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segunda-feira

WALL STREET: PODER E COBIÇA

 


WALL STREET: PODER E COBIÇA (Wall Street, 1987, 20th Century Fox, 126min) Direção: Oliver Stone. Roteiro: Oliver Stone, Stanley Weiser. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Claire Simpson. Música: Stewart Copeland. Figurino: Ellen Mirojnick. Direção de arte/cenários: Stephen Hendrickson/Leslie Bloom, Susan Bode. Produção: Edward R. Pressman. Elenco: Michael Douglas, Charlie Sheen, Daryl Hannah, Martin Sheen, Hal Holbrook, Sean Young. Estreia: 11/12/87

Vencedor do Oscar de Melhor Ator (Michael Douglas)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator/Drama (Michael Douglas)

Logo depois de ter feito a festa na cerimônia do Oscar 1987 com seu "Platoon", que recebeu as estatuetas de melhor filme e diretor - além de outros prêmios técnicos -, Oliver Stone resolveu voltar suas lentes para um outro tipo de batalha, menos sangrento mas igualmente nocivo. Das selvas do Vietnã ao centro nervoso do mercado financeiro dos EUA, o polêmico cineasta fez uma longa viagem, mas não abandonou seu olhar aguçado e crítico. "Wall Street: poder e cobiça" pode não ter causado o mesmo impacto popular do filme anterior de Stone, mas mostrou a seus detratores que nem só de controvérsias era feita sua carreira, deu a Michael Douglas o Oscar de melhor ator e rendeu um personagem icônico (que voltou às telas em 2010, em uma sequência inesperada), dono de uma das frases mais memoráveis do cinema (a famigerada "greed is good"). Dedicado ao pai de Stone, corretor na bolsa de valores durante a Depressão, e inspirado em escândalos com títulos de alto risco e informações privilegiadas dos anos 1980, "Wall Street" estreou no auge do conservador governo Reagan, e com sua feroz crítica ao capitalismo e à ganância desenfreada, tornou-se um dos retratos mais fiéis de um período centrado no hedonismo e nos excessos de todos os tipos. Filmado às pressas para escapar de uma então iminente greve de diretores e - segundo o cineasta - lançado com pouco caso por seu estúdio (a 20th Century Fox), que preferiu apostar suas fichas em "Nos bastidores da notícia", "Wall Street" acabou rindo por último: enquanto a comédia dramática de James L. Brooks não conseguiu converter nenhuma de suas sete indicações ao Oscar, o filme de Oliver Stone saiu da cerimônia com a única estatueta a que havia sido indicada.

"Wall Street" se passa na primeira metade da década de 1980 e acompanha o caminho do jovem Bud Fox (Charlie Sheen), que trabalha como corretor na bolsa de valores de Nova York e tem como principal objetivo na vida chegar ao topo da pirâmide financeira e social. Disposto a qualquer artimanha para alcançar suas metas pessoais, ele trabalha incansavelmente para conquistar a atenção de um dos maiores especuladores do país, o ganancioso Gordon Gekko (Michael Douglas). Conhecido no mercado por seus métodos pouco ortodoxos (quando não criminosos), Gekko acaba por colocar Fox sob suas asas e, com o tempo, a explorar suas informações privilegiadas para obter vantagens. Mergulhado em um mundo sofisticado que contrasta com sua vida até então de poucos recursos, Fox passa a conviver com gente como a decoradora Darien (Daryl Hannah) - com quem se envolve romanticamente - e uma série de outros tubarões pouco afeitos à ética. Conforme vai subindo na vida, porém, o jovem vai se distanciando do universo classe média de seu pai, Carl (Martin Sheen), funcionário de uma empresa de aviação comercial que, devido às maquinações de Gekko, entra no caminho da falência.

Apesar de hoje em dia Michael Douglas ser considerado o intérprete ideal de Gordon Gekko - com uma atuação antológico que marcou definitivamente sua carreira -, seu nome não foi o primeiro a ser pensado para o papel (inclusive havia o temor, que mostrou-se infundado, de que ele poderia, devido a sua experiência como produtor premiado, tentar interferir nos bastidores). Antes que Douglas assumisse o desafio, astros consagrados como Al Pacino, Jack Nicholson, Robert DeNiro e Warren Beatty estiveram na mira de Stone (que pensou até mesmo em Richard Gere, conhecido mais como galã do que por seus dotes de ator sério). A escolha de Douglas, no entanto, foi o tiro mais certo da produção: até então mais respeitado como produtor (vencedor do Oscar por "Um estranho no ninho", de 1975), astro de produções comerciais como "Tudo por uma esmeralda" (1984) e "A joia do Nilo" (1985) e filho de Kirk Douglas, Michael aproveita cada momento em cena para demonstrar uma persona radicalmente oposta àquela que, no mesmo ano, havia oferecido às plateias como o adúltero atormentado pela ex-amante no sucesso "Atração fatal" - filmado concomitantemente e indicado a seis Oscar: cínico, amoral e por vezes cruel, Gordon Gekko encontrou nele sua mais perfeita tradução, a ponto de eclipsar o verdadeiro protagonista do filme, o jovem Bud Fox, cujo pacto mefistofélico é a base da narrativa e a fonte da moral da história - interpretado por um jovem Charlie Sheen, que ficou com um papel ambicionado por um então ascendente Tom Cruise.

Antes de consagrar-se com o papel principal de "Nascido em 4 de julho" (1989), também dirigido por Oliver Stone, Cruise demonstrou interesse em interpretar Bud Fox, mas acabou preterido por Charlie Sheen, cuja rigidez juvenil serviu como uma luva para as intenções do roteiro em retratar o personagem como alguém preso entre a ambição de tornar-se um milionário do mundo das finanças e os valores ensinados por seu pai sindicalista e de rígida moral (vivido pelo pai de Charlie, o veterano Martin Sheen). Mas se Charlie foi capaz de utilizar-se de sua quase inexperiência para atingir o objetivo de Stone o mesmo não pode ser dito de parte do elenco escolhido pelo cineasta (e que deu origem a dores de cabeça nos bastidores): tanto Daryl Hannah quanto Sean Young foram alvos de severas (e justas) críticas por parte da imprensa, que percebeu em ambas uma sensação de insegurança e deslocamento a ponto de terem suas cenas diminuídas na montagem final. Young - conhecida por ser de difícil convivência e pouco respeitada como atriz - queria o papel de Hannah e nunca fez questão de esconder seu desejo, tornando as filmagens um campo de batalha silencioso e tenso: sua relação difícil com Charlie Sheen não deixou as coisas melhores e seu comportamento pouco profissional acabou por eliminar uma trama paralela que ampliaria a importância de sua personagem. Não é de admirar, portanto, o quão pouco desenvolvidos são os papéis femininos na trama.

Um dos filmes mais representativos da sociedade dos EUA da era Reagan, "Wall Street: poder e cobiça" não foi exatamente um sucesso popular, mas revelou em Oliver Stone um cineasta atento à sua época e inteligente na forma de explorar as ferramentas narrativas a seu dispor - é brilhante, por exemplo, o modo como utiliza a fotografia para estabelecer a diferença de ritmo e intenções quando retrata a quase violência da bolsa de valores (na pele de Fox e seus colegas) e a serenidade do caráter incorruptível de Carl. Parte de um período prolífico e elogiado na carreira do diretor, o filme rendeu a única continuação em seu currículo - e apesar do tema difícil e pouco atraente, é um ponto alto em sua filmografia.

quinta-feira

MEU QUERIDO PRESIDENTE

 


MEU QUERIDO PRESIDENTE (The American president, 1995, Universal Pictures/Castle Rock Entertainment, 114min) Direção: Rob Reiner. Roteiro: Aaron Sorkin. Fotografia: John Seale. Montagem: Robert Leighton. Música: Marc Shaiman. Figurino: Gloria Gresham. Direção de arte/cenários: Lillu Kilvert/Karen O'Hara. Produção executiva: Charles Newirth, Jeffrey Stott. Produção: Rob Reiner. Elenco: Michael Douglas, Annette Bening, Michael J. Fox, Martin Sheen, Richard Dreyfuss, Samantha Mathis, Anna Deavere Smith, Shawna Waldron. Estreia: 08/11/95

Indicado ao Oscar de Trilha Sonora Original (Comédia ou Musical)

Às vezes tudo que um diretor de cinema precisa é de uma comédia romântica para demonstrar que também tem um lado menos denso - e de quebra deixar para trás um fiasco homérico. Depois que seu "O anjo da guarda" (1994) fracassou gigantescamente nas bilheterias e foi massacrado pela crítica, Rob Reiner percebeu que a forma de fazer as pazes com o público e com o sucesso seria retornar ao gênero que já havia lhe dado a oportunidade de criar um clássico contemporâneo. Sendo assim, seis anos depois que Meg Ryan entrou para a história fingindo um orgasmo em pleno restaurante lotado - em "Harry & Sally: feitos um para o outro" - uma nova história de amor inofensiva e elegante chegava às telas com sua assinatura, mas dessa vez, com um pequeno upgrade em relação a seus protagonistas: em vez de um casal normal no começo dos trinta anos e vivendo em uma fotogênica Nova York, os personagens principais de "Meu querido presidente" são uma lobista ambiental e um quarentão viúvo que é ninguém menos que o presidente dos EUA.

Andrew Sheperd (interpretado com charme por Michael Douglas) está chegando à segunda metade de seu mandato como presidente, com alto índice de aprovação do eleitorado e sem causar maiores problemas junto a seus correligionários do Partido Democrata. Eleito logo após a morte da esposa, vítima de câncer, Sheperd é visto como um pai dedicado (de uma filha pré-adolescente) e de uma integridade a toda prova - para desgosto de seu maior rival, o republicano Bob Rumson (Richard Dreyfuss), à espera de qualquer deslize para tentar suplantá-lo em uma nova e próxima eleição. A chance de ouro de Rumson chega quando entra em cena Sydney Ellen Wade (Annette Bening), uma competente e conhecida lobista lutando pela aprovação de uma lei a favor do meio-ambiente. Encantado pela inteligência e pela sensibilidade de Sydney, o presidente se deixa seduzir pela possibilidade de um novo romance - até que seus oponentes resolvem apelar para táticas pouco elogiáveis com o intuito de destruir suas chances de reeleição. Resta a ele decidir-se, então, pelo amor ou pelo poder.

Escrito por Aaron Sorkin - criador e roteirista da bem-sucedida série "The West Wing", que também trata dos bastidores da política norte-americana -, "Meu querido presidente" não tenta ser um retrato fiel dos meandros da Casa Branca e seus adendos. Pelo contrário, o filme de Reiner apresenta uma visão romântica e idealizada, quase a ponto de tornar-se maniqueísta: enquanto Sheperd é retratado como bom moço, honesto e incapaz de qualquer deslize deliberado, seu rival - vivido por Richard Dreyfuss nitidamente à vontade - é a epítome da política como algo venal, sujo e amoral. Entre os dois extremos, está a heroína de Annette Bening, mostrada como uma mulher independente, bem-sucedida e respeitada que, no entanto, não escapa de ser a típica protagonista de histórias de amor direcionadas aos fãs do gênero: mesmo tentando manter a pose de alguém que põe a carreira acima da vida pessoal, basta um encontro regado a belas roupas, boa bebida e uma rodada de dança para que suas prioridades entrem em xeque. São poucos os momentos em que Reiner (que conduz o filme com sobriedade mas nunca a ironia que se poderia esperar) deixa sobressair a argúcia característica da obra mais famosa de Sorkin - somente quando entram em cena os assessores de Sheperd, interpretados por Martin Sheen e Michael J. Fox, é que se pode reconhecer seu texto quase cínico (é de se imaginar como seria seu roteiro original, que contava com 385 páginas).

Indicado ao Oscar de melhor trilha sonora original (comédia ou musical), "Meu querido presidente" é um filme que, mesmo longe de ser brilhante, jamais subestima o espectador. Oferece um casal central extremamente simpático (Bening ficou com o papel para o qual foram consideradas Jessica Lange, Emma Thompson, Michelle Pfeiffer e Susan Sarandon), uma história sem sobressaltos ou ousadias temáticas e narrativas e uma atmosfera romântica e adulta rara em filmes comerciais de sua época - vale lembrar que foi o ano de blockbusters como "Toy story", "Pocahontas", Duro de matar 3" e "Ace Ventura 2", nenhum deles exatamente apropriado para quem desejava apenas sentir-se apaixonado ao entrar em uma sala de exibição. Delicado mas pouco memorável, ao menos serviu para deixar para trás o fracasso de "O anjo da guarda" - pelo menos até o filme seguinte de Reiner, "Fantasmas do passado", que também não foi exatamente um sucesso.

quarta-feira

ASSÉDIO SEXUAL


ASSÉDIO SEXUAL (Disclosure, 1994, Warner Bros., 128min) Direção: Barry Levinson. Roteiro: Paul Attanasio, romance de Michael Crichton. Fotografia: Tony Pierce-Roberts. Montagem: Stu Linder. Música: Ennio Morricone. Figurino: Gloria Gresham. Direção de arte/cenários: Neil Spisak/Garrett Lewis. Produção executiva: Peter Giuliano. Produção: Michael Crichton, Barry Levinson. Elenco: Michael Douglas, Demi Moore, Donald Sutherland, Caroline Goodall, Roma Maffia, Dylan Baker, Dennis Miller. Donal Logue. Estreia: 28/11/94

Não tinha como dar errado. Em 1994, quando foi lançado, o filme "Assédio sexual" apresentava todos os ingredientes de um grande sucesso: além do tema polêmico, contava com a assinatura de Barry Levinson (diretor oscarizado por "Rain Man", de 1988, e indicado novamente à estatueta, por "Bugsy", de 1991), uma história criada por Michael Crichton (cujo "Jurassic Park" acabava de ser adaptado às telas por Steven Spielberg e se tornava uma das maiores bilheterias da história) e a presença de dois astros de primeira grandeza, Michael Douglas e Demi Moore. E não deu - pelo menos em parte. Com mais de 200 milhões de dólares de arrecadação mundial, a produção deu o que falar em mesas de bar, em artigos de jornal e em reuniões de família, colocando em pauta um assunto ainda delicado (cuja interessante inversão de papéis ajudou no marketing espontâneo) e reforçando a popularidade de seus atores principais. Porém, à parte sua controvérsia e o talento dos envolvidos, o filme de Levinson não deixa de ser uma decepção àqueles que procuram um bom drama de tribunal: superficial e com sérios problemas de foco, "Assédio sexual" é um passatempo correto, mas que perdeu a chance de se tornar um clássico de seu tempo.

Não deixou de ser uma jogada de mestre mudar o foco do romance "Disclosure", de Michael Crichton, para buscar as plateias que lotaram as salas de exibição para ver Michael Douglas sofrendo as consequências de seu caso extraconjugal em "Atração fatal" (1987) ou Demi Moore despertando a luxúria do milionário Robert Redford em "Proposta indecente" (1993) - ambos dirigidos, por coincidência ou não, por Adrian Lyne. Cientes de que o público formaria filas para ver a normalmente delicada Demi assediando sem meias-palavras o frequentemente garanhão Douglas, os produtores transformaram uma subtrama do livro de Crichton em tema principal - e relegaram a história central do romance, que girava em torno de intrigas corporativas em uma empresa de tecnologia, a segundo plano. A estratégia se mostrou acertada em termos comerciais, mas, como efeito colateral, enfatizou a fragilidade com que o escritor desenvolveu o tema. Nem mesmo um roteirista experiente como Paul Attanasio - indicado ao Oscar por "Quiz show: a verdade dos bastidores" (1994) - foi capaz de disfarçar a inconsistência de tamanha alteração de foco: o que era para ser o grande trunfo do filme acabou esvaziado por uma reviravolta anticlimática que funcionou nas páginas mas se despedaçou nas telas.

 

A trama do filme gira em torno de Tom Sanders (Michael Douglas), gerente de uma importante empresa de tecnologia de Seattle, às vésperas de uma fusão milionária que a colocará dentre as grandes companhias do mundo. No dia em que esperava ser promovido a vice-presidente, porém, o pacato Tom, pai de família correto e leal, é pego de surpresa ao reencontrar uma antiga namorada, Meredith Johnson (Demi Moore): não apenas ela vai trabalhar na mesma empresa que ele, como é anunciada no cargo que seria seu. Frustrado e com medo de perder o emprego ao qual se dedica incansavelmente, Tom entra em uma situação ainda mais delicada quando, depois do expediente, em uma reunião com a bela e decidida executiva, é quase forçado a fazer sexo com ela. No dia seguinte, a coisa fica pior: invertendo completamente os fatos, Meredith o acusa de assédio sexual - e caberá a ele provar que uma mulher linda, sensual e poderosa teria necessidade de obrigar um homem a envolver-se com ela. Nem mesmo seu antigo chefe, Bob Garvin (Donald Sutherland), acredita em sua versão, e as consequências do embate poderão acabar com sua carreira e sua família.

Não há grandes problemas em "Assédio sexual", assim como tampouco há grandes qualidades. A impressão que se tem é que todos estão no piloto automático. A direção de Barry Levinson é burocrática - mesmo a comentada cena do assédio não se decide entre ser quente ou incômoda. Michael Douglas faz muito pouco além do corriqueiro, sem oferecer muitas nuances a sua performance, correta mas sem brilho. Nem a trilha sonora do celebrado Ennio Morricone consegue ser marcante, sublinhando apenas com eficiência as sequências propostas pelo roteiro mas nunca chegando à excelência que lhe é costumeira. Quem acaba se beneficiando desse resultado morno é Demi Moore, que se destaca mesmo com uma personagem tão maniqueísta quanto Meredith Johnson. Na pele da antagonista principal - papel para o qual foram consideradas Michelle Pfeiffer, Geena Davis e Annette Bening -, Demi coroava um período fértil para uma carreira que pouco depois cairia em um melancólico limbo, alavancado por fracassos de bilheteria como "Striptease" (1996) e "Até o limite da honra" (1997). Linda e esforçada, é ela quem se sobressai em uma produção apenas mediana e sem brilho.

quinta-feira

SÍNDROME DA CHINA

SÍNDROME DA CHINA (The China Syndrome, 1979, Columbia Pictures, 122min) Direção: James Bridges. Roteiro: Mike Gray, T.S. Cook, James Bridges. Fotografia: James Crabe. Montagem: David Rawlins. Figurino: Donfeld. Direção de arte/cenários: George Jenkins/Arthur Jeph Parker. Produção executiva: Bruce Gilbert. Produção: Michael Douglas. Elenco: Jane Fonda, Jack Lemmon, Michael Douglas, Scott Brady, James Hampton, Peter Donat. Estreia: 16/3/79

4 indicações ao Oscar: Ator (Jack Lemmon), Atriz (Jane Fonda), Roteiro Original, Direção de Arte/Cenários
Palma de Ouro de Melhor Ator (Jack Lemmon) no Festival de Cannes 

Se é verdade que a vida imita a arte uma prova disso ficou bem evidente em 28 de março de 1979, quando um acidente nuclear em Dauphin County, Pensilvânia deixou em maus lençóis os executivos das usinas nucleares americanos, que, apenas doze dias antes, haviam rechaçado violentamente a estreia do filme "Síndrome da China", taxando-o de alarmista e mentiroso. A questão era que a produção estrelada por Jane Fonda, Jack Lemmon e Michael Douglas tratava, de forma clara e incisiva, sobre um grupo de cientistas nucleares tentando desesperadamente esconder da mídia a verdade sobre um perigoso vazamento em um de seus reatores. O oportunismo do lançamento (ou sua clarividência) não passou em branco, é claro, e detratores chegaram a sugerir que a Columbia Pictures (produtora do filme), havia forjado a notícia do acidente como forma de divulgá-lo. Perda de tempo: apesar do acidente na Pensilvânia ter acontecido no calor de seu lançamento, a origem da trama de "Síndrome da China" remetia a 1975, quando outro incidente, dessa vez no Alabama, chamou a atenção do roteirista Mike Gray - também engenheiro e produtor do polêmico documentário "The murder of Fred Hampton" (71), sobre a morte do famoso membro dos Panteras Negras. Com um roteiro pronto e repleto de dados técnicos que fortaleciam o tom documental da narrativa, Gray viu sua obra chegar até as mãos da atriz Jane Fonda, que, junto com seu parceiro Bruce Gilbert, procurava um filme que refletisse uma das preocupações de sua recém-fundada produtora, a IPC Films: frustrada em conseguir os direitos sobre a vida de Karen Silkwood, que morreu misteriosamente depois de descobrir falhas em uma usina (e que ganhou o rosto de Meryl Streep em 1983, em um filme de Mike Nichols), Fonda encontrou em "Síndrome da China" o que precisava. Com a ajuda de Michael Douglas (premiado com o Oscar por "Um estranho no ninho", de 1975) na produção e alguns ajustes pontuais no roteiro, o filme estava pronto para sair do papel e ganhar as telas.

Mas então começaram os problemas: a Columbia não acreditava que Mike Gray tinha potencial o bastante para comandar uma produção tão ambiciosa e o substituiu por James Bridges (já testado e aprovado por "O homem que eu escolhi", que deu o Oscar de coadjuvante a John Houseman em 1973); Richard Dreyfuss, escalado para viver o cinegrafista Richard Adams, desistiu do projeto antes do começo das filmagens; e Jack Nicholson, a quem tinha sido oferecido o papel do cientista Jack Godell, já estava comprometido com a produção de "O iluminado" (80). Como há males que vem pra bem, porém, tudo foi resolvido a tempo (e de forma mais que perfeita): Michael Douglas acumulou os papéis de produtor e ator, ficando com a vaga deixada por Dreyfuss, e Jack Lemmon - apaixonado pelo roteiro desde que o leu pela primeira vez, em 1976 - não hesitou em viver um personagem que lhe rendeu mais uma indicação ao Oscar e sua primeira Palma de Ouro de Melhor Ator no Festival de Cannes. Sucesso de público e crítica, "Síndrome da China" ainda arrebatou o prêmio do Sindicato de Roteiristas e foi eleito pelo National Board of Review como um dos melhores filmes da temporada 1979 - dominada por "Kramer vs Kramer", de Robert Benton.


A protagonista do filme é Kimberly Wells (em mais uma atuação exemplar de Jane Fonda, cuja entrada no projeto alterou tanto o sexo do personagem como inseriu na trama uma relevante discussão feminista), uma repórter talentosa mas sempre relegada a matérias de importância quase nulas, Wells deseja ser levada a sério como profissional. Sua grande chance de provar seu valor lhe cai do céu quase por acaso: durante uma reportagem banal em uma usina nuclear - onde estava apenas para mostrar aos telespectadores como funciona o dia-a-dia do local -, um acidente em um dos reatores (cujo nível de água atinge níveis alarmantes) é filmado às escondidas pelo cinegrafista Richard Adams (Michael Douglas). Excitados (depois que o incidente fica sob controle), os dois colegas percebem que tem em mãos uma explosiva reportagem-denúncia, mas são impedidos pela direção da emissora em divulgar o conteúdo das imagens, obtidos de forma ilegal. Sua indignação acaba indo ao encontro de Jack Godell (Jack Lemmon), o supervisor da usina, que, depois de investigar por conta própria, descobre que a segurança do local é falha e resolve dar uma declaração oficial a respeito dos perigos que a população corre por causa do descaso dos construtores.

Narrado em tom de urgência e sobriedade - sem uma trilha sonora original e uma edição seca e direta -, "Síndrome da China" é uma aula de concisão. Mesmo que chegue a duas horas de duração, não há cenas dispersivas ou tramas paralelas que trunquem a narrativa - até mesmo a vida pessoal de Kimberly é citada apenas de passagem, em uma cena rápida, e não há espaço para romance entre ela e Richard (apesar de algumas pistas discretas). Até mesmo a aura didática de certos momentos - imprescindível quando se trata de um assunto então sem muita divulgação pela mídia - é inteligente e ágil, impedindo que a plateia se aborreça com longas explicações ou detalhes desnecessários. E o trabalho do elenco é crucial para que o conjunto soe ainda mais homogêneo. Jack Lemmon e Jane Fonda foram indicados ao Oscar, e Michael Douglas segura bem seu personagem coadjuvante, sem  vaidade de querer aparecer mais do que a história ou a denúncia. Um filme típico dos anos 70 - com intenções sociais e políticas bem definidas e um ritmo particular, "Síndrome da China" é essencial para o público fã de thrillers bem realizados e sérios - e um dos motivos pelos quais Jane Fonda pode ser considerada uma das estrelas mais politizadas da história de Hollywood.

segunda-feira

MINHA VIDA COM LIBERACE

MINHA VIDA COM LIBERACE (Behind the candelabra, 2013, HBO Films, 118min) Direção: Steven Soderbergh. Roteiro: Richard LaGravenese, livro de Scott Thorson, Alex Thorleifson. Fotografia: Peter Andrews (Steven Soderbergh). Montagem: Mary Ann Bernard (Steven Soderbergh). Figurino: Ellen Mirojnick. Direção de arte/cenários: Howard Cummings/Barbara Munch Cameron. Produção executiva: Jerry Weintraub. Produção: Susan Ekins, Gregory Jacobs, Michael Polaire. Elenco: Michael Douglas, Matt Damon, Scott Bakula, Rob Lowe, Debbie Reynolds, Cheyenne Jackson, Dan Ayckroyd, Paul Reiser. Estreia: 21/5/13 (Festival de Cannes)

Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme ou Minissérie para TV; Melhor Ator de Filme ou Minissérie para TV (Michael Douglas)

Quando o projeto de "Minha vida com Liberace" foi anunciado, em 2008, houve uma surpresa generalizada com o fato de, mesmo com a direção do consagrado Steven Soderbergh e com a presença de astros do calibre de Michael Douglas e Matt Damon - todos os três já premiados com o Oscar - o filme fosse ser produzido pela HBO e lançado como filme para a televisão. Foi o próprio cineasta quem explicou o motivo da recusa de todos os grandes estúdios de Hollywood: considerada gay demais até mesmo para o público que havia feito de "O segredo de Brokeback Mountain" um inesperado sucesso de bilheteria, a história real do mais famoso e extravagante pianista americano do século XX e de seus segredos mais bem escondidos (ao menos para a maioria de fãs femininas que lotavam seus concertos em Las Vegas) estava ameaçada de não sair das páginas do livro de seu ex-amante Scott Thorson e do roteiro do igualmente respeitado Richard LaGravenese (indicado ao Oscar por "O pescador de ilusões"). A decisão da HBO - conhecida pela alta qualidade de seus filmes, séries e minisséries - porém, não foi capaz de solucionar outro problema surgido logo à frente, mais grave e preocupante: a saúde debilitada de Michael Douglas, diagnosticado com câncer assim que o projeto foi anunciado. Filmagens adiadas, mas não canceladas. Felizmente recuperado, Douglas encarnou com maestria um de seus mais desafiadores papéis - e o filme, depois de uma estreia com pompa e circunstância no Festival de Cannes, tornou-se uma das produções mais elogiadas da temporada, com direito a lançamento internacional com o tratamento de uma produção para as telonas. Nada mais justo, já que é um dos melhores filmes de Soderbergh.

Vindo de um período ultra-prolífico mas pouco interessante - em que intercalava filmes medianos como "Terapia de risco" e outros simplesmente ruins, como "Magic Mike" - Soderbergh parecia ter perdido a mão, entregando ao público filmes que, mesmo quando faziam sucesso de bilheteria, jamais traíam a inteligência e o talento de obras como "Irresistível paixão" e "Traffic", que chegou a lhe render um Oscar de melhor diretor. Desacreditado junto à crítica e aos cinéfilos mais exigentes, ele acabou surpreendendo justamente onde ninguém levava muita fé: em um projeto para a televisão, um veículo que, a despeito do preconceito de que sempre foi vítima na comunidade cinematográfica, tornou-se, aos poucos, refúgio de muitos talentos e laboratório para as ousadias narrativas que a busca desesperada pela bilheteria da indústria sepultou sem dó nem piedade. Sem demonstrar qualquer tipo de descaso pelo novo veículo, Soderbergh acabou por voltar à sua melhor forma: "Minha vida com Liberace" é um belo trabalho: sério mas dotado de senso de humor, ousado na temática mas discreto na realização, respeitoso com o protagonista mas nunca condescendente e, mais do que tudo, com uma direção de atores que explica porque Julia Roberts e Benicio Del Toro foram premiados com o Oscar sob o comando do cineasta.


Mais velho do que o próprio artista estava quando morreu - vítima de complicações ligadas ao vírus da AIDS - mas totalmente convincente no papel que lhe rendeu o Golden Globe e o Emmy, Michael Douglas deita e rola: não apenas cria um Liberace egocêntrico a ponto de obrigar o amante a fazer uma plástica facial para ficar parecido com ele como mostra à plateia seu lado carente e generoso (ainda que tal generosidade seja discutível, como mostra o desfecho da história). Quando retrata o Liberace ídolo - adorado por fãs e admirado pela indústria do entretenimento - fica ainda melhor: suas apresentações abarrotadas de casacos de pele, candelabros e brilhos dos mais diversos são o ponto alto do filme, quando Douglas deixa de lado a persona viril que vinha imprimindo à sua carreira até então para se jogar em uma atuação divertida e leve - mas que jamais escorrega para a caricatura, o que seria o caminho mais fácil quando se trata de um personagem tão excêntrico. O respeito de Douglas pelo material é perceptível (até porque seu pai, Kirk Douglas, era amigo de Liberace) e a falta de vaidade com que se entrega a cenas difíceis e delicadas é admirável. Felizmente ele tem a seu lado um Matt Damon igualmente dedicado, em um duelo de gerações que só faz aumentar a qualidade geral da produção.

Na verdade, Damon é o real protagonista de "Minha vida com Liberace": ele vive Scott Thorson, o rapaz tímido e com problemas com os pais que vê sua vida totalmente transformada quando se torna amante e companheiro de Liberace, um dos maiores ídolos do país e que o insere em um universo repleto de luxos e competições internas. Ingênuo até certo ponto, ele demora a perceber que seu valor dentro da mansão do músico está intimamente ligado à sua juventude e sua beleza e, quando isso acontece, entra em rota de colisão com toda a equipe do artista, acostumada com as oscilações dos afetos do patrão. Até que ponto as lembranças de Scott são verdadeiras ou fruto do final amargo de seu relacionamento com Liberace é uma questão que o filme não tenta responder, apesar de seu roteiro jamais por em dúvida as declarações do rapaz. O que o filme mostra é seu ponto de vista, mas, a julgar pelo silêncio que se fez em relação aos fatos (não houve nenhum tipo de desmentido desde a estreia), se não é tudo verdade, boa parte é.

O que importa, no fim das contas, é que "Minha vida com Liberace" devolveu o crédito a Steven Soderbergh, proporcionou a Michael Douglas um retorno triunfal com direito a prêmios e elogios entusiasmados, recolocou Debbie Reynolds na mídia - irreconhecível como a mãe do pianista - e mostrou que não é mais preciso que os grandes estúdios invistam para que filmes de qualidade cheguem aos fãs. É o futuro mostrando seu rosto.

sexta-feira

A SOMBRA E A ESCURIDÃO

A SOMBRA E A ESCURIDÃO (The ghost and the darkness, 1996, Constellation Entertainment,109min) Direção: Stephen Hopkins. Roteiro: William Goldman. Fotografia: Vilmos Zsigsmond. Montagem: Roger Bondelli, Robert Brown, Steve Mirkovich. Música: Jerry Goldsmith. Figurino: Ellen Mirojnick. Direção de arte/cenários: Stuart Wurtzel/Hilton Rosemarin. Produção executiva: Michael Douglas, Steven Reuther. Produção: A. Kitman Ho, Gale Anne Hurd, Paul Radin. Elenco: Michael Douglas, Val Kilmer, Tom Wilkinson, John Kani, Bernard Hill, Emily Mortimer. Estreia: 11/10/96

Vencedor do Oscar de Efeitos Sonoros

No final do século XIX, um engenheiro inglês é mandado para a África para construir uma ponte, liderando um grupo que reunia africanos e indianos. O que parecia um trabalho como outro qualquer - ainda que desafiador e ambicioso - torna-se um pesadelo quando o grupo passa a ser constantemente atacado por um par de leões, que, em questão de pouco tempo faz mais de 40 vítimas entre os operários. Contando com a ajuda de um experiente caçador, o jovem engenheiro - que está em vias de tornar-se pai pela primeira vez - assume a missão de exterminar as feras, mas descobre, atônito, que tudo é ainda mais difícil do que parecia ser, já que os animais fogem totalmente do esperado, conseguindo inclusive livrar-se de armadilhas infalíveis.

A trama de "A sombra e a escuridão", suspense dirigido por Stephen Hopkins vencedor do Oscar de Efeitos Sonoros em 1997 é tão inacreditável que é difícil de crer que não é invenção de algum roteirista lunático de Hollywood. A história do engenheiro John Patterson - vivido por um inexpressivo como sempre Val Kilmer - chegou aos cinemas em um filme de suspense elegante, produzido pelo ator Michael Douglas, que, com a prerrogativa de produtor executivo, embarcou no projeto também como ator, na pele do caçador Charles Remington, um personagem fictício que, dramaticamente, funciona bastante bem e é responsável por alguns dos momentos mais intensos da narrativa. São as cenas em que os dois caçadores partem em busca dos cruéis assassinos - mostrados com extrema parcimônia pela câmera do veterano Vilmos Zsigmond - que prendem o espectador, hipnotizados pela edição competente e pela trilha sonora adequada de Jerry Goldsmith.


Seguindo a tradição inaugurada por Steven Spielberg em seu "Tubarão" - a de não mostrar o rosto das ameaças até que seja impossível escondê-lo - "A sombra e a escuridão" esboça seu suspense com sutileza, utilizando-se de seu impressionante desenho de som para criar uma atmosfera de tensão constante até que finalmente os dois monstros ("interpretados" por leões verdadeiros na maioria esmagadora das cenas) surgem em cena para fazer a audiência pular da poltrona. A truculência dos bichos - mostrada com relativa liberdade para um filme que almeja grande bilheteria - é equiparada à sua aparente inteligência: nunca no cinema animais irracionais conseguem ser tão brilhantes, a ponto de destruir sistematicamente todas as tentativas de captura de seus perseguidores. E para quem tem a intenção de reclamar que leões normalmente não atacam seres humanos há uma explicação (não mostrada no filme, mas posteriormente revelada por estudiosos): os vilões do filme de Hopkins provavelmente mataram tantos homens porque eram velhos e humanos tem a carne mais tenra do que os animais que são normalmente o alvo do rei das selvas.

"A sombra e a escuridão" não encontrou seu público nos EUA, com sua bilheteria ficando aquém do orçamento de 55 milhões de dólares. Mas é um espetáculo repleto de qualidades, que vão desde sua reconstituição de época cuidadosa até aos já citados trabalhos de som, devidamente premiados com uma estatueta da Academia. Equilibrando com inteligência momentos de pura tensão com cenas bem escritas, que dão espaço aos atores - em especial Michael Douglas, que mesmo aparecendo depois de 45 minutos de projeção rouba o show do apático Kilmer - o filme de Hopkins é uma das pérolas esquecidas do cinema americano dos anos 90.

segunda-feira

TRAFFIC

TRAFFIC (Traffic, 2000, USA Films, 147min) Direção: Steven Soderbergh. Roteiro: Stephen Gaghan, minissérie escrita por Simon Moore. Fotografia: Steven Soderbergh (como Peter Andrews). Montagem: Stephen Mirrione. Música: Cliff Martinez. Figurino: Louise Frogley. Direção de arte/cenários: Philip Messina/Kristen Toscano Messina. Produção executiva: Cameron Jones, Graham King, Andreas Klein, Mike Newell, Richard Solomon. Produção: Laura Bickford, Marshall Herskovitz, Edward Zwick. Elenco: Michael Douglas, Benicio Del Toro, Catherine Zeta-Jones, Dennis Quaid, Steven Bauer, Miguel Ferrer, Albert Finney, Clifton Collins Jr., Jacob Vargas, Erika Christensen, Amy Irving, Topher Grace, Salma Hayek, Luiz Guzman, Don Cheadle, James Brolin. Estreia: 27/12/00

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Steven Soderbergh), Ator Coadjuvante (Benicio Del Toro), Roteiro Adaptado, Montagem
Vencedor de 4 Oscar:Diretor (Steven Soderbergh), Ator Coadjuvante (Benicio Del Toro), Roteiro Adaptado, Montagem 
Vencedor de 2 Golden Globes: Ator Coadjuvante (Benicio Del Toro), Roteiro

Concorrer consigo mesmo na disputa pelo Oscar não é trabalho para qualquer cineasta, mas Steven Soderbergh não pode ser considerado um qualquer. No mesmo ano em que entregou ao público e à crítica o correto e quadradinho (mas ainda assim bom) “Erin Brockovich”, ele voltou às origens independentes de seu promissor início – vencedor da Palma de Ouro em Cannes com “sexo, mentiras e videotape” – com “Traffic”, um trabalho ousado, corajoso e ambicioso, que tinha como objetivo traçar um painel sobre o tráfico de drogas nos EUA e na sua fronteira com o México. Com base em uma minissérie de TV, adapatada com sucesso por Steve Gaghan, Soderbergh levou aos cinemas uma obra de impacto, que relembra seu inegável talento como cineasta visceral. Não à toa, venceu a si mesmo na disputa do Oscar de diretor – categoria na qual também concorria por “Erin Brockovich”.

A grande sacada do diretor foi a de contar três histórias diferentes, interligadas por pequenos detalhes mas que nunca chegam a se cruzar diretamente, como em outros filmes de sua época. Para não confundir a plateia com tantas personagens que passam pela tela, ele conta cada uma das histórias com um visual diferente, com uma fotografia em cores distintas. A trama que se passa no México, onde o policial Javier Rodriguez Rodriguez (Benicio Del Toro impecável e merecido vencedor do Oscar de ator coadjuvante) tenta resistir ao mar de corrupção que o cerca tem uma tonalidade quente, sufocante, quase em sépia. A luta de Robert Wakefield (um Michael Douglas sério e compenetrado) - juiz da Suprema Corte americana nomeado chefe do combate às drogas - em salvar sua própria filha adolescente do vício (a estreante Érika Christensen) é fotografada em tons azulados. E o drama da socialite Helena Ayala (Catherine Zeta-Jones grávida de verdade durante as filmagens), que tem seu marido – um influente traficante de drogas vivido por Steven Bauer – preso, é narrado sob uma fotografia naturalista. Com uma edição arrojada de Stephen Mirrione (também premiada com uma estatueta da Academia) e um roteiro que em nenhum momento se deixa tornar confuso e/ou redundante, o panorama traçado por Soderbergh choca, angustia e faz pensar.



“Traffic” faz parte de uma estirpe rara de produções cinematográficas. Inteligente, forte e com muito a contar, o filme de Steven Soderbergh e companhia é um entretenimento adulto, para um público sofisticado, que procura substância em meio a um cinema cada vez mais superficial e cínico. Ao expor a enorme teia de interesses escusos que move o tráfico de drogas – e por meio da família do juiz vivido por Michael Douglas aproximá-la do cotidiano da plateia – o roteiro de Gaghan foge do tradicional modelo de contrapor vilões e mocinhos. No mundo retratado pelo filme, cada atitude das personagens é movida por molas outras que não apenas um caráter estereotipado. O juiz que vira czar anti-drogas não consegue deixar que o tóxico entre em sua casa pela porta da frente. O policial incorruptível se deixa amolecer para garantir um futuro menos trágico para os seus. E a socialite fútil torna-se uma mulher forte e ferina para defender seus interesses e de sua família, mesmo que isso a obrigue a ir contra a lei.

“Traffic” é um grande filme. Perdeu o Oscar principal para “Gladiador”, um super-espetáculo grandioso e perfeito em seu objetivo de entreter pura e simplesmente, mas as personagens escritos por Steve Gaghan – dolorosamente reais e humanas – vão permanecer na mente dos espectadores por muito tempo.

GAROTOS INCRÍVEIS

GAROTOS INCRÍVEIS (Wonder boys, 2000, Paramount Pictures, 107min) Direção: Curtis Hanson. Roteiro: Steve Kloves, romance de Michael Chabon. Fotografia: Dante Spinotti. Montagem: Dede Allen. Música: Christopher Young. Figurino: Beatrix Aruna-Pasztor. Direção de arte/cenários: Jeannine Oppewall/Jay R. Hart. Produção executiva: Ned Dowd, Adam Schroeder. Produção: Curtis Hanson, Scott Rudin. Elenco: Michael Douglas, Tobey Maguire, Robert Downey Jr., Frances McDormand, Katie Holmes, Rip Torn, Jane Adams, Philip Bosco. Estreia: 25/02/00

3 indicações ao Oscar: Roteiro Adaptado, Montagem, Canção ("Things have changed")
Vencedor do Oscar de Melhor Canção Original ("Things have changed")
Vencedor do Golden Globe de Melhor Canção Original ("Things have changed")

O termo "wonder boy" do título original é derivativo da palavra alemã "wunderkind", que se refere a determinada pessoa que atinge grande sucesso profissional ou artístico com pouca idade. No primeiro filme de Curtis Hanson após o assombro que foi "Los Angeles, cidade proibida", quem merece o adjetivo é o jovem James Leer (Tobey Maguire), um estudante de literatura com grande talento para a escrita e que acaba sendo o alvo da proteção de seu professor, um antigo "wonder boy" chamado Grady Tripp (Michael Douglas). Autor de um célebre romance, Tripp não consegue terminar seu novo livro (que já tem mais de duas mil páginas) e está passando por uma séria crise pessoal: abandonado pela esposa, ele descobre que a amante Sara (Frances McDormand) - a esposa do reitor - está grávida e ainda tem que se esquivar do assédio de uma aluna, a ambiciosa Hannah Green (Katie Holmes) e da estranha amizade com seu editor, o excêntrico Terry Crabtree (Robert Downey Jr), que se encanta pela delicadeza e pela sensibilidade de James, que cai em lágrimas sentidas em momentos absurdos e tem séria tendência em mentir.


Baseado em um romance de Michael Chabon, "Garotos incríveis" estreou nos EUA em fevereiro de 2000 e caiu nas graças da crítica, em especial a atuação excepcional de Michael Douglas, comprovando seu talento em escolher bons filmes e bons papéis. O fracasso de bilheteria, no entanto, desanimou a Paramount Pictures (que distribuiu o filme), que esperava que a assinatura de Curtis Hanson e o elenco fabuloso - dois vencedores do Oscar, dois jovens em ascensão e um rebelde sem causa carismático - fossem o suficiente para atrair o público. Mesmo assim, no final do ano, o filme voltou às salas de cinema com o objetivo de chamar a atenção para suas qualidades e, quem sabe, conquistar algumas indicações ao Oscar. Funcionou em termos. Com 3 indicações ao prêmio da Academia - incluindo roteiro adaptado - "Garotos incríveis" não atingiu suas expectativas comerciais nem tampouco tornou-se campeão de prêmios. Uma pena. O filme é uma deliciosa comédia dramática com uma inteligência rara no mercado do gênero.



"Garotos incríveis" é uma comédia sem gargalhadas. O humor de Chabon - mantido intacto pelo roteiro de Steve Kloves - é pura ironia, pura delicadeza. É um humor de sorrisos, de assombro. É um humor elegante, sofisticado. E encontrou em Curtis Hanson seu diretor perfeito. Sem utilizar-se de subterfúgios vulgares, Hanson fez de seu filme - o primeiro que assina com o status de "grande diretor" e não apenas "um cineasta competente" - uma homenagem aos gênios incompreendidos, às almas excêntricas, ao surreal que existe no dia-a-dia. "Garotos incríveis" utiliza-se de tramas bizarras e elementos estranhos para contar uma história simples, quase corriqueira. E é essa mistura do comum com o extravagante - uma de suas melhores qualidades - que talvez tenha confundido o público médio.

O roteiro de Kloves - que escreveu as adaptações da série "Harry Potter" para o cinema - mantém a estrutura do livro de Chabon, autor premiado com o Pulitzer em 2001. Toda a trama se passa em 24 horas, com exceção do epílogo, e o público acompanha a trajetória imprevisível de seu protagonista (em uma interpretação antológica de Michael Douglas), que, sem imaginar, se vê em meio a uma confusão que envolve um cachorro morto a tiros, o casaco que Marilyn Monroe utilizou em seu casamento com Joe DiMaggio, seu inacabado romance, as mentiras de James Leer - que jogam o rapaz nos braços do ambicioso Terry - e um gângster violento. Grady Tripp é mais do que um protagonista, ele é também a testemunha das transformações nas vidas das pessoas que o rodeiam, mudanças essas descritas também na canção-tema de Bob Dylan, vencedora do Oscar. Assim como o público, ele acompanha perplexo os acontecimentos, enquanto tenta resolver a confusão que é sua própria existência.

"Garotos incríveis" não é uma comédia tradicional. É pouco provável que agrade aos fãs de humor visual ou de piadas vulgares. Tampouco é um drama no sentido convencional, uma vez que não apresenta momentos lacrimosos ou tragédias pessoais. Mas é um belo filme, realizado com extrema competência e que tem em seu particular jeito de contar uma história a maior de suas qualidades. Merece ser descoberto!

UM CRIME PERFEITO

UM CRIME PERFEITO (A perfect murder, 1998, Warner Bros, 108min) Direção: Andrew Davis. Roteiro: Patrick Smith Kelly, peça teatral "Dial M for Murder", de Frederick Knott. Fotografia: Darius Wolski. Montagem: Dov Hoenig. Música: James Newton Howard. Figurino: Ellen Mirojnick. Direção de arte/cenários: Philip Rosenberg/Debra Schutt. Produção executiva: Stephen Brown. Produção: Anne Kopelson, Arnold Kopelson, Peter Macgregor-Scott, Christopher Mankiewicz. Elenco: Michael Douglas, Gwyneth Paltrow, Viggo Mortensen. Estreia: 05/6/98

Em 1954, o diretor inglês Alfred Hitchcock lançou "Disque M para matar", hoje um de seus trabalhos mais conhecidos. Baseado em uma peça de teatro de Frederick Knott, o filme estrelado por Ray Milland e Grace Kelly já utilizava elementos de 3D e contava com o habitual talento do cineasta para manter a plateia grudada na cadeira. Mais de 40 anos depois, o americano Andrew Davis - que comandou a versão para o cinema da telessérie "O fugitivo" e encheu os bolsos dos executivos da Warner - resolveu contar a mesma história, justificando a refilmagem com um batido "queremos ser mais fieis ao texto original". O resultado, por incrível que pareça, não é o desastre que se poderia esperar (como aconteceria com o remake de "Psicose", de Gus Van Sant), mas sim um filme elegante, de sustos discretos e reviravoltas bastante interessantes. Na verdade, é um filme muito diferente de seu original, o que é um elogio e tanto.

Fugindo da claustrofobia do original, que se passava quase que exclusivamente no apartamento dos protagonistas, a versão de Davis amplia o alcance da trama, levando suas personagens a galerias de arte, festas chiques e às ensolaradas ruas de Nova York. Michael Douglas, em uma atuação discreta, vive Steven Taylor, um aparentemente bem-sucedido empresário do mundo das finanças que, endividado, planeja o assassinato de sua esposa, a bela e mais jovem Emily (Gwyneth Paltrow). Para isso, ele chantageia o amante dela, o artista plástico David Shaw (Viggo Mortensen), que tem um histórico de golpes em mulheres ricas. Armando um plano meticulosamente calculado, Taylor precisa lidar com a frustração e a investigação policial quando as coisas fogem a seu controle.




Circulando pela sofisticação da alta sociedade nova-iorquina, Andrew Davis constrói um suspense eficiente, onde os acontecimentos importam mais do que os sustos ou a violência. Praticamente ignorando o filme de Hitchcock - com bastante propriedade - o cineasta conta sua história sem pressa, preferindo criar um clima sexy e opressivo. A química entre Gwyneth Paltrow - sempre de uma classe inquestionável - e Viggo Mortensen chama a atenção e proporciona algumas cenas bastante quentes, em especial na primeira metade do filme. Michael Douglas, por sua vez, brilha no papel de vilão sinistro, quase fazendo com que a audiência compactue com sua personagem. É preciso dizer, inclusive, que o trabalho de Douglas é tão interessante que, mesmo sendo o vilão do filme, é mais simpático do que a dupla Paltrow/Mortensen. A atriz está linda como sempre, mas sua personagem é quase apática, enquanto Mortensen não faz com que seu David Shaw conquiste o público, talvez por não ser exatamente o mocinho tradicional.

No final das contas, "Um crime perfeito" é um suspense que cumpre o que promete, mas que jamais atinge o nível de brilhantismo que poderia. Davis comprova seu talento em construir sequências de grande tensão, mas ao mesmo tempo deixa claro que lhe falta um talento maior para desenvolver personagens mais complexos - ainda que em seu filme ninguém seja exatamente santo. Essa falta de maniqueísmo o diferencia do corriqueiro, mas atrapalha suas intenções em fazer com que a audiência média se sinta absolutamente capaz de tomar partido de um dos lados da história. Gwyneth não está particularmente simpática nem Douglas completamente vilanesco. Se por um lado isso é bom (afinal de contas a realidade nunca é tão transparente) por outro foge dos padrões comerciais. "Um crime perfeito" é uma ótima opção para quem gosta do gênero, mas perde a chance de ser sensacional.

VIDAS EM JOGO

VIDAS EM JOGO (The game, 1997, Polygram Filmed Entertainment, 129min) Direção: David Fincher. Roteiro: John Brancato, Michael Ferris. Fotografia: Harris Savides. Montagem: James Haygood. Música: Howard Shore. Figurino: Michael Kaplan. Direção de arte/cenários: Jeffrey Beecroft/Jackie Carr. Produção executiva: Jonathan Mostow. Produção: Ceán Chaffin, Steve Golin. Elenco: Michael Douglas, Sean Penn, Deborah Kara Unger, James Rebhorn, Peter Donat, Carroll Baker, Armin Mueller-Stahl. Estreia: 12/9/97

Cheio de moral depois do merecido sucesso de "Seven", o cineasta David Fincher poderia ficar em casa guardado por Deus contando vil metal e manter-se no caminho mais fácil para o êxito, se repetindo exaustivamente - e ao público, por conseguinte. Demonstrando que tem mais personalidade e inteligência do que seus colegas de ofício, porém, o criador de videoclipes antológicos, como "Vogue", de Madonna e "Freedom '90", de George Michael, escolheu como seu projeto seguinte um roteiro intrigante mas absolutamente fora dos padrões comerciais. "Vidas em jogo" transtornou tanto a crítica e o público americano que só foi chegar no Brasil um ano e meio depois de sua estreia nos EUA, e mesmo assim passou quase em brancas nuvens apesar dos nomes de Michael Douglas e Sean Penn enfeitando o cartaz. Quando se assiste ao filme, no entanto, fica claro o porquê de tanta frieza. "Vidas em jogo" é, mais do que um filme de suspense feito para render fortunas, um exercício de estilo e uma voraz crítica ao conformismo material - mesmo objeto de fúria do projeto seguinte de Fincher, o inacreditável "Clube da luta" (não por acaso, outro fracasso de bilheteria).

Em "Vidas em jogo" Michael Douglas interpreta Nicholas Van Orton, um multimilionário cujo sucesso financeiro não se reflete em suas relações pessoais. Separado da esposa, ele vive sozinho na mansão de sua família, na companhia apenas da governanta Ilsa (a ex-sex symbol Carroll Baker), que trabalha para ele desde sua infância. No dia em que completa 48 anos - idade em que seu pai cometeu suicídio jogando-se do telhado da casa - Nicholas recebe um presente inesperado de Conrad (Sean Penn), seu rebelde irmão caçula: o convite para ingressar em um misterioso jogo cujas regras não são exatamente claras. A partir do momento em que Nicholas se inscreve na tal empresa que criou o jogo, sua vida tediosa transforma-se imediatamente em um turbilhão de acidentes bizarros, coincidências estranhas e, pior do que tudo, uma insistência em lembrar-lhe da morte do pai. A única pessoa que o ajuda é a garçonete Christine (Deborah Kara Unger), mas nem mesmo ela parece assim tão confiável.


O roteiro de John Brancato e Michael Ferris é o tipo de roteiro que Hollywood raramente apresenta, principalmente porque se recusa a seguir os padrões pré-estabelecidos. Mesmo que o final do filme descambe para um certo moralismo - o que talvez frustre os mais radicais - seu desenvolvimento é exemplar. O público é arrastado, assim como o protagonista, a um mundo absolutamente imprevisível, onde é virtualmente impossível adivinhar o que vem pela frente. Conforme Nicholas Van Orton vai sendo surpreendido pelos desdobramentos absurdos do jogo proposto, a audiência vai sendo envolvida por uma trama em que nada é o que parece ser. É proposital a falta de informações que Fincher apresenta ao público, assim como é essencial ir revelando tudo aos poucos. E é claro, Fincher cercou-se de colaboradores que entenderam perfeitamente bem suas intenções estéticas.

Harris Savides providenciou a fotografia amarelada, claustrofóbica e em tom de pesadelo. O editor Hames Haygood não apressa o ritmo da história, acentuando a opressão sobre o protagonista. A trilha sonora de Howard Shore é forte, mas nunca chama a atenção para si, apenas pontuando com precisão os momentos mais tensos da narrativa. E o elenco, certamente, é o que faz com que o conto onírico proposto pelo cineasta convença o p´blico. Michael Douglas, que tem o dom de escolher bem seus projetos tem em sua atuação como Nicholas Van Orton mais um ponto alto de sua carreira. O veterano ator transmite todas as nuances de sua personagem com sua característica segurança e sua credibilidade junto à plateia é fundamental para que a história jamais escorregue para o absurdo. E Sean Penn - ficando com um papel que seria de Jodie Foster, que brigou com os produtores antes do início das filmagens - acumula mais um coadjuvante sensacional à sua galeria de tipos marginais, ainda que desta vez revestido de uma certa elegância.

Logicamente "Vidas em jogo" não pode ser recomendado à qualquer plateia, uma vez que foge dos padrões do gênero, desde sua ideia central até o final que, apesar de feliz, é bastante irônico. Mas, apesar de ser um filme considerado menor na carreira de David Fincher, merece ser louvado por sua inteligência, pelo clima sombrio e pela técnica impecável.

sábado

UM DIA DE FÚRIA

UM DIA DE FÚRIA (Falling down, 1993, Warner Bros, 113min) Direção: Joel Schumacher. Roteiro: Ebbe Roe Smith. Fotografia: Andrzej Bartkowiak. Montagem: Paul Hirsch. Música: James Newton Howard. Figurino: Marlene Stewart. Direção de arte/cenários: Barbara Ling/Cricket Rowland. Casting: Marion Dougherty. Produção executiva: Arnon Milchan. Produção: Timothy Harris, Arnold Kopelson, Herschel Weingrod. Elenco: Michael Douglas, Robert Duvall, Rachel Ticotin, Barbara Hershey, Tuesday Weld, Frederic Forrest, Lois Smith, Raymond J. Barry. Estreia: 26/02/93

É difícil de acreditar, mas Joel Schumacher, o mesmo sujeito que deu ao mundo obras tão descartáveis quanto "O primeiro ano do resto de nossas vidas" e "Tudo por amor" é o mesmo cineasta por trás de "Um dia de fúria", sem dúvida nenhuma um dos filmes mais inflamáveis já produzidos em Hollywood. Exagero? Vá dizer isso ao público que ficou semanas discutindo a obra em jornais americanos e às minorias retratadas, se não negativamente, ao menos de maneira pouco lisonjeira durante as duas horas do filme.

Michael Douglas, que dá um braço para participar de filmes polêmicos - haja visto "Atração fatal" e "Instinto selvagem", por exemplo - tem aqui a interpretação de sua carreira. Ele vive um homem aparentemente comum que, durante um engarrafamento em uma rodovia de Los Angeles, em um dia de calor, simplesmente vai à loucura. No caminho para o aniversário da filha pequena, que vive com a mãe, ainda temerosa pelo comportamento do ex-marido (vivida por uma correta Barbara Hershey), este homem, conhecido pela polícia como D-Fens - a placa de seu carro - vai cruzando com comerciantes coreanos, latinos membros de gangues, milionários insensíveis e até um neonazista (todos estereotipados como convém). A cada encontro, sua revolta contra o estado das coisas nos EUA vai aumentando, o que o leva perigosamente a uma tragédia.

 

Por incrível que pareça, "Um dia de fúria" foge com louvor dos clichês que são parte obrigatória dos dramas policiais americanos. Até mesmo a visão estereotipada que o roteiro apresenta das minorias retratadas serve como uma espécie de ironia e crítica ácida à maneira como a maioria dos americanos enxerga os estrangeiros. E tudo bem que o oficial em vias de se aposentar vivido com maestria por Robert Duvall não é uma personagem exatamente original, mas as razões que levam seu Prendergast à aposentadoria e a maneira com que ele age em relação a seu trabalho e seus colegas é distante anos-luz dos tradicionais policiais engraçadinhos e/ou valentões que infestam o gênero. Nem mesmo o final, em que D-Fens finalmente cria um nome civil - William Foster - e tenta fugir de seu destino infeliz, consegue estragar "Um dia de fúria", que toca com contundência em feridas bem abertas na consciência americana e por que não?, mundial.

Não há como negar que minorias existem em qualquer lugar do mundo - e o filme possa soar um tanto fascista e preconceituoso. Mas Joel Schumacher faz com que, após os créditos finais, muita coisa permaneça na cabeça do público. Quem diria!

domingo

INSTINTO SELVAGEM

INSTINTO SELVAGEM (Basic instinct, 1992, Carolco Pictures, 127min) Direção: Paul Verhoeven. Roteiro: Joe Eszterhas. Fotografia: Jan De Bont. Montagem: Frank J. Urioste. Música: Jerry Goldsmith. Figurino: Ellen Mirojnick. Direção de arte/cenários: Terence Marsh/Anne Kuljian. Produção executiva: Mario Kassar. Produção: Alan Marshall. Elenco: Michael Douglas, Sharon Stone, George Dzunza, Jeanne Tripplehorne, Leilani Sarelle, Wayne Knight, Stephen Tobolowski, Dorothy Malone. Estreia: 20/3/92

2 indicações ao Oscar: Montagem, Trilha Sonora Original

Bissexual, usuária de cocaína, praticante de várias modalidades de sexo, brilhantemente inteligente e suspeita de um violento assassinato. Essas são as características de Catherine Tramell, a improvável heroína de um dos maiores e mais controversos sucessos de bilheteria dos anos 90, o já icônico "Instinto selvagem". Recusado por várias atrizes devido a seu teor potencialmente polêmico, o papel de Tramell acabou nas mãos de Sharon Stone, que já havia trabalhado com o diretor holandês Paul Verhoeven em "O vingador do futuro".
Pode ter sido um desses casos escritos nas estrelas porque o fato é que Catherine Tramell e Sharon Stone parecem, desde o primeiro momento em que a atriz entra em cena, feitas uma para a outra. Devido a seu trabalho como a sedutora e ambígua personagem criada pelo roteirista Joe Ezsterhas - que recebeu de pagamento o então recorde de 1 milhão de dólares - Stone transformou-se, da noite para o dia, no maior símbolo sexual da década, povoando o imaginário masculino - e por que não? - o feminino também.

A trama de “Instinto selvagem” se passa em San Francisco. Um roqueiro é violentamente assassinado a golpes de picador de gelo durante o ato sexual com uma loura escultural – em uma cena pra lá de excitante. Chamado à cena do crime, o policial Nick Curran (Michael Douglas em um período de bons filmes) logo fica sabendo que a vítima tinha um caso com a bela Catherine Tramell, escritora de livros policiais eróticos. Além de parceira sexual do roqueiro, Tramell também havia descrito um assassinato nos mesmos moldes do ocorrido em um de seus romances. Ao lado do parceiro Gus (George Dzunza), Curran procura a escritora, mas ela, apesar de parecer um tanto fria e racional, passa com louvor no detector de mentiras. Ainda na pele de suspeita, ela seduz o policial, ele mesmo com vários problemas a resolver: ainda se curando de vícios em drogas e bebida, ele é obrigado por seu departamento a ter consultas psicológicas com sua ex-namorada, Beth Garner (Jeanne Tripplehorn), devido à morte acidental de um civil, causada por ele. Envolvido com a bela possível assassina, Curran tenta provar sua inocência, ainda que os fatos comecem a se acumular contra ela.


Fotografado com requinte e dono de uma parte técnica impecável – edição, trilha sonora, som – “Instinto selvagem” ainda por cima tem uma qualidade que o eleva a vários patamares sobre seus colegas de gênero: a inteligência do roteiro. Repleta de pistas falsas, reviravoltas verossímeis e sequências de tirar o fôlego – sejam elas de ação ou puramente sexuais (e elas são várias e bem desinibidas) – a trama de Ezterhas conquista desde o primeiro minuto, nunca deixando o público antecipar o que virá a seguir. O que é uma regra básica de roteiro policial, mas que é constantemente negligenciado. Só a cena do primeiro interrogatório de Tramell merece figurar em qualquer antologia, tanto de suspense quanto de erotismo. Atire a primeira pedra quem consegue esquecer a famosa cruzada de pernas de Stone...

E erotismo é o que não falta em "Instinto selvagem". Fetiches desfilam pela tela sem pudor - e são dirigidos com visível gosto por Verhoeven. Bondage, lesbianismo, sexo grupal, sexo violento... tudo é permitido no universo do filme, ou ao menos mais comum do que na maioria dos produtos hollywoodianos. Tudo bem que a sofisticação quase exagerada que permeia o longa - carros belíssimos, mansões deslumbrantes, mulheres gostosas - imediatamente o afasta do grosso do público, mas o roteiro e a direção são espertos o bastante para nunca deixar a atenção ser desviada do que realmente importa: a história.

Logo que "Instinto selvagem" estreou - despertando a ira de ativistas homossexuais - Sharon Stone espalhou aos quatro ventos que as cenas de sexo entre ela e Michael Douglas foram reais e o ator declarou ser viciado em sexo. Não é preciso dizer que foi um bom marketing e o filme tornou-se um sucesso enorme no mundo todo. Logicamente um bom boato pode fazer maravilhas por um produto cinematográfico, mas não há como negar que o filme de Verhoeven mereceu todo o auê. Infelizmente, a ganância, como sempre, falou mais alto, e uma intragável e desnecessária continuação estreou anos depois. Merecidamente foi execrado.

sábado

A GUERRA DOS ROSES

 
 A GUERRA DOS ROSES (The war of the Roses, 1989, 20th Century Fox, 116min) Direção: Danny DeVito. Roteiro: Michael Leeson, romance de Warren Adler. Fotografia: Stephen H. Burum. Montagem: Lynzee Klingman. Música: David Newman. Figurino: Gloria Gresham. Direção de arte/cenários: Ida Random/Anne D. McCulley. Produção executiva: Doug Claybourne, Polly Platt. Produção: James L. Brooks, Arnon Milchan. Elenco: Michael Douglas, Kathleen Turner, Danny DeVito, Marianne Sagebrecht, Sean Astin. Estreia: 08/12/89

Em 1987, o ator Danny DeVito provou que também tinha talento por trás das câmeras, com o sucesso crítico e comercial de "Jogue a mamãe do trem". Antes disso, ele contracenou com Michael Douglas e Kathleen Turner em dois sucessos de bilheteria - "Tudo por uma esmeralda" e "A jóia do Nilo" - que comprovaram a química entre os dois atores. Não foi nenhuma surpresa, então, quando os três voltaram a trabalhar juntos em "A guerra dos Roses", uma comédia de humor ainda mais negro do que o primeiro filme de DeVito. Baseado no livro de Warren Adler - que teve uma continuação lançada mais de uma década depois - o roteiro consegue ao mesmo tempo ser mordaz, irônico e dono de uma contundente crítica social. De quebra, apresenta atuações memoráveis do seu casal protagonista.


O filme é narrado por Gavin D'Amato (o próprio DeVito), um advogado que tenta demover um cliente de sua ideia de entrar com um processo de divórcio contando a história de um casal de clientes. Oliver e Barbara Rose (vividos por Douglas e Turner) se conheceram na juventude, se apaixonaram e subiram na vida juntos. Enquanto ela abandona uma promissora carreira como ginasta para dedicar-se ao casamento, ele foca toda sua energia em tornar-se um advogado bem-sucedido. Quando, depois que o casal de filhos gêmeos sai de casa para estudar, Barbara resolve começar um negócio próprio, ela percebe que não sente mais nada pelo marido, exceto repulsa e um ódio quase mortal. Ao entrar com o pedido de divórcio, no entanto, ela descobre que Oliver não está nem um pouco disposto a abrir mão da espetacular mansão em que eles vivem - e é justamente a casa que decorou com tanto esmero e cuidado a única coisa que ela deseja na custódia dos bens.

"A guerra dos Roses" começa como uma comédia romântica, ou no máximo, uma comédia como dezenas de outras. É somente aos poucos que DeVito vai levando o público em sua viagem de humor sombrio. De cena em cena a plateia é apresentada ao crescente desprezo de Barbara pelo marido ou da falta de fé de Oliver no ódio da esposa. Ainda apaixonado, ele não acredita que ela seja capaz de chegar aos extremos que ameaça. Quando ele vê que ela realmente o É, o filme deslancha de vez. Se como dona-de-casa entediada Kathleen Turner é boa, como ex-mulher enraivecida ela é ainda melhor.


A química entre Turner e Michael Douglas é gloriosa. Fica clara, em cada sequência, a intimidade entre os dois, que se divertem claramente frente às câmeras. É hilariante a maneira com que o diretor consegue utilizar detalhes - como a implicância do casal com os bichos de estimação um do outro - para apresentar, desde sempre, aquela centelha de raiva enrustida que os move. E a forma surpreendente com que o roteiro se desenrola é triunfo de uma história tão inacreditável que acaba sendo plenamente verossímel dentro de suas idiossincrasias. Tudo é tão deliciosamente exagerado no filme de DeVito que fica difícil não aceitar seu convite para a diversão.


"A guerra dos Roses" não é uma comédia no sentido tradicional. Seu humor não busca gargalhadas e sim a identificação da plateia com os meandros de uma relação desgastada pelo tempo e pela desilusão. De certa forma é até triste. Mas ao mesmo tempo é irresistível e garantia de duas horas de bom entretenimento.

quinta-feira

ATRAÇÃO FATAL


ATRAÇÃO FATAL (Fatal attraction, 1987, Paramount Pictures, 119min) Direção: Adrian Lyne. Roteiro: James Dearden. Fotografia: Howard Atherton. Montagem: Peter E. Berger, Michael Kahn. Música: Maurice Jarre. Figurino: Ellen Mirojnick. Direção de arte/cenários: Mel Bourne/George DeTitta. Casting: Risa Bramon, Billy Hopkins. Produção: Stanley R. Jaffe, Sherry Lansing. Elenco: Michael Douglas, Glenn Close, Anne Archer, Ellen Hamilton Latzen, Stuart Pankin, Fred Gwyne. Estreia: 18/9/87

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Adrian Lyne), Atriz (Glenn Close), Atriz Coadjuvante (Anne Archer), Roteiro Adaptado, Montagem

O bem-sucedido advogado Dan Gallagher (Michael Douglas) vive há nove anos um casamento quase impecável com a bela Beth (Anne Archer), com quem tem uma filha pequena. Caindo na rotina de um relacionamento estável, Dan acaba tendo um caso com a sedutora Alex Forest (Glenn Close), uma mulher solteira e aparentemente bem resolvida. No entanto, o que para Dan seria apenas um romance passageiro para matar o tempo em um fim de semana de solidão acaba tornando-se um pesadelo quando Alex, grávida, ameaça expor o fim de semana que passaram juntos. Quanto mais Dan tenta fugir da ex-amante mais ela se aproxima, disposta a acabar com a família do homem que a rejeitou.

Na época de seu lançamento, em 1987 - quando a AIDS começava a espalhar sua ameaça mortal indiscriminadamente -, esse filme, dirigido pelo esteta Adrian Lyne ganhou manchetes do mundo todo, causando polêmicas sem fim. Sucesso de bilheteria e indicado para vários Oscar, inclusive de melhor filme, direção, atriz e roteiro, a trágica história de amor e ressentimento entre Dan Gallagher e Alex Forest apavorou os maridos da América e do continente e acabou servindo como uma luva para os interesses de um país a cada dia mais assustadoramente conservador.


Deixando de lado análises sociais, o fato é que “Atração fatal” serve muito bem a seus propósitos de assustar e prender o público do início ao fim. O roteiro de James Dearden (que, dizem, foi inspirado em sua ex-namorada, a atriz Sean Young) nem demora muito a chegar ao que interessa. Em quinze minutos de ação, o tórrido caso entre os protagonistas, ilustrados por cenas de sexo pra lá de quentes já acabou e a vilã (interpretada com uma dose de exagero por Glenn Close, que ficou marcada pela personagem) começa a mostrar suas garras. Aos poucos, ela se transforma de doce amante em psicótica e enlouquecida algoz, chegando ao ponto de cozinhar o coelhinho de estimação da filha do casal - uma das cenas mais famosas da história do cinema desde então.

"Atração fatal" foi a segunda maior bilheteria de 1987 nos EUA, um sucesso estrondoso que acabou se refletindo nas indicações ao Oscar. Até mesmo o normalmente rechaçado Adrian Lyne arrumou sua vaga entre os candidatos à estatueta de diretor, o que prova a força com que o filme bateu no inconsciente americano. Os reacionários de plantão não poderiam ter encontrado um veículo melhor para disseminar seus ideais de instituição familiar, e a Academia de Hollywood, como bom baluarte de "bons sentimentos" assinou embaixo. Tudo bem que "Atração" não levou nenhum prêmio, mas com certeza é bem mais lembrado pelo público do que o vencedor do ano, o épico "O último imperador".

Apesar do final moralista – a ponto de o filme acabar com o close de um porta-retrato mostrando a feliz família principal – que insiste em colocar o bem (a família) contra o mal (a amante deixada de lado) em uma guerra física e violenta, o filme de Lyne cumpre o que promete. A edição ágil, a trilha sonora competente e principalmente a interpretação de Close - que ficou com um papel que foi cogitado para praticamente TODAS as atrizes de Hollywood em atividade na época - , dão o tom exato à obra, que grudou feito tatuagem na mente dos maridos dos anos 80.

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