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domingo

DIGAM O QUE QUISEREM


DIGAM O QUE QUISEREM (Say anything..., 1989, 20th Century Fox, 100min) Direção e roteiro: Cameron Crowe. Fotografia: Laszlo Kovacs. Montagem: Richard Marks. Música: Anne Dudley, Richard Gibbs. Figurino: Jane Ruhm. Direção de arte/cenários: Mark Mansbridge/Joe Mitchell. Produção executiva: James L. Brooks. Produção: Polly Platt. Elenco: John Cusack, Ione Skye, John Mahoney, Lily Taylor, Pamela Segall, Jason Gould, Loren Dean, Jeremy Piven, Bebe Neuwirth, Eric Stoltz. Estreia: 14/4/89

Comédias românticas adolescentes seguem, via de regra, a mesma equação - especialmente aquelas criadas na década de 1980, quando o gênero floresceu graças ao talento de John Hughes, pai (como diretor, roteirista ou produtor) de clássicos absolutos como "Gatinhas e gatões" e "A garota de rosa-shocking", ambos estrelados pela diva maior da época, Molly Ringwald. Sendo assim, não se poderia esperar muitas ousadias em "Digam o que quiserem" - aparentemente mais um exemplar da série de romances juvenis com regras próprias e ingredientes facilmente reconhecíveis. Porém, regras existem para que possam ser quebradas, e o então jornalista Cameron Crowe, estreando como cineasta, subverteu um tantinho a receita de Hughes e criou uma história de amor que, com o julgamento normalmente sábio do tempo, transformou-se em um cult movie dos mais adorados pelos saudosistas.

Escrito com a mesma inteligência e sensibilidade que fez de Crowe um dos roteiristas mais elogiados da década seguinte - quando entregou ao público pérolas como "Vida de solteiro" (1993), "Jerry Maguire: a grande virada" (1996) e "Quase famosos" (2000), que lhe rendeu o Oscar da categoria -, "Digam o que quiserem" se aproveita das diretrizes mais simples das comédias românticas adolescentes para contar uma história com personagens que fogem dos padrões inalcançáveis de beleza e que agem como pessoas reais. Com diálogos tão naturais quanto frescos (em parte cortesia do preciso elenco) e situações dramáticas verossímeis, o filme envolve o espectador não por criar intrigas melodramáticas e/ou trágicas, mas por proporcionar identificação com problemas mundanos típicos da adolescência  - e até da idade adulta. "Será que ela vai aceitar sair comigo?" "Será que vou conseguir suprir as expectativas do meu pai?" "Será que devo interferir na vida da minha filha de forma tão peremptória?" As questões levantadas por Crowe encontram eco em qualquer época e para qualquer um - daí a perenidade de "Digam o que quiserem" e seu sucesso em manter-se relevante.


Mas não foi sempre assim. Quando estreou, em 1989, "Digam o que quiserem" não empolgou nas bilheterias, e só não chegou a ser um fiasco absoluto porque foi ajudado pela boa vontade de dois dos mais respeitados críticos dos EUA. Entusiasmados com o trabalho de Crowe, os consagrados Roger Ebert e Gene Siskel aplaudiram a produção em suas colunas - Ebert chegou a incluí-lo em um de seus livros sobre grandes filmes - e lhe ofereceram uma segunda chance. Mesmo com o bem-vindo empurrão dos jornalistas, porém, o filme não tornou-se um grande êxito comercial, e viu sua popularidade aumentar com o passar dos anos. Redescoberto, inspirou outros cineastas - e a antológica cena de seu protagonista segurando um aparelho de som sobre a cabeça, em uma moderna serenata, foi recriada com inteligência no divertido "A mentira", que revelou Emma Stone em 2009. E se o encanto do filme se mantém ainda hoje, é a presença de um jovem John Cusack no papel central que aumenta ainda mais seu interesse: em uma atuação natural e encantadora, Cusack rouba a cena até mesmo da colega de cena Ione Skye (filha do cantor Donovan), e faz entender porque foi escolhido pelo diretor, em detrimento de nomes como Christian Slater, Loren Dean, Peter Berg, Todd Field, Brandon Lee e Robert Downey Jr. (todos em começo de carreira).

Simpático como sempre, Cusack dá vida a Lloyd Dobler, um jovem estudante que acaba de terminar o ensino médio em uma escola de Seattle (cenário também de "Vida de solteiro"). Sem nenhum talento óbvio ou qualquer tipo de brilhantismo acadêmico, ele sabe apenas que é apaixonado por Diane Court (Ione Skye), uma colega que mal sabe quem ele é até que aceita, num arroubo de espontaneidade, ir com ele a uma das festas de formatura. A noite mostra a Diane as maiores qualidades de Lloyd - mas mesmo assim, sua prioridade é dedicar-se ao futuro, na forma de uma faculdade na Inglaterra, e à relação com o pai, Jim (John Mahoney em papel oferecido a Richard Dreyfuss), dono de um asilo e divorciado. De certa forma encantada com Lloyd - que vive com a irmã, Constance (Joan Cusack), e o sobrinho pequeno -, Diane aceita passar com ele as semanas que faltam para que embarque para a Europa, e logicamente se apaixona. Porém, suas dúvidas acerca das possibilidades de um relacionamento mais sério com alguém tão indeciso a fazem hesitar. E é com essa trama simples mas eficiente que Crowe fez sua auspiciosa estreia como diretor - bancada pelo produtor James L. Brooks e transformada, com o passar dos anos, em uma deliciosa máquina do tempo, capaz de levar a plateia de volta aos felizes anos 1980.

terça-feira

O INÍCIO DO FIM

O INÍCIO DO FIM (Fat Man and Little Boy/Shadow makers, 1989, Paramount Pictures, 108min) Direção: Roland Joffé. Roteiro: Bruce Robinson, Roland Joffé, estória de Bruce Robinson. Fotografia: Vilmos Zsigmond. Montagem: Françoise Bonnott. Música: Ennio Morricone. Figurino: Nick Ede. Direção de arte/cenários: Gregg Fonseca/Dorree Cooper. Produção executiva: John Calley. Produção: Tony Garnett. Elenco: Paul Newman, Dwight Schultz, John Cusack, Laura Dern, Bonnie Bedelia, John G. McGinley, Natasha Richardson, James Eckhouse. Estreia: 20/10/89

Cineasta sempre preocupado com tramas de cunho político e/ou social, Roland Joffé ficou conhecido pelos fãs de cinema graças a produções premiadas e elogiadas pela crítica, como "Gritos do silêncio" (84) e "A missão" (86), pelos quais foi indicado ao Oscar de melhor diretor. Não foi surpresa, portanto, quando ele assumiu o comando de "O início do fim", o filme da Paramount que trataria sobre o Projeto Manhattan, que criou e construiu, em 1945, as bombas atômicas que atingiram Hiroshima e Nagasaki e deram fim à II Guerra Mundial. Catastrófico fracasso de bilheteria nos EUA (custou cerca de 30 milhões de dólares e rendeu cerca de dez menos menos em sua carreira nos cinemas), acabou lançado no resto do mundo com um título diferente e tentou conquistar - em vão - estatuetas na temporada de premiações de Hollywood. Não é difícil compreender os motivos que o levaram a tal fiasco comercial: mesmo com a direção cuidadosa de Joffé e o nome do veterano Paul Newman liderando o elenco, o filme não consegue escapar da sina comum às produções do gênero e, ao tentar equilibrar o didático/histórico ao dramático, não atinge plenamente seus objetivos em nenhum quesito. Essa indecisão custa caro ao resultado final, que mesmo perceptivelmente caprichado tecnicamente, não empolga nem emociona tanto quanto deveria.

Inicialmente chamado "Fat Man and Little Boy" (os apelidos dados às bombas), "O início do fim" teve seu nome modificado para "Shadow makers" logo depois que seu desempenho nas bilheterias domésticas assustou aos executivos do estúdio - que, logicamente, não esperavam uma renda tão pífia (pouco mais de um milhão de dólares arrecadados no fim de semana de estreia). Rebatizar o filme para lançamento em outros países, no entanto, não deu resultado nenhum: talvez por sua temática particularmente restrita, a obra de Joffé não despertou interesse nas massas que haviam lotado os cinemas para assistir ao "Batman" de Tim Burton, e saiu melancolicamente de cena, ocupando um lugar bastante coadjuvante nas carreiras de todos os envolvidos - seja do veterano Paul Newman ou dos novatos John Cusack e Laura Dern.


Apesar de ser o rosto de Newman que estampa o cartaz e ser seu nome que abre os créditos, o verdadeiro protagonista de "O início do fim" não é o seu General Leslie Groves - líder militar do projeto que concebeu a bomba atômica. O roteiro, escrito pelo cineasta e seu parceiro de longa data, Bruce Robinson, centra seu foco principalmente em Robert Oppenheimer (Dwight Schultz), o cientista chamado por Groves para comandar a experiência. A princípio entusiasmado com a possibilidade de mostrar sua competência e seu talento, ao poucos ele vai tomando consciência dos reais objetivos de Groves - e passa a questionar profundamente sua posição na estratégia. É somente quando sua vida pessoal - representada pela figura de sua amante, Jean Tatlock (Natasha Richardson), comunista vista com maus olhos pelo governo americano - é atingida que Oppenheimer percebe a dimensão do que está fazendo. Cercado de paranoia e segredos, ele testemunha o nascimento de um projeto científico gigantesco, que não poupa nem mesmo outros cientistas, como o jovem Michael Merriman (John Cusack).

Quando Bruce Robinson assumiu o roteiro de "O início do fim" seu maior interesse na trama era a história de amor e morte por trás do romance entre Oppenheimer e Jean Tatlock - um mistério ainda hoje envolto em teorias de conspiração. As alterações feitas no roteiro final, para dar mais ênfase ao relacionamento entre o cientista e o General Groves não apenas mudaram o tom da narrativa, mas também empurraram o filme para um nicho muito mais restrito de interesse - o que talvez tenha contribuído para seu fracasso. Soma-se a isso a inexperiência de Dwight Schultz, sem a força cênica necessária para imprimir consistência e nuances a um personagem tão repleto de possibilidades quanto o seu. O resultado é que o romance entre Merriman e a enfermeira Kathleen Robinson (Laura Dern) acaba por ser mais atraente ao espectador do que as crises de consciência de Oppenheimer - mesmo que tal subtrama seja inventada, como forma de iluminar o público das consequências da experiência realizada no Novo México. No fim das contas, "O ínicio do fim" é um filme com grandes atrações em seu cartaz (a música é de Ennio Morricone, a fotografia é do premiado Vilmos Zsigmond), mas que é frustrante na maior parte do tempo graças a problemas de foco e ritmo. Uma bela ideia que não atingiu todo o seu potencial.

sábado

MATADOR EM CONFLITO

MATADOR EM CONFLITO (Grosse Pointe Blank, 1997, Hollywood Pictures/Caravan Pictures, 107min) Direção: George Armitage. Roteiro: Tom Jankiewicz, D.V. DeVincentis, Steve Pink, John Cusack, estória de Tom Jankiewicz. Fotografia: Jamie Anderson. Montagem: Brian Berdan. Figurino: Eugenie Bafaloukos. Direção de arte/cenários: Stephen Altman/Chris Spellman. Produção executiva: Jonathan Glickman, Lata Ryan. Produção: Susan Arnold, Roger Birnbaum, Donna Arkoff Roth. Elenco: John Cusack, Minnie Driver, Alan Arkin, Dan Aykroyd, Joan Cusack, Hank Azaria, Jeremy Piven. Estreia: 11/4/97

Em 1991, Tom Jankiewicz recebeu o convite de sua antiga turma de escola para uma reunião, comemorando os dez anos de formatura do ensino médio. Como bom aspirante a roteirista, logo surgiu em sua mente uma ideia mirabolante: e se um de seus colegas aparecesse na festa e, ao contrário dos antigos companheiros - então bancários, médicos, advogados e outras profissões mais tradicionais - se revelasse um bem-sucedido matador de aluguel? Essa foi a gênese de "Matador em conflito", um dos mais elogiados filmes da temporada 1997, que, a despeito de seu desempenho medíocre nas bilheterias, tornou-se cult instantâneo - em boa parte devido à presença do ator John Cusack, então um dos queridinhos do público fã de cinema alternativo de Hollywood. Dirigido por George Armitage - também cultuado, por seu "O anjo assassino" (90) - e recheado de humor negro e referências culturais pop, "Matador em conflito" é um antídoto perfeito para as fórmulas engessadas do cinemão americano, misturando gêneros e não se levando a sério nem mesmo diante de sequências surpreendentemente violentas.

Sua mistura de gêneros, aliás, quase foi um problema para sua realização: por volta de 1993, quando o conceito do filme já era cobiçado por vários produtores, Kiefer Sutherland mostrou-se realmente interessado em levá-lo às telas. O projeto esbarrou justamente na dificuldade que seria encontrar financiamento para um filme tão atípico, que fazia rir ao mesmo tempo em que mostrava pessoas sendo assassinadas, e que, de forma amoral, tinha como protagonista (e portanto, segundo as regras não escritas, o herói com quem o público deveria se identificar) um matador profissional - e o que é pior, um matador profissional simpático e carismático. Projeto cancelado, foi somente em 1996 que finalmente as coisas começaram a realmente andar, quando John Cusack entrou em cena e assumiu as rédeas da situação: juntamente com os amigos D.V. DeVincentis e Steve Pink (com quem também trabalharia na adaptação do livro "Alta fidelidade", de Nick Hornby), Cusack se aproximou de Jankiewicz e criou o roteiro daquele que seria um de seus trabalhos preferidos: uma absurda comédia de humor negro, violência e, por incrível que pareça, uma história de amor.


O próprio Cusack assumiu também o papel principal do filme, um assassino profissional que está passando por uma crise existencial. Descontente com sua rotina de violência, Martin Blank tenta acalmá-la com sessões de terapia com o dr. Oatman (Alan Arkin) - que só o atende por medo de também virar uma vítima sua. Recusando trabalhos e com pretensões de abandonar a vida criminosa, ele confia apenas em sua secretária, Marcella (Joan Cusack), para organizar sua confusa vida. Sua situação pouco invejável se torna ainda mais complicada quando ele aceita a missão de cometer um assassinato na pequena Grosse Point, nos subúrbios de Detroit: não apenas se trata de sua cidade natal como também o trabalho coincide com uma festa de reencontro com seus ex-colegas de classe, dez anos depois do baile de formatura em que ele deixou sozinha sua então namorada Debi (Minnie Driver). O reencontro com Debi e a ideia de ter de dar de cara com todos os seus amigos e desafetos do passado se combinam com a pressão de ter de cumprir seu objetivo profissional, escapar de dois agentes federais, um outro assassino que está em seu encalço, e, pior ainda, ter de livrar-se de Groce (Dan Aykroyd), que tenta convencê-lo a participar de um sindicato de matadores de aluguel.

O roteiro de "Matador em conflito" é um festival de citações pop: filmes de 007, Quentin Tarantino, games, música dos anos 80 (a trilha sonora é fantástica, com direito a Queen, Guns'n'Roses, Johnny Nash, The Clash, The Cure e A-ha, entre dezenas de outros) e até citações internas (Jenna Elffman faz sua estreia no cinema com uma homenagem à Joan Cusack no clássico "Gatinhas e gatões", de 1986) são facilmente detectáveis por toda a curiosa narrativa de Armitage. Sem espaço para a previsibilidade, o roteiro se transforma imperceptivelmente de cena para cena, pulando de uma comédia quase surreal para um romance nostálgico e então para um filme de ação com direito a tiroteios e explosões. John Cusack é o ator ideal para o papel principal, com sua aparência carente, e Minnie Driver demonstra um ótimo timing cômico, servindo também de equilíbrio entre todos os gêneros apresentados por Armitage e companhia, que não tem medo de ousar e fugir do lugar-comum. Desconcertante e surpreendente, "Matador em conflito" não é um filme para qualquer tipo de público - e tampouco escapa de um ritmo irregular em determinados momentos -, mas é uma refrescante opção para quem deseja fugir da mesmice hollywoodiana. Uma sessão da tarde apimentada e movimentada que é a cara de sua época.

quarta-feira

THE BEACH BOYS: UMA HISTÓRIA DE SUCESSO

THE BEACH BOYS: UMA HISTÓRIA DE SUCESSO (Love & Mercy, 2014, River Road Entertainment, 121min) Direção: Bill Pohlad. Roteiro: Oren Moverman, Michael Alan Lerner. Fotografia: Robert Yeoman. Montagem: Dino Jonsater. Música: Atticus Ross. Figurino: Danny Glicker. Direção de arte/cenários: Keith Cunningham/Maggie Martin. Produção executiva: Jim Lefkowitz, Oren Moverman, Ann Ruark. Produção: Bill Pohlad, Claire Rudnick Polstein, John Wells. Elenco: Paul Dano, John Cusack, Paul Giamatti, Elizabeth Banks, Jake Abel, Kenny Wormald, Brett Davern. Estreia: 07/9/14 (Festival de Toronto)

Quando foi atender aquele homem excêntrico e gentil que procurava um carro novo naquele dia de 1986, a jovem Melinda Leadbetter jamais imaginaria que sua vida seria profundamente alterada: aquele homem era Brian Wilson, ex-integrante de um dos grupos musicais de maior sucesso dos anos 60, e sua relação com ele revelaria não apenas uma mente brilhante e à frente de seu tempo, mas também perturbada e controlada por um médico inescrupuloso que o impedia de levar uma vida normal. A relação entre Melinda e Brian - e o retrato do começo do desequilíbrio mental do artista - são o tema de "The Beach Boys: uma história de sucesso", uma cinebiografia quase convencional mas, acima de tudo, fiel aos fatos e dotada de uma alma que a torna irresistível aos fãs do grupo, que tem a oportunidade de conhecer um lado pouco glamouroso de um ídolo que substituiu os palcos e a fama por clínicas e paranoia. Com um roteiro inteligente que intercala fases distintas da vida de Wilson com (bons) atores se dividindo no papel, o filme de Bill Pohlad não deixa de ser um sopro de criatividade dentro de seu subgênero, optando por um foco narrativo específico ao invés de debruçar-se sobre uma vida inteira - o que fatalmente acabaria  na superficialidade.

Uma história repleta de acontecimentos dramáticos irresistíveis ao cinema, a trajetória de Brian Wilson através de seus problemas psicológicos já tinha flertado com as telas em duas ocasiões: na década de 80, com William Hurt na pele do músico e Richard Dreyfuss como seu médico particular, Eugene Landy, e nos anos 90, com Jeff Bridges no papel central. Nenhuma das duas tentativas conseguiu ultrapassar os limites das possibilidades - o que não deixa de ser um alívio, em especial se for considerado que o filme com Hurt e Dreyfuss teria o dedo do próprio Landy na produção, o que fatalmente alteraria profundamente a veracidade dos fatos narrados. Landy, afinal de contas, pode facilmente ser considerado o vilão da história: mantendo Wilson sob seu rígido comando, ele se aproveitava da fragilidade do paciente para manipulá-lo e afastá-lo de quem quer que pudesse realmente ajudar em sua recuperação. Foi assim, por exemplo, com a própria Melinda, que se viu no meio do fogo cruzado entre os dois assim que entrou na vida de Brian: fascinado por ela, o autor de algumas das canções mais amadas da história da música americana comprou uma briga com seu psicólogo para agarrar-se a uma espécie de último fiapo de esperança de manter-se são. Esse confronto entre Melinda e Landy se alterna, no roteiro escrito por Oren Moverman (indicado ao Oscar por "O mensageiro", de 2009) e Michael Alan Lerner, com a criação do mais radical álbum dos Beach Boys, o mal-compreendido "Pet Sounds" - surgido em meio aos demônios pessoais de seu compositor.


Na juventude - e em fase de total ebulição criativa - Brian Wilson é interpretado por Paul Dano, vencedor do prêmio de melhor ator pelos críticos de Nova York e indicado ao Golden Globe por seu desempenho hipnótico. Totalmente imerso no personagem, Dano entrega a melhor atuação de sua carreira, mesclando momentos de bravata com outros de puro desespero e angústia - fustigados por seu pai, um homem mais afeito ao lucro do que à arte e incapaz de uma palavra de afeto. Torturado por pensamentos aflitivos, o rapaz vai contra o óbvio e se afasta dos palcos para conceber um disco revolucionário em música e conceito - algo que nem todo mundo se esforçava para compreender em sua importância cultural. Vinte anos mais tarde, Wilson ganha a forma de John Cusack e, maltratado pelo tempo e por uma vida de excessos e remédios fortíssimos, é quase incapaz de dar um passo sem consultar seu médico/guru/guarda-costas Eugene Landy (interpretado com gosto por um excelente Paul Giamatti). Uma sombra do que poderia ter sido, Wilson vê em Melinda uma luz no fim do túnel, e mesmo com a saúde mental debilitada, se envolve em uma história de amor improvável e que pode lhe salvar a vida. Cusack está bem no papel, mas é quase eclipsado por Giamatti - que rouba todas as cenas em que aparece, como um parasita detestável e ameaçador (sua interpretação é tão admirável que o próprio Brian Wilson ficou pouco à vontade ao vê-lo em cena). No meio de tantos talentos, Elizabeth Banks surpreende em um papel sério e discreto - um porto seguro dentre tantas tormentas.

Pontuado por uma sutil trilha sonora de Atticus Ross - colaborador habitual de David Fincher - e editado de forma a manter o espectador interessado no desenrolar dos acontecimentos, "The Beach Boys: uma história de sucesso" é um conjunto de acertos. A direção de Bill Pohlad não tenta chamar mais a atenção do que a história ou os personagens, servindo como um fio condutor eficiente mas nunca maior do que a trama. Bem-sucedido produtor - de filmes oscarizados, como "O segredo de Brokeback Mountain" (2005) e "12 anos de escravidão" (2014) - e estreante como cineasta, Pohlad faz um primeiro trabalho primoroso em sua sutileza e delicadeza em tratar de assuntos desagradáveis sem afastar o público. Oferecendo uma cinebiografia que foge das narrativas convencionais, ele entrega um filme que consegue agradar aos fãs da banda e apresentá-la (ou ao menos introduzir sua música) a neófitos e/ou admiradores ocasionais. Um belo drama musical, embalado por canções das mais agradáveis já gravadas e com um elenco em dias inspirados. O que mais se pode esperar?

sábado

MAPAS PARA AS ESTRELAS

MAPAS PARA AS ESTRELAS (Maps to the stars, 2014, Prospero Pictures/Sentient Entertainment, 111min) Direção: David Cronenberg. Roteiro: Bruce Wagner. Fotografia: Peter Suschitzky. Montagem: Ronald Sanders. Música: Howard Shore. Figurino: Denise Cronenberg. Direção de arte/cenários: Carol Spier/Sandy Lindstedt, Peter P. Nicolakakos. Produção executiva: Benedict Carver, Renee Tab, Patrice Theroux. Produção: Sain Ben Said, Martin Katz, Michael Merkt. Elenco: Julianne Moore, Mia Wasikowska, Robert Pattinson, John Cusack, Evan Bird, Olivia Williams, Sarah Gadon. Estreia: 19/5/14 (Festival de Cannes)
Palma de Ouro no Festival de Cannes: Melhor Atriz (Julianne Moore)

Já faz algum tempo que o canadense David Cronenberg deixou de lado sua obsessão por vísceras expostas e personagens tão bizarros que beiravam o surreal. O homem que se tornou conhecido por obras quase desagradáveis como "Scanners: sua mente pode destruir" (81), "Videodrome: a síndrome do vídeo" (83), "A mosca" (86), "Gêmeos: mórbida semelhança" (88) e "Crash: estranhos prazeres" (96) entrou ameno no século XXI, contando histórias mais palatáveis ao público médio - "Marcas da violência" (05) e "Senhores do crime" (07) chegaram, vejam só, a concorrer ao Oscar. Porém, a alma de Cronenberg ainda mantém algo de doentio, como mostra "Mapas para as estrelas", uma aparentemente inofensiva comédia dramática sobre os exageros das celebridades no mundo do cinema e que deu à Julianne Moore a Palma de Ouro de melhor atriz no Festival de Cannes 2014. Aparentemente inofensiva porque, por debaixo do humor mordaz do roteiro de Bruce Wagner e da atuação à beira do over do elenco - uma característica que também marca normalmente a obra de outro outsider, chamado David Lynch - está uma narrativa ferozmente cruel, que desnuda sem pudores o universo fútil e impiedoso da indústria cinematográfica americana.  

Assim como Robert Altman fez em "O jogador" (92), Cronenberg explora as entranhas do mundo corporativo do cinema, mas não através do olhar de um poderoso produtor e sim de uma atriz outrora significante lutando para dar a volta por cima e retornar aos holofotes. Em uma de suas duas brilhantes atuações da temporada (a outra foi em "Simplesmente Alice", que lhe deu um merecido Oscar), Julianne Moore vive de corpo e alma a desesperada e frustrada Havana Segrand, que, entre massagens, sessões de terapia e almoços de negócios, tenta convencer a todos que passam por seu caminho que ela é a escolha certa para interpretar, em um remake, a personagem que tornou sua mãe em estrela nos anos 60. Resistindo ao preconceito - a idade, afinal, é um fator dominante dentro da indústria - e às flutuações de prestígio que a fazem disputar o papel com nomes mais quentes, Havana também precisa brigar com fantasmas interiores que remetem a um trauma de infância que ela teima em esconder. E trauma de infância também é um problema para Benjie Weiss (Evan Bird), um adolescente de 13 anos, astro de um filme de sucesso que é aterrorizado por ter quase sido assassinado pela irmã mais velha quando era uma criança: rigidamente controlado por gente que exige que ele fique longe das drogas para manter seu contrato, ele vive em conflito com os pais, o médico-astro Stafford Weiss (John Cusack) e a nervosa Christina (Olivia Williams) - eles também detentores de um grave segredo.


As vidas de Havana e Benji - famosos e flutuando em um universo de drogas, álcool, sexo e celebridade fácil - contrasta com a de Agatha (Mia Wasikowska), uma jovem que chega da Califórnia disposta a trabalhar em Los Angeles e esquecer um incêndio que destruiu parte do seu rosto e suas mãos. Por intermédio da atriz Carrie Fischer - que conhece pela Internet - Agatha vai trabalhar com Havana, que se solidariza com seus dramas pessoais. Enquanto cuida de manter a agenda da patroa em dia - e de fazer compras pessoais para ela - a jovem acaba se encantando com Jerome (Robert Pattinson), motorista de limousine que sonha ser ator e tenta escrever um romance. Seus complexos, no entanto, acabam por se mostrarem mais fortes do que qualquer desejo, principalmente quando ela se vê obrigada a encará-los novamente e percebe que sua relação com Havana não será tão pacífica quanto o esperado.

Dirigindo seu filme como uma comédia de erros macabra - com direito a revelações bombásticas, incesto e uma inesperada violência física no clímax - David Cronenberg volta a mostrar seu domínio da técnica narrativa, impulsionada por personagens pouco simpáticos e situações cuja banalidade se mostra crucial para um maior impacto. Com um roteiro que enfatiza a superficialidade das relações e a fugacidade da juventude, "Mapas para as estrelas" usa e abusa de ironia, com inúmeras referências ao mundo do cinema e uma contundente crítica à importância exagerada que é dada à juventude e à beleza em detrimento do talento. Não é um filme convencional - o que fica evidente conforme a narrativa vai assumindo ares cada vez mais surreais - mas tampouco é uma tour de force bizarra como os trabalhos lançados pelo cineasta na década de 80. É um belo e impactante filme, repleto de um sarcasmo sutil e rascante e ilustrado pelo sublime desempenho de Julianne Moore. Quem gosta de esmiuçar os bastidores de Hollywood vai se encantar.

quinta-feira

O MORDOMO DA CASA BRANCA

O MORDOMO DA CASA BRANCA (Lee Daniels' The Butler, 2013, AI-Film/Follow Through Productions/Salamander Pictures, 132min) Direção: Lee Daniels. Roteiro: Danny Strong, artigo "A butler well served by this election", de Wil Haygood. Fotografia: Andrew Dunn. Montagem: Joe Klotz. Música: Rodrigo Leão. Figurino: Ruth E. Carter. Direção de arte/cenários: Tim Galvin/Diane Lederman. Produção executiva: Len Blavatnik, James T. Bruce IV, Elizabeth Destro, Michael Finley, Aviv Giladi, Adonis Hadjiantonas, Vince Holden, Brett Johnson, Sheila Johnson, Jordan Kessler, Adam Merims, David Ranes, Matthew Salloway, Hilary Shor, Earl W. Stafford, Danny Strong, Bob Weinstein, Harvey Weinstein, R. Bryan Wright. Produção: Lee Daniels, Cassian Elwes, Buddy Patrick, Pamela Oas Williams, Laura Ziskin. Elenco: Forest Whitaker, Oprah Winfrey, David Oyelowo, Terrence Howard, Cuba Gooding Jr., Vanessa Redgrave, John Cusack, Jane Fonda, Alan Rickman, James Marsden, Robin Williams, Liev Schreiber, Mariah Carey, Lenny Kravitz, Alex Pettyfer, Jim Gleeson. Estreia: 05/8/13

Alguns filmes conquistam por seu valor artístico, por sua ousadia, criatividade e técnica impecável. Outros, no entanto, chegam ao coração da audiência por seus méritos emocionais, que prescindem de teorias ou análises mais profundas. Na segunda definição encontra-se "O mordomo da Casa Branca", filme do cineasta Lee Daniels, que já em seu filme de estreia, "Preciosa", arrebatou indicações ao Oscar de filme e direção. Inspirado em uma história real, o novo filme de Daniels retrata, em pouco mais de duas horas de duração, cinco décadas da história dos EUA, concentrando-se na luta pelos direitos civis da população negra - e contrapondo-a à dedicação do protagonista em servir os governantes do país independentemente da situação política.

Interpretado por Forest Whitaker em mais uma atuação esplêndida, Cecil Gaines é um herói silencioso e discreto, que acompanha as transformações sociais dos EUA de camarote: contratado como um dos mordomos da Casa Branca durante o mandato de Eisenhower (Robin Williams), ele segue à risca os conselhos que sempre recebeu durante sua educação como serviçal, mantendo-se invisível e apolítico mesmo quando as decisões políticas afetam diretamente seu povo - e principalmente sua família. Seu filho mais velho (muito bem interpretado por David Oyelowo), revoltado com a submissão a que a população negra é obrigada, junta-se aos ativistas que exigem mudanças - desde o pacifismo de Martin Luther King à violência dos Panteras Negras -, seu caçula, crédulo em seu governo, embarca para o Vietnã, e sua mulher, Gloria (Oprah Winfrey, extraordinária) se entrega à bebida como forma de lidar com a solidão. Muitas vezes incompreendido pelas pessoas que ama - que o julgam conivente com as desigualdades - ele não se furta a manter-se fiel às suas obrigações, o que acaba por torná-lo um homem de confiança de inúmeros presidentes.


A narrativa de Daniels é quadradinha, convencional, quase sem brilho. Porém, se o roteiro muitas vezes não consegue fugir do superficial - consequência inevitável da decisão de se contar tanta coisa em tão pouco tempo - ao menos mantém um ritmo que mantém a atenção do espectador sem fazer muito esforço. Didático na medida certa (para não afugentar aqueles que não conhecem a história americana a ponto de não precisar de legendas explicativas) e emocionante em diversos momentos - principalmente quando não tem medo de mostrar a extrema violência física e psicológica sofrida pelos negros - o filme pode até ser acusado de um certo maniqueísmo, mas tem a coragem de questionar a lealdade do protagonista ao mesmo tempo em que compreende sua ideologia de fidelidade extrema e absoluta: a cena em que pai e filho discutem violentamente sobre a imagem de Sidney Poitier (epítome do negro quase branco, aceito pelo mainstream americano nos anos 60 e renegado pelo ativismo radical justamente por esse motivo) é forte e exemplifica com perfeição a dubiedade dos sentimentos da família Gaines - além de permitir a Whitaker e Winfrey um de seus melhores momentos.

Aliás, se existe um outro grande motivo para se assistir a "O mordomo da Casa Branca" é o elenco reunido por Daniels: além de Mariah Carey (em uma participação mínima) e Lenny Kravitz - que já haviam trabalhado com o diretor em "Preciosa", o filme é um desfile de grandes atores em participações especiais (e muitas vezes com maquiagem que quase os deixa irreconhecíveis). É um prazer à parte ver nomes tão díspares quanto Alan Rickman, James Marsden, Liev Schreiber, John Cusack, Vanessa Redgrave, Cuba Gooding Jr., Terrence Howard e a sumida Jane Fonda em um filme com importância social tão fundamental - e não é difícil imaginar que sua inclusão no elenco tem muito a ver com suas próprias agendas políticas. É importante também perceber que o exagero do filme anterior do cineasta - o polêmico e exagerado "Obessão" - parece ter sido definitivamente enterrado, diante de uma obra tão carinhosa quanto essa.

"O mordomo da Casa Branca", ao contrário do apregoado, não tem nada a ver com "Histórias cruzadas", o superestimado que deu a Octavia Spencer o Oscar de atriz coadjuvante em 2012. Enquanto a obra de Tate Taylor era hipócrita a ponto de ter uma protagonista branca para salvar os negros oprimidos, o filme de Daniels dá aos próprios o poder de mudar sua história, lutando até o fim por seus direitos e enfrentando o sistema estabelecido. E se havia espaço para o humor escatológico e sem graça no primeiro, em "O mordomo" o registro é mais sério e apropriado ao tema. Pode não ser uma obra-prima, mas é comovente, relevante e redondinho. Merece ser apreciado por suas inúmeras qualidades.

sábado

OS IMORAIS

OS IMORAIS (The grifters, 1990, Cineplex-Odeon Films, 110min) Direção: Stephen Frears. Roteiro: Donald E. Westlake, romance de Jim Thompson. Fotografia: Oliver Stapleton. Montagem: Mick Audsley. Música: Elmer Bernstein. Figurino: Richard Honrnung. Direção de arte/cenários: Dennis Gassner/Nancy Haigh. Produção executiva: Barbara de Fina. Produção: Robert A. Harris, Jim Painter, Martin Scorsese. Elenco: Anjelica Huston, John Cusack, Annette Bening, Pat Hingle, Xander Berkeley. Estreia: 14/9/90 (Festival de Toronto)

4 indicações ao Oscar: Diretor (Stephen Frears), Atriz (Anjelica Huston), Atriz Coadjuvante (Annette Bening), Roteiro Adaptado

Lilly Dillon ganha a vida lavando dinheiro da Máfia, frequentando hipódromos para buscar a grana de seu violento patrão, Bobo Justus. Seu filho, Roy, vive de golpe em golpe, arriscando-se em busca do ganha-pão e não a vê há oito anos. Sua nova namorada, a alegre sirigaita Myra Langrty, utiliza-se de sua beleza para pagar com o corpo o aluguel e outras dívidas que não consegue amortecer, depois de ver suas chances de enriquecer com um golpe milionário irem por água abaixo. Esse trio de bandidinhos, malandros pés-de-chinelo, a quilômetros de distância do glamour hollywoodiano são os protagonistas de "Os imorais", noir sujo, direto e sem concessões baseado com extrema fidelidade no romance de Jim Thompson e dirigido por Stephen Frears que conseguiu a façanha de, no mesmo ano de "Os bons companheiros", de Martin Scorsese, e "O poderoso chefão, parte III", de Francis Ford Coppola, chegar até a cerimônia do Oscar em categorias nobres como direção, roteiro e atriz. Scorsese, aliás, é produtor executivo do filme, o que talvez explique a maneira com que as entranhas do submundo do crime são tão cruamente expostas nessa pérola de Stephen Frears, até então mais conhecido pelo elegante "Ligações perigosas" (88).

Pela direção da adaptação do clássico romance de Choderlos de Laclos estrelado por Glenn Close e John Malkovich, o diretor foi esnobado pela Academia, apesar do filme concorrer à estatueta principal, mas dessa vez não teve como ignorá-lo. Sua direção firme, fria e direta casa perfeitamente com o texto incisivo e cínico de Jim Thompson, escritor americano que frequentou Hollywood contribuindo com o roteiro de  "O grande golpe" (56) e "Glória feita de sangue" (57), ambos de Stanley Kubrick: sem preocupar-se com firulas, sua obra vai direto à jugular, com uma violência verbal e física capaz de encantar aos fãs do tradicional cinema noir hollywoodiano - mas, ao contrário dos filmes mais famosos do gênero, abdica do glamour para concentrar-se nos escaninhos mais sórdidos das histórias de gângsteres, aqueles que até o mais amoral criminoso tem vergonha de admitir. Ao retratar bandidos ralé ao invés de poderosos chefões, "Os imorais" ganha pontos pela autenticidade, garantida por um trio de atores principais de tirar o chapéu.


Anjelica Huston (loiríssima) está sublime como Lilly, uma Jocasta extemporânea que, depois de oito anos de ausência, reencontra o filho, Roy (John Cusack iniciando uma expressiva fase da carreira que o levaria a trabalhar com cineastas do porte de Woody Allen e ser reconhecido como um dos atores mais promissores de sua geração) e de cara implica com sua nova namorada, Myra (Annette Bening, indicada ao Oscar de atriz coadjuvante), em uma antipatia recíproca, como se ambas percebessem a inevitável rivalidade prestes a ocorrer. Lilly quer que Roy a ajude a fugir de seu patrão, que desconfia de sua honestidade (não sem motivos). Myra deseja que o namorado se torne seu sócio em um esquema que lesa milionários desavisados. As duas sabem que qualquer escolha do rapaz anulará a outra e uma guerra silenciosa é declarada entre elas.

Contando com uma edição ágil mas nunca apressada de Mick Audsley - que começa o filme dividindo a tela em três, apresentando à plateia as personagens com quem irão conviver pelas próximas duas horas - "Os imorais" se beneficia também do roteiro enxuto de Donald E. Westlake, que segue religiosamente sua origem literária e da coragem de Stephen Frears em obrigar o publico a testemunhar cenas de grande impacto emocional (a tortura psicológica sofrida por Lilly e um punhado de laranjas enroladas em uma toalha) sem nunca ultrapassar os limites visuais da violência. Trabalhando principalmente sobre a personalidade de seus protagonistas - e até mesmo deixando no ar algumas questões como o tipo de relação entre Lilly e Roy, que beira o incesto - a trama prefere investigar os mecanismos tortuosos entre os três personagens como engrenagens de uma complexa história de amor, traição e vingança. Não deve agradar a todos - seu visual é desprovido de qualquer beleza e seu ritmo é brusco e árido - mas poucos filmes de sua época tiveram sua coragem de arrancar sem temores os véus de delicadeza que cobriam o gênero policial. Só por isso já merece aplausos.

terça-feira

GATINHAS E GATÕES

GATINHAS E GATÕES (Sixteen candles, 1984, Universal Pictures, 93min) Direção e roteiro: John Hughes. Fotografia: Bobby Byrne. Montagem: Edward Warschilka. Música: Ira Newborn. Direção de arte/cenários: John W. Corso/Jennifer Polito. Produção executiva: Ned Tanen. Produção: Hilton A. Green. Elenco: Molly Ringwald, Anthony Michael Hall, Michael Schoeffling, Paul Dooley, Justin Henry, Haviland Morris, Gedde Watanabe, John Cusack, Joan Cusack, Carlin Glynn, Liane Curtis, Jami Gertz, Zelda Rubinstein. Estreia: 04/5/84

Se existia um cineasta na década de 80 que entendia o que se passava nas cabeças e nos corações dos adolescentes, esse cineasta era John Hughes. Com uma pequena série de comédias românticas estreladas por sua musa Molly Ringwald - que começou com "Gatinhas e gatões" e inclui "Clube dos cinco" e "A garota de rosa-shocking" (que ele escreveu e Howard Deutch dirigiu), além de "Curtindo a vida adoidado", sem sua atriz-símbolo - ele marcou toda uma geração de jovens, que conseguia enxergar na tela seus medos, suas dúvidas e seus desejos retratados com carinho e um senso de humor delicado que equilibrava ingenuidade e picardia. Tratando de assuntos que interessavam a seu público-alvo, como sexualidade, relações familiares e dúvidas existenciais, seus filmes encantavam principalmente por causa da linguagem simples, da despretensão e da escolha certeira de seus elencos. Representada especialmente por Molly Ringwald, que chegou a ser capa da revista Time por conta de seu sucesso nas obras do diretor, a adolescência vista pelos olhos de John Hughes conquistou lugar de honra na história do cinema pop americano.

A trama de "Gatinhas e gatões" é de uma simplicidade comovente: no dia de seu aniversário de dezesseis anos, a adolescente Samantha Baker (Molly Ringwald, que conseguiu o papel contra Laura Dern) acorda decepcionada com o fato de não ver no espelho nenhuma diferença em relação ao dia anterior. Porém, uma outra decepção, ainda maior, acontece quando ninguém em sua casa lembra da data, para ela tão importante por representar um passo a mais em direção à idade adulta: focados no casamento de sua irmã mais velha, seus pais, irmãos e avós nem mesmo a cumprimentam pela data, o que a deixa arrasada. Para piorar seu dia - já completamente arrasado pela indiferença familiar - ela não consegue deixar de lado sua paixão avassaladora pelo popular Jake Ryan (Michael Schoeffling, que depois faria par romântico com Winona Ryder em "Minha mãe é uma sereia"), comprometido com uma patricinha mais velha e insensível. Em uma festa da escola - onde é obrigada a levar o intercambista chinês que mora com seus avós e que descobre as maravilhas do mundo ocidental da maneira mais direta possível - Sam ainda precisa lidar com o assédio de Ted (Anthony Michael Hall), um nerd que apostou com seus amigos (entre os quais um jovem John Cusack) que conseguiria seduzí-la. Surge entre os dois uma inusitada amizade, que os ajudará, a ambos, a terminar a noite bastante diferentes de como a começaram.


Assistir a "Gatinhas e gatões" equivale a uma boa viagem no tempo: tudo que havia de mais típico de sua época está presente em cena. O figurino exagerado - o chapéu que a protagonista usa no início do filme virou moda entre sua faixa etária - encontra eco na trilha sonora deliciosa (com Spandau Ballet e David Bowie entre os ilustres participantes) e nas referências culturais espalhadas pelo cenário, como pôsteres de bandas oitentistas como Culture Club, que decoram o quarto de Samantha. Até mesmo o que hoje é considerado clichê no gênero - festas radicais, estereótipos juvenis, final feliz - surge na trama, que é temperada por cenas de um humor ingênuo e que funciona às mil maravilhas mesmo depois de tanto tempo. A então novata Joan Cusack, por exemplo, nem precisa falar muito para levar a audiência às gargalhadas na pele de uma estudante presa em um aparelho ortopédico que a impede de coisas básicas como beber água ou tomar cerveja de uma latinha: Cusack já apostava no tipo de humor que a levaria a concorrer ao Oscar de coadjuvante em duas ocasiões, além de contracenar com o irmão, John, que na década seguinte se tornaria um dos mais confiáveis atores de Hollywood.

E por falar em atores, pode parecer impossível imaginar o triângulo central de "Gatinhas e gatões" formado por outros que não Ringwald, Anthony Michael Hall (que ainda fez parte de "Clube dos cinco" e "Mulher nota 1000", não dirigido por Hughes) e Michael Schoeffling, mas não deixa de ser interessante pensar em como seria o resultado se outros testados para os papéis tivessem conseguido passar. Além de Laura Dern como Samantha, o público poderia ter tido a oportunidade de ver Viggo Mortensen como o galã Jake Ryan e Jim Carrey (!!!) como o nerd Ted. Felizmente Hughes fez as escolhas certas - e ainda lançou um dos gêneros mais queridos da década de 80. Com "Gatinhas e gatões" surgiram os filmes de adolescentes em crise que tanto apaixonaram a juventude em seu tempo. Só por isso já merece todos os louvores.

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MEIA-NOITE NO JARDIM DO BEM E DO MAL

MEIA-NOITE NO JARDIM DO BEM E DO MAL (Midnight at the garden of good and evil, 1997, Warner Bros, 155min) Direção: Clint Eastwood. Roteiro: John Lee Hancock, livro de John Berendt. Fotografia: Jack N. Green. Montagem: Joel Cox. Música: Lennie Niehaus. Direção de arte/cenários: Henry Bumstead. Produção executiva: Anita Zuckerman. Produção: Clint Eastwood, Arnold Stiefel. Elenco: Kevin Spacey, John Cusack, Jude Law, Alison Eastwood, Jack Thompson, Irma P. Hall, Lady Chablis. Estreia: 21/11/97

Clint Eastwood nunca precisou provar nada pra ninguém como cineasta e muito menos depois que sagrou-se vencedor do Oscar com seu impecável "Os imperdoáveis", de 1992. Um dos raros diretores do mainstream americano a preocupar-se mais com os atores do que com efeitos visuais mirabolantes, o velho Eastwood também tem bom olho para escolher os livros que leva às telas. Foi assim com "As pontes de Madison" - baseado em um romance água-com-açúcar de Robert James Waller que acabou tornando-se um de seus melhores trabalhos - e com "Poder absoluto" - que saiu das páginas de um policial de David Baldacci mas não repetiu o mesmo êxito. E é também baseado em um livro um de seus filmes menos bem-sucedidos (tanto em termos de crítica quanto de bilheteria): o romance-reportagem "Meia-noite no jardim do bem e do mal", escrito por John Berendt não encontrou na sua versão para celuloide o mesmo sucesso que obteve nas livrarias.

É difícil encontrar, racionalmente, um motivo para o fracasso de "Meia-noite": a direção de Eastwood está no ponto, o elenco (John Cusack e Kevin Spacey na liderança) é coeso e bem escalado, a trama é interessante e a produção é de primeira linha. Mas, analisando friamente, falta alma ao filme. Falta emoção. Falta calor. E sem esses elementos, por melhor que o resto seja, o resultado não tem como ser outro a não ser a indiferença do público. Soma-se a isso o equívoco na adaptação para o cinema de um livro cuja maior qualidade era a descrição bem-humorada da idiossincrática Savannah e seus habitantes surreais e tem-se uma obra cuja promessa não chega a ser cumprida em nenhum momento apesar da união de talentos.


John Cusack, exagerando nas caras e bocas, vive John Kelso, um repórter nova-iorquino que, depois do fracasso de seu primeiro livro, é contratado para cobrir a festa de Natal oferecida pelo excêntrico milionário Jim Williams na igualmente bizarra cidade de Savannah, no sul dos EUA. Logo que chega ao local, Kelso fica intrigado com o jeito de ser dos moradores - pessoas que caminham com cachorros já mortos, um homem que convive com moscas presas a seu ombro e um vidro de veneno com o qual ameaça matar a todos - e tem a ideia de escrever não uma reportagem, mas um livro. O tema do livro acaba sendo drasticamente alterado, porém, quando Williams mata o garoto de programa Billy (Jude Law em um de seus primeiros papéis em Hollywood), com quem mantinha uma relação falsamente ignorada pela alta sociedade da cidade. Temendo que o milionário seja condenado devido à sua homossexualidade, o escritor resolve acompanhar o julgamento - o que fica mais agradável quando ele inicia um romance com Mandy (Alison Eastwood, filha de Clint).

O roteiro de John Lee Hancock não encontra, a partir daí, o equilíbrio necessário entre um drama de tribunal que poderia ser empolgante e a forma como retratar as superstições e preconceitos de uma cidade do interior do sul do país - representados, respectivamente, pela misteriosa Minerva (Irma P. Hall) e pela drag queen Lady Chablis (interpretada pela própria inspiração para a personagem, na maior revelação do elenco). Essa quebra entre dois universos e duas tramas que não se combinam a contento talvez seja a maior responsável pelo fracasso do filme em atingir seus objetivos dramáticos. Sempre que as sequências do tribunal assumem o foco - com Kevin Spacey mostrando mais uma vez porque é um dos melhores atores americanos de sua geração - o filme cresce, apesar de não deixar os clichês pra trás. Quando tenta tratar sobre os ritos religiosos e o campo espiritual, porém, o roteiro chove no molhado e dispersa a ação - fato que nem mesmo a curiosa ideia de misturar personagens reais à trama consegue superar.

No final das contas, "Meia-noite no jardim do bem e do mal" não é um filme ruim, mesmo porque Eastwood é um diretor bom demais para estragar completamente um material. Mas ao mesmo tempo não convence nem encanta tanto quanto sua trama prometia. Fica no meio do caminho, salvo pela atuação (mais uma) extraordinária de Kevin Spacey.

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TIROS NA BROADWAY

TIROS NA BROADWAY (Bullets over Broadway, 1994, Miramax Films/Sweetland Films, 98min) Direção: Woody Allen. Roteiro: Woody Allen, Douglas McGrath. Fotografia: Carlo Di Palma. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Susan Bode, Amy Marshall. Produção executiva: J.E. Beaucaire, Jean Doumanian. Produção: Robert Greenhut. Elenco: John Cusack, Dianne Wiest, Chazz Palminteri, Rob Reiner, Jennifer Tilly, Mary-Louise Parker, Jim Broadbent, Tracey Ulman, Joe Viterelli, Jack Warden, Harvey Fierstein. Estreia: 01/10/94

7 indicações ao Oscar: Diretor (Woody Allen), Roteiro Original, Ator Coadjuvante (Chazz Palminteri), Atriz Coadjuvante (Jennifer Tilly/Dianne Wiest), Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Dianne Wiest)
Vencedor do Golden Globe de Atriz Coadjuvante (Dianne Wiest)

Poucas vezes um filme de Woody Allen teve uma acolhida tão generosa por parte da Academia quanto "Tiros na Broadway". Indicada a sete Oscar, a divertida comédia passada nos bastidores do teatro dos anos 20 conquista pelo humor inteligente e sarcástico, pela reconstituição de época caprichada e, como é de costume na obra do cineasta nova-iorquino, pelo elenco impecável. Não foi à toa que três de seus atores foram indicados a um estatueta e Dianne Wiest tenha arrebatado a sua segunda - a primeira, por outro filme de Allen, "Hannah e suas irmãs", ela recebeu em 1986. Na pele de Helen Sinclair, uma diva dos palcos com tendências alcóolicas e egocêntricas, Wiest só não rouba a cena porque, a seu lado, estão os surpreendentes Chazz Palminteri (dramaturgo até então desconhecido pelos fãs de cinema) e Jennifer Tilly (que deixou pra trás trabalhos esquecíveis como "A fuga", com Alec Baldwin e Kim Basinger graças a seu desempenho hilariante).

Liderando o elenco de peso está John Cusack, que interpreta David Shayne, um jovem dramaturgo que, a despeito da qualidade de seu texto, acumula fracasso em cima de fracasso. Sua grande chance acontece quando sua última peça, "O deus dos nossos pais" encontra um patrocinador inesperado, o mafioso (Joe Viterelli), cuja única exigência é que sua amante, Olive Neal (Jennifer Tilly), tenha um papel de destaque. A princípio irredutível em vender sua arte, David acaba convencido por seu empresário Nick Valenti (Jack Warden) a aceitar a ideia, principalmente porque, com o financiamento, poderá contar com a presença de Helen Sinclair (Wiest), uma atriz de primeira grandeza. Porém, a presença histérica da péssima Olive é a apenas o primeiro problema na trajetória do espetáculo: quando os ensaios começam, os atores passam a questionar o texto e as ideias do dramaturgo, e o segurança de Olive, o agressivo Cheech (Chazz Palminteri) começa a dar suas próprias ideias para mudar o desenrolar da trama.


Afiado como nunca - e dividindo os créditos do roteiro com Douglas McGrath, em um acontecimento raríssimo em sua carreira - Allen não dá ao espectador tempo para recuperar-se de um diálogo sensacional para presenteá-lo imediatamente com outro. Enquanto Wiest desfila seu festival de ironias pela tela - e lega um clássico "Don't speak!" para a posteridade - os demais atores deitam e rolam com personagens bem delineados e de importância para o desenvolvimento da comédia proposta. Jim Broadbent, por exemplo, antes do Oscar de coadjuvante por "Iris", vive um ator que engorda a olhos vistos durante o processo de ensaios e acaba sendo responsável por uma crise nas coxias quando se envolve romanticamente com quem não devia - erro que o próprio David também comete quando se apaixona por Helen mesmo já tendo um relacionamento sério.

Divertido, inteligente e irônico na medida certa, "Tiros na Broadway" comprova as qualidades de Woody Allen como cineasta e roteirista popular - contrariando sua fama de hermético. As piadas, mesmo que sejam muito mais interessantes a um público que conheça os bastidores do teatro, são de um sarcasmo a toda prova e o desfecho - coerente e imprevisível - faz jus a todo o alvoroço que o filme provocou e suas indicações aos Oscar de direção e roteiro original. Um Allen dos melhores!

sexta-feira

PROCURA-SE UM AMOR QUE GOSTE DE CACHORROS

PROCURA-SE UM AMOR QUE GOSTE DE CACHORROS (Must love dogs, 2005, Warner Bros, 98min) Direção: Gary David Goldberg. Roteiro: Gary David Goldberg, romance de Claire Cook. Fotografia: John Bailey. Montagem: Roger Bondelli, Eric A. Sears. Música: Craig Armstrong, Susie Suh, Vinnie Zimmo. Figurino: Florence-Isabelle Megginson, Gamila Smith. Direção de arte/cenários: Naomi Shohan/Kathryn Petes. Produção executiva: Brad Hall, Ronald G. Smith. Produção: Gary David Golberg, Jennifer Todd, Suzanne Todd. Elenco: Diane Lane, John Cusack, Dermot Mulroney, Christopher Plummer, Elizabeth Perkis, Stockard Channing. Estreia: 21/7/05

Um dos atores mais confiáveis de Hollywood, capaz de imprimir sua personalidade em filmes tão distintos quanto a comédia romântica "Escrito nas estrelas", o suspense "Identidade", a comédia de humor negro "Matador em conflito", o cult movie "Alta fidelidade" e até mesmo o blockbuster "Con Air, a rota da fuga", John Cusack certamente chegaria a um ponto de sua vitoriosa carreira em que esbarraria em uma obra menos feliz - ainda que o filme de Michael Bay  não possa ser considerado um grande momento, assim como o tenebroso "1402". Apesar de não ser exatamente ruim, o romance "Procura-se um amor que goste de cachorros" corre o risco de levar esse injusto rótulo. Baseado em um romance "pra mulherzinha" de Claire Cook, o filme do bissexto cineasta Gary David Golberg - que assinou o lacrimoso "Meu pai, uma lição de vida" no longínquo 1989 - é simpático e agradável, mas peca justamente por não acrescentar muito às carreiras de nenhum dos envolvidos - uma lista que inclui ainda os respeitáveis Diane Lane e Christopher Plummer.

Seguindo sua tendência de estrelar filmes direcionados a um público feminino - depois do saboroso "Sob o sol da Toscana" - Diane Lane volta a desfilar seu charme na pele de Sarah Nolan, uma professora pré-escolar recentemente divorciada que não consegue convencer a sua onipresente família de que consegue levar uma vida de solteira. A principal responsável pela campanha que insiste em lhe arrumar um novo marido é sua irmã, Carol (Elizabeth Perkins), que chega ao extremo de cadastrá-la em um site de relacionamentos mesmo contra sua vontade. É nesse site que Sarah conhece Jake (John Cusack com a simpatia de sempre), que compartilha com ela o fato de ter acabado de se divorciar e de gostar de cachorros. Enquanto está conhecendo Jake - e gostando dele - Sarah se vê atraída também por Bob (Dermot Mulroney), pai de uma de suas alunas - que também está saindo com outra professora.



A estrutura triângulo amoroso que dá sustentação ao filme de Goldberg não deixa de ser frágil, com personagens que não são interessantes o bastante para manter a atenção do público, apesar de alguns ótimos momentos - como a sequência em que Sarah e Jake saem à procura de preservativos pela madrugada. Felizmente o roteiro encontra espaço para aquele que talvez seja a melhor personagem do filme, o sedutor Bill (Christopher Plummer), pai de Sarah e Carol, um conquistador convicto que também procura amantes em sites de relacionamento - o que resulta em uma cena no mínimo inusitada e na participação da sempre ótima Stockard Channing como uma de suas pretendentes, Dolly. A subtrama que versa sobre a relação entre Dolly e as filhas de seu "namorado" acaba se tornando um ponto favorável e quase eclipsa a real história que o filme pretende contar.

No final das contas, "Procura-se um cachorro" cumpre o que promete, entregando a seu público-alvo 98 minutos de uma trama engraçadinha e delicada. Mas é, sem dúvida, um filme que não marca o espectador, permanecendo na memória somente durante o tempo de sua exibição. E tem Diane Lane e John Cusack, o que quase sempre é sinônimo de qualidade.

terça-feira

IDENTIDADE

IDENTIDADE (Identity, 2003, Columbia Pictures, 90min) Direção: James Mangold. Roteiro: Michael Cooney. Fotografia: Phedon Papamichael. Montagem: David Brenner. Música: Alan Silvestri. Figurino: Ariane Phillips. Direção de arte/cenários: Mark Friedberg/Cindy Carr. Produção executiva: Stuart Besser. Produção: Cathy Konrad. Elenco: John Cusack, Ray Liotta, Amanda Peet, Rebecca de Mornay, John Hawkes, Alfred Molina, Clea DuVall, John C. McGinley, William Lee Scott, Jake Busey. Estreia: 25/4/03

Como fazer para transformar o que potencialmente seria mais um filme de terror ao estilo da série “Pânico”, em que pessoas morrem violentamente atacadas por um assassino misterioso, em um produto com alcance mais amplo – ou seja, um público acima de 16 anos, que normalmente lota esse tipo de produção? A resposta parece vir em “Identidade”, que, a mortes bem encenadas e um clima de puro suspense, acrescenta um elenco interessante e um roteiro que foge das resoluções fáceis que são o tiro de misericórdia do gênero.

As escolhas não óbvias de “Identidade” já começam pela escalação de seus atores. Liderando uma equipe de bons atores – ao contrário do pastiches de terror recheado de adolescentes sarados e sem conteúdo dramático – está o sempre confiável John Cusack. Na pele de Edward, o chofer de Caroline Suzanne (Rebecca de Mornay, em uma atuação auto-paródica), uma atriz decadente atrás de um novo sucesso, ele mantém a discrição, deixando que a trama, forte e assutadora o bastante, seja o principal elemento de atenção do filme. No roteiro bem orquestrado de Michael Cooney, ele e sua patroa são obrigados a parar em um hotel de beira de estrada durante uma tempestade que não arrefece. No hotel, eles travam conhecimento com um grupo de pessoas bastante diferentes em si: estão lá um jovem casal recém-casado, Giny e Louis (Cléa Duvall e William Lee Scott), a prostituta Paris (Amanda Peet), o gerente falastrão Larry (John Hawkes), um policial escoltando um criminoso (Ray Liotta e Gary Busey) e uma família cuja mãe está ferida devido a um acidente automobilístico na estrada (John C. McGinley, Leila Kenzle e o garoto Bret Loher). Presos no hotel por causa do mau tempo, eles começam a morrer misteriosamente, enquanto passam a descobrir que na verdade podem não estar ali reunidos por coincidência.

 

A atmosfera de “Identidade”, que busca surpreender a plateia não com mortes criativas e sim com viradas realmente empolgantes, é em boa parte cortesia de um visual úmido criado com cuidado pelo diretor James Mangold, que a julgar por seu currículo – ele dirigiu também o drama “Garota, interrompida” e o romance “Kate & Leopold” – transita facilmente entre os mais variados gêneros. E a criação de uma misteriosa trama paralela – onde um assassino condenado à morte (vivido pelo sempre assustador Pruitt Taylor Vince) tenta provar sua insanidade para escapar da execução – apenas soma ainda mais à tensão já existente, uma vez que tentar adivinhar como essa história aparentemente desconexa tem ligação à principal é outro exercício a que a complexa narrativa obriga a plateia, que chega aos créditos finais agradecida por ter sido tratada com um mínimo de inteligência sem que os padrões estéticos do gênero tenham sido agredidos.

Aliás, o respeito com que Mangold trata o gênero suspense é uma das maiores qualidades de "Identidade". Mesmo que seja mais inteligente do que a média, o filme não tem medo de abusar dos clichês, mas sempre tratando-os com cuidado e prendendo a atenção do público. Se a presença de John Cusack no elenco pode sugerir que ele é o herói da trama (o que não é exatamente verdade, uma vez que não há personagens 100% puros na história), o roteiro consegue surpreender com uma reviravolta bastante surpreendente (e que dá espaço para um final impactante mas um tanto forçado). Em "Identidade" nada é exatamente o que parece. E isso é que faz dele um produto capaz de agradar aos fãs do gênero e a quem gosta de um bom entretenimento.

segunda-feira

ESCRITO NAS ESTRELAS

ESCRITO NAS ESTRELAS (Serendipity, 2001, Miramax Films, 90min) Direção: Peter Chelsom. Roteiro: Marc Klein. Fotografia: John De Borman. Montagem: Christopher Greenbury. Música: Alan Silvestri. Figurino: Marie-Sylvie Deveau, Mary Claire Hannon. Direção de arte/cenários: Caroline Hanania/Tracey Gallacher. Produção executiva: Julie Goldstein, Bob Osher, Amy Slotnick. Produção: Peter Abrams, Simon Fields, Robert L. Levy. Elenco: John Cusack, Kate Beckinsale, Jeremy Piven, Bridget Moynahan, Eugene Levy, John Corbett, Molly Shannon. Estreia: 05/10/01

Filmes românticos tem, normalmente, o poder de fazer com que o público deixe de lado, ao menos por um curto período de tempo, a racionalidade para acreditar  em histórias que normalmente pareceriam inverossímeis. Às vezes não dá para embarcar na fantasia. Em outros casos os elementos se encaixam tão bem que é impossível não se deixar levar pelo romance, pela magia e pelo encanto. É o caso de "Escrito nas estrelas", uma deliciosa comédia romântica que tem no elenco carismático e no roteiro esperto seus maiores trunfos, a ponto de ter rendido mais de 50 milhões de dólares somente no mercado americano (quase o dobro de seu orçamento).  Mesmo com a demora em seu lançamento no Brasil - estreou por aqui mais de um ano depois de seu lançamento nos EUA, é um filme que merece ser descoberto pelos fãs do gênero.

John Cusack, normalmente avesso a produções comerciais - o que ele fazia em "Con Air", pelo amor de Deus? - encara seu primeiro papel totalmente romântico - já que em "Alta fidelidade" havia uma saudável e cavalar dose de auto-ironia - ao interpretar Jonathan, um rapaz normal que, às vésperas de um Natal qualquer em Nova York conhece a bela inglesa Sarah (Kate Beckinsale recuperando-se rapidamente do fracasso crítico de "Pearl Harbor") em uma loja de departamentos. Os dois sentem uma afinidade inexplicável, mas sabem que qualquer romance entre eles é impedido pelo fato de ambos serem comprometidos com outras pessoas. Para não deixar a idílica noite passar em branco, eles resolvem deixar que o destino os reúna, se estiver "escrito nas estrelas" que devem ficar juntos. Sendo assim, ela escreve seu nome e telefone dentro de um exemplar de "O amor nos tempos do cólera", de Gabriel García Marquez e ele em uma nota de cinco dólares. A ideia é simples: se tais objetos caírem em suas mãos em algum dia, é um sinal inequívoco de que eles devem ficar juntos. Anos se passam e tanto Jonathan quanto Sarah estão de casamentos marcados. Ele, no entanto, ainda apaixonado, resolve procurá-la, mesmo que o destino não lhe tenha dado nenhum sinal.


Não simpatizar com "Escrito nas estrelas" é tarefa das mais complicadas. Além da história, com doses exatas de romantismo e bom-humor (que tira sarro até mesmo do músico grego Yanni, através do noivo de Sarah, vivido aqui por John Corbett, da série "Sex and the city"), o elenco do filme de Peter Chelsom conquista o público principalmente por sua contagiante simpatia. A química entre Cusack e Becksinsale funciona bastante, a ponto de a plateia torcer por seu final feliz mesmo que eles não contracenem em nenhum momento depois dos minutos iniciais de projeção. Os coadjuvantes, como sempre, não deixam por menos e quase roubam as cenas em que aparecem, em especial Molly Shannon e Jeremy Piven, como os melhores amigos dos protagonistas. Shannon e Piven aproveitam cada diálogo para mostrar que tem talento o suficiente para segurar papéis maiores.

Além disso tudo, o roteiro de "Escrito nas estrelas" é um achado. Comandados por uma trama que mistura misticismo e ironia com um romantismo deslavado, as personagens de Marc Klein se movem graciosamente rumo a seu desfecho por uma Nova York belissimamente fotografada e encantam justamente por suas falhas, inseguranças e principalmente por seu desejo de amor e felicidade. As "coincidências" que atravessam seus caminhos são tão inacreditáveis que chegam a ser encantadoras, o que seduz o público imperceptivelmente. Ao final de sua hora e meia de projeção é impossível não ficar com um sorriso estampado no rosto e não acreditar que o amor existe, sim, e pode estar em qualquer lugar esperando para acontecer.

"Escrito nas estrelas" é um filme comum, sem maiores ambições, e é perfeito para se assistir ao lado da namorada, de mãos dadas e debaixo de um edredon. É uma experiência romântica, feita para românticos incuráveis que gostam de finais felizes. E, a julgar pelo eterno sucesso do gênero, eles são muitos...

terça-feira

ALTA FIDELIDADE

ALTA FIDELIDADE (High fidelity, 2000, Dogstar Films/New Crime Productions/Touchstone Pictures/Working Title Films, 113min) Direção: Stephen Frears. Roteiro: D.V. DeVincentis, Steve Pink, John Cusack, Scott Rosenberg, romance de Nick Hornby. Fotografia: Seamus McGarvey. Montagem: Mick Audsley. Música: Howard Shore. Figurino: Laura Cunningham Bauer. Direção de arte/cenários: David Chapman, Therese Deprez/Larry Lundy. Produção executiva: Liza Chasin, Alan Greenspan, Mike Newell. Produção: Tim Bevan, Rudd Simmons. Elenco: John Cusack, Iben Hjejle, Jack Black, Lisa Bonet, Todd Louiso, Joan Cusack, Natasha Gregson-Wagner, Lili Taylor, Bruce Springsteen, Sara Gilbert, Tim Robbins, Joelle Carter, Catherine Zeta-Jones. Estreia: 31/3/00

Se existe algum escritor moderno que merece ser considerado "pop" esse autor é o inglês Nick Hornby. Bem-humorado, direto e totalmente mergulhado em universo cultural que é a cara dos anos 80/90, Hornby é o autor de alguns dos livros mais deliciosamente divertidos e irônicos do final do primeiro milênio e, como tal, sua prosa não escapou dos olhares gananciosos de Hollywood. Sendo que pouca gente assistiu à adaptação de "Febre de bola" lançada em 1997 e estrelada por Colin Firth, pode-se considerar que seu primeiro grande contato com o sucesso cinematográfico foi "Alta fidelidade", a versão de Stephen Frears para aquele que muitos consideram seu melhor trabalho. Apesar do relativo fracasso de bilheteria (mal cobriu seu custo em terras ianques), o filme protagonizado pelo ótimo John Cusack é uma das melhores comédias românticas da história e um programa obrigatório para aqueles que gostam de diversão inteligente.

Trocando (sem maiores prejuízos) o cenário da trama de Londres para Chicago (assim como a nacionalidade do protagonista), o roteiro co-escrito pelo próprio Cusack segue quase à risca o romance que lhe deu origem, que também originou a peça de teatro "A vida é feita de som e fúria". Ao deixar intactas suas maiores qualidades (o humor bem sacado, o mergulho sem medo no universo pop, o romantismo visto por uma ótica masculina e quase cafajeste), o filme de Frears presta reverência à sua origem sem nunca deixar de aparentar um frescor interno: da forma que está, a história parece ter nascido para a tela grande, tamanha sua identificação com a linguagem cinematográfica.



Rob Gordon (em atuação antológica de John Cusack) é o feliz proprietário de uma loja de discos de vinil chamada Championship Vynil, localizada em Chicago. Fanático por músicas pop e por fazer listas que enumeram suas preferências em vários setores da vida, ele sofre um golpe inesperado quando é abandonado por sua namorada, a bela Laura (Ibjen Hjejle) e fica sozinho ao lado de Harry (Jack Black) e Dick (Todd Louiso), seus funcionários e únicos amigos. Desesperado por esse revés emocional, Gordon faz, então, a lista mais importante de sua vida e resolve entrar em contato com as cinco mulheres que mais o fizeram sofrer por amor. Com isso, ele tenciona compreender porque seus relacionamentos invariavelmente acabam da mesma forma dolorosa. Assim, ele procura seu amor de infância que o trocou por um colega de escola, a namorada da faculdade (Joelle Carter) - que ele mesmo abandonou porque ela não queria sexo-, a esplendorosa Charlie (Catherine Zeta Jones em ótima forma) - que o trocou por um homem menos imaturo - e a deprimida Sarah (Lily Taylor), que também o chutou. Finalmente, ele resolve reconquistar Laura, ao mesmo tempo em que vive um rápido romance com a cantora Marie de Salle (Lisa Bonet).

Ao utilizar o batido - mas sempre eficaz - recurso de fazer seu protagonista dialogar com a câmera, tendo o espectador como confidente e ouvinte, Frears conquista a audiência logo na primeira cena, com um close sofrido de John Cusack desnudando seu coração partido e vociferando contra as músicas de amor. Aqui Cusack está no melhor papel de sua vida, um Ferris Bueller que, em vez de matar aula, resolve viver sua vida amorosa sem amarras apertadas. Seu Rob Gordon pode até parecer egoísta em determinados momentos, quase insensível e galinha, mas a sensibilidade do ator (também produtor executivo do filme e da trilha musical) faz com que o público inteiro se solidarize com ele... e torça para um final feliz entre ele e sua amada Laura.

Sem apelar para piadas fáceis e grosseiras, "Alta fidelidade" ainda tem tempo para apresentar coadjuvantes memoráveis (o asqueroso Harry vivido por Jack Black em seu melhor momento é um exemplo), de contar com participações especialíssimas de Bruce Springsteen e Tim Robbins e ainda por cima legar uma extraordinária trilha sonora, em que convivem harmonicamente Bob Dylan, Elvis Costello, Stevie Wonder e Stereolab, além de uma surpreendente versão da bela "Let's get it on" de Marvin Gaye na voz de... Jack Black (!!!)

"Alta fidelidade" é cinema pop, com tudo o que isso tem de bom e agradável. Um cult de nascimento!

quinta-feira

QUERO SER JOHN MALKOVICH


QUERO SER JOHN MALKOVICH (Being John Malkovich, 1999, Gramercy Pictures, 112min) Direção: Spike Jonze. Roteiro: Charlie Kaufman. Fotografia: Lance Acord. Montagem: Eric Zumbrunnen. Música: Carter Burwell. Figurino: Casey Storm. Direção de arte/cenários: K.K. Barrett/Gene Serdena. Produção executiva: Charlie Kaufman, Michael Kuhn. Produção: Steve Golin, Vincent Landay, Sandy Stern, Michael Stipe. Elenco: John Cusack, Catherine Keener, Cameron Diaz, John Malkovich, Mary Kay Place, Charlie Sheen. Estreia: 29/10/99

3 indicações ao Oscar: Diretor (Spike Jonze), Atriz Coadjuvante (Catherine Keener), Roteiro Original


Quando se diz que um filme é bizarro a imagem que normalmente vem à mente é a de alguma cena criada pelo Monthy Phyton - grupo inglês capaz de contar as piadas mais surreais de maneira mais simples. No entanto, depois de apenas alguns minutos de "Quero ser John Malkovich", o conceito de bizarro no cinema atinge um novo patamar. Disparado o dono do roteiro mais tresloucado do final do milênio, o filme do então estreante Spike Jonze (egresso dos videoclipes e visto como ator em "Três reis") passa longe do trivial e, se assusta uma parcela do público ao negar-se a concessões comerciais, imediatamente marca seu lugar como uma das mais alvissareiras estreias do cinema americano de todos os tempos.

John Cusack, desgrenhado e fugindo como o diabo da cruz de um visual de galã vive Craig Schwartz, um rapaz desempregado que tenta ganhar a vida com seus impressionantes shows de marionetes. Casado com Dotty (uma Cameron Diaz irreconhecível), uma amante incondicional de animais, ele vive uma vida sem graça até que encontra trabalho como arquivista em uma empresa localizada no 7 ½ andar (!!) de um prédio comercial. Encantado com Maxine (Catherine Keener), uma colega de trabalho, ele tem sua existência transformada ao descobrir, sem querer, um portal que dá diretamente no cérebro do ator John Malkovich. Unindo-se à ambiciosa Maxine, ele começa a cobrar 200 dólares por pessoa que queira passar 15 minutos dentro da mente do ator – e depois ser jogado à beira de uma rodovia em Nova Jérsei. As coisas se complicam para ele quando sua mulher também entra no cérebro de Malkovich, descobre que sempre quis ser um homem – e se apaixona por Maxine.


Não há nenhuma linha do roteiro delirante de Charlie Kaufman que seja convencional, banal ou previsível. Desde os diálogos surreais - o documentário sobre a criação do 7 1/2º andar beira a perfeição de um pesadelo - até os cenários inacreditáveis, tudo no filme de Jonze clama por atenção. Até mesmo a participação do próprio John Malkovich em cenas pretensamente constrangedoras mostram que se está diante de um diretor e de um roteirista sem medo de embarcar em uma jornada sem precedentes em termos de humor. A coragem do elenco também é notável - em especial uma horrenda Cameron Diaz - e a participação especial de nomes como Sean Penn e David Fincher apenas reitera o nível de qualidade de um filme que jamais busca a risada fácil.

"Quero ser John Malkovich" é um dos filmes essenciais do final da década de 90, por sua criatividade, sua inteligência e por oferecer à plateia muito mais do que comédias simples oferecem a cada lançamento. Pode não agradar a todo mundo, mas ninguém pode acusá-lo de ser comum.

quarta-feira

NEBLINA E SOMBRAS

NEBLINA E SOMBRAS (Shadows and fog, 1991, Orion Pictures, 85min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Carlo Di Palma. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/George DeTitta Jr., Amy Marshall. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Woody Allen, Mia Farrow, John Malkovich, Madonna, Donald Pleasance, Lily Tomlin, Jodie Foster, Kathy Bates, John Cusack, John C. Reilly, Philip Bosco, Kurtwood Smith, Kate Nelligan, Fred Gwyne, William H. Macy, Wallace Shawn. Estreia: 05/12/91

Os detratores adoram dizer que os filmes de Woody Allen são repetitivos, que seu estilo não é exatamente criativo e que seu humor judaico/neurótico/nova-iorquino/sofisticado não sai do chove-não molha. No entanto, se o diretor não estivesse no elenco de "Neblina e sombras" - seu filme de maior orçamento até hoje - era bem pouco provável que qualquer crítico do cineasta pudesse reconhecer no filme qualquer das características que marcaram sua carreira. Com exceção da inteligência - e da marca registrada de usar nomes famosos em papéis pequenos ou quase pontas - nada nessa bela homenagem ao expressionismo alemão do início do século XX aponta para o fato que seu diretor é Allen.

A primeira diferença entre "Neblina e sombras" e o resto da filmografia de Woody diz respeito à geografia. Enquanto a vasta maioria de seus filmes se passa em Nova York e arredores, aqui a história acontece em uma pequena cidade da Alemanha aterrorizada por um assassino serial que mata suas vítimas estranguladas. Para caçar o criminoso vários grupos se formam, com moradores buscando resolver a situação com as próprias mãos, uma vez que o governo parece não se importar com os trágicos acontecimentos. Kleinman (vivido pelo diretor) é um homem comum - preocupado em ser deixado em uma promoção no trabalho - que é escalado por uma dessas facções, que pedem sua ajuda, sem nunca lhe explicar sua missão. Enquanto vaga pela cidade, envolta em neblina e sombras como o título do filme sugere, ele dá de cara com Irmy (Mia Farrow), a engolidora de espadas de um circo que está se apresentando na cidade. Depois de flagrar o marido, o palhaço do circo (John Malkovich) nos braços de sua sedutora colega Marie (Madonna), Irmy encontra abrigo no bordel da cidade, onde desperta o desejo do jovem estudante Jack (John Cusack). Ao lado de Kleinman, ela tentará manter-se longe do assassino e reconstruir sua vida.

 

Fotografado em belíssimo preto-e-branco por Carlo Di Palma, "Neblina e sombras" também foge do estilo forjado pelo cineasta em décadas de experiência ao evitar piadas intelectualizadas demais - talvez Allen já soubesse que o projeto em si já era suficientemente arriscado comercialmente para que ele confiasse na fidelidade cega de seu público. Ao misturar um humor muito disfarçado e um suspense sem sustos, ele criou um gênero híbrido que, obviamente, não encontrou sua audiência e nem encantou a crítica. Motivos não faltam para essa frieza toda, mas não deixa de ser um exagero essa absoluta apatia em relação ao filme.

Sem dúvida nenhuma, "Neblina e sombras" não é nem de longe um Woody Allen das melhores safras: não é particularmente engraçado, nem denso ou mesmo leve. Mas é inteligente como qualquer trabalho seu - com ecos de "O processo", de Kafka e do filme "M, o vampiro de Dusseldorf", de Fritz Lang -, é extraordinariamente bem realizado - os sets foram construídos especificamente - e só o fato de reunir o elenco que reuniu é de aplaudir entusiasticamente: ao lado dos já citados, desfilam pela tela Jodie Foster, Kathy Bates, Kate Nelligan, Lily Tomlin e Donald Pleasance. Mas aparenta ser mais longo, talvez culpa da morosidade do roteiro e tem um clímax um tanto quanto fraco em relação ao que promete em seu promissor começo.

Para os fãs de Woody Allen, é obrigatório como todos os seus filmes. Para aqueles que acreditam que ele é sempre o mesmo, é necessário. Mas para quem simplesmente não gosta do diretor, não é a maneira correta de começar a gostar.

sexta-feira

CONTA COMIGO


CONTA COMIGO (Stand by me, 1986, Columbia Pictures, 89min) Direção: Rob Reiner. Roteiro: Raynold Gideon, Bruce A. Evans, conto "The body", de Stephen King. Fotografia: Thomas Del Ruth. Montagem: Robert Leighton. Música: Jack Nietzsche. Direção de arte/cenários: Dennis Washington/Richard D. Kent. Casting: Janet Hirshenson, Jane Jenkins. Produção: Bruce A. Evans, Raynold Gideon, Andrew Scheinman. Elenco: Wil Wheaton, River Phoenix, Corey Feldman, Jerry O'Connell, Kiefer Sutherland, John Cusack, Richard Dreyfuss. Estreia: 08/8/86

Indicado ao Oscar de Roteiro Adaptado

O nome do escritor Stephen King nos créditos de “Conta comigo” não deixa de ser enganador. Ao ver seu nome atrelado a produções de terror normalmente bem abaixo da média, King nunca deixou que seus trabalhos em outros gêneros viessem à tona. Baseado em um conto chamado “The body”, o filme de Rob Reiner sobre a perda da inocência é quase uma pequena obra-prima de sensibilidade e melancolia.

Passado no início dos anos 60, quando os EUA ainda não haviam passado pelos traumas da guerra do Vietnã e do assassinato de Kennedy, o filme conta a aventura de quatro amigos em vias de passar da infância para a pré-adolescência, quase como o país.
Ao embarcar em uma viagem em busca do corpo de um jovem morto por um trem, os amigos embarcam também em uma jornada de auto-conhecimento, em que o objetivo passa ser menos importante do que o caminho.

O criativo Gordie (Will Wheaton) não consegue provar aos pais seu talento, sempre sufocado pela lembrança do irmão mais velho morto tragicamente (vivido em flashback por um jovem John Cusack). O rebelde Chris Chambers (River Phoenix, em uma atuação delicada e inesquecível) também vive à sombra do irmão, mas pelos motivos opostos, uma vez que ele não é exatamente um motivo de orgulho. O traumatizado Teddy (Corey Feldman) sofre de maus-tratos domésticos cometidos por seu pai, veterano da Guerra da Coréia e o gordinho Vern (Jerry O’Connell) tem em sua forma física motivos suficientes para considerar-se à margem. Juntos, os quatro partem em busca de fama e glória ao encontrarem o cadáver de um conterrâneo. Em seu encalço está uma gangue de transviados liderados por Ace Merrill (Kiefer Sutherland iniciando uma carreira de vilões).

Como já foi dito antes, a viagem dos amigos é mais importante que seu destino. Enquanto conversam sobre suas vidas, fogem de cães raivosos e trem desatinados e revelam seus segredos, Gordie e seus companheiros constroem uma amizade forte e perene, mesmo que sem maiores ambições de seguir com ela no final dos seus dias de aventura. O tom melancólico da obra de King atinge um nível emocionante graças ao roteiro indicado ao Oscar, à trilha nostálgica (em especial a bela canção que dá título ao filme) e ao inspirado elenco jovem. E pensar que River Phoenix morreu menos de dez anos depois deixa o ar menos respirável ainda quando o escritor vivido por Richard Dreyfuss, em participação especial termina de contar sua bela e triste história.

O PREÇO DA TRAIÇÃO

  O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...