VOANDO ALTO (Eddie the Eagle, 2016, Hurwitz Creative/Marv Films/Saville Productions, 106min) Direção: Dexter Fletcher. Roteiro: Sean Macaulay, Simon Kelton, estória de Simon Kelton. Fotografia: George Richmond. Montagem: Martin Walsh. Música: Matthew Margeson. Direção de arte/cenários: Mike Gunn/Naomi Moore. Produção executiva: Zygi Kamasa, Pierre Lagrange, Stephen Marks, Peter Morton, Claudia Vaughn. Produção: Adam Bohling, Rupert Maconick, David Reid, Valerie Van Galder, Matthew Vaughn. Elenco: Hugh Jackman, Taron Egerton, Tom Costello, Jim Broadbent, Christopher Walken. Estreia: 26/01/16 (Festival de Sundance)
As Olimpíadas de Inverno de 1988, em Calgary, Canadá, tornaram-se famosas no cinema graças ao filme "Jamaica abaixo de zero" (93), que contava a história da primeira equipe de trenó do país através de uma comédia em tom familiar. Mas na mesma competição, em outra categoria - salto de esqui - um outro atleta chamava a atenção, não por medalhas ou excelência, mas sim por sua paixão pelo esporte e pela persistência em ser o primeiro britânico a disputar os jogos em um esporte sem tradição em sua nação. Ao cativar o público torcedor, Eddie "The Eagle" Edwards tornou-se uma figura icônica a tal ponto de ser convidado para carregar a tocha olímpica dos jogos de 2010, em uma demonstração de sua importância para o espírito esportivo declarado pelo criador das Olimpíadas modernas, Pierre de Coubertin: "O mais importante nos Jogos Olímpicos não é ganhar, mas participar. O importante na vida não é o triunfo, e sim a luta." Desde então - ou mais precisamente desde 1999, projetos cinematográficos sobre a trajetória de Edwards começaram a surgir, a despeito de sua relutância em permitir uma adaptação. O fracasso de uma tentativa com o ator Steve Coogan - que tencionava realizar uma comédia rasgada sobre o assunto - deixou o campo livre, então, para o diretor e produtor Matthew Vaugh, de "Kingsman: Serviço Secreto" (2014) reconectar-se com o roteiro que havia lido alguns anos antes e que havia deixado de lado. Surgia "Voando alto", uma terna, divertida e emocionante comédia capaz de arrancar sorrisos do mais cético dos espectadores.
Por uma dessas circunstâncias do destino, Vaughn decidiu produzir o filme sobre Edwards depois de assistir, junto com os filhos, a uma exibição na televisão de "Jamaica abaixo de zero". Com o firme propósito de realizar uma obra de tom familiar, sem a violência - repleta de ironia, mas ainda assim violência - de seu "Kingsman", o cineasta preferiu deixar de lado a direção e oferecer o projeto a seu amigo de longa data Dexter Fletcher, ator de seu primeiro filme como produtor, "Jogos, trapaças e dois canos fumegantes", lançado quase vinte anos antes. Tornado diretor com o passar do tempo, Fletcher aceitou o desafio e, com a aprovação de Edwards, "Voando alto" começava finalmente a tomar forma. Não da maneira tradicional, mas com um toque de leveza e humor que faria do filme não uma cinebiografia convencional, mas antes disso, uma releitura em tom cômico de sua trajetória rumo à realização de seu sonho de ser um atleta olímpico. Para isso, não apenas muitos fatos foram alterados - com a anuência do próprio biografado - como personagens foram simplesmente inventados, como forma de impulsionar a narrativa em uma direção mais facilmente palatável ao gosto das plateias. Nascia, assim, a figura de Bronson Peary, um ex-atleta que se torna o hesitante treinador de Edwards e seu maior aliado na luta contra os céticos - e cínicos - burocratas do esporte britânico.
Segundo o roteiro de Simon Kelt e Sean Macaulay - que Edwards diz ser apenas dez ou quinze por centro baseado na verdade - o protagonista, filho único de um gesseiro e de uma dona-de-casa britânicos, sempre sonhou em ser um atleta olímpico, mesmo diante das dificuldades impostas por um problema físico na perna esquerda, que praticamente o impedia de andar direito. Livre do aparelho que o acompanhou na infância, Eddie passa a treinar obsessivamente com o objetivo de participar dos jogos, sempre desencorajado pelo pai, que deseja que ele siga sua profissão. Contrariando até mesmo o Comitê Técnico da Grã-Bretanha - que não deseja um amador tão destreinado junto com seus talentosos atletas - e contando apenas com o apoio da mãe, Edwards resolve ir treinar na Alemanha (na verdade, Eddie foi para os EUA), e lá conhece Bronson Peary (Hugh Jackman), que anos antes, devido a seu comportamento arrogante, deixou de ser um astro do esporte para trabalhar limpando os campos de treino. Depois de muito insistir, Eddie convence Peary a treiná-lo, talvez não para ganhar medalhas, mas para estabelecer um recorde para seu país e provar a todos que a perseverança e a paixão pelo esporte são maiores que a fama e o dinheiro.
Com esse subtexto familiar e politicamente correto, seria fácil para "Voando alto" esbarrar em clichês e sentimentalismos. Porém, em um toque de gênio, Vaughn e Fletcher fazem do filme uma homenagem carinhosa e empolgante a todos aqueles que um dia já tiveram um sonho. Acompanhado por uma trilha sonora caprichada, uma edição ágil, senso de humor inteligente e interpretações impecáveis, o que poderia ser um aborrecido e previsível amontoado de lugares-comuns cede espaço ao divertido retrato de uma paixão quase proibida que se torna, aos poucos, plenamente tangível. Para isso, é imprescindível a atuação exemplar do jovem Taron Egerton, descoberto por Vaughan em "Kingsman": dos maneirismos físicos à linguagem corporal, do visual à voz e à postura, Egerton incorpora Eddie Edwards com extrema perfeição, aliando um carisma impressionante à já facilmente adorável personalidade do protagonista. Sua química com Hugh Jackman é um dos pontos altos de um filme repleto deles. Despretensioso, inspirador e muito, mas muito divertido, "Voando alto" é uma pequena obra-prima, que mesmo quando apela aos clichês, o faz com sinceridade e respeito. Imperdível!
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BROOKLYN
BROOKLYN (Brooklyn, 2015, BBC Films/Wildgaze Films, 117min) Direção: John Crowley. Roteiro: Nick Hornby, romance de Colm Tóibín. Fotografia: Yves Bélanger. Montagem: Jake Roberts. Música: Michael Brook. Figurino: Odile Dicks-Mireaux. Direção de arte/cenários: François Séguin/Jenny Oman, Louise Tremblay. Produção executiva: Hussain Amarshi, Rory Gilmartin, Zygi Kamasa, Christine Langan, Alan Moloney, Beth Pattinson, Thorsten Schumacher. Produção: Finola Dwyer, Amanda Posey. Elenco: Saoirse Ronan, Julie Walters, Jim Broadbent, Dohmnall Gleeson, Emory Cohen. Estreia: 26/01/25 (Festival de Sundance)
3 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz (Saoirse Ronan), Roteiro Adaptado
Delicadeza. Simplicidade. Pureza. Com esses três elementos em mão - mais o belo roteiro do escritor Nick Hornby, adaptado do romance de Colm Tóibín - o cineasta John Crowley conseguiu em seu quarto longa-metragem o que muitos diretores mais experientes jamais alcançaram: uma indicação ao Oscar de melhor filme. Desde sua estreia e ovação no Festival de Sundance, em janeiro de 2015, o singelo "Brooklyn" passou a colecionar prêmios da crítica e de festivais, cativados por sua extrema facilidade em transmitir uma imensa gama de sentimentos sem apelar para o dramalhão. Ao contar uma história de autodescoberta e amadurecimento, o filme, estrelado pela ótima Saoirse Ronan - a adolescente inconsequente de "Desejo e reparação" (2007) - é um oásis de inteligência e sutileza em uma época na qual orçamentos gigantescos e desnecessárias continuações mandam e desmandam nas bilheterias. Não por acaso, disputou a estatueta principal com "Mad Max: estrada da fúria", de George Miller e "Perdido em Marte", de Ridley Scott - dois sucessos comerciais que, apesar das inúmeras qualidades, passam longe de qualquer tipo de delicadeza ou despretensão.
A protagonista do filme - verossímil, real, falível e por isso mesmo apaixonante - é Eilis, uma jovem irlandesa que aproveita a chance de viajar para a Nova York pós-guerra (o ano em que a ação começa é 1952) para tentar uma vida melhor, mais próspera e promissora em termos profissionais. Amparada pela ajuda do Padre Flood (Jim Broadbent) e hospedada na pensão da atenciosa Sra. Kehoe (Julie Walters), ela começa a trabalhar em uma loja de departamentos, enquanto estuda para uma carreira como escriturária. Sua vida pacata e repleta de saudades de casa começa a mudar quando ela conhece Tony (Emory Cohen), um descendente de italianos que trabalha como encanador e que se apaixona perdidamente por ela. O romance faz com que Eilis finalmente comece a sentir-se em casa em um país estranho, mas um acontecimento inesperado a leva de volta para a Irlanda, onde ela conhece outro rapaz, Jim (Dohmnall Gleeson), o que a faz questionar seus sentimentos e suas ambições.
Contando sua história sem atropelos e sem grandes reviravoltas, "Brooklyn" conquista o espectador aos poucos, conforme vai apresentando todas as suas qualidades, com um ritmo próprio e suave. Coerente com a proposta do diretor em apostar no minimalismo emocional e visual, a reconstituição de época é detalhista sem jamais chamar a atenção para si em detrimento da trama ou dos personagens - o figurino é sensacional - e a fotografia de Yves Bélanger explora com sensibilidade a beleza dos olhos de sua atriz central, expressivos a ponto de revelarem sozinhos boa parte do turbilhão de sentimentos que a assolam. Para isso é essencial o talento superlativo de Saoirse Ronan, que consegue destacar-se mesmo sem apoiar-se em cenas grandiloquentes ou lacrimosas: quando Eilis sofre, sua angústia é compreensível e verdadeira; quando está feliz, seu brilho é contagiante e sincero. E quando toma atitudes talvez duvidosas, é impossível não perdoá-la e torcer para sua redenção. Com desenvoltura de veterana, Ronan fez por merecer sua indicação ao Oscar: ela consegue fugir de todas as armadilhas do roteiro com extrema segurança, e conquista a empatia do público justamente por assumir para si a responsabilidade de tornar inesquecível uma trama que, a despeito de seu desenvolvimento poético e fluido, não apresenta nenhuma novidade. E talvez seja justamente essa a chave para seu sucesso.
Tomando poucas liberdades em relação ao romance de Tóibín, o roteiro de Nick Hornby - que perdeu o Oscar para o chato "A grande aposta" - mantém seu tom lírico e nostálgico, calcado mais nos personagens do que nas situações dramáticas expostas durante a narrativa. Inteligente e com um sutil senso de humor, o desenvolvimento da ação se concentra em Eilis e naqueles que a rodeiam, desde as colegas de pensão - que para surpresa do espectador NÃO se tornam inimigas da protagonista como acontece normalmente em filmes do gênero - até sua família, cerne de suas preocupações e saudades. O triângulo amoroso formado no ato final do filme também soa orgânico, especialmente devido à química entre Ronan e seus dois colegas de cena, principalmente o encantador Emory Cohen - revelado no seriado "Smash" - na pele de um rapaz pouco instruído que ganha o coração não apenas da personagem principal, mas também da plateia. O romance pueril, ingênuo e sincero dos personagens contrasta com a incipiente relação da garota com Jim, centrado em um futuro mais prático e realista - uma mudança de perspectiva facilmente constatável na palheta de cores utilizada pela fotografia de Bélanger e pelos cenários e figurinos, que vão se tornando mais coloridos conforme a percepção de mundo de Eilis vai mudando. Esse cuidado a pequenos detalhes - quase invisíveis em um primeiro olhar - é que impressiona e seduz em "Brooklyn", um pequeno grande filme capaz de deixar qualquer um com um enorme sorriso estampado no rosto.
3 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz (Saoirse Ronan), Roteiro Adaptado
Delicadeza. Simplicidade. Pureza. Com esses três elementos em mão - mais o belo roteiro do escritor Nick Hornby, adaptado do romance de Colm Tóibín - o cineasta John Crowley conseguiu em seu quarto longa-metragem o que muitos diretores mais experientes jamais alcançaram: uma indicação ao Oscar de melhor filme. Desde sua estreia e ovação no Festival de Sundance, em janeiro de 2015, o singelo "Brooklyn" passou a colecionar prêmios da crítica e de festivais, cativados por sua extrema facilidade em transmitir uma imensa gama de sentimentos sem apelar para o dramalhão. Ao contar uma história de autodescoberta e amadurecimento, o filme, estrelado pela ótima Saoirse Ronan - a adolescente inconsequente de "Desejo e reparação" (2007) - é um oásis de inteligência e sutileza em uma época na qual orçamentos gigantescos e desnecessárias continuações mandam e desmandam nas bilheterias. Não por acaso, disputou a estatueta principal com "Mad Max: estrada da fúria", de George Miller e "Perdido em Marte", de Ridley Scott - dois sucessos comerciais que, apesar das inúmeras qualidades, passam longe de qualquer tipo de delicadeza ou despretensão.
A protagonista do filme - verossímil, real, falível e por isso mesmo apaixonante - é Eilis, uma jovem irlandesa que aproveita a chance de viajar para a Nova York pós-guerra (o ano em que a ação começa é 1952) para tentar uma vida melhor, mais próspera e promissora em termos profissionais. Amparada pela ajuda do Padre Flood (Jim Broadbent) e hospedada na pensão da atenciosa Sra. Kehoe (Julie Walters), ela começa a trabalhar em uma loja de departamentos, enquanto estuda para uma carreira como escriturária. Sua vida pacata e repleta de saudades de casa começa a mudar quando ela conhece Tony (Emory Cohen), um descendente de italianos que trabalha como encanador e que se apaixona perdidamente por ela. O romance faz com que Eilis finalmente comece a sentir-se em casa em um país estranho, mas um acontecimento inesperado a leva de volta para a Irlanda, onde ela conhece outro rapaz, Jim (Dohmnall Gleeson), o que a faz questionar seus sentimentos e suas ambições.
Contando sua história sem atropelos e sem grandes reviravoltas, "Brooklyn" conquista o espectador aos poucos, conforme vai apresentando todas as suas qualidades, com um ritmo próprio e suave. Coerente com a proposta do diretor em apostar no minimalismo emocional e visual, a reconstituição de época é detalhista sem jamais chamar a atenção para si em detrimento da trama ou dos personagens - o figurino é sensacional - e a fotografia de Yves Bélanger explora com sensibilidade a beleza dos olhos de sua atriz central, expressivos a ponto de revelarem sozinhos boa parte do turbilhão de sentimentos que a assolam. Para isso é essencial o talento superlativo de Saoirse Ronan, que consegue destacar-se mesmo sem apoiar-se em cenas grandiloquentes ou lacrimosas: quando Eilis sofre, sua angústia é compreensível e verdadeira; quando está feliz, seu brilho é contagiante e sincero. E quando toma atitudes talvez duvidosas, é impossível não perdoá-la e torcer para sua redenção. Com desenvoltura de veterana, Ronan fez por merecer sua indicação ao Oscar: ela consegue fugir de todas as armadilhas do roteiro com extrema segurança, e conquista a empatia do público justamente por assumir para si a responsabilidade de tornar inesquecível uma trama que, a despeito de seu desenvolvimento poético e fluido, não apresenta nenhuma novidade. E talvez seja justamente essa a chave para seu sucesso.
Tomando poucas liberdades em relação ao romance de Tóibín, o roteiro de Nick Hornby - que perdeu o Oscar para o chato "A grande aposta" - mantém seu tom lírico e nostálgico, calcado mais nos personagens do que nas situações dramáticas expostas durante a narrativa. Inteligente e com um sutil senso de humor, o desenvolvimento da ação se concentra em Eilis e naqueles que a rodeiam, desde as colegas de pensão - que para surpresa do espectador NÃO se tornam inimigas da protagonista como acontece normalmente em filmes do gênero - até sua família, cerne de suas preocupações e saudades. O triângulo amoroso formado no ato final do filme também soa orgânico, especialmente devido à química entre Ronan e seus dois colegas de cena, principalmente o encantador Emory Cohen - revelado no seriado "Smash" - na pele de um rapaz pouco instruído que ganha o coração não apenas da personagem principal, mas também da plateia. O romance pueril, ingênuo e sincero dos personagens contrasta com a incipiente relação da garota com Jim, centrado em um futuro mais prático e realista - uma mudança de perspectiva facilmente constatável na palheta de cores utilizada pela fotografia de Bélanger e pelos cenários e figurinos, que vão se tornando mais coloridos conforme a percepção de mundo de Eilis vai mudando. Esse cuidado a pequenos detalhes - quase invisíveis em um primeiro olhar - é que impressiona e seduz em "Brooklyn", um pequeno grande filme capaz de deixar qualquer um com um enorme sorriso estampado no rosto.
quinta-feira
A VIAGEM
A VIAGEM (Cloud Atlas, 2012, Cloud Atlas Productions/X-Filme Creative Pool, 172min) Direção: Tom Tykwer, Andy Wachowski, Lana Wachowski. Roteiro: Tom Tykwer, Andy Wachowski, Lana Wachowski, romance de David Mitchell. Fotografia: Frank Grieber, John Toll. Montagem: Alexander Berner. Música: Reinhold Heil, Johnny Klimek, Tom Tykwer. Figurino: Kym Barrett, Pierre-Yves Gayraud. Direção de arte/cenários: Hugh Bateup, Uli Hanisch/Rebecca Alleway, Peter Walpole. Produção executiva: John Chong, Caroline Kwauk, Philip Lee, Wilson Qiu, Uwe Schott, Pearry Reginald Teo, Ricky Tse. Produção: Stefan Arndt, Alex Boden, Grant Hill, Tom Tykwer, Andy Wachowski, Lana Wachowski. Elenco: Tom Hanks, Susan Sarandon, Halle Berry, Hugh Grant, Jim Broadbent, Jim Sturgess, Hugo Weaving, Ben Winshaw, Doona Bae, James D'Arcy, Xun Zhou. Estreia: 08/9/12 (Festival de Toronto)
Se um filme é rejeitado enfaticamente por um pretenso crítico como Rubens Ewald Filho - uma das maiores fraudes do jornalismo cultural já forjadas na imprensa nacional - isso provavelmente quer dizer que a obra é, no mínimo, interessante e digna de atenção. Sendo assim, é obrigatório que se deixe o preconceito e qualquer tipo de expectativa de lado para conferir "A viagem" - título nacional inapropriado para o intraduzível "Cloud Atlas" - mais um passo dos irmãos Wachowski em sua missão de sacudir a mesmice do cinema internacional, como fizeram com "Matrix" em 1999. Dessa vez contando com a co-direção do alemão Tom Tykwer (do criativo "Corra Lola, corra"), eles adaptaram o difícil romance de David Mitchell em um filme tecnicamente perfeito que, se não chega a ser emocionalmente brilhante devido à sua natureza episódica, é um dos mais ousados produtos cinematográficos dos últimos anos, voltando a tocar (de forma poética e sensível) em temas caros aos cineastas, como filosofia, destino e livre-arbítrio - que eles voltaram a usar como tema na série de TV "Sense8", lançada em 2015 com grande sucesso.
O complexo roteiro - escrito pelos irmãos e por Tykwer - conta seis histórias simultaneamente, ainda que elas aconteçam em períodos de tempo e espaço díspares. A espetacular edição - a cargo de Alexander Berner, cujo melhor filme do currículo é a adaptação para as telas do bestseller "O perfume" - costura as tramas de forma envolvente, sublinhando as semelhanças e coincidências entre elas para explicitar ao espectador que todas elas, no fundo, formam um grande e abrangente panorama humano e social. Segundo a teoria do filme - que de certa forma evoca muitos ensinamentos da doutrina espírita - tudo que se faz em uma vida ecoa para a eternidade, afetando mesmo que indiretamente outras pessoas (e também fica claro que as mesmas pessoas, em sexos, classes sociais e épocas distintas convivem entre si, muitas vezes repetindo de forma inconsciente o que já fizeram em vidas passadas). É assim que um jovem advogado (vivido por Jim Sturgess) ajuda um escravo foragido no ano de 1849 e em 2144 um revolucionário japonês (também interpretado por Sturgess, dessa vez sob forte maquiagem) colabora com a fuga de uma ciborgue (Doona Bae) que será uma líder contra a opressão (alguém aí lembrou de "Matrix"?). E é seguindo essa linha de raciocínio que outras personagens e histórias são apresentadas ao público, utilizando o mesmo elenco em todas elas, muitas vezes de forma irreconhecível: Tom Hanks, Halle Berry, Hugh Grant, Susan Sarandon, Jim Broadbent, Hugo Weaving e Ben Winshaw surgem diante da plateia com os mais variados visuais e papeis, escondidos frequentemente por trás de uma maquiagem nunca menos que brilhante (e injustamente esquecida pelo Oscar). O elo entre as personagens às vezes é óbvio, em outras nem tanto - e uma marca na pele, em forma de estrela cadente, os une inexoravelmente.
Ambicioso e por vezes quase megalomaníaco, "A viagem" tem a seu favor a coragem de enfrentar de igual pra igual produções anabolizadas em forma e orçamento que sofrem com uma irreparável falta de conteúdo - e mesmo assim levam multidões às salas de cinema. Forçando o público a sair de sua passividade intelectual, logicamente se arriscou a pregar no deserto - e foi o que aconteceu, com uma bilheteria muito aquém da esperada e merecida. Enquanto filmes de super-heróis quebravam recorde em cima de recorde, o filme de Tykwer e dos Wachowski minguava, chegando a dividir as opiniões até mesmo daqueles que se arriscaram a uma sessão. Realmente não é um filme de fácil assimilação, e isso acaba por ser mais uma qualidade do que um defeito. Mesmo os detratores, porém, são obrigados a reconhecer que, apesar de alguns equívocos, a obra tem qualidades redentoras, como a espetacular trilha sonora e toda a técnica envolvida em criar mundos tão díspares e uní-los em uma única trama. Mesmo que o roteiro tente não complicar demais as coisas e dê pistas às vezes óbvias das ligações entre os personagens, os autores não subestimam a inteligência do público e é aí que seu maior mérito fica evidente: "A viagem" é um filme para adultos que gostam de pensar e ser tocados por uma história. Seus efeitos visuais, sua maquiagem, seus artifícios são apenas a ponte para um objetivo maior, que mesmo não sendo atingido em sua plenitude, sacode a inércia da audiência.
Pecando apenas por não dar ao público a chance de realmente conhecer a fundo as personagens e se importar de verdade com seus problemas - o que não impede que algumas histórias se sobressaiam dramaticamente a outras - "A viagem" requer paciência e a liberdade de embarcar rumo a uma experiência inebriante e rica. Não é um filme que agrada a todo mundo (em especial a resenhistas que julgam atores por seu visual e cultuam alucinadamente divas de uma Hollywood que não mais existe). Mas é corajoso e tem muito a dizer. Poucos filmes recentes podem se gabar disso.
Se um filme é rejeitado enfaticamente por um pretenso crítico como Rubens Ewald Filho - uma das maiores fraudes do jornalismo cultural já forjadas na imprensa nacional - isso provavelmente quer dizer que a obra é, no mínimo, interessante e digna de atenção. Sendo assim, é obrigatório que se deixe o preconceito e qualquer tipo de expectativa de lado para conferir "A viagem" - título nacional inapropriado para o intraduzível "Cloud Atlas" - mais um passo dos irmãos Wachowski em sua missão de sacudir a mesmice do cinema internacional, como fizeram com "Matrix" em 1999. Dessa vez contando com a co-direção do alemão Tom Tykwer (do criativo "Corra Lola, corra"), eles adaptaram o difícil romance de David Mitchell em um filme tecnicamente perfeito que, se não chega a ser emocionalmente brilhante devido à sua natureza episódica, é um dos mais ousados produtos cinematográficos dos últimos anos, voltando a tocar (de forma poética e sensível) em temas caros aos cineastas, como filosofia, destino e livre-arbítrio - que eles voltaram a usar como tema na série de TV "Sense8", lançada em 2015 com grande sucesso.
O complexo roteiro - escrito pelos irmãos e por Tykwer - conta seis histórias simultaneamente, ainda que elas aconteçam em períodos de tempo e espaço díspares. A espetacular edição - a cargo de Alexander Berner, cujo melhor filme do currículo é a adaptação para as telas do bestseller "O perfume" - costura as tramas de forma envolvente, sublinhando as semelhanças e coincidências entre elas para explicitar ao espectador que todas elas, no fundo, formam um grande e abrangente panorama humano e social. Segundo a teoria do filme - que de certa forma evoca muitos ensinamentos da doutrina espírita - tudo que se faz em uma vida ecoa para a eternidade, afetando mesmo que indiretamente outras pessoas (e também fica claro que as mesmas pessoas, em sexos, classes sociais e épocas distintas convivem entre si, muitas vezes repetindo de forma inconsciente o que já fizeram em vidas passadas). É assim que um jovem advogado (vivido por Jim Sturgess) ajuda um escravo foragido no ano de 1849 e em 2144 um revolucionário japonês (também interpretado por Sturgess, dessa vez sob forte maquiagem) colabora com a fuga de uma ciborgue (Doona Bae) que será uma líder contra a opressão (alguém aí lembrou de "Matrix"?). E é seguindo essa linha de raciocínio que outras personagens e histórias são apresentadas ao público, utilizando o mesmo elenco em todas elas, muitas vezes de forma irreconhecível: Tom Hanks, Halle Berry, Hugh Grant, Susan Sarandon, Jim Broadbent, Hugo Weaving e Ben Winshaw surgem diante da plateia com os mais variados visuais e papeis, escondidos frequentemente por trás de uma maquiagem nunca menos que brilhante (e injustamente esquecida pelo Oscar). O elo entre as personagens às vezes é óbvio, em outras nem tanto - e uma marca na pele, em forma de estrela cadente, os une inexoravelmente.
Ambicioso e por vezes quase megalomaníaco, "A viagem" tem a seu favor a coragem de enfrentar de igual pra igual produções anabolizadas em forma e orçamento que sofrem com uma irreparável falta de conteúdo - e mesmo assim levam multidões às salas de cinema. Forçando o público a sair de sua passividade intelectual, logicamente se arriscou a pregar no deserto - e foi o que aconteceu, com uma bilheteria muito aquém da esperada e merecida. Enquanto filmes de super-heróis quebravam recorde em cima de recorde, o filme de Tykwer e dos Wachowski minguava, chegando a dividir as opiniões até mesmo daqueles que se arriscaram a uma sessão. Realmente não é um filme de fácil assimilação, e isso acaba por ser mais uma qualidade do que um defeito. Mesmo os detratores, porém, são obrigados a reconhecer que, apesar de alguns equívocos, a obra tem qualidades redentoras, como a espetacular trilha sonora e toda a técnica envolvida em criar mundos tão díspares e uní-los em uma única trama. Mesmo que o roteiro tente não complicar demais as coisas e dê pistas às vezes óbvias das ligações entre os personagens, os autores não subestimam a inteligência do público e é aí que seu maior mérito fica evidente: "A viagem" é um filme para adultos que gostam de pensar e ser tocados por uma história. Seus efeitos visuais, sua maquiagem, seus artifícios são apenas a ponte para um objetivo maior, que mesmo não sendo atingido em sua plenitude, sacode a inércia da audiência.
Pecando apenas por não dar ao público a chance de realmente conhecer a fundo as personagens e se importar de verdade com seus problemas - o que não impede que algumas histórias se sobressaiam dramaticamente a outras - "A viagem" requer paciência e a liberdade de embarcar rumo a uma experiência inebriante e rica. Não é um filme que agrada a todo mundo (em especial a resenhistas que julgam atores por seu visual e cultuam alucinadamente divas de uma Hollywood que não mais existe). Mas é corajoso e tem muito a dizer. Poucos filmes recentes podem se gabar disso.
terça-feira
A DAMA DE FERRO
A DAMA DE FERRO (The Iron Lady, 2011, Pathé/Film4/UK Film Council, 100min) Direção: Phillyda Lloyd. Roteiro: Abi Morgan. Fotografia: Elliot Davis. Montagem: Justine Wright. Música: Thomas Newman. Figurino: Consolata Boyle. Direção de arte/cenários: Simon Elliott/Annie Gilhooly. Produção executiva: Françoise Ivernel, Adam Kulick, Cameron McCracken, Tessa Ross. Produção: Damian Jones. Elenco: Meryl Streep, Jim Brodabent, Olivia Collman, Richard E. Grant. Estreia: 30/12/11
Vencedor de 2 Oscar: Melhor Atriz (Meryl Streep), Maquiagem
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator/Drama (Meryl Streep)
Uma das principais características de um grande ator é a sua
possibilidade de transformar qualquer filme, por pior que ele seja, em
uma experiência menos dolorosa. Jack Nicholson faz isso como ninguém.
Kevin Spacey idem. E é exatamente isso que Meryl Streep faz com "A dama
de ferro". A cinebiografia de Margareth Thatcher, primeira-ministra
britânica que esteve no poder entre 1979 e 1990 é de uma mediocridade
tão grande que chega a fazer com que o trabalho anterior de sua
diretora, o musical "Mamma Mia" - que era divertido e solar mas só isso!
- soe como um "Cantando na chuva". No entanto, Streep é tão, tão soberana em
seu ofício que é a única coisa que impede o filme de naufragar
solenemente sem deixar sobreviventes.
Quando o filme começa Thatcher já está aposentada e apresentando alguns sinais de demência, chegando a conversar com Denis (Jim Broadbent, subaproveitado), o marido que já morreu. Enquanto se prepara para doar suas roupas, ela relembra sua trajetória política, desde a juventude - quando, filha do humilde dono de uma mercearia era humilhada pelas colegas - até a maturidade, passando por sua eleição para o Parlamento inglês e por todos os momentos mais importantes de seu mandato. O problema maior do roteiro (que utiliza de forma preguiçosa o batido recurso do flashback) é que tudo é muito confuso e superficial, não se detendo satisfatoriamente a nenhum aspecto da vida de sua protagonista. Pontos importantes da carreira de Thatcher (como sua firmeza durante a Guerra das Malvinas e seu confronto com os atentados do IRA, que tiraram a vida de seu porta-voz) passam pela tela de forma desordenada, sem dar ao público nem a oportunidade de conhecer um pouco melhor a história política do país durante essa fase tão importante nem de travar conhecimento com o ser humano por trás da persona política engendrada pela primeira-ministra. Ao tentar equilibrar esses dois pontos, Phillyda Lloyd tropeça em sua falta de experiência.
Enquanto "Mamma Mia" não precisava mais do que o carisma de seu elenco e das canções conhecidas desde sempre do grupo ABBA, "A dama de ferro" necessitava de uma mão mais firme em seu comando. Ao contrário do que Stephen Frears fez em "A rainha" - dar à sua protagonista um senso de humanidade quase desconhecido do grande público ao narrar um período específico de seu reinado - Lloyd tenta abraçar uma trajetória de vida inteira em um filme de menos de duas horas e se perde em suas pretensões. Sua Margaret Thatcher não é nem a bruxa que muitos pintam nem a idealista que seus correligionários sempre tentaram vender, mas não é questão de equilíbrio e sim de um roteiro esquizofrênico e sem foco que dá pouco espaço até mesmo para o brilho de sua atriz central. Mas mesmo assim, com todos os problemas, Streep brilha avassaladora no papel que lhe deu o esperado terceiro Oscar (felizmente o politicamente correto não foi mais forte e Viola Davis, apesar de ótima em "Histórias cruzadas", não tirou o prêmio da veterana atriz).
Ajudada por uma maquiagem competente (que deveria servir de exemplo aos profissionais de "J. Edgar"), a mais respeitada atriz americana em atividade faz o possível e o impossível para dar credibilidade ao filme, convencendo em todas as fases da personagem, com um sotaque perfeito e todas as qualidades que fazem dela o mito vivo que é. Mesmo trabalhando em cima de um material quase oco - e o artifício dramático de contar a história através de suas conversas com o fantasma do marido morto não ajuda em nada - Streep dá vida e consistência à sua personagem e salva o filme de ser absoluta e irremediavelmente esquecível. Salve Meryl!
Vencedor de 2 Oscar: Melhor Atriz (Meryl Streep), Maquiagem
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator/Drama (Meryl Streep)
Quando o filme começa Thatcher já está aposentada e apresentando alguns sinais de demência, chegando a conversar com Denis (Jim Broadbent, subaproveitado), o marido que já morreu. Enquanto se prepara para doar suas roupas, ela relembra sua trajetória política, desde a juventude - quando, filha do humilde dono de uma mercearia era humilhada pelas colegas - até a maturidade, passando por sua eleição para o Parlamento inglês e por todos os momentos mais importantes de seu mandato. O problema maior do roteiro (que utiliza de forma preguiçosa o batido recurso do flashback) é que tudo é muito confuso e superficial, não se detendo satisfatoriamente a nenhum aspecto da vida de sua protagonista. Pontos importantes da carreira de Thatcher (como sua firmeza durante a Guerra das Malvinas e seu confronto com os atentados do IRA, que tiraram a vida de seu porta-voz) passam pela tela de forma desordenada, sem dar ao público nem a oportunidade de conhecer um pouco melhor a história política do país durante essa fase tão importante nem de travar conhecimento com o ser humano por trás da persona política engendrada pela primeira-ministra. Ao tentar equilibrar esses dois pontos, Phillyda Lloyd tropeça em sua falta de experiência.
Enquanto "Mamma Mia" não precisava mais do que o carisma de seu elenco e das canções conhecidas desde sempre do grupo ABBA, "A dama de ferro" necessitava de uma mão mais firme em seu comando. Ao contrário do que Stephen Frears fez em "A rainha" - dar à sua protagonista um senso de humanidade quase desconhecido do grande público ao narrar um período específico de seu reinado - Lloyd tenta abraçar uma trajetória de vida inteira em um filme de menos de duas horas e se perde em suas pretensões. Sua Margaret Thatcher não é nem a bruxa que muitos pintam nem a idealista que seus correligionários sempre tentaram vender, mas não é questão de equilíbrio e sim de um roteiro esquizofrênico e sem foco que dá pouco espaço até mesmo para o brilho de sua atriz central. Mas mesmo assim, com todos os problemas, Streep brilha avassaladora no papel que lhe deu o esperado terceiro Oscar (felizmente o politicamente correto não foi mais forte e Viola Davis, apesar de ótima em "Histórias cruzadas", não tirou o prêmio da veterana atriz).
Ajudada por uma maquiagem competente (que deveria servir de exemplo aos profissionais de "J. Edgar"), a mais respeitada atriz americana em atividade faz o possível e o impossível para dar credibilidade ao filme, convencendo em todas as fases da personagem, com um sotaque perfeito e todas as qualidades que fazem dela o mito vivo que é. Mesmo trabalhando em cima de um material quase oco - e o artifício dramático de contar a história através de suas conversas com o fantasma do marido morto não ajuda em nada - Streep dá vida e consistência à sua personagem e salva o filme de ser absoluta e irremediavelmente esquecível. Salve Meryl!
GANGUES DE NOVA YORK
GANGUES DE NOVA YORK (Gangs of New York, 2002, Miramax, 167min)
Direção: Martin Scorsese. Roteiro: Jay Cocks, Steven Zaillian, Kenneth
Lonergan, estória de Jay Cocks. Fotografia: Michael Ballhaus. Montagem:
Thelma Schoonmaker. Música: Howard Shore. Figurino: Sandy Powell.
Direção de arte/cenários: Dante Ferreti/Francesca LoSchiavo. Produção
executiva: Maurizio Grimaldi, Michael Hausman, Michael Ovitz, Bob
Weinstein, Rick Yorn. Produção: Alberto Grimaldi, Harvey Weinstein.
Elenco: Daniel Day-Lewis, Leonardo DiCaprio, Cameron Diaz, Liam Neeson,
John C. Reilly, Jim Broadbent, Henry Thomas, Brendan Gleeson, Gary
Lewis, Stephen Graham, Eddie Marsan, Cara Seymour. Estreia: 09/12/02
10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Martin Scorsese), Ator (Daniel Day-Lewis), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Canção ("The hands that built America"), Som
Vencedor de 2 Golden Globes: Diretor (Martin Scorsese), Canção ("The hands that built America")
Um dos projetos de estimação do cineasta Martin Scorsese, "Gangues de Nova York" começou a ser gerado ainda nos anos 70, quando o diretor ainda era uma jovem promessa, vindo do sucesso de crítica de seu "Taxi driver". Mais de duas décadas depois - e após uma sucessão de altos e baixos e uma bem-sucedida parceria artística com Robert DeNiro - parecia-lhe que enfim era chegada a hora de mostrar nas telas um pouco das origens da mais famosa cidade do mundo, com toda a sua violência sanguinária substituindo o glamour e o charme da metrópole tão querida por ele. Com base em uma estória do roteirista Jay Cocks desenvolvida por anos e anos, surgiu então um filme que, a despeito de todos os talentos envolvidos e das expectativas geradas por tanta espera, não atinge todo o seu potencial. Mesmo com um orçamento generoso de mais de 80 milhões de dólares, falta a ele uma alma e um foco narrativo mais atraente do que uma simples história de vingança tendo como pano de fundo as cruéis batalhas que pavimentaram o solo da Grande Maçã durante a Guerra de Secessão.
Obcecado pela história de Nova York desde que descobriu, no início de 1970, um livro escrito por Herbert Asbury, Scorsese dedicou tempo, paixão e energia a descobrir uma forma de contar cinematograficamente parte de uma longa e complicada história envolvendo os conflitos entre americanos protestantes e irlandeses católicos que encharcavam de sangue as calçadas da cidade com o objetivo de controle. Foi somente na década de 90 que surgiu a ideia de concentrar a trama em um personagem real - Bill "The Butcher" Poole - e, modificando alguns detalhes de sua biografia (mais significativamente a data de sua morte, ocorrida antes dos fatos mostrados no filme), envolvê-lo em uma história de vingança familiar. Tomava forma, assim, a estrutura final de uma obra complicada, cara e que se tornou um dos lançamentos mais ansiosamente aguardados de 2001 - e que, devido a constantes atrasos em seu cronograma de filmagens, só chegou às telas no final de 2002, dividindo a opinião do público, da crítica e até das cerimônias de premiação: indicado a dez Oscar, "Gangues de Nova York" testemunhou de mãos vazias a festa de "Chicago" e "O pianista", mesmo tendo sido agraciado pelos Golden Globes de melhor ator (Daniel Day-Lewis) e canção (a bela "The hands that built America", da banda irlandesa U2).
Interpretado com a dedicação habitual por Daniel Day-Lewis - em uma atuação que empresta um tom caricato a um personagem de nuances trágicas e épicas - Bill, o Açougueiro é o líder de uma das gangues que controlam um dos distritos de Nova York na metade do século XIX. Durante uma das sangrentas batalhas entre elas, ele não hesita em matar cruelmente um rival, o irlandês "Priest" Vallon (Liam Neeson), sob os olhos do filho deste, uma criança que, órfã e criada em um orfanato católico, cresce com o desejo de vingança como principal objetivo de vida. Dezesseis anos mais tarde, o menino, chamado Amsterdam (e na pele de Leonardo DiCaprio em sua primeira colaboração com Scorsese, de quem se tornaria parceiro artístico constante) volta às ruas de sua cidade e a encontra sob uma constante tensão racial e social, com os políticos tentando de qualquer maneira conquistar os votos dos imigrantes, que são tratados como seres insignificantes por gente com Bill. Em sua gana de vingar a morte do pai, Amsterdam se aproxima do temido líder e se torna seu homem de confiança - até ser traído inesperadamente e ser obrigado a enfrentar seu inimigo em plena Revolta do Alistamento (quando a comunidade pobre, inconformada com o alto custo da taxa que liberava os jovens do alistamento militar).
Tecnicamente impecável, com uma reconstituição de época brilhante - as filmagens aconteceram na Cinecitta, na Itália - e a direção sempre vigorosa e detalhista de Scorsese, "Gangues de Nova York" é um superespetáculo visual, repleto de sequências criativas, fortes e marcantes, mas infelizmente derrapa nas suas boas intenções. O roteiro - co-escrito pelo oscarizado Steven Zaillian e por Kenneth Lonergan, conhecido por seus filmes independentes - falha em conectar seus protagonistas, negando ao público a chance de se deixar envolver pela vingança de Amsterdam ou compreender a contento todas as nuances da história da cidade. Até mesmo a inclusão de uma desnecessária personagem feminina, a punguista Jenny Everdeane (a sempre insossa Cameron Diaz, nome imposto pelos produtores para incrementar as chances comerciais do filme) soa como uma tentativa desastrada de aliviar a violência do enredo, com um romance também pouco convincente. Indeciso entre narrar batalhas sangrentas, um drama familiar ou uma história de amor, Scorsese acaba por ficar no meio-termo em todas as frentes, prejudicando tanto o ritmo quanto a profundidade daquela que poderia ser a sua obra-prima. Para isso colabora também a atuação de Leonardo DiCaprio - que no mesmo ano protagonizou o divertido "Prenda-me se for capaz", de Steven Spielberg: apesar de elogiado por boa parte da crítica, o jovem ator não consegue transmitir, em seu trabalho, todas as possibilidades de seu personagem.
No entanto, apesar dos pesares, "Gangues de Nova York" é um típico Martin Scorsese, o que faz dele programa obrigatório para qualquer cinéfilo. Mesmo longe de tudo que poderia ser - em parte porque o orçamento não comportou toda a grandeza do roteiro final - o filme tem qualidades em número mais do que suficiente para agradar a quem procura uma produção caprichada, com bons atores e comandada por um cineasta cuja paixão transpira em cada fotograma.
10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Martin Scorsese), Ator (Daniel Day-Lewis), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Canção ("The hands that built America"), Som
Vencedor de 2 Golden Globes: Diretor (Martin Scorsese), Canção ("The hands that built America")
Um dos projetos de estimação do cineasta Martin Scorsese, "Gangues de Nova York" começou a ser gerado ainda nos anos 70, quando o diretor ainda era uma jovem promessa, vindo do sucesso de crítica de seu "Taxi driver". Mais de duas décadas depois - e após uma sucessão de altos e baixos e uma bem-sucedida parceria artística com Robert DeNiro - parecia-lhe que enfim era chegada a hora de mostrar nas telas um pouco das origens da mais famosa cidade do mundo, com toda a sua violência sanguinária substituindo o glamour e o charme da metrópole tão querida por ele. Com base em uma estória do roteirista Jay Cocks desenvolvida por anos e anos, surgiu então um filme que, a despeito de todos os talentos envolvidos e das expectativas geradas por tanta espera, não atinge todo o seu potencial. Mesmo com um orçamento generoso de mais de 80 milhões de dólares, falta a ele uma alma e um foco narrativo mais atraente do que uma simples história de vingança tendo como pano de fundo as cruéis batalhas que pavimentaram o solo da Grande Maçã durante a Guerra de Secessão.
Obcecado pela história de Nova York desde que descobriu, no início de 1970, um livro escrito por Herbert Asbury, Scorsese dedicou tempo, paixão e energia a descobrir uma forma de contar cinematograficamente parte de uma longa e complicada história envolvendo os conflitos entre americanos protestantes e irlandeses católicos que encharcavam de sangue as calçadas da cidade com o objetivo de controle. Foi somente na década de 90 que surgiu a ideia de concentrar a trama em um personagem real - Bill "The Butcher" Poole - e, modificando alguns detalhes de sua biografia (mais significativamente a data de sua morte, ocorrida antes dos fatos mostrados no filme), envolvê-lo em uma história de vingança familiar. Tomava forma, assim, a estrutura final de uma obra complicada, cara e que se tornou um dos lançamentos mais ansiosamente aguardados de 2001 - e que, devido a constantes atrasos em seu cronograma de filmagens, só chegou às telas no final de 2002, dividindo a opinião do público, da crítica e até das cerimônias de premiação: indicado a dez Oscar, "Gangues de Nova York" testemunhou de mãos vazias a festa de "Chicago" e "O pianista", mesmo tendo sido agraciado pelos Golden Globes de melhor ator (Daniel Day-Lewis) e canção (a bela "The hands that built America", da banda irlandesa U2).
Interpretado com a dedicação habitual por Daniel Day-Lewis - em uma atuação que empresta um tom caricato a um personagem de nuances trágicas e épicas - Bill, o Açougueiro é o líder de uma das gangues que controlam um dos distritos de Nova York na metade do século XIX. Durante uma das sangrentas batalhas entre elas, ele não hesita em matar cruelmente um rival, o irlandês "Priest" Vallon (Liam Neeson), sob os olhos do filho deste, uma criança que, órfã e criada em um orfanato católico, cresce com o desejo de vingança como principal objetivo de vida. Dezesseis anos mais tarde, o menino, chamado Amsterdam (e na pele de Leonardo DiCaprio em sua primeira colaboração com Scorsese, de quem se tornaria parceiro artístico constante) volta às ruas de sua cidade e a encontra sob uma constante tensão racial e social, com os políticos tentando de qualquer maneira conquistar os votos dos imigrantes, que são tratados como seres insignificantes por gente com Bill. Em sua gana de vingar a morte do pai, Amsterdam se aproxima do temido líder e se torna seu homem de confiança - até ser traído inesperadamente e ser obrigado a enfrentar seu inimigo em plena Revolta do Alistamento (quando a comunidade pobre, inconformada com o alto custo da taxa que liberava os jovens do alistamento militar).
Tecnicamente impecável, com uma reconstituição de época brilhante - as filmagens aconteceram na Cinecitta, na Itália - e a direção sempre vigorosa e detalhista de Scorsese, "Gangues de Nova York" é um superespetáculo visual, repleto de sequências criativas, fortes e marcantes, mas infelizmente derrapa nas suas boas intenções. O roteiro - co-escrito pelo oscarizado Steven Zaillian e por Kenneth Lonergan, conhecido por seus filmes independentes - falha em conectar seus protagonistas, negando ao público a chance de se deixar envolver pela vingança de Amsterdam ou compreender a contento todas as nuances da história da cidade. Até mesmo a inclusão de uma desnecessária personagem feminina, a punguista Jenny Everdeane (a sempre insossa Cameron Diaz, nome imposto pelos produtores para incrementar as chances comerciais do filme) soa como uma tentativa desastrada de aliviar a violência do enredo, com um romance também pouco convincente. Indeciso entre narrar batalhas sangrentas, um drama familiar ou uma história de amor, Scorsese acaba por ficar no meio-termo em todas as frentes, prejudicando tanto o ritmo quanto a profundidade daquela que poderia ser a sua obra-prima. Para isso colabora também a atuação de Leonardo DiCaprio - que no mesmo ano protagonizou o divertido "Prenda-me se for capaz", de Steven Spielberg: apesar de elogiado por boa parte da crítica, o jovem ator não consegue transmitir, em seu trabalho, todas as possibilidades de seu personagem.
No entanto, apesar dos pesares, "Gangues de Nova York" é um típico Martin Scorsese, o que faz dele programa obrigatório para qualquer cinéfilo. Mesmo longe de tudo que poderia ser - em parte porque o orçamento não comportou toda a grandeza do roteiro final - o filme tem qualidades em número mais do que suficiente para agradar a quem procura uma produção caprichada, com bons atores e comandada por um cineasta cuja paixão transpira em cada fotograma.
sábado
IRIS
IRIS
(Iris, 2001, BBC Films/Intermedia Films, 91min) Direção: Richard Eyre.
Roteiro: Richard Eyre, Charles Woods, livros "Iris: a memoir" e "Elegy
for Iris", de John Bailey. Fotografia: Roger Pratt. Montagem: Martin
Walsh. Música: James Horner. Figurino: Ruth Myers. Direção de
arte/cenários: Gemma Jackson/Trisha Edwards. Produção executiva: Guy
East, Tom Hedley, Anthony Minghella, Sydney Pollack, David M. Thompson,
Harvey Weinstein. Produção: Robert Fox, Scott Rudin. Elenco: Judi Dench,
Jim Broadbent, Kate Winslet, Hugh Boneville. Estreia: 14/12/01
3 indicações ao Oscar: Atriz (Judi Dench), Ator Coadjuvante (Jim Broadbent), Atriz Coadjuvante (Kate Winslet)
Vencedor do Oscar de Ator Coadjuvante (Jim Broadbent)
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Jim Broadbent)
Filósofa, romancista, poeta e dramaturga, Iris Murdoch foi uma das intelectuais mais respeitadas do século XX. Dona de um espírito livre e à frente do seu tempo, ela encantou a homens e mulheres na mesma medida, mas foi apenas uma história de amor que marcou sua brilhante trajetória. Essa história, vivida ao lado do marido, o também escritor John Bailey - que aceitou as idiossincrasias da mulher e ficou a seu lado até seus últimos momentos - foi contada em dois livros, que, juntos, chegaram adaptados às telas de cinema em 2001, sob a direção de Richard Eyre. Estrelado por Judi Dench e Kate Winslet dividindo o papel central em duas fases distintas da protagonista, "Iris" comoveu os membros da Academia, que indicou ambas ao Oscar - Dench na categoria principal, Winslet como coadjuvante - mas premiou apenas Jim Broadbent por seu desempenho como Bailey, seu leal e dedicado marido. Partilhando o papel com Hugh Boneville (de impressionante semelhança física e que o interpreta na juventude), Broadbent ficou com a estatueta no mesmo ano em que também marcou presença em dois sucessos de bilheteria: em "O diário de Bridget Jones" viveu o pai da protagonista interpretada por Renée Zelwegger, e em "Moulin Rouge", dava vida a Harold Zidler, o dono do cabaré que dava título ao filme de Baz Luhrmann.
Os inúmeros prêmios arrebatados por Broadbent - que incluem também o Golden Globe e a láurea dos críticos de Los Angeles e do National Board of Review - refletem, sem dúvida nenhuma, uma interpretação intensa e visceral, mas não conseguem eclipsar o trabalho espetacular da sempre ótima Judi Dench - também ela multipremiada por seu desempenho. Atriz repleta de nuances, Dench tira partido de sua vasta experiência para criar uma Iris Murdoch emocionante em sua maturidade, quando começa a demonstrar os traços do mal de Alzheimer que a acompanharia até seus momentos finais. Em um trabalho calcado basicamente no olhar triste e desesperado de uma mulher diante do fim de sua genialidade, ela consegue até mesmo a façanha de sobressair-se a um roteiro que, tentando ecoar a poesia do texto de Bailey, sofre de uma fragilidade dramática que dissolve suas possibilidades dramáticas. Mesmo tratando de um tema forte e contando uma história com altas chances de arrancar lágrimas dos espectadores, "Iris" não consegue disfarçar sua frieza narrativa.
Intercalando sua história entre o início da relação entre os protagonistas - então vividos por Kate Winslet e Hugh Boneville - e os anos finais da vida da escritora, quando sua doença torna-se o ponto central da trama, "Iris" tem a seu favor, além do elenco escalado à perfeição, uma direção sensível e uma trilha sonora delicada, que ilustra as cenas sem invadir desnecessariamente o enredo. Porém, assim como o roteiro por vezes se perde na fidelidade quase exagerada à fonte original, a edição de Martin Walsh ocasionalmente tropeça nas tentativas de fundir superfluamente os dois tempos narrativos, não permitindo à plateia que se envolva com a profundidade necessária no drama dos protagonistas. Resta então mergulhar nas atuações mais do que fascinantes do quarteto de atores, que entrega performances muito acima da média. Kate Winslet constrói uma Iris vivaz, quase impertinente, libertária e ousada, capaz de flertar intelectual e sexualmente com qualquer pessoa. Seu parceiro de cena, Hugh Boneville - que havia aparecido antes em "Um lugar chamado Notting Hill", como um dos amigos de Hugh Grant - é um contraponto interessante à seu vulcão de sensualidade e dinamismo e seu trabalho conjunto com Jim Broadbent é um dos pontos altos do filme. E Judi Dench, desnecessário lembrar, hipnotiza sempre que está em cena, com uma presença luminosa mesmo em seus piores e mais trágicos momentos.
Triste e um tanto depressivo, "Iris" foge facilmente do estigma de ser apenas um filme veridíco sobre uma escritora talentosa e uma doença fatal que a aniquila. Dirigido com seriedade e extrema sensibilidade por Richard Eyre - que voltaria a dirigir Dench no superior "Notas sobre um escândalo" (06) - o filme é uma bela história de amor e lealdade, contado com poesia e discrição. Se os livros de Bailey já eram uma bela homenagem à Murdoch, sua adaptação para as telas é um belíssimo complemento.
3 indicações ao Oscar: Atriz (Judi Dench), Ator Coadjuvante (Jim Broadbent), Atriz Coadjuvante (Kate Winslet)
Vencedor do Oscar de Ator Coadjuvante (Jim Broadbent)
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Jim Broadbent)
Filósofa, romancista, poeta e dramaturga, Iris Murdoch foi uma das intelectuais mais respeitadas do século XX. Dona de um espírito livre e à frente do seu tempo, ela encantou a homens e mulheres na mesma medida, mas foi apenas uma história de amor que marcou sua brilhante trajetória. Essa história, vivida ao lado do marido, o também escritor John Bailey - que aceitou as idiossincrasias da mulher e ficou a seu lado até seus últimos momentos - foi contada em dois livros, que, juntos, chegaram adaptados às telas de cinema em 2001, sob a direção de Richard Eyre. Estrelado por Judi Dench e Kate Winslet dividindo o papel central em duas fases distintas da protagonista, "Iris" comoveu os membros da Academia, que indicou ambas ao Oscar - Dench na categoria principal, Winslet como coadjuvante - mas premiou apenas Jim Broadbent por seu desempenho como Bailey, seu leal e dedicado marido. Partilhando o papel com Hugh Boneville (de impressionante semelhança física e que o interpreta na juventude), Broadbent ficou com a estatueta no mesmo ano em que também marcou presença em dois sucessos de bilheteria: em "O diário de Bridget Jones" viveu o pai da protagonista interpretada por Renée Zelwegger, e em "Moulin Rouge", dava vida a Harold Zidler, o dono do cabaré que dava título ao filme de Baz Luhrmann.
Os inúmeros prêmios arrebatados por Broadbent - que incluem também o Golden Globe e a láurea dos críticos de Los Angeles e do National Board of Review - refletem, sem dúvida nenhuma, uma interpretação intensa e visceral, mas não conseguem eclipsar o trabalho espetacular da sempre ótima Judi Dench - também ela multipremiada por seu desempenho. Atriz repleta de nuances, Dench tira partido de sua vasta experiência para criar uma Iris Murdoch emocionante em sua maturidade, quando começa a demonstrar os traços do mal de Alzheimer que a acompanharia até seus momentos finais. Em um trabalho calcado basicamente no olhar triste e desesperado de uma mulher diante do fim de sua genialidade, ela consegue até mesmo a façanha de sobressair-se a um roteiro que, tentando ecoar a poesia do texto de Bailey, sofre de uma fragilidade dramática que dissolve suas possibilidades dramáticas. Mesmo tratando de um tema forte e contando uma história com altas chances de arrancar lágrimas dos espectadores, "Iris" não consegue disfarçar sua frieza narrativa.
Intercalando sua história entre o início da relação entre os protagonistas - então vividos por Kate Winslet e Hugh Boneville - e os anos finais da vida da escritora, quando sua doença torna-se o ponto central da trama, "Iris" tem a seu favor, além do elenco escalado à perfeição, uma direção sensível e uma trilha sonora delicada, que ilustra as cenas sem invadir desnecessariamente o enredo. Porém, assim como o roteiro por vezes se perde na fidelidade quase exagerada à fonte original, a edição de Martin Walsh ocasionalmente tropeça nas tentativas de fundir superfluamente os dois tempos narrativos, não permitindo à plateia que se envolva com a profundidade necessária no drama dos protagonistas. Resta então mergulhar nas atuações mais do que fascinantes do quarteto de atores, que entrega performances muito acima da média. Kate Winslet constrói uma Iris vivaz, quase impertinente, libertária e ousada, capaz de flertar intelectual e sexualmente com qualquer pessoa. Seu parceiro de cena, Hugh Boneville - que havia aparecido antes em "Um lugar chamado Notting Hill", como um dos amigos de Hugh Grant - é um contraponto interessante à seu vulcão de sensualidade e dinamismo e seu trabalho conjunto com Jim Broadbent é um dos pontos altos do filme. E Judi Dench, desnecessário lembrar, hipnotiza sempre que está em cena, com uma presença luminosa mesmo em seus piores e mais trágicos momentos.
Triste e um tanto depressivo, "Iris" foge facilmente do estigma de ser apenas um filme veridíco sobre uma escritora talentosa e uma doença fatal que a aniquila. Dirigido com seriedade e extrema sensibilidade por Richard Eyre - que voltaria a dirigir Dench no superior "Notas sobre um escândalo" (06) - o filme é uma bela história de amor e lealdade, contado com poesia e discrição. Se os livros de Bailey já eram uma bela homenagem à Murdoch, sua adaptação para as telas é um belíssimo complemento.
domingo
LAURA, A VOZ DE UMA ESTRELA
LAURA, A VOZ DE UMA ESTRELA (Little voice, 1998, Miramax, 97min)
Direção: Mark Herman. Roteiro: Mark Herman, peça teatral "The rise and
fall of Little Voice", de Jim Cartwright. Fotografia: Andy Collins.
Montagem: Michael Ellis. Música: John Altman. Figurino: Lindy Hemming.
Direção de arte/cenários: Don Taylor/John Bush. Produção executiva: Nik
Powell, Stephen Wooley. Produção: Elizabeth Karlsen. Elenco: Jane
Horrocks, Michael Caine, Brenda Blethyn, Ewan McGregor, Jim Broadbent.
Estreia: 18/9/98 (Festival de Toronto)
Indicado ao Oscar de Atriz Coadjuvante (Brenda Blethyn)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator (Comédia/Musical): Michael Caine
Uma das maiores funções do Golden Globe - prêmio concedido pela Associação de Correspondentes Estrangeiros em Hollywood - é revelar ao público e à Academia que concede os Oscar (normalmente fechada em seus próprios interesses comerciais) alguns filmes que, por má distribuição, orçamentos pequenos ou inúmeros outros motivos, talvez tenham passado em branco pelas salas de exibição. Em 1999 isso aconteceu com "Laura, a voz de uma estrela", adaptação de uma peça teatral inglesa que chamou a atenção para a brilhante atuação de Michael Caine - apesar da vitória no Globe, porém, ele foi ignorado pela Academia, que lembrou-se apenas de indicar sua colega de elenco Brenda Blethyn à estatueta de atriz coadjuvante. Tal fracasso em destacar o filme dentre tantas outras produções, no entanto, não ofusca suas maiores qualidades, que residem justamente no elenco coeso e na atuação hipnótica de Jane Horrocks - para quem a peça original foi escrita - no papel principal.
Laura, a protagonista, é uma jovem inglesa reclusa e tímida que vive trancada em seu quarto, ouvindo os discos das divas que eram os ídolos de seu pai, de quem sente uma saudade devastadora. Sua rotina simples de escutar ad infinitum os álbuns de Judy Garland, Shirley Bassey e Marilyn Monroe só é quebrada pela personalidade exagerada de sua mãe, Mari Hoff (Brenda Blethyn, perfeita na caracterização), uma mulher pouco afeita a sutilezas e generosidades que vê na filha um fracasso completo. Suas vidas sofrem uma profunda transformação, porém, quando uma das conquistas de Mari, o empresário artístico Ray Say (Michael Caine), descobre que, por trás da timidez quase patológica de Laura existe um genuíno talento musical: ao ouví-la, sem querer, imitando as grandes cantoras a que admira, ele vê nela um futuro extraordinário no showbusiness.Com o apoio da ambiciosa Mari, ele tenta convencer a jovem - a quem chamam de LV (Little Voice) - a apresentar-se no clube do semi-fracassado Mr. Boo (Jim Broadbent). Sentindo-se pressionada, a antissocial Laura tem a compreensão apenas do delicado Billy (Ewan McGregor), funcionário da companhia telefônica que se dá melhor com seus pombos-correio do que com as pessoas a seu redor.
Despretensioso e de estrutura simples, "Laura, a voz de uma estrela" conquista basicamente pela construção de seus personagens, delineados com capricho e sutileza, ainda que a princípio pareçam mais estereótipos do que pessoas reais. Conforme a história avança é que as verdadeiras personalidades vão surgindo, mostrando as reais intenções de cada um - assim como as consequências de seus atos os aproxima de um desfecho senão previsível, ao menos coerente e delicado como a protagonista. O romance titubeante entre Laura e Billy (personagem inexistente na versão teatral e criado especificamente para ser vivido por Ewan McGregor) é apaixonante na medida certa, cativando a plateia graças às atitudes desajeitadas dos personagens, envolvidos sem querer em uma situação inesperada e para eles desconhecida. Ainda que não seja o foco central da narrativa, sua história de amor ajuda o espectador a compartilhar da solidão e dos medos dos dois jovens, em um amor puro que contrasta violentamente com o caso entre Mari e Ray, dois seres dotados de extremo egoísmo e ganância - e que os leva à ruína emocional.
Com interpretações fantásticas de Blethyn e Caine, Mari e Ray quase conseguem ser maiores do que a maior das qualidades de "Laura": o talento impressionante de Jane Horrocks em imitar algumas das mais idolatradas divas da música norte-americana. Duas sequências são especialmente brilhantes nesse ponto: primeiro, quando a jovem finalmente cede aos pedidos da mãe e dá um show no palco, sendo aplaudida fervorosamente; e depois, quando enfrenta bravamente Ray, utilizando-se de seu talento para expulsá-lo de sua casa apenas com trechos de músicas antigas. Essas duas cenas são um belo exemplo da força discreta do filme, que seduz imperceptivelmente até que os créditos finais surgem e deixam no público uma sensação de paz e bem-estar. Um belo pequeno filme.
Indicado ao Oscar de Atriz Coadjuvante (Brenda Blethyn)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator (Comédia/Musical): Michael Caine
Uma das maiores funções do Golden Globe - prêmio concedido pela Associação de Correspondentes Estrangeiros em Hollywood - é revelar ao público e à Academia que concede os Oscar (normalmente fechada em seus próprios interesses comerciais) alguns filmes que, por má distribuição, orçamentos pequenos ou inúmeros outros motivos, talvez tenham passado em branco pelas salas de exibição. Em 1999 isso aconteceu com "Laura, a voz de uma estrela", adaptação de uma peça teatral inglesa que chamou a atenção para a brilhante atuação de Michael Caine - apesar da vitória no Globe, porém, ele foi ignorado pela Academia, que lembrou-se apenas de indicar sua colega de elenco Brenda Blethyn à estatueta de atriz coadjuvante. Tal fracasso em destacar o filme dentre tantas outras produções, no entanto, não ofusca suas maiores qualidades, que residem justamente no elenco coeso e na atuação hipnótica de Jane Horrocks - para quem a peça original foi escrita - no papel principal.
Laura, a protagonista, é uma jovem inglesa reclusa e tímida que vive trancada em seu quarto, ouvindo os discos das divas que eram os ídolos de seu pai, de quem sente uma saudade devastadora. Sua rotina simples de escutar ad infinitum os álbuns de Judy Garland, Shirley Bassey e Marilyn Monroe só é quebrada pela personalidade exagerada de sua mãe, Mari Hoff (Brenda Blethyn, perfeita na caracterização), uma mulher pouco afeita a sutilezas e generosidades que vê na filha um fracasso completo. Suas vidas sofrem uma profunda transformação, porém, quando uma das conquistas de Mari, o empresário artístico Ray Say (Michael Caine), descobre que, por trás da timidez quase patológica de Laura existe um genuíno talento musical: ao ouví-la, sem querer, imitando as grandes cantoras a que admira, ele vê nela um futuro extraordinário no showbusiness.Com o apoio da ambiciosa Mari, ele tenta convencer a jovem - a quem chamam de LV (Little Voice) - a apresentar-se no clube do semi-fracassado Mr. Boo (Jim Broadbent). Sentindo-se pressionada, a antissocial Laura tem a compreensão apenas do delicado Billy (Ewan McGregor), funcionário da companhia telefônica que se dá melhor com seus pombos-correio do que com as pessoas a seu redor.
Despretensioso e de estrutura simples, "Laura, a voz de uma estrela" conquista basicamente pela construção de seus personagens, delineados com capricho e sutileza, ainda que a princípio pareçam mais estereótipos do que pessoas reais. Conforme a história avança é que as verdadeiras personalidades vão surgindo, mostrando as reais intenções de cada um - assim como as consequências de seus atos os aproxima de um desfecho senão previsível, ao menos coerente e delicado como a protagonista. O romance titubeante entre Laura e Billy (personagem inexistente na versão teatral e criado especificamente para ser vivido por Ewan McGregor) é apaixonante na medida certa, cativando a plateia graças às atitudes desajeitadas dos personagens, envolvidos sem querer em uma situação inesperada e para eles desconhecida. Ainda que não seja o foco central da narrativa, sua história de amor ajuda o espectador a compartilhar da solidão e dos medos dos dois jovens, em um amor puro que contrasta violentamente com o caso entre Mari e Ray, dois seres dotados de extremo egoísmo e ganância - e que os leva à ruína emocional.
Com interpretações fantásticas de Blethyn e Caine, Mari e Ray quase conseguem ser maiores do que a maior das qualidades de "Laura": o talento impressionante de Jane Horrocks em imitar algumas das mais idolatradas divas da música norte-americana. Duas sequências são especialmente brilhantes nesse ponto: primeiro, quando a jovem finalmente cede aos pedidos da mãe e dá um show no palco, sendo aplaudida fervorosamente; e depois, quando enfrenta bravamente Ray, utilizando-se de seu talento para expulsá-lo de sua casa apenas com trechos de músicas antigas. Essas duas cenas são um belo exemplo da força discreta do filme, que seduz imperceptivelmente até que os créditos finais surgem e deixam no público uma sensação de paz e bem-estar. Um belo pequeno filme.
sábado
RICARDO III
RICARDO
III (Richard III, 1995, Mayfair Entertainment International, 104min)
Direção: Richard Loncraine. Roteiro: Ian McKellen, Richard Loncraine,
peça teatral de William Shakespeare. Fotografia: Peter Biziou. Montagem:
Paul Green. Música: Trevor Jones. Figurino: Shuna Harwood. Direção de
arte/cenários: Tony Burrough. Produção executiva: Maria Apodiacos, Ellen
Dinerman Little, Ian McKellen, Joe Simon. Produção: Stephen Bayly, Lisa
Katselas Paré. Elenco: Ian McKellen, Annette Bening, Robert Downey Jr.,
Jim Broadbent, Kristin Scott Thomas, Nigel Hawthorne, John Wood, Maggie
Smith, Jim Carter, Dominic West. Estreia: 20/8/95 (Brasil)
2 indicações ao Oscar: Figurino, Direção de Arte/Cenários
De todas as polêmicas que envolvem o dramaturgo inglês William Shakespeare - desde sua sexualidade até a autoria verdadeira de suas obras - duas certezas emergem soberanas sempre que um filme baseado em alguma peça sua chega aos cinemas: a perenidade de sua percepção da alma humana e a estrutura sempre moderna de seus textos, que permite que qualquer adaptação mantenha o espírito do original intocado. Um perfeito exemplo dessa afirmação é "Ricardo III", que o ator Ian McKellen levou dos palcos para as telas em 1995. Baseado em uma montagem ousada que alterava a data da ação para os primórdios da ascensão do nazismo (incutindo assim uma crítica política que em nada diminui o impacto da trama) e enxugava o texto em cerca de 50%, o filme de Richard Loncraine é um triunfo artístico, mas peca em ditar o ritmo necessário que poderia fazer dele uma das mais excitantes transposições do bardo para o cinema.
McKellen, também autor do roteiro, está espetacular como o personagem-título - reza a lenda que ele perdeu uma indicação ao Oscar 96 por apenas dois votos - o deformado e vil irmão caçula do Rei Edward (John Wood) que, na Europa dos anos 30, cobiça o trono da Inglaterra a ponto de urdir intrigas e assassinatos para alcançá-lo. Frio e cruel, ele não hesita em incluir até mesmo outro irmão, Clarence (Nigel Hawthorne), entre as vítimas que faz rumo ao poder. Sua trajetória sangrenta, porém, encontra firme resistência na Rainha Elizabeth (Annette Bening) - tornada americana na adaptação de Loncraine - e no irmão dela, Lord Rivers (Robert Downey Jr.), a quem ele considera dois arrivistas sociais. Casado com a bela Lady Anne (Kristin Scott Thomas), viúva de uma suas vítimas, Richard não medirá esforços em atingir seu objetivo e tornar-se um monarca ditatorial e fascista.
Com cuidadosa reconstituição de época - foi indicado aos Oscars de figurino e direção de arte - "Ricardo III" é uma produção que enche os olhos, conquistando o espectador logo de cara com uma sequência de ação empolgante que apresenta seu protagonista já mostrando seu lado maligno - no que muito colabora o olhar ensandecido de McKellen, um dos grandes atores de seu tempo. Conforme a história avança, no entanto, algo parece sair do lugar. Talvez os cortes no texto original de Shakespeare tenham sido exagerados, pois em vários momentos fica a impressão clara de que algo aconteceu e não foi explicado à plateia. Esse sentimento de confusão permanece até o final, e essa confiança do cineasta no conhecimento prévio do público da história que está sendo contada acaba por prejudicar sua narrativa. Não fica claro, por exemplo, os motivos que levam o protagonista a odiar tanto a Lord Rivers - exceto, lógico, pelo fato de ele ser o cunhado do rei. Tampouco é explicado o motivo que leva Lady Anne a aceitar desposar Ricardo, a despeito de ele ser o assassino de seu marido.
Essas falhas no roteiro de "Ricardo III" terminam por ser o calcanhar de Aquiles da obra, de resto um trabalho exemplar de grandes atuações e um texto poderoso enfatizado por um desenho de produção impecável e luxuoso. Shakespeare sabia como ninguém burilar as ambições e desejos humanos e poucos personagens seus são tão absurdamente apavorantes em sua sinceridade quanto o rei Ricardo, que encontra na atuação do monstro Ian McKellen a personificação ideal. Nem seu ritmo um tanto irregular apaga o brilho de seu desempenho.
2 indicações ao Oscar: Figurino, Direção de Arte/Cenários
De todas as polêmicas que envolvem o dramaturgo inglês William Shakespeare - desde sua sexualidade até a autoria verdadeira de suas obras - duas certezas emergem soberanas sempre que um filme baseado em alguma peça sua chega aos cinemas: a perenidade de sua percepção da alma humana e a estrutura sempre moderna de seus textos, que permite que qualquer adaptação mantenha o espírito do original intocado. Um perfeito exemplo dessa afirmação é "Ricardo III", que o ator Ian McKellen levou dos palcos para as telas em 1995. Baseado em uma montagem ousada que alterava a data da ação para os primórdios da ascensão do nazismo (incutindo assim uma crítica política que em nada diminui o impacto da trama) e enxugava o texto em cerca de 50%, o filme de Richard Loncraine é um triunfo artístico, mas peca em ditar o ritmo necessário que poderia fazer dele uma das mais excitantes transposições do bardo para o cinema.
McKellen, também autor do roteiro, está espetacular como o personagem-título - reza a lenda que ele perdeu uma indicação ao Oscar 96 por apenas dois votos - o deformado e vil irmão caçula do Rei Edward (John Wood) que, na Europa dos anos 30, cobiça o trono da Inglaterra a ponto de urdir intrigas e assassinatos para alcançá-lo. Frio e cruel, ele não hesita em incluir até mesmo outro irmão, Clarence (Nigel Hawthorne), entre as vítimas que faz rumo ao poder. Sua trajetória sangrenta, porém, encontra firme resistência na Rainha Elizabeth (Annette Bening) - tornada americana na adaptação de Loncraine - e no irmão dela, Lord Rivers (Robert Downey Jr.), a quem ele considera dois arrivistas sociais. Casado com a bela Lady Anne (Kristin Scott Thomas), viúva de uma suas vítimas, Richard não medirá esforços em atingir seu objetivo e tornar-se um monarca ditatorial e fascista.
Com cuidadosa reconstituição de época - foi indicado aos Oscars de figurino e direção de arte - "Ricardo III" é uma produção que enche os olhos, conquistando o espectador logo de cara com uma sequência de ação empolgante que apresenta seu protagonista já mostrando seu lado maligno - no que muito colabora o olhar ensandecido de McKellen, um dos grandes atores de seu tempo. Conforme a história avança, no entanto, algo parece sair do lugar. Talvez os cortes no texto original de Shakespeare tenham sido exagerados, pois em vários momentos fica a impressão clara de que algo aconteceu e não foi explicado à plateia. Esse sentimento de confusão permanece até o final, e essa confiança do cineasta no conhecimento prévio do público da história que está sendo contada acaba por prejudicar sua narrativa. Não fica claro, por exemplo, os motivos que levam o protagonista a odiar tanto a Lord Rivers - exceto, lógico, pelo fato de ele ser o cunhado do rei. Tampouco é explicado o motivo que leva Lady Anne a aceitar desposar Ricardo, a despeito de ele ser o assassino de seu marido.
Essas falhas no roteiro de "Ricardo III" terminam por ser o calcanhar de Aquiles da obra, de resto um trabalho exemplar de grandes atuações e um texto poderoso enfatizado por um desenho de produção impecável e luxuoso. Shakespeare sabia como ninguém burilar as ambições e desejos humanos e poucos personagens seus são tão absurdamente apavorantes em sua sinceridade quanto o rei Ricardo, que encontra na atuação do monstro Ian McKellen a personificação ideal. Nem seu ritmo um tanto irregular apaga o brilho de seu desempenho.
segunda-feira
TIROS NA BROADWAY
TIROS NA BROADWAY (Bullets over Broadway, 1994, Miramax Films/Sweetland Films, 98min) Direção: Woody Allen. Roteiro: Woody Allen, Douglas McGrath. Fotografia: Carlo Di Palma. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Susan Bode, Amy Marshall. Produção executiva: J.E. Beaucaire, Jean Doumanian. Produção: Robert Greenhut. Elenco: John Cusack, Dianne Wiest, Chazz Palminteri, Rob Reiner, Jennifer Tilly, Mary-Louise Parker, Jim Broadbent, Tracey Ulman, Joe Viterelli, Jack Warden, Harvey Fierstein. Estreia: 01/10/94
7 indicações ao Oscar: Diretor (Woody Allen), Roteiro Original, Ator Coadjuvante (Chazz Palminteri), Atriz Coadjuvante (Jennifer Tilly/Dianne Wiest), Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Dianne Wiest)
Vencedor do Golden Globe de Atriz Coadjuvante (Dianne Wiest)
Poucas vezes um filme de Woody Allen teve uma acolhida tão generosa por parte da Academia quanto "Tiros na Broadway". Indicada a sete Oscar, a divertida comédia passada nos bastidores do teatro dos anos 20 conquista pelo humor inteligente e sarcástico, pela reconstituição de época caprichada e, como é de costume na obra do cineasta nova-iorquino, pelo elenco impecável. Não foi à toa que três de seus atores foram indicados a um estatueta e Dianne Wiest tenha arrebatado a sua segunda - a primeira, por outro filme de Allen, "Hannah e suas irmãs", ela recebeu em 1986. Na pele de Helen Sinclair, uma diva dos palcos com tendências alcóolicas e egocêntricas, Wiest só não rouba a cena porque, a seu lado, estão os surpreendentes Chazz Palminteri (dramaturgo até então desconhecido pelos fãs de cinema) e Jennifer Tilly (que deixou pra trás trabalhos esquecíveis como "A fuga", com Alec Baldwin e Kim Basinger graças a seu desempenho hilariante).
Liderando o elenco de peso está John Cusack, que interpreta David Shayne, um jovem dramaturgo que, a despeito da qualidade de seu texto, acumula fracasso em cima de fracasso. Sua grande chance acontece quando sua última peça, "O deus dos nossos pais" encontra um patrocinador inesperado, o mafioso (Joe Viterelli), cuja única exigência é que sua amante, Olive Neal (Jennifer Tilly), tenha um papel de destaque. A princípio irredutível em vender sua arte, David acaba convencido por seu empresário Nick Valenti (Jack Warden) a aceitar a ideia, principalmente porque, com o financiamento, poderá contar com a presença de Helen Sinclair (Wiest), uma atriz de primeira grandeza. Porém, a presença histérica da péssima Olive é a apenas o primeiro problema na trajetória do espetáculo: quando os ensaios começam, os atores passam a questionar o texto e as ideias do dramaturgo, e o segurança de Olive, o agressivo Cheech (Chazz Palminteri) começa a dar suas próprias ideias para mudar o desenrolar da trama.
Afiado como nunca - e dividindo os créditos do roteiro com Douglas McGrath, em um acontecimento raríssimo em sua carreira - Allen não dá ao espectador tempo para recuperar-se de um diálogo sensacional para presenteá-lo imediatamente com outro. Enquanto Wiest desfila seu festival de ironias pela tela - e lega um clássico "Don't speak!" para a posteridade - os demais atores deitam e rolam com personagens bem delineados e de importância para o desenvolvimento da comédia proposta. Jim Broadbent, por exemplo, antes do Oscar de coadjuvante por "Iris", vive um ator que engorda a olhos vistos durante o processo de ensaios e acaba sendo responsável por uma crise nas coxias quando se envolve romanticamente com quem não devia - erro que o próprio David também comete quando se apaixona por Helen mesmo já tendo um relacionamento sério.
Divertido, inteligente e irônico na medida certa, "Tiros na Broadway" comprova as qualidades de Woody Allen como cineasta e roteirista popular - contrariando sua fama de hermético. As piadas, mesmo que sejam muito mais interessantes a um público que conheça os bastidores do teatro, são de um sarcasmo a toda prova e o desfecho - coerente e imprevisível - faz jus a todo o alvoroço que o filme provocou e suas indicações aos Oscar de direção e roteiro original. Um Allen dos melhores!
7 indicações ao Oscar: Diretor (Woody Allen), Roteiro Original, Ator Coadjuvante (Chazz Palminteri), Atriz Coadjuvante (Jennifer Tilly/Dianne Wiest), Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Dianne Wiest)
Vencedor do Golden Globe de Atriz Coadjuvante (Dianne Wiest)
Poucas vezes um filme de Woody Allen teve uma acolhida tão generosa por parte da Academia quanto "Tiros na Broadway". Indicada a sete Oscar, a divertida comédia passada nos bastidores do teatro dos anos 20 conquista pelo humor inteligente e sarcástico, pela reconstituição de época caprichada e, como é de costume na obra do cineasta nova-iorquino, pelo elenco impecável. Não foi à toa que três de seus atores foram indicados a um estatueta e Dianne Wiest tenha arrebatado a sua segunda - a primeira, por outro filme de Allen, "Hannah e suas irmãs", ela recebeu em 1986. Na pele de Helen Sinclair, uma diva dos palcos com tendências alcóolicas e egocêntricas, Wiest só não rouba a cena porque, a seu lado, estão os surpreendentes Chazz Palminteri (dramaturgo até então desconhecido pelos fãs de cinema) e Jennifer Tilly (que deixou pra trás trabalhos esquecíveis como "A fuga", com Alec Baldwin e Kim Basinger graças a seu desempenho hilariante).
Liderando o elenco de peso está John Cusack, que interpreta David Shayne, um jovem dramaturgo que, a despeito da qualidade de seu texto, acumula fracasso em cima de fracasso. Sua grande chance acontece quando sua última peça, "O deus dos nossos pais" encontra um patrocinador inesperado, o mafioso (Joe Viterelli), cuja única exigência é que sua amante, Olive Neal (Jennifer Tilly), tenha um papel de destaque. A princípio irredutível em vender sua arte, David acaba convencido por seu empresário Nick Valenti (Jack Warden) a aceitar a ideia, principalmente porque, com o financiamento, poderá contar com a presença de Helen Sinclair (Wiest), uma atriz de primeira grandeza. Porém, a presença histérica da péssima Olive é a apenas o primeiro problema na trajetória do espetáculo: quando os ensaios começam, os atores passam a questionar o texto e as ideias do dramaturgo, e o segurança de Olive, o agressivo Cheech (Chazz Palminteri) começa a dar suas próprias ideias para mudar o desenrolar da trama.
Afiado como nunca - e dividindo os créditos do roteiro com Douglas McGrath, em um acontecimento raríssimo em sua carreira - Allen não dá ao espectador tempo para recuperar-se de um diálogo sensacional para presenteá-lo imediatamente com outro. Enquanto Wiest desfila seu festival de ironias pela tela - e lega um clássico "Don't speak!" para a posteridade - os demais atores deitam e rolam com personagens bem delineados e de importância para o desenvolvimento da comédia proposta. Jim Broadbent, por exemplo, antes do Oscar de coadjuvante por "Iris", vive um ator que engorda a olhos vistos durante o processo de ensaios e acaba sendo responsável por uma crise nas coxias quando se envolve romanticamente com quem não devia - erro que o próprio David também comete quando se apaixona por Helen mesmo já tendo um relacionamento sério.
Divertido, inteligente e irônico na medida certa, "Tiros na Broadway" comprova as qualidades de Woody Allen como cineasta e roteirista popular - contrariando sua fama de hermético. As piadas, mesmo que sejam muito mais interessantes a um público que conheça os bastidores do teatro, são de um sarcasmo a toda prova e o desfecho - coerente e imprevisível - faz jus a todo o alvoroço que o filme provocou e suas indicações aos Oscar de direção e roteiro original. Um Allen dos melhores!
quarta-feira
MOULIN ROUGE, O AMOR EM VERMELHO
MOULIN ROUGE, O AMOR EM VERMELHO (Moulin Rouge, 2001, 20th Century Fox, 127min) Direção: Baz Luhrmann. Roteiro: Baz Luhrmann, Craig Pearce. Fotografia: Donald McAlpine. Montagem: Jill Bilcock. Música: Craig Armstrong. Figurino: Catherine Martin, Angus Strathie. Direção de arte/cenários: Catherine Martin/Brigitte Broch. Produção: Fred Baron, Martin Brown, Baz Luhrmann. Elenco: Nicole Kidman, Ewan McGregor, John Leguizamo, Jim Broadbent, Richard Roxburgh, Kyle Minogue. Estreia: 09/5/01 (Festival de Cannes)
Indicado a 8 Oscar: Melhor Filme, Atriz (Nicole Kidman), Fotografia, Montagem, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Som, Maquiagem
Vencedor de 2 Oscar: Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme Comédia/Musical, Atriz Comédia/Musical (Nicole Kidman), Trilha Sonora Original
É bom estar preparado! Poucas vezes aconteceu, na história do cinema, um musical como "Moulin Rouge", uma ousadia do diretor australiano Baz Luhrmann, que já transformou "Romeu e Julieta", de Shakesperare, em um filme de ação ruidoso e violento. Cafona, exagerado e quase esquizofrênico como o amor em si, "Moulin Rouge" é, sem dúvida, mais do que um simples filme: é uma experiência sensorial rara e empolgante.
Diferentemente dos musicais produzidos por Hollywood - e raríssimos até então desde sua glória nos anos 40 e 50 - "Moulin Rouge" joga canções pop contemporâneas em uma trágica história de amor passada no final do século XIX em Paris. Assim sendo, cortesãs cantam Queen e Madonna, escritores românticos entoam Elton John e prostitutas dançarinas seduzem os clientes que se divertem cantando Nirvana. Parece um samba do crioulo doido e no fundo o é. Sem medo de parecer brega, Luhrmann - também autor de "Vem dançar comigo", uma pérola do cinema kistch - costura sua excêntrica trilha sonora em um filme que também mistura romance, comédia, vaudeville e suspense. Em meio a cores quentes e uma reconstituição de época cuidadosa mas principalmente criativa e livre de amarras convencionais, o jovem escritor Christian (Ewan McGregor, saindo-se muito bem em seu primeiro papel de galã romântico) chega à Paris de 1899 disposto a criar sua obra-prima mesmo contra a vontade de seu pai, que teme que ele "desperdice sua vida com uma dançarina de can-can". Logo que chega à cidade, o rapaz une-se à troupe do pintor Toulouse-Lautrec (um John Leguizamo tornado anão graças à computação gráfica) e assume o posto de autor do espetáculo teatral que dará voz ao movimento boêmio liderado pelo artista plástico. Em busca de patrocínio para seu projeto, o grupo vai à mais famosa boate da cidade, o Moulin Rouge, lar de dançarinase cortesãs, propriedade de Harold Zidler (Jim Broadbent). A ideia é convencer a estrela do local, a bela Satine (Nicole Kidman no auge do glamour, da beleza e do talento) a fazer parte da turma e assim conseguir dinheiro para a montagem. No entanto, assim que vê Satine, Christian se apaixona por ela. Seu idílico romance, porém, é ameaçado pelo Duque (Richard Roxburg), que, também encantado por ela, tem o destino da boate em suas mãos e pode por tudo a perder.
E entretenimento parece ser a palavra de ordem em “Moulin Rouge”. Assim como em “Vem dançar comigo” nada é para ser levado exatamente a sério em “Moulin Rouge”. Absurdos são jogados à tela a cada sequência, sem objetivos maiores do que atingir o objetivo de divertir e emocionar a platéia por duas horas. Emocionar, sim. Apesar das brincadeiras visuais, do uso de “Like a virgin”, de Madonna em uma cena enlouquecida e do clima de comédia de erros de seu começo, “Moulin Rouge” é acima de tudo uma história de amor trágica e desesperada, vivida com perfeição por um casal com uma química irretocável. Quando estão em cena juntos, Nicole Kidman e Ewan McGregor soltam faíscas, comovendo aqueles que acreditam na verdade, na beleza e principalmente no amor acima de tudo. Cantando, eles surpreendem por seus dotes vocais e é preciso muita má-vontade para não ficar com um sorriso no rosto depois do dueto em cima de um elefante, onde Christian tenta convencer Satine a entregar seu amor a ele entoando trechos de uma dúzia de canções pop, de U2 a Paul McCartney.
Repleto de sequências eletrizantes e contando com um fascinante casal central, "Moulin Rouge" é paixão em estado puro, um exagero em forma de película que conquistou até mesmo a sisuda Academia de Hollywood, que o indicou a 8 estatuetas, incluindo Melhor Filme. Quem levou o prêmio foi o sensível mas quadradinho "Uma mente brilhante". Os vestutos velhindos da Academia ainda não estavam prontos para o turbilhão que é a obra-prima de Baz Luhrmann.
Indicado a 8 Oscar: Melhor Filme, Atriz (Nicole Kidman), Fotografia, Montagem, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Som, Maquiagem
Vencedor de 2 Oscar: Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme Comédia/Musical, Atriz Comédia/Musical (Nicole Kidman), Trilha Sonora Original
É bom estar preparado! Poucas vezes aconteceu, na história do cinema, um musical como "Moulin Rouge", uma ousadia do diretor australiano Baz Luhrmann, que já transformou "Romeu e Julieta", de Shakesperare, em um filme de ação ruidoso e violento. Cafona, exagerado e quase esquizofrênico como o amor em si, "Moulin Rouge" é, sem dúvida, mais do que um simples filme: é uma experiência sensorial rara e empolgante.
Diferentemente dos musicais produzidos por Hollywood - e raríssimos até então desde sua glória nos anos 40 e 50 - "Moulin Rouge" joga canções pop contemporâneas em uma trágica história de amor passada no final do século XIX em Paris. Assim sendo, cortesãs cantam Queen e Madonna, escritores românticos entoam Elton John e prostitutas dançarinas seduzem os clientes que se divertem cantando Nirvana. Parece um samba do crioulo doido e no fundo o é. Sem medo de parecer brega, Luhrmann - também autor de "Vem dançar comigo", uma pérola do cinema kistch - costura sua excêntrica trilha sonora em um filme que também mistura romance, comédia, vaudeville e suspense. Em meio a cores quentes e uma reconstituição de época cuidadosa mas principalmente criativa e livre de amarras convencionais, o jovem escritor Christian (Ewan McGregor, saindo-se muito bem em seu primeiro papel de galã romântico) chega à Paris de 1899 disposto a criar sua obra-prima mesmo contra a vontade de seu pai, que teme que ele "desperdice sua vida com uma dançarina de can-can". Logo que chega à cidade, o rapaz une-se à troupe do pintor Toulouse-Lautrec (um John Leguizamo tornado anão graças à computação gráfica) e assume o posto de autor do espetáculo teatral que dará voz ao movimento boêmio liderado pelo artista plástico. Em busca de patrocínio para seu projeto, o grupo vai à mais famosa boate da cidade, o Moulin Rouge, lar de dançarinase cortesãs, propriedade de Harold Zidler (Jim Broadbent). A ideia é convencer a estrela do local, a bela Satine (Nicole Kidman no auge do glamour, da beleza e do talento) a fazer parte da turma e assim conseguir dinheiro para a montagem. No entanto, assim que vê Satine, Christian se apaixona por ela. Seu idílico romance, porém, é ameaçado pelo Duque (Richard Roxburg), que, também encantado por ela, tem o destino da boate em suas mãos e pode por tudo a perder.
Na verdade, o roteiro de Luhrmann e Craig Pearce é apenas uma desculpa para o seu show visual e auditivo. A fotografia de Donald McAlpine aproveita cada ângulo de cada cena para surpreender e entontecer a platéia, deixando-a sem fôlego em números musicais quase inacreditáveis, editados por um insano Jill Bilcock – não à toa tanto a fotografia quanto a montagem foram indicados ao Oscar. O uso quase exaustivo de cores berrantes pode até mesmo ferir uma retina mais sensível, mas a coragem do diretor em abdicar de sutilezas em nome da diversão e do inesperado vale cada minuto. E a direção de arte – de uma criatividade ímpar e premiada com o Oscar, assim como o figurino caprichado – cumpre seu papel com louvor, nunca deixando o público esquecer que está defronte de uma das maiores manifestações de tudo que o cinema de entretenimento pode oferecer - ainda que seja "over" em inúmeros momentos.
E entretenimento parece ser a palavra de ordem em “Moulin Rouge”. Assim como em “Vem dançar comigo” nada é para ser levado exatamente a sério em “Moulin Rouge”. Absurdos são jogados à tela a cada sequência, sem objetivos maiores do que atingir o objetivo de divertir e emocionar a platéia por duas horas. Emocionar, sim. Apesar das brincadeiras visuais, do uso de “Like a virgin”, de Madonna em uma cena enlouquecida e do clima de comédia de erros de seu começo, “Moulin Rouge” é acima de tudo uma história de amor trágica e desesperada, vivida com perfeição por um casal com uma química irretocável. Quando estão em cena juntos, Nicole Kidman e Ewan McGregor soltam faíscas, comovendo aqueles que acreditam na verdade, na beleza e principalmente no amor acima de tudo. Cantando, eles surpreendem por seus dotes vocais e é preciso muita má-vontade para não ficar com um sorriso no rosto depois do dueto em cima de um elefante, onde Christian tenta convencer Satine a entregar seu amor a ele entoando trechos de uma dúzia de canções pop, de U2 a Paul McCartney.
Repleto de sequências eletrizantes e contando com um fascinante casal central, "Moulin Rouge" é paixão em estado puro, um exagero em forma de película que conquistou até mesmo a sisuda Academia de Hollywood, que o indicou a 8 estatuetas, incluindo Melhor Filme. Quem levou o prêmio foi o sensível mas quadradinho "Uma mente brilhante". Os vestutos velhindos da Academia ainda não estavam prontos para o turbilhão que é a obra-prima de Baz Luhrmann.
terça-feira
O DIÁRIO DE BRIDGET JONES
O DIÁRIO DE BRIDGET JONES (Bridget Jones's diary, 2001, Working Title Films, 97min) Direção: Sharon Maguire. Roteiro: Helen Fielding, Richard Curtis, Andrew Davies, romance de Helen Fielding. Fotografia: Stuart Dryburgh. Montagem: Martin Walsh. Música: Patrick Doyle. Figurino: Rachael Fleming. Direção de arte/cenários: Gemma Jackson/Shirley Lixenberg. Produção executiva: Helen Fielding. Produção: Tim Bevan, Jonathan Cavendish, Eric Fellner. Elenco: Renée Zelwegger, Hugh Grant, Colin Firth, Gemma Jones, Tim Broadbent. Estreia: 13/4/01
Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Renée Zelwegger)
Não há como negar: toda mulher tem uma parte Bridget Jones. A personagem criada pela escritora Helen Fielding e protagonista de dois romances atingiu em cheio o que era esperado por milhares de leitoras ávidas por personagens com as quais pudessem identificar-se. Fumante inveterada, com alguns quilos a mais, amiga de um bom porre, infeliz com o emprego e irremediavelmente frustrada com seus casos de amor, a inglesa criada por Fielding chegou aos cinemas na pele da texana Renée Zellweger e em um caso raro na história do cinema não criou polêmica por causa disso. Em uma interpretação impecável que chegou a ser indicada ao Oscar de melhor atriz, Zellwegger toma a personagem para si e não deixa dúvidas de que foi a escolha acertada para viver a personagem.
Bridget Jones é uma mulher comum. Apaixonada pelo chefe cafajeste Daniel Clever (Hugh Grant, divertindo-se a valer no papel), ela começa, no primeiro dia do ano, a escrever um diário, onde narra suas escapadas amorosas com ele, sua luta contra a balança, seus problemas familiares – sua mãe acaba de abandonar seu pai, trocando-o por um apresentador de televisão – e sua implicância com um partido arrumado por sua mãe, o almofadinha Mark Darcy (Colin Firth). Repleto de piadas tipicamente inglesas com um tempero feminino anos 90, o roteiro – que tem a colaboração da própria Helen Fielding – segue fielmente o livro, brincando com as neuroses femininas de forma saudável e romântica. A trilha sonora também ajuda, misturando contemporaneidades (Geri Haliwell, Robbie Williams) com clássicos (a cena em que Bridget dubla “All by myself”, logo nos créditos de abertura conquista qualquer um com um mínimo de senso de humor).

Quanto aos homens da vida de Mrs. Jones, nada a reclamar. Enquanto Hugh Grant dá início a sua especialização em papéis de canalhas adoráveis - sempre com atuações renovadas e simpáticas - o normalmente relegado a segundo plano Colin Firth é quem rouba a cena e os corações femininos da plateia (isso bem antes de ter seu talento reconhecido e ser premiado com o Oscar pelo soporífero "O discurso do rei"). Seu Mark Darcy, arrogante em um primeiro olhar e romântico e sentimental quando analisado mais profundamente, encontra em Firth o intérprete ideal (isso sem mencionar que no livro que deu origem ao filme a protagonista é fissurada pelo próprio ator Colin Firth, em uma jogada feliz dos produtores). O triângulo amoroso formado por Grant-Zelwegger-Firth só acrescenta ainda mais simpatia ao filme, seguramente uma das mais bem-sucedidas adaptações literárias de sua época.
Dono de um bom-humor contagiante e um romantismo longe de ser babaca (além de contar com a participação especialíssima do escritor Salman Rushdie), "O diário de Bridget Jones" é um perfeito passatempo que pode agradar até a ala masculina do público. Pena que sua continuação não foi tão feliz...
Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Renée Zelwegger)
Não há como negar: toda mulher tem uma parte Bridget Jones. A personagem criada pela escritora Helen Fielding e protagonista de dois romances atingiu em cheio o que era esperado por milhares de leitoras ávidas por personagens com as quais pudessem identificar-se. Fumante inveterada, com alguns quilos a mais, amiga de um bom porre, infeliz com o emprego e irremediavelmente frustrada com seus casos de amor, a inglesa criada por Fielding chegou aos cinemas na pele da texana Renée Zellweger e em um caso raro na história do cinema não criou polêmica por causa disso. Em uma interpretação impecável que chegou a ser indicada ao Oscar de melhor atriz, Zellwegger toma a personagem para si e não deixa dúvidas de que foi a escolha acertada para viver a personagem.
Bridget Jones é uma mulher comum. Apaixonada pelo chefe cafajeste Daniel Clever (Hugh Grant, divertindo-se a valer no papel), ela começa, no primeiro dia do ano, a escrever um diário, onde narra suas escapadas amorosas com ele, sua luta contra a balança, seus problemas familiares – sua mãe acaba de abandonar seu pai, trocando-o por um apresentador de televisão – e sua implicância com um partido arrumado por sua mãe, o almofadinha Mark Darcy (Colin Firth). Repleto de piadas tipicamente inglesas com um tempero feminino anos 90, o roteiro – que tem a colaboração da própria Helen Fielding – segue fielmente o livro, brincando com as neuroses femininas de forma saudável e romântica. A trilha sonora também ajuda, misturando contemporaneidades (Geri Haliwell, Robbie Williams) com clássicos (a cena em que Bridget dubla “All by myself”, logo nos créditos de abertura conquista qualquer um com um mínimo de senso de humor).

Quanto aos homens da vida de Mrs. Jones, nada a reclamar. Enquanto Hugh Grant dá início a sua especialização em papéis de canalhas adoráveis - sempre com atuações renovadas e simpáticas - o normalmente relegado a segundo plano Colin Firth é quem rouba a cena e os corações femininos da plateia (isso bem antes de ter seu talento reconhecido e ser premiado com o Oscar pelo soporífero "O discurso do rei"). Seu Mark Darcy, arrogante em um primeiro olhar e romântico e sentimental quando analisado mais profundamente, encontra em Firth o intérprete ideal (isso sem mencionar que no livro que deu origem ao filme a protagonista é fissurada pelo próprio ator Colin Firth, em uma jogada feliz dos produtores). O triângulo amoroso formado por Grant-Zelwegger-Firth só acrescenta ainda mais simpatia ao filme, seguramente uma das mais bem-sucedidas adaptações literárias de sua época.
Dono de um bom-humor contagiante e um romantismo longe de ser babaca (além de contar com a participação especialíssima do escritor Salman Rushdie), "O diário de Bridget Jones" é um perfeito passatempo que pode agradar até a ala masculina do público. Pena que sua continuação não foi tão feliz...
sábado
TRAÍDOS PELO DESEJO
TRAÍDOS PELO DESEJO (The crying game, 1992, Miramax Films, 112min) Direção e roteiro: Neil Jordan. Fotografia: Ian Wilson. Montagem: Kant Pan. Música: Anne Dudley. Figurino: Sandy Powell. Direção de arte/cenários: Jim Clay/Martin Childs. Casting: Susie Figgis. Produção executiva: Nik Powell. Produção: Stephen Wooley. Elenco: Stephen Rea, Miranda Richardson, Forest Whitaker, Jaye Davidson, Jim Broadbent. Estreia: 26/9/92
6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Neil Jordan), Ator (Stephen Rea), Ator Coadjuvante (Jaye Davidson), Roteiro Original, Montagem
Vencedor do Oscar de Roteiro Original
No biênio 92/93, um dos filmes mais comentados entre os cinéfilos de bom gosto era uma produção irlandesa, realizada com uns trocados, sem astros nos papéis centrais e com uma polêmica reviravolta na sua segunda parte. Dirigido pelo talentoso mas não célebre Neil Jordan, "Traídos pelo desejo" pegou o mundo de surpresa ao provar que, antes de astros musculosos e efeitos visuais, uma história bem contada é o ingrediente mais importante de qualquer produção. Hollywood seria muito mais interessante se seu filme fosse regra e não exceção.
Indicado a 6 importantes Oscar - e vencedor merecido do prêmio de roteiro original - "Traídos pelo desejo" é um dos mais fascinantes estudos sobre lealdade e paixão que o cinema já proporcionou. Imprevisível, forte, adulto e interpretado com garra, o filme de Jordan conduz o público a um labirinto de emoções a que somente um roteiro consistente e um diretor com mão firme conseguem. Tudo começa quando Jody (Forest Whitaker), um soldado inglês, é sequestrado pelo IRA, em represália ao governo. Enquanto espera o desenlace da situação, ele inicia uma espécie de amizade com um dos seus carrascos, o sensível Fergus (Stephen Rea, indicado ao Oscar de melhor ator), e fala a ele sobre sua paixão pela namorada. Depois de um trágico fim para o sequestro, Fergus abandona a luta armada e tenta levar uma vida normal. Consumido pela culpa, ele procura a namorada do soldado, a cabeleireira Dil (Jaye Davidson) e aos poucos eles iniciam um relacionamento. Depois de uma chocante revelação - que muda totalmente a visão de Fergus e da plateia em relação à moça - o passado do rapaz volta a atormentá-lo: sua colega de exército, Judy (Miranda Richardson, absolutamente fabulosa) o procura e exige que ele faça parte de uma nova ação.

As idas e vindas do roteiro de "Traídos pelo desejo" são absolutamente surpreendentes e não parecem forçadas em momento algum, graças principalmente à inteligência de Neil Jordan em não apressar as situações. Tudo acontece no momento certo, da forma correta, e o elenco escalado por ele não poderia estar em melhores dias. Stephen Rea é um ator extraordinário, que consegue dividir suas cenas com generosidade ímpar: ele joga bem com Whitaker, com Richardson e principalmente com Davidson, em um papel cruel e ingrato, mas que lhe dá a oportunidade de uma carreira. E Miranda Richardson rouba qualquer cena em que aparece, equilibrando um ar psicopata com uma determinação ferrenha de cumprir sua missão - e de quebra reconquistar o amor de Fergus.
Mas e quanto ao grande segredo preparado por Jordan? Apesar de ser o divisor de águas do roteiro - e redirecionar a trama de maneira indelével - a reviravolta na história de amor entre Fergus e Dil é apenas um elemento a mais, ainda que importante, de uma história contada com sutileza e sobriedade. Causou controvérsia, e discussões são sempre saudáveis, mas relegar "Traídos pelo desejo" a um nicho específico de cinema é emburrecer a audiência. "Traídos pelo desejo" é um filme que melhora a cada revisão - e na segunda sessão já não há mais a tal surpresa, o que apenas comprova sua enorme qualidade. Humano, sério e fascinante.Como todo bom cinema!
6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Neil Jordan), Ator (Stephen Rea), Ator Coadjuvante (Jaye Davidson), Roteiro Original, Montagem
Vencedor do Oscar de Roteiro Original
No biênio 92/93, um dos filmes mais comentados entre os cinéfilos de bom gosto era uma produção irlandesa, realizada com uns trocados, sem astros nos papéis centrais e com uma polêmica reviravolta na sua segunda parte. Dirigido pelo talentoso mas não célebre Neil Jordan, "Traídos pelo desejo" pegou o mundo de surpresa ao provar que, antes de astros musculosos e efeitos visuais, uma história bem contada é o ingrediente mais importante de qualquer produção. Hollywood seria muito mais interessante se seu filme fosse regra e não exceção.
Indicado a 6 importantes Oscar - e vencedor merecido do prêmio de roteiro original - "Traídos pelo desejo" é um dos mais fascinantes estudos sobre lealdade e paixão que o cinema já proporcionou. Imprevisível, forte, adulto e interpretado com garra, o filme de Jordan conduz o público a um labirinto de emoções a que somente um roteiro consistente e um diretor com mão firme conseguem. Tudo começa quando Jody (Forest Whitaker), um soldado inglês, é sequestrado pelo IRA, em represália ao governo. Enquanto espera o desenlace da situação, ele inicia uma espécie de amizade com um dos seus carrascos, o sensível Fergus (Stephen Rea, indicado ao Oscar de melhor ator), e fala a ele sobre sua paixão pela namorada. Depois de um trágico fim para o sequestro, Fergus abandona a luta armada e tenta levar uma vida normal. Consumido pela culpa, ele procura a namorada do soldado, a cabeleireira Dil (Jaye Davidson) e aos poucos eles iniciam um relacionamento. Depois de uma chocante revelação - que muda totalmente a visão de Fergus e da plateia em relação à moça - o passado do rapaz volta a atormentá-lo: sua colega de exército, Judy (Miranda Richardson, absolutamente fabulosa) o procura e exige que ele faça parte de uma nova ação.

As idas e vindas do roteiro de "Traídos pelo desejo" são absolutamente surpreendentes e não parecem forçadas em momento algum, graças principalmente à inteligência de Neil Jordan em não apressar as situações. Tudo acontece no momento certo, da forma correta, e o elenco escalado por ele não poderia estar em melhores dias. Stephen Rea é um ator extraordinário, que consegue dividir suas cenas com generosidade ímpar: ele joga bem com Whitaker, com Richardson e principalmente com Davidson, em um papel cruel e ingrato, mas que lhe dá a oportunidade de uma carreira. E Miranda Richardson rouba qualquer cena em que aparece, equilibrando um ar psicopata com uma determinação ferrenha de cumprir sua missão - e de quebra reconquistar o amor de Fergus.
Mas e quanto ao grande segredo preparado por Jordan? Apesar de ser o divisor de águas do roteiro - e redirecionar a trama de maneira indelével - a reviravolta na história de amor entre Fergus e Dil é apenas um elemento a mais, ainda que importante, de uma história contada com sutileza e sobriedade. Causou controvérsia, e discussões são sempre saudáveis, mas relegar "Traídos pelo desejo" a um nicho específico de cinema é emburrecer a audiência. "Traídos pelo desejo" é um filme que melhora a cada revisão - e na segunda sessão já não há mais a tal surpresa, o que apenas comprova sua enorme qualidade. Humano, sério e fascinante.Como todo bom cinema!
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