segunda-feira

A GUERRA DE HART

A GUERRA DE HART (Hart's war, 2002, MGM Pictures, 125min) Direção: Gregory Hoblit. Roteiro: Billy Ray, Terry George, romance de John Katzenbach. Fotografia: Alar Kivilo. Montagem: David Rosenbloom. Música: Rachel Portman. Figurino: Elisabetta Beraldo. Direção de arte/cenários: Lilly Kilvert/Patrick Cassidy. Produção executiva: Wolfgang Glattes. Produção: David Foster, Gregory Hoblit, David Ladd, Arnold Rifkin. Elenco: Bruce Willis, Colin Farrell, Terrence Howard, Cole Hauser, Linus Roache, Marcel Iures, Vicellous Shannon, Sam Jaeger, Rory Cochrane, Sam Worthington, Adrian Grenier. Estreia: 15/02/02

Parecia que tudo estava no caminho certo: um ator veterano (Bruce Willis) com a carreira ressuscitada por um imenso sucesso comercial ("O sexto sentido", de 1999), um jovem astro em ascensão (Colin Farrell, revelado por Joel Schumacher em "Tigerland: a caminho da guerra", de 2000), um assunto sempre fascinante e capaz de despertar a atenção do público (a II Guerra Mundial) e um gênero querido pela plateia desde sempre (filmes de tribunal) - dirigido por um cineasta que já tinha experiência no ramo (Gregory Hoblit, que assinou o ótimo "As duas faces de um crime", de 1996). Alguma coisa, porém, não correu como o esperado para "A guerra de Hart": com um custo estimado de 70 milhões de dólares, o filme simplesmente se espatifou nas bilheterias americanas (rendeu menos de 20 milhões em toda a sua carreira comercial) e não cativou nem mesmo o público internacional (arrecadou pouco mais de 13 milhões em todo o mundo). Não bastasse o fracasso financeiro, a crítica igualmente não ficou entusiasmada com o resultado final - e a produção acabou sendo relegada a um tímido segundo plano nas trajetórias de seus dois atores principais. O pior é que, ao contrário de muitos fracassos injustos que volta e meia assombram Hollywood, "A guerra de Hart" mereceu seu destino: apesar dos valores de produção caprichados, é um filme preguiçoso e sonolento, que não acrescenta nada ao gênero.

Baseado em um romance de John Katzenbach - livro, aliás, que um dos roteiristas, Billy Ray, admite não ter lido, uma vez que embarcou no projeto quando várias versões da trama já existiam, escritas pelo veterano Terry George - e inspirado pelo tempo em que o pai do escritor, Nicholas Katzenbach, passou como prisioneiro durante a II Guerra Mundial, "A guerra de Hart" se ressente, também, de um foco narrativo mais claro. Ao misturar vários gêneros, acaba se perdendo em um emaranhado de reviravoltas e tentativas de clímax que, ao contrário de surpreender o espectador, apenas deixam a estória ainda mais confusa e sem sentido. Começa como um drama de guerra, transforma-se em um filme de tribunal e acaba com uma mistura muito estranha dos dois estilos - com um desfecho morno que desperdiça até mesmo o talento de coadjuvantes excelentes, como Terrence Howard e Marcel Iures, perdidos em um texto quase esquizofrênico.


A trama se passa no final da II Guerra, quando o jovem Tenente Tommy Hart (Colin Farrell) é capturado por soldados alemães e, depois de alguns dias preso e interrogado, é enviado a um campo de prisioneiros, onde trava contato com o Coronel William McNamara (Bruce Willis) - o oficial superior que ainda mantém sua autoridade sobre os soldados norte-americanos aprisionados. Não demora muito para que Hart, um burocrata da guerra, perceba a realidade do conflito mesmo dentro de sua estalagem - onde colegas não são exatamente exemplos de solidariedade e companheirismo. As coisas ficam ainda mais explosivas quando chegam ao local dois pilotos negros, Lincoln Scott (Terrence Howard) e Lamar Archer (Vicellous Reon Shannon), uma presença inesperada que deixa bem claro o tom racista dos soldados e oficiais. A morte injusta de Archer e a prisão de Scott - acusado de assassinar um colega - acentuam a tensão, especialmente quando McNamara convoca Hart (um estudante de Direito) a ser o advogado de defesa de Scott em uma corte marcial. O julgamento começa, sob a supervisão do comandante alemão Oberts Werner Visser (Marcel Iures) - mas nem tudo é exatamente o que parece, e Hart irá precisar de todo o seu código de ética para desviar-se de um veredicto já facilmente previsível.

A princípio um projeto de Alfonso Cuarón, "A guerra de Hart" acabou nas mãos de Gregory Hoblit quando o cineasta mexicano optou por uma produção mais pessoal, o elogiado "E sua mãe também" - que lhe valeu uma indicação ao Oscar de roteiro original. A entrada de Hoblit, porém, parecia um tiro certo - logo que entrou em cena, nomes como Edward Norton e Tobey Maguire foram cotados para integrar o elenco, no papel que mais tarde ficaria com Colin Farrell, um nome que começava a tornar-se conhecido do público, principalmente por dividir a tela com Tom Cruise em "Minority report: a nova lei", dirigido por ninguém menos que Steven Spielberg. Farrell, no entanto, não poderia imaginar que seria tão subaproveitado: sofrendo ao tentar dar dignidade e coerência a um roteiro indeciso, o ator irlandês não consegue nem ao menos demonstrar o carisma revelado em seus trabalhos anteriores, preso a uma direção frouxa e um personagem incapaz de conquistar a torcida do espectador - e também não ajuda ter Bruce Willis no piloto automático e um final decepcionante. No fim das contas, "A guerra de Hart" é um filme que tinha tudo para marcar época mas que terminou vítima de uma grave crise de identidade. Só recomendado para os fãs incondicionais dos atores!

sábado

GLASSLAND

GLASSLAND (Glassland, 2014, Blank Page Productions/Element Pictures/Irish Film Board, 93min) Direção e roteiro: Gerard Barrett. Fotografia: Piers McGrail. Montagem: Nathan Nugent. Figurino: Leonie Pendergast. Direção de arte/cenários: Stephanie Clerkin/Patricia Douglas. Produção executiva: Gerard Barrett, Andrew Lowe. Produção: Juliette Bonass, Ed Guiney. Elenco: Toni Collette, Jack Reynor, Will Poulter. Estreia: 23/01/15 (Festival de Sundance)

Desde que chamou a atenção da crítica e do público pela primeira vez, protagonizando a comédia dramática australiana "O casamento de Muriel" (95), a atriz Toni Collette passou a dividir a carreira entre sucessos comerciais indiscutíveis ("O sexto sentido"), filmes de prestígio ("As horas") e produções independentes muitas vezes restritas a ratos de cinemateca e/ou frequentadores de festivais alternativos. "Glassland" faz parte desse último grupo: escrito e dirigido pelo jovem (30 anos) Gerard Barrett, o filme que estreou no Festival de Sundance de 2015 saiu da mostra com o prêmio de melhor ator para Jack Reynor e arrancou elogios por sua sensibilidade ao tratar de assuntos pesados, como alcoolismo, tráfico humano e depressão. Mesmo sem um lançamento em escala o suficiente para chamar a atenção de plateias maiores, a história de amor e união entre mãe e filho é capaz de emocionar àqueles que buscam uma produção menos ambiciosa e mais intimista.

Assim como normalmente acontece com produções que fogem do padrão comercial hollywoodiano, "Glassland" não se obriga a entregar tudo facilmente a seu público: é somente aos poucos que o espectador vai desvendando o dia-a-dia de John (Jack Reynor), um jovem motorista de táxi que complemente a renda servindo também como chofer de um cafetão de luxo. Sua rotina é massacrante: além de trabalhar incansavelmente, ele precisa lidar com as crises de alcoolismo e depressão de sua mãe, Jean (Toni Collette), e fazer visitas frequentes a seu irmão, portador de Síndrome de Down e rejeitado por Jean. Sua única diversão é jogar conversa fora com seu melhor amigo, Shane (Will Poulter) - um rapaz que sofre com a separação do filho que teve com uma ex-namorada. Sozinho e desamparado, John tenta não descontar todas as suas frustrações quando precisa voltar para casa, mas quando descobre que sua mãe está seriamente doente e é imprescindível que abandone o vício para sobreviver, ele não tem alternativa senão lutar contra ela mesma - e encontrar uma maneira de arrumar dinheiro para um tratamento caro.


Com um ritmo bastante lento, que usa e abusa de elipses e silêncios desesperados, "Glassland" não é um filme para qualquer público - e isso é um elogio. O roteiro de Barrett vai envolvendo o espectador gradualmente, com uma trilha sonora delicada e momentos de partir o coração - principalmente graças à atuação surpreendente de Jack Reynor. Conhecido das plateias mais por conta de seu trabalho em "Transformers: a era da extinção" (2014) do que por atuar ao lado de Michael Fassbender e Marion Cottilard em "Macbeth: ambição e guerra" (2015), o jovem ator se entrega com extrema dedicação a um personagem difícil, de poucas palavras e muita emoção, que explode nos momentos certos e se retrai em tantos outros. Sua química com Toni Collette é a alma do filme - uma certeza que fica ainda mais óbvia na tocante cena em que dançam tristemente na clínica onde ela está internada - e as sequências que divide com Will Poulter mostram um lado diferente de seu personagem, alguém que esconde, sob a superfície plácida, um turbilhão de sentimentos dolorosos. É um papel complexo, do qual Reynor se desincumbe com notável segurança - é provável que um futuro auspicioso lhe venha pela frente.

Sem maiores arroubos de criatividade, "Glassland" soa como um pesadelo familiar: quase monocórdio, angustiante e triste, mas ao mesmo tempo dono de um calor humano contagiante. Toni Collette (que rodou suas cenas em apenas SEIS dias!) está mais uma vez perfeita, encontrando o tom ideal de uma personagem que poderia facilmente cair em clichês ou tornar-se desagradável, e a maneira com que o irlandês Barrett encerra seu filme (com um final em aberto disposto a várias possibilidades de final feliz) faz dele um nome a ser observado de perto - seu filme seguinte, "Brain on fire", produzido por Charlize Theron e estrelado por Chloe Grace Moretz, estreou em 2016 na Netflix e mostrou uma versatilidade muito bem-vinda a Hollywood, sempre carente de talento e sensibilidade.

sexta-feira

FRANKIE & JOHNNY

FRANKIE & JOHNNY (Frankie & Johnny, 1991, Paramount Pictures, 118min) Direção: Garry Marshall. Roteiro: Terrence McNally, baseado em sua peça teatral "Frankie and Johnny in the Clair de Lune". Fotografia: Dante Spinotti. Montagem: Jacqueline Cambas, Battle Davis. Música: Marvin Hamlisch. Figurino: Rosanna Norton. Direção de arte/cenários: Albert Brenner/Kathe Klopp. Produção executiva: Michael Lloyd, Charles Mulvehill, Alexandra Rose. Produção: Garry Marshall. Elenco: Michelle Pfeiffer, Al Pacino, Kate Nelligan, Hector Elizondo, Glenn Plummer. Estreia: 11/10/91

Quase uma década separa o primeiro encontro nas telas entre Al Pacino e Michelle Pfeiffer. Em 1983, quando fizeram "Scarface", de Brian De Palma, Pacino já era um grande nome em Hollywood, com várias indicações ao Oscar e alguns clássicos no currículo, enquanto a bela Pfeiffer tentava emplacar no cinema e provar-se mais capaz do que simplesmente arrancar suspiros do público masculino. Oito anos mais tarde, muita coisa havia mudado: o veterano ator, depois de um exílio voluntário no teatro, retornava às telas com garra total (e elogios rasgados por filmes como "O poderoso chefão - parte 3" e "Dick Tracy", ambos de 1990), e a deslumbrante ex-modelo finalmente estava estabelecida como atriz de primeira grandeza, com duas indicações à estatueta e o respeito da indústria. Não é de admirar, portanto, que em "Frankie & Johnny", o filme responsável por seu reencontro, o que se veja é um amigável duelo de interpretações, entre dois astros consagrados e sem mais nada a provar a ninguém. O que surpreende, na verdade, é o quanto Michelle consegue se destacar mesmo diante de um monstro como Pacino!

Dirigidos por Garry Marshall - recém saído do estrondoso sucesso de "Uma linda mulher" (90) - e com base em uma peça teatral que contou com F. Murray Abraham e Kathy Bates em uma de suas montagens, "Frankie & Johnny" é um drama romântico que abre mão de vários dos clichês do gênero em busca de um tom mais realista e menos fantasioso. Os protagonistas, por exemplo, estão longe de serem jovens atléticos e milionários em busca de um romance de cinema: Johnny é um ex-presidiário solitário, que não tem coragem de reaproximar-se da ex-mulher e dos filhos mas deseja uma vida menos à margem da sociedade; e Frankie, depois de um relacionamento abusivo e violento, só quer ter paz para poder assistir a filmes no sossego de seu pequeno apartamento - e ocasionalmente divertir-se com o vizinho e melhor amigo, Tim (Nathan Lane). O encontro entre eles não se dá em um cenário paradisíaco e fotogênico de Nova York, mas sim no pequeno restaurante onde ela é garçonete e ele começa a trabalhar como cozinheiro. E não, não há intrigas e mal-entendidos durante o percurso entre seu primeiro contato e o amor que enfim surge: o autor da peça (e do roteiro), Terrence McNally, faz questão de manter tudo o mais perto possível do dia-a-dia, do mundano, do crível. Talvez por isso as plateias não tenham correspondido tão bem: com uma bilheteria de pouco mais de 20 milhões de dólares nos EUA, o filme de Marshall acabou conquistando apenas a crítica - e mesmo assim, com reservas. Pfeiffer foi indicada ao Golden Globe de melhor atriz dramática, mas Pacino foi simplesmente ignorado por todas as cerimônias de premiação do ano.


É fácil compreender o motivo pelo qual Pfeiffer chamou mais a atenção do que seu experiente colega de cena: enquanto ela opta por um caminho mais sutil e delicado de atuação, de acordo com o passado e o presente de sua personagem, Pacino encara seu Johnny como um homem que, apesar dos pesares, ainda mantém o bom humor e a esperança, frequentemente exagerando em suas tentativas de conquistar Frankie através de sua personalidade despachada. Nem sempre Pacino acerta o tom, e essa irregularidade acaba por jogar luz no trabalho minimalista de Michelle, cujo sorriso reflete com segurança a complexidade interna de uma mulher que não acredita no amor, mas que de certa forma precisa dele para sentir-se completa. Os diálogos de McNally são inteligentes e certeiros - respeitam seus protagonistas e a plateia com sensibilidade e humor - e a direção de Marshall, apesar de quadradinha em excesso, não atrapalha a dinâmica de seu elenco ou a fluidez da trama: como sempre em sua filmografia, ele sabe como transformar cenas simples em momentos no mínimo agradáveis. E se, em determinadas passagens parece tudo verborrágico demais, é bom lembrar das origens teatrais do texto e embarcar em uma história que (felizmente) dispensa artifícios narrativos e lances folhetinescos.

"Frankie & Johnny" é, em suma, um drama romântico para adultos. Sensível, delicado e inteligente, peca apenas por ser simples demais em sua essência - o que muitas vezes afugenta um público acostumado com excessos de todo tipo. Ao contrário da maioria de seus congêneres, não é o final feliz a todo custo que almeja, mas sim a empatia com seus protagonistas, a compreensão de suas idiossincrasias e a torcida para que, no desfecho, tudo saia como eles procuram - independentemente se isso virá com eles juntos ou não. É louvável que seu diretor tenha conseguido realizá-lo logo em seguida a seu êxito maior - justamente uma comédia romântica típica - sem deixar-se contaminar por maneirismos: são dois filmes opostos, apesar de seu tema comum (o amor), e Marshall comprovou que talento em perceber o humano em cada personagem era algo que realmente não lhe faltava. Vale experimentar, mas sem esperar os lugares-comuns do gênero.

quinta-feira

A FERA DO ROCK

A FERA DO ROCK (Great balls of fire!, 1989, Orion Pictures, 108min) Direção: Jim McBride. Roteiro: Jack Baran, Jim McBride, livro de Myra Lewis, Murray Silver Jr.. Fotografia: Affonso Beato. Montagem: Lisa Day, Pembroke Herring, Bert Lovitt. Figurino: Tracy Tynan. Direção de arte/cenários: David Nichols/Lisa Fischer. Produção executiva: Michael Grais, Mark Victor. Produção: Adam Fields. Elenco: Dennis Quaid, Winona Ryder, Alec Baldwin, Stephen Tobolowski, John Doe, Trey Wilson, Lisa Blount. Estreia: 30/6/89


Uma das afirmações mais corretas que se pode fazer a respeito de “A fera do rock” é que, ao contrário de muitas cinebiografias de astros da música que chegam às telas com assustadora frequência, ele é um filme que foge radicalmente de academicismos e da tentação de mitificar seu protagonista. Figura principal de um escândalo que abalou sua carreira e o impediu de alcançar seu objetivo de ser “o novo Elvis Presley”, o roqueiro Jerry Lee Lewis encontrou no cineasta Jim McBride um cronista que, se combinou perfeitamente com sua personalidade anárquica e iconoclasta, ao mesmo tempo incomodou a todos: fãs, familiares, biógrafos e o próprio Lee Lewis. De nada adiantou McBride defender sua obra dizendo que nunca teve a intenção de criar um documento histórico – a gritaria foi grande e o resultado nem valeu tanto a pena assim. Nitidamente avesso a narrativas convencionais, “A fera do rock” fracassou nas bilheterias – e, a não ser que seja assistido como a grande brincadeira que no fundo ele é, é um filme bastante insatisfatório – e até um pouco bobo demais.

Talvez contaminado pelo tom quase folclórico de seu personagem principal, Jim McBride exagerou na alegoria e, rejeitando o naturalismo de sua filmografia até então – que incluía até mesmo um remake do clássico francês “Acossado” (rebatizado de “A força do amor” e merecidamente ignorado) -, construiu um filme que é uma celebração do kitsch. Das cores fortes que remetem ao Technicolor da época em que se passa sua ação até os cenários e os figurinos, tudo em “A fera do rock” transpira excessos. McBride brinca até mesmo quando acrescenta coreografias inesperadas a cenas aparentemente comuns, e jamais ultrapassa a superficialidade na construção de seus personagens. Assim como a casa de Lee Lewis e sua nova (e adolescente) esposa, tudo que o cerca parece ser de plástico, obviamente partes de um cenário construído de forma a renegar o realismo e acentuar o clima de eterna festa da vida do cantor (ao menos da vida como contada pelo roteiro – levemente inspirado na biografia escrita por Murray Silver Jr. com base nas memórias de Myra, a primeira (e mais polêmica) mulher do roqueiro. Se os próprios Silver e Myra repudiaram o resultado final é difícil saber até onde vão as liberdades tomadas pelo diretor – mas quem não procurar acuidade histórica e quiser apenas saber (ainda que pouco) da vida de Lee Lewis, o filme pode até ser um entretenimento razoável.



Para quem não sabe, Jerry Lee Lewis esteve a ponto de substituir Elvis Presley no coração das fãs – especialmente quando o rei do rock foi convocado para servir ao exército americano. Dono de uma personalidade expansiva (até demais) e de uma criatividade que muitas vezes assustava aos desavisados, Lee Lewis seguiu um caminho bastante diverso daquele trilhado por seu primo Jimmy Swaggart – que tornou-se um dos pastores católicos mais conhecidos dos EUA e que frequentemente batia de frente com as atitudes do roqueiro. Irresponsável e dono de um talento raro para transformar um simples piano em um instrumento capaz de levantar a plateia jovem, Lee Lewis praticamente jogou a carreira fora quando apaixonou-se e casou-se com sua prima de apenas 13 anos de idade, Myra (vivida por uma juvenil e encantadora Winona Ryder): com o escândalo descoberto, primeiro o público europeu e depois o resto do mundo, lhe virou as costas, em uma demonstração de conservadorismo radical. Não foi à toa: não apenas Myra era praticamente uma criança (como demonstra seu desespero ao perceber que não é capaz de cuidar da própria casa) como era filha do primo e colega do cantor – que havia lhe dado um lugar para morar quando ele estava começando a carreira. Mesmo a mentalidade mais aberta e liberal teria dúvidas a respeito do caso – dá para imaginar, então, na sociedade norte-americana dos anos 50...

Incorporando totalmente o espírito festivo da visão de Jim McBride, o ator Dennis Quaid faz de seu Jerry Lee Lewis um fauno libertino e hedonista – muitas vezes pesando a mão na caracterização e chegando perto do overacting. É difícil imaginar, por exemplo, como seria se outros projetos envolvendo o roqueiro tivessem ido adiante: Martin Scorsese, por exemplo, imaginava Robert De Niro no papel (e é impossível visualizar De Niro fazendo as macaquices de Quaid ou Scorsese abdicando de seu impecável bom gosto visual para abraçar o colorido cafona de McBride). E Michael Cimino também pensou em dar a sua versão da história, com Mickey Rourke (!!) no papel principal, o que seria no mínimo curioso. O fato é que McBride foi quem passou do plano à ação e, embora não tenha sido completamente feliz, pode-se destacar algumas boas ideias, como um jovem Alec Baldwin na pele Jimmy Swaggart e Winona Ryder (com um papel que quase foi de Drew Barrymore) como a inocente Myra – que sofre com o machismo do marido já na noite de núpcias, quando é acusada de “não comportar-se como uma virgem”. Ryder – que preferiu Myra a participar do elenco feminino de peso de “Flores de aço” e deu chance à Julia Roberts concorrer ao primeiro Oscar – está em um belo momento da carreira, dosando bem a candura e a paixão de sua personagem, que serve como um ponto de equilíbrio à bagunçada vida do protagonista. Ryder e Baldwin, que juntos também fariam “Os fantasmas se divertem” (88), são as melhores coisas do filme – a não ser que se conte, é claro, com a trilha sonora, regravada pelo próprio Jerry Lee Lewis e bem dublada por Dennis Quaid. Para quem gosta do bom e velho rock’n’roll é imperdível! Para os curiosos é apenas ok.

quarta-feira

O FILHO DA NOIVA

O FILHO DA NOIVA (El hijo de la novia, 2001, Instituto Nacional de Cine y Artes Audiovisuales, 123min) Direção: Juan José Campanella. Roteiro: Juan José Campanella, Fernando Castets. Fotografia: Daniel Shulman. Montagem: Camilo Antolini. Música: Ángel Illarramendi. Figurino: Cecilia Monti. Direção de arte/cenários: Mercedes Alfonsin/Pablo Racioppi. Produção executiva: Juan Pablo Galli, Juan Vera. Produção: Mariela Besuievksy, Fernando Blanco, Pablo Bossi, Gerardo Herrero, Jorge Estrada Mora. Estreia: 16/8/01

Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro


Mais do que apenas o representante oficial da Argentina ao Oscar de melhor filme estrangeiro na cerimônia de 2002, “O filho da noiva” marca também a segunda colaboração entre o roteirista/cineasta Juan José Campanella e o ator Ricardo Darín – vindo logo em seguida de “O mesmo amor, a mesma chuva” (99) e imediatamente antes do (esse sim oscarizado) “O segredo dos seus olhos” (2009). Já empregando alguns dos ingredientes que conquistam o espectador de seus trabalhos – a delicadeza da relação entre os personagens, o senso de humor sutil, a crítica discreta à sociedade argentina e doses comedidas de emoção -, o filme tornou-se um sucesso incontestável de público e confirmou Darín como o mais popular astro de cinema de seu país, a cara de uma filmografia que, a despeito da crise econômica, demonstrou uma corajosa vitalidade e uma supreendente criatividade. Dando sequência à boa fase que também ofereceu aos cinéfilos o divertido “Nove rainhas” (2000), “O filho da noiva” é valorizado ainda pela presença luminosa de Norma Aleandro – mesmo em um papel pequeno, a grande dama argentina rouba a cena com uma atuação que estabelece o tom sentimental e familiar da trama criada por Campanella.

Darín, competente como sempre, vive Rafael Belvedere, um quarentão em crise em praticamente todos os setores da vida: separado da primeira mulher, sofre pressão da parte dela para ter maior contato com a filha adolescente; sua nova namorada, Naty (Natalia Verbeke) cobra um comprometimento maior em sua relação; o restaurante de sua família passa por momentos complicados devido à crise econômica do país; e, para completar o panorama, seu pai, Nino (Héctor Alterio) tem planos de comemorar as bodas de prata de seu casamento com uma cerimônia de renovação de votos – um desejo complicado pelo fato de sua esposa, Norma (Norma Aleandro), estar internada em uma clínica, sofrendo de Alzheimer. Um inesperado ataque cardíaco e o reencontro com Juan Carlos (Eduardo Blanco), um amigo de juventude, fazem com que Rafael reflita sobre sua vida e tente encontrar uma saída que o permita levar uma existência menos opressora e mais próxima de seus familiares.

Apesar de situar seu protagonista em meio a um furacão pessoal impiedoso, o roteiro de “O filho da noiva” evita pesar a mão no dramalhão, equilibrando, como é comum na filmografia de Juan José Campanella, momentos de extrema sensibilidade com outros dotados de um delicioso senso de humor. Mais uma vez Ricardo Darín se mostra o intérprete ideal para personagens criados pelo cineasta – seu rosto comum e de fácil empatia com o público traduz com perfeição o homem argentino médio, dividido entre trabalho e vida pessoal e lutando para atravessar suas crises pessoais sem perder a essência do que o faz um ser humano. E se seu carisma fortalece cada cena, ele encontra em Héctor Alterio e Norma Aleandro parceiros inestimáveis: sempre que a dupla de veteranos irrompe em cena, o filme se enche de beleza e emoção – principalmente em seus últimos momentos, quando Campanella finalmente resolve baixar a guarda e permitir que o público se entregue de vez às lágrimas.

Uma mistura agradável de drama familiar e comédia de costumes, “O filho da noiva” é, ao mesmo tempo, uma crítica sutil à sociedade argentina, soterrada por crises econômicas que empurram seus habitantes a sofríveis relações interpessoais enquanto luta pela sobrevivência. Rafael é um retrato vivo do país – alguém que, no fundo, precisa urgentemente reorganizar suas prioridades para reencontrar sua humanidade e autorrespeito. Juan José Campanella consegue o feito admirável de contar sua história de forma a nunca subestimar a emoção do espectador ao mesmo tempo em que o faz pensar sobre sua própria realidade social. Um belo filme – que perdeu o Oscar não para o franco-favorito “O fabuloso destino de Amélie Poulain”, mas para o esloveno “Terra de ninguém”. Parecia que a Academia sabia que, por melhor que já parecesse, o cineasta conseguiria ser ainda melhor em um futuro próximo – que o diga “O segredo dos seus olhos”!

TRÊS ANÚNCIOS PARA UM CRIME

TRÊS ANÚNCIOS PARA UM CRIME (Three billboards outside Ebbing, Missouri, 2017, Fox Searchligth Pictures/Film4, 155min) Direção e roteiro: M...