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quinta-feira

AS CONFISSÕES DE SCHMIDT


AS CONFISSÕES DE SCHMIDT (About Schmidt, 2002, New Line Cinema, 125min) Direção: Alexander Payne. Roteiro: Alexander Payne, Jim Taylor, romance de Louis Begley. Fotografia: James Glennon. Montagem: Kevin Tent. Música: Rolfe Kent. Figurino: Wendy Chuck. Direção de arte/cenários: Jane Ann Stewart/Teresa Visinare. Produção executiva: Bill Badalato, Rachel Horovitz. Produção: Michael Besman, Harry Gittes. Elenco: Jack Nicholson, Hope Davis, Dermot Mulroney, Kathy Bates, June Squibb. Estreia: 22/5/2002 (Festival de Cannes)

2 indicações ao Oscar: Ator (Jack Nicholson), Atriz Coadjuvante (Kathy Bates)

Vencedor de 2 Golden Globes: Ator/Drama (Jack Nicholson), Roteiro 

Quando Jack Nicholson subiu ao palco na cerimônia de entrega dos Golden Globes 2003 para receber sua estatueta não conseguiu esconder certa surpresa: segundo ele, foi inesperado ser eleito o melhor ator dramático do ano por um filme que ele considerava uma comédia. Parte da responsabilidade de tal confusão, na verdade, é do diretor Alexander Payne: assim como acontece em toda a sua filmografia, o cineasta não hesita, em "As confissões de Schmidt", em borrar as fronteiras que separam o riso das lágrimas, criando um adorável híbrido que aproxima, como raramente acontece, o espectador de seus personagens - quase todos críveis e humanos apesar de suas idiossincrasias. É um bálsamo para seus elencos - não à toa seus intérpretes chegam à corrida do Oscar - e um oásis para seu público, exposto a tramas e situações que, corriqueiras ou não, soam refrescantes diante de uma dieta abarrotada de blockbusters com personagens rasos e enredos indigentes. Frequentemente encontrando material na literatura, Payne é, também, um roteirista excepcional, capaz de extrair o melhor de suas fontes originais - ou, em alguns casos, alterá-las para que melhor caibam em seu universo. Baseado no primeiro livro de uma trilogia de Louis Begley, "As confissões de Schmidt" tem mudanças substanciais em sua história - feitas com o objetivo de encaixá-las em um argumento original do diretor e aliviar um pouco a personalidade talvez polêmica em excesso do personagem principal -, mas mantém o tom irônico do autor do romance e permite a Nicholson que exercite uma persona quase rara em sua carreira: um homem comum.

Primeira e única opção de Payne para o papel de Warren Schmidt, um homem confrontado com a solidão e a relação difícil com a filha única, Nicholson apresenta à plateia um lado frágil que lhe permite exercitar a comédia e o drama com iguais medidas. Enquanto o roteiro não se furta a apelar para momentos de humor - a briga com um colchão d'água e um encontro inesperado em uma jacuzzi, por exemplo, são sensacionais - tampouco foge de revelar os sentimentos mais sinceros do personagem em cenas cruciais. À vontade como há muito não conseguia estar, Nicholson encontra em Kathy Bates a parceira ideal para um embate dos mais fascinantes - não por acaso Bates arrebatou uma indicação ao Oscar de coadjuvante e protagoniza uma das cenas mais memoráveis do filme (aquela que conta com a jacuzzi). Construindo seu Schmidt com detalhes sutis e sem implorar pela empatia do público - pelo contrário, o personagem soa até desagradável em algumas situações -, o ator volta a encantar aos fãs com um desempenho irretocável, em que disfarça até mesmo os tiques que colecionou em sua longa carreira. No fim das contas, apesar de todos os defeitos - e principalmente por causa do carisma de Nicholson - é fácil simpatizar com o protagonista, um homem com quem se pode cruzar em qualquer supermercado.

 

Funcionário dedicado de uma seguradora, Warren Schmidt não sabe exatamente o que fazer com a chegada da aposentadoria. Sua vida tediosa consiste em trabalhar e conviver com a esposa, Helen (June Squibb) - em quem, segundo confessa, não reconhece a mulher com que se casou quase quarenta anos antes. Sua filha, Jeannie (Hope Davis) há muito não mora com os pais e está de casamento marcado com Randall Hertzel (Dermot Mulroney), de quem Warren não tem a melhor opinião. Quando Helen morre subitamente, Schmidt precisa lidar não apenas com a solidão inesperada e com o descaso da filha - ele precisa encontrar um novo motivo para seguir seus dias, algo além da adoção à distância de um pequeno órfão africano, com quem se corresponde com surpreendente sinceridade. Viajando do Nebraska até o Colorado para o casamento de Jeannie, ele vai encontrar no caminho pessoas que vão lhe abrir os olhos em relação a tudo que o cerca - especialmente Roberta (Kathy Bates), a personalíssima mãe de Randall, uma mulher cuja independência chega a assustar seu conservadorismo.

Ignorando os dois últimos livros da trilogia de Louis Begley, Alexander Payne faz de "As confissões de Schmidt" um filme coerente com sua obra, tanto em termos temáticos quanto visuais. Explorando personagens distantes de qualquer glamour e demonstrando por eles um carinho disfarçado de ironia, o cineasta convida o espectador a uma visita à vida de gente comum, com problemas ordinários e nem sempre com soluções perfeitas para eles. O final agridoce sublinha o tom melancólico da narrativa, mas jamais força o público à emoção barata. Seu estilo distante pode soar seco, mas no fundo Payne é um humanista, um autor que consegue enxergar a beleza e a generosidade até mesmo no mais impenitente misantropo. Os fãs de histórias sobre gente como a gente só podem agradecer seus presentes ao cinema.

quarta-feira

BRINCANDO NOS CAMPOS DO SENHOR

 


BRINCANDO NOS CAMPOS DO SENHOR (At play in the fields of the Lord, 1991, The Saul Zaentz Company, 189min) Direção: Hector Babenco. Roteiro: Jean-Claude Carrière, Hector Babenco, Vincent Patrick, romance de Peter Mathiessen. Fotografia: Lauro Escorel. Montagem: William M. Anderson, Armen Minasian. Música: Zbiniew Preisner. Figurino: Aggie Guerard-Rodgers, Rita Murtinho. Direção de arte/cenários: Clovis Bueno/Dagoberto Assis. Produção executiva: David Nichols, Francisco Ramalho Jr.. Produção: Saul Zaentz. Elenco: Tom Berenger, John Lithgow, Daryl Hannah, Aidan Quinn, Tom Waits, Kathy Bates, Stênio Garcia, Nelson Xavier, José Dumont. Estreia: 06/12/91

Desde que foi publicado, em 1965, o romance "Brincando nos campos do Senhor" esteve na mira do cinema. Fascinado com o belo livro de Peter Mathiessen, que discutia temas relevantes e que estariam em voga no final do milênio, como ecologia, tolerância religiosa e racismo, o produtor Saul Zaentz imediatamente pensou em transportá-lo para as telas - mas chegou tarde demais em sua tentativa de adquirir os direitos de adaptação, comprados pela MGM. Persistente, ele viu o projeto nascer e morrer em diversas ocasiões - sob o comando de nomes fortes, como John Huston e Milos Forman e com estrelas do porte de Marlon Brando, Paul Newman e Richard Gere no elenco - sem nunca desistir de seus planos. Foi somente em 1989, porém, que o sonho se tornou realidade: mediante o pagamento de 1,4 milhão de dólares, Zaentz tinha, em mãos, a possibilidade de apresentar ao público de cinema uma história poderosa, intensa e emocionante como só os maiores épicos conseguem ser. Mal poderia imaginar, no entanto, que apesar das imensas qualidades que seu filme viria a ter, ele não conquistaria a audiência da maneira imaginada: com um custo estimado de 36 milhões de dólares e uma renda mundial de pouco mais de 1 milhão, a versão cinematográfica de "Brincando nos campos do Senhor" foi um dos mais retumbantes fracassos da década de 1990 e colocou a carreira do diretor Hector Babenco - vindo do prestígio de "O beijo da mulher-aranha" (1985) e "Ironweed" (1987) - em um hiato do qual só saiu sete anos mais tarde com "Coração iluminado" (1998).

Filmado inteiramente na Amazônia, entre junho e dezembro de 1990, o filme tomou quase dois anos da vida de Babenco antes mesmo do começo das filmagens. Ocupado em escolher locações e escrever o roteiro ao lado do experiente Jean-Claude Carrière - colaborador habitual de Buñuel -, o cineasta argentino/brasileiro ainda teria maus momentos pela frente. Da desistência de Laura Dern - que recusou-se a mergulhar em um rio com águas não exatamente limpas - às reclamações de parte da equipe, trabalhando em situação quase insalubre, a produção enfrentou problemas constantes que em nada ajudavam a amenizar o clima de constante insatisfação. Babenco, tenso e ciente da responsabilidade de comandar um projeto tão ambicioso e arriscado, orquestrava uma sinfonia das mais complicadas, com astros hollywoodianos misturados a atores brasileiros, extras locais e condições climáticas que impediam qualquer planejamento a longo prazo. Diante de tantos percalços, portanto, não apenas é notável que o filme tenha sido lançado, como que tenha resultado em um produto tão bom. A despeito de seu fiasco comercial - talvez explicável pelo teor controverso da trama -, "Brincando nos campos do Senhor" é o melhor filme da carreira do cineasta, e uma das produções mais subestimadas da década de 1990.


Em um breve resumo - que apenas dá as coordenadas para uma trama com desdobramentos complexos e surpreendentes -, o filme de Babenco conta a história de dois casais de missionários evangélicos que chegam à Amazônia com o objetivo de converter os índios locais, depois do violento fracasso de seus predecessores católicos. O líder do grupo é o ambicioso Leslie Huben (John Lithgow), que se preocupa mais em disputar os nativos com os rivais católicos do que exatamente salvar suas almas, e é ele quem recebe a família Quarrier, formada pelo idealista Martin (Aidan Quinn), pela fanática Hazel (Kathy Bates) e pelo pequeno Billy (Niilo Kivirinta) - que não demora a encantar-se com a liberdade dos indígenas, para desespero de sua mãe. O embate entre missionários e nativos deixa claro o choque entre culturas quase irreconciliáveis, especialmente quando fica claro que interesses financeiros estão por trás da chegada dos religiosos, que sem o saber, estão colaborando com empresários dispostos a dizimar tribos inteiras para ter acesso a minerais valiosos. Complicando ainda mais a situação, o piloto americano Lewis Moon (Tom Berenger) resolve se deixar seduzir por suas origens indígenas e se junta a seus ancestrais - o que não o impede de ser irremediavelmente atraído pela bela Andy (Daryl Hannah), esposa de Leslie.

A princípio a longa duração do filme - mais de três horas - pode assustar ao espectador menos paciente. Porém, tão logo as belas imagens de Lauro Escorel surjam na tela, fica claro que uma metragem menor prejudicaria consideravelmente a coerência interna e a solidez da história. Não há nenhuma cena desnecessária no filme de Babenco, e cada sequência empurra a trama em direção ao clímax - triste, chocante, infelizmente realista. Cuidadosamente produzido - seja em termos de composição visual, sonora e de construção de personagens -, o filme envolve justamente por não se deixar seduzir pelos caminhos narrativos mais fáceis. O roteiro, fluido, dá o tempo necessário a cada um de seus vários personagens, deixando claro ao espectador cada motivação e sentimento - o que, em muitos casos no cinemão hollywoodiano, é algo raro. E se em "O beijo da mulher-aranha" a mescla de atores brasileiros e estrangeiros deixava tudo um tanto caótico, o mesmo não se repete aqui: todos os atores estão em excelente momento, especialmente Kathy Bates (dona de alguns dos momentos mais catárticos) e Tom Berenger (cuja atuação é, sem favor, uma das melhores de sua carreira, apesar da opinião contrária do próprio Babenco). As caracterizações - outro ponto sensível em produções do gênero - são fascinantes e verossímeis (responsabilidade de especialistas no assunto), e a opção de colocar a Amazônia como um personagem a mais e não apenas um cenário passivo é um golpe de mestre - talvez pressionado pela própria natureza do local, mas mesmo assim brilhante.

Por fim, não é difícil entender os motivos que levaram "Brincando nos campos do Senhor" ao fracasso comercial. Não apenas o filme de Babenco foi lançado em um período complicado - final do ano, quando os estúdios mostram suas maiores armas para a temporada de premiações - como apresenta um tema bastante indigesto para o público médio frequentador de salas de exibição. É difícil imaginar famílias indo ao cinema assistir a uma produção que bate tão violentamente contra a colonização anglo-saxã e que discute com seriedade assuntos que só viriam a se tornar prementes algum tempo mais tarde. "Brincando" é um filme sério demais, feito com respeito demais para plateias acostumadas a blockbusters - ironia das ironias, o filme de Babenco é uma das maiores inspirações de James Cameron na sua concepção de "Avatar" (2010), o suprassumo do cinemão comercial feito em Hollywood. Que um dia a obra-prima do cineasta seja descoberta e avaliada como merece!

terça-feira

SEGREDOS DO PODER

SEGREDOS DO PODER (Primary colors, 1998, Award Entertainment/BBC Films, 143min) Direção: Mike Nichols. Roteiro: Elaine May, livro de autor anônimo. Fotografia: Michael Ballahaus. Montagem: Arthur Schmidt. Música: Ry Cooder. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Bo Welch/Cheryl Carasik. Produção executiva: Jonathan D. Krane, Neil Machlis. Produção: Mike Nichols. Elenco: John Travolta, Emma Thompson, Billy Bob Thornton, Kathy Bates, Adrian Lester, Larry Hagman, Maura Tierney, Diane Ladd, Paul Guilfoyle, Allison Janney, Rob Reiner. Estreia: 20/3/98

2 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Kathy Bates), Roteiro Adaptado

As semelhanças entre Bill Clinton e o fictício governador sulista Jack Stanton, personagem central do livro "Primary Colors" - de um autor anônimo que posteriormente revelou-se como Joe Klein, jornalista da revista Time - eram tão notórias e óbvias que, dizem as más línguas, Tom Hanks declinou do convite feito pelo cineasta Mike Nichols de interpretá-lo na sua versão para as telas por ser amigo do então presidente. Os temores de Hanks, porém, se mostraram infundados depois do lançamento do filme: não só Clinton tornou-se fã do resultado final como o retrato do protagonista é bem menos negativo do que se poderia imaginar quando se trata de um filme que vasculha os bastidores - quase sempre abarrotado de lama e cinismo - de uma campanha eleitoral. Talvez devido ao roteiro banhado em sarcasmo da ótima Elaine May e talvez pela direção firme do experiente Nichols, "Segredos do poder" escapa do ranço panfletário frequentemente aborrecido do gênero e revela à plateia um jogo de interesses, mentiras, ataques e contra-ataques empolgante, com direito a um elenco impecável e uma produção sofisticada que se dá ao luxo de ter entre seus atores duas vencedoras do Oscar, Emma Thompson e Kathy Bates - sendo que Bates quase arrebatou uma segunda estatueta por seu desempenho como Libby Holden, valente colaboradora de Stanton em seu caminho rumo à Casa Branca.

Como normalmente ocorre em tramas semelhantes, toda a ação chega ao espectador através dos olhos do ingênuo e idealista Henry Burton (Adrian Lester), neto de uma lenda pela luta pelos direitos civis que enxerga no governador - vivido com gosto por John Travolta - um homem capaz de se comprometer com causas populistas e relevantes e que aceita entrar em sua equipe de campanha. No decorrer do processo de conquista de votos, porém, Burton começa a notar detalhes nada dignificantes a respeito de seu novo chefe, como sua tendência ao adultério - sempre relevado tristemente por sua ambiciosa esposa, Susan (Emma Thompson, perfeita com sotaque americano) - e a confusões inerentes a esse traço de sua personalidade, como testes de paternidade e chantagens feitas por amantes ocasionais. O carisma de Stanton, no entanto, é mais forte do que suas escapadas sexuais, e o rapaz - cobrado por seus antigos companheiros de ativismo - vai se deixando levar pelo fascinante jogo que se desdobra à sua frente. As coisas ficam complicadas mesmo quando o principal rival de Stanton sofre um ataque cardíaco quase fatal e é substituído na campanha por outro carismático político, Fred Picker (Larry Hagman, o eterno J.R. da série "Dallas"), que retorna aos palanques anos depois de ter-se retirado da vida pública e se transforma em uma séria ameaça aos planos do galante governador.


Veterano em arrancar interpretações excepcionais dos atores com quem trabalha, Mike Nichols não faz diferente em "Segredos do poder": um dos maiores destaques do filme é o elenco, recheado de astros reconhecidos do grande público vivendo personagens que fogem do maniqueísmo habitual do cinemão hollywoodiano e portanto, são um desafio considerável a quem deseja conquistar uma plateia mal-acostumada com os simplismos rotineiros. John Travolta, por exemplo, apesar de não deixar de ser ele mesmo em nenhum momento, constroi um Jack Stanton encantador, mesmo que a audiência saiba de suas canalhices e suas demagogias. Emma Thompson brilha em uma Hilary Clinton mais pobre, uma mulher forte e determinada capaz de passar por cima do próprio orgulho por uma causa que considera mais importante: a vitória nas urnas. E Kathy Bates quase rouba a cena como Libby Holden, uma idealista e honesta partidária que vê seus princípios postos em xeque quando fica frente a frente com a verdade nua e crua dos bastidores sujos de seu meio - sua personagem certamente é a mais forte da história, oferecendo ao desfecho um senso ético e mordaz que transforma a fábula roteirizada por Elaine May - uma humorista experiente que preenche de sarcasmo e humor fino um drama que seria cômico se não fosse trágico.

Longe de ser um drama didático e aborrecido sobre os meandros da política norte-americana, "Segredos do poder" é um filme sobre a hipocrisia generalizada, sobre a podridão escondida nos bastidores do poder, sobre ideologias sendo esmagadas pelas circunstâncias. Em 2011, George Clooney lançou um filme ainda mais contundente sobre o assunto, "Tudo pelo poder", estrelado por ele mesmo e Ryan Gosling, mas este pequeno tratado de Mike Nichols ainda se mantém como uma das mais interessantes obras a respeito do pantanoso mundo político.

sábado

ECLIPSE TOTAL

ECLIPSE TOTAL (Dolores Claiborne, 1995, Warner Bros, 132min ) Direção: Taylor Hackford. Roteiro: Tony Gilroy, romance de Stephen King. Fotografia: Gabriel Beristain. Montagem: Mark Warner. Música: Danny Elfman. Figurino: Shay Cunliffe. Direção de arte/cenários: Bruno Rubeo/Steve Shewchuck. Produção: Taylor Hackford, Charles Mulvehill. Elenco: Kathy Bates, Jennifer Jason Leigh, Christopher Plummer, David Straithairn, John C. Reilly, Eric Bogosian, Ellen Muth, Bob Gunton. Estreia: 24/3/95

Em 1990, durante uma visita às filmagens de "Louca obsessão", adaptação de uma obra sua dirigida por Rob Reiner, o escritor Stephen King ficou impressionado com a atriz principal escolhida pelo cineasta, a até então desconhecida Kathy Bates - que em seguida impressionaria também o mundo inteiro e a Academia de Hollywood com seu desempenho irretocável. O tamanho da admiração de King pelo trabalho de Bates ficou claro quando o autor inspirou-se nela para escrever um novo romance, ao qual deu o nome de "Dolores Claiborne" - e cujos direitos foram imediatamente comprados pela Warner por 1,5 milhão de dólares. Com a escolha óbvia de Bates para o papel central, o filme chegou às telas no primeiro trimestre de 1995 sob a direção de Taylor Hackford e, apesar de não ter feito barulho nas bilheterias, é uma produção digna de figurar ao lado de outras grandes adaptações da obra de King que fogem de seu gênero habitual - um panteão rarefeito onde também estão "Conta comigo" (86) e "Um sonho de liberdade" (94). Com um perfeito equilíbrio entre o suspense e o drama familiar, "Eclipse total" - um título nacional surpreendentemente adequado - é uma pequena pérola muitas vezes esquecida pelo público que consome avidamente qualquer produto que leve a assinatura do escritor.

Hackford - ainda pouco conhecido, apesar de "O sol da meia-noite" e "Paixões violentas", dois relativos sucessos de bilheteria e crítica - demonstra total segurança desde a instigante abertura, que mostra a protagonista sendo flagrada em vias de assassinar a idosa milionária de quem vem cuidando há vinte anos. A pequena cidade do Maine onde se passa essa impressionante cena inicial dá lugar, então, à barulhenta e cosmopolita Nova York, onde a jovem jornalista Selena St. George (Jennifer Jason Leigh) - que está tentando convencer seu editor e ex-amante a dar-lhe a chance de cobrir uma grande reportagem - recebe um fax avisando que sua mãe está presa, acusada de assassinato. Logicamente sua mãe é a Dolores Claiborne do título original (interpretada magistralmente por Kathy Bates), e Selena, que não a visita há mais de duas décadas, parte para o interior com o objetivo de ajudá-la. Neurótica e complicada, a jovem encontra em sua mãe uma mulher amargurada e seca que nega terminantemente a culpa pela morte de sua patroa, a irascível Vera Donovan (Judy Parfitt), mesmo depois de ter sido pega em uma situação absolutamente comprometedora.


A relação entre mãe e filha não é das melhores - e tal situação data da misteriosa morte de Joe St. George (David Straithairn), acontecida durante um eclipse do sol há muitos anos. Acusada na época - por Selena e pelo detetive de polícia local, John Mackey (Christopher Plummer) - de ter sido a responsável pela morte do marido (alcólatra, violento e abusivo), Dolores saiu incólume da investigação, mas vê-se novamente sob a lente de Mackey, que ainda não acredita na sua inocência. Enquanto esperam pela data do inquérito, Dolores e Selena são obrigadas, então, a uma convivência forçada que acaba trazendo à tona momentos dolorosos do passado, que acabam por explicar toda a névoa que cobre as duas mortes relacionadas à batalhadora empregada doméstica e os problemas psicológicos de sua jovem e perturbada filha.

Não há dúvidas de que a história de King é intrigante e prende a atenção do início ao fim - e contém personagens fascinantes e bem construídos, melhorados ainda pelo roteiro de Tony Gilroy, que depois se tornaria cineasta - é dele o premiado "Conduta de risco", de 2007. Mas é a direção certeira de Taylor Hackford que faz com que o filme atinja níveis expressivos de qualidade dramática. Elegante e sutil, ele consegue amenizar a violência da trama original sem trair suas origens literárias e, para isso, conta com uma equipe primorosa - que inclui Danny Elfman na trilha sonora - e atores espetaculares. Se Kathy Bates comanda o show com seu arsenal inesgotável de nuances (Dolores consegue ser subserviente, furiosa, triste, misteriosa e seca sempre que o roteiro precisa), seus colegas de cena não ficam a dever. Tudo bem que Jennifer Jason Leigh até escorrega no lugar-comum, com sua Selena está sempre de preto, fumando compulsivamente, mas uma história de Stephen King sem clichê ainda não existe e o restante do elenco compensa lindamente esse pecadilho: David Straithairn cria um Joe St. George asqueroso em suas falhas e crimes, Christopher Plummer explora com sabedoria o caráter obcecado de seu John Mackey e Judy Parfitt... Bem, na pele da patroa/amiga/vítima de Dolores, a atriz dá um banho de interpretação, duelando de igual para igual com Bates, em cenas inesquecíveis.

Menos conhecido do que merece, "Eclipse total" é um belíssimo filme, que comprova a sensibilidade de Stephen King em falar sobre pessoas mesmo quando elas não tem poderes paranormais ou estão acossadas por demônios e alienígenas. Merece ser descoberto por suas várias e fabulosas qualidades.

quinta-feira

LOUCOS DE PAIXÃO

LOUCOS DE PAIXÃO (White palace, 1990, Universal Pictures, 103min) Direção: Luis Mandoki. Roteiro: Ted Tally, Alvin Sargent, romance de Glenn Savan. Fotografia: Lajos Koltai. Montagem: Carol Littleton. Música: George Fenton. Figurino: Lisa Jensen. Direção de arte/cenários: Jeannine C. Oppewall/Lisa Fischer. Produção executiva: Sydney Pollack. Produção: Griffin Dunne, Amy Robinson, Mark Rosenberg. Elenco: Susan Sarandon, James Spacer, Jason Alexander, Kathy Bates, Eilleen Breenan, Maria Pitillo, Jeremy Piven. Estreia: 19/10/90

A trama não é das mais surpreendentes ou criativas: jovem viúvo rico e judeu se apaixona por uma mulher mais velha, experiente e de classe social inferior e o romance entre os dois esbarra nas dificuldades inerentes a esse tipo de relacionamento. Por que, então, "Loucos de paixão", baseado no livro de Glenn Savan, soa tão especial ao público? Será por causa do roteiro enxuto de Ted Tally - que veria seu "O silêncio dos inocentes" sair com um Oscar no ano seguinte? - e Alvin Sargent - veterano vencedor de duas estatuetas, por "Julia" (77) e "Gente como a gente" (80) - que se mantém acima do melodrama barato, circundando-o com uma atmosfera de verossimilhança extremamente bem-vinda?  Ou será sua dupla de atores centrais, Susan Sarandon e James Spader, cujos talentos conseguem fazer poesia até dos diálogos mais banais? Talvez seja a reunião de todos os ingredientes, mas o fato é que o filme de Luis Mandoki é um dos dramas românticos mais interessantes de seu tempo, mesmo que não tenha tido o reconhecimento devido nas cerimônias de premiação.

Susan Sarandon, em vias de tornar-se uma das atrizes mais queridas, requisitadas e premiadas atrizes de sua geração - bônus por seu desempenho excepcional em "Thelma & Louise" (91) - vive Nora Baker, uma garçonete de 43 anos de idade que tem no passado a trágica morte do filho. Uma noite, depois do confronto com um cliente que chega à lanchonete onde ela trabalha reclamando do atendimento, ela o reencontra em um bar, bêbado e pouco disposto a conversa. O rapaz, Max Baron (James Spader em papel que quase ficou com Robert Downey Jr.), tem 27 anos, também tem um histórico de perdas - sua mulher morreu em um acidente de carro há pouco tempo - e acaba indo com ela para sua casa. O choque de gerações, de culturas e até mesmo de modos de viver - ele é inflexivelmente rígido a padrões de higiene, por exemplo, e ela mora em um lugar pouco asseado e sem maiores preocupações quanto a isso - não o impede de dormir com ela, depois de um longo período sabático. Aos poucos, apesar das diferenças, os dois se apaixonam, mas ele não sente-se à vontade em apresentar a simples e desbocada Nora à sua família e seus amigos.


A história de "Loucos de paixão" não tem medo dos clichês, conforme pode-se perceber. No entanto, o roteiro ritmado disfarça a escassez de surpresas, especialmente quando põe em cena seus dois protagonistas. Desde o primeiro diálogo no bar - quando Nora descaradamente flerta com o atônito Max - até o final modificado depois de exibições-teste que não o aprovaram, a forma como Sarandon e Spader dominam seus personagens encanta e seduz o público sem fazer muita força. Sarandon não se intimida com a sexualidade ululante de Nora, se entregando sem pudor a cenas bastante apimentadas e Spader, com seu rosto angelical - que já havia sido explorado a contento por Steven Soderbergh em seu "sexo, mentiras e videotape" (89) - transmite com segurança toda a vastidão emocional que Max precisa esconder por trás de uma vida de aparências e boa educação. O encontro dos dois mundos - regido ainda pela irmã mais velha de Nora, a vidente interpretada por Eileen Breenan - é o melhor do filme, uma história de amor adulta feita para adultos.

"Loucos de paixão" não foi um estouro de bilheteria, nem tampouco é muito lembrado dentro da vitoriosa carreira de Susan Sarandon. Mas é uma bela história, narrada com competência e elegância, dentro de um roteiro enxuto e realista. Em uma época em que muitos filmes preferiam o exagero à discrição, ousou ser minimalista e sutil em suas emoções. Por causa disso, é uma pequena pérola a ser redescoberta.

segunda-feira

DICK TRACY

DICK TRACY (Dick Tracy, 1990, Touchstone Pictures, 105min) Direção: Warren Beatty. Roteiro: Jim Cash, Jack Epps Jr., personagem criado por Chester Gould. Fotografia: Vittorio Storaro. Montagem: Richard Marks. Música: Danny Elfman. Canções: Stephen Sondheim. Figurino: Milena Canonero. Direção de arte/cenários: Richard Sylbert/Rick Simpson. Produção executiva: Art Linson, Floyd Mutrux, Barrie M. Osborne. Produção: Warren Beatty. Elenco: Warren Beatty, Al Pacino, Madonna, Glenne Headley, Charles Durning, Dustin Hoffman, William Forsythe, Mandy Patinkin, James Caan, Charlie Korsmo, Estelle Parsons, Kathy Bates. Estreia: 14/6/90

7 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Al Pacino), Fotografia, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Canção ("Sooner or later"), Maquiagem, Som
Vencedor de 3 Oscar: Canção ("Sooner or later"), Direção de Arte/Cenários, Maquiagem 

Depois que "Batman", dirigido por Tim Burton e estrelado por Michael Keaton e Jack Nicholson tomou o mundo de assalto em 1989, surpreendendo até mesmo as mais altas e megalômanas expectativas da Warner, ninguém duvidava que outros filmes de super-heróis das histórias em quadrinhos surgissem no horizonte, pegando carona no sucesso do homem-morcego. E nem demorou muito até que uma produção caprichada, sob os auspícios da Disney e comandada por um dos mais confiáveis homens da indústria dominasse as atenções: Dick Tracy, o detetive de queixo quadrado criado por Chester Gould em 1931, chegou às telas em pleno verão americano de 1990, dirigido, produzido e estrelado por Warren Beatty, na companhia de nomes de peso, como Al Pacino e Madonna (com quem o astro esteve envolvido durante as filmagens, como era de seu feitio). Com um custo estimado de 46 milhões de dólares, o filme pode não ter repetido o êxito da obra de Burton, mas com uma renda superior a 100 milhões somente no mercado doméstico (EUA e Canadá), não decepcionou nem o estúdio - que queria encher os bolsos - nem o público - que buscava entretenimento puro e simples.

A bem da verdade, apesar de seu roteiro frouxo - que mistura vários vilões criados por Gould em uma única trama - "Dick Tracy" pode ser considerado um passo à frente do Batman de Burton, que só conseguiria equilíbrio entre visão pessoal e comercial com sua sequência, "Batman, o retorno" (92). A começar por sua estupenda direção de arte (merecidamente premiada com o Oscar), a visão de Beatty dos quadrinhos de Gold se aproxima genialmente do original, anos antes que "Sin City, a cidade do pecado" (05) tornasse tão tênue a fronteira entre o cinema e os comic books. Colorido ao ponto de quase ferir os olhos, fotografado com precisão pelo veterano Vittorio Storaro (que também chegou a concorrer à estatueta da Academia) e com uma galeria de tipos recriados com um preciosismo fascinante pela maquiagem de John Caglione Jr. - que deixa atores conhecidos como Al Pacino e Dustin Hoffman irreconhecíveis atrás da maquiagem - o visual do filme é, sem dúvida, seu maior e mais saboroso atrativo. Mesmo que Warren Beatty tenha preferido (acertadamente) deixar de lado em sua caracterização o queixo proeminente que é a marca de Tracy, todo o resto é absolutamente apaixonante, feito com o objetivo claro de seduzir a audiência pela visão. Uma pena, porém, que o roteiro, com dito anteriormente, deixe muito a desejar.


Dick Tracy, o protagonista vivido por Beatty com seu habitual ar blasé, é o detetive mais corajoso de uma cidade cada vez mais dominada pelos gângsteres, que, depois de um desentendimento mais violento do que o normal, passam a ser liderados por Big Boy Caprice (Al Pacino, nitidamente se divertindo aos montes em um papel atípico que lhe deu uma indicação ao Oscar de coadjuvante no mesmo ano em que ele merecia uma lembrança na categoria principal por "O poderoso chefão, parte 3").  Incorruptível, Tracy tenta de todas as maneiras acabar com a festa de Caprice, inclusive tentando cooptar para seu lado a sensual Breathless Mahoney (Madonna), principal atração do night-club utilizado pelos bandidos como quartel-general. A aproximação entre o detetive e Mahoney - cujo comportamento ambíguo ao mesmo tempo o repele e seduz - passa a incomodar sua eterna namorada, a fiel e dedicada Tess Trueheart (Glenne Headley) e até o pequeno Kid (Charlie Korsmo), um menino de rua que o admira e que tem intenções de ser adotado por ele. Não bastasse tudo isso, Tracy ainda é preso, vítima de uma armadilha criminosa, e a cidade passa a ser ameaçada por um misterioso bandido sem rosto.

A superficialidade da trama de "Dick Tracy" de certa forma combina com o tom de entretenimento ligeiro proposto por Warren Beatty e companhia, mas não deixa de ser um balde de água fria naqueles que procuram no filme algo mais do que um simples passatempo inócuo. Além de ter um começo um tanto confuso, o roteiro não desenvolve a contento nenhum personagem - nem mesmo seu protagonista - deixando a plateia órfã daqueles sentimentos tão procurados em um blockbuster: a identificação com o herói e a torcida pela derrota do vilão. Aqui, tanto o Tracy de Beatty soa quase apático a maior parte do tempo quanto o Big Boy de Pacino - apesar da performance inspirada do ator - arranca no máximo gargalhadas. Nem mesmo a identidade do misterioso criminoso sem rosto chega a causar alguma reação, talvez por sua previsibilidade. Sobra para o deleite do público, então, o visual acachapante, a curiosidade de ver Madonna como atriz (e, apesar de genial artista sobre os palcos ela não chega a convencer no papel de Mahoney) e as belas canções do veterano compositor da Broadway Stephen Sondheim - uma delas, a balada "Sooner or later" também chegou a ser premiada com o Oscar. Para um filme com tantas ambições, é pouco.

domingo

MEIA-NOITE EM PARIS

MEIA-NOITE EM PARIS (Midnight in Paris, 2011, Gravier Productions, 94min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Darius Khondji. Montagem: Alisa Lepselter. Figurino: Sonia Grande. Direção de arte/cenários: Anne Seibel/Hélène Dubreuil. Produção executiva: Javier Méndez. Produção: Letty Aronson, Jaume Roures, Stephen Tenenbaum. Elenco: Owen Wilson, Marion Cottilard, Rachel McAdams, Michael Sheen, Kathy Bates, Corey Stoll, Adrien Brody, Alison Pill, Tom Hiddleston, Carla Bruni, Léa Seydoux. Estreia: 11/5/11 (Festival de Cannes)

4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Woody Allen), Roteiro Original, Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Oscar de Roteiro Original
Vencedor do Golden Globe de Roteiro

Fazer um filme por ano há mais de três décadas não é para qualquer um. Woody Allen não É qualquer um. Somente entre 2000 e 2010 ele equilibrou-se em filmes apenas eficientes (“Dirigindo no escuro”, “Tudo pode dar certo”, “Você vai conhecer o homem dos seus sonhos”), alguns deslizes (“Melinda e Melinda”, “O escorpião escarlate”), filmes subestimados (“O sonho de Cassandra”, “Igual a tudo na vida”), sucessos de crítica (“Vicky Cristina Barcelona”) e duas obras-primas. A primeira, de 2005, é “Match point: ponto final”, um drama com elementos de suspense que vai fundo na releitura de “Crime e castigo”, de Dostoievsky. A outra é “Meia-noite em Paris”, uma deliciosa, brilhante e charmosa homenagem à Cidade-luz e seus dourados anos 20. Indicada ao Oscar de melhor filme do ano – feito que somente o multipremiado “Noivo neurótico, noiva nervosa” havia conseguido, em 1977 – a história do mergulho do aspirante a escritor Gil Pender na atmosfera féerica que inspirou Ernest Hemingway a escrever o clássico “Paris é uma festa” acabou conquistando a merecidíssima estatueta de roteiro original no mesmo ano em que a Academia parecia ter descoberto o fascínio pelo passado – “O artista”, um filme mudo e em preto-e-branco dirigido pelo francês Michel Hazanivicius e que falava sobre os primórdios do cinema, foi o grande vencedor.
Enquanto “O artista” acompanhava a decadência de um astro do cinema mudo com a chegada do som à indústria do cinema, “Meia-noite em Paris” percorre um caminho inverso: na obra estrelada por Jean Dujardin (também vencedor de um Oscar) é o futuro que atropela o protagonista, na forma da ameaçadora tecnologia que lhe arrancará do topo da popularidade; no filme de Allen, quem surge do nada e surpreende o protagonista é o passado, na forma de um virtual portal para um período em que as festas da capital francesa eram frequentadas por gente do porte de Hemingway, F. Scott Fitzgerald e sua mulher Elsa, Gertrude Stein, Pablo Picasso e Cole Porter – não por acaso, ídolos máximos do roteirista de cinema com ambições de tornar-se escritor e mudar-se para a cidade e aproveitar tudo que ela pode oferecer, desde sua paisagem e seu clima cultural até a chuva que ele enxerga com olhos românticos (ao contrário de sua materialista e patricinha noiva). O ator vivido por Dujardin luta contra o inevitável. O escritor interpretado por Owen Wilson – na melhor atuação de sua carreira – se entrega à inusitada situação com deleite extremo (e quem não o faria?). Porém o filme de Allen não se deixa limitar pelas amarras de uma piada única: engraçado, elegante e inteligente, “Meia-noite em Paris” até pode agradar muito mais àqueles que tem uma noção mais específica de literatura, arte e música, mas é impossível não se deixar envolver por sua atmosfera lúdica e nostálgica.
Gil Pender, o protagonista, visita Paris como alguém fascinado por sua história, sua cultura e sua aura. Deseja morar na cidade e beijar sob a chuva que cai à noite sobre suas charmosas ruas. Sua noiva, Inez (Rachel McAdams) só quer saber de aproveitar as promoções e comprar artigos de decoração para sua nova casa em Hollywood – e não perde nenhuma chance de comparar (negativamente) o noivo a um antigo namorado que encontra por acaso no país, o pedante Paul(Michael Sheen). Enquanto ela vê Paris como um mero shopping-center, Pender se descobre repentinamente capaz de viajar para o passado: caminhando sem rumo pela cidade em uma noite, ele entra em um mundo povoado por todos aqueles ídolos a quem sempre venerou e, a princípio atônito e posteriormente agradecido aos céus, tem a chance de pedir que Gertrude Stein (Kathy Bates) leia seu romance e lhe dê conselhos a respeito – assim como também faz amizade com o hedonista Ernest Hemingway (Corey Stoll, fabuloso) e com o enlouquecido casal Fitzgerald (Tom Hiddlestone e Alisson Pill). Frequentando saraus, festas e reuniões, ele acaba se apaixonando perdidamente por Adriana (Marion Cottilard), musa e amante de Pablo Picasso – e passa a considerar seriamente a hipótese de nunca mais voltar ao século XXI. E é aí que Allen mostra seu gênio.


O que até então era apenas uma deliciosa brincadeira com a festa ambulante que era a capital francesa nos anos 20, transforma-se repentina e inteligentemente em uma discussão sobre as dores e delícias de se estar em um mundo com o qual não se tem afinidades culturais e sociais. Pender é um sujeito norte-americano do século XXI que sonha viver em uma cidade europeia dos primeiros anos do século anterior. Sua amante vive nesse que ele considera seu paraíso particular, mas, insatisfeita, preferiria estar passeando pelas ruas e cabarés da belle époque, socializando com Toulouse-Lautrec. E o espectador, deliciado na plateia, fica a perguntar-se se qual o endereço de seu Xangri-lá. Com sutileza e bom-humor, Allen mostra que nenhuma época da história é tão perfeita quanto se pode sonhar e, com isso, permite ao público uma viagem segura e delicada a seus mais recônditos desejos nostálgicos. Sem medo de mergulhar fundo na fantasia – da mesma forma que já havia feito com enorme êxito no belo “A rosa púrpura do Cairo” (85) – o cineasta permite a seus personagens que assumam sem medo seus anseios e dá a seu desfecho um tom de otimismo capaz de derreter até ao mais cínico coração.
É claro que o espectador familiarizado com a obra de Hemingway, Fitzgerald, Gertrude Stein, Picasso, Luis Buñuel e Salvador Dalí vai encontrar ainda mais motivos para se divertir com “Meia-noite em Paris”, mas o que nas mãos de outro diretor poderia soar como um pedantismo oco e gratuito se torna um charme extra ao filme de Allen, premiado com extrema justiça com o Oscar de roteiro original. Fotografado com carinho e inteligência pelo ótimo Darius Khondji – cujo currículo inclui “Seven, os sete crimes capitais”, “Evita” e “Beleza roubada” – e com um elenco onde se destaca o pouco conhecido Corey Stoll (da telessérie “House of Cards”) como Ernest Hemingway e o sempre competente Michael Sheen como o arrogante Paul, “Meia-noite em Paris” é um ponto altíssimo na carreira de Allen, recheada de grandes filmes. Imperdível!

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