Mostrando postagens com marcador HUGO WEAVING. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador HUGO WEAVING. Mostrar todas as postagens

quarta-feira

CAPITÃO AMÉRICA: O PRIMEIRO VINGADOR


CAPITÃO AMÉRICA: O PRIMEIRO VINGADOR (Captain America: The first avenger, 2011, Marvel Studios/Paramount Pictures/Marvel Entertainment, 124min) Direção: Joe Johnston. Roteiro:Christopher Markus, Stephen McFeely, personagens criados por Stan Lee, Jack Kirby. Fotografia: Shelly Johnson. Montagem: Robert Dalva, Jeffrey Ford. Música: Alan Silvestri. Figurino: Anna B. Sheppard. Direção de arte/cenários: Rick Heinrichs/John Bush. Produção executiva: Louis D'Esposito, Alan Fine, Nigel Gostelow, Joe Johnston, Stan Lee, David Maisel. Produção: Kevin Feige. Elenco: Chris Evans, Hugo Weaving, Sebastian Stan, Tommy Lee Jones, Stanley Tucci, Toby Jones, Dominic Cooper, Hayley Atwell, Richard Armitage, Samuel L. Jackson. Estreia: 19/7/2011

Criado como uma resposta à violência da Alemanha nazista, o Capitão América surgiu, segundo dizem, inspirado em um mito do folclore judeu, o Golem, um protetor contra a violência antissemita. Sua primeira aparição, em março de 1941 - esmurrando Adolf Hitler em pessoa - já causou polêmica e rendeu a seus criadores, Jack Kirby e Joe Simon, ameaças de grupos alinhados à política do chanceler alemão. O mais popular herói dos quadrinhos durante a II Guerra Mundial, porém, foi sendo deixado de lado após o fim do conflito e só voltou a ser aplaudido - dessa vez por uma nova geração - quando Kirby e Stan Lee o reuniu aos Vingadores, em março de 1964. O mais patriota dos heróis da Marvel, chegou perto de ter uma adaptação para os cinemas nos anos 1980 - com Jeff Bridges no papel principal -, mas foi somente com o sucesso dos dois filmes estrelados pelo Homem de Ferro e a definição de um projeto mais amplo da editora - que também originou "Thor" (2010) - que as telas (e o público) finalmente viram uma transposição digna da trajetória do soldado Steve Rogers. Com uma produção caprichada e uma renda internacional de mais de 370 milhões de dólares, "Capitão América" foi mais um passo certeiro da Marvel, e o último capítulo antes do ambicioso "Os Vingadores", lançado um ano mais tarde.

A trama - bastante fiel àquela revelada em um quadrinho lançado em janeiro de 1969 - começa em 1942 e acompanha o idealista e obstinado Steve Rogers (Chris Evans) em seu desejo de alistar-se ao exército americano e ajudar o país e os aliados na II Guerra Mundial. Franzino e pouco saudável, o jovem é repetidamente rejeitado em seus pedidos, ao contrário do que acontece com seu melhor amigo, Bucky Barnes (Sebastian Stan). Sua situação muda, no entanto, quando ele é escolhido pessoalmente pelo renomado cientista alemão Abraham Erskine (Stanley Tucci) para fazer parte de uma experiência secreta que almeja criar super soldados. Colaborando com os EUA depois que suas pesquisas foram roubadas por Johan Schmidt (Hugo Weaving), um nazista de alta patente e de métodos criminosos, Erskine vê no caráter de Rogers uma característica imprescindível para aqueles a quem deseja oferecer o soro que irá mudar os rumos da guerra. Quando o cientista é assassinado, no entanto, o projeto é deixado de lado e Rogers torna-se o Capitão América, uma simples peça de propaganda para o exército americano. Mas quando o pelotão do qual seu melhor amigo faz parte é capturado, Rogers desafia seus superiores e parte para seu resgate - batendo de frente com o perigoso Red Skull, líder da Hydra (organização terrorista ligada à Alemanha nazista). Para isso, ele conta com a tecnologia criada pelo milionário Howard Stark (Dominic Cooper).

Dirigido por Joe Johnston - escolhido graças a seu trabalho em "Rocketeer" (1991) e "O céu de outubro" (1999) -, "Capitão América" encontrou em Chris Evans seu intérprete ideal, mas foi somente depois de várias recusas que o ator (já conhecido do público de quadrinhos por ter vivido o Tocha Humana na adaptação de "Quarteto fantástico" (2005)) finalmente aceitou o desafio de encarnar um dos maiores ícones da cultura pop do século XX. Primeira escolha dos produtores, Evans hesitou por um bom tempo em adentrar o universo da Marvel - e nesse meio-tempo, abriu espaço para inúmeras outras possibilidades, que iam de Brad Pitt e Matthew McConaughey a Will Smith e Leonardo DiCaprio, passando por Sam Worthington e John Krasinski (que chegou a fazer teste de figurino mas desistiu da empreitada na última hora). Bonito e carismático, Evans nem precisa fazer muito esforço para convencer a plateia de seus atos de heroísmo - ao mesmo tempo em que também convence facilmente como o jovem frágil rejeitado por seus (poucos) dotes físicos. O que talvez seja pouco crível apenas é o relacionamento amoroso entre Steve e a agente britânica Peggy Carter (interpretada pela insossa Hayley Atwell) - apesar de ser um respiro em tantas cenas de ação, seu romance soa deslocado e pouco interessante, ao contrário da relação entre o protagonista e Bucky Barnes - personagem que será crucial na segunda aventura do herói.

Como é comum nos filmes da Marvel, a produção de "Capitão América: o primeiro vingador" é caprichada, tecnicamente impecável e milimetricamente calculada para conquistar todo tipo de plateia. Quando se detém a explorar as relações entre os personagens não vai além do básico - apesar de o elenco (que inclui Tommy Lee Jones e Samuel L. Jackson) arrancar o máximo de cada diálogo -, mas é evidente que o foco do roteiro são as sequências de ação (derivativas mas adequadas às expectativas de plateias sempre sedentas por adrenalina). No final das contas, é um filme que entrega o que promete e diverte a seu público-alvo independentemente da falta de criatividade de sua trama e seu desenvolvimento.

 

ATÉ O ÚLTIMO HOMEM

ATÉ O ÚLTIMO HOMEM (Hacksaw Ridge, 2016, Summit Entertainment/Cross Creek Pictures, 139min) Direção: Mel Gibson. Roteiro: Robert Schenkkan, Andrew Knight. Fotografia: Simon Duggan. Montagem: John Gilbert. Música: Rupert Gregson-Williams. Figurino: Lizzy Gardiner. Direção de arte/cenários: Barry Robison/Rebecca Cohen. Produção executiva: Michael Bassick, Lawrence Bender, Len Blavatnik, Stuart Ford, David Greathouse, Eric Greenfeld, Lenny Kornberg, Mark C. Manuel, Rick Nicita, Ted O'Neal, Buddy Patrick, Lauren Selig, Tyler Thompson, James M. Vernon, Suzanne Warren, Christopher Woodrow. Produção: Terry Benedict, Paul Currie, Bruce Davey, William D. Johnson, Bill Mechanic, Brian Oliver, David Permut. Elenco: Andrew Garfield, Sam Worthington, Hugo Weaving, Rachel Griffiths, Vince Vaughn, Richard Roxburgh. Estreia: 04/9/16 (Festival de Veneza)

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Mel Gibson), Ator (Andrew Garfield), Montagem, Edição de Som, Mixagem de Som
Vencedor de 2 Oscar: Montagem, Mixagem de Som

Quando surgiu para o grande público, no final dos anos 70, como o protagonista de "Mad Max" (79) e suas duas sequências, o australiano Mel Gibson tornou-se, instantaneamente, no astro de filmes de ação que os produtores pediram a Deus: bonito a ponto de ser vendido também como símbolo sexual (ao contrário de Stallone e Schwarzenegger), talentoso e carismático. Na década de 80, confirmou o status de ídolo com a trilogia "Máquina mortífera" e, nos anos 90, mostrou o lado sensível de diretor de filmes como "O homem sem face" (93) e "Coração valente" (95) - que lhe rendeu os Oscar de filme e direção. Nesse meio-tempo, em que arriscou até mesmo um Shakespeare dirigido por Franco Zefirelli - "Hamlet", de 1990 -, Gibson foi construindo uma carreira invejável, repleta de sucessos de bilheteria e um prestígio que poucos poderiam prever quando de sua chegada em Hollywood. Se havia alguém que poderia estragar sua ascensão, esse alguém era ele mesmo - e ele não hesitou em tomar providências a esse respeito. Se na década de 90 já havia criado polêmica com declarações homofóbicas (que mesmo assim não chegaram a arranhar seu sucesso), ele teve que lidar, nos primeiros anos do novo século, tanto com um surpreendente e imenso êxito profissional quanto com o quase fim de sua carreira - uma situação criada por ele mesmo.

O êxito veio com a bilheteria monstruosa e inesperada de "A paixão de Cristo" (2004) - um projeto ambicioso, violento, visceral e arriscado que arrecadou mais de 600 milhões de dólares mundo afora, a despeito de seu tom antissemita. E foi antissemitismo também que ajudou a cavar o buraco no qual Gibson cairia em seguida: somadas a acusações de violência doméstica e brigas com autoridades policiais, declarações controversas do ator/diretor o empurraram diretamente para um ostracismo que parecia definitivo - em poucos anos Gibson passou de um dos mais quentes nomes de Hollywood a um pária cujos filmes fracassavam em todos os níveis. Mas, assim como sabe destruir uma carreira, a indústria de cinema também sabe perdoar quando quer - e eis que, dez anos depois de seu último trabalho como diretor, o ousado "Apocalypto", Mel Gibson se viu finalmente digno de uma segunda chance entre seus colegas. Indicado a 6 Oscar - incluindo melhor filme e diretor - o drama de guerra "Até o último homem" não apenas conquistou a Academia (que lhe premiou com as estatuetas de montagem e mixagem de som) como marcou seu reencontro com o público - com uma renda mundial estimada em mais de 175 milhões de dólares, seu filme parece ter sido a melhor maneira de acenar por uma trégua. O melhor da história toda? O filme merece.



Inspirado em uma quase inacreditável história real, "Até o último homem" volta a mostrar o lado religioso de Gibson - que novamente equilibra um tom espiritual e sequências de extrema violência, ainda que menos gráficas do que as mostradas em "A paixão de Cristo". Ao contrapor a crueldade da guerra à religiosidade de seu protagonista, o diretor ameniza a truculência de algumas imagens e entrega ao espectador um conto empolgante a respeito da força da fé e do idealismo. Mesmo sem soar excessivamente messiânico, o roteiro deixa explícitas as razões que movem seu personagem central e, graças a uma interpretação absolutamente impecável de Andrew Garfield (merecidamente indicado ao Oscar de melhor ator), faz com que a plateia compactue com elas e se envolva na trama sem reservas. Um filme de guerra onde a guerra em si só dá as caras no terceiro ato - e como cenário para um desfecho emocionante -, "Até o último homem" é um triunfo como cinema: pode-se dizer até mesmo que é o melhor e mais maduro trabalho de Gibson como cineasta, unindo no mesmo pacote uma história bem contada, sequências de guerra orquestradas com capricho, uma técnica invejável e um elenco inspirado.

Garfield - que no mesmo ano esteve em "Silêncio", de Martin Scorsese, provando sua versatilidade - é o corpo e a alma de "Até o último homem". Ele interpreta o protagonista, Desmond Doss, com uma garra e uma paixão que salta da tela direto ao coração da plateia. Desmond é um dos dois filhos de Tom Doss (Hugo Weaving), veterano da I Guerra Mundial traumatizado pela perda dos colegas e entregue ao álcool e à violência doméstica contra a esposa, Bertha (Rachel Griffiths). Criado como adventista do sétimo dia e profundamente religioso, Desmond vê nos mandamentos de Deus sua régua moral absoluta mas, mesmo assim, ao lado do irmão, se alista como voluntário para lutar na II Guerra. Sua intenção é servir como médico e não atacar os inimigos: tal regra acaba sendo motivo para que ele bata de frente com seus superiores e seus colegas, que não veem com bons olhos um soldado não disposto a pegar em armas nem mesmo para sua defesa. Aos poucos, no entanto, Desmond vai conquistando o respeito de todos - até que em uma missão específica, em Okinawa, ele se torna um improvável herói... sem disparar sequer um único tiro.

Emocionante e brilhantemente executado, "Até o último homem" não foge dos clichês dos filmes do gênero, quando se rende a algumas de suas mais antigas regras - o treinamento, as dificuldades de relacionamento dentro do pelotão, os personagens quase estereotipados -, mas faz deles um uso inteligente e adequado, como forma de prender a atenção da plateia até seu último (e empolgante) ato, quando Desmond se torna um herói não através da violência, mas sim da compaixão e do amor pelos companheiros. Pode parecer um discurso estranho para alguém que estrelou e/ou dirigiu alguns dos filmes mais violentos das últimas décadas, mas não deixa de ser um respiro de humanidade em um gênero tão repleto de sangue e tristeza. Mel Gibson merece o perdão... ao menos até o próximo escândalo!

quinta-feira

A VIAGEM

A VIAGEM (Cloud Atlas, 2012, Cloud Atlas Productions/X-Filme Creative Pool, 172min) Direção: Tom Tykwer, Andy Wachowski, Lana Wachowski. Roteiro: Tom Tykwer, Andy Wachowski, Lana Wachowski, romance de David Mitchell. Fotografia: Frank Grieber, John Toll. Montagem: Alexander Berner. Música: Reinhold Heil, Johnny Klimek, Tom Tykwer. Figurino: Kym Barrett, Pierre-Yves Gayraud. Direção de arte/cenários: Hugh Bateup, Uli Hanisch/Rebecca Alleway, Peter Walpole. Produção executiva: John Chong, Caroline Kwauk, Philip Lee, Wilson Qiu, Uwe Schott, Pearry Reginald Teo, Ricky Tse. Produção: Stefan Arndt, Alex Boden, Grant Hill, Tom Tykwer, Andy Wachowski, Lana Wachowski. Elenco: Tom Hanks, Susan Sarandon, Halle Berry, Hugh Grant, Jim Broadbent, Jim Sturgess, Hugo Weaving, Ben Winshaw, Doona Bae, James D'Arcy, Xun Zhou. Estreia: 08/9/12 (Festival de Toronto)

Se um filme é rejeitado enfaticamente por um pretenso crítico como Rubens Ewald Filho - uma das maiores fraudes do jornalismo cultural já forjadas na imprensa nacional - isso provavelmente quer dizer que a obra é, no mínimo, interessante e digna de atenção. Sendo assim, é obrigatório que se deixe o preconceito e qualquer tipo de expectativa de lado para conferir "A viagem" - título nacional inapropriado para o intraduzível "Cloud Atlas" - mais um passo dos irmãos Wachowski em sua missão de sacudir a mesmice do cinema internacional, como fizeram com "Matrix" em 1999. Dessa vez contando com a co-direção do alemão Tom Tykwer (do criativo "Corra Lola, corra"), eles adaptaram o difícil romance de David Mitchell em um filme tecnicamente perfeito que, se não chega a ser emocionalmente brilhante devido à sua natureza episódica, é um dos mais ousados produtos cinematográficos dos últimos anos, voltando a tocar (de forma poética e sensível) em temas caros aos cineastas, como filosofia, destino e livre-arbítrio - que eles voltaram a usar como tema na série de TV "Sense8", lançada em 2015 com grande sucesso.

O complexo roteiro - escrito pelos irmãos e por Tykwer - conta seis histórias simultaneamente, ainda que elas aconteçam em períodos de tempo e espaço díspares. A espetacular edição - a cargo de Alexander Berner, cujo melhor filme do currículo é a adaptação para as telas do bestseller "O perfume" - costura as tramas de forma envolvente, sublinhando as semelhanças e coincidências entre elas para explicitar ao espectador que todas elas, no fundo, formam um grande e abrangente panorama humano e social. Segundo a teoria do filme - que de certa forma evoca muitos ensinamentos da doutrina espírita - tudo que se faz em uma vida ecoa para a eternidade, afetando mesmo que indiretamente outras pessoas (e também fica claro que as mesmas pessoas, em sexos, classes sociais e épocas distintas convivem entre si, muitas vezes repetindo de forma inconsciente o que já fizeram em vidas passadas). É assim que um jovem advogado (vivido por Jim Sturgess) ajuda um escravo foragido no ano de 1849 e em 2144 um revolucionário japonês (também interpretado por Sturgess, dessa vez sob forte maquiagem) colabora com a fuga de uma ciborgue (Doona Bae) que será uma líder contra a opressão (alguém aí lembrou de "Matrix"?). E é seguindo essa linha de raciocínio que outras personagens e histórias são apresentadas ao público, utilizando o mesmo elenco em todas elas, muitas vezes de forma irreconhecível: Tom Hanks, Halle Berry, Hugh Grant, Susan Sarandon, Jim Broadbent, Hugo Weaving e Ben Winshaw surgem diante da plateia com os mais variados visuais e papeis, escondidos frequentemente por trás de uma maquiagem nunca menos que brilhante (e injustamente esquecida pelo Oscar). O elo entre as personagens às vezes é óbvio, em outras nem tanto - e uma marca na pele, em forma de estrela cadente, os une inexoravelmente.



Ambicioso e por vezes quase megalomaníaco, "A viagem" tem a seu favor a coragem de enfrentar de igual pra igual produções anabolizadas em forma e orçamento que sofrem com uma irreparável falta de conteúdo - e mesmo assim levam multidões às salas de cinema. Forçando o público a sair de sua passividade intelectual, logicamente se arriscou a pregar no deserto - e foi o que aconteceu, com uma bilheteria muito aquém da esperada e merecida. Enquanto filmes de super-heróis quebravam recorde em cima de recorde, o filme de Tykwer e dos Wachowski minguava, chegando a dividir as opiniões até mesmo daqueles que se arriscaram a uma sessão. Realmente não é um filme de fácil assimilação, e isso acaba por ser mais uma qualidade do que um defeito. Mesmo os detratores, porém, são obrigados a reconhecer que, apesar de alguns equívocos, a obra tem qualidades redentoras, como a espetacular trilha sonora e toda a técnica envolvida em criar mundos tão díspares e uní-los em uma única trama. Mesmo que o roteiro tente não complicar demais as coisas e dê pistas às vezes óbvias das ligações entre os personagens, os autores não subestimam a inteligência do público e é aí que seu maior mérito fica evidente: "A viagem" é um filme para adultos que gostam de pensar e ser tocados por uma história. Seus efeitos visuais, sua maquiagem, seus artifícios são apenas a ponte para um objetivo maior, que mesmo não sendo atingido em sua plenitude, sacode a inércia da audiência.

Pecando apenas por não dar ao público a chance de realmente conhecer a fundo as personagens e se importar de verdade com seus problemas - o que não impede que algumas histórias se sobressaiam dramaticamente a outras - "A viagem" requer paciência e a liberdade de embarcar rumo a uma experiência inebriante e rica. Não é um filme que agrada a todo mundo (em especial a resenhistas que julgam atores por seu visual e cultuam alucinadamente divas de uma Hollywood que não mais existe). Mas é corajoso e tem muito a dizer. Poucos filmes recentes podem se gabar disso.

sábado

V DE VINGANÇA

V DE VINGANÇA (V for Vendetta, 2005, Warner Bros, 132min) Direção: James McTeigue. Roteiro: Andy Wachowski, Lana Wachowski, HQ de David Lloyd. Fotografia: Adrian Biddle. Montagem: Martin Walsh. Música: Dario Marianelli. Figurino: Sammy Sheldon. Direção de arte/cenários: Owen Paterson/Peter Walpole. Produção executiva: Benjamin Waisbren. Produção: Grant Hill, Joel Silver, Andy Wachowski, Larry Wachowski. Elenco: Natalie Portman, Hugo Weaving, Stephen Rea, John Hurt, Stephen Fry, Rupert Graves, Sinead Cusack. Estreia: 11/12/05

Em 1999, os irmãos Wachowski mudaram o cenário dos filmes de ficção científica com o megasucesso "Matrix", que rendeu duas continuações e colocou seu nome na estratosfera da indústria hollywoodiana. Demorou seis anos, porém, para que eles voltassem a chamar a atenção do público e da crítica, dessa vez como roteiristas. Ao adaptar para as telas a graphic novel "V for Vendetta", de David Lloyd, os irmãos mais esquisitos do cinema americano entregaram a direção nas mãos dao australiano James McTeigue, estreando na função. Não é preciso ser muito esperto para perceber, no entanto, que, apesar do nome de McTeigue estar na cadeira de diretor é a concepção dos Wachowski que predomina nessa fascinante crítica ao fascismo - que chegou a ser proibida na China devido a seu conteúdo "subversivo".

Passado em uma Grã-Bretanha distópica que vive sob um governo fascista, "V de vingança"não tem medo de descrever uma tirania violenta e arbitrária, capaz de prender e torturar cidadãos sem o menor pudor - desmandos nada estranhos a quem já passou por ditaduras sangrentas. O público é jogado na trama sob o ponto de vista da jovem Eve (Natalie Portman pegando o papel cobiçado por Scarlett Johansson e Keira Knightley), que é salva de um estupro por um misterioso mascarado que a leva para casa e revela a ela um plano mirabolante para uma revolução popular. A princípio chocada e temerosa a respeito de seu anfitrião - que a aprisiona e chega a lhe raspar o cabelo - Eve aos poucos passa a simpatizar com sua causa, principalmente quando entra em contato com histórias tenebrosas a respeito do regime. Em pouco tempo, ela se alia ao estranho V (Hugo Weaving) e torna-se militante ativa da revolução.



É difícil resumir "V de vingança", um filme que tem como seu maior atrativo o clima de desesperança transformado em combustível para o levante popular - o que certamente incomodou o governo de países em situação similar. Criado com um visual que equilibra a escuridão do regime com a busca por uma luz no fim do túnel - que tem em sua sequência final o clímax absoluto - o filme de McTeigue também não deixa de lado a construção psicológica de suas personagens, dando a Portman e Weaving oportunidades enormes para o brilho. Enquanto o ator - que atingiu o ápice da carreira como o vilão Mr. Smith da série "Matrix" e assumiu o papel central depois da demissão de James Purefoy - convence plenamente como V mesmo sem tirar sua máscara em momento algum, Portman atinge outro ponto alto da carreira, mesclando docilidade, revolta e dor na medida exata. E seria injusto louvar também a maneira com que o roteiro dá igual espaço a cenas de ação e violência e à delicadeza da história de amor entre duas mulheres - que empurra Eve definitivamente para o lado da oposição ao governo: é uma trama paralela forte e comovente que serve também para conquistar de vez a audiência.

Em um período em que filmes de ação servem unicamente como diversão escapista que sacrifica o cérebro do espectador, "V de vingança" consegue fazer pensar ao mesmo tempo em que entretém. Mesmo que em determinados momentos o ritmo caia - talvez devido à inexperiência do diretor - o resultado final é forte, impactante e memorável. Um dos mais importantes filmes de sua época!

segunda-feira

MATRIX

MATRIX (The Matrix, 1999, Warner Bros, 136min) Direção e roteiro: Andy Wachowski, Lana Wachowski. Fotografia: Bill Pope. Montagem: Zach Staenberg. Música: Don Davis. Figurino: Kym Barrett. Direção de arte/cenários: Owen Paterson/Lisa Brennan, Tim Ferrier, Marta McElroy. Produção executiva: Bruce Berman, Andrew Mason, Barrie M. Osborne, Erwin Stoff, Andy Wachowski, Larry Wachowski. Produção: Joel Silver. Elenco: Keanu Reeves, Laurence Fishburne, Hugo Weaving, Joe Pantoliano, Carrie-Anne Moss, Gloria Foster, Marcus Chong, Julian Arahanga. Estreia: 31/3/99

Vencedor de 4 Oscar: Montagem, Som, Efeitos Sonoros, Efeitos Visuais

Quando “Matrix” estreou, em março de 1999 nada se sabia sobre seus diretores (os misteriosos Irmãos Wachowski) nem tampouco havia muita clareza sobre o assunto do filme em si. Depois de sua estreia – e de uma renda de mais de 170 milhões só nos cinemas americanos – a obra estrelada por Keanu Reeves virou mania, marco inicial de uma trilogia e uma das ficções científicas mais bem-sucedidas da história do cinema. Isso sem mencionar o status de cult que adquiriu, ao misturar em seu roteiro extraordinárias cenas de ação com efeitos visuais de cair o queixo (merecidamente premiados com o Oscar da categoria) e uma história com toques de filosofia, destino e críticas não muito veladas à sociedade de sua época e ao conformismo em geral.

Keanu Reeves, no papel da sua vida, vive Neo, um trabalhador burocrático durante o dia e um hacker talentosíssimo à noite, que é procurado por um misterioso grupo liderado pelo sinistro Morpheus (Laurence Fishburne, excelente) para assumir seu lugar como o líder escolhido para lutar contra a Matrix, que mantém o povo como escravo, vivendo das aparências de um passado menos opressor e depressivo. Para isso, Neo precisa lutar contra um exército comandado pelo temível Agente Smith (Hugo Weaving) e conta com a ajuda da bela Trinity (Carrie-Anne Moss), por quem se apaixona.


A trama de “Matrix” é complicada, mesmo, especialmente contada sem as imagens espetaculares criadas pelos cineastas, que contam com a ajuda da fotografia estilosa de Bill Pope, o figurino de Kym Barrett (que virou moda) e os efeitos visuais,  surpreendentes e copiados à exaustão após seu sucesso. No entanto, depois que o filme acaba, deixando o público salivando por mais produtos com sua qualidade e inteligência, o que fica na cabeça da plateia não são as ruidosas cenas de destruição nem o visual que enche os olhos. O que diferencia “Matrix” das dezenas de congêneres é a profundidade que seus criadores foram capazes de inserir em meio aos tiroteios e às piruetas que abundam em suas duas horas de duração.

Muito se discutiu à sua época a trama bem construída pelos irmãos roteiristas - que incluía uma complexa teoria de que o mundo em que vivemos é apenas uma ilusão criada por um governo ditatorial e violento. Ao contrário do que dizia José Wilker - que como crítico de cinema é um ator apenas razoável - o filme não conta a história de um homem que aprende a lutar karatê rapidamente. É um filme de inteligência rara e de qualidade técnica invejável, que deu ao normalmente fraco Keanu Reeves a chance (mais uma) de tornar-se um ícone do cinema de ação. Ao lado de Laurence Fishburne e Carrie-Anne Moss, Reeves estampou as principais publicações do gênero e voltou a ser (cinco anos após "Velocidade máxima") uma aposta quente para os executivos dos estúdios hollywoodianos. Como ator não é dos melhores, mas funciona muito bem em filmes como "Matrix".

"Matrix" originou ainda mais dois filmes que deram continuidade à sua história e que, apesar do sucesso de bilheteria não atingiram a qualidade e originalidade de seu primeiro capítulo. Mais uma vez a vontade de ganhar dinheiro foi mais forte do que a de manter a integridade artística. Uma pena.

PRISCILLA, A RAINHA DO DESERTO

 

PRISCILLA, A RAINHA DO DESERTO (The adventures of Priscilla, queen of the desert, 1994, Polygram Filmed Entertainment, 104min) Direção e roteiro: Stephan Elliott. Fotografia: Brian J. Breheny. Montagem: Sue Blainey. Música: Guy Gross. Figurino: Lizzy Gardiner, Tim Chappell. Direção de arte: Owen Paterson. Produção executiva: Rebel Penfold-Russell, Sue Seeary. Produção: Al Clark, Michael Hamlyn. Elenco: Terence Stamp, Hugo Weaving, Guy Pearce, Bill Hunter. Estreia: 10/8/94

Vencedor do Oscar de Melhor Figurino

Nos anos 60, o britânico Terence Stamp chegou a ser considerado o homem mais bonito do mundo. Astro do polêmico "Teorema", do italiano Pier Paolo Pasolini, amante de nomes como Julie Christie e Brigitte Bardot e capa do single "What difference does it make", do grupo The Smiths, foi dirigido por nomes como Federico Fellini, Howard Hawks e Stephen Frears. Praticamente desconhecido da geração de cinéfilos acostumados a filmes-evento, Stamp reapareceu sob os holofotes depois dos 50 anos em um papel surpreendente: Bernardette, um transexual amargurado e devastado pela morte do amante na comédia australiana "Priscilla, a rainha do deserto". Discreta, cheia de classe e dona de um humor irônico e sarcástico, Bernardette é provavelmente uma das personagens mais marcantes de sua carreira.

Escrito e dirigido por Stephan Elliot, "Priscilla, a rainha do deserto" foi um dos mais interessantes filmes da onda que colocou a cinematografia australiana no mapa, durante os anos 90. Engraçado sem ser bobo e tocando com bom humor em temas polêmicos e até mesmo pesados - como preconceito e violência doméstica - o roteiro de Elliot oferece a seus três atores centrais papéis que surpreendem pela naturalidade e veracidade. Como agradecimento, todos eles tem performances impecáveis, o que suas subsequentes carreiras comprovaram. Além da ressurreição da carreira de Stam - que surpreendentemente foi quem menos se beneficiou do sucesso do filme, haja visto a quantidade de títulos pálidos e sem expressão dos quais participou depois - o filme deu um senhor empurrão para Hugo Weaving (vilão da série "Matrix") e Guy Pearce (que participou dos excelentes "Los Angeles, cidade proibida" e "Amnésia").

Na verdade o protagonista de "Priscilla" é Ticky (Hugo Weaving), que trabalha de drag-queen em casas noturnas de Sydney, nem sempre obtendo o sucesso e o respeito que deseja. Quando ele recebe o convite de uma amiga - na verdade, ex-mulher e mãe de seu filho - para uma série de shows no hotel em que ela trabalha, ele vê a chance de tentar uma nova oportunidade na carreira. Para isso, ele convida a amiga Bernardette (Stamp, genial), um transexual de meia-idade que acaba de perder o amante, para acompanhá-lo na viagem. A eles junta-se o jovem, impetuoso e debochado Adam (Guy Pearce), que imediatamente inicia uma relação de implicância com Bernardette. Comprando um ônibus - que batizam com o nome do filme - eles embarcam em uma viagem pelo deserto da Austrália, enfrentando o preconceito dos moradores de cidades do interior, abismando os mais conservadores e, por incrível que pareça, fazendo inimagináveis amizades.



A exuberância e a irreverência dos protagonistas - refletidas principalmente no espirituoso e criativo figurino vencedor do Oscar - talvez sejam os principais atrativos de "Priscilla", e são certamente os maiores responsáveis pelo sucesso do filme até mesmo junto a uma parcela do público que não é exatamente o alvo dos produtores. Espertamente, Stephan Elliot brinca com a imagem e os ícones gays para passar uma mensagem de tolerância e respeito, sem denegrir nem idealizar nada nem ninguém - ao menos de forma inconsequente e rasa. A convivência forçada entre suas personagens principais - de personalidades bem marcadas mas nunca previsíveis - serve como reflexo de uma sociedade ainda preconceituosa e que precisa lidar com a diversidade (seja ela pessoal, sexual ou de qualquer tipo). É uma metáfora inteligente e sutil, ainda que retratada de maneira propositalmente exagerada.

E falar de "Priscilla, a rainha do deserto" sem mencionar sua trilha sonora seria um crime hediondo. Dançantes e alto-astral, as músicas escolhidas por Stephan Elliot são o que há de melhor no que convencionou-se chamar de "música gay": ABBA, Pet Shop Boys e Gloria Gaynor batem o ponto, normalmente em cenas que tornaram-se clássicas justamente pela combinação perfeita das canções, das coreografias e das roupas pra lá de extravagantes que pontuam uma narrativa alegre, de bem com a vida e capaz de comprovar a vitalidade do cinema australiano.

Quem nunca assistiu a "Priscilla, a rainha do deserto" não sabe o que está perdendo! É diversão certa, com atores perfeitamente escalados - Guy Pearce é um show à parte com sua desaforada Felicia - e um clima de festa mesmo em seus momentos mais delicados.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...