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quinta-feira

A METADE NEGRA


A METADE NEGRA (The dark half, 1993, Orion Pictures, 122min) Direção: George A. Romero. Roteiro: George A. Romero, romance de Stephen King. Fotografia: Tony Pierce-Roberts. Montagem: Pasquale Buba. Música: Christopher Young. Figurino: Barbara Anderson. Direção de arte/cenários: Cletus Anderson/Jane Catherine Hyland, Brian J. Stonestreet. Produção executiva: George A. Romero. Produção: Declan Baldwin. Elenco: Timothy Hutton, Amy Madigan, Michael Rooker, Robert Joy, Rutanya Alda, Tom Mardirosian. Estreia: 23/3/93

Publicado em 1989, o livro "A metade negra", de Stephen King tem, em seu cerne, várias ligações pessoais com seu autor. Última obra sua antes de abandonar de vez o álcool, a trama reflete, segundo ele mesmo, a batalha de duas personalidades pelo domínio da mente de um escritor. Além disso, sua premissa espelha os fatos que levaram à revelação de que era ele, na verdade, o homem que vinha publicando, com sucesso, vários livros com o pseudônimo de Richard Bachman. À parte esses detalhes particulares, centrar seu foco em um protagonista escritor não era novidade a King - basta lembrar, entre as obras adaptadas para o cinema, de "O iluminado" (1980) e "Louca obsessão" (1990) - e o encontro do mestre do terror literário norte-americano com George A. Romero, um dos maiores expoentes do gênero na sétima arte, parecia um projeto dos sonhos para os fãs. Para frustração de todos, no entanto, as coisas não correram como o esperado: finalizado em 1991, o filme de Romero demorou quase dois anos para chegar às telas, vítima dos problemas financeiros da Orion Pictures, e fracassou nas bilheterias, não arrecadando, no mercado doméstico (EUA e Canadá), nem mesmo o suficiente para cobrir seu orçamento de aproximadamente 15 milhões de dólares. Dividindo a crítica mas agradando ao público-alvo - graças a uma adaptação bastante fiel -, "A metade negra" ficou no meio do caminho: não é um fiasco como algumas versões de obras de King mas tampouco chega a ser um filme inesquecível.

Quando assumiu as rédeas de "A metade negra", Romero não assinava um longa-metragem inteiro desde "Instinto fatal" (1988) - em "Dois olhos satânicos" (1990) ele havia dirigido apenas um episódio, deixando o outro a cargo de Dario Argento - e seu retorno, principalmente em uma trama criada por Stephen King, deixou todo mundo empolgado. Os problemas, no entanto, já começaram nas filmagens, com constantes atritos entre diretor e ator principal. Premiado com o Oscar de coadjuvante por sua estreia no cinema, em "Gente como a gente" (1980), Timothy Hutton não emplacava um sucesso há muito tempo, e sua relação com o veterano cineasta não era exatamente das mais tranquilas - uma das brigas chegou a resultar em um quase abandono do projeto, retomado depois de alguns dias. Com o filme pronto, outro baque: em sérias dificuldades comerciais, o estúdio por trás da produção, a Orion, foi obrigado a adiar indefinidamente a estreia. Parecia que os ventos realmente não estavam favoráveis, e o lançamento, quase dois anos depois do prazo inicialmente previsto, também não foi dos mais auspiciosos: com desempenho medíocre de bilheteria e críticas mornas, o filme de Romero perdeu a oportunidade de ficar marcado como uma das obras mais importantes do cinema de terror dos anos 1990.

 

O protagonista de "A metade negra" é Thad Beaumont (Timothy Hutton), escritor e professor universitário que esconde, de seus alunos e do público em geral, ser o verdadeiro autor de uma bem-sucedida série de livros assinada por um tal de George Stark. Tendo mantido em segredo por anos seu pseudônimo, Beaumont se vê chantageado por um desconhecido que ameaça desmascará-lo e por em xeque seu atual prestígio. Para evitar tal situação, ele mesmo revela o caso, e dá uma entrevista onde figurativamente mata Stark - com direito a foto em um túmulo. Quando o fotógrafo da matéria é assassinado, Thad é procurado pelo xerife Alan Pangborn (Michael Rooker) e descobre ser o principal suspeito do crime. O que parecia absurdo fica ainda mais inacreditável quando outras pessoas ligadas ao escritor passam a ser violentamente mortas - tudo indica que o responsável pelos crimes é George Stark, a personalidade sombria de Thad, que se recusa a ser abandonada e deseja assumir o domínio sobre ele. Cabe então ao atormentado autor evitar mais mortes, provar sua inocência (??) e manter a salvo sua mulher, Liz (Amy Madigan) e seus dois filhos gêmeos - uma estrutura familiar que lembraria a da sua infância, caso ele não tivesse absorvido, em seu organismo, um irmão que não se desenvolveu de forma normal.

O problema de "A metade negra" não é a adaptação - que segue o material original com fidelidade quase canina - nem a direção de Romero - que explora com gosto todas as possibilidades visuais de um romance bastante violento. Tampouco o responsável é Timothy Hutton, um ator de grandes recursos e que consegue viver as duas faces do protagonista de forma convincente e orgânica. O que prejudica o resultado final é a edição pouco ágil - o corte de uns bons quinze minutos faria maravilhas - e a falha do roteiro em oferecer verossimilhança aos personagens. A forma com que Thad lida com o fato de ser acusado de uma série de brutais assassinatos e a maneira com que tenta convencer o xerife de que o responsável é alguém criado em sua imaginação, por exemplo, não soam naturais nem mesmo dentro do universo ficcional em que estão inseridas. E se as cenas dos assassinatos são, em sua maioria, empolgantes, o clímax não deixa de ser um tanto cansativo - justamente por se estender demais. Enquanto estabelece seu clima, oferece a violência gráfica esperada de um produto George A. Romero e brinda o espectador com a lealdade ao texto de Stephen King, "A metade negra" brilha e envolve. Uma pena que, em seu terço final, perca a potência, ao abraçar o trash - que mesmo sendo característica do diretor, destoa do tom até então apresentado. Mesmo assim, é uma produção acima da média no gênero e sobrevive bem ao teste do tempo, principalmente pelo esforço do elenco.

quarta-feira

O BOM PASTOR

O BOM PASTOR (The good shepherd, 2006, Universal Pictures, 167min) Direção: Robert De Niro. Roteiro: Eric Roth. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Tariq Anwar. Música: Bruce Fowler, Marcelo Zarvos. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Jeannine Oppewall/Gretchen Rau, Leslie E. Rollins, Alyssa Winter. Produção executiva: Chris Brighan, Francis Ford Coppola, Howard Kaplan, Guy McElwaine, David Robinson. Produção: Robert De Niro, James G. Robinson, Jane Rosenthal. Elenco: Matt Damon, Angelina Jolie, Robert De Niro, Alec Baldwin, William Hurt, John Turturro, Tammy Blanchard, Billy Crudup, Joe Pesci, Lee Pace, Eddie Redmayne, Gabriel Macht, Michael Gambon, Timothy Hutton. Estreia: 11/12/06

Indicado ao Oscar de Direção de Arte/Cenários

"O bom pastor" é um filme caro. Caro e ambicioso. Ao retratar o surgimento da CIA, através dos olhos de um de seus primeiros agentes - e fazer isso com uma narrativa sofisticada, repleta de flashbacks e numerosos personagens em quase três horas de duração -, foi também um imenso risco comercial para a Universal Pictures, que herdou o projeto da Columbia e da MGM. Com um custo estimado em 90 milhões de dólares (uma fortuna para um filme sem efeitos visuais, cenas de ação ou um protagonista de fácil reconhecimento aos olhos do público médio), o segundo filme dirigido por Robert De Niro só chegou mesmo às telas graças ao empenho de seu diretor (que o tratava como projeto de estimação há pelo menos dez anos antes de sua estreia) e ao comprometimento de Matt Damon, jovem astro então com capacidade o bastante para tocar para frente qualquer produção graças ao sucesso dos dois primeiros filmes da série Bourne. Graças à tenacidade de ambos, o filme, cujo embrião surgiu em 1994 - quando o roteirista Eric Roth, em vias de ganhar um Oscar por "Forrest Gump: o contador de histórias", de Robert Zemeckis, apresentou a ideia à Francis Ford Coppola - finalmente viu a luz dos refletores no final de 2006, e quase como a crônica de uma morte anunciada, não fez barulho nas bilheterias.

Mas se o relativo fracasso comercial de "O bom pastor" não chegou a surpreender muita gente, o que mais chamou a atenção foi a esnobada que o filme levou da Academia: típico produto que disputa os principais Oscar, foi indicado apenas à estatueta de melhor direção de arte, que perdeu para "O labirinto do fauno", de Guillermo Del Toro. Não deixa de ser uma injustiça: da fotografia espetacular de Robert Richardson à trilha sonora discreta de Marcelo Zarvos, não há nada, em termos técnicos, que não seja impecável no resultado final. A reconstituição de época caprichada, a edição inteligente, o clima de suspense e paranoia criado pela direção e as interpretações no tom exato são flagrantes até mesmo ao espectador mais exigente. O problema é que, apesar disso tudo, o roteiro peca ao não oferecer, ao público, alguém com quem se identificar. O personagem principal, Edward Wilson, não permite qualquer empatia ou diálogo com a plateia - e essa frieza, que afastou Coppola da direção (mas não da produção executiva), acaba sendo o calcanhar de Aquiles da obra, um problema que nem o carisma de Matt Damon é capaz de superar.


Damon, aliás, está muito bem no papel central, em uma interpretação que ele afirma ter se inspirado no trabalho de Gene Hackman em "A conversação" (74), coincidentemente do mesmo Coppola a quem o filme foi oferecido em primeira mão. Como bom agente secreto, o Edward Wilson criado por Damon é lacônico, distante e aparentemente inexpressivo - enquanto seu interior é um tumultuado caos. É Damon quem dá o tom de todos à sua volta, evitando qualquer passo fora do minimalismo sublinhado pelas sombras da fotografia de Richardson, que evoca com sucesso os filmes noir dos anos 40 e 50 para enfatizar a construção dramática da história contada. Com duas linhas narrativas paralelas, "O bom pastor" começa às vésperas da crise na Baía dos Porcos, em 1961, quando o governo de John Kennedy estava no auge de seu conflito com Cuba e Fidel Castro. Enquanto o roteiro mostra as tentativas de Wilson em cooperar na resolução dos problemas políticos e fugir das suspeitas de que pode ser um traidor (descobrindo o nome do verdadeiro agente duplo), flashbacks dão conta de mostrar a forma como ele chegou a seu destino, retratando desde seus dias juvenis como parte de uma fraternidade universitária que lhe forneceu contatos e atalhos para chegar a Washington, até seu casamento com Clover Russell (Angelina Jolie) - uma relação marcada pela distância que seu trabalho impunha - e o relacionamento com o único filho, Edward Jr. (Eddie Redmayne), que resolve seguir os passos do pai e também entrar na CIA, apesar de ter testemunhado toda a sua trajetória marcada pela solidão.

Bem diferente do primeiro filme dirigido por De Niro - o despretensioso "Desafio no Bronx" (94), com ecos autobiográficos -, "O bom pastor" mostra que o cineasta sabe muito bem o que faz quando se trata de dirigir atores (e são muitos, todos conhecidos do grande público, às vezes em papéis bem pequenos, mas sempre muito importantes). Falta, porém, a experiência necessária para enxugar a trama e lhe injetar um dinamismo que lhe faria muito bem. Além de necessitar de certo conhecimento da história dos EUA, o espectador ainda é soterrado de informações, nomes e datas que, mais do que empurrar a trama adiante, apenas a tornam confusa demais para quem procura entretenimento. Quando finalmente o ritmo entra nos eixos, nos vinte minutos finais, já é tarde para empolgar àqueles que não são fãs incondicionais de histórias de espionagem - ainda que talvez suas inúmeras outras qualidades possam minimizar seus pequenos defeitos. No final das contas, é um filme adulto, complexo, de narrativa elegante e alguns bons momentos de tensão. Não é tão bom quanto poderia ser, mas pode ser que, com o passar do tempo, se torne um clássico a ser descoberto.

TODO O DINHEIRO DO MUNDO

TODO O DINHEIRO DO MUNDO (All the money in the world, 2017, TriStar Productions/Sony Pictures, 132min) Direção: Ridley Scott. Roteiro: David Scarpa, livro "Painfully rich: the outrageous fortune and misfortunes of the heirs of J. Paul Getty", de John Pearson. Fotografia: Dariusz Wolski. Montagem: Claire Simpson. Música: Daniel Pemberton. Figurino: Janty Yates. Direção de arte/cenários: Arthur Max/Richard Roberts, Letizia Santucci, Nasser Zoubi. Produção: Chris Clark, Quentin Curtis, Dan Friedkin, Mark Huffam, Ridley Scott, Bradley Thomas, Kevin J. Walsh. Elenco: Michelle Williams, Christopher Plummer, Mark Wahlberg, Romain Duris, Timothy Hutton, Marco Leonardi, Charlie Plummer, Andrew Buchan. Estreia: 18/12/17

Indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante (Christopher Plummer)

Nunca é uma boa notícia quando os bastidores de um filme chamam mais a atenção do que a obra em si. Por mais que o resultado final seja consistente ou até mesmo admirável, o que fica na memória do público são os escândalos que atribularam sua realização. Um exemplo claro desta afirmação é "Todo o dinheiro do mundo", um filme extremamente bem realizado, dirigido por um cineasta experiente (Ridley Scott), estrelado por nomes conhecidos (Michelle Williams e Mark Wahlberg), baseado em uma história real e planejado para encabeçar as listas de indicados aos prêmios da temporada. O que parecia correr tranquilamente para os produtores e a Sony acabou se tornando um pesadelo, no entanto, quando, no começo de novembro de 2017, uma notícia caiu como uma bomba no colo de todos: acusado de estupro de menor e assédio sexual, o ator Kevin Spacey - que tinha um papel chave na trama - transformou-se, de uma hora para outra, em um problema quase insolúvel em termos comerciais. A pouco mais de um mês da data programada para a estreia do filme, o que antes soava como uma grande promessa de sucesso se transmutava em um provável desastre. Em uma decisão surpreendente - e temerária, haja visto que acrescentaria 10 milhões de dólares ao orçamento final -, o estúdio anunciou que o lançamento ocorreria, sim, conforme o previsto, mas com uma pequena (e radical) diferença no elenco: Christopher Plummer no lugar de Spacey, cortado definitivamente do filme e seu material promocional.

Como polêmica pouca é bobagem, os problemas da Sony continuaram mesmo depois de o filme estar pronto e começar sua carreira nos cinemas: chamados para refilmar as 22 cenas em que Plummer assumia o papel do milionário J. Paul Getty, os atores Michelle Williams e Mark Wahlberg se viram em meio a um novo tornado de controvérsias, quando a diferença entre seus salários alcançou as manchetes da imprensa especializada em entretenimento. A gritaria começou quando se soube que Williams recebeu um pagamento de apenas mil dólares por seu retorno ao trabalho, enquanto seu colega havia embolsado 1,5 milhão. A discrepância entre os números deu margem a discussões a respeito de sexismo na indústria e ultrapassou o interesse pelo filme em si. Resultado: Wahlberg doou seu salário (e mais 500 mil dólares) para uma fundação em defesa legal das mulheres - e o assunto, de certa forma, morreu (sem que se questionasse, por exemplo, que o número de cenas refilmadas pelo ator era bem maior e que a própria atriz havia se oferecido a trabalhar por uma fração menor do salário, já que não ficaria à vontade, como declarado mais tarde, em divulgar um filme estrelado por Spacey). A essa altura, porém, "Todo o dinheiro do mundo" já havia estreado, dividido a crítica e atraído pouca gente às salas de exibição. De pouco adiantaram os elogios à atuação de Michelle Williams, as três indicações ao Golden Globe (incluindo direção e atriz/drama) e o nome de Plummer entre os candidatos ao Oscar de ator coadjuvante: o filme já estava destinado a permanecer como uma produção maculada pela polêmica.


O pior de tudo é "Todo o dinheiro do mundo" é um belo filme. Não apenas conta sua história com inteligência e sensibilidade - sem deixar de lado a tensão e o aprofundamento dramático dos personagens, cortesia do roteiro de David Scarpa, baseado em livro de John Pearson - como é tecnicamente notável. Da fotografia de Dariusz Wolski à trilha sonora arrepiante de Daniel Pemberton, tudo funciona como um relógio, e mergulha o espectador em um pesadelo acinzentado, de tons trágicos e contornos sombrios, tudo orquestrado por um Ridley Scott em grande forma, abandonando a grandiosidade de seus épicos para concentrar-se em um drama familiar dos mais angustiantes e revoltantes. Para isso, conta com a sempre inspirada Michelle Williams - que ficou com o papel depois das desistências de Angelina Jolie e Natalie Portman - e um Christopher Plummer assustador em sua frieza. É ele, na pele do bilionário magnata do petróleo J. Paul Getty, quem dá as cartas em um jogo mórbido e perigoso que pode custar a vida de seu neto predileto - um jogo que lhe serve, ironicamente, como arma para dominar todos à sua volta.

O filme começa em Roma, no ano de 1973, quando o adolescente Paul (Charlie Plummer, que apesar do sobrenome não tem relação com Christopher) é sequestrado por um grupo de criminosos que exige, como resgate, a quantia de 17 milhões de dólares. Seria uma fortuna inalcançável, se o menino não fosse neto de um dos homens mais ricos do mundo, J. Paul Getty - cuja conta bancária só é comparável à sua frieza e calculismo. Desesperada com o rapto do filho, a ex-nora de Getty, Gail (Michelle Williams), se torna a ponte entre os bandidos e o sogro, que se recusa a pagar um centavo que seja pela volta do neto - por acreditar que, aberto um precedente, todos os outros membros da família serão igualmente abduzidos. Enquanto tenta convencer Getty a ceder, Gail conta com a ajuda do leal Fletcher Chace (Mark Wahlberg), homem de confiança do magnata, que o chama para resolver a situação por meios não oficiais. Nesse meio-tempo, o jovem Paul vive uma rotina de grande tensão, quebrada apenas por seu relacionamento com um dos sequestradores, o misterioso Cinquanta (Romain Duris) - uma relação que não impedirá, no entanto, que a violência o atinja sem piedade.

"Todo o dinheiro do mundo" é um filme que funciona em vários níveis. Pode ser um drama pungente, capaz de emocionar aos mais sensíveis; pode ser um filme de suspense aterrador e imprevisível (apesar de ser uma história real cujo desfecho pode ser descoberto sem mistério em qualquer acesso à Internet); pode ser um belo estudo sobre o poder do dinheiro e como ele pode levar à solidão mais devastadora; e é, ainda, um excelente espelho para o talento de seus atores principais, em especial Michelle Williams e Christopher Plummer, brilhando em um papel difícil e detestável - ao qual oferece uma série de nuances que o livra do maniqueísmo e da análise fácil. Um filme que merece ser visto como a pequena obra-prima que é - a despeito de todos os problemas em sua realização.

domingo

SURPRESAS DO CORAÇÃO

SURPRESAS DO CORAÇÃO (French kiss, 1995, Polygram Filmed Entertainment/20th Century Fox, 111min) Direção: Lawrence Kasdan. Roteiro: Adam Brooks. Fotografia: Owen Roizman. Montagem: Joe Hutshing. Música: James Newton Howard. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Jon Hutman/Kara Lindstrom. Produção executiva: Charles Okun. Produção: Tim Bevan, Eric Fellner, Kathryn F. Galan, Meg Ryan. Elenco: Meg Ryan, Kevin Kline, Timothy Hutton, Jean Reno, François Cluzet. Estreia: 05/5/95

Desde sua estreia como cineasta em 1981, com o neonoir "Corpos ardentes", o roteirista Lawrence Kasdan sempre demonstrou uma versatilidade ímpar, percorrendo praticamente todos os estilos com inteligência e talento. Foi assim com os dramas "O reencontro" (83) e "Grand Canyon: ansiedade de uma geração" (91), a comédia de humor negro "Te amarei até te matar" (90), o romance de "O turista acidental" (88) e os westerns "Silverado" (85) e "Wyatt Earp" (94). Não chega a ser uma surpresa, portanto, que seu nome esteja por trás de "Surpresas do coração", sua primeira (e até agora única) investida na comédia romântica. Tampouco é surpreendente que, como aval para sua estreia, ele tenha contado com a providencial ajuda daquela que, na metade dos anos 90, era o principal nome de Hollywood no gênero: Meg Ryan. Uma das produtoras do filme, Ryan é a cara do projeto, uma produção agradável, divertida e inofensiva que, se não chega a ser memorável, ao menos é um passatempo bastante sofisticado, emoldurado por belas paisagens francesas e por um roteiro esperto que brinca com as diferenças culturais entre EUA e França - além de contar com um belo elenco e a fotografia inspirada de Owen Roizman em seu último trabalho.

Como frequentemente acontece no mundo do cinema, "Surpresas do coração" caiu nas mãos de Kasdan na hora certa: esgotado depois das problemáticas filmagens de "Wyatt Earp" - realizado com grande ambição mas recebido com frieza pelo público e pela crítica - e querendo um período de férias, ele encontrou, no roteiro de Adam Brooks, a desculpa perfeita para passar um tempo na França ao mesmo tempo em que trabalhava em um projeto menos grandioso. Sem poder contar com a presença de Gérard Depardieu (para quem o protagonista masculino foi escrito), o cineasta resolveu a questão da melhor forma possível e chamou para o elenco um amigo pessoal, parceiro habitual e, ainda mais importante, um ator sensacional. Em seu quinto trabalho com Kasdan, o premiado e sempre imprevisível Kevin Kline acrescenta um tempero a mais no filme, em uma personificação impagável de anti-galã - com direito a visual desleixado, mau-humor constante... e um charme incontestável.


A trama começa quando Kate (Meg Ryan), uma americana em vias de casar-se com o noivo, Charlie (Timothy Hutton), e assumir cidadania canadense, descobre, da pior maneira possível, que ele desistiu do compromisso depois de apaixonar-se por uma jovem francesa em sua viagem a Paris. Desesperada para reconquistá-lo, ela supera sua fobia de voar e resolve viajar ao encontro do novo casal. No avião, ela senta ao lado de Luc Teyssier (Kevin Kline), um típico francês falastrão e estranhamente interessado em suas histórias. Na verdade, o que Kate não sabe e só irá descobrir muito depois - quando já for tarde para tomar qualquer providência a respeito - é que Luc é um conhecidíssimo ladrão de joias que escondeu um valioso colar em sua mochila, juntamente com uma muda com a qual planeja começar um vinhedo em sua terra natal. Roubada por um antigo comparsa de Luc e sem possibilidade de voltar para casa, só resta à Kate reencontrar Charlie - e para isso, ela conta com a ajuda inesperada do adorável criminoso.

"Surpresas do coração" é o que se pode esperar de um filme estrelado por Meg Ryan. Assim como em todos os seus trabalhos anteriores do estilo, a atriz é simpática, engraçada e desajeitada na medida certa para a identificação da plateia feminina e interesse da masculina. Tal previsibilidade é, ao mesmo tempo, o maior trunfo e o calcanhar de Aquiles do filme: enquanto oferece ao público o que ele deseja quando se trata de uma comédia romântica (belas paisagens, personagens adoráveis, bons momentos de humor, uma trilha sonora inspirada), o trabalho de Kasdan não surpreende em momento algum, seguindo com lealdade canina todos os passos de uma produção do gênero. É lógico que o desempenho de Kevin Kline acrescenta prestígio ao filme (assim como o elenco francês, que inclui Jean Reno e François Cluzet, além do vencedor do Oscar Timothy Hutton), mas desta vez Kasdan não imprime uma marca diferencial, uma releitura que dê sua personalidade ao filme. É uma comédia romântica simples e eficiente, mas sem a intensidade de seus trabalhos anteriores - o que talvez seja algo proposital, afinal ele queria férias, não é verdade? No final das contas, para os fãs de Ryan, Kline e comédias românticas em geral, é um prato saboroso. Para o resto do público, é um passatempo dos mais divertidos - o que já é muito mais do que se pode dizer de boa parte de seus congêneres.

A TRAIÇÃO DO FALCÃO

A TRAIÇÃO DO FALCÃO (The falcon and the snowman, 1985, Hemdale, 131min) Direção: John Schlesinger. Roteiro: Steven Zaillian, livro de Robert Lindsey. Fotografia: Allen Daviau. Montagem: Richard Marden. Música: Lyle Mays, Pat Metheny. Figurino: Albert Wolsky. Direção de arte/cenários: James D. Bissell/Linda De Scenna. Produção executiva: John Daly. Produção: Gabriel Katzka, John Schlesinger. Elenco: Timothy Hutton, Sean Penn, Pat Hingle, Joyce Van Patten, Jerry Hardin, Lori Singer, Michael Ironside. Estreia: 19/01/85 (Festival de Sundance)

Um dos atores mais respeitados e premiados de sua geração, Sean Penn ganhou seu primeiro Oscar apenas em 2004, pelo filme "Sobre meninos e lobos", de Clint Eastwood. Seu talento, porém, já existia desde muito antes, ainda que escondido sob uma persona problemática e em constante conflito com a imprensa e a indústria - e com todos que o rodeavam, como bem sabem Madonna, sua ex-mulher, constante vítima de seus ataques de fúria, e paparazzi, que, agredidos, o levaram a passar uma temporada na cadeia. Seu temperamento volátil, no entanto, apenas não deixava transparecer as qualidades dramáticas que ele mais tarde viria a explorar com mais maturidade. Um exemplo disso é "A traição do falcão": quando foi lançado, em janeiro de 1985, Penn tinha apenas 24 anos de idade e já demonstrava uma dedicação rara em construir um personagem. Para viver o jovem Andrew Daulton Lee - acusado de espionagem contra o governo dos EUA e um dos protagonistas de um livro publicado em 1979 -, o ator não apenas fez um complicado laboratório invadindo a embaixada dos EUA no México (como forma de compreender seu personagem) como sofreu uma transformação física que incluiu ganho de peso, uso de lentes de contato e prótese dentária e uma maquiagem especial para modificar seu nariz. Além disso, entregou uma performance energética que já deixava bem claro aos mais atentos que estava em vias de se transformar em um dos grandes atores americanos de sua geração.

Na verdade, Penn é apenas um dos dois protagonistas de "A traição de falcão", história real levada às telas pelo cineasta John Schlesinger depois de um longo (quatro anos) processo de desenvolvimento, iniciado com o lançamento do livro "The falcon and the snowman: a true story of friendship and espionage", escrito por Robert Lindsey. Primeiro roteiro de Steven Zaillian - oscarizado por "A lista de Schindler" (93) - a ser produzido, o filme de Schlesinger centra sua trama em dois personagens fascinantes e defendidos com igual garra por Penn e Timothy Hutton, que ganhou do Oscar de coadjuvante por "Gente como a gente" (80) com apenas vinte anos. Hutton vive Christopher Boyce, um ex-coroinha que, ao abandonar o seminário, volta para a casa dos pais e arruma emprego em uma empresa responsável por comunicações secretas para várias instituições do país, incluindo a CIA. Inteligente e idealista, Boyce não demora a perceber em tais comunicações a interferência dos EUA na política de vários outros países, como Austrália e Chile (que acaba por sofrer um golpe de estado). Desiludido com o que descobre, ele procura o amigo de infância Andrew Lee (Sean Penn), que, apesar de jovem, já tem uma vasta ficha criminal, por porte e tráfico de drogas. Juntos, eles formam um time que vende informações confidenciais para a União Soviética (o ano é 1974) - enquanto Boyce tem objetivos idealistas, Lee deseja apenas se beneficiar do dinheiro que pode conseguir. Mas as coisas, obviamente, se complicam e lhes coloca diretamente no caminho das leis americanas de espionagem.


Imprimindo em seu filme um ritmo de thriller político, valorizado pela entrega de seus dois atores centrais, Schlesinger constrói aos poucos um senso de paranoia, que vai se acentuando conforme o cerco se fecha ao redor de seus protagonistas. Ao público, mesmo ciente de que está diante de dois anti-herois, cabe grudar os olhos em uma narrativa elegante e sóbria, com ecos do cinema policial dos anos 70 - em especial aqueles dirigidos por Sidney Lumet e estrelados por Al Pacino: com economia de recursos estilísticos, o cineasta se ampara em uma edição inteligente para estabelecer os contrastes nas vidas e trajetórias de cada um de seus personagens centrais, que na vida real acabaram por realizar uma interessante mudança de rumos após o desfecho da trama mostrada no filme: Boyce participou de um assalto e Lee, o mais propenso à vida criminal, nunca mais se envolveu com a lei e chegou a trabalhar como assistente de Sean Penn. O roteiro de Zaillian até demora um pouco a engrenar, ao detalhar a rotina de Boyce e os problemas de Lee, mas apresenta um ato final poderoso e tão instigante que é difícil não se deixar envolver - em boa parte, mais uma vez é bom dizer, graças às interpretações impecáveis de Timothy Hutton e Sean Penn.

Ilustrado com a bela "This is not America", na voz de David Bowie, "A traição do falcão" é uma produção típica de sua época, em que a Guerra Fria estava no auge e a União Soviética parecia a maior das ameaças ao american way of life. Como uma espécie de crônica de uma juventude desiludida e perdida, o filme de Schlesinger é preciso em sua forma de mostrar como o governo Nixon e seu escândalo Watergate fez desmoronar, para muitos americanos, a ideia de um país democrático e justo. O tom político da trama - na verdade apenas um pano de fundo para uma história empolgante de espionagem - é um tempero a mais em uma produção que traduz, como poucas outras, o fim do sonho americano e sua metamorfose no cinismo e no individualismo que se tornariam marcas registradas dos anos 80 e do mandato de Ronald Reagan. Um filme não apenas competente como cinema, mas também como documento de um período crucial na história política dos EUA.

sexta-feira

GENTE COMO A GENTE

GENTE COMO A GENTE (Ordinary people, 1980, Paramount Pictures, 124min) Direção: Robert Redford. Roteiro: Alvin Sargent, romance de Judith Guest. Fotografia: John Bailey. Montagem: Jeff Kanew. Figurino: Bernie Pollack. Direção de arte/cenários: J. Michael Riva, Phillip Bennett/William Fosser, Jerry Wunderlich. Produção: Ronald L. Schwary. Elenco: Donald Sutherland, Mary Tyler Moore, Timothy Hutton, Judd Hirsch, Elizabeth McGovern, M. Emmet Walsh. Estreia: 19/9/80

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Robert Redford), Atriz (Mary Tyler Moore), Ator Coadjuvante (Judd Hirsch), Ator Coadjuvante (Timothy Hutton), Roteiro Adaptado
Vencedor de 4 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Robert Redford), Ator Coadjuvante (Timothy Hutton), Roteiro Adaptado
Vencedor de 5 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (Robert Redford)), Atriz/Drama (Mary Tyler Moore), Ator Coadjuvante (Timothy Hutton), Revelação Masculina (Timothy Hutton) 

Em 1979, a Academia de Hollywood achou por bem oferecer suas mais valiosas estatuetas - melhor filme, direção, roteiro e ator - a um pequeno drama familiar chamado "Kramer vs Kramer", que também deu a uma então jovem Meryl Streep o prêmio de atriz coadjuvante. A preferência dos votantes por produções mais intimistas e voltadas para sentimentos comuns a uma parcela mais significativa da plateia se manteve no ano seguinte, quando a estreia do ator Robert Redford atrás das câmeras também saiu da cerimônia do Oscar carregado de homenagens. Passando por cima de obras superlativas, como "Touro indomável" (de Martin Scorsese) e "O homem elefante" (de David Lynch), o delicado "Gente como a gente" conquistou as láureas de melhor filme, diretor, roteiro adaptado (de um romance de Judith Guest) e ator coadjuvante (para o estreante Timothy Hutton, na época com apenas 20 anos de idade).

Em termos puramente cinematográficos, talvez realmente tenha sido um exagero da Academia optar pelo filme de Redford em detrimento das obras-primas de Scorsese e Lynch, mas não é difícil compreender suas razões, principalmente se for levada em conta a tendência da época em dar mais atenção a sentimentos discretos do que a grandes explosões de violência e dor. No final dos anos 70, os eleitores da Academia pareciam mais dispostos a abraçar famílias desfeitas do que grandes espetáculos - em uma espécie de surpreendente introspecção que não duraria por muitos anos, uma vez que já em 1982, com "Gandhi", de Richard Attenborough, eles voltaram a prestigiar gigantescas produções. E a obra de Guest, um romance devastador sobre a dor da perda, a incapacidade de lidar com o vazio existencial e o esfacelamento de um núcleo familiar aparentemente perfeito, serviu como uma luva para tais preferências conservadoras do Oscar. O resultado - nada surpreendente depois da chuva de Golden Globes (cinco no total, incluindo um prêmio de revelação masculina para Hutton, que também saiu como melhor coadjuvante) - espelhou também a escolha do National Board of Review e a Associação de Críticos de Nova York. Como se pode ver, não apenas a Academia se deixou seduzir pela sensibilidade de Redford em abordar temas tão difíceis.


"Gente como a gente" lança seu olhar curioso para dentro do lar da família Jarrett - ou o que sobrou dela após a morte do filho mais velho, Buck, em um acidente de barco. Desde o trágico acontecimento, seu irmão caçula, Conrad (Timothy Hutton), não se cansa de sentir-se culpado, o que o levou até mesmo a uma tentativa de suicídio. Já em casa depois de uma temporada em um hospital psiquiátrico, ele tenta retomar a rotina escolar e de treinos na equipe de natação, mas esbarra na frieza da própria mãe, Beth (Mary Tyler Moore), que tinha preferência pelo filho morto e demonstra desprezo e apatia pelo rapaz. Seu sofrimento em relação a isso é amenizado em parte pelas atenções do pai, Calvin (Donald Sutherland) - também aterrorizado pelos acontecimentos - e por seu novo terapeuta, Berger (Judd Hirsch, indicado ao Oscar de ator coadjuvante), que luta para fazê-lo compreender melhor o mundo a seu redor e perceber as coisas como elas realmente são. É graças a ele que o jovem Conrad se sente capaz de iniciar um tímido relacionamento com Jeannine (Elizabeth McGovern) mesmo quando não se sente totalmente apto a isso. Apesar de tudo, porém, é a falta de comunicação com Beth que o devasta - a ponto de ter a certeza absoluta de que não é amado por ela.

Dirigindo seu primeiro filme com ritmo europeu - lento, discreto, delicado - e evitando ao máximo o sentimentalismo barato que poderia vir com uma trama tão repleta de sofrimento, Robert Redford mostrou-se um cineasta interessado em questões relevantes e sinceras. Sua carreira posterior, no comando de uma série de filmes politicamente responsáveis e pungentes, demonstra seu cuidado em narrar histórias onde o maior interesse reside nos personagens e em seus fantasmas interiores. Surge daí seu talento em extrair de seus atores performances memoráveis. Usando sua experiência como ator para melhor orientar seu elenco, Redford consegue a façanha de criar personagens repletos de nuances e complexos a ponto de evitar o que mais se teme em filmes do gênero: o maniqueísmo. Beth, se aparenta uma frieza quase desprezível em relação ao filho mais jovem, tem seus momentos de dor, escondidos sob uma carapaça que nem mesmo a doçura do rapaz consegue romper. Calvin está no meio de um fogo cruzado, entre a mulher por quem se apaixonou e o filho que tenta ajudar (mas quem fará isso por ele?). E Conrad, sentindo-se culpado pela morte do irmão e pela decepção que causou à mãe, vê na autodestruição o caminho mais correto a seguir. São todos personagens fortes e verossímeis, tratados com respeito pelo roteiro de Alvin Sargent, também premiado com o Oscar. Pode não ser um filme espetacular ou que fez o cinema avançar como técnica, mas "Gente como a gente" tem qualidades redentoras e, assistido com o coração aberto, é emocionante e inesquecível.

sábado

O ESCRITOR FANTASMA



O ESCRITOR FANTASMA (The ghost writer, 2010, R.P. Productions/France 2 Cinéma, 128min) Direção: Roman Polanski. Roteiro: Roman Polanski, Robert Harris, romance de Robert Harris. Fotografia: Pawel Edelman. Montagem: Hervé de Luze. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Dinah Collin. Direção de arte/cenários: Albrecht Konrad/Bernhard Henrich. Produção executiva: Henning Molfenter. Produção: Robert Benmussa, Roman Polanski, Alain Sarde. Elenco: Ewan McGregor, Pierce Brosnan, Olivia Williams, Kim Catrall, Tom Wilkinson, Timothy Hutton, Jon Bernthal, James Belushi. Estreia: 12/02/10 (Festival de Berlim)


Não é qualquer diretor que consegue a façanha de comandar um thriller político sem cair nas armadilhas do gênero, criando uma trama anacrônica e/ou confusa demais para o espectador médio. Como todo mundo sabe, porém, Roman Polanski não é qualquer diretor. Vencedor do Oscar por "O pianista" e autor de obras consagradas pelo tempo, como "O bebê de Rosemary" e "Chinatown", o cineasta polonês demonstrou, na adaptação do romance "O escritor fantasma", que nem mesmo a idade avançada - 76 anos de idade durante as filmagens - ou a impossibilidade de pisar em território americano sob pena de prisão - resultado da condenação por ter feito sexo com uma menor de idade em 1978 - são empecilhos para quem tem talento. Concisa, elegante e extremamente eficiente, a transição do livro de Robert Harris para as telas é uma prova inconteste de sua energia e inquietude como cineasta: filmado na Alemanha e finalizado quando Polanski estava preso na Suíça, o filme acabou lhe rendendo o prêmio de melhor diretor no Festival de Berlim - a que ele não pode atender por causa da prisão domiciliar a que estava condenado à época - e tornou-se um de seus mais elogiados trabalhos pós-Oscar. Um sucesso merecido, principalmente pela feliz escolha de todos os elementos de produção.

Escrito pelo jornalista e colunista político Robert Harris - que nunca escondeu sua simpatia pelo primeiro-ministro Tony Blair até que o evento da Guerra do Iraque os separou ideologicamente - "O escritor fantasma" se utiliza de várias referências a Blair em seu enredo, mas procurar similaridades entre ele e o primeiro-ministro retratado na trama, Adam Lang é um exercício inútil: apesar de ser um tanto divertido buscar tais semelhanças, o espectador teria também que achar referências a outros líderes, como Bill e Hilary Clinton e o primeiro-ministro paquistanês Benazir Bhutto, todos citados de forma velada durante o desenrolar da história, em níveis mais ou menos óbvios, dependendo do conhecimento de história da plateia. Tais elementos, porém, são apenas detalhes que, se aumentam o interesse dos mais antenados, não atrapalham o divertimento daquele público que espera apenas uma boa história, contada com competência e seriedade. E isso, felizmente, "O escritor fantasma" faz com maestria, calcado principalmente na inspirada atuação de Ewan McGregor.


Ficando com o papel recusado por Hugh Grant e que quase foi de Nicolas Cage - Deus nos proteja! - McGregor está em um dos melhores momentos de sua carreira. Ele interpreta um escritor inglês que ganha a vida escrevendo biografias para celebridades que não tem o dom das letras - o que se chama, no mercado editorial, um "escritor fantasma". Pouco interessado em política, ele é contratado, por um bom salário, para escrever as memórias do primeiro-ministro britânico, Adam Lang (Pierce Brosnan, explorando seu carisma canastrão com propriedade), justamente quando ele está passando por uma crise relacionada ao terrorismo internacional e a questões de direitos humanos. No meio do furacão, o inocente autor (nunca nomeado) acaba por descobrir, por conta própria, que a morte de seu predecessor pode não ter sido acidental - e que sua própria vida pode estar correndo sério risco. Envolvido com a esposa de Lang, a fria Ruth (Olivia Williams, substituta de Tilda Swinton), ele resolve investigar uma pista que liga seu novo patrão à CIA.

Contando sua história sem pressa, dando a cada cena o peso correto para criar um clima de tensão e claustrofobia que é sua marca registrada, Polanski faz de "O escritor fantasma" um entretenimento adulto e sério, sem espaço para piadas desnecessárias ou sequências de ação inócuas. Centrando sua trama basicamente no personagem de McGregor - que entrega um misto de coragem e fragilidade na medida exata - e deixando apenas para os últimos minutos a reviravolta final (coerente e inteligente), o roteiro prende a atenção do espectador do início ao fim mesmo sem apelar para a violência gratuita ou para o clichê do heroísmo individual. É um filme seco, direto e pontual, perfeito para quem procura um entretenimento maduro e inteligente.

sexta-feira

BRINCANDO DE SEDUZIR

BRINCANDO DE SEDUZIR (Beautiful girls, 1996, Miramax Films, 112min) Direção: Ted Demme. Roteiro: Scott Rosenberg. Fotografia: Adam Kimmel. Montagem: Jeffrey Wolf. Música: David A. Stewart. Figurino: Lucy W. Corrigan. Direção de arte/cenários: Dan Davis/Tracey A. Doyle. Produção executiva: Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Cary Woods. Elenco: Matt Dillon, Timothy Hutton, Noah Emmerich, Michael Rapaport, Rosie O'Donnell, Lauren Holly, Martha Plimpton, Max Perlich, Natalie Portman, Mira Sorvino, Uma Thurman, Pruitt Taylor Vince, Sam Robards, David Arquette, John Carrol Lynch. Estreia: 09/02/06

Esta é uma história real: na metade da década de 90, enquanto esperava por uma resposta em relação à sorte de um trabalho seu para um grande estúdio de Hollywood, o roteirista Scott Rosenberg voltou à sua cidade natal, no estado de Massachusetts, para fugir da tensão da situação. Lá, ao lado de amigos de infância, percebeu, quase como uma epifania, o quão imaturos todos eles eram, incapazes de aceitar o fato de que estavam chegando aos 30 anos e totalmente despreparados para assumirem compromissos sentimentais. Ciente de que tal estado de espírito também dizia respeito a quase todos os homens de sua geração - e talvez das anteriores e posteriores - Rosenberg partiu para a ação e escreveu "Brincando de seduzir", uma comédia cáustica, romântica e um tanto cínica sobre ele mesmo em particular e os homens em geral. Dirigido por Ted Demme - recém vindo do ácido "O árbitro" - e estrelado por um grupo de jovens atores e atrizes que se dividiam entre iniciantes e veteranos, o filme fez pouco barulho nas bilheterias, mas é, sem dúvida, um retrato fiel e - por que não? - encantador da amizade entre homens.

Willie Conway (Timothy Hutton caprichando no visual desleixado) toca pianos nos bares de Nova York enquanto espera sua grande chance de tornar-se rico e famoso. Namorando há anos a compreensiva advogada Tracy (Annabeth Gish), ele retorna à sua cidade natal para um reencontro com os colegas do ginasial, a quem não vê há anos - assim como seu pai e seu irmão caçula, que desde a morte de sua mãe entraram em uma rotina triste e sem expectativas. Chegando a seu destino, ele imediatamente conhece a nova vizinha, a adolescente Marty (Natalie Portman), que mesmo aos 14 anos, não hesita em flertar com o forasteiro - que, logicamente, sente-se atraído pelo frescor e juventude da menina. Seu desequilíbrio diante de um belo espécime do sexo feminino é compartilhado com seus outros amigos, conforme ele vai percebendo ao encontrá-los: Tommy (Matt Dillon), o galã da cidade, namora com a bela e dedicada Sharon (Mira Sorvino), mas mantém há tempos um caso com uma mulher casada, Darian (Lauren Holly). Seu sócio no negócio de limpar neve das calçadas é Paul (Michael Rapaport, sempre bom em papéis de homens bobalhões), que não se conforma com a traição da namorada, Jan (Martha Plimpton) e vinga-se dela atravancando sua garagem com detritos das tempestades que não param de chegar. O único da turma que parece feliz é Michael (Noah Emmerich), casado, pai de dois filhos e imune às tentações da carne - sempre ironizadas pela sarcástica Gina (Rosie O'Donnell). As noitadas regadas a bebida e reminiscências são abaladas, porém, com a chegada de Andera (Uma Thurman), a bela e independente prima de um amigo em comum que mexe com a libido de todos.


É difícil de acreditar que antes de "Brincando de seduzir" apenas um outro roteiro de Scott Rosenberg havia chegado às telas - e de um gênero totalmente distante, o policial "Coisas para se fazer em Denver quando você está morto", lançado em 1995. Dotado de ritmo, consistência dramática e personagens críveis e pateticamente humanos, o texto de Rosenberg flui com extrema naturalidade, chegando até ao espectador sem soar presunçoso ou autocomplacente. Mesmo quando toca em um assunto potencialmente perigoso - a atração do trintão Willie pela adolescente Marty - o roteiro substitui o peso de uma polêmica pela leveza da citação de Nabokov e sua Lolita. Ao defender a imaturidade masculina mesmo quando ela tem consequências pouco nobres ou altruístas, tanto Rosenberg quanto o diretor Ted Demme tem o cuidado de não parecerem machistas ou misóginos: eles parecem dizer, através dos diálogos certeiros e quase melancólicos em determinados momentos, que seus personagens não são maus, são apenas infantis e, portanto, dotados de um egoísmo inerente à sua condição. E para isso, eles contam com um elenco excelente, que se desincumbe com maestria das armadilhas de uma trama que prescinde de heróis ou vilões.

Timothy Hutton - que ganhou um Oscar de coadjuvante aos 19 anos por "Gente como a gente" (80) - sai-se bem como o desnorteado Willie, um homem perdido entre a juventude e a maturidade que vê no possível envolvimento com uma adolescente sua última chance de prender-se de vez ao passado. Uma Thurman desfila linda e carismática pela tela como a sedutora Andera e Michael Rapaport faz o papel de adorável paspalho que se tornaria sua marca registrada - o mesmo que acontece com Rosie O'Donnell, que rouba a cena com sua desbocada e realista Gina em pelo menos uma cena memorável, quando discursa sobre a ditadura da beleza feminina ideal dos homens (tema também de um diálogo brilhante proferido pelo personagem de Rapaport). Junto a eles, as duas oscarizadas Natalie Portman - ainda menina - e Mira Sorvino completam uma equipe iluminada, que vem suas cenas comentadas pela adequada e agradável trilha sonora de David A. Stewart.

Ah, o filme que Rosenberg escreveu antes de esconder-se em sua cidadezinha chegou às telas em 1997: era o blockbuster "Con Air, a rota da fuga"... que não tem, perceptivelmente, nada a ver com o delicioso "Brincando de seduzir".

segunda-feira

KINSEY - VAMOS FALAR DE SEXO


KINSEY (Kinsey, 2004, Fox Searchlight Pictures, 118min) Direção e roteiro: Bill Condon. Fotografia: Frederick Elmes. Montagem: Virginia Katz. Música: Carter Burwell. Figurino: Bruce Finlayson. Direção de arte/cenários: Richard Sherman/Andrew Baseman. Produção executiva: Francis Ford Coppola, Kirk D'Amico, Michael Kuhn, Bobby Rock. Produção: Gail Mutrux. Elenco: Liam Neeson, Laura Linney, Peter Sarsgaard, Timothy Hutton, Chris O'Donnell, Oliver Platt, John Lithgow, Tim Curry, Veronica Cartwright, Julianne Nicholson, John Krasinski, Luke McFarlane, Dylan Baker, Lynn Redgrave. Estreia: 04/9/04 (Festival de Telluride)

Indicado ao Oscar de Atriz Coadjuvante (Laura Linney)

Nascido em 1894 e morto em 1956, o entomologista e zoológo norte-americano Alfred Kinsey publicou, em 1948, um estudo detalhado sobre a sexualidade masculina que escandalizou a sociedade dos EUA. Em 1953, repetiu a dose, dessa vez focando sua atenção às mulheres. Uma das mais controversas personalidades do século XX, o cientista é, também, o protagonista de "Kinsey - Vamos falar de sexo", dirigido pelo mesmo Bill Condon que escreveu os roteiros dos premiados "Deuses e monstros" e "Chicago". Elogiado pela crítica ianque, o projeto não fez grande barulho nas bilheterias e tampouco conseguiu fazer o sucesso esperado nas cerimônias de premiação - com exceção de uma duvidosa indicação ao Oscar de coadjuvante para Laura Linney, passou batido pelos tapetes vermelhos. Mas é competente ao extremo, dotado de um senso de ironia raro e, melhor ainda, ousado na medida certa.

Ao concentrar seu roteiro no período mais prolífico das pesquisas de Kinsey - com um pequeno prólogo mostrando a juventude do protagonista - Condon tem a felicidade de poder se dedicar com ênfase tanto ao lado profissional quanto doméstico do cientista, sem ter que compactar em duas horas toda uma vida repleta de controvérsias e problemas pessoais. Contando com uma atuação excepcional de Liam Neeson - injustamente esquecido pela Academia - o filme começa mostrando a adolescência e a juventude do cientista, criado por um pai repressor (grande momento de John Lithgow), seus estudos de zoologia, o casamento com aquela que lhe acompanharia pela vida toda (Laura Linney) e a descoberta de sua real vocação: o estudo da sexualidade humana. E é a partir daí que "Kinsey" mostra a que veio. Com uma edição inteligente e um roteiro ágil, Condon conduz sua trama de forma um tanto didática, mas jamais enfadonha. Quando surge em cena seu colaborador Clyde Martin (Peter Sarsgaard), um jovem bissexual que se envolve tanto com o cientista quanto com sua mulher, tudo se torna ainda mais interessante.

 

Ao inserir no roteiro a possibilidade de Kinsey experimentar na carne toda a teoria de seu vasto estudo - e Condon nem precisou inventar nada disso, o que é ainda melhor - o filme ganha em peso e dramaticidade. Ao se ver quase obrigada a dividir o marido com outro homem (com quem também se envolve sexualmente), a personagem de Laura Linney dá a atriz a chance de sair da sombra de Neeson e mostrar um trabalho igualmente poderoso. E, sob tudo isso, há a ironia subjacente que faz com que os colaboradores do cientista comecem a sentir que o objeto de sua pesquisa tem muito mais poder sobre suas vidas (e seus casamentos) do que supunham a princípio. Esse efeito que o sexo causa em todos eles é a prova de que "Kinsey" não é apenas uma biografia, e sim um estudo sobre o sexo em si - e tudo que ele movimenta. Não foi à toa que o protagonista chegou à capa da revista Time e provocou polêmica por onde passou. Falar sobre sexo nos anos 40 em uma América ainda mais pudica do que a de hoje era corajoso e quase temerário - em vários momentos de seu filme, o diretor espalha cenas em que Kinsey era alvo de piadas e preconceito (e é especialmente interessante a cena em que um de seus colegas abandona uma entrevista por recusar-se a ouvir o relato de um pedófilo). A neutralidade de Alfred Kinsey diante de seus objetos de estudo só cai quando ele ouve o agradecimento de uma mulher de meia-idade que revela ter mudado de vida graças a ele. Com uma interpretação emocionante de Lynn Redgrave, essa cena - já no final da projeção - resume toda a importância do protagonista para a sociedade ocidental.

Longe de ser uma biografia quadradinha e sem graça, "Kinsey" é um belo exemplo de que um roteiro consistente, um diretor talentoso e um elenco bem escalado fazem muito mais por um filme do que orçamentos milionários e piadas apelativas. Mesmo tocando em um assunto que ainda hoje assusta os mais pudicos, é um filme imperdível e brilhantemente atual.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...