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segunda-feira

QUANDO UM HOMEM AMA UMA MULHER

 


QUANDO UM HOMEM AMA UMA MULHER (When a man loves a woman, 1994, Touchstone Pictures, 126min) Direção: Luis Mandoki. Roteiro: Ron Bass, Al Franken. Fotografia: Lajos Koltai. Montagem: Garth Craven. Música: Zbigniew Preisner. Figurino: Linda Bass. Direção de arte/cenários: Stuart Wurtzel/Kara Lindstrom. Produção executiva: Ron Bass, Al Franken, Simon Maslow. Produção: Jon Avnet, Jordan Kerner. Elenco: Meg Ryan, Andy Garcia, Lauren Tom, Philip Seymour Hoffman, Ellen Burstyn, Tina Majorino, Mae Whitman. Estreia: 29/4/94

Por incrível que pareça - levando-se em conta o quanto o filme em si não é nada memorável e pouco acrescentou às carreiras dos envolvidos -, a ideia central de "Quando um homem ama uma mulher" surgiu de um rascunho de dez páginas escritas por ninguém menos que Orson Welles. Isso mesmo: o homem responsável por abalar a indústria do cinema com seu "Cidadão Kane" (1941) foi quem escreveu os primeiros rascunhos do filme lançado em 1994 e que conta a história de uma família ameaçada pelo fantasma do alcoolismo. Parte das tentativas de Meg Ryan em abandonar a imagem doce de estrela de comédias românticas, no entanto, a produção dirigida pelo inexpressivo Luis Mandoki não encontrou seu público e, se não foi um fracasso imenso nas bilheterias, tampouco tornou-se um sucesso comercial. Em parte por culpa do tema sombrio - ainda que revestido de uma leveza típica dos filmes Disney (através da Touchstone, sua subsidiária para filmes adultos) -, em parte pela falta de ousadia em mergulhar mais fundo no tema, o filme de Mandoki fica no meio-termo entre o que é e o que poderia ter sido. Pode emocionar aos mais sensíveis, mas sua superficialidade não deixa de incomodar.

Assumindo um papel que foi pensado para Debra Winger (e que também foi oferecido à Michelle Pfeiffer), a adorável Meg Ryan deixa de lado sua persona agradável e encantadora para dar vida (e lágrimas) à Alice Green, uma mãe de família dedicada que esconde, por trás de seus modos gentis e carinhosos, um vício quase paralisante por álcool. Quem sabe de seu problema é Michael (Andy Garcia), um piloto de avião que passa seus dias tentando encobrir as crises da mulher - às vezes sutis, outras bastante violentas. Suas filhas pequenas, Jess (Tina Majorino) e Casey (Mae Whitman), são testemunhas dos acessos da mãe, e sofrem a cada discussão entre os pais - além de serem potenciais vítimas da violência que pode surgir a qualquer momento. Depois de uma crise particularmente grave, Alice aceita ir para uma clínica de reabilitação - mas seu retorno acaba tendo efeitos colaterais graves em sua relação com o marido: antes o pilar que mantinha a família de pé, o responsável e amoroso Michael se vê repentinamente sem função na dinâmica da casa e o casamento encontra, então, uma nova ameaça.

 

Não é que o filme de Mandoki seja exatamente ruim. O problema é que, comparado a outras (e mais corajosas) produções sobre o mesmo tema, "Quando um homem ama uma mulher" empalidece irremediavelmente. Não há, nele, a sensação de urgência de "Farrapo humano" (1945) e "Vício maldito" (1962), que não à toa são referenciais em relação ao assunto. "Despedida em Las Vegas", que seria lançado no ano seguinte, também tem a ousadia que lhe falta, ao mergulhar Nicolas Cage em um espiral de desespero poucas vezes agradável ao olhos do espectador. Visualmente asséptico e emocionalmente superficial, o resultado final soa mais como uma telenovela do que como cinema - para isso conta também o roteiro quadradinho, escrito pelo vencedor do Oscar (por "Rain Man", de 1988) Ron Bass: a relação entre o casal de protagonistas, por exemplo, nunca atinge todo o seu potencial dramático, sendo ofuscado em diversas ocasiões pela dupla de atrizes mirins que interpretam suas filhas. Por mais que a intenção seja retratar o estrago feito pelo vício em um núcleo familiar, não deixa de ser frustrante ver o esvaziamento de uma questão tão séria em uma realização tão pouco ousada e que prefere o melodrama a discussões mais contundentes.

Nitidamente se esforçando em demonstrar uma nova faceta de seu talento, Meg Ryan nem sempre dá conta do recado, muitas vezes caindo na armadilha do exagero que o papel cria a cada cena - mas é louvável que leve a sério sua tarefa (a ponto de ter sido lembrada pelos colegas com uma indicação ao Screen Actors Guild). Andy Garcia, por sua vez, faz o que pode com um personagem que é praticamente o apoio para as crises de Ryan - é de se imaginar como Tom Hanks, a primeira escolha para o papel, se sairia em cena ao lado de Debra Winger. E no elenco coadjuvante, um jovem Philip Seymour Hoffman mal consegue destacar-se, assim como a veterana Ellen Burstyn - mal-aproveitada como a mãe de Alice. Amparando-se na força do tema, mas sem conseguir desenvolvê-lo a contento, "Quando um homem ama uma mulher" é um filme sobre alcoolismo para quem não tem a intenção de vê-lo com toda a feiura e dor que ele traz.

domingo

O OUTRO LADO DA NOBREZA


O OUTRO LADO DA NOBREZA (Restoration, 1995, Miramax Films, 117min) Direção: Michael Hoffman. Roteiro: Rupert Walters, romance de Rose Tremain. Fotografia: Oliver Stapleton. Montagem: Garth Craven. Música: James Newton Howard. Figurino: James Acheson. Direção de arte/cenários: Eugenio Zanetti. Produção executiva: Kip Hagopian. Produção: Sarah Black, Cary Brokaw, Andy Paterson. Elenco: Robert Downey Jr., Sam Neill, Meg Ryan, David Thewlis, Ian McKellen, Polly Walker, Hugh Grant. Estreia: 29/12/95

Vencedor de 2 Oscar: Figurino, Direção de Arte/Cenários

De todas as performances cinematográficas de Robert Downey Jr. - de Charles Chaplin ao Homem de Ferro, passando por comédias românticas, filmes de ação e a sensacional performance cômica indicada ao Oscar de coadjuvante em "Trovão tropical" (2008) - nenhuma é mais exuberante que Robert Merivel, o protagonista de "O outro lado da nobreza". Lançada em 1995, um dos anos mais produtivos da carreira do ator, e praticamente esquecido entre sua filmografia, a adaptação do romance de Rose Tremain chegou a ganhar dois Oscar (figurino e direção de arte) e contava com um elenco de nomes conhecidos do grande público - Hugh Grant, Meg Ryan, Sam Neill. Porém, com uma direção burocrática de Michael Hoffman e um roteiro que não consegue escapar da superficialidade, passou quase em branco pelo público e tampouco entusiasmou a crítica. E em comparação com seus trabalhos mais aplaudidos, o desempenho de Downey Jr. parece um tanto perdido, tentando encontrar o foco em um filme que tenta abraçar vários temas sem aprofundar-se a contento em nenhum deles.

Michael Hoffman não é um cineasta dos mais geniais, sempre apresentando produções no máximo simpáticas - como se pode afirmar depois de filmes como "Segredos de uma novela" (1991), "Um dia especial" (1996) e sua adaptação de "Sonho de uma noite de verão" (1999). Em "O outro lado da nobreza" não é diferente. Apesar do capricho na ambientação e da nítida ambição de criar uma obra relevante, Hoffman não consegue imprimir o tom de seriedade necessário para dar à trama, que retrata um dos períodos mais nefastos da História como forma de purgação e amadurecimento para o protagonista. O arco dramático soa bastante artificial e apressado, a despeito de atravessar anos e precipitar acontecimentos catalisadores que, da forma como apresentados, jamais transmitem o grau de importância que terão no desfecho da história. O roteiro de Rupert Walters tenta, em pouco menos de duas horas, estabelecer relações cruciais - mas esbarra em uma pressa que prejudica o envolvimento do espectador. Some-se a isso a personalidade hesitante de Robert Merivel - um bon vivant irresponsável que parece nunca estar completamente dedicado aos acontecimentos a seu redor - e o filme falha em sua principal pretensão: emocionar. 

 

A trama começa quando, em 1663, o estudante de Medicina Robert Merivel é chamado à corte do Rei Charles II (Sam Neill) para tratar de um de seus cachorrinhos preferidos. O jovem aspirante a médico salva a vida do animalzinho e cai nas graças do monarca, tornando-se parte de sua corte e deslumbrando-se com as vantagens de sua nova posição. As coisas começam a mudar quando o rei ordena que Merivel se case com a sensual Celia (Polly Walker), sua amante, para agradar outra de suas conquistas amorosas. As advertências de Charles para que o médico não se apaixone por sua esposa de mentirinha caem no vácuo, e, descoberto em seus sentimentos, Merivel se vê diante da vida que abandonara e, sem saber saber que rumo tomar, ele retoma a amizade com Pearce (David Thewliss) - um colega de faculdade que sempre pautou sua vida pela ética profissional. Nesse momento, a Peste Negra começa a espalhar-se pela Europa - e Merivel volta a ter seu caminho cruzado com o Rei e Celia depois de ter experimentado uma nova paixão com Katharine (Meg Ryan), uma jovem tratada como mentalmente insana e que lhe fez redescobrir as coisas boas da vida.

A trajetória de Merivel é plenamente compreensível, e seu amadurecimento é, apesar dos problemas de roteiro e direção, soam verossímeis. O problema é que "O outro lado da nobreza" parece tão deslumbrado por sua impecável reconstituição de época que esquece de dar atenção a elementos cruciais em uma narrativa. Atores como Hugh Grant e Ian McKellen são deixados de lado com personagens mal desenvolvidos, e a química inexistente entre Robert Downey Jr. e Meg Ryan também não ajuda a deixar as coisas menos complicadas. O filme de Michael Hoffman não é um filme ruim, mas tampouco é memorável a ponto de fazer diferença nas carreiras dos envolvidos. Pode agradar aos menos exigentes - mas dificilmente se tornará um favorito.

LINHAS CRUZADAS

LINHAS CRUZADAS (Hanging up, 2000, Columbia Pictures Corporation, 94min) Direção: Diane Keaton. Roteiro: Nora Ephron, Delia Ephron, romance de Delia Ephron. Fotografia: Howard Atherton. Montagem: Julie Monroe. Música: David Hirschfelder. Figurino: Bobbie Read. Direção de arte/cenários: Waldemar Kalinowski/Florence Fellman. Produção executiva: Delia Ephron, Bill Robinson. Produção: Nora Ephron, Laurence Mark. Elenco: Meg Ryan, Walter Matthau, Diane Keaton, Lisa Kudrow, Adam Arkin, Cloris Leachman. Estreia: 16/02/00

O time formado pela atriz Meg Ryan e pela roteirista Nora Ephron se mostrou uma fórmula de sucesso em pelo menos três ocasiões: em 1989, com "Harry e Sally: feitos um para o outro" (que revelou Ryan como estrela e rendeu à Ephron uma indicação ao Oscar), em 1993, com "Sintonia de amor" (enorme sucesso de bilheteria que também concorreu a uma estatueta pelo script romântico e bem-humorado), e em 1997,  com "Mensagem para você" (remake do clássico "A pequena loja da esquina" e que voltava a reunir Ryan com Tom Hanks, depois do êxito de "Sintonia"). No caso dos dois últimos, Ephron não apenas assinava o roteiro como também assumia a cadeira de direção, imprimindo a eles um estilo inconfundível que mesclava risos, lágrimas, música de qualidade e romantismo para dar e vender. Em "Linhas cruzadas", lançado em 2000, a dupla voltou a se encontrar, mas dessa vez com uma alteração em sua dinâmica: Ephron continuava por trás do texto, Meg continuava com o principal papel feminino, mas a direção ficou a cargo de Diane Keaton - atriz consagrada e cineasta bissexta. Porém, o filme, baseado no romance de Delia Ephron (irmã de Nora e coautora do roteiro), mostrou que nem mesmo receitas já testadas funcionam o tempo todo: massacrado pela crítica e com uma bilheteria tímida que nem mesmo cobriu seu custo, "Linhas cruzadas" só fica na memória mesmo por um fato triste: ser o último trabalho do ator Walter Matthau, que morreu quatro meses após sua estreia.

Na verdade "Linhas cruzadas" não é um filme ruim. Pelo menos não tão ruim quanto fizeram pensar as críticas à época de seu lançamento e a renda minguada de pouco mais de 30 milhões de dólares no mercado doméstico. Talvez seu maior problema tenha sido a equivocada estratégia de marketing, que, ao invés de assumi-lo como o drama familiar que é, preferiu vender a ideia de que se tratava de uma comédia - fator agravado pela presença de Lisa Kudrow (da popular série "Friends"), de Keaton (cujo "Clube das desquitadas", de 1996, foi um sucesso-surpresa) e até da própria Meg Ryan, a encarnação mais perfeita do romantismo ingênuo na década. Mesmo que o texto de Ephron tenha mantido alguns de seus toques de sarcasmo, a história que envolve três irmãs lidando com a iminência da morte do pai não é exatamente leve ou divertida - e nem mesmo o timing cômico de suas atrizes é capaz de levantar um tema tão denso. A indecisão entre o drama e a comédia (acentuada pela pouca experiência de Keaton atrás das câmeras) impede o filme de decolar em qualquer um dos gêneros.Em "Linhas cruzadas" o público não ri nem chora - fica sempre no meio do caminho, esperando que finalmente o roteiro tome um rumo definido (e quando isso acontece, perto do final, já é tarde demais para esperar a empatia da plateia).


Walter Matthau, simpático como sempre, dá vida a Lou Mozell, um septuagenário bonachão, mulherengo e irresponsável que, vítima de câncer, dá entrada em um hospital já demonstrando sinais de demência - que o leva a frequentemente fugir da realidade e relembrar traumas do passado. Entre esses traumas, o maior é a separação de sua mulher, Pat (Cloris Leachman), que o abandonou e às três filhas por não ter "o instinto maternal" como uma de suas características. A doença de Lou afeta especialmente sua filha do meio, Eve (Meg Ryan), dona de uma empresa de planejamento de festas e que, há alguns anos, se afastou dele depois de um incidente em uma festa de família. Como sua irmã mais velha, Georgia (Diane Keaton) é uma ocupadíssima dona de revista e celebridade nacional, e sua caçula, Maddy (Lisa Kudrow) está tentando uma carreira como atriz de telenovelas, cabe à Eve lidar com a enfermidade paterna e todas as suas consequências - o que irá fatalmente fazê-la encarar alguns fantasmas e a sua relação com as irmãs, com quem mantém um relacionamento ameno mas repleto de arestas e alguns ressentimentos.

Apesar de não atingir a todo o seu potencial dramático (ou cômico), "Linhas cruzadas" é um filme altamente simpático e agradável. Não é uma produção detestável e tampouco "o pior filme já feito", segundo alguns críticos mais severos, mas também não pode ser considerado bom. Seu elenco é ótimo, mas todos repetem à exaustão seus maneirismos típicos: Ryan como a adorável protagonista desengonçada, Keaton como a elegante atrapalhada, Kudrow como a desajeitada e Matthau como o pai ranzinza. Ninguém sai de sua zona de conforto, ninguém arrisca um voo mais alto - e isso se reflete no resultado final, pouco memorável e até decepcionante. Visualmente atraente e com alguns bons momentos perdidos em um roteiro cheio de vai-e-vens, é um filme muito aquém do que se poderia esperar de uma união de tantos talentos, mas vale uma sessão da tarde descompromissada - especialmente para os fãs do trio de atrizes ou do saudoso Walter Matthau. Não muda a vida de ninguém, mas também não tira nenhum pedaço.

SURPRESAS DO CORAÇÃO

SURPRESAS DO CORAÇÃO (French kiss, 1995, Polygram Filmed Entertainment/20th Century Fox, 111min) Direção: Lawrence Kasdan. Roteiro: Adam Brooks. Fotografia: Owen Roizman. Montagem: Joe Hutshing. Música: James Newton Howard. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Jon Hutman/Kara Lindstrom. Produção executiva: Charles Okun. Produção: Tim Bevan, Eric Fellner, Kathryn F. Galan, Meg Ryan. Elenco: Meg Ryan, Kevin Kline, Timothy Hutton, Jean Reno, François Cluzet. Estreia: 05/5/95

Desde sua estreia como cineasta em 1981, com o neonoir "Corpos ardentes", o roteirista Lawrence Kasdan sempre demonstrou uma versatilidade ímpar, percorrendo praticamente todos os estilos com inteligência e talento. Foi assim com os dramas "O reencontro" (83) e "Grand Canyon: ansiedade de uma geração" (91), a comédia de humor negro "Te amarei até te matar" (90), o romance de "O turista acidental" (88) e os westerns "Silverado" (85) e "Wyatt Earp" (94). Não chega a ser uma surpresa, portanto, que seu nome esteja por trás de "Surpresas do coração", sua primeira (e até agora única) investida na comédia romântica. Tampouco é surpreendente que, como aval para sua estreia, ele tenha contado com a providencial ajuda daquela que, na metade dos anos 90, era o principal nome de Hollywood no gênero: Meg Ryan. Uma das produtoras do filme, Ryan é a cara do projeto, uma produção agradável, divertida e inofensiva que, se não chega a ser memorável, ao menos é um passatempo bastante sofisticado, emoldurado por belas paisagens francesas e por um roteiro esperto que brinca com as diferenças culturais entre EUA e França - além de contar com um belo elenco e a fotografia inspirada de Owen Roizman em seu último trabalho.

Como frequentemente acontece no mundo do cinema, "Surpresas do coração" caiu nas mãos de Kasdan na hora certa: esgotado depois das problemáticas filmagens de "Wyatt Earp" - realizado com grande ambição mas recebido com frieza pelo público e pela crítica - e querendo um período de férias, ele encontrou, no roteiro de Adam Brooks, a desculpa perfeita para passar um tempo na França ao mesmo tempo em que trabalhava em um projeto menos grandioso. Sem poder contar com a presença de Gérard Depardieu (para quem o protagonista masculino foi escrito), o cineasta resolveu a questão da melhor forma possível e chamou para o elenco um amigo pessoal, parceiro habitual e, ainda mais importante, um ator sensacional. Em seu quinto trabalho com Kasdan, o premiado e sempre imprevisível Kevin Kline acrescenta um tempero a mais no filme, em uma personificação impagável de anti-galã - com direito a visual desleixado, mau-humor constante... e um charme incontestável.


A trama começa quando Kate (Meg Ryan), uma americana em vias de casar-se com o noivo, Charlie (Timothy Hutton), e assumir cidadania canadense, descobre, da pior maneira possível, que ele desistiu do compromisso depois de apaixonar-se por uma jovem francesa em sua viagem a Paris. Desesperada para reconquistá-lo, ela supera sua fobia de voar e resolve viajar ao encontro do novo casal. No avião, ela senta ao lado de Luc Teyssier (Kevin Kline), um típico francês falastrão e estranhamente interessado em suas histórias. Na verdade, o que Kate não sabe e só irá descobrir muito depois - quando já for tarde para tomar qualquer providência a respeito - é que Luc é um conhecidíssimo ladrão de joias que escondeu um valioso colar em sua mochila, juntamente com uma muda com a qual planeja começar um vinhedo em sua terra natal. Roubada por um antigo comparsa de Luc e sem possibilidade de voltar para casa, só resta à Kate reencontrar Charlie - e para isso, ela conta com a ajuda inesperada do adorável criminoso.

"Surpresas do coração" é o que se pode esperar de um filme estrelado por Meg Ryan. Assim como em todos os seus trabalhos anteriores do estilo, a atriz é simpática, engraçada e desajeitada na medida certa para a identificação da plateia feminina e interesse da masculina. Tal previsibilidade é, ao mesmo tempo, o maior trunfo e o calcanhar de Aquiles do filme: enquanto oferece ao público o que ele deseja quando se trata de uma comédia romântica (belas paisagens, personagens adoráveis, bons momentos de humor, uma trilha sonora inspirada), o trabalho de Kasdan não surpreende em momento algum, seguindo com lealdade canina todos os passos de uma produção do gênero. É lógico que o desempenho de Kevin Kline acrescenta prestígio ao filme (assim como o elenco francês, que inclui Jean Reno e François Cluzet, além do vencedor do Oscar Timothy Hutton), mas desta vez Kasdan não imprime uma marca diferencial, uma releitura que dê sua personalidade ao filme. É uma comédia romântica simples e eficiente, mas sem a intensidade de seus trabalhos anteriores - o que talvez seja algo proposital, afinal ele queria férias, não é verdade? No final das contas, para os fãs de Ryan, Kline e comédias românticas em geral, é um prato saboroso. Para o resto do público, é um passatempo dos mais divertidos - o que já é muito mais do que se pode dizer de boa parte de seus congêneres.

terça-feira

EM CARNE VIVA

EM CARNE VIVA (In the cut, 2003, Pathe Productions, 119min) Direção: Jane Campion. Roteiro: Jane Campion, Susanna Moore, romance de Susanna Moore, colaboração de Stavros Kazantzidis. Fotografia: Dion Beebe. Montagem: Alexandre De Franchesci. Música: Hilmar Orn Hilmarsson. Figurino: Beatrix Aruna Pasztor. Direção de arte/cenários: David Brisbin/Andrew Baseman. Produção executiva: Effie T. Brown, François Ivernel. Produção: Nicole Kidman, Laurie Parker. Elenco: Meg Ryan, Mark Ruffalo, Jennifer Jason-Leigh. Estreia: 09/9/03 (Festival de Toronto)

Dentre as características da filmografia da cineasta australiana Jane Campion, duas se destacam nitidamente: o ritmo pouco ágil e a naturalidade com que ela encara a nudez e o sexo. Foi assim, por exemplo, em seu filme mais famoso, o multi-premiado "O piano", em que Holly Hunter e Harvey Keitel se envolviam em um romance nos confins da Nova Zelândia no começo do século XX. Tais características se repetem em "Carne viva", em que ela mergulha em um gênero inédito em sua carreira (o policial) e volta a explorar a sexualidade humana, dessa vez sob o véu de uma história recheada de violência e tensão. Baseada em um romance de Susanna Moore que desejava filmar desde seu lançamento em 1996, Campion mesclou o drama psicológico, o romance erótico e o suspense policial do livro em um filme que, apesar das expectativas, é frustrante nas três frentes: não é profundo o bastante em seu estudo sobre a psique humana, não intriga o suficiente em termos de mistério e só não chega a ser totalmente indiferente no erotismo por explorar, em cenas bastante ousadas, um lado ainda totalmente desconhecido de uma das atrizes mais populares dos anos 90, Meg Ryan.

Em um momento crítico de sua trajetória artística - depois do fracasso de bilheteria de "Prova de vida" e do fim do casamento com Dennis Quaid, resultado de um escandaloso romance com seu parceiro de cena Russell Crowe - Ryan aceitou o papel central de "Em carne viva" como uma forma de mostrar que, além de ser a rainha das comédias românticas da década anterior, também era uma atriz capaz de aventurar-se por gêneros e enredos mais sombrios. Ficando com a protagonização que seria de Nicole Kidman - que pulou fora por motivos pessoais relacionados a seu divórcio com Tom Cruise mas manteve-se no cargo de produtora - a estrela de "Harry & Sally, feitos um para o outro" assumiu a responsabilidade de romper com a imagem pudica e romântica com que cimentou seu sucesso e, apesar do fracasso financeiro do filme, mostrou fôlego para uma fase mais madura na carreira - fase essa que, infelizmente, não vingou, graças a sucessivos fiascos comerciais.


No filme de Campion, Ryan interpreta Frannie Avery, uma professora de literatura que, com o objetivo de escrever um livro sobre as gírias dos guetos nova-iorquinos, frequenta sem medo bairros, bares e boates pouco recomendáveis para a segurança. Solteira e atraente, ela acaba se envolvendo na investigação de um violento assassinato cometido em sua vizinhança (mais um em um série de homicídios semelhantes) e conhece o detetive encarregado do caso, Giovanni Malloy (Mark Ruffalo) - que desconfia que um aluno seu possa ser o culpado. Incentivada por sua meio-irmã Pauline (Jennifer Jason Leigh), Frannie inicia um intenso caso sexual com o policial, separado da esposa e pai de dois filhos pequenos cujo parceiro é tão violento quanto os criminosos que prende pelas ruas. Porém, apesar de estar extremamente atraída por Malloy, a professora não consegue entregar-se totalmente ao romance por desconfiar que ele seja o responsável pelas mortes: em um de seus passeios pelos bares barra-pesada que frequenta, ela viu a vítima fazendo sexo oral em seu provável assassino, que tem uma tatuagem idêntica à do investigador.

A busca pela identidade do assassino é o que menos importa no roteiro, co-escrito pela diretora e pela autora do livro que deu origem ao filme, servindo apenas como pano de fundo para um inventário superficial de paranoias, traumas e neuroses modernas que nem de longe desperta maior interesse em um público acostumado a consumir tudo isso em produções menos pedantes e enfadonhas. Em sua tentativa de cercar o filme de uma atmosfera sombria e claustrofóbica, a cineasta acaba pesando a mão em um suspense vazio, esquecendo de dar profundidade e clareza a seus personagens, que parecem jogados na trama, tendo como finalidade apenas servir como elementos gráficos de suas bem cuidadas cenas, que, justiça seja feita, são plasticamente interessantíssimas - em especial as tórridas cenas de sexo entre Meg Ryan e Mark Ruffalo, em um de seus primeiros papéis principais e já mostrando talento e desinibição de sobra. Fotografadas com bom gosto e enfatizando a naturalidade do ato, tais cenas acabam por se tornar a maior qualidade do filme, que de resto é apenas mais um policial mediano e pretensioso. Tem quem goste, mas para os demais é apenas chato e metido a profundo.

quarta-feira

A LENTE DO AMOR

A LENTE DO AMOR (Addicted to love, 1997, Warner Bros, 100min) Direção: Griffin Dunne. Roteiro: Robert Gordon. Fotografia: Andrew Dunn. Montagem: Elizabeth Kling. Música: Rachel Portman. Figurino: Renee Ehrlich Kalfus. Direção de arte/cenários: Robin Standefer/Alyssa Winter. Produção executiva: Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Jeffrey Silver. Elenco: Meg Ryan, Matthew Broderick, Kelly Preston, Tchéky Karyo, Maureen Stapleton. Estreia: 23/5/97

Ícone das comédias românticas dos anos 90 desde que estrelou o seminal "Harry & Sally, feitos um para o outro", a atriz Meg Ryan passou boa parte da década tentando fugir do estigma das mocinhas dóceis e sofredoras que fez sua glória, nem sempre com sucesso. Foi assim, por exemplo, com "Coragem sob fogo", em que viveu uma sargento do exército americano em plena guerra do Iraque, com "Quando um homem ama uma mulher", onde vivia uma dependente alcóolica, e com "A lente do amor", filme de estreia do ator Griffin Dunne ("Depois de horas") como diretor: apesar do título e de ser um comédia romântica, a personagem de Ryan destoa de suas mais conhecidas heroínas ao apresentar um lado vingativo, cruel e rancoroso que acabou por não agradar às plateias. Ao contrário de Julia Roberts, que se deu bem desviando-se do mel e apelando para um lado menos solar de sua personalidade em "O casamento do meu melhor amigo", Meg percebeu que o público gostava mesmo dela no papel de sempre e voltou às boas com ele em seus projetos seguintes, "Mensagem para você" e "Cidade dos anjos". O lado ruim de tudo isso é que o filme, em que ela divide a cena com o ótimo Matthew Broderick, acabou sendo injustamente esquecido pelo tempo.

Broderick - em papel inicialmente oferecido a Johnny Depp - vive Sam, um astrônomo apaixonado pela profissão e pela namorada, a bela professora Linda (Kelly Preston), não necessariamente nessa ordem. Quando ela o comunica que vai passar dois meses em Nova York em um intercâmbio ele imediatamente pressente um final nada feliz para seu romance, e quando ela lhe avisa - por carta - que não irá mais voltar para sua cidadezinha natal porque está emocionalmente envolvida com outro homem, ele decide não aceitar a derrota tão facilmente. Mudando-se para Manhattan e passando a morar em um prédio abandonado em frente ao novo lar de sua amada, ele começa a vigiar atentamente os passos do novo casal, em busca de uma pista que lhe comunique um fim iminente. Sua rotina de espionagem sofre uma reviravolta quando entra em cena Maggie (Meg Ryan), uma mulher decidida e firme que também tem motivos de sobra para querer o fim do bela história de amor de Linda: ela foi abandonada por Anton (Tchéky Karyo), o francês com quem a ex-namorada de Sam está vivendo. Unidos, Sam e Maggie traçam uma série de planos para acabar com o relacionamento de seus antigos parceiros - o que inclui destruir o prestígio do restaurante de Anton e plantar entre os dois a semente da desconfiança - e acabam demorando para perceber que estão se apaixonando.


Seguindo todas as regras das comédias românticas, "A lente do amor" sobressai-se principalmente por uma escolha ousada de elenco. Enquanto Meg Ryan revela um lado novo de sua persona como atriz - e de certa forma faz as pazes com o antigo no ato final - Matthew Broderick surpreende como galã romântico. Mesmo que ele repita todos os trejeitos de seu personagem mais famoso - o eterno Ferris Bueller de "Curtindo a vida adoidado" - é impossível não simpatizar com seu destrambelhado e rejeitado Sam, um homem tão apaixonado que é capaz de abdicar da vida e da profissão apenas para estar ao lado da mulher que ama quando ela decepcionar-se com o novo parceiro (ainda que a causa do rompimento seja ele mesmo). Além disso, Broderick tem um timing cômico sensacional, que enche de frescor um roteiro que às vezes pega pesado na crueldade e destoa do tom leve que se espera de um filme do gênero. Sua química com Meg Ryan é fascinante - é encantadora a cena em que eles são obrigados a um beijo diante da câmera da avó dela - e seu semblante comum ajuda na empatia do espectador que talvez se assuste um pouco diante da frieza da personagem de Ryan - que, diga-se de passagem, está ótima no papel de mulher vingativa.

Também não é exagero afirmar que, de um certo ponto de vista, "A lente do amor" não deixa de ser uma bela homenagem ao cinema, como fica claro na bela cena em que Sam começa a pintar a parede de sua nova casa para, através de lentes de seu telescópio, assistir nela a rotina de Linda e Anton: conforme ele vai transformando o muro em uma tela branca, imagens vão aparecendo, como em um passe de mágica (o que, no fundo, o cinema é). Mais inteligente do que a média, "A lente do amor" não encontrou sua audiência quando estreou, mas sempre é tempo de ser redescoberto, nem que seja para perceber que, por trás de sua aparência doce e meiga, Meg Ryan é uma excelente atriz que merece uma nova chance assim como o filme.

EU E AS MULHERES


EU E AS MULHERES (In the land of women, 2007, Castle Rock Entertainment, 97min) Direção e roteiro: Jonathan Kasdan. Fotografia: Paul Cameron. Montagem: Carol Littleton. Música: Stephen Trask. Figurino: Trish Keating. Direção de arte/cenários: Sandy Cochrane/Louise Roper. Produção executiva: Lawrence Kasdan. Produção: Steve Golin, David Kanter. Elenco: Adam Brody, Meg Ryan, Kristen Stewart, Olympia Dukakis, Elena Ayala, Jobeth Williams, Clark Gregg. Estreia: 16/04/07

Filho mais velho do cineasta Lawrence Kasdan - diretor de títulos essenciais da filmografia americana dos anos 80, como "O reencontro" e "Silverado", além de roteirista de "Caçadores da Arca Perdida" - o jovem Jonathan Kasdan preferiu fazer sua estreia atrás das câmeras sem muito alarde. Roteirista de episódios das séries "Dawson's Creek" e "Freaks & Geeks", ele aproveitou seu conhecimento da juventude americana de seu tempo e criou o delicado e sutilmente engraçado "Eu e as mulheres". Simpático e doce, o filme não chega a ser uma obra-prima, mas revela em Kasdan um olhar atento à sensibilidade humana.

Talvez haja um pouco - ou muito - de Kasdan em seu protagonista, Carter Webb, um roteirista de filmes eróticos vivido com graça e discrição pelo ótimo Adam Brody. Recém chutado pela bela namorada, a atriz Sofia Buñuel (Elena Ayala), ele resolve dar um tempo em sua atribulada vida em Los Angeles e vê na doença de sua avó (Olympia Dukakis, sensacional) a oportunidade de mudar-se por um tempo para Detroit. Enquanto ajuda a senhora idosa - cuja demência a deixa cada vez mais apática e distante - Carter resolve escrever sua obra-prima, longe das influências de sua cidade. Sua paz começa a sofrer interrupções, porém, quando ele conhece a família que mora diante de sua nova casa. Os Hardwicke - formado por um casal com duas filhas - logo torna-se parte de sua nova rotina, especialmente a filha mais velha, Lucy (Kristen Stewart) e a mãe, Sarah (Meg Ryan). Ao passo que Lucy tenta lidar com o despertar de sua sexualidade, Sarah descobre sofrer de câncer. É Carter quem irá servir de apoio às duas.


Não há maiores lances e reviravoltas em "Eu e as mulheres". O roteiro de Kasdan é sutil, fazendo piadas que não almejam gargalhadas e criando dramas que não exigem lágrimas. Seu olhar é quase contemplativo, deixando que as personagens vivam seus tormentos sem interferência exagerada da fotografia ou da edição. Nem mesmo a trilha sonora tenta sobrepor-se à história contada, sendo apenas um complemento às cenas, conduzidas com leveza e um senso de humor carinhoso com os protagonistas. Nem mesmo as piadas internas - que satirizam o meio cinematográfico - soam autocomplacentes, o que revela no jovem filho de Lawrence uma promessa bastante empolgante.

Mas é na direção de atores que Jonathan Kasdan consegue ser ainda mais bem-sucedido. Adam Brody encarna com perfeição o protagonista desajeitado e vulnerável que se vê obrigado a amadurecer para ajudar desconhecidos e Kirsten Stewart mostra que, antes de tornar-se a chatonilda mor da série "Crepúsculo" tinha expressões faciais variadas e sabia atuar. Mas é Meg Ryan o maior destaque. Fugindo do seu papel de sempre - a mocinha das comédias românticas - a atriz surpreende com uma interpretação contida e dramática, que jamais apela para o sentimentalóide. Só o fato de ter dado à eterna Sally Albright um papel à altura de seu talento já faria de seu jovem diretor um cara bom. Para sorte do público, ele tem ainda outras qualidades que deve provar em breve.

terça-feira

KATE & LEOPOLD

KATE & LEOPOLD (Kate & Leopold, 2001, Miramax Films, 118min) Direção: James Mangold. Roteiro: James Mangold, Steven Rogers, história de Steven Rogers. Fotografia: Stuart Dryburgh. Montagem: David Brenner. Música: Rolfe Kent. Figurino: Donna Zakowska. Direção de arte/cenários: Mark Friedberg/Stephanie Carroll. Produção executiva: Kerry Orent, Meryl Poster, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Cathy Konrad. Elenco: Meg Ryan, Hugh Jackman, Liev Schreiber, Breckin Meyer, Natasha Lyonne, Bradley Whitford, Philip Bosco. Estreia: 25/12/01

Indicado ao Oscar de Melhor Canção ("Until")

Filme ideal para aquelas mulheres que reclamam da falta de romantismo e galanteria dos homens contemporâneos, a comédia romântica "Kate & Leopold", protagonizada pela estrela máxima do gênero, Meg Ryan, é uma aula de como conquistar um público ávido por histórias de amor com finais felizes. Em pouco menos de duas horas de duração, o filme de James Mangold usa e abusa de clichês, mas o faz com tanto carinho, bom humor e leveza que é difícil deixar de gostar.

O cientista Stuart (vivido com graça pelo prestigiado Liev Schreiber) descobre um rasgo no tempo que o permite visitar a Nova York de 1876. Na apressada volta para 2001 ele acaba, por acidente, ganhando a companhia de Leopold (Hugh Jackman, perfeito), um duque falido que está sendo pressionado por seu tio a fazer um bom casamento. Em choque com as diferenças culturais e sociais de duas épocas completamente distintas, o gentil e cavalheiro Leopold acaba conquistado pela ex-namorada de Stuart, a executiva Kate McKay (Meg Ryan), que, desiludida com a espécie masculina em geral, demora a perceber que também está apaixonada pelo galante duque, que, de quebra, ajuda o irmão da moça, o aspirante a ator Charlie (Breckin Meyer) a mudar suas atitudes para seduzir uma colega.



O roteiro do diretor Mangold - exercitando um estilo diferente do dramalhão que apresentou em "Garota, interrompida" - escrito em parceria com Steven Rogers não tenta explicar como funciona as viagens no tempo que são cruciais para o início da trama, deixando que a bela e delicada história de amor entre os protagonistas comande o espetáculo. Ao optar por centrar seus esforços na dupla de atores, o cineasta marca um gol de placa. Enquanto Ryan continua utilizando seu arsenal de caras e bocas que a fizeram a preferida entre o público cativo das comédias românticas, é o astro Hugh Jackman quem rouba todas as cenas. Distante anos-luz de seu personagem mais conhecido, o furioso Wolverine de "X-Men", o ator australiano demonstra um timing cômico perfeito, além de ter o tipo físico ideal para encarnar o sedutor Leopold. Juntos, ele e Meg formam um casal adorável, o que torna a experiência de assistir a "Kate & Leopold" deliciosa.

E dá pra não simpatizar com um filme que homenageia, ainda que de leve, o clássico "Bonequinha de luxo"?

PS - Reparem na ponta da atriz Viola Davis (indicada ao Oscar de coadjuvante por "Dúvida") como a policial que aborda Leopold em seu primeiro passeio pelas ruas da Nova York de 2001.

sexta-feira

MENSAGEM PARA VOCÊ

MENSAGEM PARA VOCÊ (You've got mail, 1998, Warner Bros,) Direção: Nora Ephron. Roteiro: Nora Ephron, Delia Ephron, peça teatral "Parfumerie", de Miklós László. Fotografia: John Lindley. Montagem: Richard Marks. Música: George Fenton. Figurino: Albert Wolsky.  Direção de arte/cenários: Dan Davis/Susan Bode, Ellen Christiansen. Produção executiva: G. Mac Brown, Julie Durk, Delia Ephron. Produção: Nora Ephron, Lauren Schuler Donner. Elenco: Tom Hanks, Meg Ryan, Greg Kinnear, Parker Posey, Steve Zahn, Dabney Coleman, Jean Stapleton. Estreia: 18/12/98

Levando-se em consideração o enorme sucesso de "Sintonia de amor", em que Tom Hanks e Meg Ryan foram dirigidos por Nora Ephron - e que rendeu mais de 220 milhões de dólares pelo mundo - até que demorou para que os três nomes voltassem a enfeitar o mesmo cartaz. Cinco anos separam "Sintonia" de "Mensagem para você", mais uma deliciosa comédia romântica comandada pela roteirista do já clássico "Harry & Sally, feitos um para o outro". Nesse meio-tempo, Hanks passou de comediante simpático a ator sério e respeitado - e dono de dois Oscar consecutivos - e Ryan tentou fugir da armadilha de tornar-se atriz de um papel único, chegando a ponto de encarar um filme de guerra - "Coragem sob fogo" - e um papel de alcóolatra - em "Quando um homem ama uma mulher". O que fica claro em "Mensagem para você" é que a química entre os dois não se alterou um mílimetro sequer: são eles, aliados ao texto sempre irônico e ágil de Ephron, que fazem do filme um programa sem contra-indicações.

Refilmagem livre e modernizada do clássico "A loja da esquina", que Ernst Lubitsch dirigiu em 1940 e onde James Stewart e Margaret Sullavan trocavam calorosas cartas amorosas enquanto se odiavam como colegas de trabalho, "Mensagem para você" mais uma vez usa o charme natural de Nova York como cenário de um romance capaz de afastar todo e qualquer cinismo e conquistar o público sem fazer esforço. Seguindo a receita vitoriosa de "Sintonia de amor", o filme de Ephron também se aproveita de uma deliciosa trilha sonora e da simpatia dos coadjuvantes: além de uma dupla central imbatível, desfilam pela tela Greg Kinnear, Parker Posey e Steve Zahn em atuações extremamente simpáticas e eficientes.




Kathleen Kelly (Meg Ryan adorável mas repetindo os trejeitos de sempre) é a brava dona de uma pequena livraria infantil localizada em uma zona valorizada de Nova York. Com um público fiel que conhecem o estabelecimento desde que era de sua mãe, a livraria chamada "A loja da esquina" começa a sofrer a concorrência desleal da filial de uma enorme cadeia de megastores de propriedade de Joe Fox (Tom Hanks). Furiosa com a possibilidade de ir à falência, Kathleen conta com o apoio do namorado, o jornalista Frank Navasky (Greg Kinnear) e dos funcionários, mas é somente pela Internet que ela realmente se sente à vontade para ser ela mesma. Assumindo o apelido de Shopgirl, ela se apaixona virtualmente por NY152, sem nem de longe desconfiar que ele é, na verdade, seu maior rival.

O roteiro de "Mensagem para você" se desenvolve sem maiores surpresas ao espectador, mas o faz de maneira tão honesta que fica difícil não compactuar com seu humor romântico e quase ingênuo. Juntos em cena, Meg Ryan e Tom Hanks são o perfeito exemplo de atores carismáticos e devidamente aproveitados. É principalmente devido a eles que a audiência acredita piamente que dois estranhos completos podem se apaixonar perdidamente através da Internet sem ao menos ver o rosto um do outro. E é lógico que, caminhar nas ruas arborizadas e coloridas de Manhattan e ao som de Cranberries, Sinnead O'Connor, Roy Orbison e Louis Armstrong não atrapalha em nada nessa missão.

quinta-feira

CIDADE DOS ANJOS


CIDADE DOS ANJOS (City of Angels, 1998, Warner Bros, 114min) Direção: Brad Silberling. Roteiro: Dana Stevens, roteiro original de Wim Wenders, Peter Handke, Richard Reitinger. Fotografia: John Seale. Montagem: Lynzee Klingman. Música: Gabriel Yared. Figurino: Shay Cunliffe. Direção de arte/cenários: Lilly Kilvert/Gretchen Rau. Produção executiva: Robert Cavallo, Arnon Milchan, Charles Newirth. Produção: Charles Roven, Dawn Steel. Elenco: Nicolas Cage, Meg Ryan, Andre Braugher, Dennis Franz, Colm Feore. Estreia: 10/4/98

Os fãs que me perdoem, mas "Asas do desejo", o cultuado filme do alemão Wim Wenders é um porre. Chato, arrastado, verborrágico e pretensioso, ele tornou-se uma espécie de unanimidade entre os "bem pensantes" do final da década de 80, mas no fundo, não passava de uma parábola com uma premissa interessante e uma fotografia bem cuidada (a não ser que se considere as elocubrações típicas do cineasta, cujo currículo passa bem longe do chamado cinema mainstream). Todas as questões filosóficas/metafísicas do filme foram louvadas ad nauseum pela mídia, fazendo dele um produto superestimado a ponto de ser eleito como um dos melhores da década. Por isso a gritaria generalizada na ocasião do lançamento de "Cidade dos anjos", uma espécie de refilmagem americana. Acusado de diluir a poesia do filme original, a obra de Brad Silberling - cujo trabalho mais famoso até então havia sido a versão em carne-e-osso de "Gasparzinho", com Christina Ricci - foi violentamente execrada pelos fãs de Wenders. Já aqueles que não se deixaram convencer pelos exageros estilísticos do alemão gostaram - e muito - da versão ianque da história. Com uma renda superior a 100 milhões de dólares no mercado doméstico, "Cidade dos anjos" tornou-se mais um sucesso romântico na carreira de sua protagonista, a namoradinha da América, Meg Ryan.

Quando lançado, em 1987, "Asas do desejo" comoveu as plateias "antenadas" com seus discursos verbais e estéticos sobre amor, liberdade e imortalidade justo em um momento crucial da história política e social da Europa: a queda do mundo de Berlim. Ao deixar de lado qualquer ressonância social, sua refilmagem americana concentra-se apenas na história de amor esboçada no terço final do original. E conquista justamente por ser simples e direta. O roteiro de Dana Stevens troca uma melancólica Berlim por uma ensolarada Los Angeles, onde anjos convivem harmoniosamente entre os seres, ajudando-lhes a superar seus problemas (mas sem nunca aparecerem). Um desses anjos é Seth (Nicolas Cage, canastrão como sempre), que busca as pessoas no momento de suas mortes. Em uma dessas tristes missões ele conhece a competente cirurgiã Maggie Rice (Meg Ryan em uma atuação superior a seus trabalhos anteriores) e se apaixona por ela, apesar de saber que jamais poderá consumar seu amor. No entanto, quando trava conhecimento com Nathaniel Messinger (Dennis Franz), um paciente de Maggie que consegue enxergá-lo, descobre que os anjos podem, sim, transformar-se em mortais. Enlouquecido de amor, Seth, contando com o apoio de seu melhor amigo, Cassiel (Andre Braugher), decide abandonar a imortalidade para ficar ao lado da mulher que ama.



Sim, "Cidade dos anjos" é piegas, triste, exageradamente romântico. E é, também, um belo filme, um perfeito exemplo de como transformar uma obra com objetivos pretensiosos em uma delicada história de amor que comove às lágrimas e ainda por cima dá margem a discussões (ainda que superficiais) sobre vida, morte e destino. É um produto tipicamente hollywoodiano, com tudo que isso tem de bom e de mau, mas que aproveita todo seu aparato técnico para uma narrativa enxuta e visualmente impressionante, mérito da fotografia inspirada de John Seale, oscarizado por "O paciente inglês". As cenas em que os anjos se reúnem aos crepúsculos são deslumbrantes, assim como a bela trilha sonora de Gabriel Yared, que conta com uma lindíssima canção de Alanis Morissette em seus créditos finais.

Os fãs de "Asas do desejo" tem razões mil para odiarem cada minuto de "Cidade dos anjos", que é, paradoxalmente, uma refilmagem que não utiliza quase nada de seu original, a não ser a ideia central. Mas em compensação, certamente as multidões que saíram aos prantos em seus momentos finais também não se tornarão especialmente adoradoras da obra de Wim Wenders, que continua sendo pedante e monótona.

sábado

CORAGEM SOB FOGO

CORAGEM SOB FOGO (Courage under fire, 1996, Fox 2000 Pictures, 117min) Direção: Edward Zwick. Roteiro: Patrick Sheane Duncan. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Steven Rosenlblum. Música: James Horner. Figurino: Francine Jamison-Tanchuck. Direção de arte/cenários: John Graysmark/Rick Gentz. Produção executiva: Joseph M. Caracciolo, Debra Martin Chase. Produção: John Davis, David T. Friendly, Joseph M. Singer. Elenco: Denzel Washington, Meg Ryan, Lou Diamond Phillips, Michael Moriarty, Matt Damon, Zeljko Ivanek, Sean Astin, Sean Patrick Thomas. Estreia: 12/7/96

O primeiro filme de um grande estúdio hollywoodiano a respeito do conflito do Iraque não foi uma obra exatamente do gênero que todos poderiam esperar. Ao contrário de um convencional filme de guerra, "Coragem sob fogo", dirigido pelo competente Edward Zwick, é um drama sobre pessoas, acima de qualquer outra coisa. Mesmo contando com algumas sequências que retratam com bastante fidelidade as batalhas travadas entre americanos e iraquianos, o cerne do roteiro de Patrick Sheane Duncan - autor do script de "Mr. Holland, adorável professor" - é a dificulade do Tenente Nat Serling (Denzel Washington) em lidar com uma tragédia ocorrida em combate ao mesmo tempo que investiga a verdade sobre a morte da primeira oficial norte-americana cotada para uma Medalha de Honra do exército.

Seguindo a estrutura do clássico "Rashomon", de Akira Kurosawa, "Coragem sob fogo" começa quando o Tenente Serling, por engano, vitima alguns colegas durante uma batalha no deserto. Extremamente abalado pelo trágico acontecimento, ele recebe a missão de apurar as circunstâncias da morte de Karen Walden (Meg Ryan), uma capitã que morreu depois de ter salvo a vida de soldados ameaçados pelos inimigos. Indicada para receber a maior homenagem do exército americano, ela torna-se objeto de uma dedicada investigação por parte do oficial em crise de consciência. Serling acaba se vendo diante de subordinados de Walden contando histórias diferentes da morte de sua líder: enquanto o jovem Ilario (Matt Damon, quase vinte quilos mais magro do que o normal) a considera uma mulher corajosa e heróica, o rebelde Monfriez (Lou Diamond Phillips, de "La Bamba") a vê como uma covarde que arriscou a vida de seu pelotão. Cabe a Sterling definir o que é verdade e o que não é.



"Coragem sob fogo" estreou nos EUA cercado de muita expectativa e um burburinho que o classificava como o primeiro filme do ano "com cara de Oscar". No entanto, fazendo um sucesso apenas relativo nas bilheterias, acabou sendo ignorado em todas as cerimônias importantes. Antes que seja taxado de injustiçado, porém, é preciso que se tenha a frieza de perceber que, apesar dos talentos envolvidos e do tema momentoso, é um filme que fica longe de ser tão empolgante quanto promete. Longe de ser ruim - tem qualidades gritantes, tanto técnica quanto artisticamente - também não consegue impressionar sua audiência, ao contrário do filme anterior do cineasta, o dramaticamente superior "Lendas da paixão".

Talvez o maior problema no roteiro de "Coragem sob fogo" seja a decisão de contar duas histórias simultaneamente. Provavelmente para não deixar que Denzel Washington fosse apenas um coadjuvante da trama bem mais interessante que cerca a morte de Karen Walden, inventaram para sua personagem uma tragédia inicial que pouco acrescenta ao resultado final. Já iniciando sua fase de ser mais Denzel Washington do que qualquer personagem, o oscarizado ator mesmo assim tem pouco a fazer, sendo eclipsado pelo elenco coadjuvante. Se Matt Damon pouco foi percebido pela crítica por seu belo trabalho - mas não por Francis Ford Coppola, que o escalou para "O homem que fazia chover" - toda a mídia não se furtou a tecer loas encantadas com a atuação de Lou Diamond Phillips, como o quase psicótico soldado Monfriez. Os elogios a Phillips não foram exagerados: sua interpretação é forte, com uma potência dramática que se avoluma a cada cena, até explodir em uma climática sequência que esclarece todas as dúvidas - tanto do Tenente Serling quanto da audiência.

Mas é inegável que o grande diferencial de "Coragem sob fogo" - além de ter inaugurado o filão de filmes sobre o Iraque - é a escalação de Meg Ryan para o papel crucial da Capitã Karen Walden. Conhecida do grande público por seus papéis de mocinha em comédias românticas como "Sintonia de amor", Ryan tentou uma guinada na carreira, na pele de uma complexa líder militar. Não apenas por ser uma soldada - com toda a preparação física que o papel exige - Karen Walden proporcionou a ela a chance de mostrar todas as nuances de seu trabalho. Nem sempre ela consegue, mas é bem sucedida ao fazer com que todos esqueçam que ela é a mesma atriz responsável pelo orgasmo falso mais conhecida da história do cinema, em "Harry & Sally, feitos um para o outro". Esforçada, ela não tem culpa se o roteiro não explora a contento todas as probabilidades que poderia.

Fotografado com maestria por Roger Deakins - um dos melhores profissionais em sua área - e editado com competência ímpar (além de utilizar os efeitos de som com inteligência), "Coragem sob fogo" é um filme que prende a atenção do espectador até seus momentos finais, podendo até mesmo surpreendê-lo com suas viradas. Não é um petardo como "O resgate do soldado Ryan", por exemplo, mas é um filme que reitera o talento de Edward Zwick em transitar entre diversos gêneros sem nunca perder a elegância.

quinta-feira

SINTONIA DE AMOR

SINTONIA DE AMOR (Sleepless in Seattle, 1993, TriStar Pictures, 105min) Direção: Nora Ephron. Roteiro: Nora Ephron, David S. Ward, Jeff Arch, história de Jeff Arch. Fotografia: Sven Nykvist. Montagem: Robert Reitano. Música: Marc Shaiman. Figurino: Judy Ruskin. Direção de arte/cenários: Jeffrey Townsend/Clay Griffith. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Patrick Crowley, Delia Ephron, Lynda Obst. Produção: Gary Foster. Elenco: Tom Hanks, Meg Ryan, Rita Wilson, Victor Garber, Bill Pullman, Rosie O'Donnell, Carey Lowell, Ross Malinger, Gabby Hoffman, Rob Reiner, Frances Conroy, David Hyde Pierce. Estreia: 25/6/93

2 indicações ao Oscar: Roteiro Original, Canção Original ("A wink and a smile")

Quando se sabe que Meg Ryan teve seu melhor papel em "Harry & Sally, feitos um para o outro", escrito por Nora Ephron e se assiste a sua atuação em "Sintonia de amor" - estreia da roteirista como cineasta - fica-se difícil imaginar outra atriz como protagonista. No entanto, antes que Ryan embarcasse no projeto, o papel da romântica jornalista Annie Reed foi oferecido a Julia Roberts, Jennifer Jason Leigh, Michelle Pfeiffer, Jodie Foster e Kim Basinger - que o recusou por considerar a premissa do roteiro ridícula e inverossímil. As sistemáticas recusas das atrizes citadas, no entanto, podem ser consideradas um golpe de sorte; com Ryan no principal papel feminino e Tom Hanks como seu par romântico, "Sintonia de amor" foi um dos mais surpreendentes sucessos de bilheteria de 1993 e encantou milhares de corações enamorados. A premissa pode, sim, ser um tanto inacreditável, mas isso não atrapalhou nem um pouco no grande êxito comercial e crítico de uma das comédias românticas mais simpáticas da história.

Embalado por uma trilha sonora irretocável composta por standards do cancioneiro romântico/popular americano - de "As time goes by" a "When I fall in love" - o filme de Nora Ephron mantém o tom irônico e bem-humorado de "Harry & Sally", mas não tem medo de ir fundo no romantismo, certamente inspirado no clássico "Tarde demais para esquecer", homenageado carinhosamente pelo roteiro - apesar de ser citado sempre pela parcela feminina do elenco enquanto é desprezado pelas personagens masculinas, o romance entre Cary Grant e Deborah Kerr é a maior influência de "Sintonia de amor" e foi redescoberto pelo público graças a ele.



Quando o filme começa, o arquiteto Sam Baldwin (Tom Hanks no auge da simpatia e em vias de ser muito levado a sério pela crítica) acaba de ficar viúvo e, entristecido com a perda, abandona Chicago e leva o filho pequeno, Jonah (o ótimo Ross Malinger) para Seattle, disposto a recomeçar a vida. Um ano e meio depois, preocupado com a solidão do pai, o menino telefona para um programa de rádio, em busca de uma namorada para ele. Apesar das centenas de cartas que lhe chegam, em resposta ao pedido, ele se interessa pela carta da jornalista Annie Reed (Meg Ryan), moradora de Baltimore - ou seja, do outro lado do país. Mesmo que recém tenha ficado noiva do dentista Walter (Bill Pullman), ela não reconhece nele alguém capaz de despertar-lhe uma paixão como a de seus pais, e, com a ajuda de sua editora, Becky (a divertida Rosie O'Donnell), tenta contato com o "Insone de Seattle" (o pseudônimo de Sam no programa de rádio). Desacreditando nas possibilidades de um encontro com Annie (por ao menos uma boa razão), Sam tenta seguir a vida, mas Jonah não parece capaz de desistir de reuní-lo à bela repórter.


"Sintonia de amor" é uma delícia. Engraçado, romântico e extremamente agradável, é um perfeito exemplo de como se fazer uma comédia romântica. A química entre Hanks e Ryan - previamente testada no fracassado "Joe contra o vulcão" - é invejável, principalmente se for levado em conta que dividem a cena por menos de cinco minutos no total. A expectativa que se cria em torno de seu encontro é pontuada com diálogos saborosos e personagens criados com carinho por um elenco coadjuvante afiado (que inclui o cineasta Rob Reiner, a esposa de Hanks, Rita Wilson e até mesmo Frances Conroy, que ficaria famosa pela série "A sete palmos" quase uma década depois). As diferenças culturais entre homens e mulheres é trabalhada com humor e não com um ranço sexista, e nem mesmo o fato de realmente a história ser meio capenga incomoda a plateia - vale lembrar que, à época do filme, a Internet ainda não era o que é hoje (mas a dupla Hanks/Ryan também faria um filme sobre isso, "Mensagem para você", novamente sob a direção de Nora Ephron).

Mesmo com tantas qualidades, o melhor de "Sintonia de amor" é mesmo seu clima absolutamente romântico. Desaconselhável para quem não é fã do gênero - uma vez que é sua quintessência - é um filme para aquecer os corações daqueles que acreditam que o grande amor de sua vida pode ser um completo desconhecido que mora há milhares de quilômetros. É deixar a razão de lado e mergulhar.

terça-feira

THE DOORS

THE DOORS (The Doors, 1991, Carolco Pictures, 140min) Direção: Oliver Stone. Roteiro: Oliver Stone, J. Randal Johnson. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: David Brenner, Joe Hutsching. Figurino: Marlene Stewart. Direção de arte/cenários: Barbara Ling/Cricket Rowland. Casting: Risa Bramon, Billy Hopkins. Produção executiva: Nicholas Clainos, Brian Grazer, Mario Kassar. Produção: Bill Graham, Sasha Harari, A. Kitman Ho. Elenco: Val Kilmer, Meg Ryan, Kyle MacLachlan, Frank Whaley, Kevin Dillon, Michael Madsen, Billy Idol, Kathleen Quinlan, Debi Mazar, Mimi Rogers, Crispin Glover. Estreia: 23/02/91

Só mesmo um cineasta como Oliver Stone conseguiria realizar um filme como "The Doors". Ainda cheio de moral devido ao sucesso de seus filmes sobre a guerra do Vietnã, Stone conseguiu convencer os produtores a bancarem um projeto de quase 40 milhões de dólares sobre um roqueiro polêmico, sem um grande astro como chamariz de bilheteria e, pior ainda, com grandes possibilidades de desagradar os fãs e os familiares do protagonista. Quando finalmente o filme estreou, no início de 1991, algumas das previsões se mostraram corretas: o filme não pagou seu custo dentro dos EUA, a família de Pamela Courson (namorada da personagem principal) não gostou do resultado final (assim como Ray Manzarek, integrante do grupo) e a crítica se dividiu perante a visão do diretor sobre Jim Morrison e sua banda. Apenas um  fator foi quase unanimidade entre crítica, público e fãs ocasionais: o trabalho meticuloso de Val Kilmer como Morrison.

Na pele de Jim Morrison - o vocalista, líder e sex-symbol da banda de rock "The Doors", que morreu de ataque cardíaco aos 27 anos em 1971 - Kilmer apresenta a atuação de sua vida. Dedicado ao extremo ao papel, a ponto de viver como Morrison por quase um ano antes mesmo do início das filmagens, o ator de coisas tão díspares quanto "Top Secret" (1984) e "Willow, na terra da magia" (1988) praticamente metamorfoseou-se no cantor. O jeito de andar, de falar, de dançar e de se movimentar de Morrison está todo na interpretação de Kilmer. O problema maior de tudo é que, para os não-fãs da banda em particular, em dado momento, todo esse perfeccionismo acaba tornando-se um pouco chato por um motivo bastante simples: Jim Morrison não era uma pessoa exatamente agradável - ao menos é o que depreende-se do filme de Stone - e àqueles para quem os Doors não representam nada mais do que um grupo de rock como os outros as mais de duas horas de projeção beiram uma tortura.

Tudo começa quando Morrison ainda é uma criança e testemunha um acidente de carro que vitima um grupo indígena. Não seria importante se anos depois, já famoso como líder da banda "The Doors" - assim batizada em homenagem a Adouls Huxley e suas "Portas da percepção" - ele não assumisse, vez ou outra, um espírito xamânico (ou seja, entrava em um transe que lhe permitia ter contato com a natureza, seres de outras dimensões, etc e tal). Apresentado a esse mundo pela jornalista Patricia Kennealy (Kathleen Quinlan), de quem torna-se amante, Morrison o utiliza em sua arte. Ex-estudante de Cinema na Universidade da Califórnia, ele une-se a Ray Manzarek (Kyle MacLachlan), Robby Krieger (Frank Whaley) e John Densmore (Kevin Dillon) para formar sua própria banda de rock. Porém, conforme o sucesso do grupo vai aumentando, o total desprezo de seu líder pelo convencional e pelo pré-determinado começa a minar a união entre eles. Alcóolatra, drogado, mulherengo e com tendências auto-destrutivas, Morrison escandaliza a sociedade americana dos anos 60, mesmo estando ela em plena efervescência cultural pré-Woodstock, inclusive sendo preso durante um show, acusado de comportamento obsceno.



A forma com que Oliver Stone conduz sua homenagem a um grupo que idolatra é bastante coerente com a própria obra da banda. O visual imposto por Stone e seu diretor de fotografia Robert Richardson é perfeito no que se propõe, dando a nítida impressão do psicodelismo e da distância da realidade com que Morrison vivia sua trajetória errática. Apesar de cansar em alguns pontos - e até diminuir o impacto de algumas cenas, como a que Jim quase mata a namorada Pam (Meg Ryan) queimada - a forma encontrada pelo diretor de traduzir em imagens distorcidas a mente de seu protagonista não deixa de ser criativa e admirável - ainda que ele tenha alcançado resultado melhor em "Assassinos por natureza" (1994). E ao dar importância suprema a Val Kilmer e seu show particular, Stone relega a segundo plano algumas atuações que mereciam um pouco mais de atenção.


Meg Ryan, por exemplo, é pouco lembrada por seu trabalho como Pamela Courson, a namorada de longo prazo e muitas aventuras de Jim Morrison. Quando fez "Em carne viva", em 2003, a imprensa logo fez questão de destacar sua nudez e sua coragem em romper com a imagem de "namoradinha da América" que havia construído em suas comédias românticas. No entanto, em "The Doors", ela já demonstrava que é capaz de bem mais do que fazer caras e bocas ao lado de Tom Hanks. Não é uma atuação sensacional, mas que prova que o brilho intenso de Kilmer no filme fez sombra a todas as qualidades do filme.

E "The Doors" tem inúmeras delas. Desde a parte técnica impecável (a edição caprichada já é marca registrada de Stone) até a trilha sonora apropriada (Doors do início ao fim, sempre com a música certa na hora certa) tudo no filme funciona para os aficcionados da banda, que não se cansam de assistí-lo. No entanto, para quem não nutre o mesmo entuasiasmo por Morrison e seus companheiros, é apenas um filme bem realizado, apaixonado e criativo, que parece longo demais.

segunda-feira

HARRY & SALLY, FEITOS UM PARA O OUTRO

HARRY & SALLY, FEITOS UM PARA O OUTRO (When Harry met Sally, 1989, Castle Rock Entertainment, 96min) Direção: Rob Reiner. Roteiro: Nora Ephron. Fotografia: Barry Sonnenfeld. Montagem: Robert Leighton. Figurino: Gloria Gresham. Direção de arte/cenários: Jane Musky/George R.Nelson, Sabrina Wright-Basile. Casting: Janet Hirshenson, Jane Jenkins. Produção: Rob Reiner, Andrew Schneiman. Elenco: Billy Cristal, Meg Ryan, Carrie Fisher, Bruno Kirby. Estreia: 21/7/89

Indicado ao Oscar de Roteiro Original

Não há dúvida de que "Harry e Sally, feitos um para o outro" deve muito a Woody Allen. Por mais que em sua essência o filme de Rob Reiner seja milhares de vezes mais romântico do que qualquer trabalho do veterano diretor nova-iorquino - com a possível exceção do doce "Manhattan" -, suas semelhanças são tão óbvias que só resta ao espectador - mesmo os detratores do cineasta - sorrir frente a essa carinhosa e bem-sucedida homenagem.

Escrito por Nora Ephron - que mais tarde seria a diretora de outras duas comédias românticas estreladas por Meg Ryan, "Sintonia de amor" e "Mensagem para você" - o roteiro de "Harry e Sally" é um perfeito equilíbrio entre uma engraçadíssima comédia de costumes (sociais, sentimentais) e uma doce (mas nunca piegas) história de amor. É um exemplo mais que perfeito de filme destinado a tornar-se clássico e atemporal, principalmente devido a seus diálogos luminosos, seus insights inspirados e à perfeita escalação da dupla central de atores. Em nenhum outro momento de suas carreiras, Meg Ryan e Billy Cristal foram tão felizes quanto aqui. Mais do que qualquer outra coisa, eles são, na memória do público, para sempre, Sally Albright e Harry Burns.

Sally Albright é uma jovem bonita, inteligente e com séria tendência a ser controladora - a ponto de fazer pedidos em restaurantes de forma extremamente detalhista. Harry Burns é um homem também inteligente, mas dado a crises de melancolia e pessimismo - a ponto de ler sempre a última página de um livro logo que o compra, para o caso de morrer antes de chegar ao seu final. Eles se conhecem em 1977, quando viajam no mesmo carro de Chicago a Nova York, para onde estão se mudando. Durante a viagem nenhum deles fica com a melhor das impressões do outro e se despedem sem maiores dramas. Cinco anos depois, já formada em jornalismo a namorada de um assessor político, Sally encontra Harry - de casamento marcado - em uma viagem de avião e novamente eles não se sentem particularmente tristes quando chegam a seu destino. É somente alguns anos depois que eles se reencontram e - contrariando a máxima de Harry que diz que homens e mulheres não podem ser amigos sem que haja sexo no meio - iniciam uma promissora amizade. Apoiando um ao outro em suas relações equivocadas, dividindo noites solitárias e sem querer promovendo casais, eles são os últimos a perceber que estão se apaixonando aos poucos.


Fotografada com uma beleza de tirar o fôlego em uma Nova York iluminada e cercada por uma trilha sonora repleta de standars do jazz cantadas por Harry Connick Jr., a história de amor entre Harry e Sally é contada com bom humor, leveza e as pitadas de sarcasmo e ironia de que a mente aguçada de Nora Ephron é capaz. Ao criar uma Sally bastante calcada em sua própria personalidade - reza a lenda que uma aeromoça perguntou-lhe se ela havia assistido ao filme quando ela começou a detalhar a maneira como queria seu prato durante um vôo - Ephron criou uma personagem cativante, simpaticamente irritante e dotada de uma voz própria, lindamente interpretada por Meg Ryan no auge de seu carisma e beleza. E Harry, do alto de sua auto-suficiência de macho, também é capaz de verter lágrimas pelo amor de uma mulher, o que o aproxima eficazmente do coração da plateia - seja ela masculina ou feminina. A química entre os quatro - personagens e atores - é de ouro, e são esses detalhes - roteiro esperto e um elenco impecável - que fazem com que "Harry e Sally" seja o modelo para todas as comédias românticas feitas desde então.

Dono de pelo menos uma cena antológica - a do falso orgasmo de Sally em um restaurante lotado - e repleto de diálogos que soam como música, "Harry e Sally" é provavelmente a melhor comédia romântica da história.

O PREÇO DA TRAIÇÃO

  O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...