Mostrando postagens com marcador ALEC BALWIN. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ALEC BALWIN. Mostrar todas as postagens

terça-feira

FANTASMAS DO PASSADO

 


FANTASMAS DO PASSADO (Ghosts of Mississippi, 1996, Columbia Pictures, 130min) Direção: Rob Reiner. Roteiro: Lewis Colick. Fotografia: John Seale. Montagem: Robert Leighton. Música: Marc Shaiman. Figurino: Gloria Gresham. Direção de arte/cenários: Lilly Kilvert/Karen A. O'Hara. Produção executiva: Charles Newirth, Jeffrey Stott. Produção: Nicholas Paleogolos, Rob Reiner, Andrew Schneiman, Frederick Zollo. Elenco: Alec Baldwin, Whoopi Goldberg, James Woods, Craig T. Nelson, Virginia Madsen, Diane Ladd, Susanna Thompson, William H. Macy, Jerry Levine, Terry O'Quinn, James Pickens Jr., Lucas Black, Jerry Hardin. Estreia: 20/12/96

2 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (James Woods), Maquiagem

Quando "Fantasmas do passado" chegou aos cinemas, em dezembro de 1996, fazia apenas dois anos e meio que sua história havia tido seu desfecho. O  terceiro julgamento de Byron de la Beckwith pelo assassinato do líder negro Medgar Evers em 1963 - depois de dois outros anulados por uma série de circunstâncias que beneficiavam o réu  - tornou-se assunto dominante em Jackson, Mississippi no começo de 1994 e sua versão cinematográfica aproveitou-se da energia de revolta local para tentar transmitir ao espectador toda a força dos acontecimentos que foram um marco na luta pelos direitos civis na sociedade norte-americana. Não conseguiu completamente. A bilheteria pouco expressiva e a receptividade morna da crítica acabaram por relegar o filme a uma espécie de limbo na carreira do diretor Rob Reiner, apenas um meio-termo entre o sucesso de "Conta comigo" (1986), "Harry & Sally: feitos um para o outro" (1989), "Louca obsessão" (1990) e "Questão de honra" (1992) e o fracasso comercial de "O anjo da guarda" (1994) e "Alex & Emma: escrevendo sua história" (2003).  Mesmo assim, chamou a atenção o suficiente para render a James Woods uma indicação ao Oscar de ator coadjuvante - a segunda de sua carreira.

Woods - na pele do venal Byron de la Beckwith - é o destaque absoluto do filme de Reiner. Mesmo com poucos minutos em cena, seu desempenho consegue eclipsar tanto a potente atuação de Whoopi Goldberg (tentando dar consistência às falas clichês de sua personagem) quanto o esforço de Alec Baldwin, ainda não exatamente reconhecido como o ator de respeito que se tornaria com o passar dos anos. Fugindo da tentação de fazer de Beckwith um vilão humanizado (basta ver entrevistas reais para perceber que isso é impossível), o veterano ator dá o seu melhor para transmitir, em cada aparição, todo o ódio e o desprezo que move o movimento supremacista do sul dos EUA - e do resto do mundo. Sempre que surge na tela, seu olhar maligno e sua expressão de desprezo pela justiça tornam impossível ignorar seu minucioso trabalho - algo que nem mesmo a maquiagem exagerada (inexplicavelmente indicada ao Oscar) consegue atrapalhar. Lamentável que o roteiro não lhe dê mais espaço e se concentre naquele que talvez seja o grande problema do filme: a figura do criticado white savior - termo que caracteriza, normalmente de forma pejorativa, uma pessoa branca que se torna o herói em uma luta racial. Ok, o advogado que levou Beckwith aos tribunais em 1994,Bobby DeLaughter, é branco. Mas fica, mesmo assim, a sensação de um foco inadequado a uma trama tão nitidamente específica.


 

Apesar de dar a Whoopi Goldberg o importante e crucial papel de Myrlie Evers, a viúva do ativista pelos direitos civis Medgar Evers (vivido no filme por James Pickens Jr., de "Grey's Anatomy"), o roteiro de "Fantasmas do passado" se concentra basicamente em Bobby DeLaughter, promotor do Mississipi que entra, quase por acaso, no caso do terceiro julgamento de um racista radical acusado pelo assassinato. Casado, pai de dois filhos e parte de uma família tradicional e respeitada, Bobby se deixa convencer pela persuasiva Myrlie de que trinta anos já é tempo suficiente para tentar novamente a condenação do homem que matou seu marido. Para conquistar sua confiança, o promotor põe em risco seu casamento, sua carreira e até mesmo sua vida. Sem o apoio daqueles que o rodeiam - todos profundamente enraizados nos preconceitos sulistas - e questionado até mesmo por Myrlie, ele descobre, no processo rumo ao tribunal, que condenar um homem tão abertamente preconceituoso e intolerante não é tarefa fácil, especialmente em seu contexto geográfico e social.

Assumindo um papel que foi cogitado para ser de Tom Cruise ou de Tom Hanks - ambos com potencial comercial bem maior -, Alec Baldwin sofre com a direção quase mecânica de Rob Reiner e com o roteiro esquemático e quase frio. Ao tentar evitar o sentimentalismo inerente à história, Reiner nega à plateia o tom emocional que poderia fazer de seu filme uma produção marcante e relevante. Lançado no mesmo ano do sucesso "Tempo de matar" e do fiasco "O segredo" - ambos com temática semelhante, ainda que relatos de ficção baseados em livros de John Grisham -, "Fantasmas do passado" passou praticamente em branco nos cinemas e dificilmente é lembrado mesmo nas filmografias de seus atores principais. Não deixa de ser uma injustiça: mesmo longe de ser um dos melhores filmes do diretor ou até mesmo sobre o tema, é um entretenimento decente - ainda que seu foco seja um tanto problemático.

quinta-feira

INFILTRADO NA KLAN


INFILTRADO NA KLAN (BlackKkKlansman, 2018, Focus Features/Legendary Entertainment/Perfect World Pictures, 135min) Direção: Spike Lee. Roteiro: Spike Lee, Charlie Wachtel, David Rabinowitz, Kevin Willmot, livro de Ron Stallworth. Fotografia: Chayse Irvin. Montagem: Barry Alexander Brown. Música: Terence Blanchard. Figurino: Marci Rodgers. Direção de arte/cenários: Curt Beech/Cathy T. Marshall. Produção executiva: Marcei A. Brown, Matthew A. Cherry, Edward H. Hamm Jr., Win Rosenfeld, Jeanette Volturno. Produção: Jason Blum, Spike Lee, Raymond Mansfield, Sean McKittrick, Jordan Peele, Shaun Redick. Elenco: John David Washington, Adam Driver, Laura Harrier, Topher Grace, Ryan Eggold, Jasper Paakkonen, Michael Buscemi, Alec Baldwin. Estreia: 14/5/2018 (Festival de Cannes)

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Spike Lee), Ator Coadjuvante (Adam Driver), Roteiro Adaptado, Montagem, Trilha Sonora Original

Vencedor do Oscar de Roteiro Adaptado

Vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes

 A sequência inicial de "Infiltrado na Klan" já deixa antever o que virá pelas próximas duas horas: diante de uma montagem de cenas dos filmes "O nascimento de uma nação" (1915) - considerado um dos filmes mais racistas da história do cinema - e "... E o vento levou" (1939) - cujo duvidoso retrato da escravidão vem sendo questionada seriamente nos últimos anos -, o supremacista branco Kennebrew Beauregard (vivido por Alec Baldwin) faz um febril discurso a respeito de como os afro-americanos estão tomando os EUA e impondo seu modo de vida através da violência. Seu ponto de vista assustador - que seria cômico se não fosse trágico - dá início ao melhor filme de Spike Lee em muito, muito tempo, uma afirmação comprovada pela generosa bilheteria e pelo reconhecimento da Academia de Hollywood, que lhe premiou com o Oscar de roteiro adaptado e o indicou em outras cinco categorias, incluindo as duas mais importantes: melhor filme e diretor. Ovacionado desde sua estreia, no Festival de Cannes de 2018 (de onde saiu com o Grande Prêmio do Júri), "Infiltrado na Klan" se torna ainda mais relevante por ter sido lançado menos de um ano depois das manifestações racistas de Charlottesville, na Virgínia, cujas imagens são mostradas no final do filme e que causaram a morte da jovem Heather Heyer. Mais importante do que nunca, a produção é o filme certo na hora certa. Mais importante ainda, foi dirigido no tom exato entre o drama social e a ironia, opção que muito provavelmente o Spike Lee do final dos anos 1980 e começo dos 1990 não teria feito.

Conhecido no final do século passado por sua virulência e tendência para o marketing agressivo, Spike Lee chamava a atenção tanto por seus discursos veementes quanto por seus trabalhos cinematográficos - dentre os quais destacam-se "Faça a coisa certa" (1989) e "Malcolm X" (1992), ambos louvados pela crítica e exemplos nítidos da ira do cineasta à época. Em "Infiltrado na Klan", o cineasta parece ter encontrado o meio-termo entre sua militância e as regras do cinema comercial - do qual aproximou-se nos anos 2000, com o sucesso financeiro de "O plano perfeito", que rendeu surpreendentes 186 milhões de dólares em 2006. Mesmo com um material explosivo em mãos, Lee prefere o caminho menos óbvio para contar sua história, talvez por ter consciência do quão surreal ela pode parecer aos olhos do espectador, mesmo sendo verdadeira. Baseado no livro em que Ronn Stallworth conta sua inusitada (e perigosa) aventura, o roteiro (escrito por Lee, Charlie Watchel, David Rabinowitz e Kevin Willmot), ganhou merecidamente o Oscar da categoria, ao fazer magistralmente a transposição das páginas para a tela: nunca antes Lee esteve tão certeiro em utilizar-se das ferramentas do cinema em seu favor.

Mais do que apenas contar uma história em imagens, o cineasta brinca com referências culturais - como a blackexploitation do cinema norte-americano - e não hesita em inserir, em momentos-chave, um tom menos ágil e mais contundente - é o caso do discurso do ativista negro Stokely Carmichael (Corey Hawkins), no começo do filme, e de um trágico relato de crime de ódio, feito por Jerome Turner (uma participação não creditada do veterano Harry Belafonte), perto do final. Ao contrário de quebrar o ritmo, tais acréscimos tornam a narrativa ainda mais rica e lembram o espectador que, apesar da leveza com que a trama vem sendo conduzida, o assunto é mais sério e urgente do que se pode imaginar. É admirável como Lee é capaz de equilibrar tão bem cenas cômicas (mas nunca de um humor histérico) e sequências de pura tensão (será que o protagonista conseguirá evitar o atentado a bomba planejado pela KKK contra a sua namorada ativista? Será que seu colega de missão será reconhecido em plena cerimônia do grupo?) As respostas a essas e outras questões que vão surgindo durante o filme são apresentadas de forma orgânica e com uma fluência empolgante, que envolve a plateia sem muito esforço. Para isso conta, também, a escalação certeira de um elenco acima de qualquer crítica.

Na pele de Ronn Stallworth, um  jovem policial negro do Colorado que consegue se infiltrar na sede local da KKK através de telefonemas e da ajuda de seu colega, Flip Zimmermann, está John David Washington, uma das grandes promessas da nova geração: filho do também ator Denzel Washington (que já colaborou diversas vezes com Spike Lee), John David tem um carisma que imediatamente põe o espectador a seu lado. Adam Driver, que interpreta Zimmermann, um judeu que assume a identidade de Stallworth quando é preciso uma presença física junto aos líderes da Klan, recebeu uma indicação ao Oscar de ator coadjuvante que confirmou uma fase excelente na carreira - além de sua atuação em filmes da nova série "Star Wars" ele voltou a concorrer à estatueta dourada (dessa vez na categoria principal) por "História de um casamento". E é preciso aplaudir o trabalho de Topher Grace, em um corajoso retrato de David Duke, um dos maiores líderes do grupo racista. Tudo é tão bem desenvolvido que até dá para perdoar a criação de um interesse romântico para Ronn, a militante Patrice Dumas, vivida por Laura Harrier, outra revelação do cineasta: ao contrário de outros filmes, a presença de Patrice não é apenas oferecer cenas idílicas, e sim servir como a voz da consciência de Ronn. Um toque que faz toda a diferença e torna "Infiltrado na Klan" um filme obrigatório não apenas para o público interessado no tema, mas principalmente para os fãs de cinema de qualidade. Uma pena que, podendo escolher essa pequena obra-prima como vencedor do Oscar de melhor filme, a Academia optou pelo raso e artificial "Green Book: O guia", que apresenta uma versão quase hipócrita do racismo. Se houvesse mais coragem por parte dos eleitores, o filme de Lee - que conta com o também cineasta Jordan Peele ("Corra!") entre os produtores - teria saído da cerimônia carregado de estatuetas douradas.

quarta-feira

O BOM PASTOR

O BOM PASTOR (The good shepherd, 2006, Universal Pictures, 167min) Direção: Robert De Niro. Roteiro: Eric Roth. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Tariq Anwar. Música: Bruce Fowler, Marcelo Zarvos. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Jeannine Oppewall/Gretchen Rau, Leslie E. Rollins, Alyssa Winter. Produção executiva: Chris Brighan, Francis Ford Coppola, Howard Kaplan, Guy McElwaine, David Robinson. Produção: Robert De Niro, James G. Robinson, Jane Rosenthal. Elenco: Matt Damon, Angelina Jolie, Robert De Niro, Alec Baldwin, William Hurt, John Turturro, Tammy Blanchard, Billy Crudup, Joe Pesci, Lee Pace, Eddie Redmayne, Gabriel Macht, Michael Gambon, Timothy Hutton. Estreia: 11/12/06

Indicado ao Oscar de Direção de Arte/Cenários

"O bom pastor" é um filme caro. Caro e ambicioso. Ao retratar o surgimento da CIA, através dos olhos de um de seus primeiros agentes - e fazer isso com uma narrativa sofisticada, repleta de flashbacks e numerosos personagens em quase três horas de duração -, foi também um imenso risco comercial para a Universal Pictures, que herdou o projeto da Columbia e da MGM. Com um custo estimado em 90 milhões de dólares (uma fortuna para um filme sem efeitos visuais, cenas de ação ou um protagonista de fácil reconhecimento aos olhos do público médio), o segundo filme dirigido por Robert De Niro só chegou mesmo às telas graças ao empenho de seu diretor (que o tratava como projeto de estimação há pelo menos dez anos antes de sua estreia) e ao comprometimento de Matt Damon, jovem astro então com capacidade o bastante para tocar para frente qualquer produção graças ao sucesso dos dois primeiros filmes da série Bourne. Graças à tenacidade de ambos, o filme, cujo embrião surgiu em 1994 - quando o roteirista Eric Roth, em vias de ganhar um Oscar por "Forrest Gump: o contador de histórias", de Robert Zemeckis, apresentou a ideia à Francis Ford Coppola - finalmente viu a luz dos refletores no final de 2006, e quase como a crônica de uma morte anunciada, não fez barulho nas bilheterias.

Mas se o relativo fracasso comercial de "O bom pastor" não chegou a surpreender muita gente, o que mais chamou a atenção foi a esnobada que o filme levou da Academia: típico produto que disputa os principais Oscar, foi indicado apenas à estatueta de melhor direção de arte, que perdeu para "O labirinto do fauno", de Guillermo Del Toro. Não deixa de ser uma injustiça: da fotografia espetacular de Robert Richardson à trilha sonora discreta de Marcelo Zarvos, não há nada, em termos técnicos, que não seja impecável no resultado final. A reconstituição de época caprichada, a edição inteligente, o clima de suspense e paranoia criado pela direção e as interpretações no tom exato são flagrantes até mesmo ao espectador mais exigente. O problema é que, apesar disso tudo, o roteiro peca ao não oferecer, ao público, alguém com quem se identificar. O personagem principal, Edward Wilson, não permite qualquer empatia ou diálogo com a plateia - e essa frieza, que afastou Coppola da direção (mas não da produção executiva), acaba sendo o calcanhar de Aquiles da obra, um problema que nem o carisma de Matt Damon é capaz de superar.


Damon, aliás, está muito bem no papel central, em uma interpretação que ele afirma ter se inspirado no trabalho de Gene Hackman em "A conversação" (74), coincidentemente do mesmo Coppola a quem o filme foi oferecido em primeira mão. Como bom agente secreto, o Edward Wilson criado por Damon é lacônico, distante e aparentemente inexpressivo - enquanto seu interior é um tumultuado caos. É Damon quem dá o tom de todos à sua volta, evitando qualquer passo fora do minimalismo sublinhado pelas sombras da fotografia de Richardson, que evoca com sucesso os filmes noir dos anos 40 e 50 para enfatizar a construção dramática da história contada. Com duas linhas narrativas paralelas, "O bom pastor" começa às vésperas da crise na Baía dos Porcos, em 1961, quando o governo de John Kennedy estava no auge de seu conflito com Cuba e Fidel Castro. Enquanto o roteiro mostra as tentativas de Wilson em cooperar na resolução dos problemas políticos e fugir das suspeitas de que pode ser um traidor (descobrindo o nome do verdadeiro agente duplo), flashbacks dão conta de mostrar a forma como ele chegou a seu destino, retratando desde seus dias juvenis como parte de uma fraternidade universitária que lhe forneceu contatos e atalhos para chegar a Washington, até seu casamento com Clover Russell (Angelina Jolie) - uma relação marcada pela distância que seu trabalho impunha - e o relacionamento com o único filho, Edward Jr. (Eddie Redmayne), que resolve seguir os passos do pai e também entrar na CIA, apesar de ter testemunhado toda a sua trajetória marcada pela solidão.

Bem diferente do primeiro filme dirigido por De Niro - o despretensioso "Desafio no Bronx" (94), com ecos autobiográficos -, "O bom pastor" mostra que o cineasta sabe muito bem o que faz quando se trata de dirigir atores (e são muitos, todos conhecidos do grande público, às vezes em papéis bem pequenos, mas sempre muito importantes). Falta, porém, a experiência necessária para enxugar a trama e lhe injetar um dinamismo que lhe faria muito bem. Além de necessitar de certo conhecimento da história dos EUA, o espectador ainda é soterrado de informações, nomes e datas que, mais do que empurrar a trama adiante, apenas a tornam confusa demais para quem procura entretenimento. Quando finalmente o ritmo entra nos eixos, nos vinte minutos finais, já é tarde para empolgar àqueles que não são fãs incondicionais de histórias de espionagem - ainda que talvez suas inúmeras outras qualidades possam minimizar seus pequenos defeitos. No final das contas, é um filme adulto, complexo, de narrativa elegante e alguns bons momentos de tensão. Não é tão bom quanto poderia ser, mas pode ser que, com o passar do tempo, se torne um clássico a ser descoberto.

quinta-feira

A FERA DO ROCK

A FERA DO ROCK (Great balls of fire!, 1989, Orion Pictures, 108min) Direção: Jim McBride. Roteiro: Jack Baran, Jim McBride, livro de Myra Lewis, Murray Silver Jr.. Fotografia: Affonso Beato. Montagem: Lisa Day, Pembroke Herring, Bert Lovitt. Figurino: Tracy Tynan. Direção de arte/cenários: David Nichols/Lisa Fischer. Produção executiva: Michael Grais, Mark Victor. Produção: Adam Fields. Elenco: Dennis Quaid, Winona Ryder, Alec Baldwin, Stephen Tobolowski, John Doe, Trey Wilson, Lisa Blount. Estreia: 30/6/89


Uma das afirmações mais corretas que se pode fazer a respeito de “A fera do rock” é que, ao contrário de muitas cinebiografias de astros da música que chegam às telas com assustadora frequência, ele é um filme que foge radicalmente de academicismos e da tentação de mitificar seu protagonista. Figura principal de um escândalo que abalou sua carreira e o impediu de alcançar seu objetivo de ser “o novo Elvis Presley”, o roqueiro Jerry Lee Lewis encontrou no cineasta Jim McBride um cronista que, se combinou perfeitamente com sua personalidade anárquica e iconoclasta, ao mesmo tempo incomodou a todos: fãs, familiares, biógrafos e o próprio Lee Lewis. De nada adiantou McBride defender sua obra dizendo que nunca teve a intenção de criar um documento histórico – a gritaria foi grande e o resultado nem valeu tanto a pena assim. Nitidamente avesso a narrativas convencionais, “A fera do rock” fracassou nas bilheterias – e, a não ser que seja assistido como a grande brincadeira que no fundo ele é, é um filme bastante insatisfatório – e até um pouco bobo demais.

Talvez contaminado pelo tom quase folclórico de seu personagem principal, Jim McBride exagerou na alegoria e, rejeitando o naturalismo de sua filmografia até então – que incluía até mesmo um remake do clássico francês “Acossado” (rebatizado de “A força do amor” e merecidamente ignorado) -, construiu um filme que é uma celebração do kitsch. Das cores fortes que remetem ao Technicolor da época em que se passa sua ação até os cenários e os figurinos, tudo em “A fera do rock” transpira excessos. McBride brinca até mesmo quando acrescenta coreografias inesperadas a cenas aparentemente comuns, e jamais ultrapassa a superficialidade na construção de seus personagens. Assim como a casa de Lee Lewis e sua nova (e adolescente) esposa, tudo que o cerca parece ser de plástico, obviamente partes de um cenário construído de forma a renegar o realismo e acentuar o clima de eterna festa da vida do cantor (ao menos da vida como contada pelo roteiro – levemente inspirado na biografia escrita por Murray Silver Jr. com base nas memórias de Myra, a primeira (e mais polêmica) mulher do roqueiro. Se os próprios Silver e Myra repudiaram o resultado final é difícil saber até onde vão as liberdades tomadas pelo diretor – mas quem não procurar acuidade histórica e quiser apenas saber (ainda que pouco) da vida de Lee Lewis, o filme pode até ser um entretenimento razoável.



Para quem não sabe, Jerry Lee Lewis esteve a ponto de substituir Elvis Presley no coração das fãs – especialmente quando o rei do rock foi convocado para servir ao exército americano. Dono de uma personalidade expansiva (até demais) e de uma criatividade que muitas vezes assustava aos desavisados, Lee Lewis seguiu um caminho bastante diverso daquele trilhado por seu primo Jimmy Swaggart – que tornou-se um dos pastores católicos mais conhecidos dos EUA e que frequentemente batia de frente com as atitudes do roqueiro. Irresponsável e dono de um talento raro para transformar um simples piano em um instrumento capaz de levantar a plateia jovem, Lee Lewis praticamente jogou a carreira fora quando apaixonou-se e casou-se com sua prima de apenas 13 anos de idade, Myra (vivida por uma juvenil e encantadora Winona Ryder): com o escândalo descoberto, primeiro o público europeu e depois o resto do mundo, lhe virou as costas, em uma demonstração de conservadorismo radical. Não foi à toa: não apenas Myra era praticamente uma criança (como demonstra seu desespero ao perceber que não é capaz de cuidar da própria casa) como era filha do primo e colega do cantor – que havia lhe dado um lugar para morar quando ele estava começando a carreira. Mesmo a mentalidade mais aberta e liberal teria dúvidas a respeito do caso – dá para imaginar, então, na sociedade norte-americana dos anos 50...

Incorporando totalmente o espírito festivo da visão de Jim McBride, o ator Dennis Quaid faz de seu Jerry Lee Lewis um fauno libertino e hedonista – muitas vezes pesando a mão na caracterização e chegando perto do overacting. É difícil imaginar, por exemplo, como seria se outros projetos envolvendo o roqueiro tivessem ido adiante: Martin Scorsese, por exemplo, imaginava Robert De Niro no papel (e é impossível visualizar De Niro fazendo as macaquices de Quaid ou Scorsese abdicando de seu impecável bom gosto visual para abraçar o colorido cafona de McBride). E Michael Cimino também pensou em dar a sua versão da história, com Mickey Rourke (!!) no papel principal, o que seria no mínimo curioso. O fato é que McBride foi quem passou do plano à ação e, embora não tenha sido completamente feliz, pode-se destacar algumas boas ideias, como um jovem Alec Baldwin na pele Jimmy Swaggart e Winona Ryder (com um papel que quase foi de Drew Barrymore) como a inocente Myra – que sofre com o machismo do marido já na noite de núpcias, quando é acusada de “não comportar-se como uma virgem”. Ryder – que preferiu Myra a participar do elenco feminino de peso de “Flores de aço” e deu chance à Julia Roberts concorrer ao primeiro Oscar – está em um belo momento da carreira, dosando bem a candura e a paixão de sua personagem, que serve como um ponto de equilíbrio à bagunçada vida do protagonista. Ryder e Baldwin, que juntos também fariam “Os fantasmas se divertem” (88), são as melhores coisas do filme – a não ser que se conte, é claro, com a trilha sonora, regravada pelo próprio Jerry Lee Lewis e bem dublada por Dennis Quaid. Para quem gosta do bom e velho rock’n’roll é imperdível! Para os curiosos é apenas ok.

segunda-feira

DE CASO COM A MÁFIA

DE CASO COM A MÁFIA (Married to the mob, 1988, Orion Pictures, 104min) Direção: Jonathan Demme. Roteiro: Barry Strugatz, Mark R. Burns. Fotografia: Tak Fujimoto. Montagem: Craig McKay. Música: David Byrne. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: Kristi Zea/Nina Ramsey. Produção executiva: Joel Simon, Bill Todman Jr.. Produção: Edward Saxon, Kenneth Utt. Elenco: Michelle Pfeiffer, Matthew Modine, Dean Stockwell, Alec Baldwin, Mercedes Ruehl, Joan Cusack, Oliver Platt, Nancy Travis, Chris Isaak. Estreia: 11/8/88

Indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante (Dean Stockwell)

Muitas vezes, especialmente em Hollywood, há males que vem pra bem. Quando o cineasta Jonathan Demme - já celebrado pela comédia maluca "Totalmente selvagem" - assumiu as rédeas do projeto de "De caso com a máfia", os atores cotados para os papéis principais eram Jessica Lange e Tom Cruise. Não que os dois astros fossem incapazes (Cruise era um astro em ascensão e Lange já tinha um Oscar de coadjuvante em casa há uns bons anos), mas é difícil imaginar como teria ficado o filme com suas presenças, afinal ela já era considerada uma atriz séria e ele povoava os sonhos de milhares de adolescentes desde "Top Gun: ases indomáveis" (86). No fim das contas, Cruise preferiu - apesar das mudanças no roteiro solicitadas por ele - seguir seu caminho de galã e fazer "Cocktail" (88) e Lange nem chegou a ser convidada para o elenco. Melhor assim: ele foi substituído por Matthew Modine (menos carismático, mas um ator bem melhor) e o principal papel feminino foi parar nas mãos de Michelle Pfeiffer, em vias de tornar-se uma das mais requisitadas atrizes da época (não à toa, foi indicada ao Oscar de coadjuvante no mesmo ano, por "Ligações perigosas", de Stephen Frears). O resultado é um filme alto astral, quase esquizofrênico em sua mistura de gêneros e uma das produções que empurraram Demme para o mainstream - e, em consequência, para o Oscar de melhor direção por "O silêncio dos inocentes", três anos depois.


Assim como fez em "Totalmente selvagem", Demme não se prende a um único estilo narrativo, obrigando o espectador a acompanhar seus personagens por uma série de desvios, que vão da comédia romântica ao filme de gângster, do humor quase pastelão de Almodóvar à violência de Scorsese. Conduzindo com segurança um roteiro que foge do convencional, ele imprime um ritmo próprio à trama, oferecendo uma experiência bem mais rica ao público do que simplesmente uma história sobre embates entre mafiosos e a polícia. Com uma trilha sonora vibrante - que inclui até mesmo Jorge Benjor - e um visual propositalmente cafona, "De caso com a máfia" é um filme que não se leva a sério, e nesse caminho de quase autodeboche ganha a simpatia imediata da plateia, cativada com sua comunicação fácil e direta. É lógico que, para isso, conta com a luminosidade de Michelle Pfeiffer (com ótimo timing cômico) e com a atuação inspirada de Dean Stockwell, que acabou concorrendo ao Oscar de coadjuvante por seu desempenho como um chefão do crime ameaçado pelo ciúme da esposa.


Matthew Modine, saído das filmagens de "Nascido para matar" (87) e ainda traumatizado pelos longos meses de trabalho com Stanley Kubrick declarava que não via nada de engraçado no roteiro - e talvez por isso mesmo sua atuação como o agente do FBI Mike Downey soe tão verdadeiramente dotada de frescor: assim como o ator estava em meio a um filme sem saber exatamente o que estava fazendo, seu personagem também é pego no meio de um furacão e precisa aprender a lidar com um misto de sentimentos inesperados. Downey é um policial infiltrado encarregado de vigiar a bela Angela (Michelle Pfeiffer), que acaba de ficar viúva do mafioso Frank deMarco (Alec Baldwin) - o FBI acredita que ela seja amante de outro integrante da máfia, o expansivo chefão Tony Russo (Dean Stockwell), e a missão de Downey é descobrir, através dela, algo que possa levar o criminoso à cadeia. Acontece que o próprio Downey acaba se apaixonando por Angela - que não só recusa as investidas de Russo como deseja viver uma vida longe do crime organizado, dos "amigos" do falecido marido e principalmente da mulher de Russo, a possessiva Connie (Mercedes Ruehl).

Deliciosamente sarcástico, "De caso com a máfia" tira sarro dos filmes de gângster de forma inteligente e perspicaz, sem precisar apelar para a sátira explícita ou citações óbvias. Ao retratar os mafiosos como pessoas incapazes de lidar com situações banais (como o casamento ou o ciúme), o roteiro não apenas lhes tira o glamour como os deixa extremamente próximos do espectador. Essa opção de privá-los da sensação de perigo constante não deixa de ser corajosa - especialmente porque uma das subtramas do filme tem a ver com o risco que o jovem policial corre de ser descoberto -, mas ao mesmo tempo dá ao resultado final um tom mais anárquico e iconoclasta, típico de Jonathan Demme antes de tornar-se o bem-comportado diretor de "Filadélfia" (93) e "Sob o domínio do mal" (2004). Com o brilho de Michelle Pfeiffer no auge da beleza, a química perfeita entre Dean Stockwell e Mercedes Ruehl e uma trilha sonora das mais empolgantes - quem não se deixa levar logo de cara com Rosemary Clooney cantando "Mambo italiano"? -, é uma comédia das mais espertas da década de 80, e uma prova de que até mesmo temas sombrios podem render boas gargalhadas.

domingo

UM HOMEM ENTRE GIGANTES

UM HOMEM ENTRE GIGANTES (Concussion, 2015, Sony Pictures, 123min) Direção: Peter Landesman. Roteiro: Peter Landesman, artigo "Brain's game" de Jeanne Marie Laskas. Fotografia: Salvatore Totino. Montagem: William Goldenberg. Música: James Newton Howard. Figurino: Dayna Pink. Direção de arte/cenários: David Crank/James V. Kent. Produção executiva: Greg Basser, Bruce Berman, David Crockett, Michael Schaefer, Ben Waisbren. Produção: Elizabeth Cantillon, Giannina Scott, Ridley Scott, Larry Shuman, David Wolthoff. Elenco: Will Smith, Alec Baldwin, Albert Brooks, Gugu Mbatha-Raw, David Morse, Arliss Howard, Mike O'Malley, Eddie Marsan, Paul Reiser, Luke Wilson. Estreia: 10/11/15

"Um homem entre gigantes" é um filme corajoso. Não apenas porque dá a Will Smith a chance de mostrar-se um competente ator dramático - mesmo porque ele já fez isso outras vezes, chegando a concorrer ao Oscar de melhor ator em duas ocasiões, por "Ali" (2001) e "À procura da felicidade" (2006). A maior ousadia do filme - que tem Ridley Scott como um de seus produtores - é bater de frente com uma das maiores potências financeiras dos EUA: o futebol americano. Na verdade, quem primeiro teve esse peito foi o médico legista Bennet Omalu, um nigeriano que, sem a paixão pelo esporte cultivada desde o berço, apresentou uma estarrecedora verdade científica que pôs em risco uma das maiores instituições ianques - assim como sua própria vida e de sua família ainda começando. As conclusões de Omalu foram publicadas na matéria "Brain's game", escrita por Jeanne Marie Laskas para a revista GQ, e ficaram à disposição do público interessado, mas colocar um astro do porte de Smith no papel principal de um filme de um grande estúdio (Sony Pictures) para contar uma história que desmistifica uma paixão tão forte não deixa de ser uma atitude valente, e p resultado não poderia ter sido outro: com um orçamento discreto de 35 milhões de dólares, "Um homem entre gigantes" naufragou nas bilheterias americanas, sem cobrir nem mesmo seu custo de produção - e só não passou totalmente em branco nas cerimônias de premiação mais conhecidas porque conseguiu arrancar uma indicação ao Golden Globe de melhor ator dramático. Como se pode perceber, coragem demais às vezes dá muito errado!

Porém, se fracassou comercialmente e em conquistar o voto dos viciados eleitores da Academia, "Um homem entre gigantes" merecia sorte muito melhor. Não apenas é um empolgante drama médico - com elementos de suspense muito bem dosados pelo roteiro do também diretor Peter Landesman - como também é de suma importância por tratar de um assunto normalmente ignorado pela grande mídia: as sérias e fatais consequências de um estilo de vida considerado glamouroso e excitante, mas que esconde, por trás de seus capacetes, a decadência mental e física. Landesman - que tratou sobre o assassinato de John Kennedy no igualmente pouco visto "JFK: a história não contada" (2013) - sabe equilibrar com destreza tanto o lado médico da trama (sem cair em didatismos aborrecidos) quanto o drama pessoal e profissional de seu protagonista (um imigrante negro que bate de frente com a poderosa liga de futebol americano, a temida e respeitada NFL). Acertando em cheio no tom sério e urgente da narrativa, o cineasta (ainda em seu segundo filme) não cai na armadilha do sensacionalismo e foge com inteligência de questões raciais, apelando para os problemas pessoais de Omalu quando estritamente necessário ao andamento da história. Jornalista investigativo antes de tornar-se cineasta, Landesman mantém a sobriedade de sua primeira vocação, com uma produção satisfatória tanto informativa quanto dramaticamente - mérito também do excelente elenco.


Se Will Smith mais uma vez mostra sua competência como ator sério - embora às vezes fique a centímetros do exagero - os coadjuvantes de "Um homem entre gigantes" também são dignos de nota, a começar por David Morse, quase irreconhecível como Mike Webster, o primeiro ex-jogador cujo cadáver cai nas mãos de Bennet Omalu, dando início a uma investigação estarrecedora: morto aos 50 anos, Webster (um ídolo do futebol americano, adorado pelos torcedores e admirado pela sociedade em geral) demonstra, em sua necropsia, severos danos cerebrais, incompatíveis com sua idade. Mesmo indo contra ordens superiores, o médico resolve fazer exames mais detalhados - e outras duas mortes de jogadores aposentados que apresentavam comportamento errático e mentalmente desequilibrado o levam até a conclusão de que todos sofriam de um mal causado pelas constantes concussões sofridas durante as partidas de futebol. Apoiado por outros médicos, ele conta também com a ajuda de Julian Bailes (Alec Baldwin), que fica a seu lado quando a liga de futebol americano resolve desacreditá-lo - ou, pior ainda, usar de ameaças reais para impedi-lo de revelar a verdade e colocar em risco uma das mais sólidas instituições do país.

Até mesmo quando se distancia um pouco do tema central e inclui uma história de amor no roteiro - Omalu se apaixona e casa com a jovem Prema (Gugu Mbatha-Raw), imigrante a quem ele hospeda a pedido de amigos -, o filme de Landesman não perde o ritmo e o interesse. Ao contrário de ser apenas um alívio romântico, o relacionamento entre o casal serve para definir o tamanho das perdas a que o protagonista se arrisca quando entra como um Davi na luta contra o Golias representado pelo corporativismo das instituições esportivas norte-americanas. Os momentos de suspense surgem quando Prema, grávida,  passa a ser o principal alvo dos inimigos do marido, cada vez mais ávido em provar não apenas que está certo (e que se não houver mudanças outras mortes irão ocorrer) mas também em mostrar que sua formação na África não faz dele um médico com menos qualidades e competência do que seus colegas americanos. Essa forma sutil de tocar ainda no preconceito é outro pequeno grande trunfo de "Um homem entre gigantes", um filme que merece ser valorizado por suas qualidades dramáticas, por sua temática relevante e pela coragem de expor ao grande público uma verdade que - apesar de tudo - parece não ter mudado muita coisa na mentalidade dos magnatas do esporte. Um belo filme e mais uma bela atuação de Will Smith!

terça-feira

PARA SEMPRE ALICE

PARA SEMPRE ALICE (Still Alice, 2014, Killer Films/BSM Studio, 101min) Direção: Richard Glatzer, Wash Westmoreland. Roteiro: Richard Glatzer, Wash Westmoreland, romance de Lisa Genova. Fotografia: Denis Lenoir. Montagem: Nicolas Chaudeurge. Música: Ilan Eshkeri. Figurino: Stacey Battat. Direção de arte/cenários: Tommaso Ortino/Susan Perlman. Produção executiva: Emilie Georges, Celine Rattray, Marie Savare, Maria Shriver, Trudie Styler, Christine Vachon. Produção: James Brown, Pamela Koffler, Lex Lutzus. Elenco: Julianne Moore, Alec Baldwin, Kristen Stewart, Kate Bosworth, Shane McRae, Hunter Parrish. Estreia: 08/9/14 (Festival de Toronto) 

Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Julianne Moore)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Julianne Moore)
 
Por mais que tente, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood – aquela que distribui anualmente o Oscar – não consegue disfarçar sua predileção quase fetichista por personagens vitimados por alguma doença e/ou impelidos a lutar contra alguma injustiça social. Por isso, quando saíram as indicações à estatueta para a cerimônia de 2015, não houve nenhuma surpresa com a lembrança – e o favoritismo – de Julianne Moore por seu desempenho em “Para sempre Alice”. Não que Moore não merecesse a indicação (e a posterior vitória), mas havia quem defendesse que seu desempenho em “Mapas para as estrelas”, de David Cronenberg – que lhe deu a Palma de Ouro no Festival de Cannes – era ainda mais corajosa, por fugir dos clichês de dramas médicos e criticar a própria indústria do cinema. No fim das contas, porém, os conservadores e previsíveis acadêmicos acabaram por acolher o igualmente brilhante – mas menos surpreendente – trabalho de Moore no filme da dupla de diretores Richard Glatzer e Wash Westmoreland. Baseado em um livro de Lisa Genova, “Para sempre Alice” não acrescenta muito a um subgênero bastante popular do cinema americano - e também muito criticado pelos intelectuais – mas é salvo pela dignidade de seu roteiro sóbrio e pela atuação de um elenco admirável, que, além de Julianne, conta ainda com Alec Baldwin e uma Kirsten Stewart completamente diferente de sua apática Bella Swan da série “Crepúsculo”.
Excepcional como sempre, Julianne Moore – uma grande atriz que consegue equilibrar com raro sucesso produções independentes e blockbusters de qualidade duvidosa – é a base na qual se constrói toda a narrativa de “Para sempre Alice”, linear e de emoções discretas, que se avolumam gradativamente até o final que, para surpresa geral, abdica das lágrimas fáceis para optar pela delicadeza. A protagonista é Alice Howland, uma linguista festejada e admirada como uma das mais competentes profissionais de sua área. De uma hora para outra, ela começa a esquecer nomes, trocar palavras e perder-se em ambientes muito conhecidos. Procurando um médico, Alice se vê diante de uma terrível realidade: uma espécie rara de Alzheimer, hereditária e precoce. Aos 50 anos, alguém que sempre teve absoluto controle sobre sua cognição passa a depender, então, de lembretes espalhados pela casa e no celular e conviver com olhares paternalistas e compassivos da família. Apoiada pelo marido, John (Alec Baldwin), ela acaba por reaproximar-se da filha caçula, Lydia (Kirsten Stewart), que batalha por uma carreira como atriz.


Um dos diretores de “Para sempre Alice”, Richard Glatzer, morreu antes que Moore conhecesse o gostinho de ter um Oscar nas mãos: vítima de uma doença degenerativa que o impedia de falar e lhe fez comandar as filmagens através de mensagens de texto (e da colaboração com seu co-diretor Westmoreland), Glatzer deve ter se identificado com o drama de sua protagonista, mas nem por isso carregou a mão na tragédia, salpicando-a aqui e ali com doses de poesia e delicadeza. Contando com a ajuda de trechos da peça teatral “Angels in America”, de Tony Kushner – que fala sobre os primeiros anos da AIDS na comunidade internacional e já foi adaptado para a televisão, via HBO, com um elenco all-star que incluía Meryl Streep e Al Pacino – o roteiro da dupla de diretores evita o dramalhão fácil, preferindo oferecer à plateia uma narrativa mais seca, recheada de elipses contundentes e que mostram os efeitos gradativos da doença sem buscar a piedade do espectador: valente e racional até mesmo quando tenta solucionar seus problemas (em uma sequência angustiante), Alice não se transforma, em momento algum, na doente coitadinha que tanto agrada os produtores hollywoodianos. Mesmo que algumas cenas comovam o público – por razões óbvias e impossíveis de driblar em produções com tal temática – o filme jamais manipula seus sentimentos, preferindo focar sua atenção na relação de carinho e respeito que Alice encontra em sua família, que no meio do furacão, é aumentada com a chegada de um casal de gêmeos, nascidos de sua filha mais velha, Anna (Kate Bosworth) – também dotada do gene que pode, futuramente, desenvolver a mesma doença da mãe.
“Para sempre Alice” não é uma obra-prima revolucionária ou capaz de mudar os rumos de seu gênero. Mas é uma obra que respeita seu tema e seu público, conduzindo com elegância e inteligência uma história que poderia facilmente descambar para o dramalhão. Mérito da direção, sim, mas principalmente da interpretação arrasadora de Julianne Moore, que conquista a simpatia da plateia desde as primeiras cenas e, aos poucos, vai mergulhando junto com ela em direção a mares bravios e pouco agradáveis. É seu imenso talento que torna suportável essa viagem triste e deprimente que consegue, paradoxalmente, terminar com uma ponta de otimismo e poesia que apenas reitera sua vocação para sobressair-se entre seus congêneres.

O PREÇO DA TRAIÇÃO

  O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...