ESTE MUNDO É UM HOSPÍCIO (Arsenic and old lace, 1944, Warner Bros, 118min) Direção: Frank Capra. Roteiro: Julius J. Epstein, Philip G. Epstein, peça teatral de Joseph Kesselring. Fotografia: Sol Polito. Montagem: Daniel Mandell. Música: Max Steiner. Figurino: Orry-Kelly. Direção de arte/cenários: Max Parker. Produção executiva: Jack L. Warner. Elenco: Cary Grant, Priscilla Lane, Raymond Massey, Jack Carson, Edward Everett Horton, Peter Lorre, James Gleason. Estreia: 01/9/44
Os espectadores acostumados com as produções de caráter construtivo do cineasta Frank Capra levaram um susto quando, em setembro de 1944, finalmente estreou nos EUA seu "Este mundo é um hospício": longe de ser um filme de espírito nobre, com personagens íntegros e mensagens otimistas, a adaptação da peça teatral de Joseph Kesselring era uma comédia de humor negro que, a despeito do diretor e da presença do astro Cary Grant, em nada lembrava seus trabalhos anteriores, especialmente os três que lhe deram o Oscar - "Aconteceu naquela noite" (1934), "O galante Mr. Deeds" (1936) e "Do mundo nada se leva" (1938). Sem o otimismo inquebrantável que marcava a filmografia de Capra - mas ainda com altas doses de bom humor -, o filme que o diretor realizou imediatamente antes de partir para a II Guerra como voluntário é uma comprovação de sua versatilidade e uma das comédias mais interessantes dos anos 1940, por sua temática inusitada e personagens politicamente incorretos.
A trajetória de "Este mundo é um hospício" em direção às telas começou com sua estreia teatral, na Broadway, em 10 de janeiro de 1941. No mesmo ano, a Warner Bros desembolsou 175 mil dólares pelos direitos de adaptação - mais 15% da renda para os produtores da peça, Howard Lindsay e Russel Crouse - e atraiu Capra para a direção. Ávido para mostrar seu talento em filmes menos inspiradores e sérios, o cineasta abraçou o projeto com entusiasmo, mas logo alguns problemas começaram a aparecer. Primeiro, a presença de Boris Karloff no filme (no papel que ele criara no palco) não aconteceu, para desgosto do ator, que viu seus colegas de cena Josephine Hull, Jean Adair e John Alexander brilharem na transposição para o cinema: os Lindsay e Crouse não liberaram o astro de filmes de terror nem mesmo com a proposta da Warner em emprestar Humphrey Bogart para substituí-lo nos palcos pelo tempo das filmagens e Raymond Massey acabou com seu papel, sob pesada maquiagem. Além disso, Bob Hope - a primeira escolha do estúdio para um dos papéis centrais -, não foi liberado pela Paramount, e Cary Grant, escalado para o filme, não exatamente fã do projeto. Emprestado da Columbia para estrelar "Satã janta conosco", Grant perdeu o papel (por clamor popular) para Monty Wooley e, sem nada programado pelo período de contrato, acabou escolhido pelo estúdio - mas não se adaptou com o estilo de Capra, foi severamente criticado pela imprensa da época por um suposto exagero em sua atuação e nunca gostou do resultado final do filme.
Mas se a interpretação de Grant mereceu críticas - e realmente em alguns momentos em que ele parece destoar do tom do restante do elenco, apesar de não comprometer o todo -, é preciso também responsabilizar Frank Capra. O cineasta, ciente do que estava acontecendo, pretendia corrigir os excessos no processo de edição - mas, com a entrada dos EUA na II Guerra, após o ataque japonês a Pearl Harbor, em dezembro de 1941, mal acabou as filmagens e partiu para produzir documentários sobre o conflito. Sem o controle do diretor na fase de montagem, "Este mundo é um hospício" permaneceu com seus pequenos defeitos (um ritmo por vezes cansativo, entre eles), mas não deixa de ser um entretenimento de primeira, divertidíssimo com sua trama nonsense, seus diálogos brilhantes e a ousadia de tratar de um tema pesado (assassinatos em série) sem apelar para o sensacionalismo. Filmado quase totalmente em um único cenário (o que mantém sua estrutura teatral bem definida) e centrado basicamente nas marcações do elenco e sua interação, o filme é uma aula narrativa - pode até aborrecer quem não gosta do estilo, mas é de um notável equilíbrio entre as linguagens de cinema e teatro.
Obrigada, por contrato, a não estrear o filme antes que a montagem teatral fosse encerrada na Broadway, a Warner Bros engavetou "Este mundo é um hospício" até setembro de 1944 - levando-se em consideração que as filmagens foram encerradas em dezembro de 1941, foram quase três anos de espera até seu lançamento (ainda que soldados das Forças Armadas tenham tido acesso ao material antes, por cortesia de Jack L. Warner). Esse atraso no lançamento impediu que o filme fosse considerado para o Oscar, mas sua qualidade cômica tornou-o um pequeno clássico. A história gira em torno de Mortimer Brewster (Cary Grant), um crítico teatral que, avesso ao casamento, acaba de ceder à tentação de comprometer-se com a bela Elaine Harper (Priscilla Lane). Nesse mesmo dia, em clima de comemoração, ele descobre que suas amáveis e delicadas tias, Abby (Josephine Hull) e Martha (Jean Adair), tem quase uma dúzia de cadáveres de homens solitários enterrados no porão - vítimas de sua "compaixão", que as leva a envenená-los para tirá-los da solidão. Enquanto tenta lidar com a situação inusitada, Brewster ainda tem que internar o irmão desequilibrado que pensa que é Theodore Roosevelt (John Alexander) e reencontrar outro irmão, Jonathan (Raymond Massey), foragido da prisão e que, ao lado do pretenso médico Einstein (Peter Lorre), quer resolver antigas pendências familiares.
Com um ritmo frenético que mal dá tempo ao espectador de recuperar-se de uma sequência de acontecimentos para cair em outra, "Este mundo é um hospício" se beneficia - e muito - do desempenho exemplar de Josephine Hull e Jane Adair, como duas cândidas e inocentes tia que agem como exemplares senhoras idosas enquanto se igualam ao sobrinho assassino procurado pela polícia. Com personagens secundários igualmente deliciosos e reviravoltas constantes, o filme - roteirizado pela dupla Julius e Philip G. Epstein, de "Casablanca" - cumpre o que promete e, se não é o melhor Frank Capra, é, sem dúvida, a ovelha negra em sua filmografia, graças a seu total desprendimento em relação a valores morais e éticos. É simplesmente uma comédia. E das boas!!
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sexta-feira
RELÍQUIA MACABRA
RELÍQUIA MACABRA (The maltese falcon, 1941, Warner Bros, 100min) Direção: John Huston. Roteiro: John Huston, romance de Dashiel Hammett. Fotografia: Arthur Edeson. Montagem: Thomas Richars. Música: Adolph Deutsch. Figurino: Orry-Kelly. Direção de arte: Robert Haas. Produção executiva: Hal B. Wallis. Elenco: Humphrey Bogart, Mary Astor, Peter Lorre, Gladys George, Lee Patrick, Sydney Greenstreet. Estreia: 03/10/41
3 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator Coadjuvante (Sydney Greenstreet), Roteiro
Uma das mais frequentes críticas feitas às transposições de livros para o cinema é a falta de fidelidade ao material original, independente se tal material é um clássico absoluto ou o mais efêmero best-seller. Tal reclamação, no entanto, jamais poderá ser feito a respeito de “Relíquia macabra”, terceira adaptação do romance de Dashiell Hammet para as telas: apaixonado pela obra e por seu estilo seco e direto, o roteirista tornado diretor John Huston manteve, com fidelidade canina, a estrutura e os diálogos do livro original, um policial noir que não apenas estabeleceu os paradigmas do gênero como marcou a estreia de Huston como diretor e Humphrey Bogart como astro. Normalmente relegado a papéis de vilões ou gângsteres, Bogart tirou a sorte grande ao ser escalado para viver o detetive particular Sam Spade, criado por Hammett em 1930 e para o qual a Warner havia pensado seriamente em Edward G. Robinson. Cínico, quase amargo e insensível a ponto de não deixar que o amor atrapalhe qualquer um de seus negócios, Spade é uma espécie de pai de todos os detetives da ficção policial, nascido da experiência do próprio escritor na função. E ao lhe dar carne e osso, o ator – dois anos antes de assumir seu lado romântico em outro produto icônico do estúdio, “Casablanca”, de Michel Curtiz – forjou seu nome a ferro e fogo no ideário popular com um personagem que tornou-se, para o bem ou para o mal, a essência de sua carreira.
Suspenso pela Warner por ter se recusado a participar de “Três homens maus” (41), Bogart acabou sendo o escolhido pelo estúdio para viver o protagonista da nova versão do romance de Hammett – as duas primeiras, “O falcão maltês” (31) e “Satã encontrou uma dama” (43) não haviam sido exatamente sucessos comerciais nem tampouco haviam mudado a história do cinema. John Huston, porém, ainda não era o diretor do filme, cujo comando estava nas mãos de Jean Negulesco (que iria dirigir “Como agarrar um milionário”, com Marilyn Monroe e Lauren Bacall doze anos depois). Foi somente com a demissão de Negulesco que Huston, até então apenas roteirista, pegou sua chance com unhas e dentes: com um orçamento pequeno de 300 mil dólares e um elenco sem grandes astros, o cineasta de primeira viagem filmou o livro de Hammett em ordem cronológica e, aproveitando ao máximo do talento de cada membro da equipe, criou uma obra-prima que lhe colocou, de cara, no rol dos imortais da sétima arte.
Primeiro a fotografia em preto-e-branco de Arthur Edeson: fazendo uso exemplar do jogo de luz e sombra que se tornaria característica marcante do gênero nos anos 40, Edeson criou uma atmosfera envolvente de tensão e perigo, como se a cada esquina e atrás de cada porta houvesse a chance de uma violência inesperada e sádica – culminando com a sequência final, onde as sombras em forma de cela sugerem o destino de um dos vilões da trama. Depois, a trilha sonora de Adolph Deutsch, pouco intrusiva mas incisiva, comentando a ação sem jamais roubar a atenção para si mesma. E por fim, além da ambientação simples mas eficiente em sublinhar a temática da ambição desmedida e da traição, o elenco de encher os olhos. Se Bogart rouba a cena com seu imortal Sam Spade, os coadjuvantes não ficam atrás. Talvez Mary Astor não tenha exatamente o tipo físico de uma femme fatale – ela ficou com um papel para o qual foram consideradas Rita Hayworth, Ingrid Bergman e Olivia de Havilland - mas não deixa que isso atrapalhe sua composição da ambígua Brigid O’Shaughnessy, uma misteriosa mulher que adentra o escritório do protagonista para contratar seus serviços e o leva a uma espiral de morte e violência.
Tudo começa quando o sócio de Spade, Miles Archer (Jerome Cowan) é enviado pelo companheiro para vigiar o desconhecido Floyd Thursby, a pedido da própria Brigid. Quando ambos são mortos, cabe ao detetive buscar na misteriosa dama algumas respostas – principalmente porque a polícia já está no seu calcanhar. É então que entram no jogo novas peças, que levam a todos para um caminho completamente diferente. Um deles é o inglês Kasper Gutman (o ótimo Sidney Greenstreet, estreando no cinema aos 62 anos de idade e concorrendo ao Oscar de coadjuvante). O outro é o aparentemente delicado mas extremamente traiçoeiro Joel Cairo (Peter Lorre, o vampiro de Dusseldorf em pessoa). Ambos revelam que tudo gira em torno de um artefato histório, um falcão oriundo da ilha de Malta, incrustado de joias, que é o objeto do desejo de todos eles – e cuja posse os faz abdicar dos mais óbvios sentimentos humanos.
Uma fábula sobre amoralidade e ambição, “Relíquia macabra” é, também, um dos maiores filmes policiais da história por não ter medo em abraçar seus temas controversos ou criar personagens que fogem do padrão habitual do cinema comercial – em especial durante a vigência do famigerado Código Hays, que implicava com qualquer coisa que fugisse do convencional. Além disso, oferece um roteiro brilhante e repleto de cenas antológicas e diálogos inteligentes, que permite a seus atores demonstrarem um perfeito domínio de sua arte. Não é à toa que se mantém, mesmo com mais de sessenta anos, tão fresco quanto à época de seu lançamento.
3 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator Coadjuvante (Sydney Greenstreet), Roteiro
Uma das mais frequentes críticas feitas às transposições de livros para o cinema é a falta de fidelidade ao material original, independente se tal material é um clássico absoluto ou o mais efêmero best-seller. Tal reclamação, no entanto, jamais poderá ser feito a respeito de “Relíquia macabra”, terceira adaptação do romance de Dashiell Hammet para as telas: apaixonado pela obra e por seu estilo seco e direto, o roteirista tornado diretor John Huston manteve, com fidelidade canina, a estrutura e os diálogos do livro original, um policial noir que não apenas estabeleceu os paradigmas do gênero como marcou a estreia de Huston como diretor e Humphrey Bogart como astro. Normalmente relegado a papéis de vilões ou gângsteres, Bogart tirou a sorte grande ao ser escalado para viver o detetive particular Sam Spade, criado por Hammett em 1930 e para o qual a Warner havia pensado seriamente em Edward G. Robinson. Cínico, quase amargo e insensível a ponto de não deixar que o amor atrapalhe qualquer um de seus negócios, Spade é uma espécie de pai de todos os detetives da ficção policial, nascido da experiência do próprio escritor na função. E ao lhe dar carne e osso, o ator – dois anos antes de assumir seu lado romântico em outro produto icônico do estúdio, “Casablanca”, de Michel Curtiz – forjou seu nome a ferro e fogo no ideário popular com um personagem que tornou-se, para o bem ou para o mal, a essência de sua carreira.
Suspenso pela Warner por ter se recusado a participar de “Três homens maus” (41), Bogart acabou sendo o escolhido pelo estúdio para viver o protagonista da nova versão do romance de Hammett – as duas primeiras, “O falcão maltês” (31) e “Satã encontrou uma dama” (43) não haviam sido exatamente sucessos comerciais nem tampouco haviam mudado a história do cinema. John Huston, porém, ainda não era o diretor do filme, cujo comando estava nas mãos de Jean Negulesco (que iria dirigir “Como agarrar um milionário”, com Marilyn Monroe e Lauren Bacall doze anos depois). Foi somente com a demissão de Negulesco que Huston, até então apenas roteirista, pegou sua chance com unhas e dentes: com um orçamento pequeno de 300 mil dólares e um elenco sem grandes astros, o cineasta de primeira viagem filmou o livro de Hammett em ordem cronológica e, aproveitando ao máximo do talento de cada membro da equipe, criou uma obra-prima que lhe colocou, de cara, no rol dos imortais da sétima arte.
Primeiro a fotografia em preto-e-branco de Arthur Edeson: fazendo uso exemplar do jogo de luz e sombra que se tornaria característica marcante do gênero nos anos 40, Edeson criou uma atmosfera envolvente de tensão e perigo, como se a cada esquina e atrás de cada porta houvesse a chance de uma violência inesperada e sádica – culminando com a sequência final, onde as sombras em forma de cela sugerem o destino de um dos vilões da trama. Depois, a trilha sonora de Adolph Deutsch, pouco intrusiva mas incisiva, comentando a ação sem jamais roubar a atenção para si mesma. E por fim, além da ambientação simples mas eficiente em sublinhar a temática da ambição desmedida e da traição, o elenco de encher os olhos. Se Bogart rouba a cena com seu imortal Sam Spade, os coadjuvantes não ficam atrás. Talvez Mary Astor não tenha exatamente o tipo físico de uma femme fatale – ela ficou com um papel para o qual foram consideradas Rita Hayworth, Ingrid Bergman e Olivia de Havilland - mas não deixa que isso atrapalhe sua composição da ambígua Brigid O’Shaughnessy, uma misteriosa mulher que adentra o escritório do protagonista para contratar seus serviços e o leva a uma espiral de morte e violência.
Tudo começa quando o sócio de Spade, Miles Archer (Jerome Cowan) é enviado pelo companheiro para vigiar o desconhecido Floyd Thursby, a pedido da própria Brigid. Quando ambos são mortos, cabe ao detetive buscar na misteriosa dama algumas respostas – principalmente porque a polícia já está no seu calcanhar. É então que entram no jogo novas peças, que levam a todos para um caminho completamente diferente. Um deles é o inglês Kasper Gutman (o ótimo Sidney Greenstreet, estreando no cinema aos 62 anos de idade e concorrendo ao Oscar de coadjuvante). O outro é o aparentemente delicado mas extremamente traiçoeiro Joel Cairo (Peter Lorre, o vampiro de Dusseldorf em pessoa). Ambos revelam que tudo gira em torno de um artefato histório, um falcão oriundo da ilha de Malta, incrustado de joias, que é o objeto do desejo de todos eles – e cuja posse os faz abdicar dos mais óbvios sentimentos humanos.
Uma fábula sobre amoralidade e ambição, “Relíquia macabra” é, também, um dos maiores filmes policiais da história por não ter medo em abraçar seus temas controversos ou criar personagens que fogem do padrão habitual do cinema comercial – em especial durante a vigência do famigerado Código Hays, que implicava com qualquer coisa que fugisse do convencional. Além disso, oferece um roteiro brilhante e repleto de cenas antológicas e diálogos inteligentes, que permite a seus atores demonstrarem um perfeito domínio de sua arte. Não é à toa que se mantém, mesmo com mais de sessenta anos, tão fresco quanto à época de seu lançamento.
terça-feira
M, O VAMPIRO DE DUSSELDORF
M, O VAMPIRO DE DUSSELDORF (M, 1931, Nero-Film, 117min) Direção: Fritz Lang. Roteiro: Fritz Lang, Thea Von Harbou. Fotografia: Fritz Arno Wagner. Montagem: Paul Falkenberg. Direção de arte: Emil Hasler, Karl Vollbrecht. Produção: Seymour Nebenzal. Elenco: Peter Lorre, Ellen Widmann, Inge Landgut, Otto Wernicke, Theodor Loos. Estreia: 11/5/31
Em uma interpretação fabulosa de Peter Lorre – até então um ator basicamente de comédias – Beckert é um homem que esconde, por trás de seu ar bonachão e simples, uma alma atormentada: ele é o responsável por uma série de assassinatos de crianças da pequena cidade de Dusseldorf. A polícia local, na figura do Inspetor Karl Lohmann (Otto Wernicke), não consegue pistas para a captura do monstro, que chega ao requinte de mandar cartas para a imprensa, comentando seus crimes. Porém, quando as investigações começam a atrapalhar o desenvolvimento de outras atividades ilegais da cidade, os contraventores locais criam uma espécie de associação informal com o objetivo de acabar com os homicídios. É aí que Beckert, que seduz suas vítimas com presentes banais como doces e balões, acaba sendo finalmente ameaçado – e, depois de aprisionado, passa a lutar por sua vida em um julgamento improvisado pela escória de Dusseldorf.
O cinema
policial de hoje – seja de Hollywood ou em qualquer parte do mundo – tem nos
psicopatas e serial killers uma matéria-prima que já beira o clichê. Em 1931,
porém, as coisas não eram bem assim, e quando o austríaco Fritz Lang lançou “M
– O vampiro de Dusseldorf”, o impacto foi tanto que respingou até nos grandes estúdios
norte-americanos: fascinado com o trabalho de Lang, o todo-poderoso Irving
Thalberg (então no comando da MGM) chegou a fazer uma reunião com todos os seus
roteiristas e cineastas cobrando deles filmes com o mesmo compromisso com a
realidade e com as inovações que começavam a chegar à indústria. É difícil
imaginar, no entanto, que um grande estúdio de Hollywood tivesse a coragem –
especialmente em tempos bem menos liberais – de contar a história apresentada
por Lang em seu filme. Não apenas por tratar sem moralismo de um assunto
polêmico e desagradável (assassinato de crianças) mas por ousar fazer de seu
protagonista – até prova em contrário um vilão cruel – um personagem dotado de
alma e sentimentos. Ao fugir do maniqueísmo que se poderia esperar, “M”
pavimentou seu caminho rumo a um lugar inarredável da lista dos melhores filmes
da história do cinema.
Banido pelo governo de Adolf Hitler
em 1934, três anos depois de sua estreia, “M” foi tido por muitos como uma obra
que refletia, em seu tom cru e um tanto cínico, a rápida escalada do nazismo na
Europa. O tempo mostrou que Lang tinha razão em temer tal avanço: metade judeu,
ele testemunhou, estarrecido, a filiação de sua própria esposa (e colaboradora
artística), Thea von Harbou, ao partido nacional-socialista, e abandonou a Alemanha em 1933, após ter
recusado o convite de Goebbels para dirigir a indústria cinematográfica do
país. Separado de Thea durante as filmagens de “O testamento do Dr. Mabuse”
(33) – além de nazista, ela revelou-se também infiel – Lang fez uma escala na
França antes de ser abraçado por Hollywood, onde assinou obras de gêneros
variados, como o western “O diabo feito
mulher” (51), com Marlene Dietrich, e o policial “Um retrato de mulher” (44).
Nenhum de seus filmes, no entanto, atingiu o mesmo grau de brilhantismo do que
a trágica história do aparentemente inofensivo Franz Beckert.
Em uma interpretação fabulosa de Peter Lorre – até então um ator basicamente de comédias – Beckert é um homem que esconde, por trás de seu ar bonachão e simples, uma alma atormentada: ele é o responsável por uma série de assassinatos de crianças da pequena cidade de Dusseldorf. A polícia local, na figura do Inspetor Karl Lohmann (Otto Wernicke), não consegue pistas para a captura do monstro, que chega ao requinte de mandar cartas para a imprensa, comentando seus crimes. Porém, quando as investigações começam a atrapalhar o desenvolvimento de outras atividades ilegais da cidade, os contraventores locais criam uma espécie de associação informal com o objetivo de acabar com os homicídios. É aí que Beckert, que seduz suas vítimas com presentes banais como doces e balões, acaba sendo finalmente ameaçado – e, depois de aprisionado, passa a lutar por sua vida em um julgamento improvisado pela escória de Dusseldorf.
Atrevendo-se a fazer de Beckert uma
espécie de vítima de sua própria condição psicológica – o que acaba por
despertar uma certa compaixão da plateia – Fritz Lang acerta em praticamente
todos os pontos do filme. A narrativa é elegante e sutil, evitando explicitar
os atos homicidas e substituindo-os por símbolos inequívocos (balões voando
soltos, bolas abandonadas). A utilização do som é exemplar – a música que
Beckert assobia não apenas é sua apavorante marca registrada mas também serve
de inteligente elemento dramático (um vendedor cego acaba por ser uma
testemunha importante do caso justamente por reconhecê-la). A fotografia em
preto-e-branco de Fritz Arno Wagner (de “Nosferatu, uma sinfonia de horror”)
capta com perfeição as sombras dos becos e das ruas de Dusseldorf de forma a
torná-los ameaçadores. E, em um toque de mestre, o cineasta escalou, para a
climática cena do julgamento do protagonista, criminosos verdadeiros, que
emolduram o grande momento de Lorre – que, logo após o filme, também abandonou
a Alemanha por medo de Hitler (e anos mais tarde marcou presença no clássico
“Casablanca”). Com uma interpretação que desperta pavor, repulsa e até mesmo
comiseração, ele acaba sendo a alma de um filme nunca menos que impressionante.
Se foi ou não inspirado em fatos
reais – Lang sempre negou que tivesse se baseado na história verdadeira do
serial killer Peter Kurten, que aterrorizou a Alemanha nos anos 20 – não faz
diferença. O que importa é que “M, o vampiro de Dusseldorf” é um dos mais
impactantes e geniais filmes jamais realizados: inteligente, forte, ousado,
plasticamente deslumbrante e politicamente relevante. Para ver e rever sempre –
e descobrir sempre coisas novas!
segunda-feira
CASABLANCA

CASABLANCA (Casablanca, 1942, Warner Bros., 102min) Direção: Michael Curtiz. Roteiro: Julius G. & Philip G. Epstein, Howard Koch, baseado na peça teatral de Murray Burnet e Joan Alison. Fotografia: Arthur Edeson. Montagem: Owen Marks. Música: Max Steiner. Elenco: Humphrey Bogart, Ingrid Bergman, Paul Henreid, Peter Lorre, Claude Rains, Conrad Veidt, Sydney Greenstreet. Estreia: 07/12/42
8 indicações ao Oscar: Filme, Diretor (Michael Curtiz), Ator (Humphrey Bogart), Ator Coadjuvante, Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original
Vencedor de 3 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Michael Curtiz), Roteiro Adaptado
"Este pode ser o início de uma bela amizade." "Nós sempre teremos Paris." "Esse barulho... são canhões ou o meu coração batendo?" "Os alemães estavam vestindo cinza, você azul..." "Eu sou um bêbado. - Então isso faz de você um cidadão do mundo..."
Em quantos filmes escritos hoje em dia você pode fazer uma lista de frases memoráveis como as citadas acima? Pois todas elas fazem parte do roteiro de um único filme, que era escrito conforme as filmagens andavam e que, inspirado em uma peça teatral nunca montada, acabou levando o Oscar da categoria. Diálogos deliciosos, uma história empolgante, um elenco impecável e uma trilha sonora inesquecível e pronto: nascia um clássico, ainda que na época ninguém ousasse considerar outra hipótese que não um fracasso - os Oscar de filme, diretor e roteiro provaram que todos os que previam sua derrocada estavam redondamente enganados. "...E o vento levou" pode ser a epítome dos filmes épicos, mas em termos de romance, nenhum filme bate "Casablanca". Sua atmosfera passional e a química invejável do casal central não encontrou, até hoje, um concorrente à altura. Quer provas? Tente resistir quando Ingrid Bergman - no seu momento mais fascinante da carreira - pede a Sam que toque "As time goes by" e repare na troca de olhares entre ela e Humphrey Bogart. Ainda não achou nada de espetacular? Então vá na locadora e alugue todos os filmes do Chuck Norris, porque não tem mais salvação.
Durante a II Guerra, inúmeros foragidos do III Reich são obrigados a passar por uma cidade chamada Casablanca, localizada no Marrocos francês, em busca de um caminho seguro para permanecerem vivos. Entre esses foragidos está Victor Laszlo (Paul Henreid), líder da resistência procurado desesperadamente pelas autoridades. Laszlo chega à Casablanca em busca de um par de salvo-condutos que lhe seria vendido pelo ambicioso Ugarte (Peter Lorre), que é preso e morto pouco antes de sua chegada. Só quem sabe o paradeiro dos documentos é Rick Blaine (Humphrey Bogart), um misterioso e cínico americano que já tivera seus dias de idealismo e parou no país depois de uma decepção amorosa. Rick, que no fundo ainda tem uma alma nobre fica tentado a ajudar Laszlo, mas entra em um dilema mortal quando descobre que a esposa do herói de guerra é a mesma Ilsa (Ingrid Bergman) com quem ele teve um romance inesquecível em Paris e que fez dele o homem amargo no qual ele se transformou.

O que faz de "Casablanca" mais do que apenas um filme romântico da era de ouro de Hollywood não é apenas seu roteiro excepcional - como se "apenas" fosse palavra a ser utilizada aqui. A bela fotografia em preto-e-branco (que utiliza o visual dos filmes noir em voga na época, em especial nos produtos da Warner Bros.) deslumbra o mais crítico dos espectadores e a trilha sonora de Max Steiner é de aplaudir de pé. Não bastasse comentar a ação discretamente - que é a função de uma trilha sonora de qualidade - ela ainda conta com a belíssima "As time goes by", que virou símbolo inequívoco de romantismo e não por acaso tornou-se a música de abertura dos filmes da Warner - e o documentário sobre o estúdio não chama-se "You must remember this" à toa.
Não é difícil entender a trama do filme do húngaro Michael Curtiz (que ganhou o Oscar de melhor diretor por seu trabalho). Difícil é escolher a melhor cena de um filme repleto delas. Será a batalha de hinos dentro do Rick's? Ou o flashback contando a história de amor dos protagonistas? Será o reencontro dos dois? Ou a cena final, onde Ilsa tem que escolher entre ficar com Rick ou embarcar com Victor (cena esta copiada no último capítulo da novela "Roque Santeiro")? São tantos momentos mágicos que é tarefa das mais árduas pensar em Ronald Reagan (ele mesmo, que viria a ser presidente dos EUA décadas mais tarde) no papel de Rick Blaine ou qualquer outra atriz como Ilsa. Assim como seus personagens, eles ficarão impressos para sempre nas retinas e nos corações românticos como o casal mais apaixonado da história do cinema. Afinal, "a kiss is still a kiss"...
PS - Em 1999 tive a oportunidade única de assistir a "Casablanca" no cinema, em um pequeno festival em comemoração ao aniversário da Warner Bros. Foi uma experiência indescritível.
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