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segunda-feira

A GAROTA DINAMARQUESA


A GAROTA DINAMARQUESA (The Danish girl, 2015, Working Title Films/Focus Features, 119min) Direção: Tom Hooper. Roteiro: Lucinda Coxon, livro de David Ebershoff. Fotografia: Danny Cohen. Montagem: Melanie Ann Oliver. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Paco Delgado. Direção de arte/cenários: Eve Stewart/Michael Standish, Thierry Van Cappelen. Produção executiva: Liza Chasin, Ulf Israel, Kathy Morgan, Linda Reisman. Produção: Tim Bevan, Anne Harrison, Tom Hooper, Gail Mutrux. Elenco: Eddie Redmayne, Alicia Vikander, Ben Whishaw, Mathias Schonaerts, Amber Head. Estreia: 05/9/15 (Festival de Veneza)


4 indicações ao Oscar: Ator (Eddie Redmayne), Atriz Coadjuvante (Alicia Vikander), Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Alicia Vikander) 

Praticamente um século antes que discussões a respeito de gênero se tornassem corriqueiras - e que a palavra "transsexual" passasse a fazer parte do vocabulário comum, um artista de Copenhague ousou desafiar as regras e buscar sua realização pessoal mesmo diante de uma sociedade para quem qualquer diferença era o mesmo que um crime. Mesmo não tendo sido a primeira pessoa transgênero da história - e tampouco a primeira a passar por uma cirurgia -, Einar Wegener foi um dos pioneiros na questão e inspirou o livro "The danish girl", de David Ebershoff, que contou, de forma ficcionalizada, sua trajetória rumo à transformação física. Ao alterar elementos cruciais da vida de sua protagonista, o autor contou com mais liberdade criativa - e foi seu livro, mais do que a história real, a inspiração para "A garota dinamarquesa", sua adaptação para o cinema, comandada por Tom Hooper - o mesmo cineasta injustamente premiado com o Oscar por "O discurso do rei" (2010) e que assassinou a versão musical de "Os miseráveis" (2012), que premiou Anne Hathaway como a melhor atriz coadjuvante do ano. Seu terceiro filme, porém, para alívio de todos, é bem superior a suas duas obras anteriores - e, em uma prova de que nem sempre a Academia é coerente, seu filme com menos indicações à estatueta dourada: concorreu a quatro, inclusive melhor ator (Eddie Redmayne), mas ficou de fora da lista dos candidatos a melhor filme.

A batalha para transformar "A garota dinamarquesa" em filme começou quando Nicole Kidman, uma atriz de grande prestígio e já bastante respeitada pela crítica e pela indústria, se apaixonou pelo roteiro. Disposta a produzir, estrelar e até dirigir o filme caso fosse necessário, Kidman pensava em viver a protagonista, com alguma outra grande estrela no papel de Gerda, a esposa de Einar - que, na versão romantizada da história, ficava a seu lado incondicionalmente. Durante o tempo em que o projeto esteve nas mãos de Kidman, atrizes de primeira linha se revezavam ao lado da estrela de "Moulin Rouge: o amor em vermelho" (2001): Charlize Theron, Gwyneth Paltrow, Uma Thurman, Marion Cottilard e Rachel Weisz estiveram, em maior ou menor grau, comprometidas com a produção. As dificuldades, no entanto, fizeram com que Kidman abrisse mão de seus planos, e o roteiro, que Hooper já havia lido em 2008, finalmente encontrou um caminho para as telas quando, em 2012, o cineasta ofereceu o papel principal para Eddie Redmayne, com quem trabalhava em "Os miseráveis". Redmayne, subitamente alçado à condição de astro graças a seu Oscar de melhor ator por seu desempenho como o físico Stephen Hawking em "A teoria de tudo" (2014), assumiu a protagonização do filme ao lado da ascendente Alicia Vikander. Juntos, eles são o corpo e a alma de "A garota dinamarquesa", dois atores cujo trabalho deixam os pequenos defeitos ainda menores.


A trama de "A garota dinamarquesa" se passa na década de 1920 e começa em Copenhagen, onde vive o casal de artistas Einar e Gerda Weigener. Buscando reconhecimento a seu trabalho, frequentam o mundo artístico da cidade enquanto lidam com a frustração de não conseguirem ter um filho. Einar ainda tem um certo sucesso entre os críticos, e, na tentativa de ajudar a esposa com seus retratos, aceita substituir sua modelo e posar para uma tela. Vestido de mulher, o jovem sente que seu espírito é, na verdade, feminino. Assumindo uma nova personalidade chamada Lili, ele conta com o apoio de Gerda para fazer a transição de gênero e buscar auxílio médico para tal, mesmo que tal condição ainda fosse nova até mesmo para a medicina - que em muitos casos julga tratar-se de um problema psicológico.  Nessa trajetória, o casal se muda para a França e conta também com a ajuda de Hans (Mathias Schonaerts), amigo de infância de Einar, e Henrik (Ben Whishaw), que sente uma grande atração por Lili. Parte do universo artístico da Dinamarca, Einar/Lili e Gerda ousam desafiar a sociedade e lutar por sua verdade.

O roteiro de Lucinda Coxon - assim como o livro no qual foi inspirado - alterou substancialmente a verdadeira história de Einar e Gerda, ocultando principalmente a homossexualidade de Gerda, que, segundo consta, preferia o lado feminino do marido e que, depois da anulação do casamento, afastou-se dele e passou a viver em Paris, assumindo sua condição de lésbica. O romance - e consequentemente o roteiro - também inventou os personagens Hans e Henrik, assim como simplificou o tratamento físico de Einar, cujo destino no filme é ligeiramente diferente da história original. Tais liberdades artísticas não prejudicam o resultado final - exceto, é claro, se o espectador esperar uma cinebiografia convencional. Tom Hooper - que deixou para trás outros cineastas de renome, como Neil Labute e Lasse Halstrom - acerta em deixar o trabalho mais árduo para seus atores, e possibilita tanto a Redmayne quanto Vikander (premiada com o Oscar de atriz coadjuvante ainda que seja tão protagonista quanto seu parceiro de cena) apresentarem interpretações sutis e emocionantes. Logicamente houve polêmica na escolha de Redmayne, um ator cisgênero, para o papel central, mas a equipe de produção, como uma espécie de redenção, contou, segundo Hooper, com 40 transgêneros, a maioria como extras. Mas, controvérsias à parte, "A garota dinamarquesa" é um filme que homenageia seu protagonista e sua batalha com um olhar sensível e sério, sem apelar para qualquer tipo de humor ou julgamento. Redmayne está perfeito - ainda melhor do que em "A teoria de tudo" - e Alicia Vikander justifica sua estatueta com uma atuação profundamente comovente. A direção de Hooper não atrapalha - como o fez em seus primeiros filmes - e a reconstituição de época é preciosa, refletindo nos cenários e figurinos (também indicados ao Oscar) tanto o espírito dos personagens quanto seu universo artístico. "A garota dinamarquesa" é um filme importante e, a despeito de sua opção em seguir as regras de Hollywood e deixar a sexualidade de lado, uma produção bastante corajosa.

quarta-feira

O AGENTE DA U.N.C.L.E.

O AGENTE DA U.N.C.L.E. (The man from U.N.C.L.E., 2015, Warner Bros, 116min) Direção: Guy Ritchie. Roteiro: Guy Ritchie, Lionel Wigram, estória de Jeff Kleeman, David Campbell Scott, Guy Ritchie, Lionel Wigram, série de televisão de Sam Rolfe. Fotografia: John Mathieson. Montagem: James Herbert. Música: Daniel Pemberton. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Oliver Scholl/Eli Griff. Produção executiva: David Dobkin, Steven Mnuchin. Produção: Steve Clark-Hall, John Davis, Guy Ritchie, Lionel Wigram. Elenco: Armie Hammer, Henry Cavill, Alicia Vikander, Hugh Grant, Elizabeth Debicki, Sylvester Groth, Jared Harris. Estreia: 02/8/15 (Barcelona)

Quando finalmente a versão para o cinema da série televisiva "O agente da U.N.C.L.E." estreou nos EUA, no verão de 2015, já fazia mais de uma década que seu estúdio, a Warner, vinha tentando aprovar o projeto. Mesmo quando um nome quente como o de Steven Soderbergh esteve vinculado à produção, parecia que tudo colaborava para que o filme não saísse. A desistência de George Clooney, por exemplo (e sua quase substituição pelo bem mais jovem Channing Tatum), foi um dos fatores que afastaram o oscarizado diretor de assinar o contrato - assim como problemas relacionados ao orçamento (de cerca de 75 milhões de dólares) e à escalação de um elenco que funcionasse tanto comercial quanto artisticamente. A entrada de Guy Ritchie no time - um cineasta de personalidade, mas com facilidade em adaptar-se às circunstâncias exigidas pelo mercado - finalmente fez com que as coisas saíssem do lugar. Com o filme pronto (e com a assinatura visual de Ritchie em cada sequência), fica difícil imaginar como seria a visão de Soderbergh da trama - certamente mais cerebral e mais perto de "Onze homens e um segredo" -, mas é fato que, como ficou, "O agente da U.N.C.L.E." é uma divertidíssima e elegante comédia de ação, infelizmente não tão bem-sucedida quanto deveria.

Longe de ter sido um fiasco nas bilheterias, "O agente da U.N.C.L.E." tampouco chegou a ser o estouro que a Warner esperava - rendeu pouco mais de 100 milhões de dólares pelo mundo, decepcionando os executivos que sonhavam com uma nova franquia milionária. O erro, no entanto, está menos no filme - um perfeito exercício de entretenimento descompromissado - do que no fato de que a série, lançada em 1964, é bem menos popular, por exemplo, do que "Missão: impossível" (cujo "Nação secreta" também estreou em 2015, com mais sucesso), e no erro de cálculo de colocar o filme nos cinemas justamente em uma temporada recheada de outras produções que lidavam com espionagem e temas afins. Entre personagens já comprovadamente aceitos pelas plateias - "007 contra Spectre" - e filmes com ambições mais sérias - "O jogo da imitação" e "Sicário" -, o trabalho de Ritchie acabou comprimido entre tantas opções consideradas mais relevantes. Azar de quem perdeu: esteticamente caprichado (da fotografia de John Mathieson até a reconstituição de época criativa e não necessariamente realista), dotado de um ritmo e um senso de humor inteligente e com um elenco perfeitamente escalado, "O agente da U.N.C.L.E." é um produto que consegue aliar a personalidade marcante de seu diretor com as regras estabelecidas pelo cinemão comercial hollywoodiano. Casando com perfeição suas tendências iconoclastas com os clichês dos filmes de ação, Guy Ritchie consegue ser mais bem-sucedido até mesmo do que em seus maiores êxitos financeiros até então - os dois filmes "Sherlock Holmes", estrelados por Robert Downey Jr. e Jude Law.


A ideia de Ritchie de contar a história do começo da U.N.C.L.E. (United Network Command for Law and Enforcement), nunca retratada na série de televisão, é o primeiro acerto do roteiro. No programa da década de 60, agentes da CIA e da KGB já uniam esforços mesmo em plena Guerra Fria, mas nunca foi explicado como essa aliança tão inusitada se formou. A partir daí, Ritchie juntou-se ao coprodutor Lionel Wigram e, assumindo a responsabilidade de dar vida a uma trama que mesclasse a mitologia da série (afinal os fãs seriam parte do público-alvo) e momentos de ação e comédia, explorando o estilo do cineasta e a receita de boa parte dos filmes com ambição ao sucesso. Surgia, então, um intrincado enredo que colocava no mesmo balaio um agente norte-americano, um espião soviético, um cientista capaz de criar uma bomba atômica e sua bela e voluntariosa filha mecânica - claro que uma pitada de romance não poderia faltar, especialmente quando se tenta também atingir um público feminino que há muito não aceita mais ser representado na tela por donzelas desprotegidas. O agente americano, Napoleon Solo (Henry Cavill, o Superman de Zack Snyder em pessoa) é um ex-criminoso cooptado pela CIA para usar seus talentos para o bem da sociedade: ele é enviado à Alemanha Ocidental para encontrar Gaby Teller (Alicia Vikander, antes do Oscar por "A garota dinamarquesa" e em papel oferecido à Emily Blunt), a filha de um cientista com conhecimento suficiente para dar início à confecção de uma bomba nuclear. Segundo a agência, somente Gaby pode levá-los até seu pai, desaparecido mas provavelmente em contato com seu irmão, que vive na Itália. Para colaborar na operação, a KGB oferece os serviços de Illya Kuryakin (Armie Hammer), cuja personalidade volátil e imprevisível contrasta com os modos suaves de Solo. Juntos, os três irão deixar de lado suas diferenças e tentar impedir que o pior aconteça - e empresários ambiciosos consigam financiar uma guerra nuclear.

Com cenas de ação milimetricamente calculadas, piadas engraçadíssimas a respeito das diferenças culturais entre americanos e russos e um visual arrebatador, "O agente da U.N.C.L.E." é uma diversão das mais admiráveis. Mesmo que a trama por vezes escorregue em uma complexidade desnecessária (o que, aliás, deve ser proposital, como forma de homenagear os filmes de James Bond), é impossível desgostar do resultado final. A química entre Cavill e Hammer é irretocável, e Alicia Vikander oferece o charme e a sutileza que o filme precisa. Por ironia, Cavill fez teste para viver Kuryakin, mas dificilmente outro ator estaria mais à vontade como Napoleon Solo do que ele - e olha que muita gente foi considerada para o papel, desde Joseph Gordon-Levitt, Ryan Gosling e Chris Pine até os mais experientes Matt Damon, Michael Fassbender e Ewan McGregor. Já Armie Hammer, aplaudido pela crítica graças a trabalhos mais sérios, como "A rede social" (2010) e "J. Edgar" (2012), demonstra um precioso timing cômico, que abre ainda mais possibilidades em sua carreira abalada pelo tenebroso "O Cavaleiro Solitário" (2013). Juntos, os dois atores formam um par carismático e sedutor, algo como Butch Cassidy e Sundance Kid da Guerra Fria. Quanto à direção de Guy Ritchie, nada a reclamar. Tudo que ele tem de melhor está em cena - o humor, a edição ágil, o ritmo, o talento para direção de atores - e revestido com uma sofisticação nunca vista até então. Uma pena que nem todo mundo valorizou o produto final, que ainda há de ser descoberto como uma pequena pérola de sua época.

PEGANDO FOGO

PEGANDO FOGO (Burnt, 2015, The Weinstein Company, 101min) Direção: John Wells. Roteiro: Steven Knight, estória de Michael Kalesniko. Fotografia: Adriano Goldman. Montagem: Nick Moore. Música: Rob Simonsen. Figurino: Lyn Elizabeth Paolo. Direção de arte/cenários: David Gropman/Tina Jones. Produção executiva: David Glasser, Claire Rudnick Polstein, Gordon Ramsay, Dylan Sellers, Michael Shamberg, Kris Thykier, Harvey Weinstein, Bob Weinstein, Negeen Yazdi. Produção: Stacey Sher, Erwin Stoff, John Wells. Elenco: Bradley Cooper, Siena Miller, Daniel Bruhl, Omar Sy, Uma Thurman, Matthew Rhys, Alicia Vikander, Riccardo Scamarcio, Sam Keeley, Emma Thompson. Estreia: 18/10/15

 Em cinema, definitivamente há males que vem para o bem. Senão vejamos: em 2008, um roteiro escrito por Steven Knight - indicado ao Oscar por "Coisas belas e sujas", de 2004 - chegou às mãos do cineasta David Fincher, um dos mais inventivos e consistentes cineastas de sua geração. A notícia seria ótima se o ator escalado por Fincher para estrelar o projeto não fosse Keanu Reeves, não exatamente um exemplo de talento dramático (e que estava com a carreira em franca decadência). Como as coisas em Hollywood não andam em um ritmo muito ágil, o projeto estagnou e Fincher pulou fora - e Reeves também não foi adiante. Foi somente em 2012 que Bradley Cooper foi anunciado no papel principal - antes que começasse a ser respeitado pela crítica e pela Academia, que lhe indicou por três anos consecutivos ao Oscar -, comandado por Derek Cianfrance. Cianfrance, elogiado pela direção de "Namorados para sempre" (2010), porém, também não durou muito no posto e foi substituído por John Wells, um nome pouco conhecido do grande público mas com anos de experiência no leme de episódios de séries consagradas, como "Plantão médico" e "West Wing" e em vias de lançar "Álbum de família", que colocaria novamente Meryl Streep e Julia Roberts no páreo por uma estatueta dourada. No final das contas, a desistência de Fincher e Cianfrance acabaram por fazer bem ao filme: "Pegando fogo" é uma obra que não se encaixaria em nenhuma das duas filmografias, mas é um ponto de sofisticação e versatilidade na carreira de Wells - e uma prova de que Cooper é realmente bem mais que um simples galã.

Na verdade, Cooper, no auge do carisma, é o ponto alto de "Pegando fogo", não apenas por conseguir a simpatia do público mesmo com um personagem repleto de defeitos, como pelo fato de não se deixar eclipsar por atores de talento comprovado, como Uma Thurman, Emma Thompson e Daniel Bruhl. Completamente à vontade em cena, ele deita e rola na pele de Adam Jones, um chef de cozinha ao mesmo tempo sedutor e arrogante, obcecado pela profissão e por seu objetivo de reconquistar o autorrespeito e a admiração dos colegas - principalmente daqueles com quem tem um relacionamento marcado por desavenças e supostas traições. Na medida certa entre o cinismo e uma escondida autopiedade, ele conquista a plateia justamente por ser tão falível (e por vezes quase desagradável), um desafio do qual seu intérprete consegue se desvencilhar com segurança ímpar. Cooper só não vai ainda mais longe porque o roteiro, mesmo ágil, esperto e sem espaço para lágrimas fáceis, não se aprofunda o bastante para lhe dar um material mais forte. Mesmo assim, Adam Jones e Bradley Cooper formam um par perfeito.


Jones é um chef de cozinha autodestrutivo e prepotente que, depois de praticamente acabar com sua brilhante e ascendente carreira, resolve recomeçar a vida. Deixando para trás seu vício em drogas - e uma dívida com traficantes franceses - ele volta à Londres com o objetivo claro de comandar um restaurante e alcançar as ambicionadas três estrelas Michelin (o santo graal da gastronomia mundial). O restaurante que ele escolhe para ser o palco de sua redenção é comandado por um antigo conhecido, Tony (Daniel Bruhl) - que aceita, a contragosto, ajudá-lo, mais por ser apaixonado por ele e saber de seu talento do que por confiar em sua sobriedade. Adam começa, então, uma jornada para montar o time perfeito, e para isso, reúne dois antigos colegas: Max (o galã italiano Riccardo Scamarcio) - que está saindo da cadeia - e Michel (Omar Sy, do sucesso francês "Intocáveis"), que perdeu tudo o que tinha graças a uma situação armada pelo próprio Adam. A eles juntam-se o jovem David (Sam Keeley) e a promissora Helene (Siena Miller), uma mãe solteira se torna sua maior pedra no sapato dentro da cozinha. Juntos, eles tentarão alcançar a almejada cotação máxima para o restaurante - enquanto o chef briga com seus demônios particulares e a atração que sente por Helene.

Editado com agilidade e elegância, "Pegando fogo" é um filme de visual deslumbrante - todas as cenas em que aparecem os pratos sendo montados e degustados é de dar água na boca - e ritmo agradável. Ao mesmo tempo em que se utiliza da gastronomia como pano de fundo para uma história de reconquista da autoestima, ela é peça fundamental para a narrativa, fornecendo os elementos dramáticos da trama e se mostrando em todo o seu glamour e suas misérias. Buscando o máximo de realismo para as cenas que se passam na cozinha, Wells apresenta sequências apetitosas com outras de grande tensão, que refletem tanto o desafio profissional dos personagens (sempre em constante pressão) quanto o mundo interior do protagonista, a um passo de um ataque de nervos. Bom diretor de atores, Wells comanda o espetáculo com leveza, mas extrai atuações inspiradas de todo o seu elenco - e ainda dá espaço para uma química excelente entre Cooper e Siena Miller, que ficou com um papel para o qual foram cogitadas Michelle Williams e Marion Cottilard. O casal de atores - que já foram um casal também em "Sniper americano" (2014) - valoriza cada momento juntos, e acrescenta um tom romântico a uma história de redenção e amadurecimento. Não é um filme inesquecível, mas é um passatempo acima da média, tornado ainda melhor graças a um elenco impecável e uma direção discreta e eficaz. Um bom entretenimento!

EX-MACHINA: INSTINTO ARTIFICIAL





EX-MACHINA: INSTINTO ARTIFICIAL (Ex Machina, 2014, Universal Pictures International, 108min) Direção e roteiro: Alex Garland. Fotografia: Rob Hardy. Montagem: Mark Day. Música: Geoff Barrow, Ben Salisbury. Figurino: Sammy Sheldon Differ. Direção de arte/cenários: Mark Digby/Michelle Day. Produção executiva: Eli Bush, Tessa Ross, Scott Rudin. Produção: Andrew Macdonald, Allon Reich. Elenco: Domhnall Gleeson, Oscar Isaac, Alicia Vikander, Sonoya Mizuno. Estreia: 16/12/14

2 indicações ao Oscar: Roteiro Original, Efeitos Visuais
Vencedor do Oscar de Efeitos Visuais


A cerimônia do Oscar 2016 não foi exatamente surpreendente, com as esperadas vitórias de Leonardo DiCaprio, Brie Larson e "Spotlight: segredos revelados" nas principais categorias e o arrastão proporcionado por "Mad Max: Estrada da fúria". Mas mesmo assim, a Academia sempre guarda um trunfo para não deixar a noite tão previsível e nessa ocasião o susto, em especial para as grandes produções que concorriam ao prêmio de efeitos visuais, foi imenso: concorrendo contra pesos-pesados como "Star Wars: o despertar da força", "Mad Max" e "O regresso" (todos com orçamentos acima dos 150 milhões de dólares), o pequeno "Ex-machina: instinto artificial", com seu custo irrisório de 15 milhões, levou a estatueta e reafirmou sua posição de Davi contra Golias. Pouco visto nos cinemas americanos (ao menos em comparação com seus oponentes diretos) e lançado sem muito alarde, a estreia do roteirista e escritor Alex Garland como cineasta é uma instigante e curiosa fantasia a respeito do alcance da Ciência em um futuro não muito distante. Usando os efeitos especiais como parte integrante da narrativa e não como um espetáculo à parte, o filme envolve a plateia em um jogo de manipulação que só fará sentido completamente nos minutos finais. Ao não subestimar a inteligência do espectador, Garland criou uma pequena pérola, uma ficção científica que tem apelo até mesmo àquele que torcem o nariz em relação ao gênero.

Tudo começa quando o jovem programador Caleb Smith (Domhnall Gleeson, cada vez mais presente nas telas) é escolhido para passar uma semana na propriedade isolada do misterioso e misantropo Nathan Bateman (Oscar Isaac), dono da empresa de informática onde ele trabalha. Introvertido e quase antissocial, o órfão e solitário Caleb ouve do próprio Nathan - um homem tanto excêntrico quanto genial - o motivo de sua visita: o que o milionário deseja é testar o quão longe foi em suas pesquisas a respeito de inteligência artificial. Para isso, apresenta a seu jovem funcionário à bela Ava (Alicia Vikander), um robô com aparência quase humana e inteligência acima da média. Sendo obrigado a dar um parecer depois de apenas algumas sessões a sós com Ava, o desajeitado Caleb acaba se deixando envolver pelo fascínio de estar diante de uma invenção humana e, aos poucos, começa a questionar as reais intenções de Nathan - sendo impelido por Ava a duvidar da honestidade do programa.


Como um jogo de gato e rato engenhoso e brilhantemente executado, "Ex-machina" é fascinante e hipnotizante: cada detalhe da direção de arte minimalista é crucial para o desenvolvimento da trama e suas inteligentes metáforas visuais. Com uma estética clean, quase desprovida de elementos mais elaborados, Garland cria uma atmosfera de suspense e expectativa que mantém a atenção até o final: as conversas entre Caleb e Ava são um perfeito exemplo da técnica do cineasta novato: ela é a experiência, mas a cada sessão quem mais se percebe preso e confinado é ele. A fotografia de Rob Hardy contribui para o clima opressivo, assim como a trilha sonora quase imperceptível, que enfatiza a solidão dos três protagonistas, cada um afogado em seus próprios dilemas éticos, morais e pessoais - o que inclui até (e principalmente) Ava. Misturando discussões filosóficas a uma trama por si só bastante interessante e questionadora, o roteiro foge do óbvio sempre que parece estar em vias de cair nas armadilhas das produções do gênero, levando o público mais longe do que se poderia supor em seus minutos iniciais. Fazendo uso de seu talento como escritor - é ele o autor do romance "A praia", que deu origem ao filme de Danny Boyle estrelado por Leonardo DiCaprio em 2000 - e merecidamente indicado ao Oscar de roteiro original, Alex Garland brinca com as percepções da plateia, desenvolve com precisão a personalidade de cada um de seus personagens e cria um desfecho poético e quase perturbador.

E se o roteiro e a direção de Alex Garland revelam um cineasta inteligente e sensível, seus atores não poderiam estar melhores. Domhnall Gleeson aos poucos vai traçando um caminho bastante consistente em Hollywood, marcando presença em sucessos de bilheteria e crítica, como "O regresso", "Invencível" - dirigido por Angelina Jolie - e "Anna Karenina" - a versão estrelada por Keira Knightley e Jude Law: seu estilo suave de interpretação cabe como uma luva em Caleb, um jovem desconfortável na própria pele e que se apaixona por uma inteligência artificial. Oscar Isaac - que Madonna praticamente revelou em "W/E: o romance do século" (2011) e depois seguiu um caminho de grande personalidade artística - constrói um Nathan Bateman exótico em seu brilhantismo, isolado e quase paranoico como a maioria dos gênios. E Alicia Vikander - às vésperas de levar um Oscar de coadjuvante por "A garota dinamarquesa" (2015) - seduz a plateia sem dificuldade, em uma atuação que mescla com maestria trejeitos robóticos e humanos e se revela, em seu final, o trabalho mais impressionante do filme. Uma feliz conjunção de fatores - elenco, direção, roteiro, técnica - e despretensão, "Ex-machina: instinto artificial" é um dos mais admiráveis filmes de sua temporada (e uma das melhores ficções científicas da década).

sexta-feira

A LUZ ENTRE OCEANOS

A LUZ ENTRE OCEANOS (The light between oceans, 2016, Heyday Films/LBO Productions/Dreamworks, 133min) Direção: Derek Cianfrance. Roteiro: Derek Cianfrance, romance de M.L. Stedman. Fotografia: Adam Arkapaw. Montagem: Jim Helton, Ron Patane. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Erin Benach. Direção de arte/cenários: Karen Murphy. Produção executiva: Rosie Alison, Tom Karnowski, Jonathan King, Jeff Skoll. Produção: Jeffrey Clifford, David Heyman. Elenco: Michael Fassbender, Alicia Vikander, Rachel Weisz, Florence Clery, Jack Thompson, Thomas Unger, Bryan Brown, Anthony Hayes. Estreia: 01/9/16 (Festival de Veneza)

Que o cineasta Derek Cianfrance sabe como filmar o desespero humano diante da impotência causada pelo destino não é novidade para quem assistiu a seus dois filmes mais conhecidos, o devastador "Namorados para sempre" (2010) - que deu à Michelle Williams uma merecida indicação ao Oscar - e o surpreendente "O lugar onde tudo termina" (2012) - em que repetiu a parceria bem-sucedida com Ryan Gosling. Porém, ele jamais foi tão longe em esmiuçar o sofrimento alheio quanto em "A luz entre oceanos", sua adaptação do romance homônimo de M.L. Stedman, que estreou no Festival de Veneza de 2016 e que, apesar das inúmeras qualidades, passou em branco pelas cerimônias de premiação da temporada. Com o elenco liderado por dois nomes em alta na indústria - o casal também na vida real Michael Fassbender e Alicia Vikander (ela recém laureada com o Oscar de coadjuvante por "A garota dinamarquesa", de 2015), o filme de Cianfrance é um romance à moda antiga, repleto de reviravoltas melodramáticas e espaço para lágrimas constantes, mas dotado de uma sensibilidade rara que o impede de escorregar no piegas - especialmente graças às interpretações inspiradíssimas de seus atores centrais.

Demonstrando um senso de delicadeza poucas vezes visto em sua carreira de personagens fortes e quase brutais em suas atitudes, Michael Fassbender mostra mais uma vez porque é um dos melhores atores de sua geração, na pele de Tom Sherbourne, um homem tímido e reservado que aceita um emprego temporário para cuidar do farol de uma ilha localizada a quilômetros de distância de uma pequena cidade litorânea da Austrália, no início do século XX. Veterano da I Guerra Mundial, Tom vê na solidão da ilha um alento para sua personalidade introspectiva, mas quando ele conhece a jovem Isabel (Alicia Vikander), filha do homem que lhe ofereceu o emprego, não consegue evitar de sentir-se atraído por ela. Quando o trabalho se transforma de temporário em efetivo, ele a pede em casamento e os dois vão viver seu romance emoldurados pela belíssima costa australiana, tendo contato com o restante da civilização apenas quatro vezes por ano. A romântica história de amor entre os dois, porém, sofre um forte abalo quando Isabel perde o bebê que esperava já no final da gravidez. Algum tempo depois, novamente esperando um filho, ela sofre novo aborto espontâneo e entra em uma severa depressão. Sem saber o que fazer para ajudar a esposa, Tom acaba se deixando envolver pelas circunstâncias quando, pouco depois, encontra um bote à deriva, com um homem morto e um bebê vivo. Convencido pela mulher a assumir a criança como se fosse sua, Tom se permite manter a mentira para poupar Isabel de mais tristezas, mas quando eles retornam à cidade para o batizado, uma surpresa começa a martelar-lhe a consciência: ele encontra Hannah Roennfeldt (Rachel Weisz), a verdadeira mãe de sua filha.


A partir daí, "A luz entre oceanos" oscila entre um dramalhão romanesco sobre a culpa de Tom e suas tentativas de reparar seu erro, a busca de Hannah - filha de pai influente e com uma cota respeitável de dramas pessoais a resolver - pelo remetente de cartas anônimas falando de sua filha e os problemas de relacionamento entre o rapaz e Isabel, incapaz de lidar sequer com a possibilidade de perder novamente a criança que ama. Cianfrance, também autor do roteiro, mantém as três linhas narrativas sem perder o fio da meada, oferecendo ao público e aos atores personagens críveis e multidimensionais, repletos de qualidades heroicas e defeitos reprováveis. Tom, do alto de sua hombridade, luta para fazer o que é certo mesmo sabendo que isso pode destruir seu casamento e a mulher que ama - e que a honestidade, nesse caso, pode lhe levar à cadeia. Essa complexidade é tirada de letra por Michael Fassbender, um estupendo ator, capaz de injetar humanidade e verdade em cada papel. Alicia Vikander está no tom certo, mesmo que sua personagem pouco faça além de chorar e sofrer como uma heroína de folhetim. E Rachel Weisz, do momento em que entra em cena até suas sequências finais, segura com firmeza uma antagonista também provida de razões, ainda que possa ser vista com antipatia devido às ações que toma para recuperar sua filha. Centrado nesse trio de personagens fortes e em uma história emocionante, o filme consegue evitar a emoção fácil, equilibrando-se com maestria em um tom mais europeu de cinema, enfatizando os dramas com a trilha sonora impecável de Alexandre Desplat e o ritmo cadenciado como as marés.

Com valores de produção deslumbrantes, como a fotografia arrasadora de Adam Arkapaw e uma reconstituição de época eficiente e cuidadosa, "A luz entre oceanos" é basicamente um filme de personagens e seus dramas. Ciente de tais características - que se encaixam em sua maneira de fazer cinema - Derek Cianfrance as enfatiza de forma a hipnotizar a plateia com interpretações emotivas mas jamais exageradas. Tudo em seu filme é convincente, desde o amor nascente entre Tom e Isabel até seu final melancólico e realista - passando por todas as fases de seu trágico relacionamento - e isso se deve principalmente à química entre seus atores e à segurança que imprime em cada cena. Um diretor que acredita em atores e em sua capacidade de segurar uma história, ele transforma o que poderia ser um melodrama insustentável em uma bela e devastadora trama de amor e culpa. Um dos filmes subestimados da temporada 2016, que merece ser descoberto e louvado por suas inúmeras qualidades.

sábado

O QUINTO PODER

O QUINTO PODER (The fifth state, 2013, DreamWorks SKG/Reliance Entertainment, 128min) Direção: Bill Condon. Roteiro: Josh Singer, livros "Inside WikiLeaks: my time with Julian Assange at the world's most dangerous website", de Daniel Domscheit-Berg e "WikiLeaks: inside Julian Assange's war on secrecy", de David Leigh, Luke Harding. Fotografia: Tobias Schliesser. Montagem: Virginia Katz. Música: Carter Burwell. Figurino: Shay Cunliffe. Direção de arte/cenários: Mark Tildesley/Veronique Melery. Produção executiva: Paul Green, Jonathan King, Jim Shamoon, Richard Sharkey, Jeff Skoll. Produção: Steve Golin, Michael Sugar. Elenco: Benedict Cumberbatch, Daniel Bruhl, Alicia Vikander, Laura Linney, David Thewlis, Stanley Tucci, Alexander Beyer, Dan Stevens. Estreia: 05/9/(Festival de Toronto)

A história real de Julian Assange e a criação do WikiLeaks - um site que revelava ao público documentos confidenciais de governos do mundo inteiro e que por consequência ganhou o status de ameaça internacional - tem todos os elementos dos melhores thrillers políticos, na melhor tradição de "Todos os homens do presidente" e "A trama", sintomaticamente dirigidos pelo mesmo Alan J. Pakula. Porém, assim que o projeto foi anunciado, um problema (previsível mas mesmo assim preocupante) surgiu no horizonte dos produtores: como contar ao espectador uma história cujo final ainda não aconteceu - e mais importante ainda, é passível de ter novos capítulos pelos próximos anos? Somado a essa dúvida cruel - mais ou menos resolvida com a decisão de adaptar dois livros escritos sobre o assunto (um deles pelo assessor mais próximo de Assange, que tornou-se desafeto) - veio ainda, antes do começo das filmagens, outras pedras no caminho. Um roteiro ainda não oficial caiu nas mãos de Assange (nenhuma surpresa, uma vez que ele tinha acesso até mesmo a telegramas da CIA) e o próprio começou uma campanha contra o filme, chamando-o de "mentiroso e tendencioso" e escrevendo um e-mail ao ator Benedict Cumberbatch implorando para que ele não aceitasse o papel central. Tal súplica não funcionou: não apenas Cumberbatch aceitou protagonizar "O quinto poder" - substituindo a escolha inicial, Jeremy Renner - como o filme estreou no Festival de Toronto de 2013 cercado de expectativas. Para alegria de Assange, no entanto, a obra de Bill Condon não entusiasmou muita gente - a crítica se dividiu e o público praticamente ignorou.

Tal indiferença em relação a "O quinto poder" não deixa de ser injusta, porém. Mesmo que esteja longe de ser um "A rede social" - brilhante filme de David Fincher sobre Mark Zuckerberg e a fundação do Facebook - o trabalho de Condon é visualmente criativo, quase didático em sua forma de explicar a forma com que o WikiLeaks funcionava e conta com um elenco excelente defendendo personagens dúbios e longe do tradicional maniqueísmo de Hollywood. Talvez essa opção do roteiro de Josh Singer seja sua maior ousadia: ao tirar do público a chance de torcer por um herói bem definido - Assange tem sérios problemas éticos e nem mesmo seu homem de confiança pode ser considerado um exemplo de conduta, mesmo quando se revolta contra os métodos pouco louváveis do colega - Singer entra no perigoso território dos filmes que propõem à audiência o pacto poucas vezes aceito de ser conquistado por uma história sem certo ou errado. É corajoso, mas não funciona em todos os momentos, principalmente porque o protagonista não apenas carece de limites morais bem definidos: ele sofre de uma crucial falta de carisma.


Não que Benedict Cumberbatch não seja um ator carismático, pelo contrário. Mas exatamente por seu enorme talento em transformar-se nos personagens que interpreta, ele desaparece debaixo dos cabelos brancos de Assange e de sua paranoia (muitas vezes justificável), deixando ao público a dura tarefa de compreender seus atos e sua arrogância diante dos inimigos - que vão se acumulando perigosamente conforme ele avança em seu objetivo de escancarar aos leitores todas as mazelas governamentais do mundo (literalmente). Solitário como somente os paranoicos conseguem e petulantes como apenas os gênios sabem, Assange tornou-se, do dia para a noite, em inimigo público número 1 do poder, especialmente ao bater de frente contra ditaduras sanguinárias e expor as reais intenções do governo americano em relação à guerra no Afeganistão. Unindo-se a expoentes da mídia internacional, ele acabou por - segundo o roteiro, é bom sempre lembrar - entrar em rota de colisão com a única pessoa em quem confiava cegamente, seu amigo e parceiro de site Daniel Berg (Daniel Bruhl, herdando papel de James McAvoy e entregando uma segunda performance impecável no mesmo ano, depois do Niki Lauda que viveu em "Rush, no limite da emoção"). Recusando-se a ficar ao lado de Assange em uma situação crítica que pode ter resultados sangrentos, Daniel se afasta e passa a ser visto como traidor.

"O quinto poder" é um belo filme. Bill Condon (roteirista de "Chicago" e diretor de "Deuses e monstros" e "Kinsey") é um cineasta cuidadoso, inteligente e criativo - e isso fica óbvio em sequências sensacionais, como aquelas que mostram metaforicamente a destruição do site. Até mesmo as participações pequenas mas essenciais de Laura Linney e Stanley Tucci são precisas, bem dirigidas e elegantes, como sempre acontece nas obras de Condon, e a edição ágil transmite com exatidão o clima de urgência da trama. Típico caso de filme mal-compreendido (ou mal vendido, ou mal divulgado), "O quinto poder" merece uma segunda chance, se não pela história empolgante ao menos pelo elenco espetacular e a condução esperta de Bill Condon. E além do mais, é uma essencial maneira de entender um dos períodos mais cruciais da política internacional do século e uma de suas personalidades mais fascinantes.

sexta-feira

ANNA KARENINA

ANNA KARENINA (Anna Karenina, 2012, Universal Pictures/Focus Features, 129min) Direção: Joe Wright. Roteiro: Tom Stoppard, romance de Leon Tolstoi. Fotografia: Seamus McGarvey. Montagem: Melanie Ann Oliver. Música: Dario Marianelli. Figurino: Jacqueline Durran. Direção de arte/cenários: Sarah Greenwood/Katie Spencer. Produção executiva: Liza Chasin. Produção: Tim Bevan, Eric Fellner, Paul Webster. Elenco: Keira Knightley, Jude Law, Aaron Taylor-Johnson, Matthew Macfadyen, Domnhall Gleeson, Kelly McDonald, Olivia Williams, Alicia Vikander, Susanne Lothar, Emily Watson. Estreia: 07/9/12 (Festival de Toronto)

4 indicações ao Oscar: Fotografia, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Oscar de Figurino

Poucos filmes levaram tão a sério a afirmação de William Shakespeare de que o mundo é um palco quanto a versão do cineasta Joe Wright do clássico russo “Anna Karenina”, publicado por Leon Tolstoi em 1878. Investindo em uma adaptação visualmente estilizada de um dos maiores romances da história da literatura, o diretor que já visitou Jane Austen em “Orgulho e preconceito” e Ian McEwan em “Desejo e reparação” distanciou-se das versões anteriores do livro para criar um espetáculo exuberante e opulento que trata a história de um amor adúltero na Rússia do século XIX como uma peça teatral, onde os personagens tratam de viver papéis pré-estabelecidos de acordo com as regras sociais, reprimindo seus desejos e instintos mais primitivos. Sob a visão de Wright e do roteirista Tom Stoppard – dramaturgo vencedor do Oscar por “Shakespeare apaixonado” – Anna Karenina e seus coadjuvantes são peças de um cruel jogo de aparências emoldurado por uma sociedade mais afeita às convenções do que aos reais sentimentos. Tal visão, sob a fotografia inspirada de Seamus McGarvey e embalada pela trilha sonora de Dario Marianelli, encontra eco na mais deslumbrante transposição da obra de Tolstoi para as telas. Vencedor do Oscar de melhor figurino – merecia também os prêmios de direção de arte, trilha sonora e fotografia – o “Anna Karenina” de 2012 é digno de figurar entre as melhores adaptações cinematográficas já realizadas pelo cinema por várias razões.

Primeiro porque Wright não apenas transportou a história de uma mídia para outra, como aconteceu anteriormente. Ousadamente, ele levou o livro de Tolstoi para as telas com uma escala no teatro, através de um cenário estilizado – brilhantemente executado por Sarah Greenwood e Katie Spencer – onde paredes se movem e salões de baile se transformam em estações ferroviárias, restaurantes, escritórios burocratas e aposentos domésticos, de acordo com a necessidade de cada cena. Como em um espetáculo teatral, Wright brinca com a ludicidade, editando de forma magistral suas sequências como forma de mergulhar sem reservas o espectador em sua trama. Dessa maneira, Karenin (um Jude Law maduro e roubando a cena) rasga uma carta da ex-esposa, a pica em minúsculos pedaços e a joga para cima apenas para imediatamente, tais pedaços transformarem-se em flocos de neve. E Anna (Keira Knightley, a atriz preferida do diretor, aqui em seu terceiro filme juntos) pode sair desesperadamente de sua casa e estar prontamente dentro de um trem, a caminho dos braços de seu amante. A princípio, tal artifício soa estranho ao espectador acostumado com o trivial, mas não demora muito para que ele se deixe seduzir pela beleza estonteante promovida pelo conjunto – coeso e elegante – da obra.
Outro ponto que sublinha as qualidades da adaptação de Stoppard diz respeito à opção em não tentar abraçar a obra inteira de Tolstoi – mais de 600 páginas, afinal de contas – em um único filme. Centrando sua narrativa basicamente no romance adúltero entre Anna e Vronski (Aaron Taylor-Johnson), o dramaturgo corria o risco de ser violentamente rechaçado pelos puristas, que poderiam ver na falta de interesse do roteiro nas elocubrações socialistas do escritor uma maneira de diluir a importância do livro e transformá-lo em um melodrama puro e simples. Stoppard não chega a tanto, mas diminui radicalmente os questionamentos de Liévin (Dohmnall Gleeson) a respeito da desigualdade social que grassava na Rússia imperial, utilizando o personagem quase que apenas como um observador atuante da tragédia que se desenrola à sua frente – enquanto tenta conquistar o amor da bela e ingênua Kit (Alicia Vikander bem antes de sonhar com o Oscar de coadjuvante por “A garota dinamarquesa”). Quem leu o romance sabe bem que as longas páginas gastas pelo escritor para divagar a respeito do dia-a-dia dos camponeses não caberiam em um filme romântico – se é que caberiam em algum outro gênero. Assim, Stoppard acerta em dedicar seu foco ao fatal triângulo amoroso que abalou a sociedade de São Petersburgo no final do século XVIII – ainda que por vezes algumas atitudes dos personagens soem meio abruptas e que Jude Law tenha conseguido fazer de seu Karenin alguém bem mais simpático do que no romance.

Boa parte da simpatia conquistada por Karienin vem do fato de que Law é um ator extremamente superior a Aaron Taylor-Johnson, que vive nas telas o seu rival. Mesmo com seus olhos azuis faiscando ainda mais brilhantes graças à fotografia de McGarvey e o uniforme branco com que seu Vronski desfila pelas telas, Johnson não tem a profundidade e a experiência necessárias para fazer de seu personagem alguém marcante ou forte o suficiente para justificar o amor desesperado de Anna. Bonito ele é, mas lhe falta carisma e sutileza: em muitos momentos o público fica perdido, sem saber de seus reais sentimentos em relação à amante. Enquanto isso, Law deita e rola, puxando para si a protagonização da história, transmitindo uma vasta nuance de sentimentos que acaba fazendo com que o público torça mais por ele do que pelo amante de sua mulher. Já Keira Knightley faz o que pode com uma personagem que tem em sua lista de intérpretes nomes como Greta Garbo e, mais recentemente, Sophie Marceau: limitada, ela até consegue controlar o excesso de caras e bocas que vem marcando sua carreira, mas lhe falta substância dramática para encarar uma das mais complexas e fascinantes personagens femininas da literatura mundial. É de se imaginar o que gente como Natalie Portman e Michelle Williams faria em seu lugar. Mas, dos males o menor, Knightley ao menos consegue ser suportável – coisa de que não foi capaz em “Um método perigoso”, em que quase jogou por terra o belo trabalho de Michael Fassbender como Jung.

A história, como se sabe, pode ser resumida em poucas linhas: na Rússia imperial do século XVIII, Anna (Keira Knightley), a jovem esposa de um influente político moscovita, Karenin (Jude Law), vai a São Petersburgo com a missão de tentar salvar o casamento do irmão, Stiva (Matthew McFadyen, par romântico de Knightley em “Orgulho e preconceito”), que acaba de ter seu romance com uma babá descoberto pela esposa, Dolly (Kelly McDonald). Frequentando a sociedade local, ela acaba por apaixonar-se perdidamente pelo jovem cavaleiro Vronski (Aaron Taylor-Johnson) – pretendente da irmã de sua cunhada, Kit (Alicia Vikander) – e inicia com ele um escandaloso romance extra-conjugal que a torna uma pária social e a joga contra o marido, que a ameaça tirar-lhe a guarda do único filho. Enquanto isso, Kit, sem mais esperanças de casar-se com Vronski, se deixa conquistar por Liév (Domnhall Gleeson), um jovem fazendeiro que não se deixa cativar pelo jogo de aparências das altas rodas russas.
Elegante, charmoso, visualmente deslumbrante e narrado como uma sóbria sinfonia que aos poucos vai se deixando envolver pela tragédia, “Anna Karenina” é um trabalho raro. De extremo cuidado plástico e emocional, é um dos mais fascinantes filmes de 2012 apesar de alguns pequenos pecados. Altamente recomendável para quem gosta de cinema com conteúdo.

O PREÇO DA TRAIÇÃO

  O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...