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segunda-feira

ELVIS

 


ELVIS (Elvis, 2022, Warner Bros/Bazmark Films/Roadshow Entertainment, 159min) Direção: Baz Luhrmann. Roteiro: Baz Luhrmann, Craig Pearce, Sam Bromell, Jeremy Doner, estória de Baz Luhrmann, Jeremy Doner. Fotografia: Mandy Walker. Montagem: Jonathan Redmond, Matt Villa. Música: Elliott Wheeler. Figurino: Catherine Martin. Direção de arte/cenários: Catherine Martin, Karen Murphy/Shaun Barry, Beverly Dunn. Produção executiva: Toby Emmerich, Kevin McCormick, Andrew Mittman, Courtenay Valenti. Produção: Gail Berman, Baz Luhrmann, Catherine Martin, Patrick McCormick, Schuyler Weiss. Elenco: Austin Butler, Tom Hanks, Olivia DeJonge, Richard Roxburg, Kelvin Harrison Jr., Kodi Smith-McPhee, Chaydon Jay. Estreia: 25/5/2022 (Festival de Cannes)

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Austin Butler), Fotografia, Montagem, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Som, Maquiagem
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator (Comédia/Musical): Austin Butler

Quem conhece a filmografia do cineasta australiano Baz Luhrmann sabe que não se poderia esperar que "Elvis", seu longa-metragem sobre o rei do rock, fosse uma cinebiografia convencional e quadradinha. Rejeitando (pero no mucho) quase todas as regras de um gênero que raramente se arrisca a inovações, Luhrmann não se restringe a encapsular, em pouco mais de duas horas e meia de projeção, os 42 anos do célebre cantor: embaralhando todas as cartas à sua disposição - graças a uma edição magistral e a um roteiro que não se prende a cronologias -, o homem que deu ao mundo o visceral "Moulin Rouge: o amor em vermelho" (2001) faz a sua homenagem não apenas ao artista Presley, mas também ao homem Elvis, à força transformadora e rebelde da música e - por que não? - a um período crucial da história sócio-política dos EUA, quando figuras seminais como Martin Luther King e Robert Kennedy dividiam espaço com personalidades infames como Charles Manson. Além disso, foge do previsível ao centrar seu foco na relação entre o cantor e seu empresário/mentor/amigo/algoz, Coronel Tom Parker - interpretado com a garra de sempre por um irreconhecível Tom Hanks (vítima de críticas pouco simpáticas por parte da imprensa).

Narrado por Parker - o que oferece uma dose a mais de ironia e cinismo à trajetória do rockstar -, "Elvis" percorre o caminho de Presley desde o começo de seu sucesso até sua trágica morte, em agosto de 1977. No entanto, o roteiro passa ao largo de momentos cruciais à carreira do protagonista - como sua carreira em Hollywood -, para concentrar-se em suas relações interpessoais (com os pais, com o empresário, com Priscilla) e em suas tentativas de fugir das regras morais de uma sociedade conservadora e racista. Isso não quer dizer, no entanto, que Luhrmann prive a plateia de números musicais: eles existem e são avassaladores, especialmente graças ao trabalho impecável de Austin Butler no papel-título. Praticamente desconhecido do grande público - apesar de ter o cultuado "Era uma vez.... em Hollywood" (2019) no currículo -, Butler foi a escolha perfeita do diretor: seu desempenho evita as armadilhas que uma mera imitação poderia trazer e envolve o espectador (e os fãs) ao iluminar um ser humano palpável e com sentimentos reais, a anos-luz de qualquer caricatura. Seja no palco, recriando as polêmicas coreografias que tanto incomodavam os puritanos, ou nos bastidores, em momentos mais intimistas, o jovem ator faz esquecer que, a princípio, pouco lembra fisicamente o verdadeiro Elvis. Sua entrega - que lhe rendeu um Golden Globe e uma merecida indicação ao Oscar de melhor ator - é o maior trunfo de um filme que tem muitos deles.
 
 
É inegável que "Elvis" peca na maneira de informar ou detalhar situações importantes da vida e da carreira de seu protagonista - a impressão é que muita coisa passa correndo na tela, mal dando tempo ao público de entender tudo de forma consistente. Porém, levando-se em conta o estilo festivo e espalhafatoso de Baz Luhrmann, tudo faz sentido. Um celebrante do kitsch desde seu primeiro trabalho para as telas - o cult "Vem dançar comigo" (1992) -, o cineasta encontrou no universo feérico das apresentações do cantor um terreno fértil para exercitar suas obsessões visuais. Não para menos, conta com sua fiel escudeira, Catherine Martin, na concepção artística do projeto - casada com o diretor desde 1997 e com quatro Oscar na prateleira (por "Moulin Rouge" e "O grande Gatsby", de 2013). Juntos, eles imprimem em seus filmes um estilo único, facilmente reconhecível e controverso: a cada fã deslumbrado com seus exageros estéticos, há um detrator insatisfeito com tamanha opulência. Tal divisão está, inclusive, no cerne de "Elvis": tudo que faz da filmografia de Luhrmann uma exceção dentro da indústria hollywoodiana está presente em seu sexto longa, para o bem ou para o mal. Em sua obra não há espaço para elocubrações psicológicas ou aprofundamentos dramáticos - o que importa é o que está diante dos olhos do espectador e como isso pode lhe afetar emocionalmente. Em "Elvis" isso está patente em cada escolha estética, em cada ângulo de câmera, em cada corte de edição. Interessa a Luhrmann soterrar a plateia de informações visuais e sonoras, para conduzí-la a uma viagem sinestésica. Quem iniciar o filme procurando uma narrativa comum certamente irá levar um choque. Quem sabe com quem está lidando vai se confrontar com uma produção caprichada, tecnicamente irrepreensível, emocional e reverente - à obra de Presley, à sua figura como ser humano e, aplausos a isso, à importância da cultura negra para sua música e seu sucesso.

"Elvis" é um grande filme. Tem defeitos claros - quem não conhece direito a história do roqueiro provavelmente ainda ficará com uma série de perguntas ao final da sessão -, mas tem qualidades o bastante para amenizar qualquer pecadilho. E, como bom produto cultural, despertou uma nova geração de fãs e reconquistou aqueles que o tempo havia espalhado pelo caminho. Merecidamente indicado a oito Oscar (incluindo melhor filme), acabou atropelado por uma alucinação coletiva chamada "Tudo em todo lugar ao mesmo tempo", mas qualquer fã de cinema é obrigado a reconhecer que é muito superior em todos os quesitos. Mais uma vez Baz Luhrmann foi roubado - e assim como aconteceu com "Moulin Rouge", ficou de fora dos candidatos à estatueta de melhor diretor. Coisas da Academia!

sexta-feira

O GRANDE GATSBY

O GRANDE GATSBY (The Great Gatsby, 2013, Warner Bros/Village Roadshow Pictures, 143min) Direção: Baz Luhrmann. Roteiro: Baz Luhrmann, Craig Pearce, romance de F. Scott Fitzgerald. Fotografia: Simon Duggan. Montagem: Jason Ballantine, Jonathan Redmond, Matt Villa. Música: Craig Armstrong. Figurino: Catherine Martin. Direção de arte/cenários: Catherine Martin/Beverley Dunn, Eva Starlite. Produção executiva: Bruce Berman, Shawn "Jay Z" Carter, Barrie M. Osborne. Produção: Lucy Fisher, Catherine Knapman, Baz Luhrmann, Catherine Martin, Douglas Wick. Elenco: Leonardo DiCaprio, Carey Mulligan, Tobey Maguire, Joel Edgerton, Isla Fischer, Jason Clarke. Estreia: 01/5/13

Vencedor de 2 Oscar: Figurino, Direção de Arte/Cenários

Quem conhece o cinema do australiano Baz Luhrmann sabe exatamente o que esperar de sua adaptação do clássico americano "O grande Gatsby", de F. Scott Fitzgerald. Deixando de lado a suntuosidade discreta e fleumática da versão de Jack Clayton, lançada em 1974 e estrelada por Robert Redford e Mia Farrow - e vencedora do Oscar de figurino - o homem que deu ao mundo obras que são um louvor incontestável ao kitsch, como "Vem dançar comigo" e "Moulin Rouge, o amor em vermelho", reitera suas convicções estéticas ao compor uma sinfonia de cores e opulência que, ao contrário do que se poderia esperar, casa perfeitamente com a história do romance de Fitzgerald. Se o filme de Clayton é considerado quase unanimemente chato pela crítica e pelo público por seguir fielmente o livro, a obra de Luhrmann irradia luz, calor e paixão na medida certa - ainda que, como sempre acontece com seus trabalhos, carregue nas tintas em seu começo, para somente depois envolver a plateia na história.

Tendo em vista seu currículo - onde o luxo e a efervescência cultural são ingredientes indispensáveis - é quase impossível pensar em outro diretor mais capaz do que Luhrmann de traduzir em imagens as palavras clássicas do homem que é também o criador do inesquecível Benjamin Button. Fotografada com precisão pelo neozelandês Simon Duggan, a recriação da Long Island dos anos 20 é perfeita em sua concepção: a ideia do diretor e de seus fieis colaboradores (entre eles a sua mulher, Catherine Martin, responsável pelo desenho de produção e pelos figurinos, ambos premiados com o Oscar) não é ser fiel à realidade, e sim, às memórias de quem narra a estória, no caso, o escritor Nick Carraway (vivido com a habitual falta de entusiasmo por Tobey Maguire). Com sua visão de literato, Carraway não deixa de misturar ao real uma pitada bastante grande de poesia e ludicidade. Os olhos da audiência são os olhos de Carraway, e essa liberdade de ponto de vista é que transforma "O grande Gatbsy" via Luhrmann em, mais do que uma história de amor, um espetáculo de forma, cor e o sempre bem-vindo anacronismo musical que faz a delícia de seus fãs.


Se em "Moulin Rouge" o cineasta contou uma história passada no final do século XIX utilizando como trilha sonora nomes tão aparentemente incongruentes como Madonna, Nirvana, Paul McCartney e David Bowie, dessa vez ele conta com Beyoncé, Lana Del Rey e Florence Welch como moldura para suas insanidades visuais. Porém, aqui a música não é o prato principal, e sim um acompanhamento de luxo a uma trama de amor desesperado, contada com a sensibilidade e o ritmo do século XXI. Para tal, Luhrmann volta a contar com Leonardo DiCaprio, a quem ajudou a transformar em ídolo adolescente em 1996, com sua versão psicodélica de "Romeu e Julieta". DiCaprio - ainda tentando livrar-se da eterna imagem juvenil - vive o personagem-título, Jay Gatsby, um milionário conhecido por oferecer festas gigantescas em sua mansão em Long Island e que desperta a curiosidade de seu jovem vizinho, um aspirante a escritor que se vê envolvido no mundo alucinante e festivo dos anos 20. Não demora muito, porém, para que as razões que levam Gatsby a ser o anfitrião mais conhecido das redondezas sejam conhecidas: apaixonado por uma antiga namorada, ele vê nessa vida de pompa e circunstância a oportunidade de reencontrá-la. O escritor não demora também a descobrir que tal namorada é sua prima, a bela Daisy Buchanam (Carey Mulligan), casada com o infiel e pouco dado a delicadezas Tom (Joel Edgerton). O triângulo amoroso, potencializado pelo caráter violento de Tom e pela impossibilidade de Daisy em abdicar de sua vida familiar, acaba banhando o belo litoral em sangue e lágrimas (sempre iluminados com um capricho arrebatador, dessa vez filmado em 3D).

Se Leonardo DiCaprio não consegue fazer de seu Jay Gatsby uma figura potente e carismática a ponto de justificar o título do filme - chegando a ser irritante em alguns importantes momentos - e Tobey Maguire nunca ultrapassa o seu nível tradicional de interpretação, é inegável que Baz Luhrmann tem em mãos dois trunfos absolutos em termos dramáticos: Carey Mulligan e Joel Edgerton. O ator - que esteve em filmes elogiados como "Reino animal" e "Guerreiro", mas ainda não teve o devido reconhecimento - encontra o tom perfeito para seu Buchanan, roubando todas as cenas em que aparece. E Mulligan - que dispensa maiores comentários - cria uma Daisy etérea, delicada e frágil na medida certa, valorizada pelo figurino impecável e por seu talento imenso. Se o visual acachapante criado por Luhrmann é o corpo de "O grande Gatsby", Carey é sua alma, mesmo tendo em suas mãos uma personagem nem sempre amável ou de atitudes compreensíveis. O olhar de Mulligan, expressivo e melancólico, é a tradução perfeita da ressaca que veio depois dos esfuziantes anos 20 retratados por Fitzgerald. Um acerto gigantesco na escolha do elenco e que faz do filme um programa obrigatório.

quarta-feira

MOULIN ROUGE, O AMOR EM VERMELHO

MOULIN ROUGE, O AMOR EM VERMELHO (Moulin Rouge, 2001, 20th Century Fox, 127min) Direção: Baz Luhrmann. Roteiro: Baz Luhrmann, Craig Pearce. Fotografia: Donald McAlpine. Montagem: Jill Bilcock. Música: Craig Armstrong. Figurino: Catherine Martin, Angus Strathie. Direção de arte/cenários: Catherine Martin/Brigitte Broch. Produção: Fred Baron, Martin Brown, Baz Luhrmann. Elenco: Nicole Kidman, Ewan McGregor, John Leguizamo, Jim Broadbent, Richard Roxburgh, Kyle Minogue. Estreia: 09/5/01 (Festival de Cannes)

Indicado a 8 Oscar: Melhor Filme, Atriz (Nicole Kidman), Fotografia, Montagem, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Som, Maquiagem
Vencedor de 2 Oscar: Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme Comédia/Musical, Atriz Comédia/Musical (Nicole Kidman), Trilha Sonora Original

É bom estar preparado! Poucas vezes aconteceu, na história do cinema, um musical como "Moulin Rouge", uma ousadia do diretor australiano Baz Luhrmann, que já transformou "Romeu e Julieta", de Shakesperare, em um filme de ação ruidoso e violento. Cafona, exagerado e quase esquizofrênico como o amor em si, "Moulin Rouge" é, sem dúvida, mais do que um simples filme: é uma experiência sensorial rara e empolgante.

Diferentemente dos musicais produzidos por Hollywood - e raríssimos até então desde sua glória nos anos 40 e 50 - "Moulin Rouge" joga canções pop contemporâneas em uma trágica história de amor passada no final do século XIX em Paris. Assim sendo, cortesãs cantam Queen e Madonna, escritores românticos entoam Elton John e prostitutas dançarinas seduzem os clientes que se divertem cantando Nirvana. Parece um samba do crioulo doido e no fundo o é. Sem medo de parecer brega, Luhrmann - também autor de "Vem dançar comigo", uma pérola do cinema kistch - costura sua excêntrica trilha sonora em um filme que também mistura romance, comédia, vaudeville e suspense. Em meio a cores quentes e uma reconstituição de época cuidadosa mas principalmente criativa e livre de amarras convencionais, o jovem escritor Christian (Ewan McGregor, saindo-se muito bem em seu primeiro papel de galã romântico) chega à Paris de 1899 disposto a criar sua obra-prima mesmo contra a vontade de seu pai, que teme que ele "desperdice sua vida com uma dançarina de can-can". Logo que chega à cidade, o rapaz une-se à troupe do pintor Toulouse-Lautrec (um John Leguizamo tornado anão graças à computação gráfica) e assume o posto de autor do espetáculo teatral que dará voz ao movimento boêmio liderado pelo artista plástico. Em busca de patrocínio para seu projeto, o grupo vai à mais famosa boate da cidade, o Moulin Rouge, lar de dançarinase cortesãs, propriedade de Harold Zidler (Jim Broadbent). A ideia é convencer a estrela do local, a bela Satine (Nicole Kidman no auge do glamour, da beleza e do talento) a fazer parte da turma e assim conseguir dinheiro para a montagem. No entanto, assim que vê Satine, Christian se apaixona por ela. Seu idílico romance, porém, é ameaçado pelo Duque (Richard Roxburg), que, também encantado por ela, tem o destino da boate em suas mãos e pode por tudo a perder.


Na verdade, o roteiro de Luhrmann e Craig Pearce é apenas uma desculpa para o seu show visual e auditivo. A fotografia de Donald McAlpine aproveita cada ângulo de cada cena para surpreender e entontecer a platéia, deixando-a sem fôlego em números musicais quase inacreditáveis, editados por um insano Jill Bilcock – não à toa tanto a fotografia quanto a montagem foram indicados ao Oscar. O uso quase exaustivo de cores berrantes pode até mesmo ferir uma retina mais sensível, mas a coragem do diretor em abdicar de sutilezas em nome da diversão e do inesperado vale cada minuto. E a direção de arte – de uma criatividade ímpar e premiada com o Oscar, assim como o figurino caprichado – cumpre seu papel com louvor, nunca deixando o público esquecer que está defronte de uma das maiores manifestações de tudo que o cinema de entretenimento pode oferecer - ainda que seja "over" em inúmeros momentos.

E entretenimento parece ser a palavra de ordem em “Moulin Rouge”. Assim como em “Vem dançar comigo” nada é para ser levado exatamente a sério em “Moulin Rouge”. Absurdos são jogados à tela a cada sequência, sem objetivos maiores do que atingir o objetivo de divertir e emocionar a platéia por duas horas. Emocionar, sim. Apesar das brincadeiras visuais, do uso de “Like a virgin”, de Madonna em uma cena enlouquecida e do clima de comédia de erros de seu começo, “Moulin Rouge” é acima de tudo uma história de amor trágica e desesperada, vivida com perfeição por um casal com uma química irretocável. Quando estão em cena juntos, Nicole Kidman e Ewan McGregor soltam faíscas, comovendo aqueles que acreditam na verdade, na beleza e principalmente no amor acima de tudo. Cantando, eles surpreendem por seus dotes vocais e é preciso muita má-vontade para não ficar com um sorriso no rosto depois do dueto em cima de um elefante, onde Christian tenta convencer Satine a entregar seu amor a ele entoando trechos de uma dúzia de canções pop, de U2 a Paul McCartney.

Repleto de sequências eletrizantes e contando com um fascinante casal central, "Moulin Rouge" é paixão em estado puro, um exagero em forma de película que conquistou até mesmo a sisuda Academia de Hollywood, que o indicou a 8 estatuetas, incluindo Melhor Filme. Quem levou o prêmio foi o sensível mas quadradinho "Uma mente brilhante". Os vestutos velhindos da Academia ainda não estavam prontos para o turbilhão que é a obra-prima de Baz Luhrmann.

domingo

ROMEU + JULIETA

ROMEU + JULIETA (William Shakespeare's Romeo and Juliet, 1996, 20th Century Fox, 120min) Direção: Baz Luhrmann. Roteiro: Baz Luhrmann, Craig Pearce, peça teatral de William Shakespeare. Fotografia: Donald McAlpine. Montagem: Jill Bilcock. Música: Nellee Hooper. Figurino: Kym Barrett. Direção de arte/cenários: Catherine Martin/Brigitte Broch. Produção: Baz Luhrmann, Gabriella Martinelli. Elenco: Leonardo DiCaprio, Claire Danes, John Leguizamo, Paul Rudd, Pete Postletwhaite, Paul Sorvino, Brian Dennehy, Diane Venora, Christina Pickles, Harold Perrineau Jr., Vondie Curtis-Hall, Miriam Margoyles, Jamie Kennedy, Jesse Bradford. Estreia: 01/11/96

Indicado ao Oscar de Direção de Arte/Cenários
Festival de Berlim - Melhor Diretor (Baz Luhrmann), Melhor Ator (Leonardo DiCaprio) 

A primeira cena já dá uma pista sobre o que vem pela frente: em vez de empolados arautos em roupas de época, uma apresentadora de telejornal anuncia o que a plateia verá nas próximas duas horas. Com uma montagem frenética e ruidosa, Baz Luhrmann desconstrói o preconceito contra a tradição e entrega sua versão lisérgica, sexy e violenta de uma das mais famosas histórias de amor da história do teatro. "Romeu + Julieta" é mais do que uma refilmagem da mais clássica obra de Shakespeare: é a reinvenção em formato MTV de uma trama universal que vem emocionando gerações há muitos séculos. E como não poderia deixar de ser, a ousadia do cineasta australiano encontrou tanto admiradores apaixonados quanto detratores ferrenhos.

Não é de admirar que os puristas tenham se chocado com a coragem de Luhrmann (diretor do divertidamente brega "Vem dançar comigo"): apesar de manter o texto de Shakespeare intacto, ele substituiu espadas por armas de grosso calibre, transformou Mercúcio em uma drag-queen negra, apresenta um padre Lourenço tatuado e, no primeiro encontro do casal de protagonistas, o herói (vivido por um Leonardo DiCaprio em vias de tornar-se coqueluche mundial graças à "Titanic") está sob o efeito de ecstasy. Somadas a uma edição alucinante, um desenho de som que atinge os mais altos decibéis e uma direção de arte que eleva o kitsch a um status de arte (algo que Luhrmann já havia feito antes, e atingiria seu ápice em "Moulin Rouge" cinco anos depois), essas "transgressões" do cineasta australiano fizeram de "Romeu + Julieta" um dos filmes mais comentados do início da segunda metade da década de 90.

Para quem não sabe do que se trata - ou seja, quem não esteve no planeta Terra nos últimos quatrocentos anos - "Romeu + Julieta" (assim mesmo, com um sinal de adição ao invés do tradicional '&') conta a trágica história de amor proibida entre Romeu Montéquio (Leonardo DiCaprio) e Julieta Capuleto (a ótima Claire Danes). Herdeiros únicos de duas famílias cuja inimizade já vem de longa data - e que se transmite aos agredados dos clãs - eles se conhecem e se apaixonam durante uma festa à fantasia na Mansão Capuleto. Cientes dos problemas que seu romance irá enfrentar, o jovem casal conta com a ajuda do Frei Lourenço (Pete Postletwhaite), que acredita que o nascente amor poderá finalmente trazer paz à cidade de Verona (aqui transposta da Itália para uma praia ao estilo Miami). Mas as coisas saem do controle quando um primo de Julieta, Teobaldo (John Leguizamo) mata Mercúcio (Harold Perrineau Jr., da série "Lost"), melhor amigo de Romeu, o que precipitará uma tragédia de grandes proporções.


Quem espera ver na versão de Baz Luhrmann a delicadeza lírica da idealizada por Franco Zefirelli em 1968 certamente levará um susto. Na concepção anos 90 da história do bardo não há espaço para tempos mortos e até mesmo os belíssimos diálogos românticos entre os protagonistas são declamados de uma forma que soa nova, moderna e jamais vista. A famosa cena do balcão, por exemplo, tem lugar na piscina da casa de Julieta, filmada com precisão por Lurhmann e seu diretor de fotografia Donald McAlpine, aqui realizando um trabalho excepcional que explora a luz natural com sensibilidade ímpar: o auge do amor entre Romeu e Julieta é colorido, romântico, com belos crepúsculos, mas quando a desgraça se aproxima é a chuva agressiva e a noite mais negra que tomam seu lugar. E na dolorosa cena final é impressionante a soma perfeita entre o cenário ultra-colorido, a fotografia sóbria, a trilha sonora delicada de Neellee Hooper e as interpretações perfeitas do casal central. A química entre DiCaprio e Claire Danes (saindo da série de TV "Minha vida de cão") é tão sensacional que dá pra perdoar facilmente os momentos iniciais do filme, tão rápidos e barulhentos que talvez incomodem o público mais tradicional - e vale lembrar que Natalie Portman quase ficou com o papel de Julieta, só sendo substituída por Danes porque é baixinha demais perto de seu galã, o que, segundo a produção, poderia soar como pedofilia...

Mesmo com seus pequenos defeitos - mais culpa do estilo exagerado de seu diretor do que por falta de talento ou ambição - "Romeu + Julieta" cumpre tudo o que promete: é comovente, é moderno, tem uma trilha sonora espetacular - o filme se encerra com a magnífica "Exit music (for a film), do grupo inglês Radiohead - e preparou Leonardo DiCaprio para o megaestrelato que viria muito a seguir. Um drama romântico indispensável"

sexta-feira

VEM DANÇAR COMIGO

VEM DANÇAR COMIGO (Strictly ballroom, 1992, Miramax Films, 94min) Direção: Baz Luhrmann. Roteiro: Baz Luhrmann, Craig Pearce. Fotografia: Steve Mason. Montagem: Jill Bilcock. Música: David Hirschfelder. Figurino: Angus Strathie. Direção de arte/cenários: Catherine Martin, Martin Brown. Casting: Faith Martin, Fiona McConaghy. Produção executiva: Antoinette Albert. Produção: Tristam Miall. Elenco: Paul Mercurio, Tara Morice, Bill Hunter, Pat Thomson. Estreia: 20/8/92

Uma frase repetida constantemente em "Vem dançar comigo" é "Viver com medo é viver pela metade!". A julgar pelo resultado final de seu primeiro longa-metragem, o diretor australiano Baz Luhrmann leva o ditado ao pé da letra. Poucas vezes se viu uma obra tão exagerada em todos os sentidos, desde o visual até a interpretação do elenco, passando por uma trilha sonora que mistura sem pudor música clássica, canções pop e ritmos latinos. O que é mais estranho, no entanto, é que essa mistura toda, ao invés de resultar num samba do crioulo doido, deu muito certo. Despretensioso, alegre e contagiante, "Vem dançar comigo" é um dos mais criativos musicais de sua época, e muito de sua qualidade vem justamente dessa diversidade toda.

Ao contar a velha história do patinho feio, dessa vez tendo como cenário o mundo da dança de salão, Luhrmann abraça com carinho e coragem todos os clichês possíveis e imagináveis, sem medo de ser cafona e redundante. A trama centra-se em Scott Hastings (o dançarino até então desconhecido Paul Mercurio), um jovem que sonha tornar-se campeão do Festival Pan-pacífico de Dança de Salão. Talentoso ele é, mas teimoso também: para desespero de sua mãe (a deliciosamente over Pat Thompson, que morreu antes da estreia do filme), ele insiste em utilizar, durante os concursos, passos inovadores e que fogem das tradições da austera Academia de Dança. Sem parceira para acompanhá-lo no concurso que se aproxima - todas fogem de sua criatividade exarcebada - ele acaba aceitando treinar a novata e feiosa Fran (a também novata e feiosa Tara Morice) e, juntos, o ídolo da escola de dança e a tímida descendente de uma família latina aparentemente rígida mas convenientemente apaixonada por música tentam romper a barreira do preconceito e surpresa... se apaixonam!



Desde as primeiras cenas nota-se que "Vem dançar comigo" irá subverter as regras que carinhosamente apresenta. Com uma fotografia inteligente de Steve Mason, que valoriza as cores quentes da cenografia e dos figurinos, ambos de uma estética kitsch de causar orgulho a Pedro Almodovar, o filme foge do lugar-comum ao evitar paisagens do entardecer e bobagens românticas afins. Os clichês utilizados por Luhrmann ficam por conta do roteiro melodramático e com reviravoltas dignas de novelas mexicanas, com suas personagens maniqueístas e com o esperado final feliz, onde todos se confraternizam em um clímax alto-astral, inclusive os vilões (que, diga-se de passagem, se regeneram como em todo bom e absurdo filme romântico).

Bem-humorado sem ser pateta, romântico sem ser meloso e repleto de clichês mas construído sem levar-se muito a sério, "Vem dançar comigo" ainda conta com uma trilha sonora costurada exemplarmente pelo diretor (que refinaria a receita até o magnífico "Moulin Rouge", oito anos mais tarde): ao lado de "Carmen", de Bizet, pode-se ouvir "Quizás, quizás, quizás" entoada por Doris Day, "Time after time", clássico de Cyndi Lauper em nova gravação e até mesmo a encantadora "Love is in the air" na voz do então sumido John Paul Young. A trama pode até não ser exatamente surpreendente, mas a criatividade do filme de Baz Luhrmann reside majestosa em seu visual e na sua coragem de assumir seu lado brega.

O PREÇO DA TRAIÇÃO

  O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...