A GAROTA DO ADEUS (The goodbye girl, 1977, Warner Bros/MGM Pictures, 111min) Direção: Herbert Ross. Roteiro: Neil Simon. Fotografia: David M. Walsh. Montagem: John F. Burnett. Música: Dave Grusin. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Albert Brenner/Jerry Wunderlich. Produção: Ray Stark. Elenco: Richard Dreyfuss, Marsha Mason, Quinn Cummings, Paul Benedict, Barbara Rhoades. Estreia: 27/11/77
5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Richard Dreyfuss), Atriz (Marsha Mason), Atriz Coadjuvante (Quinn Cummings), Roteiro Original
Vencedor do Oscar de Melhor Ator (Richard Dreyfuss)
Vencedor de 4 Golden Globes: Melhor Comédia/Musical, Ator em Comédia/Musical (Richard Dreyfuss), Atriz em Comédia/Musical (Marsha Mason), Roteiro
Certamente o ano de 1977 significa um marco divisor na carreira de Richard Dreyfuss: não apenas ele estrelou o enorme sucesso de bilheteria "Contatos imediatos de terceiro grau" - dirigido por seu amigo Steven Spielberg - como esteve no topo do cartaz da primeira comédia romântica a chegar à marca de 100 milhões de dólares de bilheteria - e que, de quebra, lhe rendeu o Golden Globe e o Oscar de melhor ator na tenra idade de 30 anos de idade (um recorde que durou até 2003, quando Adrien Brody levou a estatueta para casa aos 29, por "O pianista"). Escrita pelo dramaturgo Neil Simon diretamente para o cinema - e reescrita em seis semanas depois que sua primeira tentativa de sair do papel falhou miseravelmente com a saída de Robert De Niro e Mike Nichols do projeto -, "A garota do adeus" é uma deliciosa história de amor, contada com sofisticação e o excepcional senso de ironia do autor, um dos mais consagrados nomes do teatro norte-americano. Indicado a cinco Oscar, incluindo melhor filme e roteiro original, é uma produção que mantém o frescor mesmo quarenta anos após seu lançamento - mérito principalmente do texto ágil, da direção precisa de Herbert Ross e da química rara entre seus protagonistas.
Inspirado, segundo consta, nos anos em que Dustin Hoffman (que esteve interessado no papel) lutava para vencer na carreira de ator, o roteiro de "A garota do adeus" sofreu profundas transformações entre o início de sua produção - com De Niro como astro e Nichols como diretor - até que finalmente chegasse às telas com Richard Dreyfuss e Marsha Mason no elenco e Herbert Ross na direção. Em uma situação rara na década de 70, seu estúdio, a Warner Bros, só concordou em levar o projeto adiante (depois da mudança da equipe) quando a MGM aceitou a proposta de dividir os custos do orçamento. Suas dúvidas em relação às possibilidades financeiras do filme tinham a ver com o fato de não haver nele um grande chamariz de bilheteria: apesar da presença de Dreyfuss no papel principal masculino (depois dos êxitos de "Tubarão" (75) e "Contatos imediatos" (77)), a produção não tinha as qualidades que estavam fazendo os grandes sucessos comerciais da época - a saber: efeitos visuais, campanhas agressivas de marketing, rostos consagrados e premiados. Mesmo quando o protagonista foi oferecido a Jack Nicholson e James Caan (ambos bastante populares), não havia, segundo o próprio Neil Simon, nada que fizesse crer que o filme fosse cair nas graças do grande público como, inesperadamente, aconteceu. Sucesso de bilheteria e crítica, "A garota do adeus" serviu como uma luva nos desejos da mesma plateia que havia lotado as salas de cinema meses antes com "Star Wars". A acolhida calorosa ao filme foi unânime - e o Oscar de melhor ator dado a Richard Dreyfuss foi apenas a cereja de um bolo muito saboroso.
Abraçado entusiasticamente também pelos eleitores do Golden Globe - que lhe deu as estatuetas de melhor filme, ator e atriz na subcategoria comédia/musical e roteiro -, "A garota do adeus" chegou ao Oscar com moral o suficiente para encarar de frente seus maiores (e mais poderosos) rivais, como o próprio "Star Wars", o grande vencedor do ano, "Noivo neurótico, noiva nervosa", e até mesmo um filme dirigido pelo mesmo Herbert Ross - "Momento de decisão", que apesar de chegar à cerimônia com pinta de favorito, saiu de mãos abanando. Concorreu a cinco prêmios - Ross foi indicado por "Momento de decisão", mas a pequena Quinn Cummings foi lembrada na categoria de atriz coadjuvante - e a vitória de Dreyfuss deixou para trás nomes como os de Richard Burton, Woody Allen e Marcello Mastroianni. Não deixa de ser justo, uma vez que sua presença carismática é um dos pontos altos do filme - a própria Marsha Mason reconhece que Elliot Garfield, o ator tentando um lugar ao sol enquanto lida com uma surpresa inesperada em seu caminho, é um personagem muito mais interessante do que sua Paula McFadden, uma dançarina divorciada que, após o fim de seu último relacionamento, herda um problema que transforma radicalmente sua vida.
O nome do problema de Paula é Elliot Garfield, e ele é um ator ambicioso que chega em Nova York para estrelar uma montagem moderna de "Ricardo III", de Shakespeare - uma montagem pouco ortodoxa e de gosto duvidoso. Assim que chega no apartamento que locou de um amigo, ele descobre que o lugar já está ocupado: a própria Paula fica chocada ao perceber que tem poucos dias para sair do imóvel - mas acaba fazendo um trato com o jovem intruso, que aos poucos começa a conquistar a amizade de sua filha e até mesmo seu coração, ainda que ela tenha jurado a si mesma nunca mais se envolver com outro ator. O romance hesitante entre os dois é atrapalhado também pelas inconstâncias da carreira de Elliot e as batalhas de Paula. Com essa estória simples e sem maiores novidades, Herber Ross cativa a plateia com simpatia, se amparando nos diálogos inteligentes e bem-humorados de Neil Simon e na química entre Dreyfuss, Mason e a pequena Quinn Cummings - sempre em vias de roubar a cena. Uma sessão da tarde descompromissada e muito acima da média, "A garota do adeus" é uma espécie de precursor das comédias românticas estreladas por Meg Ryan na década de 90 - com um gostinho de nostalgia que acrescenta ainda mais tempero à receita. Diversão garantida!
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segunda-feira
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CALIFORNIA SUITE
CALIFORNIA SUITE (California Suite, 1978, Columbia Pictures, 103min) Direção: Herbert Ross. Roteiro: Neil Simon. Fotografia: David M. Walsh. Montagem: Michael A. Stevenson. Música: Claude Bolling. Figurino: Patricia Norris. Direção de arte/cenários: Albert Brenner/Marvin March. P: Produção: Ray Stark. Elenco: Jane Fonda, Alan Alda, Maggie Smith, Michael Caine, Walter Matthau, Elaine May, Richard Pryor, Bill Cosby. Estreia: 18/12/78
3 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Maggie Smith), Roteiro Adaptado, Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Maggie Smith)
Vencedor do Golden Globe de Atriz/Comédia ou Musical (Maggie Smith)
Em abril de 1976, a peça teatral "California Suite", escrita pelo dramaturgo Neil Simon, estreou em Los Angeles: no espetáculo em quatro atos, quatro atores interpretavam diversos personagens que viviam situações dramáticas e cômicas em um hotel da cidade. Um dos autores mais requisitados por Hollywood na década de 70, não demorou para que Simon transferisse seu texto ácido dos palcos para as telas. Com a direção de Herbert Ross - cineasta em alta na época graças às indicações ao Oscar por dois filmes no mesmo ano, "Momento de decisão" e "A garota do adeus", escrito pelo mesmo Neil Simon - e um elenco com nomes populares e de prestígio, a adaptação foi recebida com entusiasmo pela crítica, mas é bastante óbvio que seu resultado final carece da espontaneidade do palco e da criatividade de sua montagem teatral. Com os personagens interpretados por atores variados, o filme não passa de uma agradável sessão da tarde que sofre do mal da maioria dos filmes episódicos: a irregularidade.
A estrutura da peça - quatro histórias separadas tendo em comum apenas o cenário do hotel de luxo - se mantém na adaptação, mas dessa vez as tramas são claramente distintas em tom e elenco. Quem surge primeiro - em um dos melhores episódios - é a atriz britânica Diana Barrie (Maggie Smith, sensacional), que está em Los Angeles para comparecer à entrega do Oscar, para o qual foi indicada por uma comédia que ela mesma despreza. Como intérprete dramática de clássicos do teatro, ela desdenha do cinema comercial e, em sua presença na cidade, é acompanhada do marido, Sidney Cochran (Michael Caine), que abandonou a carreira de ator e guarda um segredo a sete chaves do grande público. No mesmo hotel em que Diana se prepara para a grande noite, está a jornalista Hannah Warren (Jane Fonda), que deixou Nova York para trás com o objetivo de encontrar o ex-marido, Bill (Alan Alda), e resolver problemas pendentes em relação à filha adolescente e rebelde. O relacionamento falido dos dois ainda tem arestas a aparar - e elas vêm à tona na tarde em que eles passam juntos, relembrando o passado. É o segmento menos interessante do filme, apesar dos intérpretes afiados e do talento superlativo de Fonda.
A terceira história - apesar do fato de todas acontecerem concomitantemente - traz à cidade dois casais de Chicago dispostos a um fim-de-semana de diversão, mas que acaba se tornando um pequeno pesadelo. Os médicos Willi Panama (Bill Cosby) e Chauncey Gump (Richard Pryor) chegam à Los Angeles com suas respectivas esposas, mas o fato de apenas um deles conseguir um quarto decente (por um erro do sistema) é suficiente para que tenha início uma série de pequenas competições internas que culminará em uma confusão sem precedentes dentro do lastimável quarto onde o menos afortunado é obrigado a dormir. É a trama com humor mais físico das quatro, valorizada pela ótima química entre Cosby e Pryor, dois dos maiores nomes do cinema negro norte-americano dos anos 70. A última história é também cômica, e só a presença de Walter Matthau já é mais do que suficiente para arrancar gargalhadas. Ele vive Marvin Michaels, que, enquanto aguarda a chegada da mulher, Millie (a também escritora Elaine May), para o bar mitzvah de um sobrinho, acaba cedendo à tentação de dormir com uma garota de programa - que, para seu desespero, acaba desabando em sua cama no hotel momentos antes do reencontro com a esposa. O timing cômico perfeito de Matthau, aliado ao eterno ar de desligada de May dão o tom exato da farsa criada por Simon - que nem mesmo a direção um tanto engessada de Ross consegue atrapalhar.
No final das contas, "California Suite" é apenas isso: um entretenimento simples, realizado por gente competente e sem ambições maiores do que divertir enquanto dura. Maggie Smith se deu bem por seu desempenho, ganhando o Oscar de atriz coadjuvante (sorte que sua personagem acaba por não ter) e o Golden Globe em um ano em que as cerimônias de premiação estavam com os olhos voltados para dramas mais sérios e relevantes politicamente (foi o ano de "O franco-atirador" e "Amargo regresso", que tratavam do retorno dos americanos da Guerra do Vietnã). Despretensioso e simples, é um filme que comprova o prestígio de Neil Simon na Hollywood da época, mas que resiste ao tempo única e exclusivamente graças a seu elenco impecável. Sem maiores expectativas pode render um bom passatempo.
segunda-feira
SOMENTE ELAS
Não seria exagero afirmar que o cineasta Herbert Ross tinha um jeito todo especial de falar sobre mulheres em seus filmes. Duas de suas mais conhecidas obras, por exemplo, tem personagens femininas fortes e podem ser considerados "filmes de mulher": "Momento de decisão", que punha Shirley MacLaine e Anne Bancroft frente a frente para resolver diferenças do passado, e "Flores de aço", drama choroso com grande elenco de atrizes e que deu a primeira indicação ao Oscar de Julia Roberts. "Somente elas", seu último filme, também, como o título sugere, concentra toda sua atenção em representantes fortes do sexo frágil. No rastro do bem-sucedido "Thelma & Louise", que ressuscitou o interesse do público por mulheres em situações menos "domésticas", o filme escrito por Don Roos - que depois partiria para a carreira de diretor dos injustamente desconhecidos "O oposto do sexo" e "Finais felizes" - mistura elementos de humor, drama e road-movie em um resultado bastante agradável e competente, ainda que longe de ser brilhante.
Quando o filme começa, a cantora Jane de Luca (Whoopi Goldberg) acaba de abandonar o bar onde fazia suas apresentações - e era ignorada pela plateia - e, desejando mudar-se para a Califórnia, responde a um anúncio de jornal da jovem Robin (Mary-Louise Parker), que precisa de companhia na viagem. No meio do caminho, as duas encontram a amalucada Holly (Drew Barrymore), amiga de Jane que acaba de descobrir-se grávida - sem saber se o pai é ou não seu namorado drogado e violento. Quando o namorado de Holly é encontrado morto, as três apressam a jornada, mas resolvem estabelecer-se em uma cidade do Texas. A vida simples e tranquila das três amigas sofre uma reviravolta quando Holly cai de amores por Abe (Matthew McConaughey), um policial honesto e dedicado e Jane se descobre apaixonada por Robin, que é soropositiva e tenta fugir das lembranças da morte do irmão pequeno.
"Somente elas" não foge dos clichês do gênero, mas os apresenta de maneira leve e fluente, sem forçar a barra, ao menos até seu terço final, quando a doença de Robin avança e todas são obrigadas a lidar com as consequências da morte do namorado de Holly. Esse terceiro ato talvez seja o que mais se aproxima dos dramalhões que o cinema americano adora produzir, mas não convenceu muito a crítica, falhando no que talvez fosse seu maior objetivo: ganhar certas estatuetas. Mary-Louise Parker é uma boa atriz, como a série de TV "Weeds" viria a comprovar, mas soa repetitiva em muitos momentos, não conquistando a plateia com sua personagem, ao contrário do que acontece com Drew Barrymore, dona de uma simpatia e um carisma irresistíveis que disfarçam suas pequenas falhas como atriz dramática: sua Holly parece ter sido escrita para ela, tamanha a identificação com o papel. E Whoopi Goldberg dispensa comentários. Dona de um perfeito timing cômico e um grande talento dramático, é ela quem conduz com maestria o filme de Ross, fazendo com o que o público perdoe certos exageros da trama.
E o que falar da trilha sonora, então? Como o próprio título sugere, até mesmo as canções escolhidas para "Somente elas" são femininas. Desde a versão interpretada por Goldberg de "Piece of my heart" até sua devastadora interpretação de "You got it", de Roy Orbison (cuja gravação na voz de Bonnie Rait encerra o filme), o público é brindado com uma primorosa seleção de músicas cantadas por mulheres. Estão presentes Annie Lennox, Cranberries, Sheryl Crow, Pretenders e Indigo Girls, dentre outras menos conhecidas, o que faz com que "ouvir" o filme seja tão bom quanto assistí-lo.
"Somente elas" é um perfeito drama para quem gosta de encharcar lenços de papel. A amizade entre as três protagonistas parece real, ainda que aconteça de forma quase abrupta na primeira metade, e a química entre as atrizes é excelente. Alguns diálogos são bastante espertos - cortesia do humor corrosivo de Don Roos - e até mesmo o final quase depressivo (só não o é totalmente porque existe o eterno ciclo da vida se renovando com o bebê de Holly) funciona e atinge seus objetivos. Não é uma obra-prima, mas vale a pena ser visto, nem que seja para conferir o trabalho de equipe de Goldberg, Parker e Barrymore.
domingo
FLORES DE AÇO
FLORES DE AÇO (Steel magnolias, 1989, Columbia Pictures, 117min) Direção: Herbert Ross. Roteiro: Robert Harling, peça teatral de sua autoria. Fotografia: John A. Alonzo. Montagem: Paul Hirsch. Música: Georges Delerue. Figurino: Julie Weiss. Direção de arte/cenários: Gene Callahan, Edward Pisoni/Garrett Lewis, Lee Poll. Casting: Hank McCann. Produção executiva: Victoria White. Produção: Ray Stark. Elenco: Sally Field, Dolly Parton, Julia Roberts, Daryl Hannah, Shirley MacLaine, Olympia Dukakis, Tom Skerrit, Dylan McDermot, Sam Shepard. Estreia: 15/11/89
Indicado ao Oscar de Atriz Coadjuvante (Julia Roberts)
Golden Globe de Melhor Atriz Coadjuvante (Julia Roberts)
Em 1977, o cineasta Herbert Ross esteve em seu auge, chegando a concorrer consigo mesmo ao Oscar de Melhor Filme - graças à comédia romântica "A garota do adeus" e ao drama de balé "Momento de decisão". Depois, teve uma carreira irregular, onde sucessos de bilheteria como "Footloose" e "O segredo do meu sucesso" dividiam espaço com obras bem menos consideradas, como o fraco "Dinheiro do céu". Em 1989 ele voltou a chamar a atenção da crítica e do público com um filme cujo grandioso elenco feminino seria praticamente impossível de ignorar: "Flores de aço", um dramalhão familiar disfarçado de comédia de costumes que hoje em dia só é realmente lembrado por ter sido a primeira real oportunidade da carreira de Julia Roberts, que foi indicada ao Oscar de coadjuvante.
Apesar de ser coadjuvante (e ter ficado com o papel oferecido a Winona Ryder e Meg Ryan), é a personagem de Roberts que serve como fio condutor e ponto em comum das personagens criadas pelo roteiro de Robert Harling (que escreveu a peça teatral que deu origem ao roteiro em homenagem à irmã, morta depois de uma cirurgia mal-sucedida). Pouco antes de ser alçada à condição de mega-estrela com sua participação em "Uma linda mulher" (que estrearia nos cinemas poucos meses depois), Roberts vive Shelby, uma jovem diabética que, nas primeiras cenas do filme, se casa com seu príncipe encantado, o charmoso Jackson (Dylan McDermott) e parte para uma vida distante da pequena cidade da Louisianna, onde vive sua família, liderada pela superprotetora M'Lynn (Sally Field). O filme conta a trágica história de Shelby - que tem diabetes e arrisca uma gravidez perigosa para formar uma família - através dos olhos de um grupo de mulheres que frequentam o salão de beleza da exuberante Truvy (Dolly Parton). As reuniões femininas que tem lugar na casa da esteticista acabam sendo o mais perto que todas elas tem de reuniões familiares - ainda que algumas delas realmente tenham uma família de verdade.

"Flores de aço" é um filme para mulheres e não é sexismo ou preconceito afirmar isso. As personagens masculinas pouco aparecem ou tem participação ativa na trama (ainda que o elenco conte com nomes importantes como Tom Skerrit e Sam Shepard), deixando que o "sexo frágil" mande no jogo o tempo todo. No entanto, o resultado final, apesar das promessas, não deixa de ser insatisfatório. Ao concentrar seu foco na relação entre M'Lynn e Shelby, Ross ganha em parte - porque Sally Field e Roberts dão conta do recado lindamente - mas perde por não dar oportunidade de brilho a outros membros do seu formidável elenco. Shirley MacLaine, por exemplo, tem o ingrato papel de uma matrona desagradável e mau-humorada e nem mesmo o inegável talento da atriz consegue tirar muito da superficialidade de sua personagem. E Daryl Hannah, enfeiada propositalmente para viver a cabeleireira, tem um dos trabalhos mais pálidos de sua carreira.
"Flores de aço" é considerada uma comédia dramática. Como drama funciona muito bem - apesar de exagerar na sacarina em seu final. Como comédia, no entanto, não desperta mais do que alguns sorrisos tímidos. Vale para ver Julia Roberts antes de virar a atriz mais bem paga de Hollywood.
Indicado ao Oscar de Atriz Coadjuvante (Julia Roberts)
Golden Globe de Melhor Atriz Coadjuvante (Julia Roberts)
Em 1977, o cineasta Herbert Ross esteve em seu auge, chegando a concorrer consigo mesmo ao Oscar de Melhor Filme - graças à comédia romântica "A garota do adeus" e ao drama de balé "Momento de decisão". Depois, teve uma carreira irregular, onde sucessos de bilheteria como "Footloose" e "O segredo do meu sucesso" dividiam espaço com obras bem menos consideradas, como o fraco "Dinheiro do céu". Em 1989 ele voltou a chamar a atenção da crítica e do público com um filme cujo grandioso elenco feminino seria praticamente impossível de ignorar: "Flores de aço", um dramalhão familiar disfarçado de comédia de costumes que hoje em dia só é realmente lembrado por ter sido a primeira real oportunidade da carreira de Julia Roberts, que foi indicada ao Oscar de coadjuvante.
Apesar de ser coadjuvante (e ter ficado com o papel oferecido a Winona Ryder e Meg Ryan), é a personagem de Roberts que serve como fio condutor e ponto em comum das personagens criadas pelo roteiro de Robert Harling (que escreveu a peça teatral que deu origem ao roteiro em homenagem à irmã, morta depois de uma cirurgia mal-sucedida). Pouco antes de ser alçada à condição de mega-estrela com sua participação em "Uma linda mulher" (que estrearia nos cinemas poucos meses depois), Roberts vive Shelby, uma jovem diabética que, nas primeiras cenas do filme, se casa com seu príncipe encantado, o charmoso Jackson (Dylan McDermott) e parte para uma vida distante da pequena cidade da Louisianna, onde vive sua família, liderada pela superprotetora M'Lynn (Sally Field). O filme conta a trágica história de Shelby - que tem diabetes e arrisca uma gravidez perigosa para formar uma família - através dos olhos de um grupo de mulheres que frequentam o salão de beleza da exuberante Truvy (Dolly Parton). As reuniões femininas que tem lugar na casa da esteticista acabam sendo o mais perto que todas elas tem de reuniões familiares - ainda que algumas delas realmente tenham uma família de verdade.

"Flores de aço" é um filme para mulheres e não é sexismo ou preconceito afirmar isso. As personagens masculinas pouco aparecem ou tem participação ativa na trama (ainda que o elenco conte com nomes importantes como Tom Skerrit e Sam Shepard), deixando que o "sexo frágil" mande no jogo o tempo todo. No entanto, o resultado final, apesar das promessas, não deixa de ser insatisfatório. Ao concentrar seu foco na relação entre M'Lynn e Shelby, Ross ganha em parte - porque Sally Field e Roberts dão conta do recado lindamente - mas perde por não dar oportunidade de brilho a outros membros do seu formidável elenco. Shirley MacLaine, por exemplo, tem o ingrato papel de uma matrona desagradável e mau-humorada e nem mesmo o inegável talento da atriz consegue tirar muito da superficialidade de sua personagem. E Daryl Hannah, enfeiada propositalmente para viver a cabeleireira, tem um dos trabalhos mais pálidos de sua carreira.
"Flores de aço" é considerada uma comédia dramática. Como drama funciona muito bem - apesar de exagerar na sacarina em seu final. Como comédia, no entanto, não desperta mais do que alguns sorrisos tímidos. Vale para ver Julia Roberts antes de virar a atriz mais bem paga de Hollywood.
segunda-feira
FOOTLOOSE, RITMO LOUCO

FOOTLOOSE, RITMO LOUCO (Footloose, 1984, Paramount Pictures, 107min) Direção: Herbert Ross. Roteiro: Dean Pitchford. Fotografia: Ric Waite. Montagem: Paul Hirsch. Figurino: Gloria Gresham. Direção de arte/cenários: Ron Hobbs/Mary Olivia Swanson. Casting: Jane Feinberg, Mike Fenton, Marci Liroff. Produção executiva: Daniel Melnick. Produção: Lewis J. Rachmil, Craig Zadan. Elenco: Kevin Bacon, Lori Singer, Dianne Wiest, John Lithgow, Chris Penn, Sarah Jessica Parker. Estreia: 17/02/84
2 indicações ao Oscar: Canção ("Footlose", "Let's hear it for the boy")
Existem situações apresentadas em filmes que parecem tão absurdas que é difícil acreditar que elas realmente aconteceram na vida real. E é mais ou menos isso que acontece quando se assiste a "Footloose, ritmo louco", um dos clássicos absolutos dos anos 80, constantemente reprisado na televisão aberta na década seguinte. Segundo Kenny Loggins, compositor da conhecida canção-tema indicada ao Oscar, os acontecimentos mostrados no filme de Herbert Ross são inspirados em eventos que realmente aconteceram em uma pequena cidade de Oklahoma em 1978, quando um grupo de adolescentes conseguiu acabar com a lei que proibia qualquer tipo de dança nas festas.
Logicamente o roteiro de Dean Pitchford floreia um pouco a história para melhor apetecer à plateia jovem, que lotou sessões de cinema mundo afora e transformou o filme em um sucesso atemporal - há inclusive boatos de uma refilmagem, que Zach Efron dispensou para não ficar marcado como ator de musicais. Mas o fato é que apesar de parecer forçada, a trama é baseada em situações reais e conquista o público independentemente de suas origens veridícas. Kevin Bacon, no papel que lhe rendeu o estrelato aos 24 anos, vive Ren McCormack, que chega, depois do divórcio dos pais, a uma pequena cidade do interior dos EUA. Acostumado com uma vida liberal e quase independente, ele fica chocado com a rigidez das regras impostas por Shaw Moore (John Lithgow), o reverendo da cidade. Seguidas cegamente pela população - mas questionadas ferozmente por sua filha Ariel (Lori Singer) - as leis morais impedem inclusive que os jovens da cidade possam dançar em suas festas. Apaixonado por Ariel, Ren resolve convencer seus colegas a exigir uma festa de formatura com tudo que eles tem direito - e bate de frente com o líder espiritual do lugar.

Sem pretensões maiores a não ser contar uma história simples e divertida - ainda que critique de forma não muito velada a hipocrisia religiosa e utilize a dança mais uma vez como metáfora para o sexo - o filme de Herbert Ross (diretor do elogiadíssimo "Momento de decisão") seduz justamente por sua falta de ambição. Não há grandes complexidades psicológicas em suas personagens - ainda que os atos do reverendo tenham razões bem justificáveis - e nem mesmo o romance central chega a ser eletrizante (culpa talvez da fraca Lori Singer, que ficou com o papel principal depois da recusa de várias atrizes jovens que começavam no cinema à época). Mas sua trilha sonora vibrante conquista até o mais preguiçoso espectador.
Aliás, é o público fiel que faz de "Footloose" o sucesso que ele é ate hoje. Kevin Bacon, mesmo consagrado por inúmeros outros papéis importantes, ainda é lembrado por seu Ren McCormack (que o diga um engraçadíssimo episódio da extinta série "Will & Grace") e sua coreografia enlouquecida - e ele ficou com o papel apenas porque Tom Cruise estava compromissado com outro filme e Rob Lowe machucou-se antes das filmagens. E seria interessante imaginar como seria o resultado final se o megalomaníaco Michael Cimino tivesse sido o diretor ou qualquer outra atriz fizesse par romântico com Bacon - e aí pode-se escolher entre Daryl Hannah, Melanie Griffith, Michelle Pfeiffer, Jamie Lee Curtis, Meg Ryan, Jennifer Jason-Leigh, Jodie Foster, Brooke Shields, Diane Lane ou Bridget Fonda. Possivelmente qualquer uma seria mais memorável que a apática Lori Singer, que permite, em uma revisão, ser eclipsada pelos coadjuvantes que fizeram carreira - o falecido Chris Penn bem mais magro e a Carrie Bradshaw em pessoa Sarah Jessica Parker em uma partipação pequena.
"Footloose" ainda funciona como sessão de tarde. E sua música-tema ainda levanta qualquer festa saudosista.
domingo
MOMENTO DE DECISÃO

MOMENTO DE DECISÃO (The turning point, 1977, 20th Century Fox, 119min) Direção: Herbert Ross. Roteiro: Arthur Laurents. Fotografia: Robert Surtees. Montagem: William Reynolds. Figurino: Tony Faso, Albert Wolski. Direção de arte/cenários: Albert Brenner/Marvin March. Casting: David Graham, Juliet Taylor. Produção executiva: Nora Kaye. Produção: Arthur Laurents, Herbert Ross. Elenco: Shirley MacLaine, Anne Bancroft, Tom Skerrit, Leslie Browne, Mikhail Baryshnikov, Martha Scott, Alexandra Danilova. Estreia: 14/11/77
11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Herbert Ross), Atriz (Anne Bancroft, Shirley MacLaine), Ator Coadjuvante (Mikhail Baryshnikov), Atriz Coadjuvante (Leslie Browne), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Direção de arte, Som
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (Herbert Ross)
No início de 1978, o cineasta americano Herbert Ross se viu em uma situação um tanto rara em seu meio, ainda que de certa forma bastante agradável. Seus dois trabalhos lançados no ano anterior concorriam ao Oscar de Melhor Filme, tornando-o rival dele mesmo. A comédia romântica "A garota do adeus" deu o prêmio de melhor ator a Richard Dreyfuss, enquanto sua maior aposta, o drama familiar "Momento de decisão" saiu da cerimônia de mãos abanando, apesar de suas generosas 11 indicações à estatueta. No entanto, sua fragorosa derrota - que faz dele, até hoje, empatado com "A cor púrpura", de Steven Spielberg, o maior perdedor da história do Oscar - no entanto, não espelha suas inúmeras qualidades. Tivesse tido mais sorte na noite que consagrou Woody Allen e seu "Noivo neurótico, noiva nervosa", o filme de Ross certamente estaria eternizado como um dos mais consistentes dramas sobre os bastidores do balé, mesmo que o utilize apenas como pano de fundo de uma história humana e envolvente.
Escrito por Arthur Laurents (o mesmo roteirista de "Nosso amor de ontem"), "Momento de decisão" conta a história de duas mulheres de mundos aparentemente diferentes mas que possuem dentro delas muito mais em comum do que aparentam. Shirley MacLaine (deixando de lado o frescor juvenil de filmes como "Se meu apartamento falasse") vive Deedee Rodgers, uma dona-de-casa que abandonou uma promissora carreira como bailarina profissional para dedicar-se à família. Ao lado do marido (Tom Skerrit), cuida de uma escola de dança, enquanto vê o tempo passar e os filhos - dois dos quais também nutrem a mesma paixão pelo balé - crescerem. Sua amiga de juventude, Emma Jacklin (Anne Bancroft, elegantíssima e a excelente atriz de sempre) é exatamente seu contrário. Ao abdicar da vida pessoal para cuidar da carreira, tornou-se uma admirada, famosa e invejada bailarina, protagonista dos maiores clássicos coreografados para os palcos. Quando as duas se reencontram, o conflito se instala logo que as doces lembranças começam a realmente soar como lembranças; Emilia (Leslie Browne) é aceita na companhia de Emma e resolve morar em Nova York. Temerosa com essa mudança tão radical na vida da filha, Deedee decide acompanhá-la, mas a proximidade com seu passado e com Emma a faz questionar suas escolhas, o que leva as duas a uma dura batalha emocional pelo amor e pela atenção da adolescente.
É notável a maneira com que Laurents consegue equilibrar os dois polos de seu roteiro sem torná-lo maniqueísta ou apelar para o dramalhão choroso. Suas duas protagonistas soam verdadeiras e honestas, sem o ranço dos melodramas familiares que poluem as telas de cinema em busca de premiações. Deedee é uma mulher realizada com sua vida familiar, mas que não consegue deixar de lado as dúvidas sobre a opção que fez para seu futuro, principalmente quando surge diante de seus olhos um dèja-vu de sua história, protagonizado por sua filha. Emma, por sua vez, atingiu o ápice de sua carreira, o máximo de sucesso que poderia almejar, mas esbarra no beco sem saída de um amanhã incerto quanto à dança e solitário quanto a relações familiares. Entre as duas, no epicentro do furacão, Emilia tenta seguir seu próprio caminho, que se complica quando ela se apaixona por Yuri (Mikhail Baryshnikov), um bailarino russo com quem divide os palcos e suas primeiras noites.
"Momento de decisão" tinha tudo para ser um daqueles filmes lacrimosos que testam a paciência do espectador. Mas Herbert Ross não foi indicado ao Oscar à toa. Contando com o estofo de suas grandes atrizes centrais (Audrey Hepburn chegou a cobiçar o papel que ficou com Anne Bancroft), ele criou uma história sobre sonhos destruídos, segundas chances e a força inquebrável da amizade sem abusar dos clichês que tinha à disposição. O clímax poderoso - que acontece logo depois dos belíssimos números musicais que contam inclusive com a participação da brasileira Marcia Haydée - apenas comprova a força de sua trama e de seu elenco. Elegante, sofisticado mas nunca chato ou aborrecido, é um filme que merece uma revisão, nem que seja para que seja feita justiça a sua dupla principal.
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