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sexta-feira

UMA NOITE FORA DE SÉRIE

 


UMA NOITE FORA DE SÉRIE (Date night, 2010, 20th Century Fox, 88min) Direção: Shawn Levy. Roteiro: Josh Klausner.  Fotografia: Dean Semler. Montagem: Dean Zimmerman. Música: Christophe Beck. Figurino: Marlene Stewart. Direção de arte/cenários: David Gropman/Jay Hart. Produção executiva: Joe Caraciollo Jr., Josh McLaglen. Produção: Shawn Levy. Elenco: Steve Carell, Tina Fey, Mark Wahlberg, Taraji P. Henson, Mark Ruffalo, Kristen Wiig, Common, James Franco, Mila Kunis, Jimmi Simpson. Estreia: 06/4/2010

A grosso modo, comédias produzidas por Hollywood se dividem entre bobagens calcadas em piadas grosseiras e ofensivas - como os filmes dos irmãos Farrelly - ou um humor sofisticado e frequentemente esnobados por plateias pouco afeita a raciocinar antes de rir - caso do cinema de Woody Allen, por exemplo. Raramente o público adulto tem a possibilidade de divertir-se sem ser tratado como mentalmente incapaz ou alguém necessitado de um vasto repertório cultural. Por isso, filmes como "Uma noite fora de série" surgem e, sem fazer muito alarde, conquistam o espectador. Com uma bilheteria internacional de mais de 150 milhões de dólares - que cobriu com folga seu orçamento -, o filme dirigido pelo experiente Shawn Levy (que já tinha no currículo o bem-sucedido "Uma noite no museu", de 2006, e sua continuação, de 2009) demonstrou-se o veículo perfeito para o encontro de dois dos mais populares nomes da comédia norte-americana da primeira década dos anos 2000, Steve Carell e Tina Fey. Carismáticos, donos de um timing perfeito para o humor e com uma química invejável, eles compensam as eventuais falhas de ritmo e enfatizam cada bom momento do roteiro - bobo, mas adequado a suas principais qualidades.

Carell - cuja trajetória no cinema já apresentava êxitos comerciais como "O virgem de 40 anos" (2005) e sucessos de crítica, como o oscarizado "Pequena Miss Sunshine" (2006) - é excepcional em papéis que exploram sua fisionomia apatetada e seu talento para o humor físico. Fey - roteirista celebrada de programas como "Saturday Night Live" e filmes como "Meninas malvadas" (2004), mas até então subaproveitada no cinema - é dona de uma rara perspicácia cômica, sempre pronta para uma tirada inteligente e sarcástica. Juntos, os dois deitam e rolam em uma história que explora cada um de seus talentos. Eles vivem Phil e Claire Foster, um típico casal de classe média americana cujas maiores preocupações são o trabalho, o lar e os filhos. Com profissões não exatamente glamorosas - ele vende seguros e ela é corretora de imóveis - e uma rotina entediante, eles tem medo de ver seu casamento sucumbir à rotina, e resolvem, em uma noite que prometia apenas um respiro em seu dia-a-dia, buscar algo excitante e divertido. Com um ousadia inesperada, eles mentem os nomes para ficarem com uma reserva em um restaurante da moda em Nova York e acabam sendo confundidos com um casal que está na mira de um misterioso criminoso chamado Joe Miletto. Os capangas de Miletto, acreditando que eles estão de posse de um pen drive com informações perigosas, saem em seu encalço, e resta aos dois uma desenfreada corrida pela noite - que envolve gente influente, o verdadeiro casal de quem roubaram o nome e até um antigo (e tentador) cliente de Claire.

 

Sem apresentar maiores novidades em seu roteiro - na verdade um palco para os talentos de seus protagonistas -, "Uma noite fora de série" acerta em cheio ao assumir os clichês do gênero e brincar com eles sem o menor pudor. Com diálogos espertos e situações absurdas que vão se acumulando de forma rocambolesca, a trama serve quase como apenas um pretexto para Carell e Fey desfilarem sua desenvoltura e talento em fazer rir em qualquer circunstância. Seja fugindo do cruel vilão (interpretado com gosto por Ray Liotta) ou encurralando o casal responsável por seus infortúnios (vividos por James Franco e Mila Kunis em participações especiais), a dupla é responsável por 90% da diversão - e tiram de letra o desafio de segurar noventa minutos de uma produção que equilibra com destreza humor físico e piadas verbais que lhes servem como uma luva. Mesmo que o elenco apresente coadjuvantes de luxo do porte de Mark Ruffalo, Taraji P. Henson e Mark Whalberg, são eles que dão o tom do espetáculo - e o fazem com maestria, comprovando seus cacifes como astros - alguns anos depois, Carell investiria também em sua carreira como ator dramático e seria indicado ao Oscar por "Foxcatcher: a história que chocou o mundo" (2014), enquanto Tina Fey se tornaria roteirista de séries e especiais de TV que lhe dariam espaço para a ironia e o sarcasmo que lhe são característicos.

Uma prova de que o humor não precisa abdicar de inteligência para atingir o grande público, "Uma noite fora de série" é um meio-termo entre o que se espera de uma comédia tipicamente hollywoodiana e um programa de televisão iconoclasta e debochado. Agrada justamente por não tentar revolucionar o gênero e respeitar as regras do jogo, ao mesmo tempo em que não se deixa nivelar por um humor apelativo e adolescente. Pode não ter mudado a história do cinema - e talvez até seja um tanto esquecível -, mas é um passatempo honesto, bem-humorado e inofensivo.

quinta-feira

A SUPREMA FELICIDADE

 


A SUPREMA FELICIDADE (A suprema felicidade, 2010, Ramalho Filmes, 121min) Direção: Arnaldo Jabor. Roteiro: Arnaldo Jabor, Ananda Rubinstein. Fotografia: Lauro Escorel. Montagem: Leticia Giffoni. Figurino: Valeria Stefani. Produção executiva: Andréa Ramalho. Produção: Arnaldo Jabor, Francisco Ramalho Jr., Lucia Seabra. Elenco: Jayme Matarazzo, Michel Joelsas, Marco Nanini, Dan Stulbach, Mariana Lima, Caio Manhente, Maria Flor, Elke Maravilha, João Miguel, Ary Fontoura, Maria Luísa Mendonça, Tammy Di Calafiori, Emiliano Queiroz. Estreia: 29/10/2010

Quem conhece a filmografia de Arnaldo Jabor deve ter levado um susto ao assistir a seu "A suprema felicidade": até pouco mais da metade do filme, quase nada leva a crer que o homem por trás de obras como "Eu te amo" (1980) e "Eu sei que vou te amar" (1986) - trabalhos verborrágicos, cínicos e sarcásticos - também é o autor de um olhar tão carinhoso e nostálgico sobre um Rio de Janeiro que só existe na memória e no coração de quem o conheceu. Ao deixar de lado o tom neurótico de suas produções mais celebradas e abraçar o caminho da saudade (que remete a Federico Fellini e seus mergulhos na metalinguagem), o polêmico cineasta acabou por revelar uma insuspeita simpatia à humanidade - através de sequências oníricas, personagens maiores que a vida (e paradoxalmente dotadas de grande sinceridade) e diálogos que se equilibram entre o poético e o mundano. Intercalando épocas distintas da vida de seu protagonista, o roteiro de Jabor (co-escrito por Ananda Rubinstein) apresenta um rico panorama pessoal e social das décadas de 40, 50 e 60, com um viés emocional que encontra respaldo na produção caprichada e em um elenco totalmente entregue à proposta do cineasta.

Sem filmar desde "Eu sei que vou te amar" - que deu à Fernanda Torres a Palma de Ouro no Festival de Cannes 1986 -, Arnaldo Jabor voltou ao cinema com um discurso mais suave, mais terno, mais delicado, quase radicalmente oposto a seus trabalhos anteriores, calcados em personagens à beira de constantes ataques de nervos. Seu protagonista em "A suprema felicidade" - uma espécie de alter ego pouco disfarçado - é Paulo, que, conforme vai amadurecendo, vai encontrando diversas formas de amor, desejo e solidão, em uma cidade capaz de lhe oferecer tanto momentos líricos quanto a dureza de uma civilização recém saída de uma guerra mundial. Aos oito anos de idade, Paulo é interpretado pelo carismático Caio Manhente - é 1945, o Brasil comemora o fim do conflito na Europa e o menino testemunha a relação ainda calorosa entre os pais, Marcos (Dan Stulbach) e Sofia (Mariana Lima), cuja história de amor remete a um passado mais feliz e colorido. Cinco anos mais tarde, é Michel Joelsas quem assume o posto de ator central, em uma fase onde o jovem começa a descobrir o amor ao mesmo tempo em que percebe as rachaduras na harmonia conjugal familiar. Aos dezenove (e justamente na fase mais crucial) quem interpreta Paulo é o fraco Jayme Matarazzo - e é nesse momento que a trama trai a autoria do diretor/roteirista: ao encarar a boemia carioca e seus desdobramentos, Paulo toma contato com prostitutas arriscando a vida, bêbados contumazes, uma possível amante do pai e a torturada Deise (Maria Flor) - uma típica personagem jaboriana, com traumas e neuroses que remetem diretamente a suas obras anteriores. 

 

Ao optar por uma estrutura narrativa que privilegia episódios independentes ao invés de uma trama sólida, com começo, meio e fim bem definidos, o roteiro impede o espectador de construir a conexão necessária com seu protagonista. Sua colcha de retalhos - com idas e vindas no tempo - dá vazão também à interessante ideia de homenagear (visual e tematicamente) estéticas cinematográficas nacionais, como a chanchada, musicais da Atlântida e o Cinema Novo: estão em cena os personagens caricatos da primeira, as marchas de carnaval de rua da segunda e o tom seco que acompanha a boemia trágica e crua da noite carioca que remete diretamente à influência do neorrealismo. Nem sempre todos esses elementos dialogam a contento, mas Jabor parece menos amargo do que em boa parte de sua filmografia, sendo capaz inclusive de lampejos de um otimismo quase piegas - uma sensação que só é eliminada graças à atuação impecável de Marco Nanini, que na pele do avô de Paulo, o idiossincrático Noel, rouba a cena com uma construção de personagem lúdica e comovente, capaz de minimizar os problemas do produto final.

E há problemas: o terço final de "A suprema felicidade" deixa claro a fragilidade do roteiro de Jabor e sua estrutura episódica. Paulo, seu protagonista, não tem a força necessária para angariar a simpatia incondicional do espectador, se comportando como a testemunha ocular de uma série aparentemente desconexa de acontecimentos e personagens soltos e rasos. A bem da verdade, não há uma história no filme, apenas situações que, juntas, compõem um álbum de recordações ora doces ora indigestos. Para sorte de todos - diretor e público - há um elenco que, apesar de tudo, alcança momentos de pura graça: Dan Stulbach e Mariana Lima estão soberbos como o casal que atravessa todas as fases de um casamento, e Maria Flor brilha como a neurótica Deise (talvez a única personagem que combina com o universo do cineasta). São eles (e de certa forma o acertado tom de leveza da fotografia e da edição) que impedem o último filme de Jabor (morto em 2022) de parecer anacrônico e superficial. Não deixa de ser irônico que um artista que deu ao mundo petardos como "Toda nudez será castigada" (1973) e "O casamento" (1975) - ambos baseados em obras de Nelson Rodrigues - tenha se despedido com um filme tão delicado e de bem com a vida.

sexta-feira

AMOR À DISTÂNCIA

 


AMOR À DISTÂNCIA (Going the distance, 2010, New Line Cinema, 103min) Direção: Nanette Bernstein. Roteiro: Geoff LaTulippe. Fotografia: Eric Steelberg. Montagem: Peter Teschner. Música: Mychael Danna. Figurino: Catherine Marie Thomas. Direção de arte/cenários: Kevin Kavanaugh/David Schlesinger. Produção executiva: Richard Brener, Michael Disco, Dave Neustadter. Elenco: Drew Barrymore, Justin Long,Charlie Day, Jason Sudeikis, Christina Applegate, Ron Livingston. Estreia: 27/8/2010

Os fãs de comédias românticas via de regra não são muito exigentes. Uma dupla de protagonistas carismáticos e/ou bonitos, piadas engraçadinhas, uma trilha sonora agradável e de preferência um final feliz (verossímil ou não) bastam para que a experiência seja positiva por aqueles que procuram apenas uma hora e meia de diversão descompromissada. "Amor à distância", estrelado por Drew Barrymore em 2010 não é uma exceção: simples, simpático - e talvez por isso mesmo pouco memorável -, é um filme capaz de deixar qualquer um com sorriso no rosto, desde que não haja grandes expectativas. Seguindo à risca a fórmula já exaustivamente testada e aprovada, o primeiro filme de ficção da documentarista Nanette Bernstein ganha pontos, no entanto, a apostar em algumas piadas mais adultas e eleger como maior vilão não uma ex-namorada vingativa ou mal-entendidos romanescos, mas sim uma circunstância bem mais prosaica: a distância geográfica.

Erin Langford (Drew Barrymore, repetindo com graça a personagem amalucada que salvou sua carreira) é uma jornalista de 31 anos que ainda busca a realização profissional, sempre adiada por sua tendência a valorizar mais seus relacionamentos do que sua incipiente . Às vésperas de deixar um estágio em Nova York para voltar a sua São Francisco natal, ela conhece e se apaixona por Garrett Scully (Justin Long), que trabalha em uma gravadora, paparicando bandas adolescentes enquanto não dá seu pulo do gato musical. Quando ela volta para casa, depois de um rápido idílio amoroso, os dois resolvem manter o namoro à distância, mesmo plenamente conscientes das dificuldades do pacto de fidelidade a que se propõem. Aos poucos, porém, eles percebem que a coisa não será assim tão simples e cor-de-rosa como pretendiam. Saudoso, ele se apoia nos pouco confiáveis amigos, Dan (Charlie Day) e Box (Jason Sudeikis), enquanto ela não chega a ser propriamente incentivada pela irmã mais velha, Corinne (Christina Applegate) - que passa os dias cuidando do marido e dos filhos pequenos.

 

O humor de "Amor à distância" surge, como se poderia imaginar, a partir de seus coadjuvantes - ainda que os protagonistas sejam adoráveis e carismáticos. Tanto os companheiros de Garrett quanto a família de Erin são o tempero ideal de uma história de amor ligeiramente inspirada pela experiência real de um amigo do roteirista Geoff  LaTulippe (provavelmente muito disfarçada e exagerada em sua transposição para as telas). Todas as situações decorrentes do relacionamento atípico do casal central são tratadas com carinho e leveza - os longos e saudosos telefonemas, as conversas diante da tela do computador, os temores (infundados ou não) de infidelidade, as dúvidas em relação ao prosseguimento do namoro, a falta de sexo, as dificuldades logísticas de um reencontro - e, ilustrados por uma trilha sonora das melhores (The Cure, The Pretenders). Drew Barrymore e Justin Long (que já foram namorados na vida real) apresentam uma química das mais certeiras e mesmo que algumas sequências flertem com o vulgar (apesar de bastante engraçadas), jamais ultrapassam os limites esperados para o gênero - e servem para conduzir a história, sem prejuízos para seu ritmo ou foco. Tudo isso, somado a acertada opção de Bernstein em não forçar a mão no drama, fazem do filme uma sessão praticamente sem contra-indicações.

Não exatamente um sucesso estrondoso de bilheteria, "Amor à distância" é mais um exemplar na lista de produções inofensivas estreladas por Drew Barrymore - ao lado de "Afinado no amor" (1998), Para sempre Cinderela" (1998), "Nunca fui beijada" (1999) e "Como se fosse a primeira vez" (2004). Seu público-alvo sabe o que esperar de cada um de seus filmes. E não é isso que se chama de conforto?

domingo

HOMEM DE FERRO 2


HOMEM DE FERRO 2 (Iron Man 2, 2010, Paramount Pictures/Marvel Studios, 124min) Direção: Jon Favreau. Roteiro: Justin Theroux, personagens criados por Stan Lee, Don Heck, Larry Lieber, Jack Kirby. Fotografia: Matthew Libatique. Montagem: Dan Lebental. Música: John Debney. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: J. Michael Riva/Lauri Gaffin. Produção executiva: Louis D'Esposito, Susan Downey, Jon Favreau, Alan Fine, Stan Lee, David Maisel, Denis L. Stewart. Produção: Kevin Feige. Elenco: Robert Downey Jr., Gwyneth Paltrow, Mickey Rourke, Scarlett Johansson, Samuel L. Jackson, Jon Favreau, Don Cheadle, Sam Rockwell, John Slattery, Clark Gregg, Paul Bettany, Kate Mara. Estreia: 26/4/2010

Indicado ao Oscar de Efeitos Visuais

Não foi surpresa para ninguém quando, mesmo com o primeiro "Homem de ferro" ainda em cartaz, um segundo capítulo foi confirmado pela Marvel. Com uma renda doméstica superior a 300 milhões de dólares (e uma bilheteria mundial de quase o dobro), a adaptação das aventuras de Tony Stark, o bilionário tornado super-herói, deu o pontapé inicial para a criação de um universo cinematográfico próprio, que daria origem a uma série de filmes extremamente bem-sucedidos em termos comerciais e de crítica. Confirmando a regra de quem em time que está ganhando não se mexe, o estúdio manteve Jon Favreau na direção, Robert Downey Jr. no papel-título (dessa vez com um salário compatível com sua importância no projeto) e Gwyneth Paltrow na pele de sua secretária/interesse amoroso Pepper Potts. A única baixa foi a substituição de Terrence Howard por Don Cheadle - uma intriga de bastidores que foi assunto por um bom tempo em publicações sobre o tema. Com um orçamento um pouco mais generoso que o primeiro filme e as expectativas nas alturas, "Homem de ferro 2" chegou às telas na primavera norte-americana de 2010 e, novamente para nenhuma surpresa, transformar-se em um dos campeões de bilheteria do ano. A boa notícia é que, apesar de seguir quase à risca o manual de roteiros de Hollywood, o filme de Favreau conseguiu manter o frescor do material original e revelou-se um entretenimento à altura, graças, em boa parte, ao enxuto e bem estruturado roteiro de Justin Theroux

Indicado por Downey Jr., com quem havia trabalhado no script da comédia "Trovão tropical" (2009), Theroux teve a vantagem de não precisar voltar às origens do personagem, tão bem contadas no primeiro capítulo. Dessa vez, a história se ampara em três frentes: na primeira, Stark precisa lidar com a pressão do governo norte-americano que insiste para que ele compartilhe de sua tecnologia para colaborar na defesa do país. Na segunda, ele se vê frente a frente com o desgaste de sua saúde, prejudicada por sua exposição ao material radoiativo que o mantém vivo. E, por fim, uma parte do passado de sua família vem à tona quando o físico russo Ivan Vanko - filho de um cientista que fora sócio de seu pai nas indústrias Stark - chega ao país para unir-se a Justin Hammer, seu principal rival nos negócios, e vingar-se do fato de ter sido deportado do país, acusado de traição. As três tramas caminham paralelamente durante o filme, para se encontrarem no ato final - que consegue ser mais empolgante que o original graças aos efeitos indicados ao Oscar e por sua integração natural ao enredo.


 E se a saída de Terrence Howard por questões salariais e artísticas - o estúdio sugeriu um corte de 80% do seu cachê, em relação ao primeiro filme, quando o ator teve um pagamento maior que o de Robert Downey Jr., e diminuição de seu personagem devido à insatisfação do diretor com seu desempenho - os acréscimos a essa segunda parte da saga do Homem de Ferro fizeram a festa para os espectadores.Na pele do principal vilão, Ivan Vanko, o primeiro acerto: em alta depois de sua indicação ao Oscar de melhor ator por "O lutador" (2008), Mickey Rourke entrou no elenco como um grande atrativo - mas depois da estreia reclamou a quem quisesse ouvir que suas melhores cenas haviam sido cortadas, e que tal situação havia tornado inútil toda a sua preparação anterior às filmagens (o que incluiu uma viagem à Rússia e treinamento físico específico). Para viver o rival de Stark, o empresário Justin Hammer, a escolha inicial de escalar Al Pacino foi substituída pela presença de Sam Rockwell, mais jovem e de maior diálogo com a plateia juvenil. E por fim, o melhor da festa: a presença de Scarlett Johansson como Natasha Romanov - que, como todo fã dos quadrinhos sabe, é o nome civil da Viúva Negra, personagem cuja importância vai se tornando cada vez maior no decorrer do lançamento dos outros filmes da Marvel. Anteriormente reservado para Emily Blunt, o papel ficou vago quando a atriz não conseguiu conciliar o trabalho com as filmagens de "As viagens de Gulliver", e não faltaram nomes cogitados para seu lugar: Angelina Jolie, Jessica Biel, Gemma Arterton e Jessica Alba estavam entre os boatos - assim como Natalie Portman (que depois estrelaria "Thor", de Kenneth Branagh) e Brie Larson (a Capitã Marvel em pessoa). Johansson tingiu os cabelos de ruivo, envolveu-se em treinamentos físicos antes e durante as filmagens, e surgiu como mais um elo do Homem de Ferro com a S.H.I.E.L.D. - que se tornará ponto crucial nos filmes seguintes da série.

Mais do que apenas um filme realizado para encher os cofres da Marvel - a esta altura já bem recheado -, "Homem de ferro 2" é, mais do que tudo, uma produção que estabelece ainda mais as fundações do universo cinematográfico da produtora, oferecendo ao público tudo que uma superprodução escapista e milionária pode oferecer. Tem bons momentos de humor (em boa parte graças ao carisma de Downey Jr., cada vez mais à vontade no papel principal), cenas de ação caprichadas e personagens coadjuvantes que não estão em cena como meros figurantes. Para quem gosta do gênero é um programa dos mais satisfatórios - em compensação, os detratores do cinemão comercial hollywoodiano continuarão torcendo o nariz para seus efeitos mirabolantes, piadas irônicas e mitologia própria. É uma questão de gosto - e os mais de 620 milhões de dólares arrecadados ao redor do mundo deixa bem claro que muita gente aprova as aventuras de Tony Stark.

segunda-feira

AMORES IMAGINÁRIOS

AMORES IMAGINÁRIOS (Les amours imaginaires, 2010, Mifilifilms/Quebec Film and Television, 101min) Direção e roteiro: Xavier Dolan. Fotografia: Stéphanie Weber-Biron. Montagem: Xavier Dolan. Figurino: Xavier Dolan. Direção de arte: Delphine Gélinas. Produção: Xavier Dolan, Carole Mondello, Daniel Morin. Elenco: Xavier Dolan, Monica Chokri, Niels Schneider, Anne Dorval, Louis Garrell. Estreia: 16/5/10 (Festival de Cannes)

Logo que estreou no Festival de Cannes em 2009 com seu primeiro filme, "Eu matei minha mãe", o jovem (20 anos de idade à época) Xavier Dolan tornou-se, instantaneamente, o enfant terrible do cinema canadense. Levou pra casa um prêmio especial do júri e virou assunto em qualquer roda de cinéfilos pelo mundo afora: para cada crítica azeda a seu respeito, pipocavam fãs encantados com seu estilo modernoso. Seu filme seguinte, "Amores imaginários" - que também teve sua estreia na Riviera Francesa - apenas acentuou a polêmica em torno de seu nome e a divisão entre admiradores e detratores. É justo, porém, encontrar um meio-termo saudável entre esses dois extremos. "Amores imaginários", uma comédia romântica, nem é tão espetacular como querem fazer crer os convertidos mais fanáticos nem tão vazio como proclamam os mais críticos. É, sim, um filme leve e quase superficial, que privilegia o visual ao conteúdo. Mas é, também, uma delícia de se assistir, desde que se deixe de lado qualquer preconceito ou expectativas grandiosas.

A ideia de um triângulo amoroso moderno no cinema não é nenhuma novidade - haja visto François Truffaut ("Jules e Jim: uma mulher para dois") e Bernardo Bertolucci ("Os sonhadores"), alguns dos célebres cineastas que investigaram essa modalidade de relacionamento. Em seu filme, Dolan não faz questão de soar revolucionário ou ousado, preferindo o caminho da sutileza e da delicadeza, deixando ao espectador o prazer de ir descobrindo aos poucos os rumos de sua trama. O próprio cineasta interpreta um dos protagonistas, o homossexual Francis, que se apaixona perdidamente pelo belo, inteligente, sexy e liberal Nicolas (Niels Schneider). O problema maior é que sua melhor amiga, Marie (Monica Chokri), também cai de amores pelo rapaz, e nenhum dos dois sabe exatamente para qual deles o rapaz está mais inclinado em oferecer o seu amor (ou sequer SE está interessado nisso): Nicolas os trata com igual atenção e carinho, embaralhando cada vez mais as pistas que levam a seu coração - e à sua cama.


Se peca em não aprofundar a psicologia de seus personagens, Dolan acerta em cheio ao tratar seu filme como uma espécie de inventário visual de sua época. É perceptível o cuidado do jovem diretor com cada detalhe de sua mise-en-scéne, desde os objetos de cena até o figurino absurdamente antenado com sua ambientação, assim como a bela fotografia de Stéphanie Weber-Biron e alguns enquadramentos belíssimos que nem mesmo o quase exagero de sequências em câmera lenta consegue atrapalhar. O olho de Dolan para as pequenas coisas e reações é admirável, assim como seu talento em explorar ao máximo a potencialidade de cada tomada. Não há, em seu filme, nenhuma cena que não seja minuciosamente preparada por sua visão esteticamente apurada. E é justamente essa atenção ao aspecto visual - em detrimento a um desenvolvimento maior de seus personagens - que incomoda tanta gente. Porém, o que talvez muitos críticos não tenham percebido em "Amores imaginários" é a sua absoluta falta de compromisso com o realismo.

Dolan trata seu filme como uma espécie de sátira a seu próprio universo cultural, um lugar onde as pessoas querem se parecer com James Dean e idolatram Audrey Hepburn, frequentam cafés e festas com gente bonita e descolada e transitam em cenários coloridos e absurdamente fotogênicos. A beleza exterior é equilibrada apenas pelas histórias dolorosas/engraçadas/patéticas contadas por outros personagens diretamente para a câmera - um artifício que funcionou às mil maravilhas em "Harry & Sally: feitos um para o outro" e que volta a ser bastante interessante nas mãos do diretor: são essas personagens desconhecidas que dão suporte ao roteiro, mostrando ao espectador que amar dói, sim, mas não mata ninguém. Sendo assim, "Amores imaginários" não é um filme feito para aqueles que consideram o cinema como uma arte de reflexão séria e densa. Pode soar raso, sim, e talvez até o seja. Mas todos aqueles que já se apaixonaram entendem perfeitamente as sensações pelas quais passam Francis e Marie. E essa empatia, essa compreensão pelo sofrimento dos outros, é uma das grandes qualidades de um filme que já demonstra grande amadurecimento de seu diretor - que pegaria o caminho dos temas mais profundos em seus filmes seguintes, "Laurence anyways" e "Mommy".

terça-feira

VOCÊ NÃO CONHECE O JACK

VOCÊ NÃO CONHECE O JACK (You don't know Jack, 2010, HBO Films, 134min) Direção: Barry Levinson. Roteiro: Adam Mazer. Fotografia: Eigil Bryld. Montagem: Aaron Yanes. Música: Marcelo Zarvos. Figurino: Rita Ryack. Direção de arte/cenários: Mark Ricker/Rena DeAngelo. Produção executiva: Lydia Dean Pilcher, Tom Fontana, Steve Lee Jones, Barry Levinson, Glenn Rigberg. Produção: Scott Ferguson. Elenco: Al Pacino, Brenda Vaccaro, Susan Sarandon, John Goodman, Danny Huston, Deirdre O'Connell, Todd Susman. Estreia: 14/4/10

Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator em Minissérie ou Filme Para TV (Al Pacino)

Tivesse sido realizado para o cinema, como foi planejado a princípio, "Você não conhece o Jack" certamente teria alcançado a cerimônia do Oscar: dirigido por Barry Levinson (vencedor da estatueta por "Rain Man", de 1988) e estrelado por Al Pacino (premiado por "Perfume de mulher", em 1993, depois de várias outras infrutíferas indicações) e Susan Sarandon (a melhor atriz de 1995 por "Os últimos passos de um homem"), o filme que narra a luta real de um médico pelo direito dos pacientes ao suicídio assistido é uma empolgante demonstração do talento de seu realizador em contar uma história com todas as ferramentas de que dispõe - sem soar didático ou polêmico em excesso. Mesmo sendo perceptivelmente simpático à causa de seu protagonista, Levinson constrói seu filme de forma sóbria e responsável, amparado por uma atuação avassaladora de Pacino e um roteiro inteligente de Adam Mazer, que equilibra com maestria as batalhas jurídicas travadas nos tribunais e momentos de grande emoção, em boa parte oferecidos por imagens reais de pacientes que procuraram aliviar seu sofrimento pelas mãos daquele que ficou conhecido como "Doutor Morte". Com uma atuação avassaladora de Pacino (que acabou ganhando o Golden Globe, o Emmy e o SAG Award), o filme é também o melhor filme de Levinson desde "Mera coincidência" (97) - e um dos mais fascinantes sobre o tema já realizados.

Jack Kevorkian, o protagonista, era um médico, filho de armênios, que, nos anos 90, tornou-se conhecido mundialmente não apenas por defender a eutanásia como forma de permitir uma morte digna como desfecho de doenças terminais, mas também por colaborar, através de uma máquina criada por ele, para que tais pacientes tivessem seu desejo atendido. Suas ações o levaram a capas de revistas, a programas de entrevistas no rádio e na televisão, e principalmente aos tribunais: acusado de homicídio em alguns casos, Kevorkian contava com a ajuda de seu advogado, Geoffrey Fieger (Danny Huston, com uma horrenda peruca loura), sua irmã, Margo (Brenda Vaccaro), seu fornecedor de medicamentos, Neal Nicol (John Goodman), e a militante pró-direito de escolha Janet Good (Susan Sarandon). Acreditando piamente em seus princípios, o grupo acaba por enfrentar a ira de religiosos e a gana de advogados ambiciosos, que veem na figura do médico a chance de alavancar suas carreiras. Cada golpe, porém, faz de Kevorkian um homem mais forte e decidido a levar a discussão até o mais alto grau de justiça dos EUA: a Suprema Corte.


Magistralmente editado - com cenas reais, onde Pacino substitui, por computação gráfica, o verdadeiro Kevorkian em entrevistas com possíveis pacientes - e centrado basicamente em discutir o assunto de forma racional e honesta, "Você não conhece o Jack" apresenta uma abordagem séria, que não esconde a visão benevolente que tem de seu protagonista, mas ao mesmo tempo respeita a visão negativa de certos setores mais conservadores da sociedade norte-americana. Ao construir um Jack Kevorkian humano, falível e fatalmente solitário em suas questões éticas, o roteiro de Adam Mazer o retrata quase como um mártir, mas o trabalho impecável de Al Pacino evita que essa luz demasiado positiva o transforme em um santo irretocável. Dotando seu personagem de nuances, o veterano ator mostra que, mesmo depois dos 70 anos, ainda pode surpreender a plateia - há muito tempo não se via Pacino tão à vontade em cena, em um papel que lhe oferece mil oportunidades de brilho e aplausos. Mesmo que contracene com nomes de peso, é ele a alma do filme - e seu principal sustentáculo em mais de duas horas de duração.

Apesar da longa duração, no entanto, "Você não conhece o Jack" jamais se torna cansativo ou repetitivo - algo admirável, em especial quando se percebe que grande parte da história é restrita aos atendimentos de Jack e suas consequências jurídicas. Por incrível que pareça, o vai-e-volta de tribunais, os longos diálogos e o tom melancólico, ao contrário de atrapalhar o ritmo, parecem dar coesão e consistência a uma trama que, apesar de densa e dramática, apela igualmente para a razão e a emoção. Como testemunhas privilegiadas, o público tem a oportunidade de conhecer os ideais e os métodos de um dos homens mais polêmicos de sua época de forma clara e inteligente, sem manipulações piegas ou sensacionalistas. É um trabalho maduro e honesto, assinado por um diretor de talento inquestionável - apesar de alguns tropeços constrangedores na carreira - e estrelado por um dos maiores atores dos EUA. É, por seu tema e por seu resultado final, um filme imprescindível!

quarta-feira

STRAPPED

STRAPPED (Strapped, 2010, AltarBoy Productions, 95min) Direção e roteiro: Joseph Graham. Fotografia: Matthew Boyd. Montagem: Sharon Franklin. Música: Inu, Windows to Sky. Direção de arte/cenários: Will King/Andrew Colon. Produção executiva: Derek Curl, Raymond Murray. Produção: Joseph Graham, William D. Parker. Elenco: Ben Bonenfant, Nick Frangione, Artem Mishin, Carlo D'Amore, Michael Klinger, Raphael Baker. Estreia: 17/7/10

Quando se tem ambições comerciais amplas, filmes de temática homossexual seguem padrões não muito ousados: ou apelam para versões gays de histórias de amor trágicas ou optam por produções mais politizadas, com a intenção de conscientizar o público sobre os problemas da comunidade. Foi assim com o ótimo "Milk: a voz da igualdade" (2008), que, dirigido por Gus Van Sant, deu o segundo Oscar de melhor ator a Sean Penn e ainda levou a estatueta de roteiro original ao contar a história de Harvey Milk, político homossexual que levantou a bandeira dos direitos gays, lutou contra o ódio dos fundamentalistas mais fervorosos dos EUA e acabou assassinado. Deixando de lado o talento de todos os envolvidos no filme e sua grande qualidade como cinema, porém, seu sucesso muito se deveu à força do dinheiro envolvido, nos nomes fortes do elenco e da produção e de um generoso empurrão da crítica. Produções independentes, baratas, sem nomes conhecidos no elenco e sem a máquina dos grandes estúdios normalmente passam em branco junto às plateias, ficando relegadas a seu público-alvo ou a poucos curiosos desprovidos de preconceito. Foi o que aconteceu com "Strapped", que não ganhou nem mesmo título em português, nunca estreou oficialmente no Brasil e mesmo assim conquistou fãs com sua honestidade e inteligência ao retratar, com um roteiro repleto de metáforas, a rotina de um garoto de programa que, descobre, mesmo sem querer, que tem muitos sentimentos escondidos por trás de sua fachada de autossuficiência.

Escrito e dirigido por Joseph Graham - especializado em produções de temática gay - e estrelado por um elenco de atores desconhecidos que dão plena conta do recado, "Strapped" é praticamente um conto surreal, que mistura um erotismo sutil (mas por vezes bastante sexy) com momentos de quase sentimentalismo. O mérito é, em boa parte, do roteiro, que consegue a façanha de ficar à beira do didático ao explorar inúmeros tipos que constroem a diversidade do universo que se propõe a iluminar, mas consegue escapar dos estereótipos e dos exageros que normalmente povoam o gênero. Graham consegue, de maneira fluente e com ritmo admirável, conduzir sua narrativa de forma a envolver a plateia e fazer com que ela acompanhe seu protagonista sem nome (ou, dependendo do ponto de vista, com vários nomes diferentes) em sua involuntária jornada de autodescobrimento com prazer e interesse. Para isso, muito ajuda a presença de Ben Bonenfant, um ator longe de ser brilhante ou dono de uma beleza avassaladora, mas que tem carisma e um ar de ingenuidade que serve perfeitamente ao personagem e o aproxima da audiência com extrema facilidade. Mesmo que o texto não aprofunde o bastante o histórico do protagonista - que veste um personagem diferente para cada cliente que se apresenta - o filme seduz o espectador pela despretensão e pelo tom realista/fantástico que imprime em cada sequência.


"Strapped" já começa em plena ação com o protagonista visitando John (Artem Mishin), um russo casado que, aproveitando-se de uma viagem da esposa, o chama para momentos de sexo casual e acaba desabafando com ele, contando sobre uma experiência de sua adolescência, quando se apaixonou perdidamente por um colega e viu o preconceito de perto, através dos olhos da própria família. Programa encerrado, o rapaz se vê perdido em um prédio cuja saída parece inalcançável e dá de cara com Leon (Carlo D'Amore), que o reconhece de programas anteriores e o leva para seu apartamento, onde ele dá de cara com uma festa particular regada a álcool e drogas - e com dois convidados muito especiais, entre os quais um jovem e tímido escritor Gary (Nick Frangione), que se encanta por sua sensualidade quase desajeitada. Em seguida, ele topa com David (Michael Klinger), também casado, que, a pretexto de ajudá-lo a sair do edifício, se esgueira com o rapaz para a lavanderia, onde revela seu desejo secreto por homens: o encontro acaba mal, e o jovem prostituto é amparado por Sam (Paul Gerrior), um homem de meia-idade que se revela uma pessoa solitária e com experiências de vida absolutamente fascinantes. É quando já está quase amanhecendo que o seguro e cobiçado michê descobre, da forma mais surpreendente possível, que dentro do "prédio mais gay da rua mais gay da cidade" pode estar sua chance de encontrar o amor.

Utilizando sem medo a metáfora do prédio sem saída como um retrato da encruzilhada existencial de seu protagonista, "Strapped" felizmente não se mantém como um filme de uma ideia só. Ao apresentar diversos tipos de homossexuais, ele quebra as barreiras de estereótipos e mostra ao público momentos de grande humanização de todos eles, desde o russo que nunca esqueceu o primeiro amor até o homem de meia-idade sedento por um abraço e uma boa conversa. Sem deixar de lado o aspecto mais festivo do mundo gay (com direito a cocaína, álcool e stripteases), Joseph Graham busca principalmente mostrar a comunidade homossexual masculina com todos os seus problemas e algumas eventuais alegrias. Até soa um tanto melancólico em boa parte do tempo, mas tal opção cabe perfeitamente em seu objetivo de tirar da prostituição masculina o glamour que muitos filmes acabaram por emprestar. Ainda que o protagonista não esteja exatamente desgostoso com sua profissão, o roteiro deixa claro sua solidão, os perigos que ele corre e até mesmo a falta de vínculos que o impede de encontrar o amor e o carinho não remunerados. O final feliz que finalmente consegue vislumbrar - depois de uma bela sequência romântico/erótica - é realista ao mesmo tempo em que flerta com o romantismo mais assumido. Essa surpresa final (essa ruptura com o quase pessimismo anterior) é que faz de "Strapped" um filme acima da média, apesar de alguns problemas decorrentes do perceptível orçamento baixo. É um filme que merece ser descoberto e admirado, não apenas por seu público-alvo mas por todos aqueles que admiram produções que falam sobre pessoas - seus medos, inseguranças e pequenas felicidades. Uma pequena pérola do cinema LGBT.

TRIÂNGULO AMOROSO

TRIÂNGULO AMOROSO (3,2010, X-Filme Creative Pool, 119min) Direção e roteiro: Tom Tykwer. Fotografia: Frank Griebe. Montagem: Mathilde Bonnefoy. Música: Reinhold Heil, Johnny Klimek, Gabriel Isaac Mounsey, Tom Tykwer. Figurino: Polly Matthies. Direção de arte/cenários: Uli Hanish/Kai Koch. Produção executiva: Uwe Schott. Produção: Stefan Arndt, Barbara Buhl, Gebhard Henke, Jorn Klamroth. Elenco: Sophie Rois, Sebastian Schipper, David Striesow, Angela Winkler, Annedore Kleist. Estreia: 10/9/10 (Bienal de Veneza)

Bem antes de unir-se aos irmãos Wachowski no ambicioso "A viagem" (2012) e na cultuada telessérie "Sense8", o alemão Tom Tykwer já dava o que falar para os fãs de cinema europeu. Em 1999, lançou o ultrapop "Corra Lola, corra", que fez seu nome percorrer festivais e consagrar-se principalmente junto à plateia mais jovem. Depois de assinar também a adaptação do best-seller "Perfume: a história de um assassino" (2006) e o thriller político "Trama internacional" (2009), estrelado por Clive Owen e Naomi Watts - nenhum deles recebidos com o esperado estardalhaço - o cineasta resolveu polemizar um pouco e voltou à sua terra natal para realizar "Triângulo amoroso", uma história de amor nada convencional que lhe permitiu utilizar seu modo particular de fazer cinema sem a interferência de estúdios americanos. Um tanto ousado mas jamais vulgar ou imoral, seu filme retrata com inteligência e sofisticação a eterna busca pela realização amorosa e sexual sem nenhum ranço reducionista ou falsamente libertário: algo de que somente o cinema europeu é capaz.

A apresentadora de TV Hanna (Sophie Rois) e o engenheiro Simon (Sebastian Schipper) vivem juntos há cerca de vinte anos e levam uma vida confortável e pacífica. Justamente quando ele está com a mãe doente e descobre ter câncer em um dos testículos, ela conhece e sente-se irremediavelmente atraída por Adam (David Stresow), um médico mais jovem que não demora em dar sinais de que também está interessado nela. Os dois tornam-se amantes e algum tempo depois, Simon conhece o rapaz no vestiário do clube que ambos frequentam. Para sua surpresa - até então um heterossexual convicto - surge uma forte desejo entre eles, e um flerte inconsequente evolui para um caso mais sério. Sem que saibam disso, portanto, o casal mantém o mesmo amante, sem que isso atrapalhe seu relacionamento, maduro e estável. Quando eles finalmente decidem se casar, porém, uma gravidez inesperada os obriga a encarar uma realidade que eles preferiam manter escondida.


Com um elenco de atores que destoam radicalmente dos conceitos de beleza do cinema comercial e uma estrutura narrativa ágil e criativa - telas paralelas constantemente empurrando a trama, sem espaço para momentos de maior reflexão - "Triângulo amoroso" é um delicioso antídoto ao asséptico cinemão americano. Mesmo que suas cenas de sexo não mostrem mais do que o convencional, sua temática é tratada com maturidade e naturalidade, jamais buscando julgar seus personagens ou apontar certo ou errado. De forma sutil e inteligente, o roteiro, escrito pelo próprio diretor, vai apresentando seus personagens como gente de carne e osso, capazes de fraquezas quase imperdoáveis mas simpáticos o bastante para que sejam compreendidos pela plateia. Com uma espécie de lema "chumbo trocado não dói", Tykwer expõe com ironia as dificuldades dos cidadãos do novo milênio em impor seus desejos, diante da cerca do conservadorismo da sociedade. Até mesmo Hanna e Simon são vítimas de tais regras de comportamento, já que, mesmo aparentemente modernos e abertos a novas experiências, são incapazes de explicitá-las. Como um pivô involuntário, cabe a Adam tentar romper, mesmo que devagar, as barreiras que ele mesmo já derrubou em sua vida - ele tem um filho e tem uma relação bastante amistosa com a mãe da criança. É ele, com seu jeito mais leve de lidar com a vastidão de possibilidades da sexualidade, que irá ser o catalisador das mudanças na vida do casal - pelo menos aquelas que eles estiverem dispostos a aceitar. O final dessa confusão toda é surpreendente.

Com um visual elegante e características próprias de contar sua história, "Triângulo amoroso" insere-se em uma quase tradição do cinema europeu de retratar relacionamentos alternativos e/ou à frente do seu tempo. Assim como François Truffaut fez em "Jules e Jim: uma mulher para dois" (62), Tom Tykwer sacode a mesmice dos contos de fada oferecidos pelo cinema ao mostrar, sem meias palavras, uma forma nova de interrelação, de acordo mais com as necessidades pessoais do que com as normas impostas pela sociedade. Seu pulo do gato foi justamente incluir na equação a bissexualidade, um tema ainda pouco discutido a sério nas telonas. Seu filme pode não ser a última palavra no assunto, mas é uma necessária lufada de ar fresco na discussão. E além de tudo, é uma obra que acredita na força da imagem e da edição - elementos cruciais para o bom cinema, utilizados com maestria e inteligência. Um filme subestimado, que tem tudo para tornar-se cult com o passar do tempo.

sexta-feira

O PRIMEIRO QUE DISSE

O PRIMEIRO QUE DISSE (Mine vaganti, 2010, Fandango/Rai Cinema, 110min) Direção: Ferzan Ozpetek. Roteiro: Ferzan Ozpetek, Ivan Cotroneo. Fotografia: Maurizio Calvesi. Montagem: Patrizio Marone. Música: Pasquale Catalano. Figurino: Alessandro Lai. Direção de arte/cenários: Andrea Crisanti/Lily Pungitore. Produção: Domenico Procacci. Elenco: Riccardo Scamarcio, Nicole Gramaudo, Alessandro Preziosi, Ennio Fantastichini, Lunetta Savino. Estreia: 13/02/10 (Festival de Berlim)

Quem já assistiu ao belo "Um amor quase perfeito" (2001) - em que a médica interpretada por Margherita Buy descobre a vida dupla do marido depois que ele morre atropelado - e ao melancólico "A janela da frente" (2003) - que mostra Giovanna Mezzogiorno e seu charmoso vizinho Raul Bova investigando o passado de um desmemoriado senhor de idade encontrado vagando pelas ruas de Roma - sabem que o cineasta Ferzan Ozpetek sempre encontra um jeito de retratar de forma poética e respeitosa a homossexualidade, além de colocá-la frequentemente como ponto de suma importância em seus roteiros. Às vezes mais discretamente e em outras explicitamente, o assunto é peça fundamental de suas narrativas, e em "O primeiro que disse" é o ponto de partida para uma história que fala de hipocrisia, preconceito e da necessidade de se lutar pelos próprios sonhos. Um tanto melancólico mas com pitadas saudáveis de humor, seu filme é um libelo a favor da liberdade individual - ainda que para conquistá-la seja obrigatório romper padrões e expectativas alheias.

Tommaso Cantone (Riccardo Scamarcio) é o filho caçula de uma tradicional família proprietária de uma bem-sucedida fábrica de massas no interior da Itália. Vivendo há anos em Roma, ele sente-se livre para ir contra todos os planos dos pais, fazendo o curso de Letras, tentando a carreira de escritor e vivendo um romance com Marco (Carmine Recano). Em uma visita à casa paterna, ele decide contar a verdade sobre sua vida na capital e, assim, fugir da responsabilidade de comandar uma empresa com a qual não tem a menor afinidade. Para sua surpresa, porém, seu irmão mais velho, Antonio (Alessandro Preziosi) sai do armário antes dele, confessando seu amor por um antigo empregado da fábrica. Com o irmão expulso de casa pelo pai - que tem um enfarte logo em seguida - Tommaso se vê impedido de dar seguimento a seus planos e é obrigado a continuar morando na cidade e sendo a ligação entre a família e a empresa. Suas tentativas de esconder sua vida alternativa sofrem um duro golpe, no entanto, quando Marco resolve visitá-lo em busca de notícias - e chega acompanhado de um grupo de amigos nada discretos.


Assim como em "Um amor quase perfeito", Ozepetek cria, em seu filme, uma galeria de personagens coadjuvantes que emolduram a trama principal com graça e inteligência. Enquanto no primeiro filme eram os amigos de Michele (Stefano Accorsi) - um grupo de homossexuais que se tratavam como uma família alternativa - que roubavam a cena, em "O primeiro que disse" essa missão cabe aos familiares de Tommaso, um conjunto de personalidades que varia do patético (como a tia solteirona que alega ter ladrões invadindo constantemente seu quarto) ao hipócrita (o pai preconceituoso e cioso dos valores familiares mas que tem uma amante à vista de todos). Sob o olhar prescrutador da matriarca da família (Ilaria Occhini) - cujo passado tem um drama que a faz perceber o mundo com um ponto de vista mais benevolente e carinhoso - todo o clã vive sua rotina tentando encontrar maneiras de lidar com seus próprios problemas, retratados com sensibilidade e humor. Evitando a todo custo pesar a mão seja na questão da sexualidade ou na dos preconceitos arraigados do interior da Itália - onde meninas são obrigadas desde crianças a se comportarem como pequenas damas e a fofoca é quase um esporte nacional - o cineasta (um turco que vive na Itália desde os anos 70) trata seus personagens como um pai compreensivo, nem sempre concordando com eles, mas respeitando seus pontos de vista por piores que possam ser. Essa generosidade é uma das maiores qualidades de seu texto, que, além disso, injeta um bem-vindo senso de humor na hora mais do que apropriada.

Justamente quando "O primeiro que disse" está se levando a sério demais e as dúvidas de Tommaso a respeito de suas decisões estão a ponto de tornar o filme um dramalhão, Ozpetek surge com a brilhante ideia de jogar um bocado de sol na trama. A chegada de Marco e seus amigos - três gays espalhafatosos tentando disfarçar sua sexualidade para não chocar a conservadora família Cantone - dá um choque de humor na trama e a direciona para sua reta final, quando decisões terão de ser tomadas e/ou repensadas. Sem deixar seu roteiro cair na mesmice ou no didatismo, o cineasta encerra sua trama com uma bela e onírica sequência que mais faz pensar do que determina desfechos. Pode não ser uma opção que agrade a todos, mas ao menos é corajosa e coerente com a proposta de sacudir o status quo. "O primeiro que disse" é um filme que não apenas entretém: como toda a filmografia de Ferzan Ozpetek, é uma obra aberta a discussões que em momento algum perde sua qualidade de entretenimento. Louvável!

sábado

A GRANDE MENTIRA

A GRANDE MENTIRA(The debt, 2010, Miramax, 113min ) Direção: John Madden. Roteiro: Matthew Vaughn, Jane Goldman, Peter Straughan, roteiro original de Assaf Bernstein, Ido Rosenblum. Fotografia: Ben Davis. Montagem: Alexander Berner. Música: Thomas Newman. Figurino: Natalie Ward. Direção de arte/cenários: Jim Clay/John Bush. Produção executiva: Tarquin Pack. Produção: Eitan Evan, Eduardo Rossoff, Kris Thykier, Matthew Vaughn. Elenco: Helen Mirren, Tom Wilkinson, Jessica Chastain, Sam Worthingtn, Ciáran Hinds, Marton Csokas, Jesper Christensen. Estreia: 04/9/10 (Festival de Deauville)

Em um primeiro e rápido olhar, o John Madden da comédia romântica "Shakespeare apaixonado" não tem rigorosamente nada do diretor do sombrio "A grande mentira", refilmagem de uma produção israelense de 1997. Porém, basta um pouquinho mais de atenção para perceber em ambos - assim como no inteligente "A prova", estrelado por Gwyneth Paltrow, Anthony Hopkins e Jake Gyllenhaal - o carinho e o cuidado que o cineasta dedica ao elenco de seus filmes. Tudo bem que contar com gente do calibre de Helen Mirren, Tom Wilkinson e Jessica Chastain ajuda muito, mas é sua sensibilidade e elegância que dão ao filme - um thriller político com toques dramáticos e românticos - a força que o mantém na memória do espectador um bom tempo após o final da projeção. Sem exagerar na violência ou carregar no sentimentalismo, Madden consegue equilibrar com sucesso todos os elementos do roteiro, tratando seu público com inteligência e respeito. Injustamente inédito nos cinemas brasileiros, onde foi lançado diretamente em DVD, "A grande mentira" é daquelas obras raras, que tratam de um tema político empolgante sem deixar de prestar atenção no lado humano da situação - e o faz com um elenco nunca menos que sensacional.

A trama começa em 1997, com o lançamento de um livro que conta a corajosa história real de três jovens agentes do Mossad que foram responsáveis pela prisão e morte de um criminoso de guerra conhecido como "Cirurgião de Birkenau ", trinta anos antes. Escrito pela filha da única mulher do grupo, a veterana Rachel  Singer(Helen Mirren), o livro conta detalhes da missão que a transformou, junto com seu ex-marido, Stephan Gold (Tom Wilkinson), e com seu colega David Peretz (Ciarán Hinds), em heróis internacionais. O problema é que a versão oficial divulgada em 1966 não condiz com a verdade dos fatos e a situação torna-se insustentável quando David - que nunca recuperou-se totalmente das cicatrizes emocionais do caso - volta a procurar os antigos companheiros com a notícia de que eles estão a ponto de serem desmascarados. A doença de David e a impossibilidade física de Stephan (paraplégico depois de um atentado à bomba) obrigam Rachel a tomar para si a responsabilidade de resolver o problema - o que a leva a reviver os dias de tensão e paixão que vivenciou na segunda metade dos anos 60.


Em sua primeira missão como agente do Mossad, uma jovem e idealista Rachel (vivida pela sempre ótima Jessica Chastain) viaja para Berlim, para encontrar com seus dois colegas, o experiente Stephan (Marton Csokas) e o introvertido David (Sam Worthington, muito eficiente sem os efeitos visuais de "Avatar" e "Fúria de titãs"). Escalados para capturar um médico alemão responsável pela morte de milhares de judeus devido a suas experiências cruéis, os três não demoram a localizar sua presa, mas problemas de logística os obrigam a mantê-lo como refém no apartamento em que vivem, disfarçados como uma família normal. Não demora para que o médico, que assumiu o nome de Vogel (Jasper Christensen), descubra os pontos fracos de seus raptores e passe a utilizá-los a seu favor, o que leva a todos a um desfecho inesperado, violento e que não pode ser divulgado à mídia internacional.

Ainda que assuma de vez sua veia de thriller em seu ato final - quando Rachel assume a missão de encerrar de vez a história que começou trinta anos antes - "A grande mentira" caminha até então com elegância entre o suspense e o drama. Um de seus maiores méritos é inserir, dentro do contexto de tensão extrema do sequestro do criminoso nazista, um triângulo amoroso que, ao contrário de ser apenas uma distração romântica desnecessária, é ponto fundamental para o desenrolar da trama central. Inteligente em sua edição que vai e volta no tempo para mostrar atos e consequências e discreto em apelar para o sensacionalismo que normalmente vem acoplado a produções que versam sobre os horrores da II Guerra, é um filme que, a despeito da possível inverossimilhança de sua história, um trabalho envolvente e bem realizado, feito para quem gosta de filmes sérios sobre assuntos relevantes. Uma ótima - e ainda não descoberta - pedida.

domingo

SEM RETORNO

SEM RETORNO (Sin retorno, 2010, Castafiore Films/Haddock Films, 104min) Direção: Miguel Cohan. Roteiro: Miguel Cohan, Ana Cohan. Fotografia: Hugo Colace. Montagem: Fernando Pardo. Música: Lucio Godoy. Direção de arte: Carolina Urbieta. Produção executiva: Gerardo Herrero, Vanessa Ragone. Produção: Mariela Besuievsky. Elenco: Leonardo Sbaraglia, Martin Spliak, Ana Celentano, Luís Machín, Federico Luppi, Felipe Villanueva, Rocío Muñoz. Estreia: 30/9/10

Em uma época onde as leis parecem não ter o mesmo peso para pessoas de classes diferentes, um filme como "Sem retorno" soa como uma incisiva crônica sobre a realidade. Mesmo se passando em Buenos Aires, sua trama parece assustadoramente brasileira - ou universal? - no retrato que faz da desigualdade com que a justiça (menos cega do deveria) trata os menos favorecidos. Sem forçar a mão no tom político e deixando sua história falar por si, o diretor e corroteirista Miguel Cohan criou uma pequena pérola (mais uma) do cinema argentino. E para isso não precisou mais do que um roteiro enxuto, atores competentes e uma trama tão simples e real que parece ter saído dos noticiários de televisão - e, se for prestada a devida atenção, provavelmente foi.


O protagonista do filme é o humorista Federico Samaniego (Leonardo Sbaraglia), que trabalha duro como ventríloquo para pagar as contas da casa e sustentar a família, formada pela dedicada esposa Laura (Ana Celentano) e a filha pequena, Malena (Antonia Bengoechea). Em uma noite de sábado, voltando pra casa depois de ter substituído um colega doente, ele bate na bicicleta do jovem tatuador Pablo (Agustín Vázquez), com quem acaba tendo uma pequena discussão antes de deixar o local do acidente. Tudo ficaria assim se logo em seguida, o ciclista não fosse atropelado e morto por Matías (Martin Spliak), um estudante de arquitetura de classe média alta que dirigia alcoolizado. Apavorado com as prováveis consequências de seu ato, o rapaz foge do local e, chegando em casa, mente aos pais que teve o carro roubado. As investigações do seguro acabam por pressioná-lo e ele confessa a verdade ao pai, Ricardo (Luís Machín) - que resolve seguir com a mentira e incendiar o automóvel para evitar as inevitáveis complicações. O que eles não poderiam imaginar, porém, é que Federico fosse acabar acusado do crime - seu carro está com marcas da bicicleta de Pablo e ele estava embarcando em uma viagem com a família, o que foi considerado fuga (além de testemunhas pouco confiáveis terem o reconhecido como o autor da tragédia). Silenciando diante da injustiça, a família de Matías não imagina que está condenando um inocente a um pesadelo sem fim.


Começando sua narrativa como um filme de suspense - a edição que antecipa o acidente prende a atenção do espectador sem precisar fazer muito esforço - e aos poucos alterando seu tom para um contundente drama que contrapõe ações e reações, Miguel Cohan não poupa seu protagonista de um calvário dos mais revoltantes, mas aproveita para, até mesmo nessa situação caótica, oferecer a ele uma luz (ainda que discutível) para lhe ajudar no ato final, na figura de um colega de cela que se torna, de possível ameaça em um inesperado aliado. Também é interessante não transformar o jovem Matías em um vilão desalmado e irresponsável, provendo-lhe um sentimento de culpa que desvia o filme do maniqueísmo barato. Quando a terceira parte da história começa - e Federico sai da cadeia disposto a uma vingança - fica difícil para o espectador não compartilhar de sua ira, mas felizmente o roteiro mostra que nem só de preto e branco são feitos os desvãos do destino e o desfecho, apesar de anti-climático, é mais realista e coerente do que a maioria dos filmes que tratam do tema.

Amparado ainda em uma atuação intensa de Leonardo Sbaraglia, que fez parte do elenco de "Plata quemada" e "Cinzas do paraíso", duas produções aclamadas do cinema argentino, "Sem retorno" é um exemplar discreto do cinema do país, que não se furta a fazer um pertinente comentário acerca da situação social de sua sociedade através de uma história sobre seres reais e de impressionante ressonância - vale destacar também a forte presença do veterano Federico Luppi como o pai da vítima do acidente (e outro alvo da vingança do protagonista). Um filme a ser descoberto e discutido.

sábado

MÃOS QUE CURAM

MÃOS QUE CURAM (El mal ajeno, 2010, Mod Producciones, 107min) Direção: Oskar Santos. Roteiro: Daniel Sánchez Arévalo. Fotografia: Josu Inchaustegui. Montagem: Carlos Agulló. Música: Fernando Velázquez. Figurino: Tatiana Hernández. Direção de arte/cenários: Isabel Viñuales/María Teresa Die. Produção executiva: Simón de Santiago, Javier Ugarte. Produção: Alejandro Amenábar, Álvaro Augustín, Fernando Bovaira. Elenco: Eduardo Noriega, Belén Rueda, Angie Cepeda, Cristina Plazas, Clara Lago, Marcel Borràs, Carlos Leal. Estreia: 12/02/10 (Festival de Berlim)

O nome do chileno Alejandro Amenábar entre os produtores de "Mãos que curam" já dá uma ideia, ainda que vaga, do que o público pode esperar do primeiro longa-metragem do cineasta espanhol Oskar Santos. Assim como acontece na filmografia do diretor de obras cultuadas como "Preso na escuridão" e "Os outros", a história do médico que se descobre com o poder inesperado - e inexplicável - de curar através do toque das mãos não abre mão do tom de suspense, mas prefere voltar seu olhar para as consequências psicológicas e dramáticas da situação. Sem oferecer grandes respostas e buscando a cumplicidade da plateia unicamente através dos olhos do protagonista interpretado pelo ótimo Eduardo Noriega, o filme se distancia dos tradicionais representantes do gênero justamente por não cair na armadilha do susto pelo susto.

De certa forma é um pouco equivocado classificar "Mãos que curam" como um filme de suspense, uma vez que o roteiro muitas vezes deixa de lado a tensão - que volta nos momentos adequados - para concentrar-se nos dramas pessoais de seu personagem central, o médico Diego Sanz, um profissional dedicado e competente que acaba de se separar da mulher, Sara (Angie Cepeda), por sentir-se incapaz de romper a couraça de insensibilidade que construiu com o passar dos anos no tratamento de seus pacientes. Morando na casa do pai - um médico aposentado com quem divide o drama da solidão - ele tem sua vida transformada com uma inesperada tragédia: o acompanhante de uma paciente grávida (e em coma) se suicida em sua frente depois de tentar matá-lo. A partir daí, ele passa a perceber que está de posse do misterioso poder de cura com um simples toque - um poder que ele desconfia estar intimamente ligado a seu incidente. Para piorar as coisas, Diego descobre que sua nova capacidade tem um efeito colateral que pode vitimar as pessoas que ama.


A premissa de "Mãos que curam" é intrigante e bem desenvolvida pelo roteirista Daniel Sánchez Arévalo, que equilibra com bom senso o mistério a respeito do novo dom do protagonista - que é explicado sem os exageros do cinema comercial - e a forma com que ele lida com suas consequências, enfatizadas pela relação difícil com a filha adolescente, Ainhoa (Clara Lago) - que ele descobre namorar um colega seu, médico residente do mesmo hospital - e com sua aproximação com Isabel (Belén Rueda, sempre eficiente), a esposa do homem que tentou matá-lo e que busca compreender as razões que o aproximaram de sua amante, Pilar (Cristina Plazas), a mulher que parece ter a explicação para todo a situação. Mesmo que por muitas vezes seu ritmo soe lento demais para quem está acostumado às produções hollywoodianas - que preferem tratar o espectador como bobo - o filme de Santos tem a seu favor um roteiro coeso e inteligente, que dá a cada cena a devida importância, sem enrolar desnecessariamente. E também, além de tudo, a interpretação preciosa de Eduardo Noriega.

Protagonista de "Preso na escuridão" - que anos depois virou o execrável "Vanilla sky", estrelado por Tom Cruise no auge da canastrice - Noriega apresenta, em "Mãos que curam", uma maturidade muito bem-vinda. Econômico e contido, ele é o responsável por dar credibilidade a uma trama que, em outras mãos, poderia facilmente descambar para o inverossímil. Transitando com desenvoltura entre o drama familiar e o suspense sobrenatural, seu desempenho cativa o espectador sem precisar de muito esforço - e, ainda mais importante, justifica as decisões de seu personagem, por mais duvidosas que elas possam parecer em um primeiro olhar. Em um filme cujo desfecho pode desagradar a muita gente, seu trabalho faz uma diferença colossal.

quarta-feira

BRAVURA INDÔMITA

BRAVURA INDÔMITA (True grit, 2010, Paramount Pictures, 110min) Direção: Joel Coen, Ethan Coen. Roteiro: Ethan Coen, Joel Coen, romance de Charles Portis. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Roderick Jaynes. Música: Carter Burwell. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: Jess Gonchor/Nancy Haigh. Produção executiva: David Ellison, Megan Ellison, Robert Graf, Paul Schwake, Steven Spielberg. Produção: Ethan Coen, Joel Coen, Scott Rudin. Elenco: Jeff Bridges, Hailee Steinfeld, Matt Damon, Josh Brolin, Barry Pepper, Domhnall Gleeson. Estreia: 14/12/10

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Direção (Ethan Coen, Joel Coen), Ator (Jeff Bridges), Atriz Coadjuvante (Hailee Steinfeld), Roteiro Adaptado, Fotografia, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Edição de Som, Mixagem de Som

“Onde os fracos não tem vez”, que conquistou a Academia em 2007, já tinha os dois pés cravados em alguns dos mais fortes cânones do western, mas os irmãos Coen – que já haviam brincado com sucesso com vários gêneros caros ao cinema americano – ainda não tinham assinado um faroeste tradicional, daqueles com cavalos, tiroteios heróicos, xerifes, mocinhas valentes e crepúsculos espetaculares. “Bravura indômita”, lançado em 2010, acabou com essa falha. Baseado no romance de Charles Portis que também foi a base do filme de mesmo nome que deu o Oscar de melhor ator a John Wayne, o remake da dupla que já havia revirado os elementos do cinema noir (“Gosto de sangue” e “O homem que não estava lá”), das comédias malucas(“Arizona nunca mais”), dos filmes de gângsters (“Ajuste final”), dos musicais (“E aí, meu irmão cadê você?”) e das comédias românticas (“O amor custa caro”) é um exemplo típico do melhor que o cinemão hollywoodiano pode oferecer ao público quando se trata de narrativas clássicas. Bem escrito – com diálogos inteligentes e salpicados do humor típico dos diretores – e dirigido com extrema competência, é um filme capaz de agradar aos mais exigentes fãs do gênero e, de quebra, arrebanhar cinéfilos que nunca foram muito entusiastas de duelos ao sol.
Indicado a dez Oscar na cerimônia de 2011 dominada pela mediocridade de “O discurso do rei”, “Bravura indômita” mereceu cada uma de suas indicações. Com uma realização impecável – a mais requintada da carreira dos diretores – o filme transcende tanto o livro no qual é baseado quanto o original lançado em 1960. Dotada de uma irreverência e um sarcasmo apenas ensaiado no filme anterior, essa nova versão oferece ao espectador uma trama cujos conceitos de heroísmo, vingança e justiça são bem mais elásticos e coerentes com uma geração que certamente rejeitaria o maniqueísmo inerente aos gloriosos tempos do gênero, onde as mulheres normalmente eram relegadas a segundo plano. Só por ter como protagonista uma mulher – ou melhor dizendo, uma adolescente de 14 anos – “Bravura indômita” já mostra que tem mais a dizer do que a maioria de seus pares. Indicada inexplicavelmente ao Oscar de atriz coadjuvante – já que sua Mattie Ross é a personagem central da trama – a novata Hailee Steinfeld se mostra à altura do desafio, encarando sem medo a oportunidade de enfrentar, logo em sua estreia nas telas, nomes como Jeff Bridges, Matt Damon e Josh Brolin.
Mattie Ross, a personagem de Steinfeld, é uma jovem que chega a uma pequena cidade do interior para reclamar o corpo do pai, covardemente assassinado por um empregado, Tom Chaney (Josh Brolin, assustador). Dotada de uma coragem sem igual, ela quer, na verdade, caçar o criminoso e entregá-lo à justiça. Para isso, ela chega até o lendário Rooster Cogburn (Jeff Bridges), que há muito já deixou para trás seus melhores dias como caçador de recompensas. Aceitando a proposta da menina – teimosa e pouco afeita às delicadezas femininas que ele, bêbado e acostumado com o violento universo masculino de carteados e assassinatos – de buscar Chaney, Cogburn acaba se surpreendendo quando a própria contratante resolve acompanhá-lo na missão. Depois de uma série de discussões, os dois iniciam a jornada, juntamente com o xerife LaBoeuf (Matt Damon), também com razões de sobra para querer por as mãos no fora-da-lei.

Com essa história simples em mãos, Ethan e Joel Coen apagam a má impressão que deixaram com sua experiência anterior em remakes – quando transformaram “Quinteto da morte” no sem graça “Matadores de velhinhas” – e realizam um de seus melhores filmes. Normalmente acostumados a trabalhar com material próprio, eles acabam por transformar a história de Charles Portis em um território fértil para seu jeito particular de fazer cinema, salpicando de humor e uma certa estranheza uma trama aparentemente banal. Juntamente com cenas de estonteante beleza – cortesia da fotografia excepcional de Roger Deakins, que se aproveita dos cenários naturais para construir sequências de encher os olhos – os diretores apresentam uma visão ao mesmo tempo carinhosa e irônica a um gênero constantemente em processo de mutação e redescoberta pelo público. Avessos à violência explícita, eles não hesitam em mostrar corpos em putrefação quando necessário, mas evitam utilizá-la como artifício narrativo primordial, concentrando seu foco na relação entre o trio de personagens principais – uma relação calcada em um misto de admiração, desprezo e solidariedade que somente um roteiro tão repleto de nuances é capaz de apresentar sem parecer esquizofrênico ou incoerente. E além do senso de ritmo invejável – quando a história parece querer esfriar o temido Chaney entra em cena para agitar as coisas – os irmãos Coen também dão a Jeff Bridges mais um personagem dos melhores em sua carreira.
Brigão, ranzinza e politicamente incorreto, Rooster Cogburn deu  John Wayne seu único Oscar e quase deu a Bridges sua segunda estatueta apenas um ano depois de sua primeira vitória pelo cantor country de “Coração louco”. Sem medo das comparações com a clássica interpretação de um dos atores mais fortemente vinculados ao western americano, Bridges injetou a Cogburn um senso de humor ácido que combina com exatidão com a visão quase iconoclasta dos cineastas, que respeitam os elementos do faroeste sem precisar, para isso, ater-se à visão normalmente preconceituosa com que os filmes do gênero apresentavam de mulheres, indígenas e afins. O “Bravura indômita” do século XXI não entra em discussões sexistas ou raciais, preferindo abster-se de polêmicas e apenas contar, da melhor forma possível, uma boa história. Contando com a ajuda de um grande orçamento – e a produção executiva de Steven Spielberg – os oscarizados irmãos cineastas/roteiristas juntaram uma equipe técnica impecável, um elenco acima de qualquer suspeita, uma trama já testada e aprovada por várias gerações de cinéfilos e seu talento imenso para criar um novo clássico. Mesmo tendo perdido todos os Oscar a que concorria – injustamente, diga-se de passagem – “Bravura indômita” é um filme a ser lembrado como um perfeito exemplo do cinemão que só Hollywood é capaz de fazer.

O PREÇO DA TRAIÇÃO

  O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...