O
RIO SELVAGEM (The river wild, 1994, Universal Pictures, 108min )
Direção: Curtis Hanson. Roteiro: Denis O'Neill. Fotografia: Robert
Elswit. Montagem: David Brenner, Joe Hutsching. Música: Jerry Goldsmith.
Figurino: Marlene Stewart. Direção de arte/cenários: Bill Kenney/Rick
T. Gentz. Produção executiva: Ray Hartwick, Ilona Herzberg. Produção:
David Foster, Lawrence Turman. Elenco: Meryl Streep, Kevin Bacon, David
Straithairn, John C. Reilly, Joseph Mazzello, Benjamin Bratt. Estreia:
30/9/94
Em 1994 Meryl Streep já tinha dois Oscar em
casa, já era considerada a melhor atriz de sua geração e servia de
modelo para toda e qualquer jovem intérprete que surgia no cinema
americano. Mas, em sua vitoriosa carreira, repleta de dramas
dilacerantes e até comédias de humor negro, faltava um gênero que poucos
conseguiam relacionar a ela: o filme de ação. Talvez para riscar esse
item da lista, talvez porque quisesse divertir-se um pouco ou talvez
porque realmente tenha gostado do roteiro, o fato é que "O rio selvagem"
tornou-se conhecido como o filme em que a grande dama do cinema
americano deixou as lágrimas de lado e partiu para a ignorância. O
resultado não foi dos melhores: a crítica praticamente ignorou e o
público não se demonstrou mais entusiasmado com a ideia de vê-la
distante dos papéis que lhe deram fama e prestígio.
A
culpa, no entanto, não é nem do público, nem da crítica e tampouco de
Meryl, que está boa como sempre, exercitando seu conhecido
perfeccionismo ao realizar quase todas as cenas perigosas solicitadas. O
problema de "O rio selvagem" é sua demora em engrenar, seu ritmo
claudicante. O roteiro de Denis O'Neil leva mais de uma hora para expor a
situação central - e que irá deflagrar a ação - e depois parece não se
esforçar em surpreender ou cativar o espectador, recheando sua história
com clichês. Não seria problema se a intenção do filme fosse analisar a
crise de um casamento ampliada por uma situação extrema ou simplesmente
levar o público a uma montanha-russa ao estilo "Risco total",
protagonizado por Sylvester Stallone em 1992. Acontece que a primeira
opção não é verdadeira e não parece que a segunda também o seja: o drama
familiar da personagem de Streep é quase oco (um desperdício de atores,
já que seu marido é vivido pelo ótimo David Straithairn) e a adrenalina
que poderia equilibrar a balança a favor do filme é rala, apesar de
contar com cenas de grande competência técnica e de contar com um vilão
convincente interpretado pelo sempre assustador Kevin Bacon.
Bacon
e Streep, aliás, foram indicados ao Golden Globe por seus desempenhos -
uma prova a mais do prestígio da atriz junto à critica, já que, além de
mostrar-se capaz de atuar até mesmo em produções com nítidas intenções
comerciais puras e simples, ela não chega a estar brilhante como
normalmente está. No filme, ela interpreta Gail Hartman, uma
dona-de-casa que abandonou a profissão de guia turística especializada
nas correntezas do Rio Colorado para viver ao lado da família. Saudosa
da antiga rotina, ela volta e meia retorna a águas perigosas, que
conhece como ninguém. Para comemorar o aniversário do filho mais velho,
Roarke (Joseph Mazzello, o menino do filme "Jurassic Park, parque dos
dinossauros", de 1993), ela resolve acampar com ele e o marido, Tom
(David Straithairn), com quem está em crise. A aventura torna-se
extremamente perigosa, porém, quando eles esbarram em Wade (Kevin
Bacon), um simpático turista que se revela, logo depois, o líder de um
grupo de bandidos que precisa de ajuda para atravessar a fronteira do
Canadá. Para isso, ele conta com o conhecimento de Gail.
"O
rio selvagem" está longe de ser um filme ruim: tem muita gente boa
envolvida para chegar a isso. Mas é apenas mais um filme de ação comum,
sem maiores qualidades que o destaquem dos demais (a não ser, claro, a
presença nada óbvia de Meryl Streep em seu elenco). Seu diretor, Curtis
Hanson, faz um trabalho correto, assim com o fez em "A mão que balança o
berço" (93), seu filme anterior, mas nada que fizesse antever o milagre
realizado em 1997, quando lançou o sublime "Los Angeles, cidade
proibida", que lhe rendeu uma indicação ao Oscar. Aqui, amarrado a um
roteiro sem maiores novidades ou possibilidades, ele está burocrático e
apático, assinando uma produção que pode até divertir, mas não deixa
marcas no espectador.
Filmes, filmes e mais filmes. De todos os gêneros, países, épocas e níveis de qualidade.
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quarta-feira
EM SEU LUGAR
EM SEU LUGAR (In her shoes, 2005, 20th Century Fox, 130min) Direção: Curtis Hanson. Roteiro: Susannah Grant, romance de Jennifer Weiner. Fotografia: Terry Stacey. Montagem: Lisa Zeno Churgin, Craig Kitson. Música: Mark Isham. Figurino: Sophie De Rakoff. Direção de arte/cenários: John Warnke/Teresa Visinare. Produção executiva: Tony Scott. Produção: Lisa Ellzey, Carol Fenelon, Curtis Hanson, Ridley Scott. Elenco: Cameron Diaz, Toni Collette, Shirley MacLaine, Mark Feuerstein, Eric Balfour, Richard Burgi. Estreia: 14/9/05 (Festival de Toronto)
Definitivamente Curtis Hanson não é um cineasta que gosta de se repetir. Depois do merecido sucesso de crítica e público de sua obra-prima "Los Angeles, cidade proibida" - pelo qual chegou a concorrer ao Oscar - ele enveredou pela comédia dramática "Garotos incríveis" - adaptado de um romance de Michael Chabon e estrelado por grande elenco encabeçado por Michael Douglas - e pelo drama musical "8 mile, rua das ilusões", responsável pela estreia do rapper Eminem no cinema. E quem achava que sua versatilidade tinha chegado a seu ápice deve ter ficado de queixo caído com seu projeto seguinte: a adaptação de "Em seu lugar", livro de Jennifer Weiner que obteve grande êxito de vendas nos EUA e que, para surpresa de todos, é um perfeito exemplo daquilo que os americanos chamam de "chick-lit" e o resto do mundo de "livro de mulherzinha". Sim, o homem que narrou a violenta história de corrupção desbaratada pelo truculento Bud White e a trajetória de um cantor de rap rumo à fama agora conta a história de duas irmãs de personalidades opostas que precisam aprender a lidar com suas diferenças.
O primeiro mérito de Hanson em "Em seu lugar" foi a escolha da australiana Toni Collette para um dos principais papéis. Extremamente talentosa e rica de nuances, Collette chega a humilhar sua colega de cena, a fraca e careteira Cameron Diaz, que usa e abusa (no mau sentido) de todas as armas que lhe deram a posição (exagerada) de destaque dentro da indústria. Enquanto Collette utiliza de sutileza para transmitir seu recado, Diaz frequentemente cai nas armadilhas do roteiro, deixando sua personagem ainda mais chata do que na trama concebida por Weiner - e adaptada pela ótima Susannah Grant, que concorreu ao Oscar por "Erin Brockovich, uma mulher de talento". Na história que o filme conta, as duas são irmãs diferentes como a água e o vinho. Rosie (Collette) é uma bem-sucedida advogada, séria, responsável e dedicada que não dá sorte no amor enquanto Maggie (Diaz) passa seus dias e noites fazendo festas, bebendo e traçando qualquer homem que passe à sua frente. Um desses homens, porém, acabará sendo o culpado por um sério rompimento entre as duas, quando Maggie seduz o namorado da irmã. Furiosa - com toda a razão - Rosie expulsa a irmã de seu apartamento e vai seguir a vida. Maggie, sem rumo, acaba descobrindo que sua avó, Ella (Shirley MacLaine, ótima como sempre) está viva, ao contrário do que seu pai alega, e vai morar com ela na Flórida. Enquanto Rosie se envolve com um colega de firma, Simon (Mark Feuerstein), Maggie é incentivada pela avó a recomeçar a vida, trabalhando, mantendo-se sóbria e buscando a reconciliação com a irmã.

Apesar de fazer parte de uma linhagem menos nobre dentro de Hollywood - os filmes feitos para um público feminino, sem maiores ambições que não divertir a audiência por duas horas - "Em seu lugar" tem a seu favor a seriedade com que Curtis Hanson o trata. A relação entre Maggie e Rosie - ponto crucial da trama - é mostrada sem sentimentalismo barato, assim como os fantasmas do passado das irmãs, que retorna com o reaparecimento de sua avó. Apesar de estender-se demasiadamente - 130 minutos é quase um teste à paciência do público - o filme de Hanson mantém seu interesse por quase todo o tempo, pecando apenas por demorar demais em desenvolver as novas vidas das protagonistas quando separadas. A crise no relacionamento entre Rosie e Simon, por exemplo, não convence o bastante, apesar dos esforços do casal de atores. E não deixa de ser um tanto irritante a personagem de Cameron Diaz, que aborrece o espectador com sua absoluta falta de sensibilidade e respeito para com as pessoas à sua volta - falha do roteiro em explicar convincentemente seus motivos ou falha da atriz, incapaz de maiores voos de interpretação?
No cômputo final, "Em seu lugar" é um entretenimento de qualidade, dirigido com competência e que dá a oportunidade de rever Shirley MacLaine e aplaudir mais uma vez o talento de Toni Collette. Certamente agrada seu público-alvo, mas esbarra em suas próprias limitações temáticas. Vindo de um cineasta tão criativo quanto Hanson não deixa de ser um tanto frustrante.
Definitivamente Curtis Hanson não é um cineasta que gosta de se repetir. Depois do merecido sucesso de crítica e público de sua obra-prima "Los Angeles, cidade proibida" - pelo qual chegou a concorrer ao Oscar - ele enveredou pela comédia dramática "Garotos incríveis" - adaptado de um romance de Michael Chabon e estrelado por grande elenco encabeçado por Michael Douglas - e pelo drama musical "8 mile, rua das ilusões", responsável pela estreia do rapper Eminem no cinema. E quem achava que sua versatilidade tinha chegado a seu ápice deve ter ficado de queixo caído com seu projeto seguinte: a adaptação de "Em seu lugar", livro de Jennifer Weiner que obteve grande êxito de vendas nos EUA e que, para surpresa de todos, é um perfeito exemplo daquilo que os americanos chamam de "chick-lit" e o resto do mundo de "livro de mulherzinha". Sim, o homem que narrou a violenta história de corrupção desbaratada pelo truculento Bud White e a trajetória de um cantor de rap rumo à fama agora conta a história de duas irmãs de personalidades opostas que precisam aprender a lidar com suas diferenças.
O primeiro mérito de Hanson em "Em seu lugar" foi a escolha da australiana Toni Collette para um dos principais papéis. Extremamente talentosa e rica de nuances, Collette chega a humilhar sua colega de cena, a fraca e careteira Cameron Diaz, que usa e abusa (no mau sentido) de todas as armas que lhe deram a posição (exagerada) de destaque dentro da indústria. Enquanto Collette utiliza de sutileza para transmitir seu recado, Diaz frequentemente cai nas armadilhas do roteiro, deixando sua personagem ainda mais chata do que na trama concebida por Weiner - e adaptada pela ótima Susannah Grant, que concorreu ao Oscar por "Erin Brockovich, uma mulher de talento". Na história que o filme conta, as duas são irmãs diferentes como a água e o vinho. Rosie (Collette) é uma bem-sucedida advogada, séria, responsável e dedicada que não dá sorte no amor enquanto Maggie (Diaz) passa seus dias e noites fazendo festas, bebendo e traçando qualquer homem que passe à sua frente. Um desses homens, porém, acabará sendo o culpado por um sério rompimento entre as duas, quando Maggie seduz o namorado da irmã. Furiosa - com toda a razão - Rosie expulsa a irmã de seu apartamento e vai seguir a vida. Maggie, sem rumo, acaba descobrindo que sua avó, Ella (Shirley MacLaine, ótima como sempre) está viva, ao contrário do que seu pai alega, e vai morar com ela na Flórida. Enquanto Rosie se envolve com um colega de firma, Simon (Mark Feuerstein), Maggie é incentivada pela avó a recomeçar a vida, trabalhando, mantendo-se sóbria e buscando a reconciliação com a irmã.

Apesar de fazer parte de uma linhagem menos nobre dentro de Hollywood - os filmes feitos para um público feminino, sem maiores ambições que não divertir a audiência por duas horas - "Em seu lugar" tem a seu favor a seriedade com que Curtis Hanson o trata. A relação entre Maggie e Rosie - ponto crucial da trama - é mostrada sem sentimentalismo barato, assim como os fantasmas do passado das irmãs, que retorna com o reaparecimento de sua avó. Apesar de estender-se demasiadamente - 130 minutos é quase um teste à paciência do público - o filme de Hanson mantém seu interesse por quase todo o tempo, pecando apenas por demorar demais em desenvolver as novas vidas das protagonistas quando separadas. A crise no relacionamento entre Rosie e Simon, por exemplo, não convence o bastante, apesar dos esforços do casal de atores. E não deixa de ser um tanto irritante a personagem de Cameron Diaz, que aborrece o espectador com sua absoluta falta de sensibilidade e respeito para com as pessoas à sua volta - falha do roteiro em explicar convincentemente seus motivos ou falha da atriz, incapaz de maiores voos de interpretação?
No cômputo final, "Em seu lugar" é um entretenimento de qualidade, dirigido com competência e que dá a oportunidade de rever Shirley MacLaine e aplaudir mais uma vez o talento de Toni Collette. Certamente agrada seu público-alvo, mas esbarra em suas próprias limitações temáticas. Vindo de um cineasta tão criativo quanto Hanson não deixa de ser um tanto frustrante.
quinta-feira
8 MILE, RUA DAS ILUSÕES
8 MILE, RUA DAS ILUSÕES (8 mile, 2002, Universal Pictures, 110min) Direção: Curtis Hanson. Roteiro: Scott Silver. Fotografia: Rodrigo Prieto. Montagem: Craig Kitson, Jay Rabinowitz. Música: Proof. Figurino: Mark Bridges. Direção de arte/cenários: Phillip Messina/Kristen Toscano Messina. Produção executiva: Carol Fenelon, Gregory Goodman, Paul Rosenberg, James Whitaker. Produção: Brian Grazer, Curtis Hanson, Jimmy Iovine. Elenco: Eminem, Kim Basinger, Brittany Murphy, Michael Shannon, Mekhi Pifer. Estreia: 06/11/02
Vencedor do Oscar de Melhor Canção ("Lose yourself")
Não foi apenas Barbra Streisand quem se surpreendeu. Toda a audiência do Oscar 2003 ficou de queixo caído quando a estatueta de Melhor Canção do ano não foi parar nas mãos dos irlandeses da banda U2 (como era o esperado) e sim na estante de Eminem, um rapper branco criado em Detroit que, a despeito de suas polêmicas (ou talvez por causa delas), já havia vendido milhões de CDS e ganho alguns Grammy. Sua canção, intitulada Lose yourself, fazia parte da trilha sonora de um filme sobre um rapaz pobre, de Detroit, que tenta vencer na vida cantando rap. Qualquer semelhança não é mera coincidência. "8 mile, rua das ilusões" é claramente inspirado na vida de Eminem, que, logicamente, interpreta o papel central.
Jimmy Smith, ou B-Rabbit, como é carinhosamente chamado pela família e pelos amigos mais próximos, é um rapaz cuja vida não é exatamente um mar de rosas. Depois de terminar o namoro e iniciar um pesado trabalho em uma metalúrgica, ele volta a morar no trailer que dividia com sua mãe, Stephanie (Kim Basinger, envelhecida e convincente), tendo que aguentar as provocações do novo amante dela, Greg (Michael Shannon), que estudava na mesma escola que ele. Oprimido por situação financeira, o introvertido Rabbit só encontra voz nas letras de rap que escreve, incentivado por sua turma de amigos, um grupo de rapazes que também não parece ter um futuro promissor. Seu talento para a música o leva a inscrever-se em uma espécie de batalha de cantores de rap, que pode ser o trampolim para seu sucesso. Enquanto isso, se envolve em um hesitante romance com a ambiciosa (Brittany Murphy), que o apresenta aos executivos de uma gravadora.

O Oscar de melhor canção, na verdade, não é a única surpresa em relação a 8 mile. Não deixou de ser inesperado, por exemplo, que seu diretor seja Curtis Hanson, na época em alta dentro da indústria devido ao sucesso de crítica de seus "Los Angeles, cidade proibida" e "Garotos incríveis". Com sua elegância e discrição, Hanson transformou o que poderia ser um filme da semana em um drama interessante e capaz de agradar até mesmo a quem não é fã do gênero musical de seu protagonista. Assumindo um projeto que passou pelas mãos de nomes tão díspares quanto os ingleses Stephen Daldry e Alan Parker, o escocês Danny Boyle e até Quentin Tarantino - que só caiu fora porque preferiu dedicar-se a "Kill Bill" - Hanson mostrou uma versatilidade que iria ainda mais além com o drama feminino "Em seu lugar", feito três anos depois. Mas a maior surpresa foi realmente a atuação de Eminem.
Em seu primeiro filme, o cantor/compositor não faz feio. Mais magro do que normalmente e de cabelos tingidos de preto, ele mostra-se natural, frágil e introvertido, sem a agressividade que transmite em seus shows e videoclipes e convence tanto nas cenas dramáticas quanto nas românticas. Evidentemente, em cima de um palco ele cresce, assim como sua personagem. A direção de Hanson transforma um filme sobre um rapaz em busca de seus sonhos em uma versão rap de um filme de esportes (comparar Jimmy Rabbit com Rocky Balboa não seria um exagero), sem a violência (ou pelo menos com ela bastante resumida) e com um bocadinho de crítica social que foi devidamente ignorada por boa parcela do público que lotou as salas de cinema.
"8 mile, rua das ilusões" talvez seja um filme pouco ambicioso para um diretor com a capacidade de Curtis Hanson, mas é um produto sob medida para seu astro, que aproveitou o ensejo para arrancar elogios da crítica e lançar um CD com a trilha sonora. E, se não bastasse, surpreendeu Barbra Streisand e os fãs do U2. Nada mal!
Vencedor do Oscar de Melhor Canção ("Lose yourself")
Não foi apenas Barbra Streisand quem se surpreendeu. Toda a audiência do Oscar 2003 ficou de queixo caído quando a estatueta de Melhor Canção do ano não foi parar nas mãos dos irlandeses da banda U2 (como era o esperado) e sim na estante de Eminem, um rapper branco criado em Detroit que, a despeito de suas polêmicas (ou talvez por causa delas), já havia vendido milhões de CDS e ganho alguns Grammy. Sua canção, intitulada Lose yourself, fazia parte da trilha sonora de um filme sobre um rapaz pobre, de Detroit, que tenta vencer na vida cantando rap. Qualquer semelhança não é mera coincidência. "8 mile, rua das ilusões" é claramente inspirado na vida de Eminem, que, logicamente, interpreta o papel central.
Jimmy Smith, ou B-Rabbit, como é carinhosamente chamado pela família e pelos amigos mais próximos, é um rapaz cuja vida não é exatamente um mar de rosas. Depois de terminar o namoro e iniciar um pesado trabalho em uma metalúrgica, ele volta a morar no trailer que dividia com sua mãe, Stephanie (Kim Basinger, envelhecida e convincente), tendo que aguentar as provocações do novo amante dela, Greg (Michael Shannon), que estudava na mesma escola que ele. Oprimido por situação financeira, o introvertido Rabbit só encontra voz nas letras de rap que escreve, incentivado por sua turma de amigos, um grupo de rapazes que também não parece ter um futuro promissor. Seu talento para a música o leva a inscrever-se em uma espécie de batalha de cantores de rap, que pode ser o trampolim para seu sucesso. Enquanto isso, se envolve em um hesitante romance com a ambiciosa (Brittany Murphy), que o apresenta aos executivos de uma gravadora.

O Oscar de melhor canção, na verdade, não é a única surpresa em relação a 8 mile. Não deixou de ser inesperado, por exemplo, que seu diretor seja Curtis Hanson, na época em alta dentro da indústria devido ao sucesso de crítica de seus "Los Angeles, cidade proibida" e "Garotos incríveis". Com sua elegância e discrição, Hanson transformou o que poderia ser um filme da semana em um drama interessante e capaz de agradar até mesmo a quem não é fã do gênero musical de seu protagonista. Assumindo um projeto que passou pelas mãos de nomes tão díspares quanto os ingleses Stephen Daldry e Alan Parker, o escocês Danny Boyle e até Quentin Tarantino - que só caiu fora porque preferiu dedicar-se a "Kill Bill" - Hanson mostrou uma versatilidade que iria ainda mais além com o drama feminino "Em seu lugar", feito três anos depois. Mas a maior surpresa foi realmente a atuação de Eminem.
Em seu primeiro filme, o cantor/compositor não faz feio. Mais magro do que normalmente e de cabelos tingidos de preto, ele mostra-se natural, frágil e introvertido, sem a agressividade que transmite em seus shows e videoclipes e convence tanto nas cenas dramáticas quanto nas românticas. Evidentemente, em cima de um palco ele cresce, assim como sua personagem. A direção de Hanson transforma um filme sobre um rapaz em busca de seus sonhos em uma versão rap de um filme de esportes (comparar Jimmy Rabbit com Rocky Balboa não seria um exagero), sem a violência (ou pelo menos com ela bastante resumida) e com um bocadinho de crítica social que foi devidamente ignorada por boa parcela do público que lotou as salas de cinema.
"8 mile, rua das ilusões" talvez seja um filme pouco ambicioso para um diretor com a capacidade de Curtis Hanson, mas é um produto sob medida para seu astro, que aproveitou o ensejo para arrancar elogios da crítica e lançar um CD com a trilha sonora. E, se não bastasse, surpreendeu Barbra Streisand e os fãs do U2. Nada mal!
segunda-feira
GAROTOS INCRÍVEIS
GAROTOS INCRÍVEIS (Wonder boys, 2000, Paramount Pictures, 107min) Direção: Curtis Hanson. Roteiro: Steve Kloves, romance de Michael Chabon. Fotografia: Dante Spinotti. Montagem: Dede Allen. Música: Christopher Young. Figurino: Beatrix Aruna-Pasztor. Direção de arte/cenários: Jeannine Oppewall/Jay R. Hart. Produção executiva: Ned Dowd, Adam Schroeder. Produção: Curtis Hanson, Scott Rudin. Elenco: Michael Douglas, Tobey Maguire, Robert Downey Jr., Frances McDormand, Katie Holmes, Rip Torn, Jane Adams, Philip Bosco. Estreia: 25/02/00
3 indicações ao Oscar: Roteiro Adaptado, Montagem, Canção ("Things have changed")
Vencedor do Oscar de Melhor Canção Original ("Things have changed")
Vencedor do Golden Globe de Melhor Canção Original ("Things have changed")
O termo "wonder boy" do título original é derivativo da palavra alemã "wunderkind", que se refere a determinada pessoa que atinge grande sucesso profissional ou artístico com pouca idade. No primeiro filme de Curtis Hanson após o assombro que foi "Los Angeles, cidade proibida", quem merece o adjetivo é o jovem James Leer (Tobey Maguire), um estudante de literatura com grande talento para a escrita e que acaba sendo o alvo da proteção de seu professor, um antigo "wonder boy" chamado Grady Tripp (Michael Douglas). Autor de um célebre romance, Tripp não consegue terminar seu novo livro (que já tem mais de duas mil páginas) e está passando por uma séria crise pessoal: abandonado pela esposa, ele descobre que a amante Sara (Frances McDormand) - a esposa do reitor - está grávida e ainda tem que se esquivar do assédio de uma aluna, a ambiciosa Hannah Green (Katie Holmes) e da estranha amizade com seu editor, o excêntrico Terry Crabtree (Robert Downey Jr), que se encanta pela delicadeza e pela sensibilidade de James, que cai em lágrimas sentidas em momentos absurdos e tem séria tendência em mentir.
Baseado em um romance de Michael Chabon, "Garotos incríveis" estreou nos EUA em fevereiro de 2000 e caiu nas graças da crítica, em especial a atuação excepcional de Michael Douglas, comprovando seu talento em escolher bons filmes e bons papéis. O fracasso de bilheteria, no entanto, desanimou a Paramount Pictures (que distribuiu o filme), que esperava que a assinatura de Curtis Hanson e o elenco fabuloso - dois vencedores do Oscar, dois jovens em ascensão e um rebelde sem causa carismático - fossem o suficiente para atrair o público. Mesmo assim, no final do ano, o filme voltou às salas de cinema com o objetivo de chamar a atenção para suas qualidades e, quem sabe, conquistar algumas indicações ao Oscar. Funcionou em termos. Com 3 indicações ao prêmio da Academia - incluindo roteiro adaptado - "Garotos incríveis" não atingiu suas expectativas comerciais nem tampouco tornou-se campeão de prêmios. Uma pena. O filme é uma deliciosa comédia dramática com uma inteligência rara no mercado do gênero.

"Garotos incríveis" é uma comédia sem gargalhadas. O humor de Chabon - mantido intacto pelo roteiro de Steve Kloves - é pura ironia, pura delicadeza. É um humor de sorrisos, de assombro. É um humor elegante, sofisticado. E encontrou em Curtis Hanson seu diretor perfeito. Sem utilizar-se de subterfúgios vulgares, Hanson fez de seu filme - o primeiro que assina com o status de "grande diretor" e não apenas "um cineasta competente" - uma homenagem aos gênios incompreendidos, às almas excêntricas, ao surreal que existe no dia-a-dia. "Garotos incríveis" utiliza-se de tramas bizarras e elementos estranhos para contar uma história simples, quase corriqueira. E é essa mistura do comum com o extravagante - uma de suas melhores qualidades - que talvez tenha confundido o público médio.
O roteiro de Kloves - que escreveu as adaptações da série "Harry Potter" para o cinema - mantém a estrutura do livro de Chabon, autor premiado com o Pulitzer em 2001. Toda a trama se passa em 24 horas, com exceção do epílogo, e o público acompanha a trajetória imprevisível de seu protagonista (em uma interpretação antológica de Michael Douglas), que, sem imaginar, se vê em meio a uma confusão que envolve um cachorro morto a tiros, o casaco que Marilyn Monroe utilizou em seu casamento com Joe DiMaggio, seu inacabado romance, as mentiras de James Leer - que jogam o rapaz nos braços do ambicioso Terry - e um gângster violento. Grady Tripp é mais do que um protagonista, ele é também a testemunha das transformações nas vidas das pessoas que o rodeiam, mudanças essas descritas também na canção-tema de Bob Dylan, vencedora do Oscar. Assim como o público, ele acompanha perplexo os acontecimentos, enquanto tenta resolver a confusão que é sua própria existência.
"Garotos incríveis" não é uma comédia tradicional. É pouco provável que agrade aos fãs de humor visual ou de piadas vulgares. Tampouco é um drama no sentido convencional, uma vez que não apresenta momentos lacrimosos ou tragédias pessoais. Mas é um belo filme, realizado com extrema competência e que tem em seu particular jeito de contar uma história a maior de suas qualidades. Merece ser descoberto!
3 indicações ao Oscar: Roteiro Adaptado, Montagem, Canção ("Things have changed")
Vencedor do Oscar de Melhor Canção Original ("Things have changed")
Vencedor do Golden Globe de Melhor Canção Original ("Things have changed")
O termo "wonder boy" do título original é derivativo da palavra alemã "wunderkind", que se refere a determinada pessoa que atinge grande sucesso profissional ou artístico com pouca idade. No primeiro filme de Curtis Hanson após o assombro que foi "Los Angeles, cidade proibida", quem merece o adjetivo é o jovem James Leer (Tobey Maguire), um estudante de literatura com grande talento para a escrita e que acaba sendo o alvo da proteção de seu professor, um antigo "wonder boy" chamado Grady Tripp (Michael Douglas). Autor de um célebre romance, Tripp não consegue terminar seu novo livro (que já tem mais de duas mil páginas) e está passando por uma séria crise pessoal: abandonado pela esposa, ele descobre que a amante Sara (Frances McDormand) - a esposa do reitor - está grávida e ainda tem que se esquivar do assédio de uma aluna, a ambiciosa Hannah Green (Katie Holmes) e da estranha amizade com seu editor, o excêntrico Terry Crabtree (Robert Downey Jr), que se encanta pela delicadeza e pela sensibilidade de James, que cai em lágrimas sentidas em momentos absurdos e tem séria tendência em mentir.
Baseado em um romance de Michael Chabon, "Garotos incríveis" estreou nos EUA em fevereiro de 2000 e caiu nas graças da crítica, em especial a atuação excepcional de Michael Douglas, comprovando seu talento em escolher bons filmes e bons papéis. O fracasso de bilheteria, no entanto, desanimou a Paramount Pictures (que distribuiu o filme), que esperava que a assinatura de Curtis Hanson e o elenco fabuloso - dois vencedores do Oscar, dois jovens em ascensão e um rebelde sem causa carismático - fossem o suficiente para atrair o público. Mesmo assim, no final do ano, o filme voltou às salas de cinema com o objetivo de chamar a atenção para suas qualidades e, quem sabe, conquistar algumas indicações ao Oscar. Funcionou em termos. Com 3 indicações ao prêmio da Academia - incluindo roteiro adaptado - "Garotos incríveis" não atingiu suas expectativas comerciais nem tampouco tornou-se campeão de prêmios. Uma pena. O filme é uma deliciosa comédia dramática com uma inteligência rara no mercado do gênero.

"Garotos incríveis" é uma comédia sem gargalhadas. O humor de Chabon - mantido intacto pelo roteiro de Steve Kloves - é pura ironia, pura delicadeza. É um humor de sorrisos, de assombro. É um humor elegante, sofisticado. E encontrou em Curtis Hanson seu diretor perfeito. Sem utilizar-se de subterfúgios vulgares, Hanson fez de seu filme - o primeiro que assina com o status de "grande diretor" e não apenas "um cineasta competente" - uma homenagem aos gênios incompreendidos, às almas excêntricas, ao surreal que existe no dia-a-dia. "Garotos incríveis" utiliza-se de tramas bizarras e elementos estranhos para contar uma história simples, quase corriqueira. E é essa mistura do comum com o extravagante - uma de suas melhores qualidades - que talvez tenha confundido o público médio.
O roteiro de Kloves - que escreveu as adaptações da série "Harry Potter" para o cinema - mantém a estrutura do livro de Chabon, autor premiado com o Pulitzer em 2001. Toda a trama se passa em 24 horas, com exceção do epílogo, e o público acompanha a trajetória imprevisível de seu protagonista (em uma interpretação antológica de Michael Douglas), que, sem imaginar, se vê em meio a uma confusão que envolve um cachorro morto a tiros, o casaco que Marilyn Monroe utilizou em seu casamento com Joe DiMaggio, seu inacabado romance, as mentiras de James Leer - que jogam o rapaz nos braços do ambicioso Terry - e um gângster violento. Grady Tripp é mais do que um protagonista, ele é também a testemunha das transformações nas vidas das pessoas que o rodeiam, mudanças essas descritas também na canção-tema de Bob Dylan, vencedora do Oscar. Assim como o público, ele acompanha perplexo os acontecimentos, enquanto tenta resolver a confusão que é sua própria existência.
"Garotos incríveis" não é uma comédia tradicional. É pouco provável que agrade aos fãs de humor visual ou de piadas vulgares. Tampouco é um drama no sentido convencional, uma vez que não apresenta momentos lacrimosos ou tragédias pessoais. Mas é um belo filme, realizado com extrema competência e que tem em seu particular jeito de contar uma história a maior de suas qualidades. Merece ser descoberto!
terça-feira
LOS ANGELES, CIDADE PROIBIDA
LOS ANGELES, CIDADE PROIBIDA (L.A. Confidential, 1997, Regency Enterprises/Warner Bros, 138min) Direção: Curtis Hanson. Roteiro: Curtis Hanson, Brian Helgeland, romance de James Ellroy. Fotografia: Dante Spinotti. Montagem: Peter Honess. Música: Jerry Goldsmith. Figurino: Ruth Myers. Direção de arte/cenários: Jeannine Oppewall/Jay R. Hart. Produção executiva: Dan Kolsrud, David L. Wolper. Produção: Curtis Hanson, Arnon Milchan. Elenco: Russell Crowe, Guy Pearce, Kevin Spacey, James Cromwell, Kim Basinger, Danny DeVito, David Strathairn, Ron Rifkin, Simon Baker, Matt McCoy, Paul Guilfoyle. Estreia: 19/9/97
9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Curtis Hanson), Atriz Coadjuvante (Kim Basinger), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original/Drama, Direção de arte/cenários, Som
Vencedor de 2 Oscar: Atriz Coadjuvante (Kim Basinger), Roteiro Adaptado
Vencedor do Golden Globe de Atriz Coadjuvante (Kim Basinger)
Até 1997 Curtis Hanson não parecia ser mais do que um cineasta-padrão de Hollywood, entregando filmes bastante competentes mas nunca geniais, como "Uma janela suspeita", "A mão que balança o berço" e "O rio selvagem". Por isso, quando "Los Angeles, cidade proibida" foi lançado todo mundo na capital do cinema - e mais os críticos e os fãs de bom cinema - ficou de queixo caído. Emulando com propriedade o estilo noir dos filmes policiais dos anos 40, Hanson assinou um filme extraordinariamente bom, capaz de competir de igual pra igual com os maiores clássicos do gênero. Premiado como melhor filme por praticamente todas as associações de críticos americanos, "Los Angeles" só não levou o Oscar e o Golden Globe por ter esbarrado em um iceberg gigantesco chamado "Titanic". Mas até mesmo os admiradores da mega-produção de James Cameron são obrigados a concordar que, em termos de narrativa e inteligência "Los Angeles" ganha de goleada.
Baseado em um extenso romance de James Ellroy publicado em 1990, o impecável roteiro de Hanson e Brian Helgeland consegue o feito raro de melhorar a história do escritor, tornando-a mais concisa e com menos tramas paralelas que não acrescentavam muito ao enredo central. Enquanto no livro a ação acontecia dentro de um espaço de tempo bastante vasto - quase uma década - o filme concentra tudo em cerca de um ano e opera algumas mudanças cruciais em alguns protagonistas, o que de forma alguma macula a escrita de Ellroy, um escritor cujo estilo seco tem fãs ardorosos - e cujo "Dália negra" foi posteriormente adaptado por Brian DePalma sem nem um terço do charme e do sucesso de "Los Angeles". Especializado em tramas policiais passadas na terra do cinema, Ellroy usa histórias reais como material de inspiração e pano de fundo para tramas que falam sobre corrupção, assassinatos e sexo. Fez isso com maestria em "Los Angeles, cidade proibida", cuja profusão de personagens e acontecimentos é resumida brilhantemente em forma de roteiro.
Tudo começa no dezembro de 1953. Considerados como a melhor força policial do país, os homens liderados pelo Capitão Dudley Smith (James Cromwell) passam por uma paradoxal situação, uma vez que o crime organizado cujo líder Mickey Cohen (Paul Guilfoley) manda e desmanda na região. Na mesma época em que o gângster é violentamente assassinado, uma chacina movimenta a cidade e mobiliza a imprensa e os detetives. Chamado de "O massacre de Nite Owl", a chacina que vitimou os clientes de uma lanchonete - inclusive um ex-detetive dispensado pouco antes - acaba sendo o primeiro caso importante de Ed Exley (Guy Pearce), um jovem e ambicioso tenente-detetive que vive à sombra do talento do pai. Comandando a investigação do crime - mesmo sendo desprezado por todos os colegas por ter sido o delator em um incidente no Natal - ele torna-se herói ao salvar uma jovem mexicana vítima de abuso sexual. No entanto, logo ele descobre que as coisas não são exatamente como parecem e que policiais corruptos podem estar envolvidos em uma grande rede de mentiras e violência. Para isso, ele precisa unir-se a outros dois detetives bastante diferentes de si mesmo: Bud White (Russell Crowe), um brucutu agressivo que se dedica a proteger mulheres vítimas de agressão doméstica e Jack Vincennes (Kevin Spacey), um vaidoso investigador que complementa seus ganhos como consultor de um programa de TV e ajuda o repórter sensacionalista Sid Hudgens (Danny De Vito) com suas reportagens na revista "Hush Hush", especializada em escândalos dentro da comunidade hollywoodiana. Juntos, Exley, Vincennes e White vão desbaratar uma complicada teia de intrigas que inclui uma rede de prostituição comandada por Pierce Patchett (David Strathairn), da qual faz parte a bela Lynn Bracken (Kim Basinger), que se envolve romanticamente com Bud White.

É difícil resumir a complexa trama de "Los Angeles, cidade proibida", tamanha é sua profusão de detalhes, personagens e situações. Organizar tudo de forma palatável a uma plateia tão mal-acostumada a historinhas mal costuradas é um mérito inquestionável do roteiro, que não deixa nenhum furo em seu caminho. Tudo que é dito e mostrado por Hanson é de extrema importância para o desenrolar da história, mesmo que a princípio pareça apenas uma forma de apresentar as personagens, todas elas construídas exemplarmente, diga-se de passagem (ainda que tenham passado por pequenas alterações do livro para a tela). O cuidado que Hanson tem com a reconstituição de época também tem com suas personagens e isso fica claro quando, na reta final, todas as cartas são embaralhadas e o público se deixa surpreender com revelações totalmente críveis ainda que inesperadas. A complexidade de personagens como Bud White - que repudia a violência contra a mulher e acaba sendo forçado a ela - e Ed Exley - que se vê obrigado a tomar atitudes que jamais tomaria nos primeiros minutos - encontra intérpretes ideais em um elenco que não poderia ser melhor.
Se foi Kim Basinger quem levou o Oscar de coadjuvante - por uma atuação correta mas nada mais do que isso - são seus colegas de elenco quem deveriam ter sido premiados. Kevin Spacey mais uma vez mostra seu imenso talento para a sutileza construindo um Jack Vincennes que equilibra cinismo com amargura na medida certa - a cena em que ele e Exley encontram Lana Turner em um bar é hilária. James Cromwell como o Capitão Dudley Smith, figura crucial na trama, mostra-se perfeitamente à vontade com as viradas de sua personagem. Guy Pearce - que ficou com o papel mesmo contra a vontade dos produtores, que não queriam um australiano no papel do americaníssimo Ed Exley - apaga a imagem de sua drag-queen de "Priscilla, a rainha do deserto", entregando um desempenho ideal. Mas é Russell Crowe quem rouba todas as cenas das quais participa. O ator neozelandês tornou-se queridinho de Hollywood depois de seu trabalho irretocável como Bud White, um policial truculento com um lado doce raramente revelado. Os olhos cheios de fúria de Crowe e sua interpretação avassaladora são o início de uma carreira meteórica que o levaria a concorrer a 3 Oscar consecutivos - e levar um por seu trabalho menos brilhante como ator, em "Gladiador".
Quaisquer elogios que se faça a "Los Angeles, cidade proibida" são poucos, tamanha sua força e brilhantismo em todos os quesitos. Impecável em qualquer nível - e encharcado de uma violência e uma sensualidade ímpares mas nunca vulgares - a obra-prima de Curtis Hanson é um daqueles filmes que só surgem uma vez a cada década. E que, como acontece com os clássicos, melhora a cada revisão. E quem precisa de uma chuva de Oscar quando se é tão perfeito?
sábado
A MÃO QUE BALANÇA O BERÇO
A MÃO QUE BALANÇA O BERÇO (The hand that rocks the cradle, 1992, Hollywood Pictures, 110min) Direção: Curtis Hanson. Roteiro: Amanda Silver. Fotografia: Robert Elswit. Montagem: John F. Link. Música: Graeme Revell. Figurino: Jennifer von Mayrhauser. Direção de arte/cenários: Edward Pisoni/Sandy Reynolds Wasco. Casting: Junie Lowry-Johnson. Produção executiva: Robert W. Cort, Ted Field, Rick Jaffa. Produção: David Madden. Elenco: Rebecca De Mornay, Annabella Sciorra, Matt McCoy, Ernie Hudson, Julianne Moore, Madeline Zima. Estreia: 10/01/92
No início dos anos 80, Tom Cruise revelou-se ao mundo dançando só de cuecas no filme "Negócio arriscado", uma comédia divertida onde ele contracenava com uma bela loura que parecia tão promissora quanto ele. O tempo passou, Cruise tornou-se um dos maiores astros de Hollywood e a loura desapareceu dentre as dezenas de promessas que surgem a cada ano. Em 1992, no entanto, ela voltou. Má, vingativa e cruel, a protagonista de "A mão que balança o berço" devolveu à bela Rebecca de Mornay a chance de brilhar - e por que não? - assustras plateias mundo afora.
Não que a obra de Curtis Hanson (que anos depois deixaria os cinéfilos de queixo caído com o sensacional "Los Angeles, cidade proibida") seja um filme para marcar a história do cinema, ou que a atuação de Rebecca seja digna de um Oscar (apesar de um prêmio da MTV americana como Melhor Vilã), mas os quase 90 milhões de dólares arrecadados somente nos EUA demonstraram sem sombra de dúvida a boa vontade do público de abraçar uma história que deixa de lado monstros mascarados e sangue aos borbotões para dar mais atenção à tensão psicológica que surge entre o bem e o mal, aqui divididos clara e maniqueistamente entre a dona de casa vivida por Annabella Sciorra e a insidiosa babá interpretada por De Mornay.

No início dos anos 80, Tom Cruise revelou-se ao mundo dançando só de cuecas no filme "Negócio arriscado", uma comédia divertida onde ele contracenava com uma bela loura que parecia tão promissora quanto ele. O tempo passou, Cruise tornou-se um dos maiores astros de Hollywood e a loura desapareceu dentre as dezenas de promessas que surgem a cada ano. Em 1992, no entanto, ela voltou. Má, vingativa e cruel, a protagonista de "A mão que balança o berço" devolveu à bela Rebecca de Mornay a chance de brilhar - e por que não? - assustras plateias mundo afora.
Não que a obra de Curtis Hanson (que anos depois deixaria os cinéfilos de queixo caído com o sensacional "Los Angeles, cidade proibida") seja um filme para marcar a história do cinema, ou que a atuação de Rebecca seja digna de um Oscar (apesar de um prêmio da MTV americana como Melhor Vilã), mas os quase 90 milhões de dólares arrecadados somente nos EUA demonstraram sem sombra de dúvida a boa vontade do público de abraçar uma história que deixa de lado monstros mascarados e sangue aos borbotões para dar mais atenção à tensão psicológica que surge entre o bem e o mal, aqui divididos clara e maniqueistamente entre a dona de casa vivida por Annabella Sciorra e a insidiosa babá interpretada por De Mornay.

Sciorra vive Claire Bartel, uma mulher que divide seu tempo entre o trabalho e a família, formada por um marido apaixonado, uma filha encantadora e um bebê recém-nascido. É justamente para ajudá-la a cuidar de tudo isso que ela contrata a dedicada e angelical Peyton Flanders como babá de seu filho caçula. Aparentemente perfeita, aos poucos a nova funcionária começa a mostrar as garrinhas, tentando destruir a paz da casa, mesmo que tenha que prejudicar todas as pessoas que lhe pareçam ameaçadoras a seu objetivo. A razão para tamanho ódio? Ela é a viúva do ginecologista de Claire, que suicidou-se depois de ter sido acusado de abuso sexual pela própria. Após a morte do marido e a subseqüente perda do bebê que esperava, a loira tem certeza que vingar-se da família Bartel é a única coisa certa a fazer.
A partir daí é esperar a baixaria: Peyton dá em cima do marido de Claire, forja um relacionamento dele com a melhor amiga da esposa (uma Julianne Moore em início de carreira), amamenta o filho da inimiga e chega ao extremo de tentar mandar pra cadeia o empregado com problemas mentais contratado para serviços de jardinagem (o bom Ernie Hudson). A absoluta falta de remorso ou hesitação da protagonista é comparável a vilãs de novelas globais, que não permitem que ninguém ou nada atrapalhe seus objetivos - e o roteiro tampouco se preocupa em buscar profundidade em seus atos, tendo como finalidade absoluta levar a história a um clímax como manda qualquer curso para escritores de cinema. A escalada de maldades de Peyton é interpretada com visível gosto por Rebecca, que acaba sendo o destaque absoluto de um filme interessante mas que nunca ultrapassa as limitações do gênero a que pertence. Não deixa de ser um correto currículo para Hanson - que atingiria estágios extremamente superiores em seu ofício - e o destaque maior da carreira de De Mornay, que apesar do sucesso do filme não atingiu o patamar de estrela que prometia.
"A mão que balança o berço" é um suspense mediano, construído corretamente pelo talentoso diretor Cutis Hanson. Prende a atenção, mas não muda a vida de ninguém.
"A mão que balança o berço" é um suspense mediano, construído corretamente pelo talentoso diretor Cutis Hanson. Prende a atenção, mas não muda a vida de ninguém.
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