A CRIANÇA (L'enfant, 2005, Les Films du Fleuve, 95 min) Direção e roteiro: Jean-Pierre Dardenne, Luc Dardenne. Fotografia: Alain Marcoen. Montagem: Marie-Helène Dozo. Figurino: Monic Parelle. Direção de arte: Igor Gabriel. Produção executiva: Olivier Bronckart. Produção: Jean-Pierre Dardenne, Luc Dardenne, Denis Freyd. Elenco: Jérémie Renier, Déborah François, Jéremie Segard. Estreia: 17/5/05 (Festival de Cannes)
Palma de Ouro (Festival de Cannes)
Assim como Hollywood conta com Ethan e Joel Coen como um time cuja filmografia (quase) nunca decepciona, a Bélgica também tem uma dupla de irmãos cujo prestígio é atestado pela crítica e pelo Festival de Cannes - de onde já saíram premiados duas vezes com a Palma de Ouro de melhor filme, uma vez com o prêmio de melhor direção, três vezes com o Prêmio do Júri Ecumênico, uma vez com o Grande Prêmio do Júri e, em uma ocasião, com a láurea de Melhor Roteiro. Desde 1987 realizando longas-metragem, Jean-Pierre e Luc Dardenne, vindos do universo dos documentários, vem encantando o público de festivais internacionais e críticos do mundo inteiro com sua simplicidade estética, seu humanismo à toda prova e a delicadeza com que tratam seus personagens - invariavelmente passando por crises pessoais e/ou financeiras. Um de seus mais bem-sucedidos filmes, "A criança", não apenas lhes rendeu o prêmio máximo de Cannes 2005, como colocou-os em evidência em inúmeros festivais europeus, encantados por sua trama, capaz de emocionar e angustiar na mesma proporção. Com uma dupla central de atores completamente imersa em seus personagens e um tom de urgência quase palpável - enfatizado pela nervosa câmera de mão e pela ausência de trilha sonora -. "A criança" é um respiro de humanidade, ainda que seja preciso passar por boas doses de sofrimento para alcançar (ou não) um final feliz.
O filme começa quando a jovem Sonia (Déborah François) deixa a maternidade, com seu pequeno Jimmy nos braços. Ela sai em busca de seu namorado e pai do bebê, o irresponsável Bruno (Jérémie Renier), que vive de pequenos golpes e furtos e nem se deu ao trabalho de visitá-la durante sua estadia no hospital. Apesar de seu comportamento imaturo, Bruno realmente gosta da namorada, e juntos eles tentam encontrar maneiras de sustentar o bebê, apelando para benefícios sociais e abrigos para pessoas carentes. O idílio familiar, no entanto, dura pouco: ciente de que pode embolsar 500 euros pela venda de seu recém-nascido filho, Bruno resolve vendê-lo sem o conhecimento de Sonia. Quando ela fica sabendo da transação, o elo que os unia quebra imediatamente e o rapaz passa a tentar desesperadamente desfazer o negócio, algo que não é tão fácil quanto ele poderia pensar: além de recuperar o bebê, ele precisa também reconquistar a confiança e o amor da namorada.
O roteiro de "A criança" é simples ao extremo, ao focar sua atenção quase que exclusivamente em seu par de protagonistas - outros personagens são apenas circunstanciais, entrando em cena apenas para empurrar a trama à frente, como o adolescente que serve de sócio a Bruno em seus golpes e roubos e os responsáveis pela compra e venda de bebês. Os diretores acertam em cheio em não julgar os atos de Bruno e tampouco minimizá-los: como todo mundo, o rapaz tem qualidades e defeitos, e sua falta de maturidade pode até lhe servir de atenuante, mas não o exime de culpa e responsabilidade. Não deixa de ser interessante que o título do filme seja "A criança", já que, conforme o desenvolvimento da trama, o personagem-título tanto pode ser o recém-nascido Jimmy ou o pouco confiável Bruno. Para dar vida a alguém tão complexo, o ator Jérémie Renier foi a escolha perfeita: é impossível não simpatizar com ele mesmo diante de seus erros mais imperdoáveis, e torcer, na medida do possível, para que ele consiga reaver o filho e reatar com a namorada. No papel de Sonia - um contraponto necessário às loucuras de Bruno - está Déborah François, que transmite (até mesmo em poucas palavras) uma variedade de sentimentos que conquista o espectador logo na primeira cena. A química entre o casal é um trunfo e tanto nas mãos dos cineastas: outra dupla talvez não tivesse, em cena, a mesma força e o mesmo tom naturalista que é a força-motriz do filme.
"A criança" é um filme que parece com a vida - tanto com suas dores quanto por suas pequenas vitórias. No cerne da obra dos irmãos Dardenne - aqui e em outros filmes - está a compaixão pelo ser humano, por suas idiossincrasias e erro. É sintomático que Bruno seja tão falho e, ao mesmo tempo, tão apaixonante: ele é um arquetípico personagem da dupla de cineastas, dotado de uma verdade quase angustiante e incapaz de perceber que todos os seus atos, por menores que sejam, tem consequências avassaladoras - e, de vez em quando, irremediáveis. Em seu carinho pelo ser humano em geral e por Bruno em particular, Jean-Pierre e Luc Dardenne apontam, no desfecho de sua obra, uma luz no fim do túnel. Se Bruno e Sonia irão aproveitar tal luz ou desperdiçá-la com sua falta de maturidade é uma questão menor. O que importa, em "A criança", é jogar luz em vidas corriqueiras e mostrar ao público que, apesar de tudo, sempre há uma esperança. Em tempos difíceis, não deixa de ser uma ideia reconfortante.
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domingo
quarta-feira
ALABAMA MONROE
ALABAMA MONROE (The broken circle breakdown, 2012, Menuet Producties/Topkaki Films, 111min) Direção: Felix van Groeningen. Roteiro: Carl Joos, Felix van Groeningen, peça teatral "The Broken Circle Breakdown featuring the Cover-Ups of Alabama", de Johan Heldenbergh, Mieke Dobbels, colaboração de Charlotte Vandermeesch. Fotografia: Ruben Impens. Montagem: Nico Leunen. Música: Bjorn Eriksson. Figurino: Ann Lauwerys. Direção de arte/cenários: Kurt Rigolle. Produção: Dirk Impens. Elenco: Johan Heldenbergh, Veerle Baetens, Nell Cattrysse, Geert Van Rampelberg. Estreia: 10/10/12
Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
O bluegrass é um dos gêneros musicais característicos do sul dos EUA e se utiliza basicamente de instrumentos acústicos como violão, banjo e baixo acústico. Tendo suas raízes na música tradicional das ilhas britânicas, na música rural negra, no jazz e nos blues, ele é relativamente pouco conhecido no Brasil, mas é um das bases dramáticas de "Alabama Monroe", representante oficial da Bélgica na corrida pelo Oscar 2014 - e que perdeu a estatueta para o italiano "A grande beleza". Baseado em uma peça teatral de Mieke Dobbels e Johan Heldenbergh (que interpreta o principal papel masculino), o filme de Felix Van Groeningen acabou se tornando o favorito popular ao prêmio graças principalmente à sua impressionante comunicação com a plateia, que, sem exceção, termina a sessão aos prantos, emocionada com um filme que equilibra com maestria uma devastadora história de amor e perda com uma trilha sonora impactante e uma discussão sempre pertinente sobre a importância da fé e da religião nas relações interpessoais - sem que para isso precise abdicar de uma estrutura dramática das mais interessantes e envolventes dos últimos anos.
Com a narrativa fora de ordem cronológica - artifício cada vez mais comum no cinema moderno, mas que quase nunca é utilizado de maneira orgânica como aqui - "Alabama Monroe" conta a história de amor improvável entre Didier (Heldenbergh), integrante de uma banda de bluegrass, ateu e romântico e Elise (a ótima e expressiva Veerle Baetens), uma tatuadora católica mas realista e que tem no corpo as marcas de seus antigos amores. Juntos, os dois vivem uma relação passional e feliz, que é abençoada com a chega de uma filha - a encantadora Maybelle - e ameaçada com a sombra de um câncer agressivo que balança suas crenças e certezas. Forçados a lidar com uma situação triste e inesperada, eles também precisam entender um ao outro - o que parece ser um desafio ainda mais complicado e frustrante conforme a dor vai se tornando cada vez mais avassaladora.
Contando com um roteiro inteligente cujas engrenagens não são tão óbvias como acontece com a grande maioria dos filmes que buscam a emoção do espectador, "Alabama Monroe" não se propõe apenas a comover ou contar sua história. Por trás do drama vivido por Didier e Elise encontra-se uma profunda discussão teológica que contrapõe - sem julgamentos de valor - o ateísmo renitente do músico e a arraigada fé da tatuadora, assim como também levanta questionamentos sobre o amor, a perda e as variadas formas de lidar com a dor e a desilusão. A edição ágil - que mescla com inteligência flashbacks com fast-forwards - não esconde, felizmente, alguns diálogos fortes e emocionantes em sua crueza: ao contrário, é pouco provável que a audiência esqueça facilmente a brutal discussão entre os protagonistas sobre suas possíveis culpas na tragédia que se abate sobre eles ou o discurso abertamente crédulo de Didier depois de um show - e que acaba preparando o terreno para o final devastador, capaz de estraçalhar qualquer coração.
Talvez "Alabama Monroe" seja um tanto depressivo e pessimista para quem busca apenas um divertimento rápido. Mas aquele público que procura no cinema algo mais do que entretenimento certamente sairá da sessão com o coração transbordando - de tristeza, de dor e principalmente de uma boa dose de realismo que só a sétima arte (com seu poder de embelezar o desespero com poesia) consegue proporcionar. É um dos grandes filmes da década e se tornará ainda melhor com o passar do tempo. Coisas de bom cinema.
Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
O bluegrass é um dos gêneros musicais característicos do sul dos EUA e se utiliza basicamente de instrumentos acústicos como violão, banjo e baixo acústico. Tendo suas raízes na música tradicional das ilhas britânicas, na música rural negra, no jazz e nos blues, ele é relativamente pouco conhecido no Brasil, mas é um das bases dramáticas de "Alabama Monroe", representante oficial da Bélgica na corrida pelo Oscar 2014 - e que perdeu a estatueta para o italiano "A grande beleza". Baseado em uma peça teatral de Mieke Dobbels e Johan Heldenbergh (que interpreta o principal papel masculino), o filme de Felix Van Groeningen acabou se tornando o favorito popular ao prêmio graças principalmente à sua impressionante comunicação com a plateia, que, sem exceção, termina a sessão aos prantos, emocionada com um filme que equilibra com maestria uma devastadora história de amor e perda com uma trilha sonora impactante e uma discussão sempre pertinente sobre a importância da fé e da religião nas relações interpessoais - sem que para isso precise abdicar de uma estrutura dramática das mais interessantes e envolventes dos últimos anos.
Com a narrativa fora de ordem cronológica - artifício cada vez mais comum no cinema moderno, mas que quase nunca é utilizado de maneira orgânica como aqui - "Alabama Monroe" conta a história de amor improvável entre Didier (Heldenbergh), integrante de uma banda de bluegrass, ateu e romântico e Elise (a ótima e expressiva Veerle Baetens), uma tatuadora católica mas realista e que tem no corpo as marcas de seus antigos amores. Juntos, os dois vivem uma relação passional e feliz, que é abençoada com a chega de uma filha - a encantadora Maybelle - e ameaçada com a sombra de um câncer agressivo que balança suas crenças e certezas. Forçados a lidar com uma situação triste e inesperada, eles também precisam entender um ao outro - o que parece ser um desafio ainda mais complicado e frustrante conforme a dor vai se tornando cada vez mais avassaladora.
Contando com um roteiro inteligente cujas engrenagens não são tão óbvias como acontece com a grande maioria dos filmes que buscam a emoção do espectador, "Alabama Monroe" não se propõe apenas a comover ou contar sua história. Por trás do drama vivido por Didier e Elise encontra-se uma profunda discussão teológica que contrapõe - sem julgamentos de valor - o ateísmo renitente do músico e a arraigada fé da tatuadora, assim como também levanta questionamentos sobre o amor, a perda e as variadas formas de lidar com a dor e a desilusão. A edição ágil - que mescla com inteligência flashbacks com fast-forwards - não esconde, felizmente, alguns diálogos fortes e emocionantes em sua crueza: ao contrário, é pouco provável que a audiência esqueça facilmente a brutal discussão entre os protagonistas sobre suas possíveis culpas na tragédia que se abate sobre eles ou o discurso abertamente crédulo de Didier depois de um show - e que acaba preparando o terreno para o final devastador, capaz de estraçalhar qualquer coração.
Talvez "Alabama Monroe" seja um tanto depressivo e pessimista para quem busca apenas um divertimento rápido. Mas aquele público que procura no cinema algo mais do que entretenimento certamente sairá da sessão com o coração transbordando - de tristeza, de dor e principalmente de uma boa dose de realismo que só a sétima arte (com seu poder de embelezar o desespero com poesia) consegue proporcionar. É um dos grandes filmes da década e se tornará ainda melhor com o passar do tempo. Coisas de bom cinema.
quinta-feira
DOIS DIAS, UMA NOITE
DOIS DIAS, UMA NOITE (Deux jours, une nuit, 2014, Les Films du
Fleuve/Archipel 35, 95min) Direção e roteiro: Jean-Pierre Dardenne, Luc
Dardenne. Fotografia: Alain Marcoen. Montagem: Marie-Hélène Dozo.
Figurino: Maira Ramedhan Levi. Direção de arte: Igor Gabriel. Produção
executiva: Delphine Tomson. Produção: Jean-Pierre Dardenne, Luc
Dardenne, Denis Freyd. Elenco: Marion Cottilard, Fabrizio Rongione,
Catherine Salée, Batiste Sornin, Pily Groine. Estreia: 20/5/14 (Festival
de Cannes)
Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Marion Cottilard)
Em 2008, todo mundo esperava que Julie Christie saísse da cerimônia de entrega do Oscar com a estatueta de melhor atriz, por seu fantástico trabalho em "Longe dela", da também atriz Sarah Polley. Para surpresa dos espectadores, porém, a Academia deixou de lado sua tendência em relegar atores estrangeiros a meros coadjuvantes e concedeu sua honra máxima a uma francesa da qual poucos haviam ouvido falar até então: por seu desempenho emocionante como a mais famosa cantora de seu país, no filme "Piaf, um hino ao amor", Marion Cottilard não só faturou o prêmio mais cobiçado do cinema, mas tornou-se uma das atrizes mais requisitadas de Hollywood. Porém, mesmo trabalhando com nomes como Woody Allen, Christopher Nolan e Michael Mann, a bela nunca deixou de lado os filmes menos comerciais (aos olhos da indústria americana) e marcou presença em produções fortes como "Ferrugem e osso" - na qual interpreta uma treinadora de golfinhos que perde as duas pernas em um acidente de trabalho - e "Dois dias, uma noite", filme dirigido pelos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne. Sua performance neste último - com direito a sotaque belga, rosto lavado e a complexidade dramática de interpretar uma mulher comum - fizeram com que novamente os eleitores da Academia se curvassem a seu talento superlativo: Cottilard foi a única das indicadas ao Oscar 2014 por um filme não falado em inglês - e se não fosse o favoritismo absoluto de Julianne Moore como uma mulher diagnosticada com Alzheimer em "Para sempre Alice" (coincidentemente a mesma doença da qual sofria Julie Christie em "Longe dela"), não teria sido nada injusto que um segundo homenzinho dourado fosse enfeitar sua prateleira.
Quem conhece a obra dos irmãos Dardenne - minimalista, simples e que sempre utiliza o mais banal dos acontecimentos como matéria-prima para seu trabalho - sabe bem o que esperar de "Dois dias, uma noite", a dramática odisseia de uma mulher em busca de um dos direitos mais básicos do ser humano: o de trabalhar. Sem buscar em seu roteiro o caminho mais fácil do melodrama, os diretores/roteiristas conseguem, ao retratar a via-crúcis de sua protagonista, expor ao mesmo tempo a crise econômica pela qual passa a Europa, a tendência cada vez mais forte ao individualismo e, em um registro mais esperançoso, a solidariedade que ainda sobrevive, impávida, onde menos se espera. Quase em tempo real, eles conduzem o espectador como testemunha ocular de um caminho de humilhação, desespero, decepção e redenção que somente um cinema humanista e desprovido de quaisquer artifícios sentimentaloides pode oferecer. É sofrido, é triste, é quase desconfortável. Mas é, acima de tudo, grandioso em sua extrema simplicidade.
Em uma atuação visceral que justifica plenamente sua indicação ao Oscar, Marion Cottilard vive (literalmente) Sandra Bya, uma jovem mãe de família que afastou-se do trabalho para tratar de uma depressão profunda e que, às vésperas de seu retorno, descobre que será demitida como forma de controlar os gastos da empresa - e gerar um bônus extra de 1000 euros para seus dezesseis colegas remanescentes, cuja votação (13x3) decidiu por sua dispensa. Sabendo da possibilidade de uma nova eleição na segunda-feira, ela resolve, então, passar o fim-de-semana inteiro visitando todos os seus companheiros de trabalho com a intenção de fazê-los mudar de ideia e, por consequência, lhe devolver a chance de um emprego que é essencial para sua família. No caminho, ela tanto percebe o egoísmo de alguns quanto as dificuldades enfrentadas por outros, a quem o bônus de sua demissão poderá ser uma forma de respirar diante das dificuldades financeiras.
Quem só gosta de cinema americano, com seu ritmo ágil e sua narrativa quase anfetamínica, deve passar ao largo de "Dois dias, uma noite". Sem pressa ao contar sua história, dando a cada cena, a cada diálogo e cada personagem o tempo necessário para que seja melhor digerido pela plateia, os irmãos Dardenne fazem de seu filme uma experiência única e dolorosa, ainda que encerrada com uma nota de otimismo capaz de deixar o espectador com um sorriso no rosto e paz no coração. E de quantos filmes se pode dizer o mesmo?
Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Marion Cottilard)
Em 2008, todo mundo esperava que Julie Christie saísse da cerimônia de entrega do Oscar com a estatueta de melhor atriz, por seu fantástico trabalho em "Longe dela", da também atriz Sarah Polley. Para surpresa dos espectadores, porém, a Academia deixou de lado sua tendência em relegar atores estrangeiros a meros coadjuvantes e concedeu sua honra máxima a uma francesa da qual poucos haviam ouvido falar até então: por seu desempenho emocionante como a mais famosa cantora de seu país, no filme "Piaf, um hino ao amor", Marion Cottilard não só faturou o prêmio mais cobiçado do cinema, mas tornou-se uma das atrizes mais requisitadas de Hollywood. Porém, mesmo trabalhando com nomes como Woody Allen, Christopher Nolan e Michael Mann, a bela nunca deixou de lado os filmes menos comerciais (aos olhos da indústria americana) e marcou presença em produções fortes como "Ferrugem e osso" - na qual interpreta uma treinadora de golfinhos que perde as duas pernas em um acidente de trabalho - e "Dois dias, uma noite", filme dirigido pelos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne. Sua performance neste último - com direito a sotaque belga, rosto lavado e a complexidade dramática de interpretar uma mulher comum - fizeram com que novamente os eleitores da Academia se curvassem a seu talento superlativo: Cottilard foi a única das indicadas ao Oscar 2014 por um filme não falado em inglês - e se não fosse o favoritismo absoluto de Julianne Moore como uma mulher diagnosticada com Alzheimer em "Para sempre Alice" (coincidentemente a mesma doença da qual sofria Julie Christie em "Longe dela"), não teria sido nada injusto que um segundo homenzinho dourado fosse enfeitar sua prateleira.
Quem conhece a obra dos irmãos Dardenne - minimalista, simples e que sempre utiliza o mais banal dos acontecimentos como matéria-prima para seu trabalho - sabe bem o que esperar de "Dois dias, uma noite", a dramática odisseia de uma mulher em busca de um dos direitos mais básicos do ser humano: o de trabalhar. Sem buscar em seu roteiro o caminho mais fácil do melodrama, os diretores/roteiristas conseguem, ao retratar a via-crúcis de sua protagonista, expor ao mesmo tempo a crise econômica pela qual passa a Europa, a tendência cada vez mais forte ao individualismo e, em um registro mais esperançoso, a solidariedade que ainda sobrevive, impávida, onde menos se espera. Quase em tempo real, eles conduzem o espectador como testemunha ocular de um caminho de humilhação, desespero, decepção e redenção que somente um cinema humanista e desprovido de quaisquer artifícios sentimentaloides pode oferecer. É sofrido, é triste, é quase desconfortável. Mas é, acima de tudo, grandioso em sua extrema simplicidade.
Em uma atuação visceral que justifica plenamente sua indicação ao Oscar, Marion Cottilard vive (literalmente) Sandra Bya, uma jovem mãe de família que afastou-se do trabalho para tratar de uma depressão profunda e que, às vésperas de seu retorno, descobre que será demitida como forma de controlar os gastos da empresa - e gerar um bônus extra de 1000 euros para seus dezesseis colegas remanescentes, cuja votação (13x3) decidiu por sua dispensa. Sabendo da possibilidade de uma nova eleição na segunda-feira, ela resolve, então, passar o fim-de-semana inteiro visitando todos os seus companheiros de trabalho com a intenção de fazê-los mudar de ideia e, por consequência, lhe devolver a chance de um emprego que é essencial para sua família. No caminho, ela tanto percebe o egoísmo de alguns quanto as dificuldades enfrentadas por outros, a quem o bônus de sua demissão poderá ser uma forma de respirar diante das dificuldades financeiras.
Quem só gosta de cinema americano, com seu ritmo ágil e sua narrativa quase anfetamínica, deve passar ao largo de "Dois dias, uma noite". Sem pressa ao contar sua história, dando a cada cena, a cada diálogo e cada personagem o tempo necessário para que seja melhor digerido pela plateia, os irmãos Dardenne fazem de seu filme uma experiência única e dolorosa, ainda que encerrada com uma nota de otimismo capaz de deixar o espectador com um sorriso no rosto e paz no coração. E de quantos filmes se pode dizer o mesmo?
quarta-feira
O PROFETA
O PROFETA (Un prophète, 2009, Why Not Productions, 155min) Direção: Jacques Audiard. Roteiro: Thomas Bidegain, Jacques Audiard, roteiro original de Abdel Raouf Dafri, Nicolas Peufaillit. Fotografia: Stéphane Fontaine. Montagem: Juliette Wellfling. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Virginie Montel. Direção de arte/cenários: Michel Barthélémy/Boris Piot. Produção: Lauranne Bourrachot, Martine Cassinelli, Pascal Caucheteux, Marco Cherqui. Elenco: Tahar Rahim, Niels Arestrup, Adel Bencherif, Reda Kateb. Estreia: 16/5/09 (Festival de Cannes)
Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes 2009
O claustrofóbico roteiro co-escrito pelo diretor Jacques Audiard se passa em sua maioria esmagadora dentro de um presidío francês, onde vai parar o jovem Malik El Djebena (Tahar Rahim). Com 19 anos e semi-analfabeto, o rapaz é condenado a seis anos de prisão por agredir um policial. Dentro da cadeia, ele não tarda a perceber que as coisas são bastante parecidas com o que acontece nos reformatórios onde passou boa parte da vida. Procurado pelo italiano Cesar Luciani (Neils Arestrup), ele se vê obrigado a assassinar um desafeto do poderoso manda-chuva do presídio, para assim ficar sob sua proteção. No entanto, devido a sua origem árabe, nunca é visto como mais que um empregadinho, que realiza as tarefas mais insignificantes do grupo de carcamanos. Tudo começa a mudar quando, ao perceber a solidão de Luciani, ele espertamente passa a ser seu braço-direito, utilizando inclusive seu direito à saídas do aprisionamento para resolver os problemas do chefe. Aos poucos, depois de estudar e observar o que acontece à sua volta, Malik começa a fazer suas próprias jogadas, ambicionando um poder que a vida honesta não é capaz de proporcionar-lhe.
O que mais surpreende em "O profeta" é sua total falta de medo em ser violento e amoral. Mesmo sabendo que Malik não é um homem honesto - pelo menos na concepção mais convencional do termo - é impossível à plateia deixar de torcer por ele, talvez porque de certa forma ele é uma espécie de vira-lata, um Davi tentando se impor contra um Golias truculento e impiedoso (que tanto pode ser o italiano quanto a própria sociedade preconceituosa e racista que ele conhece). Há pelo menos duas sequências impressionantes de uma violência quase inacreditável para aqueles acostumados com a sanguinolência de papel que Hollywood oferece a cada semana: o primeiro assassinato cometido por Malik com uma gilete e a quase chacina - perto do final - onde tiros são realmente ouvidos e sentidos como tiros por uma audiência boquiaberta e silenciosa. É mérito do diretor, inclusive, fazer com que Malik não se torne uma máquina assassina fria e sem compaixão no decorrer do filme. Mesmo com toda a violência que o cerca, ele sabe ser carinhoso, leal e amoroso, além de nunca deixar pra trás a lembrança traumática de seu primeiro homicídio.
Mas a genialidade do roteiro, da direção e da edição primorosa seriam inúteis sem a atuação do protagonista Tahar Rahim. Em uma interpretação desconcertante, ele consegue transmitir toda a vasta gama de emoções de sua complexa personagem com uma segurança admirável, dizendo com o olhar muito mais do que dezenas de Bens Afflecks tentam dizer com horas de discursos verborrágicos. Sem medo de entregar-se a cenas angustiantes e chocantes, ele mostra que seu Cesar de melhor ator não foi absolutamente imerecido. Um filme imperdível!
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