POR
UM SENTIDO NA VIDA (The good girl, 2002, Fox Searchlight Pictures,
93min) Direção: Miguel Arteta. Roteiro: Mike White. Fotografia: Enrique
Chediak. Montagem: Jeff Betancourt. Música: Tony Maxwell, James O'Brien,
Mark Orton, Joey Waronker. Figurino: Nancy Steiner. Direção de
arte/cenários: Daniel Bradford/Susan Emshwiller. Produção executiva:
Carol Baum, Kirk D'Amico, Philip Von Alvensleben. Produção: Matthew
Greenfield. Elenco: Jennifer Aniston, Jake Gylenhaal, John C. Reilly,
Tim Blake Nelson, John Carroll Lynch, Zooey Deschanel, Mike White.
Estreia: 12/01/02 (Festival de Sundance)
Segundo
consta, antes que começassem as filmagens de "Por um sentido na vida", a
atriz Jennifer Aniston implorou ao diretor Miguel Arteta que a
impedisse de repetir no filme - um drama baixo astral sobre uma mulher
comum tentando dar cor à sua vida medíocre - os trejeitos cômicos que
fizeram dela uma das atrizes mais populares do mundo, graças à série
"Friends". Tentando mais uma vez provar aos críticos e ao público o seu
talento dramático, Aniston não queria que Justine Last, sua personagem
na obra de Arteta, lembrasse em absolutamente nada a avoada e volúvel
Rachel Green. O pedido deu certo: elogiada unanimemente por seu
desempenho, Aniston entregou um dos mais consistentes desempenhos de sua
carreira em um papel denso, complexo e não exatamente simpático, que
mostrou que, por trás de sua beleza, simpatia e do então casamento com
Brad Pitt, existia uma atriz de muitas nuances à espera de serem
exploradas.
Sem o glamour e a produção da série de TV,
Aniston interpreta Justine, uma entediada e frustrada funcionária de um
loja de descontos de uma cidade do interior dos EUA. Casada com o pouco
ambicioso Phil (John C. Reilly), que vive de pintar casas e fumar
maconha ao lado do sócio Bubba (Tim Blake Nelson), ela tem como maior
expectativa de seus dias o momento de finalmente ficar grávida para
injetar emoção em seu dia-a-dia. Esperando pacientemente uma virada em
sua vida, ela conhece o novo colega de trabalho, o jovem Holden Worther
(Jake Gyllenhaal), que deseja tornar-se escritor e mora com os pais
depois de problemas com a justiça. Surge entre eles uma imediata
identificação e não demora para que os dois iniciem uma tórrida relação
proibida, cujas consequências se tornam cada vez mais perigosas e
dramáticas conforme passam a envolver outras pessoas. Apaixonado por
Justine, Holden - que emprestou seu pseudônimo do protagonista do
romance "O apanhador no campo de centeio" - resolve fugir com a mulher
amada, mas as coisas saem do controle quando uma testemunha do romance
ilícito entre eles surge com uma chantagem inesperada que os leva a um
dilema ainda maior.
Com
um ritmo que desafia a velocidade quase histérica do cinema comercial
americano, "Por um sentido na vida" mergulha o espectador dentro da
morosidade e da mediocridade da vida de Justine para que ele consiga,
dentro das possibilidades, compreender as atitudes da protagonista,
frequentemente discutíveis ou pouco éticas. Até mesmo o título original -
"a boa menina" - soa irônico diante do sinuoso caminho escolhido por
ela para atingir seus objetivos nem sempre claros, mais por culpa de sua
imaturidade e de sua insegurança do que por problemas de roteiro,
escrito com uma concisão e uma delicadeza que permitem até mesmo um
final agridoce e melancólico ao invés do previsível clímax melodramático
ou exagerado. É lógico que para isso colabora também mais uma atuação
exemplar de John C. Reilly, sempre eficientíssimo em dar vida a
personagens presos a relacionamentos e vidas simples e pacatas. Seu Phil
é uma vítima inocente do romance extraconjugal da esposa, uma espécie
de Madame Bovary dos subúrbios americanos, que se envolve com uma
encarnação moderna do jovem Werther criado por Goethe e se dirige, sem
freios, a um destino talvez pior do que poderia esperar de sua
existência modorrenta. Tal história é contada com sutileza por Miguel
Arteta, que deixa nas mãos competentes de seu elenco explorar cada
minúcia da personalidade de seus personagens, ricos em camadas a ponto
de surpreender o próprio público com as reviravoltas da trama.
Mas
é inegável que boa parte da força de "Por um sentido na vida" se deve
ao trabalho irretocável de Jennifer Aniston, que deixa a vaidade de lado
e apresenta à plateia um lado poucas vezes explorado anteriormente em
sua carreira. Com um olhar vazio e um postura cansada, ela transmite em
poucos diálogos um turbilhão de sentimentos e toda uma vida de
insucessos que acabam fatalmente a jogá-la nos braços do igualmente
desiludido Holden, que apesar da pouca idade, já acumula experiência o
bastante para enxergar na colega de trabalho sua última chance de
felicidade e realização. O encontro de tais almas - inquietas, sedentas
por emoções, carentes - é o combustível para uma história triste,
melancólica e desesperançosa, mas contada de forma enxuta e extremamente
eficaz. Um pequeno grande filme.
Filmes, filmes e mais filmes. De todos os gêneros, países, épocas e níveis de qualidade.
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segunda-feira
sexta-feira
(500) DIAS COM ELA
(500) DIAS COM ELA ((500) days of Summer, 2009, Fox Searchlight Pictures, 95min) Direção: Marc Webb. Roteiro: Scott Neustadter, Michael H. Weber. Fotografia: Eric Steelberg. Montagem: Alan Edward Bell. Música: Mychael Danna, Rob Simonsen. Figurino: Hope Hanafin. Direção de arte/cenários: Laura Fox/Jennifer Lukehart. Produção: Mason Novick, Jessica Tuchinsky, Mark Waters, Steven J. Wolfe. Elenco: Joseph Gordon-Levitt, Zooey Deschanel, Geoffrey Arend, Chloe Grace-Moretz, Matthew Gray Gubler. Estreia: 17/01/09 (Festival de Sundance)
Normalmente o público sabe o que esperar de uma comédia romântica: um casal se conhece, se apaixona e depois de inúmeros obstáculos que encontram no caminho, ou vivem felizes para sempre ou são separados definitivamente, para alegria ou lágrimas dos fãs do gênero. Quando um filme tem a ideia de desconstruir esse paradigma tão bem-sucedido (ao menos em termos de longevidade) tudo pode acontecer, desde um silêncio avassalador quanto um louvor unânime por parte da crítica e do público. "(500) dias com ela", a divertida história de amor e separação entre Tom e Summer encaixa-se na segunda opção. Estreando no Festival de Sundance de 2009, o filme de Marc Webb imediatamente conquistou a plateia e encantou a imprensa com seu equilíbrio perfeito entre romance e comédia, com seu realismo enfeitado com um visual moderno e com sua dupla de atores centrais - que saíram imediatamente do circuito independente para se tornarem respeitados e conhecidos além dos festivais de cinema.
Conhecido principalmente por ter feito parte do elenco de "10 coisas que eu odeio em você" - ao lado do amigo Heath Ledger - Joseph Gordon-Levitt pavimentou seu caminho rumo às superproduções hollywoodianas na pele do romântico, sensível e idealista Tom, um escritor de cartões comemorativos que cai de amores pela nova colega de trabalho, a realista, independente e decidida Summer (Zooey Deschanel). Com ideias bastante diferentes a respeito de uma relação amorosa, eles acabam se envolvendo, mas logicamente as coisas começam a complicar conforme o tempo passa e eles percebem que tem intenções distintas em relação ao futuro. Contando a turbulenta relação fora de ordem cronológica - o que permite ao espectador substituir o "o que irá acontecer?" pelo "como aconteceu?" - o roteiro de Michael H. Weber e Scott Neustadter oferece mais do que simplesmente uma história com começo, meio e fim bem definidos, preferindo, ao contrário, embaralhar suas cartas para analisar (não sem um senso de humor discreto e altas doses de melancolia) os altos e baixos de um relacionamento, por mais unilateral que ele seja.
Filha do diretor de fotografia Caleb Deschanel e parte do duo musical She & Him, Zooey Deschanel encarna de forma perfeita todas as nuances de Summer, com seu visual etéreo, seu gosto musical fora do comum e suas ideias particulares a respeito das relações amorosas. Mesmo tendo em mãos um papel que pode facilmente ser alvo de críticas pesadas - afinal de contas, é difícil não ver Tom como uma vítima de sua insensibilidade, ainda que isso só possa ser depreendido por espectadores propensos ao maniqueísmo - a bela atriz construiu uma personagem que tanto encanta quanto repele, de acordo com as atitudes mostradas no desenrolar do filme e pela forma como elas são interpretadas pelo apaixonado Tom. Salpicando sua obra com uma vastidão de detalhes que formam um doloroso quebra-cabeças em seu final, Marc Webb - que viu seu talento reconhecido com o convite de dirigir "O espetacular Homem-aranha" - faz rir e emociona ao imprimir um visual que flerta com o moderno e acena para o clássico: é especialmente fascinante a sequência onde Tom, deprimido pelo fim da relação, assiste a si mesmo em filmes ao estilo do sueco Ingmar Bergman e as demais referências culturais (Smiths, Sid Vicious) nunca soam deslocadas, graças ao roteiro esperto e à edição ágil.
Pontuado por uma trilha sonora das mais agradáveis, "(500) dias com ela" é um filme capaz de dividir opiniões. Os fãs das tradicionais comédias românticas podem sentir-se desconfortáveis pelo tom de realismo da história e aqueles que esperam mais do mesmo provavelmente não irão aprovar as inovações narrativas. Mas aqueles que se despirem de expectativas outras que não assistir a um filme criativo e inteligente provavelmente acabarão a sessão encantados e apaixonados. Se não por Summer, ao menos pelo filme.
Normalmente o público sabe o que esperar de uma comédia romântica: um casal se conhece, se apaixona e depois de inúmeros obstáculos que encontram no caminho, ou vivem felizes para sempre ou são separados definitivamente, para alegria ou lágrimas dos fãs do gênero. Quando um filme tem a ideia de desconstruir esse paradigma tão bem-sucedido (ao menos em termos de longevidade) tudo pode acontecer, desde um silêncio avassalador quanto um louvor unânime por parte da crítica e do público. "(500) dias com ela", a divertida história de amor e separação entre Tom e Summer encaixa-se na segunda opção. Estreando no Festival de Sundance de 2009, o filme de Marc Webb imediatamente conquistou a plateia e encantou a imprensa com seu equilíbrio perfeito entre romance e comédia, com seu realismo enfeitado com um visual moderno e com sua dupla de atores centrais - que saíram imediatamente do circuito independente para se tornarem respeitados e conhecidos além dos festivais de cinema.
Conhecido principalmente por ter feito parte do elenco de "10 coisas que eu odeio em você" - ao lado do amigo Heath Ledger - Joseph Gordon-Levitt pavimentou seu caminho rumo às superproduções hollywoodianas na pele do romântico, sensível e idealista Tom, um escritor de cartões comemorativos que cai de amores pela nova colega de trabalho, a realista, independente e decidida Summer (Zooey Deschanel). Com ideias bastante diferentes a respeito de uma relação amorosa, eles acabam se envolvendo, mas logicamente as coisas começam a complicar conforme o tempo passa e eles percebem que tem intenções distintas em relação ao futuro. Contando a turbulenta relação fora de ordem cronológica - o que permite ao espectador substituir o "o que irá acontecer?" pelo "como aconteceu?" - o roteiro de Michael H. Weber e Scott Neustadter oferece mais do que simplesmente uma história com começo, meio e fim bem definidos, preferindo, ao contrário, embaralhar suas cartas para analisar (não sem um senso de humor discreto e altas doses de melancolia) os altos e baixos de um relacionamento, por mais unilateral que ele seja.
Filha do diretor de fotografia Caleb Deschanel e parte do duo musical She & Him, Zooey Deschanel encarna de forma perfeita todas as nuances de Summer, com seu visual etéreo, seu gosto musical fora do comum e suas ideias particulares a respeito das relações amorosas. Mesmo tendo em mãos um papel que pode facilmente ser alvo de críticas pesadas - afinal de contas, é difícil não ver Tom como uma vítima de sua insensibilidade, ainda que isso só possa ser depreendido por espectadores propensos ao maniqueísmo - a bela atriz construiu uma personagem que tanto encanta quanto repele, de acordo com as atitudes mostradas no desenrolar do filme e pela forma como elas são interpretadas pelo apaixonado Tom. Salpicando sua obra com uma vastidão de detalhes que formam um doloroso quebra-cabeças em seu final, Marc Webb - que viu seu talento reconhecido com o convite de dirigir "O espetacular Homem-aranha" - faz rir e emociona ao imprimir um visual que flerta com o moderno e acena para o clássico: é especialmente fascinante a sequência onde Tom, deprimido pelo fim da relação, assiste a si mesmo em filmes ao estilo do sueco Ingmar Bergman e as demais referências culturais (Smiths, Sid Vicious) nunca soam deslocadas, graças ao roteiro esperto e à edição ágil.
Pontuado por uma trilha sonora das mais agradáveis, "(500) dias com ela" é um filme capaz de dividir opiniões. Os fãs das tradicionais comédias românticas podem sentir-se desconfortáveis pelo tom de realismo da história e aqueles que esperam mais do mesmo provavelmente não irão aprovar as inovações narrativas. Mas aqueles que se despirem de expectativas outras que não assistir a um filme criativo e inteligente provavelmente acabarão a sessão encantados e apaixonados. Se não por Summer, ao menos pelo filme.
quarta-feira
FIM DOS TEMPOS
FIM DOS TEMPOS (The happening, 2008, 20th Century Fox, 91min) Direção e roteiro: M. Night Shyamalan. Fotografia: Tak Fujimoto. Montagem: Conrad Buff. Música: James Newton Howard. Figurino: Betsy Heinman. Direção de arte/cenários: Jeannine Oppewall/Jay Hart. Produção executiva: Gary Barber, Roger Birnbaum, Ronnie Screwvala, Zarina Screwvala. Produção: Barry Mendel, Sam Mercer, M. Night Shyamalan. Elenco: Mark Wahlberg, Zooey Deschanel, John Leguizamo. Estreia: 13/6/08
Em 1963, o mestre do suspense, Alfred Hitchcock, lançou um de seus mais célebres filmes, "Os pássaros", que contava a revolta sem explicação de milhares de aves de rapina em uma cidade litorânea dos EUA. A julgar pela recepção histérica da crítica e do público americanos a "Fim dos tempos" - thriller dirigido por M. Night Shyamalan que investiga uma catástrofe natural de proporções nacionais - é de se imaginar a quantidade de pedras que seriam jogadas ao velho Hitch caso seu filme estreasse quarenta anos depois de seu lançamento original. Massacrado sem dó nem piedade, "Fim dos tempos" seguiu-se às péssimas críticas que o cineasta havia colecionado com seu "A dama na água", e serviu para, no mínimo, confirmar a extrema má-vontade geral contra os trabalhos do diretor que transformou-se em fenômeno graças a "O sexto sentido". Mesmo longe de ser uma obra-prima - e com alguns defeitos claramente perceptíveis até ao mais distraido espectador - o filme estrelado por Mark Wahlberg é um suspense acima da média, que comprova o talento de um dos poucos cineastas ainda donos de um estilo próprio.
A primeira sequência já é arrepiante e dá uma mostra da capacidade de Shyamalan de sugerir o horror contando apenas com a música (mais uma vez a cargo de James Newton Howard) e a edição de som: em uma bela e tranquila manhã de sol no Central Park nova-iorquino, dezenas de pessoas começam a agir estranhamente. Primeiro, perdem a noção de direção. Depois, falam coisas sem sentido. Por fim, cometem suicídio sem razão aparente. Em pouco tempo, operários de uma construção agem da mesma forma. Não demora para que o acontecimento chegue à imprensa, que de cara pensa tratar-se de um atentado terrorista em forma de arma química. Pouco depois, na Filadélfia, o professor de química Elliot Moore (Mark Wahlberg, um tanto deslocado no papel) descobre que sua cidade também está na rota do misterioso fenômeno e resolve, assim como centenas de conterrâneos, fugir para um local mais seguro. Acompanhado da esposa Alma (Zooey Deschanel) - cujo relacionamento está em crise - e da filha pequena de um amigo que foi procurar a mulher, o rapaz se vê diante de uma catástrofe sem explicações fáceis, que está dizimando a população pelas próprias mãos.
Uma das maiores críticas feitas a "Fim dos tempos" refere-se à explicação dada pelo roteiro ao trágico acontecimento - e que tem nuances ecológicas e de defesa ao meio-ambiente. As reclamações sobre tal opção de Shyamalan apenas mostram o quão engessado está o público de cinema, que provavelmente aceitariam com mais bom grado resoluções fáceis e clichês como conspirações governamentais e alienígenas malvados com sede de destruição. Ao contrariar o esperado, o cineasta apostou na inteligência da plateia e na possibilidade de um pacto com a audiência. Sua aposta não deu certo principalmente porque ele exigiu da audiência uma liberdade maior de imaginação, e contar com isso junto a um público acostumado a soluções mastigadinhas é suicídio comercial. Por outro lado, quem embarcou de verdade no filme ganhou muito mais: cenas dirigidas com extremo cuidado, tensão constante e ao menos uma personagem marcante, capaz de assombrar aos reais fãs de cinema de suspense.
Vivida pela veterana Betty Buckley - que estreou no cinema como uma das professoras de "Carrie, a estranha" (76) - a apavorante Mrs. Jones é, talvez, a melhor personagem de "Fim dos tempos". Misteriosa e paranoica, é ela quem hospeda - meio a contragosto - os protagonistas, no ato final do filme e sua entrada comprova a teoria de Shyamalan de que as pessoas mostram quem elas realmente são justamente nos momentos mais críticos. O desempenho impecável de Buckley de certa forma anula a atuação mecânica tanto de Mark Wahlberg quanto de Zooey Deschanel - que não faz mais do que desfilar caras e bocas, a despeito de seu talento. E são exatamente Wahlberg e Deschanel o calcanhar de Aquiles do filme. Com personagens centrais tão apáticos, não é de admirar que a maior qualidade do trabalho do cineasta seja a direção caprichada e a coragem de ir até o fim com suas ideias.
Primeiro filme de Shyamalan a receber a classificação R-17 (menores de 17 anos somente entram nas salas acompanhados de pais ou responsáveis), "Fim dos tempos" intercala a sugestão com o explícito, com cenas de uma violência até então não vistas na filmografia do diretor. A boa notícia é que a possibilidade de mostrar sangue e cadáveres não tirou do cineasta seu enorme talento em provocar o público. Bem mais inteligente e eficaz do que muitos fizeram crer, é um filme que terá seu valor reconhecido com o passar do tempo.
Em 1963, o mestre do suspense, Alfred Hitchcock, lançou um de seus mais célebres filmes, "Os pássaros", que contava a revolta sem explicação de milhares de aves de rapina em uma cidade litorânea dos EUA. A julgar pela recepção histérica da crítica e do público americanos a "Fim dos tempos" - thriller dirigido por M. Night Shyamalan que investiga uma catástrofe natural de proporções nacionais - é de se imaginar a quantidade de pedras que seriam jogadas ao velho Hitch caso seu filme estreasse quarenta anos depois de seu lançamento original. Massacrado sem dó nem piedade, "Fim dos tempos" seguiu-se às péssimas críticas que o cineasta havia colecionado com seu "A dama na água", e serviu para, no mínimo, confirmar a extrema má-vontade geral contra os trabalhos do diretor que transformou-se em fenômeno graças a "O sexto sentido". Mesmo longe de ser uma obra-prima - e com alguns defeitos claramente perceptíveis até ao mais distraido espectador - o filme estrelado por Mark Wahlberg é um suspense acima da média, que comprova o talento de um dos poucos cineastas ainda donos de um estilo próprio.
A primeira sequência já é arrepiante e dá uma mostra da capacidade de Shyamalan de sugerir o horror contando apenas com a música (mais uma vez a cargo de James Newton Howard) e a edição de som: em uma bela e tranquila manhã de sol no Central Park nova-iorquino, dezenas de pessoas começam a agir estranhamente. Primeiro, perdem a noção de direção. Depois, falam coisas sem sentido. Por fim, cometem suicídio sem razão aparente. Em pouco tempo, operários de uma construção agem da mesma forma. Não demora para que o acontecimento chegue à imprensa, que de cara pensa tratar-se de um atentado terrorista em forma de arma química. Pouco depois, na Filadélfia, o professor de química Elliot Moore (Mark Wahlberg, um tanto deslocado no papel) descobre que sua cidade também está na rota do misterioso fenômeno e resolve, assim como centenas de conterrâneos, fugir para um local mais seguro. Acompanhado da esposa Alma (Zooey Deschanel) - cujo relacionamento está em crise - e da filha pequena de um amigo que foi procurar a mulher, o rapaz se vê diante de uma catástrofe sem explicações fáceis, que está dizimando a população pelas próprias mãos.
Uma das maiores críticas feitas a "Fim dos tempos" refere-se à explicação dada pelo roteiro ao trágico acontecimento - e que tem nuances ecológicas e de defesa ao meio-ambiente. As reclamações sobre tal opção de Shyamalan apenas mostram o quão engessado está o público de cinema, que provavelmente aceitariam com mais bom grado resoluções fáceis e clichês como conspirações governamentais e alienígenas malvados com sede de destruição. Ao contrariar o esperado, o cineasta apostou na inteligência da plateia e na possibilidade de um pacto com a audiência. Sua aposta não deu certo principalmente porque ele exigiu da audiência uma liberdade maior de imaginação, e contar com isso junto a um público acostumado a soluções mastigadinhas é suicídio comercial. Por outro lado, quem embarcou de verdade no filme ganhou muito mais: cenas dirigidas com extremo cuidado, tensão constante e ao menos uma personagem marcante, capaz de assombrar aos reais fãs de cinema de suspense.
Vivida pela veterana Betty Buckley - que estreou no cinema como uma das professoras de "Carrie, a estranha" (76) - a apavorante Mrs. Jones é, talvez, a melhor personagem de "Fim dos tempos". Misteriosa e paranoica, é ela quem hospeda - meio a contragosto - os protagonistas, no ato final do filme e sua entrada comprova a teoria de Shyamalan de que as pessoas mostram quem elas realmente são justamente nos momentos mais críticos. O desempenho impecável de Buckley de certa forma anula a atuação mecânica tanto de Mark Wahlberg quanto de Zooey Deschanel - que não faz mais do que desfilar caras e bocas, a despeito de seu talento. E são exatamente Wahlberg e Deschanel o calcanhar de Aquiles do filme. Com personagens centrais tão apáticos, não é de admirar que a maior qualidade do trabalho do cineasta seja a direção caprichada e a coragem de ir até o fim com suas ideias.
Primeiro filme de Shyamalan a receber a classificação R-17 (menores de 17 anos somente entram nas salas acompanhados de pais ou responsáveis), "Fim dos tempos" intercala a sugestão com o explícito, com cenas de uma violência até então não vistas na filmografia do diretor. A boa notícia é que a possibilidade de mostrar sangue e cadáveres não tirou do cineasta seu enorme talento em provocar o público. Bem mais inteligente e eficaz do que muitos fizeram crer, é um filme que terá seu valor reconhecido com o passar do tempo.
domingo
O ASSASSINATO DE JESSE JAMES PELO COVARDE ROBERT FORD
O ASSASSINATO DE JESSE JAMES PELO COVARDE ROBERT FORD (The assassination of Jesse James by the coward Robert Ford, 2007, Warner Bros, 160min) Direção: Andrew Dominik. Roteiro: Andrew Dominik, romance de Ron Hansen. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Curtiss Clayton, Dylan Tichenor. Música: Nick Cave, Warren Ellis. Figurino: Patricia Norris. Direção de arte/cenários: Richard Hoover, Patricia Norris/Janice Blackie-Goodine. Produção executiva: Liza Ellzey, Brad Grey, Tony Scott, Benjamin Waisbren. Produção: Jules Daly, Dede Gardner, Brad Pitt, Ridley Scott, David Valdes. Elenco: Brad Pitt, Casey Affleck, Sam Rockwell, Mary-Louise Parker, Jeremy Renner, Sam Shepard, Garrett Dillahunt, Ted Levine, Zooey Deschannel. Estreia: 02/9/07 (Festival de Veneza)
2 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Casey Affleck), Fotografia
Em algumas ocasiões o sucesso faz bem em Hollywood. É o caso de gente como George Clooney, que, enquanto ainda é um astro carismático e capaz de levar multidões às salas de exibição, pode ousar em algumas obras de interesse mais restrito e menos comercial sem prejuízo de seu nome. O mesmo acontece com Brad Pitt. Um dos nomes mais conhecidos e respeitados na terra do cinema - principalmente graças a boas escolhas na carreira - Pitt deixou de lado a figura de galã sexy para revelar-se um ator competente - e de quebra ainda render gordas bilheterias. Foi esse seu poder, por exemplo, que permitiu a ele que assumisse a produção de - e consequente controle sobre - um filme difícil, denso, lento e complexo quanto "O assassinato de Jesse James pelo covarde Robert Ford". A partir do título longo que ele mesmo proibiu que fosse diminuído para efeito de marketing, tudo no filme de Andrew Dominik (talvez com exceção do próprio astro) apontava para seu fracasso financeiro - que de fato aconteceu.
Contrariando os desejos da Warner - que via no filme um belo potencial como produto de ação - Pitt e seu diretor fizeram de "Jesse James" um faroeste contemplativo e poético, uma visão bastante diferente daquilo que a massa espera assistir quando vê o nome do ator no cartaz. A transformação da montagem de quatro horas apresentada no Festival de Veneza (de onde Pitt saiu eleito melhor ator) em uma duração mais palatável de duas horas e quarenta minutos em sua estreia oficial, porém, pouco ajudou: com um custo estimado em trinta milhões de dólares, a produção não arrecadou nem 10% disso no mercado americano. Azar de quem perdeu um dos mais fascinantes faroestes modernos realizados em Hollywood.
Quem espera ver em "Jesse James" tiroteios, sangue, cenas espetaculares de ação e todos os clichês que envolvem o faroeste certamente vai sentir-se ludibriado - eles até são apresentados por Dominik, mas envoltos em um verniz de poesia raramente visto no gênero. Porém, quem estiver disposto a deixar-se levar por uma nova experiência tem tudo para acabar a sessão deslumbrado e emocionado. Emulando o estilo Terence Malik de criação, o jovem cineasta fez de seu segundo longa uma obra para poucos: é sem pressa que o roteiro vai delineando a personalidade doentia de Robert Ford (interpretado pelo sempre chato Casey Affleck, indicado a um Oscar de coadjuvante) em sua obsessão/atração/inveja pelo famigerado fora-da-lei que, ao contrário do que se poderia esperar em uma grande produção americana, tem seus defeitos, é melancólico e nada heroico. Aliás, é bastante interessante a forma como o filme trata Ford, nunca deixando exatamente claras as suas razões para cometer a traição e o assassinato do título (além da recompensa, é claro). A dubiedade que circunda todas as personagens permite inúmeras leituras do filme, sempre acrescentando mais camadas a cada revisão.
Fotografado avassaladoramente por Roger Deakins - que também concorreu a uma estatueta e injustamente perdeu para "Sangue negro" - e musicado com uma pungência tocante por Nick Cave, "O assassinato de Jesse James" é o perfeito filme "ame ou odeie". Mas é, antes de mais nada, uma prova da coragem de Brad Pitt em constantemente sair de sua zona de conforto. Bravíssimo!
quinta-feira
QUASE FAMOSOS
QUASE FAMOSOS (Almost famous, 2000, Columbia Pictures/Dreamworks SKG, 122min) Direção e roteiro: Cameron Crowe. Fotografia: John Toll. Montagem: Joe Hutsching, Saar Klein. Música: Nancy Wilson. Figurino: Betsy Heimann. Direção de arte/cenários: Clay A. Griffith/Robert Greenfield. Produção: Ian Bryce, Cameron Crowe. Elenco: Patrick Fugit, Billy Crudup, Jason Lee, Kate Hudson, Frances McDormand, Philip Seymour Hoffman, Anna Paquin, Jimmy Fallon, Fairuza Balk, Noah Taylor, Zooey Deschanel, Rain Wilson. Estreia: 13/9/00
4 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante(Kate Hudson, Frances McDormand), Roteiro Original, MontagemVencedor do Oscar de Roteiro Original
Vencedor de 2 Golden Globes - Melhor Filme Comédia/Musical, Atriz Coadjuvante (Kate Hudson)
“Não fique amigo de roqueiros!” é o mais importante conselho dado pelo crítico musical Lester Bangs (Phillip Seymour Hoffman) ao adolescente William Miller (Patrick Fugit), às vésperas de o garoto embarcar, aos 15 anos, com a banda de rock Stillwater em sua primeira turnê, entitulada “Quase famosos”. Criado pela repressora Elaine (Frances McDormand), uma professora universitária que conseguiu causar a fuga da filha mais velha devido a suas idiossincrasias - como comemorar o Natal em setembro para fugir do caráter comercial da data - Miller tem a chance, proporcionada pela prestigiada revista Rolling Stone (que nem de longe imagina sua real idade), de acompanhar a excursão da banda para uma reportagem exclusiva. Em poucos dias, o adolescente deixa pra trás uma vida sem graça e tem acesso a um mundo de amor livre, drogas, intrigas e até amor verdadeiro, quando se apaixona por Penny Lane (a graciosa Kate Hudson, filha da atriz Goldie Hawn), uma groupie que esconde quilos de romantismo e ingenuidade debaixo de uma casca de liberalidade e auto-confiança.
William Miller, o adolescente que descobre o amor, o sexo e a vida como ela é no meio de uma excursão de rock é o protagonista de “Quase famosos”, deliciosa comédia escrita e dirigida por Cameron Crowe, em seu filme seguinte ao sucesso de “Jerry Maguire, a grande virada”. Notadamente semi-autobiográfico, seu filme é um vencedor em todos os sentidos. Seu roteiro, vencedor do Oscar, é um achado de bom humor e delicadeza, com diálogos brilhantes, recitados por um elenco excepcional. Sua trilha sonora, como não poderia deixar de ser em se tratando de um filme sobre o rock’n’roll é repleta de pérolas como The Who, Elton John e Simon & Garfunkel e é difícil não se envolver com os personagens criados pela mente ágil e humanista de Crowe, que manteve de seu filme anterior a capacidade de fazer rir e emocionar com facilidade e sem maniqueísmos.

4 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante(Kate Hudson, Frances McDormand), Roteiro Original, MontagemVencedor do Oscar de Roteiro Original
Vencedor de 2 Golden Globes - Melhor Filme Comédia/Musical, Atriz Coadjuvante (Kate Hudson)
“Não fique amigo de roqueiros!” é o mais importante conselho dado pelo crítico musical Lester Bangs (Phillip Seymour Hoffman) ao adolescente William Miller (Patrick Fugit), às vésperas de o garoto embarcar, aos 15 anos, com a banda de rock Stillwater em sua primeira turnê, entitulada “Quase famosos”. Criado pela repressora Elaine (Frances McDormand), uma professora universitária que conseguiu causar a fuga da filha mais velha devido a suas idiossincrasias - como comemorar o Natal em setembro para fugir do caráter comercial da data - Miller tem a chance, proporcionada pela prestigiada revista Rolling Stone (que nem de longe imagina sua real idade), de acompanhar a excursão da banda para uma reportagem exclusiva. Em poucos dias, o adolescente deixa pra trás uma vida sem graça e tem acesso a um mundo de amor livre, drogas, intrigas e até amor verdadeiro, quando se apaixona por Penny Lane (a graciosa Kate Hudson, filha da atriz Goldie Hawn), uma groupie que esconde quilos de romantismo e ingenuidade debaixo de uma casca de liberalidade e auto-confiança.
William Miller, o adolescente que descobre o amor, o sexo e a vida como ela é no meio de uma excursão de rock é o protagonista de “Quase famosos”, deliciosa comédia escrita e dirigida por Cameron Crowe, em seu filme seguinte ao sucesso de “Jerry Maguire, a grande virada”. Notadamente semi-autobiográfico, seu filme é um vencedor em todos os sentidos. Seu roteiro, vencedor do Oscar, é um achado de bom humor e delicadeza, com diálogos brilhantes, recitados por um elenco excepcional. Sua trilha sonora, como não poderia deixar de ser em se tratando de um filme sobre o rock’n’roll é repleta de pérolas como The Who, Elton John e Simon & Garfunkel e é difícil não se envolver com os personagens criados pela mente ágil e humanista de Crowe, que manteve de seu filme anterior a capacidade de fazer rir e emocionar com facilidade e sem maniqueísmos.

Talvez a maior qualidade de seu roteiro seja fazer dos olhos de William Miller os olhos da plateia. É através do olhar ingênuo e romântico de Miller que o público trava conhecimento com o amor do guitarrista Russell Hammond (o ótimo Billy Crudup) pela música; é graças a seus silêncios que somos testemunhas dos bastidores de um grupo em vias de tornar-se grande; e é por seus olhos encantados de paixão que também caímos de amor por Penny Lane, vivida com graça e carisma por uma Kate Hudson impecável, que foi promovida do papel de irmã do protagonista (que ficou com a ótima Zooey Deschannel) para o principal papel feminino do filme (cobiçado por Kirsten Dunst), ganhou o Globo de Ouro e concorreu ao Oscar de atriz coadjuvante, assim como a colega de elenco Frances McDormand, perfeita como a mãe de Miller e roubando as cenas em que aparece.
Não é sempre que um filme como “Quase famosos” aparece. Lançando um olhar carinhoso à época de ouro do rock (a trama se passa em 1973), Crowe mostra que sabe como poucos onde encontrar material humano no meio de muito som – é dele o roteiro e a direção do subapreciado “Vida de solteiro”, passado em Seattle, berço do movimento grunge do inicio dos anos 90. Não é preciso ser um especialista em rock dos anos 70 para se apaixonar pelo filme – ainda que Crowe tenha espalhado dezenas de referências ao gênero pelo roteiro – nem tampouco ser um roqueiro de fé para se empolgar com o resultado final. Basta gostar de bom cinema. E bom cinema “Quase famosos” é!
Não é sempre que um filme como “Quase famosos” aparece. Lançando um olhar carinhoso à época de ouro do rock (a trama se passa em 1973), Crowe mostra que sabe como poucos onde encontrar material humano no meio de muito som – é dele o roteiro e a direção do subapreciado “Vida de solteiro”, passado em Seattle, berço do movimento grunge do inicio dos anos 90. Não é preciso ser um especialista em rock dos anos 70 para se apaixonar pelo filme – ainda que Crowe tenha espalhado dezenas de referências ao gênero pelo roteiro – nem tampouco ser um roqueiro de fé para se empolgar com o resultado final. Basta gostar de bom cinema. E bom cinema “Quase famosos” é!
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