CAROL (Carol, 2015, The Weinstein Company, 118min) Direção: Todd Haynes. Roteiro: Phyllis Nagy, romance de Patricia Highsmith. Fotografia: Edward Lachman. Montagem: Affonso Gonçalves. Música: Carter Burwell. Figurino: Sandy Powell. Direção de arte/cenários: Judy Becker/Heather Loeffler. Produção executiva: Dorothy Berwin, Cate Blanchett, Robert Jolliffe, Danny Perkins, Tessa Ross, Thorsten Schumacher, Andrew Upton, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Elizabeth Karlsen, Christine Vachon, Stephen Wooley. Elenco: Cate Blanchett, Rooney Mara, Sarah Paulson, Kyle Chandler, Jake Lacy, John Magaro. Estreia: 17/5/15 (Festival de Cannes)
6 indicações ao Oscar: Atriz (Cate Blanchett), Atriz Coadjuvante (Rooney Mara), Roteiro Adaptado, Fotografia, Trilha Sonora Original, Figurino
Vencedor da Palma de Ouro (Melhor Atriz) no Festival de Cannes: Rooney Mara
Em 1952, um romance chamado "The price of salt", escrito por uma autora chamada Claire Morgan chegou às livrarias norte-americanas contando a história de amor entre uma socialite e uma jovem aspirante a fotógrafa, mais jovem e inexperiente. Nos anos 60, uma tentativa de adaptar o livro para as telas, com a estrela Lana Turner no papel principal, acabou abortada - e é difícil, hoje em dia, imaginar como poderia ter sido, uma vez que na época a censura sobre os estúdios hollywoodianos era rígida e conservadora ao extremo, a ponto de, segundo consta, uma adaptação ter sido feita com a alteração do sexo da protagonista. Relançado em 1984 por uma editora especializada em literatura lésbica, o livro voltou à pauta, mas foi somente em 1990 que, depois de muitos rumores, finalmente a desconhecida Morgan resolveu assumir sua verdadeira identidade em uma nova edição inglesa: a autora do polêmico romance era a mesma Patricia Highsmith cujo talento para as tramas de suspense já havia inspirado Alfred Hitchcock (em "Pacto sinistro", de 1951), René Clement ("O sol por testemunha", de 1960) e Wim Wenders ("O amigo americano", de 1977). Inspirada em uma história vivida pela própria Highsmith nos anos 40, "The price of salt"só viu a luz dos refletores mais de sessenta anos depois de sua primeira publicação: com o título de "Carol", o filme de Todd Haynes estreou no Festival de Cannes de 2015 sob uma chuva de calorosos e demorados aplausos, e saiu da Riviera Francesa com o prêmio de melhor atriz para Rooney Mara. Começava ali sua consagração como um dos melhores filmes da temporada.
Unanimemente elogiado como um drama romântico elegante e intenso, "Carol" foi colecionando prêmios e indicações por toda a sua carreira internacional, até culminar na agridoce lista dos candidatos ao Oscar: tido como certo na disputa, acabou ficando de fora dos concorrentes à melhor filme e diretor - mesmo que Haynes já tivesse, então, prêmios dos críticos de Nova York, Boston, Toronto e da National Society of Film Critics. A esnobada da Academia - que apesar disso lembrou do filme em outras categorias importantes, como atriz, atriz coadjuvante e roteiro adaptado - decepcionou os fãs, mas não diminui a importância do filme. Um dos mais sensíveis e maduros retratos do amor entre mulheres mostrados nas telas, "Carol" é também uma história sobre tolerância, amadurecimento e a importância que as escolhas tem na vida de qualquer pessoa. Emoldurado por um visual arrebatador, uma trilha sonora impecável e um elenco fascinante, é também uma bela e dolorosa história de amor e desejo, contada através da lente da sofisticação e da sutileza.
Interpretada por uma Cate Blanchett cada vez mais etérea e deslumbrante, Carol é uma mulher da alta sociedade nova-iorquina dos anos 50, presa por convenções sociais a um casamento sem amor e a um relacionamento quase abusivo com o agressivo Harge Aird (Kyle Chandler, em atuação expressiva e forte). Para não perder a guarda da filha pequena, Carol mantém discrição de seus romances extraconjugais com outras mulheres, mas é lógico que isso não escapa da atenção do marido, que finge desconhecer esse lado de sua personalidade. As coisas começam a sair do controle, porém, quando Carol conhece e se sente imediatamente atraída por Therese Belivet (Rooney Mara, indicada ao Oscar de coadjuvante mesmo sendo tão protagonista quanto Blanchett). Tímida e inexperiente, Therese sonha em seguir uma carreira de fotógrafa e conhece a delicada socialite quando está em um emprego temporário de Natal. Não demora para que o charme e a poder de sedução de Carol acabe por conquistar a jovem, que se entrega, então, em um romance até então inédito em sua vida. O idílio entre as duas, porém, é posto à prova quando Harge resolve lançar mão de seu maior trunfo para separá-las e manter a esposa a seu lado. Confrontada com a verdade sobre si mesma em vias de ser exposta, a Carol resta contar com o apoio da melhor amiga, Abby (Sarah Paulson), e decidir qual o melhor caminho para sua vida: o amor ou a filha.
Fotografado com precisão por Edward Lachman - que usa e abusa de superfícies envidraçadas como metáfora de tudo que separa as protagonistas - e com uma reconstituição de época deslumbrante (o figurino de Sandy Powell também foi lembrado pelo Oscar), "Carol" é um filme cuja elegância é indiscutível. A bela trilha sonora de Carter Burwell pontua com determinação o tom imposto pela direção romântica de Haynes, reforçando com sutileza o turbilhão de sentimentos envolvidos na trama. Cuidadoso com todos os detalhes, o cineasta faz uso de pequenas ações para sublinhar as emoções de suas personagens - Carol fuma apenas em situações extremas, nunca quando está feliz ou realizada, por exemplo - e constrói, delicadamente, uma história onde cada olhar, cada gesto, cada entonação de voz é essencial para a melhor assimilação de tudo que é mostrado, como um trabalho de ourives que dá a cada pedaço da joia sua devida importância para a beleza do conjunto. Orquestrando até mesmo as cenas de sexo com extremo bom-gosto, o diretor conta também com a ajuda imprescindível de um elenco em dias muito inspirados.
Injustamente esquecido pelas cerimônias de premiação, Kyle Chandler entrega um desempenho exemplar como o terceiro vértice do triângulo amoroso central, o marido traído que transforma em obsessão sua determinação em destruir o romance extraconjugal da esposa, mesmo que usando de subterfúgios eticamente dúbios. Rooney Mara, justificando seu prêmio em Cannes e sua indicação ao Oscar, constrói uma Therese cuja fragilidade física vai se transformando, aos poucos, em uma coragem de aço, e Cate Blanchett desfila sua classe pela tela com uma personagem que lhe dá a chance de explorar todas as nuances de seu imenso talento: sem apelar para cenas lacrimosas ou piegas, ela oferece uma atuação devastadora, centrada unicamente no uso exemplar da voz, do corpo e do olhar. Não é à toa que o filme tem o nome de sua personagem: Blanchett é uma força da natureza que transforma o ato de acompanhar uma história de amor simples e corriqueira em uma experiência recompensadora. "Carol" não é apenas uma love story homossexual: é um conto sobre a força do amor e da paixão sobre o preconceito e a intolerância. Belíssimo!
Filmes, filmes e mais filmes. De todos os gêneros, países, épocas e níveis de qualidade.
Mostrando postagens com marcador TODD HAYNES. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador TODD HAYNES. Mostrar todas as postagens
domingo
sexta-feira
LONGE DO PARAÍSO
LONGE DO PARAÍSO (Far from heaven, 2002, Focus Features, 107min) Direção e roteiro: Todd Haynes. Fotografia: Edward Lachman. Montagem: James Lyons. Música: Elmer Bersntein. Figurino: Sandy Powell. Direção de arte/cenários: Mark Friedberg/Ellen Christiansen. Produção executiva: George Clooney, Eric Robison, John Sloss, Steven Soderbergh, John Wells. Produção: Jody Patton, Christine Vachon. Elenco: Julianne Moore, Dennis Quaid, Dennis Haysbert, Patricia Clarkson, James Rebhorn, Viola Davis. Estreia: 22/11/02
4 indicações ao Oscar: Atriz (Julianne Moore), Roteiro Original, Fotografia, Trilha Sonora Original
Um dos mais populares cineastas da década de 50, o alemão Douglas Sirk teve uma história dramática o suficiente para chegar às telas: quando o nazismo começou a ameaçar o mundo, em 1937, ele teve que abandonar seu país devido às perseguições a sua segunda mulher, a atriz de teatro Hilde Jary. Quem a denunciou (obrigando o casal a fugir para a Itália) foi a primeira esposa de Sirk, a mãe do seu filho (que ele nunca mais viu). O cineasta que, por ironia, era admirado por Goebbels, chegou em Hollywood em 1941, mas foi depois de 1950 que tornou-se uma espécie de marca registrada. Seus filmes estrelados por Rock Hudson ("Sublime obsessão", de 1954, "Tudo que o céu permite", de 1955 e "Palavras ao vento", de 1956), além do clássico "Imitação da vida", que Lana Turner estrelou em 1959 tinham como assinatura um visual extravagante (hoje denominado "kitsch") e um pendor para o melodrama que, apesar do sucesso comercial, só começou a ser reconhecido como estilo a partir dos anos 60, pela prestigiosa revista francesa "Cahiers du Cinéma".
Um dos maiores admiradores de Sirk, o cineasta Todd Haynes encontrou, em 2002, uma maneira de homenageá-lo. "Longe do paraíso", estrelado por Julianne Moore em um momento de grande inspiração, foi um dos filmes mais elogiados do ano, chegando a concorrer a quatro Oscar: além de Moore, a trilha sonora de Elmer Bernstein, a fotografia de Edward Lachman e o roteiro do diretor também foram indicados, mas todos acabaram perdendo as estatuetas. Mesmo assim, o filme de Haynes é um dos mais bem-acabados exemplares de um gênero que era extremamente popular há 60 anos mas que, com o advento do que convencionou-se chamar de "cinema moderno" caiu no limbo: o melodrama. Dono de um visual caprichadíssimo e uma trama que explora os preconceitos e as relações sociais da época, "Longe do paraíso" é uma poderosa vitrine para o talento de todos os envolvidos.

Julianne Moore - no mesmo ano em que também concorreu ao Oscar como coadjuvante por "As horas" - vive Cathy Whitaker, uma dona-de-casa perfeita dos anos 50. Sua vida consiste em cuidar da casa, dos filhos e do marido, o executivo Frank (Dennis Quaid, na melhor atuação de sua carreira), além de ser uma espécie de exemplo para todas as amigas. Seu mundo cor-de-rosa vira do avesso, porém, quando ela descobre que seu marido é homossexual - fato que levará o casal a tentar até mesmo eletrochoques - e começa uma amizade desinteressada por Raymond Deagan (Dennis Haysbert, o presidente dos EUA nas primeiras temporadas da série "24 horas"), o jardineiro de sua casa. Sua relação com um homem negro choca a sociedade e a leva a questionar a fragilidade de sua vida aparentemente intocável.
Além de seu elenco impecável - que também conta com a sempre ótima Patricia Clarkson - "Longe do paraíso" conta com um visual deslumbrante, que remete diretamente ao estilo de cinema que se pretende louvar. Cada cena, milimetricamente elaborada, é uma festa para os olhos, de um colorido obtido através do uso dos mesmos equipamentos utilizados na época em que se passa a trama de Haynes. O technicolor brilhante não apenas conta à audiência como eram os filmes então, e sim a mergulha diretamente no universo de Cathy, de cores exageradas que escondem a escuridão de sua vida matrimonial. Em conjunto com a grandiloquente música do maestro Elmer Bernstein (em seu último trabalho), a reconstituição de época detalhista, a fotografia e o roteiro (que consegue fugir da simples homenagem para ter uma potente vida própria), o filme do diretor de "Velvet goldmine" é um presente para os fãs do cinemão hollywoodiano que não se faz mais no século XXI. E talvez por isso possa parecer tão restrito.
"Longe do paraíso" não foi um sucesso de bilheteria, tendo rendido pouco mais de 15 milhões de dólares no mercado doméstico, o que não deixa de ser esperado. Mas é um dos dramas mais interessantes dos anos 2000, tanto em termos visuais quanto dramáticos. E Julianne Moore é um espetáculo à parte.
4 indicações ao Oscar: Atriz (Julianne Moore), Roteiro Original, Fotografia, Trilha Sonora Original
Um dos mais populares cineastas da década de 50, o alemão Douglas Sirk teve uma história dramática o suficiente para chegar às telas: quando o nazismo começou a ameaçar o mundo, em 1937, ele teve que abandonar seu país devido às perseguições a sua segunda mulher, a atriz de teatro Hilde Jary. Quem a denunciou (obrigando o casal a fugir para a Itália) foi a primeira esposa de Sirk, a mãe do seu filho (que ele nunca mais viu). O cineasta que, por ironia, era admirado por Goebbels, chegou em Hollywood em 1941, mas foi depois de 1950 que tornou-se uma espécie de marca registrada. Seus filmes estrelados por Rock Hudson ("Sublime obsessão", de 1954, "Tudo que o céu permite", de 1955 e "Palavras ao vento", de 1956), além do clássico "Imitação da vida", que Lana Turner estrelou em 1959 tinham como assinatura um visual extravagante (hoje denominado "kitsch") e um pendor para o melodrama que, apesar do sucesso comercial, só começou a ser reconhecido como estilo a partir dos anos 60, pela prestigiosa revista francesa "Cahiers du Cinéma".
Um dos maiores admiradores de Sirk, o cineasta Todd Haynes encontrou, em 2002, uma maneira de homenageá-lo. "Longe do paraíso", estrelado por Julianne Moore em um momento de grande inspiração, foi um dos filmes mais elogiados do ano, chegando a concorrer a quatro Oscar: além de Moore, a trilha sonora de Elmer Bernstein, a fotografia de Edward Lachman e o roteiro do diretor também foram indicados, mas todos acabaram perdendo as estatuetas. Mesmo assim, o filme de Haynes é um dos mais bem-acabados exemplares de um gênero que era extremamente popular há 60 anos mas que, com o advento do que convencionou-se chamar de "cinema moderno" caiu no limbo: o melodrama. Dono de um visual caprichadíssimo e uma trama que explora os preconceitos e as relações sociais da época, "Longe do paraíso" é uma poderosa vitrine para o talento de todos os envolvidos.

Julianne Moore - no mesmo ano em que também concorreu ao Oscar como coadjuvante por "As horas" - vive Cathy Whitaker, uma dona-de-casa perfeita dos anos 50. Sua vida consiste em cuidar da casa, dos filhos e do marido, o executivo Frank (Dennis Quaid, na melhor atuação de sua carreira), além de ser uma espécie de exemplo para todas as amigas. Seu mundo cor-de-rosa vira do avesso, porém, quando ela descobre que seu marido é homossexual - fato que levará o casal a tentar até mesmo eletrochoques - e começa uma amizade desinteressada por Raymond Deagan (Dennis Haysbert, o presidente dos EUA nas primeiras temporadas da série "24 horas"), o jardineiro de sua casa. Sua relação com um homem negro choca a sociedade e a leva a questionar a fragilidade de sua vida aparentemente intocável.
Além de seu elenco impecável - que também conta com a sempre ótima Patricia Clarkson - "Longe do paraíso" conta com um visual deslumbrante, que remete diretamente ao estilo de cinema que se pretende louvar. Cada cena, milimetricamente elaborada, é uma festa para os olhos, de um colorido obtido através do uso dos mesmos equipamentos utilizados na época em que se passa a trama de Haynes. O technicolor brilhante não apenas conta à audiência como eram os filmes então, e sim a mergulha diretamente no universo de Cathy, de cores exageradas que escondem a escuridão de sua vida matrimonial. Em conjunto com a grandiloquente música do maestro Elmer Bernstein (em seu último trabalho), a reconstituição de época detalhista, a fotografia e o roteiro (que consegue fugir da simples homenagem para ter uma potente vida própria), o filme do diretor de "Velvet goldmine" é um presente para os fãs do cinemão hollywoodiano que não se faz mais no século XXI. E talvez por isso possa parecer tão restrito.
"Longe do paraíso" não foi um sucesso de bilheteria, tendo rendido pouco mais de 15 milhões de dólares no mercado doméstico, o que não deixa de ser esperado. Mas é um dos dramas mais interessantes dos anos 2000, tanto em termos visuais quanto dramáticos. E Julianne Moore é um espetáculo à parte.
terça-feira
VELVET GOLDMINE
VELVET GOLDMINE (Velvet Goldmine, 1998, Channel Four Films/Goldywn Films/Killer Films/Miramax Films, 124min) Direção e roteiro: Todd Haynes. Fotografia: Maryse Alberti. Montagem: James Lyons. Música: Carter Burwell, Craig Wedren. Figurino: Sandy Powell. Direção de arte/cenários: Christopher Hobbs. Produção executiva: Scott Meeks, Sandy Stern, Michael Stipe, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Christine Vachon. Elenco: Ewan McGregor, Christian Bale, Toni Colette, Jonathan Rhys-Meyers. Estreia: 06/11/98
Indicado ao Oscar de Figurino
Houve uma época em que o rock - baluarte da rebeldia e da transgressão social/sexual/musical - deixou de ser apenas diversão para exibir sua tendência revolucionária. Espalhafatoso, andrógino e influente, o movimento que convencionou-se chamar de "glam rock" legou ao mundo nomes indispensáveis para o mundo pop, como David Bowie, Iggy Pop e Lou Reed. Esse efervescente período, cuja influência é sentida até hoje nas apresentações de Lady Gaga, por exemplo, é o pano de fundo para um dos mais criativos e excêntricos filmes ingleses dos anos 90. Dirigido pelo ousado Todd Haynes, o misto de drama e musical "Velvet goldmine" disfarça as trajetórias de Bowie, Pop e Reed em um roteiro que mistura rock, liberdade sexual e Oscar Wilde no mesmo pacote. Pode parecer estranho - e é - mas é também fascinante.
Em 1984, Arthur Stuart, um repórter inglês vivido por Christian Bale antes de tornar-se astro, é escalado por seus superiores para descobrir o paradeiro de um antigo astro de rock chamado Brian Slade (Jonathan Rhys-Meyers), que caiu em desgraça no início dos anos 70 depois de forjar a própria morte no palco. A missão aparentemente fútil que o jovem recebe, porém, o faz lembrar de sua adolescência, quando, fã absoluto de Slade, descobriu através dele a sexualidade e a liberdade de expressão e vida. Fascinado com a possibilidade de reviver esse período de sua vida, ele parte atrás das pessoas que podem saber algo sobre o cantor (que desapareceu desde sua falsa morte). Em sua lista estão principalmente Mandy (Toni Colette), a ex-mulher de Slade, e o roqueiro Curt Wild (Ewan McGregor), que teve um tumultuado e criativo relacionamento com ele.
Contando sua história dividindo o presente (1984) com o passado (década de 70), Haynes construiu uma espécie de quebra-cabeça não apenas para seu protagonista mas também para o público, que aos poucos vai descobrindo os acontecimentos que uniram Slade, Mandy e Curt em uma relação tão complexa. Misturando uma estética fake de videoclip (com números musicais excêntricos e sexualmente chamativos) com um drama a respeito da busca pela personalidade, "Velvet goldmine" usa e abusa de seu direito de ser extravagante, embaralhando suas cartas de modo quase anárquico, para o que colabora a engenhosa edição de James Lyons. É somente em sua reta final que a audiência fica realmente sabendo a razão de todo o interesse de Arthur pelo paradeiro de Slade - e o final um tanto ambíguo talvez incomode alguma parcela do público, ainda que desde o início fique claro de que não se trata de um filme convencional.

E convencional é o último adjetivo que pode ser aplicado a "Velvet goldmine". Desde suas primeiras cenas a plateia é convidada a fazer parte da viagem quase surreal proposta pelo cineasta, que começa a contar sua história mostrando a infância de Oscar Wilde (cujos textos estão espalhados pelo roteiro) e depois dando um salto de cem anos à frente. E se Haynes teve coragem de criar um espetáculo tão reluzente teve também a sorte de contar com uma equipe de profissionais acima de qualquer crítica, a começar pelo produtor executivo Michael Stipe, líder e vocalista da banda de rock REM. O figurino genial de Sandy Powell é espalhafatoso como convém (e concorreu merecidamente ao Oscar), a trilha sonora celebra com exatidão o som de sua época e o elenco se entrega com coragem e tesão na brincadeira. Se Toni Colette dá um banho como a complacente e posteriormente amargurada Mandy Slade e Jonathan Rhys-Meyers se sai muito bem em seu primeiro papel de destaque (em uma atuação tão afetada que tem ecos até hoje), são Ewan McGregor e Christian Bale quem se destacam. Bale vive com perfeição as duas fases de sua personagem (de adolescente deslumbrado com as potencialidades de seus desejos ao jornalista quase tímido) e McGregor canta e encanta como o polêmico e sexy Curt Wild. Sem medo algum, o ator de "Trainspotting" se desnuda fisicamente, solta a voz e dá profundidade a uma personagem complexa e controversa.
"Velvet goldmine" definitivamente não é para qualquer público. É necessário interesse no tema, no período retratado, no elenco ou em suas qualidades artísticas para que seja possível admirar todo o conjunto. Mas é um filme que merece ser conhecido nem que seja para não gostar.
Indicado ao Oscar de Figurino
Houve uma época em que o rock - baluarte da rebeldia e da transgressão social/sexual/musical - deixou de ser apenas diversão para exibir sua tendência revolucionária. Espalhafatoso, andrógino e influente, o movimento que convencionou-se chamar de "glam rock" legou ao mundo nomes indispensáveis para o mundo pop, como David Bowie, Iggy Pop e Lou Reed. Esse efervescente período, cuja influência é sentida até hoje nas apresentações de Lady Gaga, por exemplo, é o pano de fundo para um dos mais criativos e excêntricos filmes ingleses dos anos 90. Dirigido pelo ousado Todd Haynes, o misto de drama e musical "Velvet goldmine" disfarça as trajetórias de Bowie, Pop e Reed em um roteiro que mistura rock, liberdade sexual e Oscar Wilde no mesmo pacote. Pode parecer estranho - e é - mas é também fascinante.
Em 1984, Arthur Stuart, um repórter inglês vivido por Christian Bale antes de tornar-se astro, é escalado por seus superiores para descobrir o paradeiro de um antigo astro de rock chamado Brian Slade (Jonathan Rhys-Meyers), que caiu em desgraça no início dos anos 70 depois de forjar a própria morte no palco. A missão aparentemente fútil que o jovem recebe, porém, o faz lembrar de sua adolescência, quando, fã absoluto de Slade, descobriu através dele a sexualidade e a liberdade de expressão e vida. Fascinado com a possibilidade de reviver esse período de sua vida, ele parte atrás das pessoas que podem saber algo sobre o cantor (que desapareceu desde sua falsa morte). Em sua lista estão principalmente Mandy (Toni Colette), a ex-mulher de Slade, e o roqueiro Curt Wild (Ewan McGregor), que teve um tumultuado e criativo relacionamento com ele.
Contando sua história dividindo o presente (1984) com o passado (década de 70), Haynes construiu uma espécie de quebra-cabeça não apenas para seu protagonista mas também para o público, que aos poucos vai descobrindo os acontecimentos que uniram Slade, Mandy e Curt em uma relação tão complexa. Misturando uma estética fake de videoclip (com números musicais excêntricos e sexualmente chamativos) com um drama a respeito da busca pela personalidade, "Velvet goldmine" usa e abusa de seu direito de ser extravagante, embaralhando suas cartas de modo quase anárquico, para o que colabora a engenhosa edição de James Lyons. É somente em sua reta final que a audiência fica realmente sabendo a razão de todo o interesse de Arthur pelo paradeiro de Slade - e o final um tanto ambíguo talvez incomode alguma parcela do público, ainda que desde o início fique claro de que não se trata de um filme convencional.

E convencional é o último adjetivo que pode ser aplicado a "Velvet goldmine". Desde suas primeiras cenas a plateia é convidada a fazer parte da viagem quase surreal proposta pelo cineasta, que começa a contar sua história mostrando a infância de Oscar Wilde (cujos textos estão espalhados pelo roteiro) e depois dando um salto de cem anos à frente. E se Haynes teve coragem de criar um espetáculo tão reluzente teve também a sorte de contar com uma equipe de profissionais acima de qualquer crítica, a começar pelo produtor executivo Michael Stipe, líder e vocalista da banda de rock REM. O figurino genial de Sandy Powell é espalhafatoso como convém (e concorreu merecidamente ao Oscar), a trilha sonora celebra com exatidão o som de sua época e o elenco se entrega com coragem e tesão na brincadeira. Se Toni Colette dá um banho como a complacente e posteriormente amargurada Mandy Slade e Jonathan Rhys-Meyers se sai muito bem em seu primeiro papel de destaque (em uma atuação tão afetada que tem ecos até hoje), são Ewan McGregor e Christian Bale quem se destacam. Bale vive com perfeição as duas fases de sua personagem (de adolescente deslumbrado com as potencialidades de seus desejos ao jornalista quase tímido) e McGregor canta e encanta como o polêmico e sexy Curt Wild. Sem medo algum, o ator de "Trainspotting" se desnuda fisicamente, solta a voz e dá profundidade a uma personagem complexa e controversa.
"Velvet goldmine" definitivamente não é para qualquer público. É necessário interesse no tema, no período retratado, no elenco ou em suas qualidades artísticas para que seja possível admirar todo o conjunto. Mas é um filme que merece ser conhecido nem que seja para não gostar.
Assinar:
Comentários (Atom)
OS AGENTES DO DESTINO
OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...
-
SOMMERSBY, O RETORNO DE UM ESTRANHO (Sommersby, 1993, Warner Bros, 114min) Direção: Jon Amiel. Roteiro: Nicholas Meyer, Sarah Kernochan, h...
-
EVIL: RAÍZES DO MAL (Ondskan, 2003, Moviola Film, 113min) Direção: Mikael Hafstrom. Roteiro: Hans Gunnarsson, Mikael Hafstrom, Klas Osterg...
-
TEMPO DE DESPERTAR (Awakenings, 1990, Columbia Pictures, 121min) Direção: Penny Marshall. Roteiro: Steven Zaillian, livro de Oliver Sacks....



