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quarta-feira

O CONTADOR DE CARTAS

 


O CONTADOR DE CARTAS (The card counter, 2021, Focus Features, 111min) Direção e roteiro: Paul Schrader. Fotografia: Alexander Dynan. Montagem: Benjamin Rodriguez Jr.. Música: Robert Levon Been, Giancarlo Vulcano. Figurino: Lisa Madonna. Direção de arte/cenários: Ashley Fenton/Mary Goodson. Produção executiva: Carte Blanche, Catherine Boily, Tiffany Boyle, Lee Broda, Philip H. Burgin, Anders Erdén, Santosh Govindaraju, Patrick Hibler, Ruben Islas, Nadine Luque, Martin McCabe, Joel Michaely, Kathryn Moseley, Patrick Muldoon, Mitch Oliver, William Olsson, Stanley Preschutti, Elsa Ramo, Jeff Rice, Jason Rose, Martin Scorsese, Mick Southworth, Kyle Stroud, James Swarbrick, Elton Tsang, Ken Whitney, Liz Whitney. Produção: Lauren Mann, Braxton Pope, David M. Wulf. Elenco: Oscar Isaac, Tye Sheridan, Willem Dafoe, Tiffany Haddish, Alexander Babara. Estreia: 02/9/2021 (Festival de Veneza)

Há mais em comum entre Travis Bickle - vivido por Robert DeNiro em "Taxi driver" (1976) -, o Reverendo Ernst Toller - interpretado por Ethan Hawke em "Fé corrompida (2017) - e William Tell, o protagonista de "O contador de cartas", além do fato de terem sido todos criados pelo roteirista Paul Schrader. Solitários, torturados psicologicamente e à beira de um iminente ataque de nervos - que pode explodir como um surto de violência -, eles formam, a seu modo, um grupo de protagonistas quase silenciosos que habitam um universo particular, cercado por uma constante tensão e pela expectativa de tragédias. E Tell, interpretado por Oscar Isaac, se não flerta diretamente com o perigo da noite nova-iorquina ou a pressão dos dogmas religiosos, precisa lidar com os próprios demônios, um passado traumático e uma inesperada relação que pode lhe servir como caminho para a redenção.

Tell é, como deixa bem claro o título do filme, um contador de cartas, ou seja, um jogador que vai de cassino em cassino ganhando dinheiro no blackjack graças a seu talento de calcular, na hora da partida, as possibilidades numéricas do jogo. Recém saído de uma pena de oito anos na prisão - onde desenvolveu seu talento -, ele leva uma vida discreta e quase monástica, evitando apostar alto para fugir dos radares. Sua existência praticamente invisível sofre uma transformação, porém, quando duas pessoas surgem em seu caminho com intenções bastante diversas. Primeiro, La Linda (Tiffany Hadish), que trabalha para um grupo de investidores que lhe oferece patrocínio em suas aventuras nos jogos - em troca de uma comissão. Depois, é o jovem Circk Baufort (Tye Sheridan, em papel herdado de Shia LaBeouf), que se revela filho de um antigo colega seu da época em que treinavam métodos de tortura sob as ordens de um cruel instrutor: Circk quer vingar-se de tal criminoso - agora um bem-sucedido empresário de nome John Gordo (Willem Dafoe) - por ter destruído sua família, mas Tell prefere oferecer ao rapaz uma viagem por cassinos do país como forma de lhe fazer mudar de ideia. Tal situação o aproxima não apenas de seu passado, mas também de uma chance de deixar para trás uma vida de violência e truculência.

Filmado em um período de apenas vinte dias - sem contar a pausa imposta pela contaminação por Covid-19 de um membro da equipe - e frequentemente utilizando-se apenas de um ou dois takes por cena, "O contador de cartas" é uma produção econômica por vários motivos além do financeiro. Com uma atuação minimalista, Oscar Isaac constrói seu William Tell com total parcimônia de recursos, mas nunca de excelência: quieto, discreto, misterioso, Tell só aos poucos se permite revelar seus reais sentimentos - e mesmo assim de forma a não deixar que eles ultrapassem o limite autoimposto. Suas relações - com Circk, com La Linda, com Gordo - são forjadas a sofrimento e angústias que ele só desabafa em seus diários, uma espécie de confessor que não o julga ou critica. Em um desempenho exemplar (mais um em uma carreira em franca ascensão), Isaac ousa criar um protagonista que não busca a simpatia incondicional do espectador - e para isso conta com uma edição propositalmente truncada, efeitos de fotografia bastante eficientes e um roteiro quase incômodo de Schrader, um cineasta cuja visão de mundo não pode ser considerada exatamente otimista - e cujo comportamento frequentemente agressivo chegou a preocupar a Focus Features, distribuidora do filme, que pediu a ele que se afastasse das redes sociais durante o período de lançamento para não prejudicar a repercussão da produção.

Considerado pelo ex-presidente norte-americano Barack Obama como um de seus filmes preferidos da temporada 2021, "O contador de cartas" é, também, a definição perfeita de uma produção independente. Com nada menos que 20 produtores executivos creditados (incluindo Martin Scorsese, parceiro de Schrader em quatro oportunidades), o filme ganha em qualidade justamente por essa liberdade. Sem precisar se ater às amarras de uma produção comercial de um grande estúdio, Paul Schrader pode exercitar suas idiossincrasias e seu estilo seco, em uma narrativa sofisticada e adulta que acerta em não subestimar a inteligência do espectador e evitar a violência explícita: ao contrário do clímax sangrento de "Taxi driver", o cineasta dessa vez opta por sugerir mais do que mostrar. Pode soar um tanto lento para quem busca um filme de ação, mas aqueles que comprarem seu estilo elegante e sutil podem ser positivamente surpreendidos.

quinta-feira

ANIQUILAÇÃO


ANIQUILAÇÃO (Annihilation, 2018, Paramount Pictures/Skydance Media/Scott Rudin Productions, 115min) Direção: Alex Garland. Roteiro: Alex Garland, romance de Jeff VanderMeer. Fotografia: Rob Hardy. Montagem: Barney Pilling. Música: Geoff Barrow, Ben Salisbury. Figurino: Sammy Sheldon Differ. Direção de arte/cenários: Mark Digby/Michelle Day. Produção executiva: Jo Burn, David Ellison, Dana Goldberg, Don Granger. Produção: Eli Bush, Andrew Macdonald, Allon Reich, Scott Rudin. Elenco: Natalie Portman, Jennifer Jason Leigh, Oscar Isaac, Gina Rodriguez, Tuva Novotny, Tessa Thompson. Estreia: 13/02/2018

Experiente como escritor - é dele o romance "A praia", que Danny Boyle levou às telas com Leonardo DiCaprio, em 2000 - e roteirista - ele é o nome por trás de "Extermínio" (2002), também de Boyle, e da adaptação de "Não me abandone jamais" (2001), baseado em livro de Kazuo Ishiguro -, o inglês Alex Garland sabe que a pressão não é pouca quando se transfere uma obra literária para o cinema. Com isso em mente, a primeira coisa que fez quando anunciou que estaria no comando da versão cinematográfica do livro "Annihilation", início de uma trilogia escrita por Jeff VanderMeer, foi declarar que, ao invés de reler a obra para escrever o roteiro, o faria como "um sonho do livro". Qualquer coisa que isso possa significar, o resultado foi um filme que não exatamente agradou aos fãs do original por suas diferenças claras - mas que, como produto audiovisual, caminha muito bem pelas próprias pernas. Inteligente, intrigante e oferecendo mais perguntas que respostas, "Aniquilação" ainda se beneficia da presença sempre magnética de Natalie Portman - por ironia uma das principais críticas dos leitores mais exigentes da trama de VanderMeer.

Indignados com a escalação de Portman para um dos papéis principais da história - que nas páginas é descrita como asiática - os fãs da trilogia tampouco gostaram de ver Jennifer Jason Leigh na pele de uma personagem de descendência indígena. Em sua defesa, Garland alegou - com certa coerência - que os detalhes físicos das protagonistas são revelados apenas no segundo livro da série (lançado apenas depois que o roteiro da adaptação já estava finalizado). A esta altura da pré-produção, o cineasta - cujo "Ex-machina: instinto artificial" (2014) havia agradado plenamente crítica e público - preferiu escolher seu elenco de acordo com as audições e com sua experiência anterior como diretor. Talvez a explicação não tenha sido completamente aceita pelos detratores, mas o fato é que, apesar da polêmica, "Aniquilação" é um suspense de ficção muito acima da média, que se utiliza de efeitos visuais como parte integrante da narrativa, e não como seu principal atrativo, e cujos elementos remetem ao clássico russo "Stalker" (1979), de Andrei Tarkovski - apesar das veementes negativas de VanderMeer a respeito de suas inspirações.

 

A trama começa quando o militar Kane (Oscar Isaac), tido como desaparecido em uma missão há pelo menos um ano, retorna à companhia da mulher, a biologista Lena (Natalie Portman). Kane não tem memória alguma a respeito do que aconteceu com ele e seus demais colegas - e subitamente começa a passar mal, sendo levado por seus superiores (sem maiores explicações) a uma instalação militar. É neste local que Lena começa a conhecer, ainda que superficialmente, a história por trás de todo o mistério que cercava a missão do marido - através da psicóloga Ventress (Jennifer Jason Leigh), Lena fica sabendo que Kane fazia parte de uma expedição que buscava informações científicas a respeito da Área X - uma região da Terra repentinamente cercada por uma cúpula a qual se convencionou chamar de Brilho. Sabendo que uma outra expedição está em vias de tentar novamente a sorte - até mesmo como forma de descobrir o paradeiro dos demais membros da primeira missão -, Lena se oferece como voluntária. Assim, se une a Ventress, à física Josie Radek (Tessa Thompson), à antropologista Cassie Sheppard (Tuva Novotny) e à paramédica Anya Thorensen (Gina Rodriguez) e entra em um universo novo, onde aparentemente organismos alienígenas estão provocando mutações genéticas das mais variadas - e ameaçando a existência da Terra nos moldes tradicionais.

Levando-se bastante a sério - uma vantagem em um gênero que frequentemente apela para um humor vazio como forma de conquistar plateias mais jovens - e oferecendo efeitos visuais criativos e longe do lugar-comum, "Aniquilação" estreou em um acordo entre a Paramount Pictures e a Netflix, resultado de bastidores pouco tranquilos entre os executivos do estúdio - enquanto David Ellison, preocupado com o tom intelectual do filme pedia por refilmagens e alterações cruciais no filme (incluindo mudanças substanciais na personalidade da protagonista interpretada por Portman), o produtor Scott Rudin declarava total apoio à integridade da obra de Garland. A briga resultou no lançamento do filme em streaming, uma aposta arriscada para uma produção de 40 milhões de dólares que, sem uma estreia tradicional, ficou muito aquém do que poderia ter conquistado - tanto em termos financeiros quanto de prestígio. Uma das mais interessantes ficções científicas a surgir em um período repleto de boas opções no gênero - "Interestelar" (2015), "Perdido em Marte (2015) e "A chegada" (2016) elevaram o patamar em muitos graus -, o filme de Garland tem, certamente, um lugar garantido no coração dos fãs.


quarta-feira

OPERAÇÃO FRONTEIRA

OPERAÇÃO FRONTEIRA (Triple frontier, 2019, Netflix/Atlas Entertainment, 125min) Direção: J.C. Chandor. Roteiro: Mark Boal, J.C. Chandor, estória de Mark Boal. Fotografia: Roman Vasyanov. Montagem: Ron Patane. Música: Disasterpiece. Figurino: Marlene Stewart. Direção de arte/cenários: Greg Berry/Jay Hart. Produção executiva: Kathryn Bigelow, Mark Boal, Anna Gerb, Thomas Hayslip, Andrés Calderon. Produção: Neal Dodson, Alex Gartner, Andy Horwitz, Charles Roven. Elenco: Ben Affleck, Oscar Isaac, Charlie Hunnam, Garret Hedlund, Pedro Pascal, Adria Arjona. Estreia: 06/3/2019

Em abril de 2017, o projeto de um filme de ação escrito por Mark Boal (vencedor do Oscar por "Guerra ao terror") saiu definitivamente dos planos da Paramount, que, durante o processo de pré-produção, contava com Tom Hardy e Channing Tatum nos papéis principais. A dupla de astros não gostou das mudanças feitas no roteiro e pularam fora do barco, iniciando um processo de deserção que culminou também com a saída da diretora Kathryn Bigelow, que preferiu dedicar seu tempo ao polêmico "Detroit em rebelião" (2017). Um mês depois, a Netflix, empenhada em adquirir prestígio com suas produções próprias, resolveu arriscar e bancar o filme, dessa vez já com os nomes de Ben Affleck e Oscar Isaac garantidos. Com a volta de Charlie Hunnam - que retornou ao projeto depois de uma desistência anterior - ao elenco e à aquisição de Garret Hedlund e Pedro Pascal, os cinco personagens centrais encontraram intérpretes ideais. A grande surpresa, no entanto, ficou com o anúncio do nome do diretor. Conhecido por obras mais cerebrais, como "Margin call: o dia antes do fim" (2011) e "O ano mais violento" (2014), o cineasta J. C. Chandor parecia um tanto inadequado para uma produção calcada mais na adrenalina do que em palavras e sutilezas. Mas como nem só de cartas marcadas vive a indústria, "Operação Fronteira" acabou se saindo melhor que a encomenda: é um filmaço que nada deve às produções dos grandes estúdios - e é, de longe, um dos melhores trabalhos da carreira de Ben Affleck.

Um projeto que já existia desde 2010, quando Johnny Depp e Tom Hanks estavam cotados para seu elenco, "Operação Fronteira" despertou interesse em vários astros de Hollywood, que, por um momento ou outro, tiveram seus nomes ligados a ele. Antes que o elenco estivesse formado em definitivo, atores dos mais variados tipos e gerações estiveram em negociação com os produtores. Quando ainda estava na Columbia, o roteiro foi considerado por veteranos (Denzel Washington, Sean Penn), oscarizados (Leonardo DiCaprio, Mahershala Ali, Casey Affleck) e atores populares (Will Smith, Mark Wahlberg), mas foi somente quando a Netflix entrou na jogada é que, de uma ideia empacada em discussões, o roteiro finalmente saiu do papel. Com Ben Affleck e Oscar Isaac - que já havia trabalhado com Chandor em "O ano mais violento" -, "Operação Fronteira" ganhou prestígio e uma seriedade que talvez não tivesse com atores mais afeitos à bilheteria do que à qualidade. O resultado é um filme de ação com mais inteligência que a média, e que equilibra com precisão momentos de tensão com um desenvolvimento interessante de personagens.


Tudo bem que o roteiro não abre mão de certos clichês e não se aprofunda em nenhum drama pessoal, preferindo apenas delinear rapidamente seus protagonistas para entrar logo na ação, mas abraça sem vergonha alguns lugares-comuns e os insere de forma orgânica na trama. É assim que o público não se importa em ver Ben Affleck como Redfly Davis, um antigo soldado que tenta ganhar a vida vendendo imóveis e com problemas de relacionamento com a ex-mulher e a filha adolescente, ou Garret Hedlund como Ben Miller, que sobrevive às custas de muito sangue perdido em ringues de luta. Redfly e Miller são apenas dois integrantes do grupo que o ambicioso Pope Garcia (Oscar Isaac) reúne com o objetivo de exterminar um famoso traficante e roubar milhares de dólares escondidos em uma casa escondida no meio da Floresta Amazônica. A eles unem-se o irmão de Miller, Ironhead (Charlie Hunnam) - que ganha dinheiro com palestras de autoajuda, desde que saiu do Exército - e o experiente piloto Catfish Morales (Pedro Pascal), cuja licença para pilotar foi cassada quando ele foi flagrado transportando drogas. Pela primeira vez em suas vidas os cinco embarcam em uma missão com objetivos pessoais e não patriotas, mas a preocupação ética logo é substituída por outras muito maiores quando o plano começa a dar errado - e eles precisam improvisar e abrir mão de alguns princípios para chegarem vivos a seu final.

Apesar do nome de Mark Boal no roteiro e da direção do elogiado J.C. Chandor, "Operação Fronteira" nada mais é do que um excelente filme de ação, sem maiores preocupações artísticas. Sua maior qualidade é aliar com sucesso entretenimento popular e qualidade narrativa. Como era de se esperar, as coisas dão muito errado para Pope e seus parceiros, e Chandor aproveita a situação para conduzir o público por uma aventura tão perigosa quanto empolgante, onde a personalidade de cada um se choca com as decisões que precisam ser tomadas em prol da segurança e do cumprimento da missão. Por ser um filme que destaca mais o elenco do que performances individuais, o conjunto é mais interessante do que atuações específicas, mas ainda assim a presença de Oscar Isaac como o líder do grupo consegue se sobressair - especialmente porque seu personagem é o que mais dá margem a dúvidas a respeito de seu caráter. No final das contas, quando o filme apresenta seu desfecho (coerente e satisfatório), resta ao público confirmar que a Netflix se firma cada vez mais no universo dos grandes estúdios - e que sua presença diante dos grandes conglomerados é fato mais que consumado. "Operação Fronteira" é um de seus mais consistentes produtos e, embora não vá sair vitorioso em cerimônias de premiação, agrada plenamente aos fãs do gênero.

sábado

O ANO MAIS VIOLENTO

O ANO MAIS VIOLENTO (A most violent year, 2014, A24, 125min) Direção e roteiro: J.C. Chandor. Fotografia: Bradford Young. Montagem: Ron Patane. Música: Alex Ebert. Figurino: Kasia Walicka-Maimone. Direção de arte/cenários: John Goldsmith/Melanie J. Baker. Produção executiva: Glen Basner, Joshua Blum, Jonathan King, Jeff Skoll. Produção: J.C. Chandor, Neal Dodson, Anna Gerb. Elenco: Oscar Isaac, Jessica Chastain, Albert Brooks, David Oyelowo, Alessandro Nivola, Elyes Gabel, Catalina Sandino Moreno. Estreia: 06/11/14

"Margin call: o dia antes do fim", filme de estreia do cineasta J.C. Chandor, lançado em 2011, arrancou elogios entusiasmados da crítica e chegou a ser indicado ao Oscar de roteiro original - além de contar com um elenco de bambas que incluía Jeremy Irons, Kevin Spacey, Stanley Tucci e Demi Moore. Não fez lá muito sucesso de bilheteria, principalmente por causa do tema (a crise financeira que abalou o mercado em 2000), mas lhe deu prestígio o bastante para que seu filme seguinte, "Até o fim", estrelado por Robert Redford, tivesse visibilidade razoável. Mais uma vez a crítica gostou, e mais uma vez o público não deu muita importância. Acostumado com essa receptividade dúbia a seus trabalhos, não foi nenhuma surpresa para ele que seu terceiro longa-metragem, "O ano mais violento", tenha seguido caminho semelhante. Mesmo com uma vitória tripla pelo conceituado National Board of Review - melhor filme, ator (Oscar Isaac) e atriz coadjuvante (Jessica Chastain) -, a produção passou praticamente em brancas nuvens pelos cinemas. Talvez culpa do estilo minimalista do cineasta, talvez pelo tema pouco atraente ao público médio, o drama policial de Chandor é mais um filme para entrar na vasta lista de produções subestimadas que um dia felizmente serão vistas como tal.

Apesar do título sugerir um filme de ação (ou no mínimo com tensão o suficiente para justificá-lo), "O ano mais violento" é uma produção que investe muito mais no clima, na ambientação e no desenho dos personagens. O ano mais violento a que se refere é o de 1981, considerado historicamente como um dos períodos mais difíceis da cidade de Nova York, com um aumento considerável da criminalidade - mas também pode retratar a complicada fase do protagonista, o dono de uma companhia de petróleo que se vê envolvido em uma série de situações adversas que ameaçam seu negócio e sua família. A violência retratada por Chandor é mais psicológica do que física, mais sugerida que explícita - e mais inesperada porque imprevisível. Abel Morales, o personagem central, interpretado por Oscar Isaac, é um imigrante que construiu sua companhia à custa de muito trabalho honesto, ainda que tenha herdado parte dele do sogro pouco confiável. Tentando manter a integridade de sua trajetória, ele tenta fazer um negócio de milhões, que pode finalmente lhe trazer a estabilidade desejada, mas esbarra em dois grandes problemas, que podem ou não estarem interligados. O primeiro diz respeito a uma série de assaltos a caminhões de sua companhia, que vem lhe trazendo grandes prejuízos. O segundo (e talvez mais complicado de resolver) é uma investigação detalhada sobre sua fortuna, liderada pelo promotor de Justiça D.A. Lawrence (David Oyelowo).


Quanto aos assaltos, o que Abel pode fazer é tentar descobrir quem é o responsável - e aceitar, mesmo indo contra seus princípios, armar seus motoristas, entre eles o jovem latino Julian (Elyes Gabel), principal vítima dos criminosos. Incentivado por seu sinistro advogado, Andrew Walsh (Albert Brooks, se especializando em papéis dúbios), ele resolve entrar na briga contra concorrentes pouco confiáveis, o que pode trazer sérias consequências à sua família. Quanto às investigações da promotoria, ele conta com o apoio da esposa, Anna (Jessica Chastain), responsável pelos livros da companhia e disposta a qualquer coisa para manter seu estilo de vida e a segurança das filhas. Chastain é um dos destaques do filme, ao construir uma Anna imprevisível em sua determinação e sua falta de escrúpulos em defender seus interesses. É um contraponto interessante à ética do marido, interpretado com sutileza ímpar por Oscar Isaac, um dos atores mais competentes da nova geração. Os diálogos entre o casal estão entre os melhores momentos do filme, justamente por sublinhar o contraste radical entre os dois - tanto personagens quanto atores. Enquanto Isaac opta pelo minimalismo, pelo olhar angustiado, Chastain por sua vez investe em uma atuação mais visceral, sem medo de expor seus maiores dotes dramáticos.

Assumindo um papel que seria de Javier Bardem e não deixando nada a desejar com seu desempenho, o guatemalteco Oscar Isaac se confirma, em "O ano mais violento", como um ator de grandes recursos. Sem precisar apelar para longos diálogos, ele transmite ao espectador uma vasta gama de sentimentos, que vão do autocontrole à ira, da humildade ao rancor. Em alguns momentos lembra o jovem Al Pacino de "O poderoso chefão" (72) - e a caprichada reconstituição de época e a fotografia ajudam em fortalecer o tom de paranoia e tensão criado por Chandor. Um filme sem grandes reviravoltas ou emoções grandiloquentes, "O ano mais violento" lembra muito os policiais mais cerebrais da década de 1970, e resta ao público aceitar essa particularidade para descobrir suas inúmeras qualidades. Assistida sem expectativas equivocadas, é uma bela e competente realização de um dos diretores menos óbvios a surgir em Hollywood nos últimos anos.

quarta-feira

EX-MACHINA: INSTINTO ARTIFICIAL





EX-MACHINA: INSTINTO ARTIFICIAL (Ex Machina, 2014, Universal Pictures International, 108min) Direção e roteiro: Alex Garland. Fotografia: Rob Hardy. Montagem: Mark Day. Música: Geoff Barrow, Ben Salisbury. Figurino: Sammy Sheldon Differ. Direção de arte/cenários: Mark Digby/Michelle Day. Produção executiva: Eli Bush, Tessa Ross, Scott Rudin. Produção: Andrew Macdonald, Allon Reich. Elenco: Domhnall Gleeson, Oscar Isaac, Alicia Vikander, Sonoya Mizuno. Estreia: 16/12/14

2 indicações ao Oscar: Roteiro Original, Efeitos Visuais
Vencedor do Oscar de Efeitos Visuais


A cerimônia do Oscar 2016 não foi exatamente surpreendente, com as esperadas vitórias de Leonardo DiCaprio, Brie Larson e "Spotlight: segredos revelados" nas principais categorias e o arrastão proporcionado por "Mad Max: Estrada da fúria". Mas mesmo assim, a Academia sempre guarda um trunfo para não deixar a noite tão previsível e nessa ocasião o susto, em especial para as grandes produções que concorriam ao prêmio de efeitos visuais, foi imenso: concorrendo contra pesos-pesados como "Star Wars: o despertar da força", "Mad Max" e "O regresso" (todos com orçamentos acima dos 150 milhões de dólares), o pequeno "Ex-machina: instinto artificial", com seu custo irrisório de 15 milhões, levou a estatueta e reafirmou sua posição de Davi contra Golias. Pouco visto nos cinemas americanos (ao menos em comparação com seus oponentes diretos) e lançado sem muito alarde, a estreia do roteirista e escritor Alex Garland como cineasta é uma instigante e curiosa fantasia a respeito do alcance da Ciência em um futuro não muito distante. Usando os efeitos especiais como parte integrante da narrativa e não como um espetáculo à parte, o filme envolve a plateia em um jogo de manipulação que só fará sentido completamente nos minutos finais. Ao não subestimar a inteligência do espectador, Garland criou uma pequena pérola, uma ficção científica que tem apelo até mesmo àquele que torcem o nariz em relação ao gênero.

Tudo começa quando o jovem programador Caleb Smith (Domhnall Gleeson, cada vez mais presente nas telas) é escolhido para passar uma semana na propriedade isolada do misterioso e misantropo Nathan Bateman (Oscar Isaac), dono da empresa de informática onde ele trabalha. Introvertido e quase antissocial, o órfão e solitário Caleb ouve do próprio Nathan - um homem tanto excêntrico quanto genial - o motivo de sua visita: o que o milionário deseja é testar o quão longe foi em suas pesquisas a respeito de inteligência artificial. Para isso, apresenta a seu jovem funcionário à bela Ava (Alicia Vikander), um robô com aparência quase humana e inteligência acima da média. Sendo obrigado a dar um parecer depois de apenas algumas sessões a sós com Ava, o desajeitado Caleb acaba se deixando envolver pelo fascínio de estar diante de uma invenção humana e, aos poucos, começa a questionar as reais intenções de Nathan - sendo impelido por Ava a duvidar da honestidade do programa.


Como um jogo de gato e rato engenhoso e brilhantemente executado, "Ex-machina" é fascinante e hipnotizante: cada detalhe da direção de arte minimalista é crucial para o desenvolvimento da trama e suas inteligentes metáforas visuais. Com uma estética clean, quase desprovida de elementos mais elaborados, Garland cria uma atmosfera de suspense e expectativa que mantém a atenção até o final: as conversas entre Caleb e Ava são um perfeito exemplo da técnica do cineasta novato: ela é a experiência, mas a cada sessão quem mais se percebe preso e confinado é ele. A fotografia de Rob Hardy contribui para o clima opressivo, assim como a trilha sonora quase imperceptível, que enfatiza a solidão dos três protagonistas, cada um afogado em seus próprios dilemas éticos, morais e pessoais - o que inclui até (e principalmente) Ava. Misturando discussões filosóficas a uma trama por si só bastante interessante e questionadora, o roteiro foge do óbvio sempre que parece estar em vias de cair nas armadilhas das produções do gênero, levando o público mais longe do que se poderia supor em seus minutos iniciais. Fazendo uso de seu talento como escritor - é ele o autor do romance "A praia", que deu origem ao filme de Danny Boyle estrelado por Leonardo DiCaprio em 2000 - e merecidamente indicado ao Oscar de roteiro original, Alex Garland brinca com as percepções da plateia, desenvolve com precisão a personalidade de cada um de seus personagens e cria um desfecho poético e quase perturbador.

E se o roteiro e a direção de Alex Garland revelam um cineasta inteligente e sensível, seus atores não poderiam estar melhores. Domhnall Gleeson aos poucos vai traçando um caminho bastante consistente em Hollywood, marcando presença em sucessos de bilheteria e crítica, como "O regresso", "Invencível" - dirigido por Angelina Jolie - e "Anna Karenina" - a versão estrelada por Keira Knightley e Jude Law: seu estilo suave de interpretação cabe como uma luva em Caleb, um jovem desconfortável na própria pele e que se apaixona por uma inteligência artificial. Oscar Isaac - que Madonna praticamente revelou em "W/E: o romance do século" (2011) e depois seguiu um caminho de grande personalidade artística - constrói um Nathan Bateman exótico em seu brilhantismo, isolado e quase paranoico como a maioria dos gênios. E Alicia Vikander - às vésperas de levar um Oscar de coadjuvante por "A garota dinamarquesa" (2015) - seduz a plateia sem dificuldade, em uma atuação que mescla com maestria trejeitos robóticos e humanos e se revela, em seu final, o trabalho mais impressionante do filme. Uma feliz conjunção de fatores - elenco, direção, roteiro, técnica - e despretensão, "Ex-machina: instinto artificial" é um dos mais admiráveis filmes de sua temporada (e uma das melhores ficções científicas da década).

segunda-feira

ALEXANDRIA

ALEXANDRIA (Agora, 2009, Mod Producciones/Himenóptero, 127min) Direção: Alejandro Amenábar. Roteiro: Alejandro Amenábar, Mateo Gil. Fotografia: Xavi Giménez. Montagem: Nacho Ruiz Capillas. Música: Dario Marianelli. Figurino: Gabriella Pescucci. Direção de arte/cenários: Guy Hendrix Dyas/Larry Dias. Produção executiva: Simón de Santiago, Jaime Ortiz de Artiñano. Produção: Álvaro Augustin, Fernando Bovaira. Elenco: Rachel Weisz, Max Minghella, Oscar Isaac, Ashraf Barhom, Michael Lonsdale, Rupert Evans. Estreia: 17/5/09 (Festival de Cannes)

Houve uma demora de cinco anos entre o lançamento de "Mar adentro" - Oscar de melhor filme estrangeiro em 2005 - e "Alexandria", realização seguinte do cineasta chileno Alejandro Amenábar. Nada de novo: entre "Os outros" (2001), seu primeiro grande sucesso internacional, e "Mar adentro", que lhe deu reconhecimento e prestígio entre a crítica, o intervalo já havia sido de consideráveis três anos - uma eternidade dentro da veloz indústria hollywoodiana, mas um período de tempo relativamente aceitável quando se trata de diretores detalhistas e dedicados a projetos menos óbvios. É o caso de "Alexandria", que custou bastante caro (cerca de 70 milhões de dólares) para uma produção sem grandes efeitos visuais ou garantia de retorno (leia-se chamarizes de bilheterias, como grandes astros ou personagens facilmente identificáveis, como super-heróis ou personalidades conhecidas da plateia) e acabou pagando um preço alto por sua ousadia. Praticamente ignorado pela crítica e um fiasco comercial, a história da filósofa e astrônoma grega Hipátia não encontrou seu público e terminou sua carreira nos cinemas com uma renda pouco superior a 700 mil dólares de arrecadação. Tal desastre não apenas arranhou seriamente a reputação de Amenábar - que só retornou aos longas com o péssimo "Regressão" (2015) - mas privou a plateia de conhecer um filme que, se não é tão bom quanto os trabalhos anteriores do cineasta, ao menos tem uma inteligência muito acima da média - e uma relevância histórica extremamente importância em uma época de tanta intolerância religiosa como a atual.

Como o próprio título nacional sugere, o filme se passa em Alexandria, cidade egípcia famosa por seu farol e por sua biblioteca, considerada a maior do mundo. É lá, no ano de 391 que a trama, criada por Amenábar e Mateo Gil, tem início: Hipátia (Rachel Weisz, esforçada) é uma brilhante filósofa que leciona na célebre biblioteca local, ensinando a seus discípulos as ainda rudimentares noções de astronomia, além de matemática e filosofia. Bonita e inteligente, ela se dedica incansavelmente ao estudos dos movimentos dos corpos celestes, enquanto rejeita delicadamente as investidas de Orestes (Oscar Isaac em começo de carreira), um de seus alunos, e de Davus (Max Minghella), seu escravo pessoal. Em um período conturbado pelos conflitos entre cristãos, judeus e pagãos, ela precisa também manter-se no fio da navalha: racional, ela não sente-se à vontade em nenhuma religião, mas sabe que isso é potencialmente perigoso para sua integridade física. Quando os cristãos tomam o poder, graças à liderança de Cirilo (Sammy Samir) e Ammonius (Ashraf Barhom), ela não consegue impedir a destruição da biblioteca nem tampouco a violência que explode nas ruas da cidade. Vinte anos mais tarde, as coisas ainda estão delicadas: seu ex-aluno, Orestes, é o prefeito, mas não concorda com as atitudes radicais dos cristãos - que querem impor suas leis e perseguir quem lhes é contrário - e, com a ajuda de um antigo colega, Synesius (Rupert Evans), tornado bispo, tenta convencê-la a converter-se ao cristianismo como forma de manter suas aulas. Hipátia se recusa e entra em rota de colisão com o poder.


Ainda que encontre em Hipátia uma protagonista interessante e que serve como fio condutor de uma trama que tenta retratar a histórica rivalidade entre judeus e cristãos, o roteiro de "Alexandria" esbarra em uma comprometedora ausência de foco narrativo que enfraquece suas redentoras qualidades. Ao abraçar simultaneamente a trajetória da filósofa e os acontecimentos trágicos e violentos à sua volta, relacionados com a intolerância, Amenábar acaba por optar pela superficialidade em ambos os terrenos. A rica história de Hipátia muitas vezes fica em segundo plano - e frequentemente suas cenas são resumidas a longas explanações sobre seus estudos de Astronomia e suas questões relativas ao Universo: essa falta de aprofundamento em sua personalidade acaba por mostrar-se crucial, impedindo uma aproximação maior do público até mesmo quando o filme força um triângulo amoroso um tanto improvável entre ela, Davus e Orestes. Tal artifício, ao invés de envolver a plateia, acaba por diluir o impacto de algumas de suas melhores sequências - aquelas que mostram, de maneira sutil e elegante (mas sempre contundentes) os perigos que cercam o fanatismo e a falta de empatia entre as religiões. Essa indecisão narrativa, somada a um ritmo claudicante, enfraquece o conjunto, restando ao espectador apenas a opção de avaliar o filme por suas partes.

Se o roteiro falha em aprofundar seus temas e se distancia tanto do épico religioso quanto do romance, cabe ao elenco escolhido por Amenábar dar conta dessas inconsistências. E nesse quesito o cineasta não pode reclamar. Bom diretor de atores, o chileno tem em Rachel Weisz seu principal apoio: em um papel escrito especificamente para ela, a atriz premiada com o Oscar por "O jardineiro fiel" (2005) pode não estar em seu melhor desempenho, mas tem força dramática o suficiente para segurar uma personagem de cuja vida pessoal pouco se sabe e transformá-la em alguém de carne e osso, verossímil mesmo quando a trama escorrega para a tragédia. Oscar Isaac, ainda antes de conhecer o gostinho da fama, faz o que pode com seu Orestes, que começa como um potencial vilão e se transforma em um dos grandes apoiadores da protagonista - a cena em que desafia Cirilo e se recusa a ajoelhar-se diante da Bíblia é intensa e emocionante. Mas o maior destaque do elenco é o jovem Max Minghella, filho do diretor Anthony Minghella, vencedor do Oscar por "O paciente inglês" (96): com o ingrato papel do escravo cristão Davus, que assume importância crucial conforme a história vai avançando, Max demonstra maturidade e sensibilidade, assumindo todas as nuances de seu personagem com coragem e determinação de veterano - até mesmo sua transformação física é crível e realista. O cuidado de Amenábar em extrair o melhor de seus atores é seu maior trunfo: "Alexandria" fica marcado na mente do público justamente por causa deles, que dão vida a um argumento muitas vezes frágil e ambicioso demais. Ainda assim, é um filme injustiçado, que merece uma segunda chance.

AS DUAS FACES DE JANEIRO

AS DUAS FACES DE JANEIRO (The two faces of January, 2014, Working Title Films, 96min) Direção: Hossein Amini. Roteiro: Hossein Amini, romance de Patricia Highsmith. Fotografia: Marcel Zyskind. Montagem: Nicolas Chardeuge, Jon Harris. Música: Alberto Iglesias. Figurino: Steven Noble. Direção de arte/cenários: Michael Carlin/Dominic Capon. Produção executiva: Tim Bricknell, Ron Halpern, Max Minghella. Produção: Tim Bevan, Eric Fellner, Robyn Slovo, Tom Sternberg. Elenco: Viggo Mortensen, Kirsten Dunst, Oscar Isaac, Daisy Bevan. Estreia: 11/02/14 (Festival de Berlim)

Quem conhece a obra de Patricia Highsmith sabe que uma de suas maiores características é a elegância com que ela reveste até mesmo os atos mais cruéis cometidos por seus personagens - vias de regra dotados de um carisma que quase obriga o leitor a compactuar com tais atitudes. Foi assim que aconteceu com Tom Ripley (interpretado no cinema por Matt Damon, Alain Delon e John Malkovich) e com Bruno Anthony (a quem Robert Walker deu vida no clássico hitchcockiano "Pacto sinistro"). E é quase isso que acontece também com Chester MacFarland, o protagonista do envolvente "As duas faces de janeiro", estreia na direção do iraniano Hossein Amini - também roteirista do impactante "Drive", estrelado por Ryan Gosling. Vivido por um Viggo Mortensen esbanjando charme e equilibrando-o com um muito apropriado tom ameaçador, MacFarland une-se à galeria de tipos ambíguos criados por Highsmisth em um filme que, a despeito de sua passagem quase ignorada pelas telas de cinema, merece uma segunda chance de ser descoberto.

Sem apelar para a violência desnecessária e dotando sua narrativa com um compasso suave que combina com o calor do sol que banha as belas paisagens gregas que lhe servem de cenário - fotografadas com inspiração por Nicolas Chardeuge - Amini mistura em seu filme a tensão característica dos livros da escritora texana, uma sensualidade reprimida e um senso de imprevisibilidade que conduz o espectador por um labirinto de reviravoltas capaz de seduzir qualquer um até o minuto final. Revelando somente aos poucos as reais intenções e personalidades de seus protagonistas e proporcionando ao público a chance de acompanhar uma história inteligente e calcada na sutileza ao invés de bombardeá-lo com sangue e efeitos visuais, "As duas faces de janeiro" pode não arrebatar completamente - há uma certa quebra de ritmo em sua metade - mas é muito melhor do que a maioria dos filmes policiais incensados pela crítica.


A trama começa em Atenas, em 1962, quando o casal de americanos Chester (Viggo Mortensen) e Colette (Kirsten Dunst em mais uma memorável atuação) chama a atenção do guia turístico Rydal (Oscar Isaac, sem dúvida um dos atores mais competentes surgidos em Hollywood na segunda década dos anos 2000), que complementa sua renda enganando jovens turistas desavisadas, que se deixam seduzir por seu charme e inteligência. Impressionado com a sofisticação do casal - e principalmente pela beleza de Colette - Rydal acaba por servir de acompanhante aos dois durante sua estada na cidade. Por um acaso do destino, porém, ele acaba sendo testemunha de um crime cometido por Chester - na verdade um golpista que está no país fugindo de uma série de credores. Se oferecendo para ajudar o novo amigo a escapar incólume da região, o rapaz se aproveita para ficar ainda mais próximo de Colette, também atraída por sua juventude e vitalidade. Triângulo amoroso formado, resta aos três desvencilhar-se das investigações policiais e lidar com novos segredos que podem vir à tona.

Produzido com extremo requinte - a reconstituição de época é primorosa e a trilha sonora de Alberto Iglesias pontua com precisão o desenvolvimento da história - "As duas faces de janeiro" é um filme que merece encontrar seu público também porque é uma alternativa consistente a obras que tentam cativar a audiência com explosões sem sentido e violência gratuita. Nadando contra a corrente e privilegiando a história e os personagens mais do que tais artifícios, Hosseim Amini acabou por realizar uma estreia alvissareira, que denota um cineasta inteligente e sensível que tem tudo para tornar-se um nome bastante reconhecido nos próximos anos. Que venha um novo trabalho!

domingo

INSIDE LLEWYN DAVIS - BALADA DE UM HOMEM COMUM

INSIDE LLEWYN DAVIS - BALADA DE UM HOMEM COMUM (Inside Llewyn Davis, 2013, CBS Films/StudioCanal, 104min) Direção e roteiro: Ethan Coen, Joel Coen. Fotografia: Bruno Delbonnel. Montagem: Roderick Jaynes. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: Jess Gonchor/Susan Bode Tyson. Produção executiva: Olivier Courson, Robert Graf, Ron Halpern. Produção: Ethan Coen, Joel Coen, Scott Rudin. Elenco: Oscar Isaac, Carey Mulligan, Justin Timberlake, Ethan Phillips, Max Casella, Adam Driver, John Goodman, Garrett Hedlund, F. Murray Abraham. Estreia: 19/5/13 (Festival de Cannes)

2 indicações ao Oscar: Fotografia, Mixagem de Som

Não adianta. Entra ano e sai ano, os irmãos Coen continuam sendo uma voz única (por mais paradoxal que seja a afirmação, uma vez que eles são dois) dentro da mesmice do cinema americano. Mesmo que por vezes aceitem fazer o jogo da indústria - com filmes mais comerciais, como "O amor custa caro" e "Queime depois de ler", que ainda assim tem um quê de rebeldia disfarçada pelos elencos estelares - eles nunca abrem mão de imprimir em cada trabalho uma personalidade que os diferenciam do mainstream. Mais uma prova disso - se é que precisa de mais uma - é o melancólico "Inside Llewyn Davis, balada de um homem comum", injustamente ignorado pela mesma Academia que encheu de louvores o fraco e previsível "Clube de compras Dallas". Repleto das qualidades que fazem da filmografia dos Coen uma das mais consistentes do cinema ianque desde sua estreia com a revisita ao filme noir "Gosto de sangue" (84), a odisseia do músico folk do título, vivido com intensidade crua pelo ótimo Oscar Isaac, é uma pérola de sensibilidade, humor negro e boa música, capaz de envolver a audiência sem precisar de grandes eventos dramáticos para isso.

Llewyn Davis, o protagonista, é um cantor folk sem lar, sem lenço e sem documento que transita pelo Greenwich Village de 1961, buscando uma chance de firmar-se na carreira depois do suicídio do parceiro artístico. Seguindo o vento, ele conta com a ajuda dos amigos para sobreviver sem um endereço fixo - mesmo que em várias ocasiões surjam conflitos sérios entre eles, especialmente com Jean (Carey Mulligan, mais uma vez ameaçando roubar a cena), namorada e parceira musical do talentoso Jim (o cantor Justin Timberlake acertando mais uma vez em sua carreira cinematográfica), que lhe revela estar grávida depois de um rápido e traumático caso. Sua vida itinerante o faz questionar frequentemente sua opção em tentar a vida artística, mas seu amor pela música sempre fala mais alto, mesmo quando tudo parece lhe gritar o contrário. Solitário e melancólico, ele vaga sem destino pelas ruas de Nova York - e Chicago - acompanhado apenas por um gato do qual nem sabe o nome e de seu violão, sua arma contra a mediocridade e a agressividade de um mundo hostil à sua presença quase invisível.





Tendo sua trajetória ilustrada pela excepcional trilha sonora supervisionada por T Bone Burnett (que fez o mesmo com "Coração louco", que deu o Oscar de melhor ator a Jeff Bridges em 2010) e iluminada magistralmente pela câmera do francês Bruno Delbonnell (merecidamente indicada a uma estatueta da Academia), que transforma cada cena em uma pequena obra de arte que reflete seu estado de espírito atormentado mas sempre inquebrantável, Llewyn Davis é mais um anti-heroi criado pelos irmãos Coen, um homem que, conforme destaca o desnecessário subtítulo nacional, é comum em seus sentimentos mas brilhante em sua tenacidade artística. Seus expressivos silêncios, seu olhar triste e a força de sua música - passional e potente - falam mais do que seus diálogos, repletos de um desamparo e de uma desesperança que contrastam com sua resiliência. Exímios roteiristas, os irmãos Coen preenchem seu filme ora com ataques agressivos ao protagonista - em especial quando se trata de Jean e sua metralhadora de ofensas - ora com um senso de humor negro sutil e inteligente. Em uma jogada de mestre, eles ainda dão a seu protagonista uma revelação bombástica, que pode (ou não) mudar drasticamente seu destino e fazem a escolha certa em relação à sua decisão de encará-la.


Brilhantemente interpretado por Oscar Isaac - ator nascido na Guatemala e que já foi visto mas pouco notado em filmes como "Drive" (onde fazia o marido de Carey Mulligan) e "W/E, o romance do século" (dirigido por Madonna) - Llewyn Davis passa o filme inteiro lutando contra os obstáculos de um cotidiano opressor e preto-e-branco contando apenas com sua quase implacável confiança em seu talento quase nunca devidamente reconhecido (e é diferente na vida real?). Passando por momentos ora surreais - como a carona com um desagradável John Goodman, colaborador habitual dos cineastas - ora de um tristeza quase tangível, o filme conquista pela sofisticação de sua narrativa e pela delicadeza estonteante de seu visual. É um pequeno grande filme que merece ser reconhecido como tal - nem que seja para provar que nem só de elaborados efeitos especiais vive o cinema americano.

W.E: O ROMANCE DO SÉCULO

W.E: O ROMANCE DO SÉCULO (W.E, 2011, The Weinstein Company, 119min) Direção: Madonna. Roteiro: Madonna, Alek Keshishian. Fotografia: Hagen Bogdanski. Montagem: Danny B. Tull. Música: Abel Korzeniowski. Figurino: Arianne Phillips. Direção de arte/cenários: Martin Childs/Celia Bobak. Produção executiva: Scott Franklin, Donna Gigliotti, Harvey Weinstein. Produção: Madonna, Kris Thykier. Elenco: Abbie Cornish, Andrea Riseborough, James D'Arcy, Oscar Isaac, Richard Coyle, James Fox, Edward Fox, Judy Parfitt, Natalie Dormer. Estreia: 01/9/11 (Festival de Veneza)

Indicado ao Oscar de Figurino

A primeira coisa que é preciso ter em mente quando se propõe a uma sessão de "W.E. - O romance do século" é o fato de Madonna ter contra si a imensa má-vontade dos críticos e da própria indústria do cinema. Salvo raríssimas exceções - e mesmo assim longe de uma margem confortável de elogios - a estrela pop é sistematicamente bombardeada com uma animosidade quase inexplicável sempre que tenta a sorte na sétima arte. Um exemplo claro e insofismável dessa antipatia generalizada pela ex-mulher de Sean Penn e Guy Ritchie - ambos bem-sucedidos nas carreiras de cineastas - foi a forma violenta com que seu segundo longa-metragem como diretora foi recebido de forma quase unânime. Malhado impiedosamente pela crítica, "W.E" não mereceu toda essa enxurrada de pedras. Mesmo que esteja bem longe de ser uma obra-prima e também peque em alguns itens cruciais a história de amor entre o rei Eduardo VIII e a americana duas vezes divorciada Wallis Simpson - é contada por Madonna com um senso estético e um refinamento que revelam que suas três décadas como estrela de videoclipes certamente lhe ensinaram muita coisa em termos visuais.

Fotografado com requinte e sutileza pelo alemão Hagen Bogdanski, "W.E" começa com uma cena de inegável impacto, quando Wallis (Andrea Riseborough) é violentamente espancada pelo primeiro marido durante a gravidez. Essa cena - aparentemente gratuita - fará eco mais tarde com a situação triste vivida pela jovem Wally Winthrop (Abbie Cornish), que passa por uma séria crise em seu casamento justamente por desejar ardentemente um bebê. Wally - assim batizada justamente porque sua mãe era fã da famosa Wallis - é a verdadeira protagonista do filme, deixando o romance entre a americana à frente de seu tempo e o rei que abdicou do trono por amor (e o deixou com o irmão, protagonista do filme "O discurso do rei") quase como uma trama secundária que comenta (às vezes sem a força necessária, às vezes de forma acertadamente delicada) a trajetória da Wally contemporânea e seu tímido romance com Evgeni (Oscar Isaac), o segurança russo do museu nova-iorquino onde acontece uma exposição sobre o célebre casal. E é justamente essa opção do roteiro - escrito pela cantora e por Alek Keshishian, que a dirigiu em "Na cama com Madonna" - que acaba sendo sua maior e mais crítica falha.


Ao dividir a atenção em duas histórias que não precisariam necessariamente estar conectadas - ao menos de forma tão frágil - Madonna tira o foco daquela que poderia ser a trama mais interessante e que dá título a seu filme. A história de amor que abalou a realeza inglesa é contada de maneira um tanto confusa e superficial, obrigando a plateia a adivinhar certos acontecimentos e encontrar-se sozinha no emaranhado de imagens que sublinham a ligação entre as duas protagonistas. Demora um pouco para que o público finalmente perceba as intenções do roteiro e essa confusão é quase fatal, em especial para uma audiência não exatamente acostumada a pensar. Prejudicado ainda pelo fato de não ter astros de primeira grandeza em seu elenco - Ewan McGregor chegou a ser confirmado como Eduardo VIII mas teve de cair fora por problemas de agenda - o filme rendeu pouco mais de 500 mil dólares no mercado americano contra seu custo estimado de 15 milhões (bancados pela própria Madonna), o que apenas reitera o desprezo do público pela Madonna cineasta. Uma injustiça, já que os trabalhos de Andrea Riseborough como Wallis Simpson - papel oferecido a Vera Farmiga e Amy Adams - e Oscar Isaac - em seu primeiro papel de destaque - são dignos de nota.

Além disso, apesar de ter custado barato"W.E" em nenhum momento passa essa impressão. Cuidadosamente produzido - chegou a concorrer ao Oscar de figurino e rendeu à cantora uma indicação ao Golden Globe pela bela canção "Masterpiece" - e visualmente excitante, com uma reconstituição de época opulenta e detalhista, é um produto que seduz sua audiência pela sutileza e pela delicadeza. Vindo de Madonna - não exatamente um exemplo de discrição - não deixa de ser positivamente surpreendente.

sexta-feira

DRIVE

DRIVE (Drive, 2011, FilmDistrict/MG Film, 100min) Direção: Nicolas Winding Refn. Roteiro: Hossein Amini, romance de James Sallis. Fotografia: Newton Thomas Sigel. Montagem: Mat Newman. Música: Cliff Martinez. Figurino: Erin Benach. Direção de arte/cenários: Beth Mickle/Lisa Sessions Morgan. Produção executiva: David Lancaster, Bill Lischack, Linda McDonough, Peter Schlessel, Jeffrey Stott, Gary Michael Walters. Elenco: Ryan Gosling, Carey Mulligan, Bryan Cranston, Albert Brooks, Oscar Isaac, Christine Hendricks. Estreia: 20/5/11 (Festival de Cannes)

Indicado ao Oscar de Edição de Som
Vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes: Melhor Diretor (Nicolas Windig Refn)

Desde suas primeiras cenas, o empolgante “Drive” leva o público a algumas comparações quase óbvias ao já clássico “Taxi driver”, lançado em 1976: desde o título até a violência explícita em seu clímax – passando pela personalidade elíptica de seu protagonista e o tom pessimista e melancólico do roteiro – parece pagar um tributo dos mais admiráveis a uma das obras-primas do cineasta Martin Scorsese. Mas um olhar mais apurado pode descobrir no filme do norueguês Nicolas Winding Refn uma outra influência, menos evidente mas igualmente brilhante: o admirado “Os brutos também amam”, dirigido por George Stevens em um longínquo 1953. Por mais estranho que possa parecer em um primeiro olhar – afinal, “Drive” é um policial e “Shane” um western típico – as comparações fazem sentido. Se não, vejamos.
No filme de Stevens, Alan Ladd vivia o personagem-título, um homem misterioso, sem passado nem futuro, que chega a uma pequena cidade do interior do oeste americano e ajuda um jovem fazendeiro (Van Heflin) e sua família – esposa e filho pequeno – a se livrarem de um vizinho corrupto e violento que desejam lhe tomar as terras. Seu heroísmo acaba por despertar sentimentos menos nobres que a gratidão da bela dona-de-casa, mas ele se recusa a abdicar de seus princípios e, resolvida a questão com os criminosos, vai embora da mesma forma com que entrou na vida dos novos amigos. Em “Drive”, o que muda é o cenário – uma Los Angeles estilizada, iluminada à noite e desoladoramente asséptica durante o dia – e o contexto da violência – bem mais clara (ainda que utilizada com inteligência e parcimônia) e adequada a uma época em que o heroísmo no cinema está intimamente ligado aos litros de sangue derramados por frame. Ryan Gosling interpreta o protagonista, um jovem mecânico que complementa o orçamento trabalha como dublê em filmes de ação que precisam de um motorista corajoso. Sem jamais dizer seu nome – tanto que é batizado como “driver” até mesmo nos créditos de encerramento do filme – ele também preenche sua sede de adrenalina ajudando assaltantes em fuga nas noites angelenas: ele espera no carro, dá cinco minutos aos contratantes e assume todas as responsabilidades da fuga desde que o tempo proposto não seja ultrapassado. Quando o filme começa, ele conhece a bela e tímida Irene (Carey Mulligan), vizinha de porta que mora com o filho pequeno, Benício, enquanto aguarda a saída de seu marido da cadeia. O rapaz se apaixona por Irene e sua convivência com ela e o menino fica cada vez mais próxima.
A harmonia da relação é quebrada, no entanto, quando Standard (Oscar Isaac), marido de Irene, é libertado. O calado motorista tenta afastar-se da família, como convém a um herói, mas o destino – na forma de antigos colegas de Standard – interveem no desenrolar da história: ameaçado de morte por criminosos que conheceu antes de sua prisão, o ex-presidiário precisa cometer um último assalto para pagar uma dívida que, não quitada, resultará na sua morte – bem como a de sua família. Sem pensar duas vezes, o protagonista resolve ajudar o rival e acaba por entrar na mira de um assustador mafioso, Bernie Rose (Albert Brooks), que por acaso é seu patrocinador em uma possível carreira de corridas de automóveis.



Como pode-se perceber, a estrutura de “Drive” – baseado em um romance de James Sallis, adaptado por Hossein Amini – é mais semelhante a de “Os brutos também amam” do que a de “Taxi driver”. Mas as influências praticamente param por aí. Enquanto George Stevens criou um western quase sentimental, Refn mergulhou fundo no estilo do cinema policial americano dos anos 70, cerebral e febril, com generosas doses de uma angústia e de uma melancolia que faz de seu filme uma pequena obra-prima, que foge brilhantemente do tom monocórdio dos filmes do gênero realizados em Hollywood. Apelando para a ação e para a violência somente quando ela é estritamente necessária, o cineasta pega o espectador de surpresa sempre que ela surge – abrupta, seca, realista – para lembrá-lo que, afinal de contas, a história de amor entre o protagonista e Irene não é um conto de fadas e sim, um romance nascido sob a sombra do perigo e da corrupção. A fotografia espetacular de Thomas Newton Sigel colabora com a sensação de desamparo e a trilha sonora – que soa como deslocada temporalmente da narrativa – ilustra com precisão a tensão crescente, banhando até mesmo as cenas mais românticas com um senso de desconforto que culmina naquela que talvez seja a mais forte sequência do filme, dentro de um elevador, que parte de um beijo para um banho de sangue que mistura o explícito com a sugestão – e que encontra parâmetros somente na inesquecível cena em que Edward Norton assassina um homem negro em “A outra história americana”.
Mas se o roteiro de Amini se presta a mais de um gênero sem prejuízo de nenhum deles (é uma história de amor, um violento policial ou um denso drama intimista, dependendo do olhar do espectador), a direção de Nicolas Winding Refn é igualmente impecável: desde a concepção visual do filme – a jaqueta que Ryan Gosling usa em cenas-chave da narrativa já é um ícone de sua época – até o desenho de seus personagens (do protagonista aos coadjuvantes), tudo funciona como um relógio em “Drive”. Ryan Gosling entrega uma atuação avassaladora, criando um anti-herói de poucas palavras que transmite com um único olhar mais do que longos diálogos e encontra parceiros de cena do mais alto calibre. Se Carey Mulligan é o retrato da doçura, Albert Brooks surge assustador como o vilão Bernie Rose; se Oscar Isaac cria um personagem que foge do clichê “ex-presidiário ameaçador” com uma interpretação com mais nuances do que o normal em um filme policial, Bryan Cranston (da série “Breaking Bad”) igualmente não deixa o espectador prever os atos do seu. Todos importantes no xadrez criado pela trama – que os coloca como aliados ou inimigos de acordo com as circunstâncias – eles são dirigidos com enorme segurança por Refn, que imprime uma elegância nórdica mesmo quando filma sequências de violência extrema. Esse requinte, somado ao elenco superlativo e à inteligência de jamais apelar para o previsível, é que faz de “Drive” um filme obrigatório e essencial para entender sua época – aliás, justamente como acontece com sua inspiração maior, “Taxi driver”, deverá ser lembrado ainda por muitos anos como um dos grandes thrillers policiais realizados pelo cinema americano.

O PREÇO DA TRAIÇÃO

  O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...