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segunda-feira

MORRA, SMOOCHY, MORRA


MORRA, SMOOCHY, MORRA (Death to Smoochy, 2002, Warner Bros/FilmFour, 109min) Direção: Danny DeVito. Roteiro: Adam Resnick. Fotografia: Anastas N. Michos. Montagem: Jon Poll. Música: David Newman. Figurino: Jane Ruhm. Direção de arte/cenários: Howard Cummings/Enrico Campana. Produção: Andrew Lazar, Peter Macgregor Scott. Elenco: Robin Williams, Edward Norton, Catherine Keener, Danny DeVito, Jon Stewart, Pam Ferris, Harvey Weinstein. Estreia: 28/02/2002

A carreira de Danny DeVito como diretor trai, sem sombra de dúvida, um apreço pelo lado sombrio da vida. Foi assim em sua estreia, "Joga a mamãe do trem" (1987), no sucesso "A guerra dos Roses" (1989), e até mesmo no infantil "Matilda" (1996) - sem falar na cinebiografia "Hoffa: um homem, uma lenda" (1992), onde falou sério pela primeira vez em sua trajetória como diretor. Tendo em vista seu currículo e sua tendência ao humor mórbido, portanto, não chega a ser surpresa que ele tenha assinado "Morra, Smoochy, morra", o inusitado encontro entre Robin Williams e Edward Norton que fracassou nas bilheterias e desconcertou boa parte da crítica. Uma mistura nem sempre eficiente entre comédia e suspense, o filme ensaia uma crítica à indústria do entretenimento infantil e à obsessão pela fama, mas falha em seu principal objetivo: conquistar o espectador. Por vezes exagerado e desnecessariamente confuso - e quase indeciso em sua mescla de gêneros, o filme de DeVito parte de uma premissa interessante e parece não saber exatamente o que fazer com ela. Para sua sorte, conta com o talento mais do que comprovado de seus atores centrais (especialmente Norton, raramente visto em comédias).

Tudo começa quando Randolph Smiley (Robin Williams), popular apresentador de um programa de televisão direcionado ao público infantil, é demitido graças a seu recém descoberto costume de aceitar suborno para privilegiar algumas crianças em detrimento de outras. Sua saída da programação abre espaço, então, para a chegada de Sheldon Mopes (Edward Norton), contratado para, com seu personagem Smoochy - um rinoceronte cor-de-rosa -, preencher o horário na programação. Idealista, ingênuo e bem-intencionado, Sheldon nem de longe imagina que, apesar das promessas da emissora, ele não passa de uma peça em uma vasta engrenagem comercial. Enquanto tenta transmitir mensagens positivas e educativas em seu programa, nos bastidores ele é visto apenas como objeto de marketing - algo que a executiva Nora Wells (Catherine Keener) tenta esconder a todo custo. Não bastasse tal ruído na comunicação, Sheldon passa a ser o alvo de Randolph, que, obcecado por ter sido substituído, arma diversas formas de acabar com seu rival - nem que seja através de assassinato.

 

Considerado o pior filme de 2002 pelo respeitado crítico Roger Ebert, "Morra, Smoochy, morra" é, realmente, uma produção bastante problemática. Nem mesmo Robin Williams - que ficou com o papel depois que Jim Carrey preferiu fazer o igualmente pouco celebrado "Cine Majestic" - é capaz de dar consistência a um roteiro indeciso, que impede o público de ter qualquer tipo de empatia por seus protagonistas - seja ele qual for. Danny DeVito, que já alcançou bons resultados em produções anteriores, aqui demonstra ter perdido a mão em suas tentativas de fazer rir de situações aparentemente dramáticas e/ou trágicas, entregando soluções pouco efetivas para os conflitos e apostando em um visual carregado de cores que contrastam com o tom escuro da trama.e causam mais estranhamento que admiração. É perceptível, no entanto, a entrega de Edward Norton a um personagem atípico em sua carreira: na pele do ingênuo Sheldon Mopes - cujo otimismo e positividade chegam a irritar ao mais feliz dos seres humanos -, o ator consegue destacar-se mesmo estando ao lado de um craque do humor como Williams. E Catherine Keener também surpreende, dando dignidade a uma personagem cujos objetivos e reais intenções estão sempre no limiar entre a honestidade e o cinismo.

Tornado cult com o passar do tempo - algo que normalmente acontece quando uma produção encontra um público disposto a abraçá-la a despeito (ou justamente por causa) de seus equívocos -, "Morra, Smoochy, morra" passou à história como um passo em falso no currículo de seus astros, acostumados ao sucesso e ao prestígio de boa parte de suas trajetórias. Pouco lembrado mesmo pelos maiores fãs de Williams e Norton, também machucou a carreira de Danny DeVito - que só voltaria à cadeira de diretor cinco anos mais tarde com "Duplex" - mais um exemplar de seu humor sombrio, mas dessa vez iluminado pelas presenças de Ben Stiller e Drew Barrymore. Uma comédia que não consegue sustentar a contento sua piada única, "Morra, Smoochy, morra" mergulha no camp - mas não é capaz de assumir completamente sua aura trash.

 

quinta-feira

A GAIOLA DAS LOUCAS

 


A GAIOLA DAS LOUCAS (The Birdcage, 1996, United Artists, 117min) Direção: Mike Nichols. Roteiro: Elaine May, original de Francis Veber, Édouard Molinaro, Marcello Danon, Jean Poiret, peça teatral "La cage aux folles", de Jean Poiret. Fotografia: Emmanuel Lubezki. Montagem: Arthur Schmidt. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Bo Welch/Cheryl Carasik. Produção executiva: Marcello Danon, Nil Machlis. Produção: Mike Nichols. Elenco: Robin Williams, Nathan Lane, Gene Hackman, Dianne Wiest, Hank Azaria, Christine Baranski, Dan Futterman, Calista Flockhart. Estreia: 08/3/96

Indicado ao Oscar de Direção de Arte/Cenários

Um dos filmes franceses de maior sucesso dentro no normalmente hermético mercado norte-americano, "A gaiola das loucas", lançado em 1978, não apenas conquistou a plateia e a crítica, mas também chegou a ser indicado a três Oscar - incluindo melhor roteiro adaptado e direção (Édouard Molinaro). Não demorou, portanto, para que Hollywood pensasse em uma versão doméstica, sem legendas que afugentassem o público médio e que apresentasse a trama (baseada em uma peça teatral de Jean Poiret) para uma nova audiência. Porém, depois de uma tentativa frustrada ainda nos anos 1980 - que poderia ter sido estrelada pela inusitada dupla Dudley Moore e Frank Sinatra (!!) -, o projeto ficou no limbo até a década seguinte, quando finalmente encontrou o caminho para as telas com um elenco sob medida e um tom moderno que, para surpresa de muitos, corrigiu alguns erros do original (amenizando alguns estereótipos exagerados) e revelou o talento de Nathan Lane, até então relegado a pequenos papéis em filmes nem sempre memoráveis. Indicado ao Golden Globe de melhor ator, Lane consegue o quase impensável: roubar a cena em uma comédia contracenando com o furacão Robin Williams.

Já consagrado no teatro mas sem um grande sucesso para chamar de seu, Nathan Lane agarrou com unhas e dentes a chance oferecida pelo veterano Mike Nichols (incentivado pelo sempre generoso Robin Williams), e só não engole tudo a sua volta porque a seu lado estão nomes como Williams, Gene Hackman e Dianne Wiest, todos conhecidos por seu talento em brilhar não importa o tamanho de seus papéis. Nichols - respeitado por sua capacidade de transitar entre diversos gêneros - dirige a todos com a elegância habitual e extrai o melhor de cada um, criando uma estrutura cômica irresistível, com piadas que fazem rir não apenas o público gay (com referências ao universo homossexual) mas também plateias mais tradicionais. Não à toa, o filme arrecadou mais de 180 milhões de dólares no mercado internacional - um feito e tanto quando se sabe o quão hermético ao tema é o público médio. Em parte devido à presença de Williams, em parte devido ao êxito do filme francês, "A gaiola das loucas" surpreendeu até mesmo o estúdio (a United Artists) - e provou que, nas mãos certas e com respeito ao material original, um remake pode acrescentar camadas antes não percebidas (e eliminar problemas, especialmente para audiências mais suscetíveis).



A trama do filme quase todo mundo já conhece, de uma forma ou outra: Gaiola das Loucas é uma boate de drag queens localizada em South Beach. Seu proprietário é Armand Goldman (Robin Williams), que é casado com a principal atração do local, o transformista Albert (Nathan Lane) - que se apresenta com o nome artístico de Starina e é admirado por todos os frequentadores. A rotina relativamente tranquila do casal (que inclui crises nervosas de Albert a qualquer contrariedade) é abalada quando Val (Dan Futterman) - filho de uma aventura casual de Armand na juventude - surge com a notícia de que irá se casar com a delicada Barbara (Calista Flockhart), filha de um senador cujas posições extremamente conservadoras batem de frente com o estilo de vida de seus futuros sogros. A notícia cai como uma bomba no pouco tradicional lar, mas as coisas ficam ainda piores quando Val pede aos pais que aceitem fingir uma falsa normalidade em um jantar para o encontro das duas famílias. Para isso, Albert precisa sair de cena - e ser substituído pela mãe do rapaz, Katherine (Christine Baranski) - e todos os detalhes da casa considerados "gay demais" (ou seja, todos) precisam ser escondidos, incluindo o empregado, Agador Spartacus (Hank Azaria), que sonha com sua chance na boate dos patrões. A situação, caótica por si própria, se complica quando o Senador Kevin Keeley (Gene Hackman) se vê envolvido involuntariamente em uma polêmica relacionada ao partido e passa a ser perseguido pela imprensa. O jantar - que já prometia ser um desastre - se completa quando, na ausência de Katherine, Albert assume o papel de matriarca da família.

Uma comédia de erros das mais felizes, "A gaiola das loucas" versão americana se beneficia do calor das praias de South Beach para acrescentar uma energia solar que talvez falte no original francês. Se Nathan Lane dá seu show particular em cada aparição - a sequência em que tenta caminhar de modo viril, como John Wayne, é um primor -, seu parceiro de cena também não decepciona: ao optar por viver o menos espalhafatoso Armand (que a princípio seria interpretado por Steve Martin), um dos atores mais populares de sua geração (e também dos mais ocupados na metade da década de 1990) abre espaço para o brilho de seus colegas de cena e mesmo assim chama a atenção com um desempenho que explora seu dom para o humor popular. Gene Hackman, por sua vez, surpreende ao entregar uma atuação que rompe com sua persona sisuda e consagrada junto ao grande público - sua última cena é, sem dúvida, um dos grandes momentos da comédia americana moderna. Ao atualizar e melhorar um clássico contemporâneo (sem perder sua essência e seu senso de humor sagaz e irônico), o filme de Mike Nichols mereceu o enorme sucesso de bilheteria - e, caso raro em se tratando de remakes, conquistou inclusive a crítica, sendo indicado aos Golden Globes de melhor comédia e melhor ator e saindo vencedor de melhor elenco na cerimônia do Screen Actors Guild, batendo nada menos que "O paciente inglês", grande vencedor do Oscar em sua temporada. Não é pouca coisa!

O MORDOMO DA CASA BRANCA

O MORDOMO DA CASA BRANCA (Lee Daniels' The Butler, 2013, AI-Film/Follow Through Productions/Salamander Pictures, 132min) Direção: Lee Daniels. Roteiro: Danny Strong, artigo "A butler well served by this election", de Wil Haygood. Fotografia: Andrew Dunn. Montagem: Joe Klotz. Música: Rodrigo Leão. Figurino: Ruth E. Carter. Direção de arte/cenários: Tim Galvin/Diane Lederman. Produção executiva: Len Blavatnik, James T. Bruce IV, Elizabeth Destro, Michael Finley, Aviv Giladi, Adonis Hadjiantonas, Vince Holden, Brett Johnson, Sheila Johnson, Jordan Kessler, Adam Merims, David Ranes, Matthew Salloway, Hilary Shor, Earl W. Stafford, Danny Strong, Bob Weinstein, Harvey Weinstein, R. Bryan Wright. Produção: Lee Daniels, Cassian Elwes, Buddy Patrick, Pamela Oas Williams, Laura Ziskin. Elenco: Forest Whitaker, Oprah Winfrey, David Oyelowo, Terrence Howard, Cuba Gooding Jr., Vanessa Redgrave, John Cusack, Jane Fonda, Alan Rickman, James Marsden, Robin Williams, Liev Schreiber, Mariah Carey, Lenny Kravitz, Alex Pettyfer, Jim Gleeson. Estreia: 05/8/13

Alguns filmes conquistam por seu valor artístico, por sua ousadia, criatividade e técnica impecável. Outros, no entanto, chegam ao coração da audiência por seus méritos emocionais, que prescindem de teorias ou análises mais profundas. Na segunda definição encontra-se "O mordomo da Casa Branca", filme do cineasta Lee Daniels, que já em seu filme de estreia, "Preciosa", arrebatou indicações ao Oscar de filme e direção. Inspirado em uma história real, o novo filme de Daniels retrata, em pouco mais de duas horas de duração, cinco décadas da história dos EUA, concentrando-se na luta pelos direitos civis da população negra - e contrapondo-a à dedicação do protagonista em servir os governantes do país independentemente da situação política.

Interpretado por Forest Whitaker em mais uma atuação esplêndida, Cecil Gaines é um herói silencioso e discreto, que acompanha as transformações sociais dos EUA de camarote: contratado como um dos mordomos da Casa Branca durante o mandato de Eisenhower (Robin Williams), ele segue à risca os conselhos que sempre recebeu durante sua educação como serviçal, mantendo-se invisível e apolítico mesmo quando as decisões políticas afetam diretamente seu povo - e principalmente sua família. Seu filho mais velho (muito bem interpretado por David Oyelowo), revoltado com a submissão a que a população negra é obrigada, junta-se aos ativistas que exigem mudanças - desde o pacifismo de Martin Luther King à violência dos Panteras Negras -, seu caçula, crédulo em seu governo, embarca para o Vietnã, e sua mulher, Gloria (Oprah Winfrey, extraordinária) se entrega à bebida como forma de lidar com a solidão. Muitas vezes incompreendido pelas pessoas que ama - que o julgam conivente com as desigualdades - ele não se furta a manter-se fiel às suas obrigações, o que acaba por torná-lo um homem de confiança de inúmeros presidentes.


A narrativa de Daniels é quadradinha, convencional, quase sem brilho. Porém, se o roteiro muitas vezes não consegue fugir do superficial - consequência inevitável da decisão de se contar tanta coisa em tão pouco tempo - ao menos mantém um ritmo que mantém a atenção do espectador sem fazer muito esforço. Didático na medida certa (para não afugentar aqueles que não conhecem a história americana a ponto de não precisar de legendas explicativas) e emocionante em diversos momentos - principalmente quando não tem medo de mostrar a extrema violência física e psicológica sofrida pelos negros - o filme pode até ser acusado de um certo maniqueísmo, mas tem a coragem de questionar a lealdade do protagonista ao mesmo tempo em que compreende sua ideologia de fidelidade extrema e absoluta: a cena em que pai e filho discutem violentamente sobre a imagem de Sidney Poitier (epítome do negro quase branco, aceito pelo mainstream americano nos anos 60 e renegado pelo ativismo radical justamente por esse motivo) é forte e exemplifica com perfeição a dubiedade dos sentimentos da família Gaines - além de permitir a Whitaker e Winfrey um de seus melhores momentos.

Aliás, se existe um outro grande motivo para se assistir a "O mordomo da Casa Branca" é o elenco reunido por Daniels: além de Mariah Carey (em uma participação mínima) e Lenny Kravitz - que já haviam trabalhado com o diretor em "Preciosa", o filme é um desfile de grandes atores em participações especiais (e muitas vezes com maquiagem que quase os deixa irreconhecíveis). É um prazer à parte ver nomes tão díspares quanto Alan Rickman, James Marsden, Liev Schreiber, John Cusack, Vanessa Redgrave, Cuba Gooding Jr., Terrence Howard e a sumida Jane Fonda em um filme com importância social tão fundamental - e não é difícil imaginar que sua inclusão no elenco tem muito a ver com suas próprias agendas políticas. É importante também perceber que o exagero do filme anterior do cineasta - o polêmico e exagerado "Obessão" - parece ter sido definitivamente enterrado, diante de uma obra tão carinhosa quanto essa.

"O mordomo da Casa Branca", ao contrário do apregoado, não tem nada a ver com "Histórias cruzadas", o superestimado que deu a Octavia Spencer o Oscar de atriz coadjuvante em 2012. Enquanto a obra de Tate Taylor era hipócrita a ponto de ter uma protagonista branca para salvar os negros oprimidos, o filme de Daniels dá aos próprios o poder de mudar sua história, lutando até o fim por seus direitos e enfrentando o sistema estabelecido. E se havia espaço para o humor escatológico e sem graça no primeiro, em "O mordomo" o registro é mais sério e apropriado ao tema. Pode não ser uma obra-prima, mas é comovente, relevante e redondinho. Merece ser apreciado por suas inúmeras qualidades.

quarta-feira

INSÔNIA

INSÔNIA (Inmsonia, 2002, Alcon Entertainment, 118min) Direção: Christopher Nolan. Roteiro: Hilary Seitz, roteiro original de Nikolaj Frobenius, Erik Skjoldbjaerg. Fotografia: Wally Pfister. Montagem: Dody Dorn. Música: David Julyan. Figurino: Tish Monaghan. Direção de arte/cenários: Nathan Crowley/Peter Lando. Produção executiva: George Clooney, Kim Roth, Charles J.D. Schlissel, Steven Soderbergh, Tony Thomas. Produção: Broderick Johnson, Paul Junger Witt, Andrew A. Kosove, Edward L. McDonnell. Elenco: Al Pacino, Robin Williams, Hilary Swank, Martin Donovan, Maura Tierney, Nicky Katt, Paul Dooley. Estreia: 03/5/02 (Festival de Tribeca)

Christopher Nolan ainda não era o cineasta reconhecido por ter transformado Batman em uma das mais lucrativas séries da história do cinema quando assumiu a direção de "Insônia", refilmagem de um suspense sueco que reunia três atores vencedores do Oscar - Al Pacino, Hilary Swank e Robin Williams, este último exercitando sua escolha por papéis de vilão que direcionou sua carreira depois de alguns fracassos de bilheteria. A escolha de Nolan para a direção, no entanto, não foi gratuita: quando entrou no projeto, ele já havia assinado um filme policial que deixou de queixo caído a crítica e o público, além de ter concorrido ao Oscar de roteiro original, o fabuloso "Amnésia". Talentoso, criativo e ousado, o cineasta transformou uma trama policial comum em um instigante estudo sobre culpa, obsessão e ética que, mesmo sem ter sido um estrondo de bilheteria mostrou que o diretor tinha a manha de conseguir injetar qualidade e inteligência a um entretenimento popular - o que se comprovaria com os filmes do homem-morcego e seus demais trabalhos.

Para adaptar a trama a uma lógica convincente, "Insônia" teve o cenário de seu original - a Suécia - transferido para uma pequena cidade do Alasca chamada Nightmute. É para lá que se dirigem dois policiais de Los Angeles, Will Dormer (Al Pacino, fenomenal) e Hap Eckhart (Martin Donovan), com o objetivo de investigar o assassinato de uma adolescente local. Entre interrogatórios com os colegas e familiares da vítima, Dormer e Hap contam com a ajuda de dois colegas locais, a dedicada Ellie Burr (Hilary Swank) e o caipira Fred Duggar (Nicky Katt), que ignoram o fato de que os dois forasteiros estão passando por um turbilhão profissional: Hap está em vias de revelar a seus superiores irregularidades cometidas por seu parceiro em um caso antigo e tal possibilidade está deixando sua amizade em uma perigosa corda-bamba. Quando, durante a perseguição a um dos suspeitos do crime Dormer mata o colega com um tiro, ele entra em uma séria crise de insônia, agravada pelo fato de a cidade não ter noites. Para piorar a situação, ele passa a ser chantageado pelo criminoso, o escritor de livros de suspense Walter Finch (Robin Williams), que testemunhou o acontecido e ameaça denunciar-lhe por homicídio.


Um suspense policial bem construído e centrado em personagens fortes mais do que em uma trama rocambolesca, "Insônia" mergulha o espectador em um universo claustrofóbico de mentiras, meias-verdades e tênues divisões entre o bem e o mal, sublinhadas por diálogos de substância e uma direção firme, que nunca resvala para o clichê. Concentrando seu foco nas relações entre Dormer e Finch - e sua possível conexão forjada através das mortes a que estão ligados - e entre Dormer e a idealista Ellie Burr - que vê nele um exemplo a ser seguido até que passa a desconfiar que seu herói tem tantos defeitos quanto qualidades e se vê diante de um dilema ético e moral - o roteiro de Hilary Seitz (que sofreu alterações feitas pelo próprio Nolan) desvia-se com segurança da linha de investigação criminal que lhe jogaria fatalmente na vala das produções banais do gênero para buscar mais consistência dramática - sem nunca deixar de lado, porém, o tom de tensão necessário para manter o espectador grudado na poltrona. Ao mesmo tempo em que acompanha o trabalho policial dos personagens, o público é brindado com uma história séria e intensa a respeito dos meandros da lei e de como é flexível o limite entre o certo e o errado quando o assunto é a violência.

E para sorte de Nolan o elenco responde à altura do roteiro, com interpretações que dão o peso exato à cada diálogo e à cada cena. Se Hilary Swank pouco tem a fazer com sua personagem até o terço final, quando torna-se peça fundamental para o desfecho, Robin Williams e Al Pacino - especialmente o último - dão um show à parte, elevando o nível do filme bem acima da média do gênero. A conversa entre policial e criminoso em um barco, por exemplo, é hipnótica e é um exemplo perfeito da química espetacular entre os dois grandes atores em um ótimo momento de suas carreiras, assim como a ótima sequência em que um devastado Dormer confessa à gerente do hotel onde está hospedado (e tentando dormir há dias, sem sucesso) os fatos trágicos que levaram à morte de seu parceiro. É drama de primeira, unido a uma história policial que não subestima a inteligência da plateia. Mesmo sem o brilhantismo dos filmes posteriores de Nolan, é um passatempo de primeira categoria.

terça-feira

RETRATOS DE UMA OBSESSÃO

RETRATOS DE UMA OBSESSÃO (One hour photo, 2002, Fox Searchlight Pictures, 96min) Direção e roteiro: Mark Romanek. Fotografia: Jeff Cronenweth. Montagem: Jeffrey Ford. Música: Reinhold Heil, Johnny Klimek. Figurino: Arianne Philips. Direção de arte/cenários: Tom Foden/Tessa Posnansky. Produção executiva: Jeremy W. Barber, Robert B. Sturm, John Wells. Produção: Pamela Koffler, Christine Vachon, Stan Wlodkowski. Elenco: Robin Williams, Connie Nielsen, Michael Vartan, Gary Cole, Eriq LaSalle. Estreia: 13/01/02 (Festival de Sundance)

Consagrado como humorista, aclamado como ator dramático e adorado pelas plateias, Robin Wiiliams estava em uma encruzilhada artística no início do século: com dois fracassos seguidos de bilheteria - os tenebrosos "Um sinal de esperança" e "O homem bicentenário" - ele precisava urgentemente reinventar-se como astro de cinema, sob pena de tornar-se mais uma vítima da maldição do Oscar, que havia conquistado como coadjuvante de "Gênio indomável". A forma encontrada para solucionar tal problema acabou por mostrar-se bastante eficiente, se não em termos comerciais ao menos para devolver-lhe o status de bom intérprete: mostrar o lado sombrio de sua alma, em filmes onde pudesse explorar personalidades doentias e/ou perigosas, que contrastavam com o perfil solar e agradável com que vinha brindando a plateia até então. Antes que estreasse "Insônia" - um projeto mais ambicioso, dirigido por um Christopher Nolan pós-"Amnésia" mas ainda pré-"Batman begins" e estrelado pelos também oscarizados Al Pacino e Hilary Swank - ele surgiu irreconhecível e sinistro no suspense "Retratos de uma obsessão", que surpreendeu a audiência do Festival de Sundance e lhe rendeu aplausos entusiasmados.

Escrito e dirigido sem obviedades pelo estreante em longas-metragem Mark Romanek - oriundo do universo do videoclipe, onde assinou trabalhos com Madonna, Michael Jackson, Morrissey e REM, entre outros - o filme foge da violência gratuita e do suspense barato ao criar um universo de rimo próprio e visual asséptico, que reflete a mentalidade vazia e obsessiva de seu protagonista, um vilão atípico, que esconde, por trás de um constante sorriso e de uma gentileza quase exagerada, uma doentia dedicação profissional que só pode terminar em tragédia. O olhar vazio, a delicadeza de gestos e a absoluta falta de senso de humor - ao menos aquele pelo qual ele é conhecido - fazem de Sy Parrish, o personagem interpretado por Williams no filme, o mais angustiante de sua carreira, especialmente porque o roteiro de Romanek não faz dele um super-humano dotado de poderes. Parrish é uma pessoa como outra qualquer, que pode fazer parte da vida de qualquer um mesmo despercebidamente. E é isso que faz dele tão desconfortavelmente real.


No filme de Romanek - que evita sustos constantes e faz uso inteligente da trilha sonora discreta - Sy Parrish é o solícito funcionário de um quiosque de revelação de filmes fotográficos localizado dentro de uma grande loja de departamentos. Solitário e introvertido, ele vive através das fotografias que revela, conhecendo os momentos mais felizes de seus clientes - sua teoria é que ninguém fotografa tristezas, por não querer relembrá-las no futuro. Sua extrema fascinação e dedicação ao trabalho é ainda mais radical quando se trata dos Yorkin, uma família aparentemente perfeita cuja trajetória de felicidade e realizações ele acompanha há quase uma década, com uma fidelidade canina que o faz inclusive decorar a parede de seu apartamento com todas as fotos reveladas pelo casal e seu filho pequeno. Sentindo-se parte integrante da família, Parrish entra em desespero quando descobre que Will (Michael Vartan, apático e quase canastrão) não é o marido perfeito que deveria ser: não só tem uma amante como registra seus momentos românticos com ela - uma espécie de conspurcamento de sua profissão. Enfurecido com a situação, ele toma as dores de sua adorada Nina (Connie Nielsen) e planeja uma vingança inesperada e cruel.

Arquitetando com cuidado cada sequência como forma de preparar um clímax tanto surpreendente - pela ausência de violência física, pela construção gradativa de tensão e pelo inusitado da resolução - quanto angustiante, Mark Romanek acerta em fugir dos clichês do gênero, evitando com maestria seguir os caminhos mais fáceis e preferindo enfatizar as características sinistras de seu protagonista, que encontra o intérprete ideal em Robin Williams. Transmitindo uma sensação de constante perigo através de seus sorrisos, Williams entrega um trabalho que equilibra como poucos em sua carreira o dramático e o assustador - sua aproximação à Nina através de um livro de Deepak Chopra e de seu filho com presentes aparentemente sem segundas intenções apavoram mais do que litros e litros de sangue. No caso do filme de Romanek, menos é mais. E o público que gosta de inteligência quando assiste a um suspense não tem do que se queixar.

sábado

HAMLET

HAMLET (Hamlet, 1996, Castle Rock Entertainment, 238min) Direção: Kenneth Branagh. Roteiro: Kenneth Branagh, peça teatral de William Shakespeare. Fotografia: Alex Thomson. Montagem: Neil Farrell. Música: Patrick Doyle. Figurino: Alexandra Byrne. Direção de arte/cenários: Tim Harvey. Produção: David Barron. Elenco: Kenneth Branagh, Derek Jacobi, Julie Christie, Kate Winslet, Brian Blessed, Richard Briers, Rufus Sewell, Michael Maloney, Richard Attenborough, Billy Crystal, Judi Dench, Gérard Depardieu, John Gielgud, Rosemary Harris, Charlton Heston, Jack Lemmon, Timothy Spall, Robin Williams. Estreia: 25/12/96

4 indicações ao Oscar: Roteiro Adaptado, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários

Uma das mais clássicas manifestações artísticas da loucura - ou do arremedo de uma - acabou tornando-se uma das mais ousadas produções cinematográficas da década de 90 e quiçá da história da sétima arte. Conhecido por suas adaptações da obra do dramaturgo William Shakespeare para o cinema, o irlandês Kenneth Branagh - que já havia dirigido "Henry V" (89) e "Muito barulho por nada" (93) e atuado como Iago em "Othello" (96) - arriscou sua reputação e seu prestígio ao transpor o mais clássico dos clássicos do bardo, palavra por palavra, para as telas. Brilhantemente produzido, interpretado por um elenco estrelado que se dá ao luxo de ter Charlton Heston, Gérard Depardieu e Jack Lemmon em pontas e longo a ponto de testar os limites de paciência do público - poucos minutos menos de quatro horas de duração - o "Hamlet" de Branagh (e pode-se dizer sem medo, o "Hamlet" definitivo do cinema) pode assustar até ao mais fervoroso purista com sua fidelidade canina ao texto original, mas, graças à direção segura e inteligente, a uma edição cirurgicamente precisa e a um elenco impecável, sobressai-se às demais adaptações pelo ritmo pulsante e pela modernidade visual impressa em cada fotograma. Realizado com meros 18 milhões de dólares - um trocado perto dos orçamentos milionários que assustavam os executivos dos estúdios à época - o filme de Kenneth Branagh é assombrosamente deslumbrante e um presente para os fãs de bom cinema e bom teatro.

Uma das histórias mais conhecidas da literatura mundial, "Hamlet" só chegou às telas com tal opulência visual e ousadia narrativa - que não oprime uma linha sequer do texto original - graças à teimosia de seu diretor e ator principal, que rondou por mais de um ano de estúdio em estúdio de Hollywood tentando financiamento para um projeto que todos consideravam fadado ao fracasso. Não é difícil imaginar os motivos para tanta recusa: não apenas Branagh batia pé nas quatro horas de duração de seu filme como tinha ainda que lidar com a bilheteria decepcionante e as críticas negativas de seu filme anterior, "Frankenstein de Mary Shelley", que não havia tido o desempenho esperado pelos produtores. Além do mais, Shakespeare estava se tornando arroz de festa na terra do cinema, sendo adaptado de todas as formas possíveis e imagináveis - até mesmo o australiano Baz Luhrmann estava a caminho de lançar uma versão psicodélica de "Romeu e Julieta", estrelado por Leonardo DiCaprio e o próprio "Hamlet" já havia sido refilmado recentemente por Franco Zefirelli, com Mel Gibson no papel principal. Tudo conspirava contra o irlandês, até que a Castle Rock tomou coragem e, com poucas exigências finais (um elenco com atores conhecidos e uma versão editada para lançamento mundial) deixou que o cineasta fosse em frente. É impossível assistir-se ao resultado final sem um suspiro de agradecimento profundo à sua coragem.


Mesmo acima da idade para interpretar o papel principal, Kenneth Branagh é o corpo e a alma de "Hamlet", a energia que contagia a todos e o estopim de uma trama recheada de traições vis, paixões avassaladoras, ódios arraigados e uma coleção de mortes das mais conhecidas do teatro universal - que em suas mãos soa fresca e reluzente como se tivesse sido escrita há dois dias. Para quem não sabe, se é que alguém não sabe, tudo começa quando o jovem príncipe Hamlet volta à sua Dinamarca natal para os funerais de seu pai (Brian Blessed) e para as novas núpcias de sua mãe, Gertrude (Julie Christie), que, mal esperou quatro meses para casar-se com o cunhado, Claudius (Derek Jacobi), novo rei do país. Infeliz com a situação, o príncipe fica ainda mais movido ao ódio quando o fantasma de seu progenitor lhe aparece, acusando o irmão de tê-lo assassinado para roubar-lhe a esposa e o trono. Com o objetivo de vingar a morte do pai, Hamlet inicia um plano ambicioso - que envolve fingir uma loucura que ele pode mesmo portar, um grupo de atores mambembes que recebe no palácio com o objetivo de impulsionar uma confissão do tio e até a mulher que ama, a doce Ofélia (Kate Winslet).

Mais do que simplesmente contar com cada detalhe - por mais insignificante que ele possa parecer - a história criada por Shakespeare, Kenneth Branagh consegue, em seu filme, o que havia conseguido apenas parcialmente em suas adaptações anteriores: fazer com que o texto extremamente teatral da peça caiba com perfeição na tela de cinema - no caso, em formato 65mm, que lhe permitiu alcançar um visual mais clássico que buscava com o objetivo de aproximar o filme de um cinema mais visualmente atraente e que só voltou a ser utilizado em 2012, quando Paul Thomas Anderson filmou seu "O mestre". Seu objetivo é plenamente atingido quando a plateia testemunha momentos de pura poesia visual, enfatizada pela fotografia esplêndida de Alex Thomson e pela direção de arte irretocável que concorreu ao Oscar - assim como o figurino de Alexandra Byrne, a música de Patrick Doyle e o roteiro do próprio diretor. Pulsante, passional e por vezes exaustivamente emocionante, "Hamlet" é a mais perfeita combinação entre cinema e teatro já realizada. Uma obra-prima de grandes proporções.

sexta-feira

JACK

JACK (Jack, 1996, American Zoetrope/Hollywood Pictures/Great Oaks, 113min) Direção: Francis Ford Coppola. Roteiro: James DeMonaco, Gary Nadeau. Fotografia: John Toll. Montagem: Barry Malkin. Música: Michael Kamen. Figurino: Aggie Guerard-Rodgers. Direção de arte/cenários: Dean Tavoularis/Armin Ganz, Barbara Munch. Produção executiva: Doug Claybourne. Produção: Francis Ford Coppola, Fred Fuchs, Ricardo Mestres. Elenco: Robin Williams, Diane Lane, Jennifer Lopez, Bill Cosby, Fran Drescher, Brian Kerwin, Adam Zolotin, Todd Bosley. Estreia: 09/9/96

Entre obras-primas incontestáveis ("O poderoso chefão"), projetos pessoais "("A conversação"), produções ambiciosas e complicadas ("Apocalypse now") e filmes sob encomenda ("Vidas sem rumo"), Francis Ford Coppola às vezes surpreende o público e a indústria de cinema com coisas como "Jack", um delicado e sincero conto infanto-juvenil que substitui a pretensão comercial e artística normalmente contidas em sua filmografia pela ambição pura e simples de contar uma história - que, afinal de contas é o cerne do cinema desde sua invenção. É de se questionar se o imenso talento cabe em obras tão minimalistas, mas o fato é que sempre é uma delícia se deixar entreter por alguém que sabe exatamente o que está fazendo. "Jack" pode não ser um filme extraordinário - está longe disso, aliás - mas dentro que se propõe, é um sopro de ar fresco em um cinema tão violento e inconsequente quanto o de Hollywood. Apenas uma dúvida persiste em seu final: é um filme infanto-juvenil com alma adulta, ou um filme adulto com alma juvenil?

"Jack" se aproveita de uma condição médica real chamada Sìndrome de Werner para, exagerando-a com fins dramáticos, contar a história de um menino de dez anos, Jack Powell, que, crescendo quatro vezes mais do que o normal, entra na escola pela primeira vez com a aparência de um homem de 40 anos. As angústias, situações cômicas e momentos de extrema emoção provenientes de tal situação são o recheio do roteiro de uma obra que usa e abusa de artifícios questionáveis para conquistar a plateia infantil - piadas sobre excrementos, escatologia visual - e esquece com frequência da outra parcela de sua audiência, que precisa contentar-se com situações nem sempre tão engraçadas como poderiam - as que envolvem a mãe de um dos colegas de Jack, que o confunde com o diretor da escola e é vivida pela ótima Fran Drescher, da série de TV "The Nanny" - e alguns momentos de emoção genuína que valem o filme, especialmente quando valorizadas pela atuação caprichada de Diane Lane como a mãe do protagonista, uma mulher tentando da melhor maneira possível lidar com a grande surpresa que o destino lhe fez.


"Jack" começa já mostrando de forma inteligente a peculiaridade de seu protagonista: a bela Karen Powell (Lane) está se divertindo em uma festa à fantasia, ao lado do marido, quando começa a sentir violentas contrações, incoerentes com seus meros dois meses de gravidez. Para sua surpresa, porém, ao chegar ao hospital, ela dá à luz um bebê saudável, forte e de tamanho condizente com um recém-nascido normal. Logo depois os médicos explicam a ela e a seu marido, Brian (Brian Kerwin), que Jack sofre de uma condição rara que o fará apresentar um crescimento celular desproporcional à sua idade. Preocupados, os pais de primeira viagem tomam a decisão de educar o menino dentro de casa, com um professor particular, o dedicado Dr. Woodruff (Bill Cosby). Dez anos depois, porém, eles não conseguem mais impedir seu filho - um menino tímido e solitário, que é vítima do falatório das crianças da vizinhança - se esconda do mundo, e, a pedido dele mesmo, o matriculam em uma escola normal. Lá, ele tem a proteção da professora, Miss Marquez (Jennifer Lopez) e, depois de sofrer certa discriminação por algum tempo, faz amizade com Louie (Adam Zolotin), um aluno-problema que lhe mostra as alegrias de ser criança.

É inegável o foco de Coppola na relação entre Jack e sua turma de novos amigos, um grupo de meninos endiabrados que vivem uma infância como aquelas de antigamente - com casa na árvore e rituais de passagem incluídos no pacote - em detrimento de um crescimento mais condizente com a época em que se passa a trama. Essa nostalgia (e não anacronia como possa parecer) dá um encanto a mais ao filme, permitindo ao espectador uma viagem à inocência da infância, aos sabores de um amadurecimento não mais permitido em um período tão repleto de tecnologia e individualismo (mesmo que a maior parte do filme se passe em 1996, ou seja, pré-uso massivo de celulares e internet, é impossível deixar de perceber o carinho do cineasta pela época em que crianças brincavam entre si e não apenas com seus computadores. Talvez não seja o ponto principal do roteiro, mas a ideia fica ainda mais clara hoje em dia).

E se as boas intenções do roteiro - e sua sensibilidade doce que se enfatiza no terço final - já são motivo o bastante para uma espiada em "Jack", ainda existe seu maior trunfo: a escalação de seu ator central. Poucos atores em Hollywood seria opção mais acertada do que Robin Williams, um adulto com alma de criança que já havia deixado a indústria de joelhos com os sucessos consecutivos de "Aladim" - no qual dublou com perfeição absoluta o Gênio da Lâmpada - e "Uma babá quase perfeita" - que encheu os cofres da 20th Century Fox. Na pele do inquieto Jack, ele não apenas recria as atitudes e maneirismos de uma criança de dez anos de idade: ele se transforma em uma, da mesma forma como Tom Hanks já havia feito com maestria em "Quero ser grande", que lhe valeu uma indicação ao Oscar. Williams não foi lembrado pela Academia dessa vez (só seria premiado dois anos depois, como coadjuvante por "Gênio indomável"), mas provou, mais uma vez, que era um ator extraordinário, capaz de fazer brilhar os roteiros mais simples que lhe caíssem às mãos. Ele é o maior motivo para se assistir a esse pequeno Francis Ford Coppola.

sábado

UMA BABÁ QUASE PERFEITA

UMA BABÁ QUASE PERFEITA (Mrs. Doubtfire, 1993, 20th Century Fox, 125min) Direção: Chris Columbus. Roteiro: Randi Mayem Singer, Leslie Dixon, romance "Alias Madame Doubtfire", de Anne Fine. Fotografia: Donald McAlpine. Montagem: Raja Gosnell. Música: Howard Shore. Figurino: Marit Allen. Direção de arte/cenários: Angelo Graham/Garrett Lewis. Produção executiva: Matthew Rushton. Produção: Mark Radcliffe, Robin Williams. Elenco: Robin Williams, Sally Field, Pierce Brosnan, Harvey Fierstein, Lisa Jakub, Matthew Lawrence, Mara Wilson, Robert Prosky. Estreia: 24/11/93

Vencedor do Oscar de Melhor Maquiagem
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme Comédia/Musical, Melhor Ator Comédia/Musical (Robin Williams) 

Em 1992, o ator Robin Williams foi do céu ao inferno em termos de bilheteria: enquanto a anti-belicista comédia "Toys, a revolta dos brinquedos", de Barry Levinson não despertou o interesse de ninguém da plateia e saiu de cartaz como se nunca tivesse existido, a animação "Aladim" se tornou um dos maiores sucessos comerciais do ano e lhe rendeu um Golden Globe especial pela dublagem do gênio da lâmpada, uma dos maiores (senão a maior) qualidade da produção. Esse seu talento para a improvisação e para o humor escrachado já havia sido o maior responsável por sua primeira indicação ao Oscar, em 1987, por "Bom dia, Vietnã", do mesmo Levinson, mas parecia ter sumido em seus trabalhos seguintes no cinema, onde explorou (muito bem) seu lado de ator dramático. Indicado outras duas vezes ao Oscar de melhor ator - pelo inesquecível "Sociedade dos poetas mortos" (90) e pelo lúdico "O pescador de ilusões" (91) - Williams devia a seu público uma comédia que lhe devolvesse o status de humorista que havia conquistado nos palcos americanos. Foi então que ele apareceu com "Uma babá quase perfeita", um filme pequeno (25 milhões de dólares de orçamento) que acabou sua carreira nos cinemas americanos com mais de 200 milhões arrecadados e dois Golden Globes na prateleira: melhor comédia e melhor ator em comédia/musical.

Dirigido por Chris Columbus - um especialista em filmes para a família que tinha entre seus êxitos o mastodôntico sucesso "Esqueceram de mim" (90) - "Uma babá quase perfeita" tem como objetivo puro e único o entretenimento, sem ambições outras que não fazer a plateia rir do começo ao fim. Com Williams em cena, isso não é nada difícil. Dotado de um histrionismo nato e um timing cômico impecável, ele deita e rola na pele de Daniel Hillard, um ator desempregado que passa pelo pior período de sua vida: não apenas ele está sem trabalhar no que ama (e é obrigado a um serviço pouco empolgante nos bastidores de uma emissora de TV local) como acaba de se divorciar da esposa, Miranda (Sally Field), uma bem-sucedida arquiteta que cansou-se sua pretensa irresponsabilidade. Inconformado com a determinação judicial que lhe permite ver seus três filhos apenas uma vez por semana, Daniel tem uma ideia maquiavélica: sabendo que Miranda está à procura de uma governanta que fique com as crianças no período pós-escola, ele cria, com a ajuda de seu irmão maquiador e seu talento para a atuação, a babá perfeita: Mrs. Doubtfire, uma inglesa sessentona, de modos rígidos e dona de um currículo invejável. Obviamente Miranda cai de amores pela nova empregada - e Daniel aproveita a situação para colocar areia no novo interesse romântico da ex-mulher, o antigo namorado Stuart (Pierce Brosnan).


Desvencilhando-se facilmente do estigma de ser um filme de uma piada só, "Uma babá quase perfeita" consegue, ao mesmo tempo, ser uma comédia pastelão da melhor estirpe - com Williams vendo seus seios de mentira pegando fogo, sua máscara voando pela janela e sua dentadura caindo dentro de um copo de vinho no meio de um jantar - e um sofisticado manancial de citações culturais contemporâneas vindas da metralhadora giratória que é o ator - são lembrados, visual ou verbalmente, Barbra Streisand, "Psicose", "Crepúsculo dos deuses" e "Dança com lobos", entre outros. Essa mescla de humor popular com a sutileza da comédia referencial talvez tenha sido, ao lado do talento de seu protagonista, o responsável pelo filme ter agradado tanto e à tanta gente. É difícil escapar das risadas em "Uma babá quase perfeita", seja das palhaçadas visuais criadas por Columbus e Williams ou pelo crescendo de situações embaraçosas que o roteiro vai criando crescentemente até o clímax - engraçadíssimo - em um restaurante sofisticado, onde Daniel (e Mrs. Doubtfire) estão presentes ao mesmo tempo. Só vendo para entender.

Contando ainda com a simpatia natural de Sally Field como Miranda Hillard e o futuro 007 Pierce Brosnan como o rival do protagonista - além de uma maquiagem extraordinária que levou o Oscar da categoria - "Uma babá quase perfeita" ainda arruma espaço para a emoção: dificilmente filhos de pais separados conseguem segurar as lágrimas em seus momentos finais, repletos de uma sinceridade ímpar que conquistaram milhares de espectadores pelo mundo. Uma feliz reunião de ingenuidade, bom humor e o talento único de Robin Williams em fazer rir e chorar, é um filme sem contra-indicações, capaz de agradar aos pais, aos filhos e aos mau-humorados de plantão. Um triunfo do humor.

domingo

O PESCADOR DE ILUSÕES

O PESCADOR DE ILUSÕES (The fisher king, 1991, Columbia Pictures, 137min) Direção: Terry Gillian. Roteiro: Richard LaGravenese. Fotografia: Roger Pratt. Montagem: Lesley Walker. Música: George Fenton. Figurino: Beatrix Pasztor. Direção de arte/cenários: Mel Bourne/Cindy Carr. Produção: Debra Hill, Lynda Obst. Elenco: Robin Williams, Jeff Bridges, Amanda Plummer, Mercedes Ruhel, David Hyde Pierce. Estreia: 13/9/91 (Festival de Toronto)

5 indicações ao Oscar: Ator (Robin Williams), Atriz Coadjuvante (Mercedes Ruehl), Roteiro Original, Trilha Sonora Original, Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Mercedes Ruehl)
Vencedor de 2 Golden Globes: Ator Comédia/Musical (Robin Williams), Atriz Coadjuvante (Mercedes Ruehl) 

Mendigos. Irresponsabilidade da mídia. Depressão. Solidão. A busca pelo Santo Graal. Não é preciso ser um analista comercial para perceber que elementos tão díspares não são exatamente o que um estúdio cioso de suas finanças procura quando deseja lançar um filme - principalmente quando o diretor escolhido é um ex-integrante de uma trupe inglesa famosa por não deixar pedra sobre pedra quando se trata de retratar a sociedade, o Monthy Python. Por que, então, já que une todos esses ingredientes tão amargos, "O pescador de ilusões" caiu tanto na graça de todo mundo, a ponto de ter sido apontado, já em sua estreia no Festival de Toronto, como um dos mais fortes candidatos ao Oscar do ano? Simplesmente porque a amizade travada entre um radialista caído em desgraça e um mendigo delirante com um passado trágico, dirigida com extrema sensibilidade por Terry Gillian - cujo trabalho anterior, "As aventuras do Barão de Munchausen" (89) deu mais trabalho do que dinheiro - é um daqueles filmes de aquecer o coração, sem que para isso precise apelar para o sentimentalismo ou os clichês. É uma pérola de poesia, uma tragicomédia enfeitada com diálogos preciosos e atuações nunca aquém de espetaculares.

Quando o filme começa, o radialista Jack Lucas (Jeff Bridges, brilhante) está no auge do sucesso com seu programa onde fala pelos cotovelos contra tudo e contra todos. Em vias de assinar um contrato milionário para estrear no cinema, ele acaba vendo seus conselhos irresponsáveis causarem uma tragédia: um de seus ouvintes, menos capacitados a filtrar o que é ironia ou não em seus discursos demagogos, invade um restaurante com uma arma, mata sete pessoas e se suicida em seguida. Três anos depois, Jack está na pior: vive de favor na casa da compreensiva e dedicada namorada, Anne (Mercedes Ruehl, ótima em todas as cenas), a dona de uma locadora de vídeo, está desempregado e passando por uma séria crise de depressão. Uma noite, bêbado e em vias de ser espancado por um grupo de jovens delinquentes (incluindo um iniciante Dan Futterman, que anos depois seria indicado ao Oscar de roteiro adaptado por "Capote"), ele é resgatado por Parry (Robin Williams), um mendigo que, conforme ele fica sabendo a seguir, tem como objetivo na vida resgatar o Santo Graal - o cálice utilizado por Cristo na Última Ceia - da casa de um milionário nova-iorquino. A perspectiva de Jack a respeito de Parry - a quem a princípio considera apenas mais um sem-teto da cidade - se transforma radicalmente, porém, quando ele descobre o passado do excêntrico novo amigo: professor de História renomado e conceituado, ele foi parar nas ruas depois de um período de catatonia provocado pelo assassinato da esposa - justamente pelo ouvinte radical de Jack. Sentindo-se responsável pelo destino de Parry, ele então decide ajudar-lhe a conquistar o coração de sua nova amada, a estranha Lydia (Amanda Plummer).


Fotografado com assustadora competência por Roger Pratt, que encontra beleza e poesia mesmo nos becos mais sujos e perigosos de Nova York, "O pescador de ilusões" tem na sensibilidade um dos seus pontos mais altos: sem preocupar-se com a lógica ou com o realismo, Terry Gillian surpreende o espectador com sequências deslumbrantes e mágicas, como o baile inusitado em meio ao burburinho da estação de metrô da cidade quando Parry vê Lydia passando ou a sui generis reconstituição, em um hospital público, da "Pietá", de Michelangelo, protagonizada por Jack e um mendigo homossexual que tem por hábito imitar números musicais pelas ruas. Esses momentos lúdicos - e aqueles em que Parry precisa enfrentar seu maior medo, um cavaleiro medieval vestido de vermelho que lança fogo pelas ruas - não deixam, no entanto, que o filme perca sua essência totalmente humana. O roteiro de Richard LaGravenese - que concorreu ao Oscar da categoria mas perdeu para o sensacional "Thelma & Louise" - é recheado de bons diálogos, sustentados por personagens sólidos, que conquistam pela veracidade com que transmitem seus sentimentos, por mais bizarros que possam parecer em um primeiro vislumbre. E é seu mérito que nenhum dos quatro protagonistas seja unidimensional, sempre pegando o espectador de surpresa com atitudes raras em uma produção comercial hollywoodiana.

E na verdade, "O pescador de ilusões" pode parecer tudo, menos uma típica produção hollywoodiana. Não fosse pela presença de nomes conhecidos no elenco, como os de Robin Williams (indicado ao Oscar por sua performance) e Jeff Bridges, poderia facilmente passar por um filme europeu, por suas escolhas pouco convencionais de narrativa, por seu visual que foge dos clichês cartões-postais e até mesmo por seu transgressor final feliz, que renega as expectativas construídas para deixar a plateia com um sorriso no rosto, feliz por ter investido pouco mais de duas horas em um dos mais satisfatórios dramas americanos dos anos 90. Um filme praticamente sem erros, é, sem dúvida, a obra-prima da carreira de Terry Gillian.

quinta-feira

VOLTAR A MORRER

VOLTAR A MORRER (Dead again, 1991, Paramount Pictures, 107min) Direção: Kenneth Branagh. Roteiro: Scott Frank. Fotografia: Matthew F. Leonetti. Montagem: Peter E. Berger. Música: Patrick Doyle. Figurino: Phyllis Dalton. Direção de arte/cenários: Tim Harvey/Jerry Adams. Produção executiva: Sydney Pollack. Produção: Lindsay Doran, Charles H. Maguire. Elenco: Kenneth Branagh, Emma Thompson, Derek Jacobi, Andy Garcia, Robin Williams, Hanna Schygulla, Campbel Scott, Wayne Knight. Estreia: 30/8/91

Em 1990 o cineasta irlandês Kenneth Branagh pegou o mundo de surpresa com sua visceral adaptação cinematográfica de "Henry V", de Shakespeare, pela qual foi indicado aos Oscar de ator e direção. Sua estreia nos auspícios do cinema hollywoodiano, então, surpreendeu ainda mais: quando todos esperavam uma nova versão para as telas da obra do bardo - coisa que ele faria posteriormente com o solar "Muito barulho por nada" (93) e o sublime "Hamlet" (96) - o jovem cineasta, então com meros 30 anos de idade resolveu brincar de Hitchcock. Com base em um roteiro do também jovem Scott Frank, Branagh apresentou à audiência o intrigante "Voltar a morrer", um suspense clássico com pitadas de espiritualidade - em voga desde o impressionante êxito de "Ghost, do outro lado da vida" (90), coincidentemente ou não produzido pela mesma Paramount Pictures - e um tom de seriedade sublinhado pela trilha sonora de Patrick Doyle e pelo genial elenco, que mesclava grandes atores ingleses (como a então sra. Branagh, Emma Thompson e o veterano Derek Jacobi), a musa alemã Hannah Schygulla e os hollywoodianos Robin Williams e Andy Garcia.

Não é preciso acreditar em vidas passadas e reencarnação para se envolver com a trama de "Voltar a morrer", mas é bom que se mantenha a mente aberta para melhor usufruir de todas as surpresas do filme, que começa como um policial típico dos anos 90 para depois seguir uma trilha com ecos metafísicos que funcionam com perfeição à trama - e lhe dão o molho especial que o destaca entre seus congêneres: tudo se passa em Los Angeles, quando o detetive Mike Church (Branagh com um convincente sotaque americano) é procurado pelo orfanato onde foi criado para investigar a identidade de uma mulher encontrada vagando muda pelas ruas da cidade (Emma Thompson). A contragosto - mas de certa forma atraído pela desconhecida, Church acaba postando um anúncio de jornal em busca de informações a seu respeito. Quem chega até seu apartamento é o misterioso Franklyn Madson (Derek Jacobi), dono de um antiquário que também trabalha como hipnotista e se oferece para, através de sessões em sua casa, tentar descobrir a identidade da desmemoriada. Durante uma dessas sessões, ele descobre que ela é a reencarnação de Margaret Strauss (também Thompson), música que, quarenta anos antes, foi assassinada a tesouradas pelo marido, o maestro europeu Roman (novamente Branagh).


Convencidos por Cozy Carlisle (Robin Williams) - um psiquiatra que teve seus direitos de exercer a profissão cassados por dormir com suas pacientes - de que seu reencontro na década de 90 tem a ver com as teorias de reencarnação, Church e Grace (o nome real da artista plástica, que tem a identidade recuperada através de investigações mais profundas do detetive) chegam à conclusão de que são, na verdade, a nova vida do casal Strauss, que, no final da década de 40, estampou as manchetes dos jornais com seu sangrento final - ela assassinada, ele condenado à morte. Certa de que Church está disposto a matá-la como forma de reviver o passado, Grace se afasta dele, mas uma reviravolta muda todo o jogo quando novas cartas são postas na mesa - e Church consegue localizar Gray Baker (Andy Garcia), o jornalista que de certa forma foi o pivô da tragédia e testemunhou os últimos momentos do maestro.

Mesmo que não fique tão à vontade dirigindo um thriller quanto o faz no comando de uma obra shakespereana, não dá para negar que Branagh acertou na maior parte de suas escolhas. Ainda que o roteiro por vezes o obrigue a apelar para os mais deslavados clichês - o clímax do final, por exemplo, incomoda por fugir do registro discreto e elegante que o filme vinha adotando - o cineasta consegue impor seu bom-gosto em sequências recheadas de um suspense que surge da sugestão e do clima enfatizado pela bela fotografia de Matthew F. Leonetti - sensual e sinistra no preto-e-branco do passado e quente e luminosa no colorido do presente. Ao contar duas histórias em tempos distintos que se cruzam pela força do destino - ou carma, ou talento do roteirista - Branagh conduz a plateia por um labirinto de lembranças sufocadas, por antiquários claustrofóbicos e por mistérios que deveriam manter-se sepultados, explorando, para isso, todos os artifícios que o bom cinema pode proporcionar.

Hitchcock teria orgulho, por exemplo, de todas as cenas (desprovidas de cores) que mostram os antecedentes do violento assassinato na mansão Strauss: a câmera passeia pelo suntuoso cenário, onde festas e reuniões escondem segredos e possíveis adultérios por trás de seu véu de sofisticação. São nesses momentos que Branagh mostra o requinte de sua direção, acompanhando lentamente seus personagens rumo ao abismo - é sensacional, por exemplo, a cena em que Strauss e Gray Baker conversam, antes da morte do maestro, sob um clima construído delicadamente com música, fotografia e atuações excepcionais. Tal cuidado se reflete também na escalação do elenco coadjuvante: não existe um único personagem da trama que não mereça do cineasta a atenção necessária, deixando claro que Branagh é um grande diretor de atores mesmo quando não está diante do material ideal. Sua brincadeira de Hichcock pode não ter sido perfeita, mas alcançou notas muito superiores a gente bem mais experiente no assunto. Um ótimo jogo de gato-e-rato, que, descontando-se alguns pecadilhos, é muito superior à média.

DESCONSTRUINDO HARRY

DESCONSTRUINDO HARRY (Deconstructing Harry, 1997, Sweetland Films, 96min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Carlo Di Palma. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Suzy Benzinger. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Susan Kaufman, Elaine O'Donnell. Produção executiva: J. E. Beaucaire. Produção: Jean Doumanian. Elenco: Woody Allen, Judy Davis, Kristie Alley, Elisabeth Shue, Demi Moore, Robin Williams, Billy Cristal, Tobey Maguire, Bob Balaban, Mariel Hemingway, Julia-Louis Dreyfus. Estreia: 26/8/97 (Festival de Veneza)

Indicado ao Oscar de Roteiro Original

Woody Allen sabe que, por mais que ele negue inspirar-se em si mesmo, seu público insiste em procurá-lo em todo e qualquer protagonista de seus filmes. Essa obsessiva busca por semelhanças entre criador e obra teve mais um prodigioso capítulo com "Desconstruindo Harry", onde o veterano cineasta nova-iorquino narra as aventuras de um bem-sucedido escritor que afasta todas as pessoas que o amam justamente porque as utiliza como personagens de seus livros - normalmente enfatizando ou até mesmo inventando seus defeitos. Harry Block, o escritor criado por Allen - e que ele em vão tentou que fosse interpretado por outros atores que não ele, como Elliot Gould e Albert Brooks, exatamente para não aumentar ainda mais a confusão do público - é, provavelmente, o mais desagradável vivido por ele nas quase três décadas que o separam de seu primeiro filme ("O que que há, gatinha?", de 1968), mas é, também, um dos mais engraçados e interessantes de sua carreira como roteirista.

Partindo de uma ideia que emula Ingmar Bergman e seu "Morangos silvestres", Allen põe Block a caminho de uma homenagem que sua antiga faculdade lhe fará, mesmo tendo-o expulso em seu tempo de estudante. Acompanhado de um dos poucos amigos que lhe restam (Bob Balaban), uma prostituta que ele conheceu na noite anterior e seu filho pequeno - sequestrado porque sua ex-mulher não permitiu que ele se juntasse ao passeio - o escritor faz, no trajeto, um pequeno inventário de sua vida amorosa, equilibrando sua memória entre o que realmente aconteceu, a forma como as situações foram retratadas em sua obra e em pequenas histórias que interligam os fatos sem necessariamente fazerem parte de sua vida pessoal. É assim, por exemplo, que surgem na tela personagens geniais, como o ator (Robin Williams) que se descobre fora de foco e quer que todos se ajustem à nova situação e o jovem vendedor de sapatos (Tobey Maguire) que tem um inesperado encontro com a morte (ela mesma, de foice em punho e tudo a que tem direito no imaginário popular).


Brincando com a edição e com as possibilidades que a trama oferece, Woody Allen constrói um roteiro com a medida certa de ironia, que discute a quase misantropia de seu protagonista sem torná-lo um cafajeste no sentido mais literal do termo. Mesmo que Block não tenha escrúpulos em ter um caso com a cunhada ou iniciar um romance com uma jovem estudante paciente de sua mulher - e utilizar essas situações como matéria-prima de seus romances - é difícil não simpatizar com ele e quase perdoá-lo, principalmente porque Allen não pretende demonizar seu personagem, revestindo-o de um irresistível verniz de sarcasmo e auto-crítica que não poupa nem mesmo suas origens judaicas - na figura da irmã de Harry (interpretada por Caroline Aaron) que o culpa por não seguir as tradições, depois que se casa com um judeu ortodoxo.

Com um desfile de estrelas na tela - que vão de Demi Moore e Elisabeth Shue até Billy Cristal e Mariel Hemingway - "Desconstruindo Harry" faz rir sem precisar fazer muita força, além de fazer uma crítica aos escritores que alcançam a genialidade na arte mas são medíocres na vida real. Há quem possa fazer paralelos entre Block e Woody Allen, e culpá-los quem há de?

segunda-feira

AMOR ALÉM DA VIDA

AMOR ALÉM DA VIDA (What dreams may come, 1998, Polygram Filmed Entertainment, 113min) Direção: Vincent Ward. Roteiro: Ron Bass, romance de Richard Matheson. Fotografia: Eduardo Serra. Montagem: David Brenner, Maysie Hay. Música: Michael Kamen. Figurino: Yvonne Blake. Direção de arte/cenários: Eugenio Zanetti/Cindy Carr, Josh Fifarek. Produção executiva: Ted Field, Erica Huggins, Scott Kroopf. Produção: Barnet Bain, Stephen Simon. Elenco: Robin Williams, Annabella Sciorra, Cuba Gooding Jr., Max Von Sydow. Estreia: 28/9/98

2 indicações ao Oscar: Direção de Arte/Cenários, Efeitos Visuais
Vencedor do Oscar de Efeitos Visuais

 Normalmente, quando um filme leva o Oscar de efeitos visuais logo se imagina que seja uma obra de ação recheada de explosões, alienígenas ou monstros assustadores. No entanto, felizmente os recursos com que o cinema brinda seus espectadores também podem servir a histórias com alto teor humano. É o que acontece com "Amor além da vida", belíssima história de amor, com toques espirituais dirigida com extrema sensibilidade pelo neozelandês Vincent Ward. Baseado em um romance de Richard Matheson - mesmo autor de "Em algum lugar do passado" - o filme é uma viagem pictória e emocional valorizado pela atuação delicada de Robin Williams, pelo visual arrebatador e pelo teor espiritualista capaz de emocionar qualquer espectador.

Williams, contido e carismático, vive o médico Chris Nelson, que vive uma felicidade de cartão postal com a esposa Annie (Annabella Sciorra), uma dedicada marchand. A harmonia da família é brutalmente interrompida quando eles perdem o casal de filhos pequenos em um acidente de carro. Depois de anos tentando fazer com que a esposa pare de se culpar pelo acidente, ele mesmo acaba se tornando vítima de um desastre automobilístico. Assim que chega no paraíso, que ele descobre ser particular (ou seja, criado por sua própria mente), ele reconhece um antigo mentor na pele de um jovem negro (Cuba Gooding Jr.), que lhe serve como cicerone. Enquanto encanta-se com a vida após a morte apresentada a ele, Chris fica sabendo de uma tragédia: não conseguindo sobreviver à falta que sente da família, Annie cometeu suicídio e, como consequência, não pode sair do inferno. Contando com a ajuda de um velho bibliotecário (Max Von Sydow), ele resolve buscar a mulher que ama, desafiando as regras estabelecidas. Em seu caminho à procura de Annie, novas e dramáticas revelações serão feitas e mais reencontros acontecerão.



O roteiro, escrito pelo mesmo Ronald Bass que levou o Oscar por "Rain Man" pode até ser descrita como piegas e um tanto exagerada. As tragédias que rondam a família Nelson soam um tanto forçadas, mas não há como negar que a maneira com que o roteirista desenvolve a odisséia do protagonista encontra um respaldo mais do que suficiente nos espetaculares efeitos criados para o filme. Poucas vezes se viu no cinema um visual tão deslumbrante e criativo (ainda que um pouco brega em determinados momentos). No filme de Ward, cada pessoa escolhe seu próprio paraíso, e Chris, ligado à arte e à pintura, tem um Éden majestoso, delicado e colorido. O destino de Annie, porém, bem mais trágico e pesado, dá lugar a um assustador inferno, que remete diretamente à "Divina Comédia", de Dante. O paraíso de sua filha, por sua vez, repete uma maquete que ela adorava quando criança, e assim por diante.

Tudo bem que o dramalhão corre solto em boa parte do filme, mas o esforço de Robin Williams em fugir de seu estereótipo de palhaço de plantão, os efeitos visuais inesquecíveis, o belíssimo desfecho e a atuação sensível de Annabella Sciorra (que ficou com um papel cobiçado por Annette Bening) compensam os escorregões e levam às lágrimas. Sem dúvida "Amor além da vida" é uma alternativa bem mais consistente ao xaroposo "Ghost, do outro lado da vida", que também trata do tema de vida após a morte mas sem o mesmo grau de sofisticação e inteligência.

quarta-feira

GÊNIO INDOMÁVEL

GÊNIO INDOMÁVEL (Good Will Hunting, 1997, Miramax Films, 126min) Direção: Gus Van Sant. Roteiro: Matt Damon, Ben Affleck. Fotografia: Jean Yves Escoffier. Montagem: Pietro Scalia. Música: Danny Elfman. Figurino: Beatrix Aruna Pasztor. Direção de arte/cenários: Melissa Stewart/Jaro Dick. Produção executiva: Su Armstrong, Jonathan Gordon, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Lawrence Bender. Elenco: Matt Damon, Robin Williams, Minnie Driver, Stellan Skarsgard, Ben Affleck, Casey Affleck, Cole Hauser. Estreia: 05/12/97

9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Gus Van Sant), Ator (Matt Damon), Ator Coadjuvante (Robin Williams), Roteiro Original, Montagem, Trilha Sonora Original/Drama, Canção ("Miss Misery")
Vencedor de 2 Oscar: Ator Coadjuvante (Robin Williams), Roteiro Original
Vencedor do Golden Globe de Melhor Roteiro
Vencedor do SAG Awards de Ator Coadjuvante (Robin Williams)

De vez em quando, Hollywood lembra que o público, tão prestimoso em correr às salas exibidoras para testemunhar cenas de ação e violência aos borbotões, também gosta de acompanhar histórias delicadas sobre gente normal cuja maior missão - ao invés de salvar o mundo de uma ameaça terrorista - é definir os rumos que sua vida pessoal irá tomar em relação ao futuro. E é sobre  pessoas normais, comuns, quase invisíveis que trata "Gênio indomável", uma das maiores surpresas da temporada 1997. Escrito por Matt Damon e Ben Affleck, dois atores até então desconhecidos e com pouco mais de 20 anos (que o escreveram como forma de fazer acontecer suas carreiras), o drama produzido pela Miramax Films - o maior fabricante de oscarizáveis da década - é um típico produto feito para encantar os eleitores da Academia e o público adulto fã de boas histórias. Não é inesquecível, mas cumpre muito bem o que promete.

Dando início a uma carreira bem-sucedida, Matt Damon - que concorreu ao Oscar contra veteranos do porte de Dustin Hoffman e Jack Nicholson em uma atuação contida mas muito convincente - vive o protagonista, Will Hunting, um jovem desajustado que, vítima de lares adotivos desfuncionais, expressa toda sua raiva em brigas de rua com seu grupo de amigos. Figurinha fácil nas ocorrências policiais, ele é salvo de ficar na cadeia por Gerald Lambeau (Stelan Skarsgaard), um professor de matemática premiado com medalhas de honra por seu talento. Impressionado com a inteligência extraordinária de Hunting - que trabalha como faxineiro na instituição mas é capaz de resolver os mais complexos problemas matemáticos -  Lambeau se compromete diante do juiz a ajudar o rapaz a encontrar um caminho mais saudável na vida. Para isso, ele conta com a ajuda de Sean Maguire (Robin Williams), um terapeuta que conhece desde a juventude. Viúvo e recluso, Sean tenta fazer com que Will aprenda a lidar com sua fúria inerente e a direcione para uma vida menos sofrida e mais realizada, deixando de lado seus traumas de infância.  Enquanto isso, Will começa a se envolver com a doce Skylar (Minnie Driver), uma jovem estudante de Medicina que tenta romper a barreira emocional que o rodeia.



O roteiro de Damon e Affleck - vencedor de um Oscar questionável, uma vez que o disputou com "Boogie Nights" e "Melhor é Impossível" - não tenta ser espetacular. É redondo, é simples e, acima de tudo, é humano. Mesmo que esbarre em soluções um tanto fáceis e exagere na genialidade de seu protagonista, é um filme que prescinde de elementos outros além de diálogos e atores. Os diálogos são fluentes, inocentes (nas relações entre Will e seus amigos) e por vezes bastante interessantes (como nas cenas entre o protagonista e Sean). Nunca chegam a ser brilhantes, mas são muito superiores à média. E além de tudo, a trama paralela, que envolve a rivalidade entre Lambeau e Maguire é tão poderosa quanto a história principal, graças principalmente às atuações de Stelan Skarsgaard e Robin Williams, o último mais uma vez emprestando um carisma gigantesco a uma personagem - e que lhe rendeu um carinhoso Oscar de ator coadjuvante.

A Academia, aliás, rendeu-se incondicionalmente a "Gênio indomável". Indicado a 9 Oscar - inclusive filme, direção e uma inexplicável lembrança para Minnie Driver como coadjuvante feminina - e premiado com 2 estatuetas (além de Williams o roteiro também foi contemplado), o filme deu ao até então outsider Gus Van Sant a legitimização da indústria. Logicamente, a ousadia presente em filmes como "Drugstore Cowboy" e "Garotos de programa" nem passa perto desse seu filme família, o que incomodou profundamente seus fãs - que ainda teriam que aguentar seu desnecessário remake de "Psicose" e o ultra-meloso "Procurando Forrester". A direção de "Gênio indomável" é quase burocrática, nada inventiva e muito menos corajosa (em sua defesa é preciso dizer que o roteiro também não ajuda nesse quesito...), mas é elegante e dotada de um belo ritmo, além de não atrapalhar no desenvolvimento da história. É um trabalho apenas correto, que não justifica sua indicação ao Oscar (principalmente se levarmos em conta que Paul Thomas Anderson, de "Boogie nights", ficou de fora na categoria).

Enfim, não é preciso ter um cérebro privilegiado para perceber, em "Gênio indomável", uma profusão de clichês. Porém, da forma como colocados pelos roteiristas e pelo experiente Van Sant, eles soam não como lugares-comuns que incomodam e constrangem. Muito pelo contrário, os clichês de certa forma dão unidade ao filme, são como uma espécie de abrigo contra criatividades exageradas. "Gênio indomável" é caloroso, terno e honesto. É um belo conto sobre pessoas corajosas que lutam pelo direito a transformar o seu destino. E por isso emociona tanta gente.

sábado

TEMPO DE DESPERTAR

TEMPO DE DESPERTAR (Awakenings, 1990, Columbia Pictures, 121min) Direção: Penny Marshall. Roteiro: Steven Zaillian, livro de Oliver Sacks. Fotografia: Miroslav Ondricek. Montagem: Battle Davis, Jerry Greenberg. Música: Randy Newman. Figurino: Cynthia Flynt. Direção de arte/cenários: Anton Furst/George De Titta Jr. Casting: Bonnie Timmermann. Produção executiva: Eliott Abbott, Penny Marshall, Arne Schmidt. Produção: Lawrence Lasker, Walter F. Parkes. Elenco: Robert DeNiro, Robin Williams, Penelope Ann Miller, Julie Kavner, John Heard, Bradley Whitford, Max Von Sydow, Peter Stormare. Estreia: 20/12/90

3 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Robert DeNiro), Roteiro Adaptado

Emocionar sem apelar para o piegas - ou ao menos não exagerar demais no sentimentalismo - não é tarefa das mais fáceis. Conquistar a plateia pela emoção sem obrigá-la a catarses sufocantes não é pra qualquer um. Por isso talvez " Tempo de despertar" tenha arrebatado 3 importantes indicações ao Oscar que premiou os melhores de 1990 - melhor filme, ator e roteiro adaptado. Inspirado no livro do médico Oliver Sacks, o filme de Penny Marshall é conciso e sóbrio ao narrar uma história extraordinária - que, por incrível que pareça, aconteceu de verdade.

Em 1969, o doutor Malcolm Sayer (um Robin Williams discreto e na melhor fase de sua carreira) consegue um emprego em uma clínica neurológica do Bronx, a despeito de sua parca experiência com doentes. Logo em seus primeiros dias, ele toma contato com um mundo à parte, formado por pacientes crônicos e sem esperança de cura ou melhora, contando com o apoio da enfermeira Eleanor (Julie Kavner). Atento aos seres humanos com que lida, ele descobre que boa parte deles entrou em seu estado de isolamento em relação ao mundo que os cerca depois de uma epidemia de febre acontecida em NY nos anos 20. Depois de algumas pesquisas, Sayer resolve tentar uma nova forma de tratamento: com a autorização da mãe de um dos pacientes, Leonard Lowe (Robert DeNiro), ele utiliza nos doentes o mesmo remédio que ajuda aqueles acometidos com mal de Alzheimer. As pesquisas dão certo e Lowe, que ficou mais de 30 anos em estato catatônico, volta à vida. Aos poucos, seus colegas de hospital também começam a reagir à medicação.

"Tempo de despertar" pode ser dividido em duas partes distintas. No início, Robin Williams demonstra que a sutileza demonstrada em "Sociedade dos poetas mortos" não era mero acaso. Na pele de Malcolm Sayer - uma espécie de alter-ego de Oliver Sacks - ele é forte e decidido, mas sensível às necessidades das pessoas com as quais lida diariamente. Até mesmo seu romance hesitante com a enfermeira foge do óbvio graças a ele e à sempre competente Julie Kavner. Mas se Williams é dono da primeira metade do filme, sua segunda e última parte deve tudo ao mestre Robert De Niro.

Indicado ao Oscar por sua atuação, o veterano De Niro mostra porque é considerado um dos melhores atores de sua geração. Detalhista e perfeccionista, ele constrói com delicadeza e minúcia um Leonard Lowe que vai do silêncio catatônico à rebeldia contra o hospital; dos primeiros gestos titubeantes de sua volta à vida aos tiques angustiantes de seu retorno à doença. Quando o tratamento proposto por Sayer se prova paliativo e Lowe regride ao que era anteriormente, De Niro impressiona a audiência com uma interpretação arrebatadora. Apaixonado pela jovem Paula (Penelope Ann Miller) - filha de um paciente - ele sente a volta de seus sintomas com o terror e o desespero de quem prevê a própria morte, e leva o público junto em sua tristeza. Pode fazer chorar, mas não o faz de maneira apelativa e/ou fácil.

Juntos, Robert De Niro e Robin Williams fazem de "Tempo de despertar" um belo drama, sensível e delicado, que se distancia muito dos tradicionais "Doença da semana". Provavelmente com outros atores nos papéis centrais, seria de difícil digestão. Com eles, é um belo exemplo de como bons atores conseguem fazer de um filme uma experiência gratificante.

domingo

SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS

SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS (Dead Poets Society, 1989, Touchstone Pictures, 128min) Direção: Peter Weir. Roteiro: Tom Schulman. Fotografia: John Seale. Montagem: William Anderson. Música: Maurice Jarre. Direção de arte/cenários: Wendy Stites/John Anderson. Casting: Howard Feuer. Produção: Steven Haft, Paul Junger Witt, Tony Thomas. Elenco: Robin Williams, Ethan Hawke, Robert Sean Leonard, Josh Charles, Kurtwood Smith, Melora Walters. Estreia: 09/6/89

4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Peter Weir), Ator (Robin Williams), Roteiro Original
Vencedor do Oscar de Roteiro Original

É preciso dar a mão à palmatória: de vez em quando o público médio consegue surpreender até o mais cético dos especialistas em mercado. Foi isso que aconteceu com "Sociedade dos poetas mortos". Lançado no mesmo ano - e na mesma temporada competitiva - que "Indiana Jones e a última cruzada" e o marketing agressivo e espalhafatoso do primeiro "Batman" de Tim Burton, o belo filme dirigido pelo australiano Peter Weir não só conseguiu a proeza de concorrer a 4 importantes Oscar - filme, direção, ator e roteiro original - como ainda por cima arrecadou quase 100 milhões de dólares somente nos EUA. Mesmo contando com a protagonização de Robin Williams, então um astro considerável, o sucesso do filme foi uma grande surpresa principalmente devido a uma particularidade: ao contrário de explosões, humor escatológico e sexo selvagem, a trama de Tom Schulman versava sobre poesia, amizade, esperança e sonhos despedaçados. Ou seja, nada que chamasse a atenção do público, pelo menos aparentemente.

Passada em 1959 - portanto, antes de dois maiores traumas norte-americanos da época, o assassinato de Kennedy e a guerra do Vietnã - a história criada por Schulman é um primor de delicadeza e inteligência, nunca abusando desses ingredientes e equilibrando-os com o carisma radiante de Williams (merecidamente indicado ao Oscar de Melhor Ator). Na época ainda conhecido por seus papéis em comédias como "Popeye" (o fracassado projeto de Robert Altman), o ator dá um show de sutileza ao interpretar John Keating, um professor de Literatura que transforma a vida de um grupo de alunos em uma escola preparatória para rapazes, a tradicional Welton Academy. Substituindo um mestre aposentado, ele surpreende a todos com métodos heterodoxos de ensino. Logo em sua primeira aula, ele manda que todos arranquem as páginas iniciais de um livro de poesia, afirmando que medir a poesia através de gráficos não é a forma correta de se apreciá-la. A partir daí, declama Shakespeare imitando John Wayne e Marlon Brando, recita Thoreau e Walt Whitman sem empolação e, com isso incentiva os meninos a recriarem um projeto de seus tempos de estudante: a Sociedade dos Poetas Mortos. Inspirado por Keating, o tímido Todd Anderson (Ethan Hawke) tenta fugir de seu medo do mundo, o romântico Knox Overstreet (Josh Charles) vai em busca de conquistar o amor da mulher que ama e o ultraprotegido Neil Perry (Robert Sean Leonard) desafia os pais para lutar por seu sonho de ser ator de teatro.


O impacto emocional de "Sociedade dos poetas mortos" é imenso, graças a uma conjunção de fatores que faz dele um dos mais comoventes dramas "de professor" já realizados por Hollywood. O roteiro preciso, simples e catártico de Tom Schulman levou o Oscar da categoria por merecimento inegável. A belíssima fotografia de John Seale, que retrata as quatro estações do ano com singeleza ímpar é de encher os olhos. A trilha sonora de Maurice Jarre conquista pela mistura perfeita entre composições próprias e música clássica de primeira linha. A direção de arte é primorosa e a direção de Weir é provavelmente a melhor de sua carreira (e isso que falamos do homem por trás de "A testemunha" e o posterior "O show de Truman"). Mas é em seu elenco impecável que "Sociedade dos poetas mortos" marca o maior gol de todos.

Se como John Keating Robin Williams provou sem sombra de dúvida que é um grande ator, são seus coadjuvantes que ficam na memória dos espectadores. Williams é generoso ao abrir espaço para seus colegas de cena, responsáveis por alguns dos momentos mais arrepiantes do longa. Como Todd Anderson, Ethan Hawke demonstra uma maturidade surpreendente e como Neil Perry, o estreante Robert Sean Leonard conquista a audiência cena a cena, até chegar a seu dramático clímax - de deixar qualquer um com o rosto lavado de lágrimas.O que Keating ensina a seus alunos - e por conseguinte ao público - é viver com lealdade a seus ideais, com esperança e com ideias próprias. Incomodou seus superiores. Encantou as plateias.

O PREÇO DA TRAIÇÃO

  O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...