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terça-feira

A BELA E A FERA

A BELA E A FERA (Beauty and the Beast, 2017, Walt Disney Films, 129min) Direção: Bill Condon. Roteiro: Stephen Chbosky, Evan Spiliotopoulos, roteiro da animação original de Linda Woolverton. Fotografia: Tobias Schliessler. Montagem: Virginia Katz. Música: Alan Menken. Figurino: Jacqueline Durran. Direção de arte/cenários: Sarah Greenwood/Katie Spencer. Produção executiva: Don Hahn, Thomas Schumacher, Jeffrey Silver. Produção: David Hoberman, Todd Lieberman. Elenco: Emma Watson, Dan Stevens, Luke Evans, Josh Gad, Kevin Kline, Ewan McGregor, Ian McKellen, Emma Thompson, Stanley Tucci. Estreia: 23/02/17

2 indicações ao Oscar: Figurino, Direção de Arte/Cenários

Em 1992, "A Bela e a Fera", animação produzida pela Disney, conseguiu furar um bloqueio histórico e ser indicada ao Oscar de Melhor Filme, anos antes que desenhos animados tivessem uma categoria para chamarem de sua e passassem a ser levados tão a sério quanto qualquer gênero mais "adulto" - e frequentemente também lembrados na corrida à estatueta principal. Na época, ficou apenas com os prêmios tradicionalmente relegados às animações (trilha sonora original e canção), mas abriu um precedente inesperado, já que fazia pouco tempo que o estúdio do Mickey havia readquirido seu status de grande produtor de filmes do gênero. Bem-sucedido nas bilheterias e aplaudido pela crítica, "A Bela e a Fera" se manteve no inconsciente coletivo do público por décadas, até que a mesma Disney teve a ideia de apresentá-lo a novas gerações - mas em formato diferente. A intenção era manter o clima original, parte das canções e a trama central, mas em live-action. Algo assim já havia sido testado em "Cinderela", dirigido por Kenneth Branagh em 2015, mas dessa vez o projeto era muito mais ambicioso: não apenas estenderia o roteiro em 45 minutos (em relação ao original) como contaria com uma atriz de considerável poder de atração, a inglesa Emma Watson, famosa por sua participação na bilionária série cinematográfica "Harry Potter". Além disso, o orçamento seria muito generoso (cerca de 160 milhões de dólares) e o diretor seria o vencedor do Oscar de melhor roteiro, Bill Condon (que arrebatou a estatueta em 1999 por "Deuses e monstros" e tinha no currículo ainda o elogiado "Kinsey: vamos falar de sexo", de 2004). Não tinha como dar errado. E não deu.

Antes mesmo de sua estreia, a nova versão de "A Bela e a Fera" já prometia ser um enorme sucesso: em suas primeiras 24 horas on line, o teaser do filme foi visto quase 92 milhões de vezes, estabelecendo, à época, um recorde. Com suas filmagens terminadas em agosto de 2015, o estúdio deixou a plateia em compasso de espera por cerca de um ano e meio até seu lançamento, em fevereiro de 2017: se foi proposital ou não é uma incógnita, mas o fato é que a estratégia deu certo, e o filme rendeu mais de 174 milhões de dólares em seu primeiro fim-de-semana nos EUA. Ao redor do mundo, a renda total foi de mais de um bilhão de dólares - uma cifra que nem mesmo os mais otimistas executivos ousariam sonhar. A melhor notícia, no entanto, quem recebeu foi o público: apesar do marketing, do orçamento inchado e de precisar atingir um patamar altíssimo de expectativa, a versão em carne e osso de "A Bela e a Fera" é um filme que em nada fica a dever a seu original: é visualmente belíssimo, tem uma trilha sonora da mais alta qualidade, um elenco muitíssimo bem escalado (desde os protagonistas até os coadjuvantes dos quais apenas se ouvem as vozes até o belo final) e um perfeito equilíbrio entre drama, aventura, romance e comédia. Tal conexão, porém, poderia não ter acontecido, caso o elenco escolhido tivesse sido outro - o que poderia muito bem ter acontecido.


Antes que Emma Watson tivesse assinado o contrato para viver Belle - com um cachê de três milhõs de dólares mais percentagem sobre a milionária bilheteria -, vários nomes chegaram a ser considerados: Lily Collins (que viveu Branca de Neve em "Espelho, espelho meu", de 2011), Emmy Rossum (a mocinha de "O fantasma da ópera", lançado em 2004), Amanda Seyfried (que havia soltado a voz em "Mamma Mia!", de 2008), Kristen Stewart (que também interpretou Branca de Neve, em "Branca de Neve e o caçador", em 2011) e Emma Roberts. O papel principal masculino - que exigiria de seu intérprete uma alta dose de paciência para atuar sob uma pesada maquiagem e ter seu rosto escondido sob CGI - também teve alguns nomes considerados antes que Dan Stevens o assumisse: Robert Pattinson, o famigerado vampiro Edward da série "Crepúsculo" esteve na mira do diretor Bill Condon - que assinou os dois últimos filmes baseados nos livros de Stephanie Meyer - e o galã do momento, Ryan Gosling, chegou a ser convidado para o papel, preferindo literalmente cantar em outra freguesia - mais precisamente nos sets de "La La Land: Cantando Estações", que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de melhor ator. Coincidência ou não, Emma Watson fez o caminho inverso: declinou da proposta para ser a protagonista do premiado filme de Demian Chazelle e preferiu realizar nas telas um de seus sonhos de criança. E o veterano Ian McKellen - que havia recusado dublar o relógio Cogsworth na produção de 1991 - dessa vez aceitou o desafio de criar o mesmo personagem. A seu lado, no time de dubladores que só mostram o rosto no desfecho do filme, nomes como os de Ewan McGregor, Emma Thompson e Stanley Tucci.

A trama do filme dessa vez comandado por Condon continua a mesma, diferindo apenas no desenvolvimento maior de alguns personagens: um príncipe, vaidoso e arrogante (Dan Stevens) é amaldiçoado por uma feiticeira e se transforma em um monstro, além de ver seu castelo, sua história e seus empregados apagados da memória de todos os que os conheceram. Seus criados são transformados em objetos e, na nova forma animalesca, ele se isola do mundo, permanecendo em seu castelo longe da vista de todos. Alguns anos mais tarde, ao tentar levar uma rosa do jardim do palácio para sua filha, o solitário Maurice (Kevin Kline) é aprisionado pela fera. Guiada por seu cavalo, que a leva diretamente ao castelo, Belle (Emma Watson), uma bela e voluntariosa jovem, consegue libertar seu pai ao oferecer-se ao posto de prisioneira. Empolgados com a situação, os objetos/criados tentam aproximar Belle da Fera - eles sabem que a única maneira de voltarem à forma original é fazer com que a garota se apaixone por ele apesar de sua aparência. Como todo conto de fadas, "A Bela e a Fera" precisa que o público compre sua história sem maiores questionamentos, e o filme de Condon consegue tal façanha sem fazer muita força. Ao transformar Belle em uma heroína de atitudes decididas, independente e com personalidade de sobra, o roteiro aproxima a trama de um contexto mais apropriado ao século XXI - o que torna o antagonista, Gaston (Luke Evans), ainda mais desagradável mesmo em comparação com uma fera. Inspirada em Katharine Hepburn, a jovem Emma Watson alcança o tom exato da personagem e conduz o espetáculo com segurança e graça. Pode até não agradar a quem não é fã de musicais, mas é inegavelmente um espetacular trabalho de adaptação, visualmente excitante e artisticamente sofisticado - mas sem perder, por um segundo sequer, seu diálogo com qualquer tipo de plateia. Um triunfo!

sábado

PASTORAL AMERICANA

PASTORAL AMERICANA (American pastoral, 2015, Lakeshore Entertainment, 108min) Direção: Ewan McGregor. Roteiro: John Romano, romance de Philip Roth. Fotografia: Martin Ruhe. Montagem: Melissa Kent. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Lindsay Ann McKay. Direção de arte/cenários: Daniel B. Clancy/Jason Shumaker, Julie Smith. Produção executiva: Qiuyun Long, Terry A. McKay, Eric Reid. Produção: Andre Lamal, Gary Lucchesi, Tom Rosenberg. Elenco: Ewan McGregor, Jennifer Connelly, Dakota Fanning, Peter Riegert, Rupert Evans, Uzo Aduba, Molly Parker, Samantha Mathis, David Strathairn. Estreia: 09/9/16 (Festival de Toronto)

Não deixa de ser estranho que o filme de estreia de Ewan McGregor na direção de longa-metragens seja algo tão denso quanto "Pastoral americana": revelado por Danny Boyle em produções celebradas principalmente por seu senso de humor inconoclasta, como "Cova rasa" e "Trainspotting: sem limites", McGregor jamais abandonou suas raízes independentes, mesmo quando se jogava sem medo em superproduções hollywoodianas, como a saga "Star Wars" ou o musical "Moulin Rouge: o amor em vermelho" (2001), seus maiores sucessos comerciais. Mas sua escolha em contar uma história tão profundamente arraigada aos conflitos do american way of life, adaptada de um romance do consagrado Philip Roth, vencedor do Pulitzer em 1998, demonstra uma sensibilidade em relação ao âmago do núcleo tradicional da família americana que nem todo cineasta ianque consegue ter. Com uma narrativa clássica e discreta, McGregor tem a inteligência de não querer uma direção que se sobressaia à trama - e acaba entregando um potente drama, escorado em seus atores e em um roteiro que não trai o legado de Roth em sua investigação sobre a personalidade humana.

Na verdade, McGregor não era a primeira escolha para o filme - nem como diretor e nem como ator. Quando o projeto original foi cancelado, em 2004, o diretor escolhido era Philip Noyce, em um momento feliz de sua carreira, depois do sucesso de seu "O americano tranquilo" (2002), baseado no livro de Graham Greene, e que havia rendido uma indicação ao Oscar de melhor ator para Michael Caine. Nessa versão, o casal central da história seria um casal também da vida real, Paul Bettany e Jennifer Connelly, com Evan Rachel Wood no papel da filha rebelde (uma especialidade da atriz, revelada no excelente "Aos treze", de 2003). Anos haviam se passado no desenvolvimento da ideia de realizar o filme quando o cancelamento acabou, e somente uma década depois, ele voltaria a ser considerado - dessa vez já com McGregor como diretor e no papel principal masculino. Jennifer Connelly continuou no elenco mesmo sem o marido como colega de cena, e a talentosa Dakota Fanning foi chamada para viver sua problemática filha, Merry. Com um trio talentoso como esse - mais a música de Alexandre Desplat e a participação especial de David Straithairn - não tinha mesmo como dar errado. E, apesar do pouco caso com que foi recebido nas bilheterias e até mesmo por parte da crítica, não deu mesmo. "Pastoral americana" é um drama forte, visceral e relevante, que aponta para McGregor uma nova e surpreendente carreira.


De forma contundente e melancólica, "Pastoral americana" destrói a ilusão de uma família perfeita - quase como Sam Mendes fez em "Foi apenas um sonho" (2008), também baseado em um livro, escrito por Sam Yates. McGregor interpreta Seymour Levov, mais conhecido como Swede, um americano judeu que é o retrato do sucesso: atleta cobiçado na universidade, casou-se com a bela Dawn (Jennifer Connelly), uma rainha de beleza igualmente desejada, e, com a chegada da vida adulta, assumiu o comando da bem-sucedida fábrica de luvas criada pelo pai. Dono de uma bela casa em Nova Jersey, profissionalmente satisfeito, com uma esposa exemplar e uma bela e loura filha (cujo único problema é a gagueira), Swede parece só ter motivos para agradecer - até que sua adorável filha passa a tornar-se irreconhecível a seus olhos: politicamente afetada pelos problemas sociais ao seu redor, Merry simplesmente desaparece depois de ser acusada de plantar uma bomba em uma propriedade privada. Desnorteados, seus pais iniciam uma busca não apenas por seu paradeiro, mas também por uma forma de reencaixá-la em sua vida pacífica e, até então, quase banal. Dawn embarca em um processo de negação que a leva às raias da loucura, enquanto Swede tenta manter o equilíbrio emocional para não permitir o desmoronamento absoluto de seu universo perfeito.

McGregor acerta na direção de atores, o que não é pouca coisa quando se trata de um estreante. Ao mesmo tempo em que consegue manter-se discreto no papel de Swede - que é, ao mesmo tempo um observador do redemoinho à sua volta e um ativo participante da tragédia que o envolve -, o ator extrai de suas colegas de cena performances carregadas de sentimento e dor. Jennifer Connelly, linda como nunca, sai-se muito bem tanto na juventude quanto na maturidade, entregando alguns momentos de melancolia explícita de cortar o coração; e Dakota Fanning - revelada ainda criança em "Uma lição de amor" (2001), onde fazia a filha de Sean Penn - comprova que seu talento não era questão de sorte de principiante: no difícil papel da rebelde e problemática Merry, a jovem se encarrega de dar luz a ideias e princípios que batem de frente com o pensamento político médio dos EUA, e oferece um contraponto radical à lucidez cega de sua família. Os três estão sensacionais - e inundam o filme de sentimento, dor e amor incondicional. Um belíssimo trabalho de estreia de Ewan McGregor - e que seja o primeiro de muitos.

ANJOS E DEMÔNIOS

ANJOS E DEMÔNIOS (Angels and demons, 2009, Columbia Pictures/Imagine Entertainment, 138min) Direção: Ron Howard. Roteiro: David Koepp, Akiva Goldsman, romance de Dan Brown. Fotografia: Salvatore Totino. Montagem: Dan Hanley, Mike Hill. Música: Hans Zimmer. Figurino: Daniel Orlandi. Direção de arte/cenários: Allan Cameron/Larry Bellantoni, Robert Gould. Produção executiva: Dan Brown, Todd Hallowell, Marco Valerio Pugini. Produção: John Calley, Brian Grazer, Ron Howard. Elenco: Tom Hanks, Ewan McGregor, Armin Mueller-Stahl, Ayelet Zurer, Stellan Skarsgaard, Pierfrancesco Favino, Cosimo Fusco. Estreia: 04/5/09 (Roma)

Best-seller absoluto em todo o mundo, o livro "O Código Da Vinci", de Dan Brown, não demorou em chegar às telas de cinema, em 2006, com o apoio de um invejável time liderado pelo diretor Ron Howard (vencedor do Oscar por "Uma mente brilhante") e pelo ator Tom Hanks (dono de duas estatuetas, por "Filadélfia" e "Forrest Gump: o contador de histórias" e que ficou com um papel disputado pelos maiores astros de Hollywood à época, como Russell Crowe e Hugh Jackman). Com um custo estimado de 125 milhões de dólares, o filme acabou desagradando boa parte da crítica e dos fãs da obra original, e, apesar de ter coletado mais de 750 milhões internacionalmente, ficou longe de ser considerado um fenômeno sequer parecido com o do livro, que vendeu mais de 80 milhões de cópias e causou polêmicas infindáveis com suas teorias a respeito de uma possível descendência de Jesus Cristo. Isso não impediu, no entanto, que Hollywood percebesse que Langdon e suas aventuras poderiam tranquilamente render muito mais - especialmente porque Brown já tinha publicado outro livro com o mesmo personagem e que estava pronto para ser adaptado. Mesmo se passando antes dos acontecimentos mostrados em "Da Vinci", "Anjos e demônios" foi lançado, três anos mais tarde, como uma continuação - e, se não teve a bilheteria esperada, não foi por falta de esforço por parte dos produtores, que tentaram (sem conseguir muito) corrigir as falhas do primeiro filme.


Uma das mais frequentes críticas feita à "O Código Da Vinci" em seu lançamento dizia respeito à forma como o roteirista Akiva Goldsman havia traduzido a estratosférica quantidade de informações sobre História, Arte e Religião do livro para o filme. Para evitar o didatismo em "Anjos e demônios", o vencedor do Oscar por "Uma mente brilhante" - que recebeu um salário recorde de 3,8 milhões de dólares pelo trabalho - enxugou o máximo que pode de referências históricas aos Illuminati (sociedade secreta surgida no século XVIII que tem papel preponderante na trama) e concentrou-se nas aventuras de Langdon pela cidade do Vaticano às vésperas da eleição de um novo Papa. O roteiro acabou por ter cenas reescritas pelo veterano David Koepp (a pedido de Tom Hanks) e chegou até o público sem a mesma inteligência de "Da Vinci" - e com sequências de suspense e ação mornas e apáticas. Nem mesmo a duração excessiva (quase duas horas e meia de projeção) dá conta de costurar o exagero de situações criadas pela história, que envolve sequestro de cardeais, o roubo de antimatéria com intenções criminosas, os famigerados Illuminati e uma sucessão de cenas que se pretendem chocantes mas que ficam no meio do caminho entre a violência e o desejo de atrair público de todas as idades às salas de cinema. O resultado é um filme bem produzido (como era de se esperar haja visto o orçamento gigantesco para uma obra sem efeitos visuais mirabolantes) mas sonolento, incapaz de empolgar ou sequer atiçar a imaginação da plateia como seu antecessor.


Se em "O Código Da Vinci" o protagonista fazia uma turnê pelos pontos turísticos religiosos e históricos de Paris, em "Anjos e demônios" o simbologista mais famoso da literatura mundial é chamado ao Vaticano para tentar evitar uma tragédia de grandes proporções: um grupo de membros dos Illuminati acaba de sequestrar os quatro cardeais favoritos ao posto de novo Papa (após a morte inesperada do último) e pretende matá-los de hora em hora, além de detonar uma explosão capaz de arrasar com a cidade. Tais atos, planejados como uma revanche pela perseguição da Igreja Católica feita à sociedade secreta desde sua criação, ameaçam não apenas a integridade física de todos os religiosos reunidos para o conclave, mas também a própria estrutura da Igreja - o que deixa o carmelengo Patrick McKenna (Ewan McGregor) na difícil situação de lidar tanto com a eleição quanto com a possibilidade de não sobrarem possíveis candidatos ao cargo, já que, além dos desaparecidos, apenas o Cardeal Strauss (Armin Mueller-Stahl) tem condições de assumir tal papel. Nesse meio-tempo, Langdon corre de uma catedral à outra, tentando evitar as mortes dos cardeais usando, para isso, pistas que remetem a antigas anotações guardadas a sete chaves pelas autoridades canônicas.

Substituindo a francesa Audrey Tautou pela israelense Ayelet Zurer (que foi a mulher de Eric Bana em "Munique", de 2005), "Anjos e demônios" consegue evitar a verborragia excessiva de "O Código Da Vinci", mas esbarra em um problema ainda maior: a superficialidade de absolutamente toda a sua narrativa. Enquanto no filme anterior o diretor Ron Howard ilustrava longos discursos com uma edição notável e criativa (mas ainda assim vítima de muitas reclamações), aqui ele simplesmente ignora toda e qualquer vontade de esclarecer a plateia sobre as origens dos Illuminati ou sobre detalhes a respeito das pistas que Langdon vai encontrando em sua busca. O ritmo talvez tenha ficado mais ágil, mas em compensação é difícil de envolver-se com a trama ou com seus personagens. Tom Hanks continua no piloto automático e Ewan McGregor faz o que pode com um personagem que jamais atinge todas as suas possibilidades. No cômputo final, é um filme menor do que seu primeiro capítulo - não empolga, não ensina nem tampouco é memorável. Um entretenimento decente, mas nada além disso. Uma decepção quando se pensa que tem a assinatura de um time de talento inegável e uma produção caríssima.

terça-feira

ÁLBUM DE FAMÍLIA

ÁLBUM DE FAMÍLIA (August: Osage County, 2013, The Weinstein Company, 121min) Direção: John Wells. Roteiro: Tracy Letts, peça teatral de sua autoria. Fotografia: Adriano Goldman. Montagem: Stephen Mirrione. Música: Gustavo Santaolalla. Figurino: Cindy Evans. Direção de arte/cenários: David Gropman/Nancy Haigh. Produção executiva: Ron Burkle, Celia Costas, Jerry Frankel, Claire Rudnick Polstein, Jeffrey Richards, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: George Clooney, Jean Doumanian, Grant Heslov, Steve Traxler. Elenco: Meryl Streep, Julia Roberts, Ewan McGregor, Sam Shepard, Chris Cooper, Benedict Cumberbatch, Juliette Lewis, Abigail Breslin, Margo Martindale, Julianne Nicholson, Dermot Mulroney. Estreia: 09/9/13 (Festival de Toronto)

2 indicações ao Oscar: Atriz (Meryl Streep), Atriz Coadjuvante (Julia Roberts)

O dramaturgo Tracy Letts foi apresentado ao público cinéfilo com o ultra-violento e cínico “Killer Joe, matador de aluguel”, que chegou às telas sob a direção do veterano William Friedkin e apresentava uma família cuja desfuncionalidade chegava às raias do assassinato. Os personagens de “Álbum de família”, também baseado em um de seus textos teatrais, não alcançam tal extremo, mas dificilmente podem ser considerados exemplos de equilíbrio e respeito por laços de sangue. Interpretados por alguns dos maiores nomes do cinema atual, os membros da família Weston fazem desfilar pela tela, em cerca de duas horas de duração, um festival de rancores, humilhações, ciúmes, inveja e agressão capaz de causar inveja à Tenessee Williams e Edward Albee. Infelizmente, nem mesmo a experiência do elenco excepcional consegue disfarçar a inseguirança do diretor John Wells, que, confiando plenamente em seus atores e no texto pulsante de Letts, parece ter medo de fugir da armadilha do teatro filmado.

Ok, Wells até foge dos limites do cenário único – no caso, a velha casa da família Weston, localizada na pequena cidade de August, condado de Osage (daí o título original) – mas não é o bastante para esconder as origens teatrais da história. Para sua sorte, o texto de Letts é ágil o bastante para prender a atenção do público até suas cenas finais, principalmente porque os dramas do clã retratado pelo dramaturgo são os mais variados possíveis, indo de romances ilícitos até a segredos mantidos por décadas. No centro de todo o furacão emocional está a matriarca Violet (Meryl Streep no papel que lhe rendeu sua 18ª indicação ao Oscar), que depois do desaparecimento do marido, Beverly (Sam Shepard), recebe em sua propriedade toda a sua família - e, junto com ela, uma série de problemas que resolvem vir à tona encorajados pela falta de tato da anfitriã, que sofre de câncer na língua e vê seus medicamentos falarem mais alto que a delicadeza. É assim que ela enfrenta, amarga e cruel, a filha mais velha, Barbara (Julia Roberts), que passa por uma grave crise no casamento com Bill (Ewan McGregor) – cujo relacionamento extraconjugal com uma mulher mais jovem não consegue ser esquecida por ela – e na criação da única filha, a adolescente Jean (Abigail Breslin em papel para o qual foi testada a também excelente Chloe Grace Moretz). Barbara era a filha preferida de Beverly, e quando ele finalmente é encontrado morto, seu funeral aprofunda ainda mais as diferenças da família.



A única que ficou em casa cuidando da mãe durante sua doença, Ivy (Julianne Nicholson) é tratada com desprezo por Violet, que não vê nela a capacidade de casar ou viver uma história de amor – em segredo, porém, ela está apaixonada e é correspondida pelo primo, Charlie (Benedict Cumberbatch), que, assim como ela, é menosprezado pela mãe, Mattie Fae (a ótima Margo Martindale substituindo Kathy Bates, sondada pela produção), mas protegido pelo pai, Charles (Chris Cooper). Fechando o barulhento grupo está a caçula do trio de filhas de Violet, a inconsequente Karen (Juliette Lewis), que chega acompanhada do novo namorado, Steve (Dermot Mulroney) – que acaba por se engraçar com a adolescente Jean, para desespero de Barbara e Bill. Testemunhando toda a confusão, há a empregada doméstica Johnna (Misty         Uphaim), de origem indígena e alvo de constantes ataques de racismo por parte de Violet. É essa família que irá passar um fim-de-semana inteiro lavando a roupa suja acumulada por anos e anos de segredos e meias-verdades.

“Álbum de família” é um show de atores. John Wells nem tem muito trabalho em comandar seu elenco, completamente à vontade em papéis repletos de possibilidades – todas elas exploradas à perfeição. Os embates mais verbalmente violentos – entre Meryl Streep e Julia Roberts, ambas indicadas pela Academia – são uma delícia de assistir, principalmente porque Streep deita e rola com uma personagem francamente desagradável e hostil e Roberts deixa de lado sua persona de estrela para entregar uma atuação forte e visceral. Wells não se preocupa em criar um visual marcante, preferindo dedicar-se a aproveitar a carpintaria dramática do texto de Letts – com reviravoltas dignas de uma boa telenovela – como base para seu filme. Experiente em programas de televisão (dirigiu vários episódios da série “Plantão médico”) mas com apenas um outro filme no currículo, o pouco visto “A grande virada”, de 2001, Wells não consegue escapar de uma direção pouco inventiva e ousada. Mesmo que a produção caminhe sem trancos até o final (diferente do desfecho da peça) fica a nítida impressão de um filme que não atingiu todo o seu potencial. Ainda assim, é um prazer enorme ser testemunha de tantos shows de interpretação concentrados em pouco mais de duas horas.

O PREÇO DA TRAIÇÃO

  O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...