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terça-feira

FAMÍLIA HOLLAR


FAMÍLIA HOLLAR (The Hollars, 2016, Sony Pictures Classics, 88min) Direção: John Krasinski. Roteiro: Jim Strouse. Fotografia: Eric Alan Edwards. Montagem: Heather Persons. Música: Josh Ritter. Figurino: Caroline Eselin. Direção de arte/cenários: Daniel B. Clancy/Gretchen Gattuso. Produção executiva: Michael London, Mike Sablone, Jim Strouse, Janice Williams. Produção: John Krasinski, Ben Nearn, Tom Rice, Allyson Seeger. Elenco: John Krasinski, Richard Jenkins, Margo Martindale, Anna Kendrick, Shartlo Copley, Charlie Day, Randall Park, Josh Groban, Mary Kay Place, Ashley Dyke. Estreia: 24/01/2016 (Festival de Sundance)

Quando o terror "Um lugar perigoso" estreou, em 2018, muita gente se surpreendeu com o talento de seu diretor: conhecido por seu desempenho na série "The office" (2005-2013), onde interpretava o bom-moço Jim Halpert, o jovem John Krasinski mostrava, então, uma faceta que não era exatamente nova para os fãs de cinema independente, que o acompanhavam desde sua estreia como diretor de longas-metragens - com o elogiado mas pouco visto "Breves entrevistas com homens hediondos", de 2009. Sensível, discreto e dotado de um senso de humor caloroso e humano, Krasinski atingiu, em seu segundo filme, o equilíbrio perfeito entre drama, comédia e romance. "Família Hollar" pode não ser um exemplo de originalidade (e tampouco tenta subverter as regras do cinema mainstream), mas é uma deliciosa sessão de risadas e lágrimas, defendida por um elenco acima de qualquer crítica e amparada por um roteiro redondinho, do qual é impossível não se gostar.

Se o filme tem um personagem principal, este é John Hollar, interpretado pelo próprio diretor: às vésperas de tornar-se pai pela primeira vez e frustrado com uma carreira de desenhista de graphic novels que não deslancha, ele é chamado às pressas para voltar à sua cidade natal quando sua mãe, a agregadora Sally (Margo Martindale), é diagnosticada com um tumor cerebral. Chegando em casa, ele encontra uma família à beira do colapso: seu pai, Don (Richard Jenkins), está falido, e seu irmão, Ron (Shartlo Copley), não consegue superar o divórcio e vive em constante conflito com a ex-mulher a respeito das duas filhas pequenas. Além disso, o enfermeiro que cuida de sua mãe, Jason (Charlie Day), agora é casado com sua ex-namorada, Gwen (Mary Elizabeth Winstead) - que deixa bem claro a quem quiser ouvir que ainda não o esqueceu. Enquanto tenta lidar com toda a pressão que subitamente caiu em sua cabeça, John conta com o apoio da apaixonada Rebecca (Anna Kendrick) - com quem não consegue se comprometer completamente.

 

Alternando sequências de um humor ingênuo e momentos que desafiam o público a não derramar rios de lágrimas, "Família Hollar" se sustenta em dois pilares fundamentais para cativar a plateia: seu roteiro, enxuto e nitidamente influenciado pelo bom cinema de personagens europeu, e seus atores, excepcionais e em dias de grande inspiração. Sem medo de abraçar carinhosamente os clichês que inundam os dramas familiares - e explorando-os a seu favor -, o script do também produtor Jim Strouse apresenta personagens com os quais a identificação é fácil e imediata e conduz com sensibilidade a trajetória de pessoas cuja complexidade vai se revelando pouco a pouco, conforme as situações vão se apresentando, muitas vezes de forma inexorável e avassaladora. É um imenso acerto não dotar nenhum de seus protagonistas com almas irretocáveis - todos os membros da família já erraram e acertaram da mesma forma, o que faz deles seres humanos falíveis e que podem ser encontrados em qualquer lugar do mundo, em qualquer classe social, em qualquer raça. Tal universalidade é um gol de placa - especialmente quando seus representantes são interpretados por um elenco de aplaudir de pé.

Se John Krasinski não precisa se esforçar muito para convencer no papel de um rapaz que é o orgulho da família, não deixa de ser surpreendente ver o sul-africano Shartlo Copley (de "Distrito 9") no papel de um desajustado mas amoroso pai, capaz de desatinos lamentáveis para ficar ao lado das filhas - é difícil não se deixar conquistar por ele, apesar de suas atitudes nem sempre éticas. Anna Kendrick volta a viver uma personagem dócil, emprestando a sua Rebecca um senso de responsabilidade essencial para o clã do namorado. Mas é impossível não reconhecer que o maior show em "Família Hollar" vem de seus protagonistas veteranos: oferecendo uma generosa dose humanidade ao casal de patriarcas, Richard Jenkins e Margo Martindale brilham em cada cena, em cada sequência, em cada momento, fazendo uso de sua vasta experiência para transmitir à plateia um sentimento de amor incondicional que somente a maturidade consegue atingir. Vem deles as lágrimas mais sentidas, as risadas mais honestas e a sensação de calor humano que persiste muito tempos depois dos créditos finais. Se "Um lugar perigoso" mostrou Krasinski como um cineasta inteligente em utilizar-se de todas as ferramentas técnicas de seu ofício, em "Família Hollar" ele já havia comprovado que também não lhe falta coração e o olhar afetuoso a seus personagens. Bravíssimo

sexta-feira

UM CONTRATEMPO

UM CONTRATEMPO (Contratiempo, 2016, Atresmedia Cine/Think Studio/Nostromo Pictures, 106min) Direção e roteiro: Oriol Paulo. Fotografia: Xavi Giménez. Montagem: Jaume Martí. Música: Fernando Velázquez. Figurino: Miguel Cervera. Direção de arte/cenários: Balter Gallart/Marta Bazaco, Idoia Esteban. Produção executiva: Sofia Fábregas, Joaquim Guedes. Produção: Mercedes Gamero, Adrián Guerra, Sandra Hermida, Mikel Lejarza, Eneko Lizagarra, Núria Valls. Elenco: Mario Casas, Ana Wagner, José Coronado, Bárbara Lennie, Francesc Orella. Estreia: 23/9/16

Nem só de Pedro Almodóvar vive o cinema espanhol contemporâneo. Não tão festejado quanto o veterano diretor, mas com grande prestígio junto ao público, Oriol Paulo tem se firmado como um dos mais interessantes realizadores do país, com filmes de suspense que mexem com a cabeça do espectador graças a roteiros engenhosos e uma evidente segurança na direção. Seu primeiro longa-metragem, "O corpo", foi lançado em 2012 e de cara conquistou as plateias. Sua segunda incursão na cadeira de diretor só chegou aos cinemas quatro anos mais tarde, mas a demora valeu a espera: "Um contratempo", assim como seu filme de estreia, é um quebra-cabeças empolgante, que apresenta à audiência uma trama intrigante e que só se revela completamente nos minutos finais - e que, apesar de surpreendente, é verossímil o bastante para deixar em cada espectador um sorriso de satisfação e a vontade de compartilhar a experiência com o maior número possível de pessoas.

É essencial, para melhor tirar proveito de "Um contratempo", que se saiba o menos possível de sua trama. Basta saber que ela gira em torno de Adrián Doria (Mario Casas), um empresário em ascensão que está em vias de ser julgado pelo assassinato de sua amante, Laura Vidal (Bárbara Lennie), vítima de um ataque violento em um quarto de hotel, onde estava hospedada junto com ele. Segundo Adrián, ele também foi vítima do assassino, mas não presenciou o crime por estar desmaiado. Para seu azar, a polícia havia descoberto que a porta do quarto e suas janelas estavam fechados no momento do homicídio, o que coloca todas as suspeitas em Adrián, que jura terminantemente que é inocente. Para salvá-lo da cadeia, só mesmo um defensor de primeira linha, e é aí que surge Virginia Goodman (Ana Wagner), uma sofisticada e inteligentíssima advogada criminalista que, nas poucas horas que existem até o depoimento de uma testemunha-chave. Exigente e minuciosa, Virginia tenta arrancar a verdade de seu novo cliente, que mantém sua declaração de inocência. Ao narrar todo o caso para Virginia, porém, Adrián revela outras peças da história - como um acidente de carro que pode ser a chave do mistério.


De forma fascinante, Oriol Paulo constrói sua trama em uma estrutura das mais intrigantes. A cada novo elemento que surge diante do espectador, mais seu enredo parece fugir da simples questão que envolve a descoberta da verdade sobre a morte de Laura. O cinesta/roteirista brinca com a definição temporal e apresenta sua estória em diferentes linhas: enquanto no presente Adrián conta seus passos para sua nova advogada, o passado surge em flashbacks que aumentam as possibilidades de desfecho. Controlando o suspense com extrema habilidade, Paulo joga limpo, mostrando suas cartas ao pouco, mas sem surgir com uma reviravolta completamente absurda: a verdade está praticamente diante dos olhos do público - mas somente em seu final empolgante se revela completamente. Para isso, colabora a trilha sonora de Fernando Velázquez e a edição caprichada de Jaume Martí, que exploram todas as nuances da trama e dos personagens, vividos, por sua vez, por um elenco impecável, em que se destacam Mario Casas e Bárbara Lennie em um duelo verbal dos mais inteligentes. Casas, principalmente, entrega uma atuação que combina vulnerabilidade, empáfia, tensão e medo em uma perfeita equação; Lennie, por sua vez, tem controle total de sua personagem, em um trabalho meticuloso de corpo e voz que se avoluma até o final surpreendente.

"Um contratempo" - que ganhou um remake indiano em 2019 com o nome de "Badla" (vingança) - é um filme de suspense policial capaz de agradar a todos os tipos de público, mas certamente soa muito apaixonante aos fãs do gênero. Sem efeitos visuais, tiros ou explosões, é um filme que exige atenção do espectador, mas jamais tenta ser mais do que entretenimento de qualidade. Menos aclamado que Almodóvar - um cineasta já aclamado por um tipo de filme completamente distinto -, Oriol Paulo tem tudo para crescer ainda mais e conquistar seu lugar junto à crítica e às plateias. Seu estilo já demonstrado em filmes anteriores e posteriores a "Um contratempo" comprova, sem espaço para dúvidas, que talento e inteligência não lhe faltam. Naturalmente abraçando um gênero considerado menor - ou pelo menos não tão aplaudido quanto o drama -, ele assume sua paixão em contar histórias imprevisíveis com personagens realistas e falhos. É um diretor para se ficar de olho!

segunda-feira

FOME DE PODER

FOME DE PODER (The founder, 2016, The Weinstein Company, 115min) Direção: John Lee Hancock. Roteiro: Robert Siegel. Fotografia: John Schwartzman. Montagem: Robert Frazen. Música: Carter Burwell. Figurino: Daniel Orlandi. Direção de arte/cenários: Michael Corenblith/Susan Benjamin. Produção executiva: Glen Blasner, Holly Brown, Alison Cohen, David Glasser, David S. Greathouse, William D. Johnson, Christos V. Konstankapoulos, Karen Lunder, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Don Handfield, Jeremy Renner. Elenco: Michael Keaton, Laura Dern, John Carroll Lynch, Nick Offerman, Linda Cardellini, B.J. Novak, Patrick Wilson. Estreia: 24/11/16

Histórias de bastidores - como "A rede social", de David Fincher, sobre Mark Zuckerberg, criador do Facebook - sempre mostram que nem sempre a ética e a honestidade são os pilares para a construção de impérios. "Fome de poder", que narra a trajetória do homem que supostamente fundou a rede de fast food mais conhecida do mundo, o McDonald's, corrobora essa triste constatação. Dirigido pelo mesmo John Lee Hancock que contou histórias reais em "Um sonho possível" (2009), "Walt nos bastidores de 'Mary Poppins' (2014) e "Um homem entre gigantes" (2016), o filme, que tem o ator Jeremy Renner como um dos produtores, teve seus direitos de distribuição comprados pela Weinstein Company por sete milhões de dólares mas, mesmo lançado na temporada de possíveis indicados ao Oscar, passou em brancas nuvens pelos olhos tanto da Academia quanto do público, que não pareceu se interessar muito pelo assunto, apesar da presença de Michael Keaton no papel principal.

Continuando a boa fase inaugurada por sua performance indicada ao Oscar, no premiado "Birdman" (2014), Michael Keaton apresenta mais um trabalho bastante interessante - ainda que seu personagem não seja lá muito simpático - e, de certa forma, comanda o tom e o ritmo do filme de Hancock. Assumindo o papel que Tom Hanks (a primeira escolha dos produtores) recusou, o infame Beetlejuice parece estar se divertindo como nunca na pele do amoral Ray Kroc, um vendedor externo de equipamentos para lanchonetes que, cansado de fracassar em todas as suas tentativas de tornar-se independente financeiramente, descobre uma mina de ouro no restaurante de fast food de dois irmãos ambiciosos mas pouco dispostos a burlar seus ideais éticos. A trama começa em 1954, quando, durante uma viagem a negócios, Kroc conhece o McDonald's, de propriedade de Richard (Nick Offerman) e Maurice McDonald (John Carroll Lynch) e concebido pelos próprios irmãos, com diretrizes rígidas de qualidade - diferente de outras redes, o estabelecimento preza pela agilidade, bom atendimento e pela forma original de sua loja, localizada em San Bernardino, no estado da Califórnia. Intuindo que pode ganhar muito dinheiro explorando a franquia da marca, construindo lojas em outros estados do país, Kroc consegue convencer os McDonalds a lhe darem a autorização necessária para expandir o negócio. E é aí que as coisas saem do controle dos ingênuos empresários e mostram o verdadeiro caráter de seu novo sócio.


Pouco afeitos a dirigirem roteiros alheios, os irmãos Ethan e Joel Coen estiveram bem perto de assinar a direção de "Fome de poder", tamanho o seu entusiasmo pelo script de Robert Siegel, considerado um dos melhores inéditos de 2014. A dupla de diretores só não se manteve à frente do projeto porque já estavam trabalhando em "Ave, Cesar" - o que permitiu a John Lee Hancock ter em mãos um projeto que, segundo o próprio Siegel, era uma mistura entre "A rede social" (2010) e "Sangue negro"(2007) - elogiado drama de Paul Thomas Anderson sobre a ambição desmedida de um homem (vivido por um oscarizado Daniel Day-Lewis). Ao contrário de suas fontes de inspiração, porém, "Fome de poder" fica no meio termo entre a modernidade do primeiro (que deu um Oscar à Aaron Sorkin) e a densidade do segundo, baseado em um livro de Sinclair Lewis: consistente, mas sem maiores ousadias formais ou narrativas, a trama se desenvolve sem sobressaltos, mas deixa transparecer com facilidade sua carência em cativar o público por completo. Não há nada de errado no filme, mas ele tampouco consegue atingir todas as suas possibilidades - culpa talvez da direção burocrática de Hancock ou da personalidade francamente desagradável de seu protagonista.

Talvez a opção de colocar Tom Hanks no papel central fosse mais acertada do que a escolha de Michael Keaton: Hanks, com seu jeito de bom moço e carisma à toda prova tinha grandes chances de driblar as características menos simpáticas de Ray Kroc e torná-lo um personagem mais palatável ao gosto do público médio. Já Michael Keaton demonstra total intimidade com seu lado sombrio e pouco confiável - nem mesmo a esposa, vivida por Laura Dern, é poupada em sua trajetória. Do vendedor simpático e atencioso do começo do filme até o implacável empresário do final - quando finalmente mostra suas reais intenções de apossar-se da marca criada pelos irmãos McDonald - o trajeto de Kroc é ilustrado por Keaton com entusiasmo de principiante: apesar de não abrir mão de alguns de seus tiques mais conhecidos, o Batman de Tim Burton consegue se distanciar de seus personagens mais conhecidos e criar um anti-herói dos mais questionáveis, algo como o jornalista vivido por Kirk Douglas em "A montanha dos sete abutres" ou o polêmico editor da revista Hustler, interpretado por Woody Harrelson em "O povo contra Larry Flynt" (1996). São homens falhos em caráter, mas dotados de força de vontade e inteligência suficientes para encobrir seus defeitos mais óbvios. Mesmo sem ter conseguido empurrar "Fome de poder" aos tapetes vermelhos de sua temporada, Keaton é o grande destaque do filme e mantém o interesse do público até os minutos finais. Uma boa pedida para quem gosta de saber dos podres das grandes empresas.

terça-feira

CAPITÃO FANTÁSTICO

CAPITÃO FANTÁSTICO (Captain Fantastic, 2016, Bleeker Street/ShivHands Pictures, 118min) Direção e roteiro: Matt Ross. Fotografia: Stéphane Fontaine. Montagem: Joseph Krings. Música: Alex Somers. Figurino: Courtney Hoffman. Direção de arte/cenários: Russell Barnes/Tania Cupczack, Susan Magestro. Produção executiva: Declan Baldwin, Nimitt Mankad. Produção: Lynette Howell Taylor, Monica Levinson, Jamie Patricof, Shivani Rawat. Elenco: Viggo Mortensen, George McKay, Frank Langella, Ann Dowd, Kathryn Hahn, Samantha Isler, Annalise Basso, Nicholas Hamilton, Missy Pile, Steve Zahn. Estreia: 23/01/16 (Festival de Sundance)

Indicado ao Oscar de Melhor Ator (Viggo Mortensen)

Ben Cash cria seus seis filhos longe de qualquer influência de um mundo capitalista a que ele considera pernicioso e fascista. Educados pelos pais, que lhe indicam leituras, os ensinam a caçar e preparar o próprio alimento, a discutir qualquer assunto com segurança e desafiar o sistema sempre que possível, Cash mora com a família em um ônibus, no meio de uma floresta, e dentre suas excentricidades, está comemorar o dia de Noam Chomsky ao invés do Natal e, ocasionalmente, roubar comida dos supermercados como forma de protesto e autopreservação. A prole - dividida entre adolescentes e crianças - segue uma rígida rotina de exercícios físicos, atividades intelectuais e alimentação saudável, sobrevivendo à margem da sociedade de consumo condenada por seu patriarca, e sua união aponta para um núcleo familiar sadio e feliz. Porém, quando Leslie, a mulher de Ben, sofre uma séria crise nervosa e precisa voltar a conviver com os pais e a irmã, ele se vê obrigado a introduzir os meninos em um universo do qual ele sempre os quis proteger e afastar - e testemunha um inevitável choque cultural.

Em "Capitão Fantástico", segundo longa-metragem dirigido pelo também ator Matt Ross, o ousado Ben Cash é interpretado por Viggo Mortensen, em um trabalho inspiradíssimo que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de melhor ator. Na pele de um homem que busca incansavelmente uma sociedade mais justa ao orientar seus próprios filhos a seguirem uma conduta mais próxima da natureza e dos valores humanistas, Mortensen parece ter encontrado o papel de sua vida: é difícil vê-lo em cena e não acreditar em cada um de seus diálogos, de seus sentimentos, de suas atitudes. Em um mundo cada vez mais egocêntrico e avassaladoramente competitivo, seu personagem é um sopro de verdade e resistência, ainda que nem sempre seus métodos possam ser considerados louváveis. É irresistível pensar que Ben está coberto de razão em distanciar sua prole de um mundo doente - mas será que não é sua função de pai lhes dar o direito de escolha? E por que as crianças são educadas dentro de suas convicções, sem chance de discordância? E não é possível que a doença de sua mulher seja consequência de uma vida aparentemente saudável mas alternativa a ponto do segregacionismo e isolamento social? Mortensen dá vida à Ben com sensibilidade e maturidade, e o roteiro de Ross abre espaço para discussões bastante interessantes, e acerta ao jamais abandonar seu principal objetivo: entreter o público com uma trama delicada, emocionante e por vezes bastante engraçada.


Logo nas primeiras cenas, Matt Ross deixa claro que o dia-a-dia da família Cash não é dos mais tediosos: a disciplina que exige dos filhos não é apenas cultural, mas também extremamente focada em atividades físicas, praticadas por todos, desde o mais velho, Bodevan (George McKay), até os menores. Todos eles também são leitores vorazes - ficção, filosofia, história, sociologia e até sexualidade são assuntos banais nas discussões familiares - e questionadores do status quo. São capazes de discutir a Declaração de Direitos Universais e "Lolita", de Vladimir Nabokov, e rejeitam a alimentação equivocada dos norte-americanos. Ben os trata de igual para igual, sem tratá-los com condescendência ou superioridade. São crianças felizes, acima de tudo, mas seu universo particular sofre uma ruptura brusca quando seu avô, Jack (Frank Langella), resolve entrar na Justiça pela guarda de todos: segundo ele, as crianças são prejudicadas por sua falta de convívio com pessoas de sua idade e privadas de uma educação convencional que lhes será útil no futuro. A situação fica ainda mais delicada quando Bodevan revela ao pai seu desejo de cursar uma universidade - desejo compartilhado inclusive por sua mãe.

Não há cenas desnecessárias em "Capitão Fantástico": seu roteiro é preciso e eficaz é construído exemplarmente a modo de apresentar à plateia seus personagens, seus conflitos e suas questões sem que nada pareça aleatório ou soe forçado. O elenco infantil tira de letra o desafio de representar membros de uma família que tem ecos do movimento hippie e se desenha como uma utopia moderna, e Viggo Mortensen aparece como o maestro de uma sinfonia comovente e, em certos momentos, bastante divertida - o embate entre a cultura natural e intelectual dos Cash com a sociedade capitalista e ególatra do resto dos familiares tem cenas preciosas. Matt Ross não busca a emoção rasteira ou a discussão maniqueísta: seus personagens são complexos e falíveis, e embora Ben seja o herói da estória, ele tampouco está absolutamente correto e acima de críticas. O diretor equilibra com presteza todos os elementos de sua trama, constrói uma atmosfera sólida e crível, e consegue, com inteligência, criar um desfecho que torna tudo ainda mais humano e honesto - mas que pode não agradar aos mais radicais. Elogiadíssimo pela crítica, principalmente pelo desempenho de Mortensen, "Capitão Fantástico" é, sem favores, um dos melhores filmes de sua temporada, e uma pérola a ser constantemente revisitada como um presente para a alma.

CAFÉ SOCIETY

CAFÉ SOCIETY (Café Society, 2016, Gravier Productions/Perdido Productions/FilmNation Entertainment, 96min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Vittorio Storaro. Montagem: Alisa Lepselter. Figurino: Suzy Benzinger. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Regina Graves, Nancy Haigh. Produção executiva: Ronald L. Chez, Adam B. Stern, Marc I. Stern. Produção: Letty Aronson, Stephen Tenenbaum, Edward Walson. Elenco: Jesse Eisenberg, Kristen Stewart, Steve Carrell, Corey Stoll, Blake Lively, Parker Posey, Sheryl Lee, Jeannie Berlin, Ken Stott. Estreia: 11/5/16 (Festival de Cannes)

Em sua longa carreira como cineasta, Woody Allen pode ter seus filmes divididos em três grupos: as obras-primas (onde se inserem "Noivo neurótico, noiva nervosa", "Manhattan", "Crimes e pecados", "A rosa púrpura do Cairo", "Hannah e suas irmãs", "Match point" e "Meia-noite em Paris"), os pouco inspirados (onde cabem "O escorpião de jade", "Para Roma, com amor" e "Magia ao luar") e os simpáticos mas pouco memoráveis (caso de "Misterioso assassinato em Manhattan", "Igual a tudo na vida" e "Scoop: o grande furo"). "Café Society", que abriu o Festival de Cannes 2016 faz parte do último grupo: é uma comédia dramática sofisticada e inteligente como se poderia esperar do diretor, mas lhe falta aquele lance de genialidade que destaca suas melhores obras de tudo que é produzido em Hollywood. Filme mais caro de sua carreira (o orçamento inicial de 18 milhões de dólares inchou até inacreditáveis - para seus padrões - 30 milhões ao final da produção), ele também marca o primeiro trabalho de Allen depois da morte de seu coprodutor executivo Jack Rollins - seu parceiro artístico há 40 anos - e sua primeira colaboração com o festejado diretor de fotografia Vittorio Storaro. Além disso, retoma um dos temas mais caros ao veterano realizador (os bastidores da indústria cinematográfica, ainda que apenas como pano de fundo) e é um de seus filmes mas simples em termos de narrativa, além de ser um de seus raros filmes com protagonistas mais jovens.

Ao contrário da maioria de seus trabalhos anteriores, em que os personagens principais são normalmente intelectuais de meia-idade atravessando crises existenciais enquanto exorcizam seus dilemas nas melhores paisagens de Nova York (ou, no caso de seus filmes mais recentes, pelas cidades mais belas da Europa), em "Café Society" grande parte da trama se passa na Los Angeles dos anos 1930 e acompanha um jovem de vinte e poucos anos em sua tentativa de assumir uma vida adulta diante do glamour oferecido por seu tio milionário e do caminho da contravenção que vislumbra ao lado do irmão mais velho. Retornando o recurso da narração em off que tanto funcionou em "A era do rádio" (87), Allen apresenta o público ao desajeitado e ingênuo Bobby Dorfman (Jesse Eisenberg em seu segundo filme com o cineasta), que deixa o Brooklyn de seus pais e chega à capital do cinema para encontrar seu tio, Phil Stern (Steve Carell), um agente de astros de Hollywood a quem mal conhece. Stern lhe emprega como seu assistente e logo Bobby se vê frequentando festas à beira da piscina e coquetéis frequentados por grandes produtores. Deslocado, ele se apaixona pela secretária do tio, Vonnie (Kristen Stewart), que não esconde dele o fato de ter um relacionamento com um homem casado. Algum tempo depois, já de volta à sua cidade natal, ele se torna sócio do irmão mais velho, Ben (Corey Stoll) - que tem sérios problemas com os gângsters do submundo - em uma boate, e se casa com a bela Veronica (Blake Lively). Seu amor por Vonnie, porém, não o deixa ser completamente realizado e feliz.


O maior problema de "Café Society" nem é sua trama tênue - muitos grandes filmes de Allen se sustentam em enredos aparentemente banais -, mas sim a forma como o cineasta parece não saber exatamente como conectar os dois atos de seu roteiro. A impressão que se tem é de que são duas ideias distintas unidas por uma linha frágil demais para justificar um longa-metragem, especialmente quando personagens cruciais da primeira metade praticamente desaparecem de cena: é o caso de Steve Carell, cujo Phil Stern parece nunca atingir todo o seu potencial mesmo quando se revela muito mais importante do que parecia em um primeiro olhar. O mesmo pode ser dito do ótimo Corey Stoll, que brilhou como Hemingway em "Meia-noite em Paris" (2011) e aqui se vê tentando dar destaque a um personagem que é mais citado do que mostrado, apesar de ser uma das bússolas morais (ou amorais) do protagonista. Não bastasse isso, Jesse Eisenberg parece mais deslocado que seu Bobby Dorfman - como muitas vezes acontece na filmografia de Woody Allen, o ator transmite a sensação de estar tentanto emular o estilo do diretor, com seu gestual desajeitado e modo de falar titubeante. Para surpresa de todos, quem se sai melhor é Kristen Stewart, que consegue romper o estigma "Crepúsculo" e entrega uma atuação sensível e convincente.

Visualmente atraente, com a fotografia deslumbrante de Vittorio Storaro enchendo os olhos do espectador e uma direção de arte caprichadíssima, "Café Society" se ressente de um roteiro mais coeso e de personagens mais empáticos do que aqueles que apresenta. Bobby Dorfman, com sua falta de traquejo social e uma interpretação quase preguiçosa de Jesse Eisenberg (repetindo tiques de seu Mark Zuckerberg, de "A rede social", filme que lhe rendeu uma indicação ao Oscar), não cativa a plateia e acaba abrindo espaço para personagens coadjuvantes muito mais interessantes, como sua irmã - cuja rixa com um vizinho acelera o destino da família - e a socialite vivida por Parker Posey, que infelizmente é quase totalmente posta de lado em detrimento da história principal. São pequenos defeitos estruturais, mas que comprometem o resultado final e fazem do filme um produto apenas regular, muito longe do brilhantismo dos melhores momentos da carreira de Woody Allen - mas também acima de seus maiores tropeços. Um entretenimento de classe, mas apenas isso.

sábado

PASTORAL AMERICANA

PASTORAL AMERICANA (American pastoral, 2015, Lakeshore Entertainment, 108min) Direção: Ewan McGregor. Roteiro: John Romano, romance de Philip Roth. Fotografia: Martin Ruhe. Montagem: Melissa Kent. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Lindsay Ann McKay. Direção de arte/cenários: Daniel B. Clancy/Jason Shumaker, Julie Smith. Produção executiva: Qiuyun Long, Terry A. McKay, Eric Reid. Produção: Andre Lamal, Gary Lucchesi, Tom Rosenberg. Elenco: Ewan McGregor, Jennifer Connelly, Dakota Fanning, Peter Riegert, Rupert Evans, Uzo Aduba, Molly Parker, Samantha Mathis, David Strathairn. Estreia: 09/9/16 (Festival de Toronto)

Não deixa de ser estranho que o filme de estreia de Ewan McGregor na direção de longa-metragens seja algo tão denso quanto "Pastoral americana": revelado por Danny Boyle em produções celebradas principalmente por seu senso de humor inconoclasta, como "Cova rasa" e "Trainspotting: sem limites", McGregor jamais abandonou suas raízes independentes, mesmo quando se jogava sem medo em superproduções hollywoodianas, como a saga "Star Wars" ou o musical "Moulin Rouge: o amor em vermelho" (2001), seus maiores sucessos comerciais. Mas sua escolha em contar uma história tão profundamente arraigada aos conflitos do american way of life, adaptada de um romance do consagrado Philip Roth, vencedor do Pulitzer em 1998, demonstra uma sensibilidade em relação ao âmago do núcleo tradicional da família americana que nem todo cineasta ianque consegue ter. Com uma narrativa clássica e discreta, McGregor tem a inteligência de não querer uma direção que se sobressaia à trama - e acaba entregando um potente drama, escorado em seus atores e em um roteiro que não trai o legado de Roth em sua investigação sobre a personalidade humana.

Na verdade, McGregor não era a primeira escolha para o filme - nem como diretor e nem como ator. Quando o projeto original foi cancelado, em 2004, o diretor escolhido era Philip Noyce, em um momento feliz de sua carreira, depois do sucesso de seu "O americano tranquilo" (2002), baseado no livro de Graham Greene, e que havia rendido uma indicação ao Oscar de melhor ator para Michael Caine. Nessa versão, o casal central da história seria um casal também da vida real, Paul Bettany e Jennifer Connelly, com Evan Rachel Wood no papel da filha rebelde (uma especialidade da atriz, revelada no excelente "Aos treze", de 2003). Anos haviam se passado no desenvolvimento da ideia de realizar o filme quando o cancelamento acabou, e somente uma década depois, ele voltaria a ser considerado - dessa vez já com McGregor como diretor e no papel principal masculino. Jennifer Connelly continuou no elenco mesmo sem o marido como colega de cena, e a talentosa Dakota Fanning foi chamada para viver sua problemática filha, Merry. Com um trio talentoso como esse - mais a música de Alexandre Desplat e a participação especial de David Straithairn - não tinha mesmo como dar errado. E, apesar do pouco caso com que foi recebido nas bilheterias e até mesmo por parte da crítica, não deu mesmo. "Pastoral americana" é um drama forte, visceral e relevante, que aponta para McGregor uma nova e surpreendente carreira.


De forma contundente e melancólica, "Pastoral americana" destrói a ilusão de uma família perfeita - quase como Sam Mendes fez em "Foi apenas um sonho" (2008), também baseado em um livro, escrito por Sam Yates. McGregor interpreta Seymour Levov, mais conhecido como Swede, um americano judeu que é o retrato do sucesso: atleta cobiçado na universidade, casou-se com a bela Dawn (Jennifer Connelly), uma rainha de beleza igualmente desejada, e, com a chegada da vida adulta, assumiu o comando da bem-sucedida fábrica de luvas criada pelo pai. Dono de uma bela casa em Nova Jersey, profissionalmente satisfeito, com uma esposa exemplar e uma bela e loura filha (cujo único problema é a gagueira), Swede parece só ter motivos para agradecer - até que sua adorável filha passa a tornar-se irreconhecível a seus olhos: politicamente afetada pelos problemas sociais ao seu redor, Merry simplesmente desaparece depois de ser acusada de plantar uma bomba em uma propriedade privada. Desnorteados, seus pais iniciam uma busca não apenas por seu paradeiro, mas também por uma forma de reencaixá-la em sua vida pacífica e, até então, quase banal. Dawn embarca em um processo de negação que a leva às raias da loucura, enquanto Swede tenta manter o equilíbrio emocional para não permitir o desmoronamento absoluto de seu universo perfeito.

McGregor acerta na direção de atores, o que não é pouca coisa quando se trata de um estreante. Ao mesmo tempo em que consegue manter-se discreto no papel de Swede - que é, ao mesmo tempo um observador do redemoinho à sua volta e um ativo participante da tragédia que o envolve -, o ator extrai de suas colegas de cena performances carregadas de sentimento e dor. Jennifer Connelly, linda como nunca, sai-se muito bem tanto na juventude quanto na maturidade, entregando alguns momentos de melancolia explícita de cortar o coração; e Dakota Fanning - revelada ainda criança em "Uma lição de amor" (2001), onde fazia a filha de Sean Penn - comprova que seu talento não era questão de sorte de principiante: no difícil papel da rebelde e problemática Merry, a jovem se encarrega de dar luz a ideias e princípios que batem de frente com o pensamento político médio dos EUA, e oferece um contraponto radical à lucidez cega de sua família. Os três estão sensacionais - e inundam o filme de sentimento, dor e amor incondicional. Um belíssimo trabalho de estreia de Ewan McGregor - e que seja o primeiro de muitos.

terça-feira

LADY MACBETH

LADY MACBETH (Lady Macbeth, 2016, BBC Films, 89min) Direção: William Oldroyd. Roteiro: Alice Birch, romance de Nikolai Leskov. Fotografia: Ari Wegner. Montagem: Nick Emerson. Música: Dan Jones. Figurino: Holly Waddington. Direção de arte/cenários: Jacqueline Abrahms/Thalia Ecclestone. Produção executiva: Lizzie Francke, Christopher Granier-Deferre, Steve Jenkins, Christopher Moll, Jim Reeve. Produção: Fodhla Cronin O'Reilly. Elenco: Florence Pugh, Cosmo Jarvis, Paul Hinton, Naomi Ackie, Christophe Fairbanks. Estreia: 10/9/16 (Festival de Toronto)

Antes de mais nada, é preciso deixar claro que, apesar do título, o filme "Lady Macbeth", dirigido pelo britânico William Oldroyd, não é uma adaptação da famosa tragédia de William Shakespeare, mas sim de uma novela escrita pelo russo Nikolai Leskov e publicada em 1865. Apenas inspirada na personagem clássica do teatro, a trama de Leskov - chamada "Lady Macbeth do Distrito de Mtsensk" - é uma crítica mordaz à hipocrisia e ao papel submisso da mulher na Europa do século XIX e, já filmada uma vez em 1962 pelo cineasta polonês Andrzej Wajda, encontrou em Florence Pugh a protagonista ideal. Com apenas 20 anos de idade na ocasião do lançamento do filme, Pugh está simplesmente avassaladora no papel principal, uma mulher à frente de seu tempo, capaz de manipular os homens a seu redor para praticar os mais cruéis atos de violência em nome de um sentimento que apenas ela é capaz de compreender completamente. Essa semelhança com a personagem de Shakespeare - que também servia como incentivo e má influência ao marido - é o que transforma a protagonista em uma das mais complexas e fascinantes, mesmo que ela nem precise falar muito para provocar tempestades à sua volta.

O roteiro de Alice Birch é econômico no uso de diálogos, assim como a trilha sonora de Dan Jones, sutil mas pontual, como um comentário discreto a respeito das imagens que se desenrolam na tela - belíssimas paisagens inglesas captadas pela câmera de Ari Wegner e que marcam a passagem de tempo e o estado de espírito de seus personagens. Com um elenco de rostos desconhecidos do grande público a seu favor, o diretor conduz o espectador a uma trama de paixão, adultério, mentiras e intrigas que, além de tudo, discute a situação feminina na sociedade da época: longe da submissão que se esperava de uma mulher na Inglaterra do século XIX (cenário do filme), a protagonista, Katherine, não aceita submeter seu futuro e sua vida a decisões de homens que considera inferiores intelectual e emocionalmente. Nem sempre suas atitudes são exatamente corretas (quase nunca, pode-se dizer), mas não deixa de ser empolgante ver uma mulher forte e dominadora sendo responsável pelos rumos da própria vida (e das alheias, por consequência). O mais surpreendente, no caso, é que seja a aparentemente frágil Florence Pugh o corpo e a alma por trás de todas as desgraças da trama.


Katherine é uma jovem de 17 anos vendida por seu pai para um casamento de puro interesse na Inglaterra rural dos anos 1860. Seu marido, Alexander (Paul Hilton), é muito mais velho que ela, e seu sogro, Boris (Christopher Fairbank), é um homem agressivo e frio, que a trata como propriedade. Além disso, Katherine nota que não há nenhum interesse de Alexander em consumar o casamento, o que a deixa ainda mais frustrada e solitária. Uma viagem dos dois homens da casa acaba por permitir à recém-casada a possibilidade de explorar o mundo fora das paredes da fazenda - e é assim que ela acaba tendo a oportunidade de conhecer Sebastian (Cosmo Jarvis), um dos novos empregados do marido. Imediatamente surge uma atração física incontrolável entre os dois - que não demoram em se envolver em um tórrido caso de amor. Seu romance é percebido por Anna (Naomi Ackie), sua aia, e chega aos ouvidos de seu sogro. Começa, então, uma violenta história de assassinatos, que não poupa ninguém que atravessa o caminho dos amantes - sempre orientados pela mente calculista de Katherine.

Revelar os desdobramentos da trama seria privar o espectador de experimentar uma viagem imprevisível e chocante à mente de uma psicopata atípica - que acredita cometer atrocidades em nome de um amor avassalador. Florence Pugh se entrega com paixão total à sua personagem - que gradualmente vai se transformando de adolescente meiga em mulher fria e à beira da vulgaridade. Suas cenas com Cosmo Jarvis são quentes e filmadas com extremo bom gosto, mesmo quando sua relação não parece exatamente romântica e sim puramente carnal. Polêmicas à parte - o primeiro encontro sexual entre os protagonistas pode incomodar aos politicamente corretos -, o filme de Oldroyd é de uma inteligência rara, por permitir que seus personagens ajam livres de qualquer ética e construam um suspense que vai se avolumando até o desfecho poderoso e melancólico. Uma pequena obra-prima que merece ser descoberta!

segunda-feira

BATMAN VS SUPERMAN: A ORIGEM DA JUSTIÇA

BATMAN VS SUPERMAN: A ORIGEM DA JUSTIÇA (Batman v Superman: The Dawn of Justice, 2016, Warner Bros, 151min) Direção: Zack Snyder. Roteiro: Chris Terrio, David S. Goyer, personagens criados por Bob Kane e Bill Finger (Batman), Jerry Siegel e Joe Shuster (Superman) e William Moulton Marston (Mulher Maravilha). Fotografia: Larry Fong. Montagem: David Brenner. Música: Junkie XL, Hans Zimmer. Figurino: Michael Wilkinson. Direção de arte/cenários: Patrick Tatopoulos/Carolyn "Cal" Loucks. Produção executiva: Wesley Coller, David S. Goyer, Geoff Johns, Benjamin Melniker, Steven Mnuchin, Christopher Nolan, Emma Thomas, Michael E. Uslan. Produção: Charles Roven, Deborah Snyder. Elenco: Ben Affleck, Henry Cavill, Amy Adams, Laurence Fishburne, Jesse Eisenberg, Gal Gadot, Diane Lane, Kevin Costner, Holly Hunter, Jeremy Irons, Michael Shannon, Jeffrey Dean Morgan. Estreia: 20/3/16

Primeiro foi a polêmica em torno do nome de Ben Affleck para viver o Cavaleiro das Trevas, praticamente imortalizado por Christian Bale na trilogia dirigida por Christopher Nolan entre 2006 e 2012. Depois, as críticas generalizadas a "O Homem de Aço" (2013), que recomeçava a apresentar o Superman às novas gerações de cinéfilos - depois do inesquecível Christopher Reeve e do pouco memorável Brandon Routh. Por fim, havia a dúvida se Zack Snyder (cujo currículo incluía o sucesso "300", de 2008, e o fracasso "Sucker punch", de 2010) seria capaz de apagar a má impressão de seu primeiro filme estrelado pelo herói de Krypton - criticado principalmente pelo excesso de violência e efeitos visuais supérfluos. Com um orçamento generoso de aproximados 250 milhões de dólares, a volta do britânico Henry Cavill à pele de Clark Kent e uma trama que daria origem ao esperado filme sobre a Liga da Justiça (daí o subtítulo "Dawn of justice"), "Batman vs Superman: a origem da justiça" chegou aos cinemas cercado de expectativas e medos. Como era de se esperar, dividiu opiniões: puristas e fãs dos quadrinhos surgiram com listas intermináveis de reclamações; a imprensa não exatamente ficou entusiasmada, mas o público não deixou de correr às salas de exibição. Com uma renda mundial de quase 900 milhões de dólares, o filme de Snyder conseguiu o principal: deixou felizes os executivos da Warner, preparou terreno para um próximo capítulo ainda mais explosivo e, para alegria dos espectadores, apresentou em primeira mão sua arma mais poderosa e esperada, a Mulher Maravilha do século XXI, interpretada pela israelense Gal Gadot.

Protagonista de seu próprio filme de origem, que viria a ser lançado em 2017, a Mulher Maravilha é apenas uma pequena (mas crucial) peça no roteiro escrito por David S. Goyer e Chris Terrio (Oscar por "Argo") a partir de uma ideia surgida em 2001, quando o roteirista Andrew Kevin Walker (de "Seven: os sete crimes capitais") propôs um filme em que o Batman, enfurecido pela perda de sua noiva nas mãos do Coringa, parte em busca de vingança e se vê impedido pelo Superman. Diz-se que, na época, o script ficaria a cargo de Akiva Goldsman (Oscar por "Uma mente brilhante"), a direção seria do alemão Wolfgang Petersen e os protagonistas seriam George Clooney (voltando ao papel do Homem Morcego) e John Travolta. Felizmente a ideia acabou não vingando nos termos imaginados por Walker, e depois de mais de quinze anos no limbo, o que parecia meio absurdo começou a tomar forma. Com sérias mudanças, é verdade, mas com seu principal trunfo intacto: o encontro entre dois dos maiores super heróis dos quadrinhos (e do cinema) em uma produção caprichada, repleta de astros e, felizmente, bem melhor do que o público médio poderia esperar (apesar das ressalvas da crítica especializada e dos leitores mais radicais).


Começando dois anos depois dos eventos de "O Homem de Aço" - ou seja, após o show de destruição comandado pelo Superman em sua luta contra o General Zod (Michael Shannon) -, o filme de Snyder mostra uma população dividida entre acreditar nas boas intenções do misterioso alienígena de Krypton e temer por ainda mais tragédias na Terra. Mesmo defendido ferrenhamente pela jornalista Lois Lane (Amy Adams), o Superman é constantemente atacado pela mídia e pela congressista June Finch (Holly Hunter), que o intima a comparecer a uma sessão no Capitólio para defender-se diante da população. A explosão de uma bomba - plantada pelo milionário Lex Luthor (Jesse Eisenberg) - acaba por dar ainda mais credibilidade a quem o considera uma ameaça: acusado de ser o responsável pelo atentado, Superman abandona o planeta. Acreditando que tem o dever de proteger a humanidade dos poderes daquele que considera uma temeridade à população, Bruce Wayne assume a responsabilidade de, como Batman, destruí-lo sem compaixão. De certa forma manipulado por Luthor, ele bate de frente com Superman - mas não demora para que ambos, auxiliados pela corajosa Mulher Maravilha, se unam diante de um perigo ainda maior, representado por um monstro criado por Lex Luthor.

A princípio, parece que a trama de "Batman vs Superman" é um tanto forçada, criada mais pela necessidade de unir seus protagonistas do que exatamente contar uma história interessante ou plausível. No entanto, é surpreendente como as peças se encaixam, de forma a prender a atenção do público e construir uma base razoavelmente verossímil para o explosivo conflito final - esse sim, mais uma vez, exagerado e sem muita criatividade. Por incrível que pareça, Snyder se sai melhor quando estabelece o clima e as causas de todo o desfecho do que quando finalmente põe as mãos no clímax. Para isso, claro, ele conta com um elenco coadjuvante de nomes como Holly Hunter, Jeremy Irons e Laurence Fishburne, com o poder de fogo de seus personagens e com a produção caprichada - da fotografia de Larry Fong à trilha sonora, dividida entre Hans Zimmer e Junkie XL, tudo funciona muito bem, sem maiores percalços. Infelizmente nem tudo são flores, e a luta final - que finalmente coloca os heróis todos ao mesmo lado - é desnecessariamente longa, minando a força de um final que poderia ter sido ainda mais poderoso. Sem muito o que fazer em cena, Amy Adams e Diane Lane (como Martha, a mãe adotiva de Clark Kent), apenas enfeitam o filme com seu talento e beleza, e Jesse Eisenberg talvez esteja a um passo do overacting, mas o que era motivo de mais questionamentos antes da estreia acabou por ser um ponto positivo: emprestando prestígio a uma produção de objetivos claramente comerciais, o premiado Ben Affleck não compromete como Batman, mesmo estando à sombra de Christian Bale e assumindo as rédeas de um dos mais icônicos personagens da cultura popular mundial. Sua criticada escalação é, por fim, uma das maiores qualidades de um filme que, mesmo não sendo inesquecível ou artisticamente potente, serve muito bem como entretenimento. É só deixar o mau-humor de lado e embarcar na viagem!

sábado

JOVENS, LOUCOS E MAIS REBELDES

JOVENS, LOUCOS E MAIS REBELDES (Everybody wants some!!, 2016, Paramount Pictures, 117min) Direção e roteiro: Richard Linklater. Fotografia: Shane F. Kelly. Montagem: Sandra Adair. Figurino: Kari Perkins. Direção de arte/cenários: Bruce Curtis/Gabriella Villarreal. Produção executiva: Sean Daniel, Stephen Feder, John Sloss. Produção: Megan Ellison, Richard Linklater, Ginger Sledge. Elenco: Blake Jenner, Juston Street, Ryan Guzman, Tyler Hoechlin, Wyatt Russell, Glenn Powell, Temple Baker, J. Quinton Johson, Will Britain. Estreia: 11/3/16

Depois que "Boyhood: da infância à juventude" (2015) foi unanimemente (e merecidamente) incensado como um dos melhores filmes de sua carreira, era esperado que Richard Linklater surgisse, na sequência, com uma obra igualmente poderosa. Para surpresa de muitos, porém, o cineasta resolveu voltar os olhos ao passado e, com toda a nostalgia possível, lançou o despretensioso "Jovens, loucos e mais rebeldes" - uma continuação informal de "Jovens, loucos e rebeldes", lançado em 2003 com um então desconhecido Matthew McConaughey no elenco. Ao centrar sua trama na chegada de um jovem na universidade, no entanto, Linklater parece mesmo disposto a seguir também a narrativa de seu premiado filme anterior - que acabava justamente onde começa sua nova história. Fracasso de bilheteria nos EUA (rendeu pouco mais de 3 milhões de dólares, contra um custo de estimados 10 milhões), a comédia juvenil do diretor é prejudicada por sua temática um tanto restrita, mas não deixa de ser agradável o bastante para justificar uma sessão - ao menos não apela para a escatologia explícita ou a vulgaridade que tanto frequenta o gênero.

Inteligente e sempre bom em diálogos, Richard Linklater oferece a seu público uma trama tênue e frágil - mas que serve de base para uma bem-humorada visita ao início dos anos 80, ainda com resquícios da década anterior e não contaminados pelo conservadorismo dos períodos vindouros. Com uma trilha sonora impecável - que começa com "My sharona", do Knack e apresenta nomes indispensáveis da época, como Blondie, Dire Straits, Patti Smith e Van Halen (cujo hit "Everybody wants some!!" dá título ao filme) -, "Jovens, loucos e mais rebeldes" é uma celebração da juventude, da irresponsabilidade que antecede a maturidade e da amizade masculina. Não à toa, apenas uma personagem feminina tem destaque no roteiro - mas apesar de parecer apenas o interesse romântico do protagonista, é a voz da razão e do equilíbrio em um grupo de pós-adolescentes movidos a hormônios. Ao contrário das garotas seminuas que serviam apenas de objeto de lascívia em filmes como "Porky's" (83), Beverly (Zoey Deutch) serve como um oásis de sensatez - a ponto de conquistar não apenas o desejo, mas o amor do ainda ingênuo Jake Bradford.


Interpretado por Blake Jenner (da série "Glee"), Jake é uma espécie de alter-ego de Linklater - e uma versão menos tímida de Mason, o protagonista de "Boyhood": quando o filme começa (precisamente no dia 28 de agosto de 1980), Jake está chegando ao campus universitário onde passará os próximos anos, graças a uma bolsa de estudos conseguida através de seu talento como jogador de beisebol. Enquanto as aulas não começam, ele aproveita para aproximar-se de seus colegas, todos morando na mesma casa, reservada a atletas como ele. É nessa propriedade que ele trava conhecimento com um grupo bizarro, barulhento e paradoxalmente leal, que o irá acompanhar em suas primeiras aventuras no mundo dos adultos. Cada um dono de uma personalidade que o destaca dos outros estudantes, os novos amigos de Jake formam uma espécie de panorama da jovem masculinidade texana da década de 80, com seus exageros, idiossincrasias e códigos de honra. Linklater não se preocupa em aprofundar nenhum de seus personagens, optando por interligar uma série de anedotas com uma trilha sonora popular, atores desconhecidos que vivem de forma intensa a trama e um tom nostálgico contagiante.

Logicamente o público que esperava de Richard Linklater algo mais grandioso vai se decepcionar com a quase informalidade de "Jovens, loucos e mais rebeldes". Porém, no âmago do filme, há a sinceridade de sempre do cineasta, pródigo em diálogos que mesclam inteligência e coloquialismo e sempre capaz de fazer rir e pensar - mesmo que o espectador não perceba isso logo de cara, soterrado de uma aparente futilidade. É inegável que "Jovens, loucos e rebeldes" é um filme menor do diretor, mas nem mesmo sua falta de pretensão chega a incomodar a quem procura um entretenimento rápido e inofensivo. Nem todo cineasta precisa realizar obras-primas atemporais o tempo todo - e Linklater já tem no currículo a trilogia "Antes do amanhecer" para garantir seu lugar no olimpo dos grandes e "Boyhood" para comprovar seu talento e sua sensibilidade como realizador. Uma brincadeira como esse seu trabalho menos aplaudido será sempre bem-vinda.

sexta-feira

INVOCAÇÃO DO MAL 2

INVOCAÇÃO DO MAL 2 (The conjuring, 2016, New Line Cinema, 134min) Direção: James Wan. Roteiro: Chad Hayes, Carey W. Hayes, James Wan, David Leslie Johnson, estória de Chad Hayes, Carey W. Hayes, James Wan, personagens criados por Chad Hayes, Carey W. Hayes. Fotografia: Don Burgess. Montagem: Kirk Morri. Música: Joseph Bishara. Figurino: Kristin M. Burke. Direção de arte/cenários: Julie Berghoff/Liz Griffiths, Sophie Neudorfer. Produção executiva: Richard Brener, Toby Emmerich, Walter Hamada, Steven Mnuchin, Dave Neustadter. Produção: Rob Cowan, Peter Safran, James Wan. Elenco: Vera Farmiga, Patrick Wilson, Frances O'Connor, Madison Wolfe, Lauren Sposito, Benjamin Haigh, Patrick McCauley. Estreia: 13/5/16

Não foi surpresa para ninguém quando surgiu o anúncio de uma sequência para "Invocação do mal", afinal de contas o filme de James Wan, que custou meros 20 milhões de dólares, tornou-se um dos maiores sucessos de bilheteria de 2013, rendendo mais de 300 milhões pelo mundo todo e devolvendo ao gênero um respeito há muito perdido e poucas vezes retomado pela crítica e pelo público. Com um orçamento duplicado e as expectativas nas alturas, "Invocação do mal 2" repetiu o êxito do primeiro filme ao manter a receita que havia dado tão certo: um roteiro sério (e baseado em uma história real), personagens densos e a preferência por um clima de suspense contra um festival de sustos vazios. Contando novamente com Patrick Wilson e Vera Farmiga como o casal Ed e Lorraine Warren e o diretor Wan no comando (depois de sua recusa em dirigir "Velozes e furiosos 8"), "Invocação do mal 2" não decepciona os fãs do gênero ou do primeiro capítulo da série: é elegante, convincente e, mais importante que tudo, respeita o espectador e a história que está contando.

Tudo bem que algumas alterações foram feitas para melhor aproveitar a dupla de protagonistas conhecida do público, que na verdade não foram os principais investigadores do caso narrado no filme, mas o roteiro faz o possível para manter a essência dos acontecimentos que aterrorizaram uma família londrina em 1977. Considerado até hoje como o caso mais longo de atividade poltergeist registrado na história, o fenômeno que tomou conta da residência de Peggy Hogdson (Frances O'Connor) e seus quatro filhos chamou a atenção da mídia e rendeu livros, polêmicas e outros filmes, como "The Einfield Haunting", de 2015. Para cada estudioso do caso que o levava a sério e comprovava os fenômenos, havia outro que levantava questões bem racionais - para o que colaborava o fato de que a filha mais envolvida nos ataques, Janet, tenha confessado ter forjado alguns dos assustadores sons gravados pelos investigadores no percurso do caso. Para maior impacto nas bilheterias, a New Line espertamente deslocou os maiores responsáveis pelas investigações para a ala dos coadjuvantes e colocou Ed e Lorraine - já devidamente testados no primeiro filme - como centro da narrativa. Funcionou muito bem: não apenas reafirmou o êxito da franquia como deu à plateia alguém com quem identificar-se, um ponto de vista externo que a leva pelas mãos rumo ao pesadelo que se desenrola na tela.


A primeira sequência do filme já demonstra sua vocação de tratar a plateia com respeito ao mesmo tempo em que faz referência a outra história clássica do gênero - "Terror em Amityville", filmado por Hollywood em duas ocasiões, em 1979 e 2005. Traumatizada com visões que anunciam uma tragédia em sua vida pessoal, Lorraine abandona a casa assombrada pelos crimes cometidos no local disposta a afastar-se por tempo indeterminado de sua desgastante rotina como estudiosa de fenômenos paranormais. Sua decisão, no entanto, é frustrada quando, algum tempo depois, ela e seu marido são procurados por um padre, preocupado com acontecimentos inexplicáveis que vem atormentando uma família londrina. Mesmo relutante, o casal aceita visitá-la e ao menos tentar ajudar a afastar o que quer que seja que esteja causando tanto terror. Para sua surpresa, eles descobrem que o responsável é o espírito de um antigo morador da casa, que se aproveita da sensibilidade de uma das meninas da família para marcar sua presença e sua recusa em abandonar seu lar.

O diretor James Wan mantém o tom do primeiro filme, equilibrando momentos de aparente calma com terror puro na reta final - quando, compreensivelmente, alguns exageros tomam conta da narrativa. Ironicamente, no entanto, são as cenas menos tensas que acabam por destacar-se, especialmente devido às atuações de Vera Farmiga e Patrick Wilson, que transmitem com extrema competência a serenidade de seus personagens, que mesmo diante de situações apavorantes conseguem manter a calma e a fé. Mesmo que o roteiro faça algumas alterações no rumo dos acontecimentos conforme eles surgiram na vida real - incluindo até o fantasma de uma freira com o objetivo único de criar uma personagem para um novo filme - e não haja nenhuma novidade na forma de contar sua história, "Invocação do mal 2" cumpre muito bem seu papel de entreter aos espectadores que procuram por um bom par de horas de tensão. É elegante e adulto, duas qualidades redentoras que o elevam acima da média, mas está longe de ser uma obra-prima inesquecível.

quinta-feira

DOIS CARAS LEGAIS

DOIS CARAS LEGAIS (The nice guys, 2016, Warner Bros, 116min) Direção: Shane Black. Roteiro: Shane Black, Anthony Bagarozzi. Fotografia: Philippe Rousselot. Montagem: Joel Negron. Música: David Buckley, John Ottman. Figurino: Kym Barrett. Direção de arte/cenários: Richard Bridgland/Danielle Berman, Tommy Wilson. Produção executiva: Anthony Bagarozzi, Peter Hampden, Ken Kao, Michael J. Malone, Norman Merry, Hal Sadoff, Alex Walton. Produção: Joel Silver. Elenco: Russell Crowe, Ryan Gosling, Kim Basinger, Matt Bomer, Lois Smith, Angourie Rice, Margaret Qualley, Yaya DaCosta. Estreia: 15/5/16 (Festival de Cannes)

A brincadeira já começava no trailer, com imagens que lembravam os filmes da década de 70 (período em que se passa o filme), utilizava o logo da Warner da época e mostrava Kim Basinger sob o anúncio de "apresentando". Mas era apenas uma pequena amostra do que estava por vir. "Dois caras legais" é diversão pura, uma comédia de ação que não se leva a sério, apresenta dois protagonistas completamente atípicos e subverte os clichês do gênero policial a cada cena. Coescrito e dirigido por Shane Black - o responsável por "Máquina mortífera" e o padrão de filmes policiais hollywoodianos a partir dos anos 80 - e estrelado por Russell Crowe e Ryan Gosling em dias inspirados (e com um timing cômico impecável), o filme pode não ter tido a repercussão que merecia - rendeu pouco mais de 60 milhões de dólares em todo o mundo - mas serve para confirmar a teoria de que um bom roteiro e um bom elenco são muito mais eficazes para a produção de um bom filme do que efeitos digitais e super-heróis cada vez menos surpreendentes.

Inicialmente pensado como piloto de uma série de televisão, "Dois caras legais" transformou-se em roteiro para o cinema quando Black percebeu que as possibilidades de ganhar uma temporada seriam quase nulas. Foi um mal que aconteceu para o bem: no conciso tempo de pouco menos de duas horas, a história (repleta de reviravoltas e personagens dúbios) ganha corpo, interesse e serve como uma luva para divertir a plateia sem recorrer a piadas forçadas ou cenas de ação hipertrofiadas. Dosando em igual quantidade humor e ação, o diretor consegue um equilíbrio admirável e de certa forma volta às origens, depois de ter comandado uma superprodução ("Homem de ferro 3", de 2013) controlada com rédeas curtas pela Marvel. Em seu novo filme, ele parece respirar aliviado sem tanta pressão, e tal leveza se reflete no tom debochado (ainda que carinhoso) do resultado final. Com diálogos brilhantes, uma reconstituição de época caprichada e um elenco afiadíssimo, "Dois caras legais" é um dos filmes mais subestimados de sua temporada - e um programão para quem procura entretenimento puro e simples.


Os dois caras legais do título são Jackson Healy (Russell Crowe) e Holland March (Ryan Gosling), detetives particulares da Los Angeles de 1977 que tem seus caminhos cruzados quando se veem investigando o mesmo caso. March é viúvo e vive com a filha pré-adolescente, Holly (a ótima Angourie Rice), enquanto curte a depressão se afogando em álcool e aceitando trabalhos para localizar pessoas desaparecidas; Healy é solteiro e resolve a maioria de seus casos utilizando-se de métodos violentos e pouco ortodoxos. Um dia, March é contratado por uma senhora idosa, Mrs. Glenn (Lois Smith), para encontrar sua sobrinha, uma atriz pornô que todos acreditam ter morrido em um acidente de carro - mas que ela insiste ter visto, bem viva, alguns dias depois do desastre. Em sua busca, o rapaz esbarra com o nome de Amelia Kuttner (Margaret Qualley), uma jovem que parece estar muito mais envolvida no caso do que parece - e que também está sendo procurada por Healy. É nesse ponto que a mãe da garota, Judith (Kim Basinger), chefe do Departamento de Estado, entra em cena, contratando os dois para impedir que sua filha seja prejudicada por um filme "alternativo" que fez com alguns amigos.

A mistura de comédia e filme policial engendrada por Shane Black ainda recebe a ajuda de ingredientes inusitados, como os bastidores da indústria de filmes pornográficos, criminosos excêntricos, tiroteios em locais públicos e muito, muito bom humor. Mesmo que a história por vezes soe confusa, o roteiro é tão recheado de boas piadas e bons personagens que fica difícil reclamar. Russell Crowe e Ryan Gosling estão absolutamente à vontade em cena, em uma parceria que implora por um segundo capítulo - e a jovem Angourie Rice quase rouba o filme na pele da precoce filha de Gosling, que assume papel fundamental no desfecho da trama. Engraçado, leve e despretensioso, "Dois caras legais" é uma das mais gratas surpresas da temporada 2016 - e uma lembrança do quanto Russell Crowe faz falta no cinemão americano.

COMO EU ERA ANTES DE VOCÊ

COMO EU ERA ANTES DE VOCÊ (Me before you, 2016, MGM/New Line Cinema, 106min) Direção: Thea Sharrock. Roteiro: Jojo Moyes, romance de Jojo Moyes. Fotografia: Remi Adefarasin. Montagem: John Wilson. Música: Craig Armstrong. Figurino: Jill Taylor. Direção de arte/cenários: Andrew McAlpine/Sara Wan. Produção executiva: Sue Baden-Powell, Trent Walton. Produção: Alison Owen, Karen Rosenfelt. Elenco: Emilia Clarke, Sam Claffin, Janet McTeer, Charles Dance, Vanessa Kirby, Samantha Spiro, Brendan Coyle, Jenna Coleman, Stephen Peacocke. Estreia: 23/5/16

Até a estreia de "Game of thrones", em 2011, a britânica Emilia Clarke era uma ilustre desconhecida do grande público. Porém, bastou uma única temporada da série, baseada em livros de George R.R. Martin, para que a intérprete de Daenerys Targaryen se tornasse um rosto mundialmente popular, assim como o restante do vasto elenco. Para confirmar seu status de estrela, no entanto, lhe faltava ainda um sucesso na tela grande, que a apresentasse também ao público imune à febre causada pela vitoriosa produção da HBO. Tal situação foi resolvida da melhor maneira possível: unindo o rosto de Clarke à adaptação de um romance best-seller, "Como eu era antes de você" provou-se um êxito senão previsível, ao menos pouco surpreendente: arrecadou mais de 200 milhões de dólares mundo afora e emocionou os espectadores mais sensíveis, seduzidos por uma história de amor à moda antiga, bem-humorada e delicada. É difícil saber se tamanha aprovação se deve mais à fidelidade dos leitores do livro de Jojo Moyes ou dos fãs de "Game of thrones" - o fato é que o filme de estreia da cineasta Thea Sharrock cumpre exatamente o que promete e, se não é inesquecível, ao menos diverte e envolve seu público-alvo com uma narrativa dinâmica e sensível.

Anos-luz distante de sua personagem em "Game of thrones", Emilia Clarke demonstra carisma o bastante para encarar o desafio de interpretar uma jovem comum, sem efeitos visuais ou cenários mirabolantes para dividir com ela as atenções. Ela vive Louisa Clark, uma bem-humorada e otimista garota inglesa que, depois de perder o emprego como atendente de uma charmosa padaria que acaba de fechar as portas, vê-se diante do desafio de encontrar um novo trabalho, que a ajude a complementar a renda da família. Depois de alguma procura, ela parece encontrar uma posição satisfatória: ser cuidadora de um rapaz tetraplégico, filho de uma das famílias mais ricas da região. Will Traynor (Sam Claffin), atropelado por uma moto e sem movimento abaixo do pescoço desde então, vive em um anexo à mansão de seus pais, perdeu totalmente o interesse na vida e, a princípio, não se deixa conquistar pela alegria contagiante de Louisa. Com o passar do tempo, porém, as coisas começam a mudar: seduzido pelo entusiasmo de sua nova cuidadora, Will aceita acompanhá-la em programas que até então considerava perdidos, como viagens, concertos e até a festa de casamento de sua ex-namorada. O que ele não sabe é que Louisa descobriu que ele tem planos de cometer suicídio assistido - e, apaixonada, quer fazê-lo desistir dessa ideia e mantê-lo a seu lado.


Apesar do tema doloroso, "Como eu era antes de você" tem a seu favor uma leveza inesperada - cortesia de Jojo Moyes, autora do romance original e do roteiro que adapta seu livro com o máximo de fidelidade à trama e a seu espírito romântico. O otimismo incorrigível de Louisa - encarnada com ritmo correto por Emilia Clarke - é o contraponto perfeito para a melancolia de Traynor, e sua combinação de espíritos é a sustentação de uma história que não apresenta grandes novidades mas sabe manipular com destreza os clichês que a formam. Primeiro longa-metragem da diretora Thea Sharrock - com experiência em episódios de séries de TV e demonstrando um apropriado timing tanto para o humor quanto para o romance, "Como eu era antes de você" é uma feliz união de um roteiro simples e de fácil comunicação com seu público, uma dupla central carismática e talentosa e o apelo sempre irresistível de um melodrama bem construído. Some-se a isso um visual moderno e atraente, uma trilha sonora convidativa (com duas canções de Ed Sheeran em momentos-chave) e o sucesso é inevitável.

Assim como em "A culpa é das estrelas" - baseado em romance de John Green e também muito bem-sucedido em sua versão cinematográfica - e nas adaptações dos livros de Nicholas Sparks, é certo que boa parte do êxito comercial de "Como eu era antes de você" se deve aos leitores que, encantados com a trama criada por Jojo Moyes, correram aos cinemas para ver nas telas a personificação de seus personagens (interessantes e bem desenvolvidos na medida do possível dentro de um filme de gênero e sem maiores pretensões). Porém, não é preciso ter tido contato com a obra original para se deixar conquistar: fluido e leve, engraçado e comovente, o filme de Sharrock é uma boa surpresa para aqueles que procuram um entretenimento livre de efeitos visuais de última geração e sexo gratuito. Sensível e discreto, "Como eu era antes de você" é uma adaptação digna e honesta, valorizada por seus atores - Charles Dance e Janet McTeer completam o elenco, como os pais de Traynor - e calorosa em suas intenções. Só há contraindicações àqueles que definitivamente não gostam de histórias de amor: para os demais é só preparar a caixa de lenços.

terça-feira

A CHEGADA

A CHEGADA (Arrival, 2016, Sony Entertainment,  116min) Direção: Denis Villeneuve. Roteiro: Eric Heisserer, conto "Story of your life", de Ted Chiang. Fotografia: Bradford Young. Montagem: Joe Walker. Música: Jóhan Jóhansson. Figurino: Renée April. Direção de arte/cenários: Patrice Vermette/Marie-Soleil Dénomné, Paul Hotte, André Valade. Produção executiva: Dan Cohen, Eric Heisserer, Karen Lunder, Tory Metzger, Milan Popelka, Stan Wlodkowski. Produção: Dan Levine, Shawn Levy, David Linde, Aaron Ryder. Elenco: Amy Adams, Jeremy Renner, Forest Whitaker, Michael Stuhlbarg, Mark O'Brien. Estreia: 01/9/16 (Festival de Veneza)

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Dennis Villeneuve), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Direção de Arte/Cenários, Edição de Som, Mixagem de Som
Vencedor do Oscar de Edição de Som 

Quando um filme - seja de ficção científica, seja do gênero que for - permanece na memória e no coração do espectador muito depois de seus créditos finais, certamente ele é muito mais do que um simples filme. Produções que ultrapassam os limites da arte e suscitam reflexões acerca de temas como destino, finitude e livre arbítrio tendem a tornar-se clássicas já em seu nascimento - haja visto obras como "2001: uma odisseia no espaço" (68), de Stanley Kubrick, e "Blade Runner: o caçador de androides" (82), de Ridley Scott, que se mantém no imaginário popular há décadas justamente por inserir, em um gênero específico, um vasto material intelectual e sensorial que vai além do que é exposto na tela, exercitando tanto o coração quanto o cérebro da plateia. Não chega a ser uma surpresa, portanto, que "A chegada" possa facilmente entrar na seleta lista dos grandes filmes de ficção científica da história do cinema - e que certamente irá resistir à passagem dos anos: inteligente, sensível e tecnicamente impecável, a primeira incursão do canadense Denis Villeneuve no gênero é simplesmente uma obra-prima que confirma o cineasta como uma das vozes mais originais e criativas a surgirem nos últimos anos.

Desde que seu "Incêndios" (2010) encantou o mundo e concorreu ao Oscar de melhor filme estrangeiro, Villeneuve passou a demonstrar, em sua filmografia, uma preocupação constante com a alma e a psicologia de seus personagens. Fossem eles baseados em livros consagrados ("O homem duplicado", baseado em José Saramago) ou dentro dos limites de filmes de gênero (o suspense "Os suspeitos" ou o policial "Sicário: terra de ninguém"), seus protagonistas viviam sempre no fio da navalha, torturados por questões pessoais que os empurravam à frente e mexiam com as engrenagens das tramas. Em "A chegada" não é diferente: com base no conto "Story of your life", de Ted Chiang, o roteiro de Eric Heisserer, apesar de se utilizar fartamente dos elementos da ficção científica, é escorado totalmente nas emoções muito humanas de sua personagem central, a linguista Louise Banks, interpretada com brilhantismo por Amy Adams. Por mais que os efeitos visuais originais e criativos imaginados pela equipe de Martine Bertrand e Patrice Vermette sejam empolgantes e fujam do lugar-comum, é o coração de Louise que sustenta a ação do filme, que preenche aos poucos os vácuos que o roteiro vai propositalmente deixando pelo caminho até o final avassalador e comovente. Genialmente concebido como uma espécie de quebra-cabeças cujas peças só vão fazer sentido quando a imagem estiver totalmente formada, o roteiro de "A chegada" é uma aula de narrativa - em que cada cena, cada linha de diálogo e cada silêncio é parte indispensável para o resultado final.


Quando começa, "A chegada" parece mais uma ficção científica convencional: doze naves espaciais de formato ovalado chegam à Terra, provocando pânico e desconfiança na população e nas lideranças mundiais. Em busca de comunicação com os visitantes, um coronel norte-americano, Weber (Forest Whitaker) recruta a linguista Louise Banks (Amy Adams), que já havia trabalhado para o governo em circunstâncias anteriores (e bem menos inusitadas). Louise se junta a um time de cientistas que inclui o matemático Ian Donnelly (Jeremy Renner) e centenas de pesquisadores espalhados pelo mundo. Conforme vai avançando em seus contatos com uma dupla de alienígenas - a quem eles batizam de Abbott e Costello - e aprendendo sua forma de comunicação, Louise passa a ter visões de sua vida e começa a questionar seu senso de realidade e até que ponto ela será capaz de controlar os limites de sua interação com os desconhecidos viajantes.

Contar qualquer detalhe a mais de "A chegada" é estragar a bela experiência que ele é. Descobrir as razões que trazem os alienígenas ao nosso planeta e de que forma seu contato com os humanos irá alterar o destino de Louise é uma das melhores e mais emocionantes surpresas de um filme que, apesar de ter em seu desfecho um de seus grandes trunfos, cresce a cada revisão. Cuidadosamente realizado - da fotografia suja de Bradford Young à música impactante de Jóhan Jóhansson - e dotado de uma inteligência rara em blockbusters (rendeu mais de 200 milhões de dólares nas bilheterias contra um orçamento relativamente baixo de 47 milhões), o filme de Villeneuve é uma viagem sensorial das mais empolgantes, que trata o espectador com respeito e jamais subestima sua capacidade intelectual. O que é injustificável é a ausência de Amy Adams entre as oito indicações ao Oscar recebidas pela produção - que incluíram melhor filme, diretor e roteiro adaptado: com uma atuação extraordinária que demonstra toda a extensão de seu talento dramático, Adams simplesmente carrega a plateia por uma trajetória emocional das mais enriquecedoras, capaz de prender a atenção do primeiro ao último minuto sem jamais cair no óbvio ou no previsível. Conduzido com elegância e segurança por um cineasta nitidamente apaixonado por sua história, "A chegada" é uma pequena obra-prima moderna - e que fez de Villeneuve o cineasta ideal para assinar a esperada continuação de "Blade Runner". Imperdível e inesquecível!

quarta-feira

ATÉ O ÚLTIMO HOMEM

ATÉ O ÚLTIMO HOMEM (Hacksaw Ridge, 2016, Summit Entertainment/Cross Creek Pictures, 139min) Direção: Mel Gibson. Roteiro: Robert Schenkkan, Andrew Knight. Fotografia: Simon Duggan. Montagem: John Gilbert. Música: Rupert Gregson-Williams. Figurino: Lizzy Gardiner. Direção de arte/cenários: Barry Robison/Rebecca Cohen. Produção executiva: Michael Bassick, Lawrence Bender, Len Blavatnik, Stuart Ford, David Greathouse, Eric Greenfeld, Lenny Kornberg, Mark C. Manuel, Rick Nicita, Ted O'Neal, Buddy Patrick, Lauren Selig, Tyler Thompson, James M. Vernon, Suzanne Warren, Christopher Woodrow. Produção: Terry Benedict, Paul Currie, Bruce Davey, William D. Johnson, Bill Mechanic, Brian Oliver, David Permut. Elenco: Andrew Garfield, Sam Worthington, Hugo Weaving, Rachel Griffiths, Vince Vaughn, Richard Roxburgh. Estreia: 04/9/16 (Festival de Veneza)

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Mel Gibson), Ator (Andrew Garfield), Montagem, Edição de Som, Mixagem de Som
Vencedor de 2 Oscar: Montagem, Mixagem de Som

Quando surgiu para o grande público, no final dos anos 70, como o protagonista de "Mad Max" (79) e suas duas sequências, o australiano Mel Gibson tornou-se, instantaneamente, no astro de filmes de ação que os produtores pediram a Deus: bonito a ponto de ser vendido também como símbolo sexual (ao contrário de Stallone e Schwarzenegger), talentoso e carismático. Na década de 80, confirmou o status de ídolo com a trilogia "Máquina mortífera" e, nos anos 90, mostrou o lado sensível de diretor de filmes como "O homem sem face" (93) e "Coração valente" (95) - que lhe rendeu os Oscar de filme e direção. Nesse meio-tempo, em que arriscou até mesmo um Shakespeare dirigido por Franco Zefirelli - "Hamlet", de 1990 -, Gibson foi construindo uma carreira invejável, repleta de sucessos de bilheteria e um prestígio que poucos poderiam prever quando de sua chegada em Hollywood. Se havia alguém que poderia estragar sua ascensão, esse alguém era ele mesmo - e ele não hesitou em tomar providências a esse respeito. Se na década de 90 já havia criado polêmica com declarações homofóbicas (que mesmo assim não chegaram a arranhar seu sucesso), ele teve que lidar, nos primeiros anos do novo século, tanto com um surpreendente e imenso êxito profissional quanto com o quase fim de sua carreira - uma situação criada por ele mesmo.

O êxito veio com a bilheteria monstruosa e inesperada de "A paixão de Cristo" (2004) - um projeto ambicioso, violento, visceral e arriscado que arrecadou mais de 600 milhões de dólares mundo afora, a despeito de seu tom antissemita. E foi antissemitismo também que ajudou a cavar o buraco no qual Gibson cairia em seguida: somadas a acusações de violência doméstica e brigas com autoridades policiais, declarações controversas do ator/diretor o empurraram diretamente para um ostracismo que parecia definitivo - em poucos anos Gibson passou de um dos mais quentes nomes de Hollywood a um pária cujos filmes fracassavam em todos os níveis. Mas, assim como sabe destruir uma carreira, a indústria de cinema também sabe perdoar quando quer - e eis que, dez anos depois de seu último trabalho como diretor, o ousado "Apocalypto", Mel Gibson se viu finalmente digno de uma segunda chance entre seus colegas. Indicado a 6 Oscar - incluindo melhor filme e diretor - o drama de guerra "Até o último homem" não apenas conquistou a Academia (que lhe premiou com as estatuetas de montagem e mixagem de som) como marcou seu reencontro com o público - com uma renda mundial estimada em mais de 175 milhões de dólares, seu filme parece ter sido a melhor maneira de acenar por uma trégua. O melhor da história toda? O filme merece.



Inspirado em uma quase inacreditável história real, "Até o último homem" volta a mostrar o lado religioso de Gibson - que novamente equilibra um tom espiritual e sequências de extrema violência, ainda que menos gráficas do que as mostradas em "A paixão de Cristo". Ao contrapor a crueldade da guerra à religiosidade de seu protagonista, o diretor ameniza a truculência de algumas imagens e entrega ao espectador um conto empolgante a respeito da força da fé e do idealismo. Mesmo sem soar excessivamente messiânico, o roteiro deixa explícitas as razões que movem seu personagem central e, graças a uma interpretação absolutamente impecável de Andrew Garfield (merecidamente indicado ao Oscar de melhor ator), faz com que a plateia compactue com elas e se envolva na trama sem reservas. Um filme de guerra onde a guerra em si só dá as caras no terceiro ato - e como cenário para um desfecho emocionante -, "Até o último homem" é um triunfo como cinema: pode-se dizer até mesmo que é o melhor e mais maduro trabalho de Gibson como cineasta, unindo no mesmo pacote uma história bem contada, sequências de guerra orquestradas com capricho, uma técnica invejável e um elenco inspirado.

Garfield - que no mesmo ano esteve em "Silêncio", de Martin Scorsese, provando sua versatilidade - é o corpo e a alma de "Até o último homem". Ele interpreta o protagonista, Desmond Doss, com uma garra e uma paixão que salta da tela direto ao coração da plateia. Desmond é um dos dois filhos de Tom Doss (Hugo Weaving), veterano da I Guerra Mundial traumatizado pela perda dos colegas e entregue ao álcool e à violência doméstica contra a esposa, Bertha (Rachel Griffiths). Criado como adventista do sétimo dia e profundamente religioso, Desmond vê nos mandamentos de Deus sua régua moral absoluta mas, mesmo assim, ao lado do irmão, se alista como voluntário para lutar na II Guerra. Sua intenção é servir como médico e não atacar os inimigos: tal regra acaba sendo motivo para que ele bata de frente com seus superiores e seus colegas, que não veem com bons olhos um soldado não disposto a pegar em armas nem mesmo para sua defesa. Aos poucos, no entanto, Desmond vai conquistando o respeito de todos - até que em uma missão específica, em Okinawa, ele se torna um improvável herói... sem disparar sequer um único tiro.

Emocionante e brilhantemente executado, "Até o último homem" não foge dos clichês dos filmes do gênero, quando se rende a algumas de suas mais antigas regras - o treinamento, as dificuldades de relacionamento dentro do pelotão, os personagens quase estereotipados -, mas faz deles um uso inteligente e adequado, como forma de prender a atenção da plateia até seu último (e empolgante) ato, quando Desmond se torna um herói não através da violência, mas sim da compaixão e do amor pelos companheiros. Pode parecer um discurso estranho para alguém que estrelou e/ou dirigiu alguns dos filmes mais violentos das últimas décadas, mas não deixa de ser um respiro de humanidade em um gênero tão repleto de sangue e tristeza. Mel Gibson merece o perdão... ao menos até o próximo escândalo!

SETE HOMENS E UM DESTINO

SETE HOMENS E UM DESTINO (The magnificent seven, 2016, MGM/Columbia Pictures, 132min) Direção: Antoine Fuqua. Roteiro: Nic Pizzolatto, Richard Wenk, roteiro original de Akira Kurosawa, Shinobu Hashimoto, Hideo Oguni. Fotografia: Mauro Fiore. Montagem: John Refoua. Música: James Horner. Figurino: Sharen Davis. Direção de arte/cenários: Derek R. Hill/Bradford Johnson, Melissa Lombardo. Produção executiva: Bruce Berman, Antoine Fuqua, Walter Mirisch, Ben Waisbren. Produção: Roger Birnbaum, Todd Black. Elenco: Denzel Washington, Chris Pratt, Ethan Hawke, Haley Bennett, Vincent D'Onofrio, Peter Sarsgaard, Matt Bomer, Byung Hu-Lee, Manuel Garcia-Rulfo, Martin Seinsmeier, Luke Grimes, Cam Gigandet. Estreia: 08/9/16 (Festival de Toronto)

Não deixou de ser irônica a gritaria em torno da refilmagem de "Sete homens e um destino", quando ela foi anunciada pelo cineasta Antoine Fuqua. Primeiro porque o filme de 1960, dirigido por John Sturges, foi uma decepção de bilheteria quando estreou nos EUA, tornando-se cult somente anos mais tarde, depois do sucesso comercial na Europa. E segundo porque ele mesmo não era uma ideia original, e sim o remake americano do japonês "Os sete samurais" (54), de Akira Kurosawa, este sim um êxito internacional incontestável e atemporal. Estrelado por um elenco de astros do gabarito de Yul Brinner, Steve McQueen e Charles Bronson, a versão de Sturges acabou se transformando em um clássico do western americano, uma espécie de patrimônio intocável - o que resultou na série de questionamentos a respeito dos motivos que levariam Fuqua (um diretor apenas razoável, cujo maior cartão de visita é "Dia de treinamento", que deu o Oscar de melhor ator a Denzel Washington em 2002) a mexer com tal vespeiro. A boa notícia é que, apesar das alterações em pequenos detalhes da trama (ou talvez justamente por causa delas), a versão século XXI de "Sete homens e um destino" - politicamente correta, representativa e multicultural - é um faroeste à moda antiga filmado com os recursos da moderna Hollywood. Em resumo, o melhor dos dois mundos em um resultado final que agrada aos neófitos (aqueles que jamais assistiram a nenhum dos originais) e não ofende aos fãs dos clássicos.

Como não poderia deixar de ser ao tratar-se de um filme dirigido por um cineasta afro-americano engajado e militante, a principal mudança de "Sete homens e um destino" em relação à versão de Sturges foi eleger como protagonista um ator negro (algo impensável em uma Hollywood que somente no final da década de 60 começaria a dar os primeiros e tímidos passos em direção ao assunto, com a presença de Sidney Poitier em sucessos de bilheteria e crítica). Na pele do destemido oficial de justiça Sam Chilsom - que anda pelo país à caça de bandidos procurados pela polícia - está Denzel Washington, um dos mais representativos astros negros dos EUA, respeitado e admirado tanto pelo público quanto pela indústria. Sua imponência física e seu ar de autoconfiança cai como uma luva na história, reescrita por Nic Pizzolatto e Richard Wenk de acordo com os tempos modernos: não apenas o grupo de protagonistas é liderado por um negro, mas conta também com um oriental, um indígena, um mexicano e, surpresa das surpresas, tem até mesmo uma forte presença feminina na figura de Emma Cullen (Haley Bennett), a responsável por pedir ajuda a Chilsom na sua batalha para livrar sua pequena cidade, Rose Creek, dos desmandos do implacável e truculento Bartholomew Bogue (Peter Sarsgaard, assustadoramente magro e cruel). É Emma, que acaba de perder o marido pelas mãos sanguinárias de Bogue, quem contrata os serviços de Chilsom - mas, como manda o figurino do cinema do século XXI, não se faz de rogada e não foge à luta, encarando em pé de igualdade (ou quase) o batalhão de capangas que aceita o desafio de invadir a cidade e tomá-la a custo de sangue.


A primeira parte do filme, como não poderia deixar de ser, serve para que Fuqua apresente seus personagens e mostre como cada um dos sete homens do título é recrutado. Assim, surge em cena o falastrão e carismático Josh Faraday (Chris Pratt em papel sob medida para seu talento em roubar cenas), o traumatizado e famoso atirador Goodnight Robicheaux (Ethan Hawke) - junto com seu associado Billy Rocks (Byung-hun Lee) - e o veterano e excêntrico Jack Horner (Vincent D'Onofrio). O grupo é completo pelo mexicano fora-da-lei Vasquez (Manuel Garcia-Rulfo em papel que quase ficou com o brasileiro Wagner Moura) e o indígena Red Harvest (Martin Seinsmeier), que partem em direção à Rose Creek com o objetivo de resolver a questão definitivamente. Além deles, estão Emma e seu amigo Teddy Q (Luke Grimes), que tem razões mais do que suficientes para odiar Bogue e o que ele representa - algo que os une à Chilsom, que também tem questões mal-resolvidas com o ambicioso latifundiário. Depois de um tiroteio que anuncia sua chegada à cidade, o bando de Chilsom então marca o duelo com seu antagonista - e é aí que Fuqua surpreende positivamente.

Dirigindo com firmeza longas sequências de ação, o cineasta não apenas consegue o feito de não soar tedioso ou repetitivo como ainda vai mais longe, orquestrando uma coreografia milimetricamente criada para manter o público de olhos grudados na tela. Para isso, colabora a edição de John Refoua - que mantém mais de uma linha narrativa ao mesmo tempo - e o trabalho de sonorização, impecável e eficiente. Se até então o maior mérito do filme era desenvolver os personagens com a maior clareza possível em tão pouco tempo (a duração mal passa de duas horas, um milagre em tempos de obras que chegam a 180 minutos sem necessidade), a partir do começo da briga entre mocinhos e bandidos ,"Sete homens e um destino" se apresenta como um legítimo representante do western moderno - sem complexidades existenciais ou autoparódia, mas como um filme que deixa bem claro a linha que separa o bem do mal, a luz das trevas, a honra da traição. Seus protagonistas - por mais falíveis que sejam -, carregam a aura de heróis, uma aura que forjou um dos gêneros mais queridos e influentes da indústria hollywoodiana. Ao respeitar os cânones de tal gênero e filtrá-lo sob uma luz moderna, Fuqua criou seu melhor trabalho, um filme que encanta pelos valores de produção - como a bela fotografia de Mauro Fiore e a trilha sonora de James Horner, que homenageia a clássica composição de Elmer Bernstein para a produção de 1960 nos letreiros finais - e pela capacidade de contar uma velha e conhecida história lhe dando ares de novidade e inteligência. Um belo filme, uma bela surpresa e um dos raros remakes dignos já feitos em Hollywood!

O PREÇO DA TRAIÇÃO

  O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...