FAHRENHEIT 451 (Fahrenheit 451, 1966, Anglo Enterprises, 112min) Direção: François Truffaut. Roteiro: François Truffaut, Jean-Louis Richard, romance de Ray Bradbury. Fotografia: Nicolas Roeg. Montagem: Thom Noble. Música: Bernard Herrmann. Figurino: Tony Walton. Direção de arte/cenários: Syd Cain. Produção executiva: Miriam Brickman. Produção: Lewis M. Allen. Elenco: Oskar Werner, Julie Christie, Cyril Cusack, Anton Diffring. Estreia: 07/9/66 (Festival de Veneza)
Em 1953, o escritor Ray Bradbury imaginou um futuro distópico onde livros seriam proibidos pelo governo e incinerados pelos bombeiros, impedindo a população a ter acesso a qualquer palavra escrita. Alguns anos mais tarde, seu romance, batizado de "Fahrenheit 451" - em teoria, a temperatura necessária para a combustão das publicações - chegou às mãos do francês François Truffaut, notoriamente avesso a ficções científicas, e transformou completamente a opinião do célebre cineasta. Apaixonado pelo conceito da trama concebida por Bradbury e certo de que poderia fazer dela um filme memorável, Truffaut passou os próximos seis anos em busca de financiamento para o projeto. Nascia então seu primeiro - e único - filme falado em inglês. Lançado no Festival de Veneza de 1966, "Fahrenheit 451" é um clássico por excelência: inteligente, perturbador e emocionante, se mantém como uma crítica feroz ao totalitarismo ao mesmo tempo que convida o público a uma poética homenagem à literatura e seu poder transformador.
Antes de chegar às telas, porém, "Fahrenheit 451" mostrou-se um desafio dos mais trabalhosos para o inveterado cinéfilo, colaborador assíduo do prestigioso "Cahièrs du Cinéma" e já consagrado por filmes como "Os incompreendidos" (59) e "Jules e Jim: uma mulher para dois" (62). Não apenas o financiamento demorava a sair, mas também seu elenco dos sonhos parecia impossível de escalar. Para os dois principais papéis femininos, por exemplo, Truffaut queria a francesa Jean Seberg e a americana Tippi Hedren, mas viu seu desejo frustrado em dose dupla: Hedren estava ocupada com Alfred Hitchcock e Seberg (estrela do seminal "Acossado", de Jean-Luc Godard) foi considerada um nome pouco comercial pelos produtores. Nem mesmo Jane Fonda acertou sua participação e a contratação de Julie Christie para ambos os papéis (pela metade do cachê cobrado então pela atriz), ao contrário de ajudar, só complicou ainda mais a situação: sua presença causou a defecção do ator Terence Stamp - escolhido para interpretar o protagonista, Montag. Ex-namorado de Christie, o ator inglês não ficou confortável com a ideia de trabalhar com ela - especialmente quando havia a forte possibilidade de, fazendo dois personagens em cena, a bela Christie roubar a atenção. O resultado foi uma tremenda dor de cabeça aos produtores, que passaram a cogitar nomes tão diversos quanto Montgomery Clift, Marlon Brando, Paul Newman, Jean-Paul Belmondo, Charles Aznavour e Peter O'Toole - até que Truffaut finalmente bateu o martelo com Oskar Werner... e se arrependeu amargamente.
Não foi a primeira vez que cineasta e ator trabalharam juntos - ambos foram parte fundamental do sucesso de "Jules e Jim". Mas certamente Truffaut jamais imaginaria que a parceria outrora tão feliz se tornaria motivo de tanto desgosto. Com visões completamente opostas a respeito da forma como retratar o bombeiro Montag - personagem principal e que serve de ponte entre o filme e o público -, diretor e ator entraram em frequente rota de colisão durante as filmagens, e o próprio Truffaut declarou posteriormente que só não chegou a ponto de desistir do projeto devido à sua paixão pela história e pelo tempo que havia gasto na pré-produção. A situação ficou tão delicada que os dois chegaram a ficar sem dirigir a palavra um ao outro durante as duas últimas semanas de trabalho - some-se a isso uma crise nervosa de Julie Christie e as dificuldades do diretor em comunicar-se em inglês enquanto trabalhava em Londres e chega a ser quase um milagre que "Fahrenheit 451" tenha sido completado - e indo ainda mais longe, tenha ficado tão bom. Com o roteiro escrito em inglês por Truffaut e Jean-Louis Richard (que não dominavam o idioma e não ficaram totalmente satisfeitos com o resultado final), a adaptação do romance de Bradbury acerta em todos os aspectos - como cinema, como crítica social e como transposição de uma obra literária para as telas.
A criatividade de Truffaut começa já nos créditos de abertura: uma vez que no universo proposto pelo roteiro a leitura é algo proibido, não há letreiros e sim uma narração em off apresentando o elenco e a equipe técnica. Logo em seguida, o público passa a conhecer uma sociedade opressiva e totalitária, onde a população vive à mercê de um governo que proíbe o consumo de livros - e incentiva as denúncias contra aqueles que desafiam as leis. Nesse universo quase asséptico intelectualmente, a única função do corpo de bombeiros é justamente incinerar todos os livros descobertos e impedir que outros meios de comunicação senão a televisão sejam acessíveis como meio de informação. O protagonista, vivido por Oskar Werner, é Guy Montag, um desses bombeiros, um profissional dedicado e à espera de uma promoção que está em vias de chegar. E é justamente nesse ponto de sua carreira que Montag é surpreendido por um novo sentimento: fascinado pela bela Clarisse (Julie Christie), ele se vê subitamente curioso em conhecer o prazer da leitura, para desespero de sua mulher, a fútil Linda (também Christie). Tentado a mergulhar cada vez mais em um novo ambiente (onde o livre-pensar é uma realidade e o idealismo intelectual é capaz de forjar mártires orgulhosos), Montag descobre que seus fechados horizontes podem transformar-se em infinitas possibilidades - mas, para isso, precisa escolher entre a vida que leva e os perigos do não-conformismo.
Visualmente interessante - ainda que pareça um tanto datado - e contado em ritmo fluido e envolvente, "Fahrenheit 451" é uma obra-prima. Nem mesmo os embates dos bastidores foi capaz de minar o que há de mais brilhante no filme: sua mensagem de amor à liberdade e à literatura. Um pouco incômoda em seus momentos iniciais - até que a plateia finalmente compreenda exatamente o que está acontecendo - e fascinante em seu terço final, quando Montag descobre um novo caminho para sua vida, a obra de Truffaut sobrevive ao tempo como uma das mais importantes ficções científicas do cinema moderno (mesmo que abra mão de alguns elementos icônicos do gênero, como a violência e os efeitos visuais abundantes, que transformariam os filmes das décadas seguintes mais e mais parecidos com videogames do que com cinema). Felizmente a ideia de Mel Gibson em refilmá-lo não vingou: dificilmente alguém seria capaz de ser tão competente em transmitir as ideias do romance de Bradbury do que Truffaut foi em seu único filme em língua inglesa.
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domingo
quinta-feira
COMO CONQUISTAR AS MULHERES
COMO CONQUISTAR AS MULHERES (Alfie, 1966, Sheldrake Films, 114min)
Direção: Lewis Gilbert. Roteiro: Bill Naughton, peça teatral "Alfie",
de sua autoria. Fotografia: Otto Heller. Montagem: Thelma Connell.
Música: Sonny Rollins. Direção de arte: Peter Mullins. Produção: Lewis
Gilbert. Elenco: Michael Caine, Shelley Winters, Millicent Martin, Julia
Foster, Jane Asher, Shirley Anne Field, Vivien Merchant. Estreia:
29/3/66
5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Michael Caine), Atriz Coadjuvante (Vivien Merchant), Roteiro Adaptado, Canção Original ("Alfie")
Em 1966, alguns assuntos ainda eram tabu no cinema, apesar dos ares mais progressistas que a década do amor livre havia apresentado ao mundo. Hollywood, por exemplo, ainda engatinhava em questões mais relevantes socialmente e o público ainda se chocava com os agressivos diálogos de Edward Albee que transformaram "Quem tem medo de Virginia Woolf?" em um dos mais surpreendentes sucessos de público e crítica do ano. Assim como a adaptação do então estreante Mike Nichols não tinha papas na língua para tocar em temas controversos, outro filme com origem nos palcos chegava à festa do Oscar amparado em um roteiro ousado e que não deixava pedra sobre pedra ao levar para as telas um protagonista tão francamente cafajeste que não deixava outra opção à plateia senão compreendê-lo e, em última instância, simpatizar com ele. Era Alfie Elkins, o mecânico sedutor que, na pele de Michael Caine, transformou "Como conquistar as mulheres" em um dos maiores êxitos do cinema inglês da década. Indicado a cinco Oscar - incluindo melhor filme e ator - a comédia dramática dirigida por Lewis Gilbert marcou época por sua mistura de coragem, cinismo e uma certa melancolia, equilibrados em um roteiro que também quebrava paradigmas narrativos, como a quebra da quarta parede, que fazia com que o protagonista falasse diretamente com o espectador - um artifício que ajudava a aproximar público e personagem.
Interpretado por um Michael Caine que herdou o papel de seu amigo pessoal Terence Stamp - que recusou-se a retornar ao personagem que havia defendido nos palcos - Alfie Elkins é, indubitavelmente, um canalha irrecuperável. A forma com que Caine o representa, no entanto, ameniza a antipatia que a plateia poderia sentir por ele: exalando um charme abjeto, o ator inglês, em seu primeiro grande papel, desfila pela tela fazendo comentários sexistas e pouco elogiosos às mulheres - o que, no mínimo, enfatiza a ironia do título em português. Com um texto ácido e contundente, cortesia do dramaturgo Bill Naughton adaptando sua própria peça de teatro, "Como conquistar as mulheres" oferece à Caine um personagem repleto de nuances que vão se revelando aos poucos, chegando até o melancólico discurso final que justifica sua indicação ao Oscar de melhor ator. Já nessa época apostando na sutileza e na elegância como pilares de interpretações vitoriosas, Michael Caine acerta o tom em todas as cenas, indo da ironia à tristeza, da arrogância à sedução e agressividade ao carinho em questão de segundos. É um trabalho de mestre que valoriza cada momento - mérito também do diretor Lewis Gilbert, que, à época, ainda não havia comandado as três aventuras de James Bond que lhe dariam fama em seguida - "Com 007 só se vive duas vezes" (67), "O espião que me amava" (77) e "007 contra o foguete da morte" (79) - e que voltaria a adaptar um texto teatral para o cinema em 1988, com "Shirley Valentine", que deu à Pauline Collins uma indicação ao Oscar de melhor atriz.
O filme acompanha de perto as aventuras amorosas de Alfie, um mecânico metido à Don Juan que não hesita em seduzir qualquer espécime feminino que cruze seu caminho. Logo de cara, o público conhece Siddie (Millicent Martin), uma mulher casada com quem ele acaba de terminar seu caso. Deixando claro sua ojeriza a compromissos, ele vive um relacionamento aberto com Gilda (Julia Foster), que aceita os termos da relação até engravidar, ter um filho dele e perceber que deseja formar uma família nos moldes tradicionais - o que inclui um casamento que ele não quer lhe oferecer. Um problema de saúde o leva a uma clínica de repouso, onde ele simultaneamente seduz uma enfermeira e a honrada Lily (Vivian Merchant, indicada ao Oscar de atriz coadjuvante), esposa de um de seus colegas de enfermaria. É Lily e uma gravidez inesperada que serão os catalisadores de uma mudança de perspectiva em Alfie - o aborto da amante o leva a repensar seu modo de vida e ele se aproxima, então, da ricaça americana Ruby (Shelley Winters), que lhe dará mais uma grande lição de vida.
Nitidamente sessentista, o visual de "Como conquistar as mulheres" dialoga com perfeição com o tom naturalista/moderno proposto por Gilbert, que explora sempre que possível os espaços abertos de uma Londres em plena revolução sexual e de costumes. Quando o clima fica mais pesado, no terço final do filme, a fotografia de Otto Heller acompanha a descida da alma de Alfie à tristeza e ao desespero - em especial na dolorosa cena em que ele finalmente toma consciência dos seus atos. A trilha sonora vibrante - que inclui a famosa versão da canção-título na voz de Cher - também tem sua importância no panorama geral criado pelo diretor, um quadro vívido e pulsante de um estilo de vida que, com o passar dos anos, tornou-se tão ou ainda mais cruel - basta lembrar que, quase quarenta anos depois de seu lançamento, em 2004, o texto voltou quase literal às telas de cinema em uma versão dirigida por Charles Shyer e estrelada por Jude Law - que criou um Alfie mais charmoso e menos cruel, mas igualmente de conduta questionável. Um sinal da coragem do original é que quase nada precisou ser mudado na transposição para o século XXI. Pode ser chocante ou desagradável para uma comédia, mas "Como conquistar as mulheres" é, sem dúvida, ousado e muito atual, especialmente em um mundo tão antenado às conquistas femininas.
5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Michael Caine), Atriz Coadjuvante (Vivien Merchant), Roteiro Adaptado, Canção Original ("Alfie")
Em 1966, alguns assuntos ainda eram tabu no cinema, apesar dos ares mais progressistas que a década do amor livre havia apresentado ao mundo. Hollywood, por exemplo, ainda engatinhava em questões mais relevantes socialmente e o público ainda se chocava com os agressivos diálogos de Edward Albee que transformaram "Quem tem medo de Virginia Woolf?" em um dos mais surpreendentes sucessos de público e crítica do ano. Assim como a adaptação do então estreante Mike Nichols não tinha papas na língua para tocar em temas controversos, outro filme com origem nos palcos chegava à festa do Oscar amparado em um roteiro ousado e que não deixava pedra sobre pedra ao levar para as telas um protagonista tão francamente cafajeste que não deixava outra opção à plateia senão compreendê-lo e, em última instância, simpatizar com ele. Era Alfie Elkins, o mecânico sedutor que, na pele de Michael Caine, transformou "Como conquistar as mulheres" em um dos maiores êxitos do cinema inglês da década. Indicado a cinco Oscar - incluindo melhor filme e ator - a comédia dramática dirigida por Lewis Gilbert marcou época por sua mistura de coragem, cinismo e uma certa melancolia, equilibrados em um roteiro que também quebrava paradigmas narrativos, como a quebra da quarta parede, que fazia com que o protagonista falasse diretamente com o espectador - um artifício que ajudava a aproximar público e personagem.
Interpretado por um Michael Caine que herdou o papel de seu amigo pessoal Terence Stamp - que recusou-se a retornar ao personagem que havia defendido nos palcos - Alfie Elkins é, indubitavelmente, um canalha irrecuperável. A forma com que Caine o representa, no entanto, ameniza a antipatia que a plateia poderia sentir por ele: exalando um charme abjeto, o ator inglês, em seu primeiro grande papel, desfila pela tela fazendo comentários sexistas e pouco elogiosos às mulheres - o que, no mínimo, enfatiza a ironia do título em português. Com um texto ácido e contundente, cortesia do dramaturgo Bill Naughton adaptando sua própria peça de teatro, "Como conquistar as mulheres" oferece à Caine um personagem repleto de nuances que vão se revelando aos poucos, chegando até o melancólico discurso final que justifica sua indicação ao Oscar de melhor ator. Já nessa época apostando na sutileza e na elegância como pilares de interpretações vitoriosas, Michael Caine acerta o tom em todas as cenas, indo da ironia à tristeza, da arrogância à sedução e agressividade ao carinho em questão de segundos. É um trabalho de mestre que valoriza cada momento - mérito também do diretor Lewis Gilbert, que, à época, ainda não havia comandado as três aventuras de James Bond que lhe dariam fama em seguida - "Com 007 só se vive duas vezes" (67), "O espião que me amava" (77) e "007 contra o foguete da morte" (79) - e que voltaria a adaptar um texto teatral para o cinema em 1988, com "Shirley Valentine", que deu à Pauline Collins uma indicação ao Oscar de melhor atriz.
O filme acompanha de perto as aventuras amorosas de Alfie, um mecânico metido à Don Juan que não hesita em seduzir qualquer espécime feminino que cruze seu caminho. Logo de cara, o público conhece Siddie (Millicent Martin), uma mulher casada com quem ele acaba de terminar seu caso. Deixando claro sua ojeriza a compromissos, ele vive um relacionamento aberto com Gilda (Julia Foster), que aceita os termos da relação até engravidar, ter um filho dele e perceber que deseja formar uma família nos moldes tradicionais - o que inclui um casamento que ele não quer lhe oferecer. Um problema de saúde o leva a uma clínica de repouso, onde ele simultaneamente seduz uma enfermeira e a honrada Lily (Vivian Merchant, indicada ao Oscar de atriz coadjuvante), esposa de um de seus colegas de enfermaria. É Lily e uma gravidez inesperada que serão os catalisadores de uma mudança de perspectiva em Alfie - o aborto da amante o leva a repensar seu modo de vida e ele se aproxima, então, da ricaça americana Ruby (Shelley Winters), que lhe dará mais uma grande lição de vida.
Nitidamente sessentista, o visual de "Como conquistar as mulheres" dialoga com perfeição com o tom naturalista/moderno proposto por Gilbert, que explora sempre que possível os espaços abertos de uma Londres em plena revolução sexual e de costumes. Quando o clima fica mais pesado, no terço final do filme, a fotografia de Otto Heller acompanha a descida da alma de Alfie à tristeza e ao desespero - em especial na dolorosa cena em que ele finalmente toma consciência dos seus atos. A trilha sonora vibrante - que inclui a famosa versão da canção-título na voz de Cher - também tem sua importância no panorama geral criado pelo diretor, um quadro vívido e pulsante de um estilo de vida que, com o passar dos anos, tornou-se tão ou ainda mais cruel - basta lembrar que, quase quarenta anos depois de seu lançamento, em 2004, o texto voltou quase literal às telas de cinema em uma versão dirigida por Charles Shyer e estrelada por Jude Law - que criou um Alfie mais charmoso e menos cruel, mas igualmente de conduta questionável. Um sinal da coragem do original é que quase nada precisou ser mudado na transposição para o século XXI. Pode ser chocante ou desagradável para uma comédia, mas "Como conquistar as mulheres" é, sem dúvida, ousado e muito atual, especialmente em um mundo tão antenado às conquistas femininas.
quarta-feira
QUEM TEM MEDO DE VIRGINIA WOOLF?
QUEM TEM MEDO DE VIRGINIA WOOLF? (Who's afraid of Virginia Woolf?, 1966, Warner Bros, 131min) Direção: Mike Nichols. Roteiro: Ernest Lehman, peça teatral de Edward Albee. Fotografia: Haskel Wexler. Montagem: Sam O'Steen. Música: Alex North. Figurino: Irene Sharaff. Direção de Arte/Cenários: Richard Sylbert/George James Hopkins. Produção: Ernest Lehman. Elenco: Elizabeth Taylor, Richard Burton, George Segal, Sandy Dennis. Estreia: 21/6/66
13 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Mike Nichols), Ator (Richard Burton), Atriz (Elizabeth Taylor), Ator Coadjuvante (George Segal), Atriz Coadjuvante (Sandy Dennis), Roteiro Adaptado, Fotografia em P&B, Montagem,Trilha Sonora Original, Figurino em P&B, Direção em Arte/Cenários em P&B, Som
Vencedor de 5 Oscar: Melhor Atriz (Elizabeth Taylor), Atriz Coadjuvante (Sandy Dennis), Fotografia em P&B, Figurino em P&B, Direção de Arte/Cenários em P&B
Quando se diz que um filme arrebatou 13 indicações ao Oscar a primeira imagem que vem à cabeça é de uma superprodução épica, ao estilo "Lawrence da Arábia" e "...E o vento levou", com centenas de figurantes, efeitos visuais revolucionários e histórias maiores que a vida. Uma prova da falácia desse pensamento é "Quem tem medo de Virginia Woolf?", adaptação da peça teatral de Edward Albee que chegou à cerimônia de entrega do Oscar aos melhores de 1966 cheio de moral e repleto de possibilidades de vitória. Intimista e preocupado exclusivamente com a psicologia dos personagens, o filme de estreia de Mike Nichols quebrou paradigmas sociais e até mesmo de classificação etária junto ao público norte-americano: foi ele quem inaugurou o que posteriormente o selo NC-17, que estipula que menores de 17 anos só podem entrar nas salas de exibição acompanhados de um responsável.
Exagero? Talvez hoje em dia, estando o público acostumado com uma dieta de produções onde a vulgaridade é moeda corrente. Em 1966, porém, a história era bem outra. Ainda sofrendo com as restrições temáticas impostas pelo famigerado Código Hayes, o cinema americano raramente tratava de assuntos considerados tabus, como adultério - principalmente quando o tema era tratado de forma tão rude e agressiva quanto no texto de Albee, que usa e abusa de termos chulos e apresenta como protagonistas um casal de meia-idade a anos-luz de distância do que se convencionava no cinemão de então. Interpretados pelo então casal de verdade Elizabeth Taylor e Richard Burton em seu quarto trabalho juntos, Martha e George são assustadoramente reais e o retrato mais chocante de uma relação doentia.
Depois de uma reunião social em um sábado à noite, o casal Martha e George recebe, em sua casa, os jovens Nick (George Segal em papel recusado por Robert Redford) e Honey (Sandy Dennis). Nick é um ambicioso professor de Biologia por quem Martha nutre uma forte atração e aos poucos começa a perceber que seus anfitriões tem uma maneira muito particular de convivência: professor de História na universidade onde o pai de Martha é reitor, George mantém com ela uma relação que alterna momentos de enfado com outros de extrema agressividade verbal. Conforme a noite avança e todos vão ficando mais e mais calibrados de álcool, acusações de todos os lados começam a surgir, acompanhadas de ressentimentos e revelações vexaminosas. Quando o filho adolescente do casal torna-se o assunto, então, a truculência atinge seu mais alto grau.
É preciso paciência com "Quem tem medo de Virginia Woolf?". Centrado quase que unicamente nos diálogos fortes e cadenciados de Edward Albee, o filme de Nichols tem um ritmo próprio, intercalando momentos de alta combustão com cenas mais tranquilas, fotografadas em exuberante preto-e-branco por Haskel Wexler que exploram a melancolia de seus personagens. O texto da peça - seguido à risca pelo cineasta, que creditou Ernest Lehman como roteirista mas não utilizou sua adaptação - é a força motriz do filme, fato que não passou incólume a seus intérpretes, que dão corpo e alma em suas atuações. Enquanto Burton está em seu melhor momento da carreira e George Segal constrói seu Nick com a sutileza apropriada, porém, Sandy Dennis força a caricatura com sua Honey, que frequentemente parece carregar nas tintas - não deixa de ser irônico que Dennis tenha levado o Oscar de coadjuvante, enquanto os intérpretes masculinos tenham ficado apenas com indicações.
Mas, se "Virginia Woolf" tem uma cara, ela é Elizabeth Taylor. Mais gorda que o habitual e desprovida da vaidade que a marcaram como uma das mais belas atrizes de Hollywood, ela calou de vez a boca dos detratores - que debitaram seu Oscar por "Disque Butterfiel 8" a seus problemas de saúde - com uma atuação fabulosa como a amarga e bêbada Martha, que não hesita em trair o marido diante de seus olhos e tem como combustível a virulência e a crueldade verbal. Merecedora vencedora do Oscar de melhor atriz Taylor - que recebeu mais de 1 milhão de dólares por seu trabalho - mostrou que, por trás de todas as polêmicas que cercavam sua vida pessoal, ela era uma atriz de primeira grandeza.
13 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Mike Nichols), Ator (Richard Burton), Atriz (Elizabeth Taylor), Ator Coadjuvante (George Segal), Atriz Coadjuvante (Sandy Dennis), Roteiro Adaptado, Fotografia em P&B, Montagem,Trilha Sonora Original, Figurino em P&B, Direção em Arte/Cenários em P&B, Som
Vencedor de 5 Oscar: Melhor Atriz (Elizabeth Taylor), Atriz Coadjuvante (Sandy Dennis), Fotografia em P&B, Figurino em P&B, Direção de Arte/Cenários em P&B
Quando se diz que um filme arrebatou 13 indicações ao Oscar a primeira imagem que vem à cabeça é de uma superprodução épica, ao estilo "Lawrence da Arábia" e "...E o vento levou", com centenas de figurantes, efeitos visuais revolucionários e histórias maiores que a vida. Uma prova da falácia desse pensamento é "Quem tem medo de Virginia Woolf?", adaptação da peça teatral de Edward Albee que chegou à cerimônia de entrega do Oscar aos melhores de 1966 cheio de moral e repleto de possibilidades de vitória. Intimista e preocupado exclusivamente com a psicologia dos personagens, o filme de estreia de Mike Nichols quebrou paradigmas sociais e até mesmo de classificação etária junto ao público norte-americano: foi ele quem inaugurou o que posteriormente o selo NC-17, que estipula que menores de 17 anos só podem entrar nas salas de exibição acompanhados de um responsável.
Exagero? Talvez hoje em dia, estando o público acostumado com uma dieta de produções onde a vulgaridade é moeda corrente. Em 1966, porém, a história era bem outra. Ainda sofrendo com as restrições temáticas impostas pelo famigerado Código Hayes, o cinema americano raramente tratava de assuntos considerados tabus, como adultério - principalmente quando o tema era tratado de forma tão rude e agressiva quanto no texto de Albee, que usa e abusa de termos chulos e apresenta como protagonistas um casal de meia-idade a anos-luz de distância do que se convencionava no cinemão de então. Interpretados pelo então casal de verdade Elizabeth Taylor e Richard Burton em seu quarto trabalho juntos, Martha e George são assustadoramente reais e o retrato mais chocante de uma relação doentia.
Depois de uma reunião social em um sábado à noite, o casal Martha e George recebe, em sua casa, os jovens Nick (George Segal em papel recusado por Robert Redford) e Honey (Sandy Dennis). Nick é um ambicioso professor de Biologia por quem Martha nutre uma forte atração e aos poucos começa a perceber que seus anfitriões tem uma maneira muito particular de convivência: professor de História na universidade onde o pai de Martha é reitor, George mantém com ela uma relação que alterna momentos de enfado com outros de extrema agressividade verbal. Conforme a noite avança e todos vão ficando mais e mais calibrados de álcool, acusações de todos os lados começam a surgir, acompanhadas de ressentimentos e revelações vexaminosas. Quando o filho adolescente do casal torna-se o assunto, então, a truculência atinge seu mais alto grau.
É preciso paciência com "Quem tem medo de Virginia Woolf?". Centrado quase que unicamente nos diálogos fortes e cadenciados de Edward Albee, o filme de Nichols tem um ritmo próprio, intercalando momentos de alta combustão com cenas mais tranquilas, fotografadas em exuberante preto-e-branco por Haskel Wexler que exploram a melancolia de seus personagens. O texto da peça - seguido à risca pelo cineasta, que creditou Ernest Lehman como roteirista mas não utilizou sua adaptação - é a força motriz do filme, fato que não passou incólume a seus intérpretes, que dão corpo e alma em suas atuações. Enquanto Burton está em seu melhor momento da carreira e George Segal constrói seu Nick com a sutileza apropriada, porém, Sandy Dennis força a caricatura com sua Honey, que frequentemente parece carregar nas tintas - não deixa de ser irônico que Dennis tenha levado o Oscar de coadjuvante, enquanto os intérpretes masculinos tenham ficado apenas com indicações.
Mas, se "Virginia Woolf" tem uma cara, ela é Elizabeth Taylor. Mais gorda que o habitual e desprovida da vaidade que a marcaram como uma das mais belas atrizes de Hollywood, ela calou de vez a boca dos detratores - que debitaram seu Oscar por "Disque Butterfiel 8" a seus problemas de saúde - com uma atuação fabulosa como a amarga e bêbada Martha, que não hesita em trair o marido diante de seus olhos e tem como combustível a virulência e a crueldade verbal. Merecedora vencedora do Oscar de melhor atriz Taylor - que recebeu mais de 1 milhão de dólares por seu trabalho - mostrou que, por trás de todas as polêmicas que cercavam sua vida pessoal, ela era uma atriz de primeira grandeza.
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