sábado, 5 de agosto de 2017

JOVENS, LOUCOS E MAIS REBELDES

JOVENS, LOUCOS E MAIS REBELDES (Everybody wants some!!, 2016, Paramount Pictures, 117min) Direção e roteiro: Richard Linklater. Fotografia: Shane F. Kelly. Montagem: Sandra Adair. Figurino: Kari Perkins. Direção de arte/cenários: Bruce Curtis/Gabriella Villarreal. Produção executiva: Sean Daniel, Stephen Feder, John Sloss. Produção: Megan Ellison, Richard Linklater, Ginger Sledge. Elenco: Blake Jenner, Juston Street, Ryan Guzman, Tyler Hoechlin, Wyatt Russell, Glenn Powell, Temple Baker, J. Quinton Johson, Will Britain. Estreia: 11/3/16

Depois que "Boyhood: da infância à juventude" (2015) foi unanimemente (e merecidamente) incensado como um dos melhores filmes de sua carreira, era esperado que Richard Linklater surgisse, na sequência, com uma obra igualmente poderosa. Para surpresa de muitos, porém, o cineasta resolveu voltar os olhos ao passado e, com toda a nostalgia possível, lançou o despretensioso "Jovens, loucos e mais rebeldes" - uma continuação informal de "Jovens, loucos e rebeldes", lançado em 2003 com um então desconhecido Matthew McConaughey no elenco. Ao centrar sua trama na chegada de um jovem na universidade, no entanto, Linklater parece mesmo disposto a seguir também a narrativa de seu premiado filme anterior - que acabava justamente onde começa sua nova história. Fracasso de bilheteria nos EUA (rendeu pouco mais de 3 milhões de dólares, contra um custo de estimados 10 milhões), a comédia juvenil do diretor é prejudicada por sua temática um tanto restrita, mas não deixa de ser agradável o bastante para justificar uma sessão - ao menos não apela para a escatologia explícita ou a vulgaridade que tanto frequenta o gênero.

Inteligente e sempre bom em diálogos, Richard Linklater oferece a seu público uma trama tênue e frágil - mas que serve de base para uma bem-humorada visita ao início dos anos 80, ainda com resquícios da década anterior e não contaminados pelo conservadorismo dos períodos vindouros. Com uma trilha sonora impecável - que começa com "My sharona", do Knack e apresenta nomes indispensáveis da época, como Blondie, Dire Straits, Patti Smith e Van Halen (cujo hit "Everybody wants some!!" dá título ao filme) -, "Jovens, loucos e mais rebeldes" é uma celebração da juventude, da irresponsabilidade que antecede a maturidade e da amizade masculina. Não à toa, apenas uma personagem feminina tem destaque no roteiro - mas apesar de parecer apenas o interesse romântico do protagonista, é a voz da razão e do equilíbrio em um grupo de pós-adolescentes movidos a hormônios. Ao contrário das garotas seminuas que serviam apenas de objeto de lascívia em filmes como "Porky's" (83), Beverly (Zoey Deutch) serve como um oásis de sensatez - a ponto de conquistar não apenas o desejo, mas o amor do ainda ingênuo Jake Bradford.


Interpretado por Blake Jenner (da série "Glee"), Jake é uma espécie de alter-ego de Linklater - e uma versão menos tímida de Mason, o protagonista de "Boyhood": quando o filme começa (precisamente no dia 28 de agosto de 1980), Jake está chegando ao campus universitário onde passará os próximos anos, graças a uma bolsa de estudos conseguida através de seu talento como jogador de beisebol. Enquanto as aulas não começam, ele aproveita para aproximar-se de seus colegas, todos morando na mesma casa, reservada a atletas como ele. É nessa propriedade que ele trava conhecimento com um grupo bizarro, barulhento e paradoxalmente leal, que o irá acompanhar em suas primeiras aventuras no mundo dos adultos. Cada um dono de uma personalidade que o destaca dos outros estudantes, os novos amigos de Jake formam uma espécie de panorama da jovem masculinidade texana da década de 80, com seus exageros, idiossincrasias e códigos de honra. Linklater não se preocupa em aprofundar nenhum de seus personagens, optando por interligar uma série de anedotas com uma trilha sonora popular, atores desconhecidos que vivem de forma intensa a trama e um tom nostálgico contagiante.

Logicamente o público que esperava de Richard Linklater algo mais grandioso vai se decepcionar com a quase informalidade de "Jovens, loucos e mais rebeldes". Porém, no âmago do filme, há a sinceridade de sempre do cineasta, pródigo em diálogos que mesclam inteligência e coloquialismo e sempre capaz de fazer rir e pensar - mesmo que o espectador não perceba isso logo de cara, soterrado de uma aparente futilidade. É inegável que "Jovens, loucos e rebeldes" é um filme menor do diretor, mas nem mesmo sua falta de pretensão chega a incomodar a quem procura um entretenimento rápido e inofensivo. Nem todo cineasta precisa realizar obras-primas atemporais o tempo todo - e Linklater já tem no currículo a trilogia "Antes do amanhecer" para garantir seu lugar no olimpo dos grandes e "Boyhood" para comprovar seu talento e sua sensibilidade como realizador. Uma brincadeira como esse seu trabalho menos aplaudido será sempre bem-vinda.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

INVOCAÇÃO DO MAL 2

INVOCAÇÃO DO MAL 2 (The conjuring, 2016, New Line Cinema, 134min) Direção: James Wan. Roteiro: Chad Hayes, Carey W. Hayes, James Wan, David Leslie Johnson, estória de Chad Hayes, Carey W. Hayes, James Wan, personagens criados por Chad Hayes, Carey W. Hayes. Fotografia: Don Burgess. Montagem: Kirk Morri. Música: Joseph Bishara. Figurino: Kristin M. Burke. Direção de arte/cenários: Julie Berghoff/Liz Griffiths, Sophie Neudorfer. Produção executiva: Richard Brener, Toby Emmerich, Walter Hamada, Steven Mnuchin, Dave Neustadter. Produção: Rob Cowan, Peter Safran, James Wan. Elenco: Vera Farmiga, Patrick Wilson, Frances O'Connor, Madison Wolfe, Lauren Sposito, Benjamin Haigh, Patrick McCauley. Estreia: 13/5/16

Não foi surpresa para ninguém quando surgiu o anúncio de uma sequência para "Invocação do mal", afinal de contas o filme de James Wan, que custou meros 20 milhões de dólares, tornou-se um dos maiores sucessos de bilheteria de 2013, rendendo mais de 300 milhões pelo mundo todo e devolvendo ao gênero um respeito há muito perdido e poucas vezes retomado pela crítica e pelo público. Com um orçamento duplicado e as expectativas nas alturas, "Invocação do mal 2" repetiu o êxito do primeiro filme ao manter a receita que havia dado tão certo: um roteiro sério (e baseado em uma história real), personagens densos e a preferência por um clima de suspense contra um festival de sustos vazios. Contando novamente com Patrick Wilson e Vera Farmiga como o casal Ed e Lorraine Warren e o diretor Wan no comando (depois de sua recusa em dirigir "Velozes e furiosos 8"), "Invocação do mal 2" não decepciona os fãs do gênero ou do primeiro capítulo da série: é elegante, convincente e, mais importante que tudo, respeita o espectador e a história que está contando.

Tudo bem que algumas alterações foram feitas para melhor aproveitar a dupla de protagonistas conhecida do público, que na verdade não foram os principais investigadores do caso narrado no filme, mas o roteiro faz o possível para manter a essência dos acontecimentos que aterrorizaram uma família londrina em 1977. Considerado até hoje como o caso mais longo de atividade poltergeist registrado na história, o fenômeno que tomou conta da residência de Peggy Hogdson (Frances O'Connor) e seus quatro filhos chamou a atenção da mídia e rendeu livros, polêmicas e outros filmes, como "The Einfield Haunting", de 2015. Para cada estudioso do caso que o levava a sério e comprovava os fenômenos, havia outro que levantava questões bem racionais - para o que colaborava o fato de que a filha mais envolvida nos ataques, Janet, tenha confessado ter forjado alguns dos assustadores sons gravados pelos investigadores no percurso do caso. Para maior impacto nas bilheterias, a New Line espertamente deslocou os maiores responsáveis pelas investigações para a ala dos coadjuvantes e colocou Ed e Lorraine - já devidamente testados no primeiro filme - como centro da narrativa. Funcionou muito bem: não apenas reafirmou o êxito da franquia como deu à plateia alguém com quem identificar-se, um ponto de vista externo que a leva pelas mãos rumo ao pesadelo que se desenrola na tela.


A primeira sequência do filme já demonstra sua vocação de tratar a plateia com respeito ao mesmo tempo em que faz referência a outra história clássica do gênero - "Terror em Amityville", filmado por Hollywood em duas ocasiões, em 1979 e 2005. Traumatizada com visões que anunciam uma tragédia em sua vida pessoal, Lorraine abandona a casa assombrada pelos crimes cometidos no local disposta a afastar-se por tempo indeterminado de sua desgastante rotina como estudiosa de fenômenos paranormais. Sua decisão, no entanto, é frustrada quando, algum tempo depois, ela e seu marido são procurados por um padre, preocupado com acontecimentos inexplicáveis que vem atormentando uma família londrina. Mesmo relutante, o casal aceita visitá-la e ao menos tentar ajudar a afastar o que quer que seja que esteja causando tanto terror. Para sua surpresa, eles descobrem que o responsável é o espírito de um antigo morador da casa, que se aproveita da sensibilidade de uma das meninas da família para marcar sua presença e sua recusa em abandonar seu lar.

O diretor James Wan mantém o tom do primeiro filme, equilibrando momentos de aparente calma com terror puro na reta final - quando, compreensivelmente, alguns exageros tomam conta da narrativa. Ironicamente, no entanto, são as cenas menos tensas que acabam por destacar-se, especialmente devido às atuações de Vera Farmiga e Patrick Wilson, que transmitem com extrema competência a serenidade de seus personagens, que mesmo diante de situações apavorantes conseguem manter a calma e a fé. Mesmo que o roteiro faça algumas alterações no rumo dos acontecimentos conforme eles surgiram na vida real - incluindo até o fantasma de uma freira com o objetivo único de criar uma personagem para um novo filme - e não haja nenhuma novidade na forma de contar sua história, "Invocação do mal 2" cumpre muito bem seu papel de entreter aos espectadores que procuram por um bom par de horas de tensão. É elegante e adulto, duas qualidades redentoras que o elevam acima da média, mas está longe de ser uma obra-prima inesquecível.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

HOLDING THE MAN

HOLDING THE MAN (Holding the man, 2015, Screen Australia/Goalpost Pictures, 127min) Direção: Neil Armfield. Roteiro: Tommy Murphy, livro de Timothy Conigrave. Fotografia: Germain McMicking. Montagem: Dany Cooper. Música: Alan John. Figurino: Alice Babidge. Direção de arte/cenários: Jo Ford/Rolland Pike. Produção executiva: Rosemary Blight, Ben Grant, Cameron Huang, Andrew Mackie, Richard Payten, Tristan Whaley. Produção: Kylie Du Fresne. Elenco: Ryan Corr, Craig Stott, Sarah Snook, Guy Pearce, Kerry Fox, Anthony LaPaglia, Camilla Ah Kin, Geoffrey Rush. Estreia: 14/6/15 (Festival de Sydney)

Em 1976, o aspirante a ator e escritor Tim se apaixonou perdidamente por John, seu colega de classe e capitão do time de futebol americano da escola. Durante 15 anos, seu relacionamento transformou-se de paixão colegial para um amor profundo e um companheirismo à toda prova - que desafiou preconceitos, brigas familiares e crises existenciais e sexuais. A única coisa que realmente impôs uma barreira intransponível entre eles foi a AIDS, ainda uma doença cuja cura ou tratamento eram apenas utopias médicas. Essa é a trama central de "Holding the man", filme australiano que conquistou seis indicações da Academia Australiana de Cinema em 2016 (incluindo melhor filme, diretor, ator e roteiro adaptado) e deu a Ryan Corr o prêmio de Melhor Ator do ano pela Associação de Críticos de Cinema do país. Mas, haja visto que nem o assunto nem seu enfoque são exatamente originais ou inovadores, o que faz da produção dirigida por Neil Armfield algo diferente de dezenas de outros filmes com temática LGBT lançados a cada ano? A resposta é simples: poucos desses filmes tratam sobre tais questões com tanta honestidade e sinceridade quanto este. Adaptado do livro escrito pelo próprio Timothy Conigrave, inspirado em sua própria história de amor, "Holding the man" pode não surpreender ou acrescentar muito à pauta homossexual no cinema, mas é emocionante o suficiente para merecer aplausos e respeito.

Lançado no Festival de Cinema de Sydney, "Holding the man" é uma feliz reunião de jovens talentos (Ryan Corr e Craig Stott como os dois rapazes apaixonados) com nomes já consagrados por Hollywood (Guy Pearce, Anthony LaPaglia e uma participação pequena mas especialíssima de Geoffrey Rush como um professor de teatro). Comandado pelo mesmo cineasta que deu a Heath Ledger um de seus papéis mais desafiadores - no drama "Candy", de 2006 - e narrado fora de ordem cronológica como forma de manter um tom confessional e emotivo, o romance entre Tim Conigrave  John Caleo atravessa mais de uma década acompanhando mudanças comportamentais e o começo da epidemia da AIDS - que os atinge impiedosamente. Tal característica permite ao diretor realizar uma crônica agridoce a respeito de um período crucial na luta pelos direitos gays, atacados violentamente pelo recrudescimento do preconceito, encorajado pela desinformação generalizada a respeito da doença. A ameaça - que começa sob a forma de entrevistas feitas por Tim com homens doentes, para a realização de uma peça de teatro - assume formas assustadoras quando inesperadamente toca o casal e, ao contrário do que se poderia esperar, o aproxima ainda mais. A partir daí, o roteiro vai e volta no tempo, iluminando a trajetória de seu casal protagonista enquanto enfrenta o desejo de aventurar-se em novas relações pessoais e profissionais. Não bastasse isso, o conservadorismo das famílias (em maior ou menor grau) também se impõe como barreira para sua felicidade completa.


A trama, que se estende de 1976 a 1991, é retratada por Neil Armfield com delicadeza e a dose certa de sensualidade - nada do puritanismo do cinema norte-americano nem tampouco os excessos de alguns autores europeus. O romance entre Tim e John, pela visão de Armfield, soa natural e verdadeiro, com o perfeito equilíbrio entre companheirismo e tesão, lealdade e paixão. Principalmente em seu terço final, quando o romance dá lugar ao drama, é impossível não acreditar na sinceridade do amor entre os dois - especialmente porque Ryan Corr alcança o tom ideal de seu personagem, dotando Tim de uma complexidade extremamente verossímil: vulnerável em certos momentos, impulsivo em outros e apaixonado em quase todos, o jovem ator convence em todas as fases da história, desde a adolescência até atingir a vida adulta, quando abandona a leveza do romance idílico para mergulhar no drama da doença e da angústia da perda iminente. Amparado por uma edição ágil e uma trilha sonora que não assume a protagonização apesar de ter sido escolhida a dedo, "Holding the man" cativa, mais do que tudo, pela honestidade que emana de cada cena, de cada diálogo, de cada questão levantada pelo roteiro (mérito também do livro que lhe deu origem, inédito no Brasil).

Mesmo que "Holding the man" não seja completamente inovador, é inegável que existe, dentro dele, uma história poderosa sobre amor, respeito e amizade. Segue as regras do cinema comercial, sim, mas faz isso sem medo de ser sentimental e sem tentar oferecer mais do que promete. Equilibrando os problemas românticos do casal central com as dificuldades familiares e sociais que os cercam, é um filme capaz de emocionar aos mais sensíveis e causar empatia em um mundo cada vez mais carente dessa qualidade tão importante. Não é um filme para mudar a história do cinema, mas é de suma importância e de uma delicadeza impar.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

O AGENTE DA U.N.C.L.E.

O AGENTE DA U.N.C.L.E. (The man from U.N.C.L.E., 2015, Warner Bros, 116min) Direção: Guy Ritchie. Roteiro: Guy Ritchie, Lionel Wigram, estória de Jeff Kleeman, David Campbell Scott, Guy Ritchie, Lionel Wigram, série de televisão de Sam Rolfe. Fotografia: John Mathieson. Montagem: James Herbert. Música: Daniel Pemberton. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Oliver Scholl/Eli Griff. Produção executiva: David Dobkin, Steven Mnuchin. Produção: Steve Clark-Hall, John Davis, Guy Ritchie, Lionel Wigram. Elenco: Armie Hammer, Henry Cavill, Alicia Vikander, Hugh Grant, Elizabeth Debicki, Sylvester Groth, Jared Harris. Estreia: 02/8/15 (Barcelona)

Quando finalmente a versão para o cinema da série televisiva "O agente da U.N.C.L.E." estreou nos EUA, no verão de 2015, já fazia mais de uma década que seu estúdio, a Warner, vinha tentando aprovar o projeto. Mesmo quando um nome quente como o de Steven Soderbergh esteve vinculado à produção, parecia que tudo colaborava para que o filme não saísse. A desistência de George Clooney, por exemplo (e sua quase substituição pelo bem mais jovem Channing Tatum), foi um dos fatores que afastaram o oscarizado diretor de assinar o contrato - assim como problemas relacionados ao orçamento (de cerca de 75 milhões de dólares) e à escalação de um elenco que funcionasse tanto comercial quanto artisticamente. A entrada de Guy Ritchie no time - um cineasta de personalidade, mas com facilidade em adaptar-se às circunstâncias exigidas pelo mercado - finalmente fez com que as coisas saíssem do lugar. Com o filme pronto (e com a assinatura visual de Ritchie em cada sequência), fica difícil imaginar como seria a visão de Soderbergh da trama - certamente mais cerebral e mais perto de "Onze homens e um segredo" -, mas é fato que, como ficou, "O agente da U.N.C.L.E." é uma divertidíssima e elegante comédia de ação, infelizmente não tão bem-sucedida quanto deveria.

Longe de ter sido um fiasco nas bilheterias, "O agente da U.N.C.L.E." tampouco chegou a ser o estouro que a Warner esperava - rendeu pouco mais de 100 milhões de dólares pelo mundo, decepcionando os executivos que sonhavam com uma nova franquia milionária. O erro, no entanto, está menos no filme - um perfeito exercício de entretenimento descompromissado - do que no fato de que a série, lançada em 1964, é bem menos popular, por exemplo, do que "Missão: impossível" (cujo "Nação secreta" também estreou em 2015, com mais sucesso), e no erro de cálculo de colocar o filme nos cinemas justamente em uma temporada recheada de outras produções que lidavam com espionagem e temas afins. Entre personagens já comprovadamente aceitos pelas plateias - "007 contra Spectre" - e filmes com ambições mais sérias - "O jogo da imitação" e "Sicário" -, o trabalho de Ritchie acabou comprimido entre tantas opções consideradas mais relevantes. Azar de quem perdeu: esteticamente caprichado (da fotografia de John Mathieson até a reconstituição de época criativa e não necessariamente realista), dotado de um ritmo e um senso de humor inteligente e com um elenco perfeitamente escalado, "O agente da U.N.C.L.E." é um produto que consegue aliar a personalidade marcante de seu diretor com as regras estabelecidas pelo cinemão comercial hollywoodiano. Casando com perfeição suas tendências iconoclastas com os clichês dos filmes de ação, Guy Ritchie consegue ser mais bem-sucedido até mesmo do que em seus maiores êxitos financeiros até então - os dois filmes "Sherlock Holmes", estrelados por Robert Downey Jr. e Jude Law.


A ideia de Ritchie de contar a história do começo da U.N.C.L.E. (United Network Command for Law and Enforcement), nunca retratada na série de televisão, é o primeiro acerto do roteiro. No programa da década de 60, agentes da CIA e da KGB já uniam esforços mesmo em plena Guerra Fria, mas nunca foi explicado como essa aliança tão inusitada se formou. A partir daí, Ritchie juntou-se ao coprodutor Lionel Wigram e, assumindo a responsabilidade de dar vida a uma trama que mesclasse a mitologia da série (afinal os fãs seriam parte do público-alvo) e momentos de ação e comédia, explorando o estilo do cineasta e a receita de boa parte dos filmes com ambição ao sucesso. Surgia, então, um intrincado enredo que colocava no mesmo balaio um agente norte-americano, um espião soviético, um cientista capaz de criar uma bomba atômica e sua bela e voluntariosa filha mecânica - claro que uma pitada de romance não poderia faltar, especialmente quando se tenta também atingir um público feminino que há muito não aceita mais ser representado na tela por donzelas desprotegidas. O agente americano, Napoleon Solo (Henry Cavill, o Superman de Zack Snyder em pessoa) é um ex-criminoso cooptado pela CIA para usar seus talentos para o bem da sociedade: ele é enviado à Alemanha Ocidental para encontrar Gaby Teller (Alicia Vikander, antes do Oscar por "A garota dinamarquesa" e em papel oferecido à Emily Blunt), a filha de um cientista com conhecimento suficiente para dar início à confecção de uma bomba nuclear. Segundo a agência, somente Gaby pode levá-los até seu pai, desaparecido mas provavelmente em contato com seu irmão, que vive na Itália. Para colaborar na operação, a KGB oferece os serviços de Illya Kuryakin (Armie Hammer), cuja personalidade volátil e imprevisível contrasta com os modos suaves de Solo. Juntos, os três irão deixar de lado suas diferenças e tentar impedir que o pior aconteça - e empresários ambiciosos consigam financiar uma guerra nuclear.

Com cenas de ação milimetricamente calculadas, piadas engraçadíssimas a respeito das diferenças culturais entre americanos e russos e um visual arrebatador, "O agente da U.N.C.L.E." é uma diversão das mais admiráveis. Mesmo que a trama por vezes escorregue em uma complexidade desnecessária (o que, aliás, deve ser proposital, como forma de homenagear os filmes de James Bond), é impossível desgostar do resultado final. A química entre Cavill e Hammer é irretocável, e Alicia Vikander oferece o charme e a sutileza que o filme precisa. Por ironia, Cavill fez teste para viver Kuryakin, mas dificilmente outro ator estaria mais à vontade como Napoleon Solo do que ele - e olha que muita gente foi considerada para o papel, desde Joseph Gordon-Levitt, Ryan Gosling e Chris Pine até os mais experientes Matt Damon, Michael Fassbender e Ewan McGregor. Já Armie Hammer, aplaudido pela crítica graças a trabalhos mais sérios, como "A rede social" (2010) e "J. Edgar" (2012), demonstra um precioso timing cômico, que abre ainda mais possibilidades em sua carreira abalada pelo tenebroso "O Cavaleiro Solitário" (2013). Juntos, os dois atores formam um par carismático e sedutor, algo como Butch Cassidy e Sundance Kid da Guerra Fria. Quanto à direção de Guy Ritchie, nada a reclamar. Tudo que ele tem de melhor está em cena - o humor, a edição ágil, o ritmo, o talento para direção de atores - e revestido com uma sofisticação nunca vista até então. Uma pena que nem todo mundo valorizou o produto final, que ainda há de ser descoberto como uma pequena pérola de sua época.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

O INÍCIO DO FIM

O INÍCIO DO FIM (Fat Man and Little Boy/Shadow makers, 1989, Paramount Pictures, 108min) Direção: Roland Joffé. Roteiro: Bruce Robinson, Roland Joffé, estória de Bruce Robinson. Fotografia: Vilmos Zsigmond. Montagem: Françoise Bonnott. Música: Ennio Morricone. Figurino: Nick Ede. Direção de arte/cenários: Gregg Fonseca/Dorree Cooper. Produção executiva: John Calley. Produção: Tony Garnett. Elenco: Paul Newman, Dwight Schultz, John Cusack, Laura Dern, Bonnie Bedelia, John G. McGinley, Natasha Richardson, James Eckhouse. Estreia: 20/10/89

Cineasta sempre preocupado com tramas de cunho político e/ou social, Roland Joffé ficou conhecido pelos fãs de cinema graças a produções premiadas e elogiadas pela crítica, como "Gritos do silêncio" (84) e "A missão" (86), pelos quais foi indicado ao Oscar de melhor diretor. Não foi surpresa, portanto, quando ele assumiu o comando de "O início do fim", o filme da Paramount que trataria sobre o Projeto Manhattan, que criou e construiu, em 1945, as bombas atômicas que atingiram Hiroshima e Nagasaki e deram fim à II Guerra Mundial. Catastrófico fracasso de bilheteria nos EUA (custou cerca de 30 milhões de dólares e rendeu cerca de dez menos menos em sua carreira nos cinemas), acabou lançado no resto do mundo com um título diferente e tentou conquistar - em vão - estatuetas na temporada de premiações de Hollywood. Não é difícil compreender os motivos que o levaram a tal fiasco comercial: mesmo com a direção cuidadosa de Joffé e o nome do veterano Paul Newman liderando o elenco, o filme não consegue escapar da sina comum às produções do gênero e, ao tentar equilibrar o didático/histórico ao dramático, não atinge plenamente seus objetivos em nenhum quesito. Essa indecisão custa caro ao resultado final, que mesmo perceptivelmente caprichado tecnicamente, não empolga nem emociona tanto quanto deveria.

Inicialmente chamado "Fat Man and Little Boy" (os apelidos dados às bombas), "O início do fim" teve seu nome modificado para "Shadow makers" logo depois que seu desempenho nas bilheterias domésticas assustou aos executivos do estúdio - que, logicamente, não esperavam uma renda tão pífia (pouco mais de um milhão de dólares arrecadados no fim de semana de estreia). Rebatizar o filme para lançamento em outros países, no entanto, não deu resultado nenhum: talvez por sua temática particularmente restrita, a obra de Joffé não despertou interesse nas massas que haviam lotado os cinemas para assistir ao "Batman" de Tim Burton, e saiu melancolicamente de cena, ocupando um lugar bastante coadjuvante nas carreiras de todos os envolvidos - seja do veterano Paul Newman ou dos novatos John Cusack e Laura Dern.


Apesar de ser o rosto de Newman que estampa o cartaz e ser seu nome que abre os créditos, o verdadeiro protagonista de "O início do fim" não é o seu General Leslie Groves - líder militar do projeto que concebeu a bomba atômica. O roteiro, escrito pelo cineasta e seu parceiro de longa data, Bruce Robinson, centra seu foco principalmente em Robert Oppenheimer, o cientista chamado por Groves para comandar a experiência. A princípio entusiasmado com a possibilidade de mostrar sua competência e seu talento, ao poucos ele vai tomando consciência dos reais objetivos de Groves - e passa a questionar profundamente sua posição na estratégia. É somente quando sua vida pessoal - representada pela figura de sua amante, Jean Tatlock (Natasha Richardson), comunista vista com maus olhos pelo governo americano - é atingida que Oppenheimer percebe a dimensão do que está fazendo. Cercado de paranoia e segredos, ele testemunha o nascimento de um projeto científico gigantesco, que não poupa nem mesmo outros cientistas, como o jovem Michael Merriman (John Cusack).

Quando Bruce Robinson assumiu o roteiro de "O início do fim" seu maior interesse na trama era a história de amor e morte por trás do romance entre Oppenheimer e Jean Tatlock - um mistério ainda hoje envolto em teorias de conspiração. As alterações feitas no roteiro final, para dar mais ênfase ao relacionamento entre o cientista e o General Groves não apenas mudaram o tom da narrativa, mas também empurraram o filme para um nicho muito mais restrito de interesse - o que talvez tenha contribuído para seu fracasso. Soma-se a isso a inexperiência de Dwight Schultz, sem a força cênica necessária para imprimir consistência e nuances a um personagem tão repleto de possibilidades quanto o seu. O resultado é que o romance entre Merriman e a enfermeira Kathleen Robinson (Laura Dern) acaba por ser mais atraente ao espectador do que as crises de consciência de Oppenheimer - mesmo que tal subtrama seja inventada, como forma de iluminar o público das consequências da experiência realizada no Novo México. No fim das contas, "O ínicio do fim" é um filme com grandes atrações em seu cartaz (a música é de Ennio Morricone, a fotografia é do premiado Vilmos Zsigmond), mas que é frustrante na maior parte do tempo graças a problemas de foco e ritmo. Uma bela ideia que não atingiu todo o seu potencial.