Mostrando postagens com marcador DIANE KEATON. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador DIANE KEATON. Mostrar todas as postagens

segunda-feira

DO JEITO QUE ELAS QUEREM


DO JEITO QUE ELAS QUEREM (Book club, 2018, June Pictures/Apartment Story/Endeavor Content, 104min) Direção: Bill Holderman. Roteiro: Bill Holderman, Erin Simms. Fotografia: Andrew Dunn. Montagem: Priscilla Nedd-Friendly. Música: Peter Nashel. Figurino: Shay Cunliffe. Direção de arte/cenários: Rachel O'Toole/Dena Roth. Produção executiva: Alan Blomquist, Ted Deiker. Produção: Andrew Duncan, Bill Holderman, Alex Saks, Erin Simms. Elenco: Diane Keaton, Jane Fonda, Candice Bergen, Mary Steenburgen, Andy Garcia, Craig T. Nelson, Don Johnson, Ed Begley Jr., Richard Dreyfuss, Wallace Shawn, Alicia Silverstone. Estreia: 17/5/2018

Em uma era que as aparências, a juventude e a popularidade nas redes sociais valem mais do que talento, é um alento perceber que ainda existe a possibilidade de se nadar contra a corrente mesmo na pouco ousada indústria de cinema de Hollywood. "Do jeito que elas querem" pode até não ter mudado a história da sétima arte ou a forma dos executivos enxergarem mulheres maduras como algo indesejável comercialmente, mas sua bilheteria internacional acima dos 100 milhões de dólares certamente demonstrou que, a despeito do pensamento comum, ainda existe espaço para filmes protagonizados por gente acima dos 60 anos de idade - principalmente quando esta gente é do calibre de Diane Keaton, Jane Fonda, Candice Bergen e Mary Steenburgen. São elas, do alto de seu carisma e de sua capacidade de extrair o melhor até mesmo de um roteiro bobo e quase superficial, o principal atrativo do filme de Bill Holderman - uma produção leve, divertida e que não tem medo de falar de um assunto tabu (sexo na maturidade) com a naturalidade de uma comédia adolescente. Pode até soar inverossímil em alguns momentos, mas é difícil não simpatizar com um elenco tão sensacional - que conta com participações luxuosas de Richard Dreyfuss, Andy Garcia e Don Johnson.

Filme de estreia de Holderman como diretor - como produtor seu currículo conta com obras que valorizam atores veteranos, como "O velho e a arma", que deu a Robert Redford, em 2018, um dos melhores papeis de sua carreira -, "Do jeito que elas querem" é, nitidamente, um veículo para o brilho cômico de suas estrelas, todas brilhantes e extremamente à vontade ao assumir a idade e seus efeitos colaterais na vida sexual. Tudo bem que todas são ricas (ou ao menos de classe média alta), sem problemas maiores a resolver e relativamente bem-sucedidas, mas isso não impede o público de rir de suas desventuras amorosas - e, dependendo do espectador (ou espectadora), atéomesmo identificar-se com algumas delas. Ao centrar sua trama em quatro personagens principais, o roteiro abarca diferentes tipos de relacionamentos e personalidades, e mesmo que não tente se aprofundar em nenhuma delas apresenta à plateia, de forma agradável e esteticamente sofisticada, um interessante painel sobre o amor na terceira idade.

Vivian (Jane Fonda) é uma empresária do ramo da hotelaria que tem uma vida sexual razoavelmente ativa mas que é incapaz de assumir um relacionamento sério - simplesmente não consegue dormir ao lado de um homem depois do sexo - até que reencontra um amor do passado, o músico Arthur (Don Johnson). Diane (Diane Keaton) ficou viúva recentemente e é pressionada pelas filhas casadas (uma delas vivida por Alicia Silverstone, musa dos anos 1990) para mudar de cidade e morar perto delas - sua preocupação é com sua segurança e sua saúde, como se ela fosse uma idosa inválida -, mas que se vê surpresa quando o charmoso piloto de avião Mitchell (Andy Garcia) se demonstra muito mais interessado nela do que se poderia imaginar. Sharon (Candice Bergen) é uma poderosa juíza que atravessa um período difícil depois da separação e do novo amor juvenil do ex-marido - e descobre que os sites de relacionamento podem esconder boas chances de realização sexual. E Carol (Mary Steenburgen) é uma dona-de-casa que tenta reacender a faísca amorosa do marido aposentado, Bruce (Craig T. Nelson). As quatro, amigas há décadas, se reúnem frequentemente em um Clube do Livro, onde falam de suas vidas e discutem literatura, embaladas por boas doses de vinho. Quando a obra escolhida é o polêmico "50 tons de cinza", todas elas se deixam influenciar pelo alto teor erótico da história e buscar dentro de si o melhor caminho para a felicidade a dois.


 Que não se espere maiores elocubrações intelectuais do roteiro, coescrito por Holderman e Erin Simms - atriz pouco conhecida e produtora do romântico "Nossas noites" (2017), que reuniu Jane Fonda e Robert Redford: a trama se contenta em aproveitar o talento de seu elenco para fazer rir enquanto derruba todo tipo de preconceito etário, mas jamais ambiciona discutir com seriedade o assunto. Seu objetivo é divertir o público com diálogos de duplo sentido, sequências de humor visual (o encontro de Craig T. Nelson com uma guarda de trânsito enquanto sofre os efeitos do Viagra é hilário), algum romantismo e momentos de pura comédia (o embate entre Candice Bergen e Richard Dreyfuss é delicioso). Não há a sofisticação de um Woody Allen. parceiro constante de Diane Keaton nos anos 1970, ou o engajamento dos filmes estrelados por Jane Fonda na mesma época, mas em compensação há a química precisa entre suas atrizes e a coragem da produção em apostar na experiência de seus intérpretes mesmo quando o senso comum da indústria privilegia efeitos visuais e orçamentos milionários. Além do mais, não tem preço rever o sempre ótimo Richard Dreyfuss - ainda que em um papel menor que seu talento - e testemunhar uma história que não relega mulheres com mais de 60 anos a tipos dramáticos e sofredores. 

Longe de problemas típicos de personagens de tal faixa etária - como o desprezo dos filhos, a deteriorização da saúde, a falta de oportunidades profissionais e a baixa autoestima -, as protagonistas de "Do jeito que elas querem" são festivas, alegres, independentes e donas do próprio nariz (e a mudança de tal status é o que move a personagem de Diane Keaton). Nada de lágrimas sofridas, reclamações doídas ou medo da morte. O roteiro brinca com a idade de suas heroínas de forma a envolver o espectador e fazê-lo rir de situações que, em mãos menos sutis, poderiam facilmente descambar para a vulgaridade e o mau gosto. Nenhuma atuação é digna de um Oscar e é pouco provável que o filme entre na lista dos preferidos da crítica, mas quem disse que só de obras-primas é feita a história do cinema? Se visto sem preconceitos - afinal é um "filme de mulher" -, "Do jeito que elas querem" é um programa dos mais divertidos.

O DORMINHOCO


O DORMINHOCO (Sleeper, 1973, United Artists, 89min) Direção: Woody Allen. Roteiro: Woody Allen, Marshall Brickman. Fotografia: David M. Walsh. Montagem: O. Nicholas Brown, Ron Kalish, Ralph Rosenblum. Figurino: Joel Schumacher. Direção de arte/cenários: Dale Hennesy/Gary Moreno. Produção executiva: Charles H. Joffe. Produção: Jack Grossberg. Elenco: Woody Allen, Diane Keaton, John Beck. Estreia: 17/12/73

Até a estreia de "O dorminhoco", no final de 1973, o cinema de Woody Allen ainda era uma espécie de extensão de seu trabalho como comediante - mais como uma plataforma para desenvolver piadas verbais e físicas do que para exatamente contar uma história. Foi a partir de sua ambiciosa ideia de realizar um filme de ficção científica com início, meio e fim, que ele tornou-se, de fato, um homem de cinema, capaz de explorar sem medo todos os recursos da linguagem. Grande sucesso de crítica e de bilheteria (custou cerca de 2 milhões de dólares e rendeu quase dez vezes isso), "O dorminhoco" é a prova de que Allen também sabe ser popular, a despeito de sua imagem de humorista sofisticado. Com sequências hilariantes e diálogos impagáveis, seu quarto longa-metragem - se for descontado "O que há, tigresa", de 1966, no qual ele utilizava um filme já feito para dublar e editar à sua maneira - é o pontapé inicial de uma fase que culminaria em seus Oscar de filme, direção e roteiro original de "Noivo neurótico, noiva nervosa" (1977).

Se a maioria de suas comédias brinca com o surreal, "O dorminhoco" pode, facilmente, ser considerada a mais alucinada delas. Seu personagem, Miles Monroe, é um músico amador e dono de uma loja de comida natural que, hospitalizado para uma pequena cirurgia, se torna parte de uma experiência criogênica. Depois de duzentos anos dormindo, ele é acordado em 2173 e dá de cara com um mundo completamente diferente daquele que conhecia. Dominada pelo totalitarismo de um tirânico líder, a população sofre sob um regime violento e pouco afeito a qualquer tipo de questionamento. Para sua surpresa, Miles é considerado peça-chave na revolução que está sendo concebida por um grupo de rebeldes: sem nenhum registro junto a um governo que apagou toda e qualquer lembrança do passado, ele tem as características ideais para infiltrá-los em um novo projeto de poder. A princípio relutante em envolver-se em tal aventura, Miles muda de ideia quando passa a ser perseguido pelas forças políticas locais - e quando se apaixona pela alienada Luna (Diane Keaton), manter-se vivo se torna objetivo prioritário.

 

Logo que teve a ideia para o roteiro de "O dorminhoco", Woody Allen buscou respaldo junto ao escritor Isaac Asimov, célebre por seus livros de ficção científica: depois de um breve encontro em que o autor de "Eu, robô" confirmou a relativa plausibilidade, o cineasta deu asas à imaginação e acabou com a concepção de um ambicioso filme de três horas de duração, em que a primeira parte mostraria a vida do protagonista em 1973. Com a negativa da United Artists, restou a Allen concentrar seu foco no que teria sido a segunda metade de seu projeto, ou seja, o embate de Miles Monroe com um admirável mundo novo onde as regras são completamente opostas as conhecidas por ele - basta saber que, ao contrário do que se acreditava no final do século XX, comida gordurosa e cigarros são considerados benéficos à saúde - e seus desajeitados métodos para conquistar o amor de Luna (uma Diane Keaton no auge da beleza). Inspirado no humor de dois de seus ídolos, Groucho Marx e Bob Hope, o cineasta consegue fazer rir sem deixar de lado a inteligência que é sua característica mais marcante. Seja quando põe Miles disfarçado de robô ou quando ele pega um nariz como refém (sim, isso mesmo, um nariz), Allen sempre encontra um caminho único para buscar a gargalhada da plateia. É de se imaginar como seria o resultado do filme se ele realmente tivesse levado a cabo a ideia de realizá-lo sem diálogos.
 
Com 35 horas de material filmado e apenas 90 minutos em sua versão final, "O dorminhoco" é um passo adiante na carreira já promissora de Allen no começo da década de 1970, com uma cenografia cuidadosamente planejada (o diretor queria filmar em Brasília por causa de seu visual futurista, o que se mostrou proibitivo pelos altos custos) e um roteiro estruturado de forma mais madura que seus trabalhos anteriores. Finalizado dois dias antes de sua estreia, "O dorminhoco" ainda diverte mesmo depois de quatro décadas, com seu humor iconoclasta e debochado revelando um período brilhante de seu criador - que em seguida lançaria seu engraçadíssimo "A última noite de Boris Grushenko", uma homenagem impagável à literatura russa e que teria, em seu enredo principal, ecos das aventuras de Miles e Luna. Imperdível

domingo

LINHAS CRUZADAS

LINHAS CRUZADAS (Hanging up, 2000, Columbia Pictures Corporation, 94min) Direção: Diane Keaton. Roteiro: Nora Ephron, Delia Ephron, romance de Delia Ephron. Fotografia: Howard Atherton. Montagem: Julie Monroe. Música: David Hirschfelder. Figurino: Bobbie Read. Direção de arte/cenários: Waldemar Kalinowski/Florence Fellman. Produção executiva: Delia Ephron, Bill Robinson. Produção: Nora Ephron, Laurence Mark. Elenco: Meg Ryan, Walter Matthau, Diane Keaton, Lisa Kudrow, Adam Arkin, Cloris Leachman. Estreia: 16/02/00

O time formado pela atriz Meg Ryan e pela roteirista Nora Ephron se mostrou uma fórmula de sucesso em pelo menos três ocasiões: em 1989, com "Harry e Sally: feitos um para o outro" (que revelou Ryan como estrela e rendeu à Ephron uma indicação ao Oscar), em 1993, com "Sintonia de amor" (enorme sucesso de bilheteria que também concorreu a uma estatueta pelo script romântico e bem-humorado), e em 1997,  com "Mensagem para você" (remake do clássico "A pequena loja da esquina" e que voltava a reunir Ryan com Tom Hanks, depois do êxito de "Sintonia"). No caso dos dois últimos, Ephron não apenas assinava o roteiro como também assumia a cadeira de direção, imprimindo a eles um estilo inconfundível que mesclava risos, lágrimas, música de qualidade e romantismo para dar e vender. Em "Linhas cruzadas", lançado em 2000, a dupla voltou a se encontrar, mas dessa vez com uma alteração em sua dinâmica: Ephron continuava por trás do texto, Meg continuava com o principal papel feminino, mas a direção ficou a cargo de Diane Keaton - atriz consagrada e cineasta bissexta. Porém, o filme, baseado no romance de Delia Ephron (irmã de Nora e coautora do roteiro), mostrou que nem mesmo receitas já testadas funcionam o tempo todo: massacrado pela crítica e com uma bilheteria tímida que nem mesmo cobriu seu custo, "Linhas cruzadas" só fica na memória mesmo por um fato triste: ser o último trabalho do ator Walter Matthau, que morreu quatro meses após sua estreia.

Na verdade "Linhas cruzadas" não é um filme ruim. Pelo menos não tão ruim quanto fizeram pensar as críticas à época de seu lançamento e a renda minguada de pouco mais de 30 milhões de dólares no mercado doméstico. Talvez seu maior problema tenha sido a equivocada estratégia de marketing, que, ao invés de assumi-lo como o drama familiar que é, preferiu vender a ideia de que se tratava de uma comédia - fator agravado pela presença de Lisa Kudrow (da popular série "Friends"), de Keaton (cujo "Clube das desquitadas", de 1996, foi um sucesso-surpresa) e até da própria Meg Ryan, a encarnação mais perfeita do romantismo ingênuo na década. Mesmo que o texto de Ephron tenha mantido alguns de seus toques de sarcasmo, a história que envolve três irmãs lidando com a iminência da morte do pai não é exatamente leve ou divertida - e nem mesmo o timing cômico de suas atrizes é capaz de levantar um tema tão denso. A indecisão entre o drama e a comédia (acentuada pela pouca experiência de Keaton atrás das câmeras) impede o filme de decolar em qualquer um dos gêneros.Em "Linhas cruzadas" o público não ri nem chora - fica sempre no meio do caminho, esperando que finalmente o roteiro tome um rumo definido (e quando isso acontece, perto do final, já é tarde demais para esperar a empatia da plateia).


Walter Matthau, simpático como sempre, dá vida a Lou Mozell, um septuagenário bonachão, mulherengo e irresponsável que, vítima de câncer, dá entrada em um hospital já demonstrando sinais de demência - que o leva a frequentemente fugir da realidade e relembrar traumas do passado. Entre esses traumas, o maior é a separação de sua mulher, Pat (Cloris Leachman), que o abandonou e às três filhas por não ter "o instinto maternal" como uma de suas características. A doença de Lou afeta especialmente sua filha do meio, Eve (Meg Ryan), dona de uma empresa de planejamento de festas e que, há alguns anos, se afastou dele depois de um incidente em uma festa de família. Como sua irmã mais velha, Georgia (Diane Keaton) é uma ocupadíssima dona de revista e celebridade nacional, e sua caçula, Maddy (Lisa Kudrow) está tentando uma carreira como atriz de telenovelas, cabe à Eve lidar com a enfermidade paterna e todas as suas consequências - o que irá fatalmente fazê-la encarar alguns fantasmas e a sua relação com as irmãs, com quem mantém um relacionamento ameno mas repleto de arestas e alguns ressentimentos.

Apesar de não atingir a todo o seu potencial dramático (ou cômico), "Linhas cruzadas" é um filme altamente simpático e agradável. Não é uma produção detestável e tampouco "o pior filme já feito", segundo alguns críticos mais severos, mas também não pode ser considerado bom. Seu elenco é ótimo, mas todos repetem à exaustão seus maneirismos típicos: Ryan como a adorável protagonista desengonçada, Keaton como a elegante atrapalhada, Kudrow como a desajeitada e Matthau como o pai ranzinza. Ninguém sai de sua zona de conforto, ninguém arrisca um voo mais alto - e isso se reflete no resultado final, pouco memorável e até decepcionante. Visualmente atraente e com alguns bons momentos perdidos em um roteiro cheio de vai-e-vens, é um filme muito aquém do que se poderia esperar de uma união de tantos talentos, mas vale uma sessão da tarde descompromissada - especialmente para os fãs do trio de atrizes ou do saudoso Walter Matthau. Não muda a vida de ninguém, mas também não tira nenhum pedaço.

quarta-feira

PRESENTE DE GREGO

PRESENTE DE GREGO (Baby boom, 1987, United Artists, 110min) Direção: Charles Shyer. Roteiro: Nancy Meyers, Charles Shyer. Fotografia: William A. Fraker. Montagem: Lynzee Klingman. Música: Bill Conti. Figurino: Susan Becker. Direção de arte/cenários: Jeffrey Howard/Lisa Fischer. Produção: Nancy Meyers. Elenco: Diane Keaton, Sam Shepard, Harold Ramis, James Spader, Pat Hingle, Sam Wanamaker. Estreia: 17/9/87 (Festival de Toronto)

A década de 80 viu surgir, no cinemão hollywoodiano, um período que, refletindo o austero governo Reagan, virava suas câmeras para a celebração dos "tradicionais valores americanos" - e que, com o recrudescimento da AIDS, tentava reafirmar os benefícios do núcleo familiar. Foi nesse nicho que até filmes de suspense como "Atração fatal" (87) encontravam um jeito de salientar o conservadorismo do público, identificado com o pensamento puritano da indústria e lotando as salas de cinema. Nada mais normal, portanto, considerando-se essa peculiaridade do mercado, que comédias censura livre para consumo geral se tornassem sucesso de bilheteria - especialmente se estreladas por crianças (de preferência de colo). Foi assim que "Três homens e um bebê" - estrelado por Tom Selleck, Ted Danson e Steve Guttenberg e refilmagem de um êxito francês - e este "Presente de grego" caíram como uma luva no gosto popular. Com uma trama simples (quase simplória), uma atriz de carisma no papel principal e um adorável bebê como atrativo extra, o filme do diretor Charles Shyer - na época casado com a roteirista/produtora Nancy Meyers, com quem assinaria ainda a refilmagem de "Operação Cupido" (98) - chegou a concorrer a dois Golden Globes (melhor filme e melhor atriz, ambas na subcategoria comédia/musical) e esteve perto de dar à Diane Keaton o prêmio de melhor atriz do ano pela National Society of Film Critics. Um exagero, diga-se de passagem, mas que comprova seu prestígio junto à crítica.

Sem precisar de muito esforço para convencer a plateia - e mantendo seu estilo ímpar e naturalista de interpretação -, Keaton dá vida à J.C. Wyatt, uma executiva de Nova York, obcecada por trabalho e que mal arruma tempo para transar com o namorado/marido, Steven Buchner (Harold Ramis), também pouco afeito a romance e sentimentos mundanos, como paternidade e responsabilidade familiar. Às vésperas de uma sonhada e muito batalhada promoção, porém, Wyatt se vê diante de uma inesperada herança de parentes distantes: a pequena Elizabeth, um bebê lindo, adorável, saudável e que não dá a mínima para as pretensões de sua nova mãe em focar-se unicamente na carreira profissional. Depois de tentar entregar a menina para adoção e perder o namorado, Wyatt acaba por perceber que a maternidade não combina com seus planos - demitida, ela se muda para um chalé em Vermont e resolve levar uma vida completamente oposta à que tinha em mente. Depois de reformar sua casa, vira mãe em tempo integral, inicia um flerte com o veterinário Jeff Cooper (Sam Shepard) e entra, quase sem querer, na indústria de alimentos caseiros para bebês - o que a levará de volta a suas velhas questões no mercado de trabalho.


Nitidamente dividido em duas partes desiguais e irregulares, "Presente de grego" parece, a princípio, um filme que aplaude o talento feminino em desdobrar-se em inúmeros papéis - e um retrato do novo perfil da mulher no final do século XX. A primeira metade - em que a protagonista corta um dobrado para compreender as necessidades de sua nova filha - é divertida, agradável e simpática ao extremo, principalmente devido ao carisma de Diane Keaton e à fotogenia das pequenas Kristina e Michelle Kennedy (que se dividiam no papel da pequena Elizabeth). Mesmo que o humor não seja exatamente criativo ou inovador, é delicioso, simples e encantador. Basta que a trama mude de rumo, no entanto, para que tudo se transforme, tanto em ritmo quanto em intenções. Se até então o roteiro focava sua atenção na desastrosa tentativa de Wyatt em descobrir seu até então desconhecido instinto materno - com cenas engraçadas e leves na medida certa -, sua mudança de endereço desvia também os caminhos de sua trajetória. Como em todo bom filme familiar que se preze, a outrora fria e mecânica executiva descobre os prazeres da vida simples, inicia um novo negócio... e, para completar o novo ciclo, encontra um homem (afinal, a família tradicional precisa imperar, certo?).

É uma pena que "Presente de grego" não mantenha o mesmo pique e a mesma despretensão de sua primeira metade. O tom leve de sessão da tarde logo dá espaço para uma trama quadrada em excesso, que parece insistir no fato de que é imprescindível a uma mulher a presença masculina - sem a qual qualquer sucesso (familiar, profissional) sempre estará incompleto. O romance entre Wyatt e o veterinário (interpretado no piloto automático por Sam Shepard) não é tão interessante quanto o relacionamento da executiva com a pequena Elizabeth (que mesmo sem ter consciência disso, causa um terremoto na vida da mãe adotiva). Quando estão juntas em cena, mãe e filha são doces e emocionantes - quando separadas pelo roteiro fazem o filme se parecer com dezenas de outros similares. É um entretenimento competente, atraente e leve, mas com sérios problemas de ritmo - e, apesar da novidade (uma mulher confrontada com uma maternidade inesperada, ao invés de homens desavisados), perde a oportunidade de ser feminista como poderia - e deveria - ser.

REDS

REDS (Reds, 1981, Paramount Pictures, 195min) Direção: Warren Beatty. Roteiro: Warren Beatty, Trevor Griffiths. Fotografia: Vittorio Storaro. Montagem: Dede Allen, Craig McKay. Música: Stephen Sondheim. Figurino: Shirley Russell. Direção de arte/cenários: Richard Sylbert/Simon Holland. Produção executiva: Dede Allen, Simon Relph. Produção: Warren Beatty. Elenco: Warren Beatty, Diane Keaton, Jack Nicholson, Maureen Stapleton, Gene Hackman, Edward Herrman, Paul Sorvino. Estreia: 03/12/81

12 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Warren Beatty), Ator (Warren Beatty), Atriz (Diane Keaton), Ator Coadjuvante (Jack Nicholson), Atriz Coadjuvante (Maureen Stapleton), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Som
Vencedor de 3 Oscar: Diretor (Warren Beatty), Atriz Coadjuvante (Maureen Stapleton), Fotografia
Vencedor do Golden Globe de Melhor Diretor (Warren Beatty) 

A concepção de um projeto cinematográfico é uma ciência inexata. Nunca se sabe em que circunstâncias uma ideia pode surgir - e que motivos inusitados podem levá-la a ver a luz dos refletores. Um exemplo claro dessa afirmação é "Reds", o milionário épico estrelado, dirigido, produzido e roteirizado por Warren Beatty: a história de um dos jornalistas mais importantes de sua época, John Reed, e de como ele testemunhou a Revolução Russa de 1917 começou a fervilhar na mente de seu criador por volta de 1966, quando, em viagem à Rússia, ele conheceu uma mulher que alegava ter tido um romance com Reed e lhe contou a história de sua vida. Alguns anos depois, aprendendo o idioma russo para conquistar a bailarina Maya Plisetskaya, Beatty aprofundou-se nos detalhes sobre seu protagonista e, em 1969, escreveu o primeiro esboço de um filme que só começaria a tomar forma de verdade dez anos depois - e que fez com que o astro recusasse o convite do cineasta soviético Sergey Bondarchuck de viver o jornalista em um outro filme. Ambicioso, caro (35 milhões de dólares), longo e arriscado, "Reds" chegou às telas americanas no final de 1981, mais de dois anos depois do começo de suas filmagens e, por incrível que pareça em relação a um filme com ideais claramente esquerdistas em uma Hollywood ainda torturada pelos anos do macarthismo, tornou-se um sucesso, especialmente de crítica e prêmios: indicado a 12 Oscar, levou três estatuetas para casa (direção, atriz coadjuvante e fotografia) e rendeu à Beatty láureas de direção do Golden Globe, da Associação de Diretores, dos críticos de Los Angeles e do National Board of Review. Nada mal para um filme que parecia que jamais iria estrear.

Quando Warren Beatty deu o pontapé inicial às filmagens de "Reds", em agosto de 1979, o cronograma previa quinze ou dezesseis semanas de trabalho. Quando finalmente o perfeccionista diretor se deu por satisfeito, seis meses já haviam se passado e o material filmado era suficiente para nada menos que duas semanas e meia de projeção. A própria Paramount Pictures, financiadora do projeto, só teve acesso ao filme pronto um mês antes de sua estreia - e. logicamente, tinha reservas em relação a como o tema (delicado e talvez político demais para o público médio) iria ser tratado por Beatty, já então um ator politicamente ativo. O resultado foi mais que positivo: ao contrário do que se poderia esperar, o roteiro de "Reds" não se detém na Revolução Russa, passando por ela apenas como uma das vastas experiências de seu protagonista junto a seu trabalho como repórter político e sua relação conturbada com outra jornalista, a independente Louise Bryant (Diane Keaton). Mais uma história de amor do que uma história política, "Reds" conquista pelo tom épico, pela fotografia deslumbrante de Vittorio Storaro e por um elenco coadjuvante onde se destacam Jack Nicholson e Maureen Stapleton, ambos indicados ao Oscar, assim como Beatty e Keaton.


O filme começa em novembro de 1915, quando John Reed, um repórter da revista de esquerda The Masses conhece a inteligente e liberada Louise, que não hesita em abandonar o marido para se entregar à paixão que sente pelo experiente e sedutor jornalista. O romance entre os dois é atrapalhado somente pelo excesso de viagens de Reed e por seus pontos de vista distintos em relação à fidelidade matrimonial: enquanto ele não nega os romances passageiros que vive enquanto está fora de casa, ela se tortura psicologicamente por seu envolvimento com um amigo do casal, o dramatugo Eugene O'Neil (Jack Nicholson), completamente apaixonado por ela. A entrada dos EUA na Primeira Guerra Mundial serve como estopim para novas crises em seu relacionamento: depois de uma separação traumática, ele a convence a acompanhá-lo para uma viagem à Rússia, onde ele acredita que está se preparando uma grande revolução comunista que irá mudar o mundo. As consequências da revolução, porém, acaba ameaçando sua relação quando Reed se vê preso no país e Louise resolve, mesmo correndo riscos, procurar uma maneira de resgatá-lo. Nesse meio-tempo, Reed tenta também encontrar um modo de fazer com que seus conterrâneos abracem a causa comunista como forma de igualdade social.

Intercalando sua história com depoimentos reais de pessoas que conheceram os protagonistas (em entrevistas filmadas desde o começo dos anos 70), Warren Beatty constrói sua narrativa de forma quase documental, contando com a ajuda providencial da fotografia espetacular de Vittorio Storaro, que por pouco não abandonou o projeto devido às temidas "diferenças artísticas", devidamente solucionadas de forma a equilibrar os planos estáticos desejados por Beatty e os movimentos fluidos e ágeis de câmera propostos por Storaro - merecidamente premiado com um Oscar por seu trabalho. Boa parte do fascínio de "Reds" vem justamente do visual impresso na tela, com paisagens de tirar o fôlego entremeadas por longas cenas de diálogos inteligentes e dramaticamente consistentes: são nesses momentos que brilha Diane Keaton (então namorada do diretor e astro), que transforma sua Louise Bryant na verdadeira protagonista do filme, uma mulher decidida e forte que vê sua vida completamente transformada por amor a um homem e a uma causa. Beatty, galã de prestígio e um dos homens mais poderosos da indústria de então (foi indicado em quatro categorias do Oscar, por "Reds", seguindo outras quatro por "O céu pode esperar", de 1978) quase fica em segundo plano diante da potência do desempenho e Keaton, provando de vez que sua carreira não dependia de sua sociedade artística com Woody Allen. Talvez justamente sua performance tão sensacional dê a impressão de que "Reds" é mais uma história romântica - algo como "Doutor Jivago" (65) - do que uma história política. Melhor assim: sua ideologia não assustou ao público, foi bem aceita pela crítica e legou ao filme a fama de ser um dos épicos mais importantes de sua época. Poderia ser menos longo e mais focado, mas ainda assim é um belo e memorável espetáculo, prejudicado apenas pelo egocentrismo de seu ator principal - não é difícil perceber o quanto o filme fica mais interessante quando ele não está em cena!

terça-feira

A ÚLTIMA NOITE DE BORIS GRUSHENKO

A ÚLTIMA NOITE DE BORIS GRUSHENKO (Love and death, 1975, United Artists, 85min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Ghislain Cloquet. Montagem: Ron Kalish, Ralph Rosenblum. Figurino: Gladys de Segonzac. Direção de arte/cenários: Willy Holt. Produção executiva: Martin Poll. Produção: Charles H. Joffe. Elenco: Woody Allen, Diane Keaton. Estreia: 10/6/75

Quando se assiste aos primeiros filmes de Woody Allen - basicamente estruturados em uma narrativa à base de piada atrás de piada - dificilmente se pode imaginar que, por trás de seu humor iconoclasta e neurótico, existe uma profunda admiração por Dostoievski e Ingmar Bergman. Cada um a seu modo, o escritor russo e o cineasta sueco são grandes influências na obra de Allen, o que ficou óbvio quando ele iniciou uma jornada por filmes mais dramaticamente densos, como "Interiores" (78) e "Setembro" (87) - que dividiram a crítica -  ou com reflexões mais pessimistas, como "Crimes e pecados" (89) e "Match point" (2005) - ambos grandes sucessos. Um sinal de seu apreço pelas questões que viria a abordar futuramente é "A última noite de Boris Grushenko", um filme que ainda seguia seu estilo anárquico de fazer cinema mas que já apontava para um caminho mais sofisticado de contar histórias - que culminaria com os Oscar de filme, roteiro e direção para "Noivo neurótico, noiva nervosa" (77), seu trabalho seguinte. Carregado de referências culturais e históricas - mas nem por isso pedante ou presunçoso - "A última noite de Boris Grushenko" é um dos melhores filmes da fase pré-Oscar de Allen, com um equilíbrio perfeito entre o humor visual debochado e diálogos brilhantes que beiram o surreal.

Escrito durante um bloqueio criativo de Allen - que emperrou no meio daquele que se tornaria, anos mais tarde, "Um misterioso assassinato em Manhattan" (95) - e inspirado na leitura de um livro sobre a história da Rússia, "A última noite de Boris Grushenko" apresenta o diretor na pele do personagem-título, um pacifista intelectual deslocado em uma família pouco afeita a livros e atividades culturais. Apaixonado por uma prima, a bela Sonja (Diane Keaton), que não tem o menor interesse em seus desejos, nem mesmo depois de rejeitada por seu irmão - e prefere entregar-se a uma sucessão de amantes do que envolver-se com ele - o pacífico Boris se vê obrigado a partir para a guerra e impedir o avanço das tropas de Napoleão Bonaparte (James Tolkan). Com o tempo, ele se descobre um inusitado conquistador e acaba, por obra e graça do destino, como a principal peça de um plano para assassinar o líder francês - ao lado de sua amada Sonja.


Filmado na Hungria e na França, "A última noite de Boris Grushenko" teve uma saudável cota de problemas durante sua produção - o mais grave deles o sério problema intestinal do produtor Charles H. Joffe graças à comida de Budapeste - mas, surpreendentemente, é um dos filmes mais felizes da carreira de Woody Allen em seus primeiros anos. Ainda que apoiado em uma avalanche de piadas de todo tipo, o roteiro do diretor tem uma coesão e uma linha narrativa menos solta que seus trabalhos anteriores, o que viria a se refinar ainda mais nas obras seguintes, quando ele finalmente conseguiu reunir seu genial senso de humor com a linguagem cinematográfica de forma a equilibrar os dois fatores. Com uma fotografia caprichada do belga Ghislain Cloquet - que explora admiravelmente o clima dos cenários naturais para enfatizar o tom épico/histórico/romântico da trama - e uma edição enxuta que jamais deixa o ritmo cair, o filme não é apenas indicado aos fãs do cineasta, mas consegue a façanha de fazer rir até mesmo o mais renitente espectador. Tudo mérito das micagens de Allen e Keaton, em excepcional dueto que remete aos grandes momentos de Chaplin, Irmãos Marx e Bob Hope. Certeiro em suas observações perspicazes sobre a vida, a morte, o amor e outras considerações filosóficas, Allen não apenas faz rir: ele presta sinceras homenagens a alguns de seus maiores ídolos.

Em um dos diálogos mais geniais de sua filmografia, Allen faz com que seu personagem receba a visita de seu pai, na prisão, e receba dele notícias sobre alguns de seus conhecidos: surge então, de maneira brilhante, citações a "Crime e castigo", "Os irmãos Karamazov", "O idiota", "O jogador", "O duplo" e outras obras de Dostoievski. Em outras sequências, ele brinca com imagens e conversas que remetem a filmes do sueco Ingmar Bergman, como "Quando duas mulheres pecam" (66) e "O sétimo selo" (57), e até mesmo o título original do filme ("Amor e morte") é uma tentativa de evocar outros romances russos, como "Guerra e paz", de Tolstoi, e o já citado "Crime e castigo". Nenhum detalhe escapa à visão cínica de Allen, que arranca gargalhadas sem precisar deixar de lado a inteligência e comprova que ser erudito não necessariamente significa ser chato ou pedante. Uma pequena obra-prima de humor e sofisticação que ainda precisa ser redescoberto como um dos mais completos de seu realizador.

domingo

RUTH & ALEX

RUTH & ALEX (5 flights up, 2014, Lascaux Films/Latitude Productions, 88min) Direção: Richard Loncraine. Roteiro: Charlie Peters, romance de Jill Ciment. Fotografia: Jonathan Freeman. Música: David Newman. Figurino: Arjun Bhasin. Direção de arte/cenários: Brian Morris/Alexandra Mazur. Produção executiva: Gary Ellis, Bob Gass, Judy Burch Gass, Sam Hoffman, Richard Toussaint. Produção: Curtis Burch, Morgan Freeman, Lori McCreary, Tracy Mercer, Charlie Peters. Elenco: Morgan Freeman, Diane Keaton, Cynthia Nixon, Carrie Preston, Claire van der Boom, Korey Jackson. Estreia: 05/9/14 (Festival de Toronto)

Alguns atores tem um carisma e uma personalidade tão fortes que basta sua presença em cena para justificar o interesse por um filme. Morgan Freeman é um desses atores. Diane Keaton idem. Capazes de dar dignidade a filmes como "O apanhador de sonhos" (no caso dele) e "O casamento do ano" (coestrelado por ela), eles podem não salvar filmes ruins do desastre, mas ao menos são capazes de garantir um mínimo de qualidade dramática a qualquer um deles. Se não fosse por sua presença, por exemplo, o razoável  "Ruth & Alex" seria apenas mais um drama simpático destinado a preencher a programação da tv a cabo. Sem uma trama forte onde se sustentar e apostando todas as suas fichas no talento da dupla de protagonistas, o cineasta Richard Loncraine - cujo trabalho de maior destaque até então era a adaptação de "Ricardo III", de Shakespeare, estrelado por Ian McKellen em 1995 - entrega uma sessão da tarde inofensiva, mas por isso mesmo facilmente esquecível.

Toda a trama do filme gira em torno do casal de protagonistas e sua tentativa de encontrar um comprador para o apartamento do Brooklin em que moram há quarenta anos. Mesmo apaixonados pela vizinhança e dividindo memórias afetivas com o lugar, eles sabem que morar em um prédio sem elevador e em um bairro cuja segurança não vive dias de glória não será uma opção viável em poucos anos. Com a ajuda da sobrinha de Ruth, Lily (Cynthia Nixon, da série "Sex and the city"), eles abrem a casa para a visitação de interessados no imóvel, enquanto também procuram outro lugar para onde transferirem sua vida. Nesse meio-tempo, travam contato com uma série de coadjuvantes nem sempre interessantes e sofrem com a possibilidade de perderem também a pequena Dorothy, sua cachorrinha de estimação, que sofre de um problema na coluna.


Adaptado de um romance escrito por Jill Ciment, "Ruth & Alex" fala de inúmeras questões relevantes à sociedade atual, mas não chega a aprofundar-se em nenhuma delas. Pelo roteiro de Charlie Peters desfilam diálogos sobre a forma como a juventude percebe a terceira idade, sobre as mudanças na concepção de arte, sobre o preconceito contra imigrantes (em uma subtrama inteligente sobre um rapaz caçado como terrorista na vizinhança do prédio dos protagonistas), sobre especulação imobiliária e até sobre racismo (quando flashbacks iluminam o início da história de amor do casal central, em pleno começo dos anos 70). O problema é que, por não querer pesar a mão, Peters deixa tudo tão leve que impede o espectador de realmente se importar com os personagens e seus dramas. É difícil se emocionar com as angústias de pessoas cuja maior angústia é sair de um apartamento de quase um milhão de dólares para comprar outro no mesmo valor - e para isso nem mesmo a competência de Freeman e Keaton é remédio. Para sorte do público, porém, eles estão luminosos até quando o roteiro fraquinho não lhes dá muito material para isso.

Um dos produtores do filme, Morgan Freeman surpreende ao viver um personagem radicalmente diferente dos homens poderosos e/ou misteriosos a que se acostumou a interpretar em sua longa carreira: na pele de Alex Carver, ele demonstra um lado doce e carinhoso que se revela em suas amenas discussões com a apaixonada esposa e com os diálogos que trava com a pequena filha de uma das interessadas em seu apartamento - que encontra também em outras ocasiões no decorrer da narrativa. Diane Keaton, por sua vez, esbanja a simpatia de sempre, com seu sorriso aberto e estilo despojado que lhe renderam fama - e o Oscar de melhor atriz, por "Noivo neurótico, noiva nervosa" (77). São os dois, exclusivamente, os motivos para dar uma espiada em "Ruth & Alex". Não muda a vida de ninguém, mas é um entretenimento agradável e rápido para uma tarde de chuva.

quinta-feira

AS FILHAS DE MARVIN

AS FILHAS DE MARVIN (Marvin's room, 1996, Scott Rudin Productions/Tribeca Productions, 98min) Direção: Jerry Zacks. Roteiro: Scott McPherson, peça teatral homônima de Scott McPherson. Fotografia: Piotr Sobocinski. Montagem: Jim Clark. Música: Rachel Portman. Figurino: Julie Weiss. Direção de arte/cenários: David Gropman/Tracey Doyle. Produção executiva: Tod Scott Brody, Lori Steinberg. Produção: Robert De Niro, Jane Rosenthal, Scott Rudin. Elenco: Meryl Streep, Diane Keaton, Robert De Niro, Leonardo DiCaprio, Hume Cronyn, Gwen Verdon, Dan Hedaya, Margo Martindale, Cynthia Nixon, Hal Scardino. Estreia: 18/12/96

Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Diane Keaton)

Quase vinte anos depois de ter embolsado o Oscar de melhor atriz por "Noivo neurótico, noiva nervosa", Diane Keaton voltou a ter o gostinho de ser indicada ao prêmio da Academia. Ao contrário de seu trabalho solar e bem-humorado no filme de Woody Allen, porém, seu desempenho em "As filhas de Marvin" - o responsável por sua indicação e pelos elogios que recebeu da crítica - nada tem de leve ou engraçado. Na pele de Bess Wakefield, uma mulher que abdicou de uma vida própria para cuidar do pai doente e da tia solteirona e que se descobre portadora de leucemia, a eterna Annie Hall mostrou que nem só de comédias rápidas como "Clube das desquitadas" - lançada no mesmo ano - vivia sua carreira. Ainda que, através de um inesperado senso de humor, o filme fuja constantemente do dramalhão lacrimoso - cortesia do roteiro escrito pelo próprio Scott McPherson que escreveu a peça teatral que lhe deu origem - é difícil não ceder à emoção quando em um mesmo pacote estão presentes doenças terminais, reconciliações familiares, ressentimentos fraternos... e Meryl Streep.

Não deixa de ser surpreendente que tenha sido Keaton e não Meryl Streep a escolhida pela Academia a figurar entre suas cinco indicadas ao Oscar de melhor atriz, na cerimônia de 1997, que esnobou Madonna, por "Evita" e premiou Frances McDormand, por "Fargo". Figura constante entre as candidatas, Streep dessa vez foi deixada de lado provavelmente porque ficou com o papel menos dramático dentre as protagonistas, uma vez que é sabido que os votantes da estatueta dourada não resistem à uma doença na hora de escolherem seus favoritos. Isso, no entanto, não tira os méritos de Diane, que faz o possível para dar dignidade e verossimilhança a uma personagem talvez otimista e altruísta demais para ser verdade. Essa superficialidade no desenho da personagem - e até no enfoque do relacionamento entre ela e as demais - acaba sendo enfatizada pela inexperiência do diretor Jerry Zacks, que não consegue esconder suas origens televisivas ao resolver de forma pálida e apressada as questões levantadas pela trama, já frágil em sua concepção.


Bess Wakefield (personagem construída sem muita sutileza pelo roteiro) é uma mulher caridosa, boa, paciente e bem-humorada que aceitou cordatamente o fato de ter deixado de lado sua vida para cuidar do pai, Marvin (Hume Cronyn em seu último filme), depois de um derrame, e de sua tia Ruth (Gwen Verdon), que passa os dias assistindo a novelas na televisão e não ajuda em nada nos cuidados com o irmão. Diagnosticada com leucemia, ela se vê diante de um problema com o qual julgava não ter jamais com o qual se preocupar: lidar com a única irmã, Lee (Meryl Streep), a quem não vê há quase vinte anos. Separada do marido e independente, Lee vive em outra cidade com os dois filhos - um deles o rebelde Hank (Leonardo DiCaprio), com quem vive às turras - e não tem a menor intenção de retornar à casa da família, mas acaba sendo a última opção de Bess quando ela entra em contato solicitando que ela faça exames para uma possível doação de medula. O reencontro da família traz à tona todos os ressentimentos represados há anos, assim como obriga Lee a enfrentar a difícil tarefa de revelar a seu filho mais velho a verdade sobre o pai que o rapaz idolatra desde a infância.

Ao utilizar-se de todos os clichês possíveis e imagináveis dos dramas familiares que envolvem doenças e traumas do passado, "As filhas de Marvin" encontra seu maior trunfo justamente em seus atores, tão bons que conseguem, dentro dos limites do possível, sustentar um roteiro que não consegue equilibrar a contento os momentos mais dramáticos com aqueles que se propõem a aliviar a tensão. O humor - vindo basicamente nas intervenções da personagem de Gwen Verdon e do irmão/recepcionista do médico vivido por Robert De Niro - não funciona na maior parte das vezes, dando a impressão de estar em cena com o único propósito de fugir da pieguice da qual o roteiro está encharcado. A relação entre Lee e seu filho Hank tampouco soa convincente a despeito do talento de seus intérpretes - DiCaprio estava iniciando seu reinado como ídolo adolescente e vive um personagem extremamente irritante, o que também ajuda a impedir uma maior identificação com a plateia mais velha. Além do mais, quando o filme finalmente se deixa levar pela emoção genuína - nas conversas entre Streep e Keaton - ele parece ter vergonha disso, apressando as cenas a ponto de torná-las superficiais e ocas. Não é de admirar que seja uma obra menos louvada nas carreiras de todos os (ótimos) envolvidos. "As filhas de Marvin" é um Supercine de luxo.

CLUBE DAS DESQUITADAS

CLUBE DAS DESQUITADAS (The first wives club, 1996, Paramount Pictures, 103min) Direção: Hugh Wilson. Roteiro: Robert Harling, romance de Olivia Goldsmith. Fotografia: Donald Thorin. Montagem: John Bloom. Música: Marc Shaiman. Figurino: Theoni V. Aldredge. Direção de arte/cenários: Peter Larkin/Leslie E. Rollins. Produção executiva: Adam Schroeder, Erza Swerdlow. Produção: Scott Rudin. Elenco: Goldie Hawn, Bette Midler, Diane Keaton, Maggie Smith, Sarah Jessica Parker, Elizabeth Berkeley, Victor Garber, Dan Hedaya, Stockard Channing, Stephen Collins, Marcia Gay Harden, Eileen Eckart, Philip Bosco, Jennifer Dundas. Estreia: 20/9/96

Indicado ao Oscar de Melhor Trilha Sonora Original Comédia/Musical

Tudo já começa nos créditos de abertura - que relembram as clássicas comédias que fizeram a glória de Doris Day - e na sequência inicial, que mostra a despedida de quatro inseparáveis amigas quando seus dias de colegial chegam ao fim, nos efervescentes anos 60. Esses dois momentos são pistas valiosas do que virá pela frente em "Clube das desquitadas", uma divertida comédia feminista que troca a ingenuidade matreira da época do flower power pelo cinismo materialista da década de 90. Inesperado sucesso de bilheteria em um período onde apenas produções de apelo masculino lotavam as salas de exibição, o filme de Hugh Wilson - diretor sem nenhuma obra marcante no currículo - soou como um oásis frente à destruição em massa de filmes como "Independence day" e "Twister" e mostrou que, ao contrário do que esperava a própria Paramount Pictures, ainda havia espaço na indústria americana para filmes menores e estrelado por outros nomes que não Bruce Willis e Arnold Schwarzenegger.

A trama começa quando uma das quatro amigas da primeira cena, a milionária Cynthia Swann Griffin (participação especial de Stockard Channing), comete suicídio ao ler a notícia do casamento de seu ex-marido com uma garota muitos anos mais jovem. Em seu funeral, as amigas remanescentes - que não tiveram mais contato depois da formatura - se reencontram e, tristes e constrangidas com o afastamento mútuo, resolvem reafirmar sua ligação. É aí que descobrem que estão passando, todas elas, pelo mesmo problema de sua amiga recém-falecida. A atriz Elise Elliot (Goldie Hawn) está passando por uma crise na carreira por causa da idade e, além de ter sido largada pelo marido, o produtor Bill Atchinson (Victor Garber), está correndo o sério risco de ser obrigada a pagar-lhe uma pensão e dividir com ele tudo que conquistou. A dona-de-casa Brenda Cushman (Bette Midler) foi trocada pela fútil Shelly (Sarah Jessica Parker) e seu ex-marido, Morton (Dan Hedaya) não parece inclinado a compartilhar com ela tudo que eles construíram juntos. E Annie Paradis (Diane Keaton) acaba de descobrir que o marido por quem ainda é apaixonada, Aaron (Stephen Collins), está de caso com sua própria terapeuta, Leslie (Marcia Gay Harden). Frustradas e desiludidas, as três resolvem se unir para retomar o que lhes é de direito, se utilizando de todas as técnicas possíveis e imagináveis para isso.


Mais do que os mirabolantes planos bolados pelas três protagonistas para atingirem seus objetivos maquiavélicos, o mais engraçado no roteiro, baseado em um romance de Olivia Goldsmith são as inúmeras referências à cultura popular contemporânea americana, em especial quando o assunto é a carreira cinematográfica de Elise Elliot, em um papel feito sob medida para a ótima Goldie Hawn - e que, por ironia, foi oferecido primeiramente à Jessica Lange. Na pele da vaidosa atriz vencedora do Oscar e do Golden Globe, Hawn (ela mesma já premiada com as duas estatuetas) dispara farpas para todos os lados, ironizando de forma inteligente a forma como a indústria de Hollywood trata as atrizes que já não servem mais aos ideais de juventude dos estúdios e produtores. A crítica à ditadura da beleza, inclusive, é um dos pontos altos do filme, que não perde nenhuma oportunidade de alfinetar a tendência masculina de trocar suas mulheres de 50 anos por alguém com a metade da idade: nesse ponto, aliás, reside a fraqueza maior da produção, que, a favor da risada constante, opta pelo maniqueísmo absoluto, transformando todos os personagens masculinos da história em completos idiotas.

Esse pequeno senão, porém, não consegue apagar o que "Clube das desquitadas" tem de melhor: a química perfeita entre suas três protagonistas. Cada uma dentro de seu estilo de humor - a sofisticação neurótica de Diane Keaton, o escracho visual de Bette Midler, o carisma insofismável de Goldie Hawn - as veteranas atrizes nem precisam fazer muito esforço para ganhar a simpatia e a cumplicidade da plateia, que embarca sorridente a seu lado para acompanhar sua divertida história de vingança - que acaba em uma antológica cena de dança ao som de "You don't own me", cantada na versão original por Leslie Gore, falecida há poucos dias. Pode não ser um filme que mudará a vida de alguém, mas faz rir, entretém e apresenta um trio de protagonistas de tirar o chapéu - que, apesar da promessa, nunca mais se reuniu nas telas. Para uma comédia despretensiosa, está mais do que bom.

sexta-feira

MISTERIOSO ASSASSINATO EM MANHATTAN

MISTERIOSO ASSASSINATO EM MANHATTAN (Manhattan murder mystery, 1993, TriStar Pictures, 104min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Carlo Di Palma. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Susan Bode. Produção executiva: Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Woody Allen, Diane Keaton, Anjelica Huston, Alan Alda, Jerry Adler, Lynn Cohen, Ron Rifkin. Estreia: 18/8/93

Com o final de sua bem-sucedida parceria profissional de 12 anos com Mia Farrow - com quem também era casado até o escândalo que surgiu em 1992, quando ele assumiu seu romance com a filha adotiva da atriz - a carreira de Woody Allen poderia entrar em um período de recesso. Para sorte de seus (inúmeros) fãs, porém, o cineasta nova-iorquino não deixou que problemas pessoais interferissem em sua tradição informal de lançar um filme por ano. Chamando de volta Diane Keaton, sua antiga colaboradora e com quem realizou algumas de suas maiores obras-primas dos anos 70, como "Noivo neurótico, noiva nervosa" (77) - que lhes rendeu Oscar de direção e atriz, respectivamente - e "Manhattan" (79), Allen não só deixou em segundo plano as polêmicas de seu novo relacionamento como entregou ao público uma comédia como há muito não realizava. "Misterioso assassinato em Manhattan" é sofisticado, engraçado e dotado de uma ironia de que só o cineasta nova-iorquino é capaz, além de brindar o espectador com seu reencontro com Keaton, uma atriz que ilumina a tela com seu carisma e talento.

Como bons amigos que voltam a se encontrar depois de anos, Keaton e Allen estão em sua melhor forma em "Misterioso assassinato em Manhattan", que marca também o reencontro do diretor com outro velho conhecido, o corroteirista Marshall Brickman, com quem ele dividiu o Oscar de "Noivo neurótico" - filme do qual, aliás, deriva a ideia central de um casal investigando um pretenso homicídio. Ao lado de Brickman, Allen volta a equilibrar com maestria diálogos sensacionais, uma trama consistente e personagens carismáticos, interpretados por um elenco coadjuvante que tem o luxo de poder contar com Alan Alda e Anjelica Huston (que também colaboraram com o diretor em seu "Crimes e pecados", de 1989). Lançado ainda no rastro da polêmica do fim do romance entre Allen e Mia Farrow, a comédia acabou recebendo generosos elogios da crítica e agradou em cheio o espectador que vinha de outro grande trabalho seu, o dramático e catártico "Maridos e esposas" (92).


Os protagonistas de "Misterioso assassinato em Manhattan" são Larry e Carol Lipton (Allen e Keaton), um casal sofisticado, culto e bem-sucedido que passa por um período de vazio em suas vidas com a ida do filho para a faculdade. Larry trabalha no mercado editorial e Carol pretende abrir um restaurante como forma de preencher seu tempo ocioso. Uma noite, quando estão chegando em casa, eles descobrem que uma de suas vizinhas, uma senhora de idade com quem travaram conhecimento há poucos dias, morreu repentinamente, vítima de um ataque do coração. Percebendo que as atitudes do viúvo não condizem com o fato - ele não parece estar nem um pouco abatido com a situação - Carol passa a desconfiar que ele na verdade matou a esposa e passa a investigar o caso. A princípio fazendo pouco das ideias absurdas da esposa, Larry acaba entrando no jogo por ciúmes, quando nota que um amigo antigo e agora divorciado, Ted (Alan Alda), está constantemente a seu lado. Junta-se ao grupo também a escritora Marcia Fox (Anjelica Huston), que acredita que sua experiência como autora de livros policiais pode ajudá-los a desvendar o crime.

Repleto de citações deliciosas a Hitchock ("Janela indiscreta" e "Um corpo que cai" são as mais diretas), Billy Wilder ("Pacto de sangue" é duplamente lembrado) e Orson Welles (o clímax homenageia "A dama de Shangai"), "Misterioso assassinato em Manhattan" mostra um Woody Allen de bem com a vida, distante dos temas densos que estiveram em evidência durante uma fase de sua carreira. Sua química com Diane Keaton é esplêndida e a trama, por incrível que pareça, não serve apenas como pretexto para piadas e sequências cômicas (ainda que elas existam e sejam ótimas): a tramoia que envolve a morte da vizinha dos Lipton tem mais camadas do que aparenta em uma primeira visão, o que dá ao filme um molho extra que certamente agradará também aos fãs do gênero policial. Em suma, um Woody Allen de boa safra, com uma Diane Keaton, como sempre, brilhante.

segunda-feira

À PROCURA DE MR. GOODBAR

À PROCURA DE MR. GOODBAR (Looking for Mr. Goodbar, 1977, Paramount Pictures, 136min) Direção: Richard Brooks. Roteiro: Richard Brooks, romance de Judith Rossner. Fotografia: William A. Fraker. Montagem: George Greenville. Música: Artie Kane. Direção de arte/cenários: Edward Carfagno/Ruby Levitt. Produção: Freddie Fields. Elenco: Diane Keaton, Tuesday Weld, Richard Gere, William Atherton, Richard Kiley, Tom Berenger. Estreia: 19/10/77

2 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Tuesday Weld), Fotografia

Theresa Dunn é uma jovem professora de ensino fundamental para crianças surdas-mudas. Católica, filha de pais rígidos e torturada por um passado metida em hospitais devido a uma escoliose que mantém sua auto-estima em níveis bastante baixos para quem é tão inteligente e atraente, ela começa uma vida dupla depois do fim traumático do relacionamento com um professor casado: de dia, é uma dedicada mestra, que luta por melhores condições para seus alunos carentes; à noite, frequenta bares de solteiros, consome drogas e se envolve com homens desconhecidos, a quem leva para seu apartamento em busca de prazer efêmero. O que a leva a essa dualidade é sua extrema solidão e tendência à auto-destruição, disfarçadas por uma aparência saudável e acima de qualquer suspeita.

Theresa Dunn é a protagonista de "À procura de Mr. Goodbar", que chegou às telas americanas em 1977 baseado no romance de mesmo nome de Judith Rossner - por sua vez inspirado na história real de Roseann Quinn, também uma professora do primário cuja vida errante e fora dos padrões de moralidade vigentes à classe média norte-americana nos anos 70 a levou a um beco sem saída de violência e desespero. Interpretada magistralmente por uma Diane Keaton no auge da carreira - ela levou o Oscar no mesmo ano por um papel mais palatável ao gosto da Academia em "Noivo neurótico, noiva nervosa" - Theresa é uma personagem complexa, forte e repleta de nuances, que só mesmo uma atriz do porte de Keaton conseguiria atingir. Entregue a ousadas cenas de sexo - em especial se for levado em conta o ano de produção - a ex-musa de Woody Allen também brilha em momentos dramáticos, em especial em seus confrontos com a família cristã e com o amante viciado em drogas vivido por um iniciante e sempre canastrão Richard Gere.


Dirigido por Richard Brooks - que já havia demonstrado seu gosto por falar de sexo em "Gata em teto de zinco quente" (58) - depois que nomes consagrados como Roman Polanski, Mike Nichols e Sydney Pollack recusaram a oferta, "À procura de Mr. Goodbar" leva a audiência junto com a protagonista a uma constante e febril busca pelo paraíso artificial do sexo casual, em bares enfumaçados, em banheiros públicos onde se consegue qualquer tipo de droga, em boates gays e até mesmo em orgias domésticas (sua irmã, vivida pela indicada ao Oscar Tuesday Weld tampouco é um exemplo de decência e retidão moral), tudo fotografado com precisão por William A. Frakes - também indicado ao Oscar. A edição fragmentada de George Greenville serve com perfeição para mostrar o universo dicotômico da vida de Theresa, intercalando as cenas pacíficas e solares de sua vida profissional com a claustrofobia da vida noturna, que oferece tanto orgasmos fugazes quanto grandes perigos, escondidos em sorrisos fotogênicos.

A descida de Theresa Dunn rumo ao inferno dos encontros casuais, regados à droga e violência, pode parecer um tanto moralista em seu final, mas Richard Brooks não é um cineasta inclinado a sentenças definitivas, haja visto ter conseguido encontrar alma até mesmo nos assassinos de sua obra-prima "À sangue-frio" (67). O olhar que lança sobre a trajetória de sua protagonista é além de qualquer julgamento, quase documental em sua objetividade de mostrar a vida como ela é. Os lances de alívio - como as cenas em que Theresa imagina situações que fogem de sua realidade - servem como contrapeso para uma história por si só triste, forte e angustiante o bastante para prescindir de artifícios desnecessários. É tenso. É pesado. Mas é um grande filme, infelizmente nunca lançado em DVD.

terça-feira

TUDO EM FAMÍLIA


TUDO EM FAMÍLIA (The family Stone, 2005, Fox 2000 Pictures, 103min) Direção e roteiro: Thomas Bezucha. Fotografia: Jonathan Brown. Montagem: Jeffrey Ford. Música: Michael Giacchino. Figurino: Shay Cunliffe. Direção de arte/cenários: Jane Ann Stewart/Matt Callahan. Produção executiva: Jennifer Odgen. Produção: Michael London. Elenco: Sarah Jessica Parker, Diane Keaton, Claire Danes, Dermot Mulroney, Luke Wilson, Rachel McAdams, Craig T. Nelson. Estreia: 16/12/05

 Multipremiada, famosa e milionária com a série "Sex and the city", a atriz Sarah Jessica Parker ainda precisava provar que poderia encarar uma carreira no cinema independente do sucesso de sua Carrie Bradshaw. Um dos primeiros passos nessa direção foi "Tudo em família", uma comédia dramática com toques de romance que, apesar de não ter sido um estouro de bilheteria teve uma arrecadação boa o suficiente para provar que ela não era atriz de uma personagem só. Mesmo que sua Meredith Morton ainda carregue alguns dos maneirismos de sua mais famosa criação, Parker foi indicada ao Golden Globe por seu trabalho no filme do desconhecido Thomas Bezucha.

Dando seguimento aos tradicionais filmes natalinos que os americanos tanto aplaudem, "Tudo em família" consegue, por outro lado, fugir do que se espera de um produto do gênero. Ao invés de famílias desfuncionais que aproveitam os feriados para lavar a roupa suja e botar pra fora todo tipo de mágoa e trauma, o que se vê no filme de Bezucha é um núcleo familiar amoroso e coeso que vê a chegada de um novo membro como uma ameaça a sua integridade - mesmo que esse temor seja injustificado ou explicado apenas superficialmente pelo roteiro. A família em questão é o clã Stone. Liderado por Sybill (Diane Keaton) e Kelly (Craig T. Nelson), o grupo familiar é o oposto do que se vê em dramas similares.

Afetuosos e apaixonados, eles tem na vasta ninhada seu motivo maior de orgulho: Thad (Ty Giordano) é surdo-mudo e vê sua família aprovar e incentivar seu relacionamento homossexual com Patrick (Brian White); a doce Susannah (Elizabeth Reaser) está em vias de dar à luz; a caçula Amy (Rachel McAdams) é linda e inteligente; o meigo Ben (Luke Wilson) não dá trabalho nenhum e o mais velho, Everett (Dermot Mulroney) é o preferido da mãe. E é justamente Everett, que mora em Nova York, que é o responsável pela bomba jogada no seio familiar quando chega para o Natal acompanhado da noiva, Meredith (Sarah Jessica Parker), com quem todos implicam de imediato. Sentindo-se rejeitada (e coberta de razão), ela apela para a irmã mais nova, Julie (Claire Danes), que chega para ajudá-la e se apaixona por Everett. Para complicar ainda mais as coisas, Ben se encanta por Meredith.



O maior mérito do roteiro de Bezucha é equilibrar a contento o romance, a comédia e o dramalhão - sim, uma doença fatal se impõe sobre todos, obrigando a uma nova visão a respeito de tudo. Mesmo que soe superficial em algumas resoluções - ninguém entende o motivo pela rejeição absoluta a Meredith apesar de seus constantes foras - a trama consegue atingir a audiência por tratar de forma leve temas polêmicos como homossexualidade e racismo. É notável também a segurança com que o cineasta mantém uniforme um elenco tão heterogêneo e dá chance a todos de brilharem. Diane Keaton e Craig T. Nelson estão à vontade em seus papéis de patriarcas como há muito tempo não tinham a oportunidade. Rachel McAdams e Claire Danes mostram que juventude não significa falta de talento. E Sarah Jessica Parker mostra que, com uma direção mais firme pode ser uma atriz respeitada em outros papéis que não o de Carrie Bradshaw.

Feito para emocionar e rir, "Tudo em família" cumpre o que promete sem subestimar a inteligência do espectador. É um drama romântico e cômico de fácil comunicação com o público e que foge do clichê. E um filme assim sempre é bem-vindo, mesmo que frustre àqueles que procuram o tradicional final feliz.

quinta-feira

ALGUÉM TEM QUE CEDER


ALGUÉM TEM QUE CEDER (Something's gotta give, 2003, Columbia Pictures/Warner Bros, 128min) Direção e roteiro: Nancy Meyers. Fotografia: Michael Ballhaus. Montagem: Joe Hutsching. Música: Hans Zimmer. Figurino: Suzanne McCabe. Direção de arte/cenários: Jon Hutman/Beth Rubino. Produção: Bruce A. Block. Elenco: Diane Keaton, Jack Nicholson, Keanu Reeves, Amanda Peet, Frances McDormand, Jon Favreau, Paul Michael Glaser, Rachel Ticotin. Estreia: 12/12/03

Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Diane Keaton)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz Comédia/Musical (Diane Keaton)

Em 2000, a diretora/roteirista Nancy Meyers agradou o público - em especial o feminino - com a comédia "Do que as mulheres gostam", na qual fez o machão Mel Gibson adentrar o pensamento da mulher do século XXI depois de um choque elétrico (??). Três anos depois ela voltava às telas com uma comédia bastante superior e mais madura, novamente encarando um tema pouco explorado pelo cinemão americano: o amor depois dos 50 anos. Em uma época em que apenas as plateias adolescentes parecem ser levadas em conta na hora em que novos projetos são aprovados, "Alguém tem que ceder" provou - à Fox, por exemplo, que não se interessou pelo filme justamente pela idade de seus protagonistas - que inteligência e bom-gosto sempre tem seus fãs: mais de 120 milhões de dólares arrecadados nas bilheterias e uma surpreendente - mas justa - indicação de sua estrela, Diane Keaton, ao Oscar de melhor atriz.

O protagonista masculino da estória é o empresário musical Harry Sanborn (Jack Nicholson), que tem um fraco por mulheres mais jovens: sua faixa etária preferida é cerca de metade de sua idade. Sua nova conquista é a bela Marin (Amanda Peet), filha da bem-sucedida dramaturga Erica Barry (Diane Keaton). Durante um final de semana na belíssima propriedade da família, em Hamptons, Harry tem um enfarte e se vê obrigado a conviver com a “sogra”, com quem não tem um relacionamento dos mais agradáveis e gentis. Erica, no processo de começar um novo trabalho também não fica muito feliz com a possibilidade de ter que ser enfermeira do arrogante e auto-suficiente namorado da filha única, mas vê a situação ficar mais agradável quando conhece o jovem médico do empresário (Keanu Reeves), que cai de amores por ela. Toda a estranha situação fica ainda mais complicada quando Harry, que até então nem pensava em olhar para uma mulher com mais de 30 anos descobre-se interessado em Erica.

        

Escrito com um frescor e uma inteligência ímpares, o roteiro de “Alguém tem que ceder” brinca com a idade dos personagens de maneira engraçada sem ser boba, irônica sem ser complacente e principalmente, romântica sem ser piegas. Os diálogos entre Keaton e Nicholson (ainda sendo o mesmo Jack Nicholson de sempre, mas menos irritante) estão entre os mais sensíveis e cômicos de sua época, e recitados por dois dos melhores atores que se poderia encontrar. Keaton principalmente. A complexa mudança de sua personagem, que redescobre o amor depois de muito tempo enterrado em uma vitoriosa carreira não poderia ser entregue a qualquer atriz. Mas Diane já fez vários filmes com seu ex-marido Woody Allen e sabe como ninguém mergulhar em neuroses inteligentes e bem-humoradas. Não é de se julgar Meyers, que já escreveu o roteiro com seu par de atores em mente e recusou quaisquer outras possibilidades de elenco - e felizmente Nicholsou preferiu estar aqui do que em "Papai Noel às avessas", que deu a Billy Bob Thornton um de seus melhores papéis.
    
 “Alguém tem que ceder” é uma das melhores comédias românticas da década. Sabe ser engraçada, romântica, sensível e arrancar gargalhadas e lágrimas. Mesmo que se arraste um bocado em seu terço final, alongando-se demais, jamais chega a ser cansativa ou aborrecida - principalmente por contar também com a excelente Frances McDormand como a irmã de Erica, dona de momentos impagáveis. E se não fosse só isso, ainda é um prazer dos maiores ver a casa de praia da personagem principal. Mais do que apenas cenário, é uma festa para os olhos, fotografada com precisão pela lente do veterano Michael Balhaus.

terça-feira

O PODEROSO CHEFÃO - PARTE III

O PODEROSO CHEFÃO PARTE III (The godfather, part III, 1990, Paramount Pictures/American Zoetrope Studios, 169min) Direção: Francis Ford Coppola. Roteiro: Francis Ford Coppola, Mario Puzo. Fotografia: Gordon Willis. Montagem: Lisa Fruchtman, Barry Malkin, Walter Murch. Música: Carmine Coppola. Figurino: Milena Canonero. Direção de arte/cenários: Dean Tavoularis/Gary Fettis. Casting: Janet Hirshenson, Jane Jenkins, Roger Mussenden. Produção executiva: Fred Fuchs, Nicholas Gage. Produção: Francis Ford Coppola. Elenco: Al Pacino, Diane Keaton, Talia Shire, Andy Garcia, Eli Wallach, Joe Mantegna, George Hamilton, Bridget Fonda, Sofia Coppola, John Savage. Estreia: 25/12/90

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Francis Ford Coppola), Ator Coadjuvante (Andy Garcia), Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Direção de arte/cenários

Uma obra-prima com falhas ainda pode ser considerada uma obra-prima? Essa é a grande pergunta que fica no ar depois dos créditos de encerramento de "O poderoso chefão parte III", o final da saga da família Corleone, realizado dezesseis anos depois do segundo capítulo e dirigido pelo mesmo Francis Ford Coppola. Feito para sanar as dificuldades financeiras da produtora do cineasta - dificuldades recorrentes, aliás, em sua genial carreira - o encerramento da história de Michael Corleone dividiu a crítica, não fez o mesmo sucesso de bilheteria de seus antecessores e falhou em conquistar os Oscar a que foi indicado - incluindo Melhor Filme e diretor. Mas mesmo que não repita o brilhantismo dos dois primeiros filmes é um capítulo final emocionalmente poderoso e inesquecível. Tem falhas - principalmente uma que atende pelo nome de Sofia Coppola - mas fascina, envolve e surpreende como toda boa obra-prima.

A trama de "O poderoso chefão parte III" se passa em 1979 e começa quando Michael Corleone (Al Pacino, no auge do talento), envelhecido, tenta apagar seu passado sangrento iniciando uma relação de negócios com o Vaticano. Buscando fugir da vida repleta de violência em que viveu até então, ele almeja limpar o nome da família, deixando assim um legado de respeitabilidade aos filhos - o rebelde Anthony (Franc D'Ambrosio), que abandona a faculdade de Direito para tornar-se cantor lírico e a delicada Mary (Sofia Coppola, o nêmesis do filme). No entanto, o rastro de sangue deixado por seu passado não o deixa seguir tranquilamente seus planos quando Vincent Mancini (Andy Garcia), filho bastardo de seu irmão mais velho, Sonny, assume o posto como seu segurança pessoal. Temperamental e impulsivo como o pai, Vincent se apaixona por Mary e, com a fragilidade cada vez maior da saúde de Michael, começa a comandar uma feroz vingança contra os traidores da família. Para isso, conta com a ajuda da até então neutra Connie (Talia Shire).

É impressionante como "O poderoso chefão parte III" não se utiliza de meias-palavras. Enquanto o primeiro filme não mencionava a palavra máfia e jamais ousava sair do circuito familiar dos negócios dos Corleone, aqui Coppola e Mario Puzo vão até Wall Street e o Vaticano para deixar bem claras as implicações e as conexões entre a Igreja, as finanças e os negócios escusos da família. O cineasta não tem medo de explicitar a hipocrisia do catolicismo - dinheiro em troca de perdão incondicional - nem tampouco de especular sobre a morte do Papa então no poder. As sequências religiosas do filme, aliás, estão entre as mais espetaculares do filme, em especial a emocionante confissão de Michael, arrependido e cheio de remorsos pelas mortes que carrega nas costas, em especial a do irmão Fredo - é arrepiante quando, em uma de suas crises de saúde, ele grita seu nome, em uma espécie de delírio que somente um ator do porte de Pacino é capaz de transmitir sem soar patético ou forçado. Absolutamente ciente de seu poder como intérprete, ele é, inclusive, a razão de ser de todo o filme, uma força catalisadora que transforma tudo em um espetáculo de encher a alma e os olhos.

Visualmente, o terceiro capítulo da saga dos Corleone é o mais bem-acabado. Lindamente fotografado por Gordon Willis e com uma direção de arte impecável, o filme de Coppola seduz com seus enquadramentos meticulosamente planejados, realizados com uma competência ímpar - coisa de quem sabe o que faz! A estética chiaroscuro de algumas cenas casa com perfeição às incoerências do coração de Michael - um homem torturado por um passado negro que não o deixa vislumbrar um futuro brilhante, uma personagem de Shakespeare perdida em algum canto da Sicília. E é na Sicília, inclusive, que Coppola encerra sua história, em quarenta minutos dos mais excitantes que o cinema pode produzir.
 
Ao reunir todos os protagonistas de seu filme na apresentação da ópera "Cavalleria Rusticana", de Mascagni - que versa basicamente sobre vendetta - Coppola e Puzo praticamente montaram um ato final que beira à perfeição cinematográfica e emocional. A edição excepcional, a música poderosa e os desdobramentos de toda uma vida dedicada ao crime, ao sangue e à vingança são apresentados à plateia de forma arrebatadora, culminando na provavelmente mais angustiante cena de desespero de toda a série (e mais uma vez é Al Pacino o responsável por tamanho show). Poucas vezes foi visto no cinema uma conjunção de fatores tão alinhada quanto nessa derradeira meia-hora, em que fica patente o talento descomunal de Coppola de transformar em arte uma necessidade financeira. E quando o filme acaba, ao som da melancólica música de Nino Rota, até mesmo os pecados cometidos por ele acabam sendo perdoados, inclusive a escalação de sua filha Sofia no crucial papel de Mary Corleone. Mas, afinal, ela mereceu toda essa malhação plena, geral e irrestrita? A resposta é uma só: SIM.
 
Ao assumir o papel que até às vésperas do início das filmagens era de Winona Ryder - que teria sua chance de trabalhar com Coppola em "Drácula de Bram Stoker", dois anos depois - a filha do diretor colocou em risco toda a credibilidade do projeto e de um trabalho árduo, minucioso e adorado tanto por crítica quanto por público - a própria série "O poderoso chefão". E mesmo que, justiça seja feita, hoje em dia ela seja uma cineasta sensível e competente - "As virgens suicidas" e "Encontros e desencontros" estão aí para comprovar a afirmação - como atriz Sofia é um fiasco. Ela é o único elo perigosamente fraco do filme, e levando-se em conta que sua personagem é vital para o desenrolar da trama, ela quase compromete todo o resultado final. Suas cenas românticas com Andy Garcia e dramáticas com Al Pacino são constrangedoras e é difícil não ficar pensando em como as coisas poderiam ter sido bem melhores se Winona não tivesse se afastado do projeto. Sofia é, sim, a pior coisa de "O poderoso chefão parte III". Felizmente o resto é tão bom que não nos resta alternativa a não ser perdoar Francis por tamanho erro.

Contemplativo, triste, melancólico e saudosista, "O poderoso chefão parte III" encerra com coerência e pompa um dos trabalhos mais sensacionais produzidos pela história de Hollywood. Ainda bem que filmes duram para sempre!

segunda-feira

MANHATTAN



MANHATTAN (Manhattan, 1979, United Artists, 96min ) Direção: Woody Allen. Roteiro: Woody Allen, Marshall Brickman. Fotografia: Gordon Willis. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Albert Wolsky. Direção de arte/cenários: Mel Bourne/Robert Drumheller. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Robert Greenhut. Produção: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Elenco: Woody Allen, Diane Keaton, Michael Murphy, Mariel Hemingway, Meryl Streep, Anne Byrne. Estreia: 25/4/79

2 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Mariel Hemingway), Roteiro Original

Por incrível que pareça, um dos produtos mais bem-acabados da carreira do ator, roteirista e diretor Woody Allen é um do qual ele gosta tão pouco que chegou a sugerir à United Artists que nunca o lançasse, propondo inclusive dirigir um filme totalmente de graça para que isso acontecesse. Felizmente, o estúdio nem cogitou a possibilidade e proporcionou ao público um dos filmes mais queridos da carreira de Allen. Mesmo já tendo Oscar em casa por “Noivo neurótico, noiva nervosa”, é em “Manhattan” que ele demonstra a maturidade e o equilíbrio que marcariam os melhores momentos de sua trajetória como um dos mais íntegros e coerentes cineastas de sua geração. Filmado quase como uma declaração de amor à Nova York – a primeira de várias que se seguiriam -, “Manhattan” apresenta uma gloriosa fotografia de Gordon Willis como pano de fundo para a história de um quadrilátero amoroso encenado sob uma trilha sonora impecável, recheada de standards de um jazz da mais alta qualidade, em especial Gershwin.

Assim como em “Noivo neurótico”, Allen é quem lidera o elenco, na pele de Isaac Davis, um escritor de programas de televisão que não nutre exatamente um grande amor pela profissão. Na verdade, ele passa por uma crise, uma vez que foi abandonado pela esposa (Meryl Streep em uma participação pequena mas fundamental), que, além de trocá-lo por outra mulher ainda está terminando de escrever um livro contando detalhes de sua intimidade. Só quem o salva de seus problemas é seu namoro com a bela Tracy (Mariel Hemingway), uma jovem estudante de apenas 17 anos de idade e sua amizade com o professor universitário Yale (Michael Murphy), que tem um caso extra-conjugal com Mary (Diane Keaton). Enquanto dá apoio à bela e cultíssima Mary, que sofre com as dificuldades de seu romance impossível, Isaac acaba se apaixonando por ela, deixando de lado seu relacionamento com quem ele considera jovem demais.


Apesar de conter todas as características que definiriam o “estilo Woody Allen” para todo o sempre, “Manhattan” pode e deve ser visto como um romance à moda antiga, vestido com uma roupagem ainda moderna. Sim, os diálogos repletos de referências eruditas estão presentes, assim como o senso de humor neurótico e judeu. Mas poucas vezes o roteirista/diretor criou personagens tão densos e reais como os criados aqui, defendidos com unhas e dentes por atores excepcionais. Curiosamente, a mais fraca intérprete do elenco, Mariel Hemingway (em um papel que quase ficou com Jodie Foster) foi quem recebeu uma indicação ao Oscar de atriz coadjuvante – perdido para sua colega de elenco Meryl Streep, por sua atuação em “Kramer X Kramer”. Sua fragilidade como atriz fica ainda mais evidente na última cena do filme, de uma sensibilidade e uma preciosidade ímpares, que entraria certamente em qualquer antologia romântica caso tivesse uma atriz de verdade. Bela ela realmente era - a ponto de ser citada na lista que Isaac faz dos motivos pelos quais vale a pena viver - mas como atriz faltava-lhe substância.

“Manhattan” ainda é uma pequena obra-prima de um artista acostumado a criá-las. Para entrar na lista dos preferidos do diretor.

quinta-feira

INTERIORES


INTERIORES (Interiors, 1978, United Artists, 93min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Gordon Willis. Montagem: Ralph Rosenblum. Figurino: Joel Schumacher. Direção de arte/cenários: Mel Bourne/Mario Mazzola. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Robert Greenhut. Produção: Charles H. Joffe. Elenco: Geraldine Page, Diane Keaton, Mary Beth Hurt, E.G. Marshall, Kristin Griffiths, Maureen Stapleton, Sam Waterston, Richard Jordan. Estreia: 02/8/78

5 indicações ao Oscar: Diretor (Woody Allen), Atriz (Geraldine Page), Atriz Coadjuvante (Maureen Stapleton), Roteiro Original, Direção de arte

Depois de sair consagrado da festa do Oscar com os prêmios de roteiro e direção por "Noivo neurótico, noiva nervosa", Woody Allen seguiu o único caminho que poderia surpreender os fãs de seu estilo: abandoná-lo e fazer um filme completamente diferente. Inspirado claramente na obra do cineasta sueco Ingmar Bergman, um dos seus maiores ídolos, "Interiores" pegou todo mundo - crítica e público - de surpresa, ao contar uma história sem o menor epaço para qualquer senso de humor e com um ritmo de cinema europeu. Desnecessário dizer que sua bilheteria foi ínfima.

No livro de entrevistas "Conversas com Woody Allen", de Eric Lax, o cineasta afirma que hoje em dia conseguiria fazer de "Interiores" um filme melhor. A questão é: por que? Do jeito que está, o nono filme de sua carreira é uma hipnotizante e sensível, ainda que muitas vezes árdua, história sobre as relações (ou a falta delas) entre pessoas da mesma família, que frequentemente não conseguem expressar a contento suas emoções. Com atuações sublimes de seus protagonistas e um roteiro que foge do lugar comum durante toda a sua projeção, "Interiores" é uma das mais bem-acabadas obras de Allen dentro de sua "fase bergmaniana".

É bastante provável que aqueles que se tornaram fãs do diretor devido a suas geniais comédias lançadas anteriormente se decepcionem com "Interiores", justamente porque ele é o extremo oposto da sua filmografia anterior, repleta de ironia e sarcasmo. Aqui a coisa é muito séria: depois de ser abandonada pelo marido - que cansou de levar uma vida tediosa e certinha - a dona de casa Eve (Geraldine Page) passa a dedicar-se a decorar a casa da filha do meio, Joey (Mary Beth Hurt), uma mulher indecisa quanto ao rumo a tomar em sua vida profissional. Temendo ferir os sentimentos da mãe, ela não para de dar-lhe esperanças sobre um possível arrependimento de seu pai. Essa tática não é aprovada por Renata (Diane Keaton), a filha mais velha, uma escritora relativamente bem-sucedida que tem um relacionamento conflituoso com o também escritor Frederick (Richard Jordan), que, em uma noite de exagero etílico tenta estuprar a cunhada caçula, a atriz Flyn (Kristin Griffith). A fragilidade psicológica de Eve entra em colapso quando seu ex-marido, Arthur (E.G.Marshall) anuncia seu casamento com a duplamente viúva Pearl (Maureen Stapleton).


Nada em "Interiores" é fácil, clichê e/ou de fácil assimilação. Allen não poupa sua plateia de mergulhar dentro dos pensamentos de personagens sofridos, densos, complexos e incapazes de lidar com suas próprias emoções. A fotografia em tom pastel - assim como os figurinos e os cenários - apenas reitera a total falta de passionalidade de suas personagens, trancadas em uma redoma de inseguranças e inaptidão em lidar com suas vidas. Nem mesmo as cenas de maior emoção do filme são exageradas, sendo apresentadas sempre em um tom médio, que remete diretamente à frieza estética do cinema sueco que inspirou seu roteiro e sua direção. Quando Flyn é quase violentada, não há uma música grandiloquente ou lágrimas derramadas a rodo. Todos ali são elegantes, sofisticados, empedernidos. Por dentro, no entanto, sofrem um turbilhão de sensações, nem todas elas agradáveis.

Acertadamente, Woody Allen declarou que as falas de "Interiores" soam mais como legendas do que diálogos naturais - ingrediente básico em suas comédias. Mas é inegável que essa ausência de naturalismo imposta por ele em seu roteiro empurra o resultado final mais para um drama discreto e quase silencioso do que para um catártico e emocional melodrama hollywoodiano. O público não gostou. A crítica, em sua maioria, aplaudiu vigorosamente.

E um dos motivos para esses aplausos merecidos da crítica atende pelo nome de Geraldine Page. Herdando um papel oferecido inicialmente a Ingrid Bergman - que o recusou porque iria fazer "Sonata de outono", dirigido pelo mestre de Allen - Page tem uma atuação exemplar, de uma economia inteligente e adequada. A cena em que ela tem um ataque de choro por achar que sua vida não tem nada de interessante é de arrepiar, assim como seu diálogo final com Joey, capaz de emocionar sem soar óbvio.

E é justamente por fugir do óbvio - em todos os sentidos - que "Interiores" é um dos filmes mais interessantes de Woody Allen. Não é para qualquer público, mas aqueles que se arriscam a assisti-lo sabendo de suas intenções tem pouquíssimas chances de se decepcionar.

sábado

NOIVO NEURÓTICO, NOIVA NERVOSA


NOIVO NEURÓTICO, NOIVA NERVOSA (Annie Hall, 1977, United Artists, 93min) Direção: Woody Allen. Roteiro: Woody Allen, Marshall Brickman. Fotografia: Gordon Willis. Montagem: Wendy Greene Bricmont, Ralph Rosenblum. Figurino: Ruth Morley. Direção de arte/cenários: Mel Bourne/Robert Drumheller, Justin Scoppa Jr. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Robert Greenhut. Produção: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Elenco: Woody Allen, Diane Keaton, Tony Roberts, Carol Kane, Shelley Duvall, Colleen Drewhurst, Christopher Walken. Estreia: 20/4/77

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Woody Allen), Ator (Woody Allen), Atriz (Diane Keaton), Roteiro Original
Vencedor de 4 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Woody Allen), Atriz (Diane Keaton), Roteiro Original
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Comédia ou Musical (Diane Keaton)


Quando lançou "Noivo neurótico, noiva nervosa", em 1977, Woody Allen já não era nenhum iniciante. Já havia lançado sete filmes, todos comédias bastante elogiadas pela crítica, mas relegadas à espécie de limbo que é reservado ao gênero. Foi preciso que o mais neurótico dos cineastas nova-iorquinos incluísse toques de romantismo em sua obra para finalmente levar pra casa o Oscar de melhor filme, direção e roteiro. Mesmo que tenha fugido do padrão de sua obra até então, normalmente direcionada a um público específico, "Noivo neurótico" talvez seja o filme que melhor define sua carreira a partir daí. Já estão presentes em sua deliciosa comédia romântica (sim, ele também tem uma alma romântica) todos os elementos que que o cineasta iria amadurecer em seus inúmeros trabalhos posteriores, em maior ou menor grau: o humor geralmente judeu, neurótico, erudito e sofisticado que angariou tanto fãs fiéis quando detratores ferozes.

Basicamente “Noivo neurótico, noiva nervosa” é uma história de amor, sem tirar nem pôr. O protagonista Alvyn Singer (o próprio Allen praticamente inaugurando sua persona mundialmente conhecida) é um humorista infeliz com sua carreira na TV que se apaixona pela levemente neurótica Annie Hall (Diane Keaton, que viveu um romance com o diretor, inspirou a personagem e levou o Oscar de melhor atriz), que tenta tornar-se cantora. O romance dos dois evolui à medida em que eles passam a se conhecer melhor, mas as diferenças entre os dois começam a tornar-se empecilhos no caminho de sua felicidade. Nesse meio tempo, ela conhece um empresário musical (vivido pelo cantor Paul Simon) e ele tenta reconhecer em seus relacionamentos passados os sinais que o levaram à crise.


O que diferencia “Annie Hall” (o título original soa infinitamente melhor do que o nome equivocado da versão nacional, uma vez que os protagonistas nunca foram noivos) das outras comédias românticas é o fato de que, além de Allen estar anos-luz da imagem do galã dos tradicionais exemplares do gênero, suas personagens enfrentam problemas mais próximos da realidade do que seus congêneres. Nada de tramas rocambolescas ou vilões estereotipados (apesar do primeiro esboço do roteiro falar sobre um crime em primeiro lugar e deixar o romance em segundo plano). O que leva o romance de Alvyn e Annie à exaustão é a própria vida, com seus caminhos às vezes tão complicados. E a dor do fim de um relacionamento também pode servir como motivo de criação, a exemplo do protagonista, que escreve uma peça de teatro tentando resolver sua conflituosa e ao mesmo tempo carinhosa relação com sua amada - o que de certa forma também foi feito por Woody, uma vez que Annie, sua protagonista feminina é claramente inspirada em Diane Keaton (cujo nome verdadeiro é Diane Hall e tem o apelido de Annie). Keaton, inclusive, utiliza de suas próprias roupas em cena (e seu figurino foi bastante imitado na época, diga-se de passagem).

A criatividade do roteiro de Allen fica evidente em momentos de grandes ideias, como o desenho animado que defende as madrastas das histórias infantis, as legendas explicando os pensamentos das personagens enquanto travam sua primeira conversa e a cena em que Annie está literalmente com o pensamento longe de sua transa com o namorado. Isso sem falar em alguns das tiradas mais inspiradas e engraçadas da carreira do diretor ("Em Los Angeles eles não jogam o lixo fora, eles reciclam em forma de programas de televisão", vocifera Alvyn quando obrigado a visitar a Califórnia).

Anos depois de seu lançamento, “Noivo neurótico, noiva nervosa” pode ter perdido parte de seu frescor e de seu senso de novidade, mas os diálogos espertos escritos por Woody Allen e a bela homenagem feita à Diane, em um papel sob medida continuam tão atuais quanto em sua estreia.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...