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terça-feira

IMPRÓPRIO PARA MENORES


IMPRÓPRIO PARA MENORES (Noises off, 1992, Touchstone Pictures, 101min) Direção: Peter Bogdanovich. Roteiro: Marty Kaplan, peça teatral de Michael Frayn. Fotografia: Tim Suhrstetd. Montagem: Lisa Day. Figurino: Betsy Cox. Direção de arte/cenários: Norman Newberry/Jim Duffy. Produção executiva: Peter Bogdanovich, Kathleen Kennedy. Produção: Frank Marshall. Elenco: Michael Caine, Christopher Reeve, Denholm Elliot, Carol Burnett, John Ritter, Julie Hagerty, Marilu Henner, Nicolette Sheridan, Mark Linn-Baker. Estreia: 20/3/92

Crítico, historiador de cinema e diretor de alguns filmes indispensáveis do começo dos anos 1970, como "A última sessão de cinema" (1971) - que lhe rendeu duas indicações ao Oscar -, "Essa pequena é uma parada" (1972) e "Lua de papel" (1973), Peter Bogdanovich nunca recuperou, nas décadas seguintes, o mesmo prestígio e o mesmo sucesso de bilheteria. Com exceção de "Marcas do destino" (1985) - que deu a Cher o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes -, seus trabalhos pareciam ter perdido a conexão com as plateias, e nem mesmo "Texasville" (1990), que revisitava os aclamados personagens de "A última sessão", conseguiu reverter esse quadro. Foi nesse período de declínio profissional que ele tentou voltar às comédias, com a adaptação da peça teatral "Noises off", indicada ao Tony de melhor espetáculo de 1984. Não reencontrou seu público, mas demonstrou que sua segurança em lidar com os mecanismos do humor anárquico/caótico ainda se mantinha intocável. Contado com um elenco heterogêneo e um texto preciso e inteligente que homenageia o teatro (e por consequência tudo que o cerca), "Impróprio para menores" é um filme que lembra o melhor de Woody Allen - que evocaria o mesmo universo em seu "Tiros na Broadway" dois anos depois.

"Impróprio para menores" é contado, como uma peça de teatro, em três atos bem definidos, unidos por uma narração em off do diretor Lloyd Fellowes (Michael Caine), que sofre com a possibilidade de sua montagem da comédia "Nothing on" ser um fracasso monumental. A trama da peça - um vaudeville ligeiro e popular - gira em torno de um chalé no campo visitado por dois casais que não deveriam estar lá, uma empregada pouco confiável, um ladrão de residências e um sheik árabe interessado na compra do imóvel. Mas se no palco a confusão é generalizada, nos bastidores as coisas são ainda mais complicadas: o ator Gary Lejeune (John Ritter) tem um caso com a colega Dotty Ottley (Carol Burnett), significantemente mais velha; o galã Frederick Dallas (Christopher Reeve) é abandonado pela esposa poucas horas antes da estreia; o veterano Selsdon Mowbray (Denholm Elliott) está entregue ao vício da bebida e está a cada dia mais surdo; e o próprio diretor está envolvido em um triângulo amoroso com a bela Brooke Ashton (Nicolette Sheridan) e a assistente de palco Poppy Taylor (Julie Hagerty). No período que antecede a estreia do espetáculo na Broadway - quando o grupo viaja por várias cidades do interior como forma de fortalecer sua união e a qualidade das apresentações -, as situações vão ficando mais e mais absurdas, o que ameaça a continuidade da temporada.

 

Contado como uma peça de teatro em três atos - o primeiro antes da estreia em um teatro de Iowa, o segundo em uma caótica apresentação em Miami, e o terceiro na Broadway em si -, "Impróprio para menores" explora os mais variados tipos de humor. Da comédia de erros de seu primeiro capítulo ele se transforma em um espetáculo de quase cinema mudo (com uma precisão de movimentos que ecoa a própria peça que se desenrola como pano de fundo), e Bogdanovich mostra que ainda domina o tempo cômico que apresentou em "Essa pequena é uma parada". Para isso, ele tem a sorte de contar com atores que entendem totalmente o espírito do projeto e alguns (como Christopher Reeve) surpreendem com um inesperado talento para a comédia. Carol Burnett - especialista no gênero - nem precisa se esforçar muito para imprimir sua marca, e Michael Caine de certa forma surge como o mais equilibrado da trupe, oferecendo a seu Lloyd Fellowes um misto de tranquilidade externa e turbilhão interior a que apenas a plateia tem acesso. E Caine, com sua generosidade, foi o responsável por um dos grandes acertos do filme: a escalação do ator Denholm Elliott.

Amigo de Michael Caine desde que contracenaram em "Como conquistar as mulheres" (1966), o britânico Elliott havia descoberto pouco tempo antes que era portador do vírus da AIDS - uma doença ainda cercada de extremo preconceito no começo dos anos 1990. Sabendo da situação do amigo, e de sua potencial dificuldade em encontrar trabalho a partir dali, Caine - que já o havia derrotado na disputa pelo Oscar de coadjuvante de 1986 - condicionou sua participação em "Impróprio para menores" à contratação do colega para o papel que John Gielgud havia recusado. Condição aceita, Elliott entregou uma performance inspirada que seria a sua última: ele morreu meses depois da estreia do filme e Caine, por sua vez, entraria em um período prolífico da carreira a partir de seu segundo prêmio da Academia, por "Regras da vida" (1999). Peter Bogdanovich, por sua vez, jamais recuperaria seu status de grande diretor, acumulando uma sucessão de fracassos até sua morte, em janeiro de 2022.

quarta-feira

DE-LOVELY: VIDA E AMORES DE COLE PORTER


DE-LOVELY: VIDA E AMORES DE COLE PORTER (De-lovely, 2004, MGM Pictures, 125min) Direão: Irwin Winkler. Roteiro: Jay Cocks. Fotografia: Tony Piece-Roberts. Montagem: Julie Monroe. Figurino: Janty Yates. Direção de arte/cenários: Eve Stewart/John Bush. Produção executiva: Simon Channing Williams, Gail Egan. Produção: Rob Cowan, Charles Winkler, Irwin Winkler. Elenco: Kevin Line, Ashley Judd, Jonathan Pryce, Kevin McNally, Sandra Nelson, Allan Corduner, Kevin McKidd. Estreia: 22/5/2004 (Festival de Cannes)

Um dos mais influentes compositores populares dos EUA, Cole Porter deixou sua marca indelével de elegância e inteligência em centenas de canções antológicas, que ultrapassaram os limites dos palcos da Broadway, dos estúdios de Hollywood e de gravações clássicas de nomes como Frank Sinatra, Bing Crosby e Gene Kelly. Símbolo de um período de glamour que o surgimento de gêneros musicais bem menos sutis fez desaparecer, Porter viu sua vida ser transformada em filme - o romântico e pouco confiável "Canção inesquecível" (1946) - e morreu em 1964 depois de uma série de problemas de saúde e perdas irreparáveis que fizeram de seus últimos anos um período melancólico e pouco produtivo. E levando-se em conta sua importância para a cultura - tanto em termos locais quanto internacionais -, não deixa de ser surpreendente que tenham levado quatro décadas desde sua morte para que finalmente contassem sua história de forma digna. "De-lovely: vida e amores de Cole Porter" pode não ser a obra-prima que poderia, mas é uma produção que faz jus a tudo que seu protagonista representou, representa e representará no futuro, ao aproximar suas inesquecíveis canções do tom de modernidade que sempre foram sua maior característica. Com um Kevin Kline impecável no papel central - a ponto de cantar e dançar sem artifícios baratos -, o filme do bissexto Irwin Winkler (seis filmes em treze anos) é uma ode ao artista e ao homem, recheada de excelentes números musicais e com uma caprichada reconstituição de época.

Contada em formato de musical, como convém, a história de Cole Porter é mostrada, em "De-lovely", em três atos, através de flashbacks, onde o próprio Porter vê sua vida reconstituída enquanto um espetáculo sobre ele é montado sob a supervisão do atencioso Gabe (Jonathan Pryce). O primeiro ato se concentra nos primeiros anos do relacionamento entre o compositor e a socialite Linda Lee Thomas (Ashley Judd) - ela divorciada e presença frequente nas melhores festas da alta sociedade, ele notoriamente homossexual e a alma das recepções, com seu humor afiado e sofisticação à toda prova. Casado e compreendido, Porter se vê encorajado a tornar-se compositor profissional, depois de temporadas em Veneza e Nova York. O segundo ato já lhe mostra bem-sucedido na carreira, criando obras-primas para a Broadway e Hollywood, o que de certa forma aprofunda a crise no casamento - cada vez mais atraído pela boemia e por rapazes, Porter aos poucos passa a abandonar Linda e seu relacionamento mais estável. O terceiro e final ato - mais dramático e trágico - começa com um grave acidente, que irá determinar seus últimos anos de vida, além de reaproximá-lo de sua mulher e fortalecer de vez seus laços afetivos, principalmente quando ela também se descobre gravemente doente.


"De-lovely" é uma produção com inúmeras qualidades. O desenho de produção requintado e o figurino de Janty Yates conduz o público por uma viagem no tempo, pelo glamour das altas rodas da Europa e dos EUA desde o final da década de 1910 até os anos 1960, ocasião da morte de Porter. Os números musicais são preciosos, apresentando artistas contemporâneos como Alanis Morissette, Robbie Williams, Elvis Costelo, Sheryl Crow, Diana Krall, Lara Fabian e Natalie Cole entoando as canções imortais do compositor em sequências organicamente inseridas no contexto onírico criado pelo roteirista Jay Cocks - colaborador frequente de Martin Scorsese. Ashley Judd, apesar de jovem demais para o papel de Linda - na verdade quase uma década mais velha do que Porter -, sai-se muito bem no desafio de encarnar uma mulher à frente do seu tempo, ao mesmo tempo confiante o bastante para encarar um casamento com um homem cuja orientação sexual só poderia lhe trazer sofrimento e romântica o suficiente para acreditar que seu amor poderia evitar tais lágrimas. E Kevin Kline deita e rola em um papel capaz de mostrar à plateia - se é que ela ainda não sabe - todos os seus dotes como ator, cantor e dançarino. Mesmo assim, com tantos elementos admiráveis, algo falta ao filme de Irwin Winkler para torná-lo uma produção inesquecível. E não é difícil perceber o que.

Sem experiência na direção de musicais, Winkler não parece à vontade em comandar um filme do gênero, ficando no meio-termo entre um musical assumido ou um drama biográfico de narrativa clássica.. Logicamente seria inaceitável falar de Cole Porter sem que suas obras atravessassem a tela, e nesse ponto o filme de Winkler é feliz, sabendo espalhar canções pela tela sem deixar o programa cansativo. O problema é que, como frequentemente acontece com filmes que tentam abraçar vidas inteiras em poucas horas, é inevitável que haja falta de profundidade no desenvolvimento dos personagens. Até mesmo a relação entre Cole e Linda deixa dúvidas na mente do espectador - até que ponto a homossexualidade do compositor atrapalhava o casamento, por exemplo? E como ele passou de novato a estrela da Broadway? E como foi sua passagem pelo cinema, já que não é dada muita atenção a essa parte de sua carreira? Como o subtítulo em português deixa claro, o filme se dedica às relações interpessoais do músico - com sua esposa e seus ocasionais amantes -, mas mesmo elas não são desenvolvidas a contento. Resta a excelência visual, o desempenho de Kline e as canções, essas sim eternas.

sábado

PRIMAVERA PARA HITLER


PRIMAVERA PARA HITLER (The producers, 1967, Alied Artists, 88min) Direção e roteiro: Mel Brooks. Fotografia: Joseph Coffey. Montagem: Ralph Rosenblum. Música: John Morris. Figurino: Gene Coffin. Direção de arte/cenários: Charles Rosen/James Dalton. Produção executiva: Joseph E. Levine. Produção: Sidney Glazier. Elenco: Zero Mostel, Gene Wilder, Dick Shawn, Kenneth Mars, Estelle Winwood, Christopher Hewett, Andreas Voutsinas, Lee Meredith. Estreia: 27/11/67 

2 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Gene Wilder), Roteiro Original

Vencedor do Oscar de Roteiro Original 

Parte do público o considerava vulgar a ponto de comentar a opinião diretamente com o diretor. Uma das atrizes do elenco chegou a falar dele como um filme terrível a que ela mesma não conseguia assistir - e que ele apenas comprovou que não se pode subestimar o mau gosto do público. E até mesmo seu produtor executivo chegou a afirmar que não iria lançá-lo por ter dúvidas a respeito de seu humor e pensar que ele iria causar mais problemas do que dinheiro. Por incrível que pareça, uma das comédias mais cultuadas de Hollywood correu sério risco de jamais ver a luz dos refletores - e de nunca ter se tornado uma das maiores surpresas da cerimônia do Oscar de 1968, ao levar a estatueta de melhor roteiro original, batendo o prestigiado "2001: uma odisseia no espaço", de Stanley Kubrick. Primeiro filme dirigido por Mel Brooks, "Primavera para Hitler" derrubou o preconceito da Academia em relação a comédias e foi o tom mais ameno de uma temporada recheada de petardos dramáticos como "O bebê de Rosemary", de Roman Polanski, "Romeu e Julieta", de Franco Zefirelli, e ""O leão no inverno", de Anthony Harvey.

Bem antes do ouro do Oscar, porém, a trajetória de "Primavera para Hitler" em direção ao prestígio passou por maus bocados. O maior responsável por suas dificuldades era, sem dúvida, seu tema: pouco mais de vinte anos depois do fim da II Guerra, uma comédia que citava o nome do chanceler alemão em tom de brincadeira não parecia algo muito auspicioso em termos comerciais - em especial quando um dos personagens era explicitamente nazista e não era condenado pelo roteiro (apesar de soar bastante patético, como aliás todos os demais personagens). Além disso, mostrar Hitler dançando ao lado de seus fiéis aliados não parecia uma boa ideia quando se pensava que (como aconteceu, mais tarde, por um tempo) países, como a própria Alemanha, poderiam banir o filme de seu território. Brooks, um diretor estreante com total controle criativo sobre sua obra - um caso raro na indústria -, não abriu mão de suas decisões e foi adiante com o projeto, desafiando o produtor executivo Joseph E. Levine inclusive na escolha do jovem Gene Wilder para um dos papéis cruciais para o filme. Levine não gostava do trabalho de Wilder e chegou a oferecer um extra de 35 mil dólares para que o cineasta escolhesse outro ator para viver o tímido contador Leo Bloom - mas de nada adiantou, para sorte do filme.

Bloom, o segundo personagem masculino mais importante do filme, chegou a ser oferecido a um iniciante Dustin Hoffman - que tinha preferência em outro papel, o do dramaturgo Frank Liebkind (que ficou com Kenneth Mars). Hoffman acabou por ser escolhido para liderar o elenco de "A primeira noite de um homem" (1967), o que possibilitou que Mel Brooks confirmasse o convite feito a Gene Wilder três anos antes das filmagens, quando o ator ainda era apenas um amigo e colega de Anne Bancroft (mulher do diretor) na peça "Mãe Coragem", de Brecht. Wilder quase não pode acreditar na sorte - estava praticamente falido e ainda não tinha um único filme no currículo, já que "Bonnie & Clyde: uma rajada de balas", no qual faz uma pequena participação, ainda não havia estreado - e aceitou, sem pestanejar, uma parceria que ainda lhe renderia bons momentos nas telas. O que Wilder não poderia imaginar, então, era que seu maior medo - ser recusado pelo protagonista da produção, Zero Mostel - não tinha o menor fundamento: assim que deu de cara com o apavorado jovem ator, Mostel imediatamente tornou-se seu protetor, contrariando sua fama de ditatorial e agressivo. O resultado foi uma química explosiva e rara, que deu ao filme um trunfo dos mais brilhantes.


 

Mas se a relação entre Mostel e Wilder era das melhores, o mesmo não poderia ser dito de sua rotina com Mel Brooks: frequentes embates a respeito de decisões criativas tornaram o relacionamento entre ambos um tanto difícil, ainda que respeitoso. Mostel, um experiente astro dos palcos e das telas, dava vida a Max Bialystock, um produtor de teatro que, em eternas dificuldades financeiras, encontrava no contador Leo Bloom o parceiro ideal para um golpe infalível: montar uma peça teatral (a pior possível) para que ela fracasse e lhes possibilite ficar com o dinheiro das financiadoras - um grupo de idosas com quem ele se relaciona por interesse. O texto escolhido, "Primavera para Hitler", é de autoria de um autor com sérios problemas mentais, e o diretor, Roger De Bris (Christopher Hewett), tem no currículo uma série de fracassos de bilheteria. Com uma equipe selecionada a dedo - entre os piores de cada função - e com um tema polêmico, não tem como dar certo. Mas nem sempre teatro é um investimento previsível, e os dois produtores podem ver sua fraude ir por água abaixo quando o público leva tudo na brincadeira - e tornam o espetáculo um surpreendente hit.

Pronto para ser lançado, "Primavera para Hitler" sofreu um baque inesperado: decepcionado com o humor pouco sofisticado do filme, seu produtor executivo ameaçou desistir da estreia. A decisão já estava praticamente tomada quando a sorte sorriu para Brooks e seus colegas. Cotado para interpretar Leo Bloom no começo da produção, o ator Peter Sellers não pode aceitar o papel, mas acabou por se tornar imprescindível na história do filme. Em uma de suas sessões de cinema privadas, com um grupo de amigos, o popular astro da série "Pantera cor-de-rosa" assistiu a uma cópia do filme, gostou muito do que viu e, ciente de que ele corria o risco de nunca ser lançado, conseguiu convencer a Allied Artists a estreá-lo. O fraco resultado das bilheterias até poderia ser a confirmação de que o instinto do executivo estava correto, mas o Oscar subsequente (e uma indicação a Gene Wilder como ator coadjuvante) e sua metamorfose em um cult movie, a partir dos anos 1970, deram a palavra final. Divertido, infame e construído a partir de um roteiro milimetricamente estruturado, "Primavera para Hitler" - rebatizado como "The producers" em seu lançamento - é uma das comédias mais insanas já feitas em Hollywood. Uma pérola que sobrevive ao tempo - e que deu origem a um musical da Broadway, que, por sua vez, rendeu uma versão para o cinema estrelada por Nathan Lane, Matthew Broderick e Nicole Kidman, lançado em 2005 e sem o mesmo impacto.

domingo

OS SAPATINHOS VERMELHOS

OS SAPATINHOS VERMELHOS (The red shoes, 1948, The Archers, 135min) Direção: Michael Powell, Emeric Pressburger. Roteiro: Emeric Pressburger, escrito por Emeric Pressburger, Michael Powell, estória original de Hans Christian Andersen. Fotografia: Jack Cardiff. Montagem: Reginald Mills. Música: Brian Easdale. Figurino: Hein Heckroth. Direção de arte: Arthur Lawson. Produção: Michael Powell, Emeric Pressburger. Elenco: Moira Shearer, Marius Goring, Anton Walbrook, Ludmilla Tcherina, Albert Bassermann, Robert Helpmann. Estreia: 22/7/48 (Londres)

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Roteiro, Montagem, Trilha Sonora Original, Direção de Arte/Cenários em cores
Vencedor de 2 Oscar: Trilha Sonora Original, Direção de Arte/Cenários em cores
Vencedor do Golden Globe de Trilha Sonora Original 

Publicado pela primeira vez em 1845, o conto "Os sapatinhos vermelhos", do dinamarquês Hans Christian Andersen é um clássico absoluto entre crianças de várias gerações, apesar de seu tom sombrio e da violência de que o autor se utiliza para narrar a trágica história de uma criança que se vê eternamente aprisionada a um desejo inconsequente. Denso e surpreendentemente assustador, o conto de fadas (muito distante de seus congêneres mais românticos e delicados) serve de base e inspiração para um dos filmes britânicos mais importantes e aclamados da década de 1940 - e que por pouco não ficou confinado à lista de "filmes de arte", distante do grande público e conhecido apenas pela crítica e por fãs mais radicais de cinema. Lançado quase um ano depois de finalizado - e ainda assim em poucas salas e sem muito alarde -, a versão cinematográfica de "Os sapatinhos vermelhos" conquistou a plateia de forma inesperada e chegou ao ponto máximo da carreira de um filme: a indicação ao prêmio máximo da Academia!

Apesar de ter perdido o Oscar de melhor filme para outra produção inglesa (a versão de "Hamlet" dirigida e interpretada por Laurence Olivier), "Os sapatinhos vermelhos" conquistou muito mais do que seus produtores poderiam esperar - em especial o financiador do projeto, J. Arthur Rank, que não acreditava no potencial comercial do filme e foi o responsável por seu engavetamento e por sua estreia despretensiosa. Não apenas a produção ganhou o público a despeito de seu lançamento quase desastroso, como tornou-se um imenso êxito popular nos EUA, chegando a permanecer em cartaz por impressionantes 110 semanas. Afora isso, foi o responsável por aproximar um tema não exatamente acessível (o balé clássico) do público médio, que frequentava as salas de cinema mais para se divertir com faroestes escapistas do que com dramas complexos e personagens densos. Quando chegou ao Oscar - e saiu vitorioso em duas categorias (trilha sonora original e direção de arte em cores) -, o filme da dupla Michael Powell e Emeric Pressburger já era um incontestável sucesso, e sua atriz principal, a estreante Moira Shearer, uma estrela de primeira grandeza. Segunda bailarina no famoso Sadler's Wells Ballet - atrás apenas da lendária Margot Fonteyn - e sem experiência no cinema, Shearer hoje parece a única escolha possível para o papel central do filme, mas quando o projeto nasceu, ainda nos anos 1930, era Merle Oberon (de "O morro dos ventos uivantes") quem estava nos planos do produtor Alexander Korda - não por acaso, seu marido.


Korda tinha a intenção de produzir "Os sapatinhos vermelhos" - cujo roteiro fora escrito por Emeric Pressburger em 1937-, com Oberon no papel principal e suas cenas de dança dubladas por uma bailarina profissional. A II Guerra Mundial, porém, adiou o projeto indefinidamente e dez anos mais tarde, voltou às mãos de Pressburger, dessa vez acompanhado do cineasta Michael Powell. Com os direitos do script adquiridos, os dois diretores tinham total liberdade para escolher a protagonista que bem entendessem - e o ator Stewart Granger lhes deu uma ajuda providencial ao sugerir-lhes o nome de uma jovem e talentosa bailarina chamada Moira Shearer. Decidido a só realizar o filme com uma dançarina no papel central, Powell encantou-se com a diminuta Shearer - mas não imaginava que ela fosse tão difícil de convencer, o que só aconteceu um ano depois do primeiro contato (e quando ele já estava jogando a toalha e propenso a recuar de sua resolução). Com Shearer no papel da tímida e romântica bailarina Vicky Page, tudo parecia estar entrando nos trilhos, mas, ao contrário da boa impressão que as belas imagens fotografadas em Technicolor de Jack Cardiff deixaram no público, as lembranças que a atriz guardava das filmagens não eram muito agradáveis - declarações suas, feitas décadas mais tarde, davam conta de uma relação distante entre ela e Powell e de condições de trabalho pouco recomendáveis no set de gravações. Tais problemas, no entanto, jamais interferiram no resultado final. Que o digam dois de seus maiores admiradores, Martin Scorsese e Gene Kelly.

Um dos maiores dançarinos da história do cinema, Gene Kelly usou "Os sapatinhos vermelhos" como referência a um de seus maiores sucessos profissionais, "Sinfonia de Paris" (52):  hipnotizado pelos números musicais do filme, ele praticamente obrigou os executivos da MGM a compartilharem de sua fascinação como forma de convencimento para a produção daquele que seria o campeão de Oscars em 1952. Outro fã incondicional da obra, Martin Scorsese não apenas tem uma vasta coleção de itens relacionados ao filme - sapatinhos autografados por Shearer, uma cópia do roteiro autografada pelos diretores, uma parte do storyboard da produção e vários posters internacionais - como também usou-o como referência em algumas cenas de seu excepcional "Touro indomável " (80) e foi o maior responsável pela restauração de suas cópias, para o relançamento no Festival de Cannes de 2009. Mas, afinal, o que o filme de Powell e Strassburger tem de tão especial?

A trama é aparentemente simples: o famoso e rígido empresário do ramo do balé, Boris Lermontov (Anton Walbrook) encontra na delicada e sofisticada Vicky Page (Moira Shearer) a artista ideal para ser a principal estrela de sua companhia. Exigindo dela uma dedicação exclusiva à arte, ele demora a perceber a paixão que surge entre ela e o jovem compositor Julian Craster (Marius Goring) - autor do balé "The red shoes", o maior responsável por sua fama e glória. Indignado com a possibilidade de perder sua maior conquista, Lermontov cobra de Page (já transformada em ídolo internacional) uma decisão final: ou o amor de Craster ou sua carreira como bailarina. Se a história (com toques ousados a partir do conto de Andersen) não é exatamente nova ou empolgante, o que faz do filme um clássico absoluto são outros trunfos. A estupenda fotografia, a trilha sonora impecável, os números de dança (o balé principal dura cerca de 15 minutos), o elenco preciso e o final trágico transformam um filme musical em uma experiência única, repleta de complexidades dramáticas e psicológicas que se fundem a uma história de amor e desespero, filmada com maestria e inteligência. E se por acaso algumas cenas lembrarem o inesquecível "Cisne negro", de 2011, não é de surpreender: Darren Aronofsky, o diretor do filme que deu o Oscar à Natalie Portman, também é fã do trabalho de Michael Powell e Emeric Strassburger - injustamente esquecidos pela Academia!

quarta-feira

AMAR É SOFRER

AMAR É SOFRER (The country girl, 1954, Paramount Pictures, 104min) Direção: George Seaton. Roteiro: George Seaton, peça teatral de Clifford Odets. Fotografia: John F. Warren. Montagem: Ellsworth Hoagland. Música: Victor Young. Figurino: Edith Head. Direção de arte/cenários: Roland Anderson, Hal Pereira/Sam Comer, Grace Gregory. Produção: William Perlberg. Elenco: Bing Crosby, Grace Kelly, William Holden, Anthony Ross, Gene Reynolds. Estreia: 15/12/54

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (George Seaton), Ator (Bing Crosby), Atriz (Grace Kelly), Roteiro, Fotografia (Preto-e-branco), Direção de Arte/Cenários (Preto-e-branco)
Vencedor de 2 Oscar: Atriz (Grace Kelly), Roteiro
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Grace Kelly) 

Quando recebeu a proposta de protagonizar a adaptação da peça teatral "The country girl", de Clifford Odets, lançada nos palcos em 1950, Bing Crosby alegou dois motivos para sua recusa. Primeiro ele se considerava velho demais para o papel (no que tinha relativa razão). Depois, ele hesitava em dividir a cena com uma atriz a quem considerava pouco talentosa, Grace Kelly (o tempo e a história acabaram por mostrar a ironia da afirmação). Convencido posteriormente a aceitar o trabalho, ele não pode reclamar de absolutamente nada: não apenas recebeu um indicação ao Oscar de melhor ator por seu desempenho, como se apaixonou pela colega de elenco a ponto de pedí-la em casamento. Foi recusado - segundo dizem, na época a estrela estava envolvida também com William Holden, Clark Gable e David Niven -, mas surpreendeu-se com sua dedicação à carreira e voltou a contracenar com ela no musical "Alta sociedade" (56), seu último filme antes de tornar-se Princesa de Mônaco. Uma das produçõess mais premiadas de 1952, "Amar é sofrer", de George Seaton, concorreu a sete Oscar - incluindo melhor filme, diretor e roteiro - e pegou todo mundo de surpresa quando deu à Grace a estatueta de melhor atriz, batendo a então favorita Judy Garland, por "Nasce uma estrela". O choque só não foi ainda maior porque a bela musa de Alfred Hitchcock realmente apresentou um trabalho primoroso - também reconhecido com um Golden Globe e prêmios da National Board of Review e dos críticos de Nova York, duas respeitadíssimas instituições norte-americanas.

Desprovida do glamour que a acompanhava frequentemente e lhe rendeu a fama de uma das mulheres mais elegantes do mundo - e o amor do Príncipe Rainier -, Grace Kelly mostra, em "Amar é sofrer" uma faceta inédita de seu talento. Nada mais da mulher sensual e fútil, da herdeira sofisticada ou da mocinha indefesa, vítima das circunstâncias. No filme de Seaton - um cineasta bem cotado entre os críticos americanos, mas que não obteve nenhum outro sucesso parecido na carreira - ela dá vida a uma personagem sofrida, triste, amargurada e aparentemente cruel, com uma carga dramática de que somente as grandes atrizes conseguem transmitir. Assumindo o lugar de Jennifer Jones - a escolha inicial dos produtores, que deixou o filme por estar grávida -, Kelly enterra sem piedade a persona idolatrada pelas revistas de moda e faz nascer uma atriz repleta de nuances, capaz de roubar a cena tanto de Crosby (um dos mais populares astros de sua geração) quanto de William Holden. Mesmo que auxiliada pela caracterização física (a lendária figurinista Edith Head lamentou ter em mãos uma dama como Kelly e ter que deixá-la feia), é sua garra em provar-se uma artista de verdade o que mais chama a atenção em sua performance, que prova que a indicação ao Oscar de coadjuvante um ano antes, por "Mogambo" não havia sido um acidente de percurso.


Na verdade, apesar de interpretar a garota do título original, Kelly não é exatamente a protagonista do filme. O primeiro nome nos créditos é o de Bing Crosby, cuja escalação para o papel de um alcóolico desagradou profundamente suas fãs católicas, que inundaram a Paramount com correspondência reclamando da escolha. Ele vive Frank Elgin, um antigo astro da música e dos palcos que tem a grande chance de voltar aos holofotes depois de um período amargando o ostracismo devido ao problema com álcool. Convidado pelo diretor Bernie Dodd (William Holden), ele enfrenta as dúvidas dos produtores de um musical e, contra todas as suas inseguranças, aceita o desafio. O problema maior de Dodd, no entanto, surge na figura de Georgie (Kelly), a esposa do artista, que parece exercer um domínio acima do normal sobre o marido, a quem ampara (ou mantém vivo) desde a morte trágica do filho pequeno. Aos poucos, Dodd começa a perceber que sua primeira percepção sobre o casal não é digna de confiança - e Georgie passa a se revelar mais admirável do que condenável.

Alterando o texto da peça original para poder incluir números musicais e assim explorar os múltiplos talentos de Bing Crosby, o roteiro de "Amar é sofrer" apresenta uma narrativa clássica, sem epsaço para experimentalismos. Seguindo uma estrutura de melodrama e apostando na força da trama e de seu elenco, George Seaton busca uma aproximação mais direta com a plateia, sem medo de soar excessivamente lacrimoso. Enquanto analisa a complexa relação entre seus protagonistas, aproveita para retratar os bastidores do teatro - mas sem a acidez de "A malvada" (50), por exemplo - e as consequências do alcoolismo - mas sem a profundidade de "Farrapo humano", que deu o Oscar de melhor ator a Ray Milland em 1945. A opção em centrar o foco do terceiro ato no triângulo amoroso que acaba se formando é acertada, por enfatizar as diferenças entre os pretendentes ao coração de Georgie - e o final é coerente, ainda que pareça um tanto apressado em relação ao andamento até então tranquilo do filme. Válido principalmente pelo trabalho excelente de seu elenco, "Amar é sofrer" é um autêntico clássico e a incontestável prova de que, além de deslumbrante, Grace Kelly era uma estupenda atriz.

segunda-feira

A GAROTA DO ADEUS

A GAROTA DO ADEUS (The goodbye girl, 1977, Warner Bros/MGM Pictures, 111min) Direção: Herbert Ross. Roteiro: Neil Simon. Fotografia: David M. Walsh. Montagem: John F. Burnett. Música: Dave Grusin. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Albert Brenner/Jerry Wunderlich. Produção: Ray Stark. Elenco: Richard Dreyfuss, Marsha Mason, Quinn Cummings, Paul Benedict, Barbara Rhoades. Estreia: 27/11/77

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Richard Dreyfuss), Atriz (Marsha Mason), Atriz Coadjuvante (Quinn Cummings), Roteiro Original
Vencedor do Oscar de Melhor Ator (Richard Dreyfuss)
Vencedor de 4 Golden Globes: Melhor Comédia/Musical, Ator em Comédia/Musical (Richard Dreyfuss), Atriz em Comédia/Musical (Marsha Mason), Roteiro 

Certamente o ano de 1977 significa um marco divisor na carreira de Richard Dreyfuss: não apenas ele estrelou o enorme sucesso de bilheteria "Contatos imediatos de terceiro grau" - dirigido por seu amigo Steven Spielberg - como esteve no topo do cartaz da primeira comédia romântica a chegar à marca de 100 milhões de dólares de bilheteria - e que, de quebra, lhe rendeu o Golden Globe e o Oscar de melhor ator na tenra idade de 30 anos de idade (um recorde que durou até 2003, quando Adrien Brody levou a estatueta para casa aos 29, por "O pianista"). Escrita pelo dramaturgo Neil Simon diretamente para o cinema - e reescrita em seis semanas depois que sua primeira tentativa de sair do papel falhou miseravelmente com a saída de Robert De Niro e Mike Nichols do projeto -, "A garota do adeus" é uma deliciosa história de amor, contada com sofisticação e o excepcional senso de ironia do autor, um dos mais consagrados nomes do teatro norte-americano. Indicado a cinco Oscar, incluindo melhor filme e roteiro original, é uma produção que mantém o frescor mesmo quarenta anos após seu lançamento - mérito principalmente do texto ágil, da direção precisa de Herbert Ross e da química rara entre seus protagonistas.

Inspirado, segundo consta, nos anos em que Dustin Hoffman (que esteve interessado no papel) lutava para vencer na carreira de ator, o roteiro de "A garota do adeus" sofreu profundas transformações entre o início de sua produção - com De Niro como astro e Nichols como diretor - até que finalmente chegasse às telas com Richard Dreyfuss e Marsha Mason no elenco e Herbert Ross na direção. Em uma situação rara na década de 70, seu estúdio, a Warner Bros, só concordou em levar o projeto adiante (depois da mudança da equipe) quando a MGM aceitou a proposta de dividir os custos do orçamento. Suas dúvidas em relação às possibilidades financeiras do filme tinham a ver com o fato de não haver nele um grande chamariz de bilheteria: apesar da presença de Dreyfuss no papel principal masculino (depois dos êxitos de "Tubarão" (75) e "Contatos imediatos" (77)), a produção não tinha as qualidades que estavam fazendo os grandes sucessos comerciais da época - a saber: efeitos visuais, campanhas agressivas de marketing, rostos consagrados e premiados. Mesmo quando o protagonista foi oferecido a Jack Nicholson e James Caan (ambos bastante populares), não havia, segundo o próprio Neil Simon, nada que fizesse crer que o filme fosse cair nas graças do grande público como, inesperadamente, aconteceu. Sucesso de bilheteria e crítica, "A garota do adeus" serviu como uma luva nos desejos da mesma plateia que havia lotado as salas de cinema meses antes com "Star Wars". A acolhida calorosa ao filme foi unânime - e o Oscar de melhor ator dado a Richard Dreyfuss foi apenas a cereja de um bolo muito saboroso.


Abraçado entusiasticamente também pelos eleitores do Golden Globe - que lhe deu as estatuetas de melhor filme, ator e atriz na subcategoria comédia/musical e roteiro -, "A garota do adeus" chegou ao Oscar com moral o suficiente para encarar de frente seus maiores (e mais poderosos) rivais, como o próprio "Star Wars", o grande vencedor do ano, "Noivo neurótico, noiva nervosa", e até mesmo um filme dirigido pelo mesmo Herbert Ross - "Momento de decisão", que apesar de chegar à cerimônia com pinta de favorito, saiu de mãos abanando. Concorreu a cinco prêmios - Ross foi indicado por "Momento de decisão", mas a pequena Quinn Cummings foi lembrada na categoria de atriz coadjuvante - e a vitória de Dreyfuss deixou para trás nomes como os de Richard Burton, Woody Allen  e Marcello Mastroianni. Não deixa de ser justo, uma vez que sua presença carismática é um dos pontos altos do filme - a própria Marsha Mason reconhece que Elliot Garfield, o ator tentando um lugar ao sol enquanto lida com uma surpresa inesperada em seu caminho, é um personagem muito mais interessante do que sua Paula McFadden, uma dançarina divorciada que, após o fim de seu último relacionamento, herda um problema que transforma radicalmente sua vida.

O nome do problema de Paula é Elliot Garfield, e ele é um ator ambicioso que chega em Nova York para estrelar uma montagem moderna de "Ricardo III", de Shakespeare - uma montagem pouco ortodoxa e de gosto duvidoso. Assim que chega no apartamento que locou de um amigo, ele descobre que o lugar já está ocupado: a própria Paula fica chocada ao perceber que tem poucos dias para sair do imóvel - mas acaba fazendo um trato com o jovem intruso, que aos poucos começa a conquistar a amizade de sua filha e até mesmo seu coração, ainda que ela tenha jurado a si mesma nunca mais se envolver com outro ator. O romance hesitante entre os dois é atrapalhado também pelas inconstâncias da carreira de Elliot e as batalhas de Paula. Com essa estória simples e sem maiores novidades, Herber Ross cativa a plateia com simpatia, se amparando nos diálogos inteligentes e bem-humorados de Neil Simon e na química entre Dreyfuss, Mason e a pequena Quinn Cummings - sempre em vias de roubar a cena. Uma sessão da tarde descompromissada e muito acima da média, "A garota do adeus" é uma espécie de precursor das comédias românticas estreladas por Meg Ryan na década de 90 - com um gostinho de nostalgia que acrescenta ainda mais tempero à receita. Diversão garantida!

quinta-feira

A PELE DE VÊNUS

A PELE DE VÊNUS (La Vénus à la fourrure, 2013, R.P. Productions, 96min) Direção: Roman Polanski. Roteiro: Roman Polanski, David Ives, romance de Leopold von Sacher-Masoch, peça teatral de David Ives. Fotografia: Pawel Edelman. Montagem: Hervé de Luze, Margot Meynier. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Dinah Collin. Direção de arte/cenários: Bruno Via/Philippe Cord'homme. Produção: Robert Benmussa, Alain Sarde. Elenco: Mathieu Amalric, Emmanuelle Seigner. Estreia: 25/5/13 (Festival de Cannes)

Quando trabalhou junto com a atriz Emmanuelle Seigner pela primeira vez, no thriller "Busca frenética" (1988), o diretor Roman Polanski encontrou na bela francesa uma esposa e uma musa. Desde então dirigiu-a em "Lua de fel" (1992) e "O último portal" (1999), mas nunca teve a oportunidade de mostrar à plateia a evolução de seu talento como atriz, adquirida com a experiência e a maturidade. Trabalhando com o marido pela primeira vez em seu idioma natural - o francês - a bela Seigner finalmente teve a chance de deixar de ser coadjuvante para ser a estrela em "A pele de Vênus", que estreou no Festival de Cannes 2013 com efusivos elogios e rendeu ao veterano Polanski um César (o Oscar francês) de melhor diretor. Com um roteiro inspirado na peça de teatro de David Ives - por sua vez baseado no romance homônimo de Leopold von Sacher-Masoch - o filme volta a brincar com a obsessão do cineasta por ambientes claustrofóbicos, e envolve a plateia em um jogo de sedução e dominação inteligente e perspicaz, que tem especial ressonância àqueles apaixonados por teatro. Com uma invejável química entre Seigner e Mathieu Amalric - que substituiu Louis Garrell pouco antes do começo das filmagens - e um ritmo que se mantém em constante ebulição, "A pele de Vênus" é mais um filme que confirma Roman Polanski como um inquieto criador de obras perturbadoras e densas.

Uma clara homenagem ao teatro - forma de arte de que o próprio Polanski já se utilizou em filmes como "A morte e a donzela" (2004) e "O deus da carnificina" (2013) - e à arte da atuação, "A pele de Vênus" é, também, uma sofisticada obra de arte, recheada de referências culturais e psicológicas, que, ao contrário do que poderia acontecer, jamais soa pedante ou inalcançável. É, sem dúvida, muito acima da média do cinema popular (em que o cérebro do espectador raramente é acionado), mas dificilmente pode ser acusado de intelectualizado em excesso. Ao abraçar uma estrutura puramente teatral - sem respiros artificiais ou tramas paralelas desnecessárias - o roteiro, coescrito pelo diretor e pelo autor da peça original, exige da plateia uma atenção e uma disposição absolutas, mas lhe dá em troca um espetáculo do mais alto nível. É contra-indicado àqueles que reclamam da verborragia do teatro filmado, mas suas qualidades cinematográficas - a edição precisa, a trilha sonora impecável de Alexandre Desplat, a direção segura de Polanski - conseguem facilmente conquistar a admiração até do mais exigente espectador que se deixar envolver pela complexa relação estabelecida entre seus dois protagonistas.


Thomas (Mathieu Amalric) é um dramaturgo que está em vias de estrear como diretor, adaptando um clássico e polêmico romance escrito no século XVIII. Depois de testar dezenas de candidatas ao principal papel feminino e quase desistindo de sua busca, ele se vê surpreendido pela bela e determinada Vanda (Emmanuelle Seigner), que chega ao teatro onde os ensaios devem tomar forma com o firme objetivo de mostrar a ele que é a atriz ideal para viver a personagem, que, coincidentemente, tem o mesmo nome que ela. A princípio recusando-se a testar Vanda por ela ter chegado atrasada e parecer pouco apropriada fisicamente ao papel, aos poucos Thomas vai percebendo que, por trás de sua aparência vulgar e pouco inteligente, ela é uma mulher não apenas completamente dedicada à sua profissão como também apaixonada pelo texto - do qual ele tem indisfarçável orgulho. Não demora para que ele se deixe seduzir pelo talento da moça, que transforma uma simples audição em um sagaz jogo de dominação - que é, afinal, o tema da peça de Thomas. Cada vez mais certo de que Vanda (por coincidência ou não, o mesmo nome da protagonista de sua trama) é a melhor escolha para a peça, ele aceita sua proposta de fazer uma espécie de ensaio informal ali mesmo, diante de uma plateia vazia: surge, então, uma bizarra relação entre os dois.

E é esse relacionamento sui generis que conduz "A pele de Vênus" durante seus 96 minutos. Valorizando cada trecho de diálogos - bem escritos, inteligentes, irônicos e questionadores a respeito de temas como fetichismo e a complexidade das relações homem/mulher - mas jamais esquecendo as ferramentas do cinema (edição, fotografia), Polanski brinda o espectador com um brilhante exercício artístico, que sublinha o melhor de cada linguagem e as reapresenta em forma de um novo e excitante tabuleiro, onde cada nova cena ilumina um novo lado da personalidade - do texto, da direção e dos personagens, que se multiplicam conforme a narrativa vai se tornando mais e mais sinuosa. Para sua sorte, conta com dois atores excepcionais nas reviravoltas dramáticas e que seguram com extrema habilidade cada nuance proposta pelo roteiro. Elegante, fascinante e inteligente, "A pele de Vênus" é o melhor que um teatro filmado pode ser.

sexta-feira

AMIGAS PARA SEMPRE

AMIGAS PARA SEMPRE (Beaches, 1988, Touchstone Pictures, 123min) Direção: Garry Marshall. Roteiro: Mary Agnes Donoghue, romance de Iris Rainer Dart. Fotografia: Dante Spinotti. Montagem: Richard Halsey. Música: Georges Delerue. Figurino: Robert De Mora. Direção de arte/cenários: Albert Brenner/Michael Bird, Garrett Lewis. Produção executiva: Teri Schwartz. Produção: Bonnie Bruckheimer-Martell, Bette Midler, Margaret Jennings South. Elenco: Bette Midler, Barbara Hershey, John Heard, Spalding Gray, Lainie Kazan, James Read. Estreia: 21/12/88

Indicado ao Oscar de Direção de Arte/Cenários

Indicada ao Oscar de melhor atriz logo em sua estreia nas telas, com o musical "A rosa" (79), biografia disfarçada de Janis Joplin dirigida por Mark Rydell, Bette Midler tornou-se, na segunda metade da década de 80, sinônimo de sucesso dentro da Touchstone Pictures. Protagonista de três êxitos incontestáveis na sequência - "Um vagabundo na alta roda" (86), "Por favor, matem minha mulher" (86) e "Cuidado com as gêmeas" (88) - ela conquistou as plateias com seu humor histriônico e frequentemente excessivo que deixava de lado seu talento dramático e seus dons musicais. Disposta a mudar esse cenário, ela encontrou no romance "Beaches", de Iris Rainer Dart, o material ideal para voltar a ser lembrada por seus dotes como intérprete séria. Assinando também como produtora, Midler escolheu uma companheira de cena acima de qualquer suspeita - Barbara Hershey, que acabara de ser vista nos cinemas como a Maria Madalena de Scorsese, em "A última tentação de Cristo" (88) - e um cineasta, Garry Marshall, que, apesar de não ter uma personalidade artística das mais marcantes, emplacaria um megasucesso dois anos depois, o romântico "Uma linda mulher" (90). De olho principalmente no público feminino, "Amigas para sempre" não repetiu o mesmo sucesso do filmes anteriores da estrela, mas para os menos exigentes funciona como um bom drama lacrimoso - e que sim, explora todos os seus talentos.

A história, como não poderia deixar de ser, é puro clichê: ainda crianças, em Atlantic City, a mimada e sofisticada Hillary Whitney e a rebelde com vocação artística CC Bloom se conhecem e se tornam amigas, apesar de suas diferenças sociais e de criação. Apesar de distantes fisicamente uma da outra, elas continuam mantendo uma assídua correspondência, até que finalmente, anos mais tarde, se reencontram quando CC (já vivida por Bette Midler) está iniciando uma bem-sucedida carreira nos palcos e Hillary (Barbara Hershey com excesso de botox) dedicando-se a trabalhar como advogada para causas sociais. Elas passam a morar juntas no apartamento decrépito de CC e é justamente seu empresário, John Pierce (John Heard), que irá detonar a primeira crise entre as amigas - que passarão as décadas seguintes em constante instabilidade emocional e profissional, brigando e fazendo as pazes enquanto passam por momentos cruciais de suas vidas. É somente depois que Hillary tem uma filha pequena, no entanto, que o maior problema surge em seu caminho: uma doença rara e incurável que irá por em xeque seu relacionamento.

Com um roteiro bastante superficial, que não explora a contento a profundidade dos sentimentos entre as protagonistas, que passam o filme basicamente brigando e se reconciliando, "Amigas para sempre" é nitidamente um veículo para o brilho de Bette Midler. É ela quem tem as melhores e mais importantes cenas, é ela quem tem a chance de equilibrar momentos dramáticos com sequências cômicas, e, para confirmar seu status de estrela maior, canta em diversos números musicais - alguns interessantes, outros bastante enfadonhos e que atrapalham o ritmo do filme, tornando-o desnecessariamente longo. Hershey, uma atriz de grande capacidade, fica relegada quase sempre a um segundo plano melancólico, sendo desperdiçada com uma personagem mal desenvolvida que serve, aparentemente, como escada para o espetáculo de Midler - que deita e rola mesmo quando sua personagem ultrapassa o limite do suportável, com um egocentrismo que só não a transforma em alguém totalmente desprezível graças ao carisma da atriz, que mesmo assim não agrada a todos. É preciso um mínimo de simpatia por ela para se gostar do filme.

Indicado ao Oscar de direção de arte, "Amigas para sempre" é uma sessão da tarde lacrimosa, mas agradável o suficiente para manter o interesse do público até seus minutos finais, embalados pela bela "Wind beneath my wings", cantada (obviamente) por Bette Midler. Com interessantes referências aos bastidores do mundo do teatro, do cinema e da música, é um filme capaz de emocionar aos mais sensíveis, mesmo que force a barra no terceiro ato, quando substitui a leveza de uma história sobre amizade pelo drama fácil de uma doença terminal. Pode levar às lágrimas, mas é longe de ser inesquecível - e pelo menos deu à Bette Midler a chance de sair um pouco das comédias escrachadas e provar a extensão de seu talento.

terça-feira

O FIEL CAMAREIRO

O FIEL CAMAREIRO (The dresser, 1983, Columbia Pictures, 116min) Direção: Peter Yates. Roteiro: Ronald Harwood, peça teatral de sua autoria. Fotografia: Kelvin Pike. Montagem: Ray Lovejoy. Música: James Horner. Figurino: Rosemary Burrows. Direção de arte/cenários: Stephen Grimes/Josie MacAvin. Produção: Peter Yates. Elenco: Albert Finney, Tom Courtenay, Edward Fox, Zena Walker, Eileen Atkins, Michael Gough. Estreia: 06/12/83

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Peter Yates), Ator (Tom Courtenay), Ator (Albert Finney), Roteiro Adaptado
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator/Drama (Tom Courtenay) 

 Poucas vezes o cinema tratou com tanto respeito e realismo os bastidores de uma companhia teatral como "O fiel camareiro". Baseado em uma premiada peça teatral escrita por Ronald Harwood - que inspirou-se em sua experiência como assistente do veterano ator inglês Donald Wolfit - e dirigido por Peter Yates, o filme de mesmo nome agradou em cheio a Academia de Hollywood, que, sempre atraída por histórias que giram em torno do mundo artístico, lhe indicou em cinco categorias de grande importância, como melhor filme, direção e roteiro adaptado. Além disso, conquistou um feito raro, colocando seus dois intérpretes masculinos na corrida pelo Oscar de melhor ator. Em desempenhos nunca aquém de fascinantes, Albert Finney e Tom Courtenay acabaram perdendo a estatueta para Robert Duvall ("A força do carinho"), mas é difícil dizer quem está melhor em cena. Em um duelo de interpretações dos mais empolgantes, os dois grandes atores dão um espetáculo à parte em um filme que é o sonho de consumo para qualquer fã de artes cênicas.

Lançada nos palcos ingleses em março de 1980, a peça de Ronald Harwood - que ganharia o Oscar de roteiro adaptado por "O pianista" (2002) - já começou sua carreira acumulando elogios e prêmios. Quando chegou à Broadway, dois anos mais tarde, sempre com Tom Courtenay na pele do dedicado Norman, já era considerada dona de um dos texto mais inteligentes da temporada. Não demorou para que uma versão para o cinema fosse considerada, assim como o nome de Courtenay para o papel que havia consagrado nos palcos. Com roteiro do próprio dramaturgo, "O fiel camareiro" manteve também o alto nível do texto original, repleto de citações à obra de Shakespeare e detalhes saborosos sobre os bastidores do mundo teatral, com um equilíbrio perfeito entre a veneração à arte e a ironia fina de que somente os ingleses são capazes quando falam de si mesmos. Longe de ser uma obra sustentada por uma trama forte e recheada de reviravoltas, o filme de Peter Yates é um filme movido a sentimentos como admiração e dedicação - e amor incondicional ao teatro.


Passada durante a II Guerra Mundial, a trama de "O fiel camareiro" gira em torno de um veterano ator dos palcos britânicos, chamado pelos colegas simplesmente de "Sir" - em uma atuação milagrosa de Albert Finney. Líder de uma companhia teatral shakespereana, ele conta sempre com a prestimosa e abnegada assistência do incansável Norman (Tom Courtenay, impecável em sua criação repleta de nuances), que, além de auxiliá-lo nas trocas de roupa e maquiagem, agora se vê diante de uma nova missão: cuidar da saúde mental do brilhante intérprete. Com a idade avançada, Sir está confundindo os papéis, trocando as falas e, além de tudo, disposto a escrever uma autobiografia. Desacreditado pelos colegas, ele é blindado por Norman, que o vê como ídolo absoluto e intocável mesmo quando acaba sendo vítima do egocentrismo do astro.

Quem aprecia um bom jogo de cena, com atuações brilhantes e um texto irretocável não pode perder "O fiel camareiro". Porém, é bom que se diga que, para um público menos disposto a mergulhar no universo proposto pelo roteiro, a experiência provavelmente será menos rica: tanto os diálogos de Harwood quanto a direção de Yates valorizam basicamente o duelo entre Finney e Courtenay, dando pouco espaço para os coadjuvantes e seus dramas pessoais. Mesmo quando volta seu foco para anedotas de bastidores - como o hilariante mutirão para providenciar uma tormenta digna do nome em uma sessão de "Rei Lear" - o filme sempre privilegia as reações de Sir em relação ao que lhe rodeia e, consequentemente, como isso afeta a vida de Norman, um homem cuja vida se resume unica e exclusivamente às coxias e palcos. São dois personagens e tanto, defendidos com garra e talento por atores em estado de graça. Um filme para quem gosta da arte da atuação, dentro e fora dos palcos e das telas.

domingo

BIRDMAN ou (A INESPERADA VIRTUDE DA IGNORÂNCIA)

BIRDMAN ou (A INESPERADA VIRTUDE DA IGNORÂNCIA) (Birdman or (The unexcpected virtue of ignorance, 2014, New Regency Pictures, 119min) Direção: Alejandro González Iñárritu. Roteiro: Alejandro González Iñárritu, Nicolás Giacobone, Alexander Dineralis Jr., Armando Bo. Fotografia: Emmanuel Lubezki. Montagem: Douglas Crise, Stephen Mirrione. Música: Antonio Sanchez. Figurino: Albert Wolsky. Direção de arte/cenários: Kevin Thompson/George De Titta Jr.. Produção executiva: Molly Conners, Sarah E. Johnson, Christopher Woodrow. Produção: Alejandro G. Iñárritu, John Lesher, Arnon Milchan, James W. Skotchdopole. Elenco: Michael Keaton, Edward Norton, Naomi Watts, Emma Stone, Zach Galifianakis. Estreia: 27/8/14 (Festival de Veneza)

9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Alejandro González Iñárritu), Ator (Michael Keaton), Ator Coadjuvante (Edward Norton), Atriz Coadjuvante (Emma Stone), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Edição de Som, Mixagem de Som
Vencedor de 4 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Alejandro González Iñárritu), Roteiro Original, Fotografia
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Ator Comédia/Musical (Michael Keaton), Roteiro

Quem estava acostumado a ver o nome de Alejandro Gonzalez Iñárritu nos créditos de filmes densos e praticamente desprovidos de qualquer tipo de senso de humor como "Amores brutos" (00), "21 gramas" (03), "Babel" (06) e "Biutiful" (10) provavelmente levou um susto ao deparar-se com seu "Birdman ou (A inesperada virtude da ignorância)", que entrou firme e forte na disputa pelo Oscar de melhor filme de 2014 e deixou pra trás outros elogiados trabalhos da temporada - como "Boyhood, da infância à juventude" e "O Grande Hotel Budapeste" - ao abocanhar 4 estatuetas, incluindo filme e diretor.  Abandonado o pessimismo realista que permeava seus três primeiros filmes - e sua parceria com o roteirista Guillermo Arriaga - o cineasta mexicano realizou seu trabalho mais poético, recheado de metáforas brilhantes sobre a arte, a vida e as relações interpessoais e dotado de um tom onírico e sarcástico que contrasta com o habitual realismo de sua cinematografia anterior. Amparado ainda em uma atuação arrebatadora do até então canastrão Michael Keaton - a maior de suas ferramentas de metalinguagem - o filme de Iñárritu discute, sem parecer pedante ou hermético, o culto vazio às celebridades, a efemeridade da fama, o sensacionalismo e a irresponsabilidade da mídia (Internet incluída) ao contar a aparentemente simples história de um decadente ator popular de cinema tentando provar-se um intérprete sério ao estrelar um peça de teatro na Broadway. Tecnicamente impecável e sombriamente engraçado, "Birdman" é, acima de tudo, um filme sobre a paixão pelo teatro, pela busca incessante da transcendência através da arte.

Riggan Thompson (Michael Keaton) é o que pode-se chamar de um ex-astro: protagonista de uma série de três filmes onde interpretou um super-herói chamado Birdman, ele viu sua carreira entrar em decadência vertiginosa depois de ter recusado um quarto capítulo, há mais de vinte anos. Considerando-se um fracassado quase irrecuperável, ele resolve dar uma última cartada para retomar sua autoestima e conquistar o respeito da crítica e do público: escrever, dirigir, produzir e estrelar uma peça de teatro na Broadway. Sua insegurança, porém, ameaça a estreia do espetáculo, assim como a gama de personagens surreais que o rodeiam, como Mike Shiner (Edward Norton, sensacional como sempre), ator de métodos tradicionais que se considera superior à toda a equipe por ter construído sua carreira nos palcos e não nas telas, e a filha de Riggan, Sam (Emma Stone), que acaba de sair de uma clínica de reabilitação. Além dos problemas normais de uma produção teatral, o ídolo de uma geração de cinéfilos também precisa enfrentar a má-vontade pré-concebida da crítica e lidar com a voz do próprio Birdman - que surge como uma espécie de conselheiro invisível que o empurra adiante em suas ambições.


"Birdman" é uma festa para os olhos, os ouvidos e o cérebro da plateia. A fotografia de Emmanuel Lubezki integra-se à narrativa de forma tão orgânica que parece quase invisível diante dos ilusórios planos-sequência criados por Iñárritu, que conduzem a plateia pelos corredores estreitos do teatro onde se passa a maior parte da ação apenas para culminar em um clímax de extrema poesia e força dramática. O roteiro - equilibrado com maestria entre o humor cáustico e o drama existencial de uma geração exposta ao nada admirável mundo novo da tecnologia que torna tudo vorazmente fugaz - soa como um bálsamo para um público acostumado a diálogos pobres e ginasiais. E as questões que discute - a prostituição da arte, o amor pelo teatro, a dicotomia prestígio/popularidade, a falta de sentido na fama pela fama - nunca foram tão prementes quanto hoje em dia, quando talento vem sendo mercadoria dispensável na fogueira das vaidades do sucesso instantâneo. Somados a tudo isso há ainda o elenco em dias de extrema inspiração: Michael Keaton, no papel de sua vida (literalmente), tinha tudo para ganhar um Oscar de melhor ator, caso a Academia não tivesse se rendido ao óbvio e homenageado Eddie Redmayne por sua caracterização de Stephen Hawking. E Edward Norton - duas vezes indicado anteriormente e duas vezes descaradamente roubado - teve o azar de encontrar J.K. Simmons pela frente: uma vitória sua teria sido surpreendente, mas jamais injusta.

Talvez uma parte do público - menos disposta a experiências que fujam do banal - rejeitem "Birdman" por sua estética, sua narrativa, seu tema. Mas provavelmente não seja essa parte da audiência que Alejandro Gonzalez Iñárritu queira atingir com sua magistral fábula. Encantar-se com a inteligência e a sutileza de seu trabalho é privilégio de quem consegue sonhar acordado apesar dos pesares. "Birdman" é para quem tem a arte na alma.

terça-feira

FRANCES

FRANCES (Frances, 1982, BrooksFilms, 140min) Direção: Graeme Clifford. Roteiro: Eric Bergren, Christopher De Vore, Nicholas Kazan. Fotografia: László Kovács. Música: John Barry. Figurino: Patricia Norris. Direção de arte/cenários: Richard Sylbert/George Gaines. Produção: Jonathan Sanger. Elenco: Jessica Lange, Sam Shepard, Kim Stanley, Bart Burns, Jeffrey DeMunn, Lane Smith. Estreia: 03/12/82

2 indicações ao Oscar: Atriz (Jessica Lange), Atriz Coadjuvante (Kim Stanley)

O ano de 1982 foi particularmente satisfatório para Jessica Lange. Poucos anos depois de ter sido ridicularizada por sua estreia como a protagonista feminina de "King Kong", ela mostrou à crítica e aos detratores que, por trás de seu belo rosto e do vulcão de sensualidade que havia demonstrado em "O destino bate à sua porta" (81), havia uma atriz de intenso talento, pronta para surpreender e encantar. Em "Tootsie", de Sydney Pollack, ela deixou perceber seu lado solar, como a atriz de telenovelas que desperta a paixão de um travestido Dustin Hoffman e levou pra casa o Golden Globe e o Oscar de atriz coadjuvante. Mas foi seu desempenho como outra atriz, real e com uma vida repleta de lances dramáticos, que ela derrubou de vez toda e qualquer desconfiança: na pele de Frances Farmer - papel que era cobiçado por Diane Keaton e Goldie Hawn, ambas oscarizadas e já respeitadas - ela injetou em doses exatas emoção, desespero e revolta. E só não ganhou a estatueta na categoria principal porque tinha Meryl Streep e seu "A escolha de Sofia" pelo caminho.

Frances Farmer existiu de verdade e chegou a fazer alguns filmes em Hollywood nos anos 40 - antes que sua personalidade forte, suas simpatias comunistas e seu desinteresse pela fama estéril de um estrela de cinema em detrimento da nobreza do teatro lhe dessem o rótulo de persona non grata na capital das vaidades. Rechaçada em sua cidadezinha do interior aos 16 anos por ter escrito uma dissertação onde negava a existência de Deus, ela logo piorou sua situação indo passar um tempo em Moscou - quando já era uma jovem atriz especializada em teatro russo. Seu retorno triunfal ocorreu justamente quando chegou às telas de cinema, quando passou a ser respeitada e adulada sem por isso sentir-se obrigada a compactuar com ideais que renegavam os seus. Dedicando-se ao teatro, sua verdadeira paixão, ela jamais deixa de manter contato com o jornalista Harry York (Sam Shepard, que se envolveu com Lange durante as filmagens e teve com ela dois filhos), que é quem a ajuda a superar os piores anos de sua vida: abandonada e traída profissionalmente pelo amante dramaturgo, Clifford Oddets (Jeffrey DeMunn), ela volta à Hollywood e, desequilibrada, cai nas mãos de sua mãe, Lilian (Kim Stanley, indicada ao Oscar de coadjuvante), que vê solução apenas internando-a em um hospício.


Mesmo que o roteiro tenha ficcionado algumas passagens da vida de Frances - o personagem de Sam Shepard, por exemplo, nunca existiu, e a lobotomia sofrida pela protagonista jamais aconteceu - o filme de Graeme Clifford (que depois nunca mais acertou em sua carreira cinematográfica) sobrevive principalmente graças ao empenho de Jessica Lange em dar credibilidade e empatia a uma personagem difícil. Convencendo tanto como uma adolescente de 16 anos quanto como uma mulher sofrida e vivida, ela é a luz do filme, transmitindo milhares de emoções com poucas palavras, usando apenas o olhar para levar a audiência junto com ela à espiral de desespero que toma conta de sua vida no terço final da história. Seus duelos com Kim Stanley - que vive Lilian Farmer, sua mãe e algoz - são dignos de nota, dando ao filme um tom de tragédia familiar que deixa seus furiosos ataques à nata de Hollywood leves como um filme de Carlitos. Sua descida ao inferno - em especial uma inspirada sequência onde ela ensaia uma declaração aos juízes diante de uma plateia de internas insandecidas - é tratada com respeito, mesmo quando torna-se o pior dos pesadelos, com lobotomias e estupros no menu.

"Frances" é um filme irregular. Não tem um diretor brilhante que ouse na narrativa e até mesmo suas invenções no roteiro (ainda que o tornem mais chocante) acabam minando sua credibilidade. Mas tem em Jessica Lange um pilar forte o suficiente para torná-lo obrigatório. Não apenas é o retrato cruel de como a sociedade (e a indústria, seja ela qual for) pode exterminar a alma de uma pessoa de espírito livre e inteligente. Também é uma chocante mostra dos horrores do sistema psiquiátrico americano de sua época (anos 40), da maneira cruel como Hollywood se livrava de quem não mais lhe servia e até das sujeiras que escondem nos bastidores do teatro. Para quem gosta do assunto, é um prato e tanto.

sexta-feira

ROMANCE

ROMANCE (Romance, 2008, Globo Filmes/Natasha Filmes, 105min) Direção: Guel Arraes. Roteiro: Guel Arraes, Jorge Furtado. Fotografia: Adriano Goldman. Montagem: Gustavo Giani. Música: Caetano Veloso. Figurino: Cao Albuquerque. Direção de arte: Marlise Storchi. Produção executiva: Diogo Dahl. Produção: Paula Lavigne. Elenco: Wagner Moura, Letícia Sabatella, Andréa Beltrão, Vladimir Brichta, José Wilker, Marco Nanini, Bruno Garcia. Estreia: 14/11/08

Um dos diretores mais respeitados do Brasil, com sucessos acumulados na TV ("A comédia da vida privada", "TV Pirata") e no cinema ("O Auto da Compadecida", "Lisbela e o prisioneiro"), Guel Arraes sempre pautou sua carreira cinematográfica voltando o olhar para o nordeste brasileiro e suas lendas e costumes. Em seu quarto longa-metragem, porém, ele resolveu mudar o tom de seus trabalhos anteriores e falar de amor. Com um registro bem mais próximo de sua experiência na televisão do que em seus bem-sucedidos trabalhos regionais mostrados na telona, ele lançou, em 2008, a comédia romântica "Romance", que escreveu em parceria com o também cineasta Jorge Furtado. Ao contrário do que se poderia esperar, porém, o filme não alcançou o êxito merecido, ficando relegado a um segundo plano na carreira do diretor. Injustiça que fica evidente quando se percebe a inteligência do roteiro, a delicadeza das interpretações do elenco excepcional e a fina ironia que permeia a história de amor entre dois atores que veem suas vidas transformadas pelo sucesso profissional.

Pedro (Wagner Moura em tom romântico a anos-luz de distância do Capitão Nascimento de "Tropa de elite") é um ator e diretor de teatro idealista, que acredita na superioridade do palco em relação à televisão. Durante os ensaios de sua nova peça, uma montagem de "Tristão & Isolda", ele se apaixona por sua colega de cena, Ana (Letícia Sabatella, excelente em todas as fases de sua personagem), que não tem as mesmas regras rígidas em relação à sua profissão. O romance idílico entre eles entra em crise quando Ana aceita fazer uma novela, traindo os ideais do namorado. Separados, eles seguem suas carreiras mas voltam a se encontrar quando ela sugere que ele seja o diretor de um especial de fim de ano da emissora onde ela trabalha. Mantendo-se fiel ao que acredita, Pedro aceita o trabalho, mas resolve criar uma versão de "Tristão & Isolda" no sertão nordestino, para desespero do executivo Danilo (José Wilker). Durante as filmagens, Ana e Pedro voltam a se aproximar, mas encontram dificuldades em retomar o romance graças a Orlando (Vladimir Brichta) - ator coadjuvante que se apaixona por ela - e Fernanda (Andréa Beltrão), assistente de Ana responsável pela escolha de Orlando para o elenco.


Mergulhando nos bastidores do mundo do teatro e da televisão, Guel Arraes mostra com desenvoltura o funcionamento de dois universos tão semelhantes quanto distantes. Através do idealismo de Pedro, o roteiro discute as dificuldades que o teatro tem de manter-se puro e independente do apelo da televisão - capaz de transformar uma atriz em estrela sem ao menos saber de seu real talento. Pela ótica de Ana, é possível perceber o preconceito nada velado em relação aos artistas que buscam o reconhecimento e o sucesso financeiro e profissional dividindo sua carreira entre o palco e os sets de gravação. Apesar de claramente demonstrar mais simpatia pelo modo ético de Pedro, o cineasta jamais impõe uma verdade universal, preferindo apostar na inteligência do público, que, em meio a isso, se diverte com alguns diálogos impagáveis - em especial quando entra em cena o ator/estrela Rodolfo (Marco Nanini, mais uma vez sensacional) - e algumas passagens lindamente românticas, que apresenta uma química perfeita entre Wagner Moura (cada vez melhor ator) e Letícia Sabatella (deslumbrante e com ótimo timing). Não bastasse tudo isso, os roteiristas ainda encontraram um jeito de contar sua história de forma a citar outros clássicos do teatro - como "Cyrano de Bergerac" - sem que o artifício soe um truque barato ou demonstração estéril de eruditismo.

Engraçado, sutil e exalando paixão, "Romance" peca apenas por parecer demais com um especial de televisão, armadilha da qual Guel sempre conseguiu escapar em seus trabalhos anteriores. Afora isso, é uma delícia de se assistir, repleto de momentos de grande inspiração e dono de um final criativo e capaz de estampar um sorriso no rosto da plateia. Os detratores não souberam entender e os que perderam sempre tem a chance de reparar o erro.

segunda-feira

TIROS NA BROADWAY

TIROS NA BROADWAY (Bullets over Broadway, 1994, Miramax Films/Sweetland Films, 98min) Direção: Woody Allen. Roteiro: Woody Allen, Douglas McGrath. Fotografia: Carlo Di Palma. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Susan Bode, Amy Marshall. Produção executiva: J.E. Beaucaire, Jean Doumanian. Produção: Robert Greenhut. Elenco: John Cusack, Dianne Wiest, Chazz Palminteri, Rob Reiner, Jennifer Tilly, Mary-Louise Parker, Jim Broadbent, Tracey Ulman, Joe Viterelli, Jack Warden, Harvey Fierstein. Estreia: 01/10/94

7 indicações ao Oscar: Diretor (Woody Allen), Roteiro Original, Ator Coadjuvante (Chazz Palminteri), Atriz Coadjuvante (Jennifer Tilly/Dianne Wiest), Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Dianne Wiest)
Vencedor do Golden Globe de Atriz Coadjuvante (Dianne Wiest)

Poucas vezes um filme de Woody Allen teve uma acolhida tão generosa por parte da Academia quanto "Tiros na Broadway". Indicada a sete Oscar, a divertida comédia passada nos bastidores do teatro dos anos 20 conquista pelo humor inteligente e sarcástico, pela reconstituição de época caprichada e, como é de costume na obra do cineasta nova-iorquino, pelo elenco impecável. Não foi à toa que três de seus atores foram indicados a um estatueta e Dianne Wiest tenha arrebatado a sua segunda - a primeira, por outro filme de Allen, "Hannah e suas irmãs", ela recebeu em 1986. Na pele de Helen Sinclair, uma diva dos palcos com tendências alcóolicas e egocêntricas, Wiest só não rouba a cena porque, a seu lado, estão os surpreendentes Chazz Palminteri (dramaturgo até então desconhecido pelos fãs de cinema) e Jennifer Tilly (que deixou pra trás trabalhos esquecíveis como "A fuga", com Alec Baldwin e Kim Basinger graças a seu desempenho hilariante).

Liderando o elenco de peso está John Cusack, que interpreta David Shayne, um jovem dramaturgo que, a despeito da qualidade de seu texto, acumula fracasso em cima de fracasso. Sua grande chance acontece quando sua última peça, "O deus dos nossos pais" encontra um patrocinador inesperado, o mafioso (Joe Viterelli), cuja única exigência é que sua amante, Olive Neal (Jennifer Tilly), tenha um papel de destaque. A princípio irredutível em vender sua arte, David acaba convencido por seu empresário Nick Valenti (Jack Warden) a aceitar a ideia, principalmente porque, com o financiamento, poderá contar com a presença de Helen Sinclair (Wiest), uma atriz de primeira grandeza. Porém, a presença histérica da péssima Olive é a apenas o primeiro problema na trajetória do espetáculo: quando os ensaios começam, os atores passam a questionar o texto e as ideias do dramaturgo, e o segurança de Olive, o agressivo Cheech (Chazz Palminteri) começa a dar suas próprias ideias para mudar o desenrolar da trama.


Afiado como nunca - e dividindo os créditos do roteiro com Douglas McGrath, em um acontecimento raríssimo em sua carreira - Allen não dá ao espectador tempo para recuperar-se de um diálogo sensacional para presenteá-lo imediatamente com outro. Enquanto Wiest desfila seu festival de ironias pela tela - e lega um clássico "Don't speak!" para a posteridade - os demais atores deitam e rolam com personagens bem delineados e de importância para o desenvolvimento da comédia proposta. Jim Broadbent, por exemplo, antes do Oscar de coadjuvante por "Iris", vive um ator que engorda a olhos vistos durante o processo de ensaios e acaba sendo responsável por uma crise nas coxias quando se envolve romanticamente com quem não devia - erro que o próprio David também comete quando se apaixona por Helen mesmo já tendo um relacionamento sério.

Divertido, inteligente e irônico na medida certa, "Tiros na Broadway" comprova as qualidades de Woody Allen como cineasta e roteirista popular - contrariando sua fama de hermético. As piadas, mesmo que sejam muito mais interessantes a um público que conheça os bastidores do teatro, são de um sarcasmo a toda prova e o desfecho - coerente e imprevisível - faz jus a todo o alvoroço que o filme provocou e suas indicações aos Oscar de direção e roteiro original. Um Allen dos melhores!

sexta-feira

ADORÁVEL JULIA

ADORÁVEL JULIA (Being Julia, 2004, Serendipity Point Films, 104min) Direção: István Szabó, novela de W. Somerset Maughan. Fotografia: Lajos Koltai. Montagem: Susan Shipton. Música: Mychael Danna. Figurino: John Bloomfield. Direção de arte/cenários: Luciana Arrighi/Zoltán Horváth, Attila Koves, Ian Whittaker. Produção executiva: Mark Milln, Marion Pilowsky. Produção: Robert Lantos. Elenco: Annette Bening, Jeremy Irons, Michael Gambon, Bruce Greenwood, Shaun Evans, Lucy Punch, Juliet Stevenson, Miriam Margolyes. Estreia: 03/9/04 (Festival de Telluride)


Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Annette Bening)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz Comédia/Musical (Annette Bening)

 Inspirado na história “Theatre”, de W. Sommerset Maughan, esse belo drama romântico do húngaro Istvan Szabo apresenta uma das melhores atuações da sra. Warren Beatty, Annette Bening, que ganhou o Globo de Ouro e foi indicada ao Oscar por seu trabalho. Ela mereceu. Sua Julia Lambert é sem dúvida uma das personagens mais fascinantes e bem escritas da década, e Bening tira de letra a sua complexidade de emoções. De diva aborrecida a mulher apaixonada e daí a uma mulher amargurada e vingativa, Bening desfila pela tela uma paleta completa de sentimentos, o que leva o público a embarcar em sua jornada rumo à vingança com um sorriso nos lábios.
        
Londres, 1938. A atriz Julia Lambert (Annette Bening) é a diva maior dos palcos ingleses. Vivendo um casamento aberto com o diretor Michael (Jeremy Irons), ela conhece e passa a viver um caso com o jovem americano Tom (Shaun Evans), que tem idade para ser seu filho. O romance dos dois convém a ambos, uma vez que Julia torna-se mais feliz e menos deprimida e o rapaz passa a ser praticamente sustentado pela atriz. As coisas mudam de figura quando Tom se apaixona por Avril Chrichton, uma aspirante à estrela e Julia, sentindo-se traída e humilhada planeja uma vingança em grande estilo, no seu próprio terreno: o palco.




Para isso também ajuda todo o trabalho de produção do filme. Com uma primorosa reconstituição de época, uma bela trilha sonora e um elenco coadjuvante afinado, a nova obra de Szabo conquista pela elegância, pela inteligência e pela qualidade que emana em cada cena. Jeremy Irons, apesar de não ter muito o que fazer em cena demonstra seu tradicional estilo cool. Michael Gambon, como uma espécie de anjo da guarda e grilo falante de Julia não poderia estar melhor e Juliet Stevenson, como a camareira da atriz nem precisa de muitos diálogos para mostrar sua competência. Pena que Shaun Evans, na pele de Tom, personagem crucial à trama não cumpra com as expectativas. Apesar de jovem, simpático e sedutor, ele não tem o estofo necessário para viver o pivô de toda a história. No entanto, isso não compromete o belo espetáculo que “Adorável Julia” é, uma bela declaração de amor ao teatro, acima de tudo.

quarta-feira

TUDO SOBRE MINHA MÃE



TUDO SOBRE MINHA MÃE (Todo sobre mi madre, 1999, El Deseo SA, 101min) Direção e roteiro: Pedro Almodovar. Fotografia: Affonso Beatto. Montagem: José Salcedo. Música: Alfredo Iglesias. Figurino: Bina Daigeler, José Maria de Cossio. Direção de arte/cenários: Antxon Gomez/Federico Garcia Cambero. Produção executiva: Agustin Almodovar. Elenco: Cecilia Roth, Marisa Paredes, Penelope Cruz, Antonia San Juan, Candela Peña, Rosa Maria Sardá. Estreia: 16/4/99 

Vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
Vencedor do Festival de Cannes - Melhor Diretor (Pedro Almodovar)


As atrizes hollywoodianas adoram reclamar – não sem certa razão - que é difícil encontrar bons e desafiadores papéis femininos. É de imaginar, portanto, seu choque quando assistiram a “Tudo sobre minha mãe”, filme que deu a Palma de Ouro de Melhor Diretor no Festival de Cannes ao espanhol Pedro Almodóvar. Em seu 13º longa-metragem, o cineasta atinge sua maturidade artística em um filme que apresenta ao público não apenas uma ou duas personagens femininas interessantes, mas simplesmente uma boa meia-dúzia delas (com espaço até mesmo para uma transexual). Deixando de lado os machistas protagonistas de seu filme anterior, o bem-sucedido “Carne trêmula”, Almodóvar criou personagens complexas, multidimensionais e fascinantes, donas dos próprios desejos e sofrimentos – e que carregam na pele e na alma as cicatrizes de suas vidas.

No centro dessa mulherada fascinante toda está Manuela (Cecília Roth em uma atuação madura e admirável), uma mulher assombrada pela trágica e precoce morte do filho adolescente, atropelado em plena noite de seu aniversário de 17 anos, quando tentava um autógrafo da atriz Huma Rojo (Marisa Paredes). Devastada pela dor, Manuela parte para Barcelona com o objetivo de encontrar o pai do rapaz e dar-lhe a triste notícia. Chegando lá, reencontra-se com uma amiga dos tempos de juventude, a prostituta transexual Agrado (a excelente Antonia San Juan, sempre a ponto de roubar as cenas). Através de Agrado, Manuela conhece Irmã Rosa (Penélope Cruz), uma jovem religiosa que dá assistência social nas ruas da cidade e que, para surpresa de todas, se descobre grávida justamente do ex-marido de Manuela, um conquistador que assumiu o nome de Lola ao passar a travestir-se. Fugindo do jugo da mãe burguesa (Rosa Maria Sardí), Rosa vai morar com Manuela justamente quando esta aceita o emprego como assistente pessoal de Huma Rojo, que chega à cidade acompanhada da amante Nina (Candela Pena), uma atriz viciada em drogas com quem vive uma relação tempestuosa.



A rede de relações criada por Almodóvar, nunca forçada e sim absolutamente orgânica graças ao elenco inspirado, empurra seu filme em uma ciranda de crescimento pessoal de todas as mulheres, que descobrem na amizade e na cumplicidade uma forma de seguir suas vidas, por mais complicadas que sejam ou estejam. Apoiado em uma fotografia belíssima do brasileiro Affonso Beato, que nunca trai as origens quentes do cineasta mas foge da cafonice proposital de seus primeiros filmes, o roteito não tem medo de criar um mundo surreal, onde o conquistador machista é também um travesti e uma religiosa aparentemente virgem está grávida e morrendo de AIDS. A trilha sonora de Alfredo Iglesias colabora com o clima melancólico e ao mesmo tempo otimista do filme, que apela para as emoções mais nobres do ser humano sem em nenhum momento buscar a lágrima fácil ou momentos clichês. Pode-se medir a genialidade e inteligência de um cineasta por sua capacidade de contar histórias fora do comum e com personagens quase à margem da realidade e ainda assim fazer com que seu público não fique a todo momento lembrando que está assistindo a apenas uma obra de ficção. Em "Tudo sobre minha mãe", o espanhol comprova - mais uma vez - seu imenso talento em mergulhar a plateia em um universo extremamente particular.

Repleto de um humor no limiar entre o irônico e o vulgar e citações cinematográficas - o título do filme é uma brincadeira com o nome original do clássico "A malvada" (All about Eve), que é assistido por Manuela e seu filho nas primeiras cenas, além de, em determinado momento da narrativa, a própria Manuela substituir Nina no palco, exatamente como acontece na obra estrela por Bette Davis - e teatrais, o filme ainda é dedicado às atrizes que já interpretaram atrizes, às atrizes que já interpretaram mães e à própria mãe do diretor. Uma delicadeza a mais em uma obra impecável, merecidamente premiada com o Oscar de melhor filme estrangeiro e a Palma de Ouro de melhor diretor do Festival de Cannes 1999. Sem dúvida, o melhor trabalho de Pedro Almodóvar, um cineasta acostumado a ser fenomenal.

quinta-feira

SHAKESPEARE APAIXONADO

SHAKESPEARE APAIXONADO (Shakespeare in love, 1998, Universal Pictures/Miramax Films, 123min) Direção: John Madden. Roteiro: Marc Norman, Tom Stoppard. Fotografia: Richard Greatrex. Montagem: David Gamble. Música: Stephen Warbeck. Figurino: Sandy Powell. Direção de arte/cenários: Martin Childs/Jill Quertier. Produção executiva: Julie Goldstein, Bob Weinstein. Produção: Donna Gigliotti, Marc Norman, David Parfitt, Harvey Weinstein, Edward Zwick. Elenco: Joseph Fiennes, Gwyneth Paltrow, Judi Dench, Colin Firth, Geoffrey Rush, Tom Wilkinson, Ben Affleck, Rupert Everett, Imelda Staunton, Simon Callow. Estreia: 11/12/98

13 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (John Madden), Atriz (Gwyneth Paltrow), Ator Coadjuvante (Geoffrey Rush), Atriz Coadjuvante (Judi Dench), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original/Comédia ou Musical, Figurino, Direção de arte/cenários, Maquiagem, Som
Vencedor de 7 Oscar: Melhor Filme, Atriz (Gwyneth Paltrow), Atriz Coadjuvante (Judi Dench), Roteiro Original, Trilha Sonora Original/Comédia ou Musical, Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme/Comédia ou Musical, Atriz/Comédia ou Musical (Gwyneth Paltrow), Roteiro

Em 1999, quando a comédia "Shakespeare apaixonado" levou o Oscar de Melhor Filme, os fãs de cinema que ainda não estavam acostumados com as idiossincrasias da Academia ficaram chocados e frustrados. Afinal de contas, perguntavam todos, como um filme tão leve e de interesse quase restrito - convenhamos que Shakespeare não é exatamente um nome que atraia audiências em massa para as salas de cinema - poderia ter sido eleito o melhor do ano, batendo obras tão fortes como "O resgate do soldado Ryan" e "Além da linha vermelha" (o supervalorizado filme de Terrence Malick com elenco grandioso e ritmo inexistente)? A maior surpresa, no entanto, advém de um simples fato: com exceção do prêmio de melhor atriz para Gwyneth Paltrow (que tem uma presença luminosa mas nunca espetacular), todas as 7 estatuetas que o filme de John Madden foram absolutamente merecidas. Sim, é uma comédia e é raro que o gênero seja reconhecido em cerimônias de premiação. Sim, seu diretor é correto mas nunca eficiente. E sim, talvez o drama de guerra de Steven Spielberg seja mais marcante. Mas a fictícia história de amor que envolve o maior dramaturgo da história com uma jovem prometida a outro homem é um romance engraçado e inteligente, capaz de estampar sorrisos no rosto do mais cético espectador.

Escrito por Marc Norman e Tom Stoppard, especialistas na obra do dramaturgo - o segundo inclusive é autor da peça teatral "Rosencrantz e Guildenrstern estão mortos" (cujos protagonistas são dois coadjuvantes de "Hamlet", e que virou filme estrelado por Gary Oldman e Tim Roth) - "Shakespeare apaixonado" está recheado de referências a trabalhos do bardo, de forma explícita ou nem tanto e aos costumes da época em que se passa, além de enxertar no texto personagens reais como o teatrólogo Christopher Marlowe (em uma rápida aparição do ótimo Rupert Everett). Apresentando também uma leve crítica à maneira machista como o teatro era tratado (mulheres eram proibidas de atuar, sendo os papéis femininos representados por adolescentes do sexo masculino), o filme brinca de maneira leve com os bastidores teatrais - talvez tenham vindo daí muitos dos votos, afinal boa parte da Academia é formada por atores - e especula a respeito da criação de um dos mais conhecidos textos de Shakespeare, "Romeu e Julieta".

A trama começa mostrando um jovem William Shakespeare (interpretado com graça e leveza por Joseph Fiennes) enfrentando um tremendo bloqueio criativo justamente quando é pressionado pelo aflito Philip Henslowe (Geoffrey Rush, indicado ao Oscar de coadjuvante), que precisa urgentemente de uma nova peça sob pena de sofrer nas mãos de seus credores. Sem saber que rumos dar à sua nova história, intitulada "Romeu e Ethel, a filha do pirata", o autor frequenta analistas, faz simpatias e busca dicas até mesmo de outros dramaturgos. A situação muda quando ele encontra uma musa inspiradora, a bela Viola de Lesseps (Gwyneth Paltrow), por quem se apaixona perdidamente sem saber que ela se disfarça de homem, sob o nome de Thomas Kent, para atuar em segredo em suas peças de teatro. Quando o engano é descoberto, eles iniciam um ardente romance, ameaçado pelo fato de a moça ser prometida ao nobre Lord Wessex (Colin Firth). Sua história de amor acaba influenciando sua obra, que passa de uma comédia ligeira - com um cão, como mandava o público - a uma intensa tragédia.


Inspirado na famosa dúvida sobre a musa para quem Shakespeare escreveu a maior parte de seus sonetos de amor, o filme de John Madden (que nunca chegou a manter o mesmo equilíbrio em seus trabalhos posteriores) se beneficia de um elenco impecável para atingir seu alto grau de entretenimento. Bastou oito minutos em cena para que Judi Dench tenha levado o Oscar de coadjuvante e Gwyneth Paltrow, se ofendeu os fãs de Meryl Streep, Fernanda Montenegro, Emily Watson e Cate Blanchett, não tem culpa nenhuma: seu trabalho é delicado, discreto e carismático, apesar de nunca ser brilhante ou inesquecível. Vale lembrar que, quando "Shakespeare apaixonado" começou a ser produzido, no início da década de 90, era Julia Roberts quem faria seu papel, ao lado de Daniel Day-Lewis. O ator preferiu ir fazer "Em nome do pai", o diretor Edward Zwick pulou fora do projeto e tudo ficou engavetado. Paltrow abocanhou o papel depois da recusa de Kate Winslet - e das prováveis candidatas Winona Ryder, Meg Ryan e Jodie Foster - e realizou um trabalho que lhe garantiu uma estatueta (mas não necessariamente um respeito unânime). Mas é bom também elogiar sua química com Joseph Fiennes, que, seguindo os passos do irmão mais velho, Ralph, esteve em dois filmes de grande visibilidade em 1998 - o outro foi "Elizabeth" - e conseguiu fazê-los de maneira convincente. Pena que o resto de sua carreira não manteve o mesmo nível.

Com uma trilha sonora deliciosa, uma edição extremamente eficaz e uma reconstituição de época impecável - além de um texto saboroso - "Shakespeare apaixonado" é uma pérola de criatividade e inteligência. Mereceu, sim, o Oscar de Melhor Filme.

O PREÇO DA TRAIÇÃO

  O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...