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segunda-feira

NA MIRA DO CHEFE


NA MIRA DO CHEFE (In Bruges, 2008, Focus Features/Film4/Blueprint Pictures, 107min) Direção e roteiro: Martin McDonagh. Fotografia: Eigil Bryld. Montagem: Jon Gregory. Música: Carter Burwell. Figurino: Jany Temine. Direção de arte/cenários: Michael Carlin/Anna Lynch-Robinson, Hendrick Moonen. Produção executiva: Jeff Abberley, Julia Blackman, Tessa Ross. Produção: Graham Broadbent; Elenco: Colin Farrell, Brendan Gleeson, Ralph Fiennes, Clémence Poésy, Ciarán Hinds, Zeljko Ivanek, Jéremie Renier. Estreia: 17/01/2008 (Festival de Sundance)

Indicado ao Oscar de Roteiro Original

Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator (Comédia/Musical): Colin Farrell  

Quando "Três anúncios para um crime" tornou-se um dos maiores destaques da temporada 2017/2018, o público viu-se diante de uma produção rara, onde personagens complexos (e um tanto excêntricos) serviam à uma trama bem escrita e com atores inspirados dirigidos com segurança e sensibilidade - a ponto de dois deles, Frances McDormand e Sam Rockwell, saírem da cerimônia do Oscar com suas estatuetas. O que grande parte desse público deslumbrado não sabia é que o estilo do diretor/roteirista Martin McDonagh já não era segredo nem aos cinéfilos mais antenados e nem mesmo à própria Academia: lançado no Festival de Sundance de 2008, a comédia policial "Na mira do chefe" foi festejada pela crítica a ponto de receber uma solitária - mas importante - indicação ao Oscar de roteiro original (onde foi derrotado pelo bem mais badalado "Milk: a voz da igualdade") e um Golden Globe de melhor ator em comédia/musical para Colin Farrell. Foram lembranças merecidas, que se juntaram ao BAFTA de melhor roteiro original e várias outras láureas, de críticos norte-americanos (Detroit, Boston, Florida, Nova York), estrangeiros (Itália e Rússia) e do prestigiado National Board of Review - que incluiu o filme entre as dez melhores produções independentes do ano.

"Na mira do chefe" é, a princípio, um filme policial: seus protagonistas, Ray (Colin Farrell) e Ken (Brandon Gleeson) são dois matadores de aluguel que, seguindo ordens de seu chefe, são mandados para uma pequena cidade belga chamada Bruges. Lá, eles devem esperar por um novo contato com instruções. Enquanto Ken segue os conselhos de seu patrão e tenta se divertir com os pontos turísticos e culturais do local, Ray não consegue deixar de lado as lembranças de uma missão que acabou tragicamente. Nem mesmo o encontro com Chloe (Clémence Poésy), parte da equipe de um filme que está sento realizado na cidade, muda o clima de depressão do jovem assassino. As coisas ficam ainda piores quando, irritado com a demora de Ken cumprir suas ordens, seu superior, Harry (Ralph Fiennes), também chega a Bruges para resolver de vez a questão - e descobre que as coisas não serão assim tão fáceis.


 O que afasta "Na mira do chefe" dos filmes policiais comuns é seu senso de humor particular. Não interessa a McDonagh um ritmo alucinado, com piadas em série sendo jogadas no rosto do espectador enquanto dezenas de pessoas são feridas e mortas e explosões ocorrem a cada esquina. Sua visão de comédia é mais centrada em ironias, em acontecimentos surreais, em personagens contraditórios. É assim que seus protagonistas, apesar de assassinos de aluguel, são humanos e despertam a simpatia do público. É assim também que um astro de cinema anão se torna peça fundamental no desenlace da trama. E, finalmente, é sem seus diálogos frescos e inteligentes que se encontra o maior tesouro de seu filme: se utilizando de elementos clássicos de gêneros consagrados, McDonagh os funde de forma a criar um novo estilo, que conversa brilhantemente com a filmografia de outros cineastas contemporâneos (em um primeiro olhar, os irmãos Coen e Quentin Tarantino parecem referências óbvias). Em seu filme seguinte, "Sete psicopatas e um shih tzu"(2012), o cineasta iria ainda mais longe em suas tentativas de borrar as linhas entre gêneros - e mais uma vez ficaria restrito à parcela mais alternativa do público.

Por fim, é impossível falar em "Na mira do chefe" sem louvar seu maior acerto: a escalação de elenco. Se Brandon Gleeson surpreende com um personagem que contraria seu tipo físico - e se mostra tão frágil quanto possível em momentos cruciais -, o trabalho de Colin Farrell é precioso. Mais uma vez demonstrando que é um dos mais subestimados atores de sua geração, Farrell constrói um Ray repleto de camadas, todas plenamente críveis e tratadas com sensibilidade ímpar. O ator irlandês - que surgiu como galã e aos poucos foi demonstrando um talento raro - faz rir e emociona com um personagem que, em mãos erradas, poderia facilmente se transformar em alguém patético ou detestável. Sob o domínio de Farrell, o angustiado Ray encontra o intérprete ideal, capaz de cativar a audiência com suas expressões de cão sem dono mesmo com um histórico profissional pouco recomendável. A química entre Gleeson e Farrell é impecável - e a presença de Ralph Fiennes no terço final do filme apenas a valoriza ainda mais. "Na mira do chefe" é uma produção repleta de qualidades memoráveis. É, sem espaço para qualquer dúvida, um dos filmes que merecem ser descobertos e amados.

domingo

HARRY POTTER E A CÂMARA SECRETA

HARRY POTTER E A CÂMARA SECRETA (Harry Potter and the chamber of secrets, 2002, Warner Bros, 161min) Direção: Chris Columbus. Roteiro: Steve Kloves, romance de J. K. Rowling. Fotografia: Roger Pratt. Montagem: Peter Honess. Música: John Williams. Figurino: Lindy Hemming. Direção de arte/cenários: Stuart Craig/Stephenie McMillan. Produção executiva: Michael Barnathan, David Barron, Chris Columbus, Mark Radcliffe. Produção: David Heyman. Elenco: Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint, Richard Harris, Maggie Smith, Kenneth Branagh, Julie Walters, Alan Rickman, Robbie Coltrane, Jason Isaacs, Tom Felton. Estreia: 03/11/02

Quando "Harry Potter e a câmara secreta" estreou, no final de 2002, até mesmo o público que não acompanhava a saga do jovem bruxo em sua encarnação literária já conhecia seu universo mágico: graças à "Harry Potter e a pedra filosofal", o primeiro capítulo de uma coleção que prometia estender-se até um sétimo volume, o mundo inteiro estava tomado por uma febre que não atingia apenas seu público-alvo (o infantojuvenil), mas que havia se espalhado também entre aqueles adultos sem medo de entregar-se à fantasia. Com uma renda mundial de quase 980 milhões de dólares e elogiado pela maioria dos críticos, o filme de Chris Columbus - diretor também de "Esqueceram de mim" (1990) e "Uma babá quase perfeita" (1993) - estabeleceu as regras do jogo, apresentou seus personagens e confirmou o apelo comercial que há muito tempo as editoras já conheciam (e festejavam). Sem mexer em um time já ganhando, a Warner manteve a mesma equipe do primeiro filme para a realização do segundo e, para a surpresa de ninguém, voltou a cativar plateias ao redor do mundo - e mais uma vez chegou perto de um sucesso quase bilionário, com uma bilheteria de 88 milhões de dólares em seu fim-de-semana de estreia. 

Mais sombrio do que o primeiro filme - em uma transformação gradual da série, que vai ficando menos ingênua conforme a trama vai caminhando e os protagonistas vão de crianças a adolescentes, "Harry Potter e a câmara secreta" é o filme mais longo da série, a despeito do fato de o livro no qual ele é baseado é o segundo mais curto da saga, e começou a ser filmado apenas três dias após a estreia de "Harry Potter e a pedra filosofal". Tal pressa tinha motivo: não apenas o elenco infantil logo começaria a passar pela puberdade (a tragédia de qualquer produtor) como o ator Richard Harris, que vivia um personagem crucial nos filmes, Alvo Dumbledore - um dos professores mais importantes de Hogwarts e peça fundamental na trajetória do protagonista - estava com a saúde debilitada a ponto de ser quase afastado das filmagens; Harris morreu poucas semanas antes do lançamento do filme, e foi substituído, nas produções seguintes, por Michael Gambon. Com o elenco reforçado pela presença de Jason Isaacs e Kenneth Branagh, "Harry Potter e a câmara secreta" consegue uma façanha e tanto: mantém o alto nível de entretenimento do primeiro filme (se é que não o eleva) e agrada em cheio aos fãs dos livros.


"Harry Potter e a câmara secreta" começa com um tom leve, mas não demora a mergulhar aos poucos em uma tensa jornada: ainda na casa de seus tios, Potter é visitado por um atrapalhado elfo doméstico, Dobby (voz de Tony Jones), que não apenas coloca o bruxinho em péssimos lençóis, graças a suas interferências em outros membros da família. Sua aparição, no entanto, tem motivos bastante sinistros: segundo ele, coisas horríveis estão para acontecer em Hogwarts, e Potter deve evitar voltar à escola. É claro que seus avisos de nada adiantam: Potter retorna para mais um ano letivo, assim como seus melhores amigos, Ron e Hermione, e logo de cara percebe que os conselhos que não seguiu estavam mais do que certos. Vozes vindas das paredes, escritos de sangue com mensagens enigmáticas e alunos sendo petrificados sem motivo aparente levam Harry a uma investigação que revela muito mais do que ele esperava e remete à uma misteriosa câmara secreta, cujo histórico é ligado à presença malévola de Voldemort, que controla (não se sabe como) o lendário quarto da escola.

Assim como em "Harry Potter e a pedra filosofal", o segundo filme dirigido por Columbus ainda mostra seus protagonistas aprendendo a lidar com seus novos dons e lutando contra o mal, seja ele na forma de um apavorante guardião da câmara secreta, na pele do maquiavélico Draco Malfoy (Tom Felton) ou na figura pouco amistosa de Voldemort - além das dúbias ações do professor Severo Snape (Alan Rickman). A primeira metade do filme é dedicada a ilustrar os acontecimentos funestos que ameaçam fechar a escola, e sua segunda parte hipnotiza o espectador com revelações surpreendentes e constrói um clímax dos mais interessantes. Kenneth Branagh - substituindo Hugh Grant, que não pode participar do filme por problemas de agenda - é a melhor e mais acertada aquisição neste segundo capítulo, interpretando um falastrão e vaidoso Gilderoy Lockhart, professor que mostra sua real personalidade quando é chamado a desafiar o mal vindo do tétrico cômodo. É ele quem equilibra o tom entre a comédia (especialidade de Ron) e a tragédia (cortesia de Voldemort em si). O elenco juvenil se mostra mais à vontade nas peles dos protagonistas, e os veteranos do grupo (Harris, Maggie Smith, Julie Walters, Alan Rickman) aproveitam cada minuto em cena para provar que, mesmo em um filme direcionado a uma plateia menos madura, são capazes de roubar a cena - coisa que os efeitos visuais, discretos mas eficientíssimos, ajuda a ressaltar. Tão bom quanto o primeiro capítulo da saga, "Harry Potter e a câmara secreta" é, também, o último da série dirigido por Chris Columbus - um cineasta acostumado com o sucesso e com o diálogo com a audiência mais jovem. Columbus deu o pontapé inicial a um universo que se tornaria, a cada filme, mais e mais escuro e surpreendente.

quarta-feira

BERNARD E DORIS: O MORDOMO E A MILIONÁRIA

BERNARD E DORIS: O MORDOMO E A MILIONÁRIA (Bernard and Doris, 2006, HBO Films, 103min) Direção: Bob Balaban. Roteiro: Hugh Costello. Fotografia: Mauricio Rubinstein. Montagem: Andy Keir. Música: Alex Wurman. Figurino: Joseph G. Aulisi. Direção de arte/cenários: Franckie Diago/Dirk Braeger. Produção executiva: Bob Balaban, Dana Brunetti, Jonathan Cavendish, Adam Kassen, Mark Kassen, Kevin Spacey. Elenco: Susan Sarandon, Ralph Fiennes, James Rebhorn, Monique Gabriela Curnen. Estreia: 17/10/07 (Festival de Hamptons)

Nascida em 1912 e filha única de um magnata da indústria do tabaco e da energia elétrica. Herdeira de uma fortuna estimada em 100 milhões de dólares (em 1925!). Garçonete de uma cantina no Egito durante a II Guerra Mundial. Correspondente de guerra e articulista da revista Harper's Bazaar. Surfista. Ambientalista ferrenha. Horticulturista apaixonada. Fã de jazz e música gospel a ponto de cantar em um coral. Casada duas vezes - com James H. R. Cornwell e com o diplomata Porfírio Rubirosa - e sem filhos (a única morreu com apenas um dia de vida). Excêntrica por natureza e possibilidades financeiras, Doris Duke foi uma das personalidades mais carismáticas da vida social norte-americana entre a década de 40 e 90, quando morreu aos 80 anos de idade em consequência de um edema pulmonar. Inteligente, culta e generosa, ela foi tema de uma minissérie de 1999 estrelada por Lauren Bacall ("Too rich: the secret life of Doris Duke) e sempre chamou atenção por seus ambiciosos projetos arquitetônicos, como um jardim de exposição pública em Nova Jersei, com onze jardins interligados que retratavam a cultura e a arquitetura de diversos países. Não muito conhecida fora dos EUA, Duke é também uma das protagonistas de "Bernard e Doris: o mordomo e a milionária", telefilme da HBO estrelado por Susan Sarandon e Ralph Fiennes, lançado em 2006 e indicado a três Golden Globes (melhor filme ou minissérie, ator e atriz) e dois SAG Awards (também para seus astros).


Dirigido pelo também ator Bob Balaban, "Bernard e Doris", como o título já antecipa, não é uma biografia de Doris, mas sim o retrato de sua relação de anos com o mordomo Bernard Lafferty, um irlandês homossexual e dedicado que se tornou, com o tempo, seu confidente e amigo mais próximo. O maior beneficiário do testamento de Boris, o introspectivo Bernard foi acusado de ter acelerado sua doença e manipulado a milionária para que lhe deixasse uma pequena fortuna - fato jamais comprovado - e sua morte, alguns anos mais tarde, foi lamentada por nomes como Elizabeth Taylor (com quem já havia trabalhado) e Sharon Stone. O relacionamento entre os dois, patroa e empregado, não é uma história repleta de lances dramáticos e reviravoltas, e sim um estudo delicado de personagens, realçado pelos desempenhos memoráveis de seus intérpretes. Excessivamente longo e por vezes um tanto cansativo, o filme de Balaban é um show de Sarandon e Fiennes, que, sozinhos, são capazes de transformar qualquer experiência em um espetáculo digno de nota - mesmo que o roteiro não seja exatamente interessante.


O filme começa com a chegada de Bernard à vida de Doris, tendo no currículo períodos trabalhando com Liz Taylor e Peggy Lee, entre outras celebridades. Não demora para que ele perceba que sua nova patroa é muito mais complexa do que aparenta ser nas manchetes dos jornais, e depois de um tempo, conquista sua confiança a ponto de fazer longas viagens com ela e dispor-se inclusive a lhe fazer confidências amorosas. Com sérios problemas de alcoolismo em sua vida, Bernard tenta esconder tal condição da milionária, mas tal objetivo torna-se cada vez mais difícil, especialmente depois de uma grave recaída - que põe em xeque sua lealdade e a reciprocidade de seus sentimentos. Construindo um Bernard Lafferty no limite entre o discreto e o afetado, Ralph Fiennes mais uma vez entrega um trabalho admirável, repleto de nuances e subtextos riquíssimos, ainda que mal aproveitados pelo roteiro esquemático de Hugh Costello. Susan Sarandon, por sua vez, brilha em uma personagem feita sob medida para seu talento superlativo: bela e carismática, ela engole tudo à sua volta quando entra em cena, e só não carrega o filme nas costas porque tem em Fiennes um parceiro à altura - é a dinâmica entre eles que vale cada minuto de projeção.

Apesar de ser uma produção da HBO - emissora conhecida pelo capricho de seus projetos - "Bernard e Doris" nunca consegue deixar para trás, no entanto, sua alma de filme feito para a televisão. Sua narrativa prescinde de um pouco mais de ousadia e nem mesmo consegue destacar-se em outros pontos artísticos, como a trilha sonora e a fotografia (competentes, mas opacas). Bob Balaban aposta todas as suas fichas em sua dupla de grandes atores protagonistas, e mesmo que eles sejam fabulosos e estejam em dias inspiradíssimos, não chega a ser suficiente para tornar o filme inesquecível. Tendo Kevin Spacey entre seus produtores executivos, é uma obra correta e simples, mas que perde a oportunidade de ser maior justamente por sua falta de pretensão. No caso de Doris Duke, esse não é um pecado facilmente perdoável.

sexta-feira

AVE, CÉSAR

AVE, CÉSAR! (Hail, Caesar!, 2016, Working Title Films, 106min) Direção e roteiro: Ethan Coen, Joel Coen. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Roderick Jaynes. Música: Carter Burwell. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: Jess Gonchor/Nancy Haigh. Produção executiva: Robert Graf. Produção: Tim Bevan, Ethan Coen, Joel Coen, Eric Fellner. Elenco: George Clooney, Josh Brolin, Channing Tatum, Ralph Fiennes, Scarlett Johansson, Alden Ehreinreich, Tilda Swinton, Frances McDormand, Jonah Hill, Alison Pill, David Krumholtz. Estreia: 01/02/16

Indicado ao Oscar de Direção de Arte/Cenários

Não é a primeira vez que os irmãos Coen brincam com os bastidores do cinema: em 1992 eles realizaram "Barton Fink: delírios de Hollywood", onde o dramaturgo interpretado por John Turturro (melhor ator no Festival de Cannes) se via diante de um inédito bloqueio criativo justamente quando é contratado para escrever o roteiro de um filme. Em "Ave, César", porém, eles vão ainda mais longe em seu retrato do mundo de ilusões construído pela capital do entretenimento - mais especificamente aquele erguido dentro do sistema dos grandes estúdios na década de 50. Sem deixar de lado seu humor cáustico e a preferência por personagens à margem do sistema (mesmo quando inserido nele), a dupla de cineastas faz uma das mais consistentes homenagens à indústria realizadas nos últimos anos, repleta de citações a astros e gêneros de um dos períodos mais ricos de Hollywood. Injustamente esquecido pelo Oscar e demais cerimônias de premiação da temporada (concorreu a uma única estatueta, por sua impecável direção de arte), "Ave, César" pode até ser considerado por muitos críticos como uma obra menor da dupla de diretores e roteiristas, mas jamais deixa de ser uma excelente opção para quem procura diversão inteligente.

Apesar de George Clooney ser o maior astro do elenco - e parceiro frequente dos cineastas, tendo trabalhado em "E aí, meu irmão, cadê você?" (2001), "O amor custa caro" (2003) e "Queime depois de ler" (2008) - o protagonista da história é interpretado por Josh Brolin, em mais uma atuação inspiradíssima. Ele interpreta Eddie Mannix, que vive de resolver crises nos bastidores de um grande estúdio da Hollywood dos anos 50, a Capitol Pictures. A trama se passa em um único dia, em que Mannix parece sobrecarregado de problemas alheios: o maior nome do estúdio, Baird Whitlock (George Clooney) - que está no final das filmagens de um milionário épico religioso - acaba de ser sequestrado por um grupo chamado "Nós somos o futuro" (na verdade, um grupo de roteiristas comunistas frustrados com o pagamento pífio que recebem por seu trabalho); a atriz DeeAnna Moran (Scarlett Johansson) está grávida e precisa esconder a situação dos fãs e da imprensa (que também não podem saber de sua vasta coleção de ex-maridos); o jovem astros de westerns Hobie Doyle (Alden Ehrenreich) está com dificuldades em fazer a transição para filmes dramáticos, para desespero do diretor Laurence Laurentz (Ralph Fiennes); e a dupla de irmãs colunistas de fofocas Thora e Thessaly Thacker (Tilda Swinton) ameaça por a boca no trombone e publicar uma história que em nada beneficia Whitlock. Sua única forma de escapar é aceitar a proposta de investir em uma companhia aérea que lhe oferece uma tentadora opção de vida.


Sem uma trama forte o bastante para sustentar seus 106 minutos, "Ave, César" (título do filme religioso estrelado por Baird Whitlock) constrói sua narrativa através da jornada de Mannix em busca da solução para os problemas que lhe são apresentados. Costura-se, assim, de forma orgânica e ágil, uma seleção de sequências fascinantes que vão formando um rico e empolgante panorama do cinema americano dos anos 50, com suas estrelas cintilantes e suas produções gigantescas. Nitidamente apaixonados por sua arte, os irmãos Coen conduzem o espectador por cenas que remetem diretamente aos espetáculos aquáticos de Esther Williams - através da personagem de Scarlett Johansson - e aos musicais de Gene Kelly - Channing Tatum mostra todo o seu dom de dançarino em uma bela sequência que em nada fica a dever aos clássicos do período. Até mesmo o épico produzido pelo estúdio fictício tem ecos de "Ben-hur"- e é hilariante a cena em que Mannix se reune com lideranças de várias religiões tentando encontrar um denominador comum que não ofenda a ninguém. Josh Brolin brilha com uma performance ao mesmo tempo irônica e desesperada, encontrando o tom exato de um personagem típico da dupla de diretores, que cutucam desde o poder dos estúdios sobre seus contratados até a histeria comunista que tomava conta do país no período. Contando ainda com participações especiais de Frances McDormand e Jonah Hill e uma reconstituição de época primorosa, "Ave, César" é uma comédia que substitui as gargalhadas pelo sorriso, mas é difícil não considerá-la uma das melhores produções do gênero na temporada.

Repleto de uma ironia deliciosa que se mistura com naturalidade à sincera homenagem à era de ouro de Hollywood, "Ave, César" conquista os fãs de cinema justamente por oferecer-lhes uma visão tanto romântica quanto satírica de suas entranhas. Enquanto o protagonista caminha pelos desvãos da indústria, o público acompanha, fascinado, os bastidores de um mundo à parte, construído por trás das câmeras e que move milhares de pessoas, muitas vezes anônimas. Ao virar sua câmera para o lado menos glamouroso do showbizz, o filme desmascara, com bom humor e sarcasmo, as aparências de um universo milimetricamente forjado para agradar um público ainda muito conservador, que rejeitava mães solteiras e galãs homossexuais mas consumia vorazmente qualquer fofoca a seu respeito. A força irresistível de tanto poder fica clara nas cenas finais, que parecem dizer que, apesar dos pesares, a arte sempre vale a pena. Uma comédia iluminada e sofisticada, "Ave, César" é um dos trabalhos mais fascinantes dos irmãos Coen. E, de quebra, um dos mais divertidos relatos sobre os bastidores do cinema.

O GRANDE HOTEL BUDAPESTE

O GRANDE HOTEL BUDAPESTE (The Grand Budapest Hotel, 2014, Fox Searchlight Pictures/Indian Paintbrush, 99min) Direção: Wes Anderson. Roteiro: Wes Anderson, estória de Wes Anderson, Hugo Guinness, inspirado em escritos de Stefan Zweig. Fotografia: Robert D. Yeoman. Montagem: Barney Pilling. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Milena Canonero. Direção de arte/cenários: Adam Stockhausen/Anna Pinnock. Produção executiva: Molly Cooper, Christoph Fisser, Henning Molfenter, Charlie Woebcken. Produção: Wes Anderson, Jeremy Dawson, Steven Rales, Scott Rudin. Elenco: Ralph Fiennes, F. Murray Abraham, Jude Law, Willem Dafoe, Adrien Brody, Jeff Goldblum, Saoirse Ronan, Mathieu Amalric, Harvey Keitel, Bill Murray, Edward Norton, Jason Schwartzman, Léa Seydoux, Tilda Swinton, Tom Wilkinson, Owen Wilson, Tony Revolori, Fisher Stevens, Bob Balaban. Estreia: 06/02/14 (Festival de Berlim)

9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Wes Anderson), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Maquiagem
Vencedor de 4 Oscar: Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Maquiagem
Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme (Comédia/Musical) 

 Dentre os filmes pouco convencionais selecionados pela Academia de Hollywood para concorrer ao principal Oscar de 2015 - "Birdman" e "Boyhood", por exemplo - nenhum é tão radicalmente a cara de seu autor quanto "O Grande Hotel Budapeste", escrito, dirigido e produzido por Wes Anderson, um dos cineastas menos afeitos a concessões comerciais que o cinema norte-americano gerou nos últimos quinze anos, desde que lançou o elogiado - e ignorado pelo público - "Três é demais", em 1998. Dono de um estilo facilmente reconhecível que equilibra com rara inteligência personagens excêntricos, histórias inusitadas e um visual milimetricamente planejado, Anderson faz parte de um time de poucos realizadores que tem uma marca própria dentro do cinema, como Tim Burton, Woody Allen e Pedro Almodovar. No entanto, ainda faltava a ele uma espécie de reconhecimento oficial por parte da indústria, que lhe desse o passaporte definitivo para a elite dos cineastas. Com as surpreendentes nove indicações conquistadas por seu novo filme (e a vitória em quatro categorias) tal passaporte já está carimbado. Só o fato de ter lutado de igual pra igual com produções bem menos criativas (e por conseguinte mais facilmente digeríveis pelos tradicionais e vestutos eleitores da Academia), "O Grande Hotel Budapeste" já pode ser considerado um campeão.

A trama - contada através de uma história dentro de uma história, em uma opção narrativa arriscada mas extremamente bem-sucedida - é aparentemente simples, mas repleta de bifurcações inusitadas e personagens surreais: quem começa a contá-la é um escritor consagrado (vivido por Tom Wilkinson na maturidade e Jude Law na juventude), que transmite ao público a história do misterioso Mr. Moustafa (F. Murray Abraham), dono do decadente Hotel Budapeste, localizado em um país fictício da Europa que teve seu auge no período entre-guerras. Solitário e discreto, Moustafa relembra, através de flashbacks, as reviravoltas que fizeram com que a imensa propriedade fosse parar em seu nome. Tais reviravoltas tem início quando ele, ainda jovem (e interpretado por Tony Revolori) consegue emprego como empregado do hotel, sob o comando do rígido e dedicado Gustave H. (Ralph Fiennes), que, além de ser o melhor concierge da região, não hesita em agradar as hóspedes de mais idade com noites regadas a champagne e sexo. Quando uma dessas visitantes frequentes, a milionária Céline Villeneuve Desgoffe und Taxis (Tilda Swinton irreconhecível sob pesada maquiagem vencedora do Oscar), morre aos 84 anos em sua mansão, ele resolve prestar suas últimas homenagens, atendendo a seu funeral. Para sua surpresa, porém, ele fica sabendo - junto com a ambiciosa família da falecida - que herdou um quadro de valor milionário, o que acaba lhe colocando em sérios apuros com a polícia: recusando-se a aceitar que a mãe tenha deixado tão valioso bem para um mero serviçal, o psicótico Dimitri (Adrien Brody) o acusa de assassinato e parte em sua captura, ao lado de seu violento capanga Jopling (Willem Dafoe). Quando eclode a II Guerra, cabe a Gustave provar sua inocência - contando, para isso, com o apoio de um clube secreto de concierges espalhados pelo mundo.


Dotado de um humor sofisticado que provoca mais sorrisos do que gargalhadas e de uma trama tão cheia de informações visuais que uma segunda sessão é mandatória, "O Grande Hotel Budapeste" é, tranquilamente, o melhor filme de Wes Anderson, refinando as características narrativas de "Os excêntricos Tenenbauns" e estilísticas de "Moonrise kingdom" e unindo-as em um espetáculo de qualidade estética ímpar. Único dos candidatos ao Oscar de fotografia a ser filmado em película - um feito digno de nota, especialmente quando se percebe a qualidade irretocável do meticuloso trabalho de Robert Yeoman - a obra de Anderson também é um triunfo de desenho de produção (também premiada pela Academia), tão impressionante com seus cenários grandiosos quanto a segurança do cineasta em equilibrar narrativas múltiplas sem perder o fio da meada ou confundir o espectador. Contando com um elenco acima de qualquer crítica - com destaque para Ralph Fiennes em raro registro cômico e Edward Norton em sua segunda parceria com o diretor, além da revelação Tony Revolori - o filme ainda se beneficia da inspirada trilha sonora (mais uma) de Alexandre Desplat, que comenta a ação como se fosse um personagem a mais e deu a ele uma merecida estatueta dourada. Ela é mais uma peça essencial em um dos mais empolgantes produtos cinematográficos dos últimos anos, um filme capaz de encantar qualquer fã da sétima arte e a prova cabal do talento de seu criador, até então escondido em pérolas de cinemateca - vulgo filmes amados por uma parcela de espectadores que não tem medo do diferente.

Ousado, criativo, original, inteligente. Faltam adjetivos para explicar porque "O Grande Hotel Budapeste" merece ser visto, revisto, trevisto e aplaudido todas as vezes. É um dos mais excitantes e inovadores produtos a sair de um lugar cada vez menos disposto a riscos como Hollywood. E além de tudo é uma comédia muito engraçada e excêntrica, que não precisa de um humor pastelão para arrancar risos. Precisa de mais motivos para ser genial?

segunda-feira

007 - OPERAÇÃO SKYFALL

007 - OPERAÇÃO SKYFALL (Skyfall, 2012, 143min ) Direção: Sam Mendes. Roteiro: Neal Purvis, Robert Wade, John Logan, personagens criados por Ian Fleming. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Stuart Baird, Kate Baird. Música: Thomas Newman. Figurino: Jany Temime. Direção de arte/cenários: Dennis Gassner/Anna Pinnock. Produção executiva: Callum McDougall. Produção: Barbara Broccoli, Michael G. Wilson. Elenco: Daniel Craig, Judi Dench, Javier Bardem, Ralph Fiennes, Naomie Harris, Albert Finney, Ben Wishaw, Rory Kinnear. Estreia: 23/10/12 (Londres)

5 indicações ao Oscar: Fotografia, Trilha Sonora Original, Canção Original ("Skyfall"), Edição de Som, Mixagem de Som
Vencedor de 2 Oscar: Canção ("Skyfall"), Edição de Som (empatado com "A hora mais escura")
Vencedor do Golden Globe de Melhor Canção ("Skyfall")

 Quando a sessão acaba uma certeza fica na mente do espectador: para se assistir ao festival de adrenalina que é "007 - Operação Skyfall" não é preciso ser fã de James Bond nem ao menos ter conhecimento além do estritamente básico sobre a saga do agente secreto mais famoso do cinema e da literatura - sim, afinal de contas ele nasceu da imaginação de Ian Fleming muito antes de assumir as feições de Sean Connery. O filme de Sam Mendes - surpreendentemente o mesmo homem que assinou "Beleza americana", "Estrada para Perdição" e "Foi apenas um sonho", obras extraordinárias mas bastante diferentes do que ele mostra aqui - é uma aventura que equilibra com precisão cenas extremamente bem dirigidas de ação, uma história interessante e algumas cenas que traem seu talento em buscar a emoção de suas personagens. Em suma, é um programa imperdível para os fãs de 007 e para quem gosta de um bom entretenimento.

Independente das outras aventuras do espião, "Skyfall" tem uma história empolgante e repleta de momentos inspiradores, que comprovam o acerto dos produtores em escalar Mendes para a direção. Oriundo do meio teatral inglês, o cineasta tem uma visão elegante e esteticamente apurada, o que dá à nova aventura de 007 um visual arrebatador, desde a fotografia espetacular do veterano Roger Deakins até à edição ágil mas nunca cansativa de Stuart Baird. O roteiro mescla com segurança tanto sequências de tirar o fôlego com uma trama inteligente e que dá espaço suficiente para o desenvolvimento de suas personagens - em especial a chefe de Bond, M, vivida pela sempre ótima Judi Dench e que aqui tem a chance de mostrar porque é uma das maiores atrizes britânicas de sua geração, acompanhada por um Ralph Fiennes em vias de tornar-se ator fixo da série e por um Daniel Craig cada vez mais à vontade no papel central.


Mesmo que a premissa do roteiro não seja exatamente um primor de originalidade - em tempos de "Missão impossível" e os filmes da série Bourne inventar entrechos geniais é um exercício inglório para qualquer escriba - a forma como a trama é desenvolvida jamais deixa a peteca cair. O que começa como uma busca desesperada por um arquivo que promete desmascarar todos os agentes secretos do MI6 (e consequentemente causar suas mortes) chega a um final apoteótico que remete às origens de James Bond - não sem antes passar pelos planos megalomaníacos de sempre do vilão da vez, aqui representado - e muito bem, diga-se de passagem - pelo assustador Javier Bardem, deitando e rolando com uma personagem das mais interessantes dos últimos anos - e que quase foi parar nas mãos de Kevin Spacey. Os duelos entre Bond e Silva (o vilão) são de prender a respiração, tanto nas disputas físicas quanto nos diálogos, bem escritos na medida certa para um filme-evento.

É difícil não sair satisfeito de uma sessão de "007 - Operação Skyfall". Tudo funciona à perfeição, desde o elenco e a direção até à trilha sonora - com destaque para o oscarizada canção-tema de Adele que abre o filme depois de uma sequência de tirar o fôlego - o ritmo e a parte técnica. É uma diversão de primeira linha, que mostra ao espectador em cada cena onde foi parar seu gigantesco orçamento. Agrada aos fãs e conquista aos neófitos sem maiores dificuldades. Ah, se todos os blockbusters fossem assim....

quarta-feira

SPIDER - DESAFIE SUA MENTE

SPIDER, DESAFIE SUA MENTE (Spider, 2002, Odeon Films/Capitol Films, 98min) Direção: David Cronenberg. Roteiro: Patrick McGrath, romance de sua autoria. Fotografia: Peter Suschitzky. Montagem: Ronald Sanders. Música: Howard Shore. Figurino: Denise Cronenberg. Direção de arte/cenários: Andrew Sanders/Marina Morris, Clive Thomasson. Produção executiva: Jane Barclay, Charles Finch, Simon Franks, Victor Hadida, Sharon Harel, Zygi Kamasa, Martin Katz, Hannah Leader, Luc Roeg. Produção: Catherine Bailey, David Cronenberg, Samuel Hadida. Elenco: Ralph Fiennes, Miranda Richardson, Gabriel Byrne, Lynn Redgrave, John Neville. Estreia: 21/5/92 (Festival de Cannes)

Capgras é uma síndrome psicológica real: seus portadores acreditam, sem sombra de dúvidas, que pessoas próximas a eles foram substituídas por impostores idênticos. Tal distúrbio é o ponto central de "Spider, desafie sua mente", mais um brilhante e perturbador filme do cineasta canadense David Cronenberg. Com roteiro do escritor Patrick McGrath inspirado em um romance de sua autoria, o filme acompanha os desvãos da mente distorcida de seu protagonista sem preocupar-se em ser didático, imergindo o público em um emaranhado de memórias alteradas, violência e adultério comandados por uma avassaladora interpretação de Ralph Fiennes. Silencioso, minimalista e assustador, o ator inglês entrega uma das maiores performances de sua carreira, injustamente ignorada por todas as cerimônias de premiação da temporada - e hipnotiza a plateia desde sua primeira aparição em cena.

Seu personagem, Dennis Clegg, é um homem que, depois de ter passado mais de vinte anos em uma instituição psiquiátrica, volta ao convívio da sociedade apesar de seu diagnóstico de esquizofrenia aguda. Com a ajuda de seus médicos, ele encontra um lar na pensão da Sra. Wilkinson (Lynn Redgrave), um local que abriga vários outros doentes mentais em graus diversos de patologia. Introvertido e paranoico, ele pouco interage com os demais moradores da pensão, preferindo, ao invés disso, descrever em um diário todas as suas impressões e lembranças - em um idioma que só ele consegue compreender. Torturado por suas lembranças, Clegg - cujo apelido de infância é Spider - passa os dias caminhando pelos arredores de sua antiga casa, tentando refazer em seu pensamento todos os acontecimentos que o levaram à instituição quando ainda era uma criança. Frequentando os bares e parques do bairro, ele volta a viver o drama de pertencer à uma família disfuncional desfeita por uma tragédia.


Na Londres dos anos 50, Clegg é um menino aparentemente normal, ainda que extremamente tímido. Filho único, ele presencia frequentemente as brigas entre seus pais, uma dona de casa dedicada (Miranda Richardson) e um encanador mulherengo e alcóolatra (Gabriel Byrne) conhecido em todos os bares das redondezas - e pelas prostitutas locais. É uma dessas mulheres (também vivida por Richardson, em um desempenho extraordinário) que acaba sendo a catalisadora da grande mudança na vida do garoto, quando, depois da violenta morte de sua mãe (assassinada depois de flagrar o marido com outra mulher), se casa com seu pai e passa a morar com os dois. Na mente traumatizada do pequeno Spider ela é exatamente igual fisicamente à sua amada e falecida mãe, o que acaba o levando a uma situação de confusão psicológica que tem um desfecho ainda mais trágico.

Sem deixar ao espectador uma linha clara entre o que é realidade e o que é apenas fruto da imaginação conflituosa de Spider, o roteiro de McGrath e a direção de Cronenberg borra propositalmente os limites entre as duas situações, transformando seu filme em uma experiência fascinante. Com seu olhar alucinado e vazio, Ralph Fiennes carrega nas costas a responsabilidade de intrigar e surpreender a audiência, e o faz com a segurança de sempre, construindo um personagem complexo com uma riqueza de detalhes (físicos e emocionais) impressionante - desde a forma como anda até a maneira como se relaciona com os colegas da pensão, tudo é minimamente calculado para dar consistência a um papel que, em mãos mais propensas a exageros, cairia fatalmente no ridículo ou no exagerado. Sua economia dramática, além do mais, encontra eco na fantástica interpretação de Miranda Richardson, que se divide em duas personagens antagônicas com uma naturalidade chocante: se Fiennes é a alma de "Spider", ela é o corpo e a culpa, capaz de deixar qualquer um de queixo caído.

Tenso, pesado, complexo - mas por isso mesmo brilhante, inteligente e melancólico - "Spider, desafie sua mente" é um dos trabalhos mais sensíveis de David Cronenberg, que deixa de lado sua tendência ao bizarro e ao escatológico para mergulhar em um universo ainda mais surreal e apavorante: a mente de um esquizofrênico. Graças ao roteiro inteligente e aos atores em momentos inspirados, criou um de seus melhores filmes.

segunda-feira

QUIZ SHOW - A VERDADE DOS BASTIDORES

QUIZ SHOW, A VERDADE DOS BASTIDORES (Quiz show, 1994, Hollywood Pictures/Baltimore Pictures, 133min) Direção: Robert Redford. Roteiro: Paul Attanasio, livro "Remembering America: a voice from the sixties", de Richard N. Goodwin. Fotografia: Michael Ballhaus. Montagem: Stu Linder. Música: Mark Isham. Figurino: Kathy O'Rear. Direção de arte/cenários: Jon Huttman/Samara Schaffer. Produção executiva: Richard Dreyfuss, Judith James, Frederick Zollo. Produção: Michael Jacobs, Julian Krainin, Michael Zonik, Robert Redford. Elenco: Ralph Fiennes, Rob Morrow, John Turturro, Paul Scofield, Christopher McDonald, David Paymer, Hank Azaria, Mira Sorvino, Griffin Dunne, Martin Scorsese, Barry Levinson. Estreia: 23/9/94

4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Robert Redford), Ator Coadjuvante (Paul Scofield), Roteiro Adaptado

O ano é 1958. Um dos mais populares programas de TV dos EUA, apresentado pela NBC, é o game-show "Twenty-one", apresentando por Jack Barry (Christopher McDonald), onde dois candidatos duelam pela possibilidade de ganhar até 100 mil dólares respondendo a perguntas de conhecimento geral. Percebendo que o campeão das últimas semanas, Herbie Stempel (John Turturro) já não tem mais a resposta entusiasmada da plateia (a audiência estancou e parece que não há jeito de voltar a subir), os patrocinadores do programa resolvem retirá-lo do show e substituí-lo por alguém mais palatável ao gosto médio. Stempel, um judeu do Queens sem formação acadêmica e de aparência pouco admirável, acaba sendo deixado de lado por Charles Van Doren (Ralph Fiennes), um professor universitário de considerável herança intelectual - e dono de uma beleza que passa a encantar as mulheres. Enquanto Van Doren começa a acumular uma bela fortuna saindo vencedor dos programas de que participa, o antigo concorrente, sentindo-se traído pela produção da emissora, resolve expor a rede de mentiras que se passa nos bastidores. Segundo ele, os participantes escolhidos como os vencedores já recebem todas as respostas antes do início da atração, como forma de garantir sua vitória. Suas acusações chegam até os ouvidos de Dick Goodwin (Rob Morrow), um jovem idealista e ambicioso que trabalha no Congresso Americano, que resolve tirá-las a limpo.

Esse escândalo de manipulação da mídia - fato hoje tão corriqueiro que nem chega mais a ser notícia - ocorreu de verdade e foi o tema do livro "Remembering America: a voice from the sixties", escrito pelo próprio Goodwin e serviu de base para o quarto filme do ator Robert Redford como cineasta, "Quiz show, a verdade dos bastidores". Indicado para quatro estatuetas da Academia - incluindo melhor filme, direção e roteiro - o filme é uma reconstituição sóbria e clássica de um período americano anterior ao pesadelo em que o país mergulharia com o assassinato de John Kennedy em 1963, que traria a reboque a guerra do Vietnã e o recrudescimento dos conflitos raciais. A perda da inocência que estava em vias de ocorrer talvez tenha se deixado vislumbrar com a história do "Twenty-one", parece dizer Redford, que nem por isso parece julgar os fatos que apresenta. Como bom cineasta contador de histórias, ele apenas serve como narrador, deixando as conclusões - e as opiniões - com o público.


E Redford talvez nunca tenha estado melhor como cineasta do que em "Quiz show". Amparado por um roteiro seguro e repleto de nuances sociais e psicológicas - o filme engloba tanto os meandros das emissoras de tv quanto os dramas pessoais dos envolvidos com a tramoia - ele também tira de seus atores interpretações viscerais: Ralph Fiennes - vindo direto da indicação ao Oscar por "A lista de Schindler" (93) - constroi um Charles Van Doren minimalista, sutil, que fala com os olhos e transmite sua variada gama de sentimentos sem precisar apelar para o óbvio (assim como o faz também o veterano Paul Scofield na pele de seu pai, uma atuação que colocou-o na lista dos concorrentes à estatueta de coadjuvante), enquanto John Turturro brilha na pele do exagerado, falastrão e dramático Herbie Stempel: o contraste entre as duas atuações é um golpe de mestre do diretor, que deixa claro ao público as motivações dos competidores. Van Doren sucumbiu à fama, à glória e até mesmo à ingenuidade de achar que sua vitória ajudaria na educação do país. Stemple precisava de dinheiro, de atenção, de ter o reconhecimento por sua cultura. Ambos caíram em desgraça.

Realizado com capricho - a ambientação e os figurinos são impecáveis - e dirigido com elegância e discrição, "Quiz show" chegou ao Oscar 95 enfrentando pesos-pesados como "Forrest Gump, o contador de histórias" e "Pulp fiction, tempo de violência", o que talvez explique o fato de ter saído de mãos abanando da cerimônia. Mas também é bem possível que os eleitores da Academia não tenham gostado de perceber o quanto podem ser manipulados pela mídia. A verdade doi, mesmo que venha embrulhada em um belo e fascinante papel de presente.

O LEITOR

O LEITOR (The reader, 2008, The Weinstein Company, 124min) Direção: Stephen Daldry. Roteiro: David Hare, romance de Barnard Schlink. Fotografia: Roger Deakins, Chris Menges. Montagem: Claire Simpson. Música: Nico Muhly. Figurino: Donna Maloney, Ann Roth. Direção de arte/cenários: Brigitte Broch/Karin Betzler, Eva Maria Stiebler. Produção executiva: Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Donna Gigliotti, Anthony Minghella, Redmond Morris, Sydney Pollack. Elenco: Ralph Fiennes, Kate Winslet, David Kross, Lena Olin, Bruno Ganz. Estreia: 12/12/08

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Stephen Daldry), Atriz (Kate Winslet), Roteiro Adaptado, Fotografia
Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Kate Winslet)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz Coadjuvante (Kate Winslet)

Seu primeiro filme, o emocionante "Billy Elliot", conquistou fãs mundo afora e lhe deu, de cara, uma indicação ao Oscar de diretor. Seu trabalho seguinte, a brilhante adaptação de "As horas", romance de Michael Cunningham, foi ainda mais longe, concorrendo a oito estatuetas, incluindo filme e direção - além de ter premiado Nicole Kidman por sua personificação da escritora Virginia Woolf. Portanto, com tanta boa vontade por parte da Academia de Hollywood, não foi nenhum choque quando Stephen Daldry voltou a disputar o ouro por sua terceira incursão por trás das câmeras. "O leitor", baseado no romance de Barnard Schlink foi furiosamente atacado pelos fãs xiitas do homem-morcego por ter, segundo sua visão distorcida da indústria das premiações, roubado a vaga de "Batman, o cavaleiro das trevas" na categoria de Melhor Filme no Oscar 2009, mas, a despeito das inúmeras qualidades do trabalho de Christopher Nolan em aprimorar sua visão do heroi interpretado por Christian Bale, a trágica história contada por Daldry mereceu seu lugar entre os cinco melhores filmes de 2008.

Certamente a temática de "O leitor", cujo pano de fundo são os crimes cometidos pelos nazistas contra os judeus na II Guerra Mundial, contribuiu para o sucesso do filme entre os eleitores da Academia, haja visto que o assunto nunca parece esgotar seu interesse entre eles - e não deixa de ser irônico que Kate Winslet tenha brincado com isso anos antes em um episódio da série "Extras", onde, na pele dela mesma, previa que só ganharia um Oscar quando fizesse um filme sobre o holocausto. Mas é inegável que, além disso, o trabalho de Daldry é rico em complexidade dramática, tocando em temas outros além do já explorado confronto entre alemães e aliados. Iniciando como uma história de amor, seguindo como um filme de julgamento e terminando em uma tragédia comovente, o filme oferece ao espectador um espectro de emoções que joga nova luz a um gênero que frequentemente mostra sinais de cansaço e mesmice. Escrito pelo mesmo David Hare que adaptou "As horas", o roteiro de "O leitor" tem três atos bem definidos que praticamente contam histórias diferentes, unidas pelos mesmos personagens e pelas escolhas que eles fazem - e que definem seus destinos.


Tudo começa quando, em uma pequena cidade do interior da Alemanha, o adolescente Michael (David Kross, rapaz talentoso que se entrega corajosamente a cenas bastante ousadas) conhece uma misteriosa e reservada funcionária do transporte público (Kate Winslet), que o ajuda quando ele está passando mal na rua. Os dois iniciam um romance secreto em sessões no apartamento simples da moça, que tem, entre seus maiores prazeres, ouví-lo ler os mais diversos livros, a que ouve encantada. De uma hora pra outra, porém, ela desaparece sem deixar vestígios, para tristeza do rapaz, que só vai reencontrá-la anos mais tarde em circunstâncias chocantes: já como estudante de Direito, ele é um dos espectadores do julgamento de um grupo de guardas nazistas acusadas do assassinato de centenas de mulheres judias durante a II Guerra e se choca ao descobrir que uma das rés é justamente a mulher por quem estava apaixonado. O terceiro ato - cujos desdobramentos são consequência direta do veredicto - acaba os reaproximando, mas de uma maneira totalmente inesperada para ambos... e para a plateia.

A julgar pelos bastidores movimentados e repletos de mudanças entre a equipe, é um milagre - e um prova do talento de Stephen Daldry - que "O leitor" seja um filme tão bom. Nos primórdios do projeto, Kate Winslet comprometeu-se com o papel central, mas acabou pulando fora devido a problemas de agenda que a impediram de estar nele e no ótimo "Foi apenas um sonho", dirigido pelo então marido Sam Mendes. Sua saída abriu espaço para Nicole Kidman - que ganhou seu Oscar sendo comandada por Daldry e via no papel de Hannah uma ótima oportunidade de voltar a ser levada a sério depois de uma sucessão de fracassos - que começaria a filmar assim que saísse dos sets de "Austrália". Então, uma surpresa: Kidman descobriu-se grávida e também abdicou do papel. Depois de Marion Cottilard, Naomi Watts e Juliette Binoche serem cotadas para substituí-la, porém, Winslet estava novamente disponível e reassumiu sua posição. Mas nesse momento, o problema era outro: o diretor de fotografia Roger Deakins teve que abandonar o filme devido aos atrasos - e seus compromissos com "Dúvida" e "Um homem sério" - e, mesmo tendo filmado todas as cenas sem a personagem de Winslet, deixou o resto do trabalho nas mãos do experiente Chris Menges. Ambos acabaram dividindo uma indicação ao Oscar, mas apenas Winslet saiu da cerimônia premiada - em um papel que os eleitores do Golden Globe consideraram coadjuvante, conforme a estatueta que lhe concederam um mês antes, juntamente com o reconhecimento como melhor atriz principal por "Foi apenas um sonho". Ufa!

Delicado, triste e profundo, "O leitor" foge da definição fácil de "filmes sobre o nazismo" para estabelecer-se como uma trágica história de amor que também fala sobre dignidade, culpa e o amor pela literatura. Mais um belo trabalho de Stephen Daldry.

quinta-feira

GUERRA AO TERROR

GUERRA AO TERROR (The hurt locker, 2008, Voltage Pictures, 131min) Direção: Kathryn Bigelow. Roteiro: Mark Boal. Fotografia: Barry Ackroyd. Montagem: Chris Innis, Bob Murawski. Figurino: George Little. Direção de arte/cenários: Karl Júlíusson/Ameen Al-Masri. Produção executiva: Tony Mark. Produção: Kathryn Bigelow, Mark Boal, Nicolas Chartier, Greg Shapiro. Elenco: Jeremy Renner, Anthony Mackie, Guy Pearce, Ralph Fiennes, David Morse, Evangeline Lilly. Estreia: 04/9/08 (Festival de Veneza)

9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Kathryn Bigelow), Ator (Jeremy Renner), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Edição de Som, Mixagem de Som
Vencedor de 6 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Kathryn Bigelow), Roteiro Original, Montagem, Edição de Som, Mixagem de Som

A trajetória de "Guerra ao terror" rumo ao Oscar 2010 - de onde saiu vitorioso em seis categorias, incluindo as duas mais importantes, de filme e direção - não deixa de ser curiosa. Desinteressada em dirigir o roteiro de Mark Boal, a cineasta Kathryn Bigelow (cujo maior sucesso de bilheteria havia sido nos anos 90, com o filme de ação "Caçadores de emoção", com Patrick Swayze e Keanu Reeves) teve de ser convencida por seu ex-marido, James Cameron, a assumir o comando do filme, que ele previa ser "o 'Platoon' da guerra do Iraque". Com filmagens na Jordânia - mascarada como Bagdá - e um orçamento estimado em cerca de meros 15 milhões de dólares, o filme estreou no Festival de Veneza, recebeu elogios calorosos e passou a fazer parte do circuito dos festivais de cinema, só estreando pra valer nos EUA na metade de 2009, passando quase despercebido pelo público sedento pelos filmes-evento do verão americano. Se tivesse estreado em 2008 - ano de sua première na Itália - o trabalho de Bigelow teria chegado à cerimônia da Academia (se fosse indicado) junto com "O curioso caso de Benjamin Button" e o mega-vencedor "Quem quer ser um milionário?", o que dificultaria muito suas chances de vitória. O adiamento de sua estreia e seu subsequente arrastão de prêmios - críticos de Boston, críticos de Chicago, sindicato de diretores, críticos de Las Vegas e Los Angeles - pavimentou seu caminho, porém, para que, mesmo sem uma bilheteria relevante, disputasse o maior prêmio do cinema com o blockbuster dos blockbusters, "Avatar", dirigido justamente pelo mesmo Cameron que jamais imaginaria que perderia seu posto de rei do mundo - ao menos no Oscar - para sua antiga parceira.

Ao narrar a rotina de um grupo de soldados americanos que tem a ingrata missão de desarmar bombas no calor da guerra do Iraque, o roteiro de Boal - que voltaria ao assunto no tenso "A hora mais escura", novamente sob a direção de Bigelow - foge do tradicional maniqueísmo dos filmes do gênero, pouco espaço dando a batalhas entre ianques e iraquianos, preferindo focar-se no dia-a-dia de poucos personagens, cujas vidas fora do campo de batalha só é revelada à audiência em pequenos flashes, como uma espécie de lembranças queridas. É através desses lapsos narrativos que o público fica conhecendo mais a fundo a personalidade de seu protagonista, o sargento William James (o ótimo Jeremy Renner, no papel que lhe deu uma indicação ao Oscar e a chance de ser reconhecido pelo grande público, apesar de já ter participado de filmes de grande porte, como "SWAT"), um homem corajoso mas acima de tudo viciado em adrenalina, o que o coloca imediatamente em rota de colisão com seus colegas de grupo, não tão apaixonados pelo perigo quanto ele.


Cruamente fotografado por Barry Ackroyd - que transmite com exatidão o calor do deserto iraquiano enquanto não deixa escapar uma gota sequer de suor derramado pelos personagens criados por Boal em seu roteiro enxuto e desprovido de julgamentos morais e políticos - "Guerra ao terror" é uma espécie de crônica do conflito no Oriente Médio, um recorte direto e sem firulas de uma guerra vista somente por quem está dentro dela (daí a qualidade do texto, que equilibra realismo e um certo senso de humor inesperado vindo dos frequentes atritos entre James e seus companheiros de missão). Sem deixar de lado uma certa dose de humanismo - como a relação entre o protagonista e um menino vendedor de dvds piratas que acaba sendo o catalisador de uma das sequências mais tensas do filme - o trabalho de Bigelow leva o público a acompanhar cada missão dos personagens com uma tensão crescente, ampliada pela inteligência de situar a trama em um período específico de tempo - até o final coerente e emocionante.

Se "Guerra ao terror" mereceu os seis Oscar que ganhou é uma questão que jamais será unânime - afinal, disputou a estatueta também com filmes importantes como "Bastardos inglórios" e "Distrito 9", que, cada um à sua maneira, subverteram as regras do jogo da indústria cinematográfica com inventividade e talento. Mas é inegável que, apesar do sucesso comercial de "Avatar" (seu principal adversário, que extrapolou os limites da criatividade visual de Hollywood), o filme de Bigelow mostrou que às vezes a simplicidade e relevância política valem mais do que orçamentos milionários. E que - apesar da presença de alguns nomes de peso, com Guy Pearce e Ralph Fiennes em participações especialíssimas - atores, mesmo os pouco conhecidos, valem mais do que efeitos visuais.

quarta-feira

ENCONTRO DE AMOR

ENCONTRO DE AMOR (Maid in Manhattan, 2002, Revolution Studios, 105min ) Direção: Wayne Wang. Roteiro: Kevin Wade, estória de Edmond Dantès (pseudônimo de John Hughes). Fotografia: Karl Walter Lindelaub. Montagem: Craig McKay. Música: Alan Silvestri. Figurino: Albert Wolsky.  Direção de arte/cenários: Jane Musky/Susan Tyson. Produção executiva: Benny Medina, Charles Newirth. Produção: Elaine Goldsmith-Thomas, Paul Schiff, Deborah Schindler. Elenco: Jennifer Lopez, Ralph Fiennes, Stanley Tucci, Bob Hoskins, Natasha Richardson, Tyler Posey, Frances Conroy. Estreia: 13/12/02

Famoso por seus clássicos adolescentes dos anos 80, como "A garota de rosa-shocking", "Gatinhas e gatões" e "Clube dos cinco", o cineasta John Hughes escreveu, no final dos anos 90, um roteiro inspirado na história real do filho do governador Nelson Rockefeller, que se casou com a camareira de um de seus vários hoteis em 1959. Adaptado para se passar na Chigado dos anos 20, o filme seria estrelado por Hilary Swank, mas conforme o tempo foi passando, as coisas iam mudando. Depois que Hughes resolveu apenas produzir, nomes como Sandra Bullock e Julia Roberts foram cotadas para o papel principal e o cineasta Wayne Wang - nascido em Hong Kong e diretor de pequenos grandes filmes como "Cortina de fumaça" e "Clube da felicidade e da sorte" - assumiu o comando do projeto. Quando o filme finalmente viu a luz dos refletores, no final de 2002, com a cantora Jennifer Lopez na liderança do elenco, pouco restava do script de Hughes, que pediu para ter seu nome removido dos créditos. Dessa vez passado na Nova York de 2001, "Encontro de amor" conquistou às plateias românticas, os fãs de J-Lo e ao estúdio, que não se decepcionou com a renda doméstica que beirou os 100 milhões de dólares de arrecadação.

No entanto, o sucesso de bilheteria tem mais ver com o poder de Lopez em atingir seu público do que com as qualidades do filme. Mesmo que seja leve, visualmente agradável e bem interpretado - especialmente pelo sempre confiável Ralph Fiennes - "Encontro de amor" é apenas mais um drama romântico, sem nada que o diferencie de dezenas de outras produções do gênero. Frustra quem procura mais do que isso, mas agrada em cheio ao público (especialmente o feminino) com um trama ingênua e fantasiosa que mistura tudo aquilo que pode: identidades trocadas, crianças adoráveis, sofisticação e uma dupla central atraente. Com isso em mãos, a chance de erro era mínima, e não seria Wang, um cineasta sensível e atento às idiossincrasias humanas, que poria tudo a perder.


Lopez, que não é uma grande atriz, mas tem presença de cena, é linda e carismática, interpreta Marisa Ventura , uma das dezenas de camareiras de um imponente hotel de Nova York, que frequentemente passa em branco por seus sofisticados clientes - que muitas vezes nem lembram seu nome ou rosto. Criando praticamente sozinha seu filho pequeno, que tem uma curiosa admiração por grandes oradores políticos, Marisa sonha em tornar-se subgerente do hotel, como forma de levar uma vida menos sacrificante. Sua grande chance de atingir seu objetivo acontece, porém, na mesma época em que, por uma ironia do destino, ela passa a ser confundida com uma hóspede milionária justamente por Christopher Marshall (Ralph Fiennes), candidato ao Senado americano. Sem desconfiar de suas origens humildes, Marshall se sente irremediavelmente atraído por ela, que corresponde o sentimento mesmo sabendo que o romance tem data marcada para acabar.

Pontuado por uma trilha sonora que inclui duas belas canções de Norah Jones, "Encontro de amor" oferece ao espectador exatamente o que promete. Não muda a história do cinema e nem ao menos de seu gênero. Não irá para a lista dos favoritos de ninguém que leve o cinema a sério, e tampouco entrará na lista dos melhores do estilo. Mas é uma sessão da tarde competente, que utiliza de todos os clichês das comédias românticas a seu favor.

terça-feira

O JARDINEIRO FIEL


O JARDINEIRO FIEL (The constant gardener, 2005, Universal Pictures, 129min) Direção: Fernando Meirelles. Roteiro: Jeffrey Cane, romance de John Le Carré. Fotografia: César Charlone. Montagem: Claire Simpson. Música: Alberto Iglesias. Figurino: Odile Dicks Mireaux. Direção de arte/cenários: Mark Tildesley/Michelle Day. Produção executiva: Jeff Abberley, Julia Blackman, Gail Egan, Robert Jones, Donald Ranvaud. Produção: Simon Channing Williams. Elenco: Ralph Fiennes, Rachel Weisz, Hubert Koundé, Pete Postletwhaite, Danny Huston, Bill Nighy. Estreia: 31/8/05


4 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Rachel Weisz), Roteiro Adaptado, Montagem, Trilha Sonora Original
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Rachel Weisz)
Vencedor do Golden Globe de Atriz Coadjuvante (Rachel Weisz)
Vencedor do Screen Actor Guild Award de Atriz Coadjuvante (Rachel Weisz)

Incensado mundialmente como um dos melhores filmes de 2002, o nacional "Cidade de Deus" não apenas apontou um novo caminho pro cinema tupiniquim mas também abriu as portas de Hollywood para seu diretor, o merecidamente aplaudido Fernando Meirelles. E comprovando que seu festejado segundo filme não era apenas um golpe aleatório de sorte, seu novo trabalho - a adaptação de um romance do best-seller John Le Carré - também conquistou a crítica e, se não causou o mesmo furor, ao menos não fez feio nas cerimônias de premiação, dando a até então limitada Rachel Weisz um Oscar de coadjuvante.


Mesmo que não seja uma grande atriz - o que seu trabalho medíocre em filmes como "Círculo de fogo" e "A múmia" deixa bem claro - Weisz se sai bastante bem na pele de Tessa Quayle, uma personagem que, no livro de Le Carré, é bem menos desenvolvida dramaticamente. No roteiro de Jeffrey Cane - também indicado a um prêmio da Academia - a esposa do diplomata Justin Quayle (em mais uma atuação competente de Ralph Fiennes) assume uma importância mais ativa do que nas páginas do romance, onde é constantemente citada (mesmo porque a trama tem início com sua morte) mas pouco age. No filme de Meirelles - que rendeu mais de 80 milhões de dólares no mercado americano, o que não é nada desprezível em se tratando de um filme adulto e sem efeitos visuais - ela é uma peça bem mais atuante, unindo as lembranças de seu marido a uma trama bastante contundente sobre a indústria farmacêutica e a corrupção no Quênia (o que inclusive fez com que o romance que deu origem ao filme fosse proibido no país).



Quando "O jardineiro fiel" a jovem Tessa Quayle acaba de morrer, para desespero de seu marido, o diplomata Justin Quayle, que casou-se com ela completamente apaixonado, apesar de suas diferenças políticas. Ferrenha ativista na defesa da população carente do Quênia, ela acabou encontrando a morte em circunstâncias misteriosas, o que faz com que seu viúvo parta em busca de respostas para a violência. No caminho, ele conta com a ajuda do amigo Sandy Woodrow (Danny Huston) - que também tem seus segredos - para investigar uma rede de corrupção que envolve testes do governo inglês a respeito de um medicamento que vem sendo testado secretamente e que tem relação direta com o assassinato de sua mulher.

Editado com vigor por Claire Simpson e contando com uma potente trilha sonora de Alberto Iglesias - ambos indicados merecidamente ao Oscar - "O jardineiro fiel" é um thriller dono de uma inteligência acima da média, que exige de seu espectador mais do que a maioria dos filmes americanos do gênero. Ao optar em contar sua história de forma não-linear (os flashbacks são utilizados de maneira exemplar), Fernando Meirelles solicita ao público que preste atenção em detalhes, em sutilezas e no cuidado que ele tem em cada cena, em cada ângulo. Nada é clichê em seu filme, que usa e abusa de efeitos de câmera para transmitir a sensação de urgência e pressa de seu protagonista, em uma fotografia que explora o calor da África a seu favor.  É uma das características mais dignas de aplauso de Meirelles, aliás, a forma com que ele equilibra com maestria uma direção competente de atores com a parte técnica de seus filmes. O conjunto de técnica e emoção que funcionou com perfeição em "Cidade de Deus" volta a dar certo aqui, para alívio dos fãs de bom cinema.

"O jardineiro fiel" é, sem dúvida, um dos grandes filmes de 2005. É um filme inteligente, interessante, dirigido com extrema competência e que versa sobre assuntos importantes e de certa forma chocantes. Uma bela estreia hollywoodiana para Fernando Meirelles.

segunda-feira

DRAGÃO VERMELHO

DRAGÃO VERMELHO (Red dragon, 2002, Universal Pictures, 124min) Direção: Brett Ratner. Roteiro: Ted Tally, romance de Thomas Harris. Fotografia: Dante Spinotti. Montagem: Mark Helfrich. Música: Danny Elfman. Figurino: Betsy Heinman. Direção de arte/cenários: Kristi Zea/Karen O'Hara. Produção executiva: Andrew Z. Davis. Produção: Dino de Laurentiis, Martha de Laurentiis. Elenco: Anthony Hopkins, Edward Norton, Ralph Fiennes, Harvey Keitel, Philip Seymour Hoffman, Emily Watson, Mary-Louise Parker, Anthony Heald, Bill Duke. Estreia: 30/9/02

Em 1991 o cineasta Jonathan Demme - mais conhecido pela comédia de humor negro "Totalmente selvagem" - pegou todo mundo de surpresa com o aterrador "O silêncio dos inocentes", suspense de primeira linha adaptado do romance de Thomas Harris que não só fez enorme sucesso de bilheteria e papou as cinco principais estatuetas do Oscar - deixando filmes mais "acadêmicos" como "Bugsy" comendo poeira - como também ressuscitou a carreira do ator galês Anthony Hopkins, que entrou instantaneamente para o panteão dos grandes vilões da história do cinema. Como em Hollywood a ganância fala muito mais alto do que a integridade artística, em 2001 foi lançado "Hannibal", uma tenebrosa continuação dirigida por Ridley Scott, que substituía Jodie Foster por Julianne Moore e a sutileza pelo horror explícito. A galinha dos ovos de ouro ainda dava grana (mais de 160 milhões arrecadados nos EUA pela segunda parte) e ninguém se surpreendeu quando "Dragão vermelho" estreou, ainda com Hopkins no papel do canibal Hannibal Lecter. Dirigido pelo eficiente porém jamais brilhante Brett Ratner, o filme chegou a um meio-termo interessante: não é genial como o primeiro e tampouco sofrível como o segundo.

O fato de "Dragão vermelho" já ter sido adaptado para as telas antes - mais precisamente em 1986, com o título de "Manhunter", dirigido por um Michael Mann na fase "Miami Vice" e estrelado por Brian Cox e William Petersen - não foi problema para os produtores dessa nova versão, que presumiram (com certa razão) que o público não tinha  isso registrado na memória. Sendo assim, com um novo título (o original do romance publicado em 1981), o filme chegou às telas cercado de razoável expectativa, em parte devido à personagem Lecter e em parte por causa do elenco excepcional reunido por Ratner: além de Hopkins desfilam pela tela Edward Norton, Ralph Fiennes, Emily Watson, Philip Seymour Hoffman e Harvey Keitel, todos velhos conhecidos do Oscar (com exceção de Hoffman, que levaria sua estatueta três anos depois). Juntos, eles dão consistência a uma história interessante o bastante para apagar a má impressão causada pelo trabalho de Ridley Scott.



"Dragão vermelho" se passa antes dos acontecimentos de "O silêncio dos inocentes" e começa quando o jovem agente do FBI Will Graham (um Edward Norton jovial que aproveitou o cachê do filme para financiar o ótimo "A última noite") é procurado por seu antigo chefe Jack Crawford (Harvey Keitel) para colaborar na elaboração do perfil psicológico de um serial killer apelidado de "Fada do Dente". Aposentado desde que foi seriamente ferido pelo psiquiatra Hannibal Lecter (a quem capturou), Graham se recusa a participar de mais uma caçada, mas é convencido a voltar atrás e contar com a ajuda do canibal para chegar até o novo assassino. Assim como em "O silêncio dos inocentes", o roteiro não se preocupa em esconder a identidade do criminoso. Francis Dolarhyde (Ralph Fiennes em papel que interessava a Michael Jackson (!!)) trabalha em um laboratório de revelação de filmes fotográficos e, com um passado traumático, é um assassino frio e meticuloso que se envolve romanticamente com uma colega de trabalho cega (Emily Watson) que não vê os defeitos físicos que ele julga ter. Enquanto chega cada vez mais perto do assassino, o detetive tem que preocupar-se também com o fato de sua família estar desprotegida na ilha onde isolou-se depois da aposentadoria.

Como dito anteriormente, Brett Ratner não é um Jonathan Demme e isso fica claro na maneira quase quadradinha com que move sua história (novamente adaptada pelo oscarizado Ted Tally). O tom sufocante e opressivo de "O silêncio dos inocentes" foi substituído por um clima menos sombrio, mais comercial, sem maiores ouadias. Até mesmo Anthony Hopkins parece estar no piloto automático, não acrescentando à sua brilhante personagem nenhuma nuance a mais (o que não significa que não esteja ótimo como sempre, mas apenas acomodado). O mesmo acontece com Edward Norton, que não precisa muito para convencer em seu papel, ainda que pareça jovem demais para viver um agente aposentado. Sobressai-se então, mais uma vez, o excelente Ralph Fiennes, vivendo um Francis Dolarhyde bem mais complexo e digno de compaixão do que o Buffalo Bill interpretado por Ted Levine no filme de Demme. Suas cenas com Emily Watson são as mais interessantes da obra, em uma dinâmica dramática que envolve muito mais do que a trama policial (cujo clímax não deixa de ser quase requentado).

Porém, como filme de suspense "Dragão vermelho" não apenas convence como é bastante superior à média. Compará-lo com "O silêncio dos inocentes" chega a ser covardia. Mas que deixa "Hannibal" bem pra trás em matéria de qualidade não há como negar. Não ousa, mas não estraga. O que já é muito bom.

terça-feira

FIM DE CASO


FIM DE CASO (The end of the affair, 1999, Columbia Pictures, 102min) Direção: Neil Jordan. Roteiro: Neil Jordan, romance de Graham Greene. Fotografia: Roger Pratt. Montagem: Tony Lawson. Música: Michael Nyman. Figurino: Sandy Powell. Direção de arte/cenários: Anthony Pratt/John Bush, Joanne Woolard. Produção: Neil Jordan, Stephen Wooley. Elenco: Ralph Fiennes, Julianne Moore, Stephen Rea, Ian Hart, Jason Isaacs. Estreia: 02/12/99

2 indicações ao Oscar: Atriz (Julianne Moore), Fotografia

Publicado em 1951 e adaptado por Hollywood já em 1955 com Deborah Kerr e Van Johson, com o nome de "Pelo amor de meu amor", o romance "Fim de caso", do inglês Graham Greene é conciso (tem pouco mais de 230 páginas), mas dotado de uma grande força dramática. Quem percebeu isso foi o cineasta irlandês Neil Jordan, que em 1999 lançou sua própria versão cinematográfica da obra. Elogiadíssimo pela crítica e indicado a dois Oscar, o filme não foi bem-sucedido comercialmente, como normalmente acontece com bons filmes direcionados ao público maduro - nem chegou a cobrir, no mercado americano, seu orçamento de 23 milhões de dólares - mas é um espetáculo imperdível. Adaptado pelo próprio Jordan, o filme não é apenas uma pungente e arrasadora história de amor. É também um estudo sobre o ciúme, a fidelidade, a fé e, pode-se dizer sem medo, Deus. Realizado com sensibilidade e inteligência, "Fim de caso" é o tipo de obra que qualquer cineasta de bom gosto adoraria assinar.

A trama começa no final dos anos 40, quando o escritor Maurice Bendrix (Ralph Fiennes em atuação mais do que inspirada) reencontra um amigo, o político Henry Miles (Stephen Rea), em uma noite de chuva torrencial. Miles está plenamente convencido de que sua esposa, a bela Sarah (Julianne Moore, indescritível), o está traindo, e Bendrix, solícito, se oferece para contratar um detetive para seguí-la. Na verdade, o escritor tem seus próprios motivos para o interesse: descobrir o motivo que levou Sarah a abandonar, sem nenhuma razão aparente, o romance secreto que eles mantinham durante a guerra. Quando põe os olhos no diário da mulher que ainda ama desesperadamente, Bendrix descobre que o fim do caso entre eles tem uma razão aparentemente banal, mas extremamente forte em seu íntimo.



Elegante sem ser chato, romântico sem ser piegas, quente sem ser pornográfico e comovente ao extremo sem ser apelativo, “Fim de caso” é um filme feito para quem gosta de uma boa história, contada com categoria e talento. Tudo funciona às mil maravilhas no conjunto. A primorosa fotografia de Roger Pratt, a belíssima música de Michael Nyman, a reconstituição de época impecável e a montagem inteligente de Tony Lawson tecem um quadro tão coeso e admirável que não deixa de ser empolgante e até mesmo chocante. São vários detalhes deixados cuidadosamente por Jordan em cada cena que, em seu final, fazem um sentido avassalador. A bela sequência em que Bendrix finalmente descobre o porquê de ter sido abandonado, por exemplo, é de uma simplicidade tocante, com um diálogo belo porque simples e recitado por um casal de atores em seus melhores dias. Não à toa Julianne Moore foi indicada ao Oscar por sua magnífica performance. Quando o filme assume seu ponto de vista, na segunda metade, a audiência experimenta um dos mais dolorosos romances da década de 90.

A adaptação de Jordan não chega a ser extremamente fiel ao livro de Greene – e algumas diferenças até podem incomodar os fãs da obra literária, ainda que a versão cinematográfica suscite algumas discussões muito interessante sobre fé – mas é impossível ficar indiferente à química explosiva entre Ralph Fiennes e Julianne Moore, em atuações antológicas. O único problema de “Fim de caso” é que raramente produções tão boas chegam às telas e fica difícil assistir aos romances pasteurizados que desfilam pelas telas sem fazer comparações com sua força.

quinta-feira

O PACIENTE INGLÊS

O PACIENTE INGLÊS (The English patient, 1996, Miramax Films, 162min) Direção: Anthony Minghella. Roteiro: Anthony Minghella, romance de Michael Ondaatje. Fotografia: John Seale. Montagem: Walter Murch. Música: Gabriel Yared. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Stuart Craig/Aurelio Crugnola, Stephenie McMillan. Produção executiva: Scott Greenstein, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Saul Zaentz. Elenco: Ralph Fiennes, Kristin Scott-Thomas, Juliette Binoche, Willem Dafoe, Colin Firth, Naveen Andrews, Jurgen Prochnow. Estreia: 06/11/96

12 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Anthony Minghella), Ator (Ralph Fiennes), Atriz (Kristin Scott-Thomas), Atriz Coadjuvante (Juliette Binoche), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original/Drama, Figurino, Direção de arte/cenários, Som
Vencedor de 9 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Anthony Minghella), Atriz Coadjuvante (Juliette Binoche), Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original/Drama, Figurino, Direção de arte/cenários
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Trilha Sonora Original
Festival de Berlim: Melhor Atriz (Juliette Binoche)

Em 1962, o inglês David Lean viu seu épico histórico "Lawrence da Arábia" sair da cerimônia de entrega do Oscar com sete estatuetas, incluindo as principais - Melhor Filme e Direção. Trinta e quatro anos depois, outro cineasta da terra da rainha promoveu um arrastão na festa da Academia, acumulando nove prêmios (e mais uma vez, entre eles, os de filme e direção). Ao contrário da obra-prima de Lean, no entanto, que narrava a trajetória de um dos mais controversos líderes militares britânicos, o filme de Anthony Minghella concentra-se em uma devastadora história de amor que utiliza a II Guerra Mundial como mero pano de fundo. "O paciente inglês", baseado em um livro considerado infilmável de Michael Ondaatje, é um poderoso drama romântico que não deixou chance para os demais indicados de 1996. E, apesar de muita gente torcer o nariz para suas pretensões épicas - e sua receita para ganhar Oscar - é um filme que mereceu todo o auê que causou.

De produção complicada - inicialmente financiado pelos estúdios Fox e depois encampado pela Miramax e pelo produtor Saul Zaentz - "O paciente inglês" é um filme que foge dos tradicionais romances hollywoodianos ao exigir de seu público um pouco mais de atenção e dedicação do que o normal. Não apenas é mais longo do que o corriqueiro (tem mais de duas horas e meia de duração) mas também tem um ritmo próprio e delicado, além de ser narrado de forma não-linear, o que muitas vezes afugenta à plateia cuja única intenção é ocupar-se em duas horas de entretenimento fácil. No fim das contas, porém, é um romance tipicamente hollywoodiano com um verniz europeu, o que provavelmente ajudou a encantar os eleitores da Academia - e todo o público que fez com que fechasse suas contas no mercado americano com quase 80 milhões de dólares de arrecadação, um sucesso inquestionável, principalmente se levarmos em conta que não tem, em seu elenco, nenhum grande nome da época - a Fox, por exemplo, insistia em Demi Moore no principal papel feminino, desejo esse que, para sorte de todos os envolvidos, nunca foi levado a sério por ninguém.

O filme começa em 1944, na Itália, quando a jovem enfermeira canadense Hana (Juliette Binoche), depois da morte do namorado soldado e de uma de suas colegas de profissão, resolve isolar-se em um castelo abandonado ao lado de seu paciente, um homem desfigurado por queimaduras e que não tem lembrança de seus dias passados. Tido como de nacionalidade inglesa desde que foi resgatado dos destroços de um avião, ele na verdade é um conde húingaro e se chama Almasy (Ralph Fiennes). Enquanto cuida de seu desmemoriado paciente, Hana lida com seus sentimentos em relação a Kip (Naveen Andrews, que anos depois faria sucesso com a série "Lost"), um indiano cuja função é desarmar bombas deixadas pelos inimigos. Se auto-considerando destinada a perder a todos que ama, Hana ainda aceita hospedar em sua villa o misterioso Caravaggio (Willem Dafoe), que tem as respostas sobre a vida pregressa do "paciente inglês". Almasy, na verdade, tem uma trágica história de amor no passado: apaixonado perdidamente por Katharine Clifton (Kristin-Scott Thomas), uma mulher casada, ele envolveu-se, por causa dela, em um jogo de intrigas e mal-entendidos que culminou com sua desoladora morte.

 

Contado em forma de flashbacks que em seu final, monta todo um quebra-cabeças melancólico e desesperado, "O paciente inglês" tem a seu favor o talento de seu diretor Anthony Minghella em criar sequências de invulgar beleza: em vários momentos sua câmera deixa a plateia com a respiração suspensa, tamanha sua sensibilidade. É assim com a cena em que Kip mostra os desenhos de uma igreja abandonada à Hana ou na belíssima sequência inicial em que o deserto do Saara parece ter as formas de um corpo feminino graças ao ângulo com que o diretor de fotografia John Seale posiciona a câmera. É notável o carinho com que Minghella trata seus atores, entregando a eles cenas fortes e diálogos memoráveis (não foi à toa que seus três protagonistas foram indicados ao Oscar, e Juliette Binoche, excepcional, levou a estatueta pra casa, ainda que de coadjuvante ela não tenha nada...)

O tempo fez bem a "O paciente inglês". Na época de seu lançamento, foi considerado por alguns críticos como um filme "frio" e "sem alma". Hoje, à luz do tempo, pode-se perceber melhor suas qualidades: a bela trilha sonora de Gabriel Yared, a fotografia deslumbrante de John Seale, o roteiro complexo mas repleto de sinceridade, e as atuações extremamente emocionais de seu elenco. Ralph Fiennes abandona o ar psicótico de seu nazista de "A lista de Schindler" para assumir de vez seu papel de herói romântico; Juliette Binoche rouba todas as cenas em que aparece, com uma expressividade arrasadora; e Kristin Scott-Thomas mostra que, por debaixo da frieza britânica mostrada em "Lua de fel" e "Quatro casamentos e um funeral", há um vulcão de sensualidade e passionalidade. Também não atrapalha em nada ter em seu elenco coadjuvante nomes como os de Colin Firth e Willem Dafoe, que dão o tom exato em suas interpretações.

"O paciente inglês" não tinha, em seu ano, nenhum concorrente digno de estragar seus planos de vitória: disputou o prêmio com o simpático "Jerry Maguire", o irônico "Fargo", o chatíssimo "Segredos e mentiras" e o super-apreciado "Shine". Mas o fato de não ter reais rivais em seu caminho não tira sua glória: é um filme que mereceu os prêmios que ganhou e que vai permanecer na memória do público como um dos mais belos romances da história do cinema.

sexta-feira

A LISTA DE SCHINDLER

A LISTA DE SCHINDLER (Schindler's list, 1993, Universal Pictures/Amblin Entertainment, 195min) Direção: Steven Spielberg. Roteiro: Steven Zaillian, livro de Thomas Keneally. Fotografia: Janusz Kaminski. Montagem: Michael Kahn. Música: John Williams. Figurino: Anna Biedrzycka-Sheppard. Direção de arte/cenários: Allan Starski/Ewa Braun. Produção executiva: Kathleen Kennedy. Produção: Branko Lustig, Gerald R. Molen, Steven Spielberg. Elenco: Liam Neeson, Ben Kingsley, Ralph Fiennes, Caroline Goodall, Embeth Davidtz. Estreia: 30/11/93

12 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Steven Spielberg), Ator (Liam Neeson), Ator Coadjuvante (Ralph Fiennes), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de arte/cenários, Maquiagem, Som
Vencedor de 7 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Steven Spielberg), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Direção de arte/cenários
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (Steven Spielberg), Roteiro 

Em 1975, o suspense "Tubarão" inaugurou a era dos blockbusters e apresentou ao mundo um cineasta jovem, cheio de energia e criatividade chamado Steven Spielberg. Um punhado de grandes sucessos comerciais depois, ele iniciou uma nada discreta caminhada rumo ao mais esperado dos prêmios do cinema, o Oscar. Sendo assim, o pai de Indiana Jones e ET lançou filmes emocionalmente maduros e esteticamente primorosos, como "A cor púrpura" e "Império do sol". Sempre relegado pela Academia - às vezes sem motivo aparente - ele acabou sendo recompensado justamente por um filme através do qual ele fazia as pazes com sua origem judia. Realizado ao custo relativamente baixo de 25 milhões de dólares, "A lista de Schindler" não apenas também se transformou em sucesso de bilheteria apesar do tema pesado - quase 100 milhões de arrecadação nos EUA - como finalmente providenciou a ele sua primeira estatueta de melhor diretor - além de outras seis, inclusive melhor filme. Incensado unanimemente por crítica e público como um dos melhores dramas de guerra da história do cinema, "A lista de Schindler" é mais do que simplesmente uma história contada com o coração: é um exemplo perfeito de um artista no auge de seu talento. É uma obra-prima incontestável!

Baseado no livro de Thomas Kennealy - que romanceou uma história inacreditavelmente real - "A lista de Schindler" começa em 1943, quando o nazismo começava a mostrar seu poder devastador. Sentindo que a guerra pode lhe beneficiar financeiramente, o industrial tcheco Oskar Schindler (o papel definitivo de Liam Neeson) passa a utilizar mão-de-obra judaica em sua fábrica de esmaltados. Oportunista e mulherengo, ele só começa a perceber o tamanho da ameaça do III Reich em relação aos guetos judeus através de seu contador, Itzhak Stern (Ben Kingsley), que o alerta a respeito da violência indescritível que está sendo cometida nos campos de concentração. Testemunhando pessoalmente algumas das atrocidades cometidas em especial pelo frio comandante Amon Goeth (Ralph Fiennes, espetacular), Schindler resolve fazer uma lista de "funcionários indispensáveis" a seu negócio, pagando de seu próprio bolso por eles - e assim evitando sua transferência para os campos.

Por mais que a história real seja um pouco enfeitada para melhor servir aos objetivos dramáticos de Spielberg - o verdadeiro protagonista não era tão altruísta como mostrado no filme, dizem as más línguas - é inegável que "A lista de Schindler" é um espetáculo de primeira grandeza. Apesar do tema doloroso e profundamente chocante - mostrado sem subterfúgios por uma câmera nervosa e onipresente - é um filme obrigatório para qualquer fã de cinema ou de história. Acusado por alguns detratores de exagerar na sacarina em seus momentos finais e de buscar o choque fácil, ele mantém-se poderoso e inesquecível, principalmente devido à paixão imposta por seu diretor em cada momento de seus longos 195 minutos de duração - que passam sem que o público sinta.



Cada detalhe, em "A lista de Schindler" é digno de nota. O cuidado da produção é gritante - e é de admirar-se que um filme desse porte tenha custado tão pouco. A reconstituição de época é impecável - a direção de arte levou um merecido Oscar - e a fotografia de Janusz Kaminski - então casado com a atriz Holly Hunter - é um primor: em um preto-e-branco deslumbrante, Kaminski revela os horrores do holocausto revestindo-o de uma beleza plástica sem precedentes. Talvez tenha sido justamente esse senso estético em relação a um capítulo tão sangrento que tenha incomodado alguns, mas negar-se a admitir sua competência não é nada mais do que inveja.

E é de invejar-se também o trabalho excepcional do inglês Ralph Fiennes, no papel que o consagrou e que quase lhe deu um Oscar - que ele perdeu inexplicavelmente para Tommy Lee Jones, em "O fugitivo". Na pele de Amon Goeth, o mal em pessoa, Fiennes consegue transmitir pavor apenas com seu sorriso forçado e seu olhar diabólico. Suas cenas com Liam Neeson - com diálogos repletos de intenções mascaradas - são dirigidas com extremo cuidado, o que derruba a teoria de que Spielberg não é um bom diretor de atores. Isso também se aplica a Ben Kingsley, dono de algumas das sequências mais tristes do longa. Cercado por Fiennes e Kingsley, Liam Neeson, um ator eficiente mas pouco carismático entrega a atuação de sua carreira, pela qual recebeu sua até agora única indicação ao Oscar. Herdando um papel que Harrison Ford declinou - acertadamente, ele achava que sua presença desviaria a atenção da força da história - Neeson criou um Schindler falível, mas humano, o que torna mais fácil sua identificação com a plateia. Sua expressão horrorizada ao assistir de longe a evacuação de um gueto é, provavelmente, a mesma da audiência.

Uma das sequências mais fascinantes - porque triste e inacreditavelmente verdadeira - mostra os soldados alemães acabando com o gueto de Varsóvia, talvez um dos primeiros sinais da tragédia que se avizinhava aos judeus. Centenas de anos de história seriam apagadas, como bem cita Amon Goeth, em poucas horas: o público assiste, horrorizado (mas presenteado com imagens belas e uma música impecável de John Williams), a maneira cruel e abjeta com que seres humanos foram destituídos de suas posses, de suas dignidades, de seu amor-próprio, de sua idelogia. Spielberg não tenta disfarçar nada com sua câmera: tiros são disparados à queima-roupa, sangue jorra aos borbotões, e monstruosidades são registradas da forma mais neutra possível. Como se fosse um documentário - ou um inventário de atrocidades - "A lista de Schindler" é um documento dos mais avassaladores que o cinema criou.

Em uma época em que muita gente apoia inúmeros tipos de fascismo - e onde a crueldade muitas vezes é perdoada ou incentivada - é fundamental que filmes como "A lista de Schindler" sejam resgatados e discutidos. Artisticamente impecável e socialmente indispensável!

O PREÇO DA TRAIÇÃO

  O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...