sexta-feira

A CADELA (1931)

A CADELA (La chienne, 1931, Les Étbalissements Braunberger-Richebé, 91min) Direção: Jean Renoir. Roteiro: Jean Renoir, baseado no romance de Georges de la Fouchardière e peça teatral de André Mouezy-Éon. Fotografia: Théodore Sparkuhl. Montagem: Denise Tual, Paul Fejos. Direção de arte/cenários: Marcel Courmes/Gabriel Scognamillo. Produção: Pierre Braunberger, Roger Richebé, Jean Renoir. Elenco: Michel Simon, Janie Marèse, Georges Flamant, Magdeleine Bérubet. Estreia: 20/11/31

O ano de 1931 foi bastante generoso com os fãs de cinema. Filmes que se tornariam clássicos absolutos, como "Drácula" (dirigido por Tod Browning e estrelado por Bela Lugosi), "Frankenstein" (de James Whale, com Boris Karloff como o monstro), "Luzes da cidade" (de Charles Chaplin), "O inimigo público" (um dos maiores sucessos de James Cagney) estrearam e mudaram a história da sétima arte. Fora do circuito hollywoodiano também foi um tempo admirável: o Brasil compareceu com "Limite", de Mário Peixoto. A Alemanha ofereceu o inesquecível "M: o vampiro de Dusseldorf", de Fritz Lang, que fez a fama de Peter Lorre. E a França legou ao mundo um dos filmes mais importantes do cineasta Jean Renoir (filho do pintor Auguste): "A cadela", adaptação do romance de Georges de la Fouchardière que ganhou uma segunda versão em 1945 pelas mãos de Lang. Alguns anos antes daquelas consideradas suas obras-primas - "A grande ilusão" (1937) e "A regra do jogo" (1939) -, Renoir já mostrava, através de personagens quase desagradáveis, sua predileção pelo lado menos benevolente da humanidade, um retrato cru e realista das relações humanas baseadas em ganância e traição.

Logo de cara, o filme apresenta ao espectador seu triste protagonista, Maurice Legrand (Michel Simon em grande atuação): funcionário introvertido de um banco, casado e tratado aos pontapés pela agressiva Adèle (Magdeleine Bérubet), ele parece um homem de poucas alegrias na vida, traduzidas em suas pinturas, das quais se orgulha a despeito da falta de consideração da esposa em relação a seu talento. Em uma noite, saindo de um encontro com colegas de trabalho, Legrand flagra a jovem Lulu Pelletier (Janie Marèse) ser agredida na rua pelo violento Dedé (Georges Flamant) e a toma sob sua proteção. Apaixonado pela bela nova amiga, ele se deixa enganar por ela e Dedé - seu gigolô, que se faz passar por seu irmão - e inicia com ela uma relação extraconjugal. Cada vez mais cego por seu desejo, Legrand nem chega a se incomodar com o fato de Lulu estar vendendo seus quadros como se fossem dela (sob o pseudônimo de Claire Bloom). Com o tempo, ele é surpreendido por uma forma de livrar-se de Adèle e assumir seu novo romance, mas a revelação de que foi ludibriado acarreta uma tragédia que pode por em risco a sua liberdade.


O roteiro, escrito pelo próprio Renoir - e que se utiliza da adaptação que André Mouezy-Éon fez do livro para o teatro - é um primor de concisão. Em cerca de noventa minutos, ele conta sua história sem excessos ou gorduras, centralizando seu foco totalmente em Legrand e nas consequências de sua história de luxúria e crime. Mesmo que o terço final pareça um tanto longo demais em relação ao resto do filme - talvez culpa da saída de Janie Marèse de cena -, é inegável que o cineasta apresenta um senso de ritmo tão preciso quanto suas noções visuais: apesar de pouco inovadora, a fotografia de "A cadela" conduz a trama de forma inteligente e mundana, sem preocupações em arrancar poesia dos cenários decadentes que abarcam o enredo (vil, seco e irônico na medida certa). A atuação contida de Michel Simon se encaixa neste viés naturalista, e vai além ao buscar a simpatia do público através do minimalismo: mesmo que seu personagem às vezes soe como uma caricatura, o trabalho de Simon impede qualquer reação negativa da audiência, conquistada por sua trajetória ímpar e até mesmo do tom leve imposto em alguns momentos (como a reviravolta na metade da narrativa, que o leva a solucionar seu problema matrimonial de forma inusitada). A sequência final, aliás, é de uma ironia deliciosa, exibindo um lado quase debochado do diretor - e que, de certo modo, alivia um bocado o peso do material exibido até então.

E se Michel Simon é o corpo e a alma de "A cadela", seria injusto não oferecer elogios rasgados ao trabalho de Janie Marèse, uma atriz cujo nome não atravessou a história do cinema como deveria (até mesmo devido à sua morte precoce, duas semanas após o término das filmagens de seu desempenho como Lulu Pelletier: evitando as armadilhas fáceis que poderiam fazer de sua personagem uma femme fatale igual a dezenas de outras, Marèse criou uma prostituta que, se não é exatamente simpática ou vítima das circunstâncias, tampouco é uma vilã desprezível e fria, sem traços atenuantes. A performance da jovem atriz é repleta de frescor e leveza, até mesmo diante da tragédia - o que justifica a paixão de Legrand por ela e seu desespero em manter-se a seu lado apesar da dura verdade que lhe é mostrada diante dos olhos. A sedução quase infantil de Marèse e a queda fulminante de Simon formam a base na qual se apoia o filme de Jean Renoir - e é impossível não se deixar envolver pelo desastre que se vislumbra logo em seu primeiro encontro. "A cadela" é um grande filme - que preparava o público para o que o cineasta ainda iria aprontar em sua elogiadíssima carreira.

quinta-feira

DIFERENTE DOS OUTROS

DIFERENTE DOS OUTROS (Anders als die Andern, 1919, Filmmuseum Munchen/Richard-Oswald-Produktion, 50min) Direção: Richard Oswald. Roteiro: Magnus Hirschfeldt, Richard Oswald. Fotografia: Max Fassbender. Montagem: Stefan Drossler, Klaus Volkmer. Direção de arte: Emil Linke. Produção: Richard Oswald. Elenco: Conrad Veidt, Fritz Schulz, Reinhold Schunzel, Anita Berber, Magnus Hirschfeldt. Estreia: 28/5/19

Quando se fala no ator Conrad Veidt, a primeira lembrança que surge remete a suas participações em clássicos do expressionismo alemão, como "O gabinete do Dr. Caligari" (1920) ou "As mãos de Orlac" (1924). O que talvez poucos saibam é que Veidt, nascido em 1893 e que também deixou sua marca em Hollywood ao participar do inesquecível "Casablanca" (realizado em 1942, um ano antes de sua morte), pode ser considerado o primeiro ator do cinema a ter interpretado um homossexual no cinema. Era o ano de 1919, o Código Penal alemão via as práticas homossexuais como um crime e, antes que o Partido Nazista tomasse oficialmente o poder, em 1933, o médico judeu Magnus Hirschfeldt trabalhava arduamente para, através do cinema, educar a população a respeito do assunto daquilo que era considerado, além de crime, um desvio de caráter e uma doença. Um de seus filmes (como roteirista e como ator, interpretando ele mesmo em sequências didáticas mas jamais desinteressantes) é "Diferente dos outros", produzido e dirigido por Richard Oswald e que, ao contrário do que se poderia esperar, fez enorme sucesso nos cinemas germânicos, permanecendo em cartaz por quase um ano - até ser censurado e ter suas cópias destruídas pelo governo. Restaurado por um projeto da Universidade da Califórnia, ele se mantém, mesmo incompleto, como uma prova inconteste da coragem de Hirschfeldt e Oswald em explorar um assunto ainda hoje cercado de preconceito e mitos.

Tudo bem que, cem anos depois do lançamento de "Diferente dos outros", algumas das teorias de Hirschfeldt se mostram um tanto obsoletas, como a que pregava a existência de um "terceiro sexo" - que serve de argumento em uma de suas discussões no filme e que era criticada até mesmo pelos próprios homossexuais da época. Porém, como documento de um período histórico e parte de um esforço para tirar a aura de marginalidade que pesava sobre os ombros da comunidade gay, é uma obra de suma importância - e que só chegou viva aos dias de hoje por um golpe de sorte: misturada a uma série de outros filmes sobre saúde produzidos pelo médico, uma cópia do filme (ainda que não inteira) escapou da fogueira na qual outras obras infelizmente foram destruídas. Sua restauração - que substitui as cenas perdidas por fotografias ou letreiros explicativos - pode não servir para a apreciação da obra como um todo, mas serve perfeitamente bem como uma amostra significativa de suas qualidades dramáticas e objetivos sociais.


Conrad Veidt interpreta Paul Korner, um famoso e celebrado violinista clássico que aceita ensinar ao jovem Kurt Sivers (Fritz Schulz), fã ardoroso de seu trabalho. Não demora para que os dois se apaixonem, mas o romance, é claro, tem inúmeros obstáculos: a família do rapaz quer que ele se case, porque deseja que ele se comprometa com uma garota rica; a irmã dele também se apaixona pelo violinista; e um chantagista, Franz Bollek (Reinhold Schunzel), aproveita-se da situação para pressionar Paul a lhe dar dinheiro em troca de silêncio. A partir daí, o roteiro recorre a flashbacks que relembram a adolescência de Paul (quando ele começa a sentir-se atraído por rapazes) e a explicações didáticas e científicas a respeito da homossexualidade (com a participação do próprio Magnus Hirschfeldt como ele mesmo, um médico procurado pela família de Kurt para curá-lo do que consideravam uma doença). O visual do filme é velho conhecido dos fãs do cinema expressionista alemão, repleto de sombras e atores com maquiagem pesada - que lhes dá, de imediato, a definição sobre suas personalidades. A trama soa melodramática, com direito a tragédias e romance proibido, mas cabe perfeitamente nos objetivos do filme e ganha na performance de Veidt um tom de dignidade e classe que remete mais a óperas do que a telenovelas. E, de quebra, desafia o preconceito com um discurso final inspirado (e inspirador!)

Um século separa a estreia de "Diferente dos outros" do período de obscurantismo e discriminação que ameaça se estender sobre o mundo. Nesses cem anos, muitos avanços foram feitos em relação à forma como a homossexualidade é vista e tratada (no cinema, na televisão, na literatura e na vida real), mas não deixa de ser triste e assustador perceber o tanto de retrocesso que, ao mesmo tempo, a sociedade vem testemunhando. É fundamental que filmes como este sejam conhecidos e celebrados como bandeiras de luta e que sirvam como argumento na batalha contra a homofobia. Afinal, como o próprio Magnus Hirschfeldt declara em cena, "haverá tempos em que tais tragédias não mais existirão. Em que o conhecimento superará o preconceito, a verdade superará as mentiras e o amor triunfará sobre o ódio." É chocante perceber, portanto, que um século depois, tais palavras ainda soam como utopia...

terça-feira

A GUERRA DOS SEXOS

A GUERRA DOS SEXOS (Battle of the sexes, 2017, Fox Searchlight Pictures, 121min) Direção: Jonathan Dayton, Valerie Farris. Roteiro: Simon Beaufoy. Fotografia: Linus Sandgren. Montagem: Pamela Martin. Música: Nicholas Britell. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: Judy Becker/Matthew Flood Ferguson. Produção: Danny Boyle, Christian Colson, Robert Graf. Elenco: Emma Stone, Steve Carell, Andrea Riseborough, Bill Pullman, Elisabeth Shue, Nathalie Morales, Sarah Silverman, Alan Cumming, Eric Christian Olsen. Estreia: 02/9/17 (Festival de Teluride)

Nada como um casal de verdade para comandar, diante dos olhos do público, uma batalha tão representativa sobre a disputa de gêneros quanto a protagonizada, em 1973, por dois jogadores de tênis populares e radicalmente diferentes quanto Billie Jean King e Bobby Riggs. Um dos mais importantes episódios esportivos - e por que não políticos? - da história dos EUA, a partida que uniu o país defronte a uma quadra de tênis ganhou, em "A guerra dos sexos", um retrato ao mesmo tempo irônico e emocionante nas mãos de Jonathan Dayton e Valerie Farris, diretores do já clássico "Pequena Miss Sunshine" (2006). Com um roteiro preciso de Simon Beaufoy - Oscar por "Quem quer ser um milionário? "(2008) - e atuações exemplares de Emma Stone e Steve Carell, o filme acabou sendo um inesperado fracasso de bilheteria e passou quase despercebido pelas cerimônias de premiação (Stone e Carell foram indicados apenas ao Golden Globe, sendo ignorados pelo Oscar e demais associações de críticos). Na verdade, tal resultado tão pouco auspicioso não reflete sua qualidade: sem apelar para o humor fácil ou o ativismo barato, o filme de Dayton e Farris diverte na mesma medida em que faz uma análise atualíssima sobre os papéis masculinos e femininos no final do século XX - e que encontra eco fortíssimo nas reivindicações sobre igualdade salarial no esporte, assunto mais do que em voga nessas primeiras décadas do XXI.

A trama começa em 1970, quando a famosa e vitoriosa Billie Jean King (Emma Stone) bate de frente com Jack Kramer (Bill Pullman), o organizador de um torneio mundial de tênis feminino cujo prêmio máximo é apenas 1/8 do prêmio oferecido ao campeão do campeonato masculino. Criando uma liga própria para mulheres, juntamente com outras jogadoras, Billie Jean acaba se tornando uma espécie de porta-voz de um movimento que pede equiparação de pagamento a homens e mulheres. Sua luta encontra resistência entre os executivos do esporte - todos homens que pregam a inferioridade de talento e força física das jogadoras em relação aos ídolos do chamado "sexo forte". É com essa gana de provar que existe igualdade entre os gêneros que Billie Jean aceita o desafio de Bobby Riggs (Steve Carell) para uma partida a ser transmitida internacionalmente. Jogador já aposentado - depois de uma carreira brilhante -, Briggs é um apostador compulsivo e vive sustentado pela esposa Priscilla (Elisabeth Shue), mas não resiste a bravatas pouco sutis e misóginas. E é para defender seu gênero que Billie Jean entra na quadra e se torna um ícone feminista.


Porém, fora das quadras, a jovem tenista também tem seus problemas pessoais. O casamento com Larry (Austin Stowell) está ameaçado por sua atração pela cabeleireira Marilyn Barnett (Andrea Riseborough) - e esta relação, se chegar até os meios de comunicação pode atrapalhar sua imagem diante do público. Além disso, Bobby tem a seu lado um séquito de atletas e jornalistas conservadores, o que lhe dá uma certa vantagem psicológica. O roteiro de Beaufoy acerta em tratar o romance entre Billie e Marilyn com naturalidade - inclusive dourando um pouco a pílula, uma vez que o relacionamento acabou em 1981 de forma pouco agradável (com Marilyn processando a jogadora). A direção de Dayton e Farris também foge do sensacionalismo e da polêmica, centrando seu foco muito mais na disputa entre os protagonistas (dentro e fora da quadra) e no trabalho irrepreensível de seus dois atores centrais. Emma Stone - que quase foi substituída por Brie Larson mas recuperou o papel a tempo - alterna os estados de espírito de sua personagem com extrema segurança, e Steve Carell parece ter nascido para interpretar Bobby Riggs: sua verve e seu timing cômico são precisos e dão a leveza necessária para não tornar a narrativa algo panfletário ou desinteressante. Da mesma forma, o elenco coadjuvante brilha sem roubar a atenção da dupla principal - e conta com nomes conhecidos como Bill Pullman e Elisabeth Shue.

Engraçado, importante e absolutamente atual, "A guerra dos sexos" talvez tenha fracassado nas bilheterias justamente por não se dobrar ao óbvio e ao cômodo. Não provoca gargalhadas fáceis nem tampouco tenta forçar a simpatia da plateia a um assunto bastante explosivo. É apenas um (bom) filme, contado com inteligência e sensibilidade, e que pode provocar discussões bastante saudáveis e pertinentes. Em uma época na qual poucos filmes tem a coragem de sair da zona de conforto, é um alento dos mais divertidos e simpáticos. Não vai mudar a história do cinema nem a vida do espectador, mas é muito mais relevante do que obras pretensamente sérias e politicamente corretas que conseguem enganar crítica e público. Um filme a ser descoberto e aplaudido!

segunda-feira

FOME DE PODER

FOME DE PODER (The founder, 2016, The Weinstein Company, 115min) Direção: John Lee Hancock. Roteiro: Robert Siegel. Fotografia: John Schwartzman. Montagem: Robert Frazen. Música: Carter Burwell. Figurino: Daniel Orlandi. Direção de arte/cenários: Michael Corenblith/Susan Benjamin. Produção executiva: Glen Blasner, Holly Brown, Alison Cohen, David Glasser, David S. Greathouse, William D. Johnson, Christos V. Konstankapoulos, Karen Lunder, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Don Handfield, Jeremy Renner. Elenco: Michael Keaton, Laura Dern, John Carroll Lynch, Nick Offerman, Linda Cardellini, B.J. Novak, Patrick Wilson. Estreia: 24/11/16

Histórias de bastidores - como "A rede social", de David Fincher, sobre Mark Zuckerberg, criador do Facebook - sempre mostram que nem sempre a ética e a honestidade são os pilares para a construção de impérios. "Fome de poder", que narra a trajetória do homem que supostamente fundou a rede de fast food mais conhecida do mundo, o McDonald's, corrobora essa triste constatação. Dirigido pelo mesmo John Lee Hancock que contou histórias reais em "Um sonho possível" (2009), "Walt nos bastidores de 'Mary Poppins' (2014) e "Um homem entre gigantes" (2016), o filme, que tem o ator Jeremy Renner como um dos produtores, teve seus direitos de distribuição comprados pela Weinstein Company por sete milhões de dólares mas, mesmo lançado na temporada de possíveis indicados ao Oscar, passou em brancas nuvens pelos olhos tanto da Academia quanto do público, que não pareceu se interessar muito pelo assunto, apesar da presença de Michael Keaton no papel principal.

Continuando a boa fase inaugurada por sua performance indicada ao Oscar, no premiado "Birdman" (2014), Michael Keaton apresenta mais um trabalho bastante interessante - ainda que seu personagem não seja lá muito simpático - e, de certa forma, comanda o tom e o ritmo do filme de Hancock. Assumindo o papel que Tom Hanks (a primeira escolha dos produtores) recusou, o infame Beetlejuice parece estar se divertindo como nunca na pele do amoral Ray Kroc, um vendedor externo de equipamentos para lanchonetes que, cansado de fracassar em todas as suas tentativas de tornar-se independente financeiramente, descobre uma mina de ouro no restaurante de fast food de dois irmãos ambiciosos mas pouco dispostos a burlar seus ideais éticos. A trama começa em 1954, quando, durante uma viagem a negócios, Kroc conhece o McDonald's, de propriedade de Richard (Nick Offerman) e Maurice McDonald (John Carroll Lynch) e concebido pelos próprios irmãos, com diretrizes rígidas de qualidade - diferente de outras redes, o estabelecimento preza pela agilidade, bom atendimento e pela forma original de sua loja, localizada em San Bernardino, no estado da Califórnia. Intuindo que pode ganhar muito dinheiro explorando a franquia da marca, construindo lojas em outros estados do país, Kroc consegue convencer os McDonalds a lhe darem a autorização necessária para expandir o negócio. E é aí que as coisas saem do controle dos ingênuos empresários e mostram o verdadeiro caráter de seu novo sócio.


Pouco afeitos a dirigirem roteiros alheios, os irmãos Ethan e Joel Coen estiveram bem perto de assinar a direção de "Fome de poder", tamanho o seu entusiasmo pelo script de Robert Siegel, considerado um dos melhores inéditos de 2014. A dupla de diretores só não se manteve à frente do projeto porque já estavam trabalhando em "Ave, Cesar" - o que permitiu a John Lee Hancock ter em mãos um projeto que, segundo o próprio Siegel, era uma mistura entre "A rede social" (2010) e "Sangue negro"(2007) - elogiado drama de Paul Thomas Anderson sobre a ambição desmedida de um homem (vivido por um oscarizado Daniel Day-Lewis). Ao contrário de suas fontes de inspiração, porém, "Fome de poder" fica no meio termo entre a modernidade do primeiro (que deu um Oscar à Aaron Sorkin) e a densidade do segundo, baseado em um livro de Sinclair Lewis: consistente, mas sem maiores ousadias formais ou narrativas, a trama se desenvolve sem sobressaltos, mas deixa transparecer com facilidade sua carência em cativar o público por completo. Não há nada de errado no filme, mas ele tampouco consegue atingir todas as suas possibilidades - culpa talvez da direção burocrática de Hancock ou da personalidade francamente desagradável de seu protagonista.

Talvez a opção de colocar Tom Hanks no papel central fosse mais acertada do que a escolha de Michael Keaton: Hanks, com seu jeito de bom moço e carisma à toda prova tinha grandes chances de driblar as características menos simpáticas de Ray Kroc e torná-lo um personagem mais palatável ao gosto do público médio. Já Michael Keaton demonstra total intimidade com seu lado sombrio e pouco confiável - nem mesmo a esposa, vivida por Laura Dern, é poupada em sua trajetória. Do vendedor simpático e atencioso do começo do filme até o implacável empresário do final - quando finalmente mostra suas reais intenções de apossar-se da marca criada pelos irmãos McDonald - o trajeto de Kroc é ilustrado por Keaton com entusiasmo de principiante: apesar de não abrir mão de alguns de seus tiques mais conhecidos, o Batman de Tim Burton consegue se distanciar de seus personagens mais conhecidos e criar um anti-herói dos mais questionáveis, algo como o jornalista vivido por Kirk Douglas em "A montanha dos sete abutres" ou o polêmico editor da revista Hustler, interpretado por Woody Harrelson em "O povo contra Larry Flynt" (1996). São homens falhos em caráter, mas dotados de força de vontade e inteligência suficientes para encobrir seus defeitos mais óbvios. Mesmo sem ter conseguido empurrar "Fome de poder" aos tapetes vermelhos de sua temporada, Keaton é o grande destaque do filme e mantém o interesse do público até os minutos finais. Uma boa pedida para quem gosta de saber dos podres das grandes empresas.

domingo

FILHOS DO SILÊNCIO

FILHOS DO SILÊNCIO (Children of a lesser God, 1986, Paramount Pictures, 119min) Direção: Randa Haines. Roteiro: Hesper Anderson, Mark Medoff, peça teatral de Mark Medoff. Fotografia: John Seale. Montagem: Lisa Fruchtman. Música: Michael Convertino. Figurino: Renee April. Direção de arte/cenários: Gene Callahan/Rose Marie McSherry. Produção: Patrick J. Palmer, Burt Sugarman. Elenco: William Hurt, Marlee Matlin, Piper Laurie, Philip Bosco. Estreia: 31/10/86

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (William Hurt), Atriz (Marlee Matlin), Atriz Coadjuvante (Piper Laurie), Roteiro Adaptado
Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Marlee Matlin)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Marlee Matlin) 

Muitos anos antes que campanhas sobre inclusão fizessem parte da rotina de Hollywood, a adaptação de uma peça teatral da Broadway, lançada pela Paramount Pictures fez com que a Academia quebrasse (mais ou menos) alguns paradigmas. Menos porque, apesar de indicado aos Oscar de melhor filme, ator, atriz e roteiro, "Filhos do silêncio" ficou de fora da disputa de melhor direção - sintomaticamente, o filme era assinado por uma mulher, Randa Haines, que perdeu a vaga para David Lynch e seu "Veludo azul". Mais porque, pela primeira e única vez até hoje, a vencedora na categoria de melhor atriz foi uma jovem surda-muda estreante nas telas. Com apenas dezenove anos de idade no período das filmagens e vinte e um na cerimônia de premiação, Marlee Matlin bateu veteranas (Jane Fonda, Sissy Spacek) e estrelas em ascensão (Kathleen Turner e Sigourney Weaver) para arrebatar sua estatueta - e de quebra conquistou também seu parceiro de cena, William Hurt, com quem manteve uma relação atribulada na segunda metade da década de 1980. Seu trabalho, contundente e emocional, é o grande destaque do filme de Haines, o primeiro dirigido por uma mulher a concorrer ao Oscar principal.

Selecionada a partir de uma busca por países como EUA, Canadá, Suécia e Grã-Bretanha, a iniciante Marlee Matlin foi escolhida quase por acaso, quando os produtores a viram em uma participação na montagem da peça original, em Chicago: mesmo em um papel coadjuvante nos palcos, Matlin conquistou a atenção e a confiança do estúdio e ganhou a chance de ser a protagonista na versão cinematográfica da história, criada por Mark Medoff. O próprio Medoff co-assinou o roteiro, ao lado de Hesper Anderson, e foi indicado ao Oscar por ele. Sua trama é simples, focada em personagens fortes e um romance difícil, mas o trabalho de Matlin é surpreendente: mesmo com pouca experiência, ela transmite com brilhantismo todas as várias nuances de sua personagem, muitas vezes dispensando a tradução de sua linguagem de sinais graças à sua expressividade. Nem mesmo contracenando com William Hurt - com um Oscar fresquinho em mãos, por "O beijo da mulher-aranha" (1985) - ela se deixa intimidar, em um embate de interpretações que justifica os elogios rasgados da crítica à produção de Haines, que, a não ser por seu belo elenco, poderia facilmente ser confundida com um filme feito para a televisão.


Visualmente convencional e com uma narrativa extremamente simples, "Filhos do silêncio" se ampara em sua trama e seus personagens para conquistar o público. Não que seja muito fácil: a protagonista feminina, Sarah Norman (interpretada por Marlee Matlin) não é exatamente simpática, e não faz a menor questão em disfarçar sua agressividade em relação ao mundo à sua volta. Ela trabalha como faxineira em uma escola para surdos-mudos na Nova Inglaterra na qual ela mesma estudou quando criança - e da qual era uma das melhores estudantes. Decidida a não descobrir o vasto mundo fora de sua zona de conforto e pouco afeita à vida familiar com sua mãe (Piper Laurie, indicada ao Oscar de coadjuvante), Sarah tem suas convicções abaladas quando conhece o novo professor da instituição, James Leeds (William Hurt), que fica encantado com ela assim que a vê pela primeira vez. Apaixonado, ele tenta convencê-la a buscar mais da vida, tentar falar e conviver também com pessoas que não pertençam a seu círculo de amizades. Suas tentativas, porém, não são muito felizes, e o amor que nasce entre os dois passa a ser ameaçado pelo silêncio entre seus dois universos.

O roteiro de "Filhos do silêncio" se concentra, então, a apresentar as dificuldades que atravessam o caminho dos dois amantes. Ele fica frustrado por não poder mostrar a ela a beleza da música; ela se sente diminuída diante dos amigos dele; ele não consegue se enturmar com quem a cerca; ela o acusa de forçá-la a ser quem ela não é. As discussões entre os protagonistas são interessantes e encontram intérpretes geniais em Hurt e Matlin, mas existe um sério problema de ritmo que dificulta a entrega total do espectador. O filme leva quase duas horas para contar uma história que poderia ter uns bons trinta minutos a menos, e Sarah, apesar de ter motivos para isso, é uma personagem um tanto irascível demais para conquistar completamente o público. Concentrando-se basicamente nos dois personagens centrais, o filme perde o foco quando tenta abraçar tramas paralelas - o relacionamento de James com seus alunos é fundamental para a história, mas poderia ser mais resumido - e estender demais a resolução dos conflitos estabelecidos desde o princípio. "Filhos do silêncio" tem seus momentos, mas no geral é bastante irregular - não à toa, a Academia premiou justamente seu maior trunfo e preferiu entregar seus troféus mais importantes do ano ao polêmico "Platoon", de Oliver Stone, muito mais marcante e cinematograficamente potente.

sábado

DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL

DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL (Deus e o Diabo na Terra do Sol, 1964, Copacabana Filmes, 120min) Direção e roteiro: Glauber Rocha. Fotografia: Waldemar Lima. Montagem: Rafael Valverde. Música: Sérgio Ricardo. Figurino/Direção de arte: Paulo Gil Soares. Produção: Luiz Augusto Mendes. Elenco: Geraldo Del Rey, Yoná Magalhães, Othon Bastos, Maurício do Valle, Lídio Silva, Sonia dos Humildes. Estreia: 11/5/64 (Festival de Cannes)

Quando "Deus e o Diabo na Terra do Sol" estreou, no Festival de Cannes de 1964, o Brasil já havia começado a sofrer o impacto de uma ditadura militar que durou mais de duas décadas. Coincidência ou não, o filme do baiano Glauber Rocha usa e abusa de alegorias políticas e religiosas, criticando sem medo o autoritarismo tanto do governo quanto da Igreja (seja ela qual for). Elogiado pela imprensa mundial e por nomes como Fritz Lang e Luis Buñuel, o segundo longa de Glauber acabou se tornando, com o tempo, o mais icônico de seus trabalhos, e uma das mais bem acabadas produções do Cinema Novo - a resposta brasileira à nouvelle vague francesa. Clássico absoluto e referência obrigatória da cinematografia nacional, é, também, uma prova da inventividade do cineasta em mesclar a linguagem do cinema clássico hollywoodiano (mais precisamente os faroestes de John Ford) e os experimentalismos de Eisenstein. O resultado é um fascinante sincretismo cultural, que une a brasilidade árida do sertão nordestino aos elementos mais universais da técnica cinematográfica em uma ópera grandiloquente e emocionante sobre os perigos do messianismo.

A trama já começa de forma explosiva, quando o vaqueiro Manuel (Geraldo Del Rey) mata o patrão explorador e foge com a esposa, Rosa (Yoná Magalhães, no auge da beleza e do carisma). No meio do sertão, os dois conhecem e se tornam seguidores de Santo Sebastião (Lídio Silva), o líder de uma seita religiosa combatida com violência pelo governo - um personagem nitidamente inspirado por Antônio Conselheiro, figura real e cabeça da guerra de Canudos, também no Nordeste brasileiro. A influência de Sebastião é tanta que não demora para que a Igreja, sentindo-se ameaçada em seu poder, resolva dar um fim à sua vida. Sob as mãos do jagunço Antônio das Mortes (Maurício do Vale), o grupo é sumariamente liquidado, mas o casal consegue escapar com vida - não sem antes passar por uma série de testes humilhantes e dolorosos para serem aprovados pelo beato. Na fuga depois do massacre, Manuel e Rosa encontram Corisco (Othon Bastos), cangaceiro sobrevivente do bando de Lampião e, ainda sem rumo definido, o vaqueiro aceita converter-se ao cangaço, apesar das dúvidas de sua mulher. Com o codinome de Satanás, Manuel entra no bando de Corisco, mas novamente Antônio das Mortes surge em seu caminho.


Unindo o erudito ao popular também através de sua trilha sonora, que mistura canções de Sérgio Ricardo e trechos da obra de Heitor Villa-lobos, "Deus e o Diabo na Terra do Sol" é uma viagem sensorial das mais instigantes para dentro do universo nordestino, sem que tal regionalidade se torne algo limitante. Glauber Rocha cria um belíssimo jogo de paradoxos - Deus/Diabo; lírico/popular; violência/religiosidade - para construir uma narrativa alegórica em que palavras são quase desnecessárias. Fala-se mais através das poderosas imagens e da música do que de diálogos - que, quando surgem, demonstram o senso de poesia e teatralidade do cineasta. Na pele de Corisco, o ator Othon Bastos apresenta um dos melhores (se não O melhor) trabalho de sua carreira, enquanto a Geraldo Del Rey e Yoná Magalhães cabem o desafio de costurar, com seus personagens, as linhas que separam (ou unem) todas as dualidades concebidas pelo roteiro. E nem mesmo alguns momentos um tanto esquisitos - cenas de ação não exatamente realistas - conseguem atrapalhar o maior mérito do filme, que é imprimir identidade brasileira e discussões políticas em um gênero aparentemente norte-americano e de puro entretenimento: o faroeste.

É difícil não lembrar da vastidão das paisagens retratadas por John Ford quando se assiste a "Deus e o Diabo na Terra do Sol". É claro que, no lugar do Monument Valley e dos cavalos ao pôr-do-sol, a fotografia de Waldemar Lima destaca a aridez do sertão e o sol escaldante do nordeste (tudo em um cuidadoso preto e branco), mas em ambos os casos há a intenção de situar o homem em sua insignificância diante da natureza e do destino. Ao contrário dos personagens criados por Ford e seu ator preferido, John Wayne, porém, o Manuel interpretado por Geraldo Del Rey é mais compassivo, mais maleável aos desígnios de uma trajetória errática em busca de redenção: não é um herói, e tampouco um bandido, e sim um homem comum, torturado pelo desespero de não encontrar um sentido para uma vida difícil e violenta. Fugindo do tradicional final feliz e deixando ao espectador a missão de traduzir suas belas imagens e seus diálogos potentes, Glauber Rocha inscreveu seu nome definitivamente na história do cinema nacional com um filme indispensável a qualquer fã de cinema - brasileiro ou não. "Deus e o Diabo na Terra do Sol" é cinema em sua essência, pura e radical, bela e angustiante, lírica e dolorida.

quinta-feira

DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE

DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE (The Basketball Diaries, 1995, New Line Cinema, 102min) Direção: Scott Kalvert. Roteiro: Bryan Goluboff, livro de Jim Carroll. Fotografia: David Phillips. Montagem: Dana Congdon. Música: Graeme Revell. Figurino: David C. Robinson. Direção de arte/cenários: Christopher Nowack/Harriet Zucker. Produção executiva: Chris Blackwell, Dan Genetti. Produção: Liz Heller, John Bard Manulis. Elenco: Leonardo DiCaprio, Mark Wahlberg, Lorraine Bracco, Bruno Kirby, James Madio, Patrick McGaw, Juliette Lewis. Estreia: 27/01/95 (Festival de Sundance)
 
Quando "Diário de um adolescente" estreou, no Festival de Sundance de 1995, Leonardo DiCaprio já tinha no currículo uma indicação ao Oscar de coadjuvante - pelo filme "Gilbert Grape: aprendiz de sonhador" (1993) - mas ainda não era o ídolo juvenil no qual se tornou após o sucesso de "Romeu + Julieta" (1996) e "Titanic" (1997). Isso explica porque o filme de Scott Kalvert não arrebentou nas bilheterias e chamou muito mais a atenção da crítica do que do público. Baseada em um cultuado livro de Jim Carroll - adorado pelo ator River Phoenix, por exemplo, que, segundo boatos, era um nome considerado para o papel central -, a produção serviu principalmente para confirmar que DiCaprio já era, ainda bastante jovem, um ator muito acima da média. Mesmo que nem sempre ele consiga escapar do exagero em alguns momentos de sua atuação, na pele do rebelde e desajustado Jim ele se sobressai a ponto de mal dar espaço aos companheiros de cena - dentre os quais estão Juliette Lewis (em uma participação especial como uma prostituta juvenil) e Mark Wahlberg (começando na carreira de ator depois da consagração como o rapper Marky Mark e das campanhas de cuecas Calvin Klein).

Publicado em 1978 e imediatamente alçado a cult, o livro de memórias de Jim Carroll - que faz uma participação especial no filme, em uma cena com DiCaprio - virou também um símbolo da contracultura, com sua descrição corajosa e sem romantismo de uma adolescência regada a drogas, bebida, prostituição e contravenções pesadas. Sua adaptação tem o mérito de tentar manter-se fiel ao estilo iconoclasta de Carroll, mas a inexperiência do cineasta em longas-metragens faz com que sua estrutura quase episódica afaste o público de um envolvimento maior com seu protagonista, um jovem francamente pouco simpático que apenas o carisma de Leonardo DiCaprio consegue deixar menos desagradável. Jim é um rapaz que vive sozinho com a mãe (Lorraine Bracco), em um bairro barra pesada de Nova York. Apesar das dificuldades financeiras, estuda em um bom colégio, faz parte do time de basquete e leva uma vida cujos maiores sobressaltos dizem respeito a suas aventuras com um grupo de amigos que, assim como ele, passam o dia provocando autoridades (pais, professores, treinador) em busca de adrenalina. Essa busca acaba levando Jim aos braços da heroína e à decadência física e moral - tudo devidamente registrado em seus escritos pessoais, que descrevem todas as sensações de sua viagem ao inferno.





Vindo do universo dos videoclipes (vários de Marky Mark, inclusive, além de trabalhos com Cyndi Lauper, New Kids on the Block e Rod Stewart), o diretor Scott Kalvert é, como se poderia esperar, mais afeito às imagens do que às palavras, o que lhe permite criar algumas sequências bastante criativas visualmente - especialmente nos delírios do protagonista, que vão desde chacinas no ambiente escolar até alucinações causadas pela abstinência. DiCaprio se esforça em transmitir todas as nuances de seu complexo personagem, mas nem sempre a direção de Kalvert consegue atingir todas as possibilidades dramáticas do texto de Carroll. Explorando ao máximo a fotografia crua e sem glamour de David Phillips, o cineasta despe Nova York de qualquer beleza ou charme, desviando sua câmera para becos sujos, ruas mal iluminadas e paisagens pouco convidativas. Fugindo ao máximo de qualquer traço de sentimentalismo, ele só se curva à emoção nas cenas de Jim com seu melhor amigo, Bobby (Michael Imperioli), que está morrendo de leucemia no hospital: antes de seu casamento com as drogas pesadas, são os únicos momentos em que o protagonista dá mostras de ser menos do que um adolescente irascível e desagradável - uma característica que dificulta a empatia da plateia e quase prejudica o filme como um todo.

Realizado com coragem e verdade, "Diário de um adolescente" peca, apesar disso, pelo fato de não apresentar nada de novo em relação a seu tema principal. A trajetória de Jim rumo ao fundo do poço pode ter sido lançada antes dos junkies niilistas de "Trainspotting: sem limites" (1996), mas está longe de ser novidade para o público que testemunhou o pesadelo de Christiane F. no filme alemão de 1981 - este sim um petardo chocante e angustiante em sua realidade nua. Com uma direção mais firme - que explorasse o talento de DiCaprio e controlasse seus excessos de iniciante - e uma produção que soasse menos amadora, o filme seria inesquecível. Como está, é um bom cartão de visitas para o jovem ator e uma adaptação fiel de um clássico de seu tempo. Nada mal, mas aquém do que poderia ser.

quarta-feira

EU, TONYA

EU, TONYA (I, Tonya, 2017, AI-Film/ClubHouse Pictures, 120min) Direção: Craig Gillespie. Roteiro: Steven Rogers. Fotografia: Nicolas Karakatsanis. Montagem: Tatiana S. Riegel. Música: Peter Nashel. Figurino: Jennifer Johnson. Direção de arte/cenários: Jade Healy/Adam Willis. Produção executiva: Len Blavatnik, Zanne Devine, Aviv Giladi, Ben Giladi, Craig Gillespie, Toby Hill, Vince Holden, Rosanne Korenberg. Produção: Margot Robbie, Steven Rogers, Bryan Unkeless. Elenco: Margot Robbie, Sebastian Stan, Allison Janney, Julianne Nicholson. Estreia: 08/9/2017 (Festival de Toronto)

3 indicações ao Oscar: Atriz (Margot Robbie), Atriz Coadjuvante (Allison Janney), Montagem
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Allison Janney)
Vencedor do Golden Globe de Atriz Coadjuvante (Allison Janney) 

O início dos anos 1990 foi pródigo para os tabloides sensacionalistas norte-americanos. Primeiro Lorena Bobbitt arrancou o pênis do marido e jogou pela janela do carro, tornando-se um símbolo do feminismo e da luta contra a violência doméstica. Depois, os irmãos Menendez - filhos de um executivo do entretenimento - foram presos e julgados, acusados do assassinato dos pais, e revelaram um histórico de abusos sexuais, em um julgamento que parou o país. E por fim, o mundo do esporte também apresentava seu escândalo, quando a patinadora artística Nancy Kerrigan foi cruelmente atacada por um homem que, segundo apuraram as investigações, tinha ligações com o marido de sua maior rival, Tonya Harding. A história, que ilustrou páginas e mais páginas de jornais do mundo todo, tornou-se icônica e entrou para os anais do esporte, e parecia estranho que Hollywood tivesse demonstrado pouco interesse por uma trama com todos os ingredientes necessários para capturar a atenção do público. Mais de vinte anos se passaram até que "Eu, Tonya" - uma visão ácida, sarcástica e ainda assim emocionante - finalmente visse a luz dos refletores. Com um roteiro espertíssimo de Steven Rogers (considerado um dos melhores scripts não filmados de 2016) e a direção inspirada do australiano Craig Gillespie (do ótimo e sub-apreciado "A garota ideal", de 2007), o filme, produzido e estrelado por Margot Robbie, tornou-se uma das produções mais premiadas de sua temporada - e pode ser considerado uma das mais criativas cinebiografias já realizadas pelo cinema americano.

Sem desrespeitar sua protagonista, mas extraindo dela todas as suas possibilidades - tanto dramáticas quanto cômicas -, o filme de Gillespie assume a forma de um documentário informal, com os lances trágicos da história sendo mostrados ao público pelos olhos dos próprios personagens (às vezes sendo confirmados pela edição ágil e bem-humorada, às vezes sendo traídos pelas contradições mais óbvias). Buscando inspiração em programas policiais sensacionalistas como "Hard Copy" e ousando na forma de apresentar uma história já devidamente vasculhada e requentada diversas vezes em duas décadas, o roteiro não se furta a investir em um senso de humor macabro ao mesmo tempo em que tenta chegar ao fundo das razões que levaram ao trágico acontecimento. Surpreendendo a plateia ao não se deter no "incidente" em si e sim nas relações doentias de Tonya - com sua mãe amarga e super-protetora e com seu marido violento -, o filme é muito mais psicologicamente profundo do que seu verniz cômico deixa aparentar, e boa parte de seu êxito em transcender os rótulos vem dos brilhantes trabalhos de Robbie e Allison Janney - esta última premiada com praticamente todos os troféus do ano, incluindo o Golden Globe e o Oscar de atriz coadjuvante.





Um dos maiores méritos do roteiro de Steven Rogers é não fixar-se exclusivamente no caso Harding-Kerrigan, mas sim investigar, através da biografia de sua protagonista, os fatos que levaram a tal desfecho. De uma infância reprimida e controlada com mão de ferro por sua mãe, Lavona (Allison Janney em atuação impecável) até o casamento turbulento e agressivo com Jeff Gillooly (Sebastian Stan, muito bem aproveitado pela direção de Gillespie), o filme acompanha uma trajetória repleta de altos e baixos físicos e psicológicos, que forjaram a personalidade complexa de Tonya. Deixando de lado o glamour dos ringues de patinação e se concentrando no dia-a-dia pesado da atleta, o filme rompe com a estrutura convencional do "levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima" e se mostra uma produção ousada em retratar seus personagens sem condescendência ou julgamentos morais. É sintomático que Nancy Kerrigan mal apareça em cena - o roteiro é centrado justamente em Tonya e seu relacionamento com as duas pessoas mais próximas (e por coincidência mais tóxicas). Quando se assiste ao filme, é difícil não imaginar como Harding não sofreu destino ainda pior.


Com uma edição inteligente, que evita o tradicional e acentua o tom sarcástico do roteiro, "Eu, Tonya" também brilha em outros aspectos: a trilha sonora repleta de sucessos da época, a caracterização impecável e a direção segura de Gillespie, porém, não fazem sombra ao desempenho arrebatador de Margot Robbie no papel principal. Saltando de papéis coadjuvantes em filmes elogiados como "O lobo de Wall Street" (2013) para o estrelato em um trabalho difícil e exigente, a bela atriz surpreendeu crítica e público com uma interpretação nunca aquém de brilhante. Mesmo que efeitos visuais a substituam nas cenas em que Harding está no ringue, é Robbie quem dá consistência dramática e irônica à personagem, inserindo um toque de humanidade essencial a uma trama na qual ela poderia facilmente ser acusada de monstro insensível e frio. Desviando das armadilhas sentimentais e evitando o humor fácil, a atriz fez por merecer os elogios unânimes e a indicação ao Oscar - e deu um novo rumo a uma carreira que promete oferecer à plateia muitos outros trabalhos dignos de prêmios. "Eu, Tonya" é um feliz casamento entre um roteiro sagaz, uma direção inspirada, uma trama inacreditavelmente verdadeira e um elenco excepcional. Imperdível!

segunda-feira

ENCURRALADO

ENCURRALADO (Duel, 1971, Universal Television, 90min) Direção: Steven Spielberg. Roteiro: Richard Matheson. Fotografia: Jack A. Marta. Montagem: Frank Moriss. Música: Billy Goldenberg. Direção de arte/cenários: Robert S. Smith/S. Blydenburgh. Produção: George Eckstein. Elenco: Dennis Weaver, Jacqueline Scott. Estreia: 10/11/71

Quando ficou internacionalmente famoso, com seu avassalador "Tubarão" (75), Steven Spielberg foi unanimemente louvado por sua inteligência em esconder o grande vilão do filme até quase seu final, aumentando a tensão do público exatamente pelo poder da sugestão. O fato é que o cineasta optou por tal caminho não por vontade própria, mas porque o tubarão mecânico construído para o filme não funcionava de jeito nenhum e arriscava tornar o suspense uma comédia involuntária. O que as pessoas também não sabiam, à época de seu lançamento, é que o mesmo Spielberg já havia utilizado de artifício semelhante (mas aí assim como opção consciente) em uma obra realizada quatro anos antes e que só chegou às telas de cinema pela confiança dos executivos da Universal Pictures no material. Filmado inicialmente como um telefilme e posteriormente estendido por mais 16 minutos em ordem de alcançar os 90 minutos de duração, "Encurralado" foi o primeiro trabalho do diretor a estrear no cinema (fora dos EUA, onde ele estreou apenas na televisão), mas, apesar das críticas positivas, não chegou a ser um sucesso de bilheteria, tornando-se cult apenas depois do êxito impressionante das produções posteriores de Spielberg. E já no começo da carreira, o mais bem-sucedido diretor de todos os tempos mostrava que sabia como ninguém utilizar os mecanismos do cinema para manipular a emoção do público.

Se em "Tubarão" o espectador fica roendo as unhas na expectativa de finalmente conhecer o vilão do filme - que só dá as caras e os dentes no terço final -, em "Encurralado" o mistério envolvendo o violento antagonista é ainda mais eficiente e aterrorizante. Que o público não espere ver um personagem caricato ou estereotipado atrás do volante do caminhão que tortura o protagonista, vivido por Dennis Weaver: para Spielberg não importa a cara do perigo e de onde ele vem - mas apenas os efeitos que ele causa dentro e fora das telas. Filmado em apenas doze dias (com um acréscimo de outros quatro para cenas extras para o lançamento nos cinemas), "Encurralado" é um exemplo perfeito das habilidades de seu criador, tanto em termos logísticos quanto artísticos. Desde então, Spielberg tornou-se mestre em economizar tempo e dinheiro em suas produções - e fazer delas entretenimento dos mais competentes, com um padrão de qualidade que foi se avolumando com o tempo até chegar a obras-primas, desde as mais divertidas (a trilogia Indiana Jones e o primeiro "Jurassic Park", de 1993), até as mais sérias, como "A lista de Schindler" (1993) e "O resgate do soldado Ryan" (1998), que finalmente lhe renderam o Oscar. Dotado de ritmo e um excelente timing de suspense, "Encurralado" é daqueles filmes de grudar na poltrona até o minuto final - e apesar de soar datado em vários momentos, funciona incrivelmente bem até mesmo hoje, quando efeitos especiais parecem muito mais importantes do que talento narrativo.


Indicado ao Golden Globe de melhor filme feito para a TV, "Encurralado" tem uma trama simples e uma economia de personagens e diálogos que chega a ser fascinante. O protagonista, David Mann (em papel que chegou a ser considerado para um então iniciante chamado Dustin Hoffman mas que acabou nas mãos de Dennis Weaver, da série de televisão "Gunsmoke"), é um homem comum, o empregado de uma empresa de vendas que precisa atravessar as estradas da Califórnia para um encontro de negócios. O que parecia uma viagem tediosa e absolutamente trivial se transforma em um pesadelo real, porém, quando Mann resolve ultrapassar um caminhão que, à sua frente, parece não ter nenhuma pressa em seu caminho. Tomando a ultrapassagem como ofensa pessoal, o motorista do caminhão começa então um jogo de nervos com seu rival - um perigoso jogo, que, num crescendo de violência e opressão, logo se transforma em uma luta de vida ou morte. Em pânico, Mann (que não consegue nem mesmo vislumbrar a aparência do caminhoneiro), percebe que só fugir não basta: ele também precisa atacar, mesmo que suas condições sejam menos vantajosas.

Spielberg usa e abusa de artifícios narrativos simples, mas que se mostram extremamente eficientes no resultado final. Optando por esconder (do protagonista e do público) o rosto do motorista do caminhão, ele transforma o próprio veículo em um monstro a ser vencido - não à toa, o cineasta escolheu um modelo (Peterbilt) cuja visão se assemelha a um rosto. Representando o espectador comum, David Mann é um personagem central que evoca histórias bíblicas (Davi vs Golias) e transmite à plateia um senso de fragilidade emocional e física com as quais é fácil se identificar. Em um toque de mestre, seu duelo com o caminhoneiro representa uma luta quase interna: culpado por não ter defendido sua esposa de uma cantada violenta, a ele parece que bater de frente com seu novo inimigo é uma forma de confirmar sua masculinidade e sua hombridade. É difícil não criar empatia com Mann, e Spielberg sublinha a tensão com closes claustrofóbicos, uma edição astuta e um desenho de som criativo, que brinca com a perspectiva da plateia e de seu protagonista. Baseado em um conto de Richard Matheson (também autor do roteiro) publicado na revista Playboy, "Encurralado" acabou por ser um extraordinário cartão de visitas para Steven Spielberg - que poucos anos depois mudaria para sempre o conceito de sucesso comercial em Hollywood. Como se pode perceber, talento sempre houve.

domingo

DUNKIRK

DUNKIRK (Dunkirk, 2017, Warner Bros, 106min) Direção e roteiro: Christopher Nolan. Fotografia: Hoyte Van Hoytema. Montagem: Lee Smith. Música: Hans Zimmer. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Nathan Crowley/Emmanuel Delis. Produção executiva: Jake Myers. Produção: Christopher Nolan, Emma Thomas. Elenco: Tom Hardy, Mark Rylance, Kenneth Branagh, Cillian Murphy, James D'Arcy, Barry Keoghan, Tom Glynn-Carney, Jack Lowden, Harry Stiles. Estreia: 13/7/17

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Christopher Nolan), Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Edição de Som, Mixagem de Som, Direção de Arte/Cenários
Vencedor de 3 Oscar: Montagem, Edição de Som, Mixagem de Som 

Quando chamou a atenção do público pela primeira vez, ele lançou "Amnésia" (2001), que se tornou um dos maiores sucessos do cinema independente da década. Quando quis fazer um filme de super-herói, assinou a trilogia "O Cavaleiro das Trevas", que rendeu milhares de dólares e elevou o patamar dos filmes baseados em quadrinhos. Quando brincou de ficção científica, arrasou com "A origem" (2010) e "Interestelar" (2014), dois filmes muito acima da média do cinema mainstream feito em Hollywood. Por isso, não foi surpresa para ninguém quando Christopher Nolan anunciou que faria um filme sobre um dos episódios mais famosos da II Guerra Mundial e chegou com "Dunkirk": realizado com estimados 100 milhões de dólares (um custo razoável para uma produção de grande porte) e sem nenhum astro de primeira grandeza para garantir o retorno do investimento, o filme de Nolan tornou-se mais um fenômeno em sua carreira, ultrapassando a marca dos 500 milhões de dólares em arrecadação mundial - e, de quebra, arrebatou oito indicações ao Oscar, incluindo melhor filme e direção. Foi a consagração definitiva de uma obra que dosa, com habilidade de mestre, arte e entretenimento, diversão e inteligência, emoção com técnica. Lançado em pleno verão americano - período em que o público notoriamente prefere produções menos sérias e mais populares -, "Dunkirk" mostrou que, às vezes, não subestimar o cérebro da plateia pode dar muito certo.

Fugindo do tradicional formato narrativo, que acompanha um protagonista através de uma trajetória na qual se identificam claramente princípio, meio e fim, o roteiro de Nolan abraça uma outra forma de contar sua história - e que exige muito mais de sua plateia do que simplesmente sentar diante da tela e seguir uma trama. Estruturando o filme em três frentes distintas - ar, mar e terra - e dividindo seu enredo em personagens e tempos diferentes, "Dunkirk" é uma viagem sem trégua, um mergulho radical na sensação mais absoluta de estar em uma guerra. Se em "O resgate do soldado Ryan" (1998) o diretor Steven Spielberg jogava o espectador no meio do desembarque na Normandia (o famoso Dia D) sem maiores preliminares, em seu filme Nolan parece querer expandir ainda mais a experiência, atingindo níveis brutais de realismo, sublinhado pelo formato 70mm (raramente utilizado desde o surgimento de câmeras digitais), pela forte trilha sonora de Hans Zimmer e pelo desenho de som, que intercala momentos milimetricamente concebidos para causar impacto com outros de um silêncio avassalador. Tecnicamente impecável - saiu vitorioso da festa do Oscar nas categorias de edição, edição de som e mixagem de som, estatuetas merecidíssimas - e apresentado sem apelos emocionais, "Dunkirk" é um filme de guerra à moda antiga, mas realizado com todos os recursos que um orçamento generoso e efeitos de última geração podem comprar.



Ainda que não seja mandatório, é bom que se saiba um mínimo de História - mais especificamente sobre a II Guerra Mundial - para melhor se deixar seduzir pela trama de Nolan. O roteiro trata da retirada estratégica (para uns considerada derrota, para outros uma vitória moral) dos exércitos britânico e francês da cidade de Dunkirk, como forma de escapar dos cada vez maiores e mais frequentes ataques alemães, em 1940. A única saída disponível para o soldados era pelo mar, e, em situação de total desvantagem, os ingleses apelaram até mesmo para embarcações civis que pudessem colaborar na evacuação de centenas de homens. É nesse ponto que a trama se concentra em Dawson (Mark Rylance), que, contrariando as ordens superiores, resolve ele mesmo comandar seu barco, ao lado do filho adolescente, Peter (Tom Glyne-Carney), e do amigo deste, George (Barry Keoghan). No trajeto em direção à praia, eles resgatam um misterioso e traumatizado soldado (Cillian Murphy) que entra em pânico ao descobrir que a embarcação está se dirigindo justamente de onde ele fugiu. E se no mar os problemas são uns, por terra eles também não são poucos. Tentando salvar-se de uma morte certa e juntar-se aos demais soldados que aguardam ajuda, o jovem Tommy (Fionn Whitehead) une-se a outros dois colegas, Gisbson (Aneurin Barnard) e Alex (Harry Stiles), e os três passam por uma série de dificuldades inesperadas, que surgem sempre que eles acreditam estar a salvo - e sob a proteção do Comandante Bolton (Kenneth Branagh).

E por fim, também no ar as coisas estão complicadas: depois de perder seu líder, abatido por aviões inimigos, os pilotos Farrier (Tom Hardy) e Collins (Jack Lowden) enfrentam sérios problemas em defender seus aliados - e desviar de um destino semelhante a seu superior. Quando o avião de Collins cai no mar, ele acaba se tornando parte ainda maior do problema - e o ponto de intersecção entre as três linhas narrativas criadas pelo cineasta. Confiando plenamente no material que tem em mãos, Christopher Nolan apresenta ao público um espetáculo de violência sem que, para isso, seja necessário explicitá-la com vísceras e sangue em excesso. É um filme de imersão, no qual a plateia simplesmente embarca, como em uma montanha-russa das mais emocionantes. Talvez seu único defeito seja justamente optar por um viés menos pessoal e mais amplo do evento - o que diminui o impacto humano que um filme de guerra normalmente abraça e sublinha o barulho, o visual (graças à bela fotografia de Hoyte Van Hoytema) e a falta de noção temporal que um conflito provoca. Nesse ponto, é uma obra-prima incontestável que confirma (mais uma vez) o talento absurdo de seu criador.

sábado

EU SEI O QUE VOCÊS FIZERAM NO VERÃO PASSADO

EU SEI O QUE VOCÊS FIZERAM NO VERÃO PASSADO (I know what you did last summer, 1997, TriStar/Columbia Pictures, 101min) Direção: Jim Gillespie. Roteiro: Kevin Williamson, romance de Lois Duncan. Fotografia: Denis Crossan. Montagem: Steve Mirkovich. Música: John Debney. Figurino: Catherine Adair. Direção de arte/cenários: Gary Wissner/James Edward Ferrell Jr.. Produção executiva: William S. Beasley. Produção: Stokely Chaffin, Erik Feig, Neal H. Moritz. Elenco: Jennifer Love Hewitt, Freddie Prinze Jr., Ryan Phillippe, Sarah Michelle Gellar, Anne Heche Estreia: 17/10/97

Na segunda metade dos anos 1990, poucos nomes em Hollywood eram tão quentes quanto o de Kevin Williamson. Autor do roteiro de "Pânico" (1996), o slasher movie que devolveu o prestígio (e o sucesso de bilheteria) a Wes Craven, ele ainda era o criador da série dramática "Dawson's Creek" (que revelou Katie Holmes e Michelle Williams) - e parecia que tudo que tinha seu nome era uma mina de ouro a ser explorada. Por isso, ninguém ficou surpreso quando a Columbia Pictures resolveu dar o sinal verde a "Eu sei o que vocês fizeram no verão passado", adaptação do livro de Lois Duncan que Williamson já tentava vender antes mesmo da estreia do filme de Craven. Nas mãos do roteirista mais celebrado da época, o romance de Duncan foi totalmente modificado para melhor apetecer às plateias juvenis sedentas por sangue e transformou-se em outro êxito comercial. Com uma renda mundial de mais de 125 milhões de dólares, popularizou ainda mais seu jovem e atraente elenco e confirmou a estrela de Williamson - ao menos até o desgaste de sua fórmula e o decrescente interesse por seus trabalhos seguintes (de certa forma proporcional à qualidade deles). Feito para assustar e lucrar em cima de um gênero então renascido das trevas, o filme de estreia de Jim Gillespie - oriundo do mundo dos videoclipes - cumpre o que promete, mas soa (bastante) como um produto requentado e sem muita criatividade.

É claro que o público-alvo do filme não é exatamente exigente, e seu sucesso mundial confirma o fato. Seguindo à risca a receita de produções como a cinessérie "Sexta-feira 13" - a saber: muitos sustos, violência, sangue aos borbotões e um elenco fotogênico interpretando personagens rasos -, "Eu sei o que vocês fizeram no verão passado" não apresenta novidades, mas ao menos tem a seu favor uma produção caprichada e alguns bons momentos de tensão. A história é derivativa e nem faz muito sentido no final das contas, mas ao menos a plateia que procura diversão no gênero não tem do que se queixar: as mortes são bem elaboradas, o suspense é razoavelmente bem construído e, como é frequente em filmes assim, os personagens são tão chatos e bobos que é difícil não torcer pelo assassino - seja ele quem for. E no caso do filme de Gillespie, pode-se dizer até que isso é o que menos interessa, já que o roteiro tem reviravoltas e pistas falsas em número suficiente para preencher os minutos entre um assassinato e outro mas acaba de forma anticlimática e forçada - já pensando em um novo capítulo.


A trama se passa em uma pequena cidade litorânea e começa no feriado de 4 de julho - no último verão em que quatro amigos ainda estarão juntos antes de começarem a faculdade. Depois de uma noite de diversão e bebidas, porém, um trágico acidente muda suas vidas para sempre. Único dos quatro a não estar bêbado, Ray (Freddie Prinze Jr.) acaba atropelando um desconhecido, para desespero do dono do carro, Barry (Ryan Phillippe), e de suas namoradas, Julie (Jennifer Love Hewitt) e Helen (Sarah Michelle Gellar). Com medo que o desastre atrapalhe seus planos para o futuro, o grupo resolve se livrar do corpo jogando-o no mar - e não mudam de ideia nem mesmo quando descobrem, talvez tarde demais, que a vítima ainda não estava morta. Fazendo um pacto de silêncio, eles decidem seguir suas vidas como se nada tivesse acontecido. Um ano mais tarde, no entanto, o passado volta para lhes assombrar: alguém não apenas sabe o que aconteceu na fatídica noite e está mandando recados para os quatro mas também está decidido a matar um por um dos jovens.

A partir daí, o roteiro de Kevin Williamson abandona o livro original e parte para a matança geral. O assassino - munido de um gancho no lugar de uma das mãos - sai à caça dos protagonistas sem dó nem piedade, e o grupo tenta, de todas as maneiras possíveis, descobrir sua identidade antes de se tornar a próxima vítima. Nessa busca, eles mergulham em histórias antigas da cidade, cruzam com tipos assustadores (como a mecânica interpretada por Anne Heche) e descobrem que ninguém está imune a suspeitas - nem mesmo eles próprios. O filme cria algumas sequências interessantes - o mínimo que se espera de um bom slasher - mas peca em fazer de seus personagens principais apenas estereótipos batidos (o galã, a princesa, a nerd e o pobre) e sem muita empatia. Ryan Phillippe e Sarah Michelle Gellar voltariam a atuar juntos em "Segundas intenções" (1999) - e ela se tornaria estrela da série de TV "Buffy: a caça-vampiros" - e Freddie Prinze Jr. apostaria em comédias românticas antes de sumir dos holofotes. Da mesma forma que Sarah Michelle, Jennifer Love Hewitt (que já fazia sucesso na televisão, como parte do elenco de "O quinteto") deu continuidade à carreira na telinha, estrelando "Ghost whisperer" e tentando emplacar como cantora - depois de participar das continuações cada vez piores do filme original. No final das contas, "Eu sei o que vocês fizeram no verão passado" é uma sessão nostálgica e descerebrada de um período específico da indústria do terror em Hollywood - que atingiu seu ápice com "Pânico" e degenerou em produções totalmente desprovidas de charme e inteligência.

sexta-feira

COM AMOR, SIMON

COM AMOR, SIMON (Love, Simon, 2018, Fox 2000 Pictures, 110min ) Direção: Greg Berlanti.  Roteiro: Elizabeth Berger, Isaac Aptaker, romance "Simon vs The Homo Sapiens Agenda", de Becky Albertalli. Fotografia: John Guleserian. Montagem: Harry Jierjian. Música: Rob Simonsen. Figurino: Eric Daman. Direção de arte/cenários: Aaron Osborne/Tasha Clarkson. Produção executiva: Timothy M. Bourne. Produção: Marty Bowen, Wyck Godfrey, Isaac Klausner, Pouya Shahbazian. Elenco: Nick Robinson, Jennifer Garner, Josh Duhamel, Katherine Langford, Alexandra Shipp, Logan Miller, Keiynian Lonsdale, Jorge Lendeborg Jr.. Estreia: 27/02/18

Levou quase quarenta anos, mas aconteceu: em 1982, a Fox amargou um enorme fracasso de bilheteria com um filme chamado "Fazendo amor", que desafiava as regras implícitas da indústria ao contar a história do romance entre dois homens (um deles casado) sem apelar para um desfecho trágico ou o sensacionalismo. Não apenas o filme foi um fiasco comercial como prejudicou seriamente a carreira de seus atores (entre eles, Michael Ontkean, que só voltaria a chamar a atenção na década seguinte, como o Xerife Truman da série "Twin Peaks"). Em 2018, porém, as coisas foram bem diferentes: adaptado do livro "Simon vs The Homo Sapiens Agenda", de Becky Albertalli, a comédia romântica juvenil "Com amor, Simon", que apresenta um protagonista adolescente que encara com relativa naturalidade sua homossexualidade, conquistou a crítica e encantou seu público-alvo, arrecadando quase 70 milhões de dólares ao redor do mundo a despeito de não ter grandes nomes em seu elenco ou contar com uma campanha agressiva de marketing. Simples, delicado e bastante agradável, é uma produção que daria muito orgulho a John Hughes - o papa do cinema adolescente hollywoodiano.

Assim como nos filmes de Hughes - entre eles os clássicos "Gatinhas e gatões", "A garota de rosa shocking" e "Clube dos cinco" -, os protagonistas de "Com amor, Simon" falam direto a seu público-alvo com sinceridade e bom-humor, mesmo diante de situações dramáticas. Também não falta a trilha sonora antenada, coadjuvantes engraçados e toda aquela série de clichês do gênero - mas utilizados com tanto carinho que é difícil não simpatizar. Pode-se dizer inclusive que, mesmo diante de um tema tão relevante, o filme opta por um caminho um tanto asséptico e fantasioso - mas até nisso o diretor Jim Gillespie é coerente com as intenções de seu rebento. "Com amor, Simon" não se dispõe a quebrar barreiras ou preconceitos: é simplesmente uma boa e simpática história de amor, daquelas a que o público precisa recorrer depois de um dia pesado ou triste. Talvez o público adulto torça o nariz diante de algumas soluções fáceis demais ou do apelo francamente juvenil da trama, porém as plateias a que se destina a produção não tem do que reclamar: raramente elas tem à sua disposição uma comédia romântica tão adequada a seu tempo e suas necessidades sentimentais.


Muito acima da média das produções atuais do gênero, "Com amor, Simon" acompanha as desventuras românticas do protagonista, interpretado pelo carismático Nick Robinson, que empresta a ele uma personalidade tímida e quase desajeitada que combina à perfeição com a trama, recheada de intrigas amorosas, mal-entendidos e uma variedade de personagens interessantes que conquistam o espectador desde os primeiros momentos. Simon Spier, o personagem principal, é um adolescente comum, que vive confortavelmente com os pais, bonitos e bem-sucedidos (Josh Duhamel e Jennifer Garner) e uma adorável irmã mais nova (uma outra irmã, mais velha, foi limada na adaptação). Ele leva uma rotina simples, que envolve escola, amigos, ensaios para uma montagem estudantil de "Cabaret"e um segredo que mantém escondido a sete chaves: sua homossexualidade. Quando um colega se assume gay em um post no blog da escola - sob o pseudônimo de "Blue" -, Simon vê a chance de finalmente conseguir conversar com alguém sobre seus medos e sentimentos. Também disfarçado com um apelido ("Jacques"), ele inicia um relacionamento online com o rapaz - ambos se sentem atraídos intelectual e sentimentalmente um pelo outro, mas tem medo da exposição. Decidido a descobrir a identidade de seu novo amor, Simon passa, então, a imaginar dezenas de situações e possibilidades - e até chantageado passa a ser antes de finalmente conhecer a verdade.

O roteiro, baseado no livro de Becky Albertalli, brinca com as dúvidas de Simon a respeito da identidade de seu correspondente anônimo com delicadeza e respeito, e ainda encontra espaço para inserir uma fina ironia a respeito do preconceito em relação à homossexualidade. Uma sequência em que Simon imagina seus amigos "saindo do armário" e revelando aos pais que são heterossexuais e uma outra, onde ele se imagina finalmente assumido, ao som de Withney Houston, são momentos leves que não deixam que a trama se torne mais séria do que deveria. No fundo, o diretor Greg Berlanti quer apenas contar uma história de autoaceitação e liberdade pessoal, sem desviar sua atenção para outros temas importantes que o filme poderia levantar (a homofobia, os problemas familiares e outras questões são praticamente ignoradas). É uma escolha arriscada que poderia despertar a ira dos militantes mais radicais, mas que acaba sendo compensada pelo alcance do resultado final: mesmo que seja quase um conto de fadas, "Com amor, Simon" é respeitoso, caloroso e importante, por apresentar a uma plateia jovem (e portanto ainda em formação de caráter e personalidade) uma alternativa ao ódio e à intolerância. Pode não mudar o mundo nem marcar a história do cinema, mas é uma deliciosa sessão da tarde - e das mais corajosas e emocionantes.

quinta-feira

CORRA!

CORRA! (Get out, 2017, Universal Pictures/Blum House Pictures, 104min) Direção e roteiro: Jordan Peele. Fotografia: Toby Oliver. Montagem: Gregory Plotkin. Música: Michael Abels. Figurino: Nadine Haders. Direção de arte/cenários: Rusty Smith/Leonard R. Spears. Produção executiva: Raymond Mansfield, Shaun Redick, Couper Samuelson, Jeanette Volturno. Produção: Jason Blum, Edward H. Hamm Jr., Sean McKittrick, Jordan Peele. Elenco: Daniel Kaluuya, Allison Williams, Bradley Whitford, Catherine Keener, Caleb Landry Jones, Marcus Henderson, Betty Gabriel. Estreia: 23/01/17 (Festival de Sundance)

4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Jordan Peele), Ator (Daniel Kaluuya), Roteiro Original
Vencedor do Oscar de Roteiro Original 

Primeiro foi o sucesso comercial: realizado com meros 4,5 milhões de dólares, ele arrecadou mais de 250 milhões pelo mundo. Depois, veio o aplauso da crítica, que o colocou como o mais bem avaliado filme de 2017 no confiável site Rotten Tomatoes. E por fim, a consagração da própria indústria, quando, das quatro importantes indicações ao Oscar (incluindo filme e direção), saiu da cerimônia de premiação com a estatueta de roteiro original. Para um filme de gênero considerado "menor" e lançado quase um ano antes de sua vitória junto à Academia, "Corra!" saiu-se muito melhor do que se poderia esperar, principalmente se for levado em consideração que algumas de suas características não são exatamente comuns aos grandes sucessos de bilheteria e prêmios. Filme de estreia do afro-americano Jordan Peele, conhecido nos EUA por seus trabalhos cômicos, estrelado por um ator negro (Daniel Kaluuya, indicado ao Oscar por seu desempenho) e de um gênero que pouco frequenta listas de indicados e/ou vencedores de grandes premiações (o suspense), "Corra!" pode ser considerado, sem favor algum, um fenômeno. De sua estreia no Festival de Sundance, em janeiro de 2017, até seu Oscar, mais de um ano depois, o filme foi quebrando recordes, paradigmas e preconceitos, chegando ao final de sua carreira nos cinemas como uma unanimidade. O melhor de tudo, porém, é que, deixando-se de lado o hype e o marketing, o filme de Peele continua extraordinário, não perdendo seu frescor e sua inteligência mesmo quando revisto - dessa vez sem as surpresas de uma primeira sessão, mas com a possibilidade de perceber cada detalhe imaginado pela mente de Peele.

Estranhamente relegado à categoria "comédia/musical" pelos eleitores do Golden Globe, "Corra!" até pode ser visto como uma sátira hiperbólica aos filmes de horror - normalmente estrelados por atores brancos e recheados de clichês. Porém, em uma visão mais abrangente, o filme de Jordan Peele é não apenas um filme de suspense arrebatador, mas também uma aberta crítica social ao racismo velado da sociedade norte-americana, ainda que em tons surrealistas. Escrito pelo cineasta antes que o movimento "Black Lives Matter" voltasse a ser assunto do momento nos EUA, o roteiro de "Corra!" não evita os elementos mais básicos do cinema de terror, mas os recicla de forma esperta e atual, inserindo em sua trama discussões bastante sérias a respeito da forma como os negros são vistos pelos brancos. A princípio de maneira sutil e aos poucos mais abertamente, a narrativa vai deixando claro ao espectador que a história que está sendo contada diante de seus olhos não é somente a trajetória de um homem acossado pela família da namorada, mas também a angústia de toda uma raça frente a séculos de preconceito e violência. Parece sério demais para um filme com ambições comerciais e que quase foi estrelado por Eddie Murphy, certo? Mas acontece que um dos maiores méritos de "Corra!" é justamente este: falar de um tema absolutamente crucial sem que pareça estar levantando bandeiras ou forjando discursos inflamados.





Filmado em apenas 23 dias, "Corra!" é uma prova (mais uma) de que talento é muito mais importante do que orçamentos generosos. Sem astros de primeira grandeza no elenco e efeitos visuais discretos e inseridos objetivamente, o filme é calcado basicamente no roteiro (em boa parte improvisado pelos atores) e no clima de tensão construído por Peele de forma gradativa e sufocante. No começo, tudo parece apenas estranho e incômodo, quando o protagonista, Chris Washington (Daniel Kaluuya), um jovem fotógrafo, chega até a elegante propriedade dos pais de sua namorada, Rose Armitage (Allison Williams), onde irá passar o fim-de-semana. Apesar de muito bem recebido pelos Armitage, que fazem questão de declarar sua naturalidade em relação ao fato da filha branca namorar um rapaz negro, Chris não consegue ficar completamente à vontade, especialmente por perceber nos empregados da mansão (todos negros) um comportamento bastante perturbador. A situação fica ainda mais bizarra quando ele é hipnotizado pela sogra, Missy (Catherine Keener), e passa a ter certeza de que há algo de muito perigoso acontecendo à sua volta.


Jordan Peele conduz sua trama de maneira a apresentar seus elementos e reviravoltas ao mesmo tempo para Chris e para o espectador, construindo, assim, uma tensão que vai se avolumando até o final, climático e violento. Mesmo o alívio cômico do filme, na figura de Rod (Lil Rel Howery), melhor amigo de Chris, não chega a evitar a sensação de desconforto que o filme transmite desde o princípio. Mérito também da trilha sonora impecável de Michael Abels, do desenho de som instigante, e da interpretação exata de todo o elenco - que inclui Bradley Whitford como Dan, o pai de Rose, um neurocirurgião de fundamental importância para o desfecho da narrativa. O roteiro, igualmente preciso em liberar informações frequentes que só irão fazer completo sentido no final, lembra a série "Além da imaginação" - não por coincidência, Peele assumiu a apresentação de uma nova temporada da série, lançada em 2019. E se o público compra a ideia central da trama, é necessário que a interpretação visceral de Daniel Kaluuya seja considerada fator preponderante para tal: na pele de Chris Washington, o jovem ator simplesmente domina a cena, entregando uma performance corajosa e surpreendente, aliando carisma e talento com garra de veterano. É graças a ele que o suspense funciona e que a plateia chega ao final da sessão com a ótima sensação de ter sido tragada por uma história forte e emocionante - e que, de quebra, ainda faz pensar e suscita discussões importantes. De quantos filmes se pode falar isso ultimamente?

quarta-feira

O CONTO

O CONTO (The tale, 2018, HBO Films, 114min) Direção e roteiro: Jennifer Fox. Fotografia: Denis Lenoir, Ivan Starsburg. Montagem: Anne Fabini, Alex Hall, Gary Levy. Música: Ariel Marx. Figurino: Tricia Gray. Direção de arte/cenários: Debbie DeVilla/Kelly D. Mills. Produção executiva: Julie Parker Benello, Dan Cogan, Abigail Disney, Geralyn White Dreyfos, Wendy Ettinger, Ali Jazayeri, Jayme Lemons, Ross Marosso, Ben McConley, Amy Rodrigue, David Van Eman, Jason Van Eman. Produção: Sol Bondy, Jennifer Fox, Lawrence Inglee, Mynette Louie, Oren Moverman, Simone Pero, Reka Posta, Laura Rister, Lynda Weiman. Elenco: Laura Dern, Ellen Burstyn, Frances Conroy, Common, Jason Ritter, Elizabeth Debicki, Laura Allen, John Heard. Estreia: 20/01/18 (Festival de Sundance)

É preciso muita coragem para transformar um trauma em uma obra de arte. Mais do que coragem, é preciso talento para não fazer de sua obra apenas uma sessão de análise maçante e egocêntrica. E mais do que talento, é preciso sensibilidade para fazer de seus fantasmas a matéria-prima de um produto forte, ousado e ao mesmo tempo poético e perturbador. E a documentarista Jennifer Fox demonstra, em seu primeiro longa de ficção, "O conto", ter todas essas qualidades indispensáveis a quem procura conquistar sua plateia sem abrir mão da inteligência. Inspirada em fatos pouco agradáveis da vida da própria diretora e roteirista, a produção da HBO, acabou sendo o filme certo na hora certa: ecoando o movimento #MeToo surgido em Hollywood depois de uma série de denúncias sobre assédio sexual, "O conto" serve como a ilustração perfeita de um momento crucial na indústria do entretenimento - mas nem por isso deixa de ser, acima de tudo, um filme excepcional, tanto em termos políticos quanto artísticos. Não à toa, foi uma das produções mais elogiadas de 2018, especialmente devido à atuação gigantesca de Laura Dern, em um dos melhores momentos de sua vitoriosa carreira.

"O conto" foge de uma narrativa convencional ao optar por fazer de sua protagonista, Jennifer, os olhos e a memória da trama que vai se desenrolando diante dos olhos do público. Da mesma forma que as recordações da personagem vão surgindo - e muitas vezes substituindo outras até então arraigadas em seu subconscientes -, a plateia vai descobrindo, junto com ela, a verdade sobre fatos escondidos sob a névoa de um romantismo manipulado. O roteiro e a direção, impecáveis, equilibram o realismo com o lúdico, intercalando passado, presente e a imaginação com delicadeza ímpar. É uma providência de extrema importância, uma vez que o tema do filme é indigesto e francamente triste - mas retratado com a sofisticação e a sensibilidade de quem sabe o que está falando. A coragem de Jennifer Fox em expor uma experiência tão dolorosa é de suprema importância social, mas seu maior mérito é indubitavelmente artístico: mesmo com origem no universo dos documentários, ela transita com desenvoltura na linguagem de ficção, evitando as armadilhas do melodrama e demonstrando grande senso de ritmo e fluência - além de uma habilidade rara de criar personagens complexos e verossímeis.


Assim como a Jennifer da vida real, a protagonista de "O conto", Jenny, é uma documentarista bem-sucedida. Vive um relacionamento estável com o fotógrafo Martin (Common), dá aulas em uma universidade e está trabalhando em um filme sobre abuso sexual em mulheres de países do terceiro mundo. Sua rotina é quebrada quando sua mãe, Nettie (Ellen Burstyn) lhe telefona, preocupada: ela acaba de descobrir, entre antigos pertences da filha, um trabalho escolar onde a então adolescente de 13 anos descrevia um relacionamento amoroso com um homem mais velho. Sem dar muita importância às angústias da mãe, Jennifer relê seu conto e começa a relembrar acontecimentos de sua infância, quando, ainda criança (e interpretada por Isabelle Nélisse ), foi envolvida em um jogo de sedução por sua professora de equitação, Sra. G (Elizabeth Debicki) e um instrutor de ginástica que trabalhava a seu lado, Bill Allen (Jason Ritter). Aos poucos suas memórias começam a ficar mais claras e ela percebe que, apesar de realmente ter considerado o fato como uma história de amor, sua inocência foi um fator determinante para uma série de abusos sexuais. Nesse caminho, ela reencontra personagens importantes de seu passado, inclusive outras mulheres que também podem ter sido vítimas da dupla.

Jennifer Fox conduz seu filme como um pesadelo à luz do dia. Sem apelar para clichês visuais, ela penetra no sofrimento de sua protagonista sem forçar o espectador a tirar suas conclusões de forma antecipada. Sua narrativa suave, que contrasta com a dureza das revelações que vão surgindo durante o trajeto de Jenny. Sem demonizar os abusadores ou carregar nas tintas de seus desvios de caráter, ela apresenta inclusive uma certa condescendência em relação a ambos, até o desfecho visceral e adequado como uma catarse. Filmando sempre de forma a manter a elegância e a sensibilidade (mesmo diante de situações desconfortáveis), Fox mostra que não é preciso ser panfletária ou radical para se tratar de assuntos delicados - seu filme é um grito de revolta, sim, mas orientado de forma correta e contundente. Se Jenny julgava ter saído incólume de suas experiências infantis, o filme de Jennifer demonstra que nem sempre as cicatrizes são visíveis ou óbvias - mas são indeléveis e, mesmo soterradas pelo tempo, jamais curam completamente. "O conto" é um filme obrigatório, não apenas pelo tema, mas também porque é dramaturgia de primeira qualidade, antenado com seu tempo e certamente destinado a tornar-se um pequeno clássico. Bravo!

terça-feira

CAPITÃO FANTÁSTICO

CAPITÃO FANTÁSTICO (Captain Fantastic, 2016, Bleeker Street/ShivHands Pictures, 118min) Direção e roteiro: Matt Ross. Fotografia: Stéphane Fontaine. Montagem: Joseph Krings. Música: Alex Somers. Figurino: Courtney Hoffman. Direção de arte/cenários: Russell Barnes/Tania Cupczack, Susan Magestro. Produção executiva: Declan Baldwin, Nimitt Mankad. Produção: Lynette Howell Taylor, Monica Levinson, Jamie Patricof, Shivani Rawat. Elenco: Viggo Mortensen, George McKay, Frank Langella, Ann Dowd, Kathryn Hahn, Samantha Isler, Annalise Basso, Nicholas Hamilton, Missy Pile, Steve Zahn. Estreia: 23/01/16 (Festival de Sundance)

Indicado ao Oscar de Melhor Ator (Viggo Mortensen)

Ben Cash cria seus seis filhos longe de qualquer influência de um mundo capitalista a que ele considera pernicioso e fascista. Educados pelos pais, que lhe indicam leituras, os ensinam a caçar e preparar o próprio alimento, a discutir qualquer assunto com segurança e desafiar o sistema sempre que possível, Cash mora com a família em um ônibus, no meio de uma floresta, e dentre suas excentricidades, está comemorar o dia de Noam Chomsky ao invés do Natal e, ocasionalmente, roubar comida dos supermercados como forma de protesto e autopreservação. A prole - dividida entre adolescentes e crianças - segue uma rígida rotina de exercícios físicos, atividades intelectuais e alimentação saudável, sobrevivendo à margem da sociedade de consumo condenada por seu patriarca, e sua união aponta para um núcleo familiar sadio e feliz. Porém, quando Leslie, a mulher de Ben, sofre uma séria crise nervosa e precisa voltar a conviver com os pais e a irmã, ele se vê obrigado a introduzir os meninos em um universo do qual ele sempre os quis proteger e afastar - e testemunha um inevitável choque cultural.

Em "Capitão Fantástico", segundo longa-metragem dirigido pelo também ator Matt Ross, o ousado Ben Cash é interpretado por Viggo Mortensen, em um trabalho inspiradíssimo que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de melhor ator. Na pele de um homem que busca incansavelmente uma sociedade mais justa ao orientar seus próprios filhos a seguirem uma conduta mais próxima da natureza e dos valores humanistas, Mortensen parece ter encontrado o papel de sua vida: é difícil vê-lo em cena e não acreditar em cada um de seus diálogos, de seus sentimentos, de suas atitudes. Em um mundo cada vez mais egocêntrico e avassaladoramente competitivo, seu personagem é um sopro de verdade e resistência, ainda que nem sempre seus métodos possam ser considerados louváveis. É irresistível pensar que Ben está coberto de razão em distanciar sua prole de um mundo doente - mas será que não é sua função de pai lhes dar o direito de escolha? E por que as crianças são educadas dentro de suas convicções, sem chance de discordância? E não é possível que a doença de sua mulher seja consequência de uma vida aparentemente saudável mas alternativa a ponto do segregacionismo e isolamento social? Mortensen dá vida à Ben com sensibilidade e maturidade, e o roteiro de Ross abre espaço para discussões bastante interessantes, e acerta ao jamais abandonar seu principal objetivo: entreter o público com uma trama delicada, emocionante e por vezes bastante engraçada.


Logo nas primeiras cenas, Matt Ross deixa claro que o dia-a-dia da família Cash não é dos mais tediosos: a disciplina que exige dos filhos não é apenas cultural, mas também extremamente focada em atividades físicas, praticadas por todos, desde o mais velho, Bodevan (George McKay), até os menores. Todos eles também são leitores vorazes - ficção, filosofia, história, sociologia e até sexualidade são assuntos banais nas discussões familiares - e questionadores do status quo. São capazes de discutir a Declaração de Direitos Universais e "Lolita", de Vladimir Nabokov, e rejeitam a alimentação equivocada dos norte-americanos. Ben os trata de igual para igual, sem tratá-los com condescendência ou superioridade. São crianças felizes, acima de tudo, mas seu universo particular sofre uma ruptura brusca quando seu avô, Jack (Frank Langella), resolve entrar na Justiça pela guarda de todos: segundo ele, as crianças são prejudicadas por sua falta de convívio com pessoas de sua idade e privadas de uma educação convencional que lhes será útil no futuro. A situação fica ainda mais delicada quando Bodevan revela ao pai seu desejo de cursar uma universidade - desejo compartilhado inclusive por sua mãe.

Não há cenas desnecessárias em "Capitão Fantástico": seu roteiro é preciso e eficaz é construído exemplarmente a modo de apresentar à plateia seus personagens, seus conflitos e suas questões sem que nada pareça aleatório ou soe forçado. O elenco infantil tira de letra o desafio de representar membros de uma família que tem ecos do movimento hippie e se desenha como uma utopia moderna, e Viggo Mortensen aparece como o maestro de uma sinfonia comovente e, em certos momentos, bastante divertida - o embate entre a cultura natural e intelectual dos Cash com a sociedade capitalista e ególatra do resto dos familiares tem cenas preciosas. Matt Ross não busca a emoção rasteira ou a discussão maniqueísta: seus personagens são complexos e falíveis, e embora Ben seja o herói da estória, ele tampouco está absolutamente correto e acima de críticas. O diretor equilibra com presteza todos os elementos de sua trama, constrói uma atmosfera sólida e crível, e consegue, com inteligência, criar um desfecho que torna tudo ainda mais humano e honesto - mas que pode não agradar aos mais radicais. Elogiadíssimo pela crítica, principalmente pelo desempenho de Mortensen, "Capitão Fantástico" é, sem favores, um dos melhores filmes de sua temporada, e uma pérola a ser constantemente revisitada como um presente para a alma.

A CADELA (1931)

A CADELA (La chienne, 1931, Les Étbalissements Braunberger-Richebé, 91min) Direção: Jean Renoir. Roteiro: Jean Renoir, baseado no romance ...