terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

DZI CROQUETTES (Dzi Croquettes, 2009, Canal Brasil, 110min) Direção: Raphael Alvarez, Tatiana Issa. Montagem: Raphael Alvarez. Produção executiva: Raphael Alvarez, Tatiana Issa. Produção: Raphael Alvarez. Estreia: 04/9/09

Em 1972, em plena ditadura militar, que havia privado a população civil da liberdade de expressão, um grupo de teatro formado por 13 atores/dançarinos sem medo de enfrentar o preconceito e dispostos a quebrar todas as regras pré-estabelecidas surgiu como um sopro de ar fresco nos palcos do Rio de Janeiro. Batizados de Dzi Croquettes - em uma homenagem debochada ao grupo norte-americano The Coquettes - e desafiando o bom-comportamento compulsório que vigorava no país, eles chocaram e conquistaram públicos surpreendidos com um humor cáustico e transgressor que não demorou em chamar a atenção da repressão - e os levar a buscar novos horizontes na Europa. Celebrados em Paris (onde tinham como madrinha ninguém menos que Liza Minelli), eles conheceram a fama, o delírio e uma liberdade artística que influenciou todo o teatro brasileiro dos anos subsequentes. Como forma de resgatar as lembranças de um período histórico da cultura nacional e apresentar às novas gerações uma das mais importantes manifestações artísticas já criadas nos palcos, o documentário "Dzi Croquettes" estreou no Festival Internacional de Cinema do Rio em setembro de 2009 e começou uma vitoriosa trajetória internacional, arrebatando prêmios em Los Angeles, Miami, São Francisco e Turim. Dirigido por Raphael Alvarez e Tatiana Issa, o filme é um precioso estudo sobre o amor ao teatro, a liberdade de expressão, a amizade e a genialidade de um grupo de pessoas que, munidas de bom-humor, garra, dedicação e muito talento, deixaram uma marca indelével nas artes cênicas do Brasil.

Acompanhando a trajetória da companhia desde seus primeiros passos - com a liderança crucial do bailarino norte-americano Lennie Dale, que também foi responsável por transformar Elis Regina em fenômeno dos palcos além da grande cantora que sempre foi - e mergulhando o espectador em um universo de alegria e coragem, os diretores constroem um minucioso mosaico histórico e cultural, que não apenas joga luz sobre cada um dos treze integrantes da divertida trupe, mas também ilumina um período de trevas pelo qual passou a arte brasileira, cerceada e violentada pela repressão mais vil e ignorante. Apesar de situar com clareza sua narrativa no auge da ditadura militar, porém, o filme opta, acertadamente, pelo tom alegre e alto-astral que caracterizava as apresentações. Borrando propositalmente as barreiras da sexualidade, eles subiam ao palco travestidos como mulheres, mas sem a preocupação de esconder a barba ou os pelos do corpo, criando um novo estilo de encenação que misturava música, teatro, dança e crítica social da mais inteligente e cáustica possível. De sua criação até o exílio na Europa - com direito a um final melancólico e algumas mortes traumatizantes - o documentário de Alvarez e Issa mapeia com precisão a importância de seus espetáculos para o futuro do teatro nacional e não tem medo de ensaiar momentos de grande emoção, mesmo que sutil.


Filha do cenógrafo Américo Issa, que trabalhou em alguns espetáculos do Dzi Croquettes, a codiretora Tatiana aproveita a deixa para acrescentar a um trabalho já relevante e imprescindível como documento histórico, uma dose de nostalgia e sensibilidade extra. Sem deixar-se cair na armadilha do sentimentalismo, ela usa de sua própria experiência (ainda criança) nos bastidores dos espetáculos para situar a companhia como um núcleo familiar sui generis, conforme eles mesmos se consideravam. Dando a cada um dos atores o espaço merecido, o roteiro mescla imagens de arquivo preciosas e entrevistas reveladoras de integrantes, fãs e artistas cujo trabalho foi diretamente influenciado por seu espírito transgressor e cáustico. Miguel Falabella, Cláudia Raia e Pedro Cardoso, por exemplo, revelam como o besteirol - gênero teatral brasileiro por nascimento e excelência - deve muito de sua estrutura aos roteiros nonsense das peças e como Lennie Dale fez dos palcos nacionais um pedaço da Broadway. Algumas integrantes das Frenéticas também dão seu depoimento, lembrando como a personalidade de cada membro da equipe oferecia ao conjunto uma identidade própria e inimitável.

Mas são as entrevistas com os Dzi Croquettes ainda vivos que dão ao documentário o sabor especial que lhe transforma em um espetáculo raro. Inteligentes, sensíveis e cientes de sua importância no cenário teatral brasileiro (e mundial), eles contam histórias saborosas a respeito dos bastidores, enquanto relembram suas relações interpessoais, muitas vezes difíceis e muitas outras fascinantes. Amigos, colegas, amantes e familiares, os atores da companhia viviam sob o signo da liberdade total, inserindo em seu teatro todas as rebeldias e idiossincrasias que faziam deles artistas únicos que afrontavam toda e qualquer regra que porventura considerassem ultrapassadas. Uma festa constante nos palcos e nos bastidores, o grupo acabou por dar origem a um documentário que mantém vivos seus ideais e reflete, com delicadeza e a devida reverência, toda a grandeza de sua coragem. Um filme imprescindível para os amantes do teatro, das artes e da liberdade!

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

PROMETHEUS

PROMETHEUS (Prometheus, 2012, 20th Century Fox, 124min) Direção: Ridley Scott. Roteiro: Jon Spaihts, Damon Lindelof, elementos criados por Dan O'Bannon, Ronald Shusett. Fotografia: Dariusz Wolski. Montagem: Pietro Scalia. Música: Marc Streitenfeld. Figurino: Janty Yates. Direção de arte/cenários: Arthur Max/Sonja Klaus. Produção executiva: Michael Costigan, Michael Ellenberg, Mark Huffam, Damon Lindelof. Produção: David Giler, Walter Hill, Ridley Scott. Elenco: Noomi Rapace, Michael Fassbender, Logan Marshal-Green, Charlize Theron, Guy Pearce, Idris Elba, Rafe Spall, Patrick Wilson. Estreia: 11/4/12

Em 1979, o filme "Alien: o oitavo passageiro" estreou e mudou a forma como o público e a crítica passaram a enxergar a ficção científica no cinema. Referência absoluta no gênero desde então, gerou fortunas com suas sequências - dirigidas por James Cameron (86), David Fincher (92) e Jean-Pierre Jeunet (98) - e nunca deixou de suscitar especulações a respeito de possíveis novas continuações. Demorou mais de três décadas, porém, para que seu diretor original, Ridley Scott, retomasse as rédeas do universo que ajudou a moldar. Para surpresa de muitos, porém, o cineasta inglês não retomou as aventuras da destemida Tenente Ripley, interpretada por Sigourney Weaver nos quatro primeiros capítulos da série: em "Prometheus", ele conta, de maneira elegante mas não menos tensa, fatos acontecidos décadas antes de tudo que foi mostrado no original, em uma jogada ousada e inteligente. Foi parcialmente bem-sucedido: nos EUA, a bilheteria foi apenas razoável (126 milhões de dólares contra o orçamento generoso de 130), mas no resto do mundo, aproveitando-se da fama de uma das marcas mais famosas de Hollywood, chegou perto de 280 milhões. Longe de ser também uma unanimidade entre a crítica, ficou no meio-termo entre aqueles que louvaram a coragem do diretor em fugir do óbvio e aqueles que esperavam muito mais do reencontro do criador com a criatura. Mas, afinal, "Prometheus" é um bom filme ou apenas um mero caça-níqueis de luxo?


Há duas maneiras de se assistir e julgar "Prometheus": como um espectador neófito, a quem todo o universo criado nos quatro primeiros filmes simplesmente inexiste (e a quem portanto tudo é novidade, como um filme qualquer do gênero), ou como um fã da série, ansioso por conhecer as origens de um dos monstros mais longevos da ficção científica cinematográfica (e, consequentemente, muito mais exigente quando se trata do assunto). Para ambas as tribos, o roteiro oferece belos momentos de ação e suspense - tudo orquestrado com a elegância natural de Ridley Scott e um visual estonteante, cortesia da bela fotografia de Dariusz Wolski e da extraordinária direção de arte, concebida a partir do filme original de 1979, mas mostrada ao público do século XXI com todo o requinte que um orçamento generoso e efeitos visuais caprichados podem proporcionar. Porém, ao tentar abraçar esses dois mundos, Scott acabou por ficar no meio do caminho entre a claustrofobia do primeiro capítulo e o senso de espetáculo que James Cameron injetou na continuação de 1986. Coerentemente, em seus dois primeiros atos - em que a atmosfera de tensão sobrepõe-se à ação graficamente violenta - Scott mostra-se mais à vontade em conduzir sua narrativa, dosando com parcimônia momentos mais contemplativos com sequências que dão pistas sobre o que virá pela frente, quando seus personagens finalmente serão obrigados a encarar que não estão sozinhos no universo - e, pior ainda, o estão dividindo com uma espécie não exatamente amistosa.


A trama de "Prometheus" se passa em 2093 - vinte e nove anos antes, portanto, dos acontecimentos do primeiro "Alien". A dupla de arqueologistas Elizabeth Shaw (Noomi Rapace) e Charlie Holloway (Logan Marshall-Green) faz parte da seleta tripulação escolhida pelo milionário Peter Weyland (Guy Pearce sob pesadíssima maquiagem) para explorar vida extra-terrestre, uma vez que foram responsáveis por encontrar, em uma remota ilha da Escócia algum tempo antes, desenhos rupestres que confirmam suas teorias de há recados para a humanidade desde tempos imemoriais. Depois de hibernar por alguns anos, o grupo de cientistas desembarca em um planeta desconhecido, com a missão de encontrar aqueles que acredita-se ser os criadores da raça humana. A diretora da missão, a ambiciosa Meredith Vickers (Charlize Theron), os proíbe de qualquer contato com tais seres e permanece na nave, ao contrário de David (Michael Fassbender), um androide perfeitamente construído para conviver entre os humanos que é o homem de confiança de Weyland. Assim como em "Alien", eles encontram o que não deveriam encontrar, e sobem a bordo de posse da cabeça de um humanoide que encontram no planeta. Durante a investigação que busca mais detalhes sobre o encontrado, uma série de violentos incidentes que vitimam os cientistas fazem com que Vickers e Shaw entrem em conflito sobre como lidar com a situação e de que forma podem sair com vida do planeta - e ao mesmo tempo manter a salvo as descobertas que seus estudos realizaram.

Assim como acontece em todos os episódios da série "Alien", a trama de "Prometheus" gira em torno de um alienígena assassino que vai trucidando cada um dos personagens, normalmente apresentados com pouca profundidade pelo roteiro. No filme de Scott não é diferente. Com exceção da protagonista vivida por Noomi Rapace (a estrela da versão sueca de "Os homens que não amavam as mulheres"), nenhum dos tripulantes da nave é explorado além de um nível superficial pelo roteiro - até mesmo o romance entre Elizabeth e Charlie é tratado sem muito cuidado, apesar da boa química entre os atores. Charlize Theron está bem na pele da ambiciosa Meredith Vickers, mas não tem muito o que fazer além de servir de um empecilho a mais na missão de seus colegas de viagem. Sobra, então, a Michael Fassbender roubar a cena mais uma vez: como o androide David, ele chama a atenção da plateia desde sua primeira cena, transmitindo com perfeição todas as nuances de um personagem que, mesmo não sendo humano, apresenta muito mais complexidades do que se poderia esperar. É Fassbender quem dá o toque de mais sensibilidade de um filme que, apesar de alguns exageros inverossímeis (que tal uma personagem sair correndo depois de uma cesareana?), diverte e impressiona pela qualidade técnica. Não chega a ser um "Alien: o oitavo passageiro" - mas algum dos filmes da série chega?

sábado, 11 de fevereiro de 2017

O MESTRE DOS GÊNIOS

O MESTRE DOS GÊNIOS (Genius, 2016, Desert Wolf Productions/Riverstone Pictures, 104min) Direção: Michael Grandage. Roteiro: John Logan, livro de A. Scott Berg. Fotografia: Ben Davis. Montagem: Chris Dickens. Música: Adam Cork. Figurino: Jane Petrie. Direção de arte/cenários: Mark Digby/Michelle Day. Produção executiva: James J. Bagley, A. Scott Berg, Tim Bevan, Nik Bower, Tim Christian, Ivan Dunleavy, Arielle Tepper Madover, Deepak Nayar. Produção: James Bierman, Michael Grandage, John Logan. Elenco: Colin Firth, Jude Law, Nicole Kidman, Guy Pearce, Laura Linney, Dominic West, Vanessa Kirby. Estreia:16/02/16 (Festival de Berlim) 

Foi em 1983 que John Logan leu o livro "Max Perkins: editor of genius", de A. Scott Berg, que foi o vencedor National Book Award de 1978. De lá até 2016, quando finalmente viu sua adaptação ganhar as telas de cinema, Logan tornou-se um dos roteiristas mais conceituados de Hollywood, com três indicações ao Oscar no currículo ("Gladiador", "O aviador" e "A invenção de Hugo Cabret") e crédito em duas aventuras de James Bond ("007 - Operação Skyfall" e "007 contra Spectre"). Seu prestígio, no entanto, não ajudou muito a alavancar "O mestre dos gênios", que, mesmo contando com um elenco de vencedores e indicados ao Oscar e falando de alguns dos maiores escritores americanos do século XX, naufragou fragorosamente nas bilheterias e sequer foi lembrado pelas cerimônias de premiação - o mais perto que chegou disso foi concorrer ao Urso de Ouro no Festival de Berlim. Tal resultado não deixa de ser um reflexo da qualidade do filme de estreia do ator Michael Grandage como diretor: a biografia de Max Perkins, editor de nomes consagrados da literatura, como Thomas Wolfe, Ernest Hemingway e F. Scott Fitzgerald, é apenas correta, passando bem longe de ser uma experiência memorável.

Na pele de um Colin Firth contido e sem cacoetes, Max Perkins surge como um visionário editor da celebrada Scribners, capaz de enxergar nas caudalosas páginas do novato Thomas Wolfe (Jude Law substituindo Michael Fassbender e saindo-se bastante bem) um provável sucesso de crítica. Wolfe, por sua vez, é um gênio excêntrico e dotado de todas as características típicas de pessoas como ele: quase arrogante, inteligente e capaz de escrever milhares de páginas apenas para descrever um objeto. Casado com Aline Bernstein (Nicole Kidman), uma mulher que o apoia mas se ressente de ser frequentemente deixada em segundo plano em relação à sua arte, o autor de obras elogiadas mas difíceis como "Olhe para casa, anjo" e "Do tempo e do rio" (ambos inéditos no Brasil) encontra em Law um retrato não exatamente fiel fisicamente, mas energético e fascinante a ponto de eclipsar seus colegas de cena. A relação entre ele e Perkins, um homem de família discreto e dedicado à sua profissão, é mostrada com delicadeza por Grandage - especialmente quando o filme lança luz a seus maiores desafios: cortar os excessos do romancista, tornando palatáveis suas obras escandalosamente prolixas. De certa forma, Perkins era quase um coautor dos livros de Wolfe, o que lhes alterava a relação puramente comercial em algo muito mais emocional e fraterno. Assim, o escritor frequentava a casa do editor, convivia com sua esposa, Louise (Laura Linney) e os filhos e o levava para suas farras noturnas.


Mas nem só da amizade entre Wolfe e Perkins trata o roteiro de "O mestre dos gênios". De forma ligeira e quase superficial, entram em cena, para deleite dos fãs de literatura, outros nomes de suma importância para o mundo das letras do século XX. Guy Pearce vive um decadente e sofrido F. Scott Fitzgerald, já na época em que sua esposa, Zelda (Vanessa Kirby), passava por graves crises depressivas e ele mesmo sentia-se incapaz de escrever qualquer obra que lembrasse vagamente seus melhores trabalhos. Ernest Hemingway também surge, interpretado com precisão por Dominic West, que empresta ao escritor ares de sujeito mundano, mais interessado em pescarias do que em máquinas de escrever. Tais respiros, mais do que simplesmente tirar um pouco o foco da amizade entre os protagonistas, serve também para localizar o espectador em um período específico do século e desmistificar alguns dos maiores autores da história, oferecendo a eles uma aura mais humana e menos inalcançável. O artifício funciona: Guy Pearce está particularmente bem como um Fitzgerald cansado e desiludido e Dominic West, mesmo em uma única cena, dá um belo vislumbre da personalidade de Hemingway, assim como Corey Stoll fez com maestria em "Meia-noite em Paris", de Woody Allen. São esses momentos, fora do arco narrativo principal de "O mestre dos gênios" que, paradoxalmente, fazem dele um filme interessante e o salvam do lugar-comum.

Não deixa de ser surpreendente, no entanto, que, mesmo com um profissional experiente como John Logan, seja justamente o roteiro um dos principais problemas do filme de Grandage. Sem conseguir imprimir em seus protagonistas o grau de empatia suficiente para conquistar o espectador, a história acaba por tentar impor-se mesmo sem ter força para isso. Escorando-se basicamente em um relacionamento profissional/fraternal sem maiores lances dramáticos, a trama acaba por arrastar-se por longos 104 minutos, tentando encontrar atrativos além do elenco excepcional para cativar a atenção da plateia. É uma produção caprichada, com uma reconstituição de época cuidadosa e personagens lendários vividos por atores de primeira linha, mas esbarra em uma falta absoluta do que contar em seu terço final. É um desperdício, mas mesmo com seus pecados, ainda é um filme que pode agradar a quem procura conhecer um pouco mais de seus autores favoritos. Uma pena que até mesmo nesse ponto é superficial demais para acrescentar algo a mais na carreira dos envolvidos.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

O CORPO

O CORPO (El cuerpo, 2012, Antena 3 Films/Canal + España, 108min) Direção: Orion Paulo. Roteiro: Orion Paulo, Lara Sendim. Fotografia: Oscar Faura. Montagem: Joan Manel Vilaseca. Música: Sergio Moure de Oteyza. Figurino: Maria Reyes. Direção de arte/cenários: Balter Gallart/Nuria Muni. Produção executiva: Pepes Torrescusa. Produção: Mercedes Gamero, Mikel Lejarza, Joaquín Padró, Mar Targarona. Elenco: José Coronado, Belén Rueda, Hugo Silva, Aura Garrido, Miquel Gelabert. Estreia: 04/10/12

Na primeira cena, um homem corre apavorado, sob uma chuva torrencial, e é atropelado na estrada, indo parar no hospital, em coma com diversas fraturas graves que o impedem de revelar às autoridades o motivo pelo qual ele abandonou seu posto como vigia de um necrotério de forma tão atribulada. Chamado para investigar o caso, o detetive Jaime Peña (José Coronado) descobre, logo que chega ao local, outro fato bastante estranho: o desaparecimento do corpo da empresária Mayka Villaverde Freire (Belén Rueda), recentemente vítima de um ataque cardíaco fatal. O necrotério se localiza perto de um bosque fechado, chove abundantemente e a sala onde ficam os cadáveres está trancado por dentro, o que deixa tudo ainda mais nebuloso. Sem saber por onde começar a investigação, Jaime chama o viúvo, Álex Ulloa Marcos (Hugo Silva) - e assim tem início um dos mais engenhosos e inteligentes filmes de suspense realizados pelo cinema espanhol. Dirigido e coescrito pelo jovem Oriol Paulo, "O corpo" é um daqueles filmes de prender a atenção da primeira à última cena - e deixar o espectador abismado com uma reviravolta final consistente e verossímil. Graças a um roteiro enxuto que equilibra sustos e personagens bem construídos, o público se vê mergulhado em uma trama onde nada é exatamente o que parece - e absolutamente qualquer diálogo tem importância fundamental no desenvolvimento do enredo.

A chegada de Álex ao necrotério - onde se vê à disposição do interrogatório de Jaime, desconfiado por alguma razão das declarações do viúvo - dá o pontapé inicial para um jogo de gato e rato dos mais instigantes. Jaime é um personagem rico em nuances: viúvo e com uma relação complicada com a filha que vive em Berlim, ele não consegue levar a vida adiante de maneira saudável, e vê no trabalho uma válvula de escape para seu drama particular. Certo de que Álex sabe mais do que aparenta em relação ao sumiço do corpo da esposa, ele não se permite falhar em sua caça à verdade - e o jovem, casado com uma mulher mais velha e poderosa, dá todos os motivos do mundo para que o veterano policial desconfie de suas atitudes. Conforme a ação avança, a plateia é informada de que ele vive um tórrido romance com Carla Miller (Aura Garrido) - e que tal caso extraconjugal pode ter relação com a morte de Mayka. Qual a conexão entre todos esses elementos é o grande trunfo do roteiro, que encontra na direção certeira de Paulo a tradução mais adequada. Como um herdeiro de Alfred Hitchcock - e qual diretor de filmes de suspense não o é? - o cineasta constrói uma teia de pistas falsas, informações desencontradas e personagens suspeitos para brindar a plateia com um entretenimento de primeira qualidade, que em nada fica a dever a produções hollywoodianas muito mais ambiciosas.


É óbvio, porém, que o elenco ajuda bastante. Belén Rueda desfila sua classe e charme na pele da sedutora milionária Mayka Villaverde, sempre mesclando doçura, paixão e um tom de mistério; Hugo Silva está à vontade como o pouco confiável Álex, um homem que pode ser tanto culpado quanto vítima; e José Coronado é a terceira peça fundamental do trio de protagonistas, um homem despedaçado por uma tragédia familiar que vê em sua obsessão em provar a culpa de Álex uma válvula de escape que pode levá-lo em direção a um caminho sem volta, perigoso e chocante. Oriol Paulo conduz seus atores com extrema precisão, arrancando de cada um deles o máximo de tensão com o mínimo de informações, desnorteando o espectador até os últimos minutos, quando o quebra-cabeças finalmente faz sentido - não de forma artificial como acontece na maioria dos filmes de trama preguiçosa, mas organicamente, com as pontas sendo amarradas com uma maestria digna de Agatha Christie. Como em uma peça de teatro milimetricamente arquitetada, os atores forjam uma sintonia que envolve o público até que ele esteja totalmente entregue às viradas da trama - no que são muito auxiliados pela trilha sonora discreta e eficiente e pela edição ágil na medida certa: não apressa os acontecimentos nem tampouco abusa de cenas longas e explicativas.

Uma gratíssima surpresa para fãs do gênero, "O corpo" é um filme que pode ser visto e revisto diversas vezes sem que nunca perca sua qualidade dramática. Mesmo que seu final já seja conhecido, o público pode acompanhar suas diversas camadas sempre descobrindo novos detalhes e aplaudindo a conjunção perfeita entre direção, elenco, roteiro e técnica. Em uma filmografia tão centrada em dramas e comédias como a espanhola, não deixa de ser um respiro louvável e uma demonstração de extrema inteligência e criatividade. Um filme imperdível!

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

O MÁGICO DE OZ

O MÁGICO DE OZ (The wizard of Oz, 1939, MGM, 102min) Direção: Victor Fleming. Roteiro: Noel Langley, Florence Ryerson, Edgar Allan Woolf, adaptação de Noel Langley, romance de L. Frank Baum. Fotografia: Harold Rosson. Montagem: Blanche Sewell. Figurino: Adrian. Direção de arte/cenários: Cedric Gibbons/Edwin B. Willis. Produção: Mervyn LeRoy. Elenco: Judy Garland, Frank Morgan, Ray Bolger, Bert Lahr, Jack Haley, Billie Burke, Margaret Hamilton. Estreia: 15/8/39

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Fotografia (Cores), Trilha Sonora Original, Canção Original ("Over the rainbow"), Direção de Arte, Efeitos Visuais
Vencedor do Oscar de Canção ("Over the rainbow") 

Se existe um filme que pode ser considerado parte do imaginário coletivo da humanidade, esse filme é "O mágico de Oz". Mesmo quem nunca assistiu às aventuras de Dorothy em busca do caminho de volta ao lar depois de ser afastada da família em consequência de um tornado conhece sua história, tem noção de seus personagens icônicos (Homem de Lata, Espantalho, Leão Covarde, Bruxa Má do Oeste) e já ouviu a clássica canção "Over the rainbow", imortalizada na voz de sua atriz principal Judy Garland. Lançado em 1939 - ano de ouro que também marcou a estreia de "...E o vento levou", "O morro dos ventos uivantes", "Ninotchka" e "No tempo das diligências" - o filme de Victor Fleming tornou-se eterno no coração dos cinéfilos a despeito de sua temática aparentemente infantil justamente por sua alta dose de inocência e sensibilidade. Não à toa, em um aviso logo no início da projeção, os produtores dedicam à história a todos aqueles que se mantém jovens de coração - um toque que certamente agradaria ao autor do romance que deu origem ao roteiro, L. Frank Baum.

Publicado em 1900 e seguido por nada menos que dezesseis continuações, "O mágico de Oz" chegou às telas de cinema depois de exaustivas filmagens que duraram cinco meses de árdua labuta e muitas dúvidas acerca de suas possibilidades comerciais. Apesar de já ser um sucesso no teatro, o livro de Baum - cujos direitos foram comprados pela então astronômica quantia de 75 mil dólares - demandou um trabalho hercúleo de quatorze (!!) roteiristas e cinco diretores, até que o resultado final (escrito por Noel Langley, Florence Ryerson e Edgar Allan Woolf sob uma adaptação bem menos sombria do material original) agradasse à MGM e Victor Fleming (que também assinou "...E o vento levou", no mesmo ano, e levou um Oscar por isso). Situações pouco palatáveis à plateia infantojuvenil foram limadas do texto final e um tom menos sinistro foi providenciado, com a inclusão de algumas canções (como a tão falada "Over the rainbow", que por pouco não foi eliminada do corte final) e um visual colorido realizado em Technicolor quase a ponto de ferir a retina. Possíveis implicações sociopolíticas também foram disfarçadas - segundo alguns críticos tudo na história tinha viés de crítica à sociedade capitalista, desde o americano médio (representado pela garota típica do meio-oeste) até a tecnologia (através do mágico), passando pelos fazendeiros da época (o espantalho sem cérebro), a indústria (o homem de lata sem coração) e os políticos (na figura do leão covarde) - e, com a impossibilidade de contar com a maior estrela-mirim da época, Shirley Temple, o estúdio do leão acabou contratando a adolescente Judy Garland para o papel principal, torcendo para que seus 16 anos de idade parecessem bem menos na tela. Talvez mérito da conjunção astral, talvez pelo talento dos envolvidos ou talvez por ser o filme certo na hora certa, "O mágico de Oz" tornou-se, quase imediatamente, um clássico dos mais amados, idolatrado por fãs de diversas gerações.


Sua estreia na televisão americana, por exemplo, em 1956, foi assistida por 44 milhões de telespectadores, o que demonstrou, sem margem para qualquer dúvida, a perenidade do filme, já então com quase 20 anos de idade. A canção "Over the rainbow" acompanhou Judy Garland por toda a sua carreira, tornando-se um clássico absoluto que sobreviveu até mesmo à sua morte - coincidência ou não, no dia em que isso aconteceu, em 1969, um tornado pegou o Kansas de surpresa, como uma última (e nada sutil) homenagem àquela que seria lembrada eternamente como a doce Dorothy, a despeito de uma respeitável carreira posterior, como cantora e atriz. Nada mal para quem pegou o papel mesmo sendo considerada velha demais e sobreviveu à constante troca de diretores que tomou conta das filmagens. Se Victor Fleming foi quem recebeu crédito como o diretor oficial, outros quatro nomes também estiveram ligados ao filme, em maior ou menor nível. Fleming realmente comandou a maior parte da missão antes de dedicar-se a "... E o vento levou", mas dividiu o trabalho com Richard Thorpe (cujas cenas ficaram totalmente de fora da versão final), o admirado George Cukor (que não filmou nenhuma sequência, mas foi responsável por mudanças no visual de Judy Garland), King Vidor (responsável pelas cenas em preto-e-branco na fazenda do Kansas, incluindo a famosa aparição da canção-tema) e o produtor Melvin LeRoy, que assinou algumas pequenas cenas de transição. Apesar de tantas mãos, no entanto, em nenhum momento "O mágico de Oz" parece um filme sem personalidade: ao contrário, é uma obra com uma surpreendente unidade visual e um brilhantismo técnico e dramático que o mantém como um dos mais adorados e queridos filmes de todos os tempos - algo que nem mesmo aberrações como "O mágico inesquecível", com Michael Jackson e Diana Ross, conseguiram estragar.

A história, para quem não conhece (se é que alguém não conhece) é simples, delicada e lúdica. Dorothy (Judy Garland) é uma menina doce e sonhadora que vive com os pais em uma fazenda do interior do Kansas. Um dia, um tornado a leva para a desconhecida Terra de Oz, acompanhada de seu fiel cãozinho Totó. Mesmo encantada com o colorido do lugar e seus habitantes exóticos, ela sonha em voltar para casa, mas para isso precisa pedir o auxílio do misterioso mágico do lugar, que vive isolado em uma casa localizada no final de uma estrada de ladrilhos amarelos, a famosa Cidade das Esmeraldas. Para chegar lá, ela conta com a companhia de três novos amigos, todos com um desejo a ser realizado pelo mágico: um leão covarde (Bert Lahr) que precisa de coragem, um homem de lata (Jack Haley) que ambiciona ser dono de um coração, e um espantalho (Ray Bolger) que busca um cérebro. Além disso, Dorothy precisa também se livrar da perseguição da Bruxa Má do Oeste (Margaret Hamilton), que deseja vingar a morte da irmã, causada pela queda da casa da menina sobre ela. No final do caminho fica claro, mais uma vez, que a viagem importa mais do que o destino, e a garota acaba por aprender uma valiosa lição de vida, resumida da famosa "Não há lugar como nossa casa!".

Um clássico na mais ampla acepção do termo, "O mágico de Oz" é, sem dúvida, um dos filmes imprescindíveis realizados pela era dourada de Hollywood, uma obra que resiste ao tempo de forma admirável e continua a encantar crianças e adultos. Não à toa, inspirou até mesmo discos de rock progressivo - o álbum "The dark side of the moon", da banda Pink Floyd, tem seu ritmo totalmente ditado pelas cenas do filme, em uma das homenagens mais criativas já feitas à uma produção cinematográfica da história. Não é para qualquer um, mas definitivamente, "O mágico de Oz" não é um filme qualquer.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

NERVE: UM JOGO SEM REGRAS

NERVE: UM JOGO SEM REGRAS (Nerve, 2016, Lionsgate, 96min) Direção: Henry Joost, Ariel Schulman. Roteiro: Jessica Sharzer, romance de Jeanne Ryan. Fotografia: Michael Simmonds. Montagem: Madeleine Gavin, Jeff McEvoy. Música: Rob Simonsen. Figurino: Melissa Vargas. Direção de arte/cenários: Chris Trujillo/Kara Zeigon. Produção executiva: Qiuyun Long, Jeanne Ryan. Produção: Anthony Katagas, Allison Shearmur. Elenco: Emma Roberts, Dave Franco, Emilu Meade, Miles Heizer, Juliette Lewis, Kimiko Glen, Marc John Jefferies. Estreia: 12/7/16

Uma sociedade consumida pelo desejo ávido de fama, dinheiro e bajulação não tem como evitar que seus jovens acabem por buscar todos esses objetivos da maneira mais fácil e/ou rápida. Retratos de gerações vazias e desesperadas por algum sentido (qualquer um) já foram mostrados pelo cinema por diversas vezes, desde os rebeldes sem causa de "O selvagem" (53), com Marlon Brando e "Juventude transviada" (54), com James Dean, até os niilistas viciados em heroína de um dos maiores cults dos anos 90, "Trainspotting: sem limites", com Ewan McGregor e dirigido pelo oscarizado Danny Boyle. Unindo essa angústia existencial com a irresponsabilidade de uma geração escravizada pela Internet e pelas redes sociais - e suas consequências frequentemente trágicas - surgiu "Nerve: um jogo sem regras", um romance escrito por Jeanne Ryan que, assim como a bem-sucedida tetralogia "Jogos vorazes" parte de uma fictícia e quase macabra série de regras para criticar, sob forma de entretenimento ligeiro, a falta de perspectivas e limites dos viciados em tecnologia e popularidade instantânea. Sua versão para as telas de cinema, dirigida pela dupla Henry Joost e Ariel Schulman - também por trás dos capítulos 3 e 4 da franquia "Atividade paranormal" - pode não ter a contundência de um novo clássico, mas consegue uma façanha e tanto: diverte enquanto faz pensar.

Rápido e eficiente, "Nerve" é um filme adolescente, juvenil, que beira a superficialidade em seus questionamentos e soluções dramáticas, mas por incrível que pareça, funciona muito bem, desde que a expectativa do espectador não seja muito elevada. Com um visual modernoso, uma trilha sonora adequada e uma edição ágil na medida certa para quem não tem paciência com sequências muito longas - ou seja, a maior parte de seu público-alvo - o filme de Joost e Schulman é o típico exemplo de produção que, sem campanhas milionárias de marketing ou orçamentos gigantescos, acaba por conquistar uma bilheteria respeitável graças unicamente à propaganda boca-a-boca: mesmo sem grandes astros no elenco e sem a chancela de materiais já consagrados em outras mídias, atingiu uma bilheteria mundial de mais de 80 milhões de dólares - quatro vezes mais do que seu custo estimado (que, por sua vez, é o equivalente ao salário POR FILME de Julia Roberts, a tia de sua atriz principal, Emma). Na pele da protagonista Vee, a jovem Emma pela primeira vez demonstra carisma e talento suficientes para segurar um papel principal - e com uma ótima química com seu parceiro de cena, Dave Franco (irmão de James), é um dos destaques da produção, disfarçando algumas improbabilidades do roteiro e facilitando a identificação da plateia com a personagem.


Vee é uma jovem estudante do ensino médio que precisa ganhar dinheiro se quiser frequentar a faculdade de Artes da qual sonha fazer parte. Tímida e romântica, ela mora com a mãe, Nancy (Juliette Lewis) e é incapaz até mesmo de declarar-se para o rapaz por quem é apaixonada, o jogador de futebol J.P. (Brian Marc). Fotógrafa por vocação, ela se contenta em ser amiga da extravagante Sydney (Emily Meade), que não mede esforços para chamar a atenção e ser considerada a garota mais popular da turma. Seu esforço é tanto que ela é uma das mais famosas participantes de um jogo online chamado Nerve, em que aqueles que estão inscritos são desafiados a praticarem atos cada vez mais ousados diante das câmeras com o objetivo de acumularem dinheiro e seguidores. De bobagens como cantar diante de estranhos até ações mais pesadas como pendurar-se a centenas de metros do chão, os candidatos ao prêmio final do jogo vão sendo eliminados conforme não conseguem cumprir o que foi ordenado ou desistem de continuar. Abalada com seu status de espectadora passiva do mundo a seu redor, Vee resolve então entrar no jogo, mesmo contra os conselhos de seu melhor amigo, Tommy (Miles Heizer). Sua entrada no arriscado universo de Nerve coincide com sua parceria com Ian (Dave Franco), que também faz parte da brincadeira e com quem ela passa a desempenhar uma sucessão de tarefas que ao mesmo tempo lhe tornam famosa e admirada pelos espectadores e em constante possibilidade de falhar - especialmente quando Tommy descobre que Ian pode não ser quem eles acham.

Mesmo que seu desfecho seja abrupto, inverossímil e até anti-climático, é inegável que "Nerve" é um filme que sabe como entreter sua audiência. Tem um ritmo ágil, personagens carismáticos e sabe manter o interesse da plateia até o final, quando opta por uma saída fácil, que esvazia a força que a narrativa vinha imprimindo até então. Desperdiçando a presença de Juliette Lewis - que pouco aparece e é subaproveitada em um papel ingrato - e abraçando o óbvio final feliz, o roteiro ameniza a potência de sua denúncia, transformando o que poderia ser um belo discurso sobre os perigos da celebridade fácil em apenas mais uma (boa) aventura, perfeita para passar o tempo, mas sem muitas chances de fixar-se na memória do público logo após seus créditos de encerramento. É divertido, é atual e tem personalidade visual, mas não ultrapassa os limites que se autoimpõe como entretenimento despretensioso. Vale uma sessão, desde que não se tenham grandes expectativas a seu respeito.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

NOCAUTE

NOCAUTE (Southpaw, 2015, Escape Artists/Fuqua Films, 124min) Direção: Antoine Fuqua. Roteiro: Kurt Sutter. Fotografia: Mauro Fiore. Montagem: John Refoua. Música: James Horner. Figurino: David C. Robinson. Direção de arte/cenários: Derek R. Hill/Melissa Lombardo. Produção executiva: David Bloomfield, Cary Cheng, Jonathan Garrison, Stuart Parr, David Ranes, Paul Rosenberg, David Schiff, Dylan Sellers, Kurt Sutter, Ezra Swerdlow, Bob Weinstein, Harvey Weinstein, Gillian Zhao. Produção: Todd Black, Jason Blumenthal, Antoine Fuqua, Alan Riche, Peter Riche, Steve Tisch, Jerry Ye. Elenco: Jake Gyllenhaal, Forest Whitaker, Rachel McAdams, Oona Laurence, 50 Cent, Skylan Brooks, Naomie Harris, Victor Ortiz. Estreia: 15/6/15 (Festival de Xangai)

A princípio, a ideia era fazer uma espécie de continuação de "8 mile: rua das ilusões" (2002), com o cantor Eminem reprisando seu papel, dessa vez com uma trama centrada no universo das lutas de boxe. Com o tempo - e a desistência do rapper, que preferiu dedicar-se à carreira musical e abandonar parcialmente o projeto, assinando apenas como produtor executivo da trilha sonora - a história foi sendo modificada, de acordo com as regras de Hollywood e o interesse de atores com razoável poder de atrair as plateias. Antes que Jake Gyllenhaal assumisse a protagonização sob a direção de Antoine Fuqua, por exemplo, nomes como Ryan Gosling, Bradley Cooper e Jeremy Renner (todos potencialmente interessantes sob o ponto de vista comercial e com indicações ao Oscar para comprovar seus méritos artísticos) foram cogitados para enfeitar o cartaz, em uma tentativa em conciliar uma bilheteria polpuda e possíveis indicações à estatueta dourada. Quando finalmente o filme saiu, com Gyllenhaal no papel central, o primeiro objetivo foi atingido em parte, com uma renda de pouco mais de 50 milhões de dólares de arrecadação somente no mercado doméstico (EUA e Canadá) e quase 90 ao redor do mundo. Já o segundo foi uma decepção: apesar dos rumores que davam como bastante provável a lembrança de Gyllenhaal entre os candidatos ao Oscar, a Academia simplesmente ignorou seu belo trabalho, frustrando fãs e produtores.

A esnobada em Gyllenhaal - indicado ao prêmio de coadjuvante em 2006, por "O segredo de Brokeback Mountain" - não deixou de ser injusta. Ator dedicado e minucioso em suas composições, ele é o pilar de um filme que, apesar da sinceridade impressa em cada cena, jamais consegue escapar das armadilhas de um roteiro clichê e bastante previsível. Antoine Fuqua, o diretor, tem no currículo filmes corretos mas nunca brilhantes - como "Dia de treinamento" (2001), que deu o Oscar a Denzel Washington - e novamente entrega um produto bem embalado, visualmente atraente e de fácil comunicação com a plateia, mas sem personalidade. Da fotografia à edição, passando pela trilha sonora pesada e pela caracterização que deixa Gyllenhaal irreconhecível em determinados momentos, tudo funciona como um relógio. Porém, é inegável que todo o esforço esbarra em uma trama simplista, que, se consegue emocionar, é mérito do talento de seus intérpretes, excelentes atores dando vida a personagens que apenas ocasionalmente ultrapassam a esfera do superficial. Com apenas uma grande surpresa na narrativa - ainda em seu primeiro ato - e uma sucessão de sequências que apesar de bem realizadas não acrescentam nada ao gênero, "Nocaute" é um entretenimento competente e tecnicamente impecável, mas está longe de ser o novo clássico que talvez almejasse ser.


Um esporte querido pelo cinema, o boxe foi responsável por alguns dos mais premiados e queridos filmes realizados por Hollywood, como "Rocky, um lutador", Oscar de filme e direção em 1977, "Touro indomável" (80) - estatueta de melhor ator para Robert DeNiro - e "Menina de ouro" (2004), que deu o segundo Oscar tanto a Clint Eastwood (direção) quanto à Hillary Swank (atriz), além de faturado o prêmio de melhor filme do ano em cima de "O aviador", de Martin Scorsese. O roteiro de "Nocaute" se utiliza de elementos de todos eles (e de vários outros de temática semelhante) para costurar uma história de amor, vingança e superação, sendo o esporte a moldura perfeita para tal, com sua mistura de decadência e glamour mescladas em doses exatas pelo cineasta, que não hesita em fazer sua câmera transitar pelos eventos milionários das redes esportivas de televisão e por academias baratas, refúgio dos menos favorecidos pela sorte. O protagonista, Billy Hope, é um daqueles que tem a possibilidade de experimentar os dois mundos - e sua jornada, graças ao talento de Jake Gyllenhaal, se torna interessante a despeito da falta de novidade que ela apresenta.

Quando o filme começa, Hope é um lutador que está no auge da carreira, vencendo lutas, sendo adulado por imprensa e amigos de ocasião e vivendo um casamento feliz com a bela Maureen (Rachel McAdams), a quem conheceu em um abrigo para crianças sem lar e que hoje administra sua carreira com um misto de rigidez e carinho. O romance deles foi abençoado com uma filha inteligente e amorosa, Leila (Oona Laurence), e o que parecia um sonho dourado torna-se bruscamente um pesadelo quando uma tragédia inesperada se abate sobre a família e faz com que o corajoso e bem-sucedido atleta se veja diante de um desafio cruel e mais pesado que poderia imaginar: juntar os cacos do que ainda restou e tentar uma volta por cima, com a ajuda do veterano Tick Wills (Forest Whitaker fazendo o possível para extrair algo de novo de um personagem dos mais batidos). É admirável como Antoine Fuqua consegue contar sua história (direta, simples, quase banal) sem perder o interesse da plateia diante de uma série de lugares-comuns: com uma edição ágil, momentos dramáticos estrategicamente distribuídos pela narrativa e atuações poderosas, ele consegue facilmente enganar que seu filme tem mais substância do que na verdade tem. É um mérito, mas questionável, uma vez que, assim que a sessão acaba, é bem provável que o espectador esqueça boa parte do que viu. Para alguns sua falta de personalidade como cineasta - e do filme em si como obra de arte - talvez não incomode, já que é entretenimento de qualidade. Mas não resta dúvidas de que um bocado de ousadia e criatividade teria sido providencial para um sucesso maior. Em todo caso, é um passatempo honesto e apresenta uma atuação monstruosa (no bom sentido) de Jake Gyllenhaal, o que é mais do que muitos outros filmes bem mais ambiciosos conseguem.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

ASSASSINATO NO EXPRESSO ORIENTE

ASSASSINATO NO EXPRESSO ORIENTE (Murder on the Orient Express, 1974, Paramount Pictures, 128min) Direção: Sidney Lumet. Roteiro: Paul Dehn, romance de Agatha Christie. Fotografia: Geoffrey Unsworth. Montagem: Anne V. Coates. Música: Richard Rodney Bennett. Figurino: Tony Walton. Direção de arte/cenários: Tony Walton/Jack Stephens. Produção: John Brabourne, Richard Goodwin. Elenco: Albert Finney, Lauren Bacall, Martin Balsam, Ingrid Bergman, Sean Connery, Jacqueline Bissett, Jean-Pierre Cassel, John Gielgud, Wendy Hiller, Anthony Perkins, Vanessa Redgrave, Rachel Roberts, Richard Widmark, Michael York. Estreia: 21/11/74

 6 indicações ao Oscar: Ator (Albert Finney), Atriz Coadjuvante (Ingrid Bergman), Roteiro Adaptado, Fotografia, Figurino, Trilha Sonora Original (Drama)
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Ingrid Bergman)

Não é sem motivos que a inglesa Agatha Christie é considerada a "rainha do crime": a autora policial mais lida e vendida de todos os tempos tem em seu currículo no mínimo uma meia-dúzia de obras-primas, que sobrevivem ao tempo como perfeitos exemplos de tramas bem construídas, personagens psicologicamente críveis e resoluções intrincadas e criativas. De todas as suas histórias, é bastante provável que a melhor e mais genial seja a criada para "Assassinato no Expresso Oriente", lançado em 1934 e ainda hoje capaz de surpreender até mesmo ao mais atento e experiente leitor. Quarenta anos depois de chegar às prateleiras das livrarias, sob a direção do elogiado Sidney Lumet - já então com uma indicação ao Oscar, por "12 homens e uma sentença" (57) - e com um elenco internacional  liderado por Albert Finney na pele do indefectível detetive belga Hercule Poirot, a história de um brutal assassinato cometido em um dos meios de transporte mais famosos do mundo alcançou também as telas de cinema... e agradou não apenas a crítica e a Academia de Hollywood (que lhe deu seis indicações ao Oscar e uma estatueta), mas também à mais impiedosa espectadora: a própria autora do romance.

Feliz com a interpretação de Albert Finney (então com apenas 37 anos de idade e se utilizando de uma pesada maquiagem para personificar um dos detetives mais famosos da literatura policial), Agatha Christie não poupou elogios ao filme, que estreou pouco mais de um ano antes de sua morte, em janeiro de 1976. Mesmo que tenha ficado bastante satisfeita com a adaptação de Billy Wilder para sua peça teatral "Testemunha de acusação", em 1957, a escritora não escondia de ninguém que considerava o filme de Lumet o mais fiel à sua obra até então - um elogio e tanto que reflete o cuidado da produção em recriar não apenas a ambientação charmosa e realista do cenário principal mas também o clima de suspense que perpassa todas as páginas do livro. Ainda que o roteiro indicado ao Oscar não consiga evitar a armadilha comum de atropelar os acontecimentos e apressar o desfecho - tudo soa muito rápido, ao contrário do livro, que dá tempo ao leitor de administrar cada pista e evidência que vai sendo oferecida - é inegável que a elegância que Lumet imprime à narrativa torna o espetáculo um entretenimento de primeira, avalizado por um elenco estelar que se dá ao luxo de ter como coadjuvantes nomes como Sean Connery, Jacqueline Bissett, Anthony Perkins, John Gielgud e Ingrid Bergman (que acabou faturando um inesperado Oscar da categoria, batendo a então favorita Valentina Cortese, do aclamado "A noite americana", de François Truffaut).


Enquanto o romance de Agatha Christie já começa em plena ação, com a chegada dos passageiros ao trem que dá nome à história - partindo de Istambul, na Turquia - o filme de Lumet já ilumina, sutilmente, através de uma introdução silenciosa nos créditos de abertura, os atos que levarão, alguns anos mais tarde, ao crime que impulsiona a narrativa. Se de certa forma tal opção tira parte do suspense (por que mataram esse desconhecido dentro do trem?), ela ajuda de forma inteligente a expor, sem longos e didáticos discursos, o motivo do homicídio. A partir daí, resta apresentar a fauna de personagens exóticos criados por Christie e interpretados por atores de primeira linha - em uma constelação tão fascinante que disfarça até mesmo o pouco espaço dado a cada um deles em cena. Finney é quem tem mais sorte, com um Hercule Poirot um tanto caricato mas perfeitamente adequado às caracterizações comandadas por Lumet. Indicado ao Oscar de melhor ator, ele perdeu a estatueta para Art Carney ("Harry, o amigo de Tonto"), mas é o maestro de uma orquestra impecável, conduzida sem sobressaltos e/ou maiores destaques justamente por sua natureza coletiva.

A trama se passa em dezembro de 1935, durante uma viagem estranhamente lotada no Expresso Oriente: em uma parada devido a uma nevasca, um dos passageiros é assassinado com uma série de punhaladas, enquanto dormia. Assumindo a investigação antes que o trem prossiga seu curso, o famoso e excêntrico Hercule Poirot logo descobre que a vítima, de nome Ratchett (Richard Widmark), na verdade se escondia sob falsa identidade, por ser o responsável pelo sequestro e assassinato de uma criança alguns anos antes - fato que acarretou uma série de outras tragédias na família e tornou-se manchete internacional. Certo de que sua morte é resultado do crime cometido no passado, Poirot tenta encontrar, dentre seus companheiros de viagem, quem poderia ter ligações com o caso - e se depara com inúmeras surpresas, que o levam a questionar sua própria noção de justiça. Por mais inocentes que pareçam, todos os passageiros são suspeitos, desde a idosa Princesa Dragomiroff (Wendy Hiller) até a religiosa Greta (Ingrid Bergman) - passando pela bela Condessa Andrenyi (Jacqueline Bissett) e seu marido (Michael York) e o respeitável Coronel Arbuthnot (Sean Connery), que esconde uma ligação com a jovem Mary Debenham (Vanessa Redgrave).

Valorizado principalmente pelo elenco e pela produção caprichada, "Assassinato no Expresso Oriente" não chega aos pés do livro que o originou - uma obra-prima policial cujo desenvolvimento prende o leitor até a página final com uma sucessão de reviravoltas inteligentes e verossímeis. Porém, é, ao mesmo tempo, uma adaptação que se mantém fiel a seu espírito elegante e sutil, que ameniza a violência física necessária a uma história do gênero com toques de um fino humor e a destreza de uma especialista em surpreender e cativar seu público. Se não é mais empolgante é justamente porque o roteiro lhe tirou algumas das maiores qualidades - o desenrolar gradual da investigação é apressado até o discurso final que não chega a ser tão emocionante quanto poderia - e não explora com a devida força as incoerências e mistérios dos personagens. É uma boa adaptação, mas longe de ser a obra-prima que poderia (e deveria) ser.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

MÚSICA E LÁGRIMAS

MÚSICA E LÁGRIMAS (The Glenn Miller story, 1954, Universal Studios, 115min) Direção: Anthony Mann. Roteiro: Valentine Davies, Oscar Brodney. Fotografia: William Daniels. Montagem: Russell Schoengarth. Figurino: Jay Morley Jr.. Direção de arte/cenários: Alexander Golitzen, Bernard Herzbrun/Russell A. Gausman, Julia Heron. Produção: Aaron Rosenberg. Elenco: James Stewart, June Allyson, Harry Morgan, Charles Drake, George Tobias. Estreia: 17/02/54

3 indicações ao Oscar: Roteiro Original, Trilha Sonora Original (Musical), Som
Vencedor do Oscar de Melhor Som

No período compreendido entre 1939 e 1942, não existia no mundo orquestra mais famosa do que a liderada por Glenn Miller: campeão de vendas de discos e com uma agenda de apresentações quase desumana, o músico norte-americano que mudou a forma como o público ouvia (e reagia) às músicas que embalavam bailes por todo o planeta. Dono de um estilo único e moderno, Miller surpreendeu aos fãs quando, no auge do sucesso, em 1941, resolveu deixar tudo de lado e alistar-se para lutar pelos EUA na II Guerra Mundial. Seus planos não eram pouco ambiciosos: ele sabia que, dentre os jovens soldados norte-americanos, havia muitos talentos à espera de serem descobertos e que dariam qualquer coisa para trocar suas baionetas por instrumentos musicais. Depois de convencer o Exército a lhe conferir a patente de Capitão apesar de nunca ter tido contato com qualquer serviço militar, Miller passou a recrutar os novos membros de sua orquestra de pelotão em pelotão, até formar um grupo de quase cinquenta profissionais - que iam de soldados a sargentos - em uma orquestra que tinha por objetivo entreter as tropas aliadas pela Europa. Já como major, ele levou diversão à milhares de conterrâneos pelos anos em que esteve à frente de seu novo grupo, mas em dezembro de 1944, embarcou em um voo de Londres a Paris - e simplesmente desapareceu. Seu monomotor simplesmente parece ter-se dissipado no ar, em um dos maiores mistérios da história da aviação - nem mesmo várias versões surgidas nas décadas seguintes deram conta de por um ponto final na questão.

Mas se a trágica e inexplicada morte de Miller ainda hoje intriga fãs e historiadores, ela é apenas um detalhe em "Música e lágrimas", lançado pouco menos de dez anos após seu desaparecimento e que se dedica, com quase veneração e sem espaço para polêmicas, a contar sua trajetória como músico e pai de família. Com aprovação da viúva do músico, Helen, o roteiro do filme de Anthony Mann ignora o gênio difícil de Miller e, na pele do dócil e respeitabilíssimo James Stewart, o protagonista chega ao público com uma imagem intocada e bem mais apropriada ao que desejava a plateia dos anos 50, ainda traumatizada com seu destino inesperado. Dirigida por Anthony Mann ( que ficaria conhecido pelo épico "El Cid", realizado quase uma década mais tarde), a cinebiografia de Glenn Miller foi muito bem recebida pela crítica e pelo público justamente por resgatar a memória afetiva de um de seus maiores ídolos, mas à luz do tempo, pode-se dizer que, apesar de correto, o filme de Mann não resiste tão bem ao tempo: é açucarado em excesso, e não oferece mais do que uma visão simplista e unilateral de seu personagem principal.


Premiado com o Oscar de melhor som - nada mais apropriado para um filme que tem a música como sua base e principal ingrediente - "Música e lágrimas" acompanha a história de Miller a partir do momento em que ele ingressa na banda de Ben Pollack, impressionado com um de seus arranjos, e de seu reencontro com uma uma antiga namorada, Helen Berger (June Allyson) - com quem virá a se casar depois de dois anos tentando encontrar o ritmo perfeito para a criação de sua própria orquestra. O roteiro (também indicado ao Oscar) não faz questão de aprofundar o desenho de seus protagonistas, optando, ao invés disso, em acompanhar a escalada do compositor rumo ao topo das paradas de sucesso e da aclamação popular. Emoldurando suas cenas com uma trilha sonora recheada de hits de Miller (é lógico), Mann constrói uma narrativa sem sobressaltos, mas tampouco sem maiores emoções: sua obra é morna, ainda que agradável; elegante, ainda que sem brilho; didática, ainda que superficial. Stewart está bem como Glenn Miller, mesmo que sua visão do personagem esteja um tanto distante da real personalidade do músico (culpa do roteiro chapa branca e sem ousadias). June Allyson, por sua vez, faz o que pode com uma personagem que pouco faz em cena a não ser apoiar o marido incondicionalmente e lhe servir de inspiração ocasional - o poder da verdadeira Helen era tanto sobre o projeto que até mesmo o mais popular e importante membro da orquestra de seu marido, Tex Beneke, ficou de fora de sua versão da história, porque eles estavam brigados na ocasião da realização do filme.

"Música e lágrimas" é um filme para fãs. Fãs de Glenn Miller, de James Stewart, de boa música e de filmes clássicos. Está longe de ser uma obra-prima ou até mesmo um filme imperdível, mas agrada a quem não se cansa de ouvir "In the mood" ou "Moonlight serenade" como forma de sublinhar um romantismo nostálgico e há muito perdido. E o fato de que a história de Miller ter acabado de forma tão intrigante - a teoria de que seu monomotor foi abatido por engano por um avião aliado que estava se livrando de bombas não utilizadas, para pousar mais leve, acabou sendo jogada por terra logo que surgiu - apenas torna seu caminho ainda mais interessante. Pena que faltou coragem e mais criatividade (algo que nunca lhe faltou) ao filme que lhe fez uma justa homenagem.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

MELHORES AMIGOS

MELHORES AMIGOS (Little men, 2016, Charlie Guidance Productions, 85min) Direção: Ira Sachs. Roteiro: Ira Sachs, Mauricio Zacharias. Fotografia: Óscar Durán. Montagem: Mollie Goldstein, Affonso Gonçalves. Música: Dickon Hinchliffe. Figurino: Eden Miller. Direção de arte/cenários: Alexandra Schaller/Emily Deason. Produção executiva: Tom Dolby, Dom Genest, Matthew Helderman, Daniella Kahane, Lars Knudsen, David Kyle, Sophie Mas, Melissa Pinsly, Blythe Robertson, Lourenço Sant'Anna, Hugh Schulze, Luke Dylan Taylor, Rodrigo Teixeira, Jay Van Hoy, Franklin S. Zitter. Produção: Lucas Joaquin, Christos V. Konstantakopoulos, Jim Lande, Ira Sachs, L.A. Teodosio. Elenco: Greg Kinnear, Paulina García, Jennifer Ehle, Alfred Molina, Theo Taplitz, Michael Barbieri, Talia Balsam. Estreia: 25/01/16 (Festival de Sundance)

Em 2014, o cineasta Ira Sachs conquistou a crítica com "O amor é estranho", uma agridoce história de amor homossexual na terceira idade, estrelada por John Lithgow e Alfred Molina. Três anos depois, ele volta a falar de pessoas comuns em momentos extraordinários da vida em "Melhores amigos", indicado ao Independent Spirit Award de melhor roteiro e atriz coadjuvante. Ao contrário de seu filme anterior, porém, ele foca seu olhar em outra direção etária, ao examinar, com delicadeza e sensibilidade, o despertar da amizade entre dois pré-adolescentes que se descobrem no meio do fogo cruzado entre suas famílias, surgido por dificuldades financeiras e profissionais. Sem maiores lances dramáticos e com um tom discreto e minimalista, Sachs consegue contar uma história simples e humana centrando-se basicamente em personagens críveis e uma narrativa honesta, que jamais ambiciona ir além do que promete. Com dois promissores atores jovens nos papéis centrais e um elenco coadjuvante generoso, "Melhores amigos" é o tipo de filme capaz de encantar aos espectadores que procuram produções simples e emocionantes.

Tudo começa quando o pai de Brian Jardine (Greg Kinnear) morre e lhe deixa de herança um pequeno prédio no Brooklyn nova-iorquino. Não exatamente bem-sucedido na profissão de ator e vivendo de pequenas produções teatrais que não pagam o sustento da família - o que acaba sendo função da esposa, Kathy (Jennifer Ehle), uma psicoterapeuta tanto compreensiva quanto dedicada - o rapaz se muda para o novo bairro com a mulher e o filho pré-adolescente, Jake (Theo Taplitz), e não demora para se adaptar à nova vida, facilitada também com o apoio de Leonor Calvelli (Paulina García), inquilina do andar de baixo do prédio de seu pai e amiga do falecido. Dona de uma loja de roupas costuradas à mão e de origem latina, Leonor também tem um filho, Tony (Michael Barbieri), que imediatamente se torna amigo de Jake. Os dois jovens tem sonhos em comum - Jake quer ser artista plástico, Tony ambiciona ser ator - e passam a conviver como irmãos. Acontece que a vida adulta nem sempre reflete a inocência da juventude e problemas de dinheiro acabam por intrometer-se na relação entre as duas famílias. Pagando um aluguel irrisório graças à sua amizade com o proprietário, Leonor se vê repentinamente cobrada a pagar um preço muito maior por sua loja - afinal, Brian não apenas precisa de dinheiro como também se vê cobrado por sua irmã, que também tem direito ao valor do aluguel. Vendo tudo do lado de fora, os dois meninos tentam impedir que o conflito os atinja e à sua amizade.


Assim como já havia feito em "O amor é estranho", Ira Sachs utiliza como principal matéria-prima de seu filme o dia-a-dia de pessoas normais, lutando para manter uma vida digna e harmoniosa, mesmo que para isso seja preciso que se faça alguns sacrifícios ou que conflitos se façam inevitáveis. Sem marcar nenhum de seus personagens com definições fáceis ou maniqueístas, o roteiro flui com a delicadeza de uma crônica, valorizado pelos desempenhos ricos em nuances de Greg Kinnear e Paulina García. O primeiro mostra-se um ator cada vez mais engajado no universo do cinema independente - dentro do qual saiu um de seus maiores sucessos de bilheteria e crítica, o merecidamente incensado "Pequena Miss Sunshine" (2006) - e García, aplaudida mundialmente por seu trabalho em "Gloria" (2013), mais uma vez surpreende, com uma atuação rica em pequenos gestos e subtextos. Mesmo que boa parte do foco esteja nos meninos que tentam isentar-se da batalha travada pelos pais, são os adultos que refletem a dura realidade que os cerca e dão o peso necessário à narrativa e à trama, e os atores veteranos conquistam justamente por equilibrar com tanta destreza todos os desvãos da história sem apelar para o sentimentalismo ou a crueza pura e simples.

E, logicamente, é preciso louvar a escalação dos dois jovens atores que interpretam os melhores amigos do título nacional - ou os pequenos homens do batismo original. Se Theo Taplitz encontra o meio-tom ideal para seu Jake (um menino tímido e quase deslocado que encontra na arte e na amizade do novo vizinho um canal para desenvolver-se como adulto), é Michael Barbieri quem se destaca mais, na pele do corajoso e questionador Tony. Sem medo de contracenar com atores mais experientes e encarando de frente o desafio de liderar o elenco de um filme tão centrado em diálogos e cenas de emoções complexas, os dois iniciantes demonstram também uma química que se mostra imprescindível para o desenvolvimento da trama - e que conduz ao final melancólico e realista. Ainda não são grandes intérpretes, mas dão uma boa pista de que, bem dirigidos, podem se tornar nomes respeitados em um futuro breve. Seu primeiro filme, ao menos, aponta para esse caminho. "Melhores amigos" pode não surpreender ou ser inesquecível, mas é honesto e bem-intencionado.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

MULHERES DO SÉCULO XX

MULHERES DO SÉCULO XX (20th Century women, 2016, A24/Annapurna Pictures, 119min) Direção e roteiro: Mike Mills. Fotografia: Sean Porter. Montagem: Leslie Jones. Música: Roger Neill. Figurino: Jennifer Johnson. Direção de arte/cenários: Chris Jones/Aimee Athnos. Produção executiva: Chelsea Barnard. Produção: Anne Carey, Megan Ellison, Youree Henley. Elenco: Annette Bening, Elle Fanning, Greta Gerwig, Billy Crudup, Lucas Jade Zumann, Allison Elliot, Thea Gill. Estreia: 08/10/16 (Festival de Nova York)

Indicado ao Oscar de Roteiro Original

Em uma Hollywood cujas constantes reclamações a respeito da falta de bons papéis femininos acima dos 50 anos, a atriz Anette Bening vem mantendo uma constância interessante em sua carreira: volta e meia surge com uma personagem forte e bem-escrita, que lhe dá a oportunidade de demonstrar todas as nuances de seu talento. Foi assim em "Beleza americana" (1999), "Adorável Julia" (2005), "Minhas mães e meu pai" (2010) e "Correndo com tesouras" (2006) - não por coincidência, os três primeiros lhe deram indicações ao Oscar. Em "Mulheres do século XX" ela voltou a encantar à crítica, mas, apesar de ter sido lembrada pelos eleitores do Golden Globe, foi esnobada pela Academia e ficou de fora da lista das candidatas à estatueta. Melhor sorte teve o roteiro do também diretor Mike Mills, que, com uma protagonista inspirada em sua própria mãe, chegou à reta final da premiação ao lado dos badalados "La La Land: cantando estações" e "Manchester à beira-mar". Com uma prosa poética e recheada de nostalgia, ele mergulha o espectador em uma trama que, a despeito de parecer excessivamente simples, discute com bom-humor e sem exageros, um tema sempre caro e relevante: o feminismo.

Porém, apesar do título e do tema que percorre com maior ou menor destaque toda a sua narrativa, "Mulheres do século XX" é, principalmente, um filme sobre o amor familiar, mesmo que em um núcleo menos ortodoxo. Assim como em "Toda forma de amor" (2011) o cineasta Mike Mills se utiliza da memória afetiva para criar personagens quase inacreditáveis: no filme anterior, Christopher Plummer deu vida (e ganhou um Oscar de coadjuvante por isso) a um homem de 80 anos que, viúvo, resolve assumir a homossexualidade para o filho e viver uma história de amor outonal - um acontecimento baseado na vida de seu próprio pai. Em sua nova obra, é sua mãe quem ressurge, com cores carinhosas e quase melancólicas, na figura de Dorothea, uma mulher forte e estoica que, divorciada, tenta criar o filho adolescente na efervescente cultura da Califórnia do final dos anos 70. Sentindo-se incapaz de lhe transmitir tudo que acredita ser necessário para que sobreviva em um mundo em constante mudança, ela pede socorro a quem lhe parece mais correto: suas duas jovens inquilinas, que irão, então, iniciar o ingênuo Jamie (Lucas Jade Zumann) nas dores e delícias de um universo de liberdade, sexo, drogas e maturidade.


Concentrando-se nas dúvidas de Dorothea em relação à forma de criar o filho em um lar cuja mais constante figura masculina é William (Billy Crudup) - um faz-tudo que faz reparos em sua deteriorada casa e em sua ocasional solidão - o filme de Mills volta seu olhar também para duas fascinantes coadjuvantes femininas que completam o panorama informal sobre a situação da mulher nas décadas finais do século XX. A mais velha, Abbie (Greta Gerwig, ótima), sonha em ser fotógrafa, acaba de passar por uma séria doença e apresenta ao rapaz o mundo da vida noturna de Nova York, com suas bandas de punk rock, atitudes rebeldes e a luta pelos direitos das mulheres. A mais jovem, Julie (Elle Fanning), de apenas 17 anos, está experimentando o sexo, com todas as complicações inerentes a tal período - incluindo o medo de uma gravidez indesejada - e, a despeito de despertar sentimentos fortes em Jamie, não pretende envolver-se romanticamente com ninguém depois de uma série de experiências traumáticas. Cada uma a seu modo, Abbie e Julie serão fundamentais na transição do rapaz para a vida adulta e, ao som de uma caprichada trilha sonora, emolduram uma época de transformações culturais e sociais que ecoariam por muito tempo.

Mike Mills é inteligente em justapor essas duas camadas narrativas - pessoais e históricas - sem que uma atropele a outra e ambas sutilmente se completem. O amadurecimento de Jamie é mostrado com delicadeza e o tom certo de melancolia/nostalgia/bom humor, em um roteiro que privilegia momentos simples e cotidianos ao invés de elaborar grandiosas sequências catárticas. Com uma edição que intercala informações a respeito dos personagens através de imagens de arquivo e uma narração em off que revela ao público alguns de seus dramas e segredos, "Mulheres do século XX" deve muito de seu sucesso junto à crítica à força de seu elenco. Se Annette Bening novamente dá mostras de que é uma das grandes atrizes de sua geração, sempre arrancando o máximo de suas personagens e entregando ao público interpretações sensíveis e realistas, suas coadjuvantes não ficam atrás: Elle Fanning cresce a cada filme, sempre cativando com a intensidade de seus desempenhos, e Greta Gerwig (de "Frances Ha") rouba o filme com sua corajosa Abbie - são dela as melhores cenas e os melhores diálogos, e é difícil não se apaixonar por sua personagem. O único senão do filme é a presença quase apática do protagonista masculino, o iniciante Lucas Jade Zumann, que não chega a comprometer o resultado final, mas impede o filme de atingir todo o seu potencial. Um pequeno senão em um filme simpático, agradável e antenado com seu tempo, que reitera o talento de seu diretor em transformar memórias afetivas em pequenos e delicados filmes.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

QUASE 18

QUASE 18 (The edge of seventeen, 2016, Gracie Films/STC Entertainment, 104min) Direção e roteiro: Kelly Fremon Craig. Fotografia: Doug Emmett. Montagem: Tracey Wadmore-Smith. Música: Atli Orvarsson. Figurino: Carla Hetland. Direção de arte/cenários: William Arnold/Ide Foyle. Produção executiva: Oren Aviv, Pete Corral, Brendan Ferguson, Adam Fogelson, Cathy Schulman, Robert Simonds, Donald Tang, Lisa Walder, Zhongjun Wang, Zhonglei Wang, Jerry Ye. Produção: Julie Ansell, James L. Brooks, Kelly Fremon Craig. Elenco: Hailee Steinfeld, Woody Harrelson, Haley Lu Richardson, Kyra Sedgwick, Blake Jenner, Hayden Szeto. Estreia: 16/9/16 (Festival de Toronto)

Se tivesse sido lançada nos anos 80, a comédia adolescente "Quase 18" poderia facilmente ser confundida com uma produção de John Hughes, e sua protagonista interpretada por Molly Ringwald. Ícones do gênero em sua época graças a filmes como "Clube dos cinco", "A garota de rosa-shocking" e "Gatinhas e gatões", Hughes e Ringwald conquistaram legiões de fãs por terem conseguido o quase impossível: falar com uma plateia jovem e ávida por representatividade em um período repleto de heróis de ação brutamontes e efeitos visuais espetaculares. Com roteiros simples e diretos, que dialogavam sem frescura com seu público-alvo, seus filmes atravessaram gerações e tornaram-se tanto documentos de um momento específico no tempo quanto fontes de referência inesgotáveis. Foi assim que Will Gluck utilizou-se de seus elementos primordiais para criar o delicioso "A mentira" (2010) e é assim que a jovem Kelly Fremon Craig chegou a encantar a crítica e o público com sua estreia na direção: "Quase 18" tem John Hughes em seu DNA, e mantém o frescor e a inteligência de seus melhores trabalhos - além de contar com uma inspiradíssima Hailee Steinfeld no papel central.

Nadine, a atormentada protagonista de "Quase 18", parece ter sido escrito especialmente para Steinfeld, tamanha a sintonia entre personagem e atriz. Indicada ao Oscar de coadjuvante já em seu primeiro papel no cinema, no western "Bravura indômita", de 2010, a jovem Steinfeld demonstra no filme de Fremon Craig que seu talento vai muito além de sorte de principiante: carismática e expressiva, ela explora todas as nuances que o papel exige, a ponto de oferecer um lado humano e simpático até mesmo a suas atitudes mais egoístas e pouco razoáveis. Com um roteiro realista e sem condescendências escrito pela própria diretora, o filme foge das armadilhas de menosprezar os problemas de sua protagonista, fazendo com que o público consiga compreender o tamanho de cada um deles através de sua perspectiva - talvez exagerada, mas de acordo com sua idade e sua visão de mundo. Justamente por não fazer de Nadine uma adolescente exemplar e repleta de virtudes, mas sim uma pessoa mais próxima da realidade, o filme conquista, diverte e faz pensar - sem nunca deixar de lado sua aura de divertimento juvenil.


Nadine, a protagonista, é uma adolescente de dezessete anos que nunca sentiu o gostinho de ser a mais popular da escola ou ter muitos amigos. Quieta e desiludida, ela observa o próprio irmão, Darian (Blake Jenner), assumir o posto de preferido da mãe, Mona (Kyra Sedgwick), e destacar-se em todas as atividades a que se propõe, enquanto passa os dias reclamando da sorte ao lado da única amiga, Krista (Haley Lu Richardson). O que já era ruim torna-se ainda pior quando Krista resolve se apaixonar por Darian, deixando Nadine furiosa e sentindo-se a mais traída das criaturas. Só quem a entende é um colega nerd, Erwin (Hayden Szeto) - que ela não percebe ser apaixonado por ela - e um paciente professor, Mr. Bruner (Woody Harrelson), em quem ela descarrega toda a sua raiva e agressividade. Tentando sobreviver à adolescência, a menina ainda precisa lidar com a paixão que sente por um dos rapazes mais populares da escola, que mal sabe de sua existência, e a saudade do pai, que morreu quando ela ainda era uma criança.

Sem jamais cair na caricatura ou qualquer tipo de excesso, Hailee Steinfeld concorreu ao Globo de Ouro de melhor atriz em comédia ou musical, mas perdeu para Emma Stone, favorita absoluta por seu desempenho em "La La Land: cantando estações". Sua lembrança entre os indicados mostra, no entanto, que é difícil resistir a seu encanto juvenil e sua sinceridade contagiante. Logo na primeira cena, quando entra na sala do professor avisando que irá cometer suicídio, Nadine conquista a plateia com seu jeito exagerado e dramático de encarar a vida e as situações pelas quais passa, e durante os próximos 100 minutos, o público se deixa docilmente conduzir por seu universo de desespero e angústia - tudo mostrado com o bom-humor e o respeito que se poderia esperar de uma discípula de John Hughes como é o caso da diretora/roteirista. Sucesso moderado de bilheteria (rendeu o dobro do orçamento de 9 milhões de dólares, mas não chegou a causar barulho nas caixas registradoras da produtora), "Quase 18" é um filme pequeno, que nada contra a maré de superproduções caras e megalomaníacas e pode encontrar sua audiência em quem procura entretenimento menos ambiciosos. Merece ser descoberto como um legítimo representante de um gênero sempre querido e inteligente.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

FOME DE VIVER

FOME DE VIVER (The hunger, 1983, MGM, 97min) Direção: Tony Scott. Roteiro: Ivan Davis, Michael Thomas, romance de Whitley Strieber. Fotografia: Stephen Golblatt. Montagem: Pamela Power. Música: Denny Jaeger, Michel Rubini. Figurino: Milena Canonero. Direção de arte/cenários: Brian Morris/Ann Mollo. Produção: Richard A. Sheperd. Elenco: Catherine Deneuve, David Bowie, Susan Sarandon, Dan Hedaya, Beth Ehlers, Cliff De Young. Estreia: 29/4/83

Se existe um filme que já nasceu com a vocação de tornar-se cult, esse filme é "Fome de viver". Lançada dois anos depois da publicação do romance que lhe deu origem, escrito por Whitley Strieber, a produção dirigida pelo inglês Tony Scott - irmão de Ridley, recém saído da fria recepção a outro que logo se transformaria em objeto de culto, "Blade Runner: o caçador de androides" (82) - reunia logo em sua receita três ingredientes infalíveis para chamar a atenção do público dos ainda novos anos 80: o tema do vampirismo (jamais mencionado claramente, mas ainda assim bastante óbvio visualmente), a estética típica da geração MTV (ambientes enfumaçados, fotografia caprichada, edição ágil) e o elenco que juntava a europeia beleza glacial de Catherine Deneuve e a aura misteriosa e galante do roqueiro David Bowie (além da presença da então pouco conhecida, mas já bastante sensual Susan Sarandon). Longe de conquistar a unanimidade da crítica, incomodada justamente por seu cuidado extremo com o visual em detrimento da história, "Fome de viver" encontrou respaldo, porém, junto à uma parte da plateia que deixou-se seduzir pelo fascinante tom gótico do filme e o adotou calorosamente.

Sem precisar utilizar a palavra "vampiro" uma única vez durante todo o filme, Tony Scott acabou por conceber visualmente uma das mais perenes e impressionantes traduções de um tema clássico. Com escolhas certeiras - como a canção "Bela Lugosi's dead", da banda inglesa Bauhaus como ilustração da instigante sequência inicial - e uma atmosfera ao mesmo tempo sombria e erótica, o cineasta construiu um universo repleto de simbolismos a respeito de vida, morte, longevidade e sexo, iluminado pela fotografia deslumbrante de Stephen Goldblatt, de uma elegância que reflete o tom de extrema sutileza proposto pela trama criada por Strieber e roteirizada por Michael Thomas, que transfere para a Nova York do final do século XX o mundo fascinante e intrigante dos mortos-vivos sem apelar para a violência excessiva e utilizando os clichês do gênero de maneira criativa e moderna. Inserindo elementos contemporâneos à narrativa - uma das protagonistas é uma médica em busca da cura para a progeria, uma doença que causa o envelhecimento precoce - e apostando na sutileza em detrimento do horror explícito, Scott conseguiu o que parecia impossível: atualizar uma mitologia secular sem cair no ridículo ou no grotesco e ainda cativar uma nova geração de fãs.


Linda, sedutora e esbanjando elegância, Catherine Deneuve surge em cena como Miriam Blaylock, uma misteriosa mulher que se aproxima da dra. Sarah Roberts (Susan Sarandon) em uma sessão de autógrafos. Sua intenção é ajudar o marido, o músico John Baylock (David Bowie), que está sofrendo de uma condição que causa envelhecimento muito mais acelerado do que o normal - a ponto de tornar-se um senhor de mais de oitenta anos em poucas horas. Dedicada ao estudo clínico de uma possível cura para a doença do marido da bela estranha, Sarah nem de longe desconfia da verdade a respeito do bizarro casal: Miriam é uma centenária vampira egípcia que subsiste do sangue de seus amantes, a quem troca periodicamente, justamente quando eles começam a envelhecer. Seu relacionamento com John, que já dura mais de duzentos anos, está chegando ao destino final de todos os anteriores, e uma atração irresistível surge entre ela e a jovem médica, que sucumbe à tentação mesmo correndo o risco de tornar-se apenas mais uma amante/fonte de sangue da fria e estonteante Miriam. Enquanto isso, John tenta desesperadamente manter-se vivo e ao lado da mulher que ama - mesmo que para isso precise apelar para seus sensos mais primitivos e crueis, o que significa apelar para a concessão a seus instintos mortais.

Quem esperar um filme de terror convencional, ou até mesmo um conto vampiresco na acepção mais tradicional do termo pode até se decepcionar com "Fome de viver", uma vez que o filme de Tony Scott se afasta dos clichês mais óbvios do gênero - ao mesmo em que os abraça e os apresenta sob uma nova perspectiva narrativa. Em seu filme, não há um heroi em busca de redenção ou uma heroína em apuros sendo ameaçada por criaturas da noite com objetivos pura e simplesmente malévolos: seus protagonistas são os próprios vampiros, em conflito com sua realidade predadora ao mesmo tempo em que aproveitam os benefícios da juventude eterna (ou ao menos no caso dos amantes de Miriam, bem mais estendida do que o normal). Para ilustrar essa sensação de prazer constante ameaçado por um certo tédio blasé, a fotografia, a direção de arte e todos os elementos de cena (fumaça, pombos, cortinas esvoaçantes) são usados e abusados, para deleite de uns e desprezo de outros. A estética videoclipe, que encontrou na década de 80 um terreno fértil e hospitaleiro, é ingrediente crucial na receita do diretor, que mergulha sem medo na possível breguice de tal opção para imprimir uma marca registrada à história. Deu certo, mas só até determinado ponto: "Fome de viver" é, sem dúvida, um filme marcante por sua beleza, mas tropeça em um roteiro por vezes excessivamente frio e distante, que mais oferece perguntas do que respostas e que não desenvolve a contento todas as nuances de seus protagonistas, interpretados por um ícone do rock, uma diva europeia e uma grande atriz em começo de carreira. É uma mistura incendiária e interessante, que tanto pode encantar quanto aborrecer. É só tomar partido - e se deliciar com alguns dos momentos mais intensos da carreira de Scott - que depois embarcou no cinema de ação sem cérebro até suicidar-se em 2012, um trágico e irônico final para quem começou a carreira na sétima arte falando de vida eterna e escuridão.