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sábado

CHOCOLATE


CHOCOLATE (Chocolate, 2000, Miramax, 121min) Direção: Lasse Halstrom. Roteiro: Robert Nelson Jacobs, romance de Joanne Harris. Fotografia: Roger Pratt. Montagem: Andrew Mondshein. Música: Rachel Portman. Figurino: Renée Ehrlich Kalfus. Direção de arte/cenários: David Gropman/Stephenie McMillan. Produção executiva: Alan C. Blomquist, Meryl Poster, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: David Brown, Kit Golden, Leslie Holleran. Elenco: Juliette Binoche, Judi Dench, Johnny Depp, Lena Olin, Alfred Molina, Carrie-Anne Moss, Peter Stormare, Leslie Caron, Victoire Thivisol. Estreia: 15/12/2000

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz (Juliette Binoche), Atriz Coadjuvante (Judi Dench), Roteiro Adaptado, Trilha Sonora Original

 Dentre os indicados ao Oscar de melhor filme do ano de 2000 - com produções aplaudidas pela crítica ("Traffic" e "O tigre e o dragão") e sucessos de bilheteria ("Erin Brockovich: uma mulher de talento" e o grande vencedor, "Gladiador") -, a presença do apenas correto "Chocolate", dirigido pelo sueco Lasse Halstrom, pegou muita gente de surpresa. Porém, não era preciso pensar muito para descobrir os motivos de sua lembrança pelos membros da Academia: com uma campanha agressiva que caracterizava sua produtora, a Miramax (responsável pelo sucesso de "Shakespeare apaixonado" contra o superior "O resgate do soldado Ryan", da temporada 1998), os então todo-poderosos Bob e Harvey Weinstein fizeram de um drama convencional e simpático o candidato da temporada preferido dos mais românticos - e de quebra arrancou ainda indicações importantes, como atriz (Juliette Binoche), atriz coadjuvante (Judi Dench) e roteiro adaptado. Porém, a verdade é que, se não fosse o belo empurrão dos irmãos Weinstein, o filme adaptado do romance de Joanne Harris até poderia encantar o público, mas dificilmente chegaria ao páreo final. Isso não significa, no entanto, que o filme de Halstrom seja medíocre - ele é apenas pouco memorável, apesar da união de enormes talentos.

A trama se passa em uma pequena cidade francesa, em 1959. É lá que chega a misteriosa e sedutora Vianne Rocher (Juliette Binoche), acompanhada de sua pequena filha, Anouk (Victoire Thivisol). As duas chegam às vésperas da Semana Santa com o objetivo de abrir uma chocolateria - e o fato de desafiarem - ainda que inconscientemente - os dogmas religiosos da cidade, esmagadoramente católica e liderada com mão de ferro pelo prefeito, Conde de Reynaud (Alfred Molina), um homem de preceitos morais rígidos e que é assombrado pelo desaparecimento da esposa, anos antes. Espontânea e independente, Vianne divide opiniões na pequena cidade: enquanto boa parte da população segue a opinião equivocada de Reynaud, outros habitantes se deixam seduzir por seus belos e deliciosos chocolates e por seus conselhos - que abalam o até então pacato local. É Vianne, por exemplo, que aproxima sua locatária, Amande Voizin (Judi Dench), de seu neto, mantido afastado por obra de sua filha, Caroline (Carrie-Anne Moss), e incentiva a submissa Josephine Muscat (Lena Olin) a dar um basta em casamento com o abusivo Serge (Peter Stormare). Como se não bastasse tantos problemas, a situação fica ainda pior com a chegada de um grupo de nômades, que reacendem os preconceitos dos moradores. Quando seu líder, Roux (Johnny Depp) se envolve romanticamente com Vianne não é apenas a magia de seus doces que passa a perturbar Reynaud e a parcela conservadora do local: tratados com rispidez e intolerância, resta a eles lutarem por seus direitos ou partir para outra cidade.


 

A atmosfera romântica e lúdica de "Chocolate" é seu maior trunfo: a fotografia suave de Roger Pratt e a trilha sonora de Rachel Portman conduzem o espectador a um universo quase de contos-de-fada, valorizado pela cuidadosa reconstituição de época. A presença de Juliette Binoche - em papel recusado por Gwyneth Paltrow (queridinha dos irmãos Weinstein) - é outro achado do filme: mesmo que não tenha necessitado utilizar-se de todo seu potencial, a atriz francesa oferece ao espectador o carisma necessário para envolver o público em uma trama que, se não apresenta maiores novidades, tampouco decepciona aos fãs do gênero. Explorando com delicadeza o clichê da forasteira misteriosa que altera a dinâmica de uma sociedade conservadora, a trama de Joanne Harris - adaptada por Robert Nelson Jacobs, indicado ao Oscar da categoria - brinda o público com personagens fascinantes (ainda que não devidamente aprofundados) interpretados por atores acima de qualquer crítica. Lena Olin (casada com o diretor Lasse Halstrom) brilha na pele de uma mulher descobrindo sua própria força, soterrada em um casamento tóxico. Alfred Molina exercita sua persona de vilão com um Conde Reynaud com sentimentos escondidos sob uma carcaça insensível. E Judi Dench, excelente como sempre, mereceu sua indicação ao Oscar de atriz coadjuvante como a aparentemente ríspida Amande - que se revela uma mulher ansiando pelo reencontro com a família que lhe foi tirada pela própria filha.

Acertando em colocar o romance entre Vienna e Roux como trama secundária - preferindo focar a relação da doceira com os preconceitos locais em primeiro plano -, "Chocolate" é um filme que, assim como o doce que lhe dá título, oferece conforto e satisfação, ao menos durante as duas horas de sua duração. Mas é inegável que, apesar de ser vendido como uma produção ao estilo europeu, não consegue disfarçar certa superficialidade em seu roteiro e até mesmo na direção quase mecânica de Halstrom - que pouco antes havia brindado os cinéfilos com o doce "Regras da vida" (1999). Esteticamente caprichado e com um elenco de sonhos, "Chocolate" é o filme ideal para quem procura um drama mais leve e com um pé na fantasia - elemento sublinhado pela narração em off, que lhe empresta um tom de fábula apropriado e delicado. Talvez não tenha merecido um lugar entre os melhores filmes de um ano que deu ao mundo "Billy Elliot", "Quase famosos" e "Réquiem para um sonho", mas é difícil não se deixar seduzir pelo menos enquanto dura a sessão.

quarta-feira

CAMILLE CLAUDEL 1915

CAMILLE CLAUDEL 1915 (Camille Claudel 1915, 2013, 3B Productions/Arte France Cinéma, 95min) Direção: Bruno Dumont. Roteiro: Bruno Dumont, cartas de Camille Claudel e Paul Claudel. Fotografia: Guillaume Deffontaines. Montagem: Basile Belkhiri, Bruno Dumont. Figurino: Alexandra Charles, Brigitte Massay-Sersour. Direção de arte: Laurent Dupire-Clément. Produção: Rachid Bouchareb, Jean Bréhat, Muriel Merlin. Elenco: Juliette Binoche, Jean-Luc Vincent, Robert Leroy, Marion Keller, Emmanuel Kauffman. Estreia: 12/02/13 (Festival de Berlim)

Em 1990, Isabelle Adjani concorreu ao Oscar de melhor atriz por seu intenso desempenho em "Camille Claudel", de Bruno Nuytten, onde interpretava com corpo e alma a brilhante escultora francesa que foi aluna e amante de Rodin e que acabou seus dias presa em um sanatório para doentes mentais. O filme também foi indicado na categoria de produção estrangeira e é, até hoje, o poderoso retrato de uma mulher apaixonada por sua arte e por um homem que acabou por ser o responsável por seu declínio. "Camille Claudel 1915", dirigido por Bruno Dumont e lançado no Festival de Berlim de 2013 pode ser considerado - sem que haja demérito nessa afirmação - uma continuação da história contada por Nuytten. Enquanto a produção estrelada por Adjani acabava com sua internação, o filme de Dumont se concentra em um período específico da vida da artista - justamente o inverno de 1915 citado no título - para mostrar sua triste rotina como interna em uma instituição no sul da França. Contando com mais uma arrebatadora atuação de Juliette Binoche, ele pode não ter conseguido a mesma potência dramática no todo, mas seu filme serve para jogar um pouco mais de luz na celebrada figura de Claudel.

Em um filme de momentos, cujo roteiro baseia-se nas cartas escritas por Camille e seu irmão, o poeta Paul Claudel - um dos responsáveis por sua internação - Dumont conduz sua narrativa com uma placidez que contrasta violentamente com o turbilhão emocional da protagonista, pontuando-a com silêncios contemplativos e alguns (poucos) longos diálogos que iluminam muitos dos demônios que afastavam Camille de sua família e do convívio social. Com alto grau de paranoia, a escultora acreditava (hoje sabe-se que não tão erroneamente assim) que Rodin e seus alunos tinham por objetivo apossar-se de sua arte sem dar-lhe o devido crédito e, na tentativa de se fazer ouvir, encontrava resistência no cristianismo exarcebado de seu irmão, que o filme evita de apontar como vilão ou outra vítima da história. Em uma tentativa honesta de mostrar os dois lados da questão, o roteiro de Dumont dá espaço para as dúvidas de Paul Claudel tanto quanto para o desespero de sua irmã. Mas é impossível não sensibilizar-se bem mais com a solidão de Camille.


Com uma interpretação avassaladora, Juliette Binoche transmite, pelo simples olhar, toda uma vasta gama de emoções, em cenas de extrema simplicidade que se transformam, graças a seu talento, em grandes momentos dramáticos. É assim, por exemplo, quando ela esculpe um pássaro com a lama que junta do chão da floresta que circunda sua "prisão" e principalmente quando cai em prantos ao assistir ao ensaio de uma versão amadora - feita por suas colegas de reclusão - de "Don Juan": quando o diálogo que fala de amor e casamento cai em seus ouvidos, é impossível segurar as lágrimas, e com Binoche (e Claudel), o público se comove sem que uma única frase a respeito de sua situação seja dita. Sua explosão emocional - seguida de um acesso de fúria arrepiante - mostra tanto a imensidão da solidão e da tristeza da personagem quanto do talento de sua intérprete, em mais um grande momento da carreira.

Contando com pacientes reais como elenco de apoio - o que explica a sensação palpável de um confinamento em uma instituição psiquiátrica - Bruno Dumont fez de seu "Camille Claudel 1915" uma espécie de documentário dramático, uma homenagem delicada e ao mesmo tempo devastadora a uma das maiores artistas plásticas da história. Pode não ter tido o mesmo impacto do filme estrelado por Isabelle Adjani - também um belo espetáculo - mas merece aplausos pela coragem e sensibilidade. E nunca é perda de tempo testemunhar mais um desempenho irretocável de Juliette Binoche.

segunda-feira

CÓPIA FIEL

CÓPIA FIEL (Copie conforme, 2010, MK2 Productions/Bibi Films/Abbas Kiarostami Productions, 106min) Direção: Abbas Kiarostami. Roteiro: Abbas Kiarostami, colaboração de Caroline Eliacheff. Fotografia: Luca Bigazzi. Montagem: Bahman Kiarostami. Direção de arte: Giancarlo Basili, Ludovica Ferrario. Produção executiva: Claire Dornoy, Marin Karmitz. Produção: Angelo Barbagallo, Charles Gillibert, Marin Karmitz, Nathanael Karmitz, Abbas Kiarostami. Elenco: Juliette Binoche, William Shimell. Estreia: 18/5/10 (Festival de Cannes)

Vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes: Melhor Atriz (Juliette Binoche)

Responsável pela popularização do cinema iraniano no Ocidente, através de filmes incensados como "Close-up" e "Gosto de cereja", Abbas Kiarostami surpreendeu o júri e o público do Festival de Cannes 2010 quando lançou "Cópia fiel" - que saiu com a estatueta de melhor atriz para Juliette Binoche: ao invés de retratar com senso crítico a sociedade de seu país, uma característica marcante de sua filmografia até então, o cineasta voltou sua atenção para uma história minimalista e centrada basicamente em diálogos sobre arte, filosofia e relações familiares, ignorando toda e qualquer referência política de sua obra anterior. O que poderia soar, no entanto, como um aborrecido e pedante exercício verborrágico acaba se tornando, diante dos olhos dos espectadores, um dos mais fascinantes, inteligentes e brilhantes filmes de sua época, graças a uma genial reviravolta em sua metade, que altera toda e qualquer percepção que a plateia porventura tenha experimentado até então. O que antes parecia um "Antes do amanhecer" mais maduro e erudito se transforma em um jogo de espelhos capaz de confundir até ao mais atento cinéfilo.

A princípio, a trama é simples e direta: em plena viagem de lançamento de um livro seu onde lança a teoria de que uma cópia bem feita tem tanto valor quanto uma obra original, o escritor britânico James Miller (o tenor William Shimell, saindo-se muito bem como ator) faz uma palestra na Toscana e aceita o convite da dona de um antiquário para visitá-la no dia seguinte. Bela e inteligente, a anfitriã - francesa, mãe solteira e não exatamente convencida das teorias artísticas do autor - o convence a visitar a região, enquanto discutem a respeito do assunto. Ele mantém-se firme na convicção de que tudo na vida é cópia de algo já existente e ela questiona seu ponto de vista até que chegam em uma pequena vila chamada Lucignano. Confundidos com um casal, eles passam a comportar-se como tal, como uma espécie de cópia de um relacionamento real. Mas será, realmente, que eles estão fingindo?


Sem nunca deixar que a questão principal do filme - o questionamento a respeito do valor de uma cópia perante um produto original - fique esvaziada diante da mudança de rumo da trama, Kiarostami criou um pequeno labirinto emocional, onde os personagens são frequentemente forçados a encarar suas próprias falhas e dúvidas enquanto travam longos e densos diálogos sobre arte e vida. Obrigados também a lidar com outros personagens que cruzam seu caminho - e fornecem pistas ao espectador a respeito da real relação entre eles - o escritor e sua leitora desfilam por belas paisagens italianas, visitam belas obras de arte e chegam a testemunhar uma festiva cerimônia de casamento que aprofunda ainda mais a dubiedade de sua associação: afinal de contas o que se passa entre os dois é um jogo de interpretação? Eles são realmente um casal? Ou já foram? Ou não é nenhuma dessas opções?

Abbas Kiarostami não responde diretamente essa questão crucial de seu filme, deixando nas mãos do espectador a resolução de seu quebra-cabeças - e como em qualquer bom filme, todas as respostas são possíveis, dependendo exclusivamente do ponto de vista de quem assiste. É uma obra-prima em pequena escala, brilhantemente escrita, dirigida e interpretada - Juliette Binoche não está menos do que avassaladora em sua atuação, plenamente merecedora do prêmio de Cannes. Mas, apesar de tudo, não é recomendável a quem prefere blockbusters ou cinemão hollywoodiano.

PARIS, TE AMO

PARIS, TE AMO (Paris, je t'aime, 2006, Victoires International, 120min) Direção: Olivier Assayas, Frédéric Auburtin, Emmanuel Benbihy, Gurinder Chadha, Sylvain Chomet, Ethan Coen, Joel Coen, Isabel Coixet, Wes Craven, Alfonso Cuaron, Gerard Depardieu, Christopher Doyle, Richard LaGravenese, Vincenzo Natali, Alexander Payne, Bruno Podalydès, Walter Salles, Oliver Schmitz, Nobuhiro Suwa, Daniela Thomas, Tom Tykwer, Gus Van Sant. Roteiro: Emmanuel Benbihy, Bruno Polalydès, Paul Mayeda Berges, Gurinder Chada, Gus Van Sant, Joel & Ethan Coen, Walter Salles & Daniella Thomas, Christopher Doyle & Rain Li & Gabrielle Keng, Isabel Coixet, Nobuhiro Suwa, Sylvain Chomet, Alfonso Cuarón, Olivier Assayas, Oliver Schmitz, Richard LaGravenese, Vincenzo Natali, Wes Craven, Tom Tykwer, Gena Rowlands, Alexander Payne & Nadine Eid. Fotografia: Maxime Alexandre, Michel Amathieu, Pierre Aim, Bruno Delbonnel, Eric Gautier, Frank Griebe, Eric Guichard, Jean-Claude Larrieu, Denis Lenoir, Rain Li, Pascal Marti, Tetsuo Nagata, Matthieu-Poirot Delpech, David Quesemand, Pascal Rabaud, Michael Seresin, Gérard Sterin. Montagem: Luc Barnier, Mathilde Bonnefoy, Stan Collet, Simon Jacquet, Anne Klotz, Isabel Meier, Alex Rodriguez, Hisako Suwa. Música: Pierre Adenot, Michael Andrews, Reinhold Heil, Johnny Klimek, Tom Tykwer. Figurino: Olivier Bériot. Direção de arte/cenários: Bettina von den Steinen/Hélène Dubreuil, Sébastien Monteux-Halleur. Produção executiva: Chris Bolzli, Gilles Caussade, Rafi Chaudry, Sam Englebardt, Ara Katz, Maria Kopf, Frank Moss, Chad Troutwine. Produção: Emmanuel Benbihy, Claudie Ossard. Elenco: Gaspard Ulliel, Steve Buscemi, Catalina Sandino Moreno, Miranda Richardson, Sergio Castelitto, Leonor Watling, Javier Camara, Juliette Binoche, Willem Dafoe, Nick Nolte, Maggie Gyllenhaal, Fanny Ardant, Bob Hoskins, Elijah Wood, Emily Mortimer, Olga Kurylenko, Rufus Sewell, Natalie Portman, Gena Rowlands, Ben Gazzarra, Gerard Depardieu, Margo Martindale. Estreia: 18/5/06 (Festival de Cannes)

Que Paris é uma das cidades mais românticas e belas do mundo não há dúvida. Cenário natural de dezenas de filmes - sejam eles franceses, hollywoodianos ou de outros países com menor tradição na indústria do cinema - a cidade-luz teve a sua grande chance de transformar-se de pano de fundo em protagonista em "Paris, te amo", primeiro de uma série que continuou com Nova York e tem no Rio de Janeiro seu terceiro capítulo. Produção coletiva que apresenta uma equipe invejável de cineastas e atores das mais diversas nacionalidades, o filme, como sempre acontece com obras do tipo, é irregular, mas ainda assim tem a seu favor a inventividade, a imprevisibilidade e a delicadeza de todos os segmentos. É impossível não se apaixonar por ele.

Logicamente nem todas as histórias são marcantes, e algumas até mesmo soam bobas, mas é inegável que a maioria esmagadora dos diretores estava em dias inspirados. Diante do espectador desfilam tramas sobre amores perdidos, amores encontrados, vampiros, mímicos, solitários, escritores mortos e todo tipo de gente em busca da felicidade. Fotografado com carinho e um bom-gosto que deixa no espectador uma impressão onírica das mais fascinantes, "Paris, te amo" é, além de tudo, um conjunto de bons roteiros, bons diretores e bons atores, em um conjunto que deixa tudo ainda mais irresistível - em especial em alguns segmentos, que são tão inteligentes e interessantes que poderiam tranquilamente ultrapassar as limitações de um curta.


O primeiro segmento digno de destaque é "Quais de sene", dirigido por Gurinder Chadha, que acompanha o início da relação entre o estudante François (Cyril Descours) e a muçulmana Zarka (Leila Bekhti), em uma história que surpreende por não se deixar cair na armadilha fácil do conflito religioso. "Les Marais", de Gus Van Sant, mostra a tentativa de um jovem (Gaspard Ulliel, de "Eterno amor") em convencer um outro rapaz (Elias McConnell) a lhe telefonar para marcar um encontro. "Tuileuries", dos irmãos Coen - um dos episódios mais visuais e criativos - mostra as desventuras de um turista americano (o ótimo Steve Buscemi) quando encontra, à espera do metrô, um casal francês disfuncional. Os brasileiros Walter Salles e Daniella Thomas acompanham a jovem Ana (Catalina Sandino Moreno) em sua árdua rotina de trabalho como babá no singelo "Loin du 16e". Isabel Coixet se destaca magistralmente com a belíssima história de um homem (Sergio Castelitto) que se apaixona novamente pela esposa (Miranda Richardson) quando descobre que ela está morrendo de câncer. O extraordinário "Place des Victoires", de Nobuhiro Suwa, mostra o desespero de uma mãe (Juliette Binoche) que acaba de perder o filho.

Ainda chamam a atenção os segmento "Tour Eiffel", de Sylvain Chomet, que segue um mímico em seu dia-a-dia com extrema criatividade, "Quartier de La Madeleine", de Vincenzo Natali, que mostra um jovem, vivido por Elijah Wood, se apaixonando pela vampira Olga Kurylenko sob um visual deslumbrante e a história de amor entre um rapaz cego (Melchior Beslon) e uma atriz de cinema (Natalie Portman) contada pelo alemão Tom Tykwer em "Faubourg Saint-Denis" com uma edição ágil e empolgante - sua marca registrada desde o sucesso de "Corra Lola, corra". O episódio final, "14e arrondissement", de Alexander Payne, também merece destaque por, no mínimo, permitir que a sensacional atriz Margo Martindale, sempre coadjuvante, assuma um papel de protagonista e comprove seu enorme talento - mesmo quando está em silêncio.

Mesmo que algumas histórias não sejam tão fascinantes quanto as outras - situação corriqueira em filmes episódicos - "Paris, te amo" tem uma regularidade impressionante, mantendo a plateia deslumbrada desde seus primeiros minutos até seu final quase apoteótico, quando todas as tramas voltam à tela para uma despedida emocionante. É, sem dúvida, uma bela homenagem à grande cidade dos amantes.

quarta-feira

A LIBERDADE É AZUL

A LIBERDADE É AZUL (Trois couleurs: bleu, 1993, MK2 Productions, 98min) Direção: Krysztof Kieslowski. Roteiro: Krysztof Kieslowski, Krysztof Piesiewicz, Fotografia: Slawomir Idziak. Montagem: Jacques Witta. Música: Zbigniew Preisner. Direção de arte/cenários: Claude Lenoir/Lionel Acat, Christian Aubenque, Jean-Pierre Delettre, Julien Poitou-Weber, Marie-Claire Quin. Produção: Marin Karmitz. Elenco: Juliette Binoche, Emmanuelle Riva, Benoit Regent, Charlotte Very. Estreia: 08/9/93

A genial ideia do cineasta polonês Krysztof Kieslowski de criar uma trilogia que ligasse as cores da bandeira francesa aos três temas da Revolução - liberdade, igualdade e fraternidade - não poderia ter tido um início mais alvissareiro. Estrelado pela sempre espetacular Juliette Binoche, "A liberdade é azul" é o mais melancólico e denso da série, oferecendo à audiência um estudo fascinante sobre o livre-arbítrio e o desespero. Parece triste demais, mas sua beleza avassaladora sobrepõe-se à dor.

E dor é a palavra-chave de "A liberdade é azul". Julie (interpretada com uma profundidade encantadora por Binoche) é uma mulher de 33 anos de idade que sofre o maior golpe de sua vida quando perde o marido e a filha pequena em um acidente de carro. Desesperada e sem encontrar nenhum rumo a seguir, ela abandona sua casa no interior da França e vai morar em Paris, onde pretende levar uma vida anônima e sem lembranças de sua antiga felicidade. Seu objetivo de deixar para trás sua existência anterior é atrapalhado, porém, por fragmentos do passado que insistem em retirá-la de seu isolamento auto-imposto. Suas tentativas de manter-se solitária esbarram em seu envolvimento com Olivier (Benoit Regent), músico que sempre escondeu sua paixão por ela, seu encontro com um rapaz que testemunhou o acidente, sua descoberta de um romance extra-conjugal do marido e com sua decisão de retomar a obra musical que ele deixou inacabada com a morte.


Fotografado em um intenso e deslumbrante azul por Slawomir Idziak - cujos tons refletem a atmosfera de sufocamento poético de Julie - o filme de Kieslowski abdica de diálogos explicativos, deixando que suas imagens poderosas transmitam com muito mais eficácia todos os sentimentos conflituosos de sua protagonista - escolha mais do que acertada quando os expressivos olhos de Binoche tomam o primeiro plano da narrativa em detrimento de sequências dramaticamente catárticas exploradas com gritos e choros histéricos. Delicadeza é a principal qualidade da obra do cineasta, que não tem medo em deixar que objetos aparentemente sem função dramática sejam o foco de suas cenas. É assim que um torrão de açúcar mergulhado no café e um muro de pedra tornam-se parte fundamental do objetivo do diretor em emocionar sem apelar para o lacrimoso.

"A liberdade é azul" é uma obra-prima indiscutível, que abre as portas para suas sequências de tons diametralmente opostos - "A igualdade é branca" é irônico e "A fraternidade é vermelha", otimista. É como se Kieslowski - precocemente morto em 1994 - mostrasse todas as facetas do ser humano e da vida em apenas seis horas de duração. Bravíssimo!

segunda-feira

PERDAS E DANOS

PERDAS E DANOS (Damage, 1992, StudioCanal, 111min) Direção: Louis Malle. Roteiro: David Hare, romance de Josephine Hart. Fotografia: Peter Biziou. Montagem: John Bloom. Música: Zbigniew Preisner. Figurino: Milena Canonero. Direção de arte/cenários: Brian Morris/Christopher Turlure. Produção: Louis Malle. Elenco: Jeremy Irons, Juliette Binoche, Miranda Richardson, Rupert Graves, Leslie Caron. Estreia: 09/12/92

Indicado ao Oscar de Atriz Coadjuvante (Miranda Richardson)

"Pessoas feridas são perigosas. Sabem que podem sobreviver." Esse é o lema de Anna Barton, a melancólica personagem de Juliette Binoche em "Perdas e danos", elegante adaptação de Louis Malle do romance de Josephine Hart, com roteiro escrito por David Hare - que dez anos depois seria indicado ao Oscar pelo memorável script de "As horas". Oriunda de uma família marcada pela tragédia, Anna acaba por se tornar o catalisador de outro desastre familiar quando se apaixona pelo homem errado - e com isso confirmar sua tendência à destruição.

Anna é uma jovem funcionária de um antiquário que é também a namorada de Martyn (Rupert Graves), filho de Stephen Fleming (Jeremy Irons), respeitado membro do Parlamento britânico. No momento em que põe os olhos na namorada do filho, Stephen - um homem equilibrado e sensato - perde todos os referenciais rígidos que o havia guiado até então, entregando-se a um romance passional, carnal e desesperado. Sua relação proibida ameaça não apenas o relacionamento entre Anna e Martyn - que se encaminha para um compromisso sério - mas também o casamento harmônico (mas frio) entre Stephen e Ingrid (Miranda Richardson), que percebe na garota uma ameaça assim que a conhece.


Apesar das tórridas cenas de sexo entre Binoche e Jeremy Irons, "Perdas e danos" nunca deixa de ser um filme de enquadramentos clássicos e uma sutileza ímpar - para o que colabora a equipe refinada recrutada por Malle, como a figurinista Milena Canonero e o compositor Zbgniew Preisner. A sofisticação imposta pelo cineasta contrasta com a violência emocional do embate entre Anna e Stephen, duas pessoas de mundo diametralmente opostos que se encontram e tem suas vidas drasticamente modificadas pelo poder dos sentimentos - amor? desejo? atração pura e simples?. Juntos, eles criam um mundo à parte, isolado das conveniências sociais e de seus passados - uma versão menos vulgar de "O último tango em Paris".

Binoche está perfeita em seu misto de inocência, infelicidade e sensualidade, em uma atuação que encontra em Jeremy Irons o par perfeito. Recém saído de sua interpretação premiada com o Oscar em "O reverso da fortuna", Irons transmite com precisão todas as dúvidas e angústias de seu personagem, preso em suas contradições mas incapaz de controlar seus sentimentos, mesmo que isso represente destruir sua família, carreira e reputação. Todas as cenas entre os protagonistas é um espetáculo à parte, um embate entre dois grandes atores em momentos especiais de suas carreiras. E entre eles, o desempenho discreto mas sempre eficientíssimo de Miranda Richardson, uma das atrizes mais subestimadas de sua geração.

Na pele de Ingrid Fleming, uma mulher aristocrática que defende sua família com unhas e dentes, Richardson conquistou uma indicação ao Oscar de atriz coadjuvante - que perdeu para Marisa Tomei por "Meu primo Vinny" em uma das mais inacreditáveis escolhas dos acadêmicos. Seu trabalho excepcional só não é eclipsado por Binoche e Irons porque Malle lhe dá ao menos uma arrasadora cena perto do final, onde ela demonstra, sem sombra de dúvidas, a grande atriz que ela é. Atuando basicamente com o olhar e o corpo até sua catarse final, Richardson é um motivo a mais para que "Perdas e danos" seja visto e revisto.

quinta-feira

O PACIENTE INGLÊS

O PACIENTE INGLÊS (The English patient, 1996, Miramax Films, 162min) Direção: Anthony Minghella. Roteiro: Anthony Minghella, romance de Michael Ondaatje. Fotografia: John Seale. Montagem: Walter Murch. Música: Gabriel Yared. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Stuart Craig/Aurelio Crugnola, Stephenie McMillan. Produção executiva: Scott Greenstein, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Saul Zaentz. Elenco: Ralph Fiennes, Kristin Scott-Thomas, Juliette Binoche, Willem Dafoe, Colin Firth, Naveen Andrews, Jurgen Prochnow. Estreia: 06/11/96

12 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Anthony Minghella), Ator (Ralph Fiennes), Atriz (Kristin Scott-Thomas), Atriz Coadjuvante (Juliette Binoche), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original/Drama, Figurino, Direção de arte/cenários, Som
Vencedor de 9 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Anthony Minghella), Atriz Coadjuvante (Juliette Binoche), Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original/Drama, Figurino, Direção de arte/cenários
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Trilha Sonora Original
Festival de Berlim: Melhor Atriz (Juliette Binoche)

Em 1962, o inglês David Lean viu seu épico histórico "Lawrence da Arábia" sair da cerimônia de entrega do Oscar com sete estatuetas, incluindo as principais - Melhor Filme e Direção. Trinta e quatro anos depois, outro cineasta da terra da rainha promoveu um arrastão na festa da Academia, acumulando nove prêmios (e mais uma vez, entre eles, os de filme e direção). Ao contrário da obra-prima de Lean, no entanto, que narrava a trajetória de um dos mais controversos líderes militares britânicos, o filme de Anthony Minghella concentra-se em uma devastadora história de amor que utiliza a II Guerra Mundial como mero pano de fundo. "O paciente inglês", baseado em um livro considerado infilmável de Michael Ondaatje, é um poderoso drama romântico que não deixou chance para os demais indicados de 1996. E, apesar de muita gente torcer o nariz para suas pretensões épicas - e sua receita para ganhar Oscar - é um filme que mereceu todo o auê que causou.

De produção complicada - inicialmente financiado pelos estúdios Fox e depois encampado pela Miramax e pelo produtor Saul Zaentz - "O paciente inglês" é um filme que foge dos tradicionais romances hollywoodianos ao exigir de seu público um pouco mais de atenção e dedicação do que o normal. Não apenas é mais longo do que o corriqueiro (tem mais de duas horas e meia de duração) mas também tem um ritmo próprio e delicado, além de ser narrado de forma não-linear, o que muitas vezes afugenta à plateia cuja única intenção é ocupar-se em duas horas de entretenimento fácil. No fim das contas, porém, é um romance tipicamente hollywoodiano com um verniz europeu, o que provavelmente ajudou a encantar os eleitores da Academia - e todo o público que fez com que fechasse suas contas no mercado americano com quase 80 milhões de dólares de arrecadação, um sucesso inquestionável, principalmente se levarmos em conta que não tem, em seu elenco, nenhum grande nome da época - a Fox, por exemplo, insistia em Demi Moore no principal papel feminino, desejo esse que, para sorte de todos os envolvidos, nunca foi levado a sério por ninguém.

O filme começa em 1944, na Itália, quando a jovem enfermeira canadense Hana (Juliette Binoche), depois da morte do namorado soldado e de uma de suas colegas de profissão, resolve isolar-se em um castelo abandonado ao lado de seu paciente, um homem desfigurado por queimaduras e que não tem lembrança de seus dias passados. Tido como de nacionalidade inglesa desde que foi resgatado dos destroços de um avião, ele na verdade é um conde húingaro e se chama Almasy (Ralph Fiennes). Enquanto cuida de seu desmemoriado paciente, Hana lida com seus sentimentos em relação a Kip (Naveen Andrews, que anos depois faria sucesso com a série "Lost"), um indiano cuja função é desarmar bombas deixadas pelos inimigos. Se auto-considerando destinada a perder a todos que ama, Hana ainda aceita hospedar em sua villa o misterioso Caravaggio (Willem Dafoe), que tem as respostas sobre a vida pregressa do "paciente inglês". Almasy, na verdade, tem uma trágica história de amor no passado: apaixonado perdidamente por Katharine Clifton (Kristin-Scott Thomas), uma mulher casada, ele envolveu-se, por causa dela, em um jogo de intrigas e mal-entendidos que culminou com sua desoladora morte.

 

Contado em forma de flashbacks que em seu final, monta todo um quebra-cabeças melancólico e desesperado, "O paciente inglês" tem a seu favor o talento de seu diretor Anthony Minghella em criar sequências de invulgar beleza: em vários momentos sua câmera deixa a plateia com a respiração suspensa, tamanha sua sensibilidade. É assim com a cena em que Kip mostra os desenhos de uma igreja abandonada à Hana ou na belíssima sequência inicial em que o deserto do Saara parece ter as formas de um corpo feminino graças ao ângulo com que o diretor de fotografia John Seale posiciona a câmera. É notável o carinho com que Minghella trata seus atores, entregando a eles cenas fortes e diálogos memoráveis (não foi à toa que seus três protagonistas foram indicados ao Oscar, e Juliette Binoche, excepcional, levou a estatueta pra casa, ainda que de coadjuvante ela não tenha nada...)

O tempo fez bem a "O paciente inglês". Na época de seu lançamento, foi considerado por alguns críticos como um filme "frio" e "sem alma". Hoje, à luz do tempo, pode-se perceber melhor suas qualidades: a bela trilha sonora de Gabriel Yared, a fotografia deslumbrante de John Seale, o roteiro complexo mas repleto de sinceridade, e as atuações extremamente emocionais de seu elenco. Ralph Fiennes abandona o ar psicótico de seu nazista de "A lista de Schindler" para assumir de vez seu papel de herói romântico; Juliette Binoche rouba todas as cenas em que aparece, com uma expressividade arrasadora; e Kristin Scott-Thomas mostra que, por debaixo da frieza britânica mostrada em "Lua de fel" e "Quatro casamentos e um funeral", há um vulcão de sensualidade e passionalidade. Também não atrapalha em nada ter em seu elenco coadjuvante nomes como os de Colin Firth e Willem Dafoe, que dão o tom exato em suas interpretações.

"O paciente inglês" não tinha, em seu ano, nenhum concorrente digno de estragar seus planos de vitória: disputou o prêmio com o simpático "Jerry Maguire", o irônico "Fargo", o chatíssimo "Segredos e mentiras" e o super-apreciado "Shine". Mas o fato de não ter reais rivais em seu caminho não tira sua glória: é um filme que mereceu os prêmios que ganhou e que vai permanecer na memória do público como um dos mais belos romances da história do cinema.

terça-feira

A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER


A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER (The unbearable lightness of being, 1988, The Saul Zaentz Company, 171min) Direção: Philip Kaufman. Roteiro: Philip Kaufman, Jean-Claude Carrière, romance de Milan Kundera. Fotografia: Sven Nykvist. Montagem: Vivien Hillgrove, Michael Magill, Walter Murch. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Pierre Guffroy. Produção executiva: Bertil Ohlsson. Produção: Saul Zaentz. Elenco: Daniel Day-Lewis, Juliette Binoche, Lena Olin, Derek De Lint, Stellan Skarsgard. Estreia: 05/02/88

2 indicações ao Oscar: Roteiro Adaptado, Fotografia


Há duas maneiras de se julgar essa adaptação cinematográfica de “A insustentável leveza do ser”, obra-prima do tcheco Milan Kundera. A primeira, e menos favorável é compará-la com sua versão literária, best-seller absoluto de qualidade inquestionável. A segunda, e aí pode-se fazer elogios rasgados, é como um filme independente de sua origem editorial.

O livro de Kundera, repleto de disgressões filosófico-existenciais é um prato cheio para quem gosta de uma leitura mais profunda e menos romântica. O filme, dirigido com elegância e classe por Philip Kaufman (de “Os eleitos”) não se presta a questões mais intelectuais e, mesmo flertando abertamente com temas políticos e mais discretamente com o quase elogio ao amor livre, conta simplesmente uma bela história de busca pela felicidade, seja ela ideológica, sexual e/ou sentimental.

A trama gira em torno do romance entre o médico Thomas (o ótimo Daniel Day-Lewis) e a garçonete e posteriormente fotógrafa Teresa (uma Juliette Binoche juvenil e encantadora). Ele é um conquistador nato, incapaz de manter um relacionamento estável nem mesmo com a fiel Sabina (Lena Olin), de quem se sente mais próximo. Ela é uma jovem insegura, apaixonada e que sai de sua cidade do interior para ficar com ele, mesmo sabendo que ele não é exatamente um modelo de fidelidade. O triângulo amoroso formado então acompanhará as mudanças políticas da Tchecoslováquia – a história começa às vésperas da primavera de 1968 – revelando às próprias personagens nuances até então nunca percebidas em suas personalidades.

É inegável que o roteiro, escrito pelo diretor Kaufman e pelo habitual colaborador de Roman Polanski, Jean-Claude Carrière, tem uma inteligência e uma sutileza raras e que fazem jus à sua origem literária, o que talvez o tenha colocado em uma espécie de limbo cultural: os fãs do livro, que procuram uma adaptação fiel provavelmente ficarão decepcionados e os cinéfilos que buscam uma história de amor como as que estão acostumados certamente também ficarão perdidos. Com personagens complexos, com atos não exatamente previsíveis e uma trama que deixa muito à inteligência de sua platéia, “A insustentável leveza do ser” é um filme melancólico – o final é de uma beleza pungente – e um meio-termo entre filmes de arte europeus e romances hollywoodianos, o que o fato lamentável de ser falado em inglês só reitera.

No entanto, com uma fotografia belíssima, cortesia de Sven Nykvist, o preferido de Woody Allen e Ingmar Bergman, uma trilha sonora inspirada – reparem em uma versão alemã de “Hey Jude”, dos Beatles – e um elenco impecável, garante seu lugar entre as melhores adaptações cinematográficas já realizadas.

O PREÇO DA TRAIÇÃO

  O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...