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quinta-feira

CAFÉ DA MANHÃ EM PLUTÃO


CAFÉ DA MANHÃ EM PLUTÃO (Breakfast on Pluto, 2005, Pathé Pictures International, 128min) Direção: Neil Jordan. Roteiro: Neil Jordan, Pat McCabe, romance de Patrick McCabe. Fotografia: Declan Quinn. Montagem: Tony Lawson. Música: Anna Jordan. Figurino: Elmer Ní Mhaoldomhnaigh. Direção de arte/cenários: Tom Conroy/Crispian Sallis, Sara Wan. Produção executiva: François Ivernel, Brendan McCarthy, Cameron McCracken, Mark Woods. Produção: Neil Jordan, Alan Moloney, Stephen Wooley. Elenco: Cillian Murphy, Liam Neeson, Ruth Negga, Stephen Rea, Brendan Gleeson. Estreia: 03/9/2005 (Festival de Telluride)

Em 1993, o cineasta Neil Jordan ganhou o Oscar de roteiro original por "Traídos pelo desejo", uma história de amor fora do comum que surpreendeu plateias pelo mundo todo. Quatro anos mais tarde, viu seu "Michael Collins: o preço da liberdade" dar a Liam Neeson o prêmio de melhor ator no Festival de Berlim - por interpretar ninguém menos que o fundador do IRA, o famigerado Exército Republicano Irlandês que por décadas se manteve nas manchetes internacionais devido a seus atos contra o domínio britânico na ilha. Sendo assim, o espectador que estranhar a união desses dois fatores - o político e o sexual - em "Café da manhã em Plutão", está no mínimo desavisado. Mestre em mesclar temas polêmicos com personagens excêntricos, Jordan encontrou no livro de Patrick McCabe o material ideal para seguir-se ao pouco visto (e pouco lembrado) "Lance de sorte", lançado em 2002: sem pesar a mão no tom político da obra e concentrando seu foco na trajetória de um protagonista sui generis, o diretor/roteirista/produtor comprova seu talento em transitar por diferentes gêneros sem jamais abdicar de suas características artísticas. Sim, "Café da manhã em Plutão" não é apenas um drama político, nem tampouco somente uma produção destinada ao público LGBTQ+: apresenta também elementos de musical, comédia e romance, sempre amparado em uma atuação primorosa de Cillian Murphy.

Indicado ao Golden Globe de melhor ator em comédia/musical e aplaudido unanimemente pela crítica internacional, Murphy encontrou em Patrick Braden o personagem de uma carreira. Adotando um ar ingênuo e doce que contrasta violentamente com os incidentes que atravessam o caminho de seu protagonista, o ator-amuleto de Christopher Nolan foge radicalmente dos clichês que poderiam transformá-lo em caricatura e entrega um desempenho memorável. Desviando habilmente das armadilhas do roteiro, Murphy evita o sentimentalismo (sem evitar mergulhar nos momentos mais comoventes), o exagero (apesar da natureza inerentemente festiva de parte de sua ambientação) e o humor fácil (mesmo nas situações surreais  e personagens bizarras criadas por McCabe, ). Comandando um elenco coadjuvante que conta com nomes fortes como Liam Neeson, Stephen Rea, Brendan Gleeson, Ruth Negga (mais de uma década antes de concorrer ao Oscar por "Loving: uma história de amor", de 2016) e Dominic Cooper (em participação não creditada), o protagonista da série "Peaky Blinders" assume sem medo um lado não apenas queer - Patrick Braden, também conhecido como Patricia, não se limita a rótulos simples de gênero e sexualidade, mas jamais deixa de ser crível e apaixonante.


Dividido em 26 capítulos curtos que tornam a narrativa quase episódica, o roteiro de "Café da manhã em Plutão" segue com extrema fidelidade o romance de Patrick McCabe - autor também do livro "Nó na garganta", adaptado pelo mesmo Neil Jordan em 1997. Narrado em primeira pessoa por Patrick, o filme apresenta seu protagonista desde seu nascimento - abandonado na porta de uma igreja sem saber a identidade de seus pais - e segue seu caminho rumo à auto-aceitação ou, na pior das hipóteses, às suas raízes. Rejeitado pela família adotiva que não aceita seus trejeitos e interesses femininos, Patrick encontra abrigo, como era de se esperar, junto aos párias ao seu redor, às pessoas que, assim como ele, se escoram em semelhantes para manter a dignidade e o amor-próprio. Fortalecido pela compreensão de seu novo grupo, ele resolve partir em busca de seus pais e, enquanto acaba se envolvendo em ações do IRA, bandas de rock, prisões inglesas e shows eróticos, descobre sua real identidade: Patricia. Logicamente, enquanto não finaliza sua missão, vai acumulando decepções e encontros fortuitos que desafiam seu otimismo e ingenuidade.

Neil Jordan é um cineasta que sabe explorar dramas humanos - ou nem tão humanos assim, haja visto sua bem-sucedida adaptação do best-seller "Entrevista com o vampiro" (1995) - com elegância e sensibilidade. Aproveitando com maestria o tom irônico e iconoclasta do livro de McCabe, constrói, em "Café da manhã em Plutão", uma obra que flerta ao mesmo tempo com a melancolia e o bom-humor. Trata de temas densos - transexualidade, política, igreja - sem pesar a mão e se imprime à narrativa um ritmo ágil que envolve o espectador sem maiores esforços. Utilizando-se de uma trilha sonora pop de primeira qualidade e elementos lúdicos que surpreendentemente não destoam da atmosfera pretensamente séria (mas nunca aborrecida), Jordan cria uma pequena obra-prima, uma pérola delicada e dotada de um humanismo raro, que conquista pela sinceridade que escorre de cada fotograma e pela interpretação precisa de um Cillian Murphy em dias de inspiração absoluta!

A BALADA DE BUSTER SCRUGGS

A BALADA DE BUSTER SCRUGGS (The ballad of Buster Scruggs, 2018, Netflix, 133min) Direção: Ethan Coen, Joel Coen. Roteiro: Ethan Coen, Joel Coen, contos "All gold canyon", de Jack London, e "The gall who got rattled", de Stewart Edward White. Fotografia: Bruno Delbonnell. Montagem: Roderick Jaynes. Música: Carter Burwell. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: Jess Gonchor/Nancy Haigh. Produção executiva: Jillian Longnecker. Produção: Ethan Coen, Joel Coen, Megan Ellison, Robert Graf, Sue Naegle. Elenco: Tim Blake Nelson, James Franco, Liam Neeson, Zoe Kazan, Brendan Gleeson, Harry Melling, Clancy Brown, David Krumholtz, Stephen Root, Tom Waits, Sam Dillon, Grainger Hines, Saul Rubinek. Estreia: 31/8/2018 (Festival de Veneza)

3 indicações ao Oscar: Roteiro Adaptado, Figurino, Canção Original ("When the cowboy trades his spurs for wings"

Quando foi anunciado que os irmãos Coen estavam desenvolvendo um trabalho para a Netflix, de imediato todos imaginaram uma série - especialmente quando ficou revelado que seu projeto consistia de seis pequenas histórias que tinham em comum a ambientação no Velho Oeste. A ansiedade em relação ao que dois dos cineastas mais festejados de Hollywood apresentariam teve fim no Festival de Veneza de 2018: "A balada de Buster Scruggs" é um filme digno de figurar entre os destaques da carreira da dupla e em nenhum momento parece amarrado a qualquer tipo de limitação que porventura poderia cercear sua criatividade. Mesclando histórias próprias e duas adaptações literárias, os vencedores do Oscar (roteiro por "Fargo", de 1996, e filme, direção e roteiro em 2007, por "Onde os fracos não tem vez") apresentaram a seu fiel público - e a uma extasiada crítica - uma produção caprichadíssima, que consegue equilibrar belas situações dramáticas com seu particular senso de humor. Em "A balada de Buster Scruggs", ironia e delicadeza caminham lado a lado, para deleite do espectador mais exigente.

O filme já começa de forma heterodoxa, em forma de musical: o protagonista da primeira história - e que empresta seu nome para o título da produção - chega a um vilarejo típico do velho oeste cantando e se apresentando como um dos mais procurados pela lei. Consciente de seus talentos como atirador e cantor, ele faz pouco caso do fato de estar sendo caçado e resolve descansar e beber na cantina local. Logo que chega, portanto, ele arruma confusão com um valentão do lugar, o assustador Joe (Clancy Brown) - e, em consequência, transforma o bar no palco de um quebra-quebra generalizado, até ser desafiado em duelo por outro autoconfiante atirador (Willy Watson). O segmento acaba com mais uma canção - a indicada ao Oscar "When the cowboy trades his spurs for wings" - e se destaca pelo inusitado do humor bizarro, pela agilidade e pela atuação impecável de Tim Blake Nelson, que já havia percorrido o musical e a comédia pelas mãos dos Coen no ótimo "E aí, meu irmão, cadê você?", de 2000. A segunda história tem o titulo de "Near algodones" e apresenta um jovem cowboy (James Franco) tentando assaltar a agência bancária do destemido (Stephen Root) e descobrindo, da pior forma possível, que o aparentemente frágil veterano não irá se submeter facilmente à situação. Mais uma vez é o equilibrio entre dois gêneros - faroeste e comédia - que sustenta a ágil narrativa.


O terceiro conto, "Meal ticket", conta as desventuras de um empresário irlandês (Liam Neeson) que percorre as cidades pequenas para apresentar à população o show de Horatio Edwin Harrison (Harry Melling, da série de filmes "Harry Potter", irreconhecível), que, desprovido de pernas e braços, declama uma série de textos célebres. Aos poucos, no entanto, o empresário começa a ver o público rarear - e descobre um outro (e surreal) talento para cuidar. É, sem dúvida, o conto mais tocante, sustentado pelo belo visual e pela interpretação de Melling, que consegue conquistar a plateia mesmo que não fale nenhuma palavra própria - todo o texto declamado por ele vem de outras fontes, como a Bíblia, Shakespeare e Abraham Lincoln, misturados em um monólogo memorável. O quarto segmento, "All gold canyon", é baseado em uma história de Jack London e mostra um experiente garimpeiro, interpretado por Tom Waits, buscando, incansavelmente, o ouro que o deixará rico. Seus esforços, porém, encontram um revés inesperado - e que pode destruir suas chances de entregar-se à aposentadoria. Talvez seja a mais fraca das histórias, mas ainda assim consegue surpreender.

O conto seguinte, "The gal who got rattled", é inspirado na obra de Stewart Edward White, e é a única história protagonizada por uma mulher - no caso, a inocente e tímida Alice Longabaugh (Zoe Kazan), que parte em direção ao Oregon em companhia do irmão, Gilbert (Jefferson Mays) - que lhe arrumou um casamento que também beneficia a seus negócios. O longo trajeto de sua caravana, no entanto, lhes reservas algumas surpresas - capazes de mudar completamente seu destino. Nesse episódio quem se sobressai é a atriz Zoe Kasdan: neta do lendário cineasta Elia Kazan, ela entrega uma performance acima da média, vivendo uma personagem repleta de nuances. O segmento final é o mais, digamos assim, surreal. "The mortal remains" apresenta cinco personagens em uma viagem de diligência em direção a uma cidade do Colorado. No diálogo que sustenta a trama, eles se revelam completamente diferentes um do outro - seja em vivência ou atitudes. E é preciso prestar atenção em cada palavra dita: há uma reviravolta em seus minutos finais, que o deixa ser a conclusão perfeita para o filme. Tal reviravolta é o trunfo da história, assim como seus intérpretes - que incluem os veteranos Brendan Gleeson e Saul Rubinek.

O melhor de "A balada de Buster Scruggs" é que, apesar de ser um filme construído em um formato episódico, ele jamais cai na armadilha da irregularidade. Claro que alguns segmentos chamam mais a atenção que outros - mas isso é de cada espectador. Todas as seis histórias apresentam características da filmografia de seus diretores/roteiristas/produtores e é evidente a qualidade ímpar de cada uma delas. O capricho do filme - independente se visto em uma sala de cinema ou via streaming - chamou a atenção da Academia de Hollywood, que lhe indicou em três categorias do Oscar: roteiro adaptado, figurino e canção original. O preconceito contra plataformas como a Netflix foi maior, entretanto, e essa pequena pérola da carreira de Joel e Ethan Coen acabou ficando de fora da lista de vencedores - sem falar em outras categorias em que ele poderia facilmente ter sido indicado, como direção de arte, fotografia e coadjuvantes: tudo é sensacional em "A balada de Buster Scruggs", que não fica nada a dever aos outros trabalhos da dupla. Um grande pequeno filme!

sábado

A MISSÃO

A MISSÃO (The Mission, 1986, Warner Bros, 125min) Direção: Roland Joffé. Roteiro: Robert Bolt. Fotografia: Chris Menges. Montagem: Jim Clark. Música: Ennio Morricone. Figurino: Enrico Sabbatini. Direção de arte/cenários: Stuart Craig. Produção: Fernando Ghia, David Puttnam. Elenco: Robert De Niro, Jeremy Irons, Liam Neeson, Aidan Quinn, Ray McAnally, Cherie Lunghi. Estreia: 16/5/86 (Festival de Cannes)

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Roland Joffé), Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Oscar de Melhor Fotografia
Vencedor de 2 Golden Globes: Roteiro, Trilha Sonora Original
Palma de Ouro (Melhor Filme) no Festival de Cannes

Não é à toa que a Igreja Católica tem grande carinho e admiração por "A missão", a ponto de colocá-lo frequentemente em listas dos melhores filmes religiosos de todos os tempos: ao romantizar a exploração jesuíta entre indígenas do século XVIII e torná-la menos violenta e colonizadora do que realmente foi, a produção dirigida por Roland Joffé elege, como um de seus heroicos protagonistas, um padre espanhol dedicado e corajoso, capaz de qualquer sacrifício para proteger seus pupilos - inclusive opor-se com veemência contra o reino de Portugal, que se torna seu maior inimigo. No entanto, se como História o filme pode ser questionado em sua visão um tanto simplista, como cinema é um filme de enormes qualidades - qualidades estas que lhe renderam a Palma de Ouro no Festival de Cannes 86 (além do Grande Prêmio do Júri) e sete indicações ao Oscar, incluindo melhor filme e direção. Uma produção imponente, séria e adulta, "A missão" comprova a tendência de seu diretor em tratar de temas relevantes e socialmente interessantes - a despeito de seu potencial comercial. Prova disso é a renda do filme no mercado doméstico (EUA e Canadá): apenas 17 milhões de dólares, uma renda que não pagou nem mesmo o custo total da produção. Seu relativo fracasso não chega a ser surpreendente: em uma época em que as salas de cinema lotavam de espectadores dispostos a aplaudir superproduções caras como "Aliens: o resgate" ou despretensiosas como "Crocodilo Dundee", o filme de Joffé surgiu como uma opção "difícil" e "densa", mirando um público mais sofisticado - que também não lhe deu a atenção devida, preferindo, assim como a Academia, o Vietnã de Oliver Stone, em "Platoon".

"A missão" é um grande filme, valorizado pela direção segura de Joffé, pela belíssima fotografia de Chris Menges (premiada com o Oscar), pela trilha sonora arrebatadora de Ennio Morricone - e pela presença magnética de Robert De Niro e Jeremy Irons nos papéis principais. O primeiro interpreta (com toda a carga dramática com que o público já está acostumado) Rodrigo Mendoza, um conhecido caçador de indígenas - a quem captura para vender como escravos na colônia onde vive, na América do Sul do século XVIII. Irons vive o Padre Gabriel, jesuíta que tem como objetivo de vida catequizar os mesmos índios caçados por Mendoza. O caminho dos dois se cruza quando o caçador, depois de uma tragédia familiar, procura abrigo nas missões comandadas pelo sacerdote: convertido ao catolicismo, ele se torna parte integrante da companhia, convivendo com religiosos e seus catequizandos - até que a Espanha vende o território onde eles trabalham para Portugal e os obriga a pegar em armas para defender a continuidade de seu projeto.


O roteiro de Robert Bolt se divide claramente em três capítulos, cada um com ritmo e desenvolvimento próprios. A primeira parte apresenta os protagonistas, sem muitos diálogos e concentrando seu foco em imagens fortes e poderosas, que estabelecem a personalidade dos personagens e sua relação com o meio em que vivem. Essa primeira etapa acaba quando Mendoza abandona a vida de caçador de escravos para tentar encontrar uma redenção espiritual - e para isso conta com o apoio de Gabriel, outros padres e a comunidade jesuítica fundada por ele. O terceiro capítulo é o mais intenso: confrontados com a possibilidade de perder tudo que foi construído até então, os dois homens tão diferentes entre si se unem - um com a palavra, o outro com a ação - para defender o que acreditam ser um bem maior. Mesmo a violência que surge a partir daí parece sagrada e justificável - e da maneira como é mostrada por Joffé, até poética.

Questões históricas e éticas à parte - é discutível o benefício das missões jesuíticas em termos de colonização, nem sempre tão pacífica como mostrada no filme -, "A missão" funciona perfeitamente como cinema. Roland Joffé é um cineasta que sabe emocionar sem soar panfletário ou melodramático, e essa característica é essencial para que o espectador não se sinta manipulado diante de uma história que já é poderosa por si mesma. O tom quase seco do diretor torna o resultado final menos impactante dramaticamente (a quem já está acostumado a catarses gigantescas e pirotécnicas), mas ressoa com muito mais potência na alma do público. Ao mostrar dois protagonistas tão opostos, o roteiro acerta em cheio, especialmente porque seus atores estão no auge do talento e da maturidade artística - De Niro já tinha dois Oscar em casa e Irons levaria o seu poucos anos mais tarde - e porque não há, entre eles, a busca pelo brilho fácil ou previsível. Assim como fez com Sam Waterston  Haing S. Ngor em "Os gritos do silêncio" - uma dupla improvável que se completa ao encontrar uma missão na vida -, Joffé deu a seus dois atores principais a chance de fugir do óbvio e do já visto. Por essas e outras é que seu filme acaba sendo uma experiência tão gratificante e inesquecível!

quarta-feira

DARKMAN: VINGANÇA SEM ROSTO

DARKMAN: VINGANÇA SEM ROSTO (Darkman, 1990, Universal Pictures, 96min) Direção: Sam Raimi. Roteiro: Sam Raimi, Chuck Pfarrer, Ivan Raimi, Daniel Goldin, Joshua Goldin, estória de Sam Raimi. Fotografia: Bill Pope. Montagem: Bud S. Smith, David Stiven. Música: Danny Elfman. Figurino: Grania Preston. Direção de arte/cenários: Randy Ser/Julie Kay Fanton. Produção: Robert Tapert. Elenco: Liam Neeson, Frances McDormand, Colin Friels, Larry Drake. Estreia: 24/8/90

Aqueles que se surpreenderam, em 2002, com o talento do diretor Sam Raimi em recriar nas telas de cinema as aventuras de Peter Parker em "Homem-aranha" - tornadas ainda mais empolgantes no segundo capítulo, de 2004 - provavelmente ainda tinham na memória apenas sua experiência como o criador dos criativos e sanguinolentos "Uma noite alucinante: a morte do demônio" (1981) e sua continuação, "Uma noite alucinante 2" (1987). Talvez esses mesmos espectadores tivessem esquecido (ou simplesmente ignorado) um filme que, lançado em 1990, já dava pistas sobre o talento de Raimi em contar histórias de super-heróis: "Darkman: vingança sem rosto" pode não ter sido um estouro de bilheteria - rendeu pouco menos de 50 milhões de dólares pelo mundo afora - mas deixava explícito o carinho do cineasta pelo visual de HQ e sua vocação em abraçar antiherois e seus dilemas existenciais. Inspirada em maior ou menor nível por obras como "O fantasma da Ópera", "O corcunda de Notre Dame" e "O homem elefante" - além dos clássicos de horror da Universal Pictures e personagens populares como Batman e O Sombra -, a trama criada por Raimi (e desenvolvida por um time de roteiristas que incluía, sem créditos, os irmãos Coen, amigos do diretor) é uma colcha de retalhos divertida, despretensiosa e ligeira, o passatempo perfeito para uma tarde chuvosa de sábado.

Produzido por um grande estúdio mas com alma de filme independente, "Darkman" nasceu do desejo de Raimi em fazer um filme protagonizado por algum dos heróis de quadrinhos que moldaram sua infância e adolescência. Sem conseguir os direitos de nenhum, ele criou então a história adotada pela Universal Pictures - e sentiu na carne o abismo que separa o mundo do cinema realizado por trocados por aquele comandado por uma corporação hollywoodiana. Mesmo com um orçamento pequeno (de estimados 16 milhões de dólares), ele se viu lutando para manter sua visão artística, constantemente questionada pelos executivos do estúdio - além de um período difícil dirigindo a atriz principal, Frances McDormand, que, a despeito de ser casada com um amigo de Raimi (o também cineasta Joel Coen), mostrou-se tão dedicada a fazer o melhor para o filme que frequentemente batia de frente com o diretor). Assumindo um papel que por pouco não ficou com Julia Roberts (que pulou do projeto para conhecer o estrelato e a fama com "Uma linda mulher"), McDormand tampouco parecia a escolha ideal para protagonizar um filme de pretensões comerciais - até mesmo Demi Moore e Bridget Fonda foram testadas antes que ela finalmente assinasse o contrato. Da mesma forma, o papel principal masculino também não ficou com um ator popular à época: futuramente indicado ao Oscar por "A lista de Schindler" (93) e herói de filmes de ação, Liam Neeson ainda era um ilustre quase desconhecido em 1990, mas conquistou o respeito e a admiração de Sam Raimi graças a seu carisma - e ficou com o papel que quase esteve nas mãos de Bill Paxton e Gary Oldman (já que a opção inicial do criador da história, Bruce Campbell, foi recusada pelos produtores).


O que parecia um fracasso anunciado - as primeiras exibições-teste foram desastrosas - acabou se tornando, porém, um filme que conquistou a crítica e o público (que não fez dele um blockbuster mas que, graças ao marketing da Universal, correu às salas de exibição em busca de um novo "Batman" (89), de Tim Burton, ou "Dick Tracy" (90), de Warren Beatty). Mereceu o sucesso (relativo) que fez. A história é simples e mera desculpa para apresentar um dos personagens mais interessantes da carreira de Raimi: o brilhante cientista Peyton Westlake. Dedicado e inteligente, Peyton está em vias de atingir a perfeição de seu maior objetivo profissional - a criação de pele sintética. Antes disso, porém, ele acaba sendo deixado para morrer em seu laboratório pelos capangas de Louis Strack Jr. (Colin Friels, em papel oferecido a Richard Dreyfuss e James Caan) - de posse involuntária de documentos procurados pelo criminoso, ele vê todo seu trabalho destruído e, tido como morto, ressurge como o misterioso Darkman, que, em busca de vingança para seu rosto destruído, assume identidades alheias, com direito a máscaras impecáveis (mas que duram apenas 100 minutos). Durante sua jornada, ele conta com a ajuda da namorada, a advogada Julie Hastings (Frances McDormand) - a responsável indireta pela tragédia que quase acabou com a vida de seu amado.

Em ritmo ágil e quase juvenil, "Darkman" envolve o espectador especialmente por seu espírito quase mambembe. Mesmo se tratando de um filme produzido por um estúdio tradicional de Hollywood o que ele passa ao público é um desejo de ser quase trash, barato, como uma justa homenagem aos tempos clássicos do cinemão americano, com o bem e o mal nitidamente definidos, efeitos visuais quase capengas e cenas de ação no limite do inverossímil. Como sinal dos tempos, a protagonista feminina não fica apenas gritando e correndo perigo - algo que a personalidade forte de Frances McDormand jamais deixaria transparecer - e o herói tem uma angústia existencial que os distancia de galãs românticos de caráter estoico e nulidade dramática. O trunfo de Sam Raimi (a escalação de atores de verdade e não apenas símbolos sexuais pouco talentosos para os papéis centrais) é também o trunfo do filme como um todo: é uma entretenimento escapista dos mais divertidos, capaz de levar qualquer um de volta à adolescência. Despretensioso, quase deu origem a uma série de televisão - e não é que ela poderia ter sido muito legal?

sexta-feira

SILÊNCIO

SILÊNCIO (Silence, 2016, Cappa Defina Productions/CatchPlay, 161min) Direção: Martin Scorsese. Roteiro: Jay Cocks, Martin Scorsese, romance de Shusaku Endô. Fotografia: Rodrigo Prieto. Montagem: Thelma Schoonmaker. Música: Kathryn Kluge, Kim Allen Kluge. Figurino: Dante Ferretti. Direção de arte/cenários: Dante Ferretti/Francesca LoSchiavo. Produção executiva: Brandt Andersen, Michael Barnes, Paul Breuls, Dale A. Brown, Manu Gargi, Wayne Marc Godfrey, Niels Juul, Nicholas Kazan, Matthew J. Malek, Gianni Nunnari, Chad A. Verdi, Michelle Verdi, Tyler Zacharia. Produção: Vittorio Cecchi Gori, Barbara de Fina, Randall Emmett, David Lee, Gaston Pavlovich, Martin Scorsese, Emma Tillinger Koskoff, Irwin Winkler. Elenco: Andrew Garfield, Adam Driver, Liam Neeson, Ciàran Hinds, Tadanobu Asano, Issei Ogata. Estreia: 29/11/16 (Vaticano)

Indicado ao Oscar de Fotografia

Foi em 1988 que Martin Scorsese ganhou de presente de um padre de Nova York o romance "Silêncio", do escritor japonês Shusaku Endô, sobre dois jovens sacerdotes portugueses que partem para o Japão do século XVII em busca de seu mentor, que evidências apontam ter se tornado um apóstata - ou seja, renegado o cristianismo por medo de ser torturado e morto. Como um católico fervoroso que é, Scorsese ficou profundamente tocado com a história e pensou imediatamente em transformá-la em filme. No entanto, as reações raivosas a seu "A última tentação de Cristo", baseado no romance do grego Nikos Kazantzakis e também com alto teor de questionamento religioso, o levaram a deixar o projeto de lado. Demorou mais de uma década até que, ao lado do amigo Jay Cocks, retomasse a ideia de uma adaptação: de acordo com seus planos, "Silêncio" seria seu filme seguinte ao igualmente complicado (e igualmente projeto de estimação) "Gangues de Nova York" (2002). Mas as coisas, para variar, não correram conforme o esperado e, sem financiamento para uma produção cara e ambiciosa (além de potencialmente fadada a um fracasso comercial), Scorsese tratou de seguir a vida - e levar seu tão merecido Oscar, em 2007, por "Os infiltrados".

Quando finalmente conseguiu dinheiro suficiente para o início das filmagens, marcado para janeiro de 2015, porém, uma outra questão surgiu no caminho do diretor: a impossibilidade de contar com o elenco escalado na ocasião em que o projeto havia sido anunciado. Com a saída de Daniel Day-Lewis, Gael García Bernal e Benicio Del Toro, envolvidos em outros compromissos profissionais, Scorsese se viu obrigado a alterar a idade dos personagens e algumas de suas características para que melhor coubessem em suas novas escolhas. Assim, Day-Lewis foi substituído por Liam Neeson - invertendo a troca de papéis ocorrida em "Lincoln" (2012), de Steven Spielberg - e Gael García Bernal pelo promissor Andrew Garfield. No lugar de Benicio Del Toro - a mudança mais significativa em termos dramáticos - o escolhido foi Adam Driver, que, apesar da participação em "Star Wars: o despertar da força" (2015), dificilmente pode ser considerado um chamariz de bilheteria. Com um elenco talentoso e 40 milhões de dólares nas mãos, Scorsese viajou para Taiwan - maquiada como o Japão do século XVII pela direção de arte caprichada de Dante Ferretti e pela fotografia impressionante de Rodrigo Prieto - e deu início a 73 exaustivos dias de filmagens que finalmente proporcionaram ao diretor a chance de traduzir em imagens as palavras do escritor japonês. Infelizmente, porém, nem tudo mundo se entusiasmou com o resultado final de tanto esforço. Apesar de muitas críticas favoráveis, o filme acabou se tornando uma decepção tanto nas bilheterias (o que era relativamente esperado) quanto nas cerimônias de premiação (onde foi solenemente ignorado, salvo uma indicação ao Oscar de melhor fotografia).


Sem medo de chocar a audiência com sequências bastante explícitas - mas nunca apelativas - de tortura e violência cometidas contra aqueles que tentavam difundir o cristianismo no Japão do século XVII, Scorsese convida o espectador a uma narrativa de ritmo quase contemplativo, que contrasta vivamente com a constante tensão em que vivem os protagonistas, sempre a um passo de mergulharem em um pesadelo de intolerância e crueldade. As poderosas imagens de Rodrigo Prieto - sempre envoltas em brumas e luzes de velas - enfatizam com inteligência o turbilhão emocional de seus personagens, atormentados não apenas pelos perigos que enfrentam dia-a-dia, mas também por suas próprias consciências. A atuação extraordinária de Andrew Garfield - que no mesmo ano foi indicado ao Oscar de melhor ator por outro poderoso desempenho, em "Até o último homem", dirigido por Mel Gibson - encontra apoio no roteiro corajoso de Scorsese e Jay Cocks, que não hesita em intercalar longos diálogos teológicos com sequências inteiras dotadas de um significativo silêncio. A edição suave de Thelma Schoonmaker rompe radicalmente com sua tradição de agilidade e nervosismo, entregando ao público uma narrativa linear e delicada que equilibra a força da história com a suavidade de seus protagonistas, lutando por um ideal de paz e tolerância em um mundo pouco disposto a lhes dar ouvidos. Scorsese passeia com sua câmera por um Japão medieval povoado por pessoas com medo de suas crenças e buscando apoio espiritual diante das atrocidades cometidas em nome de Deus, mas nunca deixa de dar espaço a questionamentos, evitando apontar heróis ou vilões - ainda que, logicamente, o ponto de vista cristão sobreponha-se a qualquer outro no decorrer da trama. Dono de uma fé inabalável mas jamais fechado a discussões a respeito de sua religião, Scorsese mais uma vez levanta questionamentos relevantes na tela de cinema - mas, mais uma vez, parece pregar no deserto.

O fracasso de bilheteria de "Silêncio" não diz respeito à sua qualidade como cinema - Scorsese dá mostras, mais uma vez, do brilhante artista que é em diversos momentos da projeção - mas sim a seu tema. Controvérsia nunca foi algo estranho ao diretor nova-iorquino, que não tem medo de arriscar seu prestígio em projetos potencialmente inflamáveis, mas falar de intolerância religiosa em uma época em que o terrorismo parece uma ameaça indissolúvel apenas afastou ainda mais as plateias que lotam as salas atrás de escapismo. Seu filme é violento - não ao estilo "Os mercenários", mas dotado de uma violência real e sufocante - e inteligente demais para o público médio, mal-acostumado e fútil. Não é uma obra-prima, se estande em demais e por vezes parece um tanto redundante. Mas é visceral, sensível e de extrema relevância, além de apresentar algumas cenas plasticamente deslumbrantes e atuações intensas e apaixonadas - e um final devastador. O tempo fará justiça à "Silêncio", mais um grande filme a figurar no currículo impecável de Martin Scorsese.

quinta-feira

SETE MINUTOS DEPOIS DA MEIA-NOITE

SETE MINUTOS DEPOIS DA MEIA-NOITE (A monster calls, 2016, Apaches Entertainment, 108min) Direção: J.A. Bayona. Roteiro: Patrick Ness, romance homônimo de sua autoria, ideia de Siobhan Dowd. Fotografia: Oscar Faura. Montagem: Jaume Martí, Bernat Vilaplana. Música: Fernando Velázquez. Figurino: Steven Noble. Direção de arte/cenários: Eugenio Caballero/Pilar Revuelta. Produção executiva: Álvaro Augustin, Ghislain Barrois, Sandra Hermida, Jonathan King, Enrique López Lavigne, Patrick Ness, Bill Pohlad, Jeff Skoll, Patrick Wachsberger. Produção: Belén Atienza. Elenco: Lewis MacDougall, Felicity Jones, Sigourney Weaver, Liam Neeson, Toby Kebell, Geraldine Chaplin. Estreia: 09/9/16 (Festival de Toronto)

Aplaudido pelo mundo já em seu primeiro longa-metragem - o assustador "O orfanato" (2007) - e  posteriormente taxado de "o Steven Spielberg espanhol" por causa do sucesso de "O impossível" (2012), que deu uma indicação ao Oscar de melhor atriz à Naomi Watts, J.A. Bayona volta a mostrar sensibilidade na manipulação das emoções humanas (e principalmente infantis) em "Sete minutos depois da meia-noite", um impressionante e comovente drama de fantasia que, assim como "O labirinto do fauno" (2006), do mexicano Guillermo Del Toro, é uma ode à força da imaginação contra as tragédias do dia-a-dia. Ao contrário do premiado filme de Del Toro, porém, o filme de Bayona não fez tanto barulho nas bilheterias (cobriu seu orçamento apenas com a ajuda da arrecadação mundial) e foi solenemente ignorado pelo Oscar. Tal descaso, no entanto, não reflete nem de longe sua imensa qualidade: "Sete minutos depois da meia-noite" é um dos mais inteligentes e criativos filmes dos últimos anos, um devastador drama sobre amadurecimento disfarçado de aventura juvenil.

Inspirado em um livro infantil iniciado por Siobhan Dowd e finalizado por Patrick Ness após a morte do autor original, "Sete minutos depois da meia-noite" é um espetáculo visual de primeira linha à serviço de uma história fascinante e avassaladora, que trata de assuntos espinhosos com o verniz da fantasia e da imaginação pueril. O protagonista é Connor O'Malley (Lewis MacDougall), um menino irlandês de doze anos que está passando pelo pior período de sua curta existência: sua mãe (Felicity Jones, de "A teoria de tudo") está enfrentando um câncer terminal que a impede de conviver com ele de modo ideal; seu pai (Toby Kebell, de "Black Mirror") mora nos EUA com a nova família e não tem planos de incluí-lo em sua vida; sua avó (Sigourney Weaver), com quem não tem a melhor das relações, quer obrigá-lo a morar com ela; e na escola, ele sofre constante bullying por parte dos colegas mais fortes. Em uma noite, exatamente às 12:07, Connor recebe a visita de um monstro gigantesco em formato de árvore que avisa que irá visitá-lo sempre no mesmo horário para lhe contar três histórias que poderão lhe ajudar nessa fase da vida. O monstro completa o aviso informando-o também de que a última história será de sua autoria - e deverá explicar os motivos de seus pesadelos.


De forma brilhante e surpreendente, Bayona transforma um conto de solidão e trauma em um show de efeitos especiais que, ao invés de eclipsar a força da história, sublinha seu tom lúdico e fantástico. As narrativas do monstro são apresentadas em formato de animação, mas nada de esperar a estética Pixar ou Disney: o cineasta utiliza de cada uma das fábulas da apavorante criatura (com a voz de Liam Neeson e feições que vão se tornando mais humanas conforme a trama avança) para analisar, de maneira poética mas bastante contundente, todos os medos e sentimentos de Connor (e, por conseguinte, de boa parte da plateia, adulta ou não). Ao questionar fundamentos essenciais, como a bondade, a compaixão e a raiva, o roteiro do mesmo Patrick Ness que terminou o livro vai fortalecendo o caráter de seu protagonista e preparando-o para enfrentar o maior desafio de sua vida, que é encarar a morte da mãe e a maturidade precoce. É admirável os meios encontrados por Bayona e sua equipe em equilibrar tão organicamente a vida real de Connor e sua imaginação sem deixar que nenhuma das linhas narrativas sobreponha-se à outra - e mais importante ainda, que consiga fazer com que ambas se conectem tão naturalmente até o final, de uma tristeza profunda, mas dono de uma beleza incontestável.

Contando com um excepcional ator juvenil no papel principal - Lewis McDougall, que também participou do exótico "Peter Pan" (2015), de Joe Wright - e veteranos competentes entre os coadjuvantes - como Sigourney Weaver como sua irascível avó e Geraldine Chaplin, uma espécie de amuleto de sorte do diretor, tendo feito pontas em seus três trabalhos até aqui - "Sete minutos depois da meia-noite" surge como um dos melhores filmes de sua temporada. Com um roteiro de ritmo preciso e equilibrado, um visual acachapante e o tom emocional acertadamente adequado a uma história que mira em vários tipos de plateia, o filme de Bayona é um triunfo em todos os aspectos, capaz de cativar qualquer espectador disposto a mergulhar em uma narrativa repleta de simbolismos e metáforas que, longe de aborrecer ou confundir, apenas valorizam a beleza de suas intenções e de sua realização. Imperdível!

BATMAN: O CAVALEIRO DAS TREVAS RESSURGE

BATMAN: O CAVALEIRO DAS TREVAS RESSURGE (The Dark Knight rises, 2012, Warner Bros/Legendary Pictures, 165min) Direção: Christopher Nolan. Roteiro: Christopher Nolan, Jonathan Nolan, estória de Christopher Nolan, David S. Goyer, personagens criados por Bob Kane. Fotografia: Wally Pfister. Montagem: Lee Smith. Música: Hans Zimmer. Figurino: Lindy Hemming, Craciunica Roberto. Direção de arte/cenários: Nathan Crowley/Kevin Kavanaugh. Produção executiva: Kevin De La Noy, Benjamin Melniker, Thomas Tull, Michael E. Uslan. Produção: Christopher Nolan, Charles Roven, Emma Thomas. Elenco: Christian Bale, Anne Hathaway, Michael Caine, Joseph Gordon-Levitt, Tom Hardy, Marion Cottilard, Gary Oldman, Morgan Freeman, Matthew Modine, Cillian Murphy, Ben Mendelsohn, Juno Temple, Thomas Lennon, Liam Neeson. Estreia: 16/7/12

O que falta dizer sobre "Batman: O Cavaleiro das Trevas ressurge" que ainda não foi dito, analisado, dissecado e elogiado desde sua estreia, a maior de 2012, com uma bilheteria arrasadora que confirmou de uma vez por todas a força do personagem e do talento de todos os envolvidos? O encerramento da trilogia dirigida por Christopher Nolan - que provou que entretenimento e inteligência podem conviver pacificamente em um blockbuster, haja visto também o sucesso merecido de "A origem", que chegou a concorrer ao Oscar de melhor filme - pode não ser tão impactante quanto o segundo capítulo da série (que, afinal de contas, contava com a atuação assombrosa de Heath Ledger) mas consegue ser empolgante, comovente e surpreendente, apesar de alguns pequenos defeitos. De quantos "filmes de verão", pouco afeitos a "detalhes" como roteiro e direção de atores se pode pode afirmar a mesma coisa?

A essa altura todo mundo sabe que a trama mantida em segredo por Nolan antes da estreia começa sete anos depois dos acontecimentos do segundo filme, mostrando Bruce Wayne (Christian Bale) isolado em sua mansão e a imagem de Batman manchada pela acusação da morte de Harvey Dent (Aaron Eckhart) - na verdade obra das armações do Coringa (Heath Ledger).  Batman e Wayne são obrigados a voltar à ação, no entanto, quando um mercenário chamado Bane (o impressionante Tom Hardy) passa a ameaçar Gotham City com a destruição em massa proposta por Ra's Al Ghul (Liam Neeson), mentor de ambos na Liga das Sombras. Junta-se à receita a charmosa ladra Selina Kyle (Anne Hathway na ingrata tarefa de ofuscar a Mulher-Gato de Michelle Pfeiffer no filme comandado por Tim Burton em 1992), o jovem policial idealista Blake (Joseph Gordon-Levitt) e a milionária Miranda Tate (Marion Cotillard) - que ambiciona tornar-se sócia de Wayne em seus experimentos - e pronto: Nolan oferece à audiência cenas de ação de extrema competência, dramas humanos críveis e reviravoltas em número suficiente para que as quase três horas de projeção passem voando diante dos olhos do público.


Fugindo do limitativo nicho de "filmes de super-herói", a trilogia do Homem-morcego criada por Nolan tem uma consistência rara, mantendo um nível de qualidade que encanta tanto aos fãs de histórias em quadrinhos quanto àqueles interessados apenas em um bom filme de ação. Tudo tem espaço no roteiro do cineasta, que tem óbvio carinho pelas personagens e pelos atores que as interpretam (não é à toa que o "time Nolan" está todo aqui, de Bale, Michael Caine e Cillian Murphy aos novos integrantes da troupe, Marion Cotillard, Joseph Gordon-Levitt e Tom Hardy, saídos direto de "A origem"). A história que conta é mais importante para o homem que despontou para o grande público com o fantástico "Amnésia" do que efeitos desconcertantes de câmera e efeitos especiais de ponta (e mesmo assim ele proporciona à plateia bons momentos assim). E é um desafio a qualquer um não sair do cinema bastante satisfeito com as ideias do excelente roteiro e com o final emocionante, com direito até mesmo a uma pequena e feliz surpresa. Seguindo o caminho de costurar várias linhas narrativas simultâneas e com inúmeros personagens, que pode ser bastante perigoso - caso do terceiro "Homem-aranha", de Sam Raimi - quanto bem-sucedido - como aconteceu com a trilogia "O Senhor dos Anéis", de Peter Jackson - Nolan conta com uma edição de extrema competência, que consegue dar conta de tudo mesmo quando a aparência é de uma bagunça descontrolada. Realmente existe um acúmulo de personagens, mas Nolan mantém o pulso firme até o final - e ainda consegue chocar a audiência com uma das cenas mais impressionantes da trilogia (retirada diretamente dos quadrinhos).

Difícil falar de "Batman: O Cavaleiro das Trevas ressurge", em especial depois que tudo foi dito. Mas algo precisa ser afirmado apesar de tudo: é absolutamente imperdível e satisfaz até ao mais exigente fã do personagem de Bob Kane. É um encerramento absolutamente digno e se Anne Hathway não rouba a coroa de Michelle Pfeiffer ao menos faz bonito em cena, com beleza, carisma e talento. Uma pena, no entanto, que a personagem de Marion Cottilard seja tão pouco aproveitada e que agora estejamos todos reféns de novas e temíveis adaptações do herói para o cinema. Obrigado, Nolan, por esses anos de entretenimento de primeira qualidade.

terça-feira

GANGUES DE NOVA YORK

GANGUES DE NOVA YORK (Gangs of New York, 2002, Miramax, 167min) Direção: Martin Scorsese. Roteiro: Jay Cocks, Steven Zaillian, Kenneth Lonergan, estória de Jay Cocks. Fotografia: Michael Ballhaus. Montagem: Thelma Schoonmaker. Música: Howard Shore. Figurino: Sandy Powell. Direção de arte/cenários: Dante Ferreti/Francesca LoSchiavo. Produção executiva: Maurizio Grimaldi, Michael Hausman, Michael Ovitz, Bob Weinstein, Rick Yorn. Produção: Alberto Grimaldi, Harvey Weinstein. Elenco: Daniel Day-Lewis, Leonardo DiCaprio, Cameron Diaz, Liam Neeson, John C. Reilly, Jim Broadbent, Henry Thomas, Brendan Gleeson, Gary Lewis, Stephen Graham, Eddie Marsan, Cara Seymour. Estreia: 09/12/02

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Martin Scorsese), Ator (Daniel Day-Lewis), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Canção ("The hands that built America"), Som
Vencedor de 2 Golden Globes: Diretor (Martin Scorsese), Canção ("The hands that built America") 

Um dos projetos de estimação do cineasta Martin Scorsese, "Gangues de Nova York" começou a ser gerado ainda nos anos 70, quando o diretor ainda era uma jovem promessa, vindo do sucesso de crítica de seu "Taxi driver". Mais de duas décadas depois - e após uma sucessão de altos e baixos e uma bem-sucedida parceria artística com Robert DeNiro - parecia-lhe que enfim era chegada a hora de mostrar nas telas um pouco das origens da mais famosa cidade do mundo, com toda a sua violência sanguinária substituindo o glamour e o charme da metrópole tão querida por ele. Com base em uma estória do roteirista Jay Cocks desenvolvida por anos e anos, surgiu então um filme que, a despeito de todos os talentos envolvidos e das expectativas geradas por tanta espera, não atinge todo o seu potencial. Mesmo com um orçamento generoso de mais de 80 milhões de dólares, falta a ele uma alma e um foco narrativo mais atraente do que uma simples história de vingança tendo como pano de fundo as cruéis batalhas que pavimentaram o solo da Grande Maçã durante a Guerra de Secessão.

Obcecado pela história de Nova York desde que descobriu, no início de 1970, um livro escrito por Herbert Asbury, Scorsese dedicou tempo, paixão e energia a descobrir uma forma de contar cinematograficamente parte de uma longa e complicada história envolvendo os conflitos entre americanos protestantes e irlandeses católicos que encharcavam de sangue as calçadas da cidade com o objetivo de controle. Foi somente na década de 90 que surgiu a ideia de concentrar a trama em um personagem real - Bill "The Butcher" Poole - e, modificando alguns detalhes de sua biografia (mais significativamente a data de sua morte, ocorrida antes dos fatos mostrados no filme), envolvê-lo em uma história de vingança familiar. Tomava forma, assim, a estrutura final de uma obra complicada, cara e que se tornou um dos lançamentos mais ansiosamente aguardados de 2001 - e que, devido a constantes atrasos em seu cronograma de filmagens, só chegou às telas no final de 2002, dividindo a opinião do público, da crítica e até das cerimônias de premiação: indicado a dez Oscar, "Gangues de Nova York" testemunhou de mãos vazias a festa de "Chicago" e "O pianista", mesmo tendo sido agraciado pelos Golden Globes de melhor ator (Daniel Day-Lewis) e canção (a bela "The hands that built America", da banda irlandesa U2).


Interpretado com a dedicação habitual por Daniel Day-Lewis - em uma atuação que empresta um tom caricato a um personagem de nuances trágicas e épicas - Bill, o Açougueiro é o líder de uma das gangues que controlam um dos distritos de Nova York na metade do século XIX. Durante uma das sangrentas batalhas entre elas, ele não hesita em matar cruelmente um rival, o irlandês "Priest" Vallon (Liam Neeson), sob os olhos do filho deste, uma criança que, órfã e criada em um orfanato católico, cresce com o desejo de vingança como principal objetivo de vida. Dezesseis anos mais tarde, o menino, chamado Amsterdam (e na pele de Leonardo DiCaprio em sua primeira colaboração com Scorsese, de quem se tornaria parceiro artístico constante) volta às ruas de sua cidade e a encontra sob uma constante tensão racial e social, com os políticos tentando de qualquer maneira conquistar os votos dos imigrantes, que são tratados como seres insignificantes por gente com Bill. Em sua gana de vingar a morte do pai, Amsterdam se aproxima do temido líder e se torna seu homem de confiança - até ser traído inesperadamente e ser obrigado a enfrentar seu inimigo em plena Revolta do Alistamento (quando a comunidade pobre, inconformada com o alto custo da taxa que liberava os jovens do alistamento militar).

Tecnicamente impecável, com uma reconstituição de época brilhante - as filmagens aconteceram na Cinecitta, na Itália - e a direção sempre vigorosa e detalhista de Scorsese, "Gangues de Nova York"  é um superespetáculo visual, repleto de sequências criativas, fortes e marcantes, mas infelizmente derrapa nas suas boas intenções. O roteiro - co-escrito pelo oscarizado Steven Zaillian e por Kenneth Lonergan, conhecido por seus filmes independentes - falha em conectar seus protagonistas, negando ao público a chance de se deixar envolver pela vingança de Amsterdam ou compreender a contento todas as nuances da história da cidade. Até mesmo a inclusão de uma desnecessária personagem feminina, a punguista Jenny Everdeane (a sempre insossa Cameron Diaz, nome imposto pelos produtores para incrementar as chances comerciais do filme) soa como uma tentativa desastrada de aliviar a violência do enredo, com um romance também pouco convincente. Indeciso entre narrar batalhas sangrentas, um drama familiar ou uma história de amor, Scorsese acaba por ficar no meio-termo em todas as frentes, prejudicando tanto o ritmo quanto a profundidade daquela que poderia ser a sua obra-prima. Para isso colabora também a atuação de Leonardo DiCaprio - que no mesmo ano protagonizou o divertido "Prenda-me se for capaz", de Steven Spielberg: apesar de elogiado por boa parte da crítica, o jovem ator não consegue transmitir, em seu trabalho, todas as possibilidades de seu personagem.

No entanto, apesar dos pesares, "Gangues de Nova York" é um típico Martin Scorsese, o que faz dele programa obrigatório para qualquer cinéfilo. Mesmo longe de tudo que poderia ser - em parte porque o orçamento não comportou toda a grandeza do roteiro final - o filme tem qualidades em número mais do que suficiente para agradar a quem procura uma produção caprichada, com bons atores e comandada por um cineasta cuja paixão transpira em cada fotograma.

sábado

MICHAEL COLLINS - O PREÇO DA LIBERDADE

MICHAEL COLLINS, O PREÇO DA LIBERDADE (Michael Collins, 1996, Geffen Pictures/Warner Bros, 124min) Direção e roteiro: Neil Jordan. Fotografia: Chris Menges. Montagem: J. Patrick Duffner, Tony Lawson. Música: Elliot Goldenthal. Figurino: Sandy Powell. Direção de arte/cenários: Anthony Pratt/Josie MacAvin. Produção: Stephen Wooley. Elenco: Liam Neeson, Alan Rickman, Aidan Quinn, Julia Roberts, Stephen Rea, Ian Hart, Brendan Gleeson. Estreia: 28/8/96 (Festival de Veneza)

2 indicações ao Oscar: Fotografia, Trilha Sonora Original

Foi preciso o Oscar de roteiro original por "Traídos pelo desejo" e o sucesso de bilheteria de "Entrevista com o vampiro" para que o cineasta Neil Jordan finalmente conseguisse que Hollywood lhe permitisse realizar um sonho acalentado desde a década de 80: contar nas telas de cinema a história do homem que fundou um dos mais importantes grupos revolucionários do mundo, o IRA - Exército Republicano Irlandês. Apesar do tema não ser os mais atraentes (leia-se comerciais), o produtor David Geffen comprou a ideia de Jordan - ele mesmo nascido na Irlanda, portanto, grande interessado no assunto - e transformou o que poderia ser uma produção apática estrelada por Kevin Costner (que chegou a ser cotado como protagonista em determinado momento) em um thriller violento, passional e esplendidamente dirigido: "Michael Collins, o preço da liberdade", estrelado por um visceral Liam Neeson premiado no Festival de Cinema de Veneza por seu desempenho.

Previsível fracasso de bilheteria nos EUA mas um grande êxito na Irlanda - onde sua história tem maior peso e ressonância política - "Michael Collins" recebeu elogios unânimes da crítica, que louvou principalmente sua parte técnica, realmente admirável. Da belíssima fotografia do veterano Chris Menges até a impecável reconstituição de época, tudo funciona perfeitamente no filme de Jordan, emoldurando uma trama repleta de conspirações, traições e discussões políticas que, graças a um roteiro cadenciado, jamais esbarra nem no didatismo quase inevitável nem na complexidade histórica que muitas vezes condena obras do gênero ao limbo dos filmes "engajados". Nitidamente simpático à causa do IRA, Neil Jordan evita, inclusive, exagerar no desenho das qualidades de seu protagonista, mesmo que por vários momentos deixe a plateia vislumbrar sua admiração por sua personalidade carismática e intensa. Definindo seu arco dramático no período de tempo que compreende o início da luta de Collins contra o Império Britânico e pela liberdade de sua Irlanda natal até seu assassinato - cometido depois de um ato de traição que o filme torna ainda mais odioso - o diretor/roteirista equilibra seu filme entre tensas discussões táticas, violentas sequências de terrorismo (como um ataque surpresa a um jogo de rugbi) e até mesmo arruma espaço para um triângulo amoroso que coloca o protagonista e seu melhor amigo, Harry Boland (Aidan Quinn), lutando pelo amor da moderna Kitty Kiernan (Julia Roberts, cujo nome não ajudou a levantar a renda do filme no mercado americano).


Mesmo com o fato de ter como protagonista um dos pais do terrorismo moderno, "Michael Collins" jamais apela para a violência gratuita ou excessiva. Certamente não falta ao roteiro um grande número de sequências sanguinolentas, afinal trata-se de um filme sobre o surgimento de um exército que pegou em armas pesadas para garantir a independência de seu país, mas Neil Jordan é um diretor inteligente e sensível, que faz poesia de muitas de suas imagens, por mais paradoxal que a afirmação possa parecer.  Remexendo nas entranhas políticas da época em que se passa a história e explicitando o jogo de interesses que sempre existiu dentro das camadas próximas ao poder, o roteiro de certa forma justifica o uso da clava forte ao invés da justiça das palavras e do diálogo, amenizando, assim, o que poderia ser tratado como gratuidade por um cineasta mal-intencionado. Auxiliado pela fotografia de Menges - acinzentada como os céus da Irlanda em tempos de guerra - e pela trilha sonora de Elliot Goldenthal (únicas indicações do filme ao Oscar em um ano dominado pelo romantismo derramado de "O paciente inglês" e o cinismo debochado de "Fargo"), "Michael Collins" é cinema político de verdade, que transborda ideologia em cada fotograma. Talvez por isso tenha sido virtualmente ignorado pelo grande público.

Realizado com capricho e paixão, "Michael Collins" é um filme para poucos. Não põe panos quentes em um tema politicamente controverso, não deixa de mostrar sua simpatia pela busca da liberdade e nem tem medo de ser uma produção desprovida de atrativos comerciais - vale lembrar que a estrela de Julia Roberts estava em baixa durante a produção do filme. Mas é uma obra valorosa, inteligente e importante para a compreensão do mundo como é hoje.

quinta-feira

ANTES E DEPOIS

ANTES E DEPOIS (Before and after, 1996, Caravan Pictures/Hollywood Pictures, 108min) Direção: Barbet Schroeder. Roteiro: Ted Tally, romance de Rosellen Brown. Fotografia: Luciano Tovoli. Montagem: Lee Percy. Música: Howard Shore. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Stuart Wurtzel/Gretchen Rau. Produção executiva: Roger Birnbaum, Joe Roth. Produção: Susan Hoffman, Barbet Schroeder. Elenco: Meryl Streep, Liam Neeson, Edward Furlong, Julia Weldon, Alfred Molina, Daniel von Bargen, John Heard. Estreia: 23/02/96

Nem sempre é possível confiar plenamente nos créditos iniciais de um filme. É isso que prova o drama "Antes e depois", lançado sem muito alarde em 1996 - talvez porque nem mesmo seus produtores acreditassem que o filme pudesse angariar mais do que indiferença apesar de sua equipe. Na abertura do filme, baseado em um romance inédito no Brasil, desfilam nomes capazes de impressionar qualquer cinéfilo: Meryl Streep e Liam Neeson liderando o elenco, Ted Tally - oscarizado por "O silêncio dos inocentes" - no roteiro, e Barbet Schroeder - diretor indicado à estatueta da Academia por "O reverso da fortuna" - no comando de todos. Acontece que, apesar de tantos talentos individuais, o resultado final é pálido e quase apático. Um drama com elementos policiais que nem comove nem sustenta seu suspense. E que vale a pena somente pelo prazer que sempre é assistir a uma atuação de Streep.

Aliás, nem mesmo ela, com seu talento excepcional, consegue dar muita consistência à uma trama que começa instigante e vai se esvaziando no decorrer dos minutos. Mesmo levantando discussões interessantes - até onde você iria para proteger seus filhos? até que ponto a verdade é tão importante a ponto de comprometer um futuro? - o filme de Schroeder acaba resvalando na superficialidade, ficando na indecisão entre uma boa trama policial e um potente drama familiar. Enquanto sua primeira metade promete uma boa dose de adrenalina e tensão, a segunda cai na banalidade, quase na preguiça. Difícil é crer que um roteirista como Tally e um diretor como Schroeder tenham conseguido realizar um obra tão desprovida de personalidade. Com um visual de telefilme - e uma trama igualmente morna - "Antes e depois" até segura uma sessão descompromissada, mas fica devendo ao espectador tudo aquilo que promete em seu primeiro ato.


A trama começa mostrando a rotina diária de um casal da classe média de uma pequena cidade do interior americano. Lá, o artista plástico Ben Ryan (Liam Neeson) e a pediatra Carolyn (Meryl Streep) criaram os dois filhos como um exemplo para a comunidade. Tal perfeição é abruptamente destroçada quando uma jovem adolescente é encontrada morta - com sinais de uma violenta agressão - e o filho mais velho dos dois, Jacob (Edward Furlong), passa a ser considerado suspeito do crime: namorado da vítima, ele foi visto com ela pouco antes de sua morte e, não sendo o bastante, está desaparecido da cidade. Em pânico, Ben encontra manchas de sangue no carro do filho e destrói algumas pistas que podem levar à polícia até ele. Hostilizados pelos moradores, Ben e Carolyn ainda são obrigados a encarar um julgamento quando o rapaz retorna, trazendo com ele uma versão da história que pode ou não ser a verdadeira.

O maior problema de "Antes e depois" é justamente sua indecisão - ou mudança de foco na segunda metade, o que no final das contas dá no mesmo. Enquanto a primeira hora do filme mantém o interesse do espectador com as investigações do caso, provocando nele uma curiosidade natural, sua segunda metade não apenas destrói o suspense com uma sequência anticlimática que elucida o crime da maneira menos excitante possível como inicia um drama ao estilo "Você decide" que nem mesmo a presença de Alfred Molina como um advogado de sucesso consegue salvar. Quando Ben e Carolyn substituem seu primeiro conflito - a busca pelo filho e a dúvida acerca de sua inocência - pelo segundo - o que deve ser revelado à justiça - o filme perde seu encanto e seu ritmo (já pouco empolgante). Resta ao público apenas o trabalho sempre intenso de Meryl Streep e Liam Neeson - já que a Edward Furlong pouco cabe mais do que manter o olhar chapado e metido a perigoso que ele utilizou anteriormente em "Cemitério maldito 2". Poderia - e deveria - ser bem melhor.

sexta-feira

NELL

NELL (Nell, 1994, Egg Pictures/PolyGram Filmed Entertainment/20th Century Fox, 112min ) Direção: Michael Apted. Roteiro: William Nicholson, Mark Handley, peça teatral "Idioglossia", de Mark Handley. Fotografia: Dante Spinotti. Montagem: Jim Clark. Música: Mark Isham. Figurino: Susan Lyall. Direção de arte/cenários: Jon Hutman/Samara Hutman.Produção: Jodie Foster, Renée Missel. Elenco: Jodie Foster, Liam Neeson, Natasha Richardson, Richard Libertini, Nick Searcy, Jeremy Davies. Estreia: 14/12/94

Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Jodie Foster)

Em 1991, devido a problemas financeiros que acabaram acarretando em sua falência, a Carolco, um estúdio sem a proporção de uma Fox ou uma Paramount, se viu obrigado a escolher entre dois filmes para lançar no mercado: o escolhido foi "Mentes que brilham", estreia de Jodie Foster na direção, que colheu elogios unânimes da crítica e foi muito bem recebido pelo público. O segundo filme, "Céu azul", dirigido por Tony Richardson, só chegou às salas de cinema três anos depois e, por ironia do destino, esse atraso só lhe fez bem: não fosse ele era bem possível que seu Oscar de melhor atriz - concedido à excelente Jessica Lange - nunca tivesse acontecido, porque em 1992 a estatueta foi bem disputada entre Geena Davis e Susan Sarandon (ambas por "Thelma & Louise") e a própria Foster, que saiu-se vencedora por "O silêncio dos inocentes". Outra ironia suprema? A maior rival de Lange na cerimônia de 1995 era a mesma Jodie: no filme "Nell" ela entrega mais uma sublime interpretação na pele de uma jovem criada à margem da civilização e que é descoberta depois da morte da mãe. Por melhor atriz que Jessica Lange seja, ainda hoje é difícil engolir a escolha da Academia em premiá-la em detrimento de um trabalho tão impactante quanto o da ex-menina prodígio que tornou-se uma das mais premiadas estrelas de Hollywood unicamente graças a seu talento.

É inegável que o trabalho de Jodie Foster - que assina também como produtora e quase assumiu o papel de diretora antes que Michael Apted fosse contratado - é superior ao filme como um todo. Baseado em uma peça de teatro de Mark Handley (co-autor do roteiro), "Nell" não consegue escapar dos clichês nem tampouco de algumas incongruências e exageros que enfraquecem o resultado final e deixam nos ombros da atriz a responsabilidade de manter a verossimilhança e o interesse da plateia. Felizmente ela tem talento de sobra para construir uma personagem que, a despeito da fragilidade da trama, transborda humanidade e cativa a audiência sem precisar muito mais do que o trabalho corporal e facial - ambos de extraordinária competência e de delicadeza contrastante com a aparentemente durona Clarice Starling do filme que lhe deu o segundo Oscar.


A trama do filme é simples e direta: depois da morte da mãe, seu único elo com o mundo exterior, a jovem Nell (Foster, nunca aquém de genial em cena) é descoberta na cabana onde morou a vida inteira, escondida de tudo e de todos em uma floresta localizada perto de uma pequena cidade do interior. Se comunicando através de um idioma próprio e incapaz de manter contato social com qualquer desconhecido, ela aos poucos passa a mostrar-se afável com as duas pessoas que resolvem ajudá-la em sua transição rumo a uma nova vida: o doutor Jerome Lovell (Liam Neeson) e a psicóloga Paula Olsen (Natasha Richardson), que, apesar de suas boas intenções, desejam coisas diferentes a ela. Enquanto Lovell acredita que Nell pertence à floresta e a seu mundo particular, Paula insiste que ela deve ser "devolvida" à civilização. Esse impasse chega aos tribunais e a jovem - que tem um trágico passado ainda desconhecido pelos médicos - passa por três meses de observação para ter seu futuro definido.

Mais um exemplar dos "bons selvagens" retratados pelo cinema - mais notadamente em "O garoto selvagem" (70), de François Truffaut - Nell é uma personagem fascinante, ainda que não tenha sido desenvolvida de forma satisfatória pelo roteiro, por vezes mais preocupado com a disputa entre os dois especialistas do que em analisar de maneira mais profunda a psicologia da protagonista. Liam Neeson e Natasha Richardson estão bem em cena - foi durante as filmagens que eles se conheceram e se apaixonaram, em um casamento que durou até a precoce morte da atriz em um acidente de esqui em 2009 - mas não fazem mais do que pontuar com correção o show particular de Jodie Foster, e a busca de seus personagens pelas origens do isolamento de Nell nunca ultrapassa o convencional, privando o público de mais emoção. Ainda assim, é um filme feliz em suas opções, ao fugir do tradicional dramalhão - mesmo que, em seu clímax, apresente a típica cena de discurso que qualquer filme que ambicione um Oscar não tem medo de utilizar. É um belo filme - Michael Apted é um diretor competente e sabe como contar uma história - mas aquém de suas possibilidades. Salva-se Jodie e seu talento além de qualquer palavra.

sábado

MARIDOS E ESPOSAS

MARIDOS E ESPOSAS (Husbands and wives, 1992, TriStar Pictures, 103min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Carlo Di Palma. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Susan Bode. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Woody Allen, Mia Farrow, Judy Davis, Sydney Pollack, Liam Neeson, Juliette Lewis, Ron Rifkin, Blythe Danner. Estreia: 14/9/92 (Festival de Toronto)

2 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Judy Davis), Roteiro Original

Em 1992, o mundo do cinema foi pego de surpresa com um escândalo envolvendo um de seus mais discretos membros: o mesmo Woody Allen avesso à badalações e que preferia tocar jazz a frequentar as cerimônias de entrega do Oscar - estatueta que ele já havia ganho por "Noivo neurótico, noiva nervosa" (77) e "Hannah e suas irmãs" (86) - estampava as capas dos tabloides sensacionalistas graças ao controverso final de sua relação amorosa e profissional com a atriz Mia Farrow, que vinha desde 1980 e computava uma dúzia de filmes: aos 66 anos, Allen estava apaixonado por Soon-yi Previn, filha adotiva de Mia de apenas 21 anos. No rastro da polêmica, todo mundo se aproveitou: Farrow acusou o cineasta de pedofilia (fato que ainda em 2014 despertava acaloradas discussões), jornais venderam como nunca, os detratores de Allen encontraram finalmente um motivo para desprezá-lo (a despeito das afirmações de Farrow se mostrarem improcendentes com o passar do tempo) e a TriStar Pictures antecipou a estreia de "Maridos e esposas", comédia dramática que analisava os relacionamentos de dois casais de amigos - e que mostrava Woody se afastando de Mia por estar interessado em uma aluna décadas mais jovem - para lucrar em cima da polêmica. Por baixo de tanta gritaria, porém, o que pouca gente percebeu foi que, fofocas à parte, o filme era muito bom. Desde "Crimes e pecados" (89) o diretor/roteirista não encontrava um equilíbrio tão grande em drama, humor e insights sobre relações humanas.

Filmando em tom de documentário - câmera na mão, entrevistas diretas, cortes abruptos - "Maridos e esposas" é, na verdade, um Woody Allen típico, na forma e no conteúdo. Ele mesmo interpreta Gabe Roth, professor de literatura que acaba de escrever seu próprio livro e vive um relacionamento pacifico e quase tedioso com Judy (Mia Farrow), que está no segundo casamento. O filme começa quando eles recebem a visita de um casal de amigos, Jack (Sydney Pollack) e Sally (Judy Davis) que, para sua surpresa, anunciam sua separação. Tidos como um exemplo de relacionamento, Jack e Sally resolveram seguir caminhos diferentes na vida e tal fato cai como uma bomba na vida de Gabe e Judy, que lidam com a situação de maneiras opostas: enquanto Judy tenta servir de cupido entre Sally e Michael (Liam Neeson), um colega de trabalho pelo qual ela mesma está atraída, Gabe se envolve com Rain (Juliette Lewis), uma brilhante aluna com uma queda por homens com o triplo de sua idade.


Sob a luz do escândalo Soon-yi, "Maridos e esposas" foi dissecado exaustivamente pela mídia, pelo público e por qualquer pessoa que julgasse ter uma opinião sobre o caso. Não adiantou que fosse divulgado que o papel pensado para Mia Farrow fosse o de Sally e não o de Judy (uma passivo-agressiva neurastência e manipuladora): os conspiradores de plantão já afirmavam que Allen estava propositalmente dando à atriz um papel amargo e antipático. Não bastava que o final do filme contrariasse o final da história na vida real: todos achavam que o diretor estava justificando, em seu roteiro, as atitudes que tomara fora dos sets. Foram tantas teorias, tantos boatos transformados em fatos e opiniões pessoais tidas como verdades universais que o filme - enquanto produto cinematográfico - acabou ficando em segundo plano. Uma pena. Nem mesmo as duas indicações ao Oscar (roteiro e atriz coadjuvante) foram o suficiente para que fosse dada mais importância a ele. E isso que Judy Davis simplesmente arrasa na pele da insegura Sally: além de concorrer ao Oscar e ao Golden Globe, ela foi premiada pelos críticos de Los Angeles, pelo National Board of Review e pela National Society of Film Critics. Só a cena em que ela discute a relação com o ex-marido pelo telefone da casa do homem com quem está de saída para a ópera vale o filme todo.

À parte escândalos e teorias, "Maridos e esposas" é um Woody Allen da melhor safra. Inteligente, engraçado, perspicaz e realista, o roteiro nunca se deixa mergulhar na autocomplacência ou na crítica exagerada às relações, dando a todas elas uma dose de generosidade, independente de seu grau de neurose. Além do mais, é o ponto final de uma parceria que muito deu ao cinema americano nos anos 80. Uma chave de ouro que ainda será descoberta como um dos melhores filmes da década de 90.

terça-feira

SOB SUSPEITA

SOB SUSPEITA (Suspect, 1987, TriStar Pictures, 121min) Direção: Peter Yates. Roteiro: Eric Roth. Fotografia: Billy Williams. Montagem: Ray Lovejoy. Música: Michael Kamen. Figurino: Rita Ryack. Direção de arte: Stuart Wurtzel. Produção executiva: John Veitch. Produção: Daniel A. Sherkow. Elenco: Cher, Dennis Quaid, Liam Neeson, John Mahoney, Joe Mantegna, Philip Bosco. Estreia: 23/10/87

Em seu caminho para tornar-se uma atriz séria e respeitada - e não apenas uma figura excêntrica do mundo pop, como apontava sua carreira como cantora ao lado do marido Sonny Bono nos anos 60 - Cher soube escolher como ninguém seus papéis. Foi indicada ao Oscar de coadjuvante pela lésbica que viveu em "Silkwood, o retrato de uma coragem" (83), ao lado de Meryl Streep e foi eleita a melhor atriz do Festival de Cannes 1985 como a mãe coragem de um adolescente deformado por uma doença rara em "Marcas do destino". No mesmo ano em que finalmente levou pra casa sua estatueta dourada pela comédia romântica "Feitiço da lua", ela demonstrou versatilidade em dois outros filmes radicalmente diferentes: na mescla de humor negro/horror/comédia "As bruxas de Eastwick", de George Miller (em que atuou ao lado do já consagrado Jack Nicholson e das futuras estrelas Michelle Pfeiffer e Susan Sarandon) e em "Sob suspeita", um correto mas burocrático drama de tribunal dirigido pelo veterano Peter Yates. Na pele de uma defensora pública envolvida em um crime aparentemente banal, a estrela que um dia fez pouco dos conselhos da tradicional Academia de Hollywood para vestir-se como uma atriz séria mostrou que não é o figurino que

No filme de Yates, Cher vive Kathleen Riley, uma defensora pública de Washington solitária e levemente workaholic que, às vésperas do Natal recebe a incumbência de defender um sem-teto acusado de ter assassinado a secretária de um juiz que acaba de se suicidar. O caso é, a príncipio, bastante simples. O réu, Carl Wayne Anderson (Liam Neeson) estava de posse da bolsa da vítima e foi encontrado dormindo em seu carro, o que imediatamente o coloca como culpado aos olhos de todo o tribunal. Porém, Riley não é de desistir tão facilmente, principalmente quando descobre que seu cliente é surdo-mudo, vítima da guerra do Vietnã. Enquanto tenta provar sua inocência - mesmo sendo sistematicamente boicotada pelo juiz Helms (John Mahoney) - ela conta com a inesperada ajuda do lobista Eddie Sanger (Dennis Quaid), com quem acaba se envolvendo.


Como todo bom filme de tribunal, "Sob suspeita" não prescinde das reviravoltas que levam a trama aparentemente simples a caminhos perigosos e jamais imaginados inicialmente. O roteiro de Eric Roth - que menos de uma década depois levaria um Oscar por "Forrest Gump, o contador de histórias" (94) - é feliz em desenhar sua história sem pressa, levando o espectador a descobrir junto com os protagonistas a teia de conspiração que se revela no último ato, apesar do final anti-climático. Apesar de não dividirem muitas cenas românticas, Cher e Dennis Quaid tem uma química interessante e ela demonstra uma segurança em cena que demonstra claramente que já estava mais do que preparada para o prestígio que viria a obter em seguida. Seus duelos com Liam Neeson - que fala com os olhos e com o corpo mais do que o suficiente para prender a atenção da plateia - são repletos de uma tensão que infelizmente não se mantém no restante do filme, que muitas vezes se perde em cenas pouco interessantes. Felizmente, no entanto, "Sob suspeita" tem mais qualidades do que defeitos, o que faz dele um bom programa para fãs do gênero (ou da atriz).

É dificil gostar de filmes de tribunal e não se deixar conquistar por "Sob suspeita". É bem escrito, dirigido com correção e interpretado por atores extremamente competentes, além de ter uma trama com uma boa cota de reviravoltas que não apelam para a violência gratuita ou para o sadismo puro e simples de muitos filmes que se arriscam a contar histórias policiais. No final das contas, é mais um bom trabalho de Cher como atriz, provando-a uma artista multi-facetada que infelizmente deixou o cinema de lado a partir do final da década de 90 para voltar a dedicar-se à música pop. Ganharam as pistas de dança, mas perdeu o cinema.

BATMAN BEGINS

BATMAN BEGINS (Batman begins, 2005, Warner Bros, 140min) Direção: Christopher Nolan. Roteiro: Christopher Nolan, David S. Goyer, estória de David S. Goyer, personagens criadas por Bob Kane. Fotografia: Wally Pfister. Montagem: Lee Smith. Música: James Newton Howard, Hans Zimmer. Figurino: Lindy Hemming. Direção de arte/cenários: Nathan Crowley/Paki Smith, Simon Wakefield. Produção executiva: Benjamin Melniker, Michael E. Uslan. Produção: Larry Franco, Charles Roven, Emma Thomas. Elenco: Christian Bale, Katie Holmes, Gary Oldman, Liam Neeson, Morgan Freeman, Michael Caine, Cillian Murphy, Tom Wilkinson, Rutger Hauer, Ken Watanabe, Linus Roache. Estreia: 15/6/05

Indicado ao Oscar de Fotografia

Depois do verdadeiro fiasco de "Batman & Robin", dirigido por Joel Schumacher em 1997 - e que praticamente enterrou as possibilidades do super-heroi - muita gente acreditava que a franquia do homem-morcego (tão rentável nas mãos de Tim Burton) estava acabada de vez. Foi preciso uma recauchutagem geral para que o Cavaleiro das Trevas, criado por Bob Kane nos anos 30 voltasse às boas graças do público e da crítica. Com o criativo e talentoso Christopher Nolan - recém saído do sucesso "Amnésia" e do prestigiado "Insônia" - no comando, "Batman begins" tem a inteligência de ignorar a série cinematográfica lançada em 1989 e partir do princípio da história, das origens do heroi mascarado, que viu seus pais morrerem assassinados quando ainda era uma criança.

Escalar o inglês Christian Bale (lançado por Steven Spielberg em "Império do sol", de 1987) como protagonista foi o acerto primordial de Nolan. Frio nas horas certas e com o físico adequado para o papel, Bale apaga em poucos minutoso trauma deixado por Michael Keaton, Val Kilmer e George Clooney (ainda que este último não tenha sido o responsável pela derrocada da série). Na pele do milionário Bruce Wayne, o jovem ator consegue ser o super-heroi que todos desejavam ver sem apelar para o escapismo tradicional mas bastante fake dos filmes anteriores. Wayne, depois da tragedia que testemunhou, foi embora da mansão de sua família, foi preso, fez um treinamento quase ninja e volta à Gotham City com a missão de salvá-la da sua destruição total pela violência. Contando com a ajuda do Comissário Gordon (um Gary Oldman envelhecido mas ainda brilhante) e da assistente de promotoria que foi sua namorada na infância (a inapropriada Katie Holmes no único erro de escalação do elenco), ele parte para o ataque contra os bandidos que querem transformar sua cidade em ruínas.



Christopher Nolan é um exímio diretor de atores, o que faz toda a diferença na transformação da sombria saga de Batman de um ralo filme de ação em um drama de personagens, mesmo que às vezes eles sejam um tanto superficiais. O romance entre Wayne e sua namorada, por exemplo, nunca empolga (culpa talvez da constante apatia de Katie Holmes). A ideia genial de Batman fazer a sua primeira (e triunfal) aparição somente depois de meia-hora de projeção, no entanto, dá vida nova e inteligente ao roteiro. Michael Caine, Morgan Freeman, Ken Watanabe, Liam Neeson e Tom Wilkinson - todos já indicados ao Oscar - são coadjuvantes de luxo em uma diversão de primeira, que prova que filmes-pipoca podem e devem ser espertos e não tratar o público como crianças. A edição, repleta de idas e voltas - que no começo até atrapalham um pouco - também ajuda o filme a fugir do óbvio, e a bela fotografia de Wally Pfister (dona de sua única indicação ao Oscar) dá o tom exato da bela obra de Nolan.

"Batman begins" pode não ter rendido tanto dinheiro quanto os primeiros filmes do heroi, mas arrebanhou prestígio suficiente para dar o pontapé inicial em uma nova e bem-sucedida série e preparar a audiência para
seu extraordinário segundo capítulo, "Batman, o cavaleiro das trevas", que deixaria o mundo de queixo caído.

segunda-feira

KINSEY - VAMOS FALAR DE SEXO


KINSEY (Kinsey, 2004, Fox Searchlight Pictures, 118min) Direção e roteiro: Bill Condon. Fotografia: Frederick Elmes. Montagem: Virginia Katz. Música: Carter Burwell. Figurino: Bruce Finlayson. Direção de arte/cenários: Richard Sherman/Andrew Baseman. Produção executiva: Francis Ford Coppola, Kirk D'Amico, Michael Kuhn, Bobby Rock. Produção: Gail Mutrux. Elenco: Liam Neeson, Laura Linney, Peter Sarsgaard, Timothy Hutton, Chris O'Donnell, Oliver Platt, John Lithgow, Tim Curry, Veronica Cartwright, Julianne Nicholson, John Krasinski, Luke McFarlane, Dylan Baker, Lynn Redgrave. Estreia: 04/9/04 (Festival de Telluride)

Indicado ao Oscar de Atriz Coadjuvante (Laura Linney)

Nascido em 1894 e morto em 1956, o entomologista e zoológo norte-americano Alfred Kinsey publicou, em 1948, um estudo detalhado sobre a sexualidade masculina que escandalizou a sociedade dos EUA. Em 1953, repetiu a dose, dessa vez focando sua atenção às mulheres. Uma das mais controversas personalidades do século XX, o cientista é, também, o protagonista de "Kinsey - Vamos falar de sexo", dirigido pelo mesmo Bill Condon que escreveu os roteiros dos premiados "Deuses e monstros" e "Chicago". Elogiado pela crítica ianque, o projeto não fez grande barulho nas bilheterias e tampouco conseguiu fazer o sucesso esperado nas cerimônias de premiação - com exceção de uma duvidosa indicação ao Oscar de coadjuvante para Laura Linney, passou batido pelos tapetes vermelhos. Mas é competente ao extremo, dotado de um senso de ironia raro e, melhor ainda, ousado na medida certa.

Ao concentrar seu roteiro no período mais prolífico das pesquisas de Kinsey - com um pequeno prólogo mostrando a juventude do protagonista - Condon tem a felicidade de poder se dedicar com ênfase tanto ao lado profissional quanto doméstico do cientista, sem ter que compactar em duas horas toda uma vida repleta de controvérsias e problemas pessoais. Contando com uma atuação excepcional de Liam Neeson - injustamente esquecido pela Academia - o filme começa mostrando a adolescência e a juventude do cientista, criado por um pai repressor (grande momento de John Lithgow), seus estudos de zoologia, o casamento com aquela que lhe acompanharia pela vida toda (Laura Linney) e a descoberta de sua real vocação: o estudo da sexualidade humana. E é a partir daí que "Kinsey" mostra a que veio. Com uma edição inteligente e um roteiro ágil, Condon conduz sua trama de forma um tanto didática, mas jamais enfadonha. Quando surge em cena seu colaborador Clyde Martin (Peter Sarsgaard), um jovem bissexual que se envolve tanto com o cientista quanto com sua mulher, tudo se torna ainda mais interessante.

 

Ao inserir no roteiro a possibilidade de Kinsey experimentar na carne toda a teoria de seu vasto estudo - e Condon nem precisou inventar nada disso, o que é ainda melhor - o filme ganha em peso e dramaticidade. Ao se ver quase obrigada a dividir o marido com outro homem (com quem também se envolve sexualmente), a personagem de Laura Linney dá a atriz a chance de sair da sombra de Neeson e mostrar um trabalho igualmente poderoso. E, sob tudo isso, há a ironia subjacente que faz com que os colaboradores do cientista comecem a sentir que o objeto de sua pesquisa tem muito mais poder sobre suas vidas (e seus casamentos) do que supunham a princípio. Esse efeito que o sexo causa em todos eles é a prova de que "Kinsey" não é apenas uma biografia, e sim um estudo sobre o sexo em si - e tudo que ele movimenta. Não foi à toa que o protagonista chegou à capa da revista Time e provocou polêmica por onde passou. Falar sobre sexo nos anos 40 em uma América ainda mais pudica do que a de hoje era corajoso e quase temerário - em vários momentos de seu filme, o diretor espalha cenas em que Kinsey era alvo de piadas e preconceito (e é especialmente interessante a cena em que um de seus colegas abandona uma entrevista por recusar-se a ouvir o relato de um pedófilo). A neutralidade de Alfred Kinsey diante de seus objetos de estudo só cai quando ele ouve o agradecimento de uma mulher de meia-idade que revela ter mudado de vida graças a ele. Com uma interpretação emocionante de Lynn Redgrave, essa cena - já no final da projeção - resume toda a importância do protagonista para a sociedade ocidental.

Longe de ser uma biografia quadradinha e sem graça, "Kinsey" é um belo exemplo de que um roteiro consistente, um diretor talentoso e um elenco bem escalado fazem muito mais por um filme do que orçamentos milionários e piadas apelativas. Mesmo tocando em um assunto que ainda hoje assusta os mais pudicos, é um filme imperdível e brilhantemente atual.

sexta-feira

SIMPLESMENTE AMOR

SIMPLESMENTE AMOR (Love actually, 2003, Universal Pictures, 135min) Direção e roteiro: Richard Curtis. Fotografia: Michael Coulter. Montagem: Nick Moore. Música: Craig Armstrong. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Jim Clay/Caroline Smith. Produção: Tim Bevan, Eric Fellner, Duncan Kenworthy. Elenco: Hugh Grant, Emma Thompson, Liam Neeson, Colin Firth, Laura Linney, Alan Rickman, Bill Nighy, Lucia Moniz, Keira Knightley, Rodrigo Santoro, Martin Freeman, Andrew Lincoln, Chiwetel Ejiofor, Billy Bob Thornton, Heike Makatsch, Nina Sosanya. Estreia: 07/11/03

Definitivamente não dá pra não simpatizar com uma comédia romântica como “Simplesmente amor”. Ao contar diversas histórias de personagens das mais diversas classes sociais e culturais na Inglaterra – todas de amor, mas de inúmeros tipos de amor – o roteiro do diretor Richard Curtis atinge qualquer tipo de pessoa, seja essa pessoa fã de romance, comédia ou drama. E conta suas histórias com tanta simpatia e generosidade que o difícil é não querer ver e rever para emocionar-se a cada revisão com uma personagem diferente.

Trabalhando com um elenco predominantemente inglês, Curtis escolheu a dedo seus atores estrangeiros – e aí inclui-se o brasileiro Rodrigo Santoro, a americana Laura Linney, o irlandês Liam Neeson e a portuguesa Lucia Moniz – para traçar um painel de sentimentos e relações aparentemente ambicioso, mas que funciona como um relógio. Ao contrário dos dramas psicológicos intensos como os retratados em “Magnólia”, por exemplo, o objetivo do diretor é entreter e emocionar durante duas horas sem no entanto castigar a plateia com abuso sexual, alcoolismo, vício em drogas, etc.... A proposta de “Simplesmente amor” é encantar. E para isso não faltam trunfos.


       

“Simplesmente amor” começa poucas semanas antes do Natal e conta várias histórias. É perto do Natal que o novo Primeiro-Ministro (vivido por um divertido Hugh Grant) assume seu cargo e se apaixona por Natalie (Martine McCutcheon), a moça do cafezinho – um romance que o fará desafiar o todo-poderoso presidente americano (Billy Bob Thornton em participação especial). É pouco antes do Natal também que o astro decadente de rock Billy Mack (Bill Nighy roubando descaradamente a cena) começa a tentar sua volta às paradas de sucesso, regravando a clássica “Love is all around” com a letra modificada para acompanhar a data comemorativa. É também quando acontece o funeral da esposa de Daniel (Liam Neeson), que passa a ter que lidar com a viuvez e com o enteado, o pequeno Sam (Thomas Sangster), apaixonado por uma coleguinha de escola. Também é por essa época que o jovem Mark (Andrew Lincoln) entra em depressão por estar apaixonado pela bela Juliet (Keira Knightley), esposa do seu melhor amigo.
Se não fossem suficientes, a essas tramas outras se juntam aos poucos: é o caso do romance hesitante entre o escritor Jamie (Colin Firth) e sua empregada doméstica portuguesa Aurélia (Lucia Moniz); a crise no casamento de Karen (Emma Thompson) e Harry (Alan Rickman), causada pela secretária dele, Mia (Heike Makatasch); o início tímido do namoro entre a dedicada Sarah (Laura Linney) e seu colega de trabalho Karl (Rodrigo Santoro), atrapalhado pelas crises de saúde do irmão dela; a ilusão do jovem Colin (Kris Marshall) de que vai encontrar o amor nos EUA e o começo da relação entre dois dublês de filmes pornô.

Como já foi dito anteriormente, é difícil não se apaixonar por “Simplesmente amor”. Engraçado, terno, verdadeiro, sensível e de partir o coração, o roteiro de Richard Curtis encontra em seu elenco multi-estelar a encarnação perfeita de personagens carismáticos e extremamente humanos, capazes de atos enlouquecidos de amor, renúncia e até egoísmo. Somados a uma edição ágil e precisa e uma trilha sonora que é quase (mais) uma personagem à parte, o filme mais romântico de 2003 é também um dos mais românticos das últimas décadas. Irresistível!

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...