sábado, 5 de agosto de 2017

JOVENS, LOUCOS E MAIS REBELDES

JOVENS, LOUCOS E MAIS REBELDES (Everybody wants some!!, 2016, Paramount Pictures, 117min) Direção e roteiro: Richard Linklater. Fotografia: Shane F. Kelly. Montagem: Sandra Adair. Figurino: Kari Perkins. Direção de arte/cenários: Bruce Curtis/Gabriella Villarreal. Produção executiva: Sean Daniel, Stephen Feder, John Sloss. Produção: Megan Ellison, Richard Linklater, Ginger Sledge. Elenco: Blake Jenner, Juston Street, Ryan Guzman, Tyler Hoechlin, Wyatt Russell, Glenn Powell, Temple Baker, J. Quinton Johson, Will Britain. Estreia: 11/3/16

Depois que "Boyhood: da infância à juventude" (2015) foi unanimemente (e merecidamente) incensado como um dos melhores filmes de sua carreira, era esperado que Richard Linklater surgisse, na sequência, com uma obra igualmente poderosa. Para surpresa de muitos, porém, o cineasta resolveu voltar os olhos ao passado e, com toda a nostalgia possível, lançou o despretensioso "Jovens, loucos e mais rebeldes" - uma continuação informal de "Jovens, loucos e rebeldes", lançado em 2003 com um então desconhecido Matthew McConaughey no elenco. Ao centrar sua trama na chegada de um jovem na universidade, no entanto, Linklater parece mesmo disposto a seguir também a narrativa de seu premiado filme anterior - que acabava justamente onde começa sua nova história. Fracasso de bilheteria nos EUA (rendeu pouco mais de 3 milhões de dólares, contra um custo de estimados 10 milhões), a comédia juvenil do diretor é prejudicada por sua temática um tanto restrita, mas não deixa de ser agradável o bastante para justificar uma sessão - ao menos não apela para a escatologia explícita ou a vulgaridade que tanto frequenta o gênero.

Inteligente e sempre bom em diálogos, Richard Linklater oferece a seu público uma trama tênue e frágil - mas que serve de base para uma bem-humorada visita ao início dos anos 80, ainda com resquícios da década anterior e não contaminados pelo conservadorismo dos períodos vindouros. Com uma trilha sonora impecável - que começa com "My sharona", do Knack e apresenta nomes indispensáveis da época, como Blondie, Dire Straits, Patti Smith e Van Halen (cujo hit "Everybody wants some!!" dá título ao filme) -, "Jovens, loucos e mais rebeldes" é uma celebração da juventude, da irresponsabilidade que antecede a maturidade e da amizade masculina. Não à toa, apenas uma personagem feminina tem destaque no roteiro - mas apesar de parecer apenas o interesse romântico do protagonista, é a voz da razão e do equilíbrio em um grupo de pós-adolescentes movidos a hormônios. Ao contrário das garotas seminuas que serviam apenas de objeto de lascívia em filmes como "Porky's" (83), Beverly (Zoey Deutch) serve como um oásis de sensatez - a ponto de conquistar não apenas o desejo, mas o amor do ainda ingênuo Jake Bradford.


Interpretado por Blake Jenner (da série "Glee"), Jake é uma espécie de alter-ego de Linklater - e uma versão menos tímida de Mason, o protagonista de "Boyhood": quando o filme começa (precisamente no dia 28 de agosto de 1980), Jake está chegando ao campus universitário onde passará os próximos anos, graças a uma bolsa de estudos conseguida através de seu talento como jogador de beisebol. Enquanto as aulas não começam, ele aproveita para aproximar-se de seus colegas, todos morando na mesma casa, reservada a atletas como ele. É nessa propriedade que ele trava conhecimento com um grupo bizarro, barulhento e paradoxalmente leal, que o irá acompanhar em suas primeiras aventuras no mundo dos adultos. Cada um dono de uma personalidade que o destaca dos outros estudantes, os novos amigos de Jake formam uma espécie de panorama da jovem masculinidade texana da década de 80, com seus exageros, idiossincrasias e códigos de honra. Linklater não se preocupa em aprofundar nenhum de seus personagens, optando por interligar uma série de anedotas com uma trilha sonora popular, atores desconhecidos que vivem de forma intensa a trama e um tom nostálgico contagiante.

Logicamente o público que esperava de Richard Linklater algo mais grandioso vai se decepcionar com a quase informalidade de "Jovens, loucos e mais rebeldes". Porém, no âmago do filme, há a sinceridade de sempre do cineasta, pródigo em diálogos que mesclam inteligência e coloquialismo e sempre capaz de fazer rir e pensar - mesmo que o espectador não perceba isso logo de cara, soterrado de uma aparente futilidade. É inegável que "Jovens, loucos e rebeldes" é um filme menor do diretor, mas nem mesmo sua falta de pretensão chega a incomodar a quem procura um entretenimento rápido e inofensivo. Nem todo cineasta precisa realizar obras-primas atemporais o tempo todo - e Linklater já tem no currículo a trilogia "Antes do amanhecer" para garantir seu lugar no olimpo dos grandes e "Boyhood" para comprovar seu talento e sua sensibilidade como realizador. Uma brincadeira como esse seu trabalho menos aplaudido será sempre bem-vinda.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

INVOCAÇÃO DO MAL 2

INVOCAÇÃO DO MAL 2 (The conjuring, 2016, New Line Cinema, 134min) Direção: James Wan. Roteiro: Chad Hayes, Carey W. Hayes, James Wan, David Leslie Johnson, estória de Chad Hayes, Carey W. Hayes, James Wan, personagens criados por Chad Hayes, Carey W. Hayes. Fotografia: Don Burgess. Montagem: Kirk Morri. Música: Joseph Bishara. Figurino: Kristin M. Burke. Direção de arte/cenários: Julie Berghoff/Liz Griffiths, Sophie Neudorfer. Produção executiva: Richard Brener, Toby Emmerich, Walter Hamada, Steven Mnuchin, Dave Neustadter. Produção: Rob Cowan, Peter Safran, James Wan. Elenco: Vera Farmiga, Patrick Wilson, Frances O'Connor, Madison Wolfe, Lauren Sposito, Benjamin Haigh, Patrick McCauley. Estreia: 13/5/16

Não foi surpresa para ninguém quando surgiu o anúncio de uma sequência para "Invocação do mal", afinal de contas o filme de James Wan, que custou meros 20 milhões de dólares, tornou-se um dos maiores sucessos de bilheteria de 2013, rendendo mais de 300 milhões pelo mundo todo e devolvendo ao gênero um respeito há muito perdido e poucas vezes retomado pela crítica e pelo público. Com um orçamento duplicado e as expectativas nas alturas, "Invocação do mal 2" repetiu o êxito do primeiro filme ao manter a receita que havia dado tão certo: um roteiro sério (e baseado em uma história real), personagens densos e a preferência por um clima de suspense contra um festival de sustos vazios. Contando novamente com Patrick Wilson e Vera Farmiga como o casal Ed e Lorraine Warren e o diretor Wan no comando (depois de sua recusa em dirigir "Velozes e furiosos 8"), "Invocação do mal 2" não decepciona os fãs do gênero ou do primeiro capítulo da série: é elegante, convincente e, mais importante que tudo, respeita o espectador e a história que está contando.

Tudo bem que algumas alterações foram feitas para melhor aproveitar a dupla de protagonistas conhecida do público, que na verdade não foram os principais investigadores do caso narrado no filme, mas o roteiro faz o possível para manter a essência dos acontecimentos que aterrorizaram uma família londrina em 1977. Considerado até hoje como o caso mais longo de atividade poltergeist registrado na história, o fenômeno que tomou conta da residência de Peggy Hogdson (Frances O'Connor) e seus quatro filhos chamou a atenção da mídia e rendeu livros, polêmicas e outros filmes, como "The Einfield Haunting", de 2015. Para cada estudioso do caso que o levava a sério e comprovava os fenômenos, havia outro que levantava questões bem racionais - para o que colaborava o fato de que a filha mais envolvida nos ataques, Janet, tenha confessado ter forjado alguns dos assustadores sons gravados pelos investigadores no percurso do caso. Para maior impacto nas bilheterias, a New Line espertamente deslocou os maiores responsáveis pelas investigações para a ala dos coadjuvantes e colocou Ed e Lorraine - já devidamente testados no primeiro filme - como centro da narrativa. Funcionou muito bem: não apenas reafirmou o êxito da franquia como deu à plateia alguém com quem identificar-se, um ponto de vista externo que a leva pelas mãos rumo ao pesadelo que se desenrola na tela.


A primeira sequência do filme já demonstra sua vocação de tratar a plateia com respeito ao mesmo tempo em que faz referência a outra história clássica do gênero - "Terror em Amityville", filmado por Hollywood em duas ocasiões, em 1979 e 2005. Traumatizada com visões que anunciam uma tragédia em sua vida pessoal, Lorraine abandona a casa assombrada pelos crimes cometidos no local disposta a afastar-se por tempo indeterminado de sua desgastante rotina como estudiosa de fenômenos paranormais. Sua decisão, no entanto, é frustrada quando, algum tempo depois, ela e seu marido são procurados por um padre, preocupado com acontecimentos inexplicáveis que vem atormentando uma família londrina. Mesmo relutante, o casal aceita visitá-la e ao menos tentar ajudar a afastar o que quer que seja que esteja causando tanto terror. Para sua surpresa, eles descobrem que o responsável é o espírito de um antigo morador da casa, que se aproveita da sensibilidade de uma das meninas da família para marcar sua presença e sua recusa em abandonar seu lar.

O diretor James Wan mantém o tom do primeiro filme, equilibrando momentos de aparente calma com terror puro na reta final - quando, compreensivelmente, alguns exageros tomam conta da narrativa. Ironicamente, no entanto, são as cenas menos tensas que acabam por destacar-se, especialmente devido às atuações de Vera Farmiga e Patrick Wilson, que transmitem com extrema competência a serenidade de seus personagens, que mesmo diante de situações apavorantes conseguem manter a calma e a fé. Mesmo que o roteiro faça algumas alterações no rumo dos acontecimentos conforme eles surgiram na vida real - incluindo até o fantasma de uma freira com o objetivo único de criar uma personagem para um novo filme - e não haja nenhuma novidade na forma de contar sua história, "Invocação do mal 2" cumpre muito bem seu papel de entreter aos espectadores que procuram por um bom par de horas de tensão. É elegante e adulto, duas qualidades redentoras que o elevam acima da média, mas está longe de ser uma obra-prima inesquecível.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

HOLDING THE MAN

HOLDING THE MAN (Holding the man, 2015, Screen Australia/Goalpost Pictures, 127min) Direção: Neil Armfield. Roteiro: Tommy Murphy, livro de Timothy Conigrave. Fotografia: Germain McMicking. Montagem: Dany Cooper. Música: Alan John. Figurino: Alice Babidge. Direção de arte/cenários: Jo Ford/Rolland Pike. Produção executiva: Rosemary Blight, Ben Grant, Cameron Huang, Andrew Mackie, Richard Payten, Tristan Whaley. Produção: Kylie Du Fresne. Elenco: Ryan Corr, Craig Stott, Sarah Snook, Guy Pearce, Kerry Fox, Anthony LaPaglia, Camilla Ah Kin, Geoffrey Rush. Estreia: 14/6/15 (Festival de Sydney)

Em 1976, o aspirante a ator e escritor Tim se apaixonou perdidamente por John, seu colega de classe e capitão do time de futebol americano da escola. Durante 15 anos, seu relacionamento transformou-se de paixão colegial para um amor profundo e um companheirismo à toda prova - que desafiou preconceitos, brigas familiares e crises existenciais e sexuais. A única coisa que realmente impôs uma barreira intransponível entre eles foi a AIDS, ainda uma doença cuja cura ou tratamento eram apenas utopias médicas. Essa é a trama central de "Holding the man", filme australiano que conquistou seis indicações da Academia Australiana de Cinema em 2016 (incluindo melhor filme, diretor, ator e roteiro adaptado) e deu a Ryan Corr o prêmio de Melhor Ator do ano pela Associação de Críticos de Cinema do país. Mas, haja visto que nem o assunto nem seu enfoque são exatamente originais ou inovadores, o que faz da produção dirigida por Neil Armfield algo diferente de dezenas de outros filmes com temática LGBT lançados a cada ano? A resposta é simples: poucos desses filmes tratam sobre tais questões com tanta honestidade e sinceridade quanto este. Adaptado do livro escrito pelo próprio Timothy Conigrave, inspirado em sua própria história de amor, "Holding the man" pode não surpreender ou acrescentar muito à pauta homossexual no cinema, mas é emocionante o suficiente para merecer aplausos e respeito.

Lançado no Festival de Cinema de Sydney, "Holding the man" é uma feliz reunião de jovens talentos (Ryan Corr e Craig Stott como os dois rapazes apaixonados) com nomes já consagrados por Hollywood (Guy Pearce, Anthony LaPaglia e uma participação pequena mas especialíssima de Geoffrey Rush como um professor de teatro). Comandado pelo mesmo cineasta que deu a Heath Ledger um de seus papéis mais desafiadores - no drama "Candy", de 2006 - e narrado fora de ordem cronológica como forma de manter um tom confessional e emotivo, o romance entre Tim Conigrave  John Caleo atravessa mais de uma década acompanhando mudanças comportamentais e o começo da epidemia da AIDS - que os atinge impiedosamente. Tal característica permite ao diretor realizar uma crônica agridoce a respeito de um período crucial na luta pelos direitos gays, atacados violentamente pelo recrudescimento do preconceito, encorajado pela desinformação generalizada a respeito da doença. A ameaça - que começa sob a forma de entrevistas feitas por Tim com homens doentes, para a realização de uma peça de teatro - assume formas assustadoras quando inesperadamente toca o casal e, ao contrário do que se poderia esperar, o aproxima ainda mais. A partir daí, o roteiro vai e volta no tempo, iluminando a trajetória de seu casal protagonista enquanto enfrenta o desejo de aventurar-se em novas relações pessoais e profissionais. Não bastasse isso, o conservadorismo das famílias (em maior ou menor grau) também se impõe como barreira para sua felicidade completa.


A trama, que se estende de 1976 a 1991, é retratada por Neil Armfield com delicadeza e a dose certa de sensualidade - nada do puritanismo do cinema norte-americano nem tampouco os excessos de alguns autores europeus. O romance entre Tim e John, pela visão de Armfield, soa natural e verdadeiro, com o perfeito equilíbrio entre companheirismo e tesão, lealdade e paixão. Principalmente em seu terço final, quando o romance dá lugar ao drama, é impossível não acreditar na sinceridade do amor entre os dois - especialmente porque Ryan Corr alcança o tom ideal de seu personagem, dotando Tim de uma complexidade extremamente verossímil: vulnerável em certos momentos, impulsivo em outros e apaixonado em quase todos, o jovem ator convence em todas as fases da história, desde a adolescência até atingir a vida adulta, quando abandona a leveza do romance idílico para mergulhar no drama da doença e da angústia da perda iminente. Amparado por uma edição ágil e uma trilha sonora que não assume a protagonização apesar de ter sido escolhida a dedo, "Holding the man" cativa, mais do que tudo, pela honestidade que emana de cada cena, de cada diálogo, de cada questão levantada pelo roteiro (mérito também do livro que lhe deu origem, inédito no Brasil).

Mesmo que "Holding the man" não seja completamente inovador, é inegável que existe, dentro dele, uma história poderosa sobre amor, respeito e amizade. Segue as regras do cinema comercial, sim, mas faz isso sem medo de ser sentimental e sem tentar oferecer mais do que promete. Equilibrando os problemas românticos do casal central com as dificuldades familiares e sociais que os cercam, é um filme capaz de emocionar aos mais sensíveis e causar empatia em um mundo cada vez mais carente dessa qualidade tão importante. Não é um filme para mudar a história do cinema, mas é de suma importância e de uma delicadeza impar.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

O AGENTE DA U.N.C.L.E.

O AGENTE DA U.N.C.L.E. (The man from U.N.C.L.E., 2015, Warner Bros, 116min) Direção: Guy Ritchie. Roteiro: Guy Ritchie, Lionel Wigram, estória de Jeff Kleeman, David Campbell Scott, Guy Ritchie, Lionel Wigram, série de televisão de Sam Rolfe. Fotografia: John Mathieson. Montagem: James Herbert. Música: Daniel Pemberton. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Oliver Scholl/Eli Griff. Produção executiva: David Dobkin, Steven Mnuchin. Produção: Steve Clark-Hall, John Davis, Guy Ritchie, Lionel Wigram. Elenco: Armie Hammer, Henry Cavill, Alicia Vikander, Hugh Grant, Elizabeth Debicki, Sylvester Groth, Jared Harris. Estreia: 02/8/15 (Barcelona)

Quando finalmente a versão para o cinema da série televisiva "O agente da U.N.C.L.E." estreou nos EUA, no verão de 2015, já fazia mais de uma década que seu estúdio, a Warner, vinha tentando aprovar o projeto. Mesmo quando um nome quente como o de Steven Soderbergh esteve vinculado à produção, parecia que tudo colaborava para que o filme não saísse. A desistência de George Clooney, por exemplo (e sua quase substituição pelo bem mais jovem Channing Tatum), foi um dos fatores que afastaram o oscarizado diretor de assinar o contrato - assim como problemas relacionados ao orçamento (de cerca de 75 milhões de dólares) e à escalação de um elenco que funcionasse tanto comercial quanto artisticamente. A entrada de Guy Ritchie no time - um cineasta de personalidade, mas com facilidade em adaptar-se às circunstâncias exigidas pelo mercado - finalmente fez com que as coisas saíssem do lugar. Com o filme pronto (e com a assinatura visual de Ritchie em cada sequência), fica difícil imaginar como seria a visão de Soderbergh da trama - certamente mais cerebral e mais perto de "Onze homens e um segredo" -, mas é fato que, como ficou, "O agente da U.N.C.L.E." é uma divertidíssima e elegante comédia de ação, infelizmente não tão bem-sucedida quanto deveria.

Longe de ter sido um fiasco nas bilheterias, "O agente da U.N.C.L.E." tampouco chegou a ser o estouro que a Warner esperava - rendeu pouco mais de 100 milhões de dólares pelo mundo, decepcionando os executivos que sonhavam com uma nova franquia milionária. O erro, no entanto, está menos no filme - um perfeito exercício de entretenimento descompromissado - do que no fato de que a série, lançada em 1964, é bem menos popular, por exemplo, do que "Missão: impossível" (cujo "Nação secreta" também estreou em 2015, com mais sucesso), e no erro de cálculo de colocar o filme nos cinemas justamente em uma temporada recheada de outras produções que lidavam com espionagem e temas afins. Entre personagens já comprovadamente aceitos pelas plateias - "007 contra Spectre" - e filmes com ambições mais sérias - "O jogo da imitação" e "Sicário" -, o trabalho de Ritchie acabou comprimido entre tantas opções consideradas mais relevantes. Azar de quem perdeu: esteticamente caprichado (da fotografia de John Mathieson até a reconstituição de época criativa e não necessariamente realista), dotado de um ritmo e um senso de humor inteligente e com um elenco perfeitamente escalado, "O agente da U.N.C.L.E." é um produto que consegue aliar a personalidade marcante de seu diretor com as regras estabelecidas pelo cinemão comercial hollywoodiano. Casando com perfeição suas tendências iconoclastas com os clichês dos filmes de ação, Guy Ritchie consegue ser mais bem-sucedido até mesmo do que em seus maiores êxitos financeiros até então - os dois filmes "Sherlock Holmes", estrelados por Robert Downey Jr. e Jude Law.


A ideia de Ritchie de contar a história do começo da U.N.C.L.E. (United Network Command for Law and Enforcement), nunca retratada na série de televisão, é o primeiro acerto do roteiro. No programa da década de 60, agentes da CIA e da KGB já uniam esforços mesmo em plena Guerra Fria, mas nunca foi explicado como essa aliança tão inusitada se formou. A partir daí, Ritchie juntou-se ao coprodutor Lionel Wigram e, assumindo a responsabilidade de dar vida a uma trama que mesclasse a mitologia da série (afinal os fãs seriam parte do público-alvo) e momentos de ação e comédia, explorando o estilo do cineasta e a receita de boa parte dos filmes com ambição ao sucesso. Surgia, então, um intrincado enredo que colocava no mesmo balaio um agente norte-americano, um espião soviético, um cientista capaz de criar uma bomba atômica e sua bela e voluntariosa filha mecânica - claro que uma pitada de romance não poderia faltar, especialmente quando se tenta também atingir um público feminino que há muito não aceita mais ser representado na tela por donzelas desprotegidas. O agente americano, Napoleon Solo (Henry Cavill, o Superman de Zack Snyder em pessoa) é um ex-criminoso cooptado pela CIA para usar seus talentos para o bem da sociedade: ele é enviado à Alemanha Ocidental para encontrar Gaby Teller (Alicia Vikander, antes do Oscar por "A garota dinamarquesa" e em papel oferecido à Emily Blunt), a filha de um cientista com conhecimento suficiente para dar início à confecção de uma bomba nuclear. Segundo a agência, somente Gaby pode levá-los até seu pai, desaparecido mas provavelmente em contato com seu irmão, que vive na Itália. Para colaborar na operação, a KGB oferece os serviços de Illya Kuryakin (Armie Hammer), cuja personalidade volátil e imprevisível contrasta com os modos suaves de Solo. Juntos, os três irão deixar de lado suas diferenças e tentar impedir que o pior aconteça - e empresários ambiciosos consigam financiar uma guerra nuclear.

Com cenas de ação milimetricamente calculadas, piadas engraçadíssimas a respeito das diferenças culturais entre americanos e russos e um visual arrebatador, "O agente da U.N.C.L.E." é uma diversão das mais admiráveis. Mesmo que a trama por vezes escorregue em uma complexidade desnecessária (o que, aliás, deve ser proposital, como forma de homenagear os filmes de James Bond), é impossível desgostar do resultado final. A química entre Cavill e Hammer é irretocável, e Alicia Vikander oferece o charme e a sutileza que o filme precisa. Por ironia, Cavill fez teste para viver Kuryakin, mas dificilmente outro ator estaria mais à vontade como Napoleon Solo do que ele - e olha que muita gente foi considerada para o papel, desde Joseph Gordon-Levitt, Ryan Gosling e Chris Pine até os mais experientes Matt Damon, Michael Fassbender e Ewan McGregor. Já Armie Hammer, aplaudido pela crítica graças a trabalhos mais sérios, como "A rede social" (2010) e "J. Edgar" (2012), demonstra um precioso timing cômico, que abre ainda mais possibilidades em sua carreira abalada pelo tenebroso "O Cavaleiro Solitário" (2013). Juntos, os dois atores formam um par carismático e sedutor, algo como Butch Cassidy e Sundance Kid da Guerra Fria. Quanto à direção de Guy Ritchie, nada a reclamar. Tudo que ele tem de melhor está em cena - o humor, a edição ágil, o ritmo, o talento para direção de atores - e revestido com uma sofisticação nunca vista até então. Uma pena que nem todo mundo valorizou o produto final, que ainda há de ser descoberto como uma pequena pérola de sua época.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

O INÍCIO DO FIM

O INÍCIO DO FIM (Fat Man and Little Boy/Shadow makers, 1989, Paramount Pictures, 108min) Direção: Roland Joffé. Roteiro: Bruce Robinson, Roland Joffé, estória de Bruce Robinson. Fotografia: Vilmos Zsigmond. Montagem: Françoise Bonnott. Música: Ennio Morricone. Figurino: Nick Ede. Direção de arte/cenários: Gregg Fonseca/Dorree Cooper. Produção executiva: John Calley. Produção: Tony Garnett. Elenco: Paul Newman, Dwight Schultz, John Cusack, Laura Dern, Bonnie Bedelia, John G. McGinley, Natasha Richardson, James Eckhouse. Estreia: 20/10/89

Cineasta sempre preocupado com tramas de cunho político e/ou social, Roland Joffé ficou conhecido pelos fãs de cinema graças a produções premiadas e elogiadas pela crítica, como "Gritos do silêncio" (84) e "A missão" (86), pelos quais foi indicado ao Oscar de melhor diretor. Não foi surpresa, portanto, quando ele assumiu o comando de "O início do fim", o filme da Paramount que trataria sobre o Projeto Manhattan, que criou e construiu, em 1945, as bombas atômicas que atingiram Hiroshima e Nagasaki e deram fim à II Guerra Mundial. Catastrófico fracasso de bilheteria nos EUA (custou cerca de 30 milhões de dólares e rendeu cerca de dez menos menos em sua carreira nos cinemas), acabou lançado no resto do mundo com um título diferente e tentou conquistar - em vão - estatuetas na temporada de premiações de Hollywood. Não é difícil compreender os motivos que o levaram a tal fiasco comercial: mesmo com a direção cuidadosa de Joffé e o nome do veterano Paul Newman liderando o elenco, o filme não consegue escapar da sina comum às produções do gênero e, ao tentar equilibrar o didático/histórico ao dramático, não atinge plenamente seus objetivos em nenhum quesito. Essa indecisão custa caro ao resultado final, que mesmo perceptivelmente caprichado tecnicamente, não empolga nem emociona tanto quanto deveria.

Inicialmente chamado "Fat Man and Little Boy" (os apelidos dados às bombas), "O início do fim" teve seu nome modificado para "Shadow makers" logo depois que seu desempenho nas bilheterias domésticas assustou aos executivos do estúdio - que, logicamente, não esperavam uma renda tão pífia (pouco mais de um milhão de dólares arrecadados no fim de semana de estreia). Rebatizar o filme para lançamento em outros países, no entanto, não deu resultado nenhum: talvez por sua temática particularmente restrita, a obra de Joffé não despertou interesse nas massas que haviam lotado os cinemas para assistir ao "Batman" de Tim Burton, e saiu melancolicamente de cena, ocupando um lugar bastante coadjuvante nas carreiras de todos os envolvidos - seja do veterano Paul Newman ou dos novatos John Cusack e Laura Dern.


Apesar de ser o rosto de Newman que estampa o cartaz e ser seu nome que abre os créditos, o verdadeiro protagonista de "O início do fim" não é o seu General Leslie Groves - líder militar do projeto que concebeu a bomba atômica. O roteiro, escrito pelo cineasta e seu parceiro de longa data, Bruce Robinson, centra seu foco principalmente em Robert Oppenheimer, o cientista chamado por Groves para comandar a experiência. A princípio entusiasmado com a possibilidade de mostrar sua competência e seu talento, ao poucos ele vai tomando consciência dos reais objetivos de Groves - e passa a questionar profundamente sua posição na estratégia. É somente quando sua vida pessoal - representada pela figura de sua amante, Jean Tatlock (Natasha Richardson), comunista vista com maus olhos pelo governo americano - é atingida que Oppenheimer percebe a dimensão do que está fazendo. Cercado de paranoia e segredos, ele testemunha o nascimento de um projeto científico gigantesco, que não poupa nem mesmo outros cientistas, como o jovem Michael Merriman (John Cusack).

Quando Bruce Robinson assumiu o roteiro de "O início do fim" seu maior interesse na trama era a história de amor e morte por trás do romance entre Oppenheimer e Jean Tatlock - um mistério ainda hoje envolto em teorias de conspiração. As alterações feitas no roteiro final, para dar mais ênfase ao relacionamento entre o cientista e o General Groves não apenas mudaram o tom da narrativa, mas também empurraram o filme para um nicho muito mais restrito de interesse - o que talvez tenha contribuído para seu fracasso. Soma-se a isso a inexperiência de Dwight Schultz, sem a força cênica necessária para imprimir consistência e nuances a um personagem tão repleto de possibilidades quanto o seu. O resultado é que o romance entre Merriman e a enfermeira Kathleen Robinson (Laura Dern) acaba por ser mais atraente ao espectador do que as crises de consciência de Oppenheimer - mesmo que tal subtrama seja inventada, como forma de iluminar o público das consequências da experiência realizada no Novo México. No fim das contas, "O ínicio do fim" é um filme com grandes atrações em seu cartaz (a música é de Ennio Morricone, a fotografia é do premiado Vilmos Zsigmond), mas que é frustrante na maior parte do tempo graças a problemas de foco e ritmo. Uma bela ideia que não atingiu todo o seu potencial.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

A GUERRA DE HART

A GUERRA DE HART (Hart's war, 2002, MGM Pictures, 125min) Direção: Gregory Hoblit. Roteiro: Billy Ray, Terry George, romance de John Katzenbach. Fotografia: Alar Kivilo. Montagem: David Rosenbloom. Música: Rachel Portman. Figurino: Elisabetta Beraldo. Direção de arte/cenários: Lilly Kilvert/Patrick Cassidy. Produção executiva: Wolfgang Glattes. Produção: David Foster, Gregory Hoblit, David Ladd, Arnold Rifkin. Elenco: Bruce Willis, Colin Farrell, Terrence Howard, Cole Hauser, Linus Roache, Marcel Iures, Vicellous Shannon, Sam Jaeger, Rory Cochrane, Sam Worthington, Adrian Grenier. Estreia: 15/02/02

Parecia que tudo estava no caminho certo: um ator veterano (Bruce Willis) com a carreira ressuscitada por um imenso sucesso comercial ("O sexto sentido", de 1999), um jovem astro em ascensão (Colin Farrell, revelado por Joel Schumacher em "Tigerland: a caminho da guerra", de 2000), um assunto sempre fascinante e capaz de despertar a atenção do público (a II Guerra Mundial) e um gênero querido pela plateia desde sempre (filmes de tribunal) - dirigido por um cineasta que já tinha experiência no ramo (Gregory Hoblit, que assinou o ótimo "As duas faces de um crime", de 1996). Alguma coisa, porém, não correu como o esperado para "A guerra de Hart": com um custo estimado de 70 milhões de dólares, o filme simplesmente se espatifou nas bilheterias americanas (rendeu menos de 20 milhões em toda a sua carreira comercial) e não cativou nem mesmo o público internacional (arrecadou pouco mais de 13 milhões em todo o mundo). Não bastasse o fracasso financeiro, a crítica igualmente não ficou entusiasmada com o resultado final - e a produção acabou sendo relegada a um tímido segundo plano nas trajetórias de seus dois atores principais. O pior é que, ao contrário de muitos fracassos injustos que volta e meia assombram Hollywood, "A guerra de Hart" mereceu seu destino: apesar dos valores de produção caprichados, é um filme preguiçoso e sonolento, que não acrescenta nada ao gênero.

Baseado em um romance de John Katzenbach - livro, aliás, que um dos roteiristas, Billy Ray, admite não ter lido, uma vez que embarcou no projeto quando várias versões da trama já existiam, escritas pelo veterano Terry George - e inspirado pelo tempo em que o pai do escritor, Nicholas Katzenbach, passou como prisioneiro durante a II Guerra Mundial, "A guerra de Hart" se ressente, também, de um foco narrativo mais claro. Ao misturar vários gêneros, acaba se perdendo em um emaranhado de reviravoltas e tentativas de clímax que, ao contrário de surpreender o espectador, apenas deixam a estória ainda mais confusa e sem sentido. Começa como um drama de guerra, transforma-se em um filme de tribunal e acaba com uma mistura muito estranha dos dois estilos - com um desfecho morno que desperdiça até mesmo o talento de coadjuvantes excelentes, como Terrence Howard e Marcel Iures, perdidos em um texto quase esquizofrênico.


A trama se passa no final da II Guerra, quando o jovem Tenente Tommy Hart (Colin Farrell) é capturado por soldados alemães e, depois de alguns dias preso e interrogado, é enviado a um campo de prisioneiros, onde trava contato com o Coronel William McNamara (Bruce Willis) - o oficial superior que ainda mantém sua autoridade sobre os soldados norte-americanos aprisionados. Não demora muito para que Hart, um burocrata da guerra, perceba a realidade do conflito mesmo dentro de sua estalagem - onde colegas não são exatamente exemplos de solidariedade e companheirismo. As coisas ficam ainda mais explosivas quando chegam ao local dois pilotos negros, Lincoln Scott (Terrence Howard) e Lamar Archer (Vicellous Reon Shannon), uma presença inesperada que deixa bem claro o tom racista dos soldados e oficiais. A morte injusta de Archer e a prisão de Scott - acusado de assassinar um colega - acentuam a tensão, especialmente quando McNamara convoca Hart (um estudante de Direito) a ser o advogado de defesa de Scott em uma corte marcial. O julgamento começa, sob a supervisão do comandante alemão Oberts Werner Visser (Marcel Iures) - mas nem tudo é exatamente o que parece, e Hart irá precisar de todo o seu código de ética para desviar-se de um veredicto já facilmente previsível.

A princípio um projeto de Alfonso Cuarón, "A guerra de Hart" acabou nas mãos de Gregory Hoblit quando o cineasta mexicano optou por uma produção mais pessoal, o elogiado "E sua mãe também" - que lhe valeu uma indicação ao Oscar de roteiro original. A entrada de Hoblit, porém, parecia um tiro certo - logo que entrou em cena, nomes como Edward Norton e Tobey Maguire foram cotados para integrar o elenco, no papel que mais tarde ficaria com Colin Farrell, um nome que começava a tornar-se conhecido do público, principalmente por dividir a tela com Tom Cruise em "Minority report: a nova lei", dirigido por ninguém menos que Steven Spielberg. Farrell, no entanto, não poderia imaginar que seria tão subaproveitado: sofrendo ao tentar dar dignidade e coerência a um roteiro indeciso, o ator irlandês não consegue nem ao menos demonstrar o carisma revelado em seus trabalhos anteriores, preso a uma direção frouxa e um personagem incapaz de conquistar a torcida do espectador - e também não ajuda ter Bruce Willis no piloto automático e um final decepcionante. No fim das contas, "A guerra de Hart" é um filme que tinha tudo para marcar época mas que terminou vítima de uma grave crise de identidade. Só recomendado para os fãs incondicionais dos atores!

sábado, 29 de julho de 2017

GLASSLAND

GLASSLAND (Glassland, 2014, Blank Page Productions/Element Pictures/Irish Film Board, 93min) Direção e roteiro: Gerard Barrett. Fotografia: Piers McGrail. Montagem: Nathan Nugent. Figurino: Leonie Pendergast. Direção de arte/cenários: Stephanie Clerkin/Patricia Douglas. Produção executiva: Gerard Barrett, Andrew Lowe. Produção: Juliette Bonass, Ed Guiney. Elenco: Toni Collette, Jack Reynor, Will Poulter. Estreia: 23/01/15 (Festival de Sundance)

Desde que chamou a atenção da crítica e do público pela primeira vez, protagonizando a comédia dramática australiana "O casamento de Muriel" (95), a atriz Toni Collette passou a dividir a carreira entre sucessos comerciais indiscutíveis ("O sexto sentido"), filmes de prestígio ("As horas") e produções independentes muitas vezes restritas a ratos de cinemateca e/ou frequentadores de festivais alternativos. "Glassland" faz parte desse último grupo: escrito e dirigido pelo jovem (30 anos) Gerard Barrett, o filme que estreou no Festival de Sundance de 2015 saiu da mostra com o prêmio de melhor ator para Jack Reynor e arrancou elogios por sua sensibilidade ao tratar de assuntos pesados, como alcoolismo, tráfico humano e depressão. Mesmo sem um lançamento em escala o suficiente para chamar a atenção de plateias maiores, a história de amor e união entre mãe e filho é capaz de emocionar àqueles que buscam uma produção menos ambiciosa e mais intimista.

Assim como normalmente acontece com produções que fogem do padrão comercial hollywoodiano, "Glassland" não se obriga a entregar tudo facilmente a seu público: é somente aos poucos que o espectador vai desvendando o dia-a-dia de John (Jack Reynor), um jovem motorista de táxi que complemente a renda servindo também como chofer de um cafetão de luxo. Sua rotina é massacrante: além de trabalhar incansavelmente, ele precisa lidar com as crises de alcoolismo e depressão de sua mãe, Jean (Toni Collette), e fazer visitas frequentes a seu irmão, portador de Síndrome de Down e rejeitado por Jean. Sua única diversão é jogar conversa fora com seu melhor amigo, Shane (Will Poulter) - um rapaz que sofre com a separação do filho que teve com uma ex-namorada. Sozinho e desamparado, John tenta não descontar todas as suas frustrações quando precisa voltar para casa, mas quando descobre que sua mãe está seriamente doente e é imprescindível que abandone o vício para sobreviver, ele não tem alternativa senão lutar contra ela mesma - e encontrar uma maneira de arrumar dinheiro para um tratamento caro.


Com um ritmo bastante lento, que usa e abusa de elipses e silêncios desesperados, "Glassland" não é um filme para qualquer público - e isso é um elogio. O roteiro de Barrett vai envolvendo o espectador gradualmente, com uma trilha sonora delicada e momentos de partir o coração - principalmente graças à atuação surpreendente de Jack Reynor. Conhecido das plateias mais por conta de seu trabalho em "Transformers: a era da extinção" (2014) do que por atuar ao lado de Michael Fassbender e Marion Cottilard em "Macbeth: ambição e guerra" (2015), o jovem ator se entrega com extrema dedicação a um personagem difícil, de poucas palavras e muita emoção, que explode nos momentos certos e se retrai em tantos outros. Sua química com Toni Collette é a alma do filme - uma certeza que fica ainda mais óbvia na tocante cena em que dançam tristemente na clínica onde ela está internada - e as sequências que divide com Will Poulter mostram um lado diferente de seu personagem, alguém que esconde, sob a superfície plácida, um turbilhão de sentimentos dolorosos. É um papel complexo, do qual Reynor se desincumbe com notável segurança - é provável que um futuro auspicioso lhe venha pela frente.

Sem maiores arroubos de criatividade, "Glassland" soa como um pesadelo familiar: quase monocórdio, angustiante e triste, mas ao mesmo tempo dono de um calor humano contagiante. Toni Collette (que rodou suas cenas em apenas SEIS dias!) está mais uma vez perfeita, encontrando o tom ideal de uma personagem que poderia facilmente cair em clichês ou tornar-se desagradável, e a maneira com que o irlandês Barrett encerra seu filme (com um final em aberto disposto a várias possibilidades de final feliz) faz dele um nome a ser observado de perto - seu filme seguinte, "Brain on fire", produzido por Charlize Theron e estrelado por Chloe Grace Moretz, estreou em 2016 na Netflix e mostrou uma versatilidade muito bem-vinda a Hollywood, sempre carente de talento e sensibilidade.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

FRANKIE & JOHNNY

FRANKIE & JOHNNY (Frankie & Johnny, 1991, Paramount Pictures, 118min) Direção: Garry Marshall. Roteiro: Terrence McNally, baseado em sua peça teatral "Frankie and Johnny in the Clair de Lune". Fotografia: Dante Spinotti. Montagem: Jacqueline Cambas, Battle Davis. Música: Marvin Hamlisch. Figurino: Rosanna Norton. Direção de arte/cenários: Albert Brenner/Kathe Klopp. Produção executiva: Michael Lloyd, Charles Mulvehill, Alexandra Rose. Produção: Garry Marshall. Elenco: Michelle Pfeiffer, Al Pacino, Kate Nelligan, Hector Elizondo, Glenn Plummer. Estreia: 11/10/91

Quase uma década separa o primeiro encontro nas telas entre Al Pacino e Michelle Pfeiffer. Em 1983, quando fizeram "Scarface", de Brian De Palma, Pacino já era um grande nome em Hollywood, com várias indicações ao Oscar e alguns clássicos no currículo, enquanto a bela Pfeiffer tentava emplacar no cinema e provar-se mais capaz do que simplesmente arrancar suspiros do público masculino. Oito anos mais tarde, muita coisa havia mudado: o veterano ator, depois de um exílio voluntário no teatro, retornava às telas com garra total (e elogios rasgados por filmes como "O poderoso chefão - parte 3" e "Dick Tracy", ambos de 1990), e a deslumbrante ex-modelo finalmente estava estabelecida como atriz de primeira grandeza, com duas indicações à estatueta e o respeito da indústria. Não é de admirar, portanto, que em "Frankie & Johnny", o filme responsável por seu reencontro, o que se veja é um amigável duelo de interpretações, entre dois astros consagrados e sem mais nada a provar a ninguém. O que surpreende, na verdade, é o quanto Michelle consegue se destacar mesmo diante de um monstro como Pacino!

Dirigidos por Garry Marshall - recém saído do estrondoso sucesso de "Uma linda mulher" (90) - e com base em uma peça teatral que contou com F. Murray Abraham e Kathy Bates em uma de suas montagens, "Frankie & Johnny" é um drama romântico que abre mão de vários dos clichês do gênero em busca de um tom mais realista e menos fantasioso. Os protagonistas, por exemplo, estão longe de serem jovens atléticos e milionários em busca de um romance de cinema: Johnny é um ex-presidiário solitário, que não tem coragem de reaproximar-se da ex-mulher e dos filhos mas deseja uma vida menos à margem da sociedade; e Frankie, depois de um relacionamento abusivo e violento, só quer ter paz para poder assistir a filmes no sossego de seu pequeno apartamento - e ocasionalmente divertir-se com o vizinho e melhor amigo, Tim (Nathan Lane). O encontro entre eles não se dá em um cenário paradisíaco e fotogênico de Nova York, mas sim no pequeno restaurante onde ela é garçonete e ele começa a trabalhar como cozinheiro. E não, não há intrigas e mal-entendidos durante o percurso entre seu primeiro contato e o amor que enfim surge: o autor da peça (e do roteiro), Terrence McNally, faz questão de manter tudo o mais perto possível do dia-a-dia, do mundano, do crível. Talvez por isso as plateias não tenham correspondido tão bem: com uma bilheteria de pouco mais de 20 milhões de dólares nos EUA, o filme de Marshall acabou conquistando apenas a crítica - e mesmo assim, com reservas. Pfeiffer foi indicada ao Golden Globe de melhor atriz dramática, mas Pacino foi simplesmente ignorado por todas as cerimônias de premiação do ano.


É fácil compreender o motivo pelo qual Pfeiffer chamou mais a atenção do que seu experiente colega de cena: enquanto ela opta por um caminho mais sutil e delicado de atuação, de acordo com o passado e o presente de sua personagem, Pacino encara seu Johnny como um homem que, apesar dos pesares, ainda mantém o bom humor e a esperança, frequentemente exagerando em suas tentativas de conquistar Frankie através de sua personalidade despachada. Nem sempre Pacino acerta o tom, e essa irregularidade acaba por jogar luz no trabalho minimalista de Michelle, cujo sorriso reflete com segurança a complexidade interna de uma mulher que não acredita no amor, mas que de certa forma precisa dele para sentir-se completa. Os diálogos de McNally são inteligentes e certeiros - respeitam seus protagonistas e a plateia com sensibilidade e humor - e a direção de Marshall, apesar de quadradinha em excesso, não atrapalha a dinâmica de seu elenco ou a fluidez da trama: como sempre em sua filmografia, ele sabe como transformar cenas simples em momentos no mínimo agradáveis. E se, em determinadas passagens parece tudo verborrágico demais, é bom lembrar das origens teatrais do texto e embarcar em uma história que (felizmente) dispensa artifícios narrativos e lances folhetinescos.

"Frankie & Johnny" é, em suma, um drama romântico para adultos. Sensível, delicado e inteligente, peca apenas por ser simples demais em sua essência - o que muitas vezes afugenta um público acostumado com excessos de todo tipo. Ao contrário da maioria de seus congêneres, não é o final feliz a todo custo que almeja, mas sim a empatia com seus protagonistas, a compreensão de suas idiossincrasias e a torcida para que, no desfecho, tudo saia como eles procuram - independentemente se isso virá com eles juntos ou não. É louvável que seu diretor tenha conseguido realizá-lo logo em seguida a seu êxito maior - justamente uma comédia romântica típica - sem deixar-se contaminar por maneirismos: são dois filmes opostos, apesar de seu tema comum (o amor), e Marshall comprovou que talento em perceber o humano em cada personagem era algo que realmente não lhe faltava. Vale experimentar, mas sem esperar os lugares-comuns do gênero.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

A FERA DO ROCK

A FERA DO ROCK (Great balls of fire!, 1989, Orion Pictures, 108min) Direção: Jim McBride. Roteiro: Jack Baran, Jim McBride, livro de Myra Lewis, Murray Silver Jr.. Fotografia: Affonso Beato. Montagem: Lisa Day, Pembroke Herring, Bert Lovitt. Figurino: Tracy Tynan. Direção de arte/cenários: David Nichols/Lisa Fischer. Produção executiva: Michael Grais, Mark Victor. Produção: Adam Fields. Elenco: Dennis Quaid, Winona Ryder, Alec Baldwin, Stephen Tobolowski, John Doe, Trey Wilson, Lisa Blount. Estreia: 30/6/89


Uma das afirmações mais corretas que se pode fazer a respeito de “A fera do rock” é que, ao contrário de muitas cinebiografias de astros da música que chegam às telas com assustadora frequência, ele é um filme que foge radicalmente de academicismos e da tentação de mitificar seu protagonista. Figura principal de um escândalo que abalou sua carreira e o impediu de alcançar seu objetivo de ser “o novo Elvis Presley”, o roqueiro Jerry Lee Lewis encontrou no cineasta Jim McBride um cronista que, se combinou perfeitamente com sua personalidade anárquica e iconoclasta, ao mesmo tempo incomodou a todos: fãs, familiares, biógrafos e o próprio Lee Lewis. De nada adiantou McBride defender sua obra dizendo que nunca teve a intenção de criar um documento histórico – a gritaria foi grande e o resultado nem valeu tanto a pena assim. Nitidamente avesso a narrativas convencionais, “A fera do rock” fracassou nas bilheterias – e, a não ser que seja assistido como a grande brincadeira que no fundo ele é, é um filme bastante insatisfatório – e até um pouco bobo demais.

Talvez contaminado pelo tom quase folclórico de seu personagem principal, Jim McBride exagerou na alegoria e, rejeitando o naturalismo de sua filmografia até então – que incluía até mesmo um remake do clássico francês “Acossado” (rebatizado de “A força do amor” e merecidamente ignorado) -, construiu um filme que é uma celebração do kitsch. Das cores fortes que remetem ao Technicolor da época em que se passa sua ação até os cenários e os figurinos, tudo em “A fera do rock” transpira excessos. McBride brinca até mesmo quando acrescenta coreografias inesperadas a cenas aparentemente comuns, e jamais ultrapassa a superficialidade na construção de seus personagens. Assim como a casa de Lee Lewis e sua nova (e adolescente) esposa, tudo que o cerca parece ser de plástico, obviamente partes de um cenário construído de forma a renegar o realismo e acentuar o clima de eterna festa da vida do cantor (ao menos da vida como contada pelo roteiro – levemente inspirado na biografia escrita por Murray Silver Jr. com base nas memórias de Myra, a primeira (e mais polêmica) mulher do roqueiro. Se os próprios Silver e Myra repudiaram o resultado final é difícil saber até onde vão as liberdades tomadas pelo diretor – mas quem não procurar acuidade histórica e quiser apenas saber (ainda que pouco) da vida de Lee Lewis, o filme pode até ser um entretenimento razoável.



Para quem não sabe, Jerry Lee Lewis esteve a ponto de substituir Elvis Presley no coração das fãs – especialmente quando o rei do rock foi convocado para servir ao exército americano. Dono de uma personalidade expansiva (até demais) e de uma criatividade que muitas vezes assustava aos desavisados, Lee Lewis seguiu um caminho bastante diverso daquele trilhado por seu primo Jimmy Swaggart – que tornou-se um dos pastores católicos mais conhecidos dos EUA e que frequentemente batia de frente com as atitudes do roqueiro. Irresponsável e dono de um talento raro para transformar um simples piano em um instrumento capaz de levantar a plateia jovem, Lee Lewis praticamente jogou a carreira fora quando apaixonou-se e casou-se com sua prima de apenas 13 anos de idade, Myra (vivida por uma juvenil e encantadora Winona Ryder): com o escândalo descoberto, primeiro o público europeu e depois o resto do mundo, lhe virou as costas, em uma demonstração de conservadorismo radical. Não foi à toa: não apenas Myra era praticamente uma criança (como demonstra seu desespero ao perceber que não é capaz de cuidar da própria casa) como era filha do primo e colega do cantor – que havia lhe dado um lugar para morar quando ele estava começando a carreira. Mesmo a mentalidade mais aberta e liberal teria dúvidas a respeito do caso – dá para imaginar, então, na sociedade norte-americana dos anos 50...

Incorporando totalmente o espírito festivo da visão de Jim McBride, o ator Dennis Quaid faz de seu Jerry Lee Lewis um fauno libertino e hedonista – muitas vezes pesando a mão na caracterização e chegando perto do overacting. É difícil imaginar, por exemplo, como seria se outros projetos envolvendo o roqueiro tivessem ido adiante: Martin Scorsese, por exemplo, imaginava Robert De Niro no papel (e é impossível visualizar De Niro fazendo as macaquices de Quaid ou Scorsese abdicando de seu impecável bom gosto visual para abraçar o colorido cafona de McBride). E Michael Cimino também pensou em dar a sua versão da história, com Mickey Rourke (!!) no papel principal, o que seria no mínimo curioso. O fato é que McBride foi quem passou do plano à ação e, embora não tenha sido completamente feliz, pode-se destacar algumas boas ideias, como um jovem Alec Baldwin na pele Jimmy Swaggart e Winona Ryder (com um papel que quase foi de Drew Barrymore) como a inocente Myra – que sofre com o machismo do marido já na noite de núpcias, quando é acusada de “não comportar-se como uma virgem”. Ryder – que preferiu Myra a participar do elenco feminino de peso de “Flores de aço” e deu chance à Julia Roberts concorrer ao primeiro Oscar – está em um belo momento da carreira, dosando bem a candura e a paixão de sua personagem, que serve como um ponto de equilíbrio à bagunçada vida do protagonista. Ryder e Baldwin, que juntos também fariam “Os fantasmas se divertem” (88), são as melhores coisas do filme – a não ser que se conte, é claro, com a trilha sonora, regravada pelo próprio Jerry Lee Lewis e bem dublada por Dennis Quaid. Para quem gosta do bom e velho rock’n’roll é imperdível! Para os curiosos é apenas ok.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

O FILHO DA NOIVA

O FILHO DA NOIVA (El hijo de la novia, 2001, Instituto Nacional de Cine y Artes Audiovisuales, 123min) Direção: Juan José Campanella. Roteiro: Juan José Campanella, Fernando Castets. Fotografia: Daniel Shulman. Montagem: Camilo Antolini. Música: Ángel Illarramendi. Figurino: Cecilia Monti. Direção de arte/cenários: Mercedes Alfonsin/Pablo Racioppi. Produção executiva: Juan Pablo Galli, Juan Vera. Produção: Mariela Besuievksy, Fernando Blanco, Pablo Bossi, Gerardo Herrero, Jorge Estrada Mora. Estreia: 16/8/01

Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro


Mais do que apenas o representante oficial da Argentina ao Oscar de melhor filme estrangeiro na cerimônia de 2002, “O filho da noiva” marca também a segunda colaboração entre o roteirista/cineasta Juan José Campanella e o ator Ricardo Darín – vindo logo em seguida de “O mesmo amor, a mesma chuva” (99) e imediatamente antes do (esse sim oscarizado) “O segredo dos seus olhos” (2009). Já empregando alguns dos ingredientes que conquistam o espectador de seus trabalhos – a delicadeza da relação entre os personagens, o senso de humor sutil, a crítica discreta à sociedade argentina e doses comedidas de emoção -, o filme tornou-se um sucesso incontestável de público e confirmou Darín como o mais popular astro de cinema de seu país, a cara de uma filmografia que, a despeito da crise econômica, demonstrou uma corajosa vitalidade e uma supreendente criatividade. Dando sequência à boa fase que também ofereceu aos cinéfilos o divertido “Nove rainhas” (2000), “O filho da noiva” é valorizado ainda pela presença luminosa de Norma Aleandro – mesmo em um papel pequeno, a grande dama argentina rouba a cena com uma atuação que estabelece o tom sentimental e familiar da trama criada por Campanella.

Darín, competente como sempre, vive Rafael Belvedere, um quarentão em crise em praticamente todos os setores da vida: separado da primeira mulher, sofre pressão da parte dela para ter maior contato com a filha adolescente; sua nova namorada, Naty (Natalia Verbeke) cobra um comprometimento maior em sua relação; o restaurante de sua família passa por momentos complicados devido à crise econômica do país; e, para completar o panorama, seu pai, Nino (Héctor Alterio) tem planos de comemorar as bodas de prata de seu casamento com uma cerimônia de renovação de votos – um desejo complicado pelo fato de sua esposa, Norma (Norma Aleandro), estar internada em uma clínica, sofrendo de Alzheimer. Um inesperado ataque cardíaco e o reencontro com Juan Carlos (Eduardo Blanco), um amigo de juventude, fazem com que Rafael reflita sobre sua vida e tente encontrar uma saída que o permita levar uma existência menos opressora e mais próxima de seus familiares.

Apesar de situar seu protagonista em meio a um furacão pessoal impiedoso, o roteiro de “O filho da noiva” evita pesar a mão no dramalhão, equilibrando, como é comum na filmografia de Juan José Campanella, momentos de extrema sensibilidade com outros dotados de um delicioso senso de humor. Mais uma vez Ricardo Darín se mostra o intérprete ideal para personagens criados pelo cineasta – seu rosto comum e de fácil empatia com o público traduz com perfeição o homem argentino médio, dividido entre trabalho e vida pessoal e lutando para atravessar suas crises pessoais sem perder a essência do que o faz um ser humano. E se seu carisma fortalece cada cena, ele encontra em Héctor Alterio e Norma Aleandro parceiros inestimáveis: sempre que a dupla de veteranos irrompe em cena, o filme se enche de beleza e emoção – principalmente em seus últimos momentos, quando Campanella finalmente resolve baixar a guarda e permitir que o público se entregue de vez às lágrimas.

Uma mistura agradável de drama familiar e comédia de costumes, “O filho da noiva” é, ao mesmo tempo, uma crítica sutil à sociedade argentina, soterrada por crises econômicas que empurram seus habitantes a sofríveis relações interpessoais enquanto luta pela sobrevivência. Rafael é um retrato vivo do país – alguém que, no fundo, precisa urgentemente reorganizar suas prioridades para reencontrar sua humanidade e autorrespeito. Juan José Campanella consegue o feito admirável de contar sua história de forma a nunca subestimar a emoção do espectador ao mesmo tempo em que o faz pensar sobre sua própria realidade social. Um belo filme – que perdeu o Oscar não para o franco-favorito “O fabuloso destino de Amélie Poulain”, mas para o esloveno “Terra de ninguém”. Parecia que a Academia sabia que, por melhor que já parecesse, o cineasta conseguiria ser ainda melhor em um futuro próximo – que o diga “O segredo dos seus olhos”!