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terça-feira

EMBRIAGADO DE AMOR

 


EMBRIAGADO DE AMOR (Punch-drunk love, 2002, New Line Cinema/Revolution Studios/Ghoulardi Film Company, 95min) Direção e roteiro: Paul Thomas Anderson. Fotografia: Robert Elswit. Montagem: Leslie Jones. Música: Jon Brion. Figurino: Mark Bridges. Direção de arte/cenários: William Arnold/Jay R. Hart. Produção: Paul Thomas Anderson, Daniel Lupi, JoAnne Sellar. Elenco: Adam Sandler, Emily Watson, Philip Seymour Hoffman, Mary Lynn Rajskub, Luiz Guzmán. Estreia: 19/5/2002 (Festival de Cannes)

Vencedor do Melhor Diretor (Paul Thomas Anderson) no Festival de Cannes 

Durante uma coletiva de imprensa para o lançamento de "Magnólia" (1999), o cineasta Paul Thomas Anderson declarou a um jornalista britânico que seu próximo projeto seria uma comédia estrelada por Adam Sandler. Ninguém levou a sério tal informação - afinal o que poderia haver em comum entre um dos diretores mais festejados do momento, com filmes de narrativas densas e dramaticamente consistentes, e um ator de comédias ligeiras, relativamente populares mas de prestígio quase nulo junto à crítica? -, mas, três anos depois, também no Festival de Cannes, o que antes parecia uma piada mostrou-se uma realidade quase surreal. Distante das ambições dos projetos anteriores de Anderson - inclusive na duração de pouco mais de noventa minutos -, "Embriagado de amor" surpreendeu aos fãs, à indústria e à imprensa ao substituir o tom pesado de suas produções mais famosas por uma (aparentemente) singela história de amor. Considerado pela crítica como o melhor trabalho de Sandler até então, o romance atípico, com toques de um humor melancólico, deu a Anderson o prêmio de melhor diretor no festival francês e mostrou ao mundo uma faceta diferente de seu talento - ainda que sem abrir mão de algumas das características que o fizeram destacar-se no final dos anos 1990. De estrutura simples mas personagens complexos, o filme até tenta distanciar-se da sofisticação das produções anteriores do diretor, mas não pode ser considerado convencional (nem que seja graças à personalidade de seu protagonista).

Barry Egan (Adam Sandler em registro dramático e discreto) é um homem relativamente bem-sucedido. Dono de uma pequena empresa de objetos domésticos e independente, ele sofre, no entanto, com uma insegurança que o impede de manter contatos sociais duradouros ou românticos. Único homem de uma família de sete irmãs pouco amistosas, Barry sofre de uma angústia com a qual só consegue extravasar através de repentinos ataques de raiva. Sua rotina modorrenta sofre um baque, no entanto, através de duas situações inusitadas. Primeiro ele passa a ser chantageado por Georgia, atendente de telessexo com quem teve uma conversa em uma noite solitária - e seus violentos irmãos não brincam em serviço quando o assunto é "proteger" a irmã. E em segundo lugar, Barry conhece Lena Leonard (Emily Watson), amiga de uma de suas irmãs, que não hesita em deixar claro suas intenções amorosas com ele apesar de sua personalidade hesitante. Enquanto tenta fugir da pressão exercida por Georgia e dar a devida atenção a Lena, o complicado empresário busca o equilíbrio mental que somente a paz de espírito (que lhe é rara) pode proporcionar.

 
 
Não é difícil encontrar, em "Embriagado de amor", traços que remetem a obras anteriores de Paul Thomas Anderson, ainda que diluídas em uma estrutura menos ambiciosa. Barry Egan, por exemplo, é psicologicamente atormentado como os melhores personagens do cineasta, sendo capaz de entrar em uma obsessiva busca por pudins que podem lhe fazer economizar em viagens aéreas. Sua excentricidade encontra eco em seu nêmesis, o ameaçador Dean Trumbell (Philip Seymour Hoffman), que parece saído diretamente do roteiro de "Boogie nights: prazer sem limites" (1997). Suas irmãs, histéricas como um grupo de hienas, remetem diretamente às bizarrices trágicas de "Magnólia". E o desenrolar do romance entre Barry e Lena pode parecer tudo, menos um conto de fadas ao estilo de Hollywood: é repleto de neuroses, angústias, medos e incertezas, bem ao estilo pouco otimista do diretor. E, além de qualquer coisa, está intacta, em cada cena, a capacidade de Anderson de extrair performances impecáveis de seus atores - mesmo alguém cujo alcance dramático nunca tenha sido exatamente aplaudido, como Adam Sandler.

Uma espécie de patinho feio dentro da filmografia de Paul Thomas Anderson - foi solenemente ignorado pelo Oscar, por exemplo -, "Embriagado de amor" não deixa de ser um precursor de algumas obras menores do diretor que surgiriam alguns anos depois, como "Licorice Pizza", de 2021 (também uma história de amor entre pessoas pouco glamourosas). Sem o peso de seus primeiros trabalhos - que não poupavam seus personagens e os oprimia em situações extremas -, seu primeiro romance demonstra um pequeno raio de luz em uma obra frequentemente guiada pela escuridão. Não é tão marcante, nem tão poderoso. Mas não deixa de ser simpático.

segunda-feira

O PIANO


O PIANO (The piano, 1993, CiBy 2000/Jan Chapman Productions/The Australian Film Comnission, 121min) Direção e roteiro: Jane Campion. Fotografia: Stuart Dryburgh. Montagem: Veronika Jenet. Música: Michael Nyman. Figurino: Janet Patterson. Direção de arte/cenários: Andrew McAlpine/Meryl Cronin. Produção: Jan Chapman. Elenco: Holly Hunter, Harvey Keitel, Sam Neill, Anna Paquin, Kerry Walker. Estreia: 15/5/93 (Festival de Cannes)

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Direção (Jane Campion), Atriz (Holly Hunter), Atriz Coadjuvante (Anna Paquin), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Figurino

Vencedor de  3 Oscar: Atriz (Holly Hunter), Atriz Coadjuvante (Anna Paquin), Roteiro Original

Vencedor de 2 Palmas de Ouro no Festival de Cannes: Melhor Filme, Atriz (Holly Hunter)

Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Holly Hunter)

Quando estava procurando uma atriz para viver Ada McGrath, a protagonista de seu próximo filme, a neozelandesa Jane Campion entrou em contato com o agente Steve Dontanville oferecendo o papel a uma de suas clientes, Sigourney Weaver. Sabendo que Weaver estava disposta a um período de descanso na carreira, para cuidar da filha pequena, Dontanville nem chegou a ela, sugerindo à Campion outra de suas agenciadas, Holly Hunter. - isso depois de uma série de possibilidades, que incluía Anjelica Huston, Jennifer Jason Leigh, Isabelle Huppert, Juliette Binoche e Madeleine Stowe. Meses mais tarde, quando "O piano" já havia se transformado em fenômeno - com duas vitórias no Festival de Cannes, três Oscar e dezenas de outros prêmios - a cineasta declarou, em uma entrevista, que Weaver era o tipo ideal para interpretar Ada, e surpreendeu a heroína da série "Alien", abismada com a ideia de não ter sido sequer consultada por seu agente. O fato é, que, a despeito do grande talento de Weaver, é praticamente impossível imaginar outra atriz no lugar de Hunter: avassaladora em seus silêncios expressivos e em seu trabalho físico, a então queridinha dos cineastas independentes americanos entrou com louvor no rol das maiores atrizes de seu tempo. E em um filme que, com uma visão feminina sobre o amor e o sexo, deixou desconfortável a parcela mais puritana das plateias internacionais.

Tratando a nudez, o sexo e a violência como partes indissociáveis das relações interpessoais, "O piano" se passa nos confins da Nova Zelândia do século XIX. É lá, em um cenário tão fascinante quanto inóspito, que chega a sensível Ada (Holly Hunter, avassaladora) para casar-se com Alistar Srewart (Sam Neill), a quem jamais conheceu pessoalmente e foi prometida por sua família. Junto com Ada estão sua filha pequena, Flora (Anna Paquin) e seu inestimável piano, que lhe serve como meio de comunicação e refúgio. Muda, Ada leva um choque de realidade quando se vê diante de um lugar que contrasta violentamente com seu espírito culto e delicado. Para piorar as coisas, seu marido, bruto e pouco afeito a sutilezas, vende seu piano para um vizinho, o exótico e misterioso George Baines (Harvey Keitel), que adotou o modo de viver dos nativos locais. Sentindo-se irremediavelmente atraído por Ada, ele propõe a Stewart que sua mulher lhe dê aulas de música em troca de terras desejadas pelo empresário. As lições de piano, no entanto, servem para que o surpreendentemente romântico Baines se aproxime do objeto de seu desejo, a quem ele deseja conquistar aos poucos, demonstrando um lado vulnerável e inesperado. Porém, o nascente romance entre os dois acende uma faísca que pode levar a uma tragédia.


 

Primeiro filme dirigido por uma mulher a ganhar a Palma de Ouro no Festival de Cannes - que dividiu com o chinês "Adeus, minha concubina", de Chen Kaige - e vencedor do Oscar de roteiro original, "O piano" foi também um inesperado sucesso popular, conquistando principalmente o público feminino, que viu na história de Ada um reflexo sofisticado da sexualidade através do olhar de uma mulher (Campion foi, à época, recém a segunda diretora a ser indicada na categoria, pela Academia). Ao apresentar cenas de nudez frontal de Holly Hunter e Harvey Keitel - nenhum deles dentro do padrão de beleza hollywoodiana - e sequências de sexo pouco discretas, o filme desafia a mesmice do cinema comercial, exibindo a sexualidade de forma madura e sem filtros. Pontuados pela belíssima trilha sonora de Michael Nyman, os momentos de intimidade entre os protagonistas soam como um sopro de verdade diante dos malabarismos eróticos da maioria da produção americana dos anos 1990. O despertar do amor entre Ada e Baines, visto pelas lentes do diretor de fotografia Stuart Dryburgh, surge como um oásis no meio da vastidão neozelandesa, quase hostil à sensibilidade, e consegue inclusive disfarçar o incômodo de ser fruto de um começo - e aqui há espaço para a polêmica - abusivo. Antes de entregar-se ao amor de Baines, a silenciosa pianista se vê obrigada a abrir mão do próprio corpo para recuperar seu instrumento musical, e nem mesmo a paixão quase cega de seu futuro amante justifica seus atos, por mais que se tente romantizar a situação. É uma questão desconfortável que o roteiro de Campion prefere ignorar.

Porém, se o desenvolvimento do romance entre os protagonistas é passível de discussão, não o são as maiores qualidades do filme. Holly Hunter está simplesmente devastadora como Ada, e seu Oscar é, provavelmente, um dos mais justos da história (no mesmo ano ela concorreu à estatueta de coadjuvante por seu trabalho em "A firma"), e Harvey Keitel surpreende em um papel a anos-luz de distância daqueles durões a que estão todos acostumados. A pequena Anna Paquin, que bateu nada menos que cinco mil candidatas ao papel da imprevisível Flora e levou um surpreendente Oscar, está igualmente fascinante, não se deixando intimidar pela presença gigantesca de Hunter. Dono de cenas de grande potência dramática - enfatizadas pela melancólica música e pelo desolador e cruel cenário, "O piano" é, sem dúvida, um dos filmes fundamentais de sua época, mesmo que hoje em dia soe um tanto questionável em termos morais. Apesar do viés distorcido do amor - ou talvez por causa disso, vai saber -, é uma história forte, contada com paixão e sensibilidade.

terça-feira

NOITES DE CABÍRIA


NOITES DE CABÍRIA (Le notti di Cabiria, 1957, De Laurentiis/Marceau, 110min) Direção: Federico Fellini. Roteir: Federico Fellini, Ennio Flaiano, Tullio Pinelli. Fotografia: Aldo Tonti. Montagem: Leo Catozzo. Música: Nino Rota. Figurino: Piero Gherardi. Direção de arte: Piero Gherardi. Produção: Dino De Laurentiis. Elenco: Giulietta Masina, François Perier, Franca Marzi, Dorian Gray. Estreia: 11/5/57 (Festival de Cannes)

Vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
Vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes: Melhor Atriz (Giulietta Masina)

É impossível não se apaixonar por Cabíria. Alegre, resiliente e sempre otimista apesar de o mundo tentar nocauteá-la, ela trabalha nas ruas de Roma e se ergue constantemente das ruínas a que é transformada a cada (e frequente) decepção. E assim como é impossível não se apaixonar por Cabíria, é igualmente desafiador não se encantar por Giuletta Masina. Não apenas é ela é quem dá vida, corpo e alma à mais famosa prostituta do cinema europeu, como também é a responsável por fazer o espectador se envolver incondicionalmente com seus dramas e amores desde os primeiros minutos do filme, premiado com o Oscar de melhor produção estrangeira de 1957. Expressiva e carismática, não levou à toa a Palma de Ouro no Festival de Cannes do mesmo ano: em cada momento, em cada cena, em cada linha de diálogo ou em cada close em seus olhos molhados de lágrima (de alegria ou tristeza), Masina transmite um mundo de emoções de que somente as grandes atrizes são capazes. Seu encontro com Cabíria é, sem favor, um dos casamentos mais perfeitos, na história do cinema, entre atriz e personagem. Tudo sob o olhar luminoso e quase poético de Federico Fellini - ele mesmo um eterno apaixonado (e correspondido) por sua musa.

Cabíria não tem sorte na vida. Nem no amor. Logo nas primeiras cenas do filme ela quase morre afogada, empurrada em um rio por aquele a quem considerava o homem perfeito. De volta às ruas, continua sua rotina regada a rivalidades, amizades (profundas ou nem tanto) e pela busca pela felicidade. Dentre clientes encrenqueiros, noites solitárias e rituais católicos que remetem a crenças religiosas que conflitam com sua profissão, Cabíria se vê às voltas, ocasionalmente, com a esperança de preencher seu coração carente. É assim com Alberto Lazzari (Amedeo Nazzari, em personagem batizado e criado em sua própria homenagem), um astro de cinema que lhe dá o vislumbre de um mundo de sofisticação e glamour, antes de tratá-la como alguém inferior. E é assim, principalmente, com Oscar (François Périer), um homem que surge como a resposta a suas preces mais sentidas: completamente apaixonada, a doce e romântica prostituta se deixa seduzir pela chance de casar, formar uma família e abandonar a vida fácil. Mas, como já dizem por aí, para ver Deus rir, basta contar seus planos a Ele.

 

Embalado pela delicada trilha sonora de Nino Rota, "Noites de Cabíria" encontra beleza até mesmo na dureza do cotidiano de sua protagonista, graças a um roteiro que, ao contrário de algumas das mais famosas obras de Fellini, aposta na linearidade e no realismo (ainda que envernizado pelo tom poético da fotografia em preto-e-branco de Aldo Tonti). As prostitutas que cercam Cabíria - e até ela mesma - não são aquelas mostradas por Hollywood, e sofrem na carne uma vida repleta de privações. Cabíria mora em uma casa própria, mas nada em sua moradia lembra luxo ou comodidade. Cabíria não é deslumbrante nem exibe um corpo escultural. Não é particularmente inteligente e sua aparente vulnerabilidade só desaparece diante das (muitas) adversidades. E justamente por sua falta de grandeza, conquista a simpatia e a identificação com o público, que se vê nas telas com todas as suas fraquezas e - por que não? - encantos. Uma força da natureza em forma de atriz, Giulietta Masina é a mais completa tradução do cinema italiano dos anos 1950 - e a intérprete que melhor representou a veia artística de Federico Fellini em seus mais puro delírios artísticos.

Longe das elocubrações existenciais de "A doce vida" (1960), da metalinguagem autoparódica de "Oito e meio" (1963) e da nostalgia lúdica de "Amarcord" (1973), a direção de Fellini em "Noites de Cabíria"  se dedica à delicadeza, ao onírico, ao romantismo melancólico e ao humor por vezes involuntário que surge das desventuras tragicômicas de sua protagonista. O registro amoroso do cineasta fascina e  emociona no mais íntimo do espectador. Ao falar diretamente ao coração, ele acerta em cheio e assina (mais uma vez) sua entrada no rol do inesquecível.

 

quinta-feira

ALL THAT JAZZ: O SHOW DEVE CONTINUAR


ALL THAT JAZZ: O SHOW DEVE CONTINUAR (All that jazz, 1979, 20th Century Fox/Columbia Pictures, 123min) Direção: Bob Fosse. Roteiro: Bob Fosse, Robert Alan Aurthur. Fotografia: Giuseppe Rottuno. Montagem: Alan Heim. Figurino: Albert Wolsky. Direção de arte/cenários: Philip Rosenberg/Gary J. Brink, David Stewart. Produção executiva: Daniel Melnick. Produção: Robert Alan Aurthur. Elenco: Roy Scheider, Jessica Lange, Ann Reinking, Leland Palmer, Cliff Gorman, Ben Vereen. Estreia: 16/12/79

9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Bob Fosse), Ator (Roy Scheider), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Adaptada, Figurino, Direção de Arte/Cenários

Vencedor de 4 Oscar: Montagem, Trilha Sonora Adaptada, Figurino, Direção de Arte/Cenários

Palma de Ouro de Melhor Diretor no Festival de Cannes

Joe Gideon é workaholic, fumante compulsivo, mulherengo inveterado, ávido consumidor de álcool e usuário habitual de substâncias químicas que o ajudam a manter um ritmo insano de vida. Joe Gideon é diretor de musicais, coreógrafo, dançarino e cineasta. Joe Gideon trabalha escalando o elenco de seu novo espetáculo na Broadway, trabalha na edição de um novo longa-metragem e trabalha formas de equilibrar as mulheres da sua vida - a ex-esposa, a atual namorada e a filha adolescente. Joe Gideon é um artista mas precisa lidar com a burocracia e a insensibilidade de seus investidores - mais apaixonados por dinheiro do que por integridade artística. E além de tudo, Joe Gideon é um ser humano - propenso, portanto, a ver seu organismo cobrar por tanta pressão. Então, durante o processo de ser Joe Gideon por 24 horas por dia, ele sofre um severo ataque cardíaco - e enquanto vê sua posição como diretor ser ameaçada por interesses financeiros, apela para sua fértil imaginação e cria, em seus momentos inconscientes, um novo show, onde realidade e fantasia se misturam com pessoas reais, alucinações,  médicos, procedimentos cirúrgicos e seus constantes excessos profissionais e amorosos: como todo artista obcecado com sua arte, ele faz de sua doença a inspiração para mais um grande evento. Joe Gideon é o protagonista do filme "All that jazz: o show deve continuar". E, como não há o menor espaço para dúvida, Joe Gideon É Bob Fosse, seu criador.

Um dos maiores nomes do teatro musical norte-americano, Fosse tornou-se também um cineasta respeitado quando, pela versão cinematográfica de "Cabaret" (1972), arrebatou o Oscar de melhor diretor, batendo Francis Ford Coppola (de "O poderoso chefão"). A partir daí, levou seu estilo moderno, feérico e elegante para as telas, da mesma forma como fazia nos palcos. Em 1974 causou polêmica com "Lenny", cinebiografia do comediante de stand-up Lenny Bruce - e voltou a concorrer à estatueta da Academia. E, como prova de criatividade (e autoironia), aproveitou-se de um problema de saúde real (um enfarte), para realizar mais uma obra-prima - que lhe valeu a Palma de Ouro de melhor diretor no Festival de Cannes. "All that jazz: o show deve continuar" é a versão musicada e anfetamínica de um período conturbado da existência de Fosse - mas, como visto na tela, é uma celebração da arte, da dança e da vida, repleta de um colorido e de uma energia que deixou muita gente atônita (e outros tantos espectadores extasiados). Indicado a nove Oscar (incluindo melhor filme e direção), "All that jazz" foi considerado corajoso por parte da crítica - mas tampouco deixou de incomodar àqueles que o julgaram macabro e de péssimo gosto. Seja como for, o filme fez um relativo sucesso de bilheteria (rendeu três vezes mais o seu custo), levou 4 Oscar (figurino, direção de arte, trilha sonora adaptada e edição) e ficou marcado como mais um triunfo do talento inesgotável de seu criador.

Segundo Shirley MacLaine, foi ela quem sugeriu a Fosse que transformasse seu ataque cardíaco em um musical sobre a morte. Se é verdade ou não, a questão é que o cineasta/coreógrafo acatou a ideia e chegou a oferecer um dos principais papéis femininos à amiga - com quem trabalhou em "Charity, meu amor" (1969), sua estreia como cineasta. No entanto, quem ficou com o papel de Audrey Paris - ex-mulher de Gideon e sua parceira artística constante, assim como o era Gwen Verdon com o próprio Fosse - foi Leland Palmer, em seu último trabalho no cinema. A escolha de Palmer no lugar de MacLaine, no entanto, foi a menos difícil e traumática do elenco. Complicado mesmo foi chegar a um consenso quanto ao intérprete do protagonista, um dos alter-egos mais brilhantes da história do cinema. Fosse chegou a pensar em si mesmo para o papel - mais foi demovido da ideia pelo produtor Daniel Melnick, que não acreditava que ele sobrevivesse às filmagens se acumulasse as funções de diretor e ator. A partir daí, nomes os mais variados surgiam e eram descartados - por um motivo ou outro. Warren Beatty se interessou pelo projeto - e era aprovadíssimo pela Columbia Pictures, confiante em seu potencial de grande astro -, mas foi deixado de lado depois de exigir que o final fosse alterado. Richard Dreyfuss chegou a ser escalado, mas abandonou o barco na fase de ensaios por não acreditar no projeto - uma decisão da qual se confessa arrependido. Paul Newman nem chegou a ler o roteiro por não sentir-se confortável em interpretar um dançarino. Jack Lemmon foi considerado, mas Fosse chegou à conclusão de que era velho demais para o papel. Gente como Jack Nicholson, Gene Hackman, Elliot Gould, George Segal e Alan Alda foram cogitados - e Jon Voight chegou até a fazer um teste, mas é difícil, hoje em dia, à luz do resultado final, imaginar outro ator que não Roy Scheider na pele do sedutor Joe Gideon.

Scheider foi escolhido por Fosse em pessoa - que bancou sua decisão corajosamente. Apesar de participações em filmes de sucesso, como "Operação França" (1971) e "Tubarão" (1975), Scheider não era exatamente a opção mais óbvia para viver um coreógrafo don juan - especialmente em um musical que lhe exigiria sequências de canto e dança. Scheider, no entanto, honrou a ousadia do cineasta com uma performance arrebatadora que lhe garantiu lugar entre os indicados ao Oscar de melhor ator do ano (que perdeu para Dustin Hoffman, por "Kramer vs Kramer"): arrogante e autoconfiante, o Joe Gideon construído por Scheider escapa da antipatia justamente pelo carisma do ator, que escapa magistralmente das constantes armadilhas do roteiro, co-escrito por Fosse e pelo produtor Robert Alan Aurthur - que morreu em novembro de 1978, durante a produção do filme, e foi indicado postumamente ao Oscar. Liderando um elenco impecável e sem grandes astros (reparem em John Lithgow no começo de carreira, em papel pequeno), Scheider sublinha todos os acertos do filme e apaga os problemas pré-lançamento: o estouro do orçamento (que pulou de 6,5 milhões para 10 milhões e só foi aprovado depois de uma sessão especial aos presidente da Fox), o extenso cronograma de pós-produção (oito meses contra os 101 dias de filmagens) e as dúvidas a respeito de como o resultado final seria recebido pela crítica e pelo público.

Essa última preocupação provou-se exagerada. Mesmo com algumas (poucas) reclamações por parte da imprensa, "All that jazz" já estreou vencedor. Sucesso comercial e premiado profusamente, o filme de Fosse chegou a receber um elogio inesperado e definitivo de ninguém menos que Stanley Kubrick, que classificou-o como "o melhor filme que já vi." Nada mal para uma ousada criação que mistura dança, morte, sexo, obsessões e generosas doses de autobiografia. Uma obra-prima que confirma o gênio de Bob Fosse!

O ÓDIO


O ÓDIO (La haine, 1995, Canal +/Cofinergie 6/Egg Pictures, 98min) Direção e roteiro: Mathieu Kassovitz. Fotografia: Pierre Aim. Montagem: Mathieu Kassovitz, Scott Stevenson. Música: Assassin. Figurino: Virginie Montel. Direção de arte/cenários: Giuseppe Ponturo. Produção: Cristophe Rossignon. Elenco: Vincent Cassel, Hubert Koundé, Said Taghmaoui, Abdel Ahmed Gili. Estreia: 27/5/95 (Festival de Cannes)

Vencedor do Prêmio de Melhor Diretor (Mathieu Kassovitz) no Festival de Cannes

Nas ruas, a violência cometida pelos policiais que abusam de sua autoridade para massacrar minorias. Em conjuntos habitacionais, o consumo de drogas e a tensão constante a respeito de possíveis e constantes embates entre jovens e policiais. No dia-a-dia, a falta de perspectivas e a tentação de cair na criminalidade. Poderia ser o cenário de uma produção brasileira, mas "O ódio" surgiu da França, da observação dura e sem floreios da realidade social de um país cuja imagem romântica e civilizada foi forjada no inconsciente de plateias do mundo inteiro através de histórias de amor bucólicas e sofisticadas. O choque de perceber que por trás de pontos turísticos consagrados há um universo de conflitos dolorosos e sangrentos é o primeiro golpe desferido pelo filme de Mathieu Kassovitz, sucesso de crítica e premiado no Festival de Cannes 1995 com a Palma de melhor diretor. Os golpes seguintes se sucedem graças ao roteiro seco, à edição ágil e a um elenco irretocável - até o tiro de misericórdia, capaz de deixar no espectador a mesma sensação de angústia de filmes como "A outra história americana" (1998) e "Meninos não choram" (1999).

Conhecido pelo público por seu trabalho como a personalíssima alma gêmea da protagonista da comédia romântica "O fabuloso destino de Amélie Poulain" (2001) - um dos maiores sucessos de bilheteria do cinema francês -, o ator Mathieu Kassovitz concebeu seu filme como um pesadelo realista dos mais cruéis, sem pausa para respiros ou alívios imediatos. Inspirado na história de dois jovens afro-franceses que morreram em custódia da polícia, o ator/roteirista/cineasta não precisou ir buscar muito longe os protagonistas de sua trama: mesmo não tendo sido criado em projetos habitacionais que servem como cenário da produção, Kassovitz sentiu-se abismado com a simples possibilidade de que tal situação pudesse ocorrer em uma sociedade dita moderna. De posse da informação de que, desde 1981 mais de 300 pessoas morreram enquanto estavam nas mãos da polícia, o jovem diretor (28 anos de idade à época da estreia do filme) construiu seu enredo como um castelo de cartas prestes a desabar - a história de um grupo cuja estabilidade emocional pode ser derrubada com um mero peteleco. 

 

O roteiro acompanha 24 horas na vida de três jovens amigos que vivem em um conjunto habitacional nos arredores de Paris. Vinz (Vicent Cassel extremamente convincente como adolescente mesmo aos 28 anos) é judeu, Said (Said Taghmaoui) é árabe, e Hubert (Hubert Koundé) é um lutador amador de boxe negro, e todos eles estão acostumados a conviver com as mais variadas manifestações de preconceito racial, étnico e social. Tal proximidade com o perigo, porém, não os deixa indiferentes, e, no dia seguinte a uma série de distúrbios em sua comunidade, todos estão com os nervos à flor da pele. Enquanto um jovem agoniza no hospital depois de ter sido espancado pela polícia, Vinz encontra a arma perdida por um dos agentes da lei - e promete equilibrar a balança caso a vítima se torne fatal. No decorrer do dia, os três amigos são expostos a inúmeros momentos capazes de detonar a bomba de violência - mas até quando conseguirão evitar um confronto definitivo?

É impressionante como Kassovitz faz de "O ódio" um dos mais contundentes e importantes filmes europeus da década de 1990. Fortemente influenciada pelo cinema de Martin Scorsese - citado claramente em uma cena onde Vincent Cassel imita Robert de Niro em "Taxi driver" (1976) - e Spike Lee - mais precisamente o explosivo "Faça a coisa certa" (1989) -, a narrativa do filme de Kassovitz é valorizada pela fotografia em preto-e-branco, pela montagem de tom urgente e pela sensação de perigo que ronda cada sequência. A crítica bastante radical às autoridades chegou a incomodar a força policial do país, que chegou ao extremo de literalmente virar as costas ao elenco do filme na ocasião de sua chegada ao tapete vermelho do Festival de Cannes. Ainda impactante mesmo depois de tanto tempo de sua estreia, "O ódio" é uma prova cabal de que mesmo as culturas mais civilizadas podem esconder mazelas pouco admiráveis em seu âmago. É uma produção admirável e forte, com uma sequência final capaz de permanecer na memória da audiência por um longo período de tempo - como apenas os melhores filmes conseguem fazer.

INFILTRADO NA KLAN


INFILTRADO NA KLAN (BlackKkKlansman, 2018, Focus Features/Legendary Entertainment/Perfect World Pictures, 135min) Direção: Spike Lee. Roteiro: Spike Lee, Charlie Wachtel, David Rabinowitz, Kevin Willmot, livro de Ron Stallworth. Fotografia: Chayse Irvin. Montagem: Barry Alexander Brown. Música: Terence Blanchard. Figurino: Marci Rodgers. Direção de arte/cenários: Curt Beech/Cathy T. Marshall. Produção executiva: Marcei A. Brown, Matthew A. Cherry, Edward H. Hamm Jr., Win Rosenfeld, Jeanette Volturno. Produção: Jason Blum, Spike Lee, Raymond Mansfield, Sean McKittrick, Jordan Peele, Shaun Redick. Elenco: John David Washington, Adam Driver, Laura Harrier, Topher Grace, Ryan Eggold, Jasper Paakkonen, Michael Buscemi, Alec Baldwin. Estreia: 14/5/2018 (Festival de Cannes)

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Spike Lee), Ator Coadjuvante (Adam Driver), Roteiro Adaptado, Montagem, Trilha Sonora Original

Vencedor do Oscar de Roteiro Adaptado

Vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes

 A sequência inicial de "Infiltrado na Klan" já deixa antever o que virá pelas próximas duas horas: diante de uma montagem de cenas dos filmes "O nascimento de uma nação" (1915) - considerado um dos filmes mais racistas da história do cinema - e "... E o vento levou" (1939) - cujo duvidoso retrato da escravidão vem sendo questionada seriamente nos últimos anos -, o supremacista branco Kennebrew Beauregard (vivido por Alec Baldwin) faz um febril discurso a respeito de como os afro-americanos estão tomando os EUA e impondo seu modo de vida através da violência. Seu ponto de vista assustador - que seria cômico se não fosse trágico - dá início ao melhor filme de Spike Lee em muito, muito tempo, uma afirmação comprovada pela generosa bilheteria e pelo reconhecimento da Academia de Hollywood, que lhe premiou com o Oscar de roteiro adaptado e o indicou em outras cinco categorias, incluindo as duas mais importantes: melhor filme e diretor. Ovacionado desde sua estreia, no Festival de Cannes de 2018 (de onde saiu com o Grande Prêmio do Júri), "Infiltrado na Klan" se torna ainda mais relevante por ter sido lançado menos de um ano depois das manifestações racistas de Charlottesville, na Virgínia, cujas imagens são mostradas no final do filme e que causaram a morte da jovem Heather Heyer. Mais importante do que nunca, a produção é o filme certo na hora certa. Mais importante ainda, foi dirigido no tom exato entre o drama social e a ironia, opção que muito provavelmente o Spike Lee do final dos anos 1980 e começo dos 1990 não teria feito.

Conhecido no final do século passado por sua virulência e tendência para o marketing agressivo, Spike Lee chamava a atenção tanto por seus discursos veementes quanto por seus trabalhos cinematográficos - dentre os quais destacam-se "Faça a coisa certa" (1989) e "Malcolm X" (1992), ambos louvados pela crítica e exemplos nítidos da ira do cineasta à época. Em "Infiltrado na Klan", o cineasta parece ter encontrado o meio-termo entre sua militância e as regras do cinema comercial - do qual aproximou-se nos anos 2000, com o sucesso financeiro de "O plano perfeito", que rendeu surpreendentes 186 milhões de dólares em 2006. Mesmo com um material explosivo em mãos, Lee prefere o caminho menos óbvio para contar sua história, talvez por ter consciência do quão surreal ela pode parecer aos olhos do espectador, mesmo sendo verdadeira. Baseado no livro em que Ronn Stallworth conta sua inusitada (e perigosa) aventura, o roteiro (escrito por Lee, Charlie Watchel, David Rabinowitz e Kevin Willmot), ganhou merecidamente o Oscar da categoria, ao fazer magistralmente a transposição das páginas para a tela: nunca antes Lee esteve tão certeiro em utilizar-se das ferramentas do cinema em seu favor.

Mais do que apenas contar uma história em imagens, o cineasta brinca com referências culturais - como a blackexploitation do cinema norte-americano - e não hesita em inserir, em momentos-chave, um tom menos ágil e mais contundente - é o caso do discurso do ativista negro Stokely Carmichael (Corey Hawkins), no começo do filme, e de um trágico relato de crime de ódio, feito por Jerome Turner (uma participação não creditada do veterano Harry Belafonte), perto do final. Ao contrário de quebrar o ritmo, tais acréscimos tornam a narrativa ainda mais rica e lembram o espectador que, apesar da leveza com que a trama vem sendo conduzida, o assunto é mais sério e urgente do que se pode imaginar. É admirável como Lee é capaz de equilibrar tão bem cenas cômicas (mas nunca de um humor histérico) e sequências de pura tensão (será que o protagonista conseguirá evitar o atentado a bomba planejado pela KKK contra a sua namorada ativista? Será que seu colega de missão será reconhecido em plena cerimônia do grupo?) As respostas a essas e outras questões que vão surgindo durante o filme são apresentadas de forma orgânica e com uma fluência empolgante, que envolve a plateia sem muito esforço. Para isso conta, também, a escalação certeira de um elenco acima de qualquer crítica.

Na pele de Ronn Stallworth, um  jovem policial negro do Colorado que consegue se infiltrar na sede local da KKK através de telefonemas e da ajuda de seu colega, Flip Zimmermann, está John David Washington, uma das grandes promessas da nova geração: filho do também ator Denzel Washington (que já colaborou diversas vezes com Spike Lee), John David tem um carisma que imediatamente põe o espectador a seu lado. Adam Driver, que interpreta Zimmermann, um judeu que assume a identidade de Stallworth quando é preciso uma presença física junto aos líderes da Klan, recebeu uma indicação ao Oscar de ator coadjuvante que confirmou uma fase excelente na carreira - além de sua atuação em filmes da nova série "Star Wars" ele voltou a concorrer à estatueta dourada (dessa vez na categoria principal) por "História de um casamento". E é preciso aplaudir o trabalho de Topher Grace, em um corajoso retrato de David Duke, um dos maiores líderes do grupo racista. Tudo é tão bem desenvolvido que até dá para perdoar a criação de um interesse romântico para Ronn, a militante Patrice Dumas, vivida por Laura Harrier, outra revelação do cineasta: ao contrário de outros filmes, a presença de Patrice não é apenas oferecer cenas idílicas, e sim servir como a voz da consciência de Ronn. Um toque que faz toda a diferença e torna "Infiltrado na Klan" um filme obrigatório não apenas para o público interessado no tema, mas principalmente para os fãs de cinema de qualidade. Uma pena que, podendo escolher essa pequena obra-prima como vencedor do Oscar de melhor filme, a Academia optou pelo raso e artificial "Green Book: O guia", que apresenta uma versão quase hipócrita do racismo. Se houvesse mais coragem por parte dos eleitores, o filme de Lee - que conta com o também cineasta Jordan Peele ("Corra!") entre os produtores - teria saído da cerimônia carregado de estatuetas douradas.

domingo

A CRIANÇA

A CRIANÇA (L'enfant, 2005, Les Films du Fleuve, 95 min) Direção e roteiro: Jean-Pierre Dardenne, Luc Dardenne. Fotografia: Alain Marcoen. Montagem: Marie-Helène Dozo. Figurino: Monic Parelle. Direção de arte: Igor Gabriel. Produção executiva: Olivier Bronckart. Produção: Jean-Pierre Dardenne, Luc Dardenne, Denis Freyd. Elenco: Jérémie Renier, Déborah François, Jéremie Segard. Estreia: 17/5/05 (Festival de Cannes)

Palma de Ouro (Festival de Cannes)

Assim como Hollywood conta com Ethan e Joel Coen como um time cuja filmografia (quase) nunca decepciona, a Bélgica também tem uma dupla de irmãos cujo prestígio é atestado pela crítica e pelo Festival de Cannes - de onde já saíram premiados duas vezes com a Palma de Ouro de melhor filme, uma vez com o prêmio de melhor direção, três vezes com o Prêmio do Júri Ecumênico, uma vez com o Grande Prêmio do Júri e, em uma ocasião, com a láurea de Melhor Roteiro. Desde 1987 realizando longas-metragem, Jean-Pierre e Luc Dardenne, vindos do universo dos documentários, vem encantando o público de festivais internacionais e críticos do mundo inteiro com sua simplicidade estética, seu humanismo à toda prova e a delicadeza com que tratam seus personagens - invariavelmente passando por crises pessoais e/ou financeiras. Um de seus mais bem-sucedidos filmes, "A criança", não apenas lhes rendeu o prêmio máximo de Cannes 2005, como colocou-os em evidência em inúmeros festivais europeus, encantados por sua trama, capaz de emocionar e angustiar na mesma proporção. Com uma dupla central de atores completamente imersa em seus personagens e um tom de urgência quase palpável - enfatizado pela nervosa câmera de mão e pela ausência de trilha sonora -. "A criança" é um respiro de humanidade, ainda que seja preciso passar por boas doses de sofrimento para alcançar (ou não) um final feliz.

O filme começa quando a jovem Sonia (Déborah François) deixa a maternidade, com seu pequeno Jimmy nos braços. Ela sai em busca de seu namorado e pai do bebê, o irresponsável  Bruno (Jérémie Renier), que vive de pequenos golpes e furtos e nem se deu ao trabalho de visitá-la durante sua estadia no hospital. Apesar de seu comportamento imaturo, Bruno realmente gosta da namorada, e juntos eles tentam encontrar maneiras de sustentar o bebê, apelando para benefícios sociais e abrigos para pessoas carentes. O idílio familiar, no entanto, dura pouco: ciente de que pode embolsar 500 euros pela venda de seu recém-nascido filho, Bruno resolve vendê-lo sem o conhecimento de Sonia. Quando ela fica sabendo da transação, o elo que os unia quebra imediatamente e o rapaz passa a tentar desesperadamente desfazer o negócio, algo que não é tão fácil quanto ele poderia pensar: além de recuperar o bebê, ele precisa também reconquistar a confiança e o amor da namorada.


O roteiro de "A criança" é simples ao extremo, ao focar sua atenção quase que exclusivamente em seu par de protagonistas - outros personagens são apenas circunstanciais, entrando em cena apenas para empurrar a trama à frente, como o adolescente que serve de sócio a Bruno em seus golpes e roubos e os responsáveis pela compra e venda de bebês. Os diretores acertam em cheio em não julgar os atos de Bruno e tampouco minimizá-los: como todo mundo, o rapaz tem qualidades e defeitos, e sua falta de maturidade pode até lhe servir de atenuante, mas não o exime de culpa e responsabilidade. Não deixa de ser interessante que o título do filme seja "A criança", já que, conforme o desenvolvimento da trama, o personagem-título tanto pode ser o recém-nascido Jimmy ou o pouco confiável Bruno. Para dar vida a alguém tão complexo, o ator Jérémie Renier foi a escolha perfeita: é impossível não simpatizar com ele mesmo diante de seus erros mais imperdoáveis, e torcer, na medida do possível, para que ele consiga reaver o filho e reatar com a namorada. No papel de Sonia - um contraponto necessário às loucuras de Bruno - está Déborah François, que transmite (até mesmo em poucas palavras) uma variedade de sentimentos que conquista o espectador logo na primeira cena. A química entre o casal é um trunfo e tanto nas mãos dos cineastas: outra dupla talvez não tivesse, em cena, a mesma força e o mesmo tom naturalista que é a força-motriz do filme.

"A criança" é um filme que parece com a vida - tanto com suas dores quanto por suas pequenas vitórias. No cerne da obra dos irmãos Dardenne - aqui e em outros filmes - está a compaixão pelo ser humano, por suas idiossincrasias e erro. É sintomático que Bruno seja tão falho e, ao mesmo tempo, tão apaixonante: ele é um arquetípico personagem da dupla de cineastas, dotado de uma verdade quase angustiante e incapaz de perceber que todos os seus atos, por menores que sejam, tem consequências avassaladoras - e, de vez em quando, irremediáveis. Em seu carinho pelo ser humano em geral e por Bruno em particular, Jean-Pierre e Luc Dardenne apontam, no desfecho de sua obra, uma luz no fim do túnel. Se Bruno e Sonia irão aproveitar tal luz ou desperdiçá-la com sua falta de maturidade é uma questão menor. O que importa, em "A criança", é jogar luz em vidas corriqueiras e mostrar ao público que, apesar de tudo, sempre há uma esperança. Em tempos difíceis, não deixa de ser uma ideia reconfortante.

sábado

UM GOSTO DE MEL

UM GOSTO DE MEL (A taste of honey, 1961, Woodfall Film Productions, 101min) Direção: Tony Richardson. Roteiro: Shelagh Delaney, Tony Richardson, peça teatral de Shelagh Delaney. Fotografia: Walter Lassally. Montagem: Antony Gibbs. Música: John Addison. Direção de arte: Ralph Brinton. Produção: Tony Richardson. Elenco: Rita Tushingham, Dora Bryan, Murray Melvin, Robert Stephens, Paul Danquah. Estreia: 14/9/61

Vencedor do Golden Globe de Revelação Feminina (Rita Tushingham)
Vencedor de 2 Palmas de Ouro no Festival de Cannes: Melhor Ator (Murray Melvin), Melhor Atriz (Rita Tushingham)

 A crítica especializada aprovou com louvor. Cerimônias de premiação tradicionais, como o Golden Globe, o BAFTA e o National Board of Review o endossaram sem pestanejar, lhe concedendo estatuetas importantes. E até mesmo o júri do prestigiado Festival de Cannes se deixou seduzir, lhe concedendo os prêmios de melhor ator e melhor atriz. Baseado em uma peça de teatro escrita por uma adolescente de 18 anos de idade, o filme britânico "Um gosto de mel" só foi ignorado mesmo pela Academia de Hollywood, que simplesmente fez vista grossa diante de seu enorme sucesso e polêmica. Ao retratar sem pudores relações que poderiam ser vistas como chocantes pelo público mais conservador, o filme de Tony Richardson marcou época, conquistou fãs através do tempo e inspirou no mínimo duas canções de Morrissey, líder da banda The Smiths, e o título de uma das músicas dos Beatles. Como se vê, nem sempre um Oscar faz falta no currículo de uma produção.

A trama, imaginada pela muito jovem Shelagh Delaney em sua vitoriosa peça de teatro, tem como protagonista a jovem Jo (Rita Tushingham), um adolescente de 17 anos que vive com sua heterodoxa mãe, Helen (Dora Bryan, vencedora do BAFTA de melhor atriz). Quando Helen - pouco afeita à solidão e bastante fã de bebidas alcóolicas - se casa novamente, com um quase desconhecido, Jo se vê sem lugar para morar. Em suas tentativas de encontrar um lugar ao sol, ela se envolve romanticamente com Jimmy (Paul Danquah), um marinheiro negro que logo vai embora da cidade e a deixa (sem que nenhum deles saiba) grávida. Novamente sem companhia, ela conhece o tímido Geoffrey (Murray Melvin), de quem se torna grande amiga e colega de apartamento. Quando a gravidez vem à tona, os dois resolvem criar a criança como se fosse deles - apesar de Geoffrey ser homossexual. A nova família, recém formada, sofre um golpe, porém, quando Helen reaparece e exige seu lugar como avó da criança prestes a nascer.


Ao tratar com naturalidade tanto a relação de Jo (uma adolescente branca, de classe operária, e portanto, respeitável) com Jimmy (um rapaz negro) quanto com Geoffrey (um gay assumido), o enredo de "Um gosto de mel" já mexia em vespeiros que poucos gostariam de ver tocados em uma década de 1960 que apenas começava a nascer - e que daria origem, pouco depois, ao movimento hippie, ao feminismo, à luta pelos direitos civis e, nos EUA, a luta contra a Guerra do Vietnã. Como se isso não fosse o bastante, no entanto, o roteiro da jovem dramaturga e do experiente cineasta ainda toca em questões mais complexas ainda. Se ser mãe solteira não era um status dos mais invejados da época, será que seria menos pior do que fazer parte de um novo tipo de núcleo familiar - que envolvia um homem gay e uma avó pouco convencional? E, mais complicado ainda, com uma criança fruto de um romance interracial? Ainda que não responda tais questões, preferindo contar a história sem buscar soluções, o filme já merece aplausos por tocar sem medo em tais controvérsias. Para isso, conta com a atuação refrescante de Rita Tushingham, estreante que ganhou o papel central em uma disputa com cerca de 2000 candidatas e provou-se uma aposta certeira e levou pra casa a Palma de Ouro de Melhor Atriz no Festival de Cannes 1961: longe de ser uma beldade com agressivo sex appeal, a jovem Tushingham continuou no cinema, mas nunca mais atingiu o mesmo patamar de sucesso de sua estreia - que lhe rendeu, também, um Golden Globe de revelação feminina.

Com diálogos inteligentes e personagens verossímeis, "Um gosto de mel" conquistou não apenas a crítica e o público mais aberto a novos ares. O cantor Morrissey citou o filme em duas das músicas de sua banda, The Smiths: "This night has opened my eyes" e "Reel around the fountain" contém frases do roteiro - o cantor, nascido na cidade de Manchester, onde o filme foi rodado, tornou-se fã incondicional da produção. Outra celebridade musical que também inspirou-se no filme de Richardson foi Paul McCartney: segundo o livro "Revolution in the head", de Ian MacDonald, o beatle nomeou "Your mother should know" a partir de um dos diálogos do roteiro. Mas, apesar de tantos elogios, prêmios e homenagens, "Um gosto de mel" é um bom filme ou apenas corajoso e à frente de seu tempo? É inegável que a qualidade dos diálogos e sua franqueza são admiráveis, e que a direção de Tony Richardson extrai de seus atores interpretações naturais, mas também não se pode deixar de perceber um certo tom mais adequado à sua época do que à atualidade. Se os temas discutidos ainda encontram eco no preconceituoso mundo do século XXI, algumas cenas podem parecer até ingênuas. É um charme, obviamente, e funcionou muito bem no começo dos anos 1960. Hoje vale mais como documento histórico - ainda que ainda possa conquistar jovens idealistas e apaixonados.

sexta-feira

O AMOR NÃO TEM SEXO

O AMOR NÃO TEM SEXO (Prick up your ears, 1987, Zenith Entertainment, 105min) Direção: Stephen Frears. Roteiro: Alan Bennett, biografia por John Lahr. Fotografia: Oliver Stapleton. Montagem: Mick Audsley. Música: Stanley Myers. Figurino: Bob Ringwood. Direção de arte/cenários: Hugo Luczyk Wyhowski/Philip Elton. Produção: Andrew Born. Elenco: Gary Oldman, Alfred Molina, Vanessa Redgrave, Wallace Shawn, Lindsay Duncan, Julie Walters, Frances Barber. Estreia: 17/4/87

Vencedor no Festival de Cannes: Melhor Trilha Sonora

Quem começar a assistir à "O amor não tem sexo" pensando tratar-se de mais um filme de temática gay com uma mensagem edificante certamente vai levar um choque ao final da sessão: o título em português de "Prick up your ears" (algo intraduzível mas pouco romântico ou formal) esconde a verdadeira e chocante história de amor, sexo, ciúme, violência e literatura do dramaturgo britânico Joe Orton e seu amante, Kenneth Halliwell, também escritor, mas sem o mesmo prestígio. Baseado em uma biografia de Orton escrita por John Larh, o filme de Stephen Frears (pouco antes de conquistar Hollywood com seu excepcional "Ligações perigosas", lançado em 1988) é seco, frio e um tanto irônico em sua tentativa de retratar não apenas um casal vivendo quase à margem da sociedade, mas também a própria sociedade hipócrita e falsamente liberal dos anos 1960.

Conhecido na Inglaterra como o autor de peças teatrais repletas de humor negro e críticas à sociedade, como "Entertaining Mr. Sloane" e "Loot", Orton chegou a ser chamado para escrever o roteiro de um filme dos Beatles e conhecer pessoalmente Paul McCartney. Enquanto ascendia profissionalmente, porém, sua relação com Halliwell entrava cada vez mais em uma crise sem fim: sete anos mais velho que Orton e sem seu charme, Halliwell sofria com as traições do parceiro - ainda que por vezes fosse chamado por ele para participar - e via sua carreira ser eclipsada pelo sucesso de Orton. A relação, desequilibrada sob todos os aspectos, parece atrair uma atmosfera de urgência e melancolia. Sob a visão de Frears, quase documental, os protagonistas parecem vislumbrar a tragédia, mas, ao mesmo tempo, sabem que não há como evitá-la. O tom de decadência impresso pelo cineasta nas aventuras sexuais de Orton transmitem uma sensação de incômodo e angústia - ainda que justamente essas jornadas pelo lado sombrio do sexo tenham feito dele o dramaturgo visceral que foi.


Um dos grandes trunfos de "O amor não tem sexo" é o elenco escolhido por Stephen Frears - notoriamente conhecido como um excelente diretor de atores. Antes de começar sua bem-sucedida carreira em Hollywood, Gary Oldman assume com perfeição o sotaque e os trejeitos de Joe Orton - um ano antes ele havia encarnado o roqueiro Sid Vicious e cinco anos mais tarde ele faria um Lee Harvey Oswald brilhante em "JFK: a pergunta que não quer calar", de Oliver Stone. Oldman, um ator dedicado e capaz de transformar-se fisicamente de um filme para outro encontra o par ideal em Alfred Molina. No papel, recusado por Ian McKellen (que anos mais tarde assumiu o arrependimento por isso), Molina brilha como o introvertido e apaixonado Halliwell, com um trabalho impressionante que vai se avolumando até o desfecho trágico. Não bastasse o par central, a excelente Vanessa Redgrave faz uma participação especial como a editora de Orton, Peggy Ramsay, em uma interpretação que lhe rendeu um prêmio de coadjuvante pela associação de críticos de Nova York e indicações ao Golden Globe e ao Bafta. É Redgrave quem surge como a voz da razão em um filme que mergulha sem medo no retrato de uma história de amor, sexo, inveja e literatura.

"O amor não tem sexo" não é, definitivamente, um filme que glamoriza a homossexualidade, mas tampouco a condena: é um desenho o mais fiel possível de uma tragédia, contado com imparcialidade e sem artifícios visuais ou melodramáticos. A fotografia crua de Oliver Stapleton e a edição ágil (mas nunca apressada) de Mick Ausdley são fatores cruciais para o sucesso do filme, mas é a direção incisiva de Stephen Frears quem reúne todos os elementos para formarem um único e chocante painel sobre um dos relacionamentos mais doídos da arte britânica dos anos 1960. É um filme desconfortável, mas, ao mesmo tempo, imprescindível!

OS ESQUECIDOS

OS ESQUECIDOS (Los olvidados, 1950, Ultramar Films, 85min) Direção: Luís Buñuel. Roteiro: Luis Alcorza, Luís Buñuel. Fotografia: Gabriel Figueroa. Montagem: Carlos Savage. Música: Rodolfo Halffter, Gustavo Pittaluga. Direção de arte: Edward Fitzgerald. Produção: Oscar Dancigers, Sérgio Kogan, Jaime A. Menasce. Elenco: Estela Inda, Miguel Inclán, Alfonso Mejía, Roberto Cobo, Alma Della Fuentes. Estreia: 09/11/50

Palma de Ouro em Cannes (Melhor Diretor): Luís Buñuel

Quando "Os esquecidos" estreou no México, no final de 1950, foi massacrado pela crítica e pelo público: não era nada lisonjeiro que um cineasta espanhol - Luis Buñuel - expusesse, de forma tão contundente (leia-se realista), as mazelas sociais do país, afundado em uma crise de pobreza e violência. Para piorar, o diretor, mais do que simplesmente retratar os problemas da sociedade mexicana, o fazia com um distanciamento crítico que o afastava de ser considerado uma cria do neorrealismo italiano. Pouco afeito ao tom sentimental que acompanhava os filmes de Roberto Rosselini e Vittorio de Sica - os dois maiores expoentes do movimento italiano -, Buñuel não se propunha a discutir os problemas ou fazer de seus protagonistas exemplos de resiliência: pelo contrário, fazia questão de apontar sua câmera para seus personagens sem deixar que artifícios enfeitassem a narrativa. Mesmo que por vezes buscasse sair do espectro de "cinema-verdade" - com a inserção de sequências de sonho e toques de ironia -, o cineasta rompia com o piegas e o filme "com mensagem" para apresentar um desagradável panorama da delinquência juvenil - a mil anos-luz de, por exemplo, "Vítimas da tormenta" (1946), em que De Sica também jogou luz ao tema.

Para falar com propriedade a respeito do assunto do filme, Luis Buñuel percorreu os subúrbios do México disfarçado como mendigo, e o que testemunhou durante essa pesquisa certamente o ajudou a fazer de "Os esquecidos" um filme ímpar, tão incômodo quanto desconfortável. Fotografado em um preto-e-branco árido e filmado nas ruas da cidade do México em apenas 21 dias, o filme de Buñuel aproxima o espectador a um espetáculo de sordidez e desilusão enquanto acompanha o dia-a-dia de um grupo de adolescentes, liderado pelo experiente Jaibo (Roberto Cobo), que fugiu do reformatório e procura descobrir quem, dentre seus colegas, que o delatou à polícia. Seu principal parceiro e cúmplice é Pedro (Alfonso Mejia), um menino carente da atenção da mãe e que passa os dias nas ruas da cidade, sempre envolvido em pequenos delitos - o que inclui implicar fisicamente com o cego Don Carmelo (Miguel Inclán) e cometer alguns furtos e vandalismos. A história avança quando Jaibo mata um amigo, Julian (Javier Amézcua), que considera culpado de sua prisão, e passa a investir na sedução da mãe de Pedro. A promiscuidade, a sensação de impotência e a violência em graus variados fazem com que a plateia sinta-se testemunha privilegiada - mas somente até que Buñuel quebre as regras do jogo cinematográfico e, através de escolhas artísticas surpreendentes, lembre o público que, apesar do tom realista, seu filme é uma obra de ficção e, portanto, passível de ultrapassar os limites da narrativa tradicional a ponto de um de seus protagonistas jogar um ovo na câmera - e, por conseguinte, no próprio espectador.


E se os espectadores mexicanos reagiram sem muita paciência ao filme quando de seu lançamento, foram obrigados a voltar atrás quando Buñuel saiu do Festival de Cannes com a Palma de Ouro de melhor diretor. A partir dessa validação internacional, os previamente beligerantes membros da imprensa mexicana - e os espectadores do país - finalmente deixaram de lado o preconceito contra o filme e o abraçaram como a obra-prima que de fato é. As provocações visuais do cineasta, ao contrário de atrapalhar a narrativa, a transformam em uma experiência única. Buñuel não hesita em mostrar uma violência crua ou momentos de uma sensualidade inesperada e quase incômoda. Também não se preocupa em fazer de seus protagonistas pessoas agradáveis ou minimamente heróicas: Jaibo é um tipo que não parece ter esperanças de transformações positivas e Pedro, apesar de ainda ser jovem o bastante para encontrar um rumo na vida, se mostra pouco afeito à qualquer tipo de autoridade: juntos eles se completam e encontram um no outro, de uma forma um tanto enviesada pela pobreza, uma espécie de família. É uma situação otimista? Claro que não, e Buñuel não faz a menor questão que seja. Como cineasta (e não como alguém com poderes para alterar a realidade exibida), ele alcança sua audiência ao tratá-la com respeito e inteligência: não há soluções fáceis para as questões que levanta, o que há é espaço para discussões - tanto em termos sociais quanto artísticos.

O prêmio no Festival de Cannes não ajudou Buñuel a mudar a ideia dos mexicanos a respeito de seu filme. O reconhecimento internacional que veio atrelado à Palma de Ouro estabeleceu o cineasta espanhol como um nome a ser respeitado e aplaudido através dos tempos. Mesmo tendo começado sua carreira com o polêmico "Um cão andaluz" - que dirigiu ao lado de Salvador Dalí em 1928 -, Buñuel sempre esteve por trás de controvérsias, justamente por sua iconoclastia e tendência a buscar o surreal e o onírico de cada roteiro. "Os esquecidos" talvez seja um de seus filmes mais acessíveis, mas que não deixa, de forma alguma, de flertar com as características mais determinantes de sua filmografia. Se em "Vítimas da tormenta" o diretor Vittorio De Sica procurava emocionar sua audiência com subterfúgios quase melodramáticos (o que combinava à perfeição com seu estilo), o filme de Buñuel é seco, direto e doloroso. Algo muito parecido com a vida de seus jovens protagonistas.

CAFARNAUM

CAFARNAUM (Capharnaun, 2018, Mooz Films/Cedrus Invest Bank/Sunnyland Film, 126min) Direção: Nadine Labaki. Roteiro: Nadine Labaki, Jihad Hojeily, Michelle Keserwany, colaboração de Georges Khabbaz, Khaled Mouzanar. Fotografia: Christopher Aoun. Montagem: Konstantin Bock, Laure Gardette. Música: Khaled Mouzanar. Direção de arte: Houssein Baydoun. Produção executiva: Candice Abela, Ray Barakat, Joslyn Barnes, Danny Glover, Jason Kliot, Chady Eli Mattar, Fouad Mikati, Ayla Rizk, Samer Rizk, Susan Rockefeller, Akram Safa, Wissam Smayra, Sylvio Sharif Tabet, Joana Vicente. Produção: Michel Merkt, Khaled Mouzanar. Elenco: Zain Al Rafeea, Yordanos Shiferaw, Boluwatife Treasure Bankole, Kawsar Al Haddad, Fadi Kamel Yousef, Haita 'Cedra' Izzam, Nour El Husseini, Alaa Chouchnieh. Estreia: 17/5/18 (Festival de Cannes)

Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
Vencedor do Prêmio do Júri do Festival de Cannes 

Alguns filmes conquistam pelo cérebro, pela inteligência de sua narrativa e sua relevância social e/ou política. Outros cativam pelo coração, seduzindo o espectador através da emoção mais primária. Alguns filmes transmitem sua mensagem pelo caminho da indignação. Outros se comunicam pela empatia. Porém, quando o mesmo filme consegue a façanha de estarrecer e apaixonar a plateia tanto por seus méritos técnicos quanto por sua paixão, o resuultado é algo como "Cafarnaum". Ovacionado por 15 minutos no Festival de Cannes de 2018 - de onde saiu com o Prêmio do Júri - e indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro do ano, o terceiro longa da cineasta libanesa Nadine Labaki é um soco no estômago. Triste, revoltante, chocante e extremamente realista em retratar um universo desprovido de esperança, é, também, um filme extraordinariamente bem realizado, com um equilíbrio perfeito entre denúncia social e ficção.

Tudo bem que a ficção de "Cafarnaum" é dolorosamente próxima da realidade, mas Labaki tem a inteligência de utilizar-se de todas as histórias que ouviu em sua pesquisa para o filme em prol de uma narrativa que, mais do que apenas emocionar, também apresenta ao público personagens cativantes e construídos de forma a fugir de estereótipos baratos. Por mais que, a princípio, seja fácil discernir vilões e mocinhos, aos poucos o roteiro vai quebrando os próprios paradigmas, oferecendo até mesmo àqueles que antes pareciam mais vis, um lado humano frequentemente ofuscado pelas circunstâncias. É assim que, apesar de parecer previsível, a trama vai se expandindo cada vez mais, impondo armadilhas a seu protagonista e cruzando seu caminho com personagens que tanto podem lhe ser aliados quanto inimigos. Esse tom de constante paranoia, de uma sensação quase palpável de uma tragédia por vir é mérito da fascinante sequência de abertura, já chocante, em que um menino de 12 anos (mas que aparenta ainda menos) surge algemado diante do espectador e confessa, sem nenhum tipo de remorso, que esfaqueou um homem - para logo em seguida dizer que quer processar os pais por o terem deixado nascer. É um baque para o público, mas é apenas o começo de uma história de dor, violência, tristeza e miséria - mas que também é capaz de enternecer e fazer sorrir quando menos se espera.


O personagem central, Zain (interpretado com garra e encanto por Zain Al Rafeea, um refugiado sírio também na vida real), é fascinante. Acostumado a uma vida de subterfúgios que a numerosa família leva para conseguir sobreviver em um subúrbio de Beirute, ele é precocemente amadurecido a ponto de aconselhar a irmã a esconder a recente menstruação - para evitar que ela seja cedida a um empresário local como pagamento do aluguel. Quando seu plano de protegê-la não funciona, Zain foge de casa e se aproveita de sua experiência de rua para arrumar comida (pouca) e trabalho (quase nenhum). É então que se aproxima de Rahil (Yordanos Shiferaw), uma mãe solteira etíope que, trabalhando com documentos falsos, esconde seu bebê dos patrões e vive praticamente clandestina. Surge um afeto genuíno entre os dois, e Rahil confia em Zain o suficiente para deixá-lo tomando conta de seu pequeno Yonas - mas as coisas não saem conforme eles esperavam, e a mão cruel do destino acaba os obrigando a tomar atitudes desesperadas. Revelar tudo que vem pela frente é privar o espectador de ser surpreendido e tocado a cada cena - mas pode-se dizer, sem medo, que a trajetória de Zain e Yonas é de arrancar lágrimas e causar revolta em qualquer um com o mínimo de sensibilidade.

Utilizando-se de um extenso material que poderia resultar em um filme de 12 horas de duração, Nadine Labaki mostra, em "Cafarnaum", um domínio invejável de ritmo e técnica narrativa. Primeiro, ela aguça a curiosidade do público com um prólogo instigante, e depois vai contando sua história sem pressa, sempre deixando no ar algumas dúvidas que só serão resolvidas no desfecho. Até lá, preenche seu tempo com cenas já antológicas, fortalecendo a relação entre seus personagens, sublinhando suas personalidades e tocando o coração da plateia com momentos de grande beleza emocional. Labaki inclusive foge da armadilha de embelezar a feiura das ruas e dos subúrbios mais pobres de Beirute, evitando glamorizar a miséria ou inventar milagres de última hora. Sem poupar o público, ela expõe o coração e as vísceras de uma sociedade multicultural que nem sempre sabe lidar com as diferenças - e que, às vezes, as explora com crueldade e ganância. A edição - que tomou dois anos da vida da cineasta - é mágica, e extrai de cada cena o melhor sorriso, a melhor lágrima, os mais encantadores detalhes de uma viagem que, embora de uma tristeza pungente, é capaz de revelar, em seu mais íntimo, a pureza e a sinceridade de uma criança. Uma obra-prima incontestável e um clássico instantâneo!

terça-feira

UMA MULHER DESCASADA

UMA MULHER DESCASADA (An unmarried woman, 1978, 20th Century Fox, 124min) Direção e roteiro: Paul Mazursky. Fotografia: Arthur Ornitz. Montagem: Stuart H. Pappé. Música: Bill Conti. Figurino: Albert Wolsky. Direção de arte/cenários: Pato Guzman/Edward Stewart. Produção: Paul Mazursky, Tony Ray. Elenco: Jill Clayburgh, Alan Bates, Michael Murphy, Lisa Lucas, Cliff Gorman, Pat Quinn, Kelly Bishop, Linda Miller, Raymond J. Barry. Estreia: 05/3/78

3 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz (Jill Clayburgh), Roteiro Original
Palma de Ouro (Melhor Atriz) no Festival de Cannes - Jill Clayburgh 

No final dos anos 1970, as definições de família tradicional já estavam em acelerada mudança, assim como o papel das mulheres dentro da sociedade e do mercado de trabalho. Os dias em que apenas os homens eram os provedores e às mulheres cabia a administração da casa e a educação dos filhos começavam a desvanecer frente a novos conceitos de relação e configurações mais diversas de núcleo familiar. Em 1979, por exemplo, Robert Benton saiu da cerimônia do Oscar carregado de estatuetas por "Kramer X Kramer", que tratava exatamente deste novo panorama social. Um ano antes, porém, outro filme se antecipou ao tema - e se não chegou a consagrar-se vencedor, apesar de três importantes indicações, abriu as portas para a discussão de um assunto que estava no ar, esperando uma chance de ganhar a devida atenção. Escrito, dirigido e produzido por Paul Mazursky, "Uma mulher descasada" concorreu aos Oscar de melhor filme, roteiro original e atriz - e se Jill Clayburgh perdeu o prêmio para Jane Fonda, por "Amargo regresso" (que tratava de outro assunto tabu na época, a guerra do Vietnã), teve melhor sorte no Festival de Cannes, de onde saiu laureada com a Palma de Ouro.

A premiação de Clayburgh em Cannes, assim como suas indicações ao Oscar, ao Golden Globe e ao BAFTA, são homenagens a uma interpretação naturalista, discreta e radicalmente próxima das experiências da plateia. Em um papel escrito especialmente para ela pelo roteirista/diretor Mazursky - mas que chegou a ser oferecido a (e devidamente recusado por) Jane Fonda -, a atriz, que voltou a concorrer ao Oscar no ano seguinte, por "Encontros e desencontros" e faleceu em 2010, entrega um desempenho memorável, mas calcado em uma extrema sutileza e economia. Até mesmo na mais visceral das cenas, não há o tradicional escândalo e as previsíveis lágrimas em excesso - tudo é calculado de forma a buscar a empatia do público através da identificação imediata e emocional. Com diálogos certeiros e recheados de um inesperado senso de humor, o roteiro de Mazursky convida o espectador a acompanhar sua protagonista por um caminho de autoconhecimento mental, sexual e comportamental que retrata, à sua maneira, um período específico dos EUA e, ao mesmo tempo, de uma universalidade admirável. Sem ambicionar nada mais do que contar uma boa história, "Uma mulher descasada" acabou por tornar-se uma obra capaz de, como poucos, definir sua época.


Tudo bem que a ambientação do filme seja glamorosa e os personagens desfilem pelas ruas charmosas de Nova York e frequentem galerias de arte, bares da moda e boates sofisticadas. Seus sentimentos são universais e encontram eco em qualquer pessoa que já tenha passado por situações similares. Tudo bem que Erica, a protagonista, não precisa preocupar-se em sustentar sozinha a filha adolescente ou procurar um lugar para morar depois que o marido, Martin (Michael Murphy), a troca por uma mulher mais jovem. E tudo bem que ela encontra suporte no grupo de amigas e tem dinheiro o bastante para contar com a ajuda de uma terapeuta. Mas a essência do trauma e suas consequências são as mesmas pelas quais passam quaisquer mulheres, independentes de classe social, raça ou geografia. Sim, nem todas tem condições de buscar o tempo perdido em termos sexuais se relacionando casualmente com conhecidos ou se envolvendo com um artista internacional, como Saul (Alan Bates), mas a procura pela ressurreição do desejo e da autoestima encontra espelho mesmo na mais simples alma feminina. Nesse ponto, é notável o talento de Mazursky em compreender os meandros da psicologia do sexo oposto - o que justifica sua indicação ao Oscar de roteiro original mesmo tendo ficado de fora da disputa pela estatueta de diretor.

Se em "Kramer X Kramer" era o marido interpretado por Dustin Hoffman o surpreendido por um pedido de divórcio - pela esposa Meryl Streep, buscando uma identidade profissional que o casamento não lhe permitia -, em "Uma mulher descasada", como o título deixa óbvio, é a esposa quem leva um choque. Erica, a protagonista, acreditava viver um casamento seguro e sem sobressaltos - tinha um bom emprego e uma relação saudável com a filha adolescente. Quando a bomba é detonada - seu marido Martin revela estar apaixonado por outra mulher e lhe pede o divórcio -, a ela resta apenas juntar os cacos, divertir-se ao lado das amigas e, mesmo atônita com a surpresa, não se deixar levar pelo pessimismo e pelo medo do futuro. Enquanto faz as pazes com o corpo, a sexualidade e sua capacidade de viver sozinha, ela encontra em si mesma a força necessária para recomeçar a vida - com ou sem um parceiro a seu lado. Feminista mas não radical e tampouco didático ou simplório, "Uma mulher descasada" é um filme que, mesmo tantos anos depois de seu lançamento, ainda é um exemplo de como o cinema pode ser eterno mesmo quando não se deixa contagiar por gigantismos ou exageros. Paul Mazursky fez, à sua maneira, uma produção hollywoodiana com alma de cinema francês. Um elogio e tanto!

sábado

A MISSÃO

A MISSÃO (The Mission, 1986, Warner Bros, 125min) Direção: Roland Joffé. Roteiro: Robert Bolt. Fotografia: Chris Menges. Montagem: Jim Clark. Música: Ennio Morricone. Figurino: Enrico Sabbatini. Direção de arte/cenários: Stuart Craig. Produção: Fernando Ghia, David Puttnam. Elenco: Robert De Niro, Jeremy Irons, Liam Neeson, Aidan Quinn, Ray McAnally, Cherie Lunghi. Estreia: 16/5/86 (Festival de Cannes)

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Roland Joffé), Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Oscar de Melhor Fotografia
Vencedor de 2 Golden Globes: Roteiro, Trilha Sonora Original
Palma de Ouro (Melhor Filme) no Festival de Cannes

Não é à toa que a Igreja Católica tem grande carinho e admiração por "A missão", a ponto de colocá-lo frequentemente em listas dos melhores filmes religiosos de todos os tempos: ao romantizar a exploração jesuíta entre indígenas do século XVIII e torná-la menos violenta e colonizadora do que realmente foi, a produção dirigida por Roland Joffé elege, como um de seus heroicos protagonistas, um padre espanhol dedicado e corajoso, capaz de qualquer sacrifício para proteger seus pupilos - inclusive opor-se com veemência contra o reino de Portugal, que se torna seu maior inimigo. No entanto, se como História o filme pode ser questionado em sua visão um tanto simplista, como cinema é um filme de enormes qualidades - qualidades estas que lhe renderam a Palma de Ouro no Festival de Cannes 86 (além do Grande Prêmio do Júri) e sete indicações ao Oscar, incluindo melhor filme e direção. Uma produção imponente, séria e adulta, "A missão" comprova a tendência de seu diretor em tratar de temas relevantes e socialmente interessantes - a despeito de seu potencial comercial. Prova disso é a renda do filme no mercado doméstico (EUA e Canadá): apenas 17 milhões de dólares, uma renda que não pagou nem mesmo o custo total da produção. Seu relativo fracasso não chega a ser surpreendente: em uma época em que as salas de cinema lotavam de espectadores dispostos a aplaudir superproduções caras como "Aliens: o resgate" ou despretensiosas como "Crocodilo Dundee", o filme de Joffé surgiu como uma opção "difícil" e "densa", mirando um público mais sofisticado - que também não lhe deu a atenção devida, preferindo, assim como a Academia, o Vietnã de Oliver Stone, em "Platoon".

"A missão" é um grande filme, valorizado pela direção segura de Joffé, pela belíssima fotografia de Chris Menges (premiada com o Oscar), pela trilha sonora arrebatadora de Ennio Morricone - e pela presença magnética de Robert De Niro e Jeremy Irons nos papéis principais. O primeiro interpreta (com toda a carga dramática com que o público já está acostumado) Rodrigo Mendoza, um conhecido caçador de indígenas - a quem captura para vender como escravos na colônia onde vive, na América do Sul do século XVIII. Irons vive o Padre Gabriel, jesuíta que tem como objetivo de vida catequizar os mesmos índios caçados por Mendoza. O caminho dos dois se cruza quando o caçador, depois de uma tragédia familiar, procura abrigo nas missões comandadas pelo sacerdote: convertido ao catolicismo, ele se torna parte integrante da companhia, convivendo com religiosos e seus catequizandos - até que a Espanha vende o território onde eles trabalham para Portugal e os obriga a pegar em armas para defender a continuidade de seu projeto.


O roteiro de Robert Bolt se divide claramente em três capítulos, cada um com ritmo e desenvolvimento próprios. A primeira parte apresenta os protagonistas, sem muitos diálogos e concentrando seu foco em imagens fortes e poderosas, que estabelecem a personalidade dos personagens e sua relação com o meio em que vivem. Essa primeira etapa acaba quando Mendoza abandona a vida de caçador de escravos para tentar encontrar uma redenção espiritual - e para isso conta com o apoio de Gabriel, outros padres e a comunidade jesuítica fundada por ele. O terceiro capítulo é o mais intenso: confrontados com a possibilidade de perder tudo que foi construído até então, os dois homens tão diferentes entre si se unem - um com a palavra, o outro com a ação - para defender o que acreditam ser um bem maior. Mesmo a violência que surge a partir daí parece sagrada e justificável - e da maneira como é mostrada por Joffé, até poética.

Questões históricas e éticas à parte - é discutível o benefício das missões jesuíticas em termos de colonização, nem sempre tão pacífica como mostrada no filme -, "A missão" funciona perfeitamente como cinema. Roland Joffé é um cineasta que sabe emocionar sem soar panfletário ou melodramático, e essa característica é essencial para que o espectador não se sinta manipulado diante de uma história que já é poderosa por si mesma. O tom quase seco do diretor torna o resultado final menos impactante dramaticamente (a quem já está acostumado a catarses gigantescas e pirotécnicas), mas ressoa com muito mais potência na alma do público. Ao mostrar dois protagonistas tão opostos, o roteiro acerta em cheio, especialmente porque seus atores estão no auge do talento e da maturidade artística - De Niro já tinha dois Oscar em casa e Irons levaria o seu poucos anos mais tarde - e porque não há, entre eles, a busca pelo brilho fácil ou previsível. Assim como fez com Sam Waterston  Haing S. Ngor em "Os gritos do silêncio" - uma dupla improvável que se completa ao encontrar uma missão na vida -, Joffé deu a seus dois atores principais a chance de fugir do óbvio e do já visto. Por essas e outras é que seu filme acaba sendo uma experiência tão gratificante e inesquecível!

quinta-feira

SÍNDROME DA CHINA

SÍNDROME DA CHINA (The China Syndrome, 1979, Columbia Pictures, 122min) Direção: James Bridges. Roteiro: Mike Gray, T.S. Cook, James Bridges. Fotografia: James Crabe. Montagem: David Rawlins. Figurino: Donfeld. Direção de arte/cenários: George Jenkins/Arthur Jeph Parker. Produção executiva: Bruce Gilbert. Produção: Michael Douglas. Elenco: Jane Fonda, Jack Lemmon, Michael Douglas, Scott Brady, James Hampton, Peter Donat. Estreia: 16/3/79

4 indicações ao Oscar: Ator (Jack Lemmon), Atriz (Jane Fonda), Roteiro Original, Direção de Arte/Cenários
Palma de Ouro de Melhor Ator (Jack Lemmon) no Festival de Cannes 

Se é verdade que a vida imita a arte uma prova disso ficou bem evidente em 28 de março de 1979, quando um acidente nuclear em Dauphin County, Pensilvânia deixou em maus lençóis os executivos das usinas nucleares americanos, que, apenas doze dias antes, haviam rechaçado violentamente a estreia do filme "Síndrome da China", taxando-o de alarmista e mentiroso. A questão era que a produção estrelada por Jane Fonda, Jack Lemmon e Michael Douglas tratava, de forma clara e incisiva, sobre um grupo de cientistas nucleares tentando desesperadamente esconder da mídia a verdade sobre um perigoso vazamento em um de seus reatores. O oportunismo do lançamento (ou sua clarividência) não passou em branco, é claro, e detratores chegaram a sugerir que a Columbia Pictures (produtora do filme), havia forjado a notícia do acidente como forma de divulgá-lo. Perda de tempo: apesar do acidente na Pensilvânia ter acontecido no calor de seu lançamento, a origem da trama de "Síndrome da China" remetia a 1975, quando outro incidente, dessa vez no Alabama, chamou a atenção do roteirista Mike Gray - também engenheiro e produtor do polêmico documentário "The murder of Fred Hampton" (71), sobre a morte do famoso membro dos Panteras Negras. Com um roteiro pronto e repleto de dados técnicos que fortaleciam o tom documental da narrativa, Gray viu sua obra chegar até as mãos da atriz Jane Fonda, que, junto com seu parceiro Bruce Gilbert, procurava um filme que refletisse uma das preocupações de sua recém-fundada produtora, a IPC Films: frustrada em conseguir os direitos sobre a vida de Karen Silkwood, que morreu misteriosamente depois de descobrir falhas em uma usina (e que ganhou o rosto de Meryl Streep em 1983, em um filme de Mike Nichols), Fonda encontrou em "Síndrome da China" o que precisava. Com a ajuda de Michael Douglas (premiado com o Oscar por "Um estranho no ninho", de 1975) na produção e alguns ajustes pontuais no roteiro, o filme estava pronto para sair do papel e ganhar as telas.

Mas então começaram os problemas: a Columbia não acreditava que Mike Gray tinha potencial o bastante para comandar uma produção tão ambiciosa e o substituiu por James Bridges (já testado e aprovado por "O homem que eu escolhi", que deu o Oscar de coadjuvante a John Houseman em 1973); Richard Dreyfuss, escalado para viver o cinegrafista Richard Adams, desistiu do projeto antes do começo das filmagens; e Jack Nicholson, a quem tinha sido oferecido o papel do cientista Jack Godell, já estava comprometido com a produção de "O iluminado" (80). Como há males que vem pra bem, porém, tudo foi resolvido a tempo (e de forma mais que perfeita): Michael Douglas acumulou os papéis de produtor e ator, ficando com a vaga deixada por Dreyfuss, e Jack Lemmon - apaixonado pelo roteiro desde que o leu pela primeira vez, em 1976 - não hesitou em viver um personagem que lhe rendeu mais uma indicação ao Oscar e sua primeira Palma de Ouro de Melhor Ator no Festival de Cannes. Sucesso de público e crítica, "Síndrome da China" ainda arrebatou o prêmio do Sindicato de Roteiristas e foi eleito pelo National Board of Review como um dos melhores filmes da temporada 1979 - dominada por "Kramer vs Kramer", de Robert Benton.


A protagonista do filme é Kimberly Wells (em mais uma atuação exemplar de Jane Fonda, cuja entrada no projeto alterou tanto o sexo do personagem como inseriu na trama uma relevante discussão feminista), uma repórter talentosa mas sempre relegada a matérias de importância quase nulas, Wells deseja ser levada a sério como profissional. Sua grande chance de provar seu valor lhe cai do céu quase por acaso: durante uma reportagem banal em uma usina nuclear - onde estava apenas para mostrar aos telespectadores como funciona o dia-a-dia do local -, um acidente em um dos reatores (cujo nível de água atinge níveis alarmantes) é filmado às escondidas pelo cinegrafista Richard Adams (Michael Douglas). Excitados (depois que o incidente fica sob controle), os dois colegas percebem que tem em mãos uma explosiva reportagem-denúncia, mas são impedidos pela direção da emissora em divulgar o conteúdo das imagens, obtidos de forma ilegal. Sua indignação acaba indo ao encontro de Jack Godell (Jack Lemmon), o supervisor da usina, que, depois de investigar por conta própria, descobre que a segurança do local é falha e resolve dar uma declaração oficial a respeito dos perigos que a população corre por causa do descaso dos construtores.

Narrado em tom de urgência e sobriedade - sem uma trilha sonora original e uma edição seca e direta -, "Síndrome da China" é uma aula de concisão. Mesmo que chegue a duas horas de duração, não há cenas dispersivas ou tramas paralelas que trunquem a narrativa - até mesmo a vida pessoal de Kimberly é citada apenas de passagem, em uma cena rápida, e não há espaço para romance entre ela e Richard (apesar de algumas pistas discretas). Até mesmo a aura didática de certos momentos - imprescindível quando se trata de um assunto então sem muita divulgação pela mídia - é inteligente e ágil, impedindo que a plateia se aborreça com longas explicações ou detalhes desnecessários. E o trabalho do elenco é crucial para que o conjunto soe ainda mais homogêneo. Jack Lemmon e Jane Fonda foram indicados ao Oscar, e Michael Douglas segura bem seu personagem coadjuvante, sem  vaidade de querer aparecer mais do que a história ou a denúncia. Um filme típico dos anos 70 - com intenções sociais e políticas bem definidas e um ritmo particular, "Síndrome da China" é essencial para o público fã de thrillers bem realizados e sérios - e um dos motivos pelos quais Jane Fonda pode ser considerada uma das estrelas mais politizadas da história de Hollywood.

O PREÇO DA TRAIÇÃO

  O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...