Mostrando postagens com marcador 2018. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador 2018. Mostrar todas as postagens

quarta-feira

MAMMA MIA! LÁ VAMOS NÓS DE NOVO


MAMMA MIA! LÁ VAMOS NÓS DE NOVO (Mamma Mia: Here we go again, 2018, Universal Pictures, 114min) Direção: Ol Parker. Roteiro: Ol Parker, estória de Richard Curtis, Ol Parker, Catherine Johnson, personagens de Catherine Johnson. Fotografia: Robert D. Yeoman. Montagem: Peter Lambert. Música: Benny Andersson, Anne Dudley, Bjorn Ulvaeus. Figurino: Michele Clapton. Direção de arte/cenários: Alan MacDonald/Anita Dujic. Produção executiva: Benny Andersson, Nicky Kentish Barnes, Richard Curtis, Tom Hanks, Phyllida Lloyd, Bjorn Ulvaeus, Rita Wilson. Produção: Claudia Balboa, Judy Craymer, Raphael Benoliel, Gary Goetzman, Anna Sofia Morck. Elenco: Amanda Seyfried, Pierce Brosnan, Lilly James, Stellan Skarsgaard, Colin Firth, Dominic Cooper, Meryl Streep, Julie Walters, Christine Baranski, Andy Garcia, Cher, Jeremy Irvine, Alexa Davies, Jessica Keenan Wynn, Hugh Skinner, Josh Dylan, Celia Imrie. Estreia: 20/7/2018

Quando surgiu a ideia - aparentemente estapafúrdia - de uma continuação do musical "Mamma Mia!",  pouca gente levava fé no projeto. Não apenas porque todo mundo sabia que seria quase impossível repetir o impressionante êxito do primeiro filme - que arrecadou assombrosos 700 milhões de dólares em sua carreira nos cinemas -, mas porque havia a dificuldade extra de encontrar-se um roteiro coerente com o desfecho do original e, mais ainda, de encaixar nele canções do ABBA não utilizadas no primeiro capítulo. Porém, nenhum desafio é grande o bastante para um estúdio em busca de um sucesso de bilheteria, e poucos repertórios são tão fortes quanto o do grupo sueco - em que até mesmo as músicas menos conhecidas são capazes de empolgar. Com isso, "Mamma Mia: lá vamos nós de novo" não chegou a surpreender quando, dez anos depois da estreia do primeiro filme, encerrou sua carreira nas salas de exibição com uma respeitável renda de 365 milhões - nada mal para uma produção sem efeitos visuais dispendiosos, super-heróis devidamente testados e aprovados e uma campanha de marketing maciça. Mesmo com a ousadia de abdicar da presença marcante de Meryl Streep - aqui apenas em uma rápida participação especial -, o filme do britânico Ol Parker é divertido o bastante para não fazer feio diante da memória afetiva das plateias. 

De certa forma aprisionados pelo final redondinho do primeiro filme - cujo desfecho não abria espaço para novos desdobramentos -, os roteiristas de "Mamma Mia: lá vamos nós de novo" (dentre os quais está o experiente Richard Curtis) encontraram uma solução interessante ao intercalar presente e passado: Sophie (Amanda Seyfried) está passando por dias conturbados, já que a reinauguração do hotel de sua mãe, Donna (Meryl Streep), morta há um ano, está ameaçado por questões naturais (uma tempestade que pode atrapalhar as festividades) e por situações mais prosaicas, como uma possível crise em seu relacionamento com Sky (Dominic Cooper) e a ausência de dois de seus pais afetivos, envolvidos em projetos profissionais. Enquanto lida com tais atribulações, nunca deixa de lembrar da encorajadora história de Donna, que em 1979 (e vivida por Lilly James), saiu de sua zona de conforto para realizar seu sonho de viajar pelo mundo - e de quebra, viveu uma surpreendente história de amor/desejo/paixão/liberdade com o romântico Harry (Hugh Skinner), o sexy Bill (Josh Dylan) e o misterioso Sam (Jeremy Irvine). Contando com a ajuda de Rosie (Julie Walters) e Tanya (Christine Baranski) - fiéis escudeiras de sua mãe - e com o apoio do novo gerente do hotel, o charmoso Fernando Cienfuegos (Andy Garcia), Sophie descobre que o legado de Donna é maior do que simplesmente a bela propriedade na Grécia... e até mesmo sua excêntrica avó reaparece, para sua surpresa.

 

Com uma direção mais ágil e segura do que a do primeiro filme - e apresentando coreografias mais elaboradas que tornam as canções ainda mais energéticas - "Mamma Mia: lá vamos nós de novo" faz uso inteligente de flashbacks, que disfarçam o fiapo de história e a falta de conflitos relevantes. Cientes de que o mais importante do projeto eram as músicas e as personagens amadas pelo público, os roteiristas se dedicaram a criar uma nova trama de acordo com a trilha sonora - e acertaram em cheio ao dar prioridade à juventude de Donna em detrimento aos pouco interessantes problemas sentimentais e profissionais de Sophie: mesmo que Amanda Seyfried seja talentosa o suficiente para sustentar uma produção (como já fez em outras ocasiões), sua personagem quase desaparece diante da energia de Lilly James - mesmo que elas não dividam nenhuma cena, por razões óbvias. Centro do filme, James tira de letra o desafio de dividir um papel com Meryl Streep - e sua química com o elenco jovem aponta o talento do diretor Ol Parker, em sua primeira grande produção, depois dos pouco ambiciosos "Imagine eu e você" (2005) e "Agora e para sempre" (2012): sem o objetivo de aprofundar um estilo ou aparecer mais do que a história que deseja contar, Parker oferece ao público duas horas de diversão escapista, leve e alto-astral, que em nada mancha o legado do filme original - cujos maiores atrativos eram, a rigor, a trilha sonora e a presença ensolarada e rara (em um musical) de Streep. Se há algo a reclamar é apenas o pouco tempo em cena dos veteranos do "Mamma Mia!" original - em especial as excelentes Julie Walters e Christine Baranski. Mas, em compensação, há a surpresa da presença da sempre luminosa Cher, aqui no papel da apoteótica (como não poderia deixar de ser) Ruby, a bissexta avó de Sophie.

"Mamma Mia: lá vamos nós de novo" cumpre o que promete. É divertido, é despretensioso e é, acima de tudo, uma ode à alegria, ao amor e à amizade. Não tem o frescor do primeiro filme - e nem o carisma de Meryl Streeep a não ser em poucos minutos, no final -, mas não deixa a peteca cair em termos de energia e honestidade. Para o seu público-alvo é uma festa: dançante, contagiante e sem contra-indicações. Não é uma obra-prima e nem mudou a história do cinema, mas é um filme conforto dos mais agradáveis - exceto para quem busca produções cabeça ou repletas de testosterona pura e simples.

 

terça-feira

NASCE UMA ESTRELA

 


NASCE UMA ESTRELA (A star is born, 2018, Warner Bros, 136min) Direção: Bradley Cooper. Roteiro: Bradley Cooper, Eric Roth, Will Fetters, estória de William Wellman, Robert Carson, roteiros de Moss Hart (1954), John Gregory Dunne, Joan Didion, Frank Pierson (1976). Fotografia: Matthew Libatique. Montagem: Jay Cassidy. Figurino: Erin Benach. Direção de arte/cenários: Karen Murphy/Ryan Watson. Produção executiva: Basil Iwanyk, Sue Kroll, Niija Kuykendall, Ravi Mehta, Heather Parry, Michael Rapino. Produção: Bradley Cooper, Bill Gerber, Lynette Howell Taylor, Jon Peters, Todd Phillips. Elenco: Lady Gaga, Bradley Cooper, Sam Elliott, Rafi Gavron, Anthony Ramos, Ron Rifkin. Estreia: 31/8/201 (Festival de Veneza)

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Bradley Cooper), Atriz (Lady Gaga), Ator Coadjuvante (Sam Elliott), Roteiro Adaptado, Fotografia, Canção Original ("Shallow"), Mixagem de Som

Vencedor do Oscar de Canção Original ("Shallow")

Vencedor do Golden Globe de Canção Original ("Shallow")

A trama de "Nasce uma estrela" fascina Hollywood - e o público - desde 1937, quando o filme estrelado por Janet Gaynor e Fredric March estreou (e ganhou o Oscar de melhor roteiro). De lá pra cá, outras  versões da trágica história de amor entre dois artistas  - ele decadente; ela em plena ascensão - povoaram a mente e o coração de diferentes gerações, sempre com sucesso de crítica e bilheteria. E levando-se em conta de que era praticamente tradicional que surgisse um novo remake a cada duas décadas, até que demorou para que o século XXI apresentasse a sua própria visão do tema. Tudo bem que projetos já existiam há tempos - e até nomes como Steven Spielberg e Clint Eastwood estiveram ligados a ele em determinados momentos -, mas foi somente em 2018 que finalmente o quarto "Nasce uma estrela" chegou às telas. A demora, no entanto, revelou-se uma bênção: tivesse sido realizado antes, o filme não teria contado com seu maior trunfo - a presença luminosa e potente de Lady Gaga. Uma das maiores estrelas pop surgidas nos anos 2000, Gaga foi, provavelmente, o maior chamariz da produção, e não apenas foi a principal responsável pelos mais de 400 milhões de dólares coletados pelo filme nas bilheterias: premiada com o Golden Globe e indicada ao Oscar de melhor atriz, ela tornou-se a imagem mais potente do filme, que lhe rendeu a estatueta de melhor canção original (situação que espelha o que aconteceu com Barbra Streisand em 1976).

A presença de Gaga no papel central de "Nasce uma estrela" deve-se muito aos esforços do ator/diretor/roteirista/produtor Bradley Cooper, que insistiu em sua escalação a despeito da resistência da Paramount Pictures, pouco confiante no talento e no poder de fogo da cantora - conhecida por suas apresentações excêntricas que flertavam abertamente com o bizarro e a ruptura do status quo. Para o papel, que exigia dotes musicais além do corriqueiro, o estúdio preferia nomes menos polêmicos, como Beyoncé, Jennifer Lopez, Shakira, Rihanna e até Selena Gomez, mas Cooper, certo de que a escolha de Gaga era a mais certeira, lançou mão do mais velho dos truques, filmando a si mesmo e à cantora em cenas escritas por ele mesmo e o corroteirista Will Fetters: diante do resultado final, com o sucesso estrondoso do filme e o arrastão de prêmios da temporada (com oito indicações ao Oscar, incluindo melhor filme), dificilmente os executivos se arrependeram da decisão. Mesclando inocência, garra, paixão e força, Lady Gaga engole o filme toda vez que está em cena, mesmo ao lado de um Bradley Cooper no melhor momento de sua carreira.

 

Gaga interpreta (com segurança de veterana) a garçonete Ally Campana, que sonha em ver reconhecido seus talentos de cantora e compositora. Recém saída de um relacionamento tóxico, ela vê sua vida mudar radicalmente quando conhece Jackson Maine (Bradley Cooper), astro da música country que a descobre em um bar de drag queens e lhe oferece a chance de cantar com ele em um show. Maine está passando por um longo período de batalha contra as drogas e o álcool, mas isso não o impede de encantar-se com a jovem e convidá-la a juntar-se a ele em uma turnê. Aos poucos o relacionamento profissional evolui para um apaixonado romance, mas enquanto Ally começa a tornar-se mais e mais reconhecida por seus dotes musicais - a ponto de suplantá-lo em sucesso comercial e prestígio -, Maine se afunda progressivamente em sua doença. Brigado com o irmão mais velho, Bobby (Sam Elliott), e com a carreira ameaçada, o outrora celebrado cantor tenta sobreviver à ideia de ficar à sombra da mulher que ama, mas seus demônios interiores crescem à medida em que ela atinge o ápice de sua carreira.

Sem abrir mão de momentos clássicos das versões anteriores da trama - como o clássico momento em que Jackson invade, bêbado, a cerimônia de consagração de Ally -, o remake 2018 de "Nasce uma estrela" consegue o feito raro de modernizar o enredo original sem precisar desrespeitar seus antecessores. Em seu primeiro trabalho como diretor, Bradley Cooper equilibra com destreza as sequências musicais (dentre as quais destaca-se a bela "Shallow", premiada com o Oscar) e os dramas pessoais de seus protagonistas, com uma embalagem visual atraente e um ritmo adequado às plateias de seu tempo. Se Judy Garland estava no auge de sua carreira quando estrelou a versão de 1954 e Barbra Streisand já era uma atriz e cantora de prestígio em 1976, Lady Gaga surpreende ao demonstrar uma segurança ímpar na construção de sua Ally Campana mesmo em sua estreia no cinema. Dona de um carisma irresistível, Gaga bate de frente com o experiente Cooper em cenas de alta carga dramática e, se o público não consegue resistir às lágrimas em seu final, muito se deve à sua dedicação ao papel e ao apelo universal (e atemporal) da história, adaptada (felizmente) sem muitas invenções. Com uma produção caprichada - fotografia deslumbrante, a trilha sonora marcante, edição ágil - e uma direção precisa, "Nasce uma estrela" não decepciona frente a seus irmãos mais velhos e se apresenta como um dos filmes essenciais do gênero.

segunda-feira

DO JEITO QUE ELAS QUEREM


DO JEITO QUE ELAS QUEREM (Book club, 2018, June Pictures/Apartment Story/Endeavor Content, 104min) Direção: Bill Holderman. Roteiro: Bill Holderman, Erin Simms. Fotografia: Andrew Dunn. Montagem: Priscilla Nedd-Friendly. Música: Peter Nashel. Figurino: Shay Cunliffe. Direção de arte/cenários: Rachel O'Toole/Dena Roth. Produção executiva: Alan Blomquist, Ted Deiker. Produção: Andrew Duncan, Bill Holderman, Alex Saks, Erin Simms. Elenco: Diane Keaton, Jane Fonda, Candice Bergen, Mary Steenburgen, Andy Garcia, Craig T. Nelson, Don Johnson, Ed Begley Jr., Richard Dreyfuss, Wallace Shawn, Alicia Silverstone. Estreia: 17/5/2018

Em uma era que as aparências, a juventude e a popularidade nas redes sociais valem mais do que talento, é um alento perceber que ainda existe a possibilidade de se nadar contra a corrente mesmo na pouco ousada indústria de cinema de Hollywood. "Do jeito que elas querem" pode até não ter mudado a história da sétima arte ou a forma dos executivos enxergarem mulheres maduras como algo indesejável comercialmente, mas sua bilheteria internacional acima dos 100 milhões de dólares certamente demonstrou que, a despeito do pensamento comum, ainda existe espaço para filmes protagonizados por gente acima dos 60 anos de idade - principalmente quando esta gente é do calibre de Diane Keaton, Jane Fonda, Candice Bergen e Mary Steenburgen. São elas, do alto de seu carisma e de sua capacidade de extrair o melhor até mesmo de um roteiro bobo e quase superficial, o principal atrativo do filme de Bill Holderman - uma produção leve, divertida e que não tem medo de falar de um assunto tabu (sexo na maturidade) com a naturalidade de uma comédia adolescente. Pode até soar inverossímil em alguns momentos, mas é difícil não simpatizar com um elenco tão sensacional - que conta com participações luxuosas de Richard Dreyfuss, Andy Garcia e Don Johnson.

Filme de estreia de Holderman como diretor - como produtor seu currículo conta com obras que valorizam atores veteranos, como "O velho e a arma", que deu a Robert Redford, em 2018, um dos melhores papeis de sua carreira -, "Do jeito que elas querem" é, nitidamente, um veículo para o brilho cômico de suas estrelas, todas brilhantes e extremamente à vontade ao assumir a idade e seus efeitos colaterais na vida sexual. Tudo bem que todas são ricas (ou ao menos de classe média alta), sem problemas maiores a resolver e relativamente bem-sucedidas, mas isso não impede o público de rir de suas desventuras amorosas - e, dependendo do espectador (ou espectadora), atéomesmo identificar-se com algumas delas. Ao centrar sua trama em quatro personagens principais, o roteiro abarca diferentes tipos de relacionamentos e personalidades, e mesmo que não tente se aprofundar em nenhuma delas apresenta à plateia, de forma agradável e esteticamente sofisticada, um interessante painel sobre o amor na terceira idade.

Vivian (Jane Fonda) é uma empresária do ramo da hotelaria que tem uma vida sexual razoavelmente ativa mas que é incapaz de assumir um relacionamento sério - simplesmente não consegue dormir ao lado de um homem depois do sexo - até que reencontra um amor do passado, o músico Arthur (Don Johnson). Diane (Diane Keaton) ficou viúva recentemente e é pressionada pelas filhas casadas (uma delas vivida por Alicia Silverstone, musa dos anos 1990) para mudar de cidade e morar perto delas - sua preocupação é com sua segurança e sua saúde, como se ela fosse uma idosa inválida -, mas que se vê surpresa quando o charmoso piloto de avião Mitchell (Andy Garcia) se demonstra muito mais interessado nela do que se poderia imaginar. Sharon (Candice Bergen) é uma poderosa juíza que atravessa um período difícil depois da separação e do novo amor juvenil do ex-marido - e descobre que os sites de relacionamento podem esconder boas chances de realização sexual. E Carol (Mary Steenburgen) é uma dona-de-casa que tenta reacender a faísca amorosa do marido aposentado, Bruce (Craig T. Nelson). As quatro, amigas há décadas, se reúnem frequentemente em um Clube do Livro, onde falam de suas vidas e discutem literatura, embaladas por boas doses de vinho. Quando a obra escolhida é o polêmico "50 tons de cinza", todas elas se deixam influenciar pelo alto teor erótico da história e buscar dentro de si o melhor caminho para a felicidade a dois.


 Que não se espere maiores elocubrações intelectuais do roteiro, coescrito por Holderman e Erin Simms - atriz pouco conhecida e produtora do romântico "Nossas noites" (2017), que reuniu Jane Fonda e Robert Redford: a trama se contenta em aproveitar o talento de seu elenco para fazer rir enquanto derruba todo tipo de preconceito etário, mas jamais ambiciona discutir com seriedade o assunto. Seu objetivo é divertir o público com diálogos de duplo sentido, sequências de humor visual (o encontro de Craig T. Nelson com uma guarda de trânsito enquanto sofre os efeitos do Viagra é hilário), algum romantismo e momentos de pura comédia (o embate entre Candice Bergen e Richard Dreyfuss é delicioso). Não há a sofisticação de um Woody Allen. parceiro constante de Diane Keaton nos anos 1970, ou o engajamento dos filmes estrelados por Jane Fonda na mesma época, mas em compensação há a química precisa entre suas atrizes e a coragem da produção em apostar na experiência de seus intérpretes mesmo quando o senso comum da indústria privilegia efeitos visuais e orçamentos milionários. Além do mais, não tem preço rever o sempre ótimo Richard Dreyfuss - ainda que em um papel menor que seu talento - e testemunhar uma história que não relega mulheres com mais de 60 anos a tipos dramáticos e sofredores. 

Longe de problemas típicos de personagens de tal faixa etária - como o desprezo dos filhos, a deteriorização da saúde, a falta de oportunidades profissionais e a baixa autoestima -, as protagonistas de "Do jeito que elas querem" são festivas, alegres, independentes e donas do próprio nariz (e a mudança de tal status é o que move a personagem de Diane Keaton). Nada de lágrimas sofridas, reclamações doídas ou medo da morte. O roteiro brinca com a idade de suas heroínas de forma a envolver o espectador e fazê-lo rir de situações que, em mãos menos sutis, poderiam facilmente descambar para a vulgaridade e o mau gosto. Nenhuma atuação é digna de um Oscar e é pouco provável que o filme entre na lista dos preferidos da crítica, mas quem disse que só de obras-primas é feita a história do cinema? Se visto sem preconceitos - afinal é um "filme de mulher" -, "Do jeito que elas querem" é um programa dos mais divertidos.

quinta-feira

ANIQUILAÇÃO


ANIQUILAÇÃO (Annihilation, 2018, Paramount Pictures/Skydance Media/Scott Rudin Productions, 115min) Direção: Alex Garland. Roteiro: Alex Garland, romance de Jeff VanderMeer. Fotografia: Rob Hardy. Montagem: Barney Pilling. Música: Geoff Barrow, Ben Salisbury. Figurino: Sammy Sheldon Differ. Direção de arte/cenários: Mark Digby/Michelle Day. Produção executiva: Jo Burn, David Ellison, Dana Goldberg, Don Granger. Produção: Eli Bush, Andrew Macdonald, Allon Reich, Scott Rudin. Elenco: Natalie Portman, Jennifer Jason Leigh, Oscar Isaac, Gina Rodriguez, Tuva Novotny, Tessa Thompson. Estreia: 13/02/2018

Experiente como escritor - é dele o romance "A praia", que Danny Boyle levou às telas com Leonardo DiCaprio, em 2000 - e roteirista - ele é o nome por trás de "Extermínio" (2002), também de Boyle, e da adaptação de "Não me abandone jamais" (2001), baseado em livro de Kazuo Ishiguro -, o inglês Alex Garland sabe que a pressão não é pouca quando se transfere uma obra literária para o cinema. Com isso em mente, a primeira coisa que fez quando anunciou que estaria no comando da versão cinematográfica do livro "Annihilation", início de uma trilogia escrita por Jeff VanderMeer, foi declarar que, ao invés de reler a obra para escrever o roteiro, o faria como "um sonho do livro". Qualquer coisa que isso possa significar, o resultado foi um filme que não exatamente agradou aos fãs do original por suas diferenças claras - mas que, como produto audiovisual, caminha muito bem pelas próprias pernas. Inteligente, intrigante e oferecendo mais perguntas que respostas, "Aniquilação" ainda se beneficia da presença sempre magnética de Natalie Portman - por ironia uma das principais críticas dos leitores mais exigentes da trama de VanderMeer.

Indignados com a escalação de Portman para um dos papéis principais da história - que nas páginas é descrita como asiática - os fãs da trilogia tampouco gostaram de ver Jennifer Jason Leigh na pele de uma personagem de descendência indígena. Em sua defesa, Garland alegou - com certa coerência - que os detalhes físicos das protagonistas são revelados apenas no segundo livro da série (lançado apenas depois que o roteiro da adaptação já estava finalizado). A esta altura da pré-produção, o cineasta - cujo "Ex-machina: instinto artificial" (2014) havia agradado plenamente crítica e público - preferiu escolher seu elenco de acordo com as audições e com sua experiência anterior como diretor. Talvez a explicação não tenha sido completamente aceita pelos detratores, mas o fato é que, apesar da polêmica, "Aniquilação" é um suspense de ficção muito acima da média, que se utiliza de efeitos visuais como parte integrante da narrativa, e não como seu principal atrativo, e cujos elementos remetem ao clássico russo "Stalker" (1979), de Andrei Tarkovski - apesar das veementes negativas de VanderMeer a respeito de suas inspirações.

 

A trama começa quando o militar Kane (Oscar Isaac), tido como desaparecido em uma missão há pelo menos um ano, retorna à companhia da mulher, a biologista Lena (Natalie Portman). Kane não tem memória alguma a respeito do que aconteceu com ele e seus demais colegas - e subitamente começa a passar mal, sendo levado por seus superiores (sem maiores explicações) a uma instalação militar. É neste local que Lena começa a conhecer, ainda que superficialmente, a história por trás de todo o mistério que cercava a missão do marido - através da psicóloga Ventress (Jennifer Jason Leigh), Lena fica sabendo que Kane fazia parte de uma expedição que buscava informações científicas a respeito da Área X - uma região da Terra repentinamente cercada por uma cúpula a qual se convencionou chamar de Brilho. Sabendo que uma outra expedição está em vias de tentar novamente a sorte - até mesmo como forma de descobrir o paradeiro dos demais membros da primeira missão -, Lena se oferece como voluntária. Assim, se une a Ventress, à física Josie Radek (Tessa Thompson), à antropologista Cassie Sheppard (Tuva Novotny) e à paramédica Anya Thorensen (Gina Rodriguez) e entra em um universo novo, onde aparentemente organismos alienígenas estão provocando mutações genéticas das mais variadas - e ameaçando a existência da Terra nos moldes tradicionais.

Levando-se bastante a sério - uma vantagem em um gênero que frequentemente apela para um humor vazio como forma de conquistar plateias mais jovens - e oferecendo efeitos visuais criativos e longe do lugar-comum, "Aniquilação" estreou em um acordo entre a Paramount Pictures e a Netflix, resultado de bastidores pouco tranquilos entre os executivos do estúdio - enquanto David Ellison, preocupado com o tom intelectual do filme pedia por refilmagens e alterações cruciais no filme (incluindo mudanças substanciais na personalidade da protagonista interpretada por Portman), o produtor Scott Rudin declarava total apoio à integridade da obra de Garland. A briga resultou no lançamento do filme em streaming, uma aposta arriscada para uma produção de 40 milhões de dólares que, sem uma estreia tradicional, ficou muito aquém do que poderia ter conquistado - tanto em termos financeiros quanto de prestígio. Uma das mais interessantes ficções científicas a surgir em um período repleto de boas opções no gênero - "Interestelar" (2015), "Perdido em Marte (2015) e "A chegada" (2016) elevaram o patamar em muitos graus -, o filme de Garland tem, certamente, um lugar garantido no coração dos fãs.


BOY ERASED: UMA VERDADE ANULADA


BOY ERASED: UMA VERDADE ANULADA (Boy erased, 2018, Focus Features/Anonymous Content/Perfect World Pictures, 115min) Direção: Joel Edgerton. Roteiro: Joel Edgerton, livro de Garrard Conley. Fotografia: Eduard Grau. Montagem: Jay Rabinowitz. Música: Danny Bensi, Saunder Jurriaans. Figurino: Trish Summerville. Direção de arte/cenários: Chad Keith/Mallorie Coleman, Adam Willis. Produção executiva: Nash Edgerton, Kim Hodgert, Tony Lipp, Ann Ruark, Rebecca Yeldham. Produção: Joel Edgerton, Steve Golin, Kerry Kohansky-Roberts. Elenco: Lucas Hedges, Nicole Kidman, Russell Crowe, Joel Edgerton, Xavier Dolan, Madelyn Cline, Victor McKay, Flea, Cherry Jones. Estreia: 01/9/2018 (Festival de Telluride)

Em 2016, quando o livro "Boy erased" foi lançado, boa parte dos EUA ainda considerava legais as terapias de conversão sexual - conhecidas vulgarmente como "cura gay". Sem qualquer fundamento psicológico ou médico, setores ligados principalmente à religião praticamente torturavam jovens com pensamentos homossexuais (muitas vezes nem era necessário que tivessem passado à prática) com sessões de humilhação, rígidas regras de comportamento e tormento psicológico. Em seu livro de memórias, Garrard Conley narrava, mesmo que de forma quase poética, os tormentos pelos quais passou em seu período em um desses tratamentos. De seus escritos (pessoais e emotivos) nasceu um filme sensível e sóbrio, assinado por um ator/roteirista/diretor que promete grandes voos futuros e estrelado por um elenco nunca aquém de excepcional: apesar do fracasso comercial e de não ter chamado tanta atenção quanto se poderia esperar nas cerimônias de premiação, "Boy erased: uma verdade anulada" é uma pérola, um filme que já nasceu destinado a suscitar discussões e se tornar cult - além de ser um instrumento essencial na luta contra os abusos do conservadorismo criminoso que vem se alastrando perigosamente pelo Ocidente.

Dirigido pelo ator Joel Edgerton, que também escreveu o roteiro - depois que o próprio Conley declinou da oportunidade - e assumiu um dos papéis mais importantes da trama, "Boy erased" é um filme de emoções contidas, que raramente apela para o melodrama fácil. Graças à atuação discreta e introspectiva de Lucas Hedges (que vem se mostrando um dos melhores atores de sua geração) e ao tom suave imposto pela edição que não abusa dos flashbacks (mas os usa de forma eficiente), a produção escapa de ser apenas mais um filme-denúncia e se destaca como uma história de amor, respeito e tolerância - mesmo que, para que isso seja alcançado, tenha-se que se passar por pesadelos inimagináveis. Mesmo que não poupe o espectador de um constante desconforto (em especial quando mostra as sessões da malfadada busca pela "cura"), Edgerton evita pesar a mão em excesso: a fotografia de Eduard Grau (que cuidou do belo visual de "Direito de amar", de 2009) é luminosa em boa parte da narrativa (em contraste com o tema sombrio) e a trilha sonora (jamais invasiva) sublinha a ação de forma delicada, quase como um oásis diante da aridez do tema. E se por vezes o roteiro pode soar um tanto superficial (especialmente no desenho de alguns personagens), a falha é compensada pelo empenho de cada um dos atores selecionados pelo diretor (ele próprio incluído).

Lucas Hedges - já indicado ao Oscar de coadjuvante por "Manchester à beira-mar", de 2006 - encontra o tom ideal para seu Jared Eamons, um adolescente de 18 anos, filho de um pastor batista, aluno dedicado e responsável, que se vê obrigado pelos pais a participar do tal programa de "reabilitação", comandado pelo prepotente Victor Sykes (Joel Edgerton em pessoa, em uma caracterização precisa, que se equilibra com exatidão no limite do desprezível). Enquanto testemunha atrocidades no período em que fica isolado de qualquer contato com seu mundo anterior (como celulares, diários e afins), Jared é obrigado a revisitar seu passado e confrontar sua conflituosa sexualidade (oprimida pelos preceitos familiares, pela religião e pela culpa). A única pessoa que lhe dá apoio durante o processo - e mesmo assim sem saber exatamente como agir, dividida entre o amor pelo filho, a fé em Deus e o respeito pelas crenças do marido - é sua mãe, Nancy (Nicole Kidman, brilhante), que tenta servir como porto seguro às turbulências do rapaz. Kidman é dona de alguns dos melhores momentos do filme - como o clímax, inexistente no livro mas eficaz como cinema - e divide com Russell Crowe a difícil missão de oferecer consistência a personagens que poderiam ter sido melhor desenvolvidos pelo roteiro: Marshall e Nancy Eamons surgem apenas como os pais repressores (ainda que amorosos), sem maiores nuances dramáticas ou camadas extras. O mesmo acontece com Sykes, o teatral líder da clínica Love in Action, cujo desfecho - revelado apenas nos letreiros finais - é a irônica pá de cal nas ideias absurdas que servem de base à todo o conceito de reorientação sexual.

Prestes a ser lançado no Brasil no final de janeiro de 2019, "Boy erased" acabou tendo sua estreia cancelada - a distribuidora alegou como motivos para tal decisão o fraco desempenho do filme nas bilheterias internacionais e a falta das esperadas indicações ao Oscar, mas ficou no ar o cheiro de censura que chegava com o novo governo (para dizer o mínimo) conservador. Tal situação não deixa de ser uma demonstração clara da importância do filme, com suas discussões e seu tema se tornando cada vez mais urgentes e fundamentais. Pode não ser uma obra-prima, mas serve como base para longos e sérios debates - e, como cinema, confirma Joel Edgerton (cuja estreia como diretor, o suspense "O presente", de 2015, já tinha indiscutíveis qualidades) como um cineasta promissor e relevante, capaz de surpreender em um futuro próximo.

terça-feira

QUERIDO MENINO


QUERIDO MENINO (Beautiful boy, 2018, Amazon Studios/Plan B Entertainment, 120min) Direção: Felix Von Groeningen. Roteiro: Luke Davies, Felix Von Groeningen, livros "Beautiful boy", de David Sheff, e "Tweak", de Nic Sheff. Fotografia: Ruben Impens. Montagem: Nico Leunen. Figurino: Emma Potter. Direção de arte/cenários: Ethan Tobman/Jennifer Lukehart. Produção executiva: Sarah Esberg, Nan Morales. Produção: Dede Gardner, Jeremy Kleiner, Brad Pitt. Elenco: Steve Carell, Timothée Chalamet, Maura Tierney, Amy Ryan, Jack Dylan Grazer. Estreia: 07/9/2018 (Festival de Toronto)

Talvez fosse difícil imaginar que o protagonista de um filme chamado "O virgem de 40 anos"(2005) pudesse, com o tempo, tornar-se um ator dramático de prestígio, capaz de emocionar o público com a mesma desenvoltura com que o fazia gargalhar. Porém, se Steve Carell levava a audiência às lágrimas de riso com a série "The office", também mostrava um lado menos solar em produções como "Pequena Miss Sunshine" (2006) - em que vivia um professor suicida, gay e fã de Proust. Dividido entre o gênero que o consagrou - e que lhe rendeu cenas memoráveis em "Agente 86" (2008), "Uma noite fora de série" (2010) e "Amor à toda prova" (2011) - e o desejo de provar-se um intérprete versátil, Carell chegou até o Oscar com o incômodo "Foxcatcher: uma história que chocou o mundo" (2014) e entrou para o rol dos atores respeitáveis. Seguindo em sua opção de intercalar humor e drama, ele marcou outro gol com "Querido menino", um avassalador drama familiar que em sua estreia, no Festival de Toronto de 2018, foi aplaudido de pé - mas que, apesar das altas expectativas, falhou em conquistar a Academia e ser lembrado pelo Oscar.

Inspirado não apenas em um, mas em dois livros - escritos por pai e filho -, "Querido menino" tem a seu favor, além do trabalho sensível de Carell e do desempenho de Timothée Chalamet, um dos mais promissores astros de sua geração, a direção inteligente do belga Felix Von Groeningen, indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro pelo impressionante "Alabama Monroe" (2012). Assim como fez em seu filme mais famoso, Von Groeningen evita o sentimentalismo fácil e faz uso de flashbacks constantes para construir uma narrativa quase em fluxo de consciência, que mergulha o espectador em uma relação familiar repleta de angústias e dor, mas também ancorada em amor e afeto. Ao contrário de julgar seus personagens e limitá-los a estereótipos, o roteiro co-escrito pelo diretor e Luke Davis (um ex-viciado cujo livro de memórias, "Candy", foi filmado com Heath Ledger em 2006) apresenta ao público um núcleo familiar que, a despeito de seus problemas, ainda é capaz de manter a esperança de um futuro menos cruel. Nem sempre o estilo narrativo funciona - por vezes é um tanto cansativo -, mas a edição (que levou sete meses e só encontrou seu caminho definitivo quando o colaborador do cineasta, Nico Leunen, juntou-se à equipe) é parte fundamental da estética do filme - e uma forma eficaz de apresentar à plateia os pontos de vista de ambos os protagonistas.


Os livros "Beautiful boy", do jornalista David Sheff, e "Tweak", escrito por seu filho, Nic, são a base do roteiro de "Querido menino" - e contam a mesma história, ainda que sob diferentes perspectivas. O filme se detém principalmente no olhar de David (Steve Carell), que vê sua rotina doméstica tranquila ser repentinamente abalada pelo vício em drogas do filho mais velho, Nic (Timothée Chalamet). Até então um adolescente típico mas sem maiores crises, o rapaz passa a apresentar um comportamento errático e agressivo, o que o leva a centros de reabilitação, conflitos frequentes com os pais (separados) e a nova família (madrasta e dois irmãos pequenos) e assustadoras ameaças de overdoses. Abalado com a nova realidade, David se vê diante de um dilema: proteger o que ainda resta de sua família ou arriscar tudo na tentativa de recuperar a integridade física do jovem. Suas dúvidas passam a ameaçar seu  casamento com Karen (Maura Tierney) - e nem mesmo a reaproximação com a primeira mulher, Vicki (Amy Ryan), é suficiente para consolá-lo em sua cruzada. Enquanto isso, Nic tenta, à sua maneira, lidar com o vício e suas consequências (físicas e psicológicas) - o que inclui um romance atribulado com outra viciada, Lauren (Kaitlyn Dever) e um entra-e-sai em programas de desintoxicação. 

É difícil imaginar como seria o resultado se "Querido menino" não tivesse caído nas mãos talentosas e poéticas de Felix Von Groeningen - e o diretor Cameron Crowe esteve perto de assumir as rédeas do projeto, com Mark Wahlberg no papel principal. Certamente o enfoque e o tom seriam muito diferentes, sem o olhar europeu do cineasta belga e a sutileza do trabalho de Carell, que foge corajosamente de sua zona de conforto e entrega um desempenho brilhante. O mesmo pode ser dito a respeito de Timothée Chalamet, indicado ao Golden Globe, ao BAFTA e ao Screen Actors Guild Awards por sua atuação delicada e honesta. A química entre Chalamet e Carell é preciosa e eleva o filme a um patamar acima da média - sublinhada pela discrição de Von Groeningen ao tratar das emoções mais básicas do ser humano. Não há lágrimas em excesso em "Querido menino". É apenas (e isso já é o bastante) o retrato de uma família quebrada tentando juntar os pedaços e colá-los com amor e respeito. Um belo filme, que merece ser descoberto e aplaudido.

domingo

PODERIA ME PERDOAR?


PODERIA ME PERDOAR? (Can you ever forgive me?, 2018, Fox Searchlight Pictures, 106min) Direção: Marielle Heller. Roteiro: Nicole Holofcener, Jeff Whitty, livro de Lee Israel. Fotografia: Brandon Trost. Montagem: Anne McCabe. Música: Nate Heller. Figurino: Arjun Bhasin. Direção de arte/cenários: Stephen Carter/Sarah E. McMillan. Produção executiva: Bob Balaban, Pamela Hirsch, Jawal Nga. Produção: Anne Carey, Amy Nauiokas, David Yarnell. Elenco: Melissa McCarthy, Richard E. Grant, Dolly Wells, Ben Falcone. Estreia: 01/9/2018 (Festival de Telluride)

3 indicações ao Oscar: Atriz (Melissa McCarthy), Ator Coadjuvante (Richard E. Grant), Roteiro Adaptado

Não foram apenas a transformação física e a coragem de abandonar a zona de conforto que fizeram com que Melissa McCarthy fosse indicada ao Oscar de melhor atriz, em 2019: ainda que a Academia tenha uma forte tendência em valorizar tais características no momento de escolher seus preferidos de cada temporada, seria um erro creditar o sucesso de sua interpretação apenas a questões externas. Em um desempenho sutil, melancólico e inteligente, McCarthy conseguiu, em "Poderia me perdoar?", fazer esquecer seu passado em comédias bobas (e frequentemente medíocres) - e entrou pela porta da frente no rol das atrizes de grande prestígio. Tudo bem que "Missão madrinha de casamento" (2011) já tinha lhe dado um certo aval, com uma indicação à estatueta de atriz coadjuvante, mas nada se compara à força de sua atuação no filme de Marielle Heller. Aplaudida com unanimidade pela crítica, McCarthy, não era, porém, a primeira escolha para o papel principal - e só entrou no elenco quando a atriz originalmente escalada abandonou o barco pelas famosas "diferenças criativas".

Quando "Poderia me perdoar?" ainda era apenas um projeto em desenvolvimento, a personagem principal, Lee Israel, estava nas mãos de Julianne Moore, uma atriz respeitada e querida, tanto pela crítica quanto pelo público. Antes mesmo do começo das filmagens, no entanto, Moore saiu de cena, deixando vaga a protagonização do filme - uma produção pequena da Fox Searchlight, com um orçamento apertado de estimados dez milhões de dólares. Casado com Melissa e confiando no talento da esposa, o ator Ben Falcone, escalado para um papel menor, sugeriu seu nome à diretora Marielle Heller - e tudo pareceu se encaixar perfeitamente. Distante do ar de gordinha simpática que lhe deu fama, McCarthy mergulhou de corpo e alma em uma personagem de uma densidade dramática das mais desafiadoras. Foram 28 dias de filmagem - e quando o filme finalmente estreou, na edição de 2018 do Festival de Telluride, ficou claro para todos que a substituição tinha valido a pena: por mais que Moore seja uma atriz estupenda, é difícil imaginar outra intérprete para Lee Israel do que a simpática coadjuvante da telessérie "Gilmore Girls".

 

E se McCarthy chamou a atenção pela guinada radical em sua carreira, seu principal colega de cena, Richard E. Grant, tampouco ficou para trás. Coroando uma carreira de grandes (e muitas vezes subestimadas) atuações, Grant tornou-se figurinha fácil entre os nomes mais elogiados da temporada: indicado ao Oscar, ao Golden Globe e ao SAG Award de melhor ator coadjuvante, o veterano fez uma limpa junto a associações de críticos do país inteiro, graças a um trabalho impecável que só chegou até ele depois que Sam Rockwell e Chris O'Dowd saíram da lista de possibilidades. Como o excêntrico e pouco discreto Jack Roch, que se torna amigo e cúmplice de Israel, ele é o contraponto quase cômico a uma trama que, sob o comando de alguém menos sensível que Marielle Heller poderia descambar para um drama pesado e deprimente. Em sua segunda experiência como diretora de cinema - seu primeiro filme foi o elogiado "O diário de uma adolescente", de 2015 -, Heller, também atriz, construiu uma narrativa consistente, equilibrada entre um sutil senso de humor e uma tristeza quase palpável, sublinhada pela trilha sonora discreta e pela edição de ritmo próprio. O roteiro, também indicado ao Oscar, oferece a seus atores momentos de brilho sem apelar para discursos piegas e mesmo quando a emoção chega, é com uma elegância ímpar e adulta, com uma maturidade que destaca o filme dentre seus congêneres.

"Poderia me perdoar?" é, mais que um filme com uma história forte, um filme baseado em seus personagens. Lee Israel, a protagonista que McCarthy encarna com precisão, é uma biógrafa que, com a carreira em decadência (em boa parte devido à sua misantropia e pouca habilidade social), se vê diante de uma nova possibilidade de completar o orçamento e pagar suas dívidas acumuladas: a falsificação de cartas e documentos de escritores famosos. O que deveria ser uma alternativa efêmera, porém, se torna sua principal fonte de renda, e, aos poucos, ela deixa de lado a timidez e passa a sobreviver de sua fraude, contando, para isso, com a providencial ajuda de um novo amigo, Jack Roch (Richard E. Grant). O sucesso de sua empreitada, no entanto, é ameaçado quando peritos entram em cena dispostos a impedir novos crimes - e ela se torna alvo das investigações, assim como Jack e as pessoas envolvidas em suas negociações. No caminho entre o desespero inicial e a angústia do desfecho, Lee Israel é retratada como um ser humano falível e pouco simpático - e é um acerto da produção não tentar fazer da protagonista alguém adorável ou vítima das circunstâncias. Esse detalhe, crucial, faz do filme de Heller uma pérola a ser descoberta pelo grande público - um forte candidato à cult e dono de duas das mais potentes interpretações de sua época.

quinta-feira

UM LUGAR SILENCIOSO


UM LUGAR SILENCIOSO (A quiet place, 2018, Paramount Pictures, 90min) Direção: John Krasinski. Roteiro: John Krasinski, Bryan Woods, Scott Beck, história de Bryan Woods, Scott Beck. Fotografia: Charlotte Bruus Christensen. Montagem: Christopher Tellefsen. Música: Marco Beltrami. Figurino: Kasia Walicka-Maimone. Direção de arte/cenários: Jeffrey Beecroft/Heather Loeffler. Produção executiva: Scott Beck, Celia Costas, Aaron Janus, John Krasinski, Allyson Seeger, Bryan Woods. Produção: Michael Bay, Andrew Form, Brad Fuller. Elenco: Emily Blunt, John Krasinski, Millicent Simmonds, Noah Jupe, Cade Woodward, Leon Russom. Estreia: 09/3/2018 (South by Southwest Film Festival)

Indicado ao Oscar de Edição de Som

Depois de penar por um bom tempo resumido a produções direcionadas a um público menos exigente e formado em grande parte por adolescentes que se satisfaziam em assistir a assassinos mascarados chacinando suas vítimas sem a menor sutileza, o cinema de terror em Hollywood parece ter encontrado um caminho para atingir os espectadores mais maduros. Cineastas como Jordan Peele - de "Corra" (2017) e "Nós" (2019) - e Ari Aster - de "Hereditário" (2018) e "Midsommar" (2019) - se tornaram os principais nomes de uma espécie de renascimento do gênero, que passou a atingir então as críticas positivas que raramente conquistava - Peele chegou até mesmo a levar um Oscar de roteiro original por "Corra!", que também foi indicado aos prêmios de filme, ator e direção. Respeitados como há muito não conseguiam ser, os novos filmes de terror norte-americanos não deixaram de ser, no entanto, bastante bem-sucedidos. Um exemplo claro desse novo painel é "Um lugar silencioso", uma produção barata (custou cerca de 17 milhões de dólares, o que não paga sequer o cachê de uma grande estrela) que rendeu surpreendentes 340 milhões ao redor do mundo - e imediatamente tornou-se um dos filmes mais populares da temporada, com direito a duas sequências ainda inéditas. Tudo graças à união certeira de um bom roteiro, atuações acima da média, uma tensão palpável e uma direção inspirada do também ator (e corroteirista) John Krasinski.

Sim, Krasinski é mais conhecido do público como o adorável Jim Halpert da versão ianque da série "The office", e como o agente Jack Ryan da adaptação televisiva dos livros de John LeCarré, mas "Um lugar silencioso" não é seu primeiro trabalho na direção. Seus dois primeiros filmes, a comédia dramática "A família Hollar" (2016) e ""Brief interviews with hideous men" (2009), ficaram inéditos no Brasil e tampouco fizeram barulho nos EUA. Seu contato com o material que se tornaria "Um lugar silencioso" começou com um convite feito pelos produtores para que ele assumisse o papel principal do filme, depois que o roteiro de Scott Beck e Bryan Woods livrou-se da possibilidade de ser incorporado a um capítulo da série "Cloverfield": animado com a trama, Krasinski mudou de ideia e acabou não apenas aceitando trabalhar como ator, mas também como diretor e corroteirista. Além disso, escalou para o papel da protagonista feminina, sua mulher, a excelente Emily Blunt, também encantada com o roteiro - e, ao contrário de simples nepotismo, foi uma escolha mais do que acertada: Blunt entrega uma atuação visceral, premiada com uma estatueta do SAG Awards.


A trama de "Um lugar silencioso" é daquelas fáceis de resumir em uma única frase: família tenta sobreviver ao ataque de monstros violentos que encontram suas vítimas através do sons que elas fazem. Porém, por trás desse enredo aparentemente simples, o filme é uma pérola do gênero. Calcada basicamente na química do elenco, do desenho de som inteligente (única indicação ao Oscar do filme) e da direção firme de Krasinski, que mantém o ritmo até os minutos finais, a produção envolve o espectador desde seu começo, dando a ele a chance de ir descobrindo aos poucos todos os detalhes da situação em que estão os Abbott. Vagando por uma cidade fantasma e impedidos de fazer qualquer tipo de ruído, eles são apresentados sem passado: o que interessa ao roteiro é como eles estão e como farão para manter-se salvos de uma situação para a qual não tinham nenhuma experiência. Imersivo ao máximo - o primeiro (e rápido) diálogo falado acontece aos 38 minutos -, o filme mergulha o público em uma viagem de tensão e suspense como poucas produções recentes de terror. Evitando a violência gráfica ou o excesso de clichês, a trama é conduzida com sutileza ímpar, que não deixa de infligir medo na plateia - especialmente quando demonstra, desde seu princípio, que ninguém está completamente a salvo.

Krasinski demonstra que, mesmo sem experiência em filmes de terror, compreende perfeitamente as engrenagens do gênero, entregando cenas que deixam o público em um silêncio tão completo quanto o dos personagens da tela. Elementos simples, como um prego na escada e um brinquedo eletrônico, colaboram para sublinhar o tom nervoso e arrebatador da produção que tem ao menos uma cena já antológica, em que Evelyn (vivida com intensidade por Blunt) é obrigada a dar à luz, sozinha, sem emitir um único gemido: é muito provável que a plateia, completamente seduzida pela proposta do filme, esteja também em silêncio absoluto - fato que, em exibições-teste, assustou os exibidores que não entendiam que também os espectadores, hipnotizados pela história, deixavam a pipoca e o refrigerante de lado para não fazer o barulho que poderia acabar com a vida dos personagens. Nada mais apropriado para um filme de terror que, sem apelar para a violência explícita, encontrou de cara seu lugar no coração dos fãs do gênero - e que já tem duas continuações confirmadas (uma delas, já pronta, teve o lançamento adiado por causa da pandemia de Coronavírus). É esperar para ver se os próximos capítulos serão tão gratificantes.

INFILTRADO NA KLAN


INFILTRADO NA KLAN (BlackKkKlansman, 2018, Focus Features/Legendary Entertainment/Perfect World Pictures, 135min) Direção: Spike Lee. Roteiro: Spike Lee, Charlie Wachtel, David Rabinowitz, Kevin Willmot, livro de Ron Stallworth. Fotografia: Chayse Irvin. Montagem: Barry Alexander Brown. Música: Terence Blanchard. Figurino: Marci Rodgers. Direção de arte/cenários: Curt Beech/Cathy T. Marshall. Produção executiva: Marcei A. Brown, Matthew A. Cherry, Edward H. Hamm Jr., Win Rosenfeld, Jeanette Volturno. Produção: Jason Blum, Spike Lee, Raymond Mansfield, Sean McKittrick, Jordan Peele, Shaun Redick. Elenco: John David Washington, Adam Driver, Laura Harrier, Topher Grace, Ryan Eggold, Jasper Paakkonen, Michael Buscemi, Alec Baldwin. Estreia: 14/5/2018 (Festival de Cannes)

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Spike Lee), Ator Coadjuvante (Adam Driver), Roteiro Adaptado, Montagem, Trilha Sonora Original

Vencedor do Oscar de Roteiro Adaptado

Vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes

 A sequência inicial de "Infiltrado na Klan" já deixa antever o que virá pelas próximas duas horas: diante de uma montagem de cenas dos filmes "O nascimento de uma nação" (1915) - considerado um dos filmes mais racistas da história do cinema - e "... E o vento levou" (1939) - cujo duvidoso retrato da escravidão vem sendo questionada seriamente nos últimos anos -, o supremacista branco Kennebrew Beauregard (vivido por Alec Baldwin) faz um febril discurso a respeito de como os afro-americanos estão tomando os EUA e impondo seu modo de vida através da violência. Seu ponto de vista assustador - que seria cômico se não fosse trágico - dá início ao melhor filme de Spike Lee em muito, muito tempo, uma afirmação comprovada pela generosa bilheteria e pelo reconhecimento da Academia de Hollywood, que lhe premiou com o Oscar de roteiro adaptado e o indicou em outras cinco categorias, incluindo as duas mais importantes: melhor filme e diretor. Ovacionado desde sua estreia, no Festival de Cannes de 2018 (de onde saiu com o Grande Prêmio do Júri), "Infiltrado na Klan" se torna ainda mais relevante por ter sido lançado menos de um ano depois das manifestações racistas de Charlottesville, na Virgínia, cujas imagens são mostradas no final do filme e que causaram a morte da jovem Heather Heyer. Mais importante do que nunca, a produção é o filme certo na hora certa. Mais importante ainda, foi dirigido no tom exato entre o drama social e a ironia, opção que muito provavelmente o Spike Lee do final dos anos 1980 e começo dos 1990 não teria feito.

Conhecido no final do século passado por sua virulência e tendência para o marketing agressivo, Spike Lee chamava a atenção tanto por seus discursos veementes quanto por seus trabalhos cinematográficos - dentre os quais destacam-se "Faça a coisa certa" (1989) e "Malcolm X" (1992), ambos louvados pela crítica e exemplos nítidos da ira do cineasta à época. Em "Infiltrado na Klan", o cineasta parece ter encontrado o meio-termo entre sua militância e as regras do cinema comercial - do qual aproximou-se nos anos 2000, com o sucesso financeiro de "O plano perfeito", que rendeu surpreendentes 186 milhões de dólares em 2006. Mesmo com um material explosivo em mãos, Lee prefere o caminho menos óbvio para contar sua história, talvez por ter consciência do quão surreal ela pode parecer aos olhos do espectador, mesmo sendo verdadeira. Baseado no livro em que Ronn Stallworth conta sua inusitada (e perigosa) aventura, o roteiro (escrito por Lee, Charlie Watchel, David Rabinowitz e Kevin Willmot), ganhou merecidamente o Oscar da categoria, ao fazer magistralmente a transposição das páginas para a tela: nunca antes Lee esteve tão certeiro em utilizar-se das ferramentas do cinema em seu favor.

Mais do que apenas contar uma história em imagens, o cineasta brinca com referências culturais - como a blackexploitation do cinema norte-americano - e não hesita em inserir, em momentos-chave, um tom menos ágil e mais contundente - é o caso do discurso do ativista negro Stokely Carmichael (Corey Hawkins), no começo do filme, e de um trágico relato de crime de ódio, feito por Jerome Turner (uma participação não creditada do veterano Harry Belafonte), perto do final. Ao contrário de quebrar o ritmo, tais acréscimos tornam a narrativa ainda mais rica e lembram o espectador que, apesar da leveza com que a trama vem sendo conduzida, o assunto é mais sério e urgente do que se pode imaginar. É admirável como Lee é capaz de equilibrar tão bem cenas cômicas (mas nunca de um humor histérico) e sequências de pura tensão (será que o protagonista conseguirá evitar o atentado a bomba planejado pela KKK contra a sua namorada ativista? Será que seu colega de missão será reconhecido em plena cerimônia do grupo?) As respostas a essas e outras questões que vão surgindo durante o filme são apresentadas de forma orgânica e com uma fluência empolgante, que envolve a plateia sem muito esforço. Para isso conta, também, a escalação certeira de um elenco acima de qualquer crítica.

Na pele de Ronn Stallworth, um  jovem policial negro do Colorado que consegue se infiltrar na sede local da KKK através de telefonemas e da ajuda de seu colega, Flip Zimmermann, está John David Washington, uma das grandes promessas da nova geração: filho do também ator Denzel Washington (que já colaborou diversas vezes com Spike Lee), John David tem um carisma que imediatamente põe o espectador a seu lado. Adam Driver, que interpreta Zimmermann, um judeu que assume a identidade de Stallworth quando é preciso uma presença física junto aos líderes da Klan, recebeu uma indicação ao Oscar de ator coadjuvante que confirmou uma fase excelente na carreira - além de sua atuação em filmes da nova série "Star Wars" ele voltou a concorrer à estatueta dourada (dessa vez na categoria principal) por "História de um casamento". E é preciso aplaudir o trabalho de Topher Grace, em um corajoso retrato de David Duke, um dos maiores líderes do grupo racista. Tudo é tão bem desenvolvido que até dá para perdoar a criação de um interesse romântico para Ronn, a militante Patrice Dumas, vivida por Laura Harrier, outra revelação do cineasta: ao contrário de outros filmes, a presença de Patrice não é apenas oferecer cenas idílicas, e sim servir como a voz da consciência de Ronn. Um toque que faz toda a diferença e torna "Infiltrado na Klan" um filme obrigatório não apenas para o público interessado no tema, mas principalmente para os fãs de cinema de qualidade. Uma pena que, podendo escolher essa pequena obra-prima como vencedor do Oscar de melhor filme, a Academia optou pelo raso e artificial "Green Book: O guia", que apresenta uma versão quase hipócrita do racismo. Se houvesse mais coragem por parte dos eleitores, o filme de Lee - que conta com o também cineasta Jordan Peele ("Corra!") entre os produtores - teria saído da cerimônia carregado de estatuetas douradas.

A BALADA DE BUSTER SCRUGGS

A BALADA DE BUSTER SCRUGGS (The ballad of Buster Scruggs, 2018, Netflix, 133min) Direção: Ethan Coen, Joel Coen. Roteiro: Ethan Coen, Joel Coen, contos "All gold canyon", de Jack London, e "The gall who got rattled", de Stewart Edward White. Fotografia: Bruno Delbonnell. Montagem: Roderick Jaynes. Música: Carter Burwell. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: Jess Gonchor/Nancy Haigh. Produção executiva: Jillian Longnecker. Produção: Ethan Coen, Joel Coen, Megan Ellison, Robert Graf, Sue Naegle. Elenco: Tim Blake Nelson, James Franco, Liam Neeson, Zoe Kazan, Brendan Gleeson, Harry Melling, Clancy Brown, David Krumholtz, Stephen Root, Tom Waits, Sam Dillon, Grainger Hines, Saul Rubinek. Estreia: 31/8/2018 (Festival de Veneza)

3 indicações ao Oscar: Roteiro Adaptado, Figurino, Canção Original ("When the cowboy trades his spurs for wings"

Quando foi anunciado que os irmãos Coen estavam desenvolvendo um trabalho para a Netflix, de imediato todos imaginaram uma série - especialmente quando ficou revelado que seu projeto consistia de seis pequenas histórias que tinham em comum a ambientação no Velho Oeste. A ansiedade em relação ao que dois dos cineastas mais festejados de Hollywood apresentariam teve fim no Festival de Veneza de 2018: "A balada de Buster Scruggs" é um filme digno de figurar entre os destaques da carreira da dupla e em nenhum momento parece amarrado a qualquer tipo de limitação que porventura poderia cercear sua criatividade. Mesclando histórias próprias e duas adaptações literárias, os vencedores do Oscar (roteiro por "Fargo", de 1996, e filme, direção e roteiro em 2007, por "Onde os fracos não tem vez") apresentaram a seu fiel público - e a uma extasiada crítica - uma produção caprichadíssima, que consegue equilibrar belas situações dramáticas com seu particular senso de humor. Em "A balada de Buster Scruggs", ironia e delicadeza caminham lado a lado, para deleite do espectador mais exigente.

O filme já começa de forma heterodoxa, em forma de musical: o protagonista da primeira história - e que empresta seu nome para o título da produção - chega a um vilarejo típico do velho oeste cantando e se apresentando como um dos mais procurados pela lei. Consciente de seus talentos como atirador e cantor, ele faz pouco caso do fato de estar sendo caçado e resolve descansar e beber na cantina local. Logo que chega, portanto, ele arruma confusão com um valentão do lugar, o assustador Joe (Clancy Brown) - e, em consequência, transforma o bar no palco de um quebra-quebra generalizado, até ser desafiado em duelo por outro autoconfiante atirador (Willy Watson). O segmento acaba com mais uma canção - a indicada ao Oscar "When the cowboy trades his spurs for wings" - e se destaca pelo inusitado do humor bizarro, pela agilidade e pela atuação impecável de Tim Blake Nelson, que já havia percorrido o musical e a comédia pelas mãos dos Coen no ótimo "E aí, meu irmão, cadê você?", de 2000. A segunda história tem o titulo de "Near algodones" e apresenta um jovem cowboy (James Franco) tentando assaltar a agência bancária do destemido (Stephen Root) e descobrindo, da pior forma possível, que o aparentemente frágil veterano não irá se submeter facilmente à situação. Mais uma vez é o equilibrio entre dois gêneros - faroeste e comédia - que sustenta a ágil narrativa.


O terceiro conto, "Meal ticket", conta as desventuras de um empresário irlandês (Liam Neeson) que percorre as cidades pequenas para apresentar à população o show de Horatio Edwin Harrison (Harry Melling, da série de filmes "Harry Potter", irreconhecível), que, desprovido de pernas e braços, declama uma série de textos célebres. Aos poucos, no entanto, o empresário começa a ver o público rarear - e descobre um outro (e surreal) talento para cuidar. É, sem dúvida, o conto mais tocante, sustentado pelo belo visual e pela interpretação de Melling, que consegue conquistar a plateia mesmo que não fale nenhuma palavra própria - todo o texto declamado por ele vem de outras fontes, como a Bíblia, Shakespeare e Abraham Lincoln, misturados em um monólogo memorável. O quarto segmento, "All gold canyon", é baseado em uma história de Jack London e mostra um experiente garimpeiro, interpretado por Tom Waits, buscando, incansavelmente, o ouro que o deixará rico. Seus esforços, porém, encontram um revés inesperado - e que pode destruir suas chances de entregar-se à aposentadoria. Talvez seja a mais fraca das histórias, mas ainda assim consegue surpreender.

O conto seguinte, "The gal who got rattled", é inspirado na obra de Stewart Edward White, e é a única história protagonizada por uma mulher - no caso, a inocente e tímida Alice Longabaugh (Zoe Kazan), que parte em direção ao Oregon em companhia do irmão, Gilbert (Jefferson Mays) - que lhe arrumou um casamento que também beneficia a seus negócios. O longo trajeto de sua caravana, no entanto, lhes reservas algumas surpresas - capazes de mudar completamente seu destino. Nesse episódio quem se sobressai é a atriz Zoe Kasdan: neta do lendário cineasta Elia Kazan, ela entrega uma performance acima da média, vivendo uma personagem repleta de nuances. O segmento final é o mais, digamos assim, surreal. "The mortal remains" apresenta cinco personagens em uma viagem de diligência em direção a uma cidade do Colorado. No diálogo que sustenta a trama, eles se revelam completamente diferentes um do outro - seja em vivência ou atitudes. E é preciso prestar atenção em cada palavra dita: há uma reviravolta em seus minutos finais, que o deixa ser a conclusão perfeita para o filme. Tal reviravolta é o trunfo da história, assim como seus intérpretes - que incluem os veteranos Brendan Gleeson e Saul Rubinek.

O melhor de "A balada de Buster Scruggs" é que, apesar de ser um filme construído em um formato episódico, ele jamais cai na armadilha da irregularidade. Claro que alguns segmentos chamam mais a atenção que outros - mas isso é de cada espectador. Todas as seis histórias apresentam características da filmografia de seus diretores/roteiristas/produtores e é evidente a qualidade ímpar de cada uma delas. O capricho do filme - independente se visto em uma sala de cinema ou via streaming - chamou a atenção da Academia de Hollywood, que lhe indicou em três categorias do Oscar: roteiro adaptado, figurino e canção original. O preconceito contra plataformas como a Netflix foi maior, entretanto, e essa pequena pérola da carreira de Joel e Ethan Coen acabou ficando de fora da lista de vencedores - sem falar em outras categorias em que ele poderia facilmente ter sido indicado, como direção de arte, fotografia e coadjuvantes: tudo é sensacional em "A balada de Buster Scruggs", que não fica nada a dever aos outros trabalhos da dupla. Um grande pequeno filme!

sexta-feira

COM AMOR, SIMON

COM AMOR, SIMON (Love, Simon, 2018, Fox 2000 Pictures, 110min ) Direção: Greg Berlanti.  Roteiro: Elizabeth Berger, Isaac Aptaker, romance "Simon vs The Homo Sapiens Agenda", de Becky Albertalli. Fotografia: John Guleserian. Montagem: Harry Jierjian. Música: Rob Simonsen. Figurino: Eric Daman. Direção de arte/cenários: Aaron Osborne/Tasha Clarkson. Produção executiva: Timothy M. Bourne. Produção: Marty Bowen, Wyck Godfrey, Isaac Klausner, Pouya Shahbazian. Elenco: Nick Robinson, Jennifer Garner, Josh Duhamel, Katherine Langford, Alexandra Shipp, Logan Miller, Keiynian Lonsdale, Jorge Lendeborg Jr.. Estreia: 27/02/18

Levou quase quarenta anos, mas aconteceu: em 1982, a Fox amargou um enorme fracasso de bilheteria com um filme chamado "Fazendo amor", que desafiava as regras implícitas da indústria ao contar a história do romance entre dois homens (um deles casado) sem apelar para um desfecho trágico ou o sensacionalismo. Não apenas o filme foi um fiasco comercial como prejudicou seriamente a carreira de seus atores (entre eles, Michael Ontkean, que só voltaria a chamar a atenção na década seguinte, como o Xerife Truman da série "Twin Peaks"). Em 2018, porém, as coisas foram bem diferentes: adaptado do livro "Simon vs The Homo Sapiens Agenda", de Becky Albertalli, a comédia romântica juvenil "Com amor, Simon", que apresenta um protagonista adolescente que encara com relativa naturalidade sua homossexualidade, conquistou a crítica e encantou seu público-alvo, arrecadando quase 70 milhões de dólares ao redor do mundo a despeito de não ter grandes nomes em seu elenco ou contar com uma campanha agressiva de marketing. Simples, delicado e bastante agradável, é uma produção que daria muito orgulho a John Hughes - o papa do cinema adolescente hollywoodiano.

Assim como nos filmes de Hughes - entre eles os clássicos "Gatinhas e gatões", "A garota de rosa shocking" e "Clube dos cinco" -, os protagonistas de "Com amor, Simon" falam direto a seu público-alvo com sinceridade e bom-humor, mesmo diante de situações dramáticas. Também não falta a trilha sonora antenada, coadjuvantes engraçados e toda aquela série de clichês do gênero - mas utilizados com tanto carinho que é difícil não simpatizar. Pode-se dizer inclusive que, mesmo diante de um tema tão relevante, o filme opta por um caminho um tanto asséptico e fantasioso - mas até nisso o diretor Jim Gillespie é coerente com as intenções de seu rebento. "Com amor, Simon" não se dispõe a quebrar barreiras ou preconceitos: é simplesmente uma boa e simpática história de amor, daquelas a que o público precisa recorrer depois de um dia pesado ou triste. Talvez o público adulto torça o nariz diante de algumas soluções fáceis demais ou do apelo francamente juvenil da trama, porém as plateias a que se destina a produção não tem do que reclamar: raramente elas tem à sua disposição uma comédia romântica tão adequada a seu tempo e suas necessidades sentimentais.


Muito acima da média das produções atuais do gênero, "Com amor, Simon" acompanha as desventuras românticas do protagonista, interpretado pelo carismático Nick Robinson, que empresta a ele uma personalidade tímida e quase desajeitada que combina à perfeição com a trama, recheada de intrigas amorosas, mal-entendidos e uma variedade de personagens interessantes que conquistam o espectador desde os primeiros momentos. Simon Spier, o personagem principal, é um adolescente comum, que vive confortavelmente com os pais, bonitos e bem-sucedidos (Josh Duhamel e Jennifer Garner) e uma adorável irmã mais nova (uma outra irmã, mais velha, foi limada na adaptação). Ele leva uma rotina simples, que envolve escola, amigos, ensaios para uma montagem estudantil de "Cabaret"e um segredo que mantém escondido a sete chaves: sua homossexualidade. Quando um colega se assume gay em um post no blog da escola - sob o pseudônimo de "Blue" -, Simon vê a chance de finalmente conseguir conversar com alguém sobre seus medos e sentimentos. Também disfarçado com um apelido ("Jacques"), ele inicia um relacionamento online com o rapaz - ambos se sentem atraídos intelectual e sentimentalmente um pelo outro, mas tem medo da exposição. Decidido a descobrir a identidade de seu novo amor, Simon passa, então, a imaginar dezenas de situações e possibilidades - e até chantageado passa a ser antes de finalmente conhecer a verdade.

O roteiro, baseado no livro de Becky Albertalli, brinca com as dúvidas de Simon a respeito da identidade de seu correspondente anônimo com delicadeza e respeito, e ainda encontra espaço para inserir uma fina ironia a respeito do preconceito em relação à homossexualidade. Uma sequência em que Simon imagina seus amigos "saindo do armário" e revelando aos pais que são heterossexuais e uma outra, onde ele se imagina finalmente assumido, ao som de Withney Houston, são momentos leves que não deixam que a trama se torne mais séria do que deveria. No fundo, o diretor Greg Berlanti quer apenas contar uma história de autoaceitação e liberdade pessoal, sem desviar sua atenção para outros temas importantes que o filme poderia levantar (a homofobia, os problemas familiares e outras questões são praticamente ignoradas). É uma escolha arriscada que poderia despertar a ira dos militantes mais radicais, mas que acaba sendo compensada pelo alcance do resultado final: mesmo que seja quase um conto de fadas, "Com amor, Simon" é respeitoso, caloroso e importante, por apresentar a uma plateia jovem (e portanto ainda em formação de caráter e personalidade) uma alternativa ao ódio e à intolerância. Pode não mudar o mundo nem marcar a história do cinema, mas é uma deliciosa sessão da tarde - e das mais corajosas e emocionantes.

quarta-feira

O CONTO

O CONTO (The tale, 2018, HBO Films, 114min) Direção e roteiro: Jennifer Fox. Fotografia: Denis Lenoir, Ivan Starsburg. Montagem: Anne Fabini, Alex Hall, Gary Levy. Música: Ariel Marx. Figurino: Tricia Gray. Direção de arte/cenários: Debbie DeVilla/Kelly D. Mills. Produção executiva: Julie Parker Benello, Dan Cogan, Abigail Disney, Geralyn White Dreyfos, Wendy Ettinger, Ali Jazayeri, Jayme Lemons, Ross Marosso, Ben McConley, Amy Rodrigue, David Van Eman, Jason Van Eman. Produção: Sol Bondy, Jennifer Fox, Lawrence Inglee, Mynette Louie, Oren Moverman, Simone Pero, Reka Posta, Laura Rister, Lynda Weiman. Elenco: Laura Dern, Ellen Burstyn, Frances Conroy, Common, Jason Ritter, Elizabeth Debicki, Laura Allen, John Heard. Estreia: 20/01/18 (Festival de Sundance)

É preciso muita coragem para transformar um trauma em uma obra de arte. Mais do que coragem, é preciso talento para não fazer de sua obra apenas uma sessão de análise maçante e egocêntrica. E mais do que talento, é preciso sensibilidade para fazer de seus fantasmas a matéria-prima de um produto forte, ousado e ao mesmo tempo poético e perturbador. E a documentarista Jennifer Fox demonstra, em seu primeiro longa de ficção, "O conto", ter todas essas qualidades indispensáveis a quem procura conquistar sua plateia sem abrir mão da inteligência. Inspirada em fatos pouco agradáveis da vida da própria diretora e roteirista, a produção da HBO, acabou sendo o filme certo na hora certa: ecoando o movimento #MeToo surgido em Hollywood depois de uma série de denúncias sobre assédio sexual, "O conto" serve como a ilustração perfeita de um momento crucial na indústria do entretenimento - mas nem por isso deixa de ser, acima de tudo, um filme excepcional, tanto em termos políticos quanto artísticos. Não à toa, foi uma das produções mais elogiadas de 2018, especialmente devido à atuação gigantesca de Laura Dern, em um dos melhores momentos de sua vitoriosa carreira.

"O conto" foge de uma narrativa convencional ao optar por fazer de sua protagonista, Jennifer, os olhos e a memória da trama que vai se desenrolando diante dos olhos do público. Da mesma forma que as recordações da personagem vão surgindo - e muitas vezes substituindo outras até então arraigadas em seu subconscientes -, a plateia vai descobrindo, junto com ela, a verdade sobre fatos escondidos sob a névoa de um romantismo manipulado. O roteiro e a direção, impecáveis, equilibram o realismo com o lúdico, intercalando passado, presente e a imaginação com delicadeza ímpar. É uma providência de extrema importância, uma vez que o tema do filme é indigesto e francamente triste - mas retratado com a sofisticação e a sensibilidade de quem sabe o que está falando. A coragem de Jennifer Fox em expor uma experiência tão dolorosa é de suprema importância social, mas seu maior mérito é indubitavelmente artístico: mesmo com origem no universo dos documentários, ela transita com desenvoltura na linguagem de ficção, evitando as armadilhas do melodrama e demonstrando grande senso de ritmo e fluência - além de uma habilidade rara de criar personagens complexos e verossímeis.


Assim como a Jennifer da vida real, a protagonista de "O conto", Jenny, é uma documentarista bem-sucedida. Vive um relacionamento estável com o fotógrafo Martin (Common), dá aulas em uma universidade e está trabalhando em um filme sobre abuso sexual em mulheres de países do terceiro mundo. Sua rotina é quebrada quando sua mãe, Nettie (Ellen Burstyn) lhe telefona, preocupada: ela acaba de descobrir, entre antigos pertences da filha, um trabalho escolar onde a então adolescente de 13 anos descrevia um relacionamento amoroso com um homem mais velho. Sem dar muita importância às angústias da mãe, Jennifer relê seu conto e começa a relembrar acontecimentos de sua infância, quando, ainda criança (e interpretada por Isabelle Nélisse ), foi envolvida em um jogo de sedução por sua professora de equitação, Sra. G (Elizabeth Debicki) e um instrutor de ginástica que trabalhava a seu lado, Bill Allen (Jason Ritter). Aos poucos suas memórias começam a ficar mais claras e ela percebe que, apesar de realmente ter considerado o fato como uma história de amor, sua inocência foi um fator determinante para uma série de abusos sexuais. Nesse caminho, ela reencontra personagens importantes de seu passado, inclusive outras mulheres que também podem ter sido vítimas da dupla.

Jennifer Fox conduz seu filme como um pesadelo à luz do dia. Sem apelar para clichês visuais, ela penetra no sofrimento de sua protagonista sem forçar o espectador a tirar suas conclusões de forma antecipada. Sua narrativa suave, que contrasta com a dureza das revelações que vão surgindo durante o trajeto de Jenny. Sem demonizar os abusadores ou carregar nas tintas de seus desvios de caráter, ela apresenta inclusive uma certa condescendência em relação a ambos, até o desfecho visceral e adequado como uma catarse. Filmando sempre de forma a manter a elegância e a sensibilidade (mesmo diante de situações desconfortáveis), Fox mostra que não é preciso ser panfletária ou radical para se tratar de assuntos delicados - seu filme é um grito de revolta, sim, mas orientado de forma correta e contundente. Se Jenny julgava ter saído incólume de suas experiências infantis, o filme de Jennifer demonstra que nem sempre as cicatrizes são visíveis ou óbvias - mas são indeléveis e, mesmo soterradas pelo tempo, jamais curam completamente. "O conto" é um filme obrigatório, não apenas pelo tema, mas também porque é dramaturgia de primeira qualidade, antenado com seu tempo e certamente destinado a tornar-se um pequeno clássico. Bravo!

sexta-feira

BEM-VINDOS A MARWEN

BEM-VINDOS A MARWEN (Welcome to Marwen, 2018, Universal Pictures/DreamWorks, 116min) Direção: Robert Zemeckis. Roteiro: Robert Zemeckis, Caroline Thompson. Fotografia: C. Kim Miles. Montagem: Jeremiah O'Driscoll. Música: Alan Silvestri. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Stefan Dechant/Hamish Purdy. Produção executiva: Jacqueline Levine, Jeff Malmberg. Produção: Cherylanne Martin, Jack Rapke, Steve Starkey, Robert Zemeckis. Elenco: Steve Carell, Leslie Mann, Diane Kruger, Janelle Monáe. Estreia: 21/12/18

Em 2015, Robert Zemeckis transformou o documentário "O equilibrista" (2008) no drama "A travessia", estrelado por Joseph Gordon-Levitt, e amargou um dos raros fracassos de bilheteria de uma carreira repleta de êxitos incontestáveis, como a trilogia "De volta para o futuro" e "Forrest Gump: o contador de histórias", que lhe deu o Oscar de melhor filme e direção em 1995. Depois de novamente decepcionar comercialmente com "Aliados" (2016), drama de guerra que, mesmo com a presença de Brad Pitt e Marion Cottilard não chamou a atenção do público, ele voltou a buscar na vida real a inspiração para seu trabalho. "Bem-vindos a Marwen", que estreou no final de 2018 nos cinemas americanos, é a dramatização do documentário "Marwencol", dirigido por Jeff Malmberg e vencedor de diversos prêmios da crítica desde seu lançamento. A fascinante história de um homem que tenta recobrar a sanidade mental através da criação de um mundo de fantasia protagonizado por bonecos encontrou, em Zemeckis, o diretor ideal - mas acabou se tornando o terceiro malogro consecutivo em sua trajetória. Completamente ignorado até pela Academia, que esnobou seus espetaculares efeitos visuais, o filme estrelado pelo cada vez melhor Steve Carell já pode ser considerado uma das mais injustiçadas produções de seu tempo - afinal, apesar de tudo, é um trabalho belo e sensível, que reitera o talento do cineasta em equilibrar com maestria técnica e emoção.

Os primeiros minutos de "Bem-vindos a Marwen" dão a impressão de que Zemeckis voltou a brincar  com suas técnicas de captura de movimento, que marcou uma fase de sua carreira na primeira década dos anos 2000. Na sequência de abertura, um capitão norte-americano sofre um acidente com seu avião e se vê prestes a morrer nas mãos de nazistas quando é salvo por um grupo de mulheres armadas, lideradas pela corajosa Wendy. Toda a cena é apresentada em forma de animação, e logo se percebe que a situação narrada é fruto da imaginação de Mark Hogancamp (Steve Carell), um homem que tenta esquecer de um traumático incidente, quando foi violentamente espancado por um grupo de neonazistas na saída de um bar. Preso à sua nova realidade, ele mergulha sem medo na confecção de uma narrativa na qual ele mesmo é um corajoso capitão do exército que conta com a ajuda de um time de mulheres - todas inspiradas em pessoas reais - e que luta contra os alemães durante a II Guerra, em uma cidadezinha belga chamada Marwen. Enquanto espera o julgamento de seus agressores, Mark se encanta com a nova vizinha, Nicol (Leslie Mann), que passa a fazer parte de sua imaginação fértil, assim como a hostil Deja Thoris (Diane Kruger), uma bruxa que serve como uma espécie de conselheira e terapeuta.


O roteiro de "Bem-vindos a Marwen" é um achado: ao mesmo tempo em que sensibiliza o espectador com o drama de Mark (interpretado com sutilezas por Carell, em uma atuação inspiradíssima), aproveita para demonstrar o domínio que tem das técnicas de animação, oferecendo à plateia momentos divertidos e violentos com os bonecos manipulados pelo protagonista. Os efeitos visuais são perfeitos - e criados a partir da ação dos próprios atores, em um processo fascinante que impede a sensação de frieza que muitas vezes acompanha as produções mais ambiciosas. O grande achado do diretor, porém, é a forma encontrada de transmitir, através dos bonecos, a angústia e a personalidade complexa do personagem central: aos poucos o público vai compreendendo a extensão de seu problema e de como seu hobby é, mais do que uma diversão, uma terapia que pode lhe salvar da depressão mais absoluta. Sem estender-se desnecessariamente em sua trama, Zemeckis encontra o contraponto ideal entre a realidade e a ilusão, convidando a audiência a uma viagem inusitada e emocionante, que foge dos clichês graças ao talento de todos os envolvidos - com especial destaque à trilha sonora de Alan Silvestri, que evoca docemente todas as fases mentais de Mark.

Talvez o motivo do fracasso de "Bem-vindos a Marwen" seja justamente sua delicadeza.  Acostumados ao excesso de informações dos blockbusters e à total falta de sutileza das produções dos grandes estúdios, é bem possível que os espectadores não tenham se interessado por um filme que fala de pequenas emoções, de pessoas feridas em seu mais íntimo e do poder da imaginação como parte da cura de um trauma inimaginável. Azar de quem perdeu a oportunidade de ter contato com uma pequena pérola do cinema hollywoodiano - que, vez ou outra, ainda consegue acertar no alvo quando se trata contar boas histórias de forma criativa. Que o tempo lhe faça justiça e que o filme se transforme, com o passar do anos, no cult movie que merece ser.

segunda-feira

DURANTE A TORMENTA

DURANTE A TORMENTA (Durante la tormenta, 2018, Atresmedia Cine/Mirage Studio, 128min) Direção: Oriol Paulo. Roteiro: Oriol Paulo, Lara Sendim. Fotografia: Xavi Giménez. Montagem: Jaume Martí. Música: Fernando Velázquez. Figurino: Anna Aguilà. Direção de arte/cenários: Balter Gallart/Marta Bazaco. Produção executiva: Sandra Hermida, Laura Rubirola. Produção: Mercedes Gamero, Mikel Lejarza, Eneko Lizagarra, Jesus Ulled Nadal. Elenco: Adriana Ugarte, Chino Darín, Javier Gutiérrez, Álvaro Morte, Nora Navas, Miquel Fernández, Clara Segura, Belén Rueda. Estreia: 13/11/18

Quem ainda não conhece a obra do cineasta espanhol Oriol Paulo não sabe o que está perdendo. Diretor de dois dos melhores filmes de suspense dos últimos anos, "Um contratempo" (2016) e "O corpo" (2012) - que prendem o espectador na poltrona do início ao fim com suas tramas engenhosas e reviravoltas surpreendentes -, ele volta agora ainda mais ambicioso. "Durante a tormenta" é quase como dois filmes em um só, misturando suspense e ficção científica com extrema habilidade e deixando o público ansioso à espera das próximas reviravoltas (algumas previsíveis, outras muito bem disfarçadas pelo roteiro complexo e ágil). Ao se utilizar de elementos consagrados de outros filmes do gênero, como a trilogia "De volta para o futuro" (85/90), e os subestimados "Alta frequência" (2000) e "Efeito borboleta" (2004), Paulo demonstra versatilidade e competência em seduzir sua plateia mesmo diante de uma trama quase absurda e inverossímil. Apoiado no talento da protagonista Adriana Ugarte (estrela de "Julieta", de Pedro Almodóvar), "Durante a tormenta" é, ao mesmo tempo, uma grata surpresa e a confirmação de um talento com tudo para explodir em um futuro muito próximo.

Nascido em Barcelona em 1975, Oriol Paulo estreou como cineasta aos 23 anos, com o média-metragem "McGuffin" (1998), mas ficou alguns anos trabalhando como roteirista e diretor de curtas e filmes para a televisão até que seu "O corpo" lhe rendeu uma indicação ao Goya de melhor diretor estreante. Seu trabalho seguinte, "Um contratempo", reafirmou um estilo narrativo próprio, que emula Alfred Hitchcock e Brian De Palma ao mesmo tempo em que lhe confere uma identidade particular - não apenas seus movimentos de câmera e o domínio da técnica são o ponto forte, mas também seus roteiros, construídos milimetricamente com o objetivo de surpreender a plateia. "Durante a tormenta" apresenta estas mesmas qualidades, mas de forma muito mais radical. Ainda existe a atenção aos detalhes e à construção impecável do clima de tensão, mas dessa vez o diretor ousa ainda mais nos desvios da trama, de forma a deixar qualquer um desconcertado. Como é normal em filmes do gênero, é provável que uma análise mais detalhada - e ranzinza - encontre falhas no roteiro, mas é inegável que, durante o tempo da sessão, é impossível despregar o olho da tela e não tentar adivinhar os próximos acontecimentos.


Como é de se esperar de um bom filme de suspense, quanto menos se sabe da trama, melhor, mas não atrapalha saber o básico: em 1989, no mesmo dia da queda do Muro de Berlim, um menino de 12 anos morre tragicamente pouco antes de uma violenta tormenta prevista para durar 72 horas. Vinte e cinco anos mais tarde, a enfermeira Vera (Adriana Ugarte) acaba de mudar-se para a casa do menino, junto com o marido, David (Álvaro Morte), e a filha pequena, Gloria. Uma nova tormenta está para acontecer, exatamente como no passado, e Vera, impressionada com a morte do primeiro morador e o assassinato ocorrido na casa em frente, acaba tendo contato, através de um antigo vídeo-cassete e uma fita gravada, com o jovem Nico (Julio Bohigas), pouco antes de sua morte. Misteriosamente ela consegue falar com ele e evitar o desfecho violento da situação - mas quando acorda, no dia seguinte, se descobre presa a uma outra vida, bastante diferente da anterior. Nessa nova vida, ela é médica, não está casada com David e tampouco tem uma filha. Desesperada, ela tenta reverter os acontecimentos, no que é parcialmente ajudada pelo Inspetor Leyra (Chino Darín, filho do ator Ricardo Darín). Nessa batalha, ela reencontra personagens importantes de sua "vida anterior" - e percebe que todas elas foram afetadas, de uma forma ou outra, por sua intervenção.

O roteiro de Paulo - redondo, inteligente, sutil - apresenta algumas explicações para o fenômeno retratado, mas felizmente não se aprofunda em nenhuma delas, deixando as conclusões para o espectador. Sua narrativa empolga principalmente porque consegue virar do avesso as certezas do público e dos personagens, com reviravoltas que dão novo sentido a cada um dos acontecimentos da primeira linha temporal. Buscar uma resposta definitiva para o ponto de partida é perder o encantamento que suas consequências trazem, uma viagem de montanha-russa repleta de surpresas e momentos de genuíno suspense. A trama policial - que se mantém como pano de fundo até o terço final - é a mais inesperada, mas é a trajetória de Vera em provar-se sã e ciente de todo o caos à sua volta que prende o público, que, angustiado como ela, tenta encontrar a maneira certa de resolver um problema aparentemente sem solução. Adriana Ugarte dá conta do recado com maestria, transmitindo todas as sensações conflitantes de sua personagem sem cair no exagero ou na caricatura. O mesmo pode se dizer do restante do elenco - discreto mas extremamente eficiente - e da edição, costurada com ritmo e enxuta na medida certa. Um filme imperdível, "Durante a tormenta" é tão bom que vale por dois.

O PREÇO DA TRAIÇÃO

  O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...