êxito de público com sua adaptação teatral, "O filho eterno", do escritor catarinense Cristóvão Tezza apresenta uma história difícil, triste e sofrida. Mas, acima de tudo, encontra na redenção, no amor incondicional entre pai e filho e no amadurecimento pessoal, uma luz brilhante e reconfortante diante de um cenário de angústia e desesperança. Dirigida pelo mesmo Paulo Machline que levou às telas a trajetória do carnavalesco mais conhecido do país, em "Trinta", a versão para o cinema do livro de Tezza mantém, graças ao roteiro de Leonardo Levis, a essência da obra original: sua sobriedade e falta de sentimentalismo ao tratar de um assunto que poderia facilmente render um legítimo arranca-lágrimas. Sob o ponto de vista de Roberto, um escritor que precisa lidar com a notícia de que seu filho recém-nascido é portador da Síndrome de Down, a narrativa de Levis e Machline jamais escorrega no piegas, em boa parte graças à inusitada escolha de Marcos Veras para o papel principal.

Mais conhecido por seus trabalhos no terreno do humor, Veras surpreende em um papel dramático que exige mais do que simplesmente imprimir seriedade a uma trama suficientemente comovente. Sem exagerar nas tintas - com a possível exceção do clichê visual da fumaça de cigarro envolvendo invariavelmente seus momentos profissionais - e com a ingrata missão de não deixar que seu personagem soe um tanto monstruoso, o ator entrega um desempenho admirável e desprovido de quaisquer vícios. Melhor ainda, ele consegue tornar humanas e compreensíveis suas atitudes, por mais chocantes que pareçam a princípio - e elas são realmente inacreditáveis: assim que sabe que seu bebê é portador da deficiência, por exemplo, Roberto encontra alívio na expectativa de que se cumpra um vaticínio médico que encontra em suas pesquisas pessoais, que diz que crianças nascidas com esse problema "morrem cedo". Seu misto de decepção e revolta com o destino que lhe é imputado com a inesperada condição de seu filho - nascido em meio à euforia da Copa do Mundo de 1982, uma metáfora esportiva interessante mas que acaba por perder-se no decorrer da história - é o pilar de sustentação do filme, e Veras não hesita em emprestar toda a sua garra em honrar o material que tem em mãos.


Com algumas modificações pontuais em relação ao livro, "O filho eterno" talvez tenha na presença de Débora Falabella a principal delas: enquanto nas páginas a mãe do pequeno Fabrício é praticamente esquecida pelas digressões do escritor/narrador/protagonista, no filme de Machline ela não apenas ganha um nome (Cláudia) como serve como uma âncora ao turbilhão emocional de Roberto. Ainda que praticamente esteja em cena como contraponto aos sentimentos negativos do marido - é tranquila, amorosa, paciente e dedicada - a personagem oferece à Falabella um de seus melhores momentos no cinema, principalmente por conseguir expandir as limitações de coadjuvante e ser dona de uma das mais emocionantes cenas do longa, em uma dolorosa conversa em que revela seu amor incondicional ao filho. É um dos raros momentos em que o filme se permite, ainda que rapidamente, mostrar um lado menos racional - e é onde, de certa forma, começa uma transformação radical no relacionamento entre pai e filho.

Sucinto e infelizmente superficial em alguns momentos, "O filho eterno" sofre pela pressa do roteiro em resolver suas questões, privando o espectador de mergulhar mais a fundo na emoção de uma história que poderia render uma obra inesquecível. A própria transformação de Roberto - que passa de revoltado e desgostoso a um pai amoroso e apaixonado - surge de forma pouco orgânica na tela, quase repentina e sem maior verossimilhança, apesar dos esforços do elenco. Sua relação extra-conjugal tampouco oferece respiro à sufocante trama central, servindo apenas como uma espécie de desvio da rota principal e que, apesar das consequências, não chega a atingir todo o seu potencial dramático. Essa ansiedade do roteiro em solucionar seus problemas sem examiná-los a fundo é o grande calcanhar de Aquiles do filme, de resto dono de qualidades admiráveis. Do elenco bem escalado - o encantador Pedro Vinícius sai-se muito bem como o pequeno Fabrício - à produção caprichada, com direito à reconstituição de época sutil mas detalhista, "O filho eterno" é mais uma prova de que é possível fazer bom cinema no Brasil mesmo nadando contra a corrente do que é considerado comercialmente eficaz. Uma boa polida no roteiro e uma construção mais firme dos personagens e seria um grande filme. Como está, é louvável, mas não excepcional.

domingo, 8 de janeiro de 2017

OS 3

OS 3 (Os 3, 2011, Warner Bros/Teleimage/Cinema SportClub, 80min) Direção: Nando Olival. Roteiro: Thiago Dottori, Nando Olival. Fotografia: Ricardo Della Rosa. Montagem: Daniel Rezende. Figurino: Pamela Tomioka. Direção de arte: Clô Azevedo. Produção executiva: Claudia Buschel, Wellington Pingo. Produção: Nando Olival, Ricardo Della Rosa. Elenco: Gabriel Godoy, Victor Mendes, Juliana Schalch, Sophia Reis. Estreia: 07/10/11

Cazé, Camila e Rafael são jovens universitários recém-chegados à São Paulo, com sonhos e objetivos bem definidos, mas sem muitas condições financeiras para sustentá-los além do básico. Em uma festa, se conhecem, se conectam imediatamente, tornam-se amigos e resolvem dividir um amplo apartamento em um prédio pouco atraente da capital. Para evitar quaisquer complicações futuras, combinam evitar qualquer envolvimento emocional ou sexual entre eles, que passam a ser conhecidos na faculdade como "Os 3", tamanho o grau de sua proximidade. No final do período de faculdade, quando a separação parece inevitável - e o trato de manterem-se imunes a tentações da carne já foi rompido e revelado - eles recebem uma proposta irrecusável: participarem de um reality show cujo tema é suas próprias vidas. O objetivo, além de atingir um público que acompanharia seus passos 24 horas por dia através da Internet, é vender os objetos consumidos em seu dia-a-dia. Porém, o que parecia uma ideia simples se torna cada vez mais complicada quando os amigos percebem que, para manterem suas personalidades, serão obrigados (por eles mesmos) a criar personagens e situações que prendam o interesse dos espectadores. Aos poucos, nem mesmo eles passam a discernir o que é real e o que é encenação.

Com essa premissa atual, instigante e por vezes surreal, o cineasta Nando Olival fez sua estreia como diretor-solo, depois de dividir a direção de "Domésticas" (2001) com Fernando Meirelles. Em "Os 3" ele faz uso de uma estética contemporânea e uma edição ágil para enfatizar o tom de urgência e efemeridade de uma geração cujo comportamento está intimamente ligado à tecnologia e às redes sociais e são exemplos claros da famosa "modernidade líquida" de que falava o filósofo polonês Zygmunt Bauman. Sem soar panfletário ou didático, Olival conta uma história universal sem abandonar as raízes brasileiras, utilizando São Paulo e seu ambiente muitas vezes opressivo como um quarto protagonista: mesmo que a trama pudesse se passar em qualquer outra metrópole, a terra da garoa serve como moldura perfeita para uma narrativa que frequentemente esbarra em uma quase claustrofobia emocional e física e que, conforme vai se desenvolvendo, substitui a leveza inicial por um minimalista pesadelo orwelliano. Ainda assim, apesar da seriedade do tema e de levantar uma série de questionamentos pertinentes, o filme não deixa de ser, em momento algum, o que pretende ser: entretenimento.


Com um trio de protagonistas bastante talentosos, "Os 3" demonstra, em pouco menos de uma hora e meia, que não é preciso um elenco repleto de astros globais para contar uma história interessante - ainda que Gabriel Godoy, que vive Cazé, tenha posteriormente entrado no elenco de duas novelas, em papel de destaque. Com uma química que é essencial para o bom funcionamento do roteiro (sucinto e que acertadamente muda de tom quando a  trajetória dos personagens desvia do rumo inicial), Godoy e seus parceiros de cena, Victor Mendes (como Rafael) e Juliana Schalch (no papel de Camila) convencem plenamente em todas as fases de sua aventura fraternal/amorosa/profissional, exalando juventude e sentimento em cada cena e transmitindo todas as sensações que surgem de sua bizarra situação com segurança de veteranos. Mesmo que às vezes o roteiro demonstre certa pressa em resolver questões que poderiam render muito mais, esse é um pecado quase insignificante diante de sua coragem em romper com a ditadura das comédias populares ou filmes de favela que dominam o cinema brasileiro e com a qualidade de seu acabamento - a fotografia de Ricardo Della Rosa e a montagem de Daniel Rezende (indicado ao Oscar por "Cidade de Deus") são primorosas e é impossível não reparar no cuidado com a seleção de atores, desde os principais até os coadjuvantes.

À época de seu lançamento nos cinemas, "Os 3" foi comparado à "Os sonhadores", do italiano Bernardo Bertolucci. As semelhanças, porém, ficam restritas ao fato de ambos os filmes centrarem suas tramas em um trio de protagonistas vivendo em proximidade irrestrita. Enquanto a obra de Bertolucci tem pretensões artísticas que beiram o pedantismo, o filme de Nando Olival assume um tom bem menos ambicioso, com raízes mais naturalistas e uma identificação orgânica com a plateia, especialmente a mais jovem. Ao temperar sua trama com intervenções cada vez mais frequentes dos patrocinadores do programa - o que acaba por atormentar gradualmente a mente dos protagonistas - Olival torna imprevisível os rumos de sua narrativa e tem a inteligência de não estendê-la em demasia. Essa opção de encerrar seu filme quase abruptamente é o único senão de uma obra agradável, inteligente e com muito mais a dizer do que pode parecer a princípio. Um filme para ser descoberto!

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

TIROS EM COLUMBINE

TIROS EM COLUMBINE (Bowling for Columbine, 2002, United Artists, 120min) Direção e roteiro: Michael Moore. Montagem: Kurt Engfehr. Música: Jeff Gibbs. Produção executiva: Wolfram Tichy. Produção: Charles Bishop, Jim Czarnecki, Michael Donovan, Kahtleen Glynn, Michael Moore. Estreia: 16/5/02 (Festival de Cannes)

Vencedor do Oscar de Melhor Documentário

Foi ao receber seu Oscar de melhor documentário, por este "Tiros em Columbine", que Michael Moore tornou-se mundialmente conhecido: diante de milhões de telespectadores que assistiam à cerimônia, o rotundo cineasta vociferou contundentemente contra George W. Bush, seu mandato - segundo ele, resultado de eleições fictícias - e a guerra do Iraque que, conforme se soube mais adiante, começou com o falso pretexto de que o país tinha um arsenal de armas de destruição em massa. Vaiado por uns, aplaudido por outros e criticado por muitos, Moore aproveitou, sem dúvida, para dar um belo empurrão em seu filme seguinte, "Fahrenheit 11/9" (2004), que tornou-se, já em sua estreia, o documentário de maior bilheteria da história, além de ganhar a Palma de Ouro em Cannes - e que falava, para surpresa de ninguém, sobre as sujeiras escondidas do presidente norte-americano. "Tiros em Columbine", no entanto, não centra seu fogo unicamente em um alvo - ainda que acuse, sem papas na língua, o governo dos EUA de colaborar com os países que posteriormente apelaram para atos terroristas - e, com extrema contundência e um mordaz senso de humor, faz uma séria análise da fascinação do povo ianque por armas de fogo a partir do massacre cometido por dois alunos adolescentes de uma escola de ensino médio chamada Columbine, no estado do Colorado, em 1999.

Sem medo de causar polêmica - e certamente procurando por uma boa dose dela - Michael Moore estende sua reflexão social e política nas mais variadas direções, confirmando sua tendência para o autopromoção, uma característica que sempre lhe causa pesadas críticas mas que invariavelmente funciona à perfeição para atingir seus objetivos. Confiante em seus argumentos e movido por uma admirável cara-de-pau, Moore faz o espectador testemunhar situações que vão do constrangedor - a já clássica entrevista com Charlton Heston, defensor ferrenho do armamento da população e presidente da malfadada NRA (National Rifle Association) - ao surpreendente - como a visita do cineasta e dois jovens sobreviventes da tragédia em Columbine (um deles preso a uma cadeira de rodas) a uma rede de lojas que vende indiscriminadamente munição para armas de fogo. Conversando com pessoas envolvidas diretamente com as consequências de uma legislação francamente favorável (e até mesmo incentivadora) ao acesso quase irrestrito do público ao municiamento, o documentarista também faz questão de mostrar absurdos inimagináveis, como um banco que oferece uma arma de brinde aos novos clientes e não vê nada de errado com isso. Assim como acontece com Charlton Heston - que fica sem argumentos diante de questões pontuais e lógicas de Moore - outros entrevistados acabam por deixar que o diretor derrube suas convicções equivocadas mesmo sem precisar empurrar muito: argumentos como o histórico de violência na história da construção do país e a influência dos meios de comunicação são jogados por terra a cada nova conversa com explicações quase didáticas e fatos inquestionáveis.


Para cada tentativa de justificar a obsessão americana por armas, Michael Moore oferece estatísticas, contradições e muita história. Como forma de não tornar seu documentário algo tedioso, ele brinca com várias linguagens, como animação e videoclipes, que esclarecem ao espectador a forma como o governo dos EUA fomentou sem clemência um estado de constante paranoia para sustentar sua indústria armamentista. É sintomático que celebridades como Marilyn Manson se defendam com tanta inteligência e lucidez: vendo suas músicas e seu visual pouco normal sendo responsabilizados pela tragédia em Columbine, ele questiona o porquê de Bill Clinton e sua política de guerra não foram tão demonizados quanto, e continua sua defesa acusando comerciais de tv e a cultura do medo pelos desastres. Moore não deixa passar a oportunidade e apresenta, logo em seguida, números que mostram que nem mesmo os mais violentos filmes produzidos em Hollywood são capazes de incentivar algo que já não está radicalmente encravado em uma mentalidade quase doentia que vem de gerações. Em uma visita ao Canadá - uma região também muito mais armada do que a média - ele mostra ao surpreendido público que, apesar de igualmente armado além do normal, o país tem uma número de crimes muito abaixo do registrado nos EUA. Por que? É a grande questão do filme.

"Tiros em Columbine" lança diversas perguntas à plateia durante suas duas horas de duração. A maior parte delas o próprio Michael Moore responde, à sua maneira - às vezes exagerada, às vezes quase agressiva, quase sempre de forma contundente e assertiva. Outras ele apenas deixa no ar, oferecendo subsídios o suficiente para que os espectadores as respondam. Muito criticado por colocar-se como estrela de seus filmes, sobressaindo-se ao tema retratado, Moore realmente é uma figura marcante e não faz a menor questão de delicadezas ou sutilezas. No entanto, bem ou mal, é isso que faz de seus filmes grandes obras de não-ficção, tão empolgantes quanto qualquer suspense ou thriller político. "Tiros em Columbine" informa, indigna, choca e emociona em doses iguais - além de mostrar em um até então respeitável astro da era clássica de Hollywood um lado fascista jamais imaginado em alguém que fez o papel de Moisés. Um clássico contemporâneo, imprescindível e fascinante!

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

GREY GARDENS

GREY GARDENS (Grey Gardens, 2009, HBO Films, 104min) Direção: Michael Sucsy. Roteiro: Michael Sucsky, Patricia Rozema, estória de Michael Sucsy. Fotografia: Mike Eley. Montagem: Alan Heim, Lee Percy. Música: Rachel Portman. Figurino: Catherine Marie Thomas. Direção de arte/cenários: Kalina Ivanov/Norma Jean Sanders. Produção executiva: Lucy Barzun Donnelly, Rachel Horovitz, Michael Sucsy. Produção: David Coatsworth. Elenco: Jessica Lange, Drew Barrymore, Daniel Baldwin, Jeanne Tripplehorne, Ken Howard, Kenneth Welsh, Arye Gross, Justin Louis. Estreia: 18/4/09

Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Minissérie ou Filme para Televisão, Atriz em Minissérie ou Filme para Televisão (Drew Barrymore)

Milionárias falidas, parentes próximas de Jacqueline Kennedy Onassis, beldades decadentes, mulheres presas a um passado glamoroso e personagens de nada menos que duas produções retratando sua vida, as protagonistas de "Grey Gardens", realizado pela HBO em 2009, parecem obra da mais tresloucada ficção. Mas não são. Objetos de um documentário lançado em 1979 e posteriormente personagens de um telefilme dirigido por Michael Sucsy que retratava sua produção, Edith Bouvier Beale e sua filha, Edie, são figuras únicas, que encontraram nas telas a forma indelével de passar à história após sua derrocada financeira e sua decadência psicológica. Interpretadas com genialidade por Jessica Lange e Drew Barrymore - de longe no melhor desempenho de sua carreira, premiado merecidamente com o Golden Globe e o Emmy - as duas fascinantes personagens encontram respaldo na direção sensível de Michael Sucsy (que mais tarde faria o romântico "Para sempre", com Channing Tatum e Rachel McAdams) e emocionam o público com uma história de cortar o coração que jamais apela para o sentimentalismo.


O roteiro, coescrito pelo diretor e Patricia Rozema, aproveita-se do documentário por David e Albert Maysles como ponto de partida para contar sua história. Primeiramente pensando em focar seu filme na trajetória de Jackie, os dois irmãos acabam fascinados por um outro lado da família da ex-primeira dama quando conhecem sua tia, Edith (Jessica Lange), e sua prima, Edie (Drew Barrymore), que vivem isoladas em uma mansão caindo aos pedaços e dominada pela sujeira feita pelos gatos e por sua absoluta falta de capacidade de manter a salubridade do local. Excêntrica e extrovertida, Edie é quem se torna a estrela do documentário, enquanto à sua mãe resta apenas pontuar a narrativa com suas lembranças de tempos mais fartos. O filme de Sucsy conta a trajetória de mãe e filha através de flashbacks, que começam em 1936 e se estendem até os anos 70, mostrando como a promissora Edie, que sonhava com uma carreira de atriz, e sua mãe - que levava uma vida de luxo e conforto, cercada por gente da alta sociedade e demonstrava talento como cantora - acabaram por tornar-se duas mulheres praticamente enterradas vivas em sua propriedade, outrora motivo de orgulho da família.


Apesar da excentricidade das protagonistas parecer quase exagerada, "Grey Gardens" jamais cai na armadilha de fazer delas motivos de caricatura ou humor proposital. Tratando com respeito e quase carinho de suas personagens, Michael Sucsy apresenta ao público uma história a respeito de sonhos despedaçados, ambições destruídas e uma relação no limite da codependência. Sufocada pela super-proteção familiar - disfarçada de amor e carinho - a jovem Edie se vê impedida de realizar todo o potencial que acredita ter e acaba se deixando envolver pela solidão da mãe, que, infeliz, consegue até mesmo interferir em seu romance (malfadado, é verdade, mas ainda assim um romance) com um homem casado por quem ela se apaixona e que acredita poder lhe fazer feliz. Drew Barrymore brilha tanto na pele da jovem e esperançosa Edie quanto em sua versão mais velha, a um passo do colapso mental e tão crente em seus talentos artísticos que vê no documentário a chance de ser descoberta pelo mundo. Seus embates com Jessica Lange - fantástica em um papel de mãe dominadora que aos poucos vai murchando, conforme percebe os rumos que sua vida vai tomando - são excepcionais, sofrendo alterações com o passar do tempo até chegar a um misto de ressentimento velado e afeto genuíno (ou dependência psicológica). Com a preciosa ajuda da maquiagem - que as envelhece com perfeição - as duas atrizes estão em um momento especial de suas trajetórias, com uma invejável química e trejeitos que lembram em detalhes as verdadeiras protagonistas (quem duvida pode procurar o documentário e conferir: a semelhança é impressionante!).

Comprovando a excelência da HBO na produção de telefilmes que fogem das limitações do gênero, "Grey Gardens" funciona em todos os níveis imagináveis: é dirigido com sutileza, escrito com respeito às personagens e interpretado com extrema inspiração. É impossível não se deixar conquistar pelas duas protagonistas e seus dramas pessoais e familiares - com direito até a uma intervenção de Jackie Kennedy em pessoa, na pele da atriz Jeanne Tripplehorne. Imprimindo um tom leve a uma história que poderia facilmente descambar para o soturno ou o trágico, Michael Sucsy acerta em cheio, evitando tanto o dramalhão rasgado quanto a comédia de humor negro que poderiam diluir a força do roteiro e das personagens, tão incríveis que chega a ser difícil de acreditar que não saíram da mente de um escritor mais criativo. No fim das contas, "Grey Gardens" é um belo filme, com grandes atuações e uma história fabulosa. Imperdível!

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

O FRANCO-ATIRADOR (2015)

O FRANCO-ATIRADOR (The gunman, 2015, StudioCanal/Silver Pictures, 115min) Direção: Pierre Morel. Roteiro: Don MacPherson, Pete Travis, Sean Penn, romance de Jean-Patrick Manchette. Fotografia: Flavio Martinez Labiano. Montagem: Frédéric Thoraval. Música: Marco Beltrami. Figurino: Jill Taylor. Direção de arte/cenários: Andrew Laws/Anneke Botha. Produção executiva: Aaron Auch, Olivier Courson, Adrian Guerra, Peter McAleese, Steve Richard. Produção: Ron Halpern, Sean Penn, Andrew Rona. Elenco: Sean Penn, Javier Bardem, Jasmine Trinca, Mark Rylance, Ray Winstone, Idris Elba. Estreia: 16/02/15

Lançado em 1978, o drama de guerra "O franco-atirador" tornou-se a primeira produção norte-americana a lidar de frente com o conflito do Vietnã e se dar bem nas bilheterias e junto à crítica, chegando a sagrar-se o grande vencedor do Oscar nas categorias mais importantes (filme e direção). O mesmo, porém, não pode ser dito de seu homônimo, comandado pelo francês Pierre Morel e adaptado do livro de Jean-Patrick Manchette: mesmo estrelado por nomes consagrados como Sean Penn (também produtor), Javier Bardem e o recém-oscarizado Mark Rylance (de "Ponte dos espiões"), o filme jamais consegue atingir o equilíbrio entre filme de ação e drama político que almeja, tornando-se um híbrido sem personalidade e, o que é ainda pior, confuso e com personagens pouco carismáticos ou interessantes. Não por acaso, fracassou comercialmente e foi ignorado pela crítica, apesar do elenco e do potencial da trama.

A história começa no Congo, país africano mergulhado em profunda convulsão social. É lá que o assassino de aluguel Terrier (Sean Penn, competente, mas um pouco além da idade para o personagem) assume a missão de matar o Ministro das Minas local, o que complica ainda mais a situação caótica da nação. Depois do crime, para autoproteção, ele se vê obrigado a abandonar qualquer ligação com seus companheiros de equipe e a própria namorada, Annie (Jasmine Trinca), cortando totalmente seus laços com todos eles. Algum tempo depois, no entanto, ele está de volta ao Congo, trabalhando em uma ONG e tentando, à sua maneira, reparar os danos de sua ação passada. Essa vida relativamente tranquila é virada do avesso quando ele é alvo de um violento atentado, do qual escapa graças a suas habilidades profissionais, e descobre que o fato tem ligações com a morte do ministro. Isso faz com que ele volte a procurar seus antigos amigos, Terrance Cox (Mark Rylance), agora um poderoso empresário, e Felix (Javier Bardem), que leva uma vida confortável casado justamente com Annie. Todos eles se descobrem ameaçados, mas Terrier desconfia de todos até que finalmente se vê diante de uma verdade pouco conveniente.


É difícil acreditar que o diretor de "O franco-atirador" seja Pierre Morel, um cineasta pouco brilhante, é verdade, mas com experiência em filmes de ação, como "Busca implacável" (2008) e "Dupla implacável "(2010), que não são exatamente obras-primas mas se sustentam como entretenimento descompromissado. Em seu novo filme, Morel tenta atingir níveis maiores de relevância à trama, lhe adicionando temas sociopolíticos, mas acaba derrapando em uma superficialidade constrangedora. O roteiro - com participação de Sean Penn - é confuso quando tenta ser surpreendente e todas as cenas dramáticas, a despeito do talento dos atores envolvidos, carecem de verossimilhança e sensibilidade. Penn faz o que pode com seu personagem, mas é atrapalhado por uma história pouco crível e tratada com quase desleixo. As cenas de ação até são competentes, especialmente no terço final da narrativa, mas é muito pouco para cativar o espectador que, até então, lutou para acompanhar as investigações do protagonista - e tentou entender o que, afinal, as cenas do início do filme tem a ver com seu desfecho. Também não ajuda a presença da italiana Jasmine Trinca, sem o carisma necessário para segurar o principal papel feminino do filme, especialmente diante de gigantes como Sean Penn e Javier Bardem - outro que se esforça em tirar algo de um personagem raso e sem grandes possibilidades.

No final das contas, "O franco-atirador" não passa de um filme de ação genérico, com um pouco mais (bem pouco) de substância do que seus congêneres e um elenco de primeira linha tentando disfarçar suas falhas de roteiro e sua incapacidade de se aprofundar em qualquer discussão política que porventura poderia surgir de sua situação inicial. Para os menos exigentes pode ser uma diversão descompromissada para uma madrugada insone, mas levando-se em consideração o quão bom poderia ser é uma tremenda decepção, um grande passo em falso nas carreiras de Sean Penn e Javier Bardem. Nem mesmo alguns momentos isolados de violência e ação são suficientes para evitar a sensação de tédio.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

FEMME FATALE

FEMME FATALE (Femme fatale, 2002, Quinta Communications, 114min) Direção e roteiro: Brian De Palma. Fotografia: Thierry Arbogast. Montagem: Bill Pankow. Música: Ryuichi Sakamoto Figurino: Olivier Beriot. Direção de arte/cenários: Anne Pritchard/Françoise Benoit-Fresco. Produção executiva: Mark Lombardo. Produção: Tarak Ben Ammar, Marina Gefter. Elenco: Rebecca Rojmin-Stamos, Antonio Banderas, Peter Coyote. Estreia: 30/4/02 

Dizer que Brian De Palma é o maior discípulo de Alfred Hitchcock produzido por Hollywood é limitar e diminuir a carreira de um dos mais interessantes cineastas norte-americanos contemporâneos, capaz tanto de obras impecáveis, como "Os intocáveis" (87), quanto de desastres monumentais - como bem podem testemunhar aqueles que tiveram de encarar a tenebrosa adaptação de "A fogueira das vaidades" (90), do romance de TomWolfe. Nem sempre feliz na escolha de seus projetos, De Palma foi obrigado a encarar um período bastante complicado em sua trajetória quando, depois do grande sucesso comercial de "Missão: impossível" (96), passou a acumular fracassos críticos e de bilheteria que minaram sua credibilidade junto ao público e aos estúdios - foi nessa época que ele enfileirou os horrorosos "Olhos de serpente" (98) e "Missão Marte" (2000), dois fiascos retumbantes. Renegado pela indústria, o diretor acabou encontrando consolo em terras estrangeiras, mais precisamente na França: recuperando-se da má fase profissional em Paris, o diretor teve a ideia daquele que se tornaria seu próximo filme, um suspense recheado de erotismo e com uma protagonista feminina das mais fortes de sua filmografia, a ousada, corajosa e sexy Laurie Ash, interpretada com nítida satisfação pela bela Rebecca Romijn-Stamos (a Mística dos filmes "X-Men").

Depois de considerar Jennifer Lopez e Uma Thurman para o papel central -Thurman abandonou o projeto por causa da gravidez - e convencer Antonio Banderas a assumir o principal papel masculino (com a ajuda da então esposa do ator, Melanie Griffith, com quem havia trabalhado em "Dublé de corpo" e "A fogueira das vaidades"), De Palma entregou à plateia do Festival de Cannes 2002 um de seus filmes mais pessoais, recheado de algumas de suas mais marcantes características como cineasta. Em pouco menos de duas horas de duração, o espectador vê diante de si longas sequências silenciosas, movimentos de câmera criativos e surpreendentes, personagens amorais, uma edição inteligente e umas duas boas reviravoltas capazes de pegar de surpresa até o mais atento fã de cinema. Homenageando a sétima arte desde sua abertura - cenas do clássico "Pacto de sangue", de Billy Wilder, dando o tom da trama - até de forma mais explícita - com o início da história acontecendo em pleno Festival de Cannes (com direito até mesmo a participações especiais do cineasta Régis Wargnier e da atriz Sandrine Bonnnaire) - "Femme fatale" é um filme que brinca com as aparências e com as expectativas do público, emendando uma história na outra de maneira quase imperceptível, até um desfecho inesperado que comprova o talento de seu criador em romper com o trivial quando se trata de contar uma história que envolva o público.


E é impossível não se deixar envolver pelo roteiro criado por De Palma, que já começa mostrando a que veio: em suas primeiras cenas, a belíssima Laurie Ash, se aproveitando de seu status de fotógrafa credenciada pelo Festival de Cannes, seduz a acompanhante de um dos candidatos à Palma de Ouro e, com a ajuda de um grupo de comparsas, supostamente rouba as joias da atraente modelo. Supostamente. A partir do momento em que as coisas saem do controle dos mentores do golpe, o filme inicia sua jornada em conduzir o público por caminhos que trafegam sem medo pela violência, pelo erotismo e pela absoluta falta de regras. Em poucos minutos Laurie se transforma em outra mulher, mais sofisticada e ainda mais misteriosa, que vê seu passado criminoso ameaçar vir à tona pelas mãos do paparazzo Nicolas Bardo (Antonio Banderas) - um homem dividido entre a ambição de ser reconhecido profissionalmente e a atração irresistível que sente pelo alvo de sua câmera. Ele busca o sucesso e o dinheiro; ela procura salvar a pele de revelações aterradoras que podem destruir seu casamento com um homem poderoso (Peter Coyote): juntos, eles irão, despudoradamente, tentar alcançar seus objetivos, mesmo que tais sejam potencialmente contrários um ao outro. No meio desse caminho, o roteiro dá conta de esfregar na cara da plateia cenas de grande tensão sexual (Rojmin nunca esteve tão sensual e desejável) e alguns momentos puramente cinematográficos que são sua assinatura (com direito a tela repartida e ângulos inusitados).

Se existe uma falha no desenho dos personagens de "Femme fatale" - que se comportam mais como personagens do que gente de verdade, o que de certa forma é coerente com a proposta do filme - ela é plenamente compensada com a técnica empregada por Brian De Palma para grudar o espectador na cadeira até os minutos finais da sessão. Econômico na hora de dar detalhes a respeito de seus protagonistas, ele os contorna com tons fortes e simplesmente os utiliza como matéria-prima de uma profusão de sequências muito interessantes visualmente, que mantém o suspense em constante ritmo enquanto prepara um final provocativo e que deixa no ar a sensação quase tangível de desconforto. Pode não ser o melhor Brian De Palma, mas só o fato de tirar a plateia da zona de conforto já faz de "Femme fatale" um programa acima da média - um programa valorizado pela beleza e o talento fascinante de Rebecca Rojmin (ainda Stamos à época), que mostra que pode ir muito além de uma violenta mutante.