FEDORA (Fedora, 1978, Bavaria Atelier, 116min) Direção: Billy Wilder.
Roteiro: Billy Wilder, I.A.L. Diamond, estória de Thomas Tryon.
Fotografia: Gerry Fisher. Montagem: Stefan Arnsten, Fredric Steinkamp.
Música: Miklos Rozsa. Figurino: Charlotte Fleming. Direção de
arte/cenários: Alexandre Trauner/Robert André. Produção: Billy Wilder.
Elenco: William Holden, Marthe Keller, Hildegard Knef, José Ferrer,
Frances Sternhagen, Henry Fonda, Michael York. Estreia: 30/5/78
(Festival de Cannes)
Em 1950, o filme "Crepúsculo dos deuses" retratava, de forma poética e um tanto cruel, o fim de um período de glamour dentro da indústria de cinema de Hollywood. Através da personagem Norma Desmond, vivida com propriedade pela extraordinária Gloria Swanson, o diretor e roteirista Billy Wilder criticava com ferocidade o tratamento dado pela nova geração aos ídolos do passado, normalmente relegados a um mero arremedo de existência quando longe dos holofotes. Vinte e oito anos mais tarde, em seu penúltimo filme, Wilder voltaria ao tema, porém sem o mesmo sucesso e o mesmo tom de ironia. "Fedora", inspirado em um conto de Thomas Tryon, não convenceu a crítica como tantos de seus trabalhos anteriores e acabou ficando conhecido como um filme menor na carreira do brilhante cineasta. De fato, é uma produção menos empolgante, mas ainda assim um filme acima da média, com uma história com reviravoltas o suficiente para manter a atenção até seu minuto final.
Pensado inicialmente como um telefilme a ser lançado na CBS, "Fedora" foi resgatado de tal destino pela United Artists, que, com o nome de Billy Wilder em vista, achou que o filme merecia uma estreia em grande estilo. A oportunidade perfeita surgiu com a retrospectiva da carreira do cineasta, no Festival de Cannes de 1978, mas a morna recepção ao resultado final foi responsável pelo descaso da distribuição do filme no mercado tanto doméstico quanto internacional. Para desgosto do próprio Wilder, até mesmo as exibições-teste foram um tanto desastrosas, com a plateia reagindo de forma inadequada ao desenvolvimento da trama, adaptada para as telas por ele mesmo e seu fiel colaborador I.A.L. Diamond. Recusando-se a editar ainda mais sua obra - já mutilada em 12 minutos pela UA - o diretor, cujo último filme havia sido o também pouco louvado "Avanti!... Amantes à italiana" (72), teve de contentar-se em vê-la passar quase em branco pelos cinemas, de forma melancólica e um tanto quanto injusta que nem mesmo sua apresentação no Festival de Cinema de Chicago deu conta de apagar. Ainda assim, é um filme que merece ser descoberto, nem que seja a título de curiosidade.
William Holden - por coincidência ou não o protagonista também de "Crepúsculo dos deuses" - trabalha novamente sob o comando de Wilder, na pele de Barry Detweiler, um produtor de cinema em crise financeira que, com uma adaptação de "Anna Karenina" em mãos, resolve oferecer o papel principal à reclusa atriz Fedora (Marthe Keller), aposentada das telas e moradora em uma escondida ilha mediterrânea, ao lado de uma condessa idosa e temperamental, um médico misterioso e uma governanta hostil. Em suas tentativas de convencer a atriz a voltar às telas, Barry não hesita em relembrá-la de um encontro de sua juventude, mas esbarra não apenas no perceptível desequilíbrio mental da antiga estrela mas também na resistência de todos que a rodeiam - um grupo de pessoas que parece esconder um grande segredo em relação a ela. Tal segredo acaba vindo à tona depois de uma tragédia inesperada - e Detweiler ficará sabendo, então, que a busca pela eterna juventude pode atingir patamares jamais imaginados.
Contando sua história com ares sombrios e repletos de surpresas mirabolantes, Billy Wilder deixa de lado (um pouco) sua habitual ironia, preferindo dedicar-se a enfatizar o lado doentio e claustrofóbico do mundo do cinema - e das celebridades em geral. Ao mudar completamente o rumo de sua narrativa em seu ato final, o cineasta convida o público a adentrar em uma nova história, digna dos melhores contos de horror de Edgar Allan Poe e dotada de uma melancolia surpreendente, em especial vinda de um homem que conseguiu falar de alcoolismo sem cair no sentimentalismo - em "Farrapo humano" (45) - e do sensacionalismo da imprensa sem apelar para o panfletarismo - em "A montanha dos sete abutres" (51). Como percebendo que também ele estava com sua carreira na reta final, Wilder dá seu recado de forma elegante mas contundente, utilizando-se de um gênero (o suspense) para iluminar uma forma quase patológica de vida, com elementos que lembram bastante "A pele que habito" (2011), de Pedro Almodóvar. Com participações especiais de Henry Fonda e Michael York como eles mesmos, "Fedora" é um Billy Wilder atípico, mas jamais menor. É apenas menos óbvio e requer mais atenção e dedicação.
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quinta-feira
IRMA LA DOUCE
IRMA LA DOUCE (Irma La Douce, 1963, The Mirisch Corporation,
147min) Direção: Billy Wilder Roteiro: Billy Wilder, I.A.L. Diamond,
peça teatral de Alexandre Breffort. Fotografia: Joseph LaShelle.
Montagem: Daniel Mandell. Música: André Previn. Figurino: Orry-Kelly.
Direção de arte/cenários: Alexander Trauner/Maurice Barnathan, Edward G.
Boyle. Produção: Edward L. Alperson, Billy Wilder. Elenco: Jack Lemmon,
Shirley MacLaine, Lou Jacobi, Bruce Yarnell, Herschel Bernardi.
Estreia: 05/6/63
3 indicações ao Oscar: Atriz (Shirley MacLaine), Fotografia em Cores, Trilha Sonora Adaptada
Vencedor do Oscar de Trilha Sonora Adaptada
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Comédia ou Musical (Shirley MacLaine)
O primeiro encontro entre Billy Wilder, Jack Lemmon e Shirley MacLaine, em 1960, foi "Se meu apartamento falasse", que rendeu, entre outros prêmios, os Oscar de melhor filme, direção e roteiro original. Nada mais natural, portanto, que MacLaine, ao ser convidada para viver o papel-título da comédia "Irma La Douce" - dirigida por Wilder e coestrelada por Lemmon - tenha assinado o contrato sem ao menos ler o roteiro, adaptado de um musical de sucesso da Broadway. Para sua surpresa, porém, na transposição do palco para as telas, a obra de Alexandre Breffort perdeu todas as canções originais, transformando-se, nas mãos do cineasta austríaco, em uma comédia sem o menor vestígio de sua peculiar origem teatral. Sabendo-se incapaz de comandar coreografias ou números cantados, Wilder preferiu manter a trama central - com pequenas alterações, como a profissão do personagem de Lemmon - e injetar nela seu delicioso cinismo irônico. Deu certo, apesar das reservas de MacLaine, que não via o filme como o sucesso que foi - para sua surpresa, ela ganhou o Globo de Ouro e recebeu uma indicação ao Oscar de melhor atriz por seu desempenho.
O que MacLaine talvez não soubesse quando aceitou entrar no projeto de Wilder é que ela não era a primeira opção para o papel principal. O próprio diretor declarou, mais tarde, que sua primeira escolha era ninguém menos que Elizabeth Taylor - o convite nem chegou a ser feito, no entanto, porque o austríaco disse que não saberia lidar com a conturbada vida afetiva da atriz, então envolvida em um rumoroso caso de amor com Richard Burton, seu colega de cena no complicadíssimo "Cleópatra" (63). A segunda escolhida por ele tampouco mostrou-se possível, mas por motivos bem mais insolúveis: mesmo ainda traumatizado com os problemas demonstrados por Marilyn Monroe nos sets de "Quanto mais quente melhor" (59), Wilder estava muito disposto a reuní-la com Jack Lemmon, mas a inesperada morte do maior símbolo sexual da história do cinema, em agosto de 1962, antes mesmo do início da produção, abriu caminho para MacLaine. Mesmo fisicamente bastante diferente do que Monroe poderia oferecer ao papel, a irmã de Warren Beatty entregou ao filme um tom de ironia e sarcasmo ingênuo que valoriza o roteiro escrito por Wilder e seu colaborador habitual I.A.L. Diamond. Atriz de grande inteligência e sensibilidade, ela faz de seu reencontro com Lemmon um espetáculo à parte.
Na trama criada por Alexandre Breffort, ela vive Irma La Douce, uma prostituta que vive de vender seu corpo em um bairro distante dos cartões-postais de Paris. Rodeada de corrupção por todos os lados - as autoridades fazem vista grossa às dezenas de contravenções praticadas no local, já que são bem pagos para isso - ela tem sua rotina transformada quando conhece o incorruptível Nestor Patou (Jack Lemmon), um novo e incorruptível policial que, para sua surpresa, se vê demitido ao desafiar as regras não-escritas de convivência pacífica entre criminosos e moradores locais. Perdidamente apaixonado por Irma, ele acaba defendendo-a de seu violento cafetão e, percebendo que ela não tem a menor intenção de abandonar a chamada vida fácil, aceita empresariá-la. O ciúme, porém, lança sua flecha preta, e logo Nestor se vê torturado com a possibilidade da amada estar nos braços de outros homens. Com a ajuda de Moustache (Lou Jacobi) - o dono do bar onde eles passam boa parte de seu tempo e que tem uma profusão de experiências profissionais em seu passado, mesmo que elas não dialoguem exatamente entre si - Nestor cria, então, um cliente falso para Irma. Disfarçado com bigode, cavanhaque, tapa-olho e sotaque inglês, ele assume a personalidade de Lord X, um homem com problemas sexuais que se oferece para ser cliente fixo da inocente garota de programa. O problema é que, para pagá-la, ele precisa se desdobrar em vários trabalhos - e seu cansaço faz com que ela passe a desconfiar de uma outra mulher em sua vida.
Levando a trama em tom de farsa, com direito a um toque de nonsense e romance, Billy Wilder mostra porque seus filmes mantem, ainda hoje, um frescor raro e delicioso. Recheando o roteiro com uma acidez que lhe é característica - e que está presente tanto em tramas românticas como "Sabrina" (54) como em tragédias como "A montanha dos sete abutres" (51) - o cineasta evita o excesso de açúcar que poderia surgir na história de amor entre os protagonistas e ainda dá um jeito de fazer rir da hipocrisia em relação ao sexo e da corrupção das autoridades. Com diálogos brilhantes - especialmente aqueles com a presença do ótimo Lou Jacobi, substituindo Charles Laughton, morto antes das filmagens, no papel de Moustache - "Irma La Douce" pode não chegar ao nível de qualidade dos melhores trabalhos de Wilder, mas é uma prova a mais de seu absurdo talento em inserir sua personalidade genial até mesmo em criações alheias. Difícil é sentir falta de qualquer número musical quando se está diante da química perfeita entre Jack Lemmon e Shirley MacLaine.
3 indicações ao Oscar: Atriz (Shirley MacLaine), Fotografia em Cores, Trilha Sonora Adaptada
Vencedor do Oscar de Trilha Sonora Adaptada
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Comédia ou Musical (Shirley MacLaine)
O primeiro encontro entre Billy Wilder, Jack Lemmon e Shirley MacLaine, em 1960, foi "Se meu apartamento falasse", que rendeu, entre outros prêmios, os Oscar de melhor filme, direção e roteiro original. Nada mais natural, portanto, que MacLaine, ao ser convidada para viver o papel-título da comédia "Irma La Douce" - dirigida por Wilder e coestrelada por Lemmon - tenha assinado o contrato sem ao menos ler o roteiro, adaptado de um musical de sucesso da Broadway. Para sua surpresa, porém, na transposição do palco para as telas, a obra de Alexandre Breffort perdeu todas as canções originais, transformando-se, nas mãos do cineasta austríaco, em uma comédia sem o menor vestígio de sua peculiar origem teatral. Sabendo-se incapaz de comandar coreografias ou números cantados, Wilder preferiu manter a trama central - com pequenas alterações, como a profissão do personagem de Lemmon - e injetar nela seu delicioso cinismo irônico. Deu certo, apesar das reservas de MacLaine, que não via o filme como o sucesso que foi - para sua surpresa, ela ganhou o Globo de Ouro e recebeu uma indicação ao Oscar de melhor atriz por seu desempenho.
O que MacLaine talvez não soubesse quando aceitou entrar no projeto de Wilder é que ela não era a primeira opção para o papel principal. O próprio diretor declarou, mais tarde, que sua primeira escolha era ninguém menos que Elizabeth Taylor - o convite nem chegou a ser feito, no entanto, porque o austríaco disse que não saberia lidar com a conturbada vida afetiva da atriz, então envolvida em um rumoroso caso de amor com Richard Burton, seu colega de cena no complicadíssimo "Cleópatra" (63). A segunda escolhida por ele tampouco mostrou-se possível, mas por motivos bem mais insolúveis: mesmo ainda traumatizado com os problemas demonstrados por Marilyn Monroe nos sets de "Quanto mais quente melhor" (59), Wilder estava muito disposto a reuní-la com Jack Lemmon, mas a inesperada morte do maior símbolo sexual da história do cinema, em agosto de 1962, antes mesmo do início da produção, abriu caminho para MacLaine. Mesmo fisicamente bastante diferente do que Monroe poderia oferecer ao papel, a irmã de Warren Beatty entregou ao filme um tom de ironia e sarcasmo ingênuo que valoriza o roteiro escrito por Wilder e seu colaborador habitual I.A.L. Diamond. Atriz de grande inteligência e sensibilidade, ela faz de seu reencontro com Lemmon um espetáculo à parte.
Na trama criada por Alexandre Breffort, ela vive Irma La Douce, uma prostituta que vive de vender seu corpo em um bairro distante dos cartões-postais de Paris. Rodeada de corrupção por todos os lados - as autoridades fazem vista grossa às dezenas de contravenções praticadas no local, já que são bem pagos para isso - ela tem sua rotina transformada quando conhece o incorruptível Nestor Patou (Jack Lemmon), um novo e incorruptível policial que, para sua surpresa, se vê demitido ao desafiar as regras não-escritas de convivência pacífica entre criminosos e moradores locais. Perdidamente apaixonado por Irma, ele acaba defendendo-a de seu violento cafetão e, percebendo que ela não tem a menor intenção de abandonar a chamada vida fácil, aceita empresariá-la. O ciúme, porém, lança sua flecha preta, e logo Nestor se vê torturado com a possibilidade da amada estar nos braços de outros homens. Com a ajuda de Moustache (Lou Jacobi) - o dono do bar onde eles passam boa parte de seu tempo e que tem uma profusão de experiências profissionais em seu passado, mesmo que elas não dialoguem exatamente entre si - Nestor cria, então, um cliente falso para Irma. Disfarçado com bigode, cavanhaque, tapa-olho e sotaque inglês, ele assume a personalidade de Lord X, um homem com problemas sexuais que se oferece para ser cliente fixo da inocente garota de programa. O problema é que, para pagá-la, ele precisa se desdobrar em vários trabalhos - e seu cansaço faz com que ela passe a desconfiar de uma outra mulher em sua vida.
Levando a trama em tom de farsa, com direito a um toque de nonsense e romance, Billy Wilder mostra porque seus filmes mantem, ainda hoje, um frescor raro e delicioso. Recheando o roteiro com uma acidez que lhe é característica - e que está presente tanto em tramas românticas como "Sabrina" (54) como em tragédias como "A montanha dos sete abutres" (51) - o cineasta evita o excesso de açúcar que poderia surgir na história de amor entre os protagonistas e ainda dá um jeito de fazer rir da hipocrisia em relação ao sexo e da corrupção das autoridades. Com diálogos brilhantes - especialmente aqueles com a presença do ótimo Lou Jacobi, substituindo Charles Laughton, morto antes das filmagens, no papel de Moustache - "Irma La Douce" pode não chegar ao nível de qualidade dos melhores trabalhos de Wilder, mas é uma prova a mais de seu absurdo talento em inserir sua personalidade genial até mesmo em criações alheias. Difícil é sentir falta de qualquer número musical quando se está diante da química perfeita entre Jack Lemmon e Shirley MacLaine.
quarta-feira
FARRAPO HUMANO
FARRAPO HUMANO (The lost weekend, 1945, Paramount Pictures, 101min) Direção: Billy Wilder. Roteiro: Charles Brackett, Billy Wilder, romance de Charles R. Jackson. Fotografia: John F. Seitz. Montagem: Doane Harrison. Música: Miklós Rósza. Figurino: Edith Head. Direção de arte/cenários: Hans Dreier, A. Earl Hedrick/Bertram Granger. Produção: Charles Brackett. Elenco: Ray Milland, Jane Wyman, Phillip Terry, Howard da Silva, Doris Dowling. Estreia: 16/11/45
7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Billy Wilder), Ator (Ray Milland), Roteiro Adaptado, Fotografia em P&B, Montagem, Trilha Sonora Original
Vencedor de 4 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Billy Wilder), Ator (Ray Milland), Roteiro Adaptado
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme, Diretor (Billy Wilder), Ator (Ray Milland)
Vencedor de 2 prêmios no Festival de Cannes: Ator (Ray Milland), Grande Prêmio
Com medo das possíves consequências financeiramente desastrosas de um filme que abordasse sem meias-verdades o drama do alcoolismo, a indústria de bebidas dos EUA chegou até a Paramount Pictures em 1945 com uma proposta inusitada: comprar os negativos do novo filme de Billy Wilder por 5 milhões de dólares para impedir seu lançamento nos cinemas. É lógico que o estúdio declinou da oferta, e Wilder, irônico como sempre, declarou anos mais tarde que se tivesse sido ele o destinatário de tão generosa oferta a resposta teria sido positiva. Uma piada, é claro, já que sem “Farrapo humano” o cineasta austríaco não teria se firmado como um dos maiores diretores de Hollywood de todos os tempos – e de quebra, não teria ganho também seu primeiro Oscar (e o segundo, também, já que dividiu com seu parceiro habitual Charles Brackett a estatueta de roteiro). Incensado por crítica e pelo Festival de Cannes, “Farrapo humano” ainda saiu da cerimônia da Academia com dois outros importantes prêmios: melhor filme e ator (Ray Milland).
Até então um ator popular mas pouco levado a sério, Milland hesitou em aceitar dar a virada que sua carreira tanto precisava. O mundo estava saindo da II Guerra e um filme sério e pesado sobre o vício em álcool e seus efeitos não parecia algo que o público fosse adotar para fins de entretenimento. Essa não era, no entanto, a opinião de Billy Wilder, que, depois de ler o romance “The lost weekend”, de Charles R. Jackson, em uma viagem de trem, decidiu que sua adaptação seria seu filme seguinte ao noir “Pacto de sangue”, baseado no livro de Raymond Chandler. Ainda impressionado com as dificuldades que passou com Chandler durante a feitura do roteiro do filme – o escritor sofria de alcoolismo – Wilder imediatamente convenceu seu amigo Charles Brackett a acompanhá-lo no desafio de fazer do anti-heroi criado por Jackson um protagonista simpático o suficiente para não afugentar as plateias das salas de exibição. Depois que Cary Grant e José Ferrer recusaram estrelar a produção – talvez por medo que ela pudesse fracassar e matar suas carreiras – o estúdio acabou convencendo Ray Milland de que o papel poderia ser um divisor de águas em sua trajetória de ator. Mergulhado com dedicação na busca por uma atuação convincente, Milland acabou por passar por dificuldades inusitadas – internado espontaneamente na ala para dependentes de álcool em um hospital nova-iorquino, ele tentou fugir apavorado com o que viu e demorou a convencer os funcionários de que era apenas laboratório – e se viu, no fim do processo, não só com o Oscar de melhor ator, mas também com o prêmio de melhor ator no Festival de Cannes e o Golden Globe.
Não é para menos: na pele de Don Birman, um escritor em meio a uma enorme crise criativa que tanto foi o catalisador de seu vício quanto sua consequência, Milland entrega uma performance de intensidade rara. Era a primeira vez que o cinema americano mostrava uma vítima de alcoolismo sem apoiar-se no humor ou como parte do elenco de coadjuvantes. Mais do que isso, o roteiro de Wilder e Brackett tampouco caía na tentação de fazer de seu protagonista um bêbado engraçadinho ou simpático, vítima das circunstâncias. Birman não hesita em mentir e roubar para sustentar seu vício, chegando a ser humilhado e sofrer na pele desde o desespero da abstinência até as temidas alucinações - que lhe chegam durante sua internação em um hospital que o faz tomar contato com outro lado de sua doença: a partir dali ela não é mais parte de um universo de bares e conversas inconsequentes ou subterfúgios que o fazem disfarçar o problema e minimizá-lo. Enfatizadas pela angustiante trilha sonora de Miklós Rozsa - também indicada à estatueta da Academia - as cenas em que Birman anda pelas ruas de Nova York tentando empenhar sua máquina de escrever para arrumar dinheiro para a bebida e quando rouba a bolsa de uma cliente de um bar são de uma força ainda hoje admiráveis e fascinantes. O "fim-de-semana perdido" do título original - que se refere aos dias em que Birnam aproveita uma viagem do irmão para entregar-se sem medo a seu vício - se escora na trêmula fotografia de John F. Seitz para carregar consigo uma plateia até então desacostumada a viagens tão realistas.
E justamente por causa do realismo de tais cenas, dirigidas com a firmeza e a inteligência características de Billy Wilder, não deixa de ser irônico que, à época de seu lançamento, o filme tenha sofrido tantos ataques. Não bastasse a reação totalmente negativa do público na primeira exibição do filme - segundo o diretor houve risadas do início ao fim da projeção - e o medo da Paramount a respeito de uma história tão pesada, entidades de combate ao vício do álcool se posicionaram contra "Farrapo humano" por acreditar que ele poderia incentivar o consumo da bebida. Quase engavetado pelo estúdio, a produção só chegou às telas devido ao respeito e ao prestígio de Wilder - e para surpresa de todos, o que parecia mais um projeto destinado ao fracasso acabou caindo nas graças da crítica e da Academia. De algo arriscado e corajoso, o filme marcou época, ganhou quatro dos sete Oscar a que foi indicado, levou 3 Golden Globes, dois prêmios no Festival de Cannes e se fixou na memória do público como a mais importante e relevante produção a respeito do tema. Graças ao roteiro conciso (que substituiu a homossexualidade do protagonista por um simples bloqueio criativo sem perder a força da trama), a direção criativa e à atuação milagrosa de Ray Milland, "Farrapo humano" é, ainda hoje, um filme irretocável e moderno.
7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Billy Wilder), Ator (Ray Milland), Roteiro Adaptado, Fotografia em P&B, Montagem, Trilha Sonora Original
Vencedor de 4 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Billy Wilder), Ator (Ray Milland), Roteiro Adaptado
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme, Diretor (Billy Wilder), Ator (Ray Milland)
Vencedor de 2 prêmios no Festival de Cannes: Ator (Ray Milland), Grande Prêmio
Com medo das possíves consequências financeiramente desastrosas de um filme que abordasse sem meias-verdades o drama do alcoolismo, a indústria de bebidas dos EUA chegou até a Paramount Pictures em 1945 com uma proposta inusitada: comprar os negativos do novo filme de Billy Wilder por 5 milhões de dólares para impedir seu lançamento nos cinemas. É lógico que o estúdio declinou da oferta, e Wilder, irônico como sempre, declarou anos mais tarde que se tivesse sido ele o destinatário de tão generosa oferta a resposta teria sido positiva. Uma piada, é claro, já que sem “Farrapo humano” o cineasta austríaco não teria se firmado como um dos maiores diretores de Hollywood de todos os tempos – e de quebra, não teria ganho também seu primeiro Oscar (e o segundo, também, já que dividiu com seu parceiro habitual Charles Brackett a estatueta de roteiro). Incensado por crítica e pelo Festival de Cannes, “Farrapo humano” ainda saiu da cerimônia da Academia com dois outros importantes prêmios: melhor filme e ator (Ray Milland).
Até então um ator popular mas pouco levado a sério, Milland hesitou em aceitar dar a virada que sua carreira tanto precisava. O mundo estava saindo da II Guerra e um filme sério e pesado sobre o vício em álcool e seus efeitos não parecia algo que o público fosse adotar para fins de entretenimento. Essa não era, no entanto, a opinião de Billy Wilder, que, depois de ler o romance “The lost weekend”, de Charles R. Jackson, em uma viagem de trem, decidiu que sua adaptação seria seu filme seguinte ao noir “Pacto de sangue”, baseado no livro de Raymond Chandler. Ainda impressionado com as dificuldades que passou com Chandler durante a feitura do roteiro do filme – o escritor sofria de alcoolismo – Wilder imediatamente convenceu seu amigo Charles Brackett a acompanhá-lo no desafio de fazer do anti-heroi criado por Jackson um protagonista simpático o suficiente para não afugentar as plateias das salas de exibição. Depois que Cary Grant e José Ferrer recusaram estrelar a produção – talvez por medo que ela pudesse fracassar e matar suas carreiras – o estúdio acabou convencendo Ray Milland de que o papel poderia ser um divisor de águas em sua trajetória de ator. Mergulhado com dedicação na busca por uma atuação convincente, Milland acabou por passar por dificuldades inusitadas – internado espontaneamente na ala para dependentes de álcool em um hospital nova-iorquino, ele tentou fugir apavorado com o que viu e demorou a convencer os funcionários de que era apenas laboratório – e se viu, no fim do processo, não só com o Oscar de melhor ator, mas também com o prêmio de melhor ator no Festival de Cannes e o Golden Globe.
Não é para menos: na pele de Don Birman, um escritor em meio a uma enorme crise criativa que tanto foi o catalisador de seu vício quanto sua consequência, Milland entrega uma performance de intensidade rara. Era a primeira vez que o cinema americano mostrava uma vítima de alcoolismo sem apoiar-se no humor ou como parte do elenco de coadjuvantes. Mais do que isso, o roteiro de Wilder e Brackett tampouco caía na tentação de fazer de seu protagonista um bêbado engraçadinho ou simpático, vítima das circunstâncias. Birman não hesita em mentir e roubar para sustentar seu vício, chegando a ser humilhado e sofrer na pele desde o desespero da abstinência até as temidas alucinações - que lhe chegam durante sua internação em um hospital que o faz tomar contato com outro lado de sua doença: a partir dali ela não é mais parte de um universo de bares e conversas inconsequentes ou subterfúgios que o fazem disfarçar o problema e minimizá-lo. Enfatizadas pela angustiante trilha sonora de Miklós Rozsa - também indicada à estatueta da Academia - as cenas em que Birman anda pelas ruas de Nova York tentando empenhar sua máquina de escrever para arrumar dinheiro para a bebida e quando rouba a bolsa de uma cliente de um bar são de uma força ainda hoje admiráveis e fascinantes. O "fim-de-semana perdido" do título original - que se refere aos dias em que Birnam aproveita uma viagem do irmão para entregar-se sem medo a seu vício - se escora na trêmula fotografia de John F. Seitz para carregar consigo uma plateia até então desacostumada a viagens tão realistas.
E justamente por causa do realismo de tais cenas, dirigidas com a firmeza e a inteligência características de Billy Wilder, não deixa de ser irônico que, à época de seu lançamento, o filme tenha sofrido tantos ataques. Não bastasse a reação totalmente negativa do público na primeira exibição do filme - segundo o diretor houve risadas do início ao fim da projeção - e o medo da Paramount a respeito de uma história tão pesada, entidades de combate ao vício do álcool se posicionaram contra "Farrapo humano" por acreditar que ele poderia incentivar o consumo da bebida. Quase engavetado pelo estúdio, a produção só chegou às telas devido ao respeito e ao prestígio de Wilder - e para surpresa de todos, o que parecia mais um projeto destinado ao fracasso acabou caindo nas graças da crítica e da Academia. De algo arriscado e corajoso, o filme marcou época, ganhou quatro dos sete Oscar a que foi indicado, levou 3 Golden Globes, dois prêmios no Festival de Cannes e se fixou na memória do público como a mais importante e relevante produção a respeito do tema. Graças ao roteiro conciso (que substituiu a homossexualidade do protagonista por um simples bloqueio criativo sem perder a força da trama), a direção criativa e à atuação milagrosa de Ray Milland, "Farrapo humano" é, ainda hoje, um filme irretocável e moderno.
sexta-feira
A MONTANHA DOS SETE ABUTRES
A MONTANHA DOS SETE ABUTRES (Ace in the hole/The big Carnival, 1951, Paramount Pictures, 111min) Direção: Billy Wilder. Roteiro: Billy Wilder, Lesser Samuels, Walter Newman. Fotografia: Charles B. Lang Jr.. Montagem: Arthur Schmidt. Música: Hugo Friedhofer. Figurino: Edith Head. Direção de arte/cenários: Earl Hedrick, Hal Pereira/Sam Comer, Ray Moyer. Produção: Billy Wilder. Elenco: Kirk Douglas, Jan Sterling, Bob Arthur, Porter Hall, Frank Cady, Richard Benedict, Ray Teal. Estreia: 14/6/61.
Indicado ao Oscar de Roteiro Original
Billy Wilder não era um homem acostumado a meias-palavras, meias-imagens e dubiedades. Quando quis mostrar o lado cínico de Hollywood, ele fez "Crepúsculo dos deuses" (1950). O mesmo quando fez um retrato realista do alcoolismo em "Farrapo humano" (1945), das mazelas que se escondiam sob um prédio de escritórios em "Se meu apartamento falasse" (1960) e das escapadas extraconjugais (ainda que apenas imaginadas) em "O pecado mora ao lado" (1955). Seja com contundência ou com seu humor amargo e irônico (quase cínico), o cineasta austríaco consagrou-se em Hollywood com seu peculiar ponto de vista que, a despeito dos muitos prêmios e dos frequentes sucessos de bilheteria, normalmente despertavam polêmica ou, no mínimo, um olhar mais cuidadoso dos censores e dos membros mais suscetíveis da sociedade norte-americana. E um de seus mais incisivos petardos, o controverso "A montanha dos sete abutres" foi, talvez, um dos alvos mais destacados alvos dessa suspeita sensibilidade ianque.
Baseada em fatos reais - o que levou o diretor/roteirista ao banco dos réus em um processo de plágio que acabou perdendo - "A montanha dos sete abutres" foi um grande fracasso de bilheteria e crítica à época de seu lançamento, em grande parte talvez pela dureza de sua trama, a falta total de humanidade de seus personagens e pelo fato de, de certa forma, acusar o próprio espectador de compactuar indiretamente com os fatos narrados, através da apatia e da sede insaciável por sensacionalismo (o que mantém o filme atualíssimo ainda hoje, mesmo depois de seis décadas). Enquanto em seus filmes anteriores Wilder sempre arrumava um espaço para um certo senso de humor (ainda que distorcido por sua visão quase pessimista do mundo), neste seu ataque à irresponsabilidade da mídia ele deixa de lado qualquer brincadeira, enfatizando o lado egoísta e interesseiro de seus personagens com lente de aumento.
Kirk Douglas - em sua única colaboração com Wilder - está inspiradíssimo na pele de Chuck Tatum, um inescrupuloso e cínico jornalista que tenta recomeçar sua carreira em um pequeno jornal do interior dos EUA depois de ser demitido de seu emprego em Nova York (de onde saiu graças à sua paixão pela bebida, pela mentira e pelas mulheres, em especial a do chefe). Depois de um ano sentindo-se preso à absoluta falta de perspectivas de uma melhora na carreira - haja visto que nada de excitante acontece à sua volta - ele vê sua grande chance na figura de um desconhecido, um minerador chamado Leo Minosa (Richard Benedict), preso devido a um deslizamento de terra em uma caverna localizada em um lugar apropriadamente chamado A Montanha dos Sete Abutres. Sentindo o cheiro de uma grande matéria no ar, Tatum não hesita em utilizar-se de todos os artifícios pouco éticos de sua personalidade para retardar o resgate. Sua intenção - que acaba sendo compartilhada pelos ambiciosos moradores locais - é uma só: transformar o calvário do rapaz em manchete nacional. Adiando cada vez mais a salvação de Leo, o jornalista conta com a ajuda do xerife da cidade, com os comerciantes (que se veem lucrando quando o local torna-se ponto turístico) e até com a cínica esposa do trabalhador, a fria Lorraine (Jan Sterling), que acaba se envolvendo com o repórter.
É lógico que uma história como essa não pode terminar bem, e Wilder aproveita a contundência da trama para que ela fale por si mesma. Enquanto Leo Minosa pena em sua tortura particular - sem movimentos, com pouca comida, pouca água e pouco ar - e confia em Tatum como sua única salvação, a pequena localidade que o conhece desde sempre lucra como nunca, chegando a cobrar ingressos para um simples vislumbre do local do acidente (e o fato do rapaz ainda estar preso lá dentro pouco importa aos ávidos frequentadores de parques de diversão que enxergam na tragédia apenas um acontecimento pitoresco). A Lorraine Minosa de Jan Sterling é ainda mais cruel, quase aproveitando a situação do marido para dar o fora de seu inferno particular - um casamento insosso. É dela a frase mais marcante do filme (e que, segundo consta, veio da imaginação da sra. Wilder, Audrey Young): "Eu não me ajoelho para rezar. Rasga as minhas meias." O tom ácido da frase permeia todo o roteiro e todas as imagens de "A montanha dos sete abutres", secas, diretas, sem poesia ou beleza que disfarcem a maldade inerente aos seres humanos que retrata. É Billy Wilder sendo Billy Wilder, ou seja, cinema de primeira qualidade a serviço de uma trama que incomoda pela verdade.
Indicado ao Oscar de Roteiro Original
Billy Wilder não era um homem acostumado a meias-palavras, meias-imagens e dubiedades. Quando quis mostrar o lado cínico de Hollywood, ele fez "Crepúsculo dos deuses" (1950). O mesmo quando fez um retrato realista do alcoolismo em "Farrapo humano" (1945), das mazelas que se escondiam sob um prédio de escritórios em "Se meu apartamento falasse" (1960) e das escapadas extraconjugais (ainda que apenas imaginadas) em "O pecado mora ao lado" (1955). Seja com contundência ou com seu humor amargo e irônico (quase cínico), o cineasta austríaco consagrou-se em Hollywood com seu peculiar ponto de vista que, a despeito dos muitos prêmios e dos frequentes sucessos de bilheteria, normalmente despertavam polêmica ou, no mínimo, um olhar mais cuidadoso dos censores e dos membros mais suscetíveis da sociedade norte-americana. E um de seus mais incisivos petardos, o controverso "A montanha dos sete abutres" foi, talvez, um dos alvos mais destacados alvos dessa suspeita sensibilidade ianque.
Baseada em fatos reais - o que levou o diretor/roteirista ao banco dos réus em um processo de plágio que acabou perdendo - "A montanha dos sete abutres" foi um grande fracasso de bilheteria e crítica à época de seu lançamento, em grande parte talvez pela dureza de sua trama, a falta total de humanidade de seus personagens e pelo fato de, de certa forma, acusar o próprio espectador de compactuar indiretamente com os fatos narrados, através da apatia e da sede insaciável por sensacionalismo (o que mantém o filme atualíssimo ainda hoje, mesmo depois de seis décadas). Enquanto em seus filmes anteriores Wilder sempre arrumava um espaço para um certo senso de humor (ainda que distorcido por sua visão quase pessimista do mundo), neste seu ataque à irresponsabilidade da mídia ele deixa de lado qualquer brincadeira, enfatizando o lado egoísta e interesseiro de seus personagens com lente de aumento.
Kirk Douglas - em sua única colaboração com Wilder - está inspiradíssimo na pele de Chuck Tatum, um inescrupuloso e cínico jornalista que tenta recomeçar sua carreira em um pequeno jornal do interior dos EUA depois de ser demitido de seu emprego em Nova York (de onde saiu graças à sua paixão pela bebida, pela mentira e pelas mulheres, em especial a do chefe). Depois de um ano sentindo-se preso à absoluta falta de perspectivas de uma melhora na carreira - haja visto que nada de excitante acontece à sua volta - ele vê sua grande chance na figura de um desconhecido, um minerador chamado Leo Minosa (Richard Benedict), preso devido a um deslizamento de terra em uma caverna localizada em um lugar apropriadamente chamado A Montanha dos Sete Abutres. Sentindo o cheiro de uma grande matéria no ar, Tatum não hesita em utilizar-se de todos os artifícios pouco éticos de sua personalidade para retardar o resgate. Sua intenção - que acaba sendo compartilhada pelos ambiciosos moradores locais - é uma só: transformar o calvário do rapaz em manchete nacional. Adiando cada vez mais a salvação de Leo, o jornalista conta com a ajuda do xerife da cidade, com os comerciantes (que se veem lucrando quando o local torna-se ponto turístico) e até com a cínica esposa do trabalhador, a fria Lorraine (Jan Sterling), que acaba se envolvendo com o repórter.
É lógico que uma história como essa não pode terminar bem, e Wilder aproveita a contundência da trama para que ela fale por si mesma. Enquanto Leo Minosa pena em sua tortura particular - sem movimentos, com pouca comida, pouca água e pouco ar - e confia em Tatum como sua única salvação, a pequena localidade que o conhece desde sempre lucra como nunca, chegando a cobrar ingressos para um simples vislumbre do local do acidente (e o fato do rapaz ainda estar preso lá dentro pouco importa aos ávidos frequentadores de parques de diversão que enxergam na tragédia apenas um acontecimento pitoresco). A Lorraine Minosa de Jan Sterling é ainda mais cruel, quase aproveitando a situação do marido para dar o fora de seu inferno particular - um casamento insosso. É dela a frase mais marcante do filme (e que, segundo consta, veio da imaginação da sra. Wilder, Audrey Young): "Eu não me ajoelho para rezar. Rasga as minhas meias." O tom ácido da frase permeia todo o roteiro e todas as imagens de "A montanha dos sete abutres", secas, diretas, sem poesia ou beleza que disfarcem a maldade inerente aos seres humanos que retrata. É Billy Wilder sendo Billy Wilder, ou seja, cinema de primeira qualidade a serviço de uma trama que incomoda pela verdade.
quarta-feira
PACTO DE SANGUE
PACTO DE SANGUE (Double indemnity, 1944, Paramount Pictures, 107min) Direção: Billy Wilder. Roteiro: Billy Wilder, Raymond Chandler, romance de James M. Cain. Fotografia: John F. Seitz. Música: Miklós Rózsa. Figurino: Edith Head. Direção de arte/cenários: Hans Dreier, Hal Pereira/Bertram Granger. Produção executiva: Buddy G. DeSylva. Produção: Joseph Sistrom. Elenco: Fred MacMurray, Barbara Stanwyck, Edward G. Robinson, Tom Powers, Jean Heather, Porter Hall. Estreia: 24/4/44
7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Billy Wilder), Atriz (Barbara Stanwyck), Roteiro Adaptado, Fotografia em P&B, Trilha Sonora Original, Som
Se existe um filme que merece ser chamado de noir, este filme é, "Pacto de sangue": dirigido com a maestria absoluta de Billy Wilder, fotografado em um assombroso preto-e-branco por John F. Seitz e apresentando todas as características que mais tarde seriam o DNA do subgênero mais famoso do cinema policial, a adaptação do romance de James M. Cain (que também escreveu "Mildred Pierce", que virou "Almas em suplício" e deu à Joan Crawford o Oscar de melhor atriz) conquista o espectador logo de cara, com a narração em off do protagonista (outro sinal inequívoco do estilo), começando a narrar os caminhos tortuosos que o levaram a uma situação nada invejável: ferido e acuado, Walter Neff (Fred MacMurray) viu sua vida relativamente tranquila de agente de seguros virada de pernas para o ar desde o momento em que pôs os olhos na melíflua Phyllis Dietrichson (Barbara Stanwyck, com uma peruca que o próprio Wilder detestava e uma atuação na medida exata entre a paixão e o cinismo). O início da intrincada trama - que modificou sensivelmente alguns pontos da obra de Cain com o apoio do autor - é apenas o começo, também, para Neff e para o público, que durante pouco menos de duas horas acompanhará uma história de paixão, lúxuria, morte e traição assinada por um dos mais brilhantes cineastas da Hollywood de ouro.
Billy Wilder - prolífico diretor e roteirista, capaz de assinar desde dramas humanos como "Farrapo humano" como comédias ácidas como "Quanto mais quente melhor" e romances elegantes como "Sabrina" - tem a seu crédito uma meia-dúzia de obras-primas, mas, à época do lançamento de "Pacto de sangue" ainda tinha poucos títulos em seu currículo (três, para ser mais exato). No entanto, quando se assiste a este seu quarto filme, fica difícil acreditar que ele nunca tivesse comandado um policial. Dotado de um ritmo impecável e um direção segura de atores, Wilder moldou a base do filme noir, borrando as fronteiras entre o bem e o mal e entregando à audiência um protagonista bem longe do maniqueísmo que imperava desde que o infame Código Hayes passou a ditar as regras na produção cinematográfica. Essa ousadia - que tão bem faz o filme e tão libertadora foi para que o público não se deixasse bitolar por leis absurdas de puritanismo - é uma das marcas registradas do cinema de Wilder e fica patente em cada sequência de "Pacto de sangue".
O protagonista, Walter Neff (vivido pelo mesmo Fred MacMurray que trabalharia novamente com o diretor em "Se meu apartamento falasse", de 1960, como o chefe canalha de Jack Lemmon) é um primor de ambiguidade: ao mesmo tempo em que é o herói da trama (ao menos dentro daquele padrão convencional de definição de herói de cinema), ele é também um mau-caráter de primeira ordem. Tudo bem, existe o atenuante de estar apaixonado, mas, no cinema noir homem apaixonado é alvo fácil, e Neff não contraria a regra: deslumbrado por Phyllis Dietrichson desde que viu pela primeira vez sua tornozeleira, displicentemente encoberta por uma toalha de banho, ele cai em suas garras e em seu plano malévolo. Convencido por ela, ele obriga seu marido (Tom Powers) a assinar um seguro de vida milionário dotado de uma cláusula que duplica a indenização caso a morte seja acidental. Se hoje o público já sabe de longe que vem problema por aí, o mesmo não pode ser dito de Neff, que entra em uma jogada arriscada: matar o milionário e forjar um acidente - para então ficar com sua esposa e o dinheiro de seu seguro.
Plano bolado e plano executado, é claro que as coisas começam a parecer o que realmente são: uma teia de mentiras e traição para ninguém botar defeito. Billy Wilder, a partir daí, mantém a plateia com a respiração suspensa, com cenas construídas milimetricamente para manter a tensão constante - e de dar orgulho ao mestre Alfred Hitchcock. Baseado em um caso real que tomou as manchetes dos jornais nos anos 20, o romance de James M. Cain encontrou em Wilder o diretor ideal, e o roteiro (que não teve a coautoria de habitual colega Charles Brackett, que não gostou do tema denso da história) contou com a colaboração do escritor Raymond Chandler, cuja relação com o cineasta não foi nem um pouco amistosa. As constantes desavenças entre os dois, porém, não se deixa entrever no resultado final, um filme impecável que é o responsável pelo surgimento de uma espécie de cinema que é até hoje, sete décadas depois, fonte inesgotável de inspiração e admiração.
7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Billy Wilder), Atriz (Barbara Stanwyck), Roteiro Adaptado, Fotografia em P&B, Trilha Sonora Original, Som
Se existe um filme que merece ser chamado de noir, este filme é, "Pacto de sangue": dirigido com a maestria absoluta de Billy Wilder, fotografado em um assombroso preto-e-branco por John F. Seitz e apresentando todas as características que mais tarde seriam o DNA do subgênero mais famoso do cinema policial, a adaptação do romance de James M. Cain (que também escreveu "Mildred Pierce", que virou "Almas em suplício" e deu à Joan Crawford o Oscar de melhor atriz) conquista o espectador logo de cara, com a narração em off do protagonista (outro sinal inequívoco do estilo), começando a narrar os caminhos tortuosos que o levaram a uma situação nada invejável: ferido e acuado, Walter Neff (Fred MacMurray) viu sua vida relativamente tranquila de agente de seguros virada de pernas para o ar desde o momento em que pôs os olhos na melíflua Phyllis Dietrichson (Barbara Stanwyck, com uma peruca que o próprio Wilder detestava e uma atuação na medida exata entre a paixão e o cinismo). O início da intrincada trama - que modificou sensivelmente alguns pontos da obra de Cain com o apoio do autor - é apenas o começo, também, para Neff e para o público, que durante pouco menos de duas horas acompanhará uma história de paixão, lúxuria, morte e traição assinada por um dos mais brilhantes cineastas da Hollywood de ouro.
Billy Wilder - prolífico diretor e roteirista, capaz de assinar desde dramas humanos como "Farrapo humano" como comédias ácidas como "Quanto mais quente melhor" e romances elegantes como "Sabrina" - tem a seu crédito uma meia-dúzia de obras-primas, mas, à época do lançamento de "Pacto de sangue" ainda tinha poucos títulos em seu currículo (três, para ser mais exato). No entanto, quando se assiste a este seu quarto filme, fica difícil acreditar que ele nunca tivesse comandado um policial. Dotado de um ritmo impecável e um direção segura de atores, Wilder moldou a base do filme noir, borrando as fronteiras entre o bem e o mal e entregando à audiência um protagonista bem longe do maniqueísmo que imperava desde que o infame Código Hayes passou a ditar as regras na produção cinematográfica. Essa ousadia - que tão bem faz o filme e tão libertadora foi para que o público não se deixasse bitolar por leis absurdas de puritanismo - é uma das marcas registradas do cinema de Wilder e fica patente em cada sequência de "Pacto de sangue".
O protagonista, Walter Neff (vivido pelo mesmo Fred MacMurray que trabalharia novamente com o diretor em "Se meu apartamento falasse", de 1960, como o chefe canalha de Jack Lemmon) é um primor de ambiguidade: ao mesmo tempo em que é o herói da trama (ao menos dentro daquele padrão convencional de definição de herói de cinema), ele é também um mau-caráter de primeira ordem. Tudo bem, existe o atenuante de estar apaixonado, mas, no cinema noir homem apaixonado é alvo fácil, e Neff não contraria a regra: deslumbrado por Phyllis Dietrichson desde que viu pela primeira vez sua tornozeleira, displicentemente encoberta por uma toalha de banho, ele cai em suas garras e em seu plano malévolo. Convencido por ela, ele obriga seu marido (Tom Powers) a assinar um seguro de vida milionário dotado de uma cláusula que duplica a indenização caso a morte seja acidental. Se hoje o público já sabe de longe que vem problema por aí, o mesmo não pode ser dito de Neff, que entra em uma jogada arriscada: matar o milionário e forjar um acidente - para então ficar com sua esposa e o dinheiro de seu seguro.
Plano bolado e plano executado, é claro que as coisas começam a parecer o que realmente são: uma teia de mentiras e traição para ninguém botar defeito. Billy Wilder, a partir daí, mantém a plateia com a respiração suspensa, com cenas construídas milimetricamente para manter a tensão constante - e de dar orgulho ao mestre Alfred Hitchcock. Baseado em um caso real que tomou as manchetes dos jornais nos anos 20, o romance de James M. Cain encontrou em Wilder o diretor ideal, e o roteiro (que não teve a coautoria de habitual colega Charles Brackett, que não gostou do tema denso da história) contou com a colaboração do escritor Raymond Chandler, cuja relação com o cineasta não foi nem um pouco amistosa. As constantes desavenças entre os dois, porém, não se deixa entrever no resultado final, um filme impecável que é o responsável pelo surgimento de uma espécie de cinema que é até hoje, sete décadas depois, fonte inesgotável de inspiração e admiração.
sexta-feira
SE MEU APARTAMENTO FALASSE

SE MEU APARTAMENTO FALASSE (The apartment, 1960, United Artists, 125min) Direçãoe produção: Billy Wilder. Roteiro: Billy Wilder, I.A.L. Diamond. Fotografia: Joseph LaShelle. Montagem: Daniel Mandell. Música: Adolph Deutsch. Elenco: Jack Lemmon, Shirley MacLaine, Fred MacMurray, Ray Walston, Jack Kruschen. Estreia: 15/6/60
10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Billy Wilder), Ator (Jack Lemmon), Atriz (Shirley MacLaine), Ator Coadjuvante (Jack Kruschen), História e Roteiro Original, Fotografia em preto-e-branco, Montagem, Direção de arte em P&B, Som
Vencedor de 5 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Billy Wilder), História e Roteiro Original, Montagem e Direção de Arte em P&B
Vencedor de 3 Golden Globes: Filme Comédia/Musical, Ator Comédia/Musical (Jack Lemmon), Atriz Comédia/Musical (Shirley MacLaine)
Em 1994, o espanhol Fernando Trueba levou o Oscar de filme estrangeiro por "Sedução" e declarou, frente a milhões de espectadores: "Se eu acreditasse em Deus, agradeceria a Deus. Mas, como não acredito, agradeço a Billy Wilder." Prova maior da influência do cineasta austríaco radicado em Hollywood sobre as gerações seguintes de diretores - DO MUNDO - não existe. Afinal, somente um completo desnorteado seria capaz de não reconhecer a importância e o talento do criador de "O pecado mora ao lado". Mas foi somente em 1960 que ele levou seu único Oscar de melhor diretor - e feliz dele, porque Alfred Hitchcock e Charles Chaplin, por exemplo, nunca tiveram a mesma sorte. Sua estatueta veio depois dos prêmios da Associação de Críticos de Nova York e do Directors Guild of America, o sindicato de diretores de Hollywood e, por incrível que pareça, o Oscar lhe sorriu graças a uma comédia romântica, "Se meu apartamento falasse". Como? Uma comédia romântica? Dirigida pelo homem que deu ao mundo petardos pessimistas e cínicos como "Crepúsculo dos deuses" e "Testemunha da acusação"? Sim, meus caros, uma comédia romântica. Mas antes que comecem a pensar que o bom e velho Wilder estava amolecendo, é bom saber que "Se meu apartamento falasse" tem muito da acidez e do sarcasmo do diretor. É uma comédia romântica, sim, mas antes de mais nada, é mais uma de suas obras-primas.
Tudo bem que "Sabrina", que Wilder lançou em 1954, é uma comédia romântica, mas a presença luminosa de Audrey Hepburn chamou muito mais a atenção do que qualquer outro elemento dramático ou estilístico que o filme pudesse ter, e não tinha a cara de seu diretor. "Se meu apartamento falasse", ao contrário, é Billy Wilder do início ao fim, o que o torna mais delicioso de assistir a cada nova revisão. É um filme romântico sem o sentimentalismo piegas que normalmente abunda no gênero e um comédia inteligente sem o apelo escatológico de piadas forçadas e visuais que desgastam o humor no cinema. Em outras palavras, um filme que qualquer diretor que preze sua carreira adoraria ter dirigido.

O protagonista do filme é C.C.Baxter (outro desempenho extraordinário de Jack Lemmon),um executivo de segundo escalão em uma firma de seguro social de Nova York. Ambicioso e solitário, ele empresta a chave de seu apartamento para que seus superiores tenham noites ao lado das amantes, sempre com o objetivo de subir na empresa. As coisas realmente começam a andar quando seu chefe máximo, Sheldrake (Fred McMurray) finalmente o promove, mas exigindo a exclusividade do apartamento do funcionário. Ele aceita a proposta, mas passa a questionar suas prioridades quando descobre que a amante de seu chefe é a mulher por quem é apaixonado, a ascensorista Fran Kubelik (uma jovem e delicada Shirley MacLaine).
Se não bastasse o ritmo excepcional do roteiro de Wilder e I.A.L. Diamond (trabalhando juntos novamente depois de "Quanto mais quente melhor"), que funciona como um relógio tanto nos momentos cômicos quanto nos dramáticos, "Se meu apartamento falasse" conta com um elenco de sonhos. Jack Lemmon brilha, sem fazer muito esforço, na pele de Baxter, um homem comum, com sonhos e esperanças corriqueiros, que vê no amor a chance de se redimir de uma existência vazia e sem muito sentido. E Shirley MacLaine, na flor de seus 26 aninhos, encanta com seu rosto angelical que anseia por um amor correspondido, em uma atuação apaixonante e sedutora. A química entre os dois protagonistas quase ofusca o elenco de coadjuvantes irresistíveis escalado pelo diretor (que além de todos os outros talentos, ainda tinha uma visão impecável de seu elenco de apoio).
"Se meu apartamento falasse" não consegue esconder seu toque de cinismo - os protagonistas, por exemplo, não são modelos a ser seguidos e alguns diálogos são pérolas de incorreção política muito bem disfarçadas - mas no fundo não deixa de ser uma história de amor que apresenta todos os ingredientes comuns ao gênero. No entanto, ao contrário de muitos outros produtos, aqui a receita funciona à perfeição, oferecendo à platéia um saboroso gosto de final feliz verossímil.
E pra acabar a anedota que abriu o post, no dia seguinte à entrega do Oscar de 1994, Fernando Trueba atendeu o telefone e ouviu, do outro lado da linha: "Senhor Trueba? Aqui fala Deus." Era Wilder.
QUANTO MAIS QUENTE MELHOR

QUANTO MAIS QUENTE MELHOR (Some like it hot, 1959, MGM Pictures, 120min). Direção: Billy Wilder. Roteiro: Billy Wilder, I.A.L. Diamond. Fotografia: Charles Lang Jr. Montagem: Arthur P. Schmidt. Música: Adolph Deutsch. Figurino: Orry-Kelly. Produção: Billy Wilder. Elenco: Jack Lemmon, Tony Curtis, Marilyn Monroe, George Raft, Pat O'Brien, Joe E. Brown Estreia: 29/3/59
6 indicações ao Oscar: Diretor (Billy Wilder), Ator (Jack Lemmon), Roteiro Adaptado, Fotografia, Figurino, Direção de Arte
Oscar de Melhor Figurino
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme Comédia/Musical, Ator Comédia/Musical (Jack Lemmon), Atriz Comédia/Musical (Marilyn Monroe)
Em mais uma de suas espirituosas declarações, o cineasta Billy Wilder disse o seguinte: "Tenho uma tia-avó na Áustria que é pontualíssima, mas ninguém pagaria um tostão para vê-la." Não é preciso ser adivinho para entender os motivos que levaram o genial cineasta a soltar essa pérola: ele tinha dirigido Marilyn Monroe duas vezes e sabia com toda a certeza do mundo que, por mais torturante que fosse comandar a estrela, seu nome estampado no cartaz de um filme era garantia de bilheteria. E na segunda ocasião ele estava, outra vez, certo. Fazer com que Monroe acertasse suas cenas era um inferno (em uma ocasião ela errou uma única frase 59 vezes!!!), mas quem, em sã consciência pode julgar Wilder, quando o resultado de tão estafante missão é algo como "Quanto mais quente melhor"?
Considerada unanimemente como uma das comédias mais engraçadas de todos os tempos (o American Film Institute foi ainda mais longe, categorizando-a como a melhor comédia da história), "Quanto mais quente" foi também um dos poucos filmes americanos a figurar na lista negra da Legião de Decência do Catolicismo Romano (sim, isso existe), condenado, provavelmente, por utilizar, para atingir seus objetivos humorísticos, dois homens travestidos. E quem acha que isso é coisa do Papa está enganado: o Kansas também proibiu o filme de estrear, porque "travestismo é muito perturbador para seus conterrâneos". Só o que pode se pensar quanto a isso é: coitado dos cidadãos do Kansas, que foram privados de dar muitas e saudáveis risadas.
"Quanto mais quente melhor" se passa em 1929, em plena vigência da Lei Seca, onde gângsters circulavam livremente pelas ruas de Chicago e chacinas aconteciam a cada esquina. Uma dessas chacinas é testemunhada por dois músicos falidos, Joe (Tony Curtis) e Jerry (Jack Lemmon), que ameaçados de morte pelo mafioso Spats Colombo (George Raft), só encontram uma saída: candidatar-se aos cargos de integrantes de uma banda feminina que está de passagem marcada para a Flórida. O fato de ser uma banda só para mulheres é um detalhe que logo eles tiram de letra: com os nomes de Josephine e Daphne eles embarcam rumo à liberdade ao lado de inúmeras beldades. O que eles não poderiam imaginar é que, durante a viagem eles conheceriam a bela Sugar Cane (Marilyn Monroe) e que o milionário Osgood Fielding III (Joe E. Brown) cairia de amores pela versão feminina de Jerry.

Roteiristas de comédias deveriam ter o script de "Quanto mais quente melhor" como sua Bíblia. É impressionante o número de boas piadas espalhadas pelo script, equilibradas magistralmente entre gags visuais e diálogos engraçadíssimos, que nunca apelam para o vulgar ou grosseiro - o que seria tentador, levando-se em conta a premissa da trama. Tudo é construído cuidadosamente, sem pressa, com um ritmo que nunca é demais nem de menos. Todas as tramas - a perseguição feita pelo mafioso, a farsa que une o milionário criado por Joe para conquistar Sugar e o "romance" entre Daphne e Osgood - tem seus momentos de brilho e importância e acabam fazendo parte de um conjunto irresistível de cenas hilariantes e de uma inteligência rara no gênero. Tudo está no lugar em "Quanto mais quente melhor", cada cena pode ser examinada solitariamente milhares de vezes e sempre será genial, graças especialmente à direção impecável de Billy Wilder e ao elenco escolhido por ele, em que ninguém - NINGUÉM - soa artificial ou fora do espírito da coisa. Das mulheres que fazem parte da banda aos mafiosos, nada está faltando ou sobrando no filme - e alguns coadjuvantes são excepcionais, como o carregador do hotel, apaixonado por Josephine e Joan Shawlee como Sweet Sue (e isso para não citar a incrível participação de Joe E. Brown, que rouba todas as cenas em que aparece como Osgood III).
Mas se o elenco secundário segura o rojão com segurança e desenvoltura, são os atores principais que fazem com que tudo que dá certo no filme pareça ainda mais perfeito. Se Marilyn Monroe enfeita a tela com sua sensualidade e carisma sempre que entra em cena e Tony Curtis demonstra um até então insuspeito talento pra comédia, não há como negar que é Jack Lemmon quem comanda o show. Na pele de Daphne, Lemmon (que ficou com o papel recusado por Jerry Lewis e que Wilder quis oferecer a Frank Sinatra) apresenta um timing irretocável para o humor, sempre utilizando o tom exato para cada frase, a entonação perfeita para cada palavra e uma expressividade corporal e facial que dispensa qualquer exagero (alguns atores ditos de comédia bem que poderiam assistir ao filme com mais frequência para aprender alguma coisa). Indicado ao Oscar por seu trabalho, Lemmon perdeu a estatueta para Charlton Heston, de "Ben-hur", o que já demonstrava desde então o preconceito da Academia para com filmes menos sérios (Billy Wilder também concorreu como diretor, mas não houve a merecidíssima indicação a Melhor Filme).
É um desafio assistir "Quanto mais quente melhor" sem rir - logicamente pessoas com bom gosto cinematográfico que preferem piadas inteligentes à humor pastelão-escatológico. E Wilder tinha razão quando dizia que Marilyn Monroe valia qualquer sacrifício: é impossível imaginar uma outra atriz que conseguisse unir com tanta facilidade sensualidade com inocência. Mesmo em preto e branco (a atriz concordou com a exceção à sua regra contratual de fazer apenas filmes coloridos porque o diretor convenceu-a de que a maquiagem de Lemmon e Curtis ficaria grotesca em cores) sua beleza eterna permanece intocada e, se é de "O pecado mora ao lado" sua cena mais conhecida, é este seu melhor trabalho e o Golden Globe de melhor atriz em comédia/musical apenas reitera essa afirmação.
segunda-feira
TESTEMUNHA DA ACUSAÇÃO

TESTEMUNHA DA ACUSAÇÃO (Witness for the prosecution, 1957, United Artists, 116min) Direção: Billy Wilder. Roteiro: Billy Wilder, Harry Kurnitz, baseado na peça teatral de Agatha Christie. Fotografia: Russell Harlan. Montagem: Daniel Mandell. Música: Matty Malneck. Figurino: Edith Head, Joseph King. Produção: Arthur Hornblow Jr. Elenco: Charles Laughton, Tyrone Power, Marlene Dietrich, Elsa Lanchester, John Willams. Estreia: Dezembro/57
6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Billy Wilder), Ator (Charles Laughton), Atriz Coadjuvante (Elsa Lanchester), Montagem, Som
Vencedor do Golden Globe de Atriz Coadjuvante (Elsa Lanchester)
Considerada a Rainha do Crime da literatura policial, a inglesa Agatha Christie teve pouca sorte com as adaptações de seus romances para o cinema. Nem mesmo "Assassinato no Orient Express", com um elenco estelar e um Oscar de atriz coadjuvante para Ingrid Bergman chegou perto do brilhantismo. Felizmente exceções existem para cada regra e a exceção aqui tem a assinatura de Billy Wilder, o cineasta austríaco acostumado a legar obras-primas ao mundo. Dirigido e co-escrito por Wilder (ao lado de Harry Kurnitz), "Testemunha da acusação", baseado na peça teatral homônima de Christie é, sem espaço para qualquer tipo de dúvida, a melhor transposição de uma obra da escritora para o cinema. Para quem não acredita, basta apenas assistir a uma única vez para nunca mais esquecer.
Ao contrário da peça original, que já começa no julgamento do protagonista, o roteiro de Wilder e Kurnitz aumenta a importância do advogado Wilfrid Robbarts, vivido com uma verve irresistível pelo britânico Charles Laughton (indicado ao Oscar por sua atuação). Recém-saído do hospital devido a um ataque do coração, ele é procurado pelo jovem Leonard Vole (Tyrone Power em seu último filme completo antes de sua morte por enfarte) para que o defenda em um caso de homicídio. Vole é acusado de assassinar uma senhora de idade com quem vinha se encontrando (e que, segundo as más línguas, incentivando seu interesse romântico) e, conhecendo a fama de Robbarts pede sua ajuda para ser absolvido. O veterano advogado aceita a causa, mas tem uma grande surpresa quando, durante o julgamento, fica sabendo que a principal testemunha da acusação é justamente a pessoa que eles menos poderiam esperar: Christine Helm (Marlene Dietrich), a esposa de Vole, disposta a destruir as chances de absolvição de seu marido.

Contar muito sobre o desenrolar da trama de "Testemunha da acusação" é um crime inafiançável. As reviravoltas são absolutamente surpreendentes (na primeira vez em que assiste ao filme, logicamente) e por mais que pareçam um tanto forçadas soam críveis graças à atmosfera criada pela direção de Wilder e pela atuação de seu elenco. Ao contrário de seus filmes imediatamente anteriores - com personagens americanos até a raiz dos cabelos e portanto com comportamentos bem diferentes dos mostrados aqui - Wilder criou um ambiente classicamente britânico, em que até mesmo o estilo de interpretação dos atores diverge bastante de sua obra - o que levou muita gente a pensar que o filme tivesse sido dirigido por Alfred Hitchcock. Charles Laughton (um dos maiores atores britânicos de todos os tempos) deita e rola na pele do teimoso e brilhante Wilfrid Robbarts, mal dando espaço para os demais colegas de elenco (com exceção da excelente Elsa Lanchester, sua esposa na vida real, que rouba a cena a cada momento em que aparece e levou um Globo de Ouro e uma indicação ao Oscar por isso). Tyrone Power, por exemplo, faz o que pode no papel do réu Leonard Vole, mas sucumbe perante a força de Laughton (e seu papel foi oferecido a nomes tão díspares quanto William Holden, Gene Kelly, Kirk Douglas, Glenn Ford, Jack Lemmon e Roger Moore (!!)). Só quem chama a atenção independentemente do brilho do veterano ator inglês é, pasmem, Marlene Dietrich.
Mais uma personalidade e um símbolo sexual do que exatamente uma atriz respeitada por seus dotes histriônicos, Dietrich ficou com um papel ingrato e extremamente difícil que foi oferecido primeiramente a Ava Gardner e Rita Hayworth. Como Christine Vole (ou Helm), no entanto, Marlene demonstra que, além de sua marcante voz grave, suas belas pernas (uma cena foi criada apenas para que uma delas fosse mostrada) e seu sotaque sedutor, ela tinha sim, muito talento. Houve até cochichos que garantiam uma indicação ao Oscar (ela entusiasmou-se com a possibilidade, que acabou não se provando acurada). Basta Marlene entrar em cena que é impossível desviar os olhos de seu belo e expressivo rosto e é inegável que sua presença colabora muito com o resultado final do filme.
E se não bastasse a trama surpreendente (no final do filme há um pedido dos produtores para que o público não comentasse seu desfecho com ninguém), a direção impecável de Wilder e o elenco espetacular, "Testemunha da acusação" ainda tem um senso de humor delicioso, principalmente nos embates entre o velho advogado e sua enfermeira dedicada. Juntos, Laughton e Lanchester brindam a plateia com interpretações repletas de nuances verbais e físicas, que resgatam a obra do lugar-comum em filmes sobre julgamentos. Se não fosse detalhes meticulosamente oferecidos por Billy Wilder no decorrer da narrativa, não haveria interesse em se assistir ao filme depois da primeira vez - afinal, não há mais surpresas. Mas um homem que criou pérolas como "Crepúsculo dos deuses" e "Sabrina" e ainda haveria de lançar "Quanto mais quente melhor" e "Se meu apartamento falasse" jamais deixaria de encantar seu público. Obrigado, Billy Wilder, por mais uma obra-prima!
sábado
O PECADO MORA AO LADO

O PECADO MORA AO LADO (The seven year itch, 1955, 20th Century Fox, 105min) Direção: Billy Wilder. Roteiro: Billy Wilder e George Axelrod, baseado na peça de teatro homônima de George Axelrod. Fotografia: Milton Krasner. Montagem: Hugh S. Fowler. Música: Alfred Newman. Produção: Billy Wilder e Charles K. Feldman. Elenco: Tom Ewell, Marilyn Monroe, Evelyn Keyes. Estreia: 01/6/55
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator Comédia/Musical (Tom Ewell)
Em uma cena de "Sabrina", lançado em 1954, o protagonista Linus Larrabee, vivido por Humphrey Bogart pede a sua secretária que compre dois ingressos para o teatro, onde irá acompanhado da personagem-título, interpretada por Audrey Hepburn. A peça que ele assiste (ainda que seja apenas mencionada) é "The seven year itch", então um grande êxito de bilheteria nos palcos da Broadway. O que parecia apenas uma menção ocasional a um sucesso do momento era na verdade um marketing esperto e criativo do diretor do filme, Billy Wilder. Seu próximo projeto era justamente a adaptação para o cinema da peça, que, ao estrear, em 1955, forjaria definitivamente a imagem de Marilyn Monroe como o maior símbolo sexual feminino da história do cinema.
Batizado no Brasil como "O pecado mora ao lado", o filme do austríaco Wilder (que já havia inclusive ganho um Oscar de direção por "Farrapo humano", em 1945) foi definido, na época de seu lançamento, como uma "comédia sexual", apelando principalmente para o apelo erótico de sua estrela, Marilyn Monroe, então com 28 anos de idade e no auge de sua fama. Recém-casada com o esportista Joe DiMaggio (um casamento que durou apenas 9 meses e azedou de vez durante as filmagens), a atriz acabou tornando-se, graças a seu carisma, o centro do filme, mesmo que sua personagem seja secundária.
O real protagonista de "O pecado mora ao lado" (um título nacional no mínimo equivocado, haja visto que no filme o "pecado" não exatamente mora ao lado e sim no andar de cima...) é Richard Sherman, executivo de uma editora de livros de bolso que, assim como centenas de outros homens comuns, fica sozinho no período de verão, quando manda a esposa (Evelyn Keyes) e o filho pequeno para o litoral. Casado há sete anos (período em que, segundo um dos livros que estuda para publicar, acontece a temida "coceira"), ele passa a sentir uma irresistível atração pela jovem que está passando uma temporada no apartamento acima do seu, pertencente a um casal de amigos. Sentindo-se culpado por seus pensamentos pecaminosos, ele deixa sua imaginação atingir altos níveis, enquanto se divide entre a tentação do adultério com sua deliciosa vizinha e a manutenção de seu casamento. Na pele de Tom Ewell (que defendeu o papel nos palcos e por isso teve a chance de ficar com ele também nas telas, ainda que Wilder preferisse o novato Walter Matthau), Sherman é o típico homem comum, o que o aproxima mais facilmente do espectador (conseguindo o efeito desejado pela produção, que rejeitou Gary Cooper para o papel por ele ser bonito demais). Falando diretamente para o público, Sherman o tem como cúmplice (mas, pensando bem, quem não teria, tendo Marilyn Monroe como nada obscuro objeto do desejo?).

Na verdade, a adaptação do texto de George Axelrod (feita por ele mesmo ao lado de Wilder) sofreu com a censura ferrenha do Código Hayes, que freava toda e qualquer manifestação que pudesse macular a moral e os bons costumes. No palco, o adultério de Sherman é consumado e é justamente seu sentimento de culpa pela traição que motivava a maior parte das piadas criadas pelo autor. No momento em que, por imposição do estúdio (a 20th Century Fox para onde o diretor foi após o término de seu contrato com a Paramount), não há traição na história, Wilder e Axelrod tiveram que suar a camisa para que a trama não ficasse vazia a ponto de desaparecer. Levando em consideração tal dificuldade, é impossível não louvar o resultado final, que consegue ser engraçado sem ser vulgar e, de quebra, apresenta a atuação mais "quente" de Monroe. E quente aqui serve para várias interpretações.
A interpretação mais óbvia e fácil é a da temperatura, mesmo: a história se passa em um escaldante verão nova-iorquino, o que justifica algumas passagens clássicas do mito Monroe: sua personagem (sem nome) afirma guardar as calcinhas no congelador, toma banho de banheira, dorme no apartamento do vizinho que tem ar-condicionado e, se não fosse o calor, provavelmente ela não seria protagonista de uma das cenas mais imitadas, citadas, homenageadas e conhecidas de sua trajetória (e de qualquer outra atriz): atire a primeira pedra quem não conhece a famosa imagem de Marilyn tendo sua saia levantada pelo vento que sai do bueiro, causado pela passagem do metrô. Essa cena, filmada na rua (mas que teve que ser refeita em estúdio, uma vez que ficou inutilizada pelo barulho causado pelos felizardos espectadores) foi, provavelmente, a pá de cal no relacionamento da estrela com DiMaggio, que não ficou particularmente feliz em ver sua esposa (que ele sonhava ver como dona-de-casa, dá pra imaginar??) sendo objeto de desejo de todo o planeta. Se o jogador não gostou, problema dele. O mundo adorou e transformou a antiga Norma Jean Baker no mais duradouro mito sexual da história. Tem como julgar o pobre Richard Sherman?
"O pecado mora ao lado" não é, nem de longe, o melhor filme de Billy Wilder (sua próxima colaboração com Marilyn, no sensacional "Quanto mais quente melhor" é mil vezes mais divertido e transgressor). Visto hoje, é de uma inocência quase pueril. Mas só o fato de ter criado a icônica e definitiva imagem de Monroe como símbolo sexual (pro bem e pro mal) já o torna mais que obrigatório.
segunda-feira
SABRINA

SABRINA (Sabrina, 1954, Paramount Pictures, 113min) Direção e produção: Billy Wilder. Roteiro: Billy Wilder, Samuel Taylor e Ernest Lehman, baseado na peça teatral "Sabrina fair", de Samuel Taylor. Fotografia: Charles Lang Jr. Montagem: Arthur Schmidt. Música: Friedericj Hollander. Figurino: Edith Head. Elenco: Humphrey Bogart, Audrey Hepburn, William Holden, John Williams, Walter Hampden. Estreia: Outubro de 1954
6 indicações ao Oscar: Diretor (Billy Wilder), Atriz (Audrey Hepburn), Roteiro Adaptado, Fotografia em P&B, Figurino e Direção de arte.
Vencedor do Oscar de Figurino
Vencedor do Golden Globe de Melhor Roteiro
Em 1973 o autor Lauro César Muniz lançou, no horário das 19h da Rede Globo, a novela "Carinhoso", estrelada pela dupla mais popular de então - Regina Duarte e Cláudio Marzo. Apesar do sucesso momentâneo, a novela não ficou na memória dos espectadores (chegou a ser encurtada devido à gravidez de Regina, que deu à luz em 1974 a hoje atriz Gabriela). O que pouca gente deve ter notado na época - e tampouco importa hoje, quando a novela nem mais é lembrada - é que sua trama principal era descaradamente inspirada em "Sabrina", filme de Billy Wilder por sua vez inspirado em uma peça de teatro de Samuel Taylor. Lançado em 1954, o filme foi o trabalho de Audrey Hepburn seguinte a seu Oscar por "A princesa e o plebeu" e comprova seu carisma, talento e classe. Unida a um texto ácido de Wilder (que, ao lado de Ernest Lehman e do próprio autor da peça nunca deixa que seu romantismo caia na vala do piegas ou do lugar-comum), Hepburn mais uma vez brilha em um papel feito sob medida - mas que quase foi parar nas mãos de Lauren Bacall, que era a primeira escolha do ator principal do filme, Humphrey Bogart (não por acaso, seu marido).
Na verdade, o próprio Bogart não foi o primeiro ator escolhido para viver o sério, sisudo e impenetrável Linus Larrabee, um homem que vive do trabalho burocrático nas milionárias empresas da família. Cary Grant foi o primeiro nome a ser cotado para o papel, mas acabou saindo do filme, sendo substituído por um Bogart que não suportava nem Hepburn (a quem considerava má atriz) nem seu colega de cena William Holden (que se apaixonou por Hepburn durante as filmagens, em um romance que terminou quando ela descobriu que ele não queria ter mais filhos).
A Sabrina do título é uma jovem doce, romântica e sonhadora apaixonada por David Larrabee (Holden), um playboy irresponsável, três vezes divorciado e mulherengo. O grande problema dessa paixão é que ele não faz a menor ideia da existência da moça, filha de seu motorista (vivido com delicadeza pelo ótimo John Williams). No início do filme, desiludida de amor, Sabrina pensa em suicídio, mas é impedida por Linus, o irmão mais velho de David, que, conforme dito acima, é sério, sisudo e impenetrável, vivendo em função de números e contratos. Sem esperanças de conquistar o amor de David, Sabrina viaja a Paris para fazer um curso de gastronomia. Dois anos depois, ela retorna ao quarto de empregada onde morava com o pai, mas, belíssima, elegante e cosmopolita, não passa mais incólume ao sedutor David, que se apaixona por ela, arriscando uma negociata de milhares de dólares vinculada a seu iminente casamento com uma socialite. Para impedir que o casal fique junto e estrague os planos milionários da empresa, Linus se aproveita de um pequeno acidente de David para separá-los. O que ele não contava, no entanto, era se apaixonar também por Sabrina.

É impossível negar que o maior mérito de "Sabrina" é o talento enorme de Billy Wilder em transformar até mesmo uma história de amor sem maiores novidades em um filme inesquecível. Apesar da trama do filme não ser das mais geniais ou surpreendentes, seu roteiro esperto e divertido conquista pela sutileza, pelo humor suave e pelo romantismo na medida certa. O timing cômico de Wilder é evidente em pequenos detalhes - em especial nas cenas com o hilário Walter Hampden, como o patriarca Larrabee - mas o cineasta, espertamente, nunca deixa que o romantismo da trama principal deixe de ser o centro do interesse do espectador. Seu uso exemplar do humor serve apenas como um alívio cômico para uma trama quase banal, ainda que contada com tanto zelo e cuidado que chega a arrebatar em seus momentos mais sentimentais.
Uma das críticas mais frequentes a "Sabrina" é o fato de Humphrey Bogart ser muito mais velho do que Hepburn, e realmente a química entre os dois não é das mais fascinantes. No entanto, é fácil acreditar no amor que nasce entre os dois, em parte devido ao talento dos dois atores, em parte devido ao clima proporcionado pela bela fotografia de Charles Lang Jr. (indicada ao Oscar). A trilha sonora (que inclui a própria atriz entoando uma versão de "La vie en rose") colabora com o ritmo suave que envolve o espectador sem exigir dele mais do que o desejo de ser entretido com categoria e inteligência.
Mas, sem sombra de dúvida, além do roteiro eficaz, do clima contagiante e do elenco de astros, o que sobressai de "Sabrina" é Audrey Hepburn. Pelo seu talento e pela sua postura elegante (apesar do Oscar de figurino ter ficado nas mãos de Edith Head as roupas usadas pela atriz são do estilista Givenchy - que confundiu-a primeiramente com Katharine Hepburn e depois tornou-se grande amigo e colaborador), Audrey é o rosto e a alma do filme. Tanto sua estampa tornou-se a imagem máxima do filme que, quando Sydney Pollack fez um desnecessário remake do filme, em 1995, colocou a sem-sal Julia Ormond no papel-título e amargou um merecido fracasso. "Sabrina" É Audrey Hepburn.
quarta-feira
CREPÚSCULO DOS DEUSES

CREPÚSCULO DOS DEUSES (Sunset boulevard, 1950, Paramount Pictures, 110min) Direção: Billy Wilder. Roteiro: Charles Brackett, Billy Wilder, D. M. Marshman Jr. Fotografia: John F. Seitz. Montagem: Arthur P. Schmidt, Doane Harrison. Música: Franz Waxman. Figurino: Edith Head. Produção: Charles Brackett. Elenco: Gloria Swanson, William Holden, Erich Von Stroheim, Nancy Olson, Jack Webb. Estreia: 04/8/50
11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Billy Wilder), Ator (William Holden), Atriz (Gloria Swanson), Ator Coadjuvante (Erich Von Stronheim), Atriz Coadjuvante (Nancy Olson), História e Roteiro Originais, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Direção de Arte
Vencedor de 3 Oscar: História e Roteiro Originais, Trilha Sonora Original, Direção de Arte
Vencedor de 4 Golden Globes: Melhor Filme, Diretor (Billy Wilder), Atriz (Gloria Swanson), Trilha Sonora Original
Poucas vezes na história do cinema um título nacional conseguiu atingir tão precisamente a essência de um filme quanto "Crepúsculo dos deuses", a versão brasileira de "Sunset Blvd", uma das várias obras-primas legadas ao mundo pelo cineasta Billy Wilder. Poético, trágico e imponente, o título já dá uma ideia do alcance da obra, que utiliza a trágica história de uma atriz veterana em busca de uma nova chance como metáfora assustadora da inevitabilidade da decadência e da efemeridade da juventude, da beleza e, por que não?, da sanidade mental.
A protagonista de "Crepúsculo dos deuses" é Norma Desmond, uma diva do cinema mudo que não resistiu à transição para os filmes falados. Vivendo isolada em um mundo particular, dentro de uma mansão decadente na Sunset Boulevard (o tal título original) e refugiando-se nas glórias de seu passado, ela sonha em voltar às telas em uma adaptação de "Salomé", de Oscar Wilde, com ela no papel-título (o fato de ter muito mais idade que a personagem não lhe preocupa nem um pouco). Servida fielmente pelo mordomo Max Von Mayerling (Erich Von Stronheim), Desmond vive do passado enquanto sonha por um futuro pouco provável (ao menos para olhos mais racionais). Sua vida sofre uma reviravolta quando ela conhece o aspirante a roteirista Joe Gillis (William Holden), que, foragido dos credores, se esconde na garagem de sua mansão. Apaixonada por ele, a atriz o contrata para ajudá-la a escrever seu retorno ao cinema, que, acredita ela, é um evento esperado ansiosamente por seus fãs. No entanto, o rapaz, que submete-se a sua dominação por estar sem dinheiro e sem possibilidades de trabalho, apaixona-se pela doce namorada de um amigo (Nancy Olson) e, rejeitada, Norma Desmond embarca em um caminho sem volta de rancor e desilusão.

Quando um filme fala sobre cinema corre o sério risco de cair nas armadilhas de auto-referência, narcisismo e pior ainda, metalinguagem (o que, quando usado sem parcimônia pode transformar um filme em uma tortura). Não é qualquer cineasta que tem auto-crítica em quantidade suficiente para realizar um filme sobre os bastidores de sua profissão sem fazer dele um exercício de auto-adoração. Felizmente Billy Wilder não é "qualquer cineasta". Dono de uma visão toda particular da vida e principalmente da sétima arte, ele oferece ao espectador um ângulo poucas vezes visto do mundo do cinema, onde o talento muitas vezes é relevado a melancólicos segundos planos diante da beleza e do "novo". O roteiro - escrito por Wilder com seu habitual colaborador Charles Brackett - é repleto de um cinismo delicioso, mas seco, cruel e a um passo do pessimismo. As cenas entre Desmond e seu mordomo - que já foi seu marido e diretor de alguns filmes seus - são de partir o coração, tamanha a compaixão que a protagonista desperta na audiência. Sim, ela é louca. Sim, ela é arrogante e sim, ela é egocêntrica. Mas a atuação de Gloria Swanson é tão, mas tão perfeita, que fica difícil não ficar fascinado com seus gestos, seus olhares - em determinado momento ela diz, com certa razão: "Não preciso de falas, tenho meus olhos..." - sua grandeza intrínseca. Norma Desmond é, sem dúvida, uma das grandes personagens da história do cinema e Swanson apropriou-se dela de tal maneira que é difícil imaginar outra atriz em seu lugar - e isso que Mae West, Mary Pickford e Pola Negri foram convidadas antes dela, recusando o papel para sorte nossa. Como ela e Bette Davis (por "A malvada") foram preteridas na premiação do Oscar de melhor atriz em nome de Judy Holiday (por "Nascida ontem") ainda é um mistério inexplicável.
Em cena, Swanson é poderosa, frágil, romântica, enlouquecida, uma estrela ou apenas uma sombra da glória de sua personagem. Ao lado de William Holden (que ficou com o papel recusado por Montgomery Clift, por pouco não oferecido a Marlon Brando e que não pôde ficar com Gene Kelly por questões contratuais), ela é uma mulher apaixonada. Diante de seu mordomo, uma diva atemporal. Para os espectadores, uma mulher perdida entre o passado de sucesso e o presente sufocante.
Além da magnífica ambientação soturna do filme (que pode sem medo ser encaixado na categoria de filme noir, ainda que não corresponda a todas as suas regras), do roteiro extraordinário, da direção precisa e do elenco irretocável (Erich Von Strohneim também foi cineasta, assim como seu personagem), "Crepúsculo dos deuses" ainda encontra espaço para homenagear astros que, assim como Norma Desmond, viram seus melhores anos esquecidos pelo advento do som, como Buster Keaton, que faz seu próprio papel em uma breve cena de jogo de cartas. E o cineasta Cecil B. de Mille também dá o ar da graça, interpretando ele mesmo, em uma cena que demonstra como poucas a divisão claramente estabelecida entre a velha e a nova (da época) Hollywood.
"Crepúsculo dos deuses" é um dos melhores filmes da história, digo sem medo de errar. Tudo funciona, tudo está no lugar certo, tudo faz sentido. E quando acaba, mesmo sem querer ser saudosista não há como negar que Norma Desmond está certá quando diz que "os filmes é que ficaram pequenos".
PS - Havia um boato de que o musical da Broadway inspirado em "Sunset Blvd" seria adaptado para o cinema com Glenn Close como Norma Desmond e Ewan McGregor como Joe Gillis. Tem lugar na primeira fila???
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