CAROL (Carol, 2015, The Weinstein Company, 118min) Direção: Todd Haynes. Roteiro: Phyllis Nagy, romance de Patricia Highsmith. Fotografia: Edward Lachman. Montagem: Affonso Gonçalves. Música: Carter Burwell. Figurino: Sandy Powell. Direção de arte/cenários: Judy Becker/Heather Loeffler. Produção executiva: Dorothy Berwin, Cate Blanchett, Robert Jolliffe, Danny Perkins, Tessa Ross, Thorsten Schumacher, Andrew Upton, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Elizabeth Karlsen, Christine Vachon, Stephen Wooley. Elenco: Cate Blanchett, Rooney Mara, Sarah Paulson, Kyle Chandler, Jake Lacy, John Magaro. Estreia: 17/5/15 (Festival de Cannes)
6 indicações ao Oscar: Atriz (Cate Blanchett), Atriz Coadjuvante (Rooney Mara), Roteiro Adaptado, Fotografia, Trilha Sonora Original, Figurino
Vencedor da Palma de Ouro (Melhor Atriz) no Festival de Cannes: Rooney Mara
Em 1952, um romance chamado "The price of salt", escrito por uma autora chamada Claire Morgan chegou às livrarias norte-americanas contando a história de amor entre uma socialite e uma jovem aspirante a fotógrafa, mais jovem e inexperiente. Nos anos 60, uma tentativa de adaptar o livro para as telas, com a estrela Lana Turner no papel principal, acabou abortada - e é difícil, hoje em dia, imaginar como poderia ter sido, uma vez que na época a censura sobre os estúdios hollywoodianos era rígida e conservadora ao extremo, a ponto de, segundo consta, uma adaptação ter sido feita com a alteração do sexo da protagonista. Relançado em 1984 por uma editora especializada em literatura lésbica, o livro voltou à pauta, mas foi somente em 1990 que, depois de muitos rumores, finalmente a desconhecida Morgan resolveu assumir sua verdadeira identidade em uma nova edição inglesa: a autora do polêmico romance era a mesma Patricia Highsmith cujo talento para as tramas de suspense já havia inspirado Alfred Hitchcock (em "Pacto sinistro", de 1951), René Clement ("O sol por testemunha", de 1960) e Wim Wenders ("O amigo americano", de 1977). Inspirada em uma história vivida pela própria Highsmith nos anos 40, "The price of salt"só viu a luz dos refletores mais de sessenta anos depois de sua primeira publicação: com o título de "Carol", o filme de Todd Haynes estreou no Festival de Cannes de 2015 sob uma chuva de calorosos e demorados aplausos, e saiu da Riviera Francesa com o prêmio de melhor atriz para Rooney Mara. Começava ali sua consagração como um dos melhores filmes da temporada.
Unanimemente elogiado como um drama romântico elegante e intenso, "Carol" foi colecionando prêmios e indicações por toda a sua carreira internacional, até culminar na agridoce lista dos candidatos ao Oscar: tido como certo na disputa, acabou ficando de fora dos concorrentes à melhor filme e diretor - mesmo que Haynes já tivesse, então, prêmios dos críticos de Nova York, Boston, Toronto e da National Society of Film Critics. A esnobada da Academia - que apesar disso lembrou do filme em outras categorias importantes, como atriz, atriz coadjuvante e roteiro adaptado - decepcionou os fãs, mas não diminui a importância do filme. Um dos mais sensíveis e maduros retratos do amor entre mulheres mostrados nas telas, "Carol" é também uma história sobre tolerância, amadurecimento e a importância que as escolhas tem na vida de qualquer pessoa. Emoldurado por um visual arrebatador, uma trilha sonora impecável e um elenco fascinante, é também uma bela e dolorosa história de amor e desejo, contada através da lente da sofisticação e da sutileza.
Interpretada por uma Cate Blanchett cada vez mais etérea e deslumbrante, Carol é uma mulher da alta sociedade nova-iorquina dos anos 50, presa por convenções sociais a um casamento sem amor e a um relacionamento quase abusivo com o agressivo Harge Aird (Kyle Chandler, em atuação expressiva e forte). Para não perder a guarda da filha pequena, Carol mantém discrição de seus romances extraconjugais com outras mulheres, mas é lógico que isso não escapa da atenção do marido, que finge desconhecer esse lado de sua personalidade. As coisas começam a sair do controle, porém, quando Carol conhece e se sente imediatamente atraída por Therese Belivet (Rooney Mara, indicada ao Oscar de coadjuvante mesmo sendo tão protagonista quanto Blanchett). Tímida e inexperiente, Therese sonha em seguir uma carreira de fotógrafa e conhece a delicada socialite quando está em um emprego temporário de Natal. Não demora para que o charme e a poder de sedução de Carol acabe por conquistar a jovem, que se entrega, então, em um romance até então inédito em sua vida. O idílio entre as duas, porém, é posto à prova quando Harge resolve lançar mão de seu maior trunfo para separá-las e manter a esposa a seu lado. Confrontada com a verdade sobre si mesma em vias de ser exposta, a Carol resta contar com o apoio da melhor amiga, Abby (Sarah Paulson), e decidir qual o melhor caminho para sua vida: o amor ou a filha.
Fotografado com precisão por Edward Lachman - que usa e abusa de superfícies envidraçadas como metáfora de tudo que separa as protagonistas - e com uma reconstituição de época deslumbrante (o figurino de Sandy Powell também foi lembrado pelo Oscar), "Carol" é um filme cuja elegância é indiscutível. A bela trilha sonora de Carter Burwell pontua com determinação o tom imposto pela direção romântica de Haynes, reforçando com sutileza o turbilhão de sentimentos envolvidos na trama. Cuidadoso com todos os detalhes, o cineasta faz uso de pequenas ações para sublinhar as emoções de suas personagens - Carol fuma apenas em situações extremas, nunca quando está feliz ou realizada, por exemplo - e constrói, delicadamente, uma história onde cada olhar, cada gesto, cada entonação de voz é essencial para a melhor assimilação de tudo que é mostrado, como um trabalho de ourives que dá a cada pedaço da joia sua devida importância para a beleza do conjunto. Orquestrando até mesmo as cenas de sexo com extremo bom-gosto, o diretor conta também com a ajuda imprescindível de um elenco em dias muito inspirados.
Injustamente esquecido pelas cerimônias de premiação, Kyle Chandler entrega um desempenho exemplar como o terceiro vértice do triângulo amoroso central, o marido traído que transforma em obsessão sua determinação em destruir o romance extraconjugal da esposa, mesmo que usando de subterfúgios eticamente dúbios. Rooney Mara, justificando seu prêmio em Cannes e sua indicação ao Oscar, constrói uma Therese cuja fragilidade física vai se transformando, aos poucos, em uma coragem de aço, e Cate Blanchett desfila sua classe pela tela com uma personagem que lhe dá a chance de explorar todas as nuances de seu imenso talento: sem apelar para cenas lacrimosas ou piegas, ela oferece uma atuação devastadora, centrada unicamente no uso exemplar da voz, do corpo e do olhar. Não é à toa que o filme tem o nome de sua personagem: Blanchett é uma força da natureza que transforma o ato de acompanhar uma história de amor simples e corriqueira em uma experiência recompensadora. "Carol" não é apenas uma love story homossexual: é um conto sobre a força do amor e da paixão sobre o preconceito e a intolerância. Belíssimo!
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domingo
segunda-feira
ELA
ELA
(Her, 2013, Annapurna Pictures, 126min) Direção e roteiro: Spike Jonze.
Fotografia: Hoyte Van Hoytema. Montagem: Jeff Buchanan, Eric
Zumbrunnen. Música: Arcade Fire. Figurino: Casey Storm. Direção de
arte/cenários: K.K. Barrett/Gene Serdena. Produção executiva: Chelsea
Barnard, Natalie Farrey, Daniel Lupi. Produção: Megan Ellison, Spike
Jonze, Vincent Landay. Elenco: Joaquin Phoenix, Scarlett Johansson, Amy
Adams, Rooney Mara, Chris Pratt, Matt Letscher. Estreia: 12/10/13
(Festival de Nova York)
5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Roteiro Original, Trilha Sonora Original, Canção Original ("The moon song"), Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Oscar de Roteiro Original
Vencedor do Golden Globe de Roteiro Original
Deve ser interessante conversar com Spike Jonze. Em um carreira como cineasta que conta com apenas quatro obras, o ex-marido de Sofia Coppola, cujo inicio de carreira foi dirigir videoclipes de artistas como Bjork e Fatboy Slim é, sem qualquer dúvida, uma das mais criativas mentes da engessada Hollywood do século XXI, capaz de legar ao público trabalhos que tem como principal característica a ousadia temática e narrativa. Foi assim com o bizarro "Quero ser John Malkovich" - que lhe deu, de cara, uma indicação ao Oscar de diretor - com o metalinguístico "Adaptação" - que deu a Meryl Streep um de seus papéis mais desafiadores - e até com o infantil "Onde vivem os monstros" - que fugiu da esfera limitadora da faixa etária para emocionar muitos adultos. Não é de estranhar, portanto, que seja seu nome que esteja nos créditos de "Ela", o estranho no ninho entre os indicados ao Oscar de melhor filme de 2013.
Estranho no ninho? Sim. Em um ano em que o favoritismo estava entre o superestimado "Gravidade" - que à parte os efeitos visuais é apenas mais um filme comercial bem feitinho - e o socialmente relevante "12 anos de escravidão" - que apesar das qualidades é o tipo de obra que a Academia adora cobrir de láureas - é surpreendente que uma obra como "Ela" tenha encontrado seu espaço. Bizarro desde seu tema - a história de amor entre um homem e um sistema operacional de última geração criado a partir das necessidades do proprietário - até a forma com que lida com ele - sem apelos sentimentais mas ainda assim emocionalmente potente - o filme de Jonze foge bastante do padrão dos tradicionais romances produzidos em Hollywood por pelo menos mais uma razão: exigir que o público não desligue o cérebro para acompanhar sua trama.
Em um futuro não muito distante, o introvertido Theodore (Joaquin Phoenix), ainda machucado pelo fim de seu casamento com a bela Catherine (Rooney Mara), compra um novo sistema operacional, que pode ser moldado de acordo com a personalidade e as necessidades do proprietário. Batizado com o nome de Samantha, o SO passa a lhe fazer companhia em seus momentos de solidão e, surpreendentemente, surge entre eles um relacionamento que ultrapassa os limites tecnológicos. Apaixonados um pelo outro, os dois precisam aprender a lidar com a nova situação - não tanto por causa das pessoas a seu redor, acostumadas com os avanços da informática, mas por causa das próprias limitações físicas e emocionais da bizarra situação, bem como a dificuldade de Theodore de conviver com seus próprios sentimentos.
Interpretado magistralmente por Joaquin Phoenix - a escolha ideal para personagens à margem do convencional - Theodore retrata com perfeição um geração insegura em termos sentimentais que, mesmo cercada de tecnologia e até mesmo de pessoas de carne e osso, não consegue libertar-se do medo da solidão e do sofrimento. Perito em escrever cartas de amor para estranhos - sua profissão - ele é incapaz de deixar para trás um relacionamento fracassado e apela para o que deveria ser um porto seguro, apenas para descobrir que o amor é, definitivamente, algo intangível e imensurável, que foge de qualquer padrão e cálculo. É apaixonante a maneira com que Jonze consegue contar sua história sem contar muito mais do que com o trabalho de Phoenix, a voz de Scarlett Johansson, pouquíssimos coadjuvantes (destaque para a sempre ótima Amy Adams) e um visual clean, que transmite a sensação de vazio que perpassa a existência do protagonista até seu encontro com Samantha. A bela trilha sonora - indicada ao Oscar, assim como a canção "The moon song", delicada e comovente - completa o quadro, comentando a ação sem interferir em excesso nos devaneios de Theodore.
Ao mesmo tempo de uma complexidade brilhante e uma simplicidade estontente, "Ela" talvez seja o melhor filme da carreira de Jonze. E isso não é pouco. Merecido vencedor do Oscar de roteiro original - delicado, engraçado, comovente e realmente original - o trabalho do cineasta é daqueles raros projetos em que tudo está no lugar certo, funcionando como um relógio. A fotografia sóbria, a direção de arte caprichada que cria um universo particular sem excessos, a música suave, o figurino bizarro e a escalação do elenco são peças fundamentais para que o resultado final seja primoroso, uma pequena obra-prima de sua geração.
5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Roteiro Original, Trilha Sonora Original, Canção Original ("The moon song"), Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Oscar de Roteiro Original
Vencedor do Golden Globe de Roteiro Original
Deve ser interessante conversar com Spike Jonze. Em um carreira como cineasta que conta com apenas quatro obras, o ex-marido de Sofia Coppola, cujo inicio de carreira foi dirigir videoclipes de artistas como Bjork e Fatboy Slim é, sem qualquer dúvida, uma das mais criativas mentes da engessada Hollywood do século XXI, capaz de legar ao público trabalhos que tem como principal característica a ousadia temática e narrativa. Foi assim com o bizarro "Quero ser John Malkovich" - que lhe deu, de cara, uma indicação ao Oscar de diretor - com o metalinguístico "Adaptação" - que deu a Meryl Streep um de seus papéis mais desafiadores - e até com o infantil "Onde vivem os monstros" - que fugiu da esfera limitadora da faixa etária para emocionar muitos adultos. Não é de estranhar, portanto, que seja seu nome que esteja nos créditos de "Ela", o estranho no ninho entre os indicados ao Oscar de melhor filme de 2013.
Estranho no ninho? Sim. Em um ano em que o favoritismo estava entre o superestimado "Gravidade" - que à parte os efeitos visuais é apenas mais um filme comercial bem feitinho - e o socialmente relevante "12 anos de escravidão" - que apesar das qualidades é o tipo de obra que a Academia adora cobrir de láureas - é surpreendente que uma obra como "Ela" tenha encontrado seu espaço. Bizarro desde seu tema - a história de amor entre um homem e um sistema operacional de última geração criado a partir das necessidades do proprietário - até a forma com que lida com ele - sem apelos sentimentais mas ainda assim emocionalmente potente - o filme de Jonze foge bastante do padrão dos tradicionais romances produzidos em Hollywood por pelo menos mais uma razão: exigir que o público não desligue o cérebro para acompanhar sua trama.
Em um futuro não muito distante, o introvertido Theodore (Joaquin Phoenix), ainda machucado pelo fim de seu casamento com a bela Catherine (Rooney Mara), compra um novo sistema operacional, que pode ser moldado de acordo com a personalidade e as necessidades do proprietário. Batizado com o nome de Samantha, o SO passa a lhe fazer companhia em seus momentos de solidão e, surpreendentemente, surge entre eles um relacionamento que ultrapassa os limites tecnológicos. Apaixonados um pelo outro, os dois precisam aprender a lidar com a nova situação - não tanto por causa das pessoas a seu redor, acostumadas com os avanços da informática, mas por causa das próprias limitações físicas e emocionais da bizarra situação, bem como a dificuldade de Theodore de conviver com seus próprios sentimentos.
Interpretado magistralmente por Joaquin Phoenix - a escolha ideal para personagens à margem do convencional - Theodore retrata com perfeição um geração insegura em termos sentimentais que, mesmo cercada de tecnologia e até mesmo de pessoas de carne e osso, não consegue libertar-se do medo da solidão e do sofrimento. Perito em escrever cartas de amor para estranhos - sua profissão - ele é incapaz de deixar para trás um relacionamento fracassado e apela para o que deveria ser um porto seguro, apenas para descobrir que o amor é, definitivamente, algo intangível e imensurável, que foge de qualquer padrão e cálculo. É apaixonante a maneira com que Jonze consegue contar sua história sem contar muito mais do que com o trabalho de Phoenix, a voz de Scarlett Johansson, pouquíssimos coadjuvantes (destaque para a sempre ótima Amy Adams) e um visual clean, que transmite a sensação de vazio que perpassa a existência do protagonista até seu encontro com Samantha. A bela trilha sonora - indicada ao Oscar, assim como a canção "The moon song", delicada e comovente - completa o quadro, comentando a ação sem interferir em excesso nos devaneios de Theodore.
Ao mesmo tempo de uma complexidade brilhante e uma simplicidade estontente, "Ela" talvez seja o melhor filme da carreira de Jonze. E isso não é pouco. Merecido vencedor do Oscar de roteiro original - delicado, engraçado, comovente e realmente original - o trabalho do cineasta é daqueles raros projetos em que tudo está no lugar certo, funcionando como um relógio. A fotografia sóbria, a direção de arte caprichada que cria um universo particular sem excessos, a música suave, o figurino bizarro e a escalação do elenco são peças fundamentais para que o resultado final seja primoroso, uma pequena obra-prima de sua geração.
TERAPIA DE RISCO
TERAPIA DE RISCO (Side effects, 2013, Endgame Entertainment/FilmNation Entertainment/Di Bonaventura Pictures, 106min) Direção: Steven Soderbergh. Roteiro: Scott Z. Burns. Fotografia: Peter Andrews (Steven Soderbergh). Montagem: Mary Ann Bernard (Steven Soderbergh). Música: Thomas Newman. Figurino: Susan Lyall. Direção de arte/cenários: Howard Cummings/Rena DeAngelo. Produção executiva: Douglas E. Hansen, Michael Polaire, James D. Stern. Produção: Scott Z. Burns, Lorenzo di Bonaventura, Gregory Jacobs. Elenco: Rooney Mara, Jude Law, Catherine Zeta-Jones, Channing Tatum, Ann Dowd, Mamie Gummer. Estreia: 08/02/13
Em “Contágio” (11), Steven
Soderbergh já havia, de leve, provocado uma discussão a respeito da ganância da
indústria farmacêutica, mas deu à trama a mesma importância que aos outros
focos do filme – irresponsabilidade da mídia, o pânico diante de uma epidemia,
o avanço da barbárie diante do imprevisto. Em seu trabalho seguinte, “Terapia
de risco”, ele volta a esbarrar no assunto – dessa vez enfatizando os remédios
antidepressivos – mas novamente desvia de uma discussão relevante e instigante
para abraçar um gênero específico (no caso o suspense) e contar uma história
que, a despeito de seu começo promissor, descamba para uma série de
reviravoltas forçadas e inverossímeis. Mais uma vez o Soderbergh comercial –
que assinou coisas terríveis como “Magic Mike” e alguns bons entretenimentos,
como “Onze homens e um segredo” – ganhou do Soderbergh artista criativo e
socialmente ativo – que ganhou a Palma de Ouro em Cannes por “sexo, mentiras e
videotape” e o Oscar de melhor diretor por “Traffic”. Quem acabou perdendo foi
o público.
Não que o grande público se incomode
com o fato de o roteiro abandonar a chance de discutir um problema sério como o
abuso de remédios controlados e a forma como a indústria que os fabrica conduz
sua comercialização. O problema é que os dois primeiros terços do filme
conduzem a narrativa por um caminho específico para, de uma hora para outra –
com o objetivo de espantar a plateia – distorcer a trama de forma a fazê-la
caber em um final-surpresa que enfraquece todo o tom sério e excitante que
vinha sendo mostrado até então. Em resumo, “Terapia de risco” tem um começo
promissor e um final decepcionante que não faz jus à carreira de seu diretor.
A trama tem início quando o jovem
Martin Taylor (Channing Tatum) sai da cadeia, depois de quatro anos preso pelo
crime de tráfico de informações financeiras. Quem o espera do lado de fora do
presídio é sua esposa, Emily (Rooney Mara, de “Os homens que não amavam as
mulheres, irreconhecível e sempre ótima atriz), que teve sua vida completamente
desestruturada com a condenação do marido. Depois de perder o bebê que esperava
e ter tido seu estilo de vida radicalmente transformado, a jovem acabou por
tornar-se dependente de antidepressivos e, mesmo com a volta do marido, parece
não dar sinais de melhora. Pelo contrário, duas tentativas de suicídio a levam
até o doutor Jonathan Banks (Jude Law), que depois de algumas consultas propõe
a ela que tome parte nos experimentos de uma nova droga que está sendo testada
em pacientes em avançado estado de depressão. Emily aceita fazer parte do
teste, mas um dos efeitos colaterais – sonambulismo – acaba por fazê-la cometer
um homicídio. No banco dos réus, ela acaba por tornar-se alvo de uma polêmica:
quem é, afinal, o responsável pelo crime? Ela, a indústria farmacêutica ou seu
médico?
Esse ponto de partida – que toma boa
parte dos dois terços iniciais do filme – é empolgante, inteligente e prende a
atenção do público sem fazer esforço, graças em boa parte às interpretações do
elenco e da direção segura e sóbria de Soderbergh. As coisas começam a
degringolar quando Banks, sentindo-se acuado diante das acusações de
irresponsabilidade e negligência médica, passa a investigar o passado de Emily
e chega até sua médica anterior, Victoria Seibert (Catherine Zeta-Jones), uma
mulher bem-sucedida que parece ter muito mais a esconder do que mostra em um
primeiro olhar. A real ligação entre Emily e Victoria – o grande segredo do
filme – vem à tona perto do final, e é aí que o roteiro põe tudo a perder. Sem
querer estragar a surpresa dos que se arriscarem a uma sessão (e no final das
contas até vale uma espiada, em especial pelo elenco), é um desfecho que parece
jogado na tela, sem a preocupação básica de parecer realista.
Ok, Steven Soderbergh já fez coisas
muito piores – “Magic Mike” à frente – mas é sempre triste ver um cineasta
capaz de pequenas obras-primas como “Irresistível paixão” e “Traffic” se deixar
cair na vala dos diretores puramente comerciais, optando pela mediocridade em
detrimento da criatividade e da ousadia. “Terapia de risco” é um filme de
gênero e logicamente deve seguir diretrizes já estabelecidas e consagradas, mas
isso não justifica o golpe baixo que é dado nas expectativas do espectador que
espera mais do que ser simplesmente pego de surpresa por um roteiro quase
preguiçoso. Felizmente o elenco faz o que pode para manter o interesse. E
consegue. Porém, Soderbergh poderia voltar a ser o diretor inteligente que um
dia se propôs a ser.
terça-feira
MILLENNIUM, OS HOMENS QUE NÃO AMAVAM AS MULHERES
MILLENNIUM - OS HOMENS QUE NÃO AMAVAM AS MULHERES (The girl with the dragon tattoo, 2011, Columbia Pictures/MGM Pictures, 158min) Direção: David Fincher. Roteiro: Steven Zaillian, romance de Stieg Larsson. Fotografia: Jeff Cronenweth. Montagem: Kirk Baxter, Angus Wall. Música: Atticus Ross, Trent Reznor. Figurino: Trish Summerville. Direção de arte/cenários: Donald Graham Burt/K.C. Fox, Erik Videgard. Produção executiva: Anni Faurbye Fernandez, Ryan Kavanaugh, Mikael Wallen, Steven Zaillian. Produção: Ceán Chaffin, Scott Rudin, Soren Staermose, Ole Sondberg. Elenco: Daniel Craig, Rooney Mara, Christopher Plummer, Stellan Skarsgard, Robin Wright, Joely Richardson, Goran Visjnic. Estreia: 12/12/11
5 indicações ao Oscar: Atriz (Rooney Mara), Fotografia, Montagem, Edição de Som, Mixagem de Som
Vencedor do Oscar de Montagem
“Você irá investigar o mais detestável grupo de pessoas que poderia encontrar: minha família!” É assim, com palavras tão pouco lisonjeiras, que o milionário Henrik Vanger (Christopher Plummer) descreve ao jornalista Mikael Blomkvist quem são as pessoas que ele irá investigar caso aceite sua tentadora proposta de trabalho: descobrir o paradeiro (ou o trágico destino) de sua sobrinha, desaparecida há mais de quarenta anos, durante um final de semana festivo em sua imensa propriedade na Suécia. Em crise profissional devido a um processo movido contra um empresário corrupto denunciado em uma de suas reportagens, Blomkvist recebe a ideia com carinho, afinal, dinheiro, um lugar escondido dos colegas da imprensa e sossego não surgem com frequência à sua frente. Mas será que tudo será tão tranquilo como ele imagina?
Para quem não conhece – se é que alguém não conhece – Mikael Blomkvist é um dos dois protagonistas de um dos maiores fenômenos literários dos últimos anos, a trilogia “Millenium”, escrita pelo sueco Stieg Larsson. Com milhões de exemplares vendidos em todo o mundo, adaptações para o cinema em seu país natal e personagens fascinantes, a série de romances policiais logo chamou a atenção dos produtores de Hollywood, mais especificamente Kathleen Kennedy. Uma das produtoras do sucesso “O curioso caso de Benjamin Button” (08) – além de vários filmes dirigidos por Steven Spielberg – Kennedy propôs a adaptação ao diretor do filme estrelado por Brad Pitt, o incensado David Fincher. Escolado por produções complicadas, Fincher sequer leu o primeiro dos três livros, mas é o nome dele que surge nos créditos da versão americana de “Os homens que não amavam as mulheres”, co-produção da Columbia Pictures e da MGM. Levando-se em consideração que em seu currículo constam filmes como “Seven, os sete crimes capitais” (95) e “Zodíaco” (07), Fincher era realmente o homem ideal para levar às telas – ao menos com sotaque ianque – a intrincada e fascinante trama criada por Larsson. Ao lado de sua equipe de confiança – o diretor de fotografia Jeff Cronenweth, os editores Kirk Baxter e Angus Wall, os músicos Trent Reznor e Atticus Ross – e de um roteiro que consegue condensar em duas horas e meia as mais de 500 páginas do romance original (cortesia do oscarizado Steven Zaillian, de “A lista de Schindler”), Fincher ofereceu ao público um filme que, contrariando as expectativas, supera a versão sueca em clima, tensão e fluência narrativa. Em suma, um filmaço de prender a atenção do primeiro ao último minuto.
Na pele de Blomkvist, surge em cena Daniel Craig, tornado astro desde sua escolha para viver o James Bond do filme “Casino Royale”. Deixando de lado sua faceta heroica, Craig mostra-se a opção perfeita para o papel, oferecendo um viés frágil e inseguro a um personagem que, embora inteligente e corajoso, encontra uma parceria ainda mais radical na segunda personagem fascinante criada por Larsson – que morreu aos 50 anos, antes da publicação e do sucesso de vendas de suas obras – e imortalizada nas telas de cinema: Lisbeth Salander, a hacker agressiva e brilhante que se junta a ele em sua missão de descobrir o paradeiro da jovem Vanger. Vivida originalmente por Noomi Rapace – que a partir dela encontrou espaço no cinema mainstream, em filmes como “Prometheus” (12) e “Sherlock Holmes” (10) – e disputada a tapa pelas jovens atrizes americanas, Salander é o tipo de personagem capaz de consagrar sua intérprete, com sua mistura de mistério, raiva e uma delicadeza física capaz de esconder uma grande fúria. A escolhida por Fincher – e talvez o grande achado do filme – comprovou essa teoria da melhor maneira possível: até então quase desconhecida, Rooney Mara abocanhou uma indicação ao Oscar por seu desempenho. O que era uma aposta arriscada de Fincher – que a havia dirigido em um papel pequeno em “A rede social” – tornou-se, então, uma felicíssima previsão.
Passando a perna em nomes bem mais conhecidos do público, como Scarlett Johansson (considerada sexy demais por Fincher), Carey Mulligan, Ellen Page, Kirsten Stewart, Keira Knightley, Mia Wasikowska, Anne Hathaway, Evan Rachel Wood e Eva Green – além de outras menos cotadas e uma Natalie Portman que recusou o papel alegando extremo cansaço das filmagens de “Cisne negro” – Mara calou a boca daqueles que duvidavam de sua capacidade de dar vida a uma personagem tão complexa e tão adorada pelos leitores espalhados pelo mundo. A princípio dona de uma hostilidade e uma quase antipatia que poderiam jogar contra si, aos poucos Salander vai sendo revelada ao público pelo roteiro esperto de Zaillian e pela direção atenciosa de Fincher, que não foge de apelar para cenas de uma violência surpreendente em tempos tão mornos. Antes mesmo de encontrar-se, depois de mais de uma hora de projeção, com Blomkvist – a quem investigou a pedido do próprio Vanger – Salander já não é mais uma desconhecida da audiência, que compartilha com ela a dor de uma situação extrema da qual ela se livra com uma inteligência e uma ousadia empolgantes. É uma dupla e tanto, responsável por um dos melhores filmes policiais do início do século, uma feliz conjunção de inúmeros fatores comandados por um cineasta genial, capaz de transformar uma história policial em uma produção inesquecível.
A trama de “Os homens que não amavam as mulheres”, na verdade, é dividida em várias, que se complementam com o desenrolar da narrativa. Primeiro, existe a tentativa de Blomkvist em provar sua inocência no caso de calúnia e difamação promovido contra suas reportagens para a revista Millennium, comandada por sua também amante (Robin Wright). Depois, há a sua investigação a respeito do desaparecimento (ou provável morte) da sobrinha de Henrik Vanger – cujas maiores pistas estão no testemunho de uma antiga amiga que estava presente à reunião familiar no fatídico dia de seu sumiço (interpretada por Joely Richardson) e em uma série de fotos encontradas pelo jornalista (e que servem como homenagem silenciosa ao cinema em si, graças à edição espetacular de Baxter e Wall). Por fim, existe o relacionamento entre o intrigado protagonista e a torturada e rebelde Lisbeth, que ele contrata para ajudá-lo em sua missão. O roteiro de Steven Zaillian costura todas as pontas com maestria, mergulhando a plateia em um suspense aterrador e claustrofóbico, sem pausas para piadinhas ou qualquer tipo de leveza – até mesmo o romance que se desenha entre Blomkvist e Salander é cercado de uma quase frieza que condiz com a bela paisagem da Suécia. Fincher conduz tudo como um maestro, sempre encontrando a melhor solução para cada cena, comprovando seu talento imenso em imprimir na tela uma visão realista do mundo que cerca os personagens – pode-se, inclusive, dizer que os gélidos cenários são um personagem a mais do filme, tamanha sua importância em enfatizar o clima soturno da história. Se o filme não é perfeito, a culpa é somente do clímax, que deixa de lado o tom mais cerebral imposto até então para apelar para o confronto físico entre mocinho e bandido – e mesmo assim, a direção de Fincher é tão poderosa que fica difícil se incomodar com o clichê.
Enorme sucesso de bilheteria, “Os homens que não amavam as mulheres” deveria ter sido o primeiro filme de uma trilogia, como aconteceu em forma de livro e produções suecas. Infelizmente, por inúmeras razões o projeto das continuações, que contariam com os mesmos protagonistas, acabou não saindo do papel, para tristeza dos fãs da história e de David Fincher – que seria imprescindível para a manutenção da qualidade do primeiro episódio. Mesmo assim, foi o pontapé inicial da carreira que promete ser bastante vitoriosa de Rooney Mara – que voltou a ser indicada ao Oscar, dessa vez como coadjuvante, por “Carol” (15) – e provou que Daniel Craig pode ir muito mais além de James Bond. Ficando com um papel para o qual foram considerados Johnny Depp, Viggo Mortensen, Brad Pitt e George Clooney, Craig saiu-se muito melhor que a encomenda, transformando Mikael Blomkvist em um de seus melhores e mais importantes trabalhos em Hollywood.
5 indicações ao Oscar: Atriz (Rooney Mara), Fotografia, Montagem, Edição de Som, Mixagem de Som
Vencedor do Oscar de Montagem
“Você irá investigar o mais detestável grupo de pessoas que poderia encontrar: minha família!” É assim, com palavras tão pouco lisonjeiras, que o milionário Henrik Vanger (Christopher Plummer) descreve ao jornalista Mikael Blomkvist quem são as pessoas que ele irá investigar caso aceite sua tentadora proposta de trabalho: descobrir o paradeiro (ou o trágico destino) de sua sobrinha, desaparecida há mais de quarenta anos, durante um final de semana festivo em sua imensa propriedade na Suécia. Em crise profissional devido a um processo movido contra um empresário corrupto denunciado em uma de suas reportagens, Blomkvist recebe a ideia com carinho, afinal, dinheiro, um lugar escondido dos colegas da imprensa e sossego não surgem com frequência à sua frente. Mas será que tudo será tão tranquilo como ele imagina?
Para quem não conhece – se é que alguém não conhece – Mikael Blomkvist é um dos dois protagonistas de um dos maiores fenômenos literários dos últimos anos, a trilogia “Millenium”, escrita pelo sueco Stieg Larsson. Com milhões de exemplares vendidos em todo o mundo, adaptações para o cinema em seu país natal e personagens fascinantes, a série de romances policiais logo chamou a atenção dos produtores de Hollywood, mais especificamente Kathleen Kennedy. Uma das produtoras do sucesso “O curioso caso de Benjamin Button” (08) – além de vários filmes dirigidos por Steven Spielberg – Kennedy propôs a adaptação ao diretor do filme estrelado por Brad Pitt, o incensado David Fincher. Escolado por produções complicadas, Fincher sequer leu o primeiro dos três livros, mas é o nome dele que surge nos créditos da versão americana de “Os homens que não amavam as mulheres”, co-produção da Columbia Pictures e da MGM. Levando-se em consideração que em seu currículo constam filmes como “Seven, os sete crimes capitais” (95) e “Zodíaco” (07), Fincher era realmente o homem ideal para levar às telas – ao menos com sotaque ianque – a intrincada e fascinante trama criada por Larsson. Ao lado de sua equipe de confiança – o diretor de fotografia Jeff Cronenweth, os editores Kirk Baxter e Angus Wall, os músicos Trent Reznor e Atticus Ross – e de um roteiro que consegue condensar em duas horas e meia as mais de 500 páginas do romance original (cortesia do oscarizado Steven Zaillian, de “A lista de Schindler”), Fincher ofereceu ao público um filme que, contrariando as expectativas, supera a versão sueca em clima, tensão e fluência narrativa. Em suma, um filmaço de prender a atenção do primeiro ao último minuto.
Na pele de Blomkvist, surge em cena Daniel Craig, tornado astro desde sua escolha para viver o James Bond do filme “Casino Royale”. Deixando de lado sua faceta heroica, Craig mostra-se a opção perfeita para o papel, oferecendo um viés frágil e inseguro a um personagem que, embora inteligente e corajoso, encontra uma parceria ainda mais radical na segunda personagem fascinante criada por Larsson – que morreu aos 50 anos, antes da publicação e do sucesso de vendas de suas obras – e imortalizada nas telas de cinema: Lisbeth Salander, a hacker agressiva e brilhante que se junta a ele em sua missão de descobrir o paradeiro da jovem Vanger. Vivida originalmente por Noomi Rapace – que a partir dela encontrou espaço no cinema mainstream, em filmes como “Prometheus” (12) e “Sherlock Holmes” (10) – e disputada a tapa pelas jovens atrizes americanas, Salander é o tipo de personagem capaz de consagrar sua intérprete, com sua mistura de mistério, raiva e uma delicadeza física capaz de esconder uma grande fúria. A escolhida por Fincher – e talvez o grande achado do filme – comprovou essa teoria da melhor maneira possível: até então quase desconhecida, Rooney Mara abocanhou uma indicação ao Oscar por seu desempenho. O que era uma aposta arriscada de Fincher – que a havia dirigido em um papel pequeno em “A rede social” – tornou-se, então, uma felicíssima previsão.
Passando a perna em nomes bem mais conhecidos do público, como Scarlett Johansson (considerada sexy demais por Fincher), Carey Mulligan, Ellen Page, Kirsten Stewart, Keira Knightley, Mia Wasikowska, Anne Hathaway, Evan Rachel Wood e Eva Green – além de outras menos cotadas e uma Natalie Portman que recusou o papel alegando extremo cansaço das filmagens de “Cisne negro” – Mara calou a boca daqueles que duvidavam de sua capacidade de dar vida a uma personagem tão complexa e tão adorada pelos leitores espalhados pelo mundo. A princípio dona de uma hostilidade e uma quase antipatia que poderiam jogar contra si, aos poucos Salander vai sendo revelada ao público pelo roteiro esperto de Zaillian e pela direção atenciosa de Fincher, que não foge de apelar para cenas de uma violência surpreendente em tempos tão mornos. Antes mesmo de encontrar-se, depois de mais de uma hora de projeção, com Blomkvist – a quem investigou a pedido do próprio Vanger – Salander já não é mais uma desconhecida da audiência, que compartilha com ela a dor de uma situação extrema da qual ela se livra com uma inteligência e uma ousadia empolgantes. É uma dupla e tanto, responsável por um dos melhores filmes policiais do início do século, uma feliz conjunção de inúmeros fatores comandados por um cineasta genial, capaz de transformar uma história policial em uma produção inesquecível.
A trama de “Os homens que não amavam as mulheres”, na verdade, é dividida em várias, que se complementam com o desenrolar da narrativa. Primeiro, existe a tentativa de Blomkvist em provar sua inocência no caso de calúnia e difamação promovido contra suas reportagens para a revista Millennium, comandada por sua também amante (Robin Wright). Depois, há a sua investigação a respeito do desaparecimento (ou provável morte) da sobrinha de Henrik Vanger – cujas maiores pistas estão no testemunho de uma antiga amiga que estava presente à reunião familiar no fatídico dia de seu sumiço (interpretada por Joely Richardson) e em uma série de fotos encontradas pelo jornalista (e que servem como homenagem silenciosa ao cinema em si, graças à edição espetacular de Baxter e Wall). Por fim, existe o relacionamento entre o intrigado protagonista e a torturada e rebelde Lisbeth, que ele contrata para ajudá-lo em sua missão. O roteiro de Steven Zaillian costura todas as pontas com maestria, mergulhando a plateia em um suspense aterrador e claustrofóbico, sem pausas para piadinhas ou qualquer tipo de leveza – até mesmo o romance que se desenha entre Blomkvist e Salander é cercado de uma quase frieza que condiz com a bela paisagem da Suécia. Fincher conduz tudo como um maestro, sempre encontrando a melhor solução para cada cena, comprovando seu talento imenso em imprimir na tela uma visão realista do mundo que cerca os personagens – pode-se, inclusive, dizer que os gélidos cenários são um personagem a mais do filme, tamanha sua importância em enfatizar o clima soturno da história. Se o filme não é perfeito, a culpa é somente do clímax, que deixa de lado o tom mais cerebral imposto até então para apelar para o confronto físico entre mocinho e bandido – e mesmo assim, a direção de Fincher é tão poderosa que fica difícil se incomodar com o clichê.
Enorme sucesso de bilheteria, “Os homens que não amavam as mulheres” deveria ter sido o primeiro filme de uma trilogia, como aconteceu em forma de livro e produções suecas. Infelizmente, por inúmeras razões o projeto das continuações, que contariam com os mesmos protagonistas, acabou não saindo do papel, para tristeza dos fãs da história e de David Fincher – que seria imprescindível para a manutenção da qualidade do primeiro episódio. Mesmo assim, foi o pontapé inicial da carreira que promete ser bastante vitoriosa de Rooney Mara – que voltou a ser indicada ao Oscar, dessa vez como coadjuvante, por “Carol” (15) – e provou que Daniel Craig pode ir muito mais além de James Bond. Ficando com um papel para o qual foram considerados Johnny Depp, Viggo Mortensen, Brad Pitt e George Clooney, Craig saiu-se muito melhor que a encomenda, transformando Mikael Blomkvist em um de seus melhores e mais importantes trabalhos em Hollywood.
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