quinta-feira

TOTALMENTE SELVAGEM

TOTALMENTE SELVAGEM (Something wild, 1986, Orion Pictures, 113min) Direção: Jonathan Demme. Roteiro: E. Max Frye. Fotografia: Tak Fujimoto. Montagem: Craig McKay. Música: Laurie Anderson, John Cale. Figurino: Norma Moriceau. Direção de arte/cenários: Norma Moriceau/Billy Reynolds. Produção executiva: Edward Saxon. Produção: Jonathan Demme, Kenneth Utt. Elenco: Jeff Daniels, Melanie Griffith, Ray Liotta, Margaret Colin. Estreia: 07/11/86

Menos de uma semana. Em uma indústria onde roteiros podem passar anos (e até décadas) no limbo, à espera de uma chance de chegar às telas, esse foi o tempo que levou para que um estudante de Cinema chamado E. Max Frye visse a amalucada história que havia escrito receber o sinal verde da Orion Pictures. Mais admirável ainda, o cineasta Jonathan Demme - já conhecido pelo oscarizado "Melvin e Howard" (1980) - não demorou mais do 24 horas para comprometer-se com o projeto, que por pouco não contou com Kevin Kline (então já conhecido por filmes como "A escolha de Sofia" e "O reencontro") no papel principal. Uma mistura de comédia romântica, road movie e filme de suspense, "Totalmente selvagem" caiu como uma luva no estilo quase anárquico de Demme, deu espaço a uma iniciante Melanie Griffith (revelada por Brian DePalma em "Dublé de corpo", de 1984) e conquistou a crítica arrebatando três indicações ao Golden Globe: ator e atriz em comédia/musical (para Jeff Daniels e Melanie) e ator coadjuvante (para Ray Liotta). Irreverente, inovador e irresistível, também direcionou o cineasta para um maior reconhecimento do grande público - o que acabaria por levá-lo a "De caso com a máfia" (1988) e ao enorme sucesso de "O silêncio dos inocentes" (1991).

O filme começa com uma canção original de David Byrne e logo leva o espectador a um café, onde é apresentado a Charles Driggs (Jeff Daniels), um executivo certinho cujas maior contravenção é sair sem pagar por suas refeições. Durante uma dessas travessuras, ele é surpreendido por Lulu (Melanie Griffith, de peruca chanel preta que remete à outra Lulu das telas, a Louise Brooks de "A caixa de Pandora", dirigido por G. W. Pabst em 1929). Sensual, bem-humorada e de espírito livre, Lulu oferece carona ao novo amigo - e ele logo se descobre sequestrado pela desconhecida, que o leva para um motel, o acorrenta à cama e o faz descobrir o prazer da irresponsabilidade. Avisando ao chefe que irá faltar ao trabalho, Charles aceita viajar com Lulu para sua cidade natal e ser apresentado à sua mãe como seu marido. Cada vez mais surpreso e encantado pela garota, Charles a acompanha à festa de reunião dos colegas de escola - e é lá que a aventura toma rumos inesperados, quando o ex-presidiário Ray (Ray Liotta), que acaba de sair da prisão, deixa bem claro que quer reconstruir o casamento a qualquer custo.





Subvertendo completamente o tom leve e descompromissado de seus dois primeiros terços - que lembram a premissa inicial do ótimo "Depois de horas" (1984), dirigido por Martin Scorsese e estrelado por Griffin Dunne e Rosana Arquette - a reta final de "Totalmente selvagem" conduz o público por um caminho violento e imprevisível, que oferece a Ray Liotta a chance de criar um vilão memorável - e que lhe rendeu o prêmio de melhor ator coadjuvante do ano pelos críticos de Boston. Seu Ray Sinclair (a princípio amigável e posteriormente um pesadelo em forma de ex-marido) é o ponto de virada no roteiro, revelando ao espectador (e aos demais personagens) verdades até então disfarçadas ou escondidas e empurrando o filme em direção a um perigoso abismo. Com uma segurança ímpar, Jonathan Demme não deixa o ritmo ou a coerência saírem dos trilhos, e substitui a trilha sonora vibrante do começo da narrativa por uma escolha acertada de ritmos mais sombrios, conforme a aventura de Charles e Lulu - já loura, frágil e traumatizada - em uma viagem de montanha-russa, repleta de momentos divertidos e situações arriscadas.


O elenco, além da revelação de Liotta - antes mesmo de seu melhor desempenho, como protagonista de "Os bons companheiros" (1990) -, cumpre com louvor a missão de entreter o público e dar veracidade à armadilhas criadas pelo roteiro. Melanie Griffith está talvez em seu melhor momento na carreira (melhor até do que em sua atuação indicada ao Oscar, por "Uma secretária de futuro", de 1988), convencendo tanto como a despudorada Lulu quanto sua personalidade mais submissa e doce, Audrey. Jeff Daniels, recém saído do sucesso de "A Rosa Púrpura do Cairo" (1985), de Woody Allen, aproveita com unhas e dentes a chance de mostrar seu timing cômico, seu lado galã sexy e seus dotes como herói - e apresenta uma química e tanto com Melanie. Como bônus, Jonathan Demme ainda dá pequenos papéis para cineastas independentes e cultuados, como John Waters e John Sayles, além de uma cena com a banda The Feelies, que anima a festa de reencontro dos amigos de Lulu/Audrey. Uma produção despretensiosa e simpática, "Totalmente selvagem" ainda tem a ousadia (dentro do universo do cinema menos comercial), de apresentar um final feliz à sua maneira - mostrando que, no fundo, Demme era um romântico, ainda que seu romantismo se apresentasse de forma pouco óbvia. Uma pérola dos anos 80

quarta-feira

TODO O DINHEIRO DO MUNDO

TODO O DINHEIRO DO MUNDO (All the money in the world, 2017, TriStar Productions/Sony Pictures, 132min) Direção: Ridley Scott. Roteiro: David Scarpa, livro "Painfully rich: the outrageous fortune and misfortunes of the heirs of J. Paul Getty", de John Pearson. Fotografia: Dariusz Wolski. Montagem: Claire Simpson. Música: Daniel Pemberton. Figurino: Janty Yates. Direção de arte/cenários: Arthur Max/Richard Roberts, Letizia Santucci, Nasser Zoubi. Produção: Chris Clark, Quentin Curtis, Dan Friedkin, Mark Huffam, Ridley Scott, Bradley Thomas, Kevin J. Walsh. Elenco: Michelle Williams, Christopher Plummer, Mark Wahlberg, Romain Duris, Timothy Hutton, Marco Leonardi, Charlie Plummer, Andrew Buchan. Estreia: 18/12/17

Indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante (Christopher Plummer)

Nunca é uma boa notícia quando os bastidores de um filme chamam mais a atenção do que a obra em si. Por mais que o resultado final seja consistente ou até mesmo admirável, o que fica na memória do público são os escândalos que atribularam sua realização. Um exemplo claro desta afirmação é "Todo o dinheiro do mundo", um filme extremamente bem realizado, dirigido por um cineasta experiente (Ridley Scott), estrelado por nomes conhecidos (Michelle Williams e Mark Wahlberg), baseado em uma história real e planejado para encabeçar as listas de indicados aos prêmios da temporada. O que parecia correr tranquilamente para os produtores e a Sony acabou se tornando um pesadelo, no entanto, quando, no começo de novembro de 2017, uma notícia caiu como uma bomba no colo de todos: acusado de estupro de menor e assédio sexual, o ator Kevin Spacey - que tinha um papel chave na trama - transformou-se, de uma hora para outra, em um problema quase insolúvel em termos comerciais. A pouco mais de um mês da data programada para a estreia do filme, o que antes soava como uma grande promessa de sucesso se transmutava em um provável desastre. Em uma decisão surpreendente - e temerária, haja visto que acrescentaria 10 milhões de dólares ao orçamento final -, o estúdio anunciou que o lançamento ocorreria, sim, conforme o previsto, mas com uma pequena (e radical) diferença no elenco: Christopher Plummer no lugar de Spacey, cortado definitivamente do filme e seu material promocional.

Como polêmica pouca é bobagem, os problemas da Sony continuaram mesmo depois de o filme estar pronto e começar sua carreira nos cinemas: chamados para refilmar as 22 cenas em que Plummer assumia o papel do milionário J. Paul Getty, os atores Michelle Williams e Mark Wahlberg se viram em meio a um novo tornado de controvérsias, quando a diferença entre seus salários alcançou as manchetes da imprensa especializada em entretenimento. A gritaria começou quando se soube que Williams recebeu um pagamento de apenas mil dólares por seu retorno ao trabalho, enquanto seu colega havia embolsado 1,5 milhão. A discrepância entre os números deu margem a discussões a respeito de sexismo na indústria e ultrapassou o interesse pelo filme em si. Resultado: Wahlberg doou seu salário (e mais 500 mil dólares) para uma fundação em defesa legal das mulheres - e o assunto, de certa forma, morreu (sem que se questionasse, por exemplo, que o número de cenas refilmadas pelo ator era bem maior e que a própria atriz havia se oferecido a trabalhar por uma fração menor do salário, já que não ficaria à vontade, como declarado mais tarde, em divulgar um filme estrelado por Spacey). A essa altura, porém, "Todo o dinheiro do mundo" já havia estreado, dividido a crítica e atraído pouca gente às salas de exibição. De pouco adiantaram os elogios à atuação de Michelle Williams, as três indicações ao Golden Globe (incluindo direção e atriz/drama) e o nome de Plummer entre os candidatos ao Oscar de ator coadjuvante: o filme já estava destinado a permanecer como uma produção maculada pela polêmica.


O pior de tudo é "Todo o dinheiro do mundo" é um belo filme. Não apenas conta sua história com inteligência e sensibilidade - sem deixar de lado a tensão e o aprofundamento dramático dos personagens, cortesia do roteiro de David Scarpa, baseado em livro de John Pearson - como é tecnicamente notável. Da fotografia de Dariusz Wolski à trilha sonora arrepiante de Daniel Pemberton, tudo funciona como um relógio, e mergulha o espectador em um pesadelo acinzentado, de tons trágicos e contornos sombrios, tudo orquestrado por um Ridley Scott em grande forma, abandonando a grandiosidade de seus épicos para concentrar-se em um drama familiar dos mais angustiantes e revoltantes. Para isso, conta com a sempre inspirada Michelle Williams - que ficou com o papel depois das desistências de Angelina Jolie e Natalie Portman - e um Christopher Plummer assustador em sua frieza. É ele, na pele do bilionário magnata do petróleo J. Paul Getty, quem dá as cartas em um jogo mórbido e perigoso que pode custar a vida de seu neto predileto - um jogo que lhe serve, ironicamente, como arma para dominar todos à sua volta.

O filme começa em Roma, no ano de 1973, quando o adolescente Paul (Charlie Plummer, que apesar do sobrenome não tem relação com Christopher) é sequestrado por um grupo de criminosos que exige, como resgate, a quantia de 17 milhões de dólares. Seria uma fortuna inalcançável, se o menino não fosse neto de um dos homens mais ricos do mundo, J. Paul Getty - cuja conta bancária só é comparável à sua frieza e calculismo. Desesperada com o rapto do filho, a ex-nora de Getty, Gail (Michelle Williams), se torna a ponte entre os bandidos e o sogro, que se recusa a pagar um centavo que seja pela volta do neto - por acreditar que, aberto um precedente, todos os outros membros da família serão igualmente abduzidos. Enquanto tenta convencer Getty a ceder, Gail conta com a ajuda do leal Fletcher Chace (Mark Wahlberg), homem de confiança do magnata, que o chama para resolver a situação por meios não oficiais. Nesse meio-tempo, o jovem Paul vive uma rotina de grande tensão, quebrada apenas por seu relacionamento com um dos sequestradores, o misterioso Cinquanta (Romain Duris) - uma relação que não impedirá, no entanto, que a violência o atinja sem piedade.

"Todo o dinheiro do mundo" é um filme que funciona em vários níveis. Pode ser um drama pungente, capaz de emocionar aos mais sensíveis; pode ser um filme de suspense aterrador e imprevisível (apesar de ser uma história real cujo desfecho pode ser descoberto sem mistério em qualquer acesso à Internet); pode ser um belo estudo sobre o poder do dinheiro e como ele pode levar à solidão mais devastadora; e é, ainda, um excelente espelho para o talento de seus atores principais, em especial Michelle Williams e Christopher Plummer, brilhando em um papel difícil e detestável - ao qual oferece uma série de nuances que o livra do maniqueísmo e da análise fácil. Um filme que merece ser visto como a pequena obra-prima que é - a despeito de todos os problemas em sua realização.

terça-feira

DONA FLOR E SEUS DOIS MARIDOS

DONA FLOR E SEUS DOIS MARIDOS (Dona Flor e seus dois maridos, 1976, LC Barreto Produções, 110min) Direção: Bruno Barreto. Roteiro: Bruno Barreto, Eduardo Coutinho, Leopoldo Serran, romance de Jorge Amado. Fotografia: Murilo Salles. Montagem: Raimundo Higino. Música: Chico Buarque, Francis Hime. Figurino: Anísio Medeiros. Direção de arte: Anisio Medeiros. Produção: Luiz Carlos Barreto, Newton Rique. Elenco: Sônia Braga, José Wilker, Mauro Mendonça, Nelson Xavier, Nelson Dantas, Dinorah Brillanti, Francisco Dantas, Hélio Ary. Estreia: 22/11/76

Não há melhor palavra para descrever "Dona Flor e seus dois maridos", a adaptação do romance de Jorge Amado para as telas de cinema, lançada em 1976, do que fenômeno: estrelado por Sônia Braga no auge da beleza e sensualidade, o filme estabeleceu de cara dois recordes que só foram quebrados décadas mais tarde. Não foi apenas a produção nacional mais vista no país por mais de trinta anos - suplantada apenas por "Tropa de elite 2" (2010) - como também foi, por mais de vinte anos, o maior sucesso de público entre os espectadores brasileiros - só perdeu o posto quando "Titanic", de James Cameron, atracou nas salas de exibição em 1998. Não bastasse o indiscutível sucesso popular, o filme de Bruno Barreto (que tinha inacreditáveis 19 anos de idade durante as filmagens e já estava em seu terceiro longa) conquistou também a crítica internacional - concorreu ao Golden Globe de melhor filme estrangeiro e deu à Sônia uma indicação ao BAFTA de revelação do ano - a crítica brasileira - levou dois prêmios no Festival de Gramado - e os produtores de Hollywood - que seis anos mais tarde lançaram um remake pouco inspirado, chamado "Meu adorável fantasma", estrelado por Sally Field, James Caan e Jeff Bridges. Sua permanência no inconsciente coletivo nacional é tão notável que nem a adaptação em forma de minissérie, com Giulia Gam, Edson Celulari e Marco Nanini, ou a refilmagem, com Juliana Paes, Marcelo Faria e Leandro Hassum, conseguiram apagar da memória do público algumas das cenas mais marcantes do cinema nacional.

A figura de Sônia Braga saindo da missa dominical de braços dados com os dois maridos (um deles nu em pelo) é, sem favor, uma das sequências mais inesquecíveis produzidas pelos cineastas brasileiros - talvez não tão poderosa quanto aquelas concebidas por Glauber Rocha em "Deus e o Diabo na Terra do Sol", mas igualmente icônica. O irônico é que, durante as filmagens, ninguém poderia imaginar o quão longe o filme iria em sua trajetória - uma trajetória fundamental para fortalecer o nome de Sônia Braga e Bruno Barreto no exterior. Sônia, que acabava de fazer outra heroína de Jorge Amado na televisão - a Gabriela Cravo e Canela que ela voltaria a encarnar no cinema, ao lado de Marcello Mastroianni e novamente dirigida por Barreto -, em poucos anos deixaria o Brasil para tentar uma carreira internacional, enquanto o cineasta também buscaria o reconhecimento mundial e se casaria com a atriz Amy Irving - ex de ninguém menos que Steven Spielberg. Lançado quase uma década depois da publicação do romance original, que já havia sido traduzido para o mercado norte-americano em 1969, "Dona Flor e seus dois maridos" pegava carona na estética das pornochanchadas que mantinham o público do cinema brasileiro, mas apresentava uma sofisticação inédita: o roteiro bem-humorado e sensual de Leopoldo Serran e do documentarista Eduardo Coutinho, a música de Chico Buarque e Francis Hime (cantada por Simone, em início de carreira), as caracterizações detalhistas e o trabalho primoroso de direção imediatamente o colocava muitos níveis acima do que era feito no país, à época. E, de carona com o carisma radiante de Sônia, o produtor Luiz Carlos Barreto entrou para a história da cultura tupiniquim.


Se é que alguém ainda não conhece a trama, ela se passa na Salvador dos anos 40, e é protagonizada pela jovem Flor (Sônia Braga), uma professora de culinária que vive um casamento atribulado com o mulherengo e irresponsável Vadinho (José Wilker) - ele não apenas não trabalha como ainda tira dinheiro da mulher para apostar e pagar farras homéricas com os amigos e prostitutas. Apesar disso, e de sofrer violência física do marido, Flor é apaixonada por ele, com quem vive uma história de muita paixão e desejo físico. De repente, de uma hora para outra, Vadinho morre do coração durante o Carnaval, deixando sua viúva inconsolável, seus amigos devastados e o mulherio baiano de luto. Alguns anos depois, Flor passa a ser cortejada por Teodoro (Mauro Mendonça), um farmacêutico respeitado, financeiramente estabilizado e dono de uma maturidade a qualquer prova. Incentivada pela mãe, Flor aceita se casar novamente, mas não demora para perceber que, apesar de lhe oferecer uma vida pacata e sem sobressaltos, Teodoro é incapaz de lhe prover o fogo com que Vadinho sempre a preencheu. Um tanto desiludida com essa conclusão, Flor passa a suspirar de saudades do falecido marido - que, para sua surpresa, volta a lhe aparecer como fantasma e exigir seus direitos matrimoniais.

Contada em tom de humor debochado e brejeiro, a história de "Dona Flor e seus dois maridos" encontra os intérpretes ideais em Sônia, Wilker e Mauro Mendonça. Como os dois lados da mesma moeda, os homens da relação oferecem à protagonista feminina (e, até por um lado, feminista, ao não abrir mão do que deseja) a estabilidade e a paixão, o apolíneo e o dionisíaco, o céu e o inferno. Lançado em meio à ditadura militar, o filme obviamente teve cenas cortadas em seu lançamento, mas isso não o impediu de ganhar o apoio massivo do público e transformar um projeto ambicioso (o mais caro até então em produção nacional) em um êxito indiscutível. Visto com olhos atuais, tem alguns pequenos problemas (o visual datado, o ritmo claudicante em determinado momento), mas, no geral, é um filme que merece o sucesso que fez - e ainda faz. Ilustrado pela belíssima música de Chico Buarque, é um marco indelével na cultura popular brasileira - e o trabalho definitivo de Sônia Braga em seu caminho ao sucesso mundial.

segunda-feira

OESTE SEM LEI

OESTE SEM LEI (Slow west, 2015, See-Saw Films/Film4/DMC Film, 84min) Direção e roteiro: John Maclean. Fotografia: Robbie Ryan. Montagem: Roland Gallois, Jon Gregory. Música: Jed Kurzel. Figurino: Kirsty Cameron. Direção de arte/cenários: Kim Sinclair/Amber Richards. Produção executiva: Katherine Butler, Michael Fassbender, Zygi Kamasa. Produção: Iain Canning, Rachel Gardner, Conor McCaughan, Emile Sherman. Elenco: Michael Fassbender, Kodi Smith-McPhee, Caren Pistorius, Ben Mendehlson, Brian Sergent, Edwin Wright, Rory McCann. Estreia: 24/01/15 (Festival de Sundance)

Que Michael Fassbender é um dos maiores atores de sua geração não é novidade para ninguém. Em poucos anos, ele entregou performances arrebatadoras em filmes tão distintos como "Fome" (2008), "Shame" (2011) e "12 anos de escravidão" (2013) - todos dirigidos pelo cineasta Steve McQueen - e trafegou pelos mais diversos estilos, incluindo a ficção científica ("Prometheus", de 2012), o filme de ação ("Assassin's Creed", de 2015) e a cinebiografia ("Steve Jobs", também de 2015). Em "Oeste sem lei" ele volta sua atenção para outro gênero caro ao inconsciente coletivo da plateia - e um dos mais tradicionais de Hollywood: o western. Assinando também como produtor executivo do filme, ele banca a estreia do músico John Maclean (da banda folk The Beta Band) como roteirista e diretor, e aproveita sua versatilidade em favor de uma trama que, se não apresenta grandes novidades, ao menos respeita os cânones do gênero e mantém a atenção do público até seu climático final - com direito a um tiroteio dos mais empolgantes e um desfecho emocionante.

É interessante perceber como Maclean se utiliza dos elementos mais clássicos do western - a figura do cavaleiro solitário, a fotografia caprichada, ataques indígenas, o embate entre mocinhos e bandidos - ao mesmo tempo em que os envolve com certa aura de modernidade. Ao contrário de outras produções que transformaram o gênero em piada (como os filmes "Young guns"), o cineasta estreante demonstra reverência ao que já foi realizado enquanto conta sua história com ritmo e estilo próprios. Evitando a prolixidade e o exagero, Maclean é minimalista, lembrando mais os contemplativos filmes de Clint Eastwood do que os épicos de John Ford - até a duração é tímida, pouco menos de uma hora e meia (modesta para os padrões comerciais). Modesto também foi seu orçamento, estimado em meros dois milhões de dólares, o que lhe permitiu estrear no Festival de Sundance de 2015 - de onde saiu laureado com o Grande Prêmio do Júri. Aplaudido também por críticos europeus (que reconheceram nele as qualidades que sua bilheteria escassa escondeu do grande público), "Oeste sem lei" é uma grata surpresa para quem procura entretenimento sem abrir mão de alguns "detalhes" - como um bom roteiro, uma direção inspirada e atores competentes.


Apesar de Michael Fasbnder ser o produtor executivo e o nome mais conhecido do elenco, seu personagem não é o protagonista da trama. Quem comanda a narrativa é o muito jovem Kodi Smith-McPhee, conhecido por seu trabalho em "A estrada" (2010) e "Deixe ela entrar" (2011). Ele vive Jay Cavendish, um escocês de apenas 16 anos de idade que cai na estrada atrás daquela que considera a mulher de sua vida, a independente Rose Ross (Caren Pistorius) - que, junto com seu pai, John (Rory McCann), tornou-se fugitiva depois de um incidente com o tio de Jay, que não aprovava a amizade do sobrinho com alguém de nível social inferior. Seguindo os passos de Rose, Jay chega ao oeste norte-americano, onde encontra o experiente Silas Selleck (Fassbender em pessoa), com quem logo inicia uma relação de camaradagem - ainda que o misterioso cavaleiro não seja uma pessoa de muitas palavras. O que Jay nem desconfia é que Silas também quer encontrar Rose e John, mas por motivos bem menos emocionais: a dupla está sendo procurada e existe uma recompensa de cinco mil dólares à espera de quem os entregar.

 O roteiro de "Oeste sem lei" se concentra em dar consistência à nascente amizade entre Jay e Silas, enquanto, através de flashbacks, vai contando a história de amor unilateral entre o menino e Rose. Equilibrando as duas linhas narrativas sem maiores sobressaltos, John Maclean se revela um cineasta discreto e inteligente: com pouco dinheiro para gastar, preferiu priorizar os personagens à ação, para somente nos minutos finais entregar à plateia o clímax emocional, que encerra a trajetória de seus protagonistas de forma coerente e digna. O desfecho do "romance" entre Jay e Rose pode até soar um pouco rápido demais, mas é inegável que proporciona ao filme uma conclusão verossímil e emocional. Fugindo com destreza dos clichês ao mesmo tempo em que os abraça quando necessário, o filme é uma bela surpresa para os fãs do gênero, de Fassbender e do bom cinema independente.

domingo

LINHAS CRUZADAS

LINHAS CRUZADAS (Hanging up, 2000, Columbia Pictures Corporation, 94min) Direção: Diane Keaton. Roteiro: Nora Ephron, Delia Ephron, romance de Delia Ephron. Fotografia: Howard Atherton. Montagem: Julie Monroe. Música: David Hirschfelder. Figurino: Bobbie Read. Direção de arte/cenários: Waldemar Kalinowski/Florence Fellman. Produção executiva: Delia Ephron, Bill Robinson. Produção: Nora Ephron, Laurence Mark. Elenco: Meg Ryan, Walter Matthau, Diane Keaton, Lisa Kudrow, Adam Arkin, Cloris Leachman. Estreia: 16/02/00

O time formado pela atriz Meg Ryan e pela roteirista Nora Ephron se mostrou uma fórmula de sucesso em pelo menos três ocasiões: em 1989, com "Harry e Sally: feitos um para o outro" (que revelou Ryan como estrela e rendeu à Ephron uma indicação ao Oscar), em 1993, com "Sintonia de amor" (enorme sucesso de bilheteria que também concorreu a uma estatueta pelo script romântico e bem-humorado), e em 1997,  com "Mensagem para você" (remake do clássico "A pequena loja da esquina" e que voltava a reunir Ryan com Tom Hanks, depois do êxito de "Sintonia"). No caso dos dois últimos, Ephron não apenas assinava o roteiro como também assumia a cadeira de direção, imprimindo a eles um estilo inconfundível que mesclava risos, lágrimas, música de qualidade e romantismo para dar e vender. Em "Linhas cruzadas", lançado em 2000, a dupla voltou a se encontrar, mas dessa vez com uma alteração em sua dinâmica: Ephron continuava por trás do texto, Meg continuava com o principal papel feminino, mas a direção ficou a cargo de Diane Keaton - atriz consagrada e cineasta bissexta. Porém, o filme, baseado no romance de Delia Ephron (irmã de Nora e coautora do roteiro), mostrou que nem mesmo receitas já testadas funcionam o tempo todo: massacrado pela crítica e com uma bilheteria tímida que nem mesmo cobriu seu custo, "Linhas cruzadas" só fica na memória mesmo por um fato triste: ser o último trabalho do ator Walter Matthau, que morreu quatro meses após sua estreia.

Na verdade "Linhas cruzadas" não é um filme ruim. Pelo menos não tão ruim quanto fizeram pensar as críticas à época de seu lançamento e a renda minguada de pouco mais de 30 milhões de dólares no mercado doméstico. Talvez seu maior problema tenha sido a equivocada estratégia de marketing, que, ao invés de assumi-lo como o drama familiar que é, preferiu vender a ideia de que se tratava de uma comédia - fator agravado pela presença de Lisa Kudrow (da popular série "Friends"), de Keaton (cujo "Clube das desquitadas", de 1996, foi um sucesso-surpresa) e até da própria Meg Ryan, a encarnação mais perfeita do romantismo ingênuo na década. Mesmo que o texto de Ephron tenha mantido alguns de seus toques de sarcasmo, a história que envolve três irmãs lidando com a iminência da morte do pai não é exatamente leve ou divertida - e nem mesmo o timing cômico de suas atrizes é capaz de levantar um tema tão denso. A indecisão entre o drama e a comédia (acentuada pela pouca experiência de Keaton atrás das câmeras) impede o filme de decolar em qualquer um dos gêneros.Em "Linhas cruzadas" o público não ri nem chora - fica sempre no meio do caminho, esperando que finalmente o roteiro tome um rumo definido (e quando isso acontece, perto do final, já é tarde demais para esperar a empatia da plateia).


Walter Matthau, simpático como sempre, dá vida a Lou Mozell, um septuagenário bonachão, mulherengo e irresponsável que, vítima de câncer, dá entrada em um hospital já demonstrando sinais de demência - que o leva a frequentemente fugir da realidade e relembrar traumas do passado. Entre esses traumas, o maior é a separação de sua mulher, Pat (Cloris Leachman), que o abandonou e às três filhas por não ter "o instinto maternal" como uma de suas características. A doença de Lou afeta especialmente sua filha do meio, Eve (Meg Ryan), dona de uma empresa de planejamento de festas e que, há alguns anos, se afastou dele depois de um incidente em uma festa de família. Como sua irmã mais velha, Georgia (Diane Keaton) é uma ocupadíssima dona de revista e celebridade nacional, e sua caçula, Maddy (Lisa Kudrow) está tentando uma carreira como atriz de telenovelas, cabe à Eve lidar com a enfermidade paterna e todas as suas consequências - o que irá fatalmente fazê-la encarar alguns fantasmas e a sua relação com as irmãs, com quem mantém um relacionamento ameno mas repleto de arestas e alguns ressentimentos.

Apesar de não atingir a todo o seu potencial dramático (ou cômico), "Linhas cruzadas" é um filme altamente simpático e agradável. Não é uma produção detestável e tampouco "o pior filme já feito", segundo alguns críticos mais severos, mas também não pode ser considerado bom. Seu elenco é ótimo, mas todos repetem à exaustão seus maneirismos típicos: Ryan como a adorável protagonista desengonçada, Keaton como a elegante atrapalhada, Kudrow como a desajeitada e Matthau como o pai ranzinza. Ninguém sai de sua zona de conforto, ninguém arrisca um voo mais alto - e isso se reflete no resultado final, pouco memorável e até decepcionante. Visualmente atraente e com alguns bons momentos perdidos em um roteiro cheio de vai-e-vens, é um filme muito aquém do que se poderia esperar de uma união de tantos talentos, mas vale uma sessão da tarde descompromissada - especialmente para os fãs do trio de atrizes ou do saudoso Walter Matthau. Não muda a vida de ninguém, mas também não tira nenhum pedaço.

sexta-feira

SHINE: BRILHANTE

SHINE: BRILHANTE (Shine, 1996, Fine Line Pictures, 104min) Direção: Scott Hicks. Roteiro: Scott Hicks, estória de Jan Sardi. Fotografia: Geoffrey Simpson. Montagem: Pip Karmel. Música: David Hirschfelder. Figurino: Louise Wakefield. Direção de arte/cenários: Vicki Niehus/Tony Cronin. Produção: Jane Scott. Elenco: Geoffrey Rush, Noah Taylor, Armin Mueller-Stahl, Lynn Redgrave, John Gielgud, Alex Rafalowicz, Marta Kaczmarek, Googie Withers. Estreia: 21/01/96 (Festival de Sundance)

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Scott Hicks), Ator (Geoffrey Rush), Ator Coadjuvante (Armin Mueller-Stahl), Roteiro Original, Montagem, Trilha Sonora Original
Vencedor do Oscar de Melhor Ator (Geoffrey Rush)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator/Drama (Geoffrey Rush) 

Se é justo afirmar que todo gênio tem uma alma torturada, ninguém serve como maior exemplo disso do que o australiano David Helfgott: pressionado desde a infância a superar seu próprio brilhantismo ao piano, ele lutou bravamente para encontrar seu próprio caminho - a despeito dos desejos dúbios de seu pai superprotetor - e, mesmo depois de uma devastadora crise nervosa que o afastou dos palcos por décadas, nunca abandonou sua paixão pela música. A história de Helfgott - redescoberta depois de seu retorno aos holofotes - é inspiradora e emocionante, e como não poderia deixar de ser, interessou aos produtores de cinema. Para sorte de todos, porém, não foi Hollywood e sua tendência em exagerar na sacarose quem levou sua trajetória às telas. Produzido na Austrália e dirigido por um até então desconhecido cineasta e documentarista, "Shine: brilhante" estreou no Festival de Sundance em janeiro de 1996 e, desde então, passou a colecionar prêmios, principalmente devido à sua maior contribuição à sétima arte: a revelação do ator Geoffrey Rush às plateias.

Já na casa dos quarenta anos quando estrelou o filme de Scott Hicks - que nunca mais acertou a mão no cinema -, Rush era conhecido na Austrália por sua vitoriosa carreira nos palcos, mas foi sua interpretação como David Helfgott em sua fase madura que lhe abriu as portas de Hollywood. Seu desempenho não apenas o tornou um nome bem considerado pelos produtores como lhe rendeu todos os prêmios da temporada. Além da vitória junto aos críticos de Boston, Los Angeles e Nova York, ele ainda conquistou uma raríssima unanimidade junto às cerimônias de premiação mais populares: levou pra casa um Oscar, um Golden Globe, um BAFTA, uma estatueta do Critic's Choice Awards e a aprovação dos colegas com um Screen Actor Guild Award. Haja prateleira para tantos prêmios, mas é impossível negar que o desempenho de Rush é um dos pontos fortes de "Shine". Mesmo que ele mal apareça em cena até depois da metade da história (antes disso ele surge apenas no prólogo, que mostra ao público sua inusitada "redescoberta"), é ele quem fica na memória do espectador depois dos créditos finais, graças à excentricidade visceral de sua performance.


Antes que Rush surja na tela e domine o espetáculo, no entanto, outro ator - igualmente impecável em sua atuação - já prepara o terreno. Como o jovem Helfgott, o britânico Noah Taylor encara o desafio de dar vida ao pianista nos momentos mais críticos de sua jornada - seus embates com o pai, sua decolagem artística e a crise psiquiátrica que interrompeu sua carreira. Com segurança ímpar, Taylor percorre terrenos perigosos sem jamais cair em armadilhas ou clichês (mérito também da direção de Scott Hicks) e conquista a audiência com sua mistura de inocência e autoconfiança - um conjunto de qualidades que o empurra em direção ao abismo e à manipulação paterna. Armin Mueller-Stahl - indicado ao Oscar de ator coadjuvante - brilha no papel do patriarca Peter, um homem atormentado pelo passado em campos de concentração e que, apesar de acreditar no talento do filho (e incentivá-lo a ultrapassar seus limites), não concebe a possibilidade de separar a família, e com isso antecipa a tragédia que vem a seguir. Mais do que simplesmente abraçar o caminho mais fácil e fazer de seu personagem um vilão unidimensional, Mueller-Stahl concede a ele o dom de uma profundidade maior, em que cabe o medo, o amor e uma rigidez que nem sempre disfarça o orgulho do filho.

Interpretado ainda por Alex Rafalowicz em sua versão infantil, David Helfgott é um personagem quase inacreditável - e que chamou a atenção até mesmo do veterano Dustin Hoffman, que se interessou em interpretá-lo. Dono de uma personalidade peculiar, com trejeitos próprios e uma linguagem corporal pouco comum, o músico era um convite tentador ao exagero, mas "Shine" consegue o feito raro de contar sua história sem apelar para o sentimentalismo. Não à toa, conquistou a Academia de Hollywood e chegou à festa do Oscar com sete indicações, inclusive melhor filme, diretor e roteiro original - além das lembranças a Rush e Mueller-Stahl. A edição (que também concorreu à estatueta, mas perdeu para o grande vencedor do ano, "O paciente inglês") valoriza a estrutura da trama (que explora com inteligência o uso de flashbacks), e a trilha sonora, que conta com obras de Rachmanioff (das mais difíceis de se executar, segundo especialistas) como pano de fundo, são outros elementos cruciais para o sucesso do filme - que emociona, surpreende e encanta sem apelar para lágrimas fáceis. Um belo trabalho!

quinta-feira

RICKI AND THE FLASH: DE VOLTA PARA CASA

RICKI AND THE FLASH: DE VOLTA PARA CASA (Ricki and The Flash, 2015, TriStar Pictures, 101min) Direção: Jonathan Demme. Roteiro: Diablo Cody. Fotografia: Declan Quinn. Montagem: Wyatt Smith. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Stuart Wurtzel/George De Titta Jr.. Produção executiva: Ron Bozman, Lorene Scafaria, Adam Siegel, Ben Waisbren. Produção: Diablo Cody, Gary Goetzman, Mason Novick, Marc Platt. Elenco: Meryl Streep, Kevin Kline, Mammie Gummer, Rick Springfield, Audra McDoald, Ben Platt, Sebastian Stan, Nick Westrate. Estreia: 03/8/15

O diretor é Jonathan Demme, vencedor do Oscar por "O silêncio dos inocentes" (91). O roteiro é de Diablo Cody, que levou pra casa uma estatueta por "Juno" (2007). O elenco reúne os premiados Meryl Streep (três Oscar e mais de vinte indicações) e Kevin Kline (laureado como coadjuvante por "Um peixe chamado Wanda", de 1988) - ambos do elenco do inesquecível "A escolha de Sofia" (82). A trilha sonora conta com canções de Bruce Springsteen, Tom Petty, Rolling Stones, Pink e Lady Gaga - todas interpretadas por Streep. E, para completar, a veterana atriz estaria em cena no papel de mãe de sua filha na vida real, Mammie Gummer. Com tantos atrativos, por que então "Ricki and The Flash: de volta para casa" deu tão errado? Tido como um forte candidato às cerimônias de premiação das quais Streep é frequentadora assídua, o filme de Demme não apenas naufragou nas bilheterias americanas como foi solenemente ignorado nos tapetes vermelhos de Hollywood. Talvez tenha sido o excesso de expectativas, mas o fato é que o último trabalho do cineasta (que morreu em abril de 2017) decepcionou a crítica e não chamou a atenção do público - o que não é exatamente difícil de entender, uma vez que o filme é um drama familiar apenas mediano, nem de longe inovador e corajoso como seus melhores trabalhos.

Revelado por comédias anárquicas, como "Totalmente selvagem" (87) e "De caso com a máfia" (88), Jonathan Demme acabou rendido ao mainstream depois da surpreendente (e maciça) vitória no Oscar 92, quando seu mórbido "O silêncio dos inocentes" ganhou as cinco principais estatuetas da noite - filme, diretor, roteiro, ator e atriz. Alçado imediatamente a um nome comercialmente viável (o filme de suspense também foi um enorme sucesso financeiro), ele abraçou de vez a comunidade hollywoodiana. Realizou "Filadélfia" (93) - que deu o Oscar de melhor ator a Tom Hanks - e passou a dividir a carreira entre produções caras ("Bem-amada", fracasso de 1998, estrelado e produzido por Oprah Winfrey), remakes ("O segredo de Charlie" em 2002 e "Sob o domínio do mal" em 2004) e documentários e ocasionais episódios de séries de televisão. Em 2008, experimentou uma quase ressurreição crítica quando seu "O casamento de Rachel" proporcionou à Anne Hathaway sua primeira indicação ao Oscar. Experiente e iconoclasta - mas bem mais manso do que no começo de sua trajetória -, Demme não demonstra, em "Ricki and The Flash", a mesma energia de suas obras mais célebres. Mesmo sendo um filme que não chega a ofender a inteligência da plateia, é apenas uma pálida lembrança de seu talento incendiário e pulsante.


Levemente inspirada na história de sua sogra (uma roqueira mãe de família), Diablo Cody criou uma trama frágil, amparada basicamente no carisma de seus protagonistas e na trilha sonora caprichada. Meryl Streep faz o que pode no papel principal - além de cantar e tocar guitarra de verdade -, mas Kevin Kline é subaproveitado, relegado a um segundo plano injusto e pouco interessante. Streep vive a líder de um grupo de rock chamado Ricki and The Flash, que toca em um pequeno bar da Califórnia: é assim, ao lado do marido/colega/namorado Greg (o músico Rick Springfield) e outros músicos de meia-idade que terminou sua busca pelo sucesso artístico, que a levou a abandonar a família quando os filhos ainda eram crianças. Como um chamado do passado, seu ex-marido, Pete (Kevin Kline) lhe pede socorro em uma situação emergencial: abalada com o fim de seu casamento ainda recente, sua filha, Julie (Mamie Gummer), está em depressão profunda e, segundo seu pai, precisa da ajuda materna. Mesmo hesitante quanto à veracidade da carência de Julie, Ricki (cujo nome verdadeiro é Linda) pega um avião para Indianapolis e encontra a jovem realmente em estado deplorável. Porém, como sua saída da vida da família não foi exatamente diplomática, existem muitas arestas a serem aparadas na relação mãe e filha - assim como na dinâmica de seu relacionamento com os outros dois filhos, um deles prestes a casar e o outro assumidamente gay.

A volta inesperada de Ricki (ou Linda) ao seio da família, que foi reconstruída em sua ausência, serve como o catalisador que faltava para uma tormenta de ressentimentos vir à tona. Seus filhos não a consideram tanto como à nova esposa de Peter, a dedicada Maureen (Audra McDonald), e ela passa a questionar se suas escolhas realmente valeram a pena. Nesse meio-tempo, ressurge entre ela e Julie uma tênue, mas ainda existente, ligação, e seu deslocamento em relação a tudo que se refere à vida normal torna-se não mais motivo de orgulho, e sim de certa tensão. O cineasta constrói com delicadeza a reconciliação entre mãe e filhos, mas é inegável que o maior problema do filme é o roteiro superficial de Diablo Cody. Ao contrário de "Juno" - e até mesmo de "Jovens adultos" (2012), seu reencontro com o cineasta Jason Reitman -, a trama de "Ricki and The Flash" nunca soa convincente o bastante para emocionar o espectador. Até mesmo o clímax parece forçado - seguindo uma receita já testada diversas vezes e que pode até divertir, mas nunca ultrapassa o previsível e o inverossímil. É uma pena que a despedida de Demme não tenha feito jus à sua carreira - mas, ao menos, é uma produção simpática que, se não muda a vida de ninguém, também não é uma total perda de tempo. Realmente é só uma questão de baixar as expectativas que seus créditos possam suscitar.

quarta-feira

O QUE EU FIZ PARA MERECER ISSO?

O QUE EU FIZ PARA MERECER ISSO? (Une heure de tranquillité, 2014, TF1 Films Production/Wild Bunch/Fidélité Films, 79min) Direção: Patrice Leconte. Roteiro: Florian Zeller, peça teatral de Florian Zeller, Simon Gray. Fotografia: Jean-Marie Dreujou. Montagem: Joelle Hache. Música: Éric Neveux. Direção de arte: Ivan Maussion. Produção: Olivier Delbosc. Elenco: Christian Clavier, Carole Bouquet, Valérie Bonneton, Rossy de Palma, Stéphanie de Groodt, Sébastien Castro, Christian Charmetant. Estreia: 31/12/14

O título em português é semelhante ao clássico oitentista de Pedro Almodóvar, mas "O que eu fiz para merecer isso?" não tem, rigorosamente, nada a ver com a comédia surrealista do cineasta espanhol - a não ser que se conte a participação de Rossy de Palma, colaboradora célebre do oscarizado diretor de "Fale com ela" (2002) e "Tudo sobre minha mãe" (1999). Baseado em uma peça de teatro escrita pelo roteirista Florian Zeller em parceria com Simon Gray, o filme do veterano Patrice Leconte é um típico produto francês: verborrágico, autocrítico e com um humor bem mais sofisticado que a média. Para sorte do espectador, porém, essa sofisticação não o impede de ser um passatempo divertido e rápido (pouco menos de uma hora e meia), capaz de fazer rir graças a suas inusitadas situações e personagens bem delineados e interpretados por um belo elenco - liderado pelo sensacional Christian Clavier, conhecido do grande público por seu trabalho como Asterix, nas adaptações cinematográficas dos famosos quadrinhos de René Goscinny e Alberto Uderzo.

Especialista em interpretar pais de família à beira de um ataque de nervos (para novamente citar Almodóvar), Clavier mais uma vez demonstra um timing cômico impecável na pele de Michel Leproux, o protagonista do filme de Leconte. Odontologista consagrado e bem estabelecido em um belo e amplo apartamento de Paris, Michel encontra, em um de seus passeios pelos mercados de pulga da cidade, um vinil raro de jazz, o qual procurava há décadas. Sabendo que seu melhor amigo, Pierre (Christian Charmetant), irá visitá-lo logo mais, ele corre até seu doce lar com o objetivo claro e simples de ter uma simples hora de tranquilidade (a hora do título original em francês) e deleitar-se com sua música preferida. Como planos nunca costumam dar certo - especialmente em comédias -, tudo parece conspirar contra o momento de paz de Michel. Sua mulher, Nathalie (Carole Bouquet), está decidida a revelar um segredo do passado, incentivada por seu terapeuta; sua amante, Elsa (Valérie Bonneton), melhor amiga de sua mulher, quer expor o relacionamento extraconjugal, movida por um intenso sentimento de culpa; seu filho, Sébastien (Sébastien Castro) está hospedando uma família de imigrantes filipinos no apartamento exatamente acima dos pais; e, se não bastasse, uma dupla de estrangeiros está cuidando da reforma do banheiro (leia-se demolindo ruidosamente as paredes).


Desesperado pela série de situações que o rodeiam e o impedem de ser feliz por alguns minutos, Michel ainda precisa lidar com o vizinho, Pavel (Stéphane de Groodt) - que sofre com o vazamento do banheiro do andar de cima e está preparando cuidadosamente uma festa para todos os moradores do prédio - e a voluntariosa empregada doméstica, Maria (Rossy de Palma). Quando percebe que definitivamente sua esperança está destruída, novos problemas surgem no horizonte - e revelações bombásticas transformam uma banal tarde de sábado em um pesadelo kafkiano, em que imigrantes, pedreiros, vizinhos desconhecidos e amantes secretos se tornam parte do mesmo universo. Essa estrutura teatral é muito bem conduzida por Leconte, em um trabalho discreto, quase minimalista em termos de produção. Praticamente sem tomadas externas e desenvolvido dentro de um período de tempo bem definido, "O que eu fiz para merecer isso?" não nega suas origens teatrais, mas jamais se prende às limitações que elas poderiam lhe impor, dado o frescor de seu texto e do talento de seu elenco: seguros e com excelente química, eles transformam a experiência em diversão pura.

Conhecido por filmes densos, como "Um homem meio esquisito" (1989), "O marido da cabeleireira" (1990) e "Caindo no ridículo" (1996), indicado ao Oscar, Leconte mais uma vez encontra no humor a forma ideal de criticar o moralismo e a hipocrisia da sociedade. O desfile de personagens inusitados - mas aparentemente normais - que surge diante dos olhos de Michel (e do espectador) é um retrato de uma Europa tanto cosmopolita quanto fechada. A luta ideológica de Sébastien em defender imigrantes enquanto pedreiros estrangeiros batalham por dinheiro em um emprego insalubre no apartamento de seu pai, por exemplo, é sintomático dessa esquizofrenia que se estende pelo mundo inteiro - assim como a indignação do protagonista ao descobrir segredos da esposa enquanto ele mesmo tem seus mistérios a encobrir. A reunião forçada de vizinhos, a solidão e a falta de comunicação também estão entre os temas discutidos no texto - em maior ou menor grau de clareza e obviedade. Inteligente e sarcástico, "O que eu fiz para merecer isso?" é uma delícia, ainda que nem todo mundo vá perceber toda a extensão de sua crítica.

terça-feira

SATURNO EM OPOSIÇÃO

SATURNO EM OPOSIÇÃO (Saturno contro, 2007, Medusa Film, 110min) Direção: Ferzan Ozpetek. Roteiro: Ferzan Ozpetek, Gianni Romoli. Fotografia: Gian Fillippo Corticelli. Montagem: Patrizio Marone. Música: Giovanni Pellino "Neffa". Figurino: Alessandro Lai. Direção de arte/cenários: Massimiliano Nocente. Produção: Tilde Corsi, Gianni Romoli. Elenco: Stefano Accorsi, Margherita Buy, Piefrancesco Favino, Serra Yilmaz, Ennio Fantastichini, Ambra Angiolini, Luca Argentero, Michelangelo Tommaso, Milena Vukotic, Luigi Diberti, Lunetta Savino, Isabella Ferrari. Estreia: 23/02/07

Por nome talvez os espectadores não saibam logo de saída quem é Ferzan Ozpetek. Basta, porém, citar alguns de seus filmes para que os cinéfilos mais antenados com a produção italiana do começo do século XXI percebam de quem se está falando. Diretor de "Um amor quase perfeito" (2001), "A janela da frente" (2003) e "O primeiro que disse" (2010), entre outros menos conhecidos, o turco radicado na Itália é um dos nomes mais relevantes do novo cinema europeu - mesmo que nunca tenha tido a sorte de, por exemplo, chegar a ser indicado a um Oscar. Premiado em diversos festivais de cinema mundo afora, Ozpetek é um cineasta com características marcantes (personagens complexos, histórias que valorizam a amizade como uma forma de família, a simpatia pela comunidade LGBT) e elas ficam bastante claras em "Saturno em oposição", seu sexto longa-metragem, lançado em 2007 e que reúne o trio de atores de seu "Um amor quase perfeito" (Stefano Accorsi, Margherita Buy e Serra Yilmaz). Uma bela história sobre laços afetivos e luto, seu filme arrebatou sete indicações ao David di Donatello (o Oscar italiano) e, apesar da pouca repercussão no Brasil, é mais um pequeno grande filme do diretor.

Sua trama, como de costume, é simples e direta - o que não significa, de modo algum, que é simplória ou superficial: sem um protagonista específico, ela gira em torno de um grupo de amigos que, confrontados com a efemeridade da vida, são obrigados a rever seus conceitos e prioridades - assim como seus próprios relacionamentos interpessoais. Se algum dos personagens pode ser considerado o principal, este é Lorenzo (Luca Argentero), um jovem bonito e saudável que vive feliz com o namorado, o escritor Davide (Pierfrancesco Favino), e está em franca ascensão profissional. De repente, em meio a um jantar oferecido ao tradicional grupo de amigos, ele sofre um derrame cerebral e se torna o centro das atenções de todos - que deixam seus problemas de lado para se revezarem no hospital, enquanto lidam com suas próprias questões. Antonio (Stefano Accorsi) e Angelica (Margherita Buy), um casal aparentemente feliz, se descobre em meio a um tumultuado caso de adultério; a tradutora Nerval (Serra Yilmaz) tenta manter a união de todos e a paz de seu casamento com o policial Roberto (Fillipo Timi); o ex-namorado de Davide, Sergio (Ennio Fantastachini), mantém a amizade com o novo casal; os mais jovens, Paolo (Michelangelo Tommaso) - um aspirante a escritor - e Roberta (Ambra Angiolini), envolvida com drogas, testemunham os embates dos mais velhos; e Davide enfrenta o conservador pai de Lorenzo, Vittorio (Luigi Diberti), que não aceita totalmente a orientação sexual do filho único.


Dividindo sua atenção entre todos os seus personagens - com um pouco mais de ênfase no casal Antonio e Angelica, que se sobressaem também pelo carisma de seus intérpretes -, Ferzan Ozpetek brinda o espectador com cenas de uma delicadeza ímpar, nunca apelando para o sentimentalismo exagerado ou o caminho mais fácil. Ao dotar suas criações com uma série de nuances que os afastam do maniqueísmo, o diretor e roteirista permite aos atores que explorem com menos pressa e avidez o âmago de cada um deles. Ozpetek é mestre em trabalhar com sutilezas, como um olhar triste, um sorriso esperançoso, um abraço redentor, e faz isso com abundância, recheando de calor humano uma história que apresenta, em sua origem, poucas novidades. "Saturno em oposição" é, mais do que um filme de trama forte, uma obra de personagens interessantes e situações verossímeis, que encontram eco no público justamente por sua simplicidade aparente. Com o uso adequado da trilha sonora - comovente e eficaz em sua função de ilustrar passagens que exigem uma emoção mais forte - e um respeito absoluto pela humanidade de cada um (na tela e na plateia), o filme de Ozpetek faz parte de um tipo cada vez mais raro de cinema: aquele que retrata e embeleza o cotidiano.

Todos os problemas dos personagens de "Saturno em oposição" são graves - em níveis distintos e em graus maiores ou menores, mas definitivamente graves. Doença, morte, adultério, uso de drogas, problemas financeiros e o medo do fracasso atormentam sem descanso o grupo de amigos. Mas o roteiro faz questão de nem dourar a pílula e fazê-los de resolução milagrosa nem tampouco torná-los impossíveis de contornar. Oferecendo uma boa dose de generosidade a todos, Ferzan Ozpetek parece acenar com um gesto de esperança para cada um deles - e consequentemente também para o espectador. Em alguns momentos pode ser difícil segurar as lágrimas, mas no final das contas, o filme deixa claro que a amizade, a união e o respeito podem fazer grande diferença - não milagres, mas a quantidade necessária de conforto e carinho para que se possa manter a espinha ereta e o coração tranquilo. Mais uma vez acertando em cheio na emoção e na sensibilidade, Ozpetek se torna, com "Saturno em oposição", um diretor indispensável.

segunda-feira

PROGRAMADO PARA VENCER

PROGRAMADO PARA VENCER (The program, 2015, Working Title Films, 89min) Direção: Stephen Frears. Roteiro: John Hodge, livro de David Walsh. Fotografia: Danny Cohen. Montagem: Valerio Bonelli. Música: Alex Heffes. Figurino: Jane Petrie. Direção de arte/cenários: Alan MacDonald/Gabriella Villarreal. Produção executiva: Liza Chasin, Olivier Courson, Amelia Granger, Ron Halpern. Produção: im Bevan, Eric Fellner, Tracey Seaward, Kate Solomon. Elenco: Ben Foster, Chris O'Fowd, Dustin Hoffman, Guillaume Canet, Jesse Plemons, Lee Pace, Denis Ménochet. Edward Hogg, Elaine Cassidy, Laura Donnelly. Estreia: 13/9/15 (Festival de Toronto)

No mundo do ciclismo profissional nenhum nome é mais conhecido - e celebrado, apesar de tudo - do que Lance Armstrong. Primeiro porque curou-se de um câncer no testículo (e tumores no pulmão e no cérebro) que o atingiu quando estava começando a ascender na carreira. Depois, por tornar-se campeão absoluto da famosa Tour de France, vencendo a competição por sete anos consecutivos (entre 1999 e 2005), um recorde absoluto. E, por fim e por uma razão menos admirável, por ter sido desmascarado como usuário recorrente de doping - mais precisamente uma droga chamada EPO (eritropoetina), que, aumentando a produção de glóbulos vermelhos no sangue, torna o metabolismo mais rápido. Tal descoberta, tornada pública após uma confissão do esportista no programa de TV de Oprah Winfrey, em janeiro de 2013 - e forçada por uma exaustiva investigação do FBI - jogou Armstrong no chão. Depois de perder todos os títulos conquistados, ter todas as homenagens feitas retiradas e ser banido do esporte pelo resto da vida, um dos maiores heróis do esporte norte-americano passou de mocinho a bandido, o que nem mesmo sua instituição criada para pesquisas contra o câncer ajudou a amenizar. E é justamente da história de Armstrong - entre o céu e o inferno - que trata "Programado para vencer", uma das cinebiografias mais subestimadas da temporada 2015 e um dos filmes menos aplaudidos do elogiado Stephen Frears.

Lançado no Festival de Toronto como um dos prováveis candidatos às cerimônias de premiação de final de ano nos EUA, "Programado para vencer" passou em brancas nuvens, sendo esnobado mesmo com o nome de Frears lhe servindo como cartão de visitas. Diretor de filmes admirados, como "Ligações perigosas" (88), "Os imorais" (90) e "A rainha" (2007), o britânico - que emplacaria Meryl Streep na corrida do Oscar pelo pouco memorável "Florence: quem é essa mulher?" no ano seguinte - não conseguiu o destaque esperado e tampouco chamou a atenção do público, que praticamente ignorou sua passagem pelos cinemas. Quem saiu mais prejudicado, no entanto, além dos produtores, foram os espectadores, que perderam a oportunidade de testemunhar (mais) uma atuação impecável de Ben Foster e conhecer os detalhes de uma história quase inacreditável, contada com um ritmo ágil e uma seriedade acima de qualquer suspeita.


Em uma interpretação irretocável, Ben Foster, um dos atores mais talentosos de sua geração, vive um Lance Armstrong repleto de nuances - da arrogância ao medo, da autoconfiança ao cinismo - com segurança ímpar. O roteiro, baseado no livro "Seven deadly sins: my pursuit of Lance Armstrong", do jornalista David Walsh (vivido por Chris O'Dowd no filme), acompanha a carreira do ciclista desde seus primeiros passos até sua decadência moral, dando ênfase em sua vida profissional e aos detalhes relacionados à sua relação com as drogas que acabaram por encerrar sua vitoriosa carreira. Mesmo que muitas vezes a narrativa precise utilizar-se de momentos mais didáticos para explicar ao público como funcionava a tática do atleta e seu médico italiano, Michele Ferrari (Guillaume Canet), a edição criativa de Valerio Bonelli não permite tempos mortos. Intercalando cenas de arquivo com sequências filmadas para a produção, "Programado para vencer" envolve a audiência sem fazer maiores esforços, principalmente graças a um visual atraente, uma trilha sonora eficaz e um elenco coadjuvante que conta até mesmo com o veterano Dustin Hoffman em uma participação especial - pequena mas crucial para marcar o início da queda do protagonista. Além dele, o jovem Jesse Plemmons - uma das novas promessas de Hollywood - também mostra que pode ir bastante longe na carreira ao dar vida a Floyd Landis, um colega (e posteriormente testemunha ocular dos abusos) do ciclista.

Mesmo sendo considerada uma obra menor na filmografia de Stephen Frears - um cineasta eclético, que flerta com todos os gêneros e normalmente sai-se muito bem em todos eles -, "Programado para vencer" tem muito mais qualidades do que defeitos. Pode-se dizer que por vezes soa como um telefilme ou que dá a impressão de ser um pouco superficial em sua reta final, quando os acontecimentos parecem atropelar-se, mas nada disso atrapalha o prazer de ver em cena grandes atores, uma história importante e um tema a ser discutido com seriedade e sem sensacionalismos. Ben Foster, nunca é demais dizer, brilha no papel central, e certamente merecia maior reconhecimento por isso, e Frears mais uma vez prova sua elegância natural em injetar sutileza e certo humor em um tema tão árduo. Um filme que precisa ser visto e recomendado!

domingo

SUÍTE FRANCESA

SUÍTE FRANCESA (Suite Française, 2014, Alliance/Scope Pictures, 107min) Direção: Saul Dibb. Roteiro: Saul Dibb, Matt Charman, romance de Irène Némirovsky. Fotografia: Eduard Grau. Montagem: Chris Dickens. Música: Rael Jones. Figurino: Michael O'Connor. Direção de arte/cenários: Michael Carlin/Véronique Melery. Produção executiva: Len Blavatnik, Christine Langan, Charles Layton, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Romain Bremond, Andrea Cornwell, Michael Kuhn, Xavier Marchand. Elenco: Michelle Williams, Kristin Scott-Thomas, Matthias Schonaerts, Margot Robbie, Sam Riley, Lambert Wilson, Alexandra Maria Lara, Harriet Walter, Ruth Wilson, Eric Godon, Deborah Findlay. Estreia: 05/11/14

Final dos anos 1990: filha de uma vítima fatal dos campos de concentração de Auschwitz, Denise Epstein aceita a proposta de doar as anotações de sua mãe, a escritora Irène Nemirovsky, morta em 1942, para os arquivos franceses sobre a II Guerra Mundial. Antes de entregar todas os seus escritos, porém, ela resolve finalmente ler o que acreditava ser um doloroso diário sobre a rotina da prisão e descobre, surpresa, que tem em mãos um livro inacabado, um romance ambicioso que tencionava retratar o período da guerra sob um olhar mais mundano e menos político, concentrando sua ação em personagens comuns vivendo situações extremas. Publicado em 2004, "Suíte francesa" torna-se um bestseller e, como era previsível, chama a atenção de Hollywood - mais especificamente dos produtores Kathleen Kennedy e Frank Marshall (colaboradores habituais de Steven Spielberg nos anos 80 e 90), que, com o apoio da Universal Pictures, chegam a contratar o roteirista Ronald Harwood (vencedor do Oscar por "O pianista"). Foi uma produtora francesa, porém, a TF1 Droits Audiovisuels, quem levou o projeto adiante, sob a direção de Saul Dibb e a produção executiva dos irmãos Weinstein (ex-Miramax e donos da Weinstein Company). A mudança de planos pode ter sido benéfica em termos artísticos (sabe-se lá quem seriam as escolhas da Universal para o elenco), mas foi um desastre em termos de marketing: pronto desde o final de 2014, o filme só estreou nos EUA na televisão a cabo, em maio de 2017 - acabando com suas chances de prêmios e bilheterias de destaque.

O lançamento equivocado de "Suíte francesa" nos cinemas - apesar de seu lançamento em mais de 30 países, ele nunca chegou a ter o merecido destaque dos produtores - apenas privou o público de uma pequena obra de arte, delicada, sensível e emocionante. Experiente em produções de época (seu "A duquesa" levou o Oscar de figurino em 2009), o cineasta Saul Dibb explora com segurança e bom gosto todas as nuances da trama de Nemirovsky - em um roteiro coescrito por ele e Matt Charman que se concentra basicamente na novela "Dulce". Mais do que apenas contar uma devastadora história de amor proibido, Dibb também apresenta ao espectador uma visão diferente do conflito, centrada em famílias atingidas indiretamente pelas bombas e pela violência. Não há, no filme, cenas sanguinolentas ao estilo "O resgate do soldado Ryan", ou contemplativas como em "Além da linha vermelha", ambos de 1998: o que interessa ao cineasta são as consequências de tudo isso no dia-a-dia principalmente das mulheres que, deixadas de lado no front, eram obrigadas a esperar notícias de seus maridos/filhos/irmãos enquanto sofriam na pele o outro lado da moeda, se vendo diante de dilemas morais dilacerantes, que transformavam seu silêncio em impensáveis concessões ao inimigo.


O inimigo, em "Suíte francesa", surge na forma pouco convencional de um homem culto, inteligente, sensível e romântico, que abala as estruturas de uma jovem até então dedicada ao marido e ao lar. Esse inimigo, vestido com o uniforme da Alemanha nazista, é Bruno von Falk (Matthias Schoenaerts), que se hospeda compulsoriamente na propriedade de Madame Angellier (Kristin Scott-Thomas) durante a ocupação germânica na França. Apesar de ser tido (justificadamente) como alguém em quem não se deve confiar, os modos elegantes de Bruno acabam chamando a atenção de Lucille (Michelle Williams), que espera notícias de seu marido - filho de Angellier e prisioneiro de guerra. Atraída pelos bons modos de Bruno e sua paixão por música, a recatada Lucille acaba se envolvendo muito mais do que deveria - especialmente quando moradores da região passam a tornar-se alvo preferencial dos soldados invasores, devido à sua insurreição. Ao tentar fazer o que suas consciências obrigam, tanto Lucille quanto Bruno se veem diante de decisões que significam a vida ou a morte - e percebem que a força da guerra pode ser tão grande ou maior do que a do amor que sentem um pelo outro.

Dentre suas inúmeras qualidades, "Suíte francesa" consegue a façanha de contar sua trama principal de forma satisfatória sem deixar de lado os personagens paralelos, cujas histórias aparentemente marginais acabam por afetar profundamente seu desenrolar. A mais importante delas diz respeito ao jovem Benoit Labarie (Sam Riley), cuja tragédia conjugal atravessa radicalmente o romance dos protagonistas e os joga em um labirinto de situações imprevistas que servem para testar seu amor. Saul Dibb conta todas as histórias de seu roteiro com delicadeza e cuidado, se preocupando em proporcionar ao espectador uma experiência vasta em emoções. Consegue atingir seu objetivo na maior parte do tempo, graças principalmente à excelência de seu elenco, que se dá ao luxo de ter a sempre fascinante Kirstin Scott-Thomas em um papel coadjuvante mas crucial - e que pega o público de surpresa com algumas atitudes que apenas reiteram a ideia central do filme: a guerra pode despertar o melhor ou o pior nas pessoas, basta que elas se deixem levar por sua verdadeira personalidade. Uma história de amor lindamente musicada (o tema principal é de Alexandre Desplat) e com um histórico pessoal poderoso, "Suíte francesa" merece ser descoberto e admirado - ao menos para que se confira a excelente química entre Michelle Williams e Matthias Schoenaerts.

sábado

PASTORAL AMERICANA

PASTORAL AMERICANA (American pastoral, 2015, Lakeshore Entertainment, 108min) Direção: Ewan McGregor. Roteiro: John Romano, romance de Philip Roth. Fotografia: Martin Ruhe. Montagem: Melissa Kent. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Lindsay Ann McKay. Direção de arte/cenários: Daniel B. Clancy/Jason Shumaker, Julie Smith. Produção executiva: Qiuyun Long, Terry A. McKay, Eric Reid. Produção: Andre Lamal, Gary Lucchesi, Tom Rosenberg. Elenco: Ewan McGregor, Jennifer Connelly, Dakota Fanning, Peter Riegert, Rupert Evans, Uzo Aduba, Molly Parker, Samantha Mathis, David Strathairn. Estreia: 09/9/16 (Festival de Toronto)

Não deixa de ser estranho que o filme de estreia de Ewan McGregor na direção de longa-metragens seja algo tão denso quanto "Pastoral americana": revelado por Danny Boyle em produções celebradas principalmente por seu senso de humor inconoclasta, como "Cova rasa" e "Trainspotting: sem limites", McGregor jamais abandonou suas raízes independentes, mesmo quando se jogava sem medo em superproduções hollywoodianas, como a saga "Star Wars" ou o musical "Moulin Rouge: o amor em vermelho" (2001), seus maiores sucessos comerciais. Mas sua escolha em contar uma história tão profundamente arraigada aos conflitos do american way of life, adaptada de um romance do consagrado Philip Roth, vencedor do Pulitzer em 1998, demonstra uma sensibilidade em relação ao âmago do núcleo tradicional da família americana que nem todo cineasta ianque consegue ter. Com uma narrativa clássica e discreta, McGregor tem a inteligência de não querer uma direção que se sobressaia à trama - e acaba entregando um potente drama, escorado em seus atores e em um roteiro que não trai o legado de Roth em sua investigação sobre a personalidade humana.

Na verdade, McGregor não era a primeira escolha para o filme - nem como diretor e nem como ator. Quando o projeto original foi cancelado, em 2004, o diretor escolhido era Philip Noyce, em um momento feliz de sua carreira, depois do sucesso de seu "O americano tranquilo" (2002), baseado no livro de Graham Greene, e que havia rendido uma indicação ao Oscar de melhor ator para Michael Caine. Nessa versão, o casal central da história seria um casal também da vida real, Paul Bettany e Jennifer Connelly, com Evan Rachel Wood no papel da filha rebelde (uma especialidade da atriz, revelada no excelente "Aos treze", de 2003). Anos haviam se passado no desenvolvimento da ideia de realizar o filme quando o cancelamento acabou, e somente uma década depois, ele voltaria a ser considerado - dessa vez já com McGregor como diretor e no papel principal masculino. Jennifer Connelly continuou no elenco mesmo sem o marido como colega de cena, e a talentosa Dakota Fanning foi chamada para viver sua problemática filha, Merry. Com um trio talentoso como esse - mais a música de Alexandre Desplat e a participação especial de David Straithairn - não tinha mesmo como dar errado. E, apesar do pouco caso com que foi recebido nas bilheterias e até mesmo por parte da crítica, não deu mesmo. "Pastoral americana" é um drama forte, visceral e relevante, que aponta para McGregor uma nova e surpreendente carreira.


De forma contundente e melancólica, "Pastoral americana" destrói a ilusão de uma família perfeita - quase como Sam Mendes fez em "Foi apenas um sonho" (2008), também baseado em um livro, escrito por Sam Yates. McGregor interpreta Seymour Levov, mais conhecido como Swede, um americano judeu que é o retrato do sucesso: atleta cobiçado na universidade, casou-se com a bela Dawn (Jennifer Connelly), uma rainha de beleza igualmente desejada, e, com a chegada da vida adulta, assumiu o comando da bem-sucedida fábrica de luvas criada pelo pai. Dono de uma bela casa em Nova Jersey, profissionalmente satisfeito, com uma esposa exemplar e uma bela e loura filha (cujo único problema é a gagueira), Swede parece só ter motivos para agradecer - até que sua adorável filha passa a tornar-se irreconhecível a seus olhos: politicamente afetada pelos problemas sociais ao seu redor, Merry simplesmente desaparece depois de ser acusada de plantar uma bomba em uma propriedade privada. Desnorteados, seus pais iniciam uma busca não apenas por seu paradeiro, mas também por uma forma de reencaixá-la em sua vida pacífica e, até então, quase banal. Dawn embarca em um processo de negação que a leva às raias da loucura, enquanto Swede tenta manter o equilíbrio emocional para não permitir o desmoronamento absoluto de seu universo perfeito.

McGregor acerta na direção de atores, o que não é pouca coisa quando se trata de um estreante. Ao mesmo tempo em que consegue manter-se discreto no papel de Swede - que é, ao mesmo tempo um observador do redemoinho à sua volta e um ativo participante da tragédia que o envolve -, o ator extrai de suas colegas de cena performances carregadas de sentimento e dor. Jennifer Connelly, linda como nunca, sai-se muito bem tanto na juventude quanto na maturidade, entregando alguns momentos de melancolia explícita de cortar o coração; e Dakota Fanning - revelada ainda criança em "Uma lição de amor" (2001), onde fazia a filha de Sean Penn - comprova que seu talento não era questão de sorte de principiante: no difícil papel da rebelde e problemática Merry, a jovem se encarrega de dar luz a ideias e princípios que batem de frente com o pensamento político médio dos EUA, e oferece um contraponto radical à lucidez cega de sua família. Os três estão sensacionais - e inundam o filme de sentimento, dor e amor incondicional. Um belíssimo trabalho de estreia de Ewan McGregor - e que seja o primeiro de muitos.

sexta-feira

PASSAGEM PARA A ÍNDIA

PASSAGEM PARA A ÍNDIA (A passage to India, 1984, EMI Films, 154min) Direção: David Lean. Roteiro: David Lean, romance de E.M. Forster e peça teatral de Santha Rama Rau. Fotografia: Ernest Day. Montagem: David Lean. Música: Maurice Jarre. Figurino: Judy Moorcroft. Direção de arte/cenários: John Box/Hugh Scaife. Produção: John Brabourne, Richard B. Goodwin. Elenco: Judy Davis, Victor Banerjee, Peggy Ashcroft, James Fox, Alec Guinness, Nigel Havers. Estreia: 14/12/84 

11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (David Lean), Atriz (Judy Davis), Atriz Coadjuvante (Peggy Ashcroft), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Som
Vencedor de 2 Oscar: Atriz Coadjuvante (Peggy Ashcroft), Trilha Sonora Original
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme Estrangeiro, Atriz Coadjuvante (Peggy Ashcroft), Trilha Sonora Original 

Quatorze anos separam "A filha de Ryan" e "Passagem para a Índia". Nesse meio tempo, o cineasta David Lean, consagrado por filmes épicos como "A ponte do Rio Kwai" (57), "Lawrence da Arábia" (62) e "Doutor Jivago" (65) ficou longe das telas, decepcionado com a recepção fria da crítica e do público a seu último trabalho - e cogitou inclusive abandonar de vez a carreira de diretor. Seu retorno, porém, mostrou que a distância da indústria não lhe tirou a sensibilidade e tampouco o olhar apurado para encontrar o drama psicológico de personagens escondidos em vastas paisagens. Escrito durante o ano de 1982, entre Nova Déli e Zurique, o roteiro de "Passagem para a Índia" abandona a peça teatral escrita por Santha Rama Rau (cujo texto não valorizava as vastas possibilidades visuais da trama, justamente pelas limitações de um palco) e se concentra na sutileza da construção dos protagonistas criados pelo romancista E.M. Forster e mergulha sem medo no embate entre as culturas indiana e britânica - sem poupar a plateia de suas características mais marcantes: a fotografia impecável, a reconstituição de época caprichada e uma inspirada trilha sonora (que deu a Maurice Jarre um merecido prêmio da Academia).

Mesmo sem a opulência dos trabalhos mais conhecidos de Lean, "Passagem para a Índia" brinda o espectador com belos momentos - cortesia da fotografia de Ernest Day - e atuações precisas de um elenco homogêneo, que inclui desde uma  jovem Judy Davis até os veteranos Alec Guinness e Peggy Ashcroft (vencedora do Oscar de coadjuvante) e o ator indiano Victor Banerjee, uma opção mais do que acertada do cineasta, uma vez que o tema principal do filme é o embate entre duas culturas conflitantes e, paradoxalmente, complementares. O resultado, belo e interessante, não reflete, nas telas, o clima pouco amistoso dos bastidores, onde o veterano diretor se via em constante atrito com a equipe e com o elenco. Com Judy Davis a briga era por discordâncias em relação à personagem; com Victor Banerjee o problema era o sotaque; Peggy Ashcroft reclamava das alterações do roteiro em relação ao romance e da falta de respeito com os colegas; e com Alec Guinness o problema foi tão grande que, após as filmagens (e depois que o ator viu que grande parte de suas cenas foram cortadas na edição final), os dois nunca mais se falaram. Com tantas situações desagradáveis por trás das câmeras, é surpreendente, porém, como "Passagem para a Índia" funciona diante dos olhos da plateia.


Tudo bem que a trama em si demora a engrenar, confirmando a tendência de Lean em estender suas cenas de modo a proporcionar ao espectador uma submersão total no universo retratado - no caso, a Índia do período colonial, ou seja, no início dos anos 1920. É para lá que vão Adela Quested (Judy Davis) e a espiritualizada Sra. Moore (Peggy Ashcroft), mãe de seu futuro noivo, o magistrado Ronny Heaslop (Nigel Havers). O desejo de ambas é conhecer a fundo a cultura do país, mas não demora para que percebam que sua viagem não será tão produtiva nesse aspecto: não há interação social entre britânicos e ingleses, e até mesmo pessoas de alto nível intelectual, como o médico Aziz Ahmed (Victor Banerjee), são tratados com uma relativa distância pela sociedade formada pelos colonizadores (da qual faz parte inclusive Ronny). A única exceção entre tais conterrâneos é o professor Richard Fielding (Edward Fox), cuja mente mais aberta aproxima as duas turistas do doutor, um viúvo querido pela comunidade, mas um tanto ingênuo em relação às coisas do mundo. Quando Aziz organiza um piquenique nas cavernas mais famosas do local, um incidente acaba levando todos ao tribunal, com Adela o acusando de abuso sexual.

No fundo, a trama de "Passagem para a Índia" é apenas um pretexto para o olhar arguto do escritor E.M. Forster em relação a temas como preconceito racial, diferença de classes e repressão sexual. David Lean, deixa claro, através de sequências belamente filmadas e de interpretações preciosas, que entendeu o âmago do romance - e aproveita ao máximo o rico cenário para contar sua história sem pressa e com delicadeza. O ritmo pode incomodar aos mais impacientes (em especial no início, quando o roteiro se concentra em longos planos e diálogos), mas o resultado final é digno de figurar na filmografia do diretor, um dos maiores do cinema inglês. Judy Davis brilha com uma personagem dúbia e complexa, mas foi Peggy Ashcroft quem levou o Oscar de coadjuvante, por um desempenho caloroso e sensível que faz a ponte entre dois mundos extremamente distintos mas intrinsecamente ligados. Um filme para públicos especiais, que apreciam uma boa história contada através de imagens caprichadas e delicadeza acima de qualquer crítica. Um belo canto do cisne para um homem que encantou gerações com seu bom gosto e inteligência.

quinta-feira

OBSESSÃO FATAL

OBSESSÃO FATAL (Unlawful entry, 1992, 20th Century Fox, 117min) Direção: Jonathan Kaplan. Roteiro: Lewis Colick, estória de George D. Putnam, John Katchmer, Lewis Colick. Fotografia: Jamie Anderson. Montagem: Curtiss Clayton. Música: James Horner. Figurino: April Ferry. Direção de arte/cenários: Lawrence G. Paull/Rick Simpson. Produção: Charles Gordon. Elenco: Kurt Russell, Ray Liotta, Madeleine Stowe, Roger E. Mosley, Ken Lerner, Deborah Offner, Carmen Argenziano. Estreia: 26/6/92

Em 3 de março de 1991, um dos acontecimentos mais infames da história da polícia de Los Angeles rodou o mundo: o espancamento violento e cruel de Rodney King, um taxista negro, acusado de dirigir em alta velocidade, por quatro agentes brancos. A indignação apenas aumentou, quando, no final de abril de 1992, os policiais foram absolvidos por um júri popular: uma onda de rebeliões por toda a Califórnia durou três dias em que confrontos, incêndios, saques e depredações mostraram a revolta da população afro-americana, causando mortes e destruição - e resultando, de forma indireta, como uma espécie de compensação, na absolvição do ex-jogador de futebol O.J. Simpson por duplo homicídio, em 1995. Não era exatamente um período apropriado para a estreia de um filme que tratava justamente de abuso policial - mas mesmo assim, a 20th Century Fox correu o risco e lançou "Obsessão fatal", um suspense dirigido pelo veterano Jonathan Kaplan que não tinha medo de eleger como vilão alguém que deveria (ao menos no imaginário do cinema popular) ser o herói. A crítica se dividiu, o público também, e o filme arrecadou quase 60 milhões de dólares nas bilheterias. Nada mal para um filme que, mesmo longe de ser memorável, ousou em mostrar o outro lado da moeda - exatamente em uma época em que este lado se revelava tão dúbio.

Lançado no mesmo ano em que o cineasta Jonathan Kaplan também estreou seu "Love field: as barreiras do amor" - que deu à Michelle Pfeiffer uma indicação ao Oscar de melhor atriz -, "Obsessão fatal" é um filme de gênero, sem ambições de revolucionar o cinema ou chegar às cerimônias de premiação (ainda que Ray Liotta tenha sido indicado ao MTV Movia Awards na categoria de Melhor Vilão). Com personagens bem definidos entre bem e mal e uma narrativa clássica e sem sobressaltos, o roteiro segue o padrão dos filmes policiais hollywoodianos, inovando apenas na inversão de papéis e questionando até que ponto o cidadão comum está realmente a salvo quando nas mãos da autoridade oficial. Um questionamento importante - e que por pouco não foi enfatizado com a presença de Kevin Costner (então a personificação do homem americano médio) no elenco: assim como Jeff Bridges e Bill Pullman (pré-sucesso de "Independence Day"), Costner foi considerado para o papel principal do filme, que acabou nas mãos bastante competentes de Kurt Russell, e é de imaginar como seria a reação do público ao ver nas telas o seu herói patriota e de dignidade ilibada enfrentando o mal fardado. Levando-se em consideração o ponto de ebulição pelo qual passavam os EUA à época, porém, foi até melhor que o namoradinho da América (recém oscarizado por "Dança com lobos") tenha preferido um outro viés para tocar no inconsciente do país, estrelando o romance interracial "O guarda-costas", ao lado da cantora Whitney Houston, e levando multidões às salas de exibição.


Ray Liotta - que também não foi a escolha inicial para o papel do vilão, já que Mel Gibson, John Travolta, Tom Berenger e Charlie Sheen recusaram a proposta - dá seguimento a sua tendência em interpretar personagens ameaçadores com uma composição exata entre gentileza e violência (ao menos até o clímax um tanto exagerado). No filme de Kaplan, ele vive o policial Pete Davis, o atencioso agente da lei que ajuda o casal Carr em um momento de angústia, quando eles tem sua casa invadida por um estranho. Prestimoso ao extremo, ele orienta Michael (Kurt Russell) na instalação de sistemas de segurança e, aos poucos, torna-se um amigo sempre disposto a colaborar em qualquer circunstância. Elogiado por Carr a seus superiores, Davis passa inclusive a frequentar os mesmos ambientes do casal - especialmente porque sente-se irremediavelmente atraído pela bela Karen (Madeleine Stowe), com quem tenta iniciar um flerte. Tal constatação e um episódio de violência testemunhado por Michael faz com que ele resolva afastar-se do policial, mas esbarra em um grande problema: como proteger-se de alguém que deveria justamente ser a sua proteção?

Apesar do tema altamente inflamável, Jonathan Kaplan não se aprofunda na questão principal a ser discutida, preferindo seguir o caminho do entretenimento. Não é uma opção inválida, uma vez que sua intenção é apenas conduzir a plateia por duas horas de tensão, e ele o faz com relativo sucesso. Liotta deita e rola com seu personagem, enquanto sobra a Russell tomar a dianteira no posto de herói e defender a frágil e bela esposa - Madeleine Stowe, que tem a incumbência de dar vida ao menos ativo dos protagonistas e não faz feio. Entre mortos e feridos, todos se salvam. Mesmo que por vezes seja um tanto previsível, "Obsessão fatal" é um bom filme de suspense, que prende a atenção até os últimos minutos e, de quebra, desmonta a imagem superior e inquebrantável de autoridade constituída tão questionável no momento de sua estreia. Um filme que é, para o bem e para o mal, um retrato de sua época.

quarta-feira

NO CORAÇÃO DO MAR

NO CORAÇÃO DO MAR (In the heart of the sea, 2015, Warner Bros, 122min) Direção: Ron Howard. Roteiro: Charles Leavitt, estória de Charles Leavitt, Rick Jaffa, Amanda Silver, livro de Nathaniel Philbrick. Fotografia: Anthony Dod Mantle. Montagem: Dan Hanley, Mike Hill. Música: Roque Baños. Figurino: Julian Day. Direção de arte/cenários: Mark Tildesley/Dominic Capon. Produção executiva: David Bergstein, Bruce Berman, Sarah Bradshaw, Erica Huggins, Steven Mnuchin, Palak Patel. Produção: Brian Grazer, Ron Howard, Joe Roth, Will Willard, Paula Weistein. Elenco: Chris Hemsworth, Benjamin Walker, Tom Holland, Ben Whishaw, Brendan Gleeson, Cillian Murphy, Michelle Fairley, Charlotte Riley. Estreia: 02/12/15

Publicado em 1851 e tornado um clássico indiscutível e obrigatório, o romance "Moby Dick" atravessou o tempo como parte do inconsciente coletivo de várias gerações, como prova do gênio de seu autor, Herman Melville, e gerando estudos e discussões a respeito de seu tema e sua linguagem. Adaptado para o cinema - mais notavelmente na produção dirigida por John Huston em 1956 - e frequentemente citado em listas dos melhores livros já escritos, "Moby Dick" tem, por incrível que pareça, inspiração em uma história real, ocorrida em 1820 no Oceano Pacífico. E é essa história verdadeira e quase inacreditável que é narrada em "No coração do mar", primeiro filme do cineasta Ron Howard na Warner - e mais um injusto fracasso comercial na sua carreira, logo depois da fria recepção do público ao excelente "Rush: no limite da emoção" (2014): com uma renda mundial de pouco mais de 93 milhões de dólares, o filme não chegou nem mesmo a cobrir seu orçamento milionário, além de ter sido solenemente ignorado pelas cerimônias de premiação. Nem mesmo seu maior trunfo (os efeitos visuais caprichados) foi percebido pela Academia ou aplaudido pela crítica. No entanto, é entretenimento de primeira, valorizado pelo bom elenco - liderado pelo carismático Chris Hemsworth - e pelo excepcional desenho de produção.

O roteiro de Charles Leavitt é baseado no livro de Nathaniel Philbrick, que narra a trágica e emocionante aventura do navio Essex e seus tripulantes, já contada em um filme feito pela BBC em 2015 - mas toma a liberdade de inserir na trama o próprio Herman Melville, antes de escrever sua obra-prima e disposto a pagar por informações detalhadas que possam tornar seu próximo romance o mais realista possível. Vivido por Ben Winshaw, o escritor chega até um dos sobreviventes da aventura, o hesitante e quase agressivo Tom Nickerson (Brendan Gleeson), que só aceita relembrar os acontecimentos que presenciou décadas antes mediante o pagamento de um dinheiro que pode lhe pagar dívidas e a comida. Essa introdução - e suas subsequentes inserções no decorrer da ação - pode até contextualizar a trama e servir como seu fio condutor, mas é, de uma certa forma, uma quebra no ritmo que prejudica consideravelmente a fluidez da edição. Mesmo assim, não chega a incomodar tanto a ponto de alienar a atenção do espectador, que, a esta altura, já está totalmente envolvido nas desventuras dos personagens.


A história que Nickerson conta a Melville começa na Nova Inglaterra de 1820, quando ele tinha apenas 14 anos de idade (e o rosto de Tom Holland, o menino que comoveu multidões em "O impossível", de 2012): contratado para trabalhar no Essex, um navio que zarpa com o objetivo de retornar com centenas de litros de óleo de baleia, ele testemunha a rotina dos companheiros de missão com o olhar ingênuo e atento. O que mais lhe chama a atenção, no entanto, é a disputa nem sempre silenciosa entre o experiente Owen Chase (Chris Hemsworth) e o novato George Pollard (Benjamin Walker): escalado como subalterno de Pollard porque este tem origem social mais importante, Chase sente-se diminuído, mas aceita o trabalho com a promessa de ter um retorno profissional que poderá dar estabilidade à sua família. Os conflitos entre os dois, porém, levam a um impasse quando uma gigantesca baleia branca passa a perseguir sua embarcação - e ambos se unem na luta por salvarem suas vidas e eliminar a ameaça que os cerca.

Contando sua história com o máximo de realismo possível, com sequências de ação bem construídas e um elenco escalado com cuidado, "No coração do mar" segue a tendência de Ron Howard em retratar personagens reais em sua filmografia - tendência esta que tem como exemplos os elogiados "Apollo 13: do desastre ao triunfo" (95) e "Frost/Nixon" (2008) e o premiado "Uma mente brilhante" (2001). Sem descuidar do capricho na construção de seus personagens, no entanto, dessa vez ele aposta mais no visual: os ataques da baleia são esteticamente apurados, e a fotografia do premiado Anthony Dod Mantle (Oscar por "Quem quer ser um milionário?", de 2008) empresta ao filme um tom nostálgico que se reflete nos tons azulados e na constante sensação de ameaça transmitida pela câmera. Diante de tal capricho na ação, resta aos atores pontuar com correção os esforços da produção em apresentar um filme capaz de agradar a qualquer tipo de audiência que busca um entretenimento de qualidade - está longe de ser um filme inesquecível ou brilhante, mas cumpre o que promete e entrega um dos passatempos mais interessantes do gênero. Diversão garantida, apesar do fracasso de bilheteria.

A CADELA (1931)

A CADELA (La chienne, 1931, Les Étbalissements Braunberger-Richebé, 91min) Direção: Jean Renoir. Roteiro: Jean Renoir, baseado no romance ...