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quinta-feira

INQUIETOS

INQUIETOS (Restless, 2011, Columbia Pictures/Imagine Entertainment, 91min) Direção: Gus Van Sant. Roteiro: Jason Lew. Fotografia: Harris Savides. Montagem: Elliot Graham. Música: Danny Elfman. Figurino: Danny Glicker. Direção de arte/cenários: Anne Ross/Sara Parks. Produção executiva: Eric Black, Sarah Bowen, David Allen Cress, Tricia Huggins, Michael Sugar. Produção: Brian Grazer, Bryce Dallas Howard, Ron Howard, Gus Van Sant. Elenco: Henry Hopper, Mia Wasikowska, Riô Kase, Jane Adams, Schuyler Fisk, Lusia Strus. Estreia: 12/5/11 (Festival de Cannes)

 Ele se chama Enoch Brae e, órfão de pai e mãe por obra de um desastre de automóvel que o deixou em coma por três meses, tem por hábito frequentar funerais de desconhecidos como forma inconsciente de exorcizar sua constante melancolia. Ela é Annabel Cotton, uma jovem inteligente, sensível e etérea que, apesar da pouca idade já tem os dias contados devido a um tumor cerebral incurável. Um belo dia eles se encontram em um velório e tornam-se amigos. Ela não questiona o fato do rapaz conversar com o fantasma de um piloto kamikaze morto em ação e ele aceita pacificamente a ideia de que a vida de sua melhor amiga tem data para acabar. Aos poucos a relação entre os dois ultrapassa os limites da amizade e eles se apaixonam, mesmo sabendo que sua história de amor está fadada à tristeza.

A breve sinopse do filme do outrora transgressor Gus Van Sant - que depois de empolgar a crítica com seus ousados "Drugstore cowboy" e "Garotos de programa" foi engolido pela máquina hollywoodiana a ponto de concorrer duas vezes ao Oscar de melhor diretor, uma delas pelo burocrático "Gênio indomável" - pode fazer com que os avessos a a histórias movidas a lágrimas e sentimentos torça o nariz sem pensar duas vezes. Porém, por incrível que pareça, recomenda-se que até mesmo esses detratores do gênero reconsiderem tal reação. Apesar da premissa um tanto deprê, "Inquietos" é um sensível e delicado drama romântico que não apela para o chororô melodramático. Contado de forma suave, poética e com doses de um bem-vindo e inusitado senso de humor, o filme de Van Sant é, talvez, uma das mais singelas histórias de amor de seu tempo, dotada de uma pureza juvenil cada vez mais rara nesse cínico século XXI.


Embalado pela doce trilha sonora de Danny Elfman, "Inquietos" não é apenas a trágica história de dois jovens que lidam com a morte de maneira estoica (cada um a seu jeito): é principalmente uma ode à vida, uma homenagem aos pequenos momentos, a cada sorriso, a cada toque, a cada pingo de chuva. Apesar de estarem em um momento crucial e devastador de suas vidas, Enoch e Annabel não encontram tempo para lamentos e lágrimas. Jovens e quase pueris em sua paixão, eles preferem utilizar o tempo que lhes resta juntos da maneira mais positiva possível (e nem mesmo planejar seu funeral tira o bom humor da garota, vivida com uma encantadora sutileza por Mia Wasikowska em sua melhor atuação). O romance entre os dois não soa artificial nem urgente, surgindo passo a passo, de maneira gradual e verdadeira e conquista a audiência principalmente por sua inocência, representada de maneira apaixonante por sua dupla central.

Se Mia Wasikowska, apesar da pouca idade, já tinha um currículo respeitável à época do lançamento de "Inquietos" - já havia sido vista em "Alice no País das Maravilhas" e "Minhas Mães e Meu Pai", só para citar os mais conhecidos - o novato Henry Hopper (filho do saudoso Dennis) fez uma auspiciosa estreia na pele do inseguro, tímido e desconfortável Enoch. Dono de traços delicados, o jovem Hopper transmite com facilidade as nuances de sua personagem, ainda que esteja longe de ser um ator admirável (o que ele pode se tornar com o tempo, como demonstra aqui). A química entre os dois é formidável e é difícil não se deixar emocionar com algumas de suas cenas, principalmente devido à naturalidade de suas atuações e a seu final arrebatador (que felizmente abdica das lágrimas fáceis).

"Inquietos" pode até não ser criativo e ousado como os primeiros filmes de Gus Van Sant, mas é um alívio perceber que seus tempos de "Encontrando Forrester" parecem ter ficado definitivamente para trás.

domingo

UM SONHO SEM LIMITES

UM SONHO SEM LIMITES (To die for, 1995, Columbia Pictures Corporation, 106min) Direção: Gus Van Sant. Roteiro: Buck Henry, romance de Joyce Maynard. Fotografia: Eric Alan Edwards. Montagem: Curtiss Clayton. Música: Danny Elfman. Figurino: Beatrix Aruna-Pasztor. Direção de arte/cenários: Missy Stewart/Carol Lavoie. Produção executiva: Joseph M. Caracciolo, Jonathan Taplin. Produção: Laura Ziskin. Elenco: Nicole Kidman, Matt Dillon, Joaquin Phoenix, Casey Affleck, Illeana Douglas, Dan Hedaya, Kurtwood Smith, Wayne Knight, Alison Folland. Estreia: 20/5/95 (Festival de Cannes)

Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz Comédia/Musical (Nicole Kidman)

No livro "To die for", de Joyce Maynard, a protagonista - que sonha desesperadamente tornar-se famosa - declara que, se um filme fosse feito a respeito de sua vida, ela gostaria de ser interpretada pela atriz Nicole Kidman (à época do lançamento ainda conhecida mais como a esposa de Tom Cruise do que por seus dotes dramáticos). Coincidência ou destino, anos depois, quando o cineasta Gus Van Sant viu Meg Ryan pular fora da adaptação do romance de Maynard foi Kidman quem o procurou, ávida pela chance de estrelar o filme, por cujo roteiro ela havia se apaixonado perdidamente. Seu assédio a Van Sant funcionou e o Hollywood viu surgir uma estrela de primeira grandeza. Mesmo ignorada pelo Oscar, Nicole abocanhou o Golden Globe de melhor atriz em comédia ou musical, recebeu elogios unânimes da crítica e, pela primeira vez desde que aportou no cinema americano mostrou que era bem mais do que um rosto lindo e um corpo desejável: ela era uma intérprete de verdade.

Vindo do fiasco crítico e comercial de "Até as vaqueiras ficam tristes" (93), um western lésbico estrelado por Uma Thurman, o diretor Gus Van Sant não poderia ter escolhido melhor o material para sua volta ao trabalho. Ácido e momentoso, o romance de Maynard brincava com o culto à celebridade, o desejo irracional por fama a qualquer custo e o desmoronamento da instituição do casamento com um humor delicioso, tom mantido no roteiro enxuto de Buck Henry, que consegue jogar com o suspense, o erotismo, o documentário e a comédia sem nunca embaralhar os gêneros. É crédito também de Henry - e um poucão da atuação de Kidman - conseguir fazer com que o público sinta-se conectado à protagonista apesar de todos os seus pecados e crimes. Poucas vezes o cinema americano mostrou uma personagem central feminina tão amoral, ambiciosa e fria como Suzanne Maretto. E poucas vezes o público ficou tão encantado com uma personagem desse naipe.


Morando na pequena cidade de New Hampshire, Suzanne Stone (uma Kidman loira e perigosa em sua sensualidade latente) tem como maior objetivo da vida ser famosa e sabe o que fazer para realizar seu intento. Em seu caminho para ser a âncora do telejornal local, porém, ela esbarra justamente na única pessoa que deveria estar a seu lado: o marido, Larry (Matt Dillon). Boa-praça e querido por todos, ele é o herdeiro de um pequeno restaurante na cidade, tem uma relação de extremo afeto com a família e é apaixonado pela esposa até o limite da quase cegueira. Com ambições bem menores do que as dela, ele deseja fazer uma reforma em seu negócio, ter filhos e viver uma tranquila e pacata vida de casado. Apavorada com tal possibilidade, Suzanne aproveita que está fazendo um documentário sobre a adolescência para a TV local para seduzir um de seus entrevistados, o rebelde Jimmy Emmett (Joaquin Phoenix), e convencê-lo a tirar Larry da jogada.

Uma femme fatale das mais atrevidas e cínicas, Suzanne Maretto chora cinicamente quando precisa mostrar-se arrasada, usa e abusa do poder de sedução para enlouquecer jovens no auge da testosterona, mente sobre o que for preciso e recorre até ao homicídio para conquistar seus objetivos. Sua absoluta falta de pudor acaba fazendo com que a personagem escape da esfera do trágico para atingir o cômico, o que é um acerto e tanto do roteiro e da direção. Ao dar leveza à trágica história que conta, Van Sant permite ao público um respiro de alívio que, mesmo sendo de viés, o afasta da tensão e do peso. Para isso, ele conta com a interpretação irretocável de Nicole Kidman, que deita e rola em um dos melhores papéis de sua carreira: além de extremamente sexy, ela transmite todas a complexidade da personagem sem nunca cair na caricatura ou no exagero. A seu lado, cabe a Matt Dillon e Joaquin Phoenix pontuar com correção um show de perfeito timing cômico e dramático.

sábado

GAROTOS DE PROGRAMA

GAROTOS DE PROGRAMA (My own private Idaho, 1991, New Line Cinema, 104min) Direção: Gus Van Sant. Roteiro: Gus Van Sant, inspirado livremente em "Henry IV", de William Shakespeare. Fotografia: John Campbell, Eric Alan Edwards. Montagem: Curtiss Clayton. Música: Bill Stafford. Figurino: Beatrix Aruna Pasztor. Direção de arte/cenários: David Brisbin/Melissa Stewart. Produção: Laurie Parker. Elenco: River Phoenix, Keanu Reeves, James Russo, William Richert, Chiara Caselli, Flea, Udo Kier, Grace Zabriskie. Estreia: 12/9/91 (Festival de Toronto)

Quando "Garotos de programa" estreou, no Festival de Toronto de 1991, o diretor Gus Van Sant já era um queridinho do mundo do cinema independente, graças ao sucesso de seu filme de estreia, "Drugstore cowboy", que contava as aventuras de um grupo de jovens viciados em drogas que repunham seu estoque assaltando farmácias. Seu filme seguinte, que misturava três projetos que estavam em seu colo sem conseguir levantar voo, conquistou ainda mais a crítica especializada, levando prêmios por festivais mundo afora (Veneza, Toronto, Deauville) e dando a River Phoenix, um de seus protagonistas, o status de grande ator com que ele acenava desde os tempos de "Conta comigo" (86): na pele do prostituto juvenil e narcoléptico Mike Waters, ele foi eleito o melhor ator do Festival de Veneza e levou o prêmio da Sociedade Nacional de Críticos de Cinema, além do Independent Spirit Award do ano. Não é pouca coisa para quem tinha apenas 20 anos de idade durante as filmagens - e que infelizmente morreu tragicamente aos 23 anos, vítima de overdose.

Não é exagero afirmar que o trabalho de Phoenix - discreto, lúdico e comovente - é a maior qualidade de "Garotos de programa", e o que justifica todo o oba-oba em relação ao filme de Van Sant, um retrato mezzo poetico mezzo pé no chão do dia-a-dia de jovens que vendem o corpo para sobreviver nas ruas de Portland, Oregon. Centrando sua trama em dois personagens com passados bastante distintos mas com realidades muito semelhantes, o roteiro do diretor (livremente inspirado em "Henry IV", de Shakespeare) passeia por cenários diversos (Portland, Idaho e até Roma) para contar a história de busca e tentativa de redenção do jovem Mike (papel de Phoenix, que, inspirado, chegou a reescrever uma cena crucial do filme, com o apoio do diretor), rapaz abandonado pela família, narcoléptico (tem crises irrefreáveis de sono em momentos de stress), gay e apaixonado pelo melhor amigo, que acredita que o reencontro com a mãe mudará seu destino. Ele conta com o apoio de Scott Favor (Keanu Reeves), filho de família influente que tornou-se michê como forma de afrontar ao pai - afronta esta que tem data limite para expirar - e insiste em declarar-se heterossexual. Os dois partem em uma odisseia passional, sem lenço nem documento, contando apenas com sua juventude e seus corpos como forma de ganhar dinheiro.


A trama de "Garotos de programa" beira o melodrama barato, com filhos abandonados pela mãe, amores impossíveis, juventude radical contra os convencionalismos arcaicos, mas Van Sant tem o mérito de mesclar com todos esses elementos clássicos uma forma de narrativa criativa e por vezes desconcertante. Em seu universo, capas de revistas direcionadas ao público gay conversam entre si nas bancas onde estão expostas, bêbados de rua declamam Shakespeare e as cenas de sexo são estilizadas a ponto de parecer slides ou fotografias - tanto o ménage-à-trois entre os dois amigos e um milionário alemão vivido pelo sempre bizarro Udo Kier quanto a cena pretensamente tórrida entre Keanu Reeves e uma jovem italiana por quem ele se apaixona, para desespero de Mike, são propositalmente chocantes não pelo que mostram (pouco) mas pela maneira como isso acontece. Essa criatividade de Van Sant é enfatizada constantemente pelos ângulos inusitados de câmera, pelas elipses narrativas que dão ao espectador a mesma sensação de angústia de Mike e pela edição pouco convencional, que borra as fronteiras entre o cinemão comercial americano e o mais puro cinema independente - que pouco depois seria desvirtuado em função de objetivos comerciais até pelo próprio diretor (que se venderia à indústria com filmes com "Gênio indomável" (87)). Essa importância, a de dar voz a um cinema realmente desvinculado dos grandes estúdios americanos, ninguém pode tirar do filme, por mais que ele possa desagradar parte da plateia.

Sem fixar-se em assuntos polêmicos, como a prostituição masculina em si - tornada cômica em determinadas sequências, diretas em outra, mas nunca mostrada como uma condição degradante ou vitimizadora, o que por si só já é um mérito inegável - "Garotos de programa" trata seus personagens com carinho, ainda que por vezes lhes dê uma considerável carga de dramas pessoais para carregar em suas costas frágeis. A interpretação singela de River Phoenix, especialmente, imprime ao filme uma ternura e uma delicadeza que tiram o peso que o tema poderia lhe infligir, carregando-o de poesia e tristeza. O filme de Van Sant pode não ser uma unanimidade por várias razões, mas seu tom melancólico mesmo nos momentos mais leves - somado à atuação de Phoenix e sua coragem em romper com alguns padrões narrativos clássicos - merece ser louvado e respeitado.

terça-feira

MILK, A VOZ DA IGUALDADE

MILK, A VOZ DA IGUALDADE (Milk, 2008, Focus Features, 128min) Direção: Gus Van Sant. Roteiro: Dustin Lance Black. Fotografia: Harris Savides. Montagem: Elliot Graham. Música: Danny Elfman. Figurino: Danny Glicker. Direção de arte/cenários: Bill Groom/Barbara Munch. Produção executiva: Dustin Lance Black, Barbara A. Hall, William Horberg, Michael London, Bruna Papandrea. Produção: Bruce Cohen, Dan Jinks. Elenco: Sean Penn, Josh Brolin, James Franco, Emile Hirsh, Diego Luna, Alison Pill, Dennis O'Hare, Victor Garber. Estreia: 28/10/08

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Gus Van Sant), Ator (Sean Penn), Ator Coadjuvante (Josh Brolin), Roteiro Original, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino
Vencedor de 2 Oscar: Ator (Sean Penn), Roteiro Original 

Já não era novidade o interesse de Hollywood pela história de Harvey Milk, o primeiro homossexual assumido a se eleger para um cargo público - e isso em plenos anos 70, quando a onda conservadora americana estava no auge com acirradas campanhas que tinham como objetivo acabar com todos os direitos gays. No mínimo desde a estreia de "Os tempos de Harvey Milk", premiado com o Oscar de melhor documentário de 1984 havia projetos para contar a inspiradora trajetória do nova-iorquino que, depois dos 40 anos mudou-se para São Francisco e, munido apenas de carisma e de ideias que desafiavam o preconceito velado (ou não) que grassava no poder público, tornou-se um dos maiores símbolos da luta pelos direitos homossexuais. Depois de várias tentativas frustradas - e de atores como Robin Williams, Richard Gere, Daniel Day-Lewis e James Woods ligados a eles - foi Gus Van Sant (também gay assumido e diretor do polêmico "Garotos de programa" no início dos anos 90) quem finalmente acabou levando às telas seu "Milk, a voz da igualdade", um filme que, elogiado unanimemente pela crítica, chegou à corrida do Oscar com moral bastante para sair da cerimônia com duas importantes estatuetas: roteiro original e ator (o segundo da carreira de Sean Penn).

Segundo consta, quando Penn terminou de filmar sua primeira cena de beijo com James Franco (que vive Scott Smith, o grande amor de Milk, personagem para o qual foram testados Chris Evans e Bradley Cooper), mandou uma mensagem de texto para sua ex-mulher - ninguém menos que Madonna, um dos maiores ícones da cultura gay mundial - contando de sua façanha. A resposta da cantora/atriz/diretora foi lacônica (um mero "Parabéns!"), mas de certa forma não deixa de ser surpreendente que um ator como Penn - que a despeito de seu imenso e já fartamente comprovado talento tem um vasto histórico de violência e agressividade que inclusive o mandou para a cadeia no final dos anos 80 - tenha mergulhado tão fundo em um papel tão diferente de tudo que já fez em sua carreira. Sem medo de críticas ou parecer ridículo, ele entrega uma atuação que equilibra com esplêndida suavidade o lado político do personagem com sua vida particular - especificamente dois relacionamentos marcantes por motivos díspares. Até mesmo a afetação de Milk encontra em Penn um intérprete à altura - às vezes chega a ser inacreditável que ele é o mesmo ator que criou o violento Jimmy Marcus de "Sobre meninos e lobos" (que lhe rendeu sua primeira estatueta) e o  corrupto advogado Weinberg de "O pagamento final" (que deu o pontapé inicial na fase de sua carreira onde seu talento deixou de lado sua controversa personalidade).


Mas nem só de Penn sobrevive "Milk, a voz da igualdade". Com base em um roteiro inteligente do jovem Dustin Lance Black (cuja obsessão pela história do protagonista acabou levando-o a assinar o filme como produtor-executivo), Van Sant deixa de lado qualquer tentativa de ser cult ou estiloso para narrar uma história cuja força já é o suficiente para conquistar o espectador. Mesmo que vez ou outra ele demonstre porque já foi considerado o mais criativo dos cineastas independentes americanos - ao mostrar o resultado de um crime homofóbico através do reflexo do corpo da vítima através de um apito, por exemplo - o diretor de obras notáveis como "Um sonho sem limites" e outras execráveis como a desnecessária refilmagem de "Psicose" nunca tenta chamar mais a atenção do que seus personagens e do contexto histórico e social no qual eles transitam. Essa generosidade com seus atores fica nítida quando entram em cena coadjuvantes essenciais à história, como Dan White, político cuja relação profissional com Milk beirava a esquizofrenia e que é defendido por um impecável Josh Brolin, merecidamente indicado ao Oscar da categoria: Brolin, que engatou uma terceira em sua carreira depois de "Onde os fracos não tem vez" (2008), tem um desempenho exemplar, possibilitando ao público um vislumbre de fragilidade e dubiedade por trás de uma figura séria e impoluta. Seu trabalho faz eco a outras atuações bastante eficazes como a do jovem Emile Hirsh, que foi dirigido por Sean Penn em "Na natureza selvagem". Só quem destoa é Diego Luna, que erra em sua composição como um dos namorados de Milk - e cujo desfecho acentua o tom trágico da trama.

No final das contas, "Milk, a voz da igualdade" é um grande filme, independe da orientação sexual do espectador que se deixar envolver. É emocionante, é historicamente interessante - os créditos de abertura, que mostram cenas reais de homens gays sendo presos nos anos 60 e 70 pelo simples fato de serem gays é quase chocante - e importantíssimo em um momento em que figuras públicas lamentáveis vem destilando sua hipocrisia e preconceito em nome da família e da religião. Coisa que o próprio Milk precisou enfrentar quando bateu de frente com a cantora desaplaudida Anita Bryant - fundamentalista cristã - que tornou-se símbolo da luta contra os direitos dos gays: seu discurso de "eu adoro meus amigos gays" enquanto os trata como marginais soa assustadoramente atual. E é também por isso que o filme de Van Sant é imprescindível.

ELEFANTE

ELEFANTE (Elephant, 2003, HBO Films, 81min) Direção e roteiro: Gus Van Sant. Fotografia: Harris Savides. Montagem: Gus Van Sant. Figurino: Marychris Mass. Direção de arte: Benjamin Hayden. Produção executiva: Diane Keaton, Bill Robinson. Produção: Danny Wolf. Elenco: Alex Frost, Eric Deulen, John Robinson, Elias McConnell, Jordan Taylor, Carrie Finklea. Estreia: 18/5/03 (Festival de Cannes)

Vencedor da Palma de Ouro (Festival de Cannes): Melhor Filme e Melhor Diretor (Gus Van Sant)

Uma das mais trágicas tendências entre a adolescência norte-americana no final do século XX dizia respeito a massacres cometidos em escolas secundárias: por motivos às vezes inexplicáveis - e às vezes inacreditáveis em sua simplicidade - alunos invadiam as instituições e abriam fogo contra colegas, funcionários e professores. A mais conhecida dessas tragédias deu origem ao extraordinário documentário "Tiros em Columbine" - que deu a Michael Moore um merecido Oscar - e inspirou "Elefante", com o qual o cineasta Gus Van Sant conquistou a Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2003. Optando por um viés fictício - e portanto tendo mais liberdade para desenvolver suas ideias a respeito do tema - o diretor (que ficou conhecido por obras polêmicas como "Drugstore cowboy" e "Garotos de programa" mas enfrentou um período de pouca criatividade em Hollywood, comandando filmes quadradinhos como "Gênio indomável") mostra os bastidores do desastre, acompanhando, através de uma edição inteligente, a manhã de um grupo de estudantes que (com exceção dos perpetradores da barbárie) não tinham a menor ideia de que estavam vivendo seus últimos momentos de vida.

Em sua narrativa fragmentada, "Elefante" - cujo título se refere, segundo o cineasta, aos problemas óbvios que as pessoas insistem em ignorar - lembra os melhores momentos de Van Sant. Fotografado em tons naturalistas por Harris Savides, o filme assume um tom semi-documental, enquanto apresenta - sem apelar para os tradicionais clichês - um retrato nada agradável e nem um pouco saudável da juventude ianque. Enquanto os "vilões" são mostrados de forma isenta de julgamentos, suas vítimas assumem papéis nada lisonjeiros. O diretor e roteirista aponta sua câmera para nerds, jovens bulímicas e para um casal apaixonado como uma testemunha silenciosa de um grupo desfuncional de estudantes, perdidos em suas ambições e sonhos. A edição (também a cargo de Van Sant) é essencial nessa proposta, encaixando todas as suas peças como um enorme quebra-cabeças, onde a imagem final - a tragédia - faz todo o sentido do mundo.



Batizando suas personagens com os mesmos nomes de seus atores, o roteiro também aproxima o público de seus pensamentos mais tenebrosos, fazendo as vezes de confessor involuntário. São as câmeras de Van Sant que registram, de forma despojada a ponto de parecer desleixo, conversas aparentemente banais que desvendam a falta de consciência social e a quase futilidade da adolescência americana. Mesmo que force a barra em alguns momentos - o beijo gay entre os protagonistas é absolutamente desnecessário - "Elefante" é um documento forte e interessante de uma das mais assustadoras faces da juventude dos EUA. É diferente, é surpreendente e é quase incômodo. Mas é um grande filme.

quarta-feira

GÊNIO INDOMÁVEL

GÊNIO INDOMÁVEL (Good Will Hunting, 1997, Miramax Films, 126min) Direção: Gus Van Sant. Roteiro: Matt Damon, Ben Affleck. Fotografia: Jean Yves Escoffier. Montagem: Pietro Scalia. Música: Danny Elfman. Figurino: Beatrix Aruna Pasztor. Direção de arte/cenários: Melissa Stewart/Jaro Dick. Produção executiva: Su Armstrong, Jonathan Gordon, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Lawrence Bender. Elenco: Matt Damon, Robin Williams, Minnie Driver, Stellan Skarsgard, Ben Affleck, Casey Affleck, Cole Hauser. Estreia: 05/12/97

9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Gus Van Sant), Ator (Matt Damon), Ator Coadjuvante (Robin Williams), Roteiro Original, Montagem, Trilha Sonora Original/Drama, Canção ("Miss Misery")
Vencedor de 2 Oscar: Ator Coadjuvante (Robin Williams), Roteiro Original
Vencedor do Golden Globe de Melhor Roteiro
Vencedor do SAG Awards de Ator Coadjuvante (Robin Williams)

De vez em quando, Hollywood lembra que o público, tão prestimoso em correr às salas exibidoras para testemunhar cenas de ação e violência aos borbotões, também gosta de acompanhar histórias delicadas sobre gente normal cuja maior missão - ao invés de salvar o mundo de uma ameaça terrorista - é definir os rumos que sua vida pessoal irá tomar em relação ao futuro. E é sobre  pessoas normais, comuns, quase invisíveis que trata "Gênio indomável", uma das maiores surpresas da temporada 1997. Escrito por Matt Damon e Ben Affleck, dois atores até então desconhecidos e com pouco mais de 20 anos (que o escreveram como forma de fazer acontecer suas carreiras), o drama produzido pela Miramax Films - o maior fabricante de oscarizáveis da década - é um típico produto feito para encantar os eleitores da Academia e o público adulto fã de boas histórias. Não é inesquecível, mas cumpre muito bem o que promete.

Dando início a uma carreira bem-sucedida, Matt Damon - que concorreu ao Oscar contra veteranos do porte de Dustin Hoffman e Jack Nicholson em uma atuação contida mas muito convincente - vive o protagonista, Will Hunting, um jovem desajustado que, vítima de lares adotivos desfuncionais, expressa toda sua raiva em brigas de rua com seu grupo de amigos. Figurinha fácil nas ocorrências policiais, ele é salvo de ficar na cadeia por Gerald Lambeau (Stelan Skarsgaard), um professor de matemática premiado com medalhas de honra por seu talento. Impressionado com a inteligência extraordinária de Hunting - que trabalha como faxineiro na instituição mas é capaz de resolver os mais complexos problemas matemáticos -  Lambeau se compromete diante do juiz a ajudar o rapaz a encontrar um caminho mais saudável na vida. Para isso, ele conta com a ajuda de Sean Maguire (Robin Williams), um terapeuta que conhece desde a juventude. Viúvo e recluso, Sean tenta fazer com que Will aprenda a lidar com sua fúria inerente e a direcione para uma vida menos sofrida e mais realizada, deixando de lado seus traumas de infância.  Enquanto isso, Will começa a se envolver com a doce Skylar (Minnie Driver), uma jovem estudante de Medicina que tenta romper a barreira emocional que o rodeia.



O roteiro de Damon e Affleck - vencedor de um Oscar questionável, uma vez que o disputou com "Boogie Nights" e "Melhor é Impossível" - não tenta ser espetacular. É redondo, é simples e, acima de tudo, é humano. Mesmo que esbarre em soluções um tanto fáceis e exagere na genialidade de seu protagonista, é um filme que prescinde de elementos outros além de diálogos e atores. Os diálogos são fluentes, inocentes (nas relações entre Will e seus amigos) e por vezes bastante interessantes (como nas cenas entre o protagonista e Sean). Nunca chegam a ser brilhantes, mas são muito superiores à média. E além de tudo, a trama paralela, que envolve a rivalidade entre Lambeau e Maguire é tão poderosa quanto a história principal, graças principalmente às atuações de Stelan Skarsgaard e Robin Williams, o último mais uma vez emprestando um carisma gigantesco a uma personagem - e que lhe rendeu um carinhoso Oscar de ator coadjuvante.

A Academia, aliás, rendeu-se incondicionalmente a "Gênio indomável". Indicado a 9 Oscar - inclusive filme, direção e uma inexplicável lembrança para Minnie Driver como coadjuvante feminina - e premiado com 2 estatuetas (além de Williams o roteiro também foi contemplado), o filme deu ao até então outsider Gus Van Sant a legitimização da indústria. Logicamente, a ousadia presente em filmes como "Drugstore Cowboy" e "Garotos de programa" nem passa perto desse seu filme família, o que incomodou profundamente seus fãs - que ainda teriam que aguentar seu desnecessário remake de "Psicose" e o ultra-meloso "Procurando Forrester". A direção de "Gênio indomável" é quase burocrática, nada inventiva e muito menos corajosa (em sua defesa é preciso dizer que o roteiro também não ajuda nesse quesito...), mas é elegante e dotada de um belo ritmo, além de não atrapalhar no desenvolvimento da história. É um trabalho apenas correto, que não justifica sua indicação ao Oscar (principalmente se levarmos em conta que Paul Thomas Anderson, de "Boogie nights", ficou de fora na categoria).

Enfim, não é preciso ter um cérebro privilegiado para perceber, em "Gênio indomável", uma profusão de clichês. Porém, da forma como colocados pelos roteiristas e pelo experiente Van Sant, eles soam não como lugares-comuns que incomodam e constrangem. Muito pelo contrário, os clichês de certa forma dão unidade ao filme, são como uma espécie de abrigo contra criatividades exageradas. "Gênio indomável" é caloroso, terno e honesto. É um belo conto sobre pessoas corajosas que lutam pelo direito a transformar o seu destino. E por isso emociona tanta gente.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...