ESCRITORES DA LIBERDADE (Freedom writers, 2007, Paramount Pictures, 123min) Direção: Richard LaGravanese. Roteiro: Richard LaGravenese, livro de Erin Grunwell e Escritores da Liberdade. Fotografia: Jim Denault. Montagem: David Moritz. Música: Mark Isham, Will.i.am. Figurino: Cindy Evans. Direção de arte/cenários: Laurence Bennett/Linda Lee Sutton. Produção executiva: Tracey Durning, Dan Levine, Nan Morales, Hilary Swank. Produção: Danny DeVito, Michael Shamberg, Stacey Sher. Elenco: Hilary Swank, Patrick Dempsey, Scott Glenn, Imelda Staunton, April Lee Hernandez, Jaclyn Ngan, Deance Wyatt. Estreia: 05/01/2007
Mais conhecido como roteirista - de alguns filmes de sucesso, como "As pontes de Madison" (1995) e "O pescador de ilusões" (1991), que lhe rendeu uma indicação ao Oscar -, Richard LaGravenese ocasionalmente se aventura na cadeira de diretor. Sendo um homem das letras, então, não é difícil compreender por que ele escolheu o projeto de "Escritores da liberdade", seu segundo longa-metragem: baseado em uma história real, o filme fala sobre o poder da escrita mesmo em situações adversas e enfatiza a luta incansável de uma professora para abrir os horizontes de um grupo de alunos que conhecem mais a violência do que a literatura. Mesmo escorado em alguns clichês - e com uma semelhança bastante perceptível com "Mentes perigosas", estrelado por Michelle Pfeiffer em 1996 -, seu filme conquista justamente por abraçar suas referências e explorá-las de maneira eficaz, sem ousadias narrativas mas com respeito a seus personagens e sua história. "Escritores da liberdade" não é um grande filme - por vezes soa como um filme para a televisão - e tampouco causou barulho nas bilheterias e nas cerimônias de premiação da temporada, mas está bem acima de outras produções estreladas por Hilary Swank depois de seu segundo Oscar, como "Dália negra" (dirigida pelo veterano Brian DePalma) e "Colheita maldita", lançado poucos meses depois.
Também produtora executiva do filme e com um salário reduzido para caber no orçamento, Swank interpreta Erin Grunwell, uma professa idealista e inexperiente que escolhe, para o início de sua carreira, uma escola de Long Beach longe de seus dias de glória e atormentada por alunos cujo principal interesse é chegarem vivos ao fim do dia ou escapar da polícia e dos tiroteios frequentes em seus bairros. Logo de cara Erin encontra dificuldades com a diretora da escola, Margaret Campbell (Imelda Staunton), que nã vê com bons olhos o programa que permitiu o ingresso de tais estudantes. Arriscado seu casamento com Scott (Patrick Dempsey) e comprando briga até mesmo com alguns colegas - já acostumados com o ambiente tenso do local -, a nova professora é também rechaçada pelos próprios alunos, que não entendem como os livros do currículo podem ajudar em seu cotidiano presente e futuro. Com tenacidade e coragem, Erin começa a conquistar a turma quando percebe que precisa aproximar suas teoria do cotidiano. A chave é "O diário de Anne Frank", que abre as mentes dos jovens, incentivando-os a começar um diário onde podem escrever seus pensamentos e seus conflitos.
A trama de "Escritores da liberdade" está longe de ser inovadora, e LaGravenese assume sem pudor, desde as primeiras cenas, que não pretende revolucionar o gênero. Estabelece sua heroína, apresenta os percalços com os quais ela fatalmente irá esbarrar, mostra alguns vislumbres de sua vida pessoal e, como era de se esperar, enfatiza a relação problemática com os estudantes - essa sim o foco principal do filme. A princípio hostilizada pelos alunos, Erin encontra o caminho para sua confiança ao tentar colocar-se no lugar deles: a partir daí, em uma série de cenas curtas mas interessantes, ela os apresenta ao mundo dos livros e abre seus horizontes ao aproximá-los da história de Anne Frank - primeiro com a leitura de seu diário, em seguida com uma visita ao Museu do Holocausto, e por fim com um encontro com uma sobrevivente dos campos de concentração nazistas. Este paralelo funciona muito bem no filme, e serve também para orientá-lo ao desfecho do filme, talvez um pouco anti-climático mas de certa forma coerente e verossímil.
Hilary Swank não está brilhante como em seus desempenhos premiados com o Oscar, mas ainda assim consegue dar credibilidade a uma personagem que, a despeito de ter sido escrita por um roteirista consagrado, soa um tanto superficial. A transformação de Erin em uma mulher cuja paixão por ensinar é mostrada sem muita profundidade, assim como seu relacionamento com os alunos dá a impressão de ocorrer muito facilmente. Porém, os atores jovens servem como grande parceiro de cena: apesar de ser o principal nome do elenco coadjuvante, a sempre ótima Imelda Staunton (que perdeu o Oscar 2005 justamente para Swank) divide a atenção com nomes desconhecidos que seguram com garra e emoção seu lugares na produção. Como prova dessa homogeneidade, nenhum deles se destaca mais que os outros, como se todos fossem (e de certa forma o são) os retalhos de tecido que, juntos, constroem uma colcha. "Escritores da liberdade" pode não ser o filme mais original e comovente de todos os tempos, mas é um entretenimento suficientemente agradável e bem-intencionado. Ou seja, é como uma boa aula de literatura!
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quarta-feira
EPIDEMIA
EPIDEMIA
(Outbreak, 1994, Warner Bros, 127min) Direção: Wolfgang Petersen.
Roteiro: Laurence Dworet, Robert Roy Pool. Fotografia: Michael Ballhaus.
Montagem: William Hoy, Lynzee Klingman, Stephen Rivkin, Neil Travis.
Música: James Newton Howard. Figurino: Erica Edel Phillips. Direção de
arte/cenários: William Sandell/Rosemary Brandenburg. Produção executiva:
Duncan Henderson, Anne Kopelson. Produção: Gail Katz, Arnold Kopelson,
Wolfgang Petersen. Elenco: Dustin Hoffman, Rene Russo, Morgan Freeman,
Kevin Spacey, Cuba Gooding Jr., Donald Sutherland, Patrick Dempsey.
Estreia: 06/3/95
Um filme sobre um ameaçador vírus capaz de matar em poucas horas - e que está perigosamente se espalhando pelos EUA - dirigido por Ridley Scott, estrelado por Robert Redford e Jodie Foster e chamado "Hot zone" estava em preparação na Fox quando a notícia de que uma produção similar estava em andamento na Warner. O fato de dois filmes semelhantes estarem em desenvolvimento nem é tão raro em uma terra de poucas ideias realmente originais quanto Hollywood, mas tornou-se uma batalha aberta, com os dois estúdios ansiosos pela primazia nas bilheterias. Porém, ao contrário do que acontece na maioria das vezes (quando mais de um filme sobre o mesmo assunto realmente chega a estrear e disputar público), "Epidemia", a produção da Warner, dirigida por Wolfgang Petersen e estrelada por Dustin Hoffman e René Russo acabou por abortar o trabalho de Scott, Redford e companhia e chegar sozinho às telas. Embalado pela epidemia do vírus Ebola na África poucos meses antes - um marketing macabro mas bastante eficiente - o filme se deu bem nas bilheterias, rendendo quase 200 milhões de dólares mundo afora.
Ficando com o papel que seria de Harrison Ford em uma primeira versão do roteiro, Dustin Hoffman faz sua estreia em um filme de ação na pele de Sam Daniels, um coronel do exército norte-americano encarregado de investigar o surgimento de uma epidemia de febre hemorrágica oriunda da África. Como responsável pelo USAMRIID (Instituto de Pesquisa Médica para Doenças Infecciosas dos EUA), ele alerta as autoridades sobre o possível alcance da doença em território americano, mas vê seus conselhos ignorados por seu superior, o General Billy Ford (Morgan Freeman), que afasta a possibilidade de uma epidemia em seu país. O que Daniels não sabe é que o mesmo Ford, em conluio com outro general, Donald McClintock (Donald Sutherland) já sabia da existência de um vírus semelhante, surgido no Zaire em 1967 - e que ambos juraram ter extinguido depois da ordem de explodir a aldeia que apresentava a doença, em uma ação secreta do governo. Vinte e cinco anos depois, porém, o vírus está de volta, transmutado, mais potente e ameaçando o país, onde chegou através de um pequeno macaco contrabandeado. Quando uma pequena cidade torna-se o centro da epidemia, cabe a Daniels impedir que a mesma decisão seja tomada: com a ajuda do jovem Major Salt (Cuba Gooding Jr.) e da ex-mulher Robby (René Russo) - cientista por quem ainda é apaixonado - ele tem que localizar o hospedeiro, encontrar uma cura e salvar a vida de centenas de pessoas.
Dividindo seu foco entre as pesquisas científicas, a busca pelas causas da epidemia, as conspirações governamentais de gabinete e as trágicas consequências da epidemia, o filme de Wolfgang Petersen surpreendentemente não se torna uma obra sem personalidade. O roteiro equilibrado permite à plateia que se envolva com cada uma das histórias contadas, que, unidas, formam um conjunto coeso e bastante interessante, especialmente porque escapa do sensacionalismo quase inevitável do tema. Petersen evita inclusive imagens muito gráficas, preferindo a sugestão ao invés do óbvio: claro que há cenas que mostram as vítimas agonizando e com o corpo perdendo sangue profusamente, mas até mesmo nesses momentos há uma elegância e uma discrição que o afasta dos slasher movies sanguinolentos. Não interessa ao diretor apavorar o público com imagens cruéis e sim prendê-lo na poltrona com uma história de tensão e ação com inteligência acima da média. E isso ele consegue sem fazer muita força.
A maior qualidade de "Epidemia", no entanto, vem do fato de ele conseguir ser um filme de puro entretenimento a respeito de um assunto sério e assustador. Sem a intenção de ser didático, ele é apenas um filme de ação, realizado com toda a competência de que um cineasta como Petersen é capaz. Além do mais, apresenta um elenco de competência indiscutível - além de Hoffman, Morgan Freeman e Donald Sutherland, há ainda um Kevin Spacey pré-consagração - e um senso de ritmo dos mais felizes. O terço final, quando Daniels está em vias de encontrar o macaco hospedeiro e o governo já está mandando aviões acabarem com a pequena cidade onde a epidemia está se descontrolando, é um primor de suspense, enfatizado pela trilha sonora de James Newton Howard e pela edição soberba, capaz de deixar qualquer espectador com a respiração suspensa. E, além de tudo, não é sempre que o público tem a chance de testemunhar um dos maiores atores do cinema - Dustin Hoffman - brincar de herói de filme de ação. Um diferencial a mais em um filme que cumpre o que promete.
Um filme sobre um ameaçador vírus capaz de matar em poucas horas - e que está perigosamente se espalhando pelos EUA - dirigido por Ridley Scott, estrelado por Robert Redford e Jodie Foster e chamado "Hot zone" estava em preparação na Fox quando a notícia de que uma produção similar estava em andamento na Warner. O fato de dois filmes semelhantes estarem em desenvolvimento nem é tão raro em uma terra de poucas ideias realmente originais quanto Hollywood, mas tornou-se uma batalha aberta, com os dois estúdios ansiosos pela primazia nas bilheterias. Porém, ao contrário do que acontece na maioria das vezes (quando mais de um filme sobre o mesmo assunto realmente chega a estrear e disputar público), "Epidemia", a produção da Warner, dirigida por Wolfgang Petersen e estrelada por Dustin Hoffman e René Russo acabou por abortar o trabalho de Scott, Redford e companhia e chegar sozinho às telas. Embalado pela epidemia do vírus Ebola na África poucos meses antes - um marketing macabro mas bastante eficiente - o filme se deu bem nas bilheterias, rendendo quase 200 milhões de dólares mundo afora.
Ficando com o papel que seria de Harrison Ford em uma primeira versão do roteiro, Dustin Hoffman faz sua estreia em um filme de ação na pele de Sam Daniels, um coronel do exército norte-americano encarregado de investigar o surgimento de uma epidemia de febre hemorrágica oriunda da África. Como responsável pelo USAMRIID (Instituto de Pesquisa Médica para Doenças Infecciosas dos EUA), ele alerta as autoridades sobre o possível alcance da doença em território americano, mas vê seus conselhos ignorados por seu superior, o General Billy Ford (Morgan Freeman), que afasta a possibilidade de uma epidemia em seu país. O que Daniels não sabe é que o mesmo Ford, em conluio com outro general, Donald McClintock (Donald Sutherland) já sabia da existência de um vírus semelhante, surgido no Zaire em 1967 - e que ambos juraram ter extinguido depois da ordem de explodir a aldeia que apresentava a doença, em uma ação secreta do governo. Vinte e cinco anos depois, porém, o vírus está de volta, transmutado, mais potente e ameaçando o país, onde chegou através de um pequeno macaco contrabandeado. Quando uma pequena cidade torna-se o centro da epidemia, cabe a Daniels impedir que a mesma decisão seja tomada: com a ajuda do jovem Major Salt (Cuba Gooding Jr.) e da ex-mulher Robby (René Russo) - cientista por quem ainda é apaixonado - ele tem que localizar o hospedeiro, encontrar uma cura e salvar a vida de centenas de pessoas.
Dividindo seu foco entre as pesquisas científicas, a busca pelas causas da epidemia, as conspirações governamentais de gabinete e as trágicas consequências da epidemia, o filme de Wolfgang Petersen surpreendentemente não se torna uma obra sem personalidade. O roteiro equilibrado permite à plateia que se envolva com cada uma das histórias contadas, que, unidas, formam um conjunto coeso e bastante interessante, especialmente porque escapa do sensacionalismo quase inevitável do tema. Petersen evita inclusive imagens muito gráficas, preferindo a sugestão ao invés do óbvio: claro que há cenas que mostram as vítimas agonizando e com o corpo perdendo sangue profusamente, mas até mesmo nesses momentos há uma elegância e uma discrição que o afasta dos slasher movies sanguinolentos. Não interessa ao diretor apavorar o público com imagens cruéis e sim prendê-lo na poltrona com uma história de tensão e ação com inteligência acima da média. E isso ele consegue sem fazer muita força.
A maior qualidade de "Epidemia", no entanto, vem do fato de ele conseguir ser um filme de puro entretenimento a respeito de um assunto sério e assustador. Sem a intenção de ser didático, ele é apenas um filme de ação, realizado com toda a competência de que um cineasta como Petersen é capaz. Além do mais, apresenta um elenco de competência indiscutível - além de Hoffman, Morgan Freeman e Donald Sutherland, há ainda um Kevin Spacey pré-consagração - e um senso de ritmo dos mais felizes. O terço final, quando Daniels está em vias de encontrar o macaco hospedeiro e o governo já está mandando aviões acabarem com a pequena cidade onde a epidemia está se descontrolando, é um primor de suspense, enfatizado pela trilha sonora de James Newton Howard e pela edição soberba, capaz de deixar qualquer espectador com a respiração suspensa. E, além de tudo, não é sempre que o público tem a chance de testemunhar um dos maiores atores do cinema - Dustin Hoffman - brincar de herói de filme de ação. Um diferencial a mais em um filme que cumpre o que promete.
segunda-feira
NAMORADA DE ALUGUEL
NAMORADA DE ALUGUEL (Can't buy me love, 1987, Apollo Pictures,
94min) Direção: Steve Rasch. Roteiro: Michael Swerdlick. Fotografia:
Peter Lyons Collister. Montagem: Jeff Gourson. Música: Robert Folk.
Figurino: Gregory Poe. Direção de arte/cenários: Donald L. Harris/Andrew
Bernard, Christian W. Russhon. Produção executiva: Ron Beckman, Jere
Henshaw. Produção: Thom Mount. Elenco: Patrick Dempsey, Amanda Peterson,
Courtney Gains, Seth Green, Sharon Farrell. Estreia: 14/8/87
Um dos mais populares e prolíficos sub-gêneros cinematográficos dos anos 80, a comédia romântica adolescente foi responsável por alçar ao posto de ídolos nomes que não resistiriam ao tempo e sumiriam frente à mudança de década e do gosto de seu público-alvo, que, à medida em que envelheciam partiam em busca de filmes menos ingênuos. Foi assim com a musa teen Molly Ringwald, com os sex symbols Rob Lowe (que ainda manteve a carreira, mas em marcha bem mais lenta) e Andrew McCarthy e com praticamente todos os atores lançados por John Hughes. Outro que começou a carreira como um patinho feio desejando a garota mais popular da escola foi Patrick Dempsey - que depois de amargar um bom tempo no limbo foi resgatado para a fama com a telessérie "Grey's anatomy". Em "Namorada de aluguel" ele já demonstrava que levava jeito como galã desajeitado... e o filme acabou virando cult movie entre a garotada oitentista.
Embalado pela canção-título interpretada pelos Beatles, "Namorada de aluguel" é uma comédia de erros agradável e simpática, muito valorizada pela interpretação de Dempsey, que interpreta Ronald Miller, um nerd esforçado que trabalha cortando a grama da vizinhança com o objetivo claro de comprar um telescópio e aproximá-lo de uma de suas maiores paixões: a astronomia. Sua outra paixão é, como não poderia deixar de ser em um filme do gênero, a bela e desejada Cindy Mancini (Amanda Peterson), que só o repara na hora de pagar por seus serviços de jardinagem. Namorada de um jogador de futebol mais velho e idolatrado pelos colegas, Cindy vive cercada de um séquito de admiradores e amigas, todos a anos-luz de distância do grupo de Ronald, que passam as noites de sábado jogando pôquer e se dedicam mais aos estudos do que às festas. Porém, o destino - ou o roteiro, mais bem amarrado do que muitos de seus congêneres - apronta uma das suas e une os dois jovens: precisando urgentemente de dinheiro para substituir uma roupa de sua mãe que ela estragou em uma festa, Cindy acaba aceitando a proposta indecente de Ronald de se passar por sua namorada durante um mês, para assim aumentar a popularidade do rapaz. Miller gasta todas as suas economias no plano, e ele dá certo: em pouco tempo a escola inteira está a seus pés - incluindo Cindy, apesar de ele não perceber a mudança nos sentimentos da garota.
Uma das maiores qualidades de "Namorada de aluguel" é a forma com que a história se desenvolve, não deixando que o romance entre seus protagonistas assuma a prioridade da trama o tempo todo. A segunda metade do filme, por exemplo, que trata das consequências do plano armado por Ronald - quando ele experimenta o gostinho do sucesso e quase se deixa corromper por ele - é tão interessante quanto a história de amor entre ele e Cindy. É nessa fase do roteiro que o público acompanha sua conscientização a respeito do quanto seus amigos nerds são bem mais leais e merecedores de aplausos do que seus novos companheiros de farra. É um tanto moralista, claro, mas levando-se em conta seu público-alvo, não deixa de ser também bastante oportuno. E é preciso destacar também o humor do filme, representado especialmente pelo irmão de Ronald, Chuckie (vivido por Seth Green, o futuro filho do Dr. Evil da série "Austin Powers" ainda criança) e pela clássica sequência em que o protagonista apresenta - por engano, é claro - a coreografia do Ritual de Acasalamento do Tamanduá Africano em plena festa repleta de mauricinhos e patricinhas influenciáveis.
"Namorada de aluguel" não é e nem se pretende uma obra-prima. Mas é delicioso, principalmente para a geração que o assistia constantemente na Sessão da Tarde. É leve, é divertido e fluente, um filme sem contra-indicações para quem busca uma sessão nostálgica - ou para quem tem interesse em saber como Patrick Dempsey começou sua carreira.
Um dos mais populares e prolíficos sub-gêneros cinematográficos dos anos 80, a comédia romântica adolescente foi responsável por alçar ao posto de ídolos nomes que não resistiriam ao tempo e sumiriam frente à mudança de década e do gosto de seu público-alvo, que, à medida em que envelheciam partiam em busca de filmes menos ingênuos. Foi assim com a musa teen Molly Ringwald, com os sex symbols Rob Lowe (que ainda manteve a carreira, mas em marcha bem mais lenta) e Andrew McCarthy e com praticamente todos os atores lançados por John Hughes. Outro que começou a carreira como um patinho feio desejando a garota mais popular da escola foi Patrick Dempsey - que depois de amargar um bom tempo no limbo foi resgatado para a fama com a telessérie "Grey's anatomy". Em "Namorada de aluguel" ele já demonstrava que levava jeito como galã desajeitado... e o filme acabou virando cult movie entre a garotada oitentista.
Embalado pela canção-título interpretada pelos Beatles, "Namorada de aluguel" é uma comédia de erros agradável e simpática, muito valorizada pela interpretação de Dempsey, que interpreta Ronald Miller, um nerd esforçado que trabalha cortando a grama da vizinhança com o objetivo claro de comprar um telescópio e aproximá-lo de uma de suas maiores paixões: a astronomia. Sua outra paixão é, como não poderia deixar de ser em um filme do gênero, a bela e desejada Cindy Mancini (Amanda Peterson), que só o repara na hora de pagar por seus serviços de jardinagem. Namorada de um jogador de futebol mais velho e idolatrado pelos colegas, Cindy vive cercada de um séquito de admiradores e amigas, todos a anos-luz de distância do grupo de Ronald, que passam as noites de sábado jogando pôquer e se dedicam mais aos estudos do que às festas. Porém, o destino - ou o roteiro, mais bem amarrado do que muitos de seus congêneres - apronta uma das suas e une os dois jovens: precisando urgentemente de dinheiro para substituir uma roupa de sua mãe que ela estragou em uma festa, Cindy acaba aceitando a proposta indecente de Ronald de se passar por sua namorada durante um mês, para assim aumentar a popularidade do rapaz. Miller gasta todas as suas economias no plano, e ele dá certo: em pouco tempo a escola inteira está a seus pés - incluindo Cindy, apesar de ele não perceber a mudança nos sentimentos da garota.
Uma das maiores qualidades de "Namorada de aluguel" é a forma com que a história se desenvolve, não deixando que o romance entre seus protagonistas assuma a prioridade da trama o tempo todo. A segunda metade do filme, por exemplo, que trata das consequências do plano armado por Ronald - quando ele experimenta o gostinho do sucesso e quase se deixa corromper por ele - é tão interessante quanto a história de amor entre ele e Cindy. É nessa fase do roteiro que o público acompanha sua conscientização a respeito do quanto seus amigos nerds são bem mais leais e merecedores de aplausos do que seus novos companheiros de farra. É um tanto moralista, claro, mas levando-se em conta seu público-alvo, não deixa de ser também bastante oportuno. E é preciso destacar também o humor do filme, representado especialmente pelo irmão de Ronald, Chuckie (vivido por Seth Green, o futuro filho do Dr. Evil da série "Austin Powers" ainda criança) e pela clássica sequência em que o protagonista apresenta - por engano, é claro - a coreografia do Ritual de Acasalamento do Tamanduá Africano em plena festa repleta de mauricinhos e patricinhas influenciáveis.
"Namorada de aluguel" não é e nem se pretende uma obra-prima. Mas é delicioso, principalmente para a geração que o assistia constantemente na Sessão da Tarde. É leve, é divertido e fluente, um filme sem contra-indicações para quem busca uma sessão nostálgica - ou para quem tem interesse em saber como Patrick Dempsey começou sua carreira.
sexta-feira
IDAS E VINDAS DO AMOR
IDAS E VINDAS DO AMOR (Valentine's Day, 2010, New Line Cinema,
125min) Direção: Garry Marshall. Roteiro: Katherine Fugate, estória de
Katherine Fugate, Abby Cohn, Marc Silverstein. Fotografia: Charles
Minsky. Montagem: Bruce Green. Música: John Debney. Figurino: Gary
Jones. Direção de arte/cenários: Albert Brenner, K.C. Fox. Produção
executiva: Samuel J. Brown, Michael Disco, Toby Emmerich, Diana Pokorny,
Josie Rosen. Produção: Mike Karz, Wayne Rice. Elenco: Julia Roberts,
Ashton Kutscher, Jessica Alba, Jessica Biel, Jamie Foxx, Patrick
Dempsey, Shirley MacLaine, Hector Elizondo, Kathy Bates, Emma Roberts,
Anne Hathaway, Topher Grace, Bradley Cooper, Queen Latifah, Eric Dane,
Taylor Lautner, Taylor Swift, Jennifer Garner. Estreia: 08/02/10
Em 1990, o cineasta Garry Marshall transformou uma prostituta em Cinderela e alçou Julia Roberts ao status de mega-estrela com o filme "Uma linda mulher". E Roberts, hoje a atriz mais bem paga do planeta Hollywood, devolve o favor a Marshall, aparecendo em poucos minutos em sua comédia romântica "Idas e vindas do amor" ("Valentine's day" no original, em mais uma prova da criatividade das distribuidoras brasileiras em estragar títulos alheios). Seguindo a linha de filmes como "Nova York, te amo" e "Ele não está tão a fim de você", o filme acompanha cerca de meia dúzia de histórias de amor (nenhuma delas muito profunda, como convém ao gênero) que acontecem no Dia dos Namorados americano (14 de fevereiro). Analisando como diversão, o filme é uma delícia: um elenco de astros fotogênicos, cenários ensolarados, alguns diálogos bastante engraçados e um romantismo desbragado apropriado à data de seu lançamento nos EUA. Friamente, no entanto, "Idas e vindas do amor" é tão, mas tão doce e bonitinho que chega a incomodar àqueles que não são tão crentes no amor e afins.
Senão, vejamos: Anne Hathaway é uma jovem que faz bicos como atendente de tele-sexo e esconde esse pequeno segredo do namorado recente, vivido por Topher Grace, que vai receber conselhos de um desconhecido sábio (vivido pelo habitué dos filmes de Marshall, Hector Elizondo), que acaba de descobrir um caso antigo da esposa (Shirley MacLaine). Jennifer Garner é uma professora do primário que nem desconfia que o namorado médico (Patrick Dempsey) é casado e não acredita no fato nem quando seu melhor amigo (Ashton Kutscher) o revela depois de ter sido rejeitado pela namorada e quase noiva (Jessica Alba). Jamie Foxx é um repórter esportivo que tem a missão de realizar uma matéria sobre o Dia dos Namorados e cai de amores pela agente solteirona (Jessica Biel, se dá pra acreditar) de um jogador em vias de se aposentar. Enquanto isso, um casal de adolescentes prepara sua primeira noite de amor, um menino de oito anos tenta se declarar à sua amada (ecos de "Simplesmente amor"?) e uma capitã militar (Julia Roberts em pessoa) conhece um simpático solteiro (Bradley Cooper) durante uma viagem de avião.
Sendo honesto, o roteiro de "Idas e vindas" é divertido, passa rápido (ainda que pudesse ser um pouco mais curto) e cumpre sua função de arrecadar muito dinheiro (já rendeu mais de 60 milhões de dólares em pouco mais de uma semana em exibição) e divertir sua audiência. Mas sua visão de mundo é tão colorida e leve que sua credibilidade fica seriamente abalada. Tudo bem que ninguém entra em um filme chamado "Idas e vindas do amor" - cujo cartaz tem um coração enorme e tem Julia Roberts e Ashton Kutscher no elenco - esperando sérias elocubrações sobre sentimentos de perda, dor, solidão e carência. Mas para aqueles que estão em uma fase de descrença absoluta em finais felizes, chega a ser chocante assistir cenas que elevam o amor romântico à esfera que o filme eleva. Não desperta nem lágrimas, porque falar de amor eterno a quem não acredita nem mesmo em paixões de fim-de-semana equivale a narrar histórias de saci-pererê a um islandês que morou a vida toda em um iglu. Aqueles que estão em paz com o coração, porém, só podem gostar das tramas dirigidas por Marshall.
Se você está apaixonado e/ou acredita no amor acima de tudo, corra para assistir. Caso contrário, passe longe. Mas se puder não perca os créditos finais, que apresentam a melhor piada de todo o filme, estrelada por Julia e seu belo sorriso.
Em 1990, o cineasta Garry Marshall transformou uma prostituta em Cinderela e alçou Julia Roberts ao status de mega-estrela com o filme "Uma linda mulher". E Roberts, hoje a atriz mais bem paga do planeta Hollywood, devolve o favor a Marshall, aparecendo em poucos minutos em sua comédia romântica "Idas e vindas do amor" ("Valentine's day" no original, em mais uma prova da criatividade das distribuidoras brasileiras em estragar títulos alheios). Seguindo a linha de filmes como "Nova York, te amo" e "Ele não está tão a fim de você", o filme acompanha cerca de meia dúzia de histórias de amor (nenhuma delas muito profunda, como convém ao gênero) que acontecem no Dia dos Namorados americano (14 de fevereiro). Analisando como diversão, o filme é uma delícia: um elenco de astros fotogênicos, cenários ensolarados, alguns diálogos bastante engraçados e um romantismo desbragado apropriado à data de seu lançamento nos EUA. Friamente, no entanto, "Idas e vindas do amor" é tão, mas tão doce e bonitinho que chega a incomodar àqueles que não são tão crentes no amor e afins.
Senão, vejamos: Anne Hathaway é uma jovem que faz bicos como atendente de tele-sexo e esconde esse pequeno segredo do namorado recente, vivido por Topher Grace, que vai receber conselhos de um desconhecido sábio (vivido pelo habitué dos filmes de Marshall, Hector Elizondo), que acaba de descobrir um caso antigo da esposa (Shirley MacLaine). Jennifer Garner é uma professora do primário que nem desconfia que o namorado médico (Patrick Dempsey) é casado e não acredita no fato nem quando seu melhor amigo (Ashton Kutscher) o revela depois de ter sido rejeitado pela namorada e quase noiva (Jessica Alba). Jamie Foxx é um repórter esportivo que tem a missão de realizar uma matéria sobre o Dia dos Namorados e cai de amores pela agente solteirona (Jessica Biel, se dá pra acreditar) de um jogador em vias de se aposentar. Enquanto isso, um casal de adolescentes prepara sua primeira noite de amor, um menino de oito anos tenta se declarar à sua amada (ecos de "Simplesmente amor"?) e uma capitã militar (Julia Roberts em pessoa) conhece um simpático solteiro (Bradley Cooper) durante uma viagem de avião.
Sendo honesto, o roteiro de "Idas e vindas" é divertido, passa rápido (ainda que pudesse ser um pouco mais curto) e cumpre sua função de arrecadar muito dinheiro (já rendeu mais de 60 milhões de dólares em pouco mais de uma semana em exibição) e divertir sua audiência. Mas sua visão de mundo é tão colorida e leve que sua credibilidade fica seriamente abalada. Tudo bem que ninguém entra em um filme chamado "Idas e vindas do amor" - cujo cartaz tem um coração enorme e tem Julia Roberts e Ashton Kutscher no elenco - esperando sérias elocubrações sobre sentimentos de perda, dor, solidão e carência. Mas para aqueles que estão em uma fase de descrença absoluta em finais felizes, chega a ser chocante assistir cenas que elevam o amor romântico à esfera que o filme eleva. Não desperta nem lágrimas, porque falar de amor eterno a quem não acredita nem mesmo em paixões de fim-de-semana equivale a narrar histórias de saci-pererê a um islandês que morou a vida toda em um iglu. Aqueles que estão em paz com o coração, porém, só podem gostar das tramas dirigidas por Marshall.
Se você está apaixonado e/ou acredita no amor acima de tudo, corra para assistir. Caso contrário, passe longe. Mas se puder não perca os créditos finais, que apresentam a melhor piada de todo o filme, estrelada por Julia e seu belo sorriso.
DOCE LAR
DOCE LAR (Sweet home Alabama, 2002, Touchstone Pictures, 108min) Direção: Andy Tennant. Roteiro: C. Jay Cox, história de Douglas J. Eboch. Fotografia: Andrew Dunn. Montagem: Troy Takaki, Tracey Wadmore-Smith. Música: George Fenton. Figurino: Sophie de Rakoff Carbonell. Direção de arte/cenários: Clay A. Griffith/Lisa K. Sessions. Produção executiva: Michael Fottrell, Jon Jashni, Wink Mordaunt. Produção: Stokely Chaffin, Neal H. Moritz. Elenco: Reese Witherspoon, Patrick Dempsey, Josh Lucas, Candice Bergen, Fred Ward, Mary Kay Place, Jean Smart, Melanie Lysnkey, Ethan Embry, Dakota Fanning. Estreia: 27/9/02
Não é difícil compreender o enorme êxito de bilheteria de "Doce lar" nos EUA, onde arrecadou mais de 180 milhões de dólares. Em primeiro lugar, é uma comédia romântica açucarada (gênero que se mantém como um dos mais populares mesmo no cínico século XXI). Depois, é o tipo de filme que não ofende ninguém e nem tenta reinventar a roda (e todo mundo sabe que sempre é bom recorrer aos mesmos clichês de sempre vez ou outra). E em terceiro (e talvez mais importante) existe o fator Reese Witherspoon. Desde que "Legalmente loira" fez um inesperado sucesso em 2001, a jovem atriz - à época ainda casada com Ryan Phillippe - tornou-se um dos nomes mais quentes da "nova Hollywood". Carismática, talentosa e dona de uma beleza nada ameaçadora (ou seja, perfeita para agradar às mulheres que levam os namorados ao cinema), Witherspoon é o centro do filme de Andy Tennant e a responsável por torná-lo um agradável e descompromissado entretenimento.
Assumindo o papel que seria de Charlize Theron antes que ela pulasse fora para participar do infame "Encurralada", Witherspoon interpreta Melanie Carmichael, uma promissora estilista de moda que vive o melhor momento de sua vida: além de estar dando os primeiros passos rumo à sua realização profissional, ela acaba de ser pedida em casamento por um dos mais cobiçados solteiros de Nova York, o bem-sucedido Andrew Hennings (Patrick Dempsey), filho da prefeita da cidade (vivida com graça por Candice Bergen). O problema é que, apesar de aparentar ser uma cosmopolita e sofisticada cidadã nova-iorquina, ela na verdade é uma caipira fugida do Alabama, seu estado natal. E o pior ainda: é casada com um namorado da adolescência, Jake Perry (Josh Lucas), que se recusa a conceder-lhe o divórcio. Desesperada para esconder do noivo seu passado (e com o objetivo de exigir de Jake a separação formal), Melanie volta à sua cidade, mas acaba descobrindo que ainda é o objeto dos sonhos de seu ex-marido e que suas raízes são mais fortes do que ela imaginava.

"Doce lar" é mais uma comédia romântica da estirpe politicamente correta que tomou conta da América nos anos 90. Sua ideologia mal-disfarçada não deixa de ser um tanto desconfortável, contrapondo a vida pacata e "verdadeira" do interior do país à correria hedonista e "fútil" das grandes cidades (e fazendo com que todas as personagens relacionadas ao noivo mauricinho soem como pastiches de uma sociedade vazia enquanto sua família e seu ex-marido servem quase como exemplo de pureza e integridade). No entanto, para a sorte do espectador, o roteiro consegue fazer com que tudo seja facilmente assimilável graças a diálogos rápidos e algumas piadas realmente engraçadas, em especial as relacionadas ao amigo de infância de Melanie, o jovem Bobby Ray (Ethan Embry), que precisa lidar com sua homossexualidade em um cenário não especialmente simpático à sua causa. Também é pouco justo com a personagem de Patrick Dempsey (voltando aos poucos ao estrelato que culminaria na série "Grey's anatomy") rivalizá-lo com Josh Lucas em um papel que explora ao máximo seu charme rústico. Não é preciso mais do que dez minutos de Lucas em cena para que a plateia perceba os rumos da história.
É impossível dizer que "Doce lar" é um grande filme. É previsível, é ideologicamente questionável (se bem que ninguém assiste a comédias românticas pensando sobre essas coisas) e não apresenta maiores novidades. Mas é agradável, é simpático e tem Reese Witherspoon fazendo o que faz de melhor. Os fãs não reclamarão jamais!
Não é difícil compreender o enorme êxito de bilheteria de "Doce lar" nos EUA, onde arrecadou mais de 180 milhões de dólares. Em primeiro lugar, é uma comédia romântica açucarada (gênero que se mantém como um dos mais populares mesmo no cínico século XXI). Depois, é o tipo de filme que não ofende ninguém e nem tenta reinventar a roda (e todo mundo sabe que sempre é bom recorrer aos mesmos clichês de sempre vez ou outra). E em terceiro (e talvez mais importante) existe o fator Reese Witherspoon. Desde que "Legalmente loira" fez um inesperado sucesso em 2001, a jovem atriz - à época ainda casada com Ryan Phillippe - tornou-se um dos nomes mais quentes da "nova Hollywood". Carismática, talentosa e dona de uma beleza nada ameaçadora (ou seja, perfeita para agradar às mulheres que levam os namorados ao cinema), Witherspoon é o centro do filme de Andy Tennant e a responsável por torná-lo um agradável e descompromissado entretenimento.
Assumindo o papel que seria de Charlize Theron antes que ela pulasse fora para participar do infame "Encurralada", Witherspoon interpreta Melanie Carmichael, uma promissora estilista de moda que vive o melhor momento de sua vida: além de estar dando os primeiros passos rumo à sua realização profissional, ela acaba de ser pedida em casamento por um dos mais cobiçados solteiros de Nova York, o bem-sucedido Andrew Hennings (Patrick Dempsey), filho da prefeita da cidade (vivida com graça por Candice Bergen). O problema é que, apesar de aparentar ser uma cosmopolita e sofisticada cidadã nova-iorquina, ela na verdade é uma caipira fugida do Alabama, seu estado natal. E o pior ainda: é casada com um namorado da adolescência, Jake Perry (Josh Lucas), que se recusa a conceder-lhe o divórcio. Desesperada para esconder do noivo seu passado (e com o objetivo de exigir de Jake a separação formal), Melanie volta à sua cidade, mas acaba descobrindo que ainda é o objeto dos sonhos de seu ex-marido e que suas raízes são mais fortes do que ela imaginava.

"Doce lar" é mais uma comédia romântica da estirpe politicamente correta que tomou conta da América nos anos 90. Sua ideologia mal-disfarçada não deixa de ser um tanto desconfortável, contrapondo a vida pacata e "verdadeira" do interior do país à correria hedonista e "fútil" das grandes cidades (e fazendo com que todas as personagens relacionadas ao noivo mauricinho soem como pastiches de uma sociedade vazia enquanto sua família e seu ex-marido servem quase como exemplo de pureza e integridade). No entanto, para a sorte do espectador, o roteiro consegue fazer com que tudo seja facilmente assimilável graças a diálogos rápidos e algumas piadas realmente engraçadas, em especial as relacionadas ao amigo de infância de Melanie, o jovem Bobby Ray (Ethan Embry), que precisa lidar com sua homossexualidade em um cenário não especialmente simpático à sua causa. Também é pouco justo com a personagem de Patrick Dempsey (voltando aos poucos ao estrelato que culminaria na série "Grey's anatomy") rivalizá-lo com Josh Lucas em um papel que explora ao máximo seu charme rústico. Não é preciso mais do que dez minutos de Lucas em cena para que a plateia perceba os rumos da história.
É impossível dizer que "Doce lar" é um grande filme. É previsível, é ideologicamente questionável (se bem que ninguém assiste a comédias românticas pensando sobre essas coisas) e não apresenta maiores novidades. Mas é agradável, é simpático e tem Reese Witherspoon fazendo o que faz de melhor. Os fãs não reclamarão jamais!
quarta-feira
PÂNICO 3
PÂNICO 3 (Scream 3, 2000, Dimension Films, 116min) Direção: Wes Craven. Roteiro: Ehren Kruger, personagens criados por Kevin Williamson. Fotografia: Peter Deming. Montagem: Patrick Lussier. Música: Marco Beltrami. Figurino: Abigail Murray. Direção de arte/cenários: Bruce Alan Miller/Gene Serdena. Produção executiva: Cary Granat, Andrew Rona, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Cathy Konrad, Marianne Maddalena, Kevin Williamson. Elenco: Neve Campbell, Courtney Cox-Arquette, David Arquette, Liev Schreiber, Patrick Dempsey, Parker Posey, Emily Mortimer, Lance Henriksen, Heather Matarazzo, Jamie Kennedy. Estreia: 03/02/00
Não deixa de ser irônico que um filme como o primeiro “Pânico”, que em 1997 causou a ressurreição do gênero “terror adolescente” ao usar inteligentemente todos os clichês possíveis e imagináveis tenha se transformando em um objeto do próprio deboche. Ao brincar com a temática de filmes como “Sexta-feira 13” e “A hora do pesadelo” – este último criado pelo mesmo Wes Craven que dirigiu “Pânico” – a obra escrita por Kevin Williamson e comandada por Craven rendeu muito mais do que o esperado e tornou-se uma griffe. Mas o que fazia do primeiro filme uma deliciosa sessão de terror acabou se perdendo no meio do caminho entre o original e este seu terceiro capítulo.
Dessa vez o assassino (ou assassinos) que perseguia a jovem Sidney Prescott (a cada vez pior Neve Campbell) começa a massacrar os atores que filmam “A punhalada 3” – sacaram a ironia óbvia? – que é a segunda continuação de um filme de terror que conta a história mostrada no filme original. As pistas seguidas pelo detetive Mark Kincaid (Patrick Dempsey antes de voltar aos holofotes com a série “Gray’s anatomy”) parecem levar à juventude de Maureen, a mãe de Sidney, que, ao que parece, estava envolvida no mundo do cinema. O principal suspeito dos crimes passa a ser um misterioso produtor (vivido por um constrangido Lance Henriksen). E logicamente, Sidney sai de seu anonimato para ajudar a polícia a capturar o criminosoe reencontra seus amigos, a repórter Gale Weathers (Courtney Cox ainda Arquette) e o policial aposentado Dewey (David Arquette).

O que funcionou às mil maravilhas no primeiro capítulo da série continua: as mortes ainda são violentas e a tensão se mantém ocasionalmente. O que deu certo com reservas na segunda parte ainda existe: as citações à cultura pop e as brincadeiras com celebridades pipocam a cada momento – dessa vez com Carrie Fisher e a dupla Jay & Silent Bob, dos filmes de Kevin Smith. O elenco coadjuvante também tenta salvar a pátria, em especial a sempre divertida Parker Posey, musa do cinema independente americano dos anos 90 que interpreta uma atriz chegada a laboratórios... Mas fica evidente a falta que faz a presença de Kevin Williamson por trás das páginas do roteiro. A metalinguagem, que é interessante em certos momento e simplesmente banal em outros, é exagerada a ponto de diluir o impacto da revelação do nome do criminoso, um final bastante anti-climático que encerra de maneira apenas regular o que poderia ser uma das trilogias mais bacanas do cinema recente - e que ganhou uma nova vida em 2011.
Não deixa de ser irônico que um filme como o primeiro “Pânico”, que em 1997 causou a ressurreição do gênero “terror adolescente” ao usar inteligentemente todos os clichês possíveis e imagináveis tenha se transformando em um objeto do próprio deboche. Ao brincar com a temática de filmes como “Sexta-feira 13” e “A hora do pesadelo” – este último criado pelo mesmo Wes Craven que dirigiu “Pânico” – a obra escrita por Kevin Williamson e comandada por Craven rendeu muito mais do que o esperado e tornou-se uma griffe. Mas o que fazia do primeiro filme uma deliciosa sessão de terror acabou se perdendo no meio do caminho entre o original e este seu terceiro capítulo.
Dessa vez o assassino (ou assassinos) que perseguia a jovem Sidney Prescott (a cada vez pior Neve Campbell) começa a massacrar os atores que filmam “A punhalada 3” – sacaram a ironia óbvia? – que é a segunda continuação de um filme de terror que conta a história mostrada no filme original. As pistas seguidas pelo detetive Mark Kincaid (Patrick Dempsey antes de voltar aos holofotes com a série “Gray’s anatomy”) parecem levar à juventude de Maureen, a mãe de Sidney, que, ao que parece, estava envolvida no mundo do cinema. O principal suspeito dos crimes passa a ser um misterioso produtor (vivido por um constrangido Lance Henriksen). E logicamente, Sidney sai de seu anonimato para ajudar a polícia a capturar o criminosoe reencontra seus amigos, a repórter Gale Weathers (Courtney Cox ainda Arquette) e o policial aposentado Dewey (David Arquette).

O que funcionou às mil maravilhas no primeiro capítulo da série continua: as mortes ainda são violentas e a tensão se mantém ocasionalmente. O que deu certo com reservas na segunda parte ainda existe: as citações à cultura pop e as brincadeiras com celebridades pipocam a cada momento – dessa vez com Carrie Fisher e a dupla Jay & Silent Bob, dos filmes de Kevin Smith. O elenco coadjuvante também tenta salvar a pátria, em especial a sempre divertida Parker Posey, musa do cinema independente americano dos anos 90 que interpreta uma atriz chegada a laboratórios... Mas fica evidente a falta que faz a presença de Kevin Williamson por trás das páginas do roteiro. A metalinguagem, que é interessante em certos momento e simplesmente banal em outros, é exagerada a ponto de diluir o impacto da revelação do nome do criminoso, um final bastante anti-climático que encerra de maneira apenas regular o que poderia ser uma das trilogias mais bacanas do cinema recente - e que ganhou uma nova vida em 2011.
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