Mostrando postagens com marcador CATE BLANCHETT. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador CATE BLANCHETT. Mostrar todas as postagens

sábado

CONSPIRAÇÃO E PODER

CONSPIRAÇÃO E PODER (Truth, 2015, Sony Pictures Classics, 125min) Direção: James Vanderbilt. Roteiro: James Vanderbilt, livro "Truth and duty: the press. the president, and the privilege of power", de Mary Mapes. Fotografia: Mandy Walker. Montagem: Richard Francis-Bruce. Música: Brian Tyler. Figurino: Amanda Neale. Direção de arte/cenários: Fiona Crombie, Kirk Petruccelli/Glen W. Johnson. Produção executiva: Antonia Barnard, Mikkel Bondesen, James Packer, Steven Silver, Neil Tabatznik. Produção: Bradley J. Fischer, Doug Mankoff, Brett Ratner, William Sherak, Andrew Spaulding, James Vanderbilt. Elenco: Cate Blanchett, Robert Redford, Dennis Quaid, Topher Grace, Elisabeth Moss, Bruce Greenwood, Stacy Keach, Dermot Mulroney. Estreia: 12/9/15 (Festival de Toronto)

O romance entre o cinema e os bastidores do jornalismo já rendeu clássicos inquestionáveis, desde aqueles que defendem a imprensa - "Todos os homens do presidente" (76) - até aqueles que criticam seus abusos - "A montanha dos sete abutres" (57) e "Rede de intrigas" (76). Em 2015, para marcar sua estreia como diretor, o roteirista James Vanderbilt resolveu acrescentar mais um título à primeira lista com "Conspiração e poder", transposição para as telas de uma história real que abalou o telejornalismo norte-americano em 2004 e colocou o então candidato à reeleição George W. Bush diante de um escândalo que quase lhe custou o segundo mandato - mas que, por incrível que pareça, prejudicou muito mais a equipe jornalística do prestigiado "60 minutos", incluindo seu respeitado apresentador Dan Rather. Com base no livro escrito por Mary Mapes, a produtora do programa e principal mira do ataque dos partidários de Bush, Vanderbilt - autor do elogiado script de "Zodíaco" (06), de David Fincher - amargou um fracasso de bilheteria e foi ignorado pelas cerimônias de premiação, mas não faz feio em comparação com outros filmes do gênero, principalmente pela equação equilibrada entre uma boa história e um elenco afiadíssimo, liderado por Cate Blanchett e Robert Redford - coincidentemente um dos atores centrais do icônico "Todos os homens do presidente".

Se no celebrado filme de Alan J. Pakula o galã mais cobiçado das décadas de 60 e 70 vivia um dos repórteres que desmascararam o presidente Richard Nixon no escândalo chamado Watergate, dessa vez Redford assume com tranquilidade um papel de segundo plano, ainda que igualmente importante para os desdobramentos da ação. Cabe à Cate Blanchett - linda e excelente atriz como sempre - a função de estar na linha de frente. Ela vive Mary Mapes, uma competente e dedicada produtora jornalística, responsável por algumas das pautas mais premiadas e importantes do programa "60 Minutos", apresentado pelo veterano Dan Rather (Redford, em atuação elogiada pelo próprio repórter) na CBS. Conhecida por sua fé no jornalismo como fonte de levar a verdade ao público, ela põe a mão em uma matéria de enorme potencial político quando, em 2004, descobre uma série de documentos que comprovam que o então jovem George W. Bush usou de sua influência política e financeira para fugir da Guerra do Vietnã - e, pior ainda, desertou do serviço militar por um período de tempo. Partindo apenas da palavra de Bill Burkett (Stacy Keach) um ex-militar ressentido contra o governo, e com pressa de colocar o programa no ar antes das eleições, Mapes logo sente o gostinho do sucesso ser substituído pelo sabor amargo da opinião pública: peritos surgem para questionar os documentos, testemunhas antes seguras dos fatos mudam de ideia e até mesmo alguns poderosos da emissora passam a duvidar da veracidade da notícia. Sua carreira, até então intocável, passa a depender de ela conseguir provar suas acusações.





Imprimindo um tom sóbrio e elegante à sua narrativa, James Vanderbilt faz uma estreia bastante competente, com bom uso de todos os elementos clássicos do gênero e a exploração correta de cada membro de sua equipe, da diretora de fotografia Mandy Walker e do editor Richard Francis-Bruce - indicado ao Oscar por "Um sonho de liberdade" (94) e "Seven" (95) - até a trilha sonora minimalista, quase imperceptível, de Brian Tyler, que só se faz notar em momentos cruciais, mantendo-se discreta e eficaz durante toda a projeção. Tomando claramente o lado de Mapes na questão - afinal de contas o ponto de vista é dela - e questionando com contundência os mecanismos da busca incansável pela verdade no jornalismo, Vanderbilt cria um panorama bastante rico da situação, conduzindo a plateia pelos meandros do telejornalismo sem nunca perder de mão seu interesse pelos personagens. O time formado por Mapes é tratado com carinho e particular interesse, explorando os desejos e ambições de cada um que a cerca. Há Roger Charles (Dennis Quaid), um militar aposentado e ainda fiel à sua vocação, mas ainda mais leal à verdade; há o jovem Mike Smith (Topher Grace), cuja carreira repleta de altos e baixos trai sua sede de aventuras; e há Lucy Scott (Elizabeth Moss), que entra na jogada com o objetivo de somar pontos à sua carreira e acaba por encontrar um labirinto traiçoeiro. O roteiro dá espaço a cada um desses personagens, mas jamais perde o foco - e essa é sua maior qualidade.

Sem buscar apoio em momentos cômicos ou românticos, "Conspiração e poder" é um retrato atraente e envolvente de um assunto cada vez mais em voga em tempos tão vorazes em termos de informação (e má informação): discutindo os limites da ética e a força do dinheiro e do poder em questões de alto impacto, o roteiro é uma aula de narrativa simples e direta. Apesar de sua verborragia - algo de que poucos filmes sobre o assunto conseguem escapar - e do interesse quase restrito ao público norte-americano (que fez pouco caso do filme nas bilheterias, injustamente), é uma produção de classe e inteligência, que conquista o espectador pelo cérebro e não pela adrenalina. Pode soar um tanto esquemático e frio para quem busca mais tensão e um grande clímax, mas é potente o bastante para permanecer na memória - em especial graças ao desempenho exemplar (mais um!) de Cate Blanchett. Corpo e alma do filme, ela responde pelas cenas mais intensas da produção - em especial em seu embate final com seus inquisidores, liderados por Dermot Mulroney. Estoica, corajosa e brilhante, Mary Mapes encontrou em Blanchett a intérprete ideal. E ao público, resta aplaudir.

domingo

CAROL

CAROL (Carol, 2015, The Weinstein Company, 118min) Direção: Todd Haynes. Roteiro: Phyllis Nagy, romance de Patricia Highsmith. Fotografia: Edward Lachman. Montagem: Affonso Gonçalves. Música: Carter Burwell. Figurino: Sandy Powell. Direção de arte/cenários: Judy Becker/Heather Loeffler. Produção executiva: Dorothy Berwin, Cate Blanchett, Robert Jolliffe, Danny Perkins, Tessa Ross, Thorsten Schumacher, Andrew Upton, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Elizabeth Karlsen, Christine Vachon, Stephen Wooley. Elenco: Cate Blanchett, Rooney Mara, Sarah Paulson, Kyle Chandler, Jake Lacy, John Magaro. Estreia: 17/5/15 (Festival de Cannes)

6 indicações ao Oscar: Atriz (Cate Blanchett), Atriz Coadjuvante (Rooney Mara), Roteiro Adaptado, Fotografia, Trilha Sonora Original, Figurino
Vencedor da Palma de Ouro (Melhor Atriz) no Festival de Cannes: Rooney Mara

Em 1952, um romance chamado "The price of salt", escrito por uma autora chamada Claire Morgan chegou às livrarias norte-americanas contando a história de amor entre uma socialite e uma jovem aspirante a fotógrafa, mais jovem e inexperiente. Nos anos 60, uma tentativa de adaptar o livro para as telas, com a estrela Lana Turner no papel principal, acabou abortada - e é difícil, hoje em dia, imaginar como poderia ter sido, uma vez que na época a censura sobre os estúdios hollywoodianos era rígida e conservadora ao extremo, a ponto de, segundo consta, uma adaptação ter sido feita com a alteração do sexo da protagonista. Relançado em 1984 por uma editora especializada em literatura lésbica, o livro voltou à pauta, mas foi somente em 1990 que, depois de muitos rumores, finalmente a desconhecida Morgan resolveu assumir sua verdadeira identidade em uma nova edição inglesa: a autora do polêmico romance era a mesma Patricia Highsmith cujo talento para as tramas de suspense já havia inspirado Alfred Hitchcock (em "Pacto sinistro", de 1951), René Clement ("O sol por testemunha", de 1960) e Wim Wenders ("O amigo americano", de 1977). Inspirada em uma história vivida pela própria Highsmith nos anos 40, "The price of salt"só viu a luz dos refletores mais de sessenta anos depois de sua primeira publicação: com o título de "Carol", o filme de Todd Haynes estreou no Festival de Cannes de 2015 sob uma chuva de calorosos e demorados aplausos, e saiu da Riviera Francesa com o prêmio de melhor atriz para Rooney Mara. Começava ali sua consagração como um dos melhores filmes da temporada.

Unanimemente elogiado como um drama romântico elegante e intenso, "Carol" foi colecionando prêmios e indicações por toda a sua carreira internacional, até culminar na agridoce lista dos candidatos ao Oscar: tido como certo na disputa, acabou ficando de fora dos concorrentes à melhor filme e diretor - mesmo que Haynes já tivesse, então, prêmios dos críticos de Nova York, Boston, Toronto e da National Society of Film Critics. A esnobada da Academia - que apesar disso lembrou do filme em outras categorias importantes, como atriz, atriz coadjuvante e roteiro adaptado - decepcionou os fãs, mas não diminui a importância do filme. Um dos mais sensíveis e maduros retratos do amor entre mulheres mostrados nas telas, "Carol" é também uma história sobre tolerância, amadurecimento e a importância que as escolhas tem na vida de qualquer pessoa. Emoldurado por um visual arrebatador, uma trilha sonora impecável e um elenco fascinante, é também uma bela e dolorosa história de amor e desejo, contada através da lente da sofisticação e da sutileza.


Interpretada por uma Cate Blanchett cada vez mais etérea e deslumbrante, Carol é uma mulher da alta sociedade nova-iorquina dos anos 50, presa por convenções sociais a um casamento sem amor e a um relacionamento quase abusivo com o agressivo Harge Aird (Kyle Chandler, em atuação expressiva e forte). Para não perder a guarda da filha pequena, Carol mantém discrição de seus romances extraconjugais com outras mulheres, mas é lógico que isso não escapa da atenção do marido, que finge desconhecer esse lado de sua personalidade. As coisas começam a sair do controle, porém, quando Carol conhece e se sente imediatamente atraída por Therese Belivet (Rooney Mara, indicada ao Oscar de coadjuvante mesmo sendo tão protagonista quanto Blanchett). Tímida e inexperiente, Therese sonha em seguir uma carreira de fotógrafa e conhece a delicada socialite quando está em um emprego temporário de Natal. Não demora para que o charme e a poder de sedução de Carol acabe por conquistar a jovem, que se entrega, então, em um romance até então inédito em sua vida. O idílio entre as duas, porém, é posto à prova quando Harge resolve lançar mão de seu maior trunfo para separá-las e manter a esposa a seu lado. Confrontada com a verdade sobre si mesma em vias de ser exposta, a Carol resta contar com o apoio da melhor amiga, Abby (Sarah Paulson), e decidir qual o melhor caminho para sua vida: o amor ou a filha.

Fotografado com precisão por Edward Lachman - que usa e abusa de superfícies envidraçadas como metáfora de tudo que separa as protagonistas - e com uma reconstituição de época deslumbrante (o figurino de Sandy Powell também foi lembrado pelo Oscar), "Carol" é um filme cuja elegância é indiscutível. A bela trilha sonora de Carter Burwell pontua com determinação o tom imposto pela direção romântica de Haynes, reforçando com sutileza o turbilhão de sentimentos envolvidos na trama. Cuidadoso com todos os detalhes, o cineasta faz uso de pequenas ações para sublinhar as emoções de suas personagens - Carol fuma apenas em situações extremas, nunca quando está feliz ou realizada, por exemplo - e constrói, delicadamente, uma história onde cada olhar, cada gesto, cada entonação de voz é essencial para a melhor assimilação de tudo que é mostrado, como um trabalho de ourives que dá a cada pedaço da joia sua devida importância para a beleza do conjunto. Orquestrando até mesmo as cenas de sexo com extremo bom-gosto, o diretor conta também com a ajuda imprescindível de um elenco em dias muito inspirados.

Injustamente esquecido pelas cerimônias de premiação, Kyle Chandler entrega um desempenho exemplar como o terceiro vértice do triângulo amoroso central, o marido traído que transforma em obsessão sua determinação em destruir o romance extraconjugal da esposa, mesmo que usando de subterfúgios eticamente dúbios. Rooney Mara, justificando seu prêmio em Cannes e sua indicação ao Oscar, constrói uma Therese cuja fragilidade física vai se transformando, aos poucos, em uma coragem de aço, e Cate Blanchett desfila sua classe pela tela com uma personagem que lhe dá a chance de explorar todas as nuances de seu imenso talento: sem apelar para cenas lacrimosas ou piegas, ela oferece uma atuação devastadora, centrada unicamente no uso exemplar da voz, do corpo e do olhar. Não é à toa que o filme tem o nome de sua personagem: Blanchett é uma força da natureza que transforma o ato de acompanhar uma história de amor simples e corriqueira em uma experiência recompensadora. "Carol" não é apenas uma love story homossexual: é um conto sobre a força do amor e da paixão sobre o preconceito e a intolerância. Belíssimo!

sexta-feira

BLUE JASMINE

BLUE JASMINE (Blue Jasmine, 2013, Focus Features/Sony Pictures Classics, 98min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Javier Aguirresarobe. Montagem: Alisa Lepselter. Figurino: Suzy Benzinger. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Kris Boxell. Produção executiva: Leroy Schecter, Adam B. Stern. Produção: Letty Aronson, Stephen Tenenbaum, Edward Walson. Elenco: Cate Blanchett, Sally Hawkings, Peter Sarsgaaard, Alec Baldwin, Bobby Cannavale, Andrew Dice Clay, Louis C.K.. Estreia: 26/7/13

Indicado a 3 Oscar: Melhor Atriz (Cate Blanchett), Atriz Coadjuvante (Sally Hawkings), Roteiro Original
Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Cate Blanchett)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Cate Blanchett) 



Em “Match point, ponto final” (05), Woody Allen pegou emprestada a trama central de “Uma tragédia americana”, de Theodore Dreiser, mesclou elementos de “Crime e castigo”, de Dostoievski, salpicou erotismo e as belas paisagens de Londres e, com seu estilo peculiar de contar uma história, realizou um de seus melhores trabalhos. Oito anos mais tarde, mostrou que, em suas mãos talentosas, a receita pode sempre render grandes momentos de entretenimento. Em “Blue Jasmine” a inspiração surgiu de “Uma rua chamada Pecado”, escrita por Tennessee Williams e montada nos palcos pela primeira vez em 1947 – e, logicamente, transposta para o cinema sob o comando de Elia Kazan e a ajuda inestimável da brilhante Vivien Leigh e de um então estreante Marlon Brando, em 1951. Assim como na peça de Williams, a protagonista é uma ex-beldade sulista decadente e desequilibrada que tenta reerguer-se na vida à base de mentiras e meias-verdades enquanto se hospeda na casa da irmã caçula bem menos ambiciosa. E, assim como a Blanche Dubois de Kazan levou Leigh a seu segundo Oscar, a Jasmine de Allen também rendeu ouro à sua intérprete. Arrebatadora no papel, a australiana Cate Blanchett saiu da temporada 2013/2014 com todos os prêmios possíveis e imagináveis da indústria do cinema, reafirmando o status de Woody como um dos melhores diretores de atrizes do cinema contemporâneo. Mérito dele ou de Blanchett, não importa: cada estatueta foi mais do que merecida.

Fazendo uso de sua elegância natural e sua aparência refinada, Blanchett constrói uma Jasmine complexa e capaz de despertar na plateia sentimentos contraditórios. Não é exatamente simpática – trata o namorado da irmã aos pontapés e despreza os pretendentes que fogem de suas várias exigências financeiras e sociais – e tampouco afável com quem a rodeia (nem mesmo os estranhos de cuja bondade depende). Ao mesmo tempo, fica difícil não se deixar conquistar por suas tentativas desastradas e equivocadas de reconquistar os bons tempos de uma vida que, só ela parece não aceitar, já está morta e enterrada. Jasmine French – cujo nome verdadeiro ela deixou para trás quando casou-se com o milionário Hal (Alec Baldwin) – começa o filme chegando à São Francisco, onde irá passar um tempo com a irmã, Ginger (Sally Hawkins). Atravessando uma grave crise em todos os setores da vida – o marido matou-se na cadeia, acusado de uma fraude milionária e ela perdeu todo o seu dinheiro e a influência social – Jasmine arruma emprego como assistente de um dentista mas não consegue acostumar-se com a rotina de classe média que abandonou há tanto tempo. Sua tábua de salvação surge na figura de Dwight (Peter Sarsgaard), um homem que pode finalmente lhe devolver o status perdido – a não ser que a própria mania de reinvenção de Jasmine a atrapalhe.



É notória a forma com que Woody Allen comanda seus atores, deixando todos à vontade para trabalhar como melhor lhes agradar. Para “Blue Jasmine” ele entregou o roteiro integral somente a suas duas atrizes centrais, que puderam, então, criar uma dinâmica das mais inventivas – e que resultou em uma química faiscante. Em vários encontros, Cate Blanchett e Sally Hawkins (que acabou indicada ao Oscar de coadjuvante) conceberam um passado completo para as duas irmãs e, ainda que tais ideias nunca surjam para o conhecimento da plateia, os conflitos serviram para que suas cenas sejam sempre dotadas de uma energia avassaladora. Hawkins, conhecida por seu desempenho premiado em “Simplesmente feliz” (08), faz o contraponto perfeito à angústia desesperada de Jasmine, com uma esperança e uma alegria contagiantes, mesmo quando se deixa manipular pela irmã em seus delírios de grandeza. No embate entre as duas excelentes atrizes, pouco espaço sobra para os coadjuvantes masculinos, mas mesmo assim Alec Baldwin (como o encantador mau-caráter Hal French), Peter Sarsgaard (na pele do ingênuo futuro marido de Jasmine) e Bobby Cannavale (interpretando o apaixonado namorado de Ginger, o abrutalhado Chilli) conseguem a façanha de destacar-se, em atuações bem acima da média.

Um Woody Allen da melhor safra, “Blue Jasmine” também foi lembrado pela Academia de Hollywood por seu roteiro – em que o cineasta brinca com a origem da história sem nunca se prender aos limites da trama. Se na história de Tenessee Williams o clima pesava, com violência sexual e neuroses no limite do suportável, no filme de Allen a situação nunca chega a tais extremos, preferindo cercar os personagens com um senso de humor sutil e uma aura de modernidade. Assim como nos melhores filmes de Allen, a risada que surge em “Blue Jasmine” tem um certo ar de melancolia e nervosismo. E como é bom ver que o velho e bom Woody ainda consegue apertar os botões certos para conquistar tais risadas e jogar luz no jogo de hipocrisias da sociedade americana...

O CURIOSO CASO DE BENJAMIN BUTTON

O CURIOSO CASO DE BENJAMIN BUTTON (The curious case of Benjamin Button, 2008, Warner Bros/Paramount Pictures, 166min) Direção: David Fincher. Roteiro: Eric Roth, conto de F. Scott Fitzgerald. Fotografia: Claudio Miranda. Montagem: Kirk Baxter, Angus Wall. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Jacqueline West. Direção de arte/cenários: Donald Graham Burt/Victor J. Zolfo. Produção: Ceán Chaffin, Kathleen Kennedy, Frank Marshall. Elenco: Brad Pitt, Cate Blanchett, Taraji P. Henson, Tilda Swinton, Julia Ormond, Elias Koteas. Estreia: 25/12/08

13 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (David Fincher), Ator (Brad Pitt), Atriz Coadjuvante (Taraji P. Henson), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Efeitos Visuais, Maquiagem, Mixagem de Som
Vencedor de 3 Oscar: Direção de Arte/Cenários, Maquiagem, Efeitos Visuais

Um dos mais inventivos e inteligentes cineastas americanos surgidos a partir da década de 90, o americano David Fincher - egresso da indústria do videoclipe, onde assinou trabalhos célebres como "Freedom '90", de George Michael e "Vogue", de Madonna - demorou a ser reconhecido pela Academia de Hollywood, a despeito do prestígio de filmes como "Seven, os sete crimes capitais" e "Clube da luta", ambos estrelados por Brad Pitt e que obtiveram receptividade antagônicas junto à plateia - enquanto o primeiro tornou-se um grande sucesso, a adaptação do anarquista livro de Chuck Palahniuk tornou-se cult movie junto a uma parcela injustamente pequena dos fãs de cinema. Ignorado mesmo pelo excelente "Zodíaco", um drama policial que contava a busca por um dos assassinos seriais mais famosos dos EUA, Fincher só recebeu sua primeira indicação ao Oscar por "O curioso caso de Benjamin Button", filme livremente inspirado no célebre conto de F. Scott Fitzgerald, cujos direitos já haviam sido comprados para o cinema nos anos 70. Finalmente, em 2005, depois de anos de projetos infrutíferos - com nomes como Steven Spielberg, Ron Howard e Spike Jonze cotados para a direção - a bela história de um homem que sofre de uma rara condição que o faz rejuvenescer ao invés de envelhecer.

Trabalhando pela terceira vez com Brad Pitt - assumindo um papel que felizmente não ficou nas mãos de John Travolta e Tom Cruise, que eram as possibilidades quando Howard e Spielberg estavam atrelados ao projeto - Fincher criou uma obra-prima pictoria, repleta de uma poesia visual impressionante e uma qualidade narrativa fascinante que justificaram suas generosas 13 indicações ao Oscar. Se não tivesse batido de frente com o ótimo mas superestimado "Quem quer ser um milionário?" - visita de Danny Boyle ao cinema indiano que fez um arrastão na Academia - seu filme tranquilamente teria saído da cerimônia de premiação com mais estatuetas do que as míseras três conquistadas pela direção de arte, maquiagem e efeitos visuais. Uma história de amor que equilibra com precisão a tecnologia do cinema hollywoodiano com a sensibilidade da prosa de Fitzgerald, expandida pelo texto do premiado Eric Roth - que usa em seu roteiro elementos já vistos em seu oscarizado "Forrest Gump, o contador de histórias", o que deu motivo para várias críticas dos detratores - "O curioso caso de Benjamin Button" é deslumbrante, emocionante e dotado de um clima de melancolia que somente os grandes filmes possuem.


O protagonista que deu a Brad Pitt sua segunda chance de ganhar um Oscar é, provavelmente, um dos personagens mais interessantes da literatura americana do século XX e, na versão de Roth e Fincher - que apresenta algumas diferenças cruciais em relação ao original, desde seu cenário (alterado de Baltimore para Nova Orleans) até detalhes importantes na vida do próprio Button, transformados com o objetivo de aumentar a dramaticidade da premissa central - ele é apresentado como uma mistura de heroi romântico e aventureiro incurável. Abandonado no nascimento pelo pai viúvo - incapaz de lidar com sua condição - e criado pela responsável por um lar para idosos na Nova Orleans do começo do século XX (a excepcional Taraji P. Henson, indicada ao Oscar de coadjuvante), Button aos poucos acostuma-se com sua situação, mesmo quando ela o afasta da mulher que ama. Viajando pelo mundo em um barco pesqueiro, ele passa por situações que o aproximam de pessoas que acabam sendo importantes para ele, com uma excêntrica socialite que sonha atravessar o Canal da Mancha (Tilda Swinton, quase roubando o filme com suas poucas cenas) e, surpreendentemente, até mesmo seu pai.

Fotografado majestosamente por Claudio Miranda - que dá às imagens o tom exato para cada momento de espírito de seu protagonista - "O curioso caso de Benjamin Button" é uma experiência única, capaz de envolver a plateia com um visual estonteante e uma história comovente, interpretada por atores brilhantes e conduzida com mão firme por um dos cineastas mais inteligentes da Hollywood contemporânea. Uma pequena obra-prima.

quinta-feira

ELIZABETH: A ERA DE OURO


ELIZABETH, A ERA DE OURO (Elizabeth: The Golden Age, 2007, Universal Pictures, 114min) Direção: Shekar Kapur. Roteiro: William Nicholson, Michael Hirst. Fotografia: Remi Adefarasin. Montagem: Jill Bilcock. Música: Craig Armstrong, A.R. Rahman. Figurino: Alexandra Byrne. Direção de arte/cenários: Guy Hendrix Dyas/Richard Roberts. Produção executiva: Liza Chasin, Debra Hayward, Michael Hirst. Produção: Tim Bevan, Jonathan Cavendish, Eric Fellner. Elenco: Cate Blanchett, Geoffrey Rush, Clive Owen, Samantha Morton, Abbie Cornish. Estreia: 12/10/07

2 indicações ao Oscar: Atriz (Cate Blanchett), Figurino
Vencedor do Oscar de Figurino

Se existe uma prova de que em Hollywood um raio dificilmente cai duas vezes no mesmo lugar - ao menos quando não se trata de franquias milionárias - essa prova é "Elizabeth, a era de ouro". Dando seguimento ao eletrizante primeiro capítulo sobre a filha de Henrique VIII e Ana Bolena que o indiano Shekar Kapur dirigiu em 1998 - e que concorreu a Oscars importantes como melhor filme e atriz - essa continuação não teve a mesma sorte. Massacrada pela crítica e rechaçada pelo público, essa segunda parte não conseguiu ser salva nem mesmo pelo trabalho mais uma vez esplêndido de Cate Blanchett no papel central. Arrastado, confuso e com uma história bem menos interessante, serve, no entanto, para provar que em certas coisas não é bom mexer.

Ao contrário do primeiro filme, que equilibrava com maestria os dramas pessoais de Elizabeth - sua paixão proibida pelo homem errado, a polêmica em torno de seu nome para assumir o trono - com as intrigas palacianas que tentavam derrubá-la do poder, o segundo volume da vida da monarca esbarra em uma falta de foco quase constrangedora. Enquanto narra de forma preguiçosa as batalhas engendradas pela Espanha católica com o intuito de acabar com o reinado da herege Elizabeth - com algumas cenas de ação bem fraquinhas e de gosto estético duvidoso - o roteiro também conta mais uma história de amor equivocada da rainha, que se apaixona perdidamente pelo misterioso e pouco confiável Walter Raleigh (Clive Owen tentando arrancar leite de pedra), que, por sua vez, encanta-se com uma protegida da corte.


Quando direciona sua trama para as guerras marítimas e para a história política da Inglaterra, o filme de Kapur derrapa em cenas sonolentas e pouco ágeis - que chegam inclusive a ser confusas. Quando vira seu foco para o romance hesitante entre Elizabeth e Raleigh, porém, o filme cresce. Não por obra e graça do roteiro - que soa como uma pálida cópia do primeiro exemplar - mas devido ao talento imenso de Cate Blanchett. Repetindo o papel que quase lhe deu o Oscar (que perdeu de forma absolutamente injusta para Gwyneth Paltrow), a irlandesa demonstra que é capaz de transformar um filme que poderia ser uma comédia de erros em um produto memorável. É quando Blanchett está em cena que tudo faz sentido, que tudo se ilumina, que tudo é engolido. Novamente indicada à estatueta por seu trabalho (no mesmo ano em que concorreu como coadjuvante na pele de Bob Dylan em "Não estou lá") e novamente derrotada (dessa vez de forma justa, para Marion Cottilard em "Piaf, um hino ao amor"), ela é o corpo e a alma do filme de Kapur.

Mas, no final das contas, Cate Blanchett consegue salvar o filme da desgraça total? Sim e não. Sim, porque ela é extraordinariamente capaz. Mas não é a única qualidade do filme, afinal de contas. O Oscar de figurino foi justo, a trilha sonora ainda é impactante, a direção de arte é impecável e o elenco coadjuvante também não faz feio (e Geoffrey Rush reprisa seu papel de Sir Francis Walsingham). Se não tivesse um original tão bom com o qual ser comparado até não seria tão ruim assim. Mas é, sem dúvida, o patinho feio da família.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...