UM CONTRATEMPO (Contratiempo, 2016, Atresmedia Cine/Think Studio/Nostromo Pictures, 106min) Direção e roteiro: Oriol Paulo. Fotografia: Xavi Giménez. Montagem: Jaume Martí. Música: Fernando Velázquez. Figurino: Miguel Cervera. Direção de arte/cenários: Balter Gallart/Marta Bazaco, Idoia Esteban. Produção executiva: Sofia Fábregas, Joaquim Guedes. Produção: Mercedes Gamero, Adrián Guerra, Sandra Hermida, Mikel Lejarza, Eneko Lizagarra, Núria Valls. Elenco: Mario Casas, Ana Wagner, José Coronado, Bárbara Lennie, Francesc Orella. Estreia: 23/9/16
Nem só de Pedro Almodóvar vive o cinema espanhol contemporâneo. Não tão festejado quanto o veterano diretor, mas com grande prestígio junto ao público, Oriol Paulo tem se firmado como um dos mais interessantes realizadores do país, com filmes de suspense que mexem com a cabeça do espectador graças a roteiros engenhosos e uma evidente segurança na direção. Seu primeiro longa-metragem, "O corpo", foi lançado em 2012 e de cara conquistou as plateias. Sua segunda incursão na cadeira de diretor só chegou aos cinemas quatro anos mais tarde, mas a demora valeu a espera: "Um contratempo", assim como seu filme de estreia, é um quebra-cabeças empolgante, que apresenta à audiência uma trama intrigante e que só se revela completamente nos minutos finais - e que, apesar de surpreendente, é verossímil o bastante para deixar em cada espectador um sorriso de satisfação e a vontade de compartilhar a experiência com o maior número possível de pessoas.
É essencial, para melhor tirar proveito de "Um contratempo", que se saiba o menos possível de sua trama. Basta saber que ela gira em torno de Adrián Doria (Mario Casas), um empresário em ascensão que está em vias de ser julgado pelo assassinato de sua amante, Laura Vidal (Bárbara Lennie), vítima de um ataque violento em um quarto de hotel, onde estava hospedada junto com ele. Segundo Adrián, ele também foi vítima do assassino, mas não presenciou o crime por estar desmaiado. Para seu azar, a polícia havia descoberto que a porta do quarto e suas janelas estavam fechados no momento do homicídio, o que coloca todas as suspeitas em Adrián, que jura terminantemente que é inocente. Para salvá-lo da cadeia, só mesmo um defensor de primeira linha, e é aí que surge Virginia Goodman (Ana Wagner), uma sofisticada e inteligentíssima advogada criminalista que, nas poucas horas que existem até o depoimento de uma testemunha-chave. Exigente e minuciosa, Virginia tenta arrancar a verdade de seu novo cliente, que mantém sua declaração de inocência. Ao narrar todo o caso para Virginia, porém, Adrián revela outras peças da história - como um acidente de carro que pode ser a chave do mistério.
De forma fascinante, Oriol Paulo constrói sua trama em uma estrutura das mais intrigantes. A cada novo elemento que surge diante do espectador, mais seu enredo parece fugir da simples questão que envolve a descoberta da verdade sobre a morte de Laura. O cinesta/roteirista brinca com a definição temporal e apresenta sua estória em diferentes linhas: enquanto no presente Adrián conta seus passos para sua nova advogada, o passado surge em flashbacks que aumentam as possibilidades de desfecho. Controlando o suspense com extrema habilidade, Paulo joga limpo, mostrando suas cartas ao pouco, mas sem surgir com uma reviravolta completamente absurda: a verdade está praticamente diante dos olhos do público - mas somente em seu final empolgante se revela completamente. Para isso, colabora a trilha sonora de Fernando Velázquez e a edição caprichada de Jaume Martí, que exploram todas as nuances da trama e dos personagens, vividos, por sua vez, por um elenco impecável, em que se destacam Mario Casas e Bárbara Lennie em um duelo verbal dos mais inteligentes. Casas, principalmente, entrega uma atuação que combina vulnerabilidade, empáfia, tensão e medo em uma perfeita equação; Lennie, por sua vez, tem controle total de sua personagem, em um trabalho meticuloso de corpo e voz que se avoluma até o final surpreendente.
"Um contratempo" - que ganhou um remake indiano em 2019 com o nome de "Badla" (vingança) - é um filme de suspense policial capaz de agradar a todos os tipos de público, mas certamente soa muito apaixonante aos fãs do gênero. Sem efeitos visuais, tiros ou explosões, é um filme que exige atenção do espectador, mas jamais tenta ser mais do que entretenimento de qualidade. Menos aclamado que Almodóvar - um cineasta já aclamado por um tipo de filme completamente distinto -, Oriol Paulo tem tudo para crescer ainda mais e conquistar seu lugar junto à crítica e às plateias. Seu estilo já demonstrado em filmes anteriores e posteriores a "Um contratempo" comprova, sem espaço para dúvidas, que talento e inteligência não lhe faltam. Naturalmente abraçando um gênero considerado menor - ou pelo menos não tão aplaudido quanto o drama -, ele assume sua paixão em contar histórias imprevisíveis com personagens realistas e falhos. É um diretor para se ficar de olho!
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DURANTE A TORMENTA
DURANTE A TORMENTA (Durante la tormenta, 2018, Atresmedia Cine/Mirage Studio, 128min) Direção: Oriol Paulo. Roteiro: Oriol Paulo, Lara Sendim. Fotografia: Xavi Giménez. Montagem: Jaume Martí. Música: Fernando Velázquez. Figurino: Anna Aguilà. Direção de arte/cenários: Balter Gallart/Marta Bazaco. Produção executiva: Sandra Hermida, Laura Rubirola. Produção: Mercedes Gamero, Mikel Lejarza, Eneko Lizagarra, Jesus Ulled Nadal. Elenco: Adriana Ugarte, Chino Darín, Javier Gutiérrez, Álvaro Morte, Nora Navas, Miquel Fernández, Clara Segura, Belén Rueda. Estreia: 13/11/18
Quem ainda não conhece a obra do cineasta espanhol Oriol Paulo não sabe o que está perdendo. Diretor de dois dos melhores filmes de suspense dos últimos anos, "Um contratempo" (2016) e "O corpo" (2012) - que prendem o espectador na poltrona do início ao fim com suas tramas engenhosas e reviravoltas surpreendentes -, ele volta agora ainda mais ambicioso. "Durante a tormenta" é quase como dois filmes em um só, misturando suspense e ficção científica com extrema habilidade e deixando o público ansioso à espera das próximas reviravoltas (algumas previsíveis, outras muito bem disfarçadas pelo roteiro complexo e ágil). Ao se utilizar de elementos consagrados de outros filmes do gênero, como a trilogia "De volta para o futuro" (85/90), e os subestimados "Alta frequência" (2000) e "Efeito borboleta" (2004), Paulo demonstra versatilidade e competência em seduzir sua plateia mesmo diante de uma trama quase absurda e inverossímil. Apoiado no talento da protagonista Adriana Ugarte (estrela de "Julieta", de Pedro Almodóvar), "Durante a tormenta" é, ao mesmo tempo, uma grata surpresa e a confirmação de um talento com tudo para explodir em um futuro muito próximo.
Nascido em Barcelona em 1975, Oriol Paulo estreou como cineasta aos 23 anos, com o média-metragem "McGuffin" (1998), mas ficou alguns anos trabalhando como roteirista e diretor de curtas e filmes para a televisão até que seu "O corpo" lhe rendeu uma indicação ao Goya de melhor diretor estreante. Seu trabalho seguinte, "Um contratempo", reafirmou um estilo narrativo próprio, que emula Alfred Hitchcock e Brian De Palma ao mesmo tempo em que lhe confere uma identidade particular - não apenas seus movimentos de câmera e o domínio da técnica são o ponto forte, mas também seus roteiros, construídos milimetricamente com o objetivo de surpreender a plateia. "Durante a tormenta" apresenta estas mesmas qualidades, mas de forma muito mais radical. Ainda existe a atenção aos detalhes e à construção impecável do clima de tensão, mas dessa vez o diretor ousa ainda mais nos desvios da trama, de forma a deixar qualquer um desconcertado. Como é normal em filmes do gênero, é provável que uma análise mais detalhada - e ranzinza - encontre falhas no roteiro, mas é inegável que, durante o tempo da sessão, é impossível despregar o olho da tela e não tentar adivinhar os próximos acontecimentos.
Como é de se esperar de um bom filme de suspense, quanto menos se sabe da trama, melhor, mas não atrapalha saber o básico: em 1989, no mesmo dia da queda do Muro de Berlim, um menino de 12 anos morre tragicamente pouco antes de uma violenta tormenta prevista para durar 72 horas. Vinte e cinco anos mais tarde, a enfermeira Vera (Adriana Ugarte) acaba de mudar-se para a casa do menino, junto com o marido, David (Álvaro Morte), e a filha pequena, Gloria. Uma nova tormenta está para acontecer, exatamente como no passado, e Vera, impressionada com a morte do primeiro morador e o assassinato ocorrido na casa em frente, acaba tendo contato, através de um antigo vídeo-cassete e uma fita gravada, com o jovem Nico (Julio Bohigas), pouco antes de sua morte. Misteriosamente ela consegue falar com ele e evitar o desfecho violento da situação - mas quando acorda, no dia seguinte, se descobre presa a uma outra vida, bastante diferente da anterior. Nessa nova vida, ela é médica, não está casada com David e tampouco tem uma filha. Desesperada, ela tenta reverter os acontecimentos, no que é parcialmente ajudada pelo Inspetor Leyra (Chino Darín, filho do ator Ricardo Darín). Nessa batalha, ela reencontra personagens importantes de sua "vida anterior" - e percebe que todas elas foram afetadas, de uma forma ou outra, por sua intervenção.
O roteiro de Paulo - redondo, inteligente, sutil - apresenta algumas explicações para o fenômeno retratado, mas felizmente não se aprofunda em nenhuma delas, deixando as conclusões para o espectador. Sua narrativa empolga principalmente porque consegue virar do avesso as certezas do público e dos personagens, com reviravoltas que dão novo sentido a cada um dos acontecimentos da primeira linha temporal. Buscar uma resposta definitiva para o ponto de partida é perder o encantamento que suas consequências trazem, uma viagem de montanha-russa repleta de surpresas e momentos de genuíno suspense. A trama policial - que se mantém como pano de fundo até o terço final - é a mais inesperada, mas é a trajetória de Vera em provar-se sã e ciente de todo o caos à sua volta que prende o público, que, angustiado como ela, tenta encontrar a maneira certa de resolver um problema aparentemente sem solução. Adriana Ugarte dá conta do recado com maestria, transmitindo todas as sensações conflitantes de sua personagem sem cair no exagero ou na caricatura. O mesmo pode se dizer do restante do elenco - discreto mas extremamente eficiente - e da edição, costurada com ritmo e enxuta na medida certa. Um filme imperdível, "Durante a tormenta" é tão bom que vale por dois.
Quem ainda não conhece a obra do cineasta espanhol Oriol Paulo não sabe o que está perdendo. Diretor de dois dos melhores filmes de suspense dos últimos anos, "Um contratempo" (2016) e "O corpo" (2012) - que prendem o espectador na poltrona do início ao fim com suas tramas engenhosas e reviravoltas surpreendentes -, ele volta agora ainda mais ambicioso. "Durante a tormenta" é quase como dois filmes em um só, misturando suspense e ficção científica com extrema habilidade e deixando o público ansioso à espera das próximas reviravoltas (algumas previsíveis, outras muito bem disfarçadas pelo roteiro complexo e ágil). Ao se utilizar de elementos consagrados de outros filmes do gênero, como a trilogia "De volta para o futuro" (85/90), e os subestimados "Alta frequência" (2000) e "Efeito borboleta" (2004), Paulo demonstra versatilidade e competência em seduzir sua plateia mesmo diante de uma trama quase absurda e inverossímil. Apoiado no talento da protagonista Adriana Ugarte (estrela de "Julieta", de Pedro Almodóvar), "Durante a tormenta" é, ao mesmo tempo, uma grata surpresa e a confirmação de um talento com tudo para explodir em um futuro muito próximo.
Nascido em Barcelona em 1975, Oriol Paulo estreou como cineasta aos 23 anos, com o média-metragem "McGuffin" (1998), mas ficou alguns anos trabalhando como roteirista e diretor de curtas e filmes para a televisão até que seu "O corpo" lhe rendeu uma indicação ao Goya de melhor diretor estreante. Seu trabalho seguinte, "Um contratempo", reafirmou um estilo narrativo próprio, que emula Alfred Hitchcock e Brian De Palma ao mesmo tempo em que lhe confere uma identidade particular - não apenas seus movimentos de câmera e o domínio da técnica são o ponto forte, mas também seus roteiros, construídos milimetricamente com o objetivo de surpreender a plateia. "Durante a tormenta" apresenta estas mesmas qualidades, mas de forma muito mais radical. Ainda existe a atenção aos detalhes e à construção impecável do clima de tensão, mas dessa vez o diretor ousa ainda mais nos desvios da trama, de forma a deixar qualquer um desconcertado. Como é normal em filmes do gênero, é provável que uma análise mais detalhada - e ranzinza - encontre falhas no roteiro, mas é inegável que, durante o tempo da sessão, é impossível despregar o olho da tela e não tentar adivinhar os próximos acontecimentos.
Como é de se esperar de um bom filme de suspense, quanto menos se sabe da trama, melhor, mas não atrapalha saber o básico: em 1989, no mesmo dia da queda do Muro de Berlim, um menino de 12 anos morre tragicamente pouco antes de uma violenta tormenta prevista para durar 72 horas. Vinte e cinco anos mais tarde, a enfermeira Vera (Adriana Ugarte) acaba de mudar-se para a casa do menino, junto com o marido, David (Álvaro Morte), e a filha pequena, Gloria. Uma nova tormenta está para acontecer, exatamente como no passado, e Vera, impressionada com a morte do primeiro morador e o assassinato ocorrido na casa em frente, acaba tendo contato, através de um antigo vídeo-cassete e uma fita gravada, com o jovem Nico (Julio Bohigas), pouco antes de sua morte. Misteriosamente ela consegue falar com ele e evitar o desfecho violento da situação - mas quando acorda, no dia seguinte, se descobre presa a uma outra vida, bastante diferente da anterior. Nessa nova vida, ela é médica, não está casada com David e tampouco tem uma filha. Desesperada, ela tenta reverter os acontecimentos, no que é parcialmente ajudada pelo Inspetor Leyra (Chino Darín, filho do ator Ricardo Darín). Nessa batalha, ela reencontra personagens importantes de sua "vida anterior" - e percebe que todas elas foram afetadas, de uma forma ou outra, por sua intervenção.
O roteiro de Paulo - redondo, inteligente, sutil - apresenta algumas explicações para o fenômeno retratado, mas felizmente não se aprofunda em nenhuma delas, deixando as conclusões para o espectador. Sua narrativa empolga principalmente porque consegue virar do avesso as certezas do público e dos personagens, com reviravoltas que dão novo sentido a cada um dos acontecimentos da primeira linha temporal. Buscar uma resposta definitiva para o ponto de partida é perder o encantamento que suas consequências trazem, uma viagem de montanha-russa repleta de surpresas e momentos de genuíno suspense. A trama policial - que se mantém como pano de fundo até o terço final - é a mais inesperada, mas é a trajetória de Vera em provar-se sã e ciente de todo o caos à sua volta que prende o público, que, angustiado como ela, tenta encontrar a maneira certa de resolver um problema aparentemente sem solução. Adriana Ugarte dá conta do recado com maestria, transmitindo todas as sensações conflitantes de sua personagem sem cair no exagero ou na caricatura. O mesmo pode se dizer do restante do elenco - discreto mas extremamente eficiente - e da edição, costurada com ritmo e enxuta na medida certa. Um filme imperdível, "Durante a tormenta" é tão bom que vale por dois.
sexta-feira
O CORPO
O CORPO (El cuerpo, 2012, Antena 3 Films/Canal + España, 108min) Direção: Orion Paulo. Roteiro: Orion Paulo, Lara Sendim. Fotografia: Oscar Faura. Montagem: Joan Manel Vilaseca. Música: Sergio Moure de Oteyza. Figurino: Maria Reyes. Direção de arte/cenários: Balter Gallart/Nuria Muni. Produção executiva: Pepes Torrescusa. Produção: Mercedes Gamero, Mikel Lejarza, Joaquín Padró, Mar Targarona. Elenco: José Coronado, Belén Rueda, Hugo Silva, Aura Garrido, Miquel Gelabert. Estreia: 04/10/12
Na primeira cena, um homem corre apavorado, sob uma chuva torrencial, e é atropelado na estrada, indo parar no hospital, em coma com diversas fraturas graves que o impedem de revelar às autoridades o motivo pelo qual ele abandonou seu posto como vigia de um necrotério de forma tão atribulada. Chamado para investigar o caso, o detetive Jaime Peña (José Coronado) descobre, logo que chega ao local, outro fato bastante estranho: o desaparecimento do corpo da empresária Mayka Villaverde Freire (Belén Rueda), recentemente vítima de um ataque cardíaco fatal. O necrotério se localiza perto de um bosque fechado, chove abundantemente e a sala onde ficam os cadáveres está trancado por dentro, o que deixa tudo ainda mais nebuloso. Sem saber por onde começar a investigação, Jaime chama o viúvo, Álex Ulloa Marcos (Hugo Silva) - e assim tem início um dos mais engenhosos e inteligentes filmes de suspense realizados pelo cinema espanhol. Dirigido e coescrito pelo jovem Oriol Paulo, "O corpo" é um daqueles filmes de prender a atenção da primeira à última cena - e deixar o espectador abismado com uma reviravolta final consistente e verossímil. Graças a um roteiro enxuto que equilibra sustos e personagens bem construídos, o público se vê mergulhado em uma trama onde nada é exatamente o que parece - e absolutamente qualquer diálogo tem importância fundamental no desenvolvimento do enredo.
A chegada de Álex ao necrotério - onde se vê à disposição do interrogatório de Jaime, desconfiado por alguma razão das declarações do viúvo - dá o pontapé inicial para um jogo de gato e rato dos mais instigantes. Jaime é um personagem rico em nuances: viúvo e com uma relação complicada com a filha que vive em Berlim, ele não consegue levar a vida adiante de maneira saudável, e vê no trabalho uma válvula de escape para seu drama particular. Certo de que Álex sabe mais do que aparenta em relação ao sumiço do corpo da esposa, ele não se permite falhar em sua caça à verdade - e o jovem, casado com uma mulher mais velha e poderosa, dá todos os motivos do mundo para que o veterano policial desconfie de suas atitudes. Conforme a ação avança, a plateia é informada de que ele vive um tórrido romance com Carla Miller (Aura Garrido) - e que tal caso extraconjugal pode ter relação com a morte de Mayka. Qual a conexão entre todos esses elementos é o grande trunfo do roteiro, que encontra na direção certeira de Paulo a tradução mais adequada. Como um herdeiro de Alfred Hitchcock - e qual diretor de filmes de suspense não o é? - o cineasta constrói uma teia de pistas falsas, informações desencontradas e personagens suspeitos para brindar a plateia com um entretenimento de primeira qualidade, que em nada fica a dever a produções hollywoodianas muito mais ambiciosas.
É óbvio, porém, que o elenco ajuda bastante. Belén Rueda desfila sua classe e charme na pele da sedutora milionária Mayka Villaverde, sempre mesclando doçura, paixão e um tom de mistério; Hugo Silva está à vontade como o pouco confiável Álex, um homem que pode ser tanto culpado quanto vítima; e José Coronado é a terceira peça fundamental do trio de protagonistas, um homem despedaçado por uma tragédia familiar que vê em sua obsessão em provar a culpa de Álex uma válvula de escape que pode levá-lo em direção a um caminho sem volta, perigoso e chocante. Oriol Paulo conduz seus atores com extrema precisão, arrancando de cada um deles o máximo de tensão com o mínimo de informações, desnorteando o espectador até os últimos minutos, quando o quebra-cabeças finalmente faz sentido - não de forma artificial como acontece na maioria dos filmes de trama preguiçosa, mas organicamente, com as pontas sendo amarradas com uma maestria digna de Agatha Christie. Como em uma peça de teatro milimetricamente arquitetada, os atores forjam uma sintonia que envolve o público até que ele esteja totalmente entregue às viradas da trama - no que são muito auxiliados pela trilha sonora discreta e eficiente e pela edição ágil na medida certa: não apressa os acontecimentos nem tampouco abusa de cenas longas e explicativas.
Uma gratíssima surpresa para fãs do gênero, "O corpo" é um filme que pode ser visto e revisto diversas vezes sem que nunca perca sua qualidade dramática. Mesmo que seu final já seja conhecido, o público pode acompanhar suas diversas camadas sempre descobrindo novos detalhes e aplaudindo a conjunção perfeita entre direção, elenco, roteiro e técnica. Em uma filmografia tão centrada em dramas e comédias como a espanhola, não deixa de ser um respiro louvável e uma demonstração de extrema inteligência e criatividade. Um filme imperdível!
Na primeira cena, um homem corre apavorado, sob uma chuva torrencial, e é atropelado na estrada, indo parar no hospital, em coma com diversas fraturas graves que o impedem de revelar às autoridades o motivo pelo qual ele abandonou seu posto como vigia de um necrotério de forma tão atribulada. Chamado para investigar o caso, o detetive Jaime Peña (José Coronado) descobre, logo que chega ao local, outro fato bastante estranho: o desaparecimento do corpo da empresária Mayka Villaverde Freire (Belén Rueda), recentemente vítima de um ataque cardíaco fatal. O necrotério se localiza perto de um bosque fechado, chove abundantemente e a sala onde ficam os cadáveres está trancado por dentro, o que deixa tudo ainda mais nebuloso. Sem saber por onde começar a investigação, Jaime chama o viúvo, Álex Ulloa Marcos (Hugo Silva) - e assim tem início um dos mais engenhosos e inteligentes filmes de suspense realizados pelo cinema espanhol. Dirigido e coescrito pelo jovem Oriol Paulo, "O corpo" é um daqueles filmes de prender a atenção da primeira à última cena - e deixar o espectador abismado com uma reviravolta final consistente e verossímil. Graças a um roteiro enxuto que equilibra sustos e personagens bem construídos, o público se vê mergulhado em uma trama onde nada é exatamente o que parece - e absolutamente qualquer diálogo tem importância fundamental no desenvolvimento do enredo.
A chegada de Álex ao necrotério - onde se vê à disposição do interrogatório de Jaime, desconfiado por alguma razão das declarações do viúvo - dá o pontapé inicial para um jogo de gato e rato dos mais instigantes. Jaime é um personagem rico em nuances: viúvo e com uma relação complicada com a filha que vive em Berlim, ele não consegue levar a vida adiante de maneira saudável, e vê no trabalho uma válvula de escape para seu drama particular. Certo de que Álex sabe mais do que aparenta em relação ao sumiço do corpo da esposa, ele não se permite falhar em sua caça à verdade - e o jovem, casado com uma mulher mais velha e poderosa, dá todos os motivos do mundo para que o veterano policial desconfie de suas atitudes. Conforme a ação avança, a plateia é informada de que ele vive um tórrido romance com Carla Miller (Aura Garrido) - e que tal caso extraconjugal pode ter relação com a morte de Mayka. Qual a conexão entre todos esses elementos é o grande trunfo do roteiro, que encontra na direção certeira de Paulo a tradução mais adequada. Como um herdeiro de Alfred Hitchcock - e qual diretor de filmes de suspense não o é? - o cineasta constrói uma teia de pistas falsas, informações desencontradas e personagens suspeitos para brindar a plateia com um entretenimento de primeira qualidade, que em nada fica a dever a produções hollywoodianas muito mais ambiciosas.
É óbvio, porém, que o elenco ajuda bastante. Belén Rueda desfila sua classe e charme na pele da sedutora milionária Mayka Villaverde, sempre mesclando doçura, paixão e um tom de mistério; Hugo Silva está à vontade como o pouco confiável Álex, um homem que pode ser tanto culpado quanto vítima; e José Coronado é a terceira peça fundamental do trio de protagonistas, um homem despedaçado por uma tragédia familiar que vê em sua obsessão em provar a culpa de Álex uma válvula de escape que pode levá-lo em direção a um caminho sem volta, perigoso e chocante. Oriol Paulo conduz seus atores com extrema precisão, arrancando de cada um deles o máximo de tensão com o mínimo de informações, desnorteando o espectador até os últimos minutos, quando o quebra-cabeças finalmente faz sentido - não de forma artificial como acontece na maioria dos filmes de trama preguiçosa, mas organicamente, com as pontas sendo amarradas com uma maestria digna de Agatha Christie. Como em uma peça de teatro milimetricamente arquitetada, os atores forjam uma sintonia que envolve o público até que ele esteja totalmente entregue às viradas da trama - no que são muito auxiliados pela trilha sonora discreta e eficiente e pela edição ágil na medida certa: não apressa os acontecimentos nem tampouco abusa de cenas longas e explicativas.
Uma gratíssima surpresa para fãs do gênero, "O corpo" é um filme que pode ser visto e revisto diversas vezes sem que nunca perca sua qualidade dramática. Mesmo que seu final já seja conhecido, o público pode acompanhar suas diversas camadas sempre descobrindo novos detalhes e aplaudindo a conjunção perfeita entre direção, elenco, roteiro e técnica. Em uma filmografia tão centrada em dramas e comédias como a espanhola, não deixa de ser um respiro louvável e uma demonstração de extrema inteligência e criatividade. Um filme imperdível!
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